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14 de novembro de 2014

A remoção de um grande Cardeal

Cardeal Mindszenty preso pelos comunistas húngaros


Roberto de Mattei
Corrispondenza Romana, nº 1365, 12 novembre 2014 
[Tradução de Hélio Dias Viana]

O Papa, enquanto supremo Pastor da Igreja universal, tem o pleno direito de remover de seu cargo um bispo ou um cardeal, mesmo insigne. Ficou célebre o caso do cardeal Louis Billot (1846-1931), um dos maiores teólogos do século XX, que em 13 de setembro de 1927 entregou o barrete cardinalício nas mãos de Pio XI, com o qual havia entrado em colisão sobre o caso da Action Française, e que terminou sua vida como simples jesuíta, na casa de sua Ordem em Galloro. 


Um outro caso famoso é o do Cardeal Jósef Mindszenty,[foto] removido por Paulo VI do cargo de Arcebispo de Esztergom e Primaz da Hungria pela sua oposição à Ostpolitik vaticana. Muitos outros bispos foram destituídos nos últimos anos por envolvimento em escândalos financeiros ou morais. Mas se ninguém pode negar ao Sumo Pontífice o direito de demitir qualquer prelado pelas razões que ele julgar mais oportunas, ninguém pode também tolher aos fiéis o direito que lhes assiste como seres racionais, antes ainda do que como batizados, de se interrogarem sobre as razões dessas destituições, sobretudo se as mesmas não forem declaradas explicitamente.

Isso explica a consternação de muitos católicos com a notícia,
formalmente comunicada pela Sala de Imprensa do Vaticano em 8 de novembro, da transferência do Cardeal Raymond Leo Burke [foto] de seu cargo de Prefeito da Signatura Apostólica para o de Patrono da Ordem de Malta. Com efeito, quando a transferência, como neste caso, concerne um cardeal ainda relativamente jovem (66 anos) e oriundo de um posto da máxima importância para outro puramente honorífico, sem sequer respeitar o questionável princípio promoveatur ut amoveatur [promover para remover], trata-se evidentemente de um castigo público. E, neste caso, é lícito perguntar-se quais são as acusações contra o prelado em questão. 

O Cardeal Burke desempenhou de fato muito bem seu cargo de Prefeito da Suprema Signatura Apostólica e é estimado por todos como um proeminente canonista e homem de profunda vida interior, tendo sido recentemente definido por Bento XVI como um “grande cardeal”. Do quê ele é culpado?

Os observadores do Vaticano das mais diversas tendências responderam com clareza a essa pergunta. O Cardeal Burke teria sido acusado de ser “muito conservador” e de estar em desacordo com o Papa Francisco. Após a malfadada exposição introdutória do Cardeal Kasper no Consistório de 20 de fevereiro de 2014, o cardeal americano promoveu a publicação de um livro em que cinco influentes purpurados e outros estudiosos expressaram suas respeitosas reservas em relação à nova linha vaticana, aberta à hipótese da concessão da comunhão aos divorciados recasados e do reconhecimento das uniões de fato. 

As apreensões dos cardeais se viram confirmadas pelo Sínodo de outubro, quando as teses mais arriscadas em termos de ortodoxia foram de fato recolhidas na relatio post disceptationem que antecedeu o relatório final. A única razão plausível é que o Papa tenha oferecido em uma bandeja a cabeça do Cardeal Burke ao Cardeal Kasper, e através deste ao Cardeal Karl Lehmann, ex-presidente da Conferência Episcopal Alemã. Com efeito, é sabido por todos, pelo menos na Alemanha, que quem ainda está puxando as cordas da dissidência alemã contra Roma é o próprio Lehmann, antigo discípulo de Karl Rahner. O padre Ralph Wiltgen, em seu livro O Reno se lança no Tibre, trouxe à luz o papel de Rahner no Concílio Vaticano II, a partir do momento em que as conferências episcopais passaram a desempenhar um papel determinante. 

As Conferências Episcopais eram de fato dominadas por seus peritos em teologia e, uma vez que a mais poderosa delas era a alemã, foi decisivo o papel de seu principal teólogo, o jesuíta Karl Rahner. O padre Wiltgen o resume de forma contundente, ao descrever a força do lobby progressista coligado naquilo que ele chama de Aliança Europeia: “A posição dos bispos de língua alemã sendo regularmente adotada pela aliança europeia, e a posição da aliança sendo, o mais das vezes, adotada pelo Concílio, bastava que um teólogo fizesse sua opinião ser adotada pelos bispos de língua alemã para que o Concílio as fizesse suas. Ora, tal teólogo existia: era o Padre Karl Rahner S.J.”. 

Cinquenta anos após o Concílio Vaticano II, a sombra de Rahner ainda perdura na Igreja Católica, exprimindo-se, por exemplo, nas posições pró-homossexuais de alguns dos discípulos mais jovens dos cardeais Lehmann e Kasper, como o cardeal-arcebispo de Munique, Dom Reinhard Marx, e o arcebispo de Chieti, Dom Bruno Forte. 

O Papa Francisco se pronunciou contra duas tendências, a do progressismo e a do tradicionalismo, embora sem esclarecer qual é o conteúdo desses dois rótulos. Mas se, de palavra, ele se distancia desses dois pólos que se enfrentam hoje na Igreja, na verdade toda a sua compreensão é reservada ao “progressismo”, enquanto o machado se abate sobre o que ele chama de “tradicionalismo”. A destituição do Cardeal Burke tem um significado exemplar análogo à destruição em curso dos Franciscanos da Imaculada. 

Muitos observadores têm atribuído ao Cardeal Braz de Aviz o projeto de dissolução do Instituto, mas agora ficou evidente para todos que o Papa Francisco compartilha inteiramente a decisão. Não se trata da questão da Missa tradicional, que nem o Cardeal Burke nem os Franciscanos da Imaculada celebram regularmente, mas de sua atitude de inconformidade com a política eclesiástica hoje dominante. 

Por outro lado, o Papa entreteve-se longamente com os representantes dos chamados “Movimentos sociais”, de orientação ultramarxista, que se reuniram em Roma de 27 a 29 de outubro,(*) e em julho passado nomeou consultor do Conselho Pontifício para a Cultura um sacerdote abertamente heterodoxo, o padre Pablo d’Ors. Cabe perguntar-se quais serão as consequências desta política, tendo presente dois conceitos: o princípio filosófico da heterogênese dos fins, segundo o qual determinadas ações produzem efeitos contrários às intenções, e o princípio teológico da ação da Providência na História, pelo qual, conforme as palavras de São Paulo, “omnia cooperantur in bonum” (Rom. 8:28). Nos desígnios de Deus, tudo coopera para o bem. 

O caso do Cardeal Burke e caso o dos Franciscanos da Imaculada, como, em um nível diferente, o caso da Fraternidade São Pio X, são apenas os sintomas de um mal-estar difuso que fazem realmente a Igreja parecer como um barco à deriva. Mas, ainda que esses indicadores desaparecessem, ou seja, que a Fraternidade São Pio X não existisse, que os Franciscanos da Imaculada fossem dissolvidos ou “reeducados” e o Cardeal Burke reduzido ao silêncio, a crise da Igreja não deixaria por isso de ser ainda mais grave. O Senhor prometeu que a Barca de Pedro jamais afundará, não graças à habilidade do timoneiro, mas pela Divina assistência à Igreja, que vive, pode-se dizer, entre as tempestades, sem jamais deixar-se submergir pelas ondas (Mt 8: 23-27 ; Mc 4, 35-41; Lc 8: 22-25). 

Os fiéis católicos não estão desencorajados: cerram fileiras, voltam seus olhos para o Magistério contínuo e imutável da Igreja, que coincide com a Tradição, buscam força nos Sacramentos, continuam a rezar e a agir, na convicção de que, na História da Igreja como na vida dos homens, o Senhor intervém apenas quando tudo parece perdido. O que se pede de nós não é uma inação resignada, mas uma luta confiante na certeza da vitória. 


Cardeal Mindszenty com Paulo VI,
que obteve o que o regime comunista
da Hungria não tinha conseguido.
Face ao Cardeal Burke, e já prevendo as novas provações que certamente virão para ele, gostaríamos de repetir aqui as palavras com as quais, em 10 de fevereiro de 1974, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira se referiu ao martírio espiritual infligido por Paulo VI ao Cardeal Mindszenty, quando “as mãos mais sagradas da terra abalaram a coluna e a atiraram, partida, ao chão”. E concluiu: “Se o Arcebispo caiu ao perder a sua diocese, cresceu até as estrelas a figura moral do Bom Pastor que dá a vida pelas suas ovelhas”.


_______________ 
(*) Nota do editor deste Blog: A respeito do 

Encontro Mundial de Movimentos Populares no Vaticano

recomendo com empenho a leitura da esplêndida reportagem de autoria de Nelson Ramos Barretto, publicada no site da "Agência Boa Imprensa" (ABIM). com o título:

Tentativa de ressuscitar grupos revolucionários?

10 de outubro de 2014

“NÃO ESCANDALIZEM SEUS FILHOS OU NETOS”


Paulo Roberto Campos 

O muito controvertido “Sínodo sobre a Família” — que reúne quase 200 prelados no Vaticano (de 5 a 19 deste mês) — tem despertado muitas perplexidades em inúmeros católicos, sobretudo nos ambientes de famílias conservadoras, pois alguns participantes no evento estão sugerindo certas inovações inaceitáveis. Inaceitáveis, sim, pois contrariam o ensinamento do magistério tradicional da Igreja. Ademais, tais inovações poderão desagregar ainda mais a instituição familiar, já tão debilitada no mundo moderno. 

Com o objetivo de ajudar a esclarecer a questão, a seguir transcrevo a tradução (feita pelo portal “Fratres in Unum” e publicada em 10-10-14) de uma oportuna entrevista que o Cardeal Raymond Leo Burke concedeu ao site “LifeSiteNews”. E, no final deste post, o vídeo da entrevista (em inglês) com o eminente Cardeal norte-americano, Prefeito do Supremo Tribunal da Signatura Apostólica — o mais alto tribunal da Santa Sé. Grande conhecedor dos problemas que atualmente atingem as famílias, ele é um dos autores do livro, recentemente lançado, Permanecendo na Verdade de Cristo: o matrimônio e a Comunhão na Igreja católica.


Essa forma particular de relacionamento não deve ser imposta aos membros da família e, especialmente, a crianças impressionáveis”​​

Cardeal Burke responde ao discurso do casal australiano: “Não escandalizem seus filhos ou netos”. 


Por Life Site News | Tradução: Fratres in Unum.com — Em entrevista exclusiva ao LifeSiteNews, o Cardeal Raymond Burke respondeu a uma apresentação polêmica feita por um casal australiano [Ron e Marvis Pirola] perante os 191 bispos e cardeais líderes da Igreja Católica no Sínodo Extraordinário sobre a família em curso esta semana.

Durante a intervenção, que acabou se tornando uma das mais amplamente noticiadas no Sínodo, os Pirolas perguntaram e responderam a uma pergunta sobre o que os pais deveriam fazer caso seu filho quisesse trazer o seu parceiro homossexual para um jantar de Natal em que seus netos estivessem presentes. 

A resposta dos Pirolas, que eles defenderam como um modelo para a maneira como a Igreja Católica deveria lidar com relacionamentos de pessoas do mesmo sexo, foi que os pais deveriam aceitar a participação do filho e de seu parceiro homossexual sabendo que “seus netos iriam vê-los acolhendo o filho e seu parceiro na família.” 

O Cardeal de Westminster, Dom Vincent Nichols, revelou em seguida que alguns Padres sinodais reagiram à breve intervenção do casal de maneira “muito calorosa, com aplausos.” 

Em declarações ao LifeSiteNews em um curto intervalo do Sínodo ontem, o Cardeal Burke, prefeito da Assinatura Apostólica no Vaticano, referiu-se à “pergunta” dos Pirolas como uma questão delicada, que precisa ser tratada de maneira “calma, serena, razoável e cheia de fé.”

"Se as relações homossexuais são intrinsecamente desordenadas, o que de fato são — a razão e também a nossa fé nos ensinam — então, o que significaria para os netos terem presentes em uma reunião de família um membro da família que está vivendo em uma relação desordenada com outra pessoa?”, indagou o cardeal. 

Burke acrescentou: “não queremos que os nossos filhos tenham a ‘impressão’ de que as relações sexuais fora do plano de Deus são corretas, ao parecer que toleramos atos gravemente pecaminosos por parte de um membro da família.” 

“Nós não o faríamos se fosse outro tipo de relacionamento — algo que fosse profundamente desordenado e prejudicial —, não exporíamos nossos filhos a esse relacionamento, a experiência direta desse tipo de relacionamento. E nem deveríamos fazê-lo no contexto de um membro da família que não apenas sofre de atração pelo mesmo sexo, mas que optou por viver essa atração, por agir de acordo com essa atração, por cometer atos que são sempre e em todo lugar errados e maus.”

Ele acrescentou, no entanto, que “as famílias precisam encontrar uma maneira de ficar próximas de um filho nessa situação — de um filho ou neto, ou o que quer que seja —, a fim afastar a pessoa de um relacionamento desordenado.”

Os receios do Cardeal Burke foram compartilhados pelo Voice of the Family, uma coalizão de 15 grandes grupos pró-vida e pró-família de todos os continentes, que chamou de “prejudicial” a intervenção dos Pirolas. 

“O acolhimento sem ressalvas de casais homossexuais em ambientes familiares e paroquiais, na realidade, prejudica a todos, ao servir para normalizar a desordem da homossexualidade”, disse o porta-voz do Voice of the Family, Maria Madise, em um comunicado de imprensa.

Em entrevista à Aleteia, o padre Paul Check, chefe do Courage, o grupo católico que trabalha para ajudar as pessoas com atração pelo mesmo sexo a viverem uma vida casta, respondeu à pergunta, salientando que: “Nós nunca podemos ser mais pastorais do que Jesus.” 

Ele acrescentou: “Acolher as pessoas na Igreja, em nossas casas, em conversa… ‘aceitá-las’ de maneira autenticamente semelhante a de Cristo nunca implicaria barganhar com a verdade.” Um exemplo disso seria “dizer a alguém, de alguma forma: “Bom, isso é o melhor que você pode fazer.”

A pergunta completa e a resposta do Cardeal Burke: 

LifeSiteNews: Como os pais católicos evem lidar com uma situação difícil como esta: 
Ao planejar um encontro familiar de Natal com os netos presentes, os pais são indagados por seu filho, que está em um relacionamento homossexual, se ele pode levar consigo seu parceiro homossexual? Ao aplicar esses princípios, como as paróquias deveriam lidar com casais abertamente homossexuais que se aproximam da Santa Comunhão e que buscam cargos de liderança dentro da paróquia? 

Cardeal BurkeEsta é uma questão muito delicada, e é ainda mais delicada pela agressividade da agenda homossexual. Mas é preciso abordar esse tema de maneira muito calma, serena, razoável e cheia de fé. Se as relações homossexuais são intrinsecamente desordenadas, e de fato o são – a razão nos ensina isso e também a nossa fé – então, o que significaria para os netos terem presentes em uma reunião familiar um membro da família que está vivendo em uma relação desordenada com outra pessoa? 

Se fosse outro tipo de relacionamento — algo que fosse profundamente desordenado e prejudicial — não exporíamos nossas crianças a esse tipo de relacionamento, à experiência direta dele. Assim, tampouco deveríamos fazê-lo no contexto de um membro da família que não apenas sofre de atração pelo mesmo sexo, mas que optou por viver essa atração, por agir de acordo com ela, cometer atos que são sempre e em todo lugar errados e maus. 

E assim, as famílias precisam encontrar uma maneira de ficar próximas de um filho nesta situação — de um filho ou neto, ou o que quer que seja —, a fim afastar a pessoa de um relacionamento desordenado.” 

E sabemos que com o tempo, esses relacionamentos deixam a pessoa profundamente infeliz. E por isso é importante nos mantermos o mais próximos que pudermos. Mas, essa forma particular de relacionamento não deve ser imposta aos membros da família, e especialmente a crianças impressionáveis. E exorto os pais ou avós — quem quer que seja — que sejam muito, muito prudentes neste assunto e não escandalizem os seus filhos ou netos.

Há tantas coisas em nossa sociedade hoje em dia que estão passando a mensagem de que qualquer forma de relação sexual, se de alguma forma ela lhe agrada — ou se você estiver atraído para ela — está bem, está correta. E nós não queremos que nossos filhos tenham essa impressão, ao parecer que estamos tolerando atos gravemente pecaminosos por parte de um membro da família. 

Certamente, essa é uma fonte de grande sofrimento, mas o esforço para fazer o que é certo e bom sempre envolve sofrimento. E, neste caso, certamente envolverá sofrimento. Mas que o sofrimento seja realmente redentor ao final.

Já com relação às paróquias, a situação é muito semelhante, porque a paróquia é uma “família de famílias”. E assim, se você tiver paroquiano que esteja vivendo em pecado público em um relacionamento homossexual, bem, o sacerdote deve tentar se aproximar dessa pessoa — ou de ambos, se forem católicos — e tentar ajudá-los a deixar o relacionamento pecaminoso e começar uma vida casta. O pastor deve incentivá-los também a rezar e a participar da Missa dominical e de outras maneiras adequadas para tentar superar o pecado grave em suas vidas.

Essas pessoas que estão vivendo dessa forma certamente não poderão ter qualquer papel de liderança na paróquia, porque daria a impressão aos paroquianos que a forma como elas estão vivendo é perfeitamente boa. Porque, quando dirigimos uma paróquia, de certa forma, estamos dando testemunho de uma vida católica coerente. E as pessoas que não são coerentes com a sua fé católica não recebem funções de liderança. Não lhes pedimos, por exemplo, que sejam leitores na Santa Missa — ou que assumam outra posição de liderança — até que elas tenham retificado sua situação e passado por uma conversão de vida e estejam prontas a dar esse tipo de liderança.

Por um lado, certamente haverá escândalo entre os paroquianos no que diz respeito a uma parte muito importante da nossa vida, a nossa sexualidade, e o que ela significa. Por outro lado, não é bom para as duas pessoas envolvidas no relacionamento desordenado porque também lhes dá a ideia de que a Igreja de alguma forma aprova o que elas estão fazendo.


4 de junho de 2014

TFP italiana na IV Marcha Nacional pela Vida, em Roma


Julio Loredo

Trinta mil, segundo a Polícia Municipal de Roma, e quarenta mil, de acordo com os organizadores, foram os participantes da IV Marcha Nacional pela Vida na capital da Cristandade no dia 4 de maio. 


O desfile começou em lugar altamente simbólico: a Basílica de Santa Maria dos Anjos e dos Mártires [foto], situada na Piazza della Repubblica, construída pelos Romanos Pontífices para comemorar os milhares de mártires cristãos mortos nas Termas de Diocleciano. Após atravessar as ruas do centro histórico de Roma, terminou na Praça de São Pedro. 

Hoje, dois mil anos depois, o sangue inocente corre novamente. Não mais nas Termas, no Circo ou no Coliseu, mas nas clínicas de aborto. É para deter este massacre que os defensores da vida se mobilizam a cada ano para fazer ouvir sua voz no coração do cristianismo. 

No dia anterior, a TFP italiana havia participado de dois importantes congressos: um nacional e outro internacional. O primeiro, realizado no Pontificio Ateneo Regina Apostolorum, contou com a participação de importantes figuras do mundo prolife italiano. Representantes da TFP da Itália tomaram parte nas conferências e nos círculos de estudo. 

O outro congresso realizou-se no Auditório São Pio X, do Vaticano. Na parte da manhã participaram apenas líderes prolife de nível mundial; o presidente da TFP italiana [foto à direita] teve então ocasião de apresentar as atividades em defesa da vida inocente levadas a cabo pela vasta família de almas fundada pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira. À tarde, o congresso era aberto ao público, tendo sido novamente concedido à TFP apresentar suas atividades no plenário. O congresso foi encerrado pelo Cardeal Raymond Leo Burke [foto abaixo], Prefeito da Signatura Apostólica, que declarou não ser lícito dar a comunhão aos políticos que favorecem o aborto. 
O Cardeal Raymond Leo Burke, Prefeito da Signatura Apostólica, conversa com manifestantes da Marcha contra o aborto em Roma

A Marcha pela Vida de Roma envolve uma ampla coalizão de associações religiosas e leigas, unidas no desejo comum de defender a vida humana desde a concepção até a morte natural, cancelando a Lei 194 — que em 1978 abriu a porta para a matança dos inocentes na Itália. A marcha teve que superar muitos obstáculos, tanto psicológicos quanto políticos. Não é incomum, de fato, encontrar a ideia, professada sobretudo por católicos ditos “moderados”, de que a lei 194 é “uma lei boa, mas mal aplicada”. Segundo essa ideia, tal lei italiana conteria também aspectos positivos, que no entanto nunca foram implementados. Ao invés de pedir a sua abolição, dizem, deveríamos lutar pela sua plena implementação. Esta, que é a posição de até não poucos bispos, constitui uma armadilha que se deve dissipar. 
Nos regulamentos legais anteriores à lei 194, o aborto na Itália não era permitido, e de fato era punido pelas leis contidas no X Título do Livro II do Código Penal, que previa pena de reclusão de dois a cinco anos para quem praticasse o aborto numa mulher, mesmo com o seu consentimento. No caso de a mulher não consentir, a pena subia de sete a quinze anos. No entanto, à luz do artigo 54 do mesmo Código, eram contempladas algumas exceções, como, por exemplo, para salvar a vida da mãe. 
A lei 194 inverte essa lógica jurídica: considera o aborto totalmente legal, mas depois aplica algumas restrições. Ela divide, de forma completamente arbitrária, a vida intra-uterina em três períodos, e aplica para cada um deles critérios jurídicos diferentes. O ponto de referência é sempre a saúde ou os direitos da mãe, sem a mínima alusão aos direitos do nascituro, a quem assim se vê negada a condição de pessoa. Eis a intrínseca maldade dessa lei. 

Para transmitir esta mensagem é que nasceu a “Marcha pela Vida em Roma”, da qual participa desde o início a Associazione Tradizione Famiglia Proprietà. (http://www.atfp.it)

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1 de maio de 2014

Relembrando algo muito esquecido: a moral católica




Em entrevista publicada na Revista Catolicismo de abril/2014 (Nº 760), o Cardeal Raymond Leo Burke esclarece importantes pontos de moral católica, especialmente no que concerne à instituição familiar. Em nome do relativismo moral — que penetrou até mesmo em ambientes católicos — a família vem sendo paulatinamente desagregada.



O Emmo. Cardeal Raymond Leo Burke foi recentemente entrevistado pela pela Srta. Izabella Parowicz, da revista “Polonia Christiana”, de Cracóvia. Nascido em Richland Center (Wisconsin, EUA) em 30 de junho de 1948, ele exerce atualmente o cargo de Prefeito do Supremo Tribunal da Signatura Apostólica — o mais alto tribunal da Santa Sé, que corresponde ao nosso Supremo Tribunal Federal. Anteriormente, foi Bispo de La Crosse, em seu estado natal, de 1994 a 2003, e Arcebispo de Saint Louis de 2003 a 2008. O insigne purpurado é uma voz proeminente nos ambientes conservadores, especialmente em assuntos atinentes à Igreja, à família e à política americana. O Cardeal Burke e a referida revista polonesa concederam autorização a Catolicismo para a reprodução de pontos salientes dessa importante entrevista.

*       *       *
Catolicismo — Eminência, é possível ser parcialmente católico? Frequentemente ouvimos afirmações como: “Eu sou católico, mas...”. Até que ponto é permitido aos católicos fazer compromissos quando se trata de defender a vida humana, o matrimônio e a família?
Cardeal Burke A noção de “Catolicismo parcial” é uma contradição nos termos, que reflete a presente tendência cultural ao individualismo e ao relativismo; em outras palavras, a tendência de acomodar qualquer realidade, sem respeito pela sua natureza objetiva, aos próprios pensamentos e desejos. Os católicos que têm essa noção de sua fé e prática católicas são algumas vezes chamados de católicos de “cafeteria”, porque eles selecionam e escolhem entre os ensinamentos da Igreja sobre fé e moral, aquilo que eles querem acreditar e seguir. Um verdadeiro católico aceita, sem compromissos, todas as verdades que a Igreja ensina a respeito da fé e da vida moral.

Catolicismo — Por que a inocência é minimizada hoje em dia? Refiro-me à vida dos bebês em gestação, às crianças que são violentadas psicologicamente durante as aulas de educação sexual obrigatória, e à inocência entendida como a pureza de pensamentos e (antes do casamento) pureza da carne.
Cardeal Burke Uma agenda totalmente secular, para ter sucesso, deve atrair as crianças e os jovens para a sua maneira de pensar. A educação é a chave final para a sua vitória na sociedade. A única maneira de ela conquistar as crianças e os jovens é usurpando o dever solene dos pais e professores de educar de acordo com o que é verdadeiro, bom e belo. Pais, e professores que trabalham com os pais na educação correta de seus filhos, devem necessariamente respeitar por completo o período de inocência das crianças e dos jovens. Respeitando essa inocência natural, que é um reflexo do dom de Deus referente à consciência para todas as crianças, pais e professores vão prepará-las, como também os jovens, para responder de forma clara e corajosa a essas forças que roubariam sua inocência. Tanto dentro de si mesmos — devido aos efeitos do pecado original — quanto fora, por exemplo, devido às más companhias e más comunicações, como a pornografia na internet. Pais e professores devem estar sempre vigilantes para que nada seja introduzido no currículo que viole a inocência de uma criança, e até mesmo tentativas de incutir gravemente na criança formas erradas de pensar — como, por exemplo, um currículo aprovado por determinado governo que ensina a crianças de quatro e cinco anos que o casamento pode assumir formas diversas da união duradoura, fiel e procriativa de um homem e uma mulher.

Catolicismo — Hipócrates não era católico, mas jurou o seguinte: “Eu não vou dar uma droga mortal a ninguém se solicitado, nem darei uma sugestão para esse efeito. Do mesmo modo, não darei a uma mulher um remédio abortivo. Em pureza e santidade eu vou conservar minha vida e minha arte.” Hoje em dia, os ataques contra a vida humana estão se tornando cada vez mais fortes. Mesmo médicos nominalmente católicos, que também admitem o juramento de Hipócrates, tendem a assumir a sacralidade da vida humana de modo leve e permitir soluções que envolvem morte (ou seja, o aborto e a eutanásia), a fim de garantir a realização pessoal, o conforto, ou a eliminar algum “problema” de um indivíduo. Como podemos evitar que esse mal intrínseco e disfarçado se espalhe ainda mais?
Cardeal Burke A situação que você descreve é ​​tragicamente real. Muitas vezes fico profundamente triste ao ver a arte médica, que por sua natureza é dirigida para a cura e a preservação da vida humana, ser reduzida a uma tecnologia de mutilação e morte. É fundamental dar às crianças, entre as quais estão os futuros médicos do mundo, uma catequese sólida, incluindo a formação essencial no que diz respeito à dignidade inviolável da vida inocente e indefesa, à integridade do matrimônio e da família, e ao livre exercício de uma consciência corretamente informada. Também é fundamental proporcionar ocasiões aos médicos e a outros profissionais de saúde de se unirem com vistas à educação continuada sobre as dimensões éticas e religiosas dos cuidados da saúde e a edificação de sua solidariedade na luta contra a cultura do secularismo e da morte. Um excelente exemplo de tal trabalho é a Associação Médica Santa Gianna (http://www.stgiannaphysicians.org), que tem desenvolvido a "Aliança Católica Juramento de Hipócrates do Médico St. Gianna" (http://www.stgiannasphysicians.org/enshrinements/hippocratic_oath).

“É fundamental dar às crianças catequese sólida, incluindo a formação essencial no que diz respeito à dignidade inviolável da vida inocente e indefesa”

Catolicismo — Nos últimos 50 anos, a anulação eclesiástica se tornou uma maneira relativamente fácil para sair de um casamento difícil ou inconveniente. Razões válidas para declarar um casamento nulo e sem efeito muitas vezes são confundidas com meras desculpas para começar uma nova vida. Houve casos em que um ou ambos os cônjuges ficticiamente mudaram seu endereço para obter uma decisão favorável de outro tribunal diocesano de ação rápida ou mais “arejado”. Ademais, enquanto um dos cônjuges tende para a anulação, o outro é contrário a ela e — se a anulação for concedida — eventualmente sofre muito, ou mesmo perde a fé. Além disso, parece haver um novo nicho de mercado para advogados especializados nestes casos de anulação. Poderia Vossa Eminência nos oferecer alguns insights sobre a maneira como as mais altas autoridades judiciais da Igreja previnem o abuso da instituição de anulação? Como devem os leigos resistir à tentação de usar a anulação como uma “saída de emergência” do casamento indissolúvel?
Cardeal Burke O Supremo Tribunal da Signatura Apostólica tem a responsabilidade de supervisionar a administração correta da justiça na Igreja. Isso inclui a justiça administrada pelos tribunais matrimoniais, no caso da acusação de nulidade de um casamento por parte de um ou de ambos os cônjuges. Por meio do processo empregado nos tribunais matrimoniais, um processo estabelecido na lei universal da Igreja, o juiz ou juízes chegam a uma decisão sobre a veracidade da alegação de que um casamento foi nulo desde o início, mesmo que se ele pareceu ter sido um casamento válido . A lei universal da Igreja também estabelece as bases sobre as quais uma ou ambas as partes podem fazer tal afirmação. O processo é direcionado apenas para a descoberta da verdade sobre a reivindicação, pois só a verdade pode servir ao bem das partes envolvidas. A decisão do tribunal é corretamente chamada de "declaração de nulidade", não uma "anulação", de modo a não dar a impressão de que a Igreja está anulando um casamento válido. A declaração significa que o juiz ou juízes — por meio de um processo no qual tanto os argumentos a favor da validade do casamento quanto todos os argumentos a favor da nulidade do matrimônio foram cuidadosamente ponderados — concluíram com certeza moral que o casamento era nulo desde o início. Certeza moral significa que o juiz ou juízes, depois de terem ponderado todos os argumentos — considerando somente a Deus diante de seus olhos —, não tem nenhuma dúvida razoável quanto à nulidade. O processo também inclui os meios para as partes buscarem soluções eficazes, se elas acreditam que a verdade não está sendo obedecida pelo processo.
A ruptura de um casamento pode ser devida a uma causa distinta da nulidade do consentimento matrimonial a partir do início do casamento. Por exemplo, ela pode ser devida ao pecado de uma ou de ambas as partes. Uma parte só deve fazer a alegação de nulidade do casamento quando estiver convencida de que seu casamento, que ela pensava anteriormente que era válido, na verdade era inválido.
Além de receber denúncias sobre possíveis injustiças cometidas nos tribunais locais, o Supremo Tribunal da Signatura Apostólica também recebe um relatório anual sobre o estado e a atividade de cada tribunal matrimonial. Depois de estudar o relatório, envia observações ao tribunal matrimonial, para auxiliá-lo a realizar mais corretamente o seu trabalho. A Signatura Apostólica também solicita às vezes uma cópia da decisão definitiva em um caso de nulidade do casamento, a fim de verificar que a justiça e, portanto, a verdade foi obedecida no processo que conduziu à decisão. Por outro lado, a Signatura Apostólica tem competência para conceder certos favores aos tribunais para a administração mais eficaz da justiça.

Catolicismo — Gostaria de abordar a questão dos políticos nominalmente católicos, que atuam contra o ensinamento da Igreja por exemplo, apoiando publicamente o aborto ou a legalização de casamentos "homossexuais". Vossa Eminência enfatiza frequentemente que a esses políticos não se deve administrar a Santa Comunhão, de modo a evitar o pecado de sacrilégio. Como os padres devem proceder de forma a garantir que esta proibição cumpra não só uma punição, mas também uma função corretiva?
Cardeal Burke A exclusão de receber a Sagrada Comunhão, dos que persistem no pecado manifesto e grave depois de terem sido devidamente advertidos, não é uma questão de punição, mas uma disciplina que respeita o estado objetivo de uma pessoa na Igreja. Do mesmo modo como São Paulo, no capítulo 11 da primeira Carta aos Coríntios, admoestou os primeiros cristãos: "Para qualquer um que come e bebe sem discernir o corpo do Senhor, come e bebe a sua própria condenação" (v. 29), assim também a Igreja, ao longo dos séculos, admoestou aqueles envolvidos em pecado grave e manifesto a não se aproximarem para receber a Sagrada Comunhão. No caso de um político ou outra figura pública que age contra a lei moral em matéria grave e ainda se apresenta para receber a Sagrada Comunhão, o sacerdote deve repreender a pessoa em questão e, em seguida, se ele ou ela persiste em se aproximar para receber a Sagrada Comunhão, o sacerdote deve se recusar a dar o Corpo de Cristo para a pessoa. A recusa do padre de dar a Sagrada Comunhão é um ato nobre de caridade pastoral, ajudando a pessoa em questão a evitar sacrilégio e salvaguardar os outros fiéis do escândalo.

Catolicismo — A política do Presidente dos Estados Unidos em relação à civilização cristã se torna cada vez mais agressiva. Vossa Eminência nota algum sintoma de reações católicas contra essa política? Em caso afirmativo, o que são elas; em caso negativo, por quê?
Cardeal Burke É verdade que as políticas do Presidente dos Estados Unidos da América se tornaram cada vez mais hostis à civilização cristã. Ele parece ser um homem totalmente secularizado, que promove agressivamente políticas anti-vida e anti-família. Agora ele quer restringir o exercício da liberdade de religião à liberdade de culto, ou seja, ele sustenta que se é livre para agir de acordo com sua consciência dentro dos limites de seu lugar de culto; mas que, uma vez que a pessoa deixa o lugar de culto, o governo pode obrigá-la a agir contra a sua consciência retamente formada, mesmo na mais grave das questões morais. Tais políticas teriam sido inimagináveis nos Estados Unidos até 40 anos atrás. É verdade que muitos fiéis católicos, com uma liderança forte e clara de seus bispos e sacerdotes, estão reagindo contra a crescente perseguição religiosa nos EUA. Infelizmente tem-se a impressão de que uma grande parte da população não tem plena consciência do que está ocorrendo. Em uma democracia, tal falta de consciência é mortal. Isso leva à perda da liberdade, a qual um governo democrático existe para proteger. A minha esperança é de que cada vez mais meus concidadãos, à medida que perceberem o que está acontecendo, insistirão em eleger líderes que respeitem a verdade da lei moral, uma vez que ela é respeitada nos princípios fundadores da nossa nação.
“As políticas do Presidente dos EUA se tornaram hostis à civilização cristã. Ele parece ser um homem secularizado, que promove políticas anti-família”

Catolicismo — Há alguma esperança de que a má tendência na legislação dos EUA relativa à proteção da vida possa ser revertida? Os ativistas pró-vida são capazes de agir eficazmente neste assunto? Por que a tática adotada pelos abortistas foi tão eficaz e como ela pode ser combatida com sucesso?

Cardeal Burke Há esperança de que as más leis anti-vida dos Estados Unidos possam ser derrubadas, e de que o movimento que impulsiona ainda mais essa legislação possa ser resistido. O movimento pró-vida nos Estados Unidos tem trabalhado desde 1973 para reverter a decisão injusta do Supremo Tribunal Federal que derrubou as leis estaduais que proíbem o aborto provocado. É verdade que a decisão do Supremo Tribunal continua de pé, mas também é verdade que o movimento pró-vida tem crescido, tornando-se cada vez mais forte nos Estados Unidos, ou seja, cada vez mais os cidadãos, especialmente os jovens, têm sido despertados para a verdade sobre o grave mal do aborto provocado.


Há uma série de razões pelas quais a legislação anti-vida e as decisões dos tribunais têm prevalecido nos Estados Unidos até o presente. As forças da secularização têm sido e continuam poderosas, e são apoiadas pela maior parte da mídia de massa. Houve uma catequese gravemente defeituosa nos Estados Unidos durante várias décadas, a qual deixou adultos e jovens mal equipados para defender a verdade da lei moral. Houve também a tendência da Igreja de ser tímida quanto ao seu dever solene de defender a verdade no fórum público, juntamente com uma interpretação errônea da cláusula de não-estabelecimento da Constituição dos Estados Unidos. Dita cláusula proíbe uma religião oficial, ou religião de Estado, nos EUA, mas não proíbe a Igreja de testemunhar publicamente a verdade. A falsa interpretação é geralmente chamada de "separação entre Igreja e Estado" e restringiria a atividade da Igreja exclusivamente aos assuntos eclesiásticos. Estes são alguns dos fatores que têm favorecido os movimentos anti-vida e anti-família nos EUA.
“É verdade que a decisão do Supremo Tribunal continua de pé, mas também é verdade que o movimento pró-vida tem crescido cada vez mais nos EUA”

29 de outubro de 2010

Arcebispo Raymond Burke — ótimos e oportunos conselhos para os brasileiros na atual situação do País

(Roma, 20 de outubro de 2010)

O excelente Blog de Luis Dufaur, “VALORES INEGOCIÁVEIS”, publicou hoje uma muito oportuna entrevista com o Arcebispo Raymond L. Burke, presidente do Supremo Tribunal da Signatura Apostólica (tribunal supremo da Santa Sé), e recentemente apontado para receber de S. S. Bento XVI a púrpura cardinalícia. Tal entrevista foi concedida em Roma a Thomas McKenna, fundador e presidente da associação Ação Católica pela Fé e Família, dos EUA. http://www.catholicaction.org/

O entrevistador interrogou ao arcebispo sobre as razões que o levaram a escrever uma carta pastoral ‒ quando dirigia a arquidiocese de St Louis ‒ sobre a maneira com que os católicos devem votar.

A seguir transcrevo trechos escolhidos da entrevista — sobretudo as partes que mais diretamente são de interesse para os católicos no Brasil —, mas aqueles que desejarem a íntegra click em:


O prelado explicou que muitos católicos, embora professando bons princípios, na hora dar o voto acham que podem colocar as verdades da fé “entre parênteses e votar de acordo com outros  critérios”.

‒ “Eu queria me certificar ‒ explicou o prelado ‒ que os fiéis se dessem conta de que têm uma obrigação moral muito grave de votar nos candidatos que defendam a verdade da lei moral, o que, naturalmente, também redunda no maior bem da sociedade”.
 ‒ “Não podemos alegar, por exemplo, a respeito da existência em nossa sociedade da prática generalizada do aborto ou de uma permissão cada vez maior para os assim chamados casamentos entre pessoas do mesmo sexo, que ‘Nada temos a ver com isso.’ Temos sim, pois elegemos para cargos públicos pessoas que permitem essas coisas em nossa sociedade.”

‒ “É minha real obrigação enquanto bispo de exortar os fiéis a cumprirem seu dever cívico de acordo com sua fé católica”.

‒ “Não se pode jamais votar em alguém que favoreça absolutamente o 'direito’ de uma mulher de destruir uma vida humana em seu seio ou de procurar um aborto.”

‒ “Em algumas circunstâncias em que não exista nenhum candidato que se proponha a eliminar todo e qualquer aborto, pode-se escolher o candidato que mais limite esse grave mal em nosso país; mas jamais seria justificável votar num candidato que não só não quer limitar o aborto mas entende que ele deva estar ao alcance de todos.

O entrevistador Thomas McKenna, lembrou que esse é um problema também do Brasil e perguntou que mensagem enviaria aos bispos
brasileiros engajados na luta contra o aborto.

‒ “Eu os elogiaria por exercerem seu ministério como mestres da fé a respeito de um assunto fundamental. Como poderia um bispo dormir a noite se não ensinasse nem alertasse seus fiéis contra um mal tão grave quanto o aborto, que ameaça acometer a sua nação? Então, esses bispos devem ser parabenizados, pois o que estão fazendo é simplesmente exercer sua função de mestres da fé e da moral, num assunto como disse fundamental e essencial: a proteção da vida de inocentes e indefesos seres humanos.”

Thomas lembrou que há católicos que dizem: ‘socialmente, ou por outras razões, quero votar no outro lado a despeito do que a Igreja diga’.

‒ “Eu simplesmente lhes perguntaria: ‘Vocês seguem a Regra de Ouro que nos foi ensinada pelo próprio Nosso Senhor nos Evangelhos? Em outras palavras, ‘façam aos outros aquilo que gostariam que lhes fizessem?’ Vocês acham realmente justo negar o direito à vida de outros membros da sociedade, especialmente os que dependem totalmente de nós para viver, a fim de obter alguma vantagem, ainda que legítima, seja ela ambiental ou outra? [...] ou seja, fazer o mesmo que quereríamos que nos fizessem quando nos encontrávamos, pequeninos, no ventre de nossa mãe, em fase embrionária de desenvolvimento ou a caminho do nascimento; como gostaríamos então que os eleitores votassem para proteger e salvaguardar nossas vidas”.

Diz-se também que o "casamento" homossexual é uma questão de não-discriminação, e isso impressionou alguns católicos tíbios. Observou Mckenna, perguntando: Qual seria a resposta da Igreja a isso?

‒ “Há discriminação injusta, por exemplo, quando se diz que um ser humano, por causa da cor de sua pele, não é parte da mesma raça humana. Mas há uma discriminação que é perfeitamente justa e boa, ou seja, a discriminação entre o que é certo e o que é errado. Entre aquilo que está de acordo com nossa natureza humana e que é contrário à nossa natureza humana.
Assim, ao ensinar que atos sexuais entre pessoas do mesmo sexo são intrinsecamente maus e contra a natureza, a Igreja Católica está simplesmente anunciando a verdade, ajudando as pessoas a discriminarem o certo do errado em suas próprias atividades. [...]
“Portanto, não é de modo algum discriminação injusta simplesmente dizer ‘não’”.

Thomas apontou que personalidades públicas votam a favor do aborto ou são contrárias aos ensinamentos da Igreja, porém continuam a comungar e ir à igreja e a se apresentarem como católicos. E perguntou: O senhor poderia dizer algo sobre o que é exatamente esse escândalo, qual sua gravidade?


‒ “É muito grave, ‒ explicou Mons. Burke ‒ isso lhe digo. Porque muitas pessoas, católicos e não-católicos, passaram a crer que o ensino da Igreja Católica sobre a gravidade do aborto não deve ser muito firme ou até mesmo que está prestes a ser alterado de um modo ou doutro. [...]
“O que é, pois, dar escândalo? Dar escândalo é fazer ou deixar de fazer algo que leve outros a ficarem confusos ou caírem em erro sobre o bem moral. Aqui está um perfeito exemplo de escândalo: católicos que traem a fé católica na vida política, como legisladores, juízes ou o que for, levando outras pessoas a acreditar que o aborto não deve ser o grande mal que realmente é, ou que de fato o aborto é uma coisa boa em certas circunstâncias.”

‒ “Hoje tornou-se mais importante do que nunca considerar a realidade do escândalo porque há uma tendência a dizer: ‘O problema está em você. Esta é uma boa pessoa, está fazendo aquilo que acha certo’ e assim por diante, sem ligar para o que é verdadeiro e o que não o é. ‘Você é que cria problema para nós quando o critica’.
“Ora, isso não é verdade de modo algum. Quando manifestamos que algo nos causou escândalo, aconselhamos a pessoa que causou o escândalo a corrigir-se e reparar o mal que fez. Não se trata de acusar outrem falsamente. Não se trata de introduzir discórdia ou desunião na comunidade. Trata-se na realidade de buscar os fundamentos da verdadeira unidade. Em outras palavras, a unidade na promoção do bem comum”.

Mas, interrogou ainda McKenna: Se um homem público católico dá escândalo, que tipo de reparação deve fazer para compensar o mal causado?

‒ “Em primeiro lugar, explicou D. Burke, deve haver uma genuína reforma do coração. Isso se faz através do sacramento da Penitência, por meio da satisfação ou penitência atribuída no sacramento.
Mas é preciso reconhecer que, tratando-se de uma figura pública que tenha promovido algo muito mau de maneira pública, ela deve renunciar também publicamente ao erro que cometeu e ao qual estava levando outras pessoas.
Então, para mim, a única coisa adequada é que essa figura pública diga: ‘Eu estava errado e agora entendo a verdade sobre a vida humana. E lamento profundamente o que fiz.’
Por exemplo, no campo da medicina, alguém como Bernard Nathanson, que foi grande promotor do aborto provocado e depois se emendou, reconheceu o erro e passou a escrever livros e dar palestras para tentar reparar as muitas e muitas vidas para cujo assassinato serviu de instrumento.
Você se pergunta: ‘Como pode alguém ser perdoado por cometer aborto?’ Mas Deus nos perdoa. Sua misericórdia é incomensurável, e em seguida nos leva a fazer a reparação que nós humanamente precisamos fazer para reparar o mal praticado e atrair as pessoas para o bem".

Como conclusão o futuro Cardeal recomendou:


‒ “Desejo convidar todos a invocar de modo particular a intercessão de Nossa Senhora de Guadalupe. Ela foi-nos dada como Mãe da América. Ela é nossa Mãe. Ela é a Mãe de Jesus Nosso Senhor, mas nossa Mãe de modo muito particular.
Apareceu em nosso continente em 1531 e mostrou-se protetora de toda vida humana. Rezemos muito especialmente sob sua intercessão, unindo nossos corações ao seu Coração Imaculado, para pedir o fim do aborto e de todos os ataques à família, especialmente o fim da promoção de uniões do mesmo sexo".


Video: Bispos não podem dormir sem alertar contra o aborto

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