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6 de agosto de 2012

FRAGMENTOS DA “HISTÓRIA DA POLIDEZ”

A propósito do que temos exposto sobre excelência da cortesia, mencionei certo comportamento (melhor diria “fenômeno”) que muito me surpreendeu em Paris: temia não ser bem acolhido e ser tratado rispidamente (conforme a lendária falta de hospitalidade e descortesia do francês de nossos dias), mas, muito pelo contrário, fui muito bem acolhido e tratado com extrema gentileza. Como procurava explicação para esse fato que me assombrou, um amigo, o Sr. Marcos Aurélio Vieira, disse-me que tinha lido um livro, publicado em 2009, sobre a história da polidez na França. Segundo ele, em tal livro certamente eu encontraria resposta para o “fenômeno”. 

Claro, pedi o livro emprestado! No que fui gentilmente atendido com toda presteza. Assim, comecei a ler a obra (544 páginas, sem nenhuma ilustração... Para o público brasileiro, creio que ela lucraria com algumas ilustrações...). Pretendo publicar aqui alguns trechos escolhidos para proveito de nossos leitores. Antes disso, alguns dados: 
Frédéric Rouvillois. Nascido em 1964, mora em Paris, onde é professor de Direito Público na Universidade de Paris-V. Autor de várias obras sobre história das ideias, é bibliófilo e colecionador, desde sempre, de tratados de savoir-vivre.(*)  
A obra: A HISTÓRIA DA POLIDEZ. De 1789 aos nossos dias. (Título original: Histoire de la Politesse. De la Révolución à nos jours. “Grua Livros”, São Paulo, 2009. 

O autor: Frédéric Rouvillois. Um professor de Direito que realizou extensa pesquisa histórica a partir da Revolução Francesa — marco da transformação não apenas do regime até então vigente, mas das boas maneiras, costumes e hábitos, impostos pelos novos detentores do Poder (Danton, Marat, Robespierre et caterva). Estes, entre inúmeras aberrações, mudaram até o calendário; gestos de cortesia passaram a ser mal vistos; aboliram o tratamento de “Monsieur” e “Madame” (todos os homens e mulheres, segundo os revolucionários, deveriam ser tratados simplesmente “citoyens” [“cidadãos”]); aboliram o “Vous” (todos eram obrigados a se tratarem por “tu”). Em suma: após terem derrubado a Monarquia, queriam implantar o reino do igualitarismo total. O livro, vencedor do Gran Prix Du histoire de 2007, trata das modificações que ocorreram nos costumes do dia-a-dia, desde a Revolução Francesa (1789) até os tempos atuais. 


Para a postagem de hoje, ofereço aos leitores alguns “morceaux choisis” mais significativos que escaneei da introdução do referido livro (entre as págs. 9 a 16). Apenas inseri os subtítulos, as ilustrações, e assinalei alguns pontos. 

Dedicatória do autor: Para Manon, Charles, Bathilde, Margot e Gabrielle, para Eloi, a fim de que eles compreendam, um dia, por que seus pais lhes ensinaram boas maneiras.  

“A polidez é coisa antiga, mas hoje ressurge com vigor. Desde há alguns anos, a imprensa e todas as mídias constatam seu retorno triunfal, ao mesmo tempo que programas de televisão são dedicados ao savoir-vivre,(*) cursos de civilidade são oferecidos nas escolas ou nos centros socioculturais, obras, artigos, testes e jogos se multiplicam, e a venda de manuais de boas maneiras, que sofrera um declínio acentuado na década de 1970, parece estar de novo a pleno vapor [...]”.
Na parede da Sorbonne, pichado o lema contestatário: “Défense d’interdire!” (É proibido proibir!)
[Comentário: Chamo a atenção para a data “1970”. “As boas maneiras sofrera declínio” logo após a Revolução da Sorbonne (maio de 1968, em Paris). A explosão da rebelião estudantil e libertária, na qual se preconizou uma nova concepção de vida: “Nem mestre, nem Deus, nem regra”. Era um dos slogans bradados pelos estudantes revolucionários de maio de 68. Visava-se implantar a anarquia, estabelecendo uma sociedade “sem regras”. A meta era eliminar os aspectos anti-igualitários da sociedade, expressos nos costumes, nas boas maneiras, na diferença entre os sexos, no respeito pelos superiores, nas tradições de família etc.] 

“Em paralelo a essas iniciativas, uma grande pesquisa de opinião, realizada entre março e abril de 1999, revelava que as boas maneiras são consideradas particularmente importantes por 68% dos franceses; de acordo com outra sondagem, realizada em outubro de 2003 por Mme Figaro, essa cifra se aproximou dos 70% figurando a polidez em segundo lugar, quando os franceses foram questionados sobre os valores que almejam transmitir às crianças: cifras significativas, já que essa opinião, como se sabe, não era partilhada senão por 53% dos entrevistados, quinze anos atrás, e por apenas 21% em 1981.

E não se trata, no caso, de um novo avatar do eterno conflito entre adultos e adolescentes, pois estes, em sua grande maioria, parecem perfilar tais ideias e princípios: a se acreditar na pesquisa Sofres, divulgada em novembro de 2003, os comportamentos que os ‘jovens' consideram, quase por unanimidade, inadmissíveis (insultos ao professor, 96%; falta de respeito com os pais, 94%) dizem respeito a atentados contra as regras da polidez, percebidos por eles como muito mais graves do que um bom número de delitos sujeitos à sanção penal (como trabalho noturno, fraude nos exames, consumo de entorpecentes).

A incivilidade contra os ‘velhos’ e as autoridades, que a ‘cultura de Maio de 1968’ considerava mais uma vez, e até recentemente, um direito imprescritível, como manifestação normal de liberação e desenvolvimento individual, tende nos dias de hoje a ser considerada (novamente) falha imperdoável. Na verdade, nem pesquisadores nem pesquisados esclarecem o que entendem exatamente por ‘polidez’, ‘respeito’ ou ‘boas maneiras’. Mas isso não impede que se constate um verdadeiro retorno a valores que poderiam parecer abandonados para sempre”.

Polidez: uma história de altos e baixos 
 “Ora, sem questionar no momento as razões profundas, a consistência e a perenidade desses indícios, cabe constatar que, se há um retorno, ele se dá porque antes houve um declínio: é que, no curso do tempo, o savoir-vivre conheceu mudanças, mutações profundas. Na verdade, a polidez tem uma história: uma história não linear, descontínua, com altos e baixos, tempos fortes — a Restauração, nas últimas décadas do século XIX, talvez no início do século XXI —; tempos mortos — a Revolução Francesa, o momento posterior a Maio de 1968 —; reviravoltas — a Monarquia de Julho, a Primeira Guerra Mundial —, avanços e recuos...

Se afinarmos o propósito, veremos que não existe apenas uma história geral da polidez — essa que acabamos de evocar —, mas também uma história particular, essa de modos e costumes, formas, regras, ritos do savoir-vivre que também são objetos de variações permanentes, por vezes muito rápidas. Assim é que, no curso da idade de ouro da polidez burguesa, representativa do século XIX, certas práticas surgem, ao passo que outras tendem a desaparecer, a se simplificar ou, ao contrário, a se complicar e a se sobrecarregar”.

Multiplicidade no savoir-vivre em cada país, cada região 
“Paralelamente a essa história, existe uma geografia do savoir-vivre. ‘Sem a polidez’, assinalava o ensaísta Alphonse Karr, na metade do século XIX, ‘não nos reuniríamos senão para combater. É preciso, portanto, ou viver só ou ser polido’.(1) Por essa razão, de uma maneira ou de outra, a polidez existe em todas as sociedades humanas, em todos os países. No entanto, qual cada tem a sua, mais ou menos singular e distinta da dos seus vizinhos: ‘Se um caixeiro viajante, da região do Limousin, me diz: tim, tim, erguendo seu copo, eu lhe respondo gentilmente: com prazer', contava com alegria o romancista Jacques Perret. ‘E se, tendo notado um garagista, na região da Picardia, gritando: bye, bye!, eu dou um passo atrás, para gentilmente me informar sobre o sentido dessa locução e mostrar o interesse que tenho pela gíria da região. O savoir-vivre não é ainda, definitivamente, internacional, e faremos o possível para que não venha a ser. Com a consciência universal, a democracia planetária e a economia mundial, temos amplos motivos para estancar nossa sede, sem instituir a mesura planificada nem racionalizar o buquê de aniversário como se fosse o diâmetro dos pneus. As mil maneiras de realizar uma mesura ou enviar um buquê de aniversário colaboram para essa diversidade que torna a condição humana mais ou menos suportável’. A cada um o seu savoir-vivre: ‘Certos estrangeiros, nórdicos dentre outros, ficam indignados quando nos veem engolir um ovo quente com nacos de pão mergulhados no molho. Estão no seu direito: bom uso aqui, mau costume acolá’.

Num mesmo país, discerniremos às vezes variações sensíveis: sempre mordaz, Jacques Perret sugeriu que é possível ‘estabelecer um mapa da França onde as regiões seriam assinaladas segundo o protocolo das saudações e dos abraços. Veríamos, por exemplo, um traço pontilhado: limite norte do beijo triplo, como para a cultura da vinha’(2) ou um encontrão desagradável.

Essa geografia do savoir-vivre é, de saída, uma geografia histórica, cada região, cada país submetendo-se, no curso do tempo, à influência mais ou menos acentuada de alguns dos seus vizinhos, sem, no entanto, perder inteiramente sua singularidade. Na França, sempre existiram, assim, diferenças notáveis entre o savoir-vivre parisiense, eco direto e herdeiro da corte, e uma polidez provinciana mais rústica, mais tradicional, permanentemente defasada em relação à capital, que nessa matéria sempre deu o tom, sem que ninguém jamais sonhasse em disputar o privilégio.

Dentro da própria capital, distinções acentuadas são discerníveis de longa data: ‘Sob Charles X, e ainda sob Luis Filipe’, observou o historiador Jacques Boulenger, ‘cada quarteirão de Paris tinha seu aspecto particular, seus costumes, seus habitantes, seu ‘mundo’, a bem dizer, e esses ‘mundos’ não se confundiam jamais’, separados por ‘mil nuanças de polidez, de vestimenta, de maneiras e de linguagem’.(3) 

Mas isso significa apenas que, na capital, certos círculos dominantes, em geral reagrupados em determinados lugares (o bairro de Saint-Germain até 1830, o quarteirão do passeio de Antin e da Nouvelle Athènes entre 1830 e 1840), dão o tom aos vizinhos, e a partir daí o impõem, pouco a pouco, ao conjunto da cidade e depois do país. É de Paris, com efeito, que vêm as modas, os usos, mas também sua contestação — como na época revolucionária, depois de 1918, ou ainda, depois de Maio de 1969, no desdobramento da liberação dos costumes.

Em contrapartida, se existe uma geografia (histórica) da polidez, pode-se afirmar que não existe uma sociologia do savoir-vivre, ou, mais exatamente, que esta deixou de existir após a Revolução Francesa, que representa, a esse respeito, uma cisão radical — uma cisão de que Balzac se dá conta num artigo surgido em maio de 1830, ‘Palavras da moda’: ‘Agora que nossos costumes tendem a nivelar tudo, agora que um amanuense de doze centavos pode levar vantagem sobre um marquês, pela graça das maneiras [...], só as nuanças permitirão às pessoas reconhecerem-se, como é devido, no meio da multidão’.(4) Ainda que não goze de unanimidade, ainda que seus preceitos não sejam respeitados de modo idêntico em todos os meios, nem por isso a polidez vem a ser a mesma para todos. [...]”

Revolução Francesa: Golpe contra a “velha França” 
“Ainda que a França, após o reinado de Luis XIV, seja universalmente reputada por seu savoir-vivre, constata-se que a maior parte das regras em vigor evoluiu consideravelmente ao longo dos três últimos séculos. [...]

A história da polidez na França, da Revolução aos nossos dias, poderia ser subdividida em quatro tempos sucessivos. O primeiro se anuncia ao redor de 1789, por meio de uma crise de extrema virulência, no curso da qual os mais radicais tentaram fazer desaparecer a velha civilidade francesa, na qual veem o fruto envenenado do Ancien Régime que eles sonham erradicar até a última lembrança. Mas essa tentativa é rapidamente liquidada por um êxito retumbante, que se inicia com a queda de Robespierre, em julho de 1794, e se conclui com a chegada de Bonaparte ao poder, após o golpe de estado do Brumário no ano VIII (novembro de 1799): os anos seguintes serão marcados pela condenação dessa ‘antipolidez’ jacobina e pela reafirmação das regras do savoir-vivre clássico, que de fato, nesse breve período revolucionário, não se ressentirá de golpes súbitos. Porém, apesar do início catastrófico, o século XIX, em sentido amplo — que se estende de 1800 à Primeira Guerra Mundial — pode ser considerado a idade de ouro da polidez burguesa.

Esse largo período não é evidentemente homogêneo: ele conhece desarranjos significativos, em 1814, com a Restauração, em 1830, com o aquecimento da anglomania, em 1850, com o início do aburguesamento da vida rural, na década de 1890, com a moda fim de século etc. Porém, o período apresenta certo número de traços característicos; o fato de que as regras do savoir-vivre vão ao mesmo tempo se sofisticar — tornando-se no geral cada vez mais complexas, exigentes, rígidas — e se difundir até as camadas relativamente mais modestas da sociedade”.  

Mudanças entre as duas guerras e no post-guerra
“Esse segundo período termina com a Grande Guerra Mundial. Certamente, nessa matéria — que o historiador das representações, dos costumes e dos comportamentos toma como objeto — não existem cesuras nítidas nem fronteiras bem delimitadas: é por isso que bom número de regras de decoro começa a se alterar muitos anos depois da Grande Guerra — como a obrigação de não fumar, imposta às mulheres — ao passo que outras subsistirão, sem mudanças notáveis, nos decênios seguintes e, em alguns casos, até nossos dias.

Todavia, o primeiro conflito mundial não deixa de marcar uma reviravolta decisiva em matéria de savoir-vivre, assim como na ordem política, intelectual, econômica e social: de resto, tudo se intensifica, e o declínio do decoro burguês resulta em particular de terem sido colocadas em causa as condições, em especial materiais e psicológicas, que tinham permitido o seu florescimento ao longo do século anterior. No curso desse terceiro período — o tempo das rupturas, de 1914 à Liberação —, assiste-se com efeito à inversão do movimento que se observara no período precedente, com uma irresistível tendência à simplificação dos usos e ao desaparecimento de alguns deles, aqueles que se tornaram impraticáveis ou que pareceram ilegítimos.

Enfim, com o início da década de 1950 abre-se a era das incertezas, a nossa: de um lado, persegue-se o movimento de desconstrução iniciado no período entre as duas guerras, e o encolhimento progressivo dos grupos sociais respeitadores dos usos do savoir-vivre tradicional; mas, por outro lado, parece também ganhar prestígio, sobretudo depois da década de 1990, certa tomada de consciência de sua importância, assim como a aparição de novas formas de decoro, correspondentes a práticas e atividades até pouco tempo atrás desconhecidas, inabituais ou inconfessáveis. 

Fluxo e refluxo? Numa época em que certa renovação do savoir-vivre parece coexistir com uma radical colocação em causa de seus princípios da metáfora — e, meditando sobre o passado, poderemos nos interrogar sobre qual seria, em nossas sociedades pós-modernas e globalizadas, o futuro da polidez”.
____________
Notas: 
(*) Savoir-vivre. Definição extraída do DICIONÁRIO HOUAISS: Conhecimento e prática dos usos e costumes da vida social; habilidade em lidar com os seres humanos em geral; tirocínio, discernimento.

1. A. Karr, Une poigné de vérités, Michel Lévy Frères, 1866, p. 303. 
2. J. Perret, “La France vue par un Français”, Savoir-Vivre International, ODE, 1951, pp. 14, 18, 20. 3. Boulenger, Les Dandys, Calman-Lévy, 1932, p. 191. 
4. H. de Balzac, “Des morts à la mode”, Oeuvres diverses, t. II, I.

30 de julho de 2012

A cortesia francesa


Paulo Roberto Campos
Como temos tratado aqui sobre a cortesia (ou a falta dela), permita-me contar algo pessoal para exemplificar a respeito do tema. 


Numa recente viagem a Paris (a primeira em minha vida), preparei-me e fui “escudado” para receber todo tipo de “alfinetadas”, descortesias, indiretas, diretas, “patadas” etc., pois — era o que eu ouvia aqui no Brasil —, “na atualidade, em geral o francês é ranzinza e trata mal todo mundo”. Um engano! Fiquei muitíssimo surpreso, e encantado, ao encontrar o oposto do que ouvia. Encontrei os franceses extremamente amáveis, manifestando suprema cortesia em atender, em dar informações, até pormenorizadamente, a um estrangeiro como eu. Poderia dar vários exemplos do bom trato recebido e das boas maneiras que presenciei. 


Se o francês foi ranzinza (ou ainda o é), ele não manifesta sua “ranzinzice”. A gentileza impera. Não sei se posso generalizar, e nem sei se a França inteira é assim. Nem estou seguro para dizer que a França foi ranzinza e que agora mudou. Mas o testemunho que eu dou é que, atualmente, o parisiense  apresenta-se muito cortês. É a impressão que tive nos inúmeros contatos com a gentileza na “Cidade Luz”, não presenciando grosserias ou indelicadezas no trato. Na verdade, uma só, mas creio que foi a exceção que confirma a regra. 


Mas, é claro, você também precisa tratar os franceses com toda cortesia. Por exemplo, usei aqui o pronome “você” (o que parece compreensível no Brasil, ao me dirigir aos diletos leitores deste blog). Lá o pronome correto no caso é “Vous”, tanto para a Madame como para o Monsieur. 


Um exemplo comezinho, mas que me encantou, pois já no primeiro e breve diálogo que tive, logo ao entrar no avião da Air France
— Bonjour Monsieur! 
— Bonjour Madame! 
— Bienvenu! 
— Merci! 


Na França o “Bonjour” e o “Merci” são expressões quase sagradas. Ao entrar em qualquer estabelecimento, por exemplo numa boulangerie (padaria), não se pode — EM HIPÓTESE ALGUMA — ir logo fazendo o pedido da sua apetitosa baguette (pão longo) ou de qualquer outro saboroso petisco. Os franceses não veem isso com bons olhos, julgam uma falta de educação muito grave. Em primeiríssimo lugar, você tem que usar a expressão “Bonjour Madame” ou “Bonjour Monsieur”. Após ouvir o “Bonjour” da outra parte é que se pode então fazer o seu pedido. Isso antes de iniciar qualquer diálogo e em qualquer lugar, mesmo na rua. Do contrário, os franceses, até por cortesia, poderão não dizer nada, mas pensarão: “Esse sujeito é deselegante”. Num português curto e grosso: “Esse sujeito é um “casca-grossa”... 


O “Merci” também é indispensável nesse “cerimonial”. Sempre respondido com o “de rien” (de nada) ou “je vous en prie”. Não sei se exagero, mas acho que a expressão que mais ouvi em todos os lugares de Paris foi o “Merci”. Em segundo lugar, o “Bonjour” e em terceiro o “Pardon, Monsieur”, “Pardon, Madame”. 
Aqui abro um parêntesis: Alguém poderia objetar que isso (o modo de cumprimentar) é uma coisa insignificante que não modifica uma sociedade. 


— Responderia que APARENTEMENTE é uma coisa insignificante, mas que essa simples, pequena e fácil manifestação de cortesia, de respeito pelo próximo, pode mudar a história de uma pessoa, de uma família, de um país. Um exemplo: Se alguém, ao cruzar com um vizinho, não o saúda com o “Bom dia, senhor fulano”, poderá deixá-lo magoado. Ademais, seu filho seguirá o exemplo, imitando sua descortesia com os colegas. Você poderá ter contribuído assim para que o filho seja grosseiro. A família poderá viver em atitudes grosseiras e em conflitos uns dando “patadas” nos outros. Seu filho quando crescer, o que será para a sociedade e para o País?
*          *          *
Fechando o parêntesis e encerrando esse post: Ainda não encontrei resposta para uma questão: Será que tendo perdido o trato delicado a França ficou ranzinza, mas que atualmente está reencontrando a cortesia perdida? Com saudades da “douceur de vivre” (doçura de viver) quotidiana na França do “Ancien Régime”? Como vimos no post anterior ( Em busca da cortesia perdida! ), na “Belle Époque”, ocorreu esse “reencontro” com algo do estilo de vida elegante e cortês do “Ancien Régime”. 


De passagem, falando de “Ancien Régime”, não resisto em inserir aqui um comentário de Talleyrand sobre essa época anterior à Revolução Francesa: “Ceux qui n'ont pas vécu avant 1789, ne connaissent pas la douceur de vivre" (“Aqueles que não viveram antes de 1789, não sabem o que é a doçura de viver”). 
*          *          *
A propósito da impressão (sobre o reencontro com a cortesia) que trouxe da “Cidade Luz” — que muito me marcou, mas para a qual não encontrei resposta — pesquisei em alguns textos que guardo e deparei-me com uma conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira — um grande admirador da “Douce et Belle France” — na qual ele tece interessante comentário sobre o país. Aqui ofereço um trechinho que selecionei para nossos leitores: 


Quadro exposto no Musée Carnavalet, em Paris (Foto PRC)
“A França, em determinado momento, inspirou a cortesia universal. E, fora de dúvida, ela é a nação da cortesia. A França de hoje não é o que desejaríamos, mas ficou pairando no mundo uma ideia de que seria incomparavelmente melhor se a França inteira vivesse isso [estimulando a cortesia]. Ela seria mais ou menos como a madeira aromática que se coloca numa sala: vai perfumando, perfumando, perfumando, sem se destruir”. 

26 de julho de 2012

Em busca da cortesia perdida!


Quadro exposto no Musée Carnavalet (em Paris) representando o esplendor de vida da sociedade parisiense na Belle Époque (Foto PRC).
Em continuação ao post anterior ( NÃO DEIXE A CORTESIA MORRER ! ), apresento hoje uma matéria de autoria de Nelson Ribeiro Fragelli, que desenvolve brilhantemente um tema muito correlato à nossa campanha “Em busca da cortesia perdida!”. 

O autor mostra como na Belle Époque reluzia o bom trato entre as pessoas, a cortesia era a agradável companheira da vida quotidiana, mas que, com as invenções modernas — como a eletricidade, telefone, rádio, cinema, bicicletas, automóveis etc. — entrou naquela bela época a mania da velocidade e com isso a mudança nas tradições de família, no bom trato social, nas boas maneiras. Em síntese: entra o progresso técnico e a cortesia se retira.


Belle Époque — esplendores e contradições 

Transcorrida entre 1870 e 1914, foi uma época brilhante, na qual infelizmente o mito do progresso gerou novos estilos de vida, incompatíveis com a moral, o esplendor e a cortesia 

Nelson R. Fragelli
Fonte: Revista Catolicismo, edição 729 (Setembro/2011)

Duas impressões vêm à mente da maior parte das pessoas quando pensam na Belle Époque. De um lado, as roupas femininas — saias longas, apertadas na cintura, chapéus largos, a sombrinha não podia faltar. E os trajes masculinos — fraque escuro e cartola. Ainda hoje, em ocasiões de gala, os homens usam esse traje como sendo o máximo da elegância. 

Indissociavelmente ligadas a tal modo de vestir ficaram na lembrança as boas maneiras e a cortesia. Eram nas festas, recepções, concertos que essa distinção de trato encontrava o ambiente próprio a se desenvolver e encantar a sociedade. Não havia maior prazer do que a conversa. 

A arte de conversar era então das mais cultivadas. No centro dessa arte estava a cortesia. Isto é, a consideração pela dignidade própria ao interlocutor, fosse ele sacerdote, nobre ou pessoa do povo. A escolha do assunto? — se é que se pode falar de escolha, pois ele surgia segundo a ocasião social, iluminando-se gradativamente, suavemente, como o acender das velas por lacaios em libré, lustre após lustre, naqueles salões. O desenvolvimento do assunto e a escolha das frases, isto sim, era circunstancial, fazendo da conversa uma obra de minuciosa composição temática. Uma obra que encantava. 
Joaquim Nabuco / Foram a amenidade e a elegância da vida social que tornaram a Belle Époque bela / Cena do dia da Primeira Comunhão em Paris
Ritos como numa liturgia temporal 
Que críticas não se deviam fazer em determinado ambiente? Ou em que medida fazer elogios? Em caso de uma discussão, como manter a elevação da conversa? Caso se tratasse de convite para um jantar, por exemplo, que flores oferecer e com que traje comparecer? Como se servir dos talheres, do guardanapo, dos vinhos? Terminada refeição, prescreviam os ritos sociais conhecer o momento oportuno de se retirar, a fim de nem sobrecarregar a hospitalidade dos anfitriões com uma conversa muito longa, nem dar a impressão de aborrecimento, retirando-se apressadamente. 

Todos os atos da vida social eram organizados segundo regras — flexíveis de acordo com o bom senso, é claro, mas que constituíam uma verdadeira liturgia da vida civil — cuja finalidade era dar ao próximo respeito, reverência e honra. Havia então uma ordem de valores que unia a todos da sociedade e essa ordem era superior aos interesses ou aos prazeres individuais. Essa liturgia era um resto da antiga caridade cristã, ensinada pela Igreja, e cujo modelo tinham sido as interlocuções dos monges nos mosteiros e nas abadias. Havia um momento da vida monacal dedicado à conversa — e ela era obra de santificação — que ensinava a dominar as inclinações e controlar a vontade própria em favor do próximo. Primava a caridade. 

Assim, na Belle Époque, foi a amenidade e a elegância da vida social que a tornaram bela. A vida de salão atraía irresistivelmente a todos, porque no contacto humano a cortesia dá um prazer durável. A cortesia é o melhor portador de respeito e amizade: dois sentimentos que confortam a alma. A distinção orienta o homem no sentido diáfano do anjo. 

Um episódio muito ilustrativo da época 
Talvez um exemplo faça luz sobre a cortesia de então. Nos primeiros anos do século XX, em plena Belle Époque, chefiava Joaquim Nabuco a Missão Diplomática do Brasil em Londres. Pertencente a uma família de políticos, intelectual de renome, tomado por abstrações filosóficas e políticas, Nabuco era conhecido por suas distrações. 

Tendo recebido convite, belamente impresso, para jantar em casa de outro embaixador, esforçou-se por chegar à hora, pois embora a pontualidade não estivesse de modo algum em seus hábitos, na Inglaterra ela sempre foi rigorosamente exigida. Recebido pontualmente pelo mordomo, teve entretanto de esperar um tempo mais longo do que habitual até que aparecesse o embaixador, acompanhado de sua senhora. Amabilíssimos, contentes com a presença de Nabuco, mestres na arte de receber, incitaram-no a falar — desde sobre florestas exóticas do Brasil até os movimentos sociais da recente República — o que muito lhe agradou. Terminados o jantar e a animada conversa, o casal o acompanhou até a saída, e ao abrir-lhe a porta do cabriolé, disse então o diplomático anfitrião, com ligeira inclinação: “Prezado Doutor Nabuco, segundo o convite que tivemos a honra de lhe enviar, nós o aguardamos então, amanhã, para o jantar”. Nabuco tinha se enganado de data e comparecido um dia antes... 

Salões e a nobre arte da conversa 
Não surpreende que, em razão dessa amenidade de trato, nas grandes cidades européias os salões se multiplicavam em todas as classes sociais. A elite, em seus palácios, discutia arte e literatura, ambas em rápida transformação. Política era também um tema central. Monarquistas afeitos às belas e boas tradições enfrentavam os republicanos imbuídos de suas idéias de progresso e reformas sociais. Os salões burgueses se reuniam nos cafés. Escritores e poetas frequentavam cafés literários; professores e cientistas os cafés universitários. As novidades científicas empolgavam, pois as descobertas e invenções se multiplicavam. Na medicina surgiam novos remédios e métodos cirúrgicos. Em todos esses salões cintilavam inteligências. Quando o clima permitia, sobretudo na primavera e no verão, concertos e espetáculos ao ar livre reuniam nos grandes parques e jardins pessoas provenientes dos mais variados salões. Paris e Berlim ofereciam jardins cujo elevado bom gosto se refletia para os paulistanos no Parque da Luz e no Parque Antarctica, e para os cariocas na Praça Paris.

“Salões” nas pequenas cidades e aldeias 
Havia também “salões” — talvez os mais autênticos — nas pequenas cidades e nas aldeias. À saída da Missa, pequenos grupos de pessoas se reuniam num café ou em casa de uma delas, quando não os recebia o chefe político local. A literatura, as artes, a ciência não constituíam os grandes temas das conversas. O centro das atenções era a vida do lugar. Uma cabra desaparecida, uma onça vista à noite ao lado do curral, o incêndio no paiol do vizinho, a chegada do novo pároco, rumores de que ladrões vindos de longe rondavam a região, narrativas de caçadas eram assuntos próprios a inflamar as conversas. Por vezes as reuniões se davam também durante a preparação das festas religiosas ou das procissões solenes. Desses encontros até crianças participavam, ouvindo silenciosamente, aprendendo com os mais velhos. Não havia rádio. A televisão estava ainda mais distante. Não havia, portanto, a excitação das novidades e a ânsia comercial despertada pela propaganda. As pessoas assim se preservavam, conservando o caráter autêntico de sua família e de sua região, sendo cada uma delas uma personalidade rica em particularidades. Precisamente esta riqueza tornava interessante o contacto, pois de que vale encontrar-se com pessoas padronizadas pela propaganda, tal como cada um dos outros? Se nesses “salões” a delicadeza cortês e as sutilezas de linguagem podiam não ser a nota dominante, como na capital, a autenticidade das almas oferecia uma variedade de caracteres também ela encantadora. Este esplendor das relações sociais conferiu à Belle Époque seu qualificativo de bela, tornando-a inesquecível. 
As primeiras bicicletas / Invenções transformaram profundamente a sociedade da Belle Époque / O telégrafo e o telefone A brutalidade da Guerra sufocou na lama das trincheiras e nos gazes mortíferos a beleza daquela época
Invenções modernas e mudanças sociais 
Entretanto, havia o outro lado — realidade contraditória com o encanto social da Belle Époque. Ela representa a segunda impressão que logo vem à lembrança, ainda hoje, quando pensamos naquele período entre 1870-1914. Essa realidade se apresentou insidiosamente às pessoas de então, sob a máscara atraente do enorme progresso técnico. As cidades grandes foram as primeiras a adotar as invenções: eletricidade, telefone, rádio, cinema, bicicletas, automóveis. As conquistas da tecnologia entusiasmavam. Os olhos se enchiam de lágrimas ao verem os primeiros balões dirigíveis contornar as torres das catedrais ou ao se ter notícia, na Patagônia ou no Saara, da vitória japonesa em Port Arthur, no momento em que as armas ainda fumegavam: o telégrafo dava ao homem um novo senso de sua presença na Terra. Acreditava-se que a máquina a vapor e a eletricidade dariam ao mundo uma forma de felicidade nunca antes obtida.

Acontece que o progresso técnico trazia em seu bojo profundas mudanças sociais e morais, dele inseparáveis. Poucos viram esse perigo. Desejava-se juntar ao esplendor social os confortos trazidos pela técnica. 

Mas a máquina, trazendo velocidades e a produção em massa, minava a sociedade. O trem — e logo depois o automóvel — trouxe o gosto pelas viagens — nascia o turismo, visitavam-se estações balneárias e montanhas desconhecidas da maioria. Consequentemente incrementava-se o esporte e com ele a modificação dos trajes, adaptados às novas maneiras e sempre tendentes a considerar como aceitável o que até pouco antes era visto como imoral. O esporte separava as gerações, pois os mais velhos ainda não os praticavam em razão das normas do decoro: como era ridículo ver alguém de fraque e cartola pedalando bicicletas! Com o esporte vieram as danças cujo ritmo parecia competir com a velocidade das máquinas, acelerando-se sempre, sempre mais sensuais. Do minueto passara-se à valsa, da valsa ao charleston e ao tango. A indústria empregava moças e elas, ainda então ligadas aos círculos da família paterna até o casamento, passaram a trabalhar como operárias ou secretárias, tornadas independes pelo salário. Aumentavam as uniões fora dos laços sagrados do matrimônio cristão, apareciam os primeiros casos de divórcio, caía a prática religiosa. Em vários países europeus aumentava a prostituição. A glorificação das velocidades intoxicou os espíritos que passaram a se distanciar de toda forma de recolhimento. Entre os balões dirigíveis e a torre da catedral, esta passou a representar o passado petrificado enquanto os dirigíveis simbolizavam o futuro, o movimento, pois eles permitiam o descortino de horizontes mais vastos. 

Utopia socialista, desluzimento de uma bela época 
Politicamente, os republicanos oriundos da Revolução Francesa viam com simpatia os novos costumes. Sabiam que a decadência moral dos anos precedentes à Revolução de 1789 tinha sido uma das principais causas da vitória revolucionária. Partidários do progresso e da técnica consideravam os restos de tradições cristãs como incompatíveis com os novos tempos. Essa mesma corrente evoluía, aos poucos, rumo à aceitação da utopia socialista. 

Tanto os aficionados à elevação social daqueles anos, na qual viam um ideal a ser conservado, quanto os partidários do progresso tiveram enorme sobressalto com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, em meados de 1914. Os primeiros viam no terrível conflito a destruição de tradições tão preciosas e belas. Os outros, por reconhecer no progresso o criador de máquinas mortíferas nunca antes fabricadas. A brutalidade da Guerra sufocou na lama das trincheiras e nos gazes mortíferos a beleza daquela época. O mundo nunca mais voltou a ser o que era. O esplendor social empalideceu para em seguida entrar em obscuro ocaso. Hoje, em meio às frustrações de uma sociedade altamente tecnológica e vazia de conteúdo moral e religioso, um número crescente de pessoas admira o esplendor e lamenta o desaparecimento daquela doce liturgia que no convívio da Belle Époque regulava os atos de cortesia. 

23 de julho de 2012

NÃO DEIXE A CORTESIA MORRER !

Cortesmente, o Príncipe William protege sua esposa, Kate Middleton, da chuva
O portal www.ig.com.br , na sua seção “Comportamento”, publicou ontem um muito interessante artigo a respeito de um procedimento cada vez mais esquecido: a CORTESIA. 

Lembra dela? Embora a palavra exista nos dicionários, existe ela ainda em nosso dia-a-dia? Se desaparecer a cortesia no trato entre as pessoas, não será este verbete excluído até dos dicionários? 

Descortesia: Um homem leva apenas
uma caixinha, deixando a mulher
com o pesado fardo 
Poderíamos responder que a CORTESIA não morreu, mas encontra-se na UTI... Precisamos salvá-la! Como? Praticando este gesto, que, em certo sentido, poder-se-ia chamar de “virtude da cortesia”. Se os pais derem bom exemplo sendo corteses; se os cônjuges se respeitarem mutuamente, procurando ser gentis, polidos no trato etc., os filhos os imitarão. Se os pais forem descorteses, como estranhar que seus filhos tenham um trato abrutalhado? Como estranhar que eles sejam grosseiros em relação aos amigos? 

Espero poder voltar a tratar deste importante tema para as famílias. Enquanto isso, eu convido os leitores deste blog a fazerem uma campanha em busca da cortesia perdida! Um dos modos seria propagando este post com o artigo abaixo, comentando com os seus próximos etc.
Cortesia saiu de moda?

Gentilezas que vão além das regras da boa educação parecem cada vez mais raras no dia a dia. Há como trazê-las de volta? 

Verônica Mambrini  Redação  22/07/2012 08:00:0
www.ig.com.br 

Ninguém discute que a vida está mais rápida, agitada e cheia de informação. Também é fato consumado que as cidades grandes obrigam muita gente a viver espremida e estressada. Existe espaço nesse cenário caótico para a cortesia ou ela caiu de moda? 

“Eu não diria que ela saiu de moda, mas que está um pouco esquecida”, diz Vanessa Barone, consultora de etiqueta e autora do livro “Descomplique – um guia de convivência e elegância” (editora Leya). “É um retrato da nossa época. O excesso de gente, de trabalho, os horários apertados, tudo isso faz você pensar em si mesmo, antes de mais nada”, acredita a consultora. “Mas todo mundo valoriza a cortesia e quem é cortês.” 

Parece difícil ser cortês no meio de tanta correria, mas Vanessa acha perfeitamente possível. “Cortesia não faz você perder tempo. Quanto segundos você acha que perderia em 24 horas se tivesse a cortesia de parar antes da faixa para o pedestre atravessar em paz e ainda cumprimentá-lo com um sorriso? Quase nada.” Para ela, cortesia é um treino: quanto mais se pratica, mais internalizada fica e, portanto, mais natural e fácil. 

A professora de história, Flor Martha Ferreira, que dá aulas de bons modos e cortesia para crianças e adolescentes há dez anos, explica que, apesar de usarmos a cortesia como sinônimo de bons modos, o termo vem do comportamento dos nobres na corte e estaria ligado diretamente a um jeito 'civilizado' de viver em grupo. O jeito elegante dos nobres e dos fidalgos. “Neste sentido, não pode ser confundida com boas maneiras ou regrinhas sociais, cortesia tem a ver com valores humanos”, conclui a professora. De fato, o dicionário Houaiss, define cortês como: adj.: 1 da corte (‘cidade’) 2 refinado, civilizado, urbanizado 3 fig. delicado nas palavras e ações; gentil.

“Perdemos os hábitos porque perdemos a consideração pela pessoa humana; se quisermos recuperar a cortesia, teremos que priorizar as pessoas mais do que as coisas, o bem estar de todos, mais do que os interesses pessoais, o altruísmo, mais do que o egoísmo", acredita Flor Martha. 

Qual a diferença, na prática, então? “Uma pessoa corrupta pode até dizer “obrigado”, ter gestos educados ou agradar com gentilezas, mas não é cortês porque não tem respeito pelo outro”, exemplifica Flor. Em geral, a cortesia anda em paralelo com os valores religiosos e morais. A base da cortesia no mundo ocidental são os preceitos cristãos de caridade e de amor ao próximo, avalia a professora. 

Ela acredita que seja possível fazer um resgate por esse caminho. “É só ensinar boas maneiras junto com virtudes humanas”, afirma Flor. E quanto mais cedo, melhor, de acordo com Vanessa: “Depois de adulto, você pode ensinar regras de etiqueta, mas não é tão natural. Cortesia é algo que passa pelo processo da educação e pelos exemplos. Não adianta querer que seu filho seja cortês, se você não for”, diz a escritora. 

E quem está ao nosso redor? Se você já está fazendo sua parte, vale a pena dar uma “cutucadinha” delicada, ensina Vanesssa. “Quem entra no elevador antes de você sair deixa claro que não está vendo você. Tem gente que não enxerga o outro. É impressionante. Eu não consigo esconder meu descontentamento. Costumo fazer cara feia ou dar um toque verbal, de leve.” Sempre, claro, sem ofender nem atacar ninguém. 

As regras valem também nos relacionamentos mais íntimos. A mulher que reclama que seu companheiro não é cortês, por exemplo, pode tomar a iniciativa. “Eu diria que a mulher deve dar uma paradinha antes de entrar no elevador para dar uma chance do parceiro fazer um gesto cortês.”, explica a autora de “Descomplique”. “Se ele não fizer o gesto educado, o problema não é dela. Mas ao menos ela cobrou respeito.” 

Esperar o comportamento delicado e gentil é uma forma de se respeitar. “Quando seu parceiro não enxerga você dessa forma delicada, vale a pena discutir esse ponto da relação. Se você apóia a pessoa, é justo esperar que ela ofereça ajuda com a sacola mais pesada, por exemplo”, afirma Vanessa. E não é questão do outro ter ou não capacidade de carregar a sacola, Trata-se de mostrar que você se importa com seu bem-estar. 

Ao seguir esses princípios, a cortesia fica mais natural e passa a fazer parte do dia a dia. Sem nem precisar decorar regrinhas como quem deve andar do lado mais externo de uma calçada, quem deve levantar primeiro para cumprimentar um conhecido ou a quem cabe oferecer ajuda para carregar compras pesadas.