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14 de fevereiro de 2018

QUARTA FEIRA DE CINZAS


Dia de jejum e abstinência de carne. 

Durante a Quaresma, a Igreja preparava os catecúmenos para o batismo solene e tinha especial empenho na reconciliação de pecadores públicos. Estes recebiam as cinzas, símbolo da penitência pelo pecado. 

Posteriormente a Santa Igreja começou a aplicá-las também a todos os fiéis, na Quarta-Feira de Cinzas, para que, depois dos descalabros e orgias do Carnaval, eles tivessem presente o pensamento da morte e da consequência do pecado como preparação para a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. 

Reza a Liturgia: “Memento homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris” (“Lembra-te homem que és pó e que em pó hás de tornar”).

3 de fevereiro de 2018

DEUS NÃO MORRE!


Plinio Maria Solimeo

Há vários tipos de ateus. O dicionário Houaiss os define como pessoas que não creem em Deus ou nos deuses; ateístas. E, no sentido pejorativo, os que ou aqueles que não revelam respeito ou deferência para com as crenças religiosas alheias; ímpios, hereges. Poder-se-ia acrescentar “os meramente indiferentes em matéria de religião”, que representam a maioria.

Nesse sentido, poder-se-ia afirmar que o emblemático Juliano, o Apóstata [busto ao lado], tido como ateu afamado que tentou exterminar o cristianismo ainda dando os seus primeiros passos do Império Romano, embora se dissesse ateu, no fundo acreditava em Deus, e O odiava. Consta que, ao morrer vítima de uma flechada durante batalha, exclamou: “Venceste, Galileu!”

Poderíamos dizer o mesmo do regime comunista que procurou exterminar do seu “império” toda ideia de Deus e, por conseguinte de religião, como prejudiciais à sua ideologia e métodos de doutrinação. Interessante artigo publicado no site católico espanhol, Religión en Libertad, traz o sugestivo título: “Há 100 anos, o Estado Soviético fuzilava Deus: hoje, 7 entre 10 pessoas declaram sua crença n’Ele”.

Escreve o articulista que há 100 anos, no dia 16 de janeiro de 1918, houve um “Juízo do Estado Soviético contra Deus”, que acabou de modo sumário no dia seguinte: Deus foi condenado à morte, tendo sido disparados cinco rajadas de metralhadora rumo ao céu. À época “os bolcheviques se encontravam apenas há três meses no poder, e controlavam Moscou, São Petersburgo e a zona central da Rússia. Não obteriam o controle total do país senão em outubro de 1922, com a conquista da distante Vladivostok e o fim da guerra civil. Em janeiro de 1918 não havia ainda começado a matança de clérigos. ‘Fuzilar Deus’ era um gesto simbólico e humilhante para ir mostrando [à população] a nova situação”

O responsável por essa pantomina foi Anatóli Lunatcharski [foto ao lado], um intelectual que gostava de encenação. Assim, no dia marcado, diante de numeroso público moscovita, ocorreu a primeira seção do juízo contra Deus. Durante mais de cinco horas, foram lidas as acusações do “povo russo, em representação da espécie humana”, contra “o réu”. A mais protuberante delas: Deus é acusado de “genocídio”. 

Como era impossível personificar o réu, foi colocado num banquinho um exemplar da Bíblia para representá-Lo. Os acusadores “apresentaram” então grande quantidade de provas, baseadas em testemunhos históricos, contra o “réu”. Para demonstrar imparcialidade no julgamento, foram nomeados defensores para o réu, escolhidos pelo Estado Soviético.

Aqueles ímpios “defensores” pediam a absolvição do “réu”, pois ele padecia de “grave demência e transtornos psíquicos”, não sendo, portanto, responsável pelos seus atos. Não podia ir mais longe o burlesco daquela encenação. O resultado não poderia ter sido diferente: Deus foi declarado culpado de todos os delitos, sobretudo, de genocídio e crimes contra a humanidade.

Lunatcharski — com pompa teatral — proclamou a sentença: “Deus morrerá fuzilado amanhã dia 17 de janeiro, sem possibilidade de interpor qualquer tipo de recurso, nem ocorrer o mínimo atraso”. Assim se passou. No dia seguinte houve a “execução” de Deus com o disparo de cinco rajadas de metralhadoras contra o céu... 

*       *       * 
Ora, diz o articulista: “Uma vez que se mata Deus, matar homens não custa nada”. Daí os milhões de vítimas dos regimes comunistas. Essa política ferozmente antirreligiosa, entretanto, se mostrou contraproducente. De modo que, por ocasião da morte de Lenin em 1924, O.Y. Liovin, especialista em História da Igreja Russa, pôde dizer: 

“Ferir os sentimentos religiosos dos crentes, profanar o sagrado, fechar os templos, reprimir o clero [...] tudo isso, de fato, serviu para unir os crentes e provocar um renascimento religioso. De modo que, depois de uma política de carga de cavalaria, o regime recomendou adotar a política de assédio a longo prazo”

Os comunistas viram a necessidade urgente de mudar a tática, seguindo meio mais eficaz de “descristianizar” o povo. Uma circular do Partido, de 5-9-1924, ordenava:

“A propaganda antirreligiosa deve ser levada em forma de explicações das ciências naturais e políticas, que minem a fé em deus, e desmascarem, com fatos concretos, a fraude e a avareza dos milagreiros, curadores. É preciso evitar a agitação antirreligiosa massiva [...] que insulte e fira os sentimentos da parte crente da população”

Por isso, dizemos, o melhor método que encontraram no Ocidente foi o da infiltração comunista nos meios católicos, e inclusive eclesiásticos. Os sem-Deus chegaram à conclusão diabólica de que, a longo prazo, para descristianizar a população, o melhor era começar pelas crianças, nas escolas.

Assim, em março de 1929, antes da retomada das matanças, Lunatcharski, que era então Ministro da Educação, escrevia no jornal “Izvestia”: 

“Na tarefa da educação [...] entra a dissipação de superstições de toda classe, e uma luta sem quartel contra todo obscurantismo, herança do passado, estorvo para a criação do futuro. Em concreto, a escola [...] não pode ser alheia à luta contra a religião, em suas formas velhas ou novas”.

Ora, para os comunistas conseguirem sucesso nessa empreitada, necessitavam de professores ateus. Assim Lunatcharski continua: 

“O Comissariado Popular da Educação [...] declara firmemente que, ter mestres crentes na escola soviética, é uma grave contradição, e que os departamentos de educação devem utilizar qualquer expediente para substituí-los por outros de veio antirreligioso. [...] A escola terá que aplicar seu esforço para dissuadir às crianças de visitar a igreja e as variadas cerimônias religiosas e [...] oferecer-lhes, ao mesmo tempo, um equivalente na escola, algo organizado, algo antirreligioso e ao mesmo tempo atraente”

Infelizmente é o que ocorre em nossas escolas onde, mestres ateus tentam impingir nos seus incautos alunos teorias como a absurda Ideologia de Gênero, de “família” homoafetiva e outros absurdos. 

Apesar de todo esforço de ateização, o sentimento religioso é tão enraizado nas pessoas que, no censo russo de 1937, depois de 20 anos de comunismo e repressão antirreligiosa, de 30 milhões de cidadãos analfabetos maiores de 16 anos, 84% (mais de 25 milhões), ainda se declaravam crentes.

E de 68,5 milhões de alfabetizados, 45% (mais de 30 milhões), ainda criam em Deus. É curioso notar que, entre os analfabetos, a proporção dos crentes foi mais expressiva do que a dos alfabetizados. Bons tempos em que os canais de televisão — muito pouco crédulos — não invadiam a privacidade do lar, até nas mais remotas regiões, para modificar mentalidades com os obscenos conteúdos de novelas. 

Isso deixou os bolcheviques furiosos, e recomeçaram então as matanças. Entre os anos 1937 e 1938, houve 100 mil execuções e 200 mil deportações. De 1939 a 1942, como já havia pouca gente para matar, houve “só” 4 mil execuções. Nesse último ano, como Stalin precisava gente para a guerra, parou a perseguição sangrenta. 

O artigo não apresenta dados mais recentes, mas cita uma pesquisa da agência WinGallup, de 2017, na qual consta: de cada 10 pessoas no mundo, 7 creem em Deus. Isso praticamente se inverte na China, onde prevalece a ditadura comunista que persegue a religião: de cada 10 chineses, 7 se declaram ateus. 

Por fim, assinalo que essa farsa sacrílega de “matar Deus” foi imitada pelos comunistas espanhóis durante a guerra civil espanhola de 1936. Um grupo deles foi até o Cerro de los Ángeles [foto ao lado], nos arredores de Madrid, onde se encontrava uma grande imagem do Sagrado Coração de Jesus, e “a fuzilaram”, como se se tratasse de pessoa viva, mostrando bem que aprenderam a lição com seus mestres do Kremlin.

31 de janeiro de 2018

SÃO JOÃO BOSCO

São João Bosco em 1887 – última fotografia do santo.


Falecido em 31 de janeiro de 1888, celebra-se, neste dia 31 de janeiro de 2018, 130 anos do passamento à vida eterna do grande São João Bosco. Em memória desse veneradíssimo Apóstolo da juventude, reproduzimos a seguir um artigo de Plinio Corrêa de Oliveira, publicado no “Legionário” de 30 de janeiro de 1938. 


Plinio Corrêa de Oliveira 

Quando o mundo se afasta da Igreja, cai inevitavelmente nos erros mais grosseiros da inteligência, levado pela dissolução dos seus costumes. De fato, os maiores erros da humanidade provieram não da verdadeira ciência, mas dos pecados dos cientistas, que, deturpando suas inteligências, os conduziram ao erro, quer insensivelmente, quer propositalmente, como meio de desculpar as suas faltas. 

É por isso que costuma aparecer livros e teorias pretendendo constituir a moral independente de Deus, muitas vezes mascarando-a com o endeusamento da vontade. Ora, a vontade é verdadeiramente maravilhosa, e reforma verdadeiramente o homem quando coopera com a graça divina, porém é absolutamente impotente quando a despreza. 

O homem verdadeiramente honesto é o católico verdadeiro, pois são tantas as paixões que procuram desviá-lo do cumprimento do dever, que é impossível observar todas as suas obrigações, sem a recepção frequente dos sacramentos.

E só o católico verdadeiro, que recebe frequentemente os Sacramentos e corresponde fielmente à graça de Deus com inquebrantável força de vontade, consegue cumprir escrupulosamente os ensinamentos de Nosso Senhor Jesus Cristo. 


São João Bosco nos revela o quanto pode a graça, quando de nossa parte correspondemos fielmente a ela. Dotado de grande força de vontade, desde pequeno alimentava o desejo de ser padre, embora a extrema miséria de sua família e a oposição do irmão levantassem uma barreira que pareceria intransponível a quem confiasse apenas em suas próprias forças. 

São João Bosco, no entanto, tinha toda confiança em Nosso Senhor Jesus Cristo, e tudo suportou para corresponder à vocação que possuía pelo sacerdócio. 

Depois de ordenado, São João Bosco resolveu dedicar-se inteiramente às crianças abandonadas, reunindo-as determinados dias em “oratórios” como ele designava essas reuniões infantis, para rezarem, divertirem-se em brinquedos honestos e aprenderem o catecismo. 

Por suas crianças, São João Bosco de tudo era capaz. Tanto afrontava os poderosos da época, em geral inimigos da Igreja, como esforçava-se em aprender os malabarismos de um artista de circo que com sua arte desviava os meninos do seu “oratório”. 

Dentro em pouco, tão numerosas eram as crianças que corriam aos “oratórios”, que São João Bosco concebeu a ideia da fundação de uma nova Sociedade religiosa que se dedicasse exclusivamente à educação da juventude. Animado pelo Bem-aventurado (hoje Santo, n.d.c.) José Cafasso e pelo Papa Pio IX fundou a “Pia Sociedade de São Francisco de Salles” e o “Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora”. 


Num sonho, São João Bosco 
teve a revelação de que sua 
imagem estaria acima da estátua 
de bronze de São Pedro e do 
medalhão/mosaico do Papa Pio IX. 
Constrangido com tal glória, 
ele acordou e o sonho de desfez. 
Mas hoje, na nave central da Basílica 
de São Pedro em Roma, 
essa revelação encontra-se imortalizada 
em mármore, como se vê nesta foto. 
A Estátua mede 4.80 m e foi realizada 
pelo famoso escultor Pietro Canonica 
(1869 - 1959) [Foto PRC].
Mais tarde, numa antevisão da “ação católica” instituiu a obra dos cooperadores salesianos, composto quase que exclusivamente de leigos e que tinham por obrigação dedicarem-se às obras de caridade e prestar todo auxílio possível aos vigários, Bispos e ao Santo Padre. 

Apesar de inteiramente dedicado aos meninos, São João Bosco quis que de sua casa partissem religiosos para as missões em busca de novas almas para Cristo. Os primeiros salesianos que partiram para as missões eram chefiados por João Cagliero e se dirigiram à América Meridional. Hoje, eles se acham espalhados por todas as missões do mundo. 

São João Bosco tinha por lema na vida “Dai-me almas e ficai com o resto”, e durante toda sua existência preocupou-se exclusivamente em ganhar almas para o Céu, não poupando sacrifícios e doçura de trato para conseguir a amizade de seus meninos. 

Quando aos 31 de janeiro de 1888, morreu o Santo das crianças, foi extraordinário o número de meninos e ex-alunos de São João Bosco que acorreram ao seu enterro. Desde logo a fama de sua santidade espalhou-se por toda parte. Instaurado o processo para sua beatificação em 1907, Pio XI em 1934 incluía-o entre os Santos da Igreja Católica. 

São João Bosco nada tinha de seu, no começo de sua vida, mas confiado exclusivamente na Providência divina, e cooperando fielmente com a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, construiu igrejas, colégios, fundou duas congregações religiosas, ganhou inúmeras almas para o Céu e, o que vale mais que tudo isto, santificou-se. Que Ele, continuando no Céu seu intenso apostolado, conquiste os brasileiros para a Igreja, a fim de que o Brasil se faça uma nação verdadeiramente católica, merecedora das bênçãos de Nosso Senhor Jesus Cristo.

23 de dezembro de 2017

A noite entre todas sagrada

Nas pompas festivas da Missa do Galo, as famílias, os povos, as nações se sentiam ungidos pelo júbilo sacral descido do mais alto dos céus 


Plinio Corrêa de Oliveira (*)

O Advento, período que no ano litúrgico compreende as quatro semanas antecedentes ao Natal, constituía para a Cristandade uma parte do ano especialmente voltada para o recolhimento, para uma discreta compunção e para a esperança palpitante do grande júbilo que o nascimento do Messias trará. Todos se preparavam assim para acolher o Menino-Deus que, no virginal sacrário materno, se acercava, dia a dia mais, do momento bendito em que iniciaria sua convivência salvífica com os homens.  

Nessa atmosfera densa e vividamente religiosa, a tônica se ia gradualmente deslocando. À medida que se aproximava a noite entre todas sagrada, a compunção ia cedendo lugar à alegria. Até o momento em que, nas pompas festivas da Missa do Galo, as famílias, os povos, as nações se sentiam ungidos pelo júbilo sacral descido do mais alto dos céus; e em cada cidade, em cada lar, no interior de cada alma se difundia, como um bálsamo de celeste odor, a impressão de que o Príncipe da Paz, o Deus Forte, o Leão de Judá, o Emanuel, mais uma vez acabava de nascer. Stille Nacht, Heilige Nacht... a canção célebre que se transpôs para nosso vernáculo, de modo menos expressivo, como Noite Feliz.  
De toda essa preparação, o que restou? Do Advento, quem hoje cogita senão uma minoria ínfima? E dentro dessa minoria ínfima, quantos o fazem sob a influência da verdadeira teologia católica e tradicional, e não das teologias ambíguas e desvairadas que sacodem hoje em dia o mundo cristão, como se fossem convulsões de febre?

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Excertos do artigo de Plinio Corrêa de Oliveira, “No crepúsculo do sol de justiça”, publicado na “Folha de S. Paulo” em 1º-1-1979.

3 de dezembro de 2017

Estampa do “Senhor dos Milagres” permanece intacta após 10 dias sob a água


Plinio Solimeo 

No dia 27 de março deste ano, em consequência das chuvas torrenciais que caíram sobre o Peru, o Rio Piura transbordou e inundou parte da cidade do mesmo nome. Entre os edifícios afetados, estava a agência local do Banco de Crédito do Peru (BCP). A água atingiu 50 cm de altura no andar térreo, inundando o seu porão. Nele se encontrava emoldurada uma estampa em cartão do Senhor dos Milagres, piedosa invocação muito venerada no país andino, que ficou durante dez dias sob a água e o lodo, e foi depois encontrada intacta. 

O sucedido em Piura 


Carlos Miano Plaza, gerente regional do BCP em Piura, afirma que o porão do banco se encontra a mais de quatro metros sob o andar térreo, pelo que ficou totalmente inundado de água e de lodo do rio. [Na foto ao lado, à esquerda o BCP inundado]

Atesta ele que, durante cinco dias, procuraram evacuar a água das áreas inundadas. Depois tiveram de remover os escombros e os móveis que haviam se deslocado com a água, juntamente com uma grande quantidade de documentação, artigos de escritório etc., “que, pelo tempo decorrido, estavam em sua grande maioria destruídos ou seriamente danificados”.

“Sucedeu então que, duas semanas depois, na terça feira, 11 de abril, véspera da Semana Santa deste ano, os trabalhadores do banco desceram ao porão e encontraram o quadro do Senhor dos Milagres ‘molhado e com barro’”. Diz ele que, “depois de limpar a imagem, que é de papelão, esta se encontrava intacta, apesar de ter estado tantos dias debaixo da água e do lodo, e não estar protegida nem sequer por um vidro, embora em sua moldura de madeira se possa evidenciar o desgaste produzido pelo sucedido”. [foto ao lado]

Diante desse fato tão singular, a gerente do banco pediu ao setor de Imagem e Cultura do BCP que “nos conceda uma verba para confeccionar uma urna de vidro, para preservar a imagem com sua moldura original, tal qual ficou depois do desastre”. 

Acrescenta que a estampa “fora comprada em 2014, com a finalidade de iniciar uma peregrinação pelas diferentes agências do Banco de Crédito de Piura, peregrinação essa que se tem mantido constante desde essa data e que, ano a ano, culmina com uma grande homenagem ao Senhor dos Milagres, que passa em procissão em frente de nossa sucursal de Piura”.

Isso mostra a fé do povo peruano. Já imaginaram um banco aqui no Brasil organizar uma peregrinação de alguma imagem religiosa por todas suas agências, a qual culminasse com uma procissão? 

Como era natural, também se pronunciou sobre tão portentoso sucesso o arcebispo da cidade, que expressou seu empenho para que “todos os que estiveram envolvidos neste fato prodigioso documentem o seu testemunho para a posteridade, porque no final passarão as gerações, passaremos todos, o banco seguirá, mas ficará esta crônica”

Origem da invocação do Senhor dos Milagres 


O “Senhor dos Milagres” é uma devoção de tal modo popular no Peru, que sua procissão em 28 de outubro pelas ruas de Lima uma das maiores do mundo. [foto acima

Segundo a tradição, trata-se de uma representação de Jesus Crucificado pintada numa parede de adobe por um escravo vindo da Angola e que se encontra atualmente no santuário das “Nazarenas” em Lima. [foto ao lado

Essa pintura se tornou muito venerada depois de um terremoto ocorrido no dia 20 de outubro de 1687, o qual, segundo cronistas da época, durou quinze minutos e arrasou Lima e a vizinha cidade de Callao. O tremor se repetiu duas horas depois, danificando a ermida onde a pintura se encontrava. Entretanto, para surpresa geral, a parede onde ela estava, que havia ruído, se recompôs milagrosamente. 

Testemunhando o milagre, um devoto do piedoso quadro, Sebastião de Antuñano, mandou fazer uma réplica do mesmo, a qual saiu então pela primeira vez em procissão pelas ruas da cidade [foto ao lado]. O fato se repetiu outras vezes, quase sempre depois de algum tremor de terra.

Em reconhecimento pela constante proteção do Senhor dos Milagres durante esses terremotos na capital e na região, o Cabido de Lima, por sugestão de Antuñano e de outros devotos, declarou o venerando Cristo “Patrono jurado pela Cidade dos Reis [antigo nome de Lima] contra os tremores que assolam a Terra”, oficializando assim esse culto também entre os habitantes de Lima.

Mais tarde, junto à capela onde se venerava o Senhor dos Milagres, foi fundado o convento das “Nazarenas”, as quais se vestiam de roxo por devoção a Cristo Nazareno. A instituição da festa recebeu em 1727 a devida aprovação do Papa Bento XIII do Rei da Espanha, Felipe V, estendendo-se também para a transformação do convento em mosteiro de clausura agregado à Ordem das Carmelitas Descalças. 

Lima sofreu em 1746 o mais destruidor terremodo de sua história. No entanto, a parede em que estava o Senhor dos Milagres permaneceu em pé. Quando uma réplica de sua veneranda imagem saiu em procissão pelas ruas da cidade, a terra parou de tremer. Isso fez crescer sua devoção e levou à construção de uma igreja no local da capela original.

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Fontes consultadas: 
https://www.aciprensa.com/noticias/imagen-de-carton-del-senor-de-los-milagros-resistio-intacta-10-dias-bajo-el-agua-59025?utm_source=boletin&utm_medium=email&utm_campaign=noticias_del_dia 
https://es.wikipedia.org/wiki/Se%C3%B1or_de_los_Milagros_(Lima)

25 de novembro de 2017

CÍRIO DE NAZARÉ

A maior festa religiosa católica do Brasil e uma das maiores do mundo

Carlos Sodré Lanna 

No segundo domingo de outubro realiza-se anualmente em Belém do Pará uma grande procissão do Círio de Nazaré. Na realidade, as celebrações começam uma semana antes e terminam uma semana depois. 

Círio tem sua origem na palavra latina cereus, que significa vela grande, tendo sua festa no Pará sido declarada Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO em dezembro de 2013. 

Segundo uma antiga tradição, a imagem original de Nossa Senhora de Nazaré, venerada na cidade portuguesa do mesmo nome, teria saído no ano 361 de Nazaré da Galileia, onde a esculpira o próprio São José, na casa onde morava a Sagrada Família. Entalhada em madeira escura, a Virgem Maria aparece sentada, com o Menino Jesus ao colo. 

Identificada como original desde os primeiros séculos do cristianismo, a histórica imagem percorreu a Cristandade a partir de Israel, indo parar nas mãos de São Jerônimo que, temeroso por sua segurança devido aos ataques dos inimigos da fé católica, enviou-a a Santo Agostinho no Norte da África. Mais tarde ela foi ter nas mãos dos monges agostinianos, que a levaram para Mérida, na Espanha. Por ocasião das invasões muçulmanas em terras hispânicas, ela foi escondida em um local de difícil acesso, ficando ali esquecida durante muito tempo. 

Posteriormente, devido a uma batalha, no ano 711 a imagem foi retirada de seu esconderijo e levada para Nazaré, em Portugal, onde também permaneceu escondida por um longo período no Pico de São Bartolomeu.

Em 1182, o nobre português Dom Fuas Roupinho participava de uma caçada naquele pico. Ao perseguir um cervo, seu cavalo esteve a ponto de cair em um precipício, quando ele invocou Nossa Senhora e foi salvo [quadro ao lado]. Em ação de graças, mandou edificar no local a Capela da Memória, onde os operários encarregados da construção descobriram a imagem. A notícia se espalhou, atraindo muitas pessoas, que passaram a acorrer ao local para venerá-la, operando-se muitos milagres. 

Este episódio está imortalizado em um dos vitrais da Basílica do Belém do Pará, onde um cavaleiro aparece perseguindo um cervo que cai em um precipício. 


Em 1377, Dom Fernando (1367-1383), Rei de Portugal, construiu um templo maior na cidade de Nazaré, o Santuário de Nossa Senhora de Nazaré [foto acima], para onde a imagem foi transferida. Desde então, na data no dia 8 de setembro de cada ano, os portugueses se reúnem no local para celebrar o Círio de Nazaré. 

A devoção à imagem cresceu com os milagres e graças alcançadas por seu intermédio. Diante dela rezou São Francisco Xavier antes de partir para o Oriente, e foram os padres jesuítas, seus irmãos de hábito, que trouxeram sua devoção para o Brasil em 1653. 

Nossa Senhora de Nazaré no Brasil 

A imagem de Nossa Senhora de Nazaré venerada em Belém do Pará [foto ao lado] é semelhante àquela celebrada no Círio português. Segundo antiga tradição, transcorria o ano 1700 quando o jovem Plácido José de Souza, andando pelas margens do igarapé de Utinga, onde se ergue hoje a Basílica Santuário em Belém do Pará , encontrou entre pedras e entulhos a pequena imagem de Nossa Senhora de Nazaré. 

Esculpida em madeira e com 28 cm de altura, Plácido a levou para casa, limpou-a e colocou-a em um altar improvisado. Conforme as narrativas da época, a imagem retornou várias vezes, sem explicação, ao local onde fora encontrada. Percebendo Plácido que se tratava de um desígnio sobrenatural de Nossa Senhora, promoveu então a construção ali de uma capela para abrigá-la. 

A divulgação deste milagre chamou a atenção não só dos habitantes da região, que frequentavam a capela para rezar, mas também do governador da capitania, Francisco Coutinho, que ordenou a remoção da imagem para a capela do palácio da cidade. Como sucedera com Plácido, a imagem também desapareceu mais de uma vez do palácio do governador para voltar ao nicho de sua capela. Desta maneira a devoção adquiriu um caráter oficial, tendo sido construída no mesmo local uma igreja, que se tornou hoje a Basílica de Nossa Senhora de Nazaré de Belém. 

Em 1773, o Bispo do Pará colocou a cidade de Belém sob a proteção de Nossa Senhora de Nazaré. Mandada a Portugal no início de 1774 para ser submetida a uma restauração, por ocasião de sua volta, ocorrida no mês de outubro do mesmo ano, a imagem foi levada em romaria pelos fiéis do porto até o santuário, com a participação do governador, do bispo e de autoridades civis e eclesiásticas, sob a escolta de tropas militares. Este foi considerado o primeiro Círio de Nazaré. 

As festividades do Círio em Belém 

As comemorações anuais do Círio em Belém compõem-se de várias etapas, que se estendem por quinze dias, perfazendo um total de 12 procissões oficiais. O principal evento ocorre no segundo domingo de outubro com a grande procissão do Círio, que tem reunido mais de dois milhões de pessoas na capital do Pará, hoje com um milhão e meio de habitantes. 

Conforme a tradição, ela sai bem cedo da Catedral de Belém e percorre cerca de cinco quilômetros até a Basílica Santuário de Nossa Senhora de Nazaré, percurso que pode durar até nove horas, como já ocorreu devido ao enorme número de participantes, ficando ali exposta para veneração pública durante quinze dias, na chamada Quadra Nazarena

Nesta procissão aparece um número enorme de pagadores de promessas oriundos de lugares distantes do Brasil, sobretudo do Norte e do Nordeste, que em sinal de agradecimento pelas graças e curas recebidas levam casas em miniatura, partes do corpo humano feitas com cera, sinais de milagres e miniaturas de barcos, sendo os círios e as velas os mais comuns. 

Durante todo o percurso a imagem de Nossa Senhora de Nazaré é objeto de grandes homenagens de todos os presentes, como chuvas de papéis picados, foguetes e fogos de artifícios, flores variadas, palmas vibrantes, diversos cânticos, executados até por corais e orquestras. 

Existe também o costume de preparar comidas típicas da Amazônia e região para os participantes das celebrações, as quais são postas em barracas próximas das maiores concentrações de público. 

As diversas romarias do Círio de Nazaré 

São 12 as procissões oficiais das celebrações do Círio de Nazaré: 
1) Translado em carro aberto da Basílica de Nazaré para Ananindeua-Marituba;
2) Romaria rodoviária em direção à Vila de Icoaraci, distrito de Belém; 
3) Romaria fluvial [foto ao lado] durante a qual a imagem é levada de barco pela baía de Guajará em direção a Belém; 
4) Moto-romaria do cais de Belém, na qual a imagem, em carro aberto, é seguida por motoqueiros até um colégio no centro de Belém, onde é celebrada uma missa; 
5) Transladação à noite, antes do Círio, à luz de velas, na Berlinda, carro da imagem de Nossa Senhora; 
6) Procissão do Círio, auge dos festejos, que tem reunido mais de dois milhões de participantes nos últimos 12 anos; 
7) Ciclo-romaria, a mais nova das procissões, que acontece desde 2004, a pedido da Federação dos Ciclistas do Pará; 
8) Romaria da juventude, comunidades de jovens das paróquias que veneram a Rainha da Amazônia; 
9) Romaria das crianças, para fortalecer a devoção mariana e nas quais elas vão acompanhadas dos pais; 
10) Romaria dos corredores, procissão em forma de corrida lenta, para acompanhar a imagem de perto; 
11) Procissão da festa, organizada pela diretoria das festividades de Nazaré e comunidades da Basílica Santuário; 
12) Recírio, procissão de despedida realizada duas semanas após o Círio.

Os símbolos do Círio de Nazaré 

As celebrações do Círio apresentam vários objetos simbólicos, os quais podem ser vistos durante todas as procissões. 

A Berlinda [foto ao lado], que transporta a imagem de Nossa Senhora, é por causa disto o centro de todas as atenções no decurso dos 15 dias de festejos.

A conhecida corda de sisal torcido [foto abaixo], com duas polegadas de diâmetro e 400 metros de comprimento, ligada à berlinda e puxada pelos fiéis durante a procissão, passou a ser o elo entre Nossa Senhora de Nazaré e os fiéis.

O manto da imagem de Nazaré é considerado um dos mais importantes símbolos do Círio. Anualmente é apresentado dele um novo modelo, confeccionado com material importado da melhor qualidade, fruto de doações anônimas.

Outro símbolo são os carros dos milagres e de promessas, que vão recolhendo dos devotos relatos e demonstrativos dos milagres e graças alcançados pelos fiéis da Virgem de Nazaré. 

Chamam muito a atenção, de um lado as inúmeras crianças vestidas de anjos nas procissões, e de outro os foguetes e fogos de artifícios que são usados durante o percurso pelas ruas e avenidas da cidade de Belém.

Outra tradição são os cartazes espalhados pela cidade anunciando as festas e os almoços, as reuniões de famílias e os pratos típicos da culinária da região, além das barraquinhas existentes na praça em frente à Basílica de Nossa Senhora de Nazaré. 

Em 2005 participaram do Círio dois milhões de pessoas, número que desde então só tem aumentado, chegando em 2017, quando de sua 225ª procissão, a um total de 2,5 milhões de participantes.

17 de novembro de 2017

Primeira Comunhão de um grande líder católico



No dia 19 de novembro de 1917, há exatamente 100 anos, Plinio Corrêa de Oliveira [foto abaixo] fazia sua Primeira Comunhão na igreja de Santa Cecília, no bairro do mesmo nome, na capital paulista. Ele tinha então nove anos de idade e sua devoção eucarística o tornaria depois o grande e destemido líder católico, fundador da TFP brasileira. 

Paulo Roberto Campos


Em 27 de agosto de 1994, alguns jovens que estavam se preparando para a Primeira Comunhão tiveram a oportunidade de um encontro com Plinio Corrêa de Oliveira. Nessa ocasião, eles lhe perguntaram como tinha sido a sua Primeira Comunhão. 

Mais abaixo seguem alguns trechos extraídos da gravação em fita magnética, sem a revisão do autor, com a resposta que ele deu então àqueles jovens. Apenas adaptei o texto, transpondo a linguagem falada para a escrita, e inseri alguns complementos entre parênteses. Transcrevo-o como uma homenagem neste centenário e em agradecimento a quem muitíssimo me auxiliou na autêntica e profunda adoração do Santíssimo Sacramento da Eucaristia.

Durante toda sua vida, aquele grande líder católico, que comungava diariamente, foi um exemplo para todos seus discípulos de como deve ser a verdadeira devoção à Eucaristia — o maior tesouro que Nosso Senhor Jesus Cristo nos deixou: sua presença contínua nesta Terra. “Eu estarei convosco até a consumação dos séculos” (Mt 28,20).

São Pio X — o grande Papa da devoção eucarística e que tanto incentivou a Primeira Comunhão concedida às crianças logo que adquirissem o uso da razão — sintetiza o mais excelso de todos os sacramentos afirmando: “A devoção à Eucaristia é a mais nobre de todas as devoções, porque tem o próprio Deus por objeto; é a mais salutar porque nos dá o próprio autor da graça; é a mais suave, pois suave é o Senhor. Se os anjos pudessem sentir inveja, nos invejariam porque podemos comungar.”

A seguir, as palavras de Plinio Corrêa de Oliveira em resposta ao pedido de como tinha sido sua Primeira Comunhão:
Dona Lucilia e seu esposo, o Dr. João Paulo Corrêa de Oliveira
“Minha primeira comunhão foi preparada por Dona Lucilia [Lucilia Ribeiro dos Santos Corrêa de Oliveira [foto acima], mãe do Prof. Plinio] para mim, minha irmã e uma sobrinha dela que morava em nossa casa e que ela tratava como filha. Éramos ainda muito crianças, pois a Primeira Comunhão foi em 1917. Como nasci em 1908 [no dia 13 de dezembro], tinha nove anos [incompletos], mas já estava largamente na idade recomendada por São Pio X para as crianças fazerem sua Primeira Comunhão. Podia ser mais cedo, mas foi com nove anos que fiz a minha.  

Dona Lucilia, querendo que essa formação religiosa tivesse o maior esmero possível, quis que o vigário de Santa Cecília, chamado Padre Pedrosa — indicado a ela pelo famoso Padre Chico de Paula e tido como o melhor diretor espiritual, o mais piedoso e um dos melhores oradores sacros de São Paulo —, nos preparasse para a Primeira Comunhão. 

Mas foi muito mais do que isso. Ela quis também que essa preparação fosse dada só para nós três. Realizada numa bela sala da igreja de Santa Cecília [foto ao lado], na parte traseira da igreja, com vitrais muito bonitos, uma mesa com madeira grossa muito bem trabalhada. O ambiente dava muito a ideia da seriedade da aula.  

Esse padre sabia muito bem tratar com crianças, sabia explicar como a comunhão é um ato de uma sublime grandeza, mas, ao mesmo tempo, com muita bondade etc. Ele tinha intenção de nos fazer sentir bem a bondade do Sacratíssimo Coração de Jesus e do Sacral e Imaculado Coração de Maria. 

As aulas para as crianças eram muito explicadinhas, tudo muito claro, direito etc., e eram agradáveis de ouvir. Mas, no modo de ensinar catecismo naquele tempo, inculcava-se muito o respeito que se devia àquela doutrina e o respeito e a veneração que se deveria ter a tudo quanto a Igreja ensinava, sua doutrina etc. 

Se eu não me engano, foi lá que ouvi pela primeira vez falar de infalibilidade papal, que foi um das maiores graças da minha vida, porque eu via em torno de mim muitas discussões a respeito.  
Minha família era muito unida, mas nela se discutia muito política, e religião também. E havia alguns que eram católicos e monarquistas, enquanto outros eram ateus e republicanos. E formavam-se discussões. Eram até inteligentes, eles discutiam bem de um lado e do outro. Os republicanos naturalmente não tinham razão, mas também diziam alguma coisa, alguns argumentozinhos que era preciso saber destruir. 
Mas eu notava também que as pessoas mais velhas que me rodeavam, e que eu respeitava naquele tempo profundamente, estavam em desacordo sobre um mundo de outras opiniões. [...]  

E eu, menino ainda, ouvia as discussões e pensava o seguinte: Aqui estão umas pessoas que são razoavelmente inteligentes. Também são razoavelmente instruídas, e estão em desacordo uns com os outros em quase tudo, mas elas mesmas estão vendo que os homens razoavelmente instruídos e inteligentes, caem facilmente em erro. Porque, do contrário, não pode ser que eles tivessem tanto desacordo. Onde há muito desacordo, um dos lados está errado. E se um dos lados está errado, havendo muitas teses opostas, há muitos erros, e se houver muitos erros, há muita gente errada. Onde é que vai parar isso? É natural que eles errem. Eu vejo que está na natureza deles errar. Mas sinto que, quando eu ficar adulto, vou errar também. Se todo o mundo erra, do que adianta raciocinar? 

O que está dito é flagrantemente verdadeiro. E eu pensava: “Não sei que confiança vou ter no meu raciocínio quando for adulto, que bagunça pode dar isso, onde é que isso pode me levar”.  

E nessas considerações eu ficava assim imerso na ideia de que no fundo não vale a pena pensar, porque se em cada dez ideias que a gente tenha pelo menos uma está errada, é mais ou menos como um homem que sabe que em cada dez passos que ele der na caminhada, ele cai uma vez no chão. Então mais vale a pena não andar. Está acabado! Para quê? Para me escangalhar na estrada? Não convém. 

Assim, quando entrou na preparação para a Primeira Comunhão a tese da infalibilidade papal, eu tive um entusiasmo extraordinário. Mas é difícil calcularem o interesse e o entusiasmo que eu tive pela infalibilidade papal. Eu pensei: “Essa é a solução, tem de haver um que é infalível. Se eu errar — e sei de antemão que em vários pontos eu vou errar —, que confiança eu posso ter em mim mesmo? Ah, se eu pudesse me apoiar em um homem que não errasse!”. 
De repente aparece a solução [o dogma da infalibilidade]. Não é um homem que não erra, é um Pastor dos pastores, instituído por Nosso Senhor Jesus Cristo [vira a fita, perdendo-se algumas palavras] É [a Igreja Católica] a única religião que sustenta a infalibilidade. Para saber se essa é a religião de Deus não precisa mais nada! [...]  

Em tudo que eu penso, a minha preocupação essencial é: “O que pensará a Santa Sé? Existem documentos dos Papas dizendo isto?” Porque se existir, aí eu tomo uma firmeza que não tenho em nenhuma opinião minha puramente pessoal. Mas sei que se me apoiar na doutrina infalível dos representantes de Cristo na Terra, não tem perigo de errar. Posso avançar, porque não errarei. [...]  

Graças a Deus, sou um homem que tenho muita convicção do que digo. Na realidade, isto é assim porque eu creio na infalibilidade papal. É o fundamento de tudo. O que me deu muita segurança e muito agradecimento e admiração a Nosso Senhor porque Ele excogitou uma Igreja assim. 
Depois a ideia [na Primeira Comunhão] de que era o próprio Homem-Deus que eu iria receber. Seu Corpo, Sangue, Alma e divindade iriam habitar dentro de mim por certo espaço de tempo. Isso me deixava entusiasmadíssimo! Por outro lado, Dona Lucilia tomava muito cuidado com uma porção de coisas. Em primeiro lugar o seguinte:  

Naquele tempo, para realçar a importância da comunhão, o Papa São Pio X [foto ao lado] tinha querido que todas as famílias — naturalmente cada uma na medida do que pudesse — celebrasse a festa da Primeira Comunhão com alguma coisa que chamasse a atenção das crianças. E o que o costume estabeleceu — não sei se hoje ainda é assim — é que o dia da Primeira Comunhão fosse um dia de festa em casa. Nesse dia as crianças não estudavam, não trabalhavam, ficavam apenas em casa rezando ou fazendo algum giro a pé, alguma outra coisa, mas por pouco tempo. Elas deveriam ficar a maior parte do tempo recolhidas e pensando.  

Em segundo lugar, no dia da Primeira Comunhão, para manter nas crianças o respeito [à Sagrada Eucaristia], os meninos e as meninas deveriam usar uma roupa especial. E essa roupa devia evocar virgindade. Quando ainda crianças, se pode esperar que fossem virgens.  

Assim, a menina se apresentava para a Primeira Comunhão com vestido igual ao de noiva, que simboliza a virgindade. E na cabeça uma grinalda de flores, em geral bonitas. [...] 

Para os meninos era uma roupa — ao menos aqui em São Paulo — copiada do traje oficial de um dos maiores colégios de meninos da
Inglaterra, o Eton College [foto ao lado]. A Inglaterra sempre foi muito cuidadosa e muito bem sucedida no que diz respeito aos trajes. Todos comungavam com essa roupa — que era em ponto pequeno a roupa de um homem adulto, com colarinho duro, gravata muito bonita, colete, sapatos de verniz e uma fita de seda com uns pingentes de ouro no braço — para dar a entender que aquele menino era casto e se alegrava de ser casto.  

Esse traje me impressionou muito e gostei muito usá-lo, porque era muito tradicional e, ao mesmo tempo, muito católico. Essa manifestação de castidade me alegrou muito. Usando essa roupa no dia da Primeira Comunhão, senti-me muito elevado, dignificado em receber Nosso Senhor com esse traje. 

Na véspera do dia da Primeira Comunhão eu tive um sonho [...]. Sonhei em ver um bolo — a minha fantasia estava toda tomada com a ideia dos bolos e dos doces na festa do dia seguinte — e, em certo momento, o bolo se abria e aparecia dentro Nosso Senhor Jesus Cristo pisando sobre um globo e com os braços abertos [...]. Era muito estranho, porque não é adequado Nosso Senhor aparecer num bolo. Enfim, era um sonho que não deixava de me produzir certa emoção. 

Assim foi dia da Primeira Comunhão, que recebi com recolhimento, com muito desejo de que fosse uma comunhão perfeita, mas eu achava que seria natural que essa comunhão fosse para mim um momento de muito enlevo e me sentisse profundamente tocado. Pelo contrário, Nossa Senhora obteve de Nosso Senhor que fosse um momento de aridez. [...] Mas rezei atentamente e creio que Ele, pela intercessão de Nossa Senhora, teve pena de mim, porque essa aridez não me fez mal algum, pelo contrário, eu lucrei, e dias depois a minha vida espiritual tinha retomado seu curso.

17 de outubro de 2017

NÓBREGA, 500 ANOS DEPOIS

Em São Vicente (SP), o Pe. Manuel da Nóbrega, abençoando as tropas que, sob o comando de Estácio de Sá, partiam para expulsar os invasores franceses do Rio de Janeiro. A seus pés, ajoelhado, vemos o Pe. Anchieta. Pintura de Benedito Calixto, Palácio São Joaquim (RJ).

Paulo Roberto Campos

O Padre Manuel da Nóbrega, qualificado a muito justo título de “Primeiro Apóstolo do Brasil”, nasceu em 18 de outubro de 1517 — exatamente há cinco séculos — em Sanfins do Douro, Província de Trás-os-Montes (Portugal), e faleceu no Rio de Janeiro em 18 de outubro de 1570, dia em que completava 53 anos.

O Brasil, em seu processo civilizatório, muito deve ao monumental esforço do Padre Nóbrega, que juntamente com o Padre Anchieta e outros heroicos missionários catequizaram, civilizaram e salvaram nossos indígenas, libertando-os de seus costumes tribais que incluíam práticas de bruxaria, canibalismo etc.

Hoje, entretanto, uma nova corrente de missionários indigenistas procura relegar e silenciar a memória desses gigantes da fé, e até mesmo desprezar sua fantástica epopeia.

Ao mesmo tempo, desejosos de deitar por terra o nosso passado glorioso, esses neomissionários esquerdistas agitam o País com arengas favoráveis ao primitivismo dos indígenas, promovendo, por exemplo, a demarcação de suas terras para que nelas vivam como num zoológico, distantes e sem o bafejo da civilização, inflamando-os contra os brancos, provocando uma fratricida luta de raças e de classes.

Em memória do V centenário do nascimento do grande Padre Manuel da Nóbrega, segue uma análise de Plinio Corrêa de Oliveira, extraída de sua obra Tribalismo Indígena, ideal comuno-missionário para o Brasil no século XXI, publicada em 1977.
“Quomodo obscuratum est aurum! Como chegou a tornar-se escuro o ouro! — exclama o profeta Jeremias (Lm. 4, 1).  
Desde Nóbrega e Anchieta, a luminosa atuação dos missionários em nosso País consistiu em evangelizar, educar, civilizar nossos irmãos silvícolas.  
Mas o ouro inestimável, ao qual a ação missionária tradicional pode ser comparada, obscureceu-se.
Em nossos dias, uma poderosa corrente missionária, influenciada pelo progressismo cada vez mais difundido em nossos meios eclesiásticos, visa precisamente o contrário: proclama o estado dos silvícolas como a própria perfeição da vida humana, opõe-se à integração do silvícola na civilização, afirma o caráter secundário — quando não a inutilidade — da catequese, e não poupa críticas à ação dos grandes missionários de outrora, nem mesmo a de Nóbrega e Anchieta, os quais o Brasil todo venera.  
Do fundo de nossas selvas, esses neomissionários lançam apelos em prol da luta de classes, que desejam ver corroendo, até às entranhas, o Brasil civilizado. 
O estudo do pensamento dessa corrente neomissiológica é indispensável para quem queira conhecer a grande crise da Igreja no Brasil. E compreender de que maneira essa crise tende a contagiar o País, transformando-se, de crise da Igreja, em crise do Brasil”.

12 de outubro de 2017

Há um século Nossa Senhora operou o “Milagre do Sol”

Foto original feita no momento do “Milagre do Sol”

Os céus de Portugal serviram de “púlpito” para a Providência Divina pregar ao mundo inteiro. O prêmio e o castigo! Promessas e advertências da Santa Mãe de Deus, por meio de portentosos sinais do Céu, para tocar os corações dos fiéis, mas também os corações endurecidos.


Paulo Roberto Campos

Não deixa de ser sintomático e simbólico que em Fátima, no dia 13 de outubro de 1917, Nossa Senhora tenha escolhido o “astro-rei” para realizar o “Milagre do Sol”.

Portentoso prodígio sobrenatural que Ela operou a fim de confirmar aos olhos de todos, até dos incrédulos, a grandeza e a veracidade de suas revelações, assim como a sinceridade dos três pequenos pastores de Fátima, Lúcia, Francisco e Jacinta.

Lúcia, ao descrever a Virgem Santíssima em suas Memórias, registrou de modo inspirado: “Era uma Senhora, vestida toda de branco, mais brilhante que o Sol, espargindo luz, mais clara e intensa que um copo de cristal, cheio d’água cristalina, atravessado pelos raios do sol mais ardente”.1

Há na Sagrada Escritura uma referência muito evocativa à Santa Mãe de Deus: “Quae est ista quae ascendit sicut aurora consurgens pulchra ut luna electa ut sol terribilis ut castrorum acies ordinata?” (Quem é esta que surge como a aurora, bela como a lua, brilhante como o sol, terrível como um exército em ordem de batalha? [Cant. 6,10]). A lua simboliza a sua misericórdia, enquanto o sol é o símbolo da justiça d’Aquela que é “terrível como um exército em ordem de batalha”. Veremos como no “Milagre do Sol” a justiça e a misericórdia se manifestaram em Nossa Senhora. 

“Em outubro farei um milagre para que todos acreditem”

Os três pastorezinhos de Fátima,
junto a um arco erguido pelo povo
para marcar o local das Aparições
O “Milagre do Sol”, ocorrido durante a sexta e última aparição da Virgem Fátima [vide quadro no final deste post], foi testemunhado por aproximadamente 60 mil pessoas na Cova da Iria — local onde hoje se encontra a célebre Capelinha das Aparições. O deslumbrante sinal do Céu não foi visto apenas pelos portugueses daquela região, mas também por pessoas provenientes de diversos pontos do país — pertencentes a todas as classes sociais, crentes e não crentes, e de todas as idades. A maioria chegou caminhando, muitos até descalços na lama, pois chovia constantemente; outros chegaram a cavalo, em charretes e automóveis, alguns até luxuosos. Nas vésperas do dia 13 de outubro, era tanta gente que se pôs em marcha rumo a Fátima, que alguns diretores de jornais portugueses, apesar de céticos, resolveram mandar correspondentes para noticiar o que de fato aconteceria.

    E aconteceu o grandioso milagre, que, além de ter sido assistido pela multidão presente na Cova da Iria, foi visto por incontáveis outros portugueses, pois a manifestação do fulgor solar alcançou um raio de mais de 30 quilômetros do local das aparições.

Fato que desmentiu irrefutavelmente tanto os ateus quanto a imprensa anticlerical da época, que, mesmo tomando conhecimento daquela extraordinária comprovação da existência de Deus, procuraram espalhar a ideia de que o “acidente” não passava de “sugestão coletiva” ou de algum “efeito hipnótico”, porquanto não havia sido registrado por nenhum observatório astronômico. Ora, justamente o fato de não ter sido registrado pelos astrônomos comprova o milagre, pois o que ocorrera não foi um mero fenômeno natural...

Naquele histórico dia, a Santa Mãe de Deus cumpriu o que havia prometido aos três pequenos pastores de Fátima na quinta aparição (13 de setembro de 1917), quando afirmara: “Em outubro farei um milagre para que todos acreditem”.2 

Incontáveis testemunhas fidedignas

Os portugueses que receberam a graça de presenciar o “Milagre do Sol” descreveram-no como algo apocalíptico. Muitos tiveram a impressão de que chegava o fim do mundo; rezavam o Ato de contrição ou o Credo; confessavam em voz alta pedindo perdão de seus pecados. Mesmo os ímpios que foram a Fátima apenas para desdenhar e fazer chacotas, “prostram-se por terra, entre soluços e orações patéticas”.3

O que os ateus quiseram qualificar como sendo um “fenômeno de sugestão coletiva” foi um verdadeiro e deslumbrante milagre presenciado por centenas de milhares de pessoas. Muitos testemunhos estão publicados em centenas de livros e periódicos. Como não é possível sequer sintetizá-los aqui, seguem apenas excertos de alguns depoimentos. Mesmo porque eles se repetem — uma comprovação a mais de sua veracidade, pois todos viram a mesma manifestação no sol.

Nesse sentido, iniciamos com um documento de grande valor, que constitui um dos primeiros reconhecimentos oficiais da Igreja às revelações feitas pela Santíssima Virgem aos pastorzinhos em Fátima. Ele foi redigido pela autoridade eclesiástica da região, o Bispo de Leiria, D. José Alves Correia da Silva [foto acima] u à página 11 de sua Carta Pastoral sobre o culto de Nossa Senhora de Fátima (1930):

“O fenômeno solar de 13 de outubro de 1917, descrito nos jornais da época, foi o mais maravilhoso e o que maior impressão causou aos que tiveram a felicidade de o presenciar.

“As três crianças fixaram com antecedência o dia e a hora em que se havia de dar. A notícia correu veloz por todo o Portugal e, apesar de o dia estar desabrido, chover copiosamente, juntaram-se milhares e milhares de pessoas que, à hora da última Aparição, presenciaram todas as manifestações do astro-rei, homenageando a Rainha do Céu e da Terra, mais brilhante que o sol no auge das suas luzes.”

“O sol bailou ao meio-dia em Fátima”

Na sua esplêndida obra Nossa Senhora de Fátima — Aparições, Culto, Milagres, o Pe. Luiz Gonzaga Ayres da Fonseca, professor no Pontifício Instituto Bíblico de Roma, após transcrever relatos de testemunhas, inclusive da “mídia” liberal e maçônica da época, consignou:

“Toda a imprensa periódica se ocupou largamente dos acontecimentos daquele dia, em particular do “Milagre do Sol”. Tiveram maior ressonância os artigos do ‘O Século’ (13 a 15 de outubro de 1917): ‘Em pleno sobrenatural: as Aparições de Fátima’ e ‘Coisas espantosas: como o sol bailou ao meio-dia em Fátima’, porque o autor, AVELINO DE ALMEIDA, principal redactor do jornal, apesar da sua ostentada incredulidade e sectarismo, prestou lealmente homenagem à verdade: o que depois lhe atraiu as iras do ‘Livre Pensamento’”.4

No livro, portador do inspirado título Era uma Senhora mais brilhante que o sol — um clássico para se conhecer bem a história de Fátima —, do Pe. João M. de Marchi, I.M.C. reproduz notícia do jornal “O Dia”, de 19 de outubro de 1917, do qual extraímos um trechinho sobre o momento da manifestação solar:
    
“[...] Tudo chorava, tudo rezava de chapéu na mão, na impressão grandiosa do Milagre esperado! Foram segundos, foram instantes que pareceram horas, tão vividos foram!”.5

       Também o Pe. De Marchi transcreve um belo relato do Dr. Almeida Garrett, então catedrático da célebre Universidade de Coimbra, redigido por solicitação do Cônego Doutor Manuel Nunes Formigão:

       “[...]       De repente ouve-se um clamor, como que um grito de angústia de todo aquele povo. O sol, conservando a celeridade da sua rotação, destaca-se do firmamento e sanguíneo avança sobre a terra ameaçando esmagar-nos com o peso de sua ígnea e ingente mó. São segundos de impressão terrífica”.6

“Meu filho, ainda duvidas da existência de Deus?”

Escreveu, no próprio dia 13 de outubro de 1917, o Pe. Manuel Pereira da Silva a seu colega da região da Guarda, o Cônego António Pereira de Almeida:

“[...] Numa carruagem de luxo, junto da qual se encontrava o Dr. Formigão, uma senhora de meia idade, elegantemente vestida, volta-se para um rapaz, tipo de estudante universitário, e pergunta-lhe, presa de indizível comoção: — ‘Meu filho, ainda duvidas da existência de Deus?’ — ‘Não, minha mãe’, — responde-lhe o jovem com os olhos marejados de lágrimas. ‘Não, agora é impossível!’”.7

“Caí de joelhos”. Parecia ter chegado o fim do mundo

Nossa Senhora de Fátima é outro imprescindível livro a respeito dos magnos acontecimentos na Cova da Iria, redigido pelo historiador e escritor norte-americano William Thomas Walsh, que viajou a Portugal com o objetivo de interrogar testemunhas oculares. Em seus interrogatórios, ele entrevistou pessoas que lhe disseram ter exclamado na ocasião do milagroso sinal celeste: “Ai Jesus, vamos todos morrer aqui”; “Nossa Senhora, salvai-nos!”; “Ó meu Deus, pesa-me de Vos ter ofendido”; “Ó meu Deus! Quão grande é o Vosso poder!”; “Milagre! Maravilha!”; “As crianças tinham razão!”. Muitas outras exclamações repercutiram por toda a região, de pessoas que rezaram o Confiteor imaginando que aquele seria seu último instante neste mundo. Todos desejavam beijar as mãos das três crianças, a quem chamavam de “santinhas”, ou pelo menos tocar nelas.

Após reproduzir depoimentos e entrevistas que colheu pessoalmente, narra Thomas Walsh: “Conversei com muitas, inclusive tio Marto e sua Olímpia [pais de Jacinta e Francisco], Maria Carreira, duas irmãs de Lúcia [Maria dos Anjos e Glória] e muitas outras pessoas da aldeia. Todos relataram-me a mesma história com evidente sinceridade. Ao mencionarem a queda do sol tinham na voz vestígios do terror que experimentaram. O Padre Manuel Pereira da Silva forneceu-me, substancialmente, os mesmos pormenores: ‘Ao ver o sol cair em ziguezague’, disse, ‘caí de joelhos. Pensei que o fim do mundo tivesse chegado’”.8 

O sol pareceu ameaçar cair sobre a terra

O renomado escritor norte-americano, além de colher depoimentos de pessoas que presenciaram in loco o “Milagre do Sol”, reproduz também declarações daquelas que testemunharam o prodígio estando bem distantes da Cova da Iria. Eis algumas: “O poeta Afonso Lopes Vieira pôde presenciar o fenômeno, em sua residência de S. Pedro de Moel, a uns quarenta quilômetros de Fátima. Padre Inácio Lourenço contou, mais tarde, como havia visto o fato de Alburita, a dezoito ou dezenove quilômetros de distância. Contava ele, por esse tempo, nove anos de idade. Ele e mais alguns alunos ouviram o povo gritando sobressaltado na rua, diante da escola. Em companhia da professora Dona Delfina Pereira Lopes, viram, com estupefação, a rotação e a queda do sol. [...] Repentinamente, pareceu que baixava, em ziguezague, ameaçando cair sobre a terra. Aterrado, corri a esconder-me no meio do povo. Todos choravam, aguardando, de um momento para outro, o fim do mundo’.

‘Junto de nós estava um incrédulo, sem religião, que tinha passado a manhã toda a caçoar dos simplórios que haviam feito a caminhada a Fátima para se pasmar diante de uma menina. Olhei para ele. Estava como paralisado, assombrado, olhos fitos no sol. Depois, vi-o tremer dos pés à cabeça, e, levantando as mãos para o céu, cair de joelhos gritando: ‘Nossa Senhora! Nossa Senhora!’”

Fátima: manifestação da justiça e da misericórdia

Algumas testemunhas que tiveram a dádiva de assistir ao milagre contaram que, depois do medo de serem castigadas pelo sol e de que seria o fim do mundo, uma vez encerrada aquela manifestação portentosa, viram-se de joelhos, mas sentindo uma indizível alegria por terem sobrevivido. Durante o fenômeno muitos choraram de medo; depois de alegria, e abraçavam seus próximos. O que podemos interpretar como símbolo de justiça e misericórdia, dos castigos e dos prêmios anunciados em Fátima. Castigo, por exemplo, quando Nossa Senhora revelou, na terceira aparição (13 de julho de 1917), que “várias nações serão aniquiladas”. Prêmio, quando profetizou “Por fim, o Meu Imaculado Coração triunfará”.

     O “Milagre do Sol” nos mostra um trailer da magnitude do anunciado castigo que cairá sobre o mundo, por ordem da justiça divina, uma vez que a humanidade não se converteu como pedira a Senhora de Fátima. Mas também manifestação da divina misericórdia, um trailer da alegria daqueles que se mantiverem fiéis a Ela, com a instauração na Terra do Reino de Maria.
       
Em nossos conturbados dias, prenhes de ameaças de todo tipo, até de bombas atômicas que como moderníssimas “espadas de Dâmocles” pairam sobre nossas cabeças, Fátima representa, além da justiça, a esperança e a solução para os graves problemas que afligem a humanidade. Na Aparição focalizada neste artigo, a de 13 de outubro de 1917, a Santa Mãe de Deus suplicou há exatos 100 anos: “Não ofendam mais a Deus Nosso Senhor, que já está muito ofendido”.

Com essas comoventes palavras, às quais nossos ouvidos não podem permanecer surdos, Nossa Senhora encerrou as maravilhosas e apocalípticas aparições em Fátima. Com elas encerramos também estas considerações, permitindo-nos apenas acrescentar: “Si vocem ejus hodie audieritis, nolite obdurare corda vestra” (Se hoje ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações [Ps 94,8]).

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Notas:
1.   Um caminho sob o olhar de Maria – Biografia da Irmã Lúcia Maria de Jesus e do Coração Imaculado, Carmelo de Coimbra, Edições Carmelo, Coimbra, 2013, p. 50.
2.   A respeito, assim como para se ter uma visão de conjunto dos acontecimentos de Fátima, recomendamos a matéria de capa desta revista em maio último.
3.   William Thomas Walsh, Nossa Senhora de Fátima, Melhoramentos, S. Paulo, 1947, p. 131.
4.   Pe. Luiz Gonzaga Ayres da Fonseca, S.J., Nossa Senhora de Fátima, Aparições, Culto, Milagres, Livraria Apostolado da Imprensa, Porto, 1947, 2ª edição, p. 125.
5.   Pe. João M. de Marchi, I.M.C., Era uma Senhora mais brilhante que o sol, Edição do Seminário das Missões de Nossa Senhora de Fátima, Cova da Iria, p. 168.
6.   Id., Ib. p. 169.
7.   Id., Ib. p. 171.
8.    William Thomas Walsh, Nossa Senhora de Fátima, Melhoramentos, S. Paulo, 1947, p. 134.
9.   Id., Ib. pp. 133-134.

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Sexta e última aparição: 13 de outubro de 1917*

Como das outras vezes, os videntes notaram o reflexo de uma luz e, em seguida, Nossa Senhora sobre a carrasqueira:

— LÚCIA: “Que é que Vossemecê me quer?”

— NOSSA SENHORA: “Quero dizer-te que façam aqui uma capela em minha honra, que sou a Senhora do Rosário, que continuem sempre a rezar o terço todos os dias. A guerra vai acabar e os militares voltarão em breve para suas casas".

— LÚCIA: “Eu tinha muitas coisas para Lhe pedir. Se curava uns doentes e se convertia uns pecadores...”

— NOSSA SENHORA: “Uns sim, outros não. É preciso que se emendem, que peçam perdão dos seus pecados”. E tomando um aspecto triste: “Não ofendam mais a Deus Nosso Senhor que já está muito ofendido”.

Em seguida, abrindo as mãos, Nossa Senhora fê-las refletir no sol, e enquanto se elevava, continuava o reflexo da sua própria luz a projetar-se no sol.

Lúcia, nesse momento, exclamou: “Olhem para o sol!”

Desaparecida Nossa Senhora na imensa distância do firmamento, desenrolaram-se, aos olhos dos videntes, três quadros, sucessivamente, simbolizando primeiro os mistérios gozosos do rosário, depois os dolorosos e por fim os gloriosos. [...]

Finalmente apareceu, numa visão gloriosa, Nossa Senhora do Carmo, coroada Rainha do Céu e da Terra, com o Menino Jesus ao colo.

Enquanto estas cenas se desenrolavam aos olhos dos videntes, a grande multidão de 50 a 70 mil espectadores assistia ao milagre do sol.

Chovera durante toda a aparição. Ao encerrar-se o colóquio de Lúcia com Nossa Senhora, no momento em que a Santíssima Virgem Se elevava e que Lúcia gritava “Olhem para o sol!”, as nuvens se entreabriram, deixando ver o sol como um imenso disco de prata. Brilhava com intensidade jamais vista, mas não cegava. Isto durou apenas um instante. A imensa bola começou a "bailar". Qual gigantesca roda de fogo, o sol girava rapidamente. Parou por certo tempo, para recomeçar, em seguida, a girar sobre si mesmo, vertiginosamente. Depois seus bordos tornaram-se escarlates e deslizou no céu, como um redemoinho, espargindo chamas vermelhas de fogo. Essa luz refletia-se no solo, nas árvores, nos arbustos, nas próprias faces das pessoas e nas roupas, tomando tonalidades brilhantes e diferentes cores. Animado três vezes de um movimento louco, o globo de fogo pareceu tremer, sacudir-se e precipitar-se em ziguezague sobre a multidão aterrorizada.

Durou tudo uns dez minutos. Finalmente o sol voltou em ziguezague para o ponto de onde se tinha precipitado, ficando novamente tranquilo e brilhante, com o mesmo fulgor de todos os dias.

O ciclo das aparições havia terminado.

Muitas pessoas notaram que suas roupas, ensopadas pela chuva, tinham secado subitamente.

O milagre do sol foi observado também por numerosas testemunhas situadas fora do local das aparições, até a 40 quilômetros de distância.

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(*) Antonio Augusto Borelli Machado, As aparições e a mensagem de Fátima conforme os manuscritos da Irmã Lúcia, Editora Vera Cruz Ltda., 46ª edição, São Paulo, 1997, p. 56-60. A obra desse fatimólogo de renome internacional — publicada em primeira mão por Catolicismo em maio de 1967 — tornou-se um best-seller, já ultrapassou os cinco milhões de exemplares em 20 línguas, em edições em 30 países.