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24 de dezembro de 2013

NATAL — fascinante e encantador para as crianças e adultos também...


Ofereço aos leitores do Blog da Família um presente de Natal: um vídeo sobre aspectos feéricos de comemorações natalinas em algumas cidades da França. A gravação é em francês, mas todos compreenderão — mesmo aqueles que não conhecem perfeitamente o belo idioma da Douce France —, pois as imagens “falam” todas as línguas... 

Durante o mês de dezembro até o Dia de Reis, 6 de janeiro, algumas cidades vivem em torno do Nascimento do Menino Deus: feiras tradicionais de Natal, artesanato, músicas, exposições, cerimônias, comidas típicas etc. Isto tanto nas ruas, como em palácios e igrejas. Por exemplo, numa delas, uma enorme árvore de Natal que as crianças podem balançar seus galhos para fazer cair balas e chocolates... Tudo presente de São Nicolau — e não da figura caricaturesca e mercantilista de um... volumoso Papai Noel.

O vídeo destaca um deslumbrante Presépio típico napolitano com toda uma cidade  com centenas de personagens, em todos seus aspectos da vida quotidiana e detalhes  que vive como que “respirando” o clima de Natal na proximidade da Gruta de Belém. No final, o vídeo destaca também aspectos maravilhosos do Natal nos castelos franceses de Chenonceaux e Vaux-le-Vicomte. 

Assim, desejando um belo "passeio” para ver fascinantes decorações de
Natal, transmito a todos os leitores e às suas Famílias meus votos de um Santo e Feliz Natal e um Novo Ano com graças e bênçãos ainda mais especiais e abundantes da Sagrada Família, Jesus, Maria e José. 
Paulo Roberto Campos
Natal / 2013

“Hoje uma luz brilhará sobre nós, porque nasceu-nos o Senhor




“Hoje uma luz brilhará sobre nós, porque nasceu-nos o Senhor, e será chamado Admirável, Deus, Príncipe da Paz, Pai do século futuro, cujo reino não terá fim”(*)


*       Plinio Corrêa de Oliveira
(Catolicismo, dezembro de 1952)

Considerando os fatos numa vasta perspectiva histórica, o Santo Natal foi o primeiro dia de vida da civilização cristã. Vida ainda germinativa e incipiente, como os primeiros clarões do sol que nasce; mas vida que já continha em si todos os elementos incomparavelmente ricos, da esplendida maturidade a que se destinava.

Com efeito, se é bem verdade que a civilização é um fato social, que para existir como tal nem sequer pode contentar-se de influenciar um pequeno punhado de pessoas, mas deve irradiar sobre uma coletividade inteira, não se pode dizer que a atmosfera sobrenatural que emana do presépio de Belém sobre os circunstantes já estava formando uma civilização. Mas se, de outro lado, consideramos que todas as riquezas da civilização cristã se contém em Nosso Senhor Jesus Cristo como em sua fonte única, infinitamente perfeita, e que a luz que começou a brilhar sobre os homens em Belém havia de alongar cada vez mais seus clarões, até se estender sobre o mundo inteiro, transformando mentalidades, abolindo e instituindo costumes, infundindo espírito novo em todas as culturas, unindo e elevando a um nível superior todas as civilizações, pode-se dizer que o primeiro dia de Cristo na Terra foi desde logo o primeiro dia de uma era histórica.
Quem o haveria de dizer? Não há ser humano mais débil do que uma criança. Não há habitação mais pobre do que uma gruta. Não há berço mais rudimentar do que uma manjedoura. Entretanto, esta Criança, naquela gruta, naquela manjedoura, haveria de transformar o curso História.

E que transformação! A mais difícil de todas, pois que se tratava, não de acelerar o curso das coisas no rumo em que seguiam, mas de orientar os homens no caminho mais avesso a suas inclinações: a via da austeridade, do sacrifício, da Cruz. Tratava-se de convidar à Fé um mundo apodrecido pelas superstições, pelo sincretismo religioso e pelo ceticismo completo. Tratava-se de convidar para a justiça uma humanidade afeita a todas as iniquidades: o domínio despótico do forte sobre os fracos, das massas sobre as elites, e da plutocracia — que reúne em si todos defeitos de umas e outras — sobre a própria massa. Tratava-se de convidar ao desapego um mundo que adorava o prazer sob todas as suas formas. Tratava-se de atrair para a pureza um mundo em que todas as depravações eram conhecidas, praticadas, aprovadas. Tarefa evidentemente inviável, mas que a Divina Criança começou a realizar desde o seu primeiro momento nesta Terra, e que nem a força do ódio judaico, nem a força do domínio romano, nem a força das paixões humanas poderia conter.
Dois mil anos depois do Nascimento de Cristo, parecemos ter voltado ao ponto inicial. A adoração do dinheiro, a divinização das massas, a exasperação do gosto dos prazeres mais vãos, o domínio despótico da força bruta, as superstições, o sincretismo religioso, o cepticismo, enfim o neo-paganismo em todos os seus aspectos invadiram novamente a Terra.

Blasfemaria contra Nosso Senhor Jesus Cristo quem afirmasse que este inferno de confusão, de corrupção, de revolta, de violência que temos diante de nós é a civilização cristã, é o Reino de Cristo na Terra. Apenas um ou outro grande lineamento da antiga cristandade sobrevive, abalado, no mundo de hoje. Mas, em sua realidade plena e global a civilização cristã deixou de existir, e da grande luz sobrenatural que começou a fulgir em Belém poucos raios brilham ainda sobre as leis, os costumes, as instituições e a cultura do século XX.

Por que isto? Teria a ação de Jesus Cristo — tão presente em nossos tabernáculos como na gruta de Belém — perdido algo de sua eficácia? Evidentemente não.

E, se a causa não está nem pode estar n´Ele, por certo está nos homens. Vindo a um mundo profundamente corrompido, Nosso Senhor e depois dele a Igreja nascente encontraram almas que se abriram à pregação evangélica. Hoje, a pregação evangélica se dissemina por toda a Terra. Mas cresce assustadoramente o número dos que se recusam com obstinação a ouvir a palavra de Deus, dos que pelas ideias que professam, pelos costumes que praticam, estão precisamente no polo oposto à Igreja. “Lux in tenebris lucet, et tenebrae eam non conprehenderunt” (A Luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam – Jo 1, 5).

Nisto, só nisto, está a causa de ruína da civilização cristã no mundo. Pois se o homem não é, não quer ser católico, como pode ser cristã a civilização que nasce de suas mãos?
Espanta que tantos homens perguntem qual a causa da crise titânica em que o mundo se debate. Basta imaginar que a humanidade cumprisse a Lei de Deus, para que se entenda que ipso facto a crise deixaria de existir. O problema, pois, está em nós. Está em nosso livre arbítrio. Está em nossa inteligência que se fecha à verdade, em nossa vontade que, solicitada pelas paixões se recusa ao bem. A reforma do homem é a reforma essencial e indispensável. Com ela, tudo estará feito. Sem ela, tudo quanto se fizer será nada.

Esta é a grande verdade que se deve meditar no Natal. Não basta que nos inclinemos ante Jesus Menino, ao som dos hinos litúrgicos, em uníssono com a alegria do povo fiel. É necessário que cuidemos cada qual de nossa reforma, e da reforma do próximo, para que a crise contemporânea tenha solução, para que a luz que brilha do presépio recobre campo livre para sua irradiação em todo o mundo.


Mas como conseguir isto? Onde estão nossos cinemas, nossos rádios, nossos diários, nossas organizações? Onde estão nossas bombas atômicas, nossos toques, nossos exércitos? Onde estão nossos bancos, nossos tesouros, nossas riquezas? Como lutar contra o mundo inteiro?

A pergunta é ingênua. Nossa vitória decorre essencialmente e antes de tudo de Nosso Senhor Jesus Cristo. Bancos, rádios, cinemas, organizações, tudo isto é excelente, e temos obrigação de o utilizar para a dilatação do Reino de Deus. Mas nada disto é indispensável. Ou, em outros termos, se a causa católica não contar com estes recursos, não por negligencia e falta de generosidade nossa, mas sem nossa culpa, o Divino Salvador fará o necessário para que vençamos sem isto. O exemplo deram-no os primeiros séculos da Igreja: não venceu esta, a despeito de se terem coligado contra ela todas as forças da Terra?

Confiança em Nosso Senhor Jesus Cristo, confiança no sobrenatural, eis outra lição preciosa que nos dá o Santo Natal.
E não terminemos sem colher mais um ensinamento, suave como um favo de mel. Sim, pecamos. Sim, imensas são as dificuldades que se nos deparam para voltar atrás, para subir. Sim, nossos crimes e nossas infidelidades atrairão sobre nós a cólera de Deus. Mas, junto ao presépio, temos a Medianeira clementíssima, que não é juiz mas advogada, que tem em relação a nós toda a compaixão, toda a ternura, toda a indulgência da mais perfeita das mães.

Olhos postos em Maria, unidos a Ela, por meio dela, peçamos neste Natal a graça única, que realmente importa: o Reino de Deus em nós e em torno de nós.

Todo o resto nos será dado por acréscimo.
__________________
Nota:
(*) Intróito da 2ª Missa do Natal, com base em Is. 9, 2 e 6.



23 de dezembro de 2013

Retorno do Divino Infante aos lares de cada família católica

Nossos Natais vêm sendo lamentavelmente cada vez mais laicizados. Substituem-se por figuras e temas neopagãos os fatos sublimes ocorridos há pouco mais de dois mil anos em torno do maior acontecimento não só da Cristandade, mas de toda a História, o nascimento de nosso Divino Redentor em Belém. 

As graças e bênçãos que tanto impregnavam os dias precedentes e posteriores às comemorações do Natal são relegadas em favor de uma festividade meramente comercial, que gira em torno de compras e presentes, na qual a figura laica de um Papai Noel vai aos poucos substituindo o Presépio com o Menino Jesus — símbolo por excelência do Natal católico e que constituía a alegria de crianças e adultos.

Com o desejo, que é uma suplica, de que o Divino Infante retorne a todos os lares, para que todas as famílias vivam um Natal ainda mais abençoado e impregnado pelas graças de Jesus, Maria e José, Catolicismo publica nesta edição natalina uma história verdadeiramente impressionante, reveladora do poder da fé católica. 

Ela transcorreu pouco antes do Natal de 1956, no dia 17 de dezembro, na Hungria, quando aquela nação se encontrava ainda subjugada pela bota do regime comunista. O narrador é um sacerdote húngaro, expulso de sua paróquia pelos dominadores marxistas. Ele a escreveu após colher depoimentos de várias testemunhas, e jura não ter encontrado contradições nas respectivas narrações que colheu. O texto abaixo é transcrição de matéria de autoria de Maria Minovskca, estampada na revista “Magnificat” (Ano XVI, Nº 2, fevereiro/março de 1966) de Braga, Portugal.


Fonte: Revista Catolicismo, Dezembro/2013

“VEM, MENINO JESUS!” 

O Padre Norberto, testemunha da insurreição na capital
húngara, Budapeste, em 1956, fora um dos últimos fugitivos a chegar ao campo de refugiados húngaros. Seu aspecto revelava ainda as privações, as insônias e as provas terríveis por que passara. Tinha as feições crispadas e endurecidas, e nos seus olhos havia uma expressão de fria revolta. Olhando-o, compreendi o choque psicológico que a derrota lhe causara.(*)

Ele chegava da fogueira horrível onde se queimara a seiva ardente de almas sedentas de liberdade e de independência. Nós éramos os que, na retaguarda, nada tínhamos feito. Como começar? Como interrogá-lo? Como quebrar esse ressentimento hostil, que o seu rosto nos transmitia? Tateando, eu lhe fiz meu pedido: 

— Conheço a tragédia que lhe esmagou a alma, e não quero reavivá-la. Mas peço-lhe que me fale da resistência espiritual do povo húngaro, da sua vivência, a despeito da derrota... 

Transcrevo a seguir, com suas próprias palavras, o depoimento do Padre Norberto. 
Vivi horas de esperança e de terror, mas o que mais me impressiona não é o sacrifício heroico dos adultos, e sim a coragem, a resistência das crianças, a grandeza das suas atitudes e das suas palavras. Dão lições aos grandes, e em seguida permanecem pequeninos, simples, humildes. 

Eu poderia contar-lhe o que se passou na escola da minha paróquia. Mas para quê? Contar um milagre é, tantas vezes, despertar os sorrisos de vã superioridade de uns ou a incredulidade de outros. Crentes ou descrentes nos escutam, tanto uns quanto outros esquecidos de que o milagre é uma manifestação do poder divino. 

Na escola da paróquia da qual fui expulso deu-se um fato surpreendente. O que aconteceu não poderia ser a alucinação coletiva de trinta e duas crianças e da sua professora, mas tem que ser aceito como um fato. 

Gertrudes, a professora da escola, era uma ateia militante. Todas as suas lições giravam em torno da impiedade e da negação de Deus. Tudo lhe servia para denegrir, ridicularizar ou conspurcar a nossa Religião. O seu programa de ensino era simples: arrancar da alma das crianças a fé e formar legiões de pequeninos “sem Deus”. As crianças, intimidadas, não ousavam defender-se. No entanto, as suas famílias eram católicas e profundamente crentes nas suas práticas religiosas. 

Eu era o cura da igreja paroquial, e reunia essas crianças para as lições do catecismo. Na Hungria, como nos outros países além da “cortina de ferro”, o ensino é assim: na família, na igreja, luta-se para que a crença não se perca, mas nas escolas semeia-se e impõe-se o ateísmo. Como pode sustentar-se a criança, nessa situação tão difícil e díspar? É então que a graça se manifesta e ampara as criancinhas. 

Mesmo intimidadas, elas não se deixavam convencer com as zombarias que a mestra lhes fazia. Por meu lado, eu lutava para destruir no espírito delas qualquer má semente que tentasse germinar, e as fazia frequentar os sacramentos. Coisa curiosa: Gertrudes, a professora, parecia adivinhar quais as alunas que tinham comungado, e eram essas as mais perseguidas. Certamente alguém espiava e lhe indicava as crianças... Mas a denúncia não vinha destas, sempre unidas e leais. 

Na quarta classe havia uma menina de dez anos, chamada Ângela. Muito inteligente, muito bem dotada, era a melhor aluna da escola. As condiscípulas não invejavam a sua superioridade, porque ela tinha um coração de ouro e estava sempre pronta a ser prestativa. 

Um dia, veio pedir-me licença para comungar diariamente. Perguntei-lhe: 

— Tu sabes a que te expões? 

Ela riu-se, numa expressão alegre, e respondeu: 

— Senhor Padre, a mestra não conseguirá apanhar-me em falta, asseguro-lhe, e trabalharei melhor. Não me recuse o que lhe peço. Nos dias em que comungo, sinto-me mais forte. O Senhor Padre disse-me que eu devo dar bons exemplos. Para os dar, preciso de sentir-me forte. 

Acedi, mas sentia-me inquieto. Desde esse dia, Ângela viveu um verdadeiro inferno. Apesar de saber sempre as lições, a mestra implicava continuamente com ela. A criança resistia, mas eu a sentia abatida. E perguntei-lhe: 

— Ângela, a perseguição que sofres é demasiado dura, não é verdade? 

— Jesus sofreu muito mais, quando O injuriavam. Não se compara com o pouco que sofro. 

Ante esta coragem, fiquei maravilhado. Ângela não se queixava, mas as suas condiscípulas vinham contar-me os maus tratos que a mestra lhe infligia. Chorando, diziam que, de dia para dia, Gertrudes se tornava pior. Nem já se preocupava com as lições, o que queria era destruir a fé daquela alma tão forte, que se escondia em tão fraco corpinho. 

As investidas contra Ângela revestiam-se de crueldade. A mestra esquecia o programa escolar, para espalhar em toda a classe as manhas dos “sem Deus”. Ângela lutava sozinha, e nem sempre sabia defender-se. Então ficava de pé, muda, a cabecinha curvada, o peito cheio de soluços, que vinham morrer-lhe na garganta. Sua fé continuava inquebrantável, mas como podia aquela criança defendê-la, ante a perversidade daquela mulher? 

A partir de novembro, as lições da quarta classe passaram a ser autênticos duelos entre a professora e a pequena discípula. Aparentemente, a mestra triunfava e dizia sempre a última palavra. Todavia, a sua irritação era tão grande que até o silêncio de Ângela a punha fora de si. Aterradas, as outras crianças pediam-me que lhes valesse. Mas que podia eu fazer? Graças a Deus, Ângela continuava firme na sua fé, e a nós restava-nos rezar, e rezar com absoluta confiança na misericórdia divina. 

O que se passava na escola tornou-se conhecido na cidade e arredores. No entanto, ninguém me censurava por continuar a consentir que Ângela comungasse diariamente. Não era mistério para ninguém que a mestra pretendia apenas roubar àquela frágil criança o tesouro da sua religiosidade. Os próprios pais a encorajavam a resistir, conhecendo bem a perseguição que fazia chorar tantas lágrimas àquela filha querida, e a crueldade que martirizava o seu pequeno coração. 

Ângela tornou-se o ídolo de toda a gente. Todos admiravam a sua força de vontade, a persistência da sua crença, mas ela se entristecia, sentindo-se impotente para se defender e receosa de não possuir os argumentos para justificar a sua fé. Compreende-se esse desânimo. Que pode a inocência duma criança contra a astúcia duma mulher mal intencionada? 

Pouco antes do Natal, no dia 17 de dezembro, a professora inventou um estratagema cruel, com o qual pretendia dar um golpe mortal nas “superstições ancestrais” que infestavam a escola. E preparou a cena com todo o entusiasmo. Naturalmente, a pobre Ângela foi a vítima escolhida. Com voz doce, a professora a interrogou: 


— Dize-me, minha pequena: quando os teus pais te chamam, o que fazes? 

— Vou imediatamente — respondeu Ângela com timidez. 

— Muito bem! Tu ouves chamar e vais logo, como filha bem educada e obediente. E se teus pais chamarem um limpa-chaminés, o que acontece? 

— Ele vem — respondeu Ângela. O seu coraçãozinho pulava desordenadamente. Pressentia uma cilada, mas não sabia qual seria. 

A professora tinha uma expressão falsa, traiçoeira, os olhos brilhavam como os de um gato que brinca com um ratinho. Mais tarde as alunas contaram-me também: 

— Sentíamos medo. Ela tinha o ar tão mau, tão mau!...

O interrogatório continuou: 

— Muito bem! Muito bem! Tu vens porque existes. O limpa-chaminés vem, porque existe. Ele existe! 

Após um breve e deliberado silêncio, ela prosseguiu: 

— Mas supõe agora que teus pais chamam a tua avó, que já morreu. Ela vem? 

— Não, não pode vir... 

— Bravo! Muito bem! E se eles chamarem o "Barba-Azul", ou a "Princesa de pele de burro"? Tu conheces essas histórias. Dize-me: eles vêm? 

— Não, não vêm, porque só existem nas histórias. 

Ângela ergueu os olhos para a mestra e baixou-os logo. Sentiu que o olhar dela a transpassava, lhe fazia mal. Mas o diálogo continuou: 

— Esplêndida resposta! Parece que hoje estás mais esperta... Reparem, minhas filhas, reparem todas: os vivos, os que existem, respondem quando os chamam. Os outros não respondem, não vêm, porque não estão vivos ou porque não existem. Compreendem, não é? 

— Sim! — responderam em coro. 

— Agora vamos fazer uma pequena experiência — e voltando-se para Ângela, ordenou-lhe: — Sai, minha filha. 

A garota hesitou. Depois levantou-se do banco, saiu, e a porta fechou-se pesadamente sobre a sua figurinha miúda. 

— Agora, meninas, chamem-na! 

— Ângela! Ângela! — gritaram trinta vozes de garotas, convencidas de que estavam participando de uma brincadeira, um jogo que as divertia. Ângela entrou, intrigada, sem saber o que pensar. A professora preparava-se manhosamente para saborear os frutos do seu maquiavélico plano.

— Afinal, estamos todas de acordo. Quando chamamos aqueles que vivem, que existem, eles vêm. Quando chamamos os que não existem, eles não podem vir. Ângela está aqui, viva, em carne e osso, ouviu que a chamamos e veio ter conosco. Suponhamos que chamássemos o Menino Jesus. Parece que há entre vós quem acredite nele... 

Houve um silêncio, de medo talvez. E aquelas vozes tímidas responderam: 

— Acreditamos! 

— E tu, Ângela, crês que o Menino Jesus te ouve, quando o chamas? 

Ângela sentiu-se bruscamente esclarecida. Eis a cilada que ela pressentira, mas da qual desconhecia a perversidade, e respondeu com ardente fervor: 

— Sim! Creio que Ele me ouve! 

— Muito bem! Façamos a experiência: as meninas viram que Ângela, quando a chamávamos, veio imediatamente. Se o Menino Jesus existe, Ele ouvirá que O chamam. Gritem todas, ao mesmo tempo e com força: "Vem, Menino Jesus!" Vamos! Um, dois, três! Vamos! Chamem! 

As crianças baixaram as cabecinhas. Um silêncio pesado, angustioso, desceu sobre elas. Gertrudes soltou uma gargalhada prolongada, diabólica: 

— Vamos! Eu quero que vocês O façam vir! Quero que me provem que Ele existe!... Ah! Não se atrevem a chamá-lo, porque sabem que o vosso Menino Jesus não virá!... E sabem por que não vem? Porque Ele não existe, não ouve, é como o "Barba-Azul", como a "Princesa de pele de burro", “Chapeuzinho Vermelho”, que são apenas mitos, histórias para as velhas contarem nos serões. Histórias que ninguém toma a sério!...

Intimidadas, as garotas continuavam caladas. Mas os argumentos da mestra as tinham impressionado, ferido em pleno peito. É preciso desconhecer a psicologia infantil, para não avaliar a angústia dessas crianças ante a argúcia duma mulher experiente e malévola, que executava um plano preconcebido. Em algumas a dúvida surgia, como me confessaram mais tarde. 

— Sim! — insistia a mestra — se Ele existe, por que não vem? 


Ângela continuava de pé, pálida como uma morta. As suas companheiras receavam, ao vê-la assim, que caísse ao chão. A professora saboreava a aflição das alunas. Enfim, triunfava e esmagava a fé naquelas pequeninas almas...

De repente, o imprevisto se deu. De um salto, Ângela atirou-se para o meio da sala. Nos olhos, tinha um clarão de esperança confiante. Olhou em volta e gritou: 

— Ouçam-me! Vamos chamá-lo! Gritemos todas: "Vem, Menino Jesus!". 

Num instante, todas se puseram de pé, com as mãos erguidas numa prece, os olhos brilhantes, os corações a pulsar numa imensa esperança. Num uníssono vibrante, as suas vozes se ouviram: 

— Vem, Menino Jesus! 

A professora não esperava esta súbita reação. Instintivamente recuou, com os olhos fitos em Ângela. Um silêncio profundo se seguiu, pesado como uma lenta agonia. Depois, de novo se ouviu aquela vozinha de cristal: 

— Vamos! Chamemos mais! Gritem muito alto! 

E um clamor forte, imenso, capaz de transpassar as paredes, vibrou: 

— Vem, Menino Jesus! Vem, Menino Jesus! 

O medo, a dúvida, por um momento jugulados, podiam renascer, mas o sentido da camaradagem deu o impulso que as reuniu em torno daquela que se revelava “chefe” e esperava o milagre. Tinham os olhos fitos, não na porta, por onde poderia entrar o Menino, mas na parede branca, em que se destacava a figurinha de Ângela, e continuavam a repetir: 

— Vem, Menino Jesus! 
Nesse instante a porta abriu-se sem ruído, e as crianças pensaram que toda a luz do dia entrava por ela. Era uma claridade intensíssima, que crescia, crescia, como a chama violenta dum enorme fogo. No meio desse clarão, um globo cheio de luz. O medo invadiu-as, mas nem tiveram tempo para gritar ou fugir: o globo abriu-se e apareceu um Menino lindo e risonho, como nunca tinham visto. O Menino sorria sem proferir uma palavra, e todas sorriram também, tranquilas e contentes. Algumas garotas esfregavam os olhos, para melhor contemplarem o Menino vestido de luz, outras olhavam-no de olhos espantados, sem pestanejarem. O Menino sorria, não falava, sorria para todas. 

Depois o globo fechou-se, de mansinho, e desapareceu devagar. A porta cerrou-se sem que ninguém lhe tocasse, e as crianças emocionadas, os coraçõezinhos inundados de felicidade, sem uma palavra abraçavam-se, a chorar de felicidade. 

O Menino as ouvira! O Menino viera! 

Que tempo durara a aparição? Uns instantes? Uma hora? Cada criança calculava a seu modo, ao testemunhar a aparição do Menino. Todas diziam: “Estava vestido de branco, e parecia um sol pequenino”. 

As crianças olhavam ainda a porta. Subitamente, um grito agudo quebrou a emoção desse silêncio. Aterrada, olhos esgazeados, braços estendidos, mãos enclavinhadas, a professora gritava como louca: 

— Ele veio! Ele apareceu! 

Em seguida fugiu, batendo com força a porta. 

Ângela mexeu-se, enfim, como quem desperta dum sonho: 

— Vocês viram? 

— Sim, vimos! 

— Ele é que trazia a luz — dizia uma. 

— A luz do dia é negra, comparada àquela claridade — acrescentava outra. 

— Vocês viram? — repetia Ângela 

— Ele existe! 
Toda a gente falava deste acontecimento, que as crianças contavam maravilhadas. Os pais vieram ver-me, acompanhados das filhas. Interroguei-as, uma por uma. Pois bem, posso declarar, sob juramento, que nas suas palavras não encontrei contradições. Isto surpreendeu-me, tão extraordinário era o que se tinha passado. Uma garota dizia-me, muito satisfeita: 

— Senhor, nós estávamos com muito medo, e bem precisávamos que o Menino nos acudisse... 

O mundo inteiro já conhece este fato. Mas agora devo dar o epílogo. A Sra. Gertrudes deu entrada num manicômio. O cérebro ressentiu-se do tremendo abalo que sofreu, e não cessava de repetir: “Ele veio! Ele veio”. Tentei visitá-la. Em vão, pois recusam absolutamente entrada aos padres nas casas de alienados. É que são frequentes os casos de obsessão religiosa... Os profanadores de igrejas, em geral, acabam loucos. Todos os dias, ao celebrar a Missa, rezo por ela e por todos. 

Concluídos os exames, Ângela foi para casa, ajudar a mãe. É a filha mais velha dum rancho de irmãos. A minha partida precipitada nada mais me deixou saber a seu respeito.

___________ 
Nota: (*) A insurreição da nobre nação húngara contra o comunismo foi tão forte e extensa que chegou a derrubar o governo títere de Moscou e a libertar da prisão o resistente Cardeal Mindszenty, juntamente com numerosos outros prisioneiros. Pouco depois, porém, um poderoso exército russo entrou na Hungria, dizimou a população com seus tanques de guerra, conseguindo novamente dominar o país. O Cardeal Mindszenty mal teve tempo de refugiar-se na embaixada norte-americana.

22 de dezembro de 2013

São Boaventura: Prodígios ocorridos no dia do nascimento do Menino Jesus(*)


Deus libertou sua cidade no dia de hoje, manifestando sua majestade ao povo pecador, não só fazendo nascer o Filho, mas também decorando e adornando com seus milagres o dia, a hora e o tempo da Natividade. Estes são, segundo diversas descrições, os milagres manifestados ao povo pecador no dia do nascimento de Cristo: 

1º) Uma estrela brilhantíssima apareceu no céu, do lado do oriente, na qual se via a figura de um belíssimo menino, em cuja cabeça refulgia uma cruz, para manifestar que nascia Aquele que vinha iluminar o mundo com sua doutrina, sua vida e sua morte. 

2º) Em Roma, ao meio-dia, apareceu sobre o Capitólio, junto ao sol, um círculo dourado — visto pelo Imperador e pela Sibila —, tendo ao centro uma virgem belíssima, portando um menino, a fim de manifestar que Aquele que nascia era o rei do mundo, que se dava a conhecer como o esplendor da glória do Pai e exteriorização de sua própria substância. Vendo esse sinal, o prudente imperador ofereceu incenso ao menino, e recusou desde então ser chamado deus. 

3º) Em Roma desmoronou o templo da paz, a respeito do qual, ao ser construído, os demônios se perguntavam quanto tempo duraria; tendo-lhes sido respondido: até o momento em que uma virgem dê à luz, como sinal de que nascia Aquele que haveria de destruir os templos e as obras pagãs. 

4º) Em Roma uma fonte de azeite de oliveira irrompeu e fluiu abundantemente, por muito tempo, até o Tibre, para ficar patente haver nascido a fonte da piedade e da misericórdia. 

5º) Na noite da Natividade, as vinhas de Engadda, que produzem bálsamo, floresceram, cobriram-se de folhas e produziram licor, para significar que nascia Aquele que faria o mundo florescer, reverdecer e frutificar espiritualmente, e atrair com seus odores o mundo inteiro. 

6º) Cerca de trinta mil rebeldes foram mortos pelo imperador, a fim de manifestar o nascimento d’Aquele que sujeitaria o mundo inteiro à sua fé e arremessaria os rebeldes no inferno. 

7º) Todos os sodomitas, homens e mulheres, morreram por toda a Terra, conforme disse Jerônimo, comentando aquele Salmo: “A luz nasceu para o justo”, para evidenciar que Aquele que nascia vinha reformar a natureza e promover a castidade. 

8º) Na Judéia um animal emitiu palavras, para que se compreendesse que nascia Aquele que aos bestiais transformaria em racionais. 

9º) No momento em que a Virgem deu à luz, todos os ídolos do Egito se espatifaram, segundo o sinal que Jeremias dera aos egípcios quando esteve entre eles, para que se entendesse que nascia Aquele que era verdadeiro Deus, único a ser adorado com o Pai e o Espírito Santo. 

10º) Logo que o Menino nasceu e foi reclinado no presépio, um boi e um asno ajoelharam-se e, como se fossem dotados de razão, O adoraram, para que se compreendesse que nascia Aquele que a seu culto chamava o povo judeu e os gentios. 

11º) Todo o mundo gozou da paz e se ordenou, para que ficasse manifesto que nascia Aquele que amaria e promoveria a paz universal e os seus eleitos marcaria para a eternidade. 

12º) No oriente três sóis apareceram, e aos poucos se transformaram em um só corpo solar, pelo que se mostrava que se aproximava do mundo o conhecimento da unidade e trindade de Deus, e também que a Divindade, a Alma e a Carne em uma só Pessoa convergiram. 

Por todos esses milagres nossa alma deve bendizer a Deus e venerá-Lo, porque nos libertou, e sua majestade — com tão grandes milagres — se manifestou a nós, povo pecador. 
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(*) Sermão pronunciado por São Boaventura (pintura ao lado), século XIII, em Santa Maria de Porciúncula (Itália). Obras Completas, in Natividade Domini, Sermão XXI. Tradução portuguesa do original latino da edição dos Padres do Colégio São Boaventura, 1901.