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26 de dezembro de 2015

Que a Sagrada Família encontre acolhida em nossos lares!


Paulo Roberto Campos
prccampos@terra.com.br

A fim de melhor sentirmos as bênçãos, os aromas e o “lumen Christi” próprios aos dias de Natal, auxilia-nos assistir às cerimônias natalinas de alguns países europeus. São elas celebradas tanto em majestosas catedrais quanto em pequeninas igrejas, e mesmo naquelas casinhas, tão simpáticas e aconchegantes, cobertas por um virginal manto de neve.

Na impossibilidade de visitar esses países para assistir in loco a essas cerimônias, o vídeo abaixo apresenta aspectos encantadores delas na França, na Inglaterra, na Alemanha e na Itália. Tradições católicas que ainda persistem, apesar de fortes pressões para que sejam abolidas para não "ofender" outras religiões, como o islamismo... 

A gravação é em francês, mas mesmo aqueles que não entendem a bela e melodiosa língua de Racine e Corneille compreenderão tudo, pois as imagens, assim como as músicas, “falam” em todas as línguas... Poderemos ver reflexos de costumes nascidos da Civilização Cristã e que nos enchem de saudades. 

Saudades de Natais que não conhecemos, mas de tal modo impregnados por seculares e cristãos costumes europeus que, transpondo o Oceano, se fixaram nos Natais de nossa infância, quando se celebrava de fato o nascimento do Menino Jesus. Ele, sua Mãe Santíssima e São José eram o centro de todas as atenções, e não um “Papai Noel” mercantilista, gordo e balofo, que mais faz lembrar presentes, propaganda de Coca-Cola e shoppings. No vídeo se poderá ver a figura majestosa de São Nicolau, que lamentavelmente foi expulso para dar lugar ao usurpador “Papai Noel”. 

No mundo atual, onde encontrar as bênçãos, os aromas e as luzes de Cristo emanadas do Presépio da Gruta de Belém? Eram graças natalinas que exalavam suavemente, mas que tonificavam nossas almas só de contemplar Aquele Divino Infante reclinado numa simples manjedoura.


Hoje, é triste dizer, Jesus, Maria e José não encontram hospedagem na maioria das casas. Pior. Sequer em igrejas “progressistas”, algumas das quais, para ficarem de bem com o “ecologicamente correto” (portanto, de mal com Deus), mais celebram a natureza, as plantas, a água, os bichos, a terra, do que o Criador de todas as coisas (Cfr. "São Pedro: uma basílica ultrajada")Assim, ficou relegado a um segundo plano Aquele Menino Deus que veio ao mundo para nos salvar eternamente. “De tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (São João, 3, 16). 


Que a Sagrada Família, encontrando acolhida em nossos lares e corações, tenha piedade de nós; e que tanto neste Ano Novo quanto nos demais de nossa existência, auxilie particularmente todas as Famílias que acompanham nossas publicações a não compactuar com os erros do progressismo e do mundo moderno enlouquecido.
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22 de dezembro de 2015

NATAL — meditação dirigida aos que sofrem perseguições

Adoração dos Reis Magos -- Cesare Gennari, séc. XVII. Museu Municipal Villeneuve-lès-Avignon   (França)

A título de preparação espiritual para a devida celebração do Santo Natal do Divino Infante, aconselhamos aos diletos leitores refletir nas considerações contidas no vídeo abaixo. 

Trata-se de uma meditação para os dias natalinos com considerações tecidas por Plinio Corrêa de Oliveira — fundador da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP) — numa de suas conferências às vésperas do Natal de 1984 — precisamente no dia 22 de dezembro de 1984.
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Vídeo produzido por Luis Dufaur para seu blog “Luzes de Esperança”: http://luzesdeesperanca.blogspot.it/p/natal.html

29 de dezembro de 2014

Alegrias de Natal nos bons velhos tempos

A fim de estimular nossos leitores a celebrar com a devida elevação de vistas o nascimento do Menino-Deus, Catolicismo lhes oferece, como matéria de meditação, belas considerações feitas pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a respeito dessa data magna. Elas lhes farão sentir as alegrias de que se cercavam e os perfumes que penetravam todos os ambientes da civilização cristã no período natalino — o oposto do mundo neopagão no qual vivemos. Esquecendo-se do principal, que é a glória de Deus, procura-se extinguir em nossos dias, como se possível fosse, a Luz que veio ao mundo, reduzindo cada vez mais a figura do Menino Jesus e transformando o Natal em mera troca de presentes e frenesi comercial. Ou, pior ainda, rebaixando-o à trivial condição de “feriadão”. 

Plinio Corrêa de Oliveira descreve o ambiente natalino e as graças próprias a esse abençoado dia em seu tempo de menino. São considerações de molde a despertar em nós, não apenas uma reconfortante recordação, mas sobretudo uma admiração autêntica pelas épocas de fé, e um desejo cada vez mais ardente da restauração completa da Cristandade. Então as graças natalinas voltarão a impregnar todos os povos redimidos por Aquele que veio ao mundo e derramou seu preciosíssimo sangue para a nossa Redenção. 

O texto que segue corresponde a excertos de uma conferência do Prof. Plinio para sócios e cooperadores da TFP em 21 de dezembro de 1984, tendo sido feitas pela redação apenas pequenas adaptações da linguagem falada para a escrita e inseridos subtítulos. 

Plinio Corrêa de Oliveira em 1912, contava então com 4 anos.

“No meu tempo de menino... 

 ...a noite de Natal era um hiato luminoso, cheio de algo que não se consegue descrever, mas que todos sentiam: era aquela suavidade, aquela paz, aquela doçura que dava a impressão de que todo o céu estrelado da noite estava como que impregnando a Terra de perfumes”. 

Plinio Corrêa de Oliveira
Fonte: Revista Catolicismo, Nº 768, Dezembro/2014
www.catolicismo.com.br


A festa do Santo Natal, assim como a festa de Páscoa, têm especialmente este privilégio: elas interrompem o tempo. Pode alguém estar na situação aflitiva em que estiver, chega o Natal e se abre um paredão: desgraças e lágrimas de um lado, e de outro bimbalham os sinos; o Natal começou; Cristo nasceu; alegria para todos os homens! 

Uma alegria que não é a alegria vulgar do homem que fez um bom negócio; do homem que deu uma tacada política e venceu; do homem que se envaideceu e no qual os outros acreditaram; do homem que ganhou uma loteria... Não! É uma alegria muito mais interna, muito mais leve, uma alegria feita de luz, enquanto as outras são feitas de coisas palpáveis e de segunda ordem. Uma alegria toda ela feita de luz e de uma luz que é o lumen Christi — a luz de Nosso Senhor Jesus Cristo que brilhou uma vez na Terra, na noite de Natal, e nunca mais, de ano em ano, deixou de brilhar, trazendo uma verdadeira alegria e uma verdadeira paz de alma até para as pessoas mais atormentadas.


“Sangue de Cristo, embriaga-me!” 

Na noite de Natal, gosto de lembrar o que teria sido o Natal nas catacumbas. A catacumba de São Calixto, em Roma, é terrível. Eu nunca pensei que fosse o que é: corredores estreitos, altos, tem-se a impressão de que as duas paredes vão se encontrar no alto. Terra por todos os lados e sepulturas. De repente, uma clareira filtrava de cima um pouquinho de luz e via-se uma sala quadrangular com algumas pinturas, já muito velhas, feitas não sei com que técnica, diretamente sobre a terra. Elas representam de um modo ingênuo cenas do Evangelho. Percebo um altarzinho... E o guia explicou: “Esta era uma capela, aqui se rezava missa!” 

As sepulturas eram de mártires. Terminado para os pagãos o “espetáculo” de um martírio, o povo se retirava. Quando anoitecia, católicos heroicos — candidatos eles mesmos ao martírio, porque se fossem pegos seriam martirizados — arrastavam-se nas trevas da noite até o Circo Máximo, ou até o Coliseu, para resgatar aqueles restos de corpos trucidados pelas feras. Depois, passo a passo, talvez rastejando pelo chão, chegavam escondidos até à entrada da catacumba, que era um orifício no chão. Eles se esgueiravam, chegavam no subterrâneo.

Imediatamente, do fundo da terra ecoava um cântico de triunfo pelo irmão que padeceu e agora está no Céu. Os corpos deles eram gloriosamente trazidos para dentro da catacumba, corpos de mártires que morreram por amor a Nosso Senhor Jesus Cristo. 

Havia mártires que morriam na alegria de enfrentar as feras. Eles iam de encontro a elas; triturados, morriam na alegria com a esperança da salvação eterna no Céu. 

Quando se canta o Anima Christi, há uma das invocações que diz: Sanguis Christi inebria-me! (Sangue de Cristo embriaga-me!). Pode-se perguntar o que quer dizer “Sangue de Cristo embriaga-me” O que é esta embriaguez do Sangue infinitamente precioso de Nosso Senhor Jesus Cristo?

Pode-se responder com um exemplo: um mártir que comungou o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor, embriagando-se da alegria e da graça do Espírito Santo, está como que ébrio. Diante do perigo e da dor ele não tem medo. Pelo contrário, a alegria sobrenatural que o enche é tal que, se lhe dissessem que a fera não vem, ele poderia ficar desapontadíssimo! Para ele, a boca do tigre é ocasião de entrar na eternidade no Céu! E as presas do animal são para ele as presas benfazejas que vão romper os laços que o prendem à Terra, para que a sua alma possa voar e ver Nosso Senhor Jesus Cristo! 

Há momentos em que a graça produz este efeito. Então se compreende bem a jaculatória sublime: Sanguis Christi inebria-me! Quantas vezes vemos sinais dessa ebriedade casta e temperante do Sangue de Cristo? 
Os mártires na catacumba – Jules Eugène Lenepveu, 1855. Musée d´Orsay, Paris.

Natal: alegria cheia de asas, cheia de brilho 

A vida de um católico autêntico pode ser difícil, uma vida de batalha, uma vida de renúncia e de sacrifício. Não há quem seja mais isolado, mais bloqueado, mais odiado do que um verdadeiro católico contra-revolucionário neste mundo de neopaganismo. 

Entretanto, como estamos alegres! Como nos enche de alegria a perspectiva do Santo Natal! Acontecimento que desfechou na maior das tragédias da História: a Crucifixão. Para pessoas mundanas esta consideração poderia ser tachada de loucura. Entretanto, é a casta embriaguez do Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo! Porque recebemos a graça no Batismo, porque muitas vezes confessamos e comungamos, porque rezamos, porque nossas almas se tornaram sensíveis a estas alegrias de uma categoria inteiramente superior, perto das quais as alegrias da Terra não valem absolutamente nada. Natal! Todos nos preparamos para a alegria do Santo Natal. Que maravilha! 

Essa alegria tira o homem de dentro de si mesmo e difunde uma atmosfera. Alegria, por assim dizer, cheia de asas, cheia de brilho. 

Os mais jovens não alcançaram o que era verdadeiramente uma noite de Natal. Quais eram as impressões da noite do Natal de outrora? — Lembro-me dos tempos em que Natal ainda era Natal... Assim, não seria descabido descrever um pouquinho dessas recordações e tentar fazer reviver aquilo que, numa grande cidade de hoje, tão rica e tão pobre, quase não se percebe mais. 


Natal na “São Paulinho” dos anos 20 

Como era um Natal de 1920? Como era o Natal dos últimos anos da minha infância? Que impressões causavam? 

Alguns poderão dizer que se trata de imaginação a descrição que eu vou fazer. Responderia que não tenho nenhuma prova de que não seja imaginação, mas é do que me recordo. Tenho a convicção interna de que não era imaginação, mas era a graça. A graça que era concedida a mim, mas era dada a todas as crianças do tempo que eu conheci. Era uma graça generalizada! 

As crianças, alguns dias antes do Natal já se sentiam invadidas por uma expectativa, por uma alegria que era muito curiosa, porque vinha sem dúvida da esperança das festas que se realizariam. A perspectiva da festa, no que ela tinha de humano e de terreno, essa perspectiva desempenhava um papel na alegria da criança. 

A criança sabia que tinha pedido a São Nicolau — o santo bispo afável que vinha à noite, enquanto as crianças dormiam, e colocava caixas de presentes junto a elas — presentes grandes nos lares abastados; caixinhas de presentes, afetuosas e pequenas, nos lares modestos; talvez uma florzinha, talvez uma bala, nos lares pobres. Mas em todo lar onde houvesse uma mãe, havia presentes. Ou num lar onde houvesse um pai solícito, alguma coisinha havia para colocar junto à cama do filho. E para a criança isto era uma maravilha, que ela esperava com alguns dias de antecedência. 


Alegria sobrenatural da alma limpa 

Essa alegria que eu sentia invadia minha casa alguns dias antes do Natal. A fräulein Mathilde [governanta da família] fazia conosco um armistício nos estudos de matemática, de geografia e de línguas. Tínhamos assim dias agradáveis na perspectiva do nascimento do Menino-Deus. Podia-se então passear um pouco, correr pelo jardim, brincar. Eram alegrias próprias à inocência da infância, na espera do Natal que se aproximava. Esta alegria era motivada por alguma coisa mais alta e que já era um prenúncio da alegria estritamente religiosa e definidamente religiosa do Natal que chegava. Algo de especial começava a nos encher a alma. 

Nesses dias, todas as crianças ficavam melhores. As que mentiam, mentiam menos; as que não mentiam, censuravam alguma criança que mentisse; as que vagabundeavam ou que sofismavam, ou chicanavam com os horários da casa, eram mais pontuais. Todo o mundo começava a sentir mais limpeza dentro da alma. E a alegria de ter a alma limpa é uma alegria que não tem igual na vida. Esta é a alegria, por exemplo, de quem se confessa e de quem sai do confessionário com a certeza de que foi perdoado.

Há certas alegrias da confissão que não se comparam com nada. Todos os senhores, uma vez ou outra, sentiram isso. Foram se confessar, às vezes era um mero escrúpulo que estava atormentando a alma. A criança sai do confessionário alegre, sentindo-se feliz. É a alegria sobrenatural da alma limpa. Enquanto estou falando, vejo vários dos senhores que sorriem, porque se lembram disso e têm saudades desta “alegria de confessionário”.

Era um pouquinho assim a alegria de Natal nos dias que se antecipavam ao dia 25 de dezembro. Sem que se tivesse confessado, havia uma ideia de um princípio de pureza, de limpidez, de honestidade, de bondade, de candura descida sobre a Terra, que alterava as almas de todos os homens. As pessoas começavam a ser mais benévolas umas com as outras, fazendo pequenos favores recíprocos. As crianças egoístas emprestavam de bom grado os seus brinquedos, as crianças birrentas faziam pequenos favores. E imaginava-se que no mundo dos mais velhos isso era assim também. E havia razão para imaginar isso.

Os mais velhos sabiam que esse já não era o mundo deles, já não estávamos na época de esplendor da Religião católica, mas eles sabiam que esse era o mundo em que nós crianças estávamos, e quando se aproximavam de nós, aproximavam-se como que desejando ver nos nossos olhos a recordação do que foram os Natais deles. O que me levava a achar que eles estavam impregnados da mesma alegria natalícia, pois era só chegar perto que eles cumprimentavam: “Ó, como vai?” E mais amáveis, mais afáveis, e cedendo a pequenos caprichos de criança, etc. Imaginava então que eles estavam tomados pela mesma alegria de Natal. 


Participação na alegria geral na época de Natal 

Propaganda de brinquedos de Natal da “Casa Fuchs”
Nas vésperas do Natal, éramos levados para ver os brinquedos nas casas que tinham exposição das peças. Naquela época, lembro-me que, em geral, eram casas alemãs e inglesas. Havia em São Paulo a “Casa Fuchs”, a “Casa Grumlach”. Havia uma casa portuguesa — a “Casa Lebre” — e outras, como a “Casa Mappin”. Nesta última, minha mãe e a fräulein iam conosco. Como o Natal se aproximava, íamos com roupa de gala, todos enfeitados. E quando saíamos para ver os presentes, admirávamos este presente, aquele, aquele outro... Mamãe ficava prestando atenção e vendo o que cada um queria. E o presente preferido era, “por coincidência”, aquele que São Nicolau levava... Maravilhávamo-nos com a coincidência: “Veja como São Nicolau sabe de todas as coisas...” 


Prédio da antiga “Casa Mappin” na Praça do Patriarca
Para mim, sensível à gastronomia desde muito cedo, uma das partes culminantes da preparação do Natal era quando, depois do circuito para ver presentes, íamos tomar um lanche no salão de chá da “Casa Mappin”. Chá, sanduíches, torradas, chocolate... Eu me regalava! Tinha a impressão de que a alegria do meu corpo em contato com aqueles ventos que sopravam era meio parecida com a alegria de minha alma em contato com as graças do Natal que se aproximava. Eu pensava: “É bem verdade, o Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo está chegando. Daqui a pouco se comemorará que Ele nasceu numa manjedoura, nasceu da Virgem Maria, sob o olhar de São José. Oh, que beleza! Vamos depressa, pois Ele está para chegar!”

Esta alegria se percebia em todas as mães que levavam crianças de um lado para outro do centro da cidade. Em São Paulo, no centro andavam todas as crianças, alegres e satisfeitas. Algumas já levando presentes, dando risadas, conversando. As mães, quando passava uma criança mais vistosa, mais engraçada, piscavam para a mãe daquela como que a dizer: “Mas que engraçadinha, etc.” A mãe ficava toda satisfeita... Era uma participação da alegria geral. 


Os preparativos, a árvore de Natal e a “Missa do Galo” 

Voltava-se para casa e começavam os mistérios... Numa sala
determinada, não se podia entrar. Era a árvore de Natal que estava sendo preparada. Cada ano com alguma novidade. Eram os enfeites de Natal das árvores anteriores, mas com alguma novidade: alguns enfeites diferentes; uma estrela muito grande e muito bonita; um anjo de papel colado num círculo dourado; enfim, diversos enfeites para a árvore de Natal. Às vezes, de esguelha, ouvia-se alguma coisa a respeito da árvore e ia-se contar para os outros: “Olha tem tal novidade...” E assim corriam os dias até a chegar a noite de Natal, a “Missa do Galo”. 

Morávamos perto da igreja do Sagrado Coração de Jesus e íamos a pé para a Missa. Todas as casas estavam abertas, todas as luzes acesas, todas as janelas e portas também abertas. E quando caminhávamos, percebíamos — tanto em casas modestas como em casas apalaciadas — uma árvore de Natal maior ou menor, acesa, e no interior das residências algum gramofone tocando roufenhamente umas músicas de Natal. Percebíamos a alegria da família: todos estavam acabando de se aprontar para sair, ficava apenas um criado ou outro tomando conta da casa. As famílias começavam a sair e os sinos a tocar, avisando que não tardaria muito o início da Missa. 

Chegava-se à igreja e estava iluminada — para a ótica da criança, iluminada feericamente. O altar todo cheio de flores, uma manjedoura e o Menino Jesus deitado. E quando batia a meia-noite, o padre entrava e começava a Missa. Era um recolhimento impressionante! Uma espécie de contradição: um recolhimento e uma explosão ao mesmo tempo. Uma explosão de recolhimento, um recolhimento explosivo, algo nesse sentido, que enchia literalmente a alma de alegria. 


Assistia-se à Missa e, quando já se tinha idade, comungava-se. A comunhão era o ápice. Recolhimento, a ideia de que Nosso Senhor Jesus Cristo tinha nascido em Belém numa noite daquelas e estava agora realmente presente em nós. Faziam-se os pedidos... Mas, sobretudo, uma sensação de intimidade. Eu tinha uma estampa do Sagrado Coração de Jesus que representava Nosso Senhor segurando um menino de cabelos pretos cacheados, e embaixo havia uma oração mais ou menos assim: “Ó Bom Jesus, tende piedade de mim!” Eu rezava pensando: “Espiritualmente, Nosso Senhor está fazendo isto comigo nesta hora. Eu peço a Ele: ‘Ó bom Jesus, tende piedade de mim!’”.



“Será que São Nicolau acertou?” 

Tinha-se a impressão de que, celebrada a Missa, as graças de Natal se difundiam por todas as casas. E quando se retornava, elas já não eram bem as mesmas. Havia algo de religioso nelas, algo de sacral, de recolhido, que era uma verdadeira maravilha! Mas ao mesmo tempo uma enorme alegria! Começavam os cumprimentos, os ósculos, as felicitações, etc.

Nem preciso falar dos carinhos e felicitações que recebia de minha mãe... Eu já chegava em casa contando com isso, que era um complemento da noite de Natal: a mãe católica osculando um filho que ela desejaria que ficasse católico também. Depois começava a festa de Natal, que terminava já com o sono pesado, mas sono delicioso. Como se sabia que São Nicolau viria durante a noite entregar o presente, tínhamos vontade de surpreendê-lo... Como ele era muito hábil, isto nunca acontecia. Mas tínhamos esperança. E quando chegavam mais ou menos as quatro horas da manhã, sentia-se às vezes sobre os pés o peso da caixa de presentes. 

E pensávamos: “Será que São Nicolau acertou?” Eu não podia
acender a luz do meu abat-jour para ver porque meus pais, que dormiam no quarto contíguo, notariam e me censurariam. Mas também pensava: “Como é gostoso sentir nos pés o peso desse presente grande”. E avaliava o valor e o prazer que o presente iria causar. Pouco depois o sono infantil dominava e a criança dormia. Mas mais tarde, a sofreguidão de acordar fazia com que a criança acordasse de novo e pensasse no presente. 

Um pouco antes de a criada chegar, para acordar com o café, eu já estava de pé, estraçalhando as fitas, os laços, os barbantes... Se fosse possível, arrebentando a caixa para ver o presente que estava dentro, que era sempre muito bonito e que tinha visto e gostado na “Casa Lebre”, na “Casa Grumbach” ou na “Casa Fuchs”... 


Um exército de soldadinhos de chumbo

Lembro-me de um dos presentes de Natal que recebi: uma caixa grande de soldadinhos de chumbo. Eram soldadinhos franceses, entre estes os meus bem-amados Dragões de Cavalaria, um dos quais tocando trompete. Havia outras tropas e canhões. Era a miniatura de um pequeno exército. Não estávamos ainda longe da Primeira Guerra Mundial e tudo isto para mim dizia muito. Falava-se de guerra e fui em toda minha vida muitíssimo militarista. Sempre tive entusiasmo pela condição militar. Assim, eu puxava aqueles soldadinhos para fora da caixa e ia constituindo paradas militares, ficava horas dispondo tropas e sonhando com batalhas. Foi um presente de Natal! 

O sono da noite de 25 para 26 era um sono pesado, gostoso, da consciência tranquila, do Natal sagrado, sob cujo bafejo se dormia, sabendo que no dia seguinte ainda seria de recordação do Natal. Ainda iríamos comer os últimos doces, beber os últimos ponches, brincar mais uma vez com os brinquedos até nos familiarizarmos com eles. 


Recordação... esperança... certeza... 

No meu tempo de menino, a noite de Natal era um hiato luminoso, cheio de algo que não se consegue descrever, mas que todos sentiam: era aquela suavidade, aquela paz, aquela doçura que dava a impressão de que todo o céu estrelado da noite estava como que impregnando a Terra de perfumes. Os sinos tocavam, o som se espalhava e o júbilo impregnava até os jardins. Era uma alegria enorme que circundava todos os homens, porque Cristo nasceu, nasceu em Belém! 

Creio que alguns dos mais velhos devem ter sentido essa atmosfera natalina. Receio que os mais jovens não tanto. Nos tempos atuais, as televisões ligadas o dia inteiro, rádios vociferando canções de Natal comercializadas, essas lâmpadas elétricas laicas penduradas em torno de árvores, em jardins de prédios de apartamentos... Nas igrejas, a missa não é mais tradicional, com toda a tristeza da realidade pós-conciliar. 

O que resta de todo o ambiente do Natal de outrora? Resta uma recordação. Resta muito mais do que uma recordação, resta uma esperança! E foi para avivar esta esperança que eu teci essas considerações. Resta mais do que uma esperança, resta uma certeza! Esta certeza é ligada a uma promessa divina: “As portas do Inferno não prevalecerão contra a Igreja!” 

Assim, um dia, depois de provações, de lutas, acontecerá que os verdadeiros Natais reflorescerão na Terra. A alegria do Santo Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo. 

Aquelas antigas noites de Natal eram ainda os últimos luzimentos da Cristandade. Nós olhamos para o futuro e esperamos ver, ou do Céu ou na Terra, os natais que florescerão no Reino de Maria — conforme anunciado por São Luís Grignion de Montfort e na Cova da Iria, em Fátima. São promessas tão celestes e tão confortadoras: “Por fim o meu Imaculado Coração triunfará”. Quando o Imaculado Coração de Maria triunfar, que glória, que doçura, que harmonia, que suavidade indescritível e única terão as festas do Santo Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo!

As comemorações natalícias da Sagrada Família 

Encerro imaginando como seria o Natal na Sagrada Família. É possível que, nas noites de Natal, Nossa Senhora e São José celebrassem o aniversário do Menino Jesus. O dia é tão grandioso que, quando Nosso Senhor nasceu, os anjos cantaram: “Glória a Deus no mais alto dos Céus e paz na Terra aos homens de boa vontade!” É impossível que Nossa Senhora e São José não festejassem esse tão grande dia. 

Podemos imaginar, por exemplo, Nosso Senhor com apenas dois anos deitado na sua caminha, e Nossa Senhora e São José aproximando-se à meia-noite e adorando-O no silêncio, com receio de acordá-Lo. Em certo momento, Ele acorda, abre os olhos... Que olhar! Em forma de cruz, Ele abre os braços para ambos, que se aproximam e Lhe osculam os pés. O Menino Jesus os abraça e os beija. Era o Natal na casa de Nazaré, a qual se encontra hoje na cidade italiana de Loreto. 

Pode-se imaginar que à medida em que Nosso Senhor Jesus Cristo crescia em graça e santidade diante de Deus e dos homens, o Natal ia ficando mais belo. Imagine Ele adolescente, depois Ele já maduro, irradiando aquela perfeição cada vez mais sensível aos homens e que deixava Nossa Senhora e São José cada vez mais encantados. 

Como seriam essas comemorações? Os anjos não cantariam? Não se ouviriam coisas extraordinárias naquela santa casa? Todas as conjecturas são possíveis, cada uma delas mais bela do que a outra. 

Pode-se imaginar o primeiro Natal depois da Ascensão de Nosso Senhor ao Céu? Na Igreja ainda pequenina e nova, que nascia como uma plantinha, cada ano que passava o Natal se tornava mais belo, mais sagrado, mais recolhido, introduzia-se mais uma cerimônia, mais um ritual, firmava-se uma tradição...

28 de dezembro de 2014

O ANIVERSARIANTE E O PALHAÇO GORDUCHO

Jacinto Flecha
Fonte: Revista Catolicismo, Nº 768, Dezembro/2014

Meu amigo americano olhou-me um tanto desconcertado, parou um pouco para pensar, e esclareceu: Os sinos festivos do Jingle bells acompanham a música e lhe dão o ritmo, lembrando os guizos do animal que puxa o trenó; e a época do Natal é muito boa para se passear de trenó na neve. Resumida assim a explicação, ele me fez saber que estranhara a minha pergunta, pois sempre julgou isso muito natural. 

É possível que algum leitor conheça apenas a versão brasileira do Jingle bells, impregnada de referências natalinas a sino de Belém, Deus menino, rezar na capela, noite bela, etc. Por isso, antes de alguém estranhar minha estranheza, responsável pela do meu amigo americano, informo que a letra original do Jingle bells não contém nenhuma referência ao Natal, gira apenas em torno de um alegre passeio de trenó pelos campos, que poderia realizar-se em qualquer período nevado do ano.

Bem distantes desses costumes, os brasileiros não compreenderiam a maioria das referências psico-atmosféricas presentes na música, daí um letrista vincular diretamente ao Natal a versão brasileira. Acho louvável a iniciativa, embora não me agrade o aspecto alegrote, bem pra lá do limite entre o leve e o leviano. A lentidão pensativa e respeitosa do Noite feliz, muito mais adequada para reverenciar a presença augustíssima de Deus entre os homens, não dispensa no entanto a alegria. Na música natalina alemã, a alegria atinge a alma em toda a sua profundidade, não é apenas epidérmica como a saltitante e sorridente musiqueta americana. 

Associar o Natal à neve é um costume proveniente dos países cristãos onde a neve cobre a natureza nessa época do ano. No Brasil, ela quase só existe no dicionário e na poesia, muito lembrada onde entram anciãos com cabelos marcados pela neve do tempo, ou para realçar o branco como a neve de alguma coisa. Em relação ao Natal, quase nada significa para nós, embora presente em cartões de Natal mais adequados ao Polo Norte ou à Lapônia. Parecem de brinquedo as casinhas quase sucumbindo às grossas coberturas brancas, as renas e trenós movimentando-se suavemente, os sinos bimbalhando em torres de capelinhas iluminadas… e o onipresente Papai Noel (ho! ho! ho!) — o sorridente, prestativo e vermelhão Papai Noel. 

(Será que ele acredita mesmo em Papai Noel?!) 

Sem dúvida nenhuma, caro leitor. Aproximando-se o Natal, basta ligar a TV, entrar num shopping, abrir uma revista ou jornal, surfar na internet, e lá está ele com seu sorriso elástico de velhote velhaco, sempre pronto a brincar com uma criança, indagar qual presente ela quer receber dos pais, e assim avalizar diante do comprador o que o comerciante precisa vender. Como duvidar de velhinho tão real e agradável, tão amigo das crianças e do cartão de crédito dos pais? 

Entendeu por que não posso deixar de acreditar em Papai Noel? Constato sua existência pelo que vejo, só isso. Mas quando a pergunta é se ele deveria existir, não vacilo numa resposta clara e definidamente negativa. Sou até propenso a supor você e eu em extremos opostos sobre este assunto. Como a maioria das pessoas, você pode achar o Papai Noel engraçado (todo palhaço tem de ser engraçado); tem uma roupa bonita, atraente (ridícula de ponta a ponta, das botas ao gorro de dormir); tem uma risada diferente (muito útil, se você quiser amestrar animais); resolve o problema dos pais na escolha dos presentes (espero que você saiba conversar com seus filhos). 

Se você perguntar aos seus amigos de onde surgiu o costume
Adoração – Mestre de Viena, 1410.
Szépmüvézeti Müzeum, Budapeste (Hungria).
natalino de dar presentes aos filhos, provavelmente muitos não o relacionarão com os presentes dos Reis Magos ao Menino Jesus. Na perspectiva da Boa Nova evangélica, os presentes aos filhos adquirem significado profundo, elevado, colocando-os na esfera do sobrenatural e divino. Dando ao filho um presente, homenageamos na pessoa dele o Menino Jesus, recém-nascido vinte séculos atrás, quando recebia presentes régios. Os presentes natalinos tomam assim o caráter de homenagem ao aniversariante


Será que a pantomima do Papai Noel remete as crianças a esse nível de cogitações? Não quero imaginar da sua parte uma resposta afirmativa. 

Desde o aparecimento do Papai Noel no fim do século XIX, ele não passa de um artifício propagandístico, comercial. Foi criado para vender Coca-cola, mas depois o instrumentalizaram para vender outras coisas. Funciona bem para essa finalidade. Mas ele faz só isso? Será só esta a sua função? Será só este o objetivo, ao popularizar esse personagem ridículo e interesseiro? Você já notou como o aniversariante ficou esquecido, marginalizado, depois que o Papai Noel ajudou a comercializar o Natal? 

O Menino inocente de Belém atraiu inimigos desde o nascimento, forçando-O a um exílio no Egito para não ser degolado. Você acha que hoje Ele não tem inimigos? Pelo contrário, os inimigos nunca foram tão numerosos, e agem empenhadamente na tarefa de fazê-Lo desaparecer da vida das crianças, de todos. Como? Deslocando a atenção para um palhaço gorducho, como se o aniversariante não existisse. 

Caro leitor, cante a nossa versão do Jingle bells, mas prefira o Noite feliz. Dê presente aos filhos no Natal, mas ensine-os a homenagear o aniversariante, a venerar quem fez muito mais por nós do que todos os gorduchos vermelhos. E assim você também terá um Natal feliz, tornando felizes os seus filhos e o aniversariante.

23 de dezembro de 2014

O Menino Jesus foi expulso da Prefeitura de São Paulo — gestão PT, é claro!


“E deu à luz seu Filho primogênito, e, envolvendo-o em faixas, reclinou-o num presépio; porque não havia lugar para eles na hospedaria”. (Lc 2, 6-7). 


Paulo Roberto Campos
prccampos@terra.com.br


Nos últimos anos, na época do Natal, era montado um Presépio bem em frente à Prefeitura da cidade de São Paulo (estabelecida no edifício Matarazzo, junto ao famoso Viaduto do Chá). 


Não um Presépio rico, artisticamente falando, mas um grande Presépio, com as imagens de Jesus, Maria e José, de Anjos, dos três Reis Magos, dos pastores com suas ovelhas, sem faltar do burrinho e da vaquinha aquecendo a manjedoura. Como este cenário [imagens ao lado e abaixo], fotografado em dezembro de 2012.

Em vários anos, lembro-me de ter passado por aquela parte central da capital paulista e parado frente ao Presépio, onde rezava e gostava de ficar observando as reações dos transeuntes. Indescritível era a alegria que se notava nas fisionomias. Muitos vinham acabrunhados, apressados, aflitos; paravam um pouquinho, e saíam visivelmente aliviados, partiam em paz. Sobretudo indescritível era a alegria das crianças. Eu tinha a impressão de que elas se sentiam tonificadas em sua inocência. 

No período do Natal do ano passado, conversando com uma
senhora, que tinha parado perto de mim para também venerar o Presépio, ela contou um episódio que não me esquecerei nunca: Sua vizinha tinha visitado o Santo Presépio com seus dois filhos pequenos, que manifestaram um contentamento indizível e tiraram fotos junto às imagens. No dia seguinte ao Natal, o menor deles disse: “Mãe, eu ganhei cinco presentes. Vamos visitar de novo o Menino Jesus? Eu quero dar um presente para ele”. Comovida, a mãe abraçou e beijou seu pequenino, e, mais tarde, levou-o para visitar o Presépio; só que desta vez numa Igreja para que lá pudessem depositar junto à Gruta de Belém dois presentinhos — um desse seu filho menor e outro de seu irmão, dois anos mais velho, que também manifestou desejo de imitar o nobre gesto: presentear o Divino Infante. 

Esse é apenas um episódio que testemunhei, mas quantos e quantos outros fatos análogos não se passaram naquele lugar onde diariamente transitam mais ou menos 1 milhão de pessoas? 


Lamentavelmente, fatos maravilhosos como esse não ocorrem neste Natal de 2014. O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, que pertence ao famigerado PT, no exato lugar do Presépio mandou colocar essa ridícula cena retratada pela foto à esquerda, que tirei neste dia 22 de dezembro de 2014 — quando tive que ir ao centro da cidade para algumas compras.

Fiquei surpreso e indignado vendo este gigantesco monumento ao ridículo e ao comércio justamente naquele lugar onde esperava reencontrar o tradicional Presépio dos anos anteriores! Uma grave ofensa praticada contra a Sagrada Família!

Vendo aquilo, pensei: “No Natal, época própria para homenagear o Divino Aniversariante, na Prefeitura Municipal comemora-se o aniversário, expulsando o aniversariante! Um ato de ‘Cristianofóbia’! Um ato que fanaticamente revela a aversão a Cristo e ao Cristianismo! Os responsáveis na Prefeitura por essa expulsão do Menino Jesus terão que prestar severas contas a Deus!” 
*       *       *
Apenas para rememorar o que todos sabem: a Sagrada Escritura narra que, nas vésperas do nascimento do Menino Jesus, houve um decreto do Imperador César Augusto, ordenando um recenseamento. Assim, todos os habitantes tinham que ir às suas cidades de origem para se registrarem. Então São José e Maria Santíssima partiram de Nazaré para a cidade de Belém, porque eles pertenciam à dinastia do Rei David, para se alistarem. Chegando a Belém — que estava abarrotada de pessoas que ali chegaram também em obediência ao decreto de César — São José bateu em várias portas pedindo abrigo, mas nenhuma se abriu para recebê-los... Foram então à hospedaria, onde ficavam as caravanas, mas não encontraram lugar... 

Indo de um lado para outro à procura de pousada, São José
avistou uma gruta. Ele e a Santíssima Virgem entraram e viram que era um lugar transformado em estábulo, onde pastores abrigavam rebanhos. Ali se passou o maior acontecimento da História da Humanidade: “O Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). Ali o Salvador do Mundo, o Rei do Universo nasceu de uma Virgem; ali cantaram os Anjos: “Glória a Deus nas alturas e paz na Terra aos homens de boa vontade” (Lc 2, 14). 
“Estando eles ali, completaram-se os dias dela. E deu à luz seu Filho primogênito, e, envolvendo-o em faixas, reclinou-o num presépio; porque não havia lugar para eles na hospedaria”. (Lc 2, 6-7). 
Neste ano, em frente à Prefeitura de São Paulo administrada pelo PT, repetiu-se a recusa à Sagrada Família. O Divino Menino Jesus não teve acolhida; Ele foi expulso e em seu lugar colocaram um gigantesco e horrendo “Papai Noel” com sua bicicleta! No fundo, o que o senhor prefeito disse para a Sagrada Família foi: “Vá mendigar algum lugar fora de São Paulo, aqui não tem lugar para vocês”

Mergulhados que estamos neste caos desta grande cidade, mais do que nunca temos necessidade de ouvir o cântico dos Anjos naquela noite bendita entre todas as noites “Glória a Deus nas alturas e paz na Terra aos homens de boa vontade”. A paz que tanto necessitamos é a verdadeira paz que Aquele Divino Menino veio trazer a todos os homens de boa vontade. Mas podemos constatar que nem todos os homens são de boa vontade... 

Não reclame, senhor prefeito, e todos os que participaram dessa expulsão, quando desejarem bater às portas do Céu e elas permanecerem fechadas..., quando suplicarem alguma graça e não forem atendidos... 


E de nossa parte? Vamos também celebrar o Natal fazendo festa para o gordo Papai Noel? Vamos convidar nossos parentes e amigos, mas fechando as portas de nossas casas (e de nossas almas) para que o Aniversariante não entre? Vamos nos lembrar de todos e nos esquecermos do Aniversariante? Vamos presentear todo mundo, mas não vamos presentear o Divino Aniversariante, que deseja apenas morar em nossos corações? 

Rezemos em reparação à Sagrada Família por essa grave ofensa cometida pela administração municipal. Mas também podemos reparar tal ofensa fazendo o contrário do ato “Cristianofóbico”: vamos celebrar com autenticidade o Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo; montando todos os anos em nossos lares o Santo Presépio; esforçando-nos para manter viva essa encantadora tradição e “expulsando” este costume neopagão, tido como “politicamente correto”, de exaltar a figura caricaturesca e mercantilista de um rechonchudo Papai Noel. 

Assim, poderemos atrair de volta as bênçãos e graças e as luzes sobrenaturais do Natal para nós e nossas famílias, para as nossas cidades e para o Brasil verdadeiramente Cristão, devoto de Jesus, Maria e José.

24 de dezembro de 2013

NATAL — fascinante e encantador para as crianças e adultos também...


Ofereço aos leitores do Blog da Família um presente de Natal: um vídeo sobre aspectos feéricos de comemorações natalinas em algumas cidades da França. A gravação é em francês, mas todos compreenderão — mesmo aqueles que não conhecem perfeitamente o belo idioma da Douce France —, pois as imagens “falam” todas as línguas... 

Durante o mês de dezembro até o Dia de Reis, 6 de janeiro, algumas cidades vivem em torno do Nascimento do Menino Deus: feiras tradicionais de Natal, artesanato, músicas, exposições, cerimônias, comidas típicas etc. Isto tanto nas ruas, como em palácios e igrejas. Por exemplo, numa delas, uma enorme árvore de Natal que as crianças podem balançar seus galhos para fazer cair balas e chocolates... Tudo presente de São Nicolau — e não da figura caricaturesca e mercantilista de um... volumoso Papai Noel.

O vídeo destaca um deslumbrante Presépio típico napolitano com toda uma cidade  com centenas de personagens, em todos seus aspectos da vida quotidiana e detalhes  que vive como que “respirando” o clima de Natal na proximidade da Gruta de Belém. No final, o vídeo destaca também aspectos maravilhosos do Natal nos castelos franceses de Chenonceaux e Vaux-le-Vicomte. 

Assim, desejando um belo "passeio” para ver fascinantes decorações de
Natal, transmito a todos os leitores e às suas Famílias meus votos de um Santo e Feliz Natal e um Novo Ano com graças e bênçãos ainda mais especiais e abundantes da Sagrada Família, Jesus, Maria e José. 
Paulo Roberto Campos
Natal / 2013

“Hoje uma luz brilhará sobre nós, porque nasceu-nos o Senhor




“Hoje uma luz brilhará sobre nós, porque nasceu-nos o Senhor, e será chamado Admirável, Deus, Príncipe da Paz, Pai do século futuro, cujo reino não terá fim”(*)


*       Plinio Corrêa de Oliveira
(Catolicismo, dezembro de 1952)

Considerando os fatos numa vasta perspectiva histórica, o Santo Natal foi o primeiro dia de vida da civilização cristã. Vida ainda germinativa e incipiente, como os primeiros clarões do sol que nasce; mas vida que já continha em si todos os elementos incomparavelmente ricos, da esplendida maturidade a que se destinava.

Com efeito, se é bem verdade que a civilização é um fato social, que para existir como tal nem sequer pode contentar-se de influenciar um pequeno punhado de pessoas, mas deve irradiar sobre uma coletividade inteira, não se pode dizer que a atmosfera sobrenatural que emana do presépio de Belém sobre os circunstantes já estava formando uma civilização. Mas se, de outro lado, consideramos que todas as riquezas da civilização cristã se contém em Nosso Senhor Jesus Cristo como em sua fonte única, infinitamente perfeita, e que a luz que começou a brilhar sobre os homens em Belém havia de alongar cada vez mais seus clarões, até se estender sobre o mundo inteiro, transformando mentalidades, abolindo e instituindo costumes, infundindo espírito novo em todas as culturas, unindo e elevando a um nível superior todas as civilizações, pode-se dizer que o primeiro dia de Cristo na Terra foi desde logo o primeiro dia de uma era histórica.
Quem o haveria de dizer? Não há ser humano mais débil do que uma criança. Não há habitação mais pobre do que uma gruta. Não há berço mais rudimentar do que uma manjedoura. Entretanto, esta Criança, naquela gruta, naquela manjedoura, haveria de transformar o curso História.

E que transformação! A mais difícil de todas, pois que se tratava, não de acelerar o curso das coisas no rumo em que seguiam, mas de orientar os homens no caminho mais avesso a suas inclinações: a via da austeridade, do sacrifício, da Cruz. Tratava-se de convidar à Fé um mundo apodrecido pelas superstições, pelo sincretismo religioso e pelo ceticismo completo. Tratava-se de convidar para a justiça uma humanidade afeita a todas as iniquidades: o domínio despótico do forte sobre os fracos, das massas sobre as elites, e da plutocracia — que reúne em si todos defeitos de umas e outras — sobre a própria massa. Tratava-se de convidar ao desapego um mundo que adorava o prazer sob todas as suas formas. Tratava-se de atrair para a pureza um mundo em que todas as depravações eram conhecidas, praticadas, aprovadas. Tarefa evidentemente inviável, mas que a Divina Criança começou a realizar desde o seu primeiro momento nesta Terra, e que nem a força do ódio judaico, nem a força do domínio romano, nem a força das paixões humanas poderia conter.
Dois mil anos depois do Nascimento de Cristo, parecemos ter voltado ao ponto inicial. A adoração do dinheiro, a divinização das massas, a exasperação do gosto dos prazeres mais vãos, o domínio despótico da força bruta, as superstições, o sincretismo religioso, o cepticismo, enfim o neo-paganismo em todos os seus aspectos invadiram novamente a Terra.

Blasfemaria contra Nosso Senhor Jesus Cristo quem afirmasse que este inferno de confusão, de corrupção, de revolta, de violência que temos diante de nós é a civilização cristã, é o Reino de Cristo na Terra. Apenas um ou outro grande lineamento da antiga cristandade sobrevive, abalado, no mundo de hoje. Mas, em sua realidade plena e global a civilização cristã deixou de existir, e da grande luz sobrenatural que começou a fulgir em Belém poucos raios brilham ainda sobre as leis, os costumes, as instituições e a cultura do século XX.

Por que isto? Teria a ação de Jesus Cristo — tão presente em nossos tabernáculos como na gruta de Belém — perdido algo de sua eficácia? Evidentemente não.

E, se a causa não está nem pode estar n´Ele, por certo está nos homens. Vindo a um mundo profundamente corrompido, Nosso Senhor e depois dele a Igreja nascente encontraram almas que se abriram à pregação evangélica. Hoje, a pregação evangélica se dissemina por toda a Terra. Mas cresce assustadoramente o número dos que se recusam com obstinação a ouvir a palavra de Deus, dos que pelas ideias que professam, pelos costumes que praticam, estão precisamente no polo oposto à Igreja. “Lux in tenebris lucet, et tenebrae eam non conprehenderunt” (A Luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam – Jo 1, 5).

Nisto, só nisto, está a causa de ruína da civilização cristã no mundo. Pois se o homem não é, não quer ser católico, como pode ser cristã a civilização que nasce de suas mãos?
Espanta que tantos homens perguntem qual a causa da crise titânica em que o mundo se debate. Basta imaginar que a humanidade cumprisse a Lei de Deus, para que se entenda que ipso facto a crise deixaria de existir. O problema, pois, está em nós. Está em nosso livre arbítrio. Está em nossa inteligência que se fecha à verdade, em nossa vontade que, solicitada pelas paixões se recusa ao bem. A reforma do homem é a reforma essencial e indispensável. Com ela, tudo estará feito. Sem ela, tudo quanto se fizer será nada.

Esta é a grande verdade que se deve meditar no Natal. Não basta que nos inclinemos ante Jesus Menino, ao som dos hinos litúrgicos, em uníssono com a alegria do povo fiel. É necessário que cuidemos cada qual de nossa reforma, e da reforma do próximo, para que a crise contemporânea tenha solução, para que a luz que brilha do presépio recobre campo livre para sua irradiação em todo o mundo.


Mas como conseguir isto? Onde estão nossos cinemas, nossos rádios, nossos diários, nossas organizações? Onde estão nossas bombas atômicas, nossos toques, nossos exércitos? Onde estão nossos bancos, nossos tesouros, nossas riquezas? Como lutar contra o mundo inteiro?

A pergunta é ingênua. Nossa vitória decorre essencialmente e antes de tudo de Nosso Senhor Jesus Cristo. Bancos, rádios, cinemas, organizações, tudo isto é excelente, e temos obrigação de o utilizar para a dilatação do Reino de Deus. Mas nada disto é indispensável. Ou, em outros termos, se a causa católica não contar com estes recursos, não por negligencia e falta de generosidade nossa, mas sem nossa culpa, o Divino Salvador fará o necessário para que vençamos sem isto. O exemplo deram-no os primeiros séculos da Igreja: não venceu esta, a despeito de se terem coligado contra ela todas as forças da Terra?

Confiança em Nosso Senhor Jesus Cristo, confiança no sobrenatural, eis outra lição preciosa que nos dá o Santo Natal.
E não terminemos sem colher mais um ensinamento, suave como um favo de mel. Sim, pecamos. Sim, imensas são as dificuldades que se nos deparam para voltar atrás, para subir. Sim, nossos crimes e nossas infidelidades atrairão sobre nós a cólera de Deus. Mas, junto ao presépio, temos a Medianeira clementíssima, que não é juiz mas advogada, que tem em relação a nós toda a compaixão, toda a ternura, toda a indulgência da mais perfeita das mães.

Olhos postos em Maria, unidos a Ela, por meio dela, peçamos neste Natal a graça única, que realmente importa: o Reino de Deus em nós e em torno de nós.

Todo o resto nos será dado por acréscimo.
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Nota:
(*) Intróito da 2ª Missa do Natal, com base em Is. 9, 2 e 6.



23 de dezembro de 2013

Retorno do Divino Infante aos lares de cada família católica

Nossos Natais vêm sendo lamentavelmente cada vez mais laicizados. Substituem-se por figuras e temas neopagãos os fatos sublimes ocorridos há pouco mais de dois mil anos em torno do maior acontecimento não só da Cristandade, mas de toda a História, o nascimento de nosso Divino Redentor em Belém. 

As graças e bênçãos que tanto impregnavam os dias precedentes e posteriores às comemorações do Natal são relegadas em favor de uma festividade meramente comercial, que gira em torno de compras e presentes, na qual a figura laica de um Papai Noel vai aos poucos substituindo o Presépio com o Menino Jesus — símbolo por excelência do Natal católico e que constituía a alegria de crianças e adultos.

Com o desejo, que é uma suplica, de que o Divino Infante retorne a todos os lares, para que todas as famílias vivam um Natal ainda mais abençoado e impregnado pelas graças de Jesus, Maria e José, Catolicismo publica nesta edição natalina uma história verdadeiramente impressionante, reveladora do poder da fé católica. 

Ela transcorreu pouco antes do Natal de 1956, no dia 17 de dezembro, na Hungria, quando aquela nação se encontrava ainda subjugada pela bota do regime comunista. O narrador é um sacerdote húngaro, expulso de sua paróquia pelos dominadores marxistas. Ele a escreveu após colher depoimentos de várias testemunhas, e jura não ter encontrado contradições nas respectivas narrações que colheu. O texto abaixo é transcrição de matéria de autoria de Maria Minovskca, estampada na revista “Magnificat” (Ano XVI, Nº 2, fevereiro/março de 1966) de Braga, Portugal.


Fonte: Revista Catolicismo, Dezembro/2013

“VEM, MENINO JESUS!” 

O Padre Norberto, testemunha da insurreição na capital
húngara, Budapeste, em 1956, fora um dos últimos fugitivos a chegar ao campo de refugiados húngaros. Seu aspecto revelava ainda as privações, as insônias e as provas terríveis por que passara. Tinha as feições crispadas e endurecidas, e nos seus olhos havia uma expressão de fria revolta. Olhando-o, compreendi o choque psicológico que a derrota lhe causara.(*)

Ele chegava da fogueira horrível onde se queimara a seiva ardente de almas sedentas de liberdade e de independência. Nós éramos os que, na retaguarda, nada tínhamos feito. Como começar? Como interrogá-lo? Como quebrar esse ressentimento hostil, que o seu rosto nos transmitia? Tateando, eu lhe fiz meu pedido: 

— Conheço a tragédia que lhe esmagou a alma, e não quero reavivá-la. Mas peço-lhe que me fale da resistência espiritual do povo húngaro, da sua vivência, a despeito da derrota... 

Transcrevo a seguir, com suas próprias palavras, o depoimento do Padre Norberto. 
Vivi horas de esperança e de terror, mas o que mais me impressiona não é o sacrifício heroico dos adultos, e sim a coragem, a resistência das crianças, a grandeza das suas atitudes e das suas palavras. Dão lições aos grandes, e em seguida permanecem pequeninos, simples, humildes. 

Eu poderia contar-lhe o que se passou na escola da minha paróquia. Mas para quê? Contar um milagre é, tantas vezes, despertar os sorrisos de vã superioridade de uns ou a incredulidade de outros. Crentes ou descrentes nos escutam, tanto uns quanto outros esquecidos de que o milagre é uma manifestação do poder divino. 

Na escola da paróquia da qual fui expulso deu-se um fato surpreendente. O que aconteceu não poderia ser a alucinação coletiva de trinta e duas crianças e da sua professora, mas tem que ser aceito como um fato. 

Gertrudes, a professora da escola, era uma ateia militante. Todas as suas lições giravam em torno da impiedade e da negação de Deus. Tudo lhe servia para denegrir, ridicularizar ou conspurcar a nossa Religião. O seu programa de ensino era simples: arrancar da alma das crianças a fé e formar legiões de pequeninos “sem Deus”. As crianças, intimidadas, não ousavam defender-se. No entanto, as suas famílias eram católicas e profundamente crentes nas suas práticas religiosas. 

Eu era o cura da igreja paroquial, e reunia essas crianças para as lições do catecismo. Na Hungria, como nos outros países além da “cortina de ferro”, o ensino é assim: na família, na igreja, luta-se para que a crença não se perca, mas nas escolas semeia-se e impõe-se o ateísmo. Como pode sustentar-se a criança, nessa situação tão difícil e díspar? É então que a graça se manifesta e ampara as criancinhas. 

Mesmo intimidadas, elas não se deixavam convencer com as zombarias que a mestra lhes fazia. Por meu lado, eu lutava para destruir no espírito delas qualquer má semente que tentasse germinar, e as fazia frequentar os sacramentos. Coisa curiosa: Gertrudes, a professora, parecia adivinhar quais as alunas que tinham comungado, e eram essas as mais perseguidas. Certamente alguém espiava e lhe indicava as crianças... Mas a denúncia não vinha destas, sempre unidas e leais. 

Na quarta classe havia uma menina de dez anos, chamada Ângela. Muito inteligente, muito bem dotada, era a melhor aluna da escola. As condiscípulas não invejavam a sua superioridade, porque ela tinha um coração de ouro e estava sempre pronta a ser prestativa. 

Um dia, veio pedir-me licença para comungar diariamente. Perguntei-lhe: 

— Tu sabes a que te expões? 

Ela riu-se, numa expressão alegre, e respondeu: 

— Senhor Padre, a mestra não conseguirá apanhar-me em falta, asseguro-lhe, e trabalharei melhor. Não me recuse o que lhe peço. Nos dias em que comungo, sinto-me mais forte. O Senhor Padre disse-me que eu devo dar bons exemplos. Para os dar, preciso de sentir-me forte. 

Acedi, mas sentia-me inquieto. Desde esse dia, Ângela viveu um verdadeiro inferno. Apesar de saber sempre as lições, a mestra implicava continuamente com ela. A criança resistia, mas eu a sentia abatida. E perguntei-lhe: 

— Ângela, a perseguição que sofres é demasiado dura, não é verdade? 

— Jesus sofreu muito mais, quando O injuriavam. Não se compara com o pouco que sofro. 

Ante esta coragem, fiquei maravilhado. Ângela não se queixava, mas as suas condiscípulas vinham contar-me os maus tratos que a mestra lhe infligia. Chorando, diziam que, de dia para dia, Gertrudes se tornava pior. Nem já se preocupava com as lições, o que queria era destruir a fé daquela alma tão forte, que se escondia em tão fraco corpinho. 

As investidas contra Ângela revestiam-se de crueldade. A mestra esquecia o programa escolar, para espalhar em toda a classe as manhas dos “sem Deus”. Ângela lutava sozinha, e nem sempre sabia defender-se. Então ficava de pé, muda, a cabecinha curvada, o peito cheio de soluços, que vinham morrer-lhe na garganta. Sua fé continuava inquebrantável, mas como podia aquela criança defendê-la, ante a perversidade daquela mulher? 

A partir de novembro, as lições da quarta classe passaram a ser autênticos duelos entre a professora e a pequena discípula. Aparentemente, a mestra triunfava e dizia sempre a última palavra. Todavia, a sua irritação era tão grande que até o silêncio de Ângela a punha fora de si. Aterradas, as outras crianças pediam-me que lhes valesse. Mas que podia eu fazer? Graças a Deus, Ângela continuava firme na sua fé, e a nós restava-nos rezar, e rezar com absoluta confiança na misericórdia divina. 

O que se passava na escola tornou-se conhecido na cidade e arredores. No entanto, ninguém me censurava por continuar a consentir que Ângela comungasse diariamente. Não era mistério para ninguém que a mestra pretendia apenas roubar àquela frágil criança o tesouro da sua religiosidade. Os próprios pais a encorajavam a resistir, conhecendo bem a perseguição que fazia chorar tantas lágrimas àquela filha querida, e a crueldade que martirizava o seu pequeno coração. 

Ângela tornou-se o ídolo de toda a gente. Todos admiravam a sua força de vontade, a persistência da sua crença, mas ela se entristecia, sentindo-se impotente para se defender e receosa de não possuir os argumentos para justificar a sua fé. Compreende-se esse desânimo. Que pode a inocência duma criança contra a astúcia duma mulher mal intencionada? 

Pouco antes do Natal, no dia 17 de dezembro, a professora inventou um estratagema cruel, com o qual pretendia dar um golpe mortal nas “superstições ancestrais” que infestavam a escola. E preparou a cena com todo o entusiasmo. Naturalmente, a pobre Ângela foi a vítima escolhida. Com voz doce, a professora a interrogou: 


— Dize-me, minha pequena: quando os teus pais te chamam, o que fazes? 

— Vou imediatamente — respondeu Ângela com timidez. 

— Muito bem! Tu ouves chamar e vais logo, como filha bem educada e obediente. E se teus pais chamarem um limpa-chaminés, o que acontece? 

— Ele vem — respondeu Ângela. O seu coraçãozinho pulava desordenadamente. Pressentia uma cilada, mas não sabia qual seria. 

A professora tinha uma expressão falsa, traiçoeira, os olhos brilhavam como os de um gato que brinca com um ratinho. Mais tarde as alunas contaram-me também: 

— Sentíamos medo. Ela tinha o ar tão mau, tão mau!...

O interrogatório continuou: 

— Muito bem! Muito bem! Tu vens porque existes. O limpa-chaminés vem, porque existe. Ele existe! 

Após um breve e deliberado silêncio, ela prosseguiu: 

— Mas supõe agora que teus pais chamam a tua avó, que já morreu. Ela vem? 

— Não, não pode vir... 

— Bravo! Muito bem! E se eles chamarem o "Barba-Azul", ou a "Princesa de pele de burro"? Tu conheces essas histórias. Dize-me: eles vêm? 

— Não, não vêm, porque só existem nas histórias. 

Ângela ergueu os olhos para a mestra e baixou-os logo. Sentiu que o olhar dela a transpassava, lhe fazia mal. Mas o diálogo continuou: 

— Esplêndida resposta! Parece que hoje estás mais esperta... Reparem, minhas filhas, reparem todas: os vivos, os que existem, respondem quando os chamam. Os outros não respondem, não vêm, porque não estão vivos ou porque não existem. Compreendem, não é? 

— Sim! — responderam em coro. 

— Agora vamos fazer uma pequena experiência — e voltando-se para Ângela, ordenou-lhe: — Sai, minha filha. 

A garota hesitou. Depois levantou-se do banco, saiu, e a porta fechou-se pesadamente sobre a sua figurinha miúda. 

— Agora, meninas, chamem-na! 

— Ângela! Ângela! — gritaram trinta vozes de garotas, convencidas de que estavam participando de uma brincadeira, um jogo que as divertia. Ângela entrou, intrigada, sem saber o que pensar. A professora preparava-se manhosamente para saborear os frutos do seu maquiavélico plano.

— Afinal, estamos todas de acordo. Quando chamamos aqueles que vivem, que existem, eles vêm. Quando chamamos os que não existem, eles não podem vir. Ângela está aqui, viva, em carne e osso, ouviu que a chamamos e veio ter conosco. Suponhamos que chamássemos o Menino Jesus. Parece que há entre vós quem acredite nele... 

Houve um silêncio, de medo talvez. E aquelas vozes tímidas responderam: 

— Acreditamos! 

— E tu, Ângela, crês que o Menino Jesus te ouve, quando o chamas? 

Ângela sentiu-se bruscamente esclarecida. Eis a cilada que ela pressentira, mas da qual desconhecia a perversidade, e respondeu com ardente fervor: 

— Sim! Creio que Ele me ouve! 

— Muito bem! Façamos a experiência: as meninas viram que Ângela, quando a chamávamos, veio imediatamente. Se o Menino Jesus existe, Ele ouvirá que O chamam. Gritem todas, ao mesmo tempo e com força: "Vem, Menino Jesus!" Vamos! Um, dois, três! Vamos! Chamem! 

As crianças baixaram as cabecinhas. Um silêncio pesado, angustioso, desceu sobre elas. Gertrudes soltou uma gargalhada prolongada, diabólica: 

— Vamos! Eu quero que vocês O façam vir! Quero que me provem que Ele existe!... Ah! Não se atrevem a chamá-lo, porque sabem que o vosso Menino Jesus não virá!... E sabem por que não vem? Porque Ele não existe, não ouve, é como o "Barba-Azul", como a "Princesa de pele de burro", “Chapeuzinho Vermelho”, que são apenas mitos, histórias para as velhas contarem nos serões. Histórias que ninguém toma a sério!...

Intimidadas, as garotas continuavam caladas. Mas os argumentos da mestra as tinham impressionado, ferido em pleno peito. É preciso desconhecer a psicologia infantil, para não avaliar a angústia dessas crianças ante a argúcia duma mulher experiente e malévola, que executava um plano preconcebido. Em algumas a dúvida surgia, como me confessaram mais tarde. 

— Sim! — insistia a mestra — se Ele existe, por que não vem? 


Ângela continuava de pé, pálida como uma morta. As suas companheiras receavam, ao vê-la assim, que caísse ao chão. A professora saboreava a aflição das alunas. Enfim, triunfava e esmagava a fé naquelas pequeninas almas...

De repente, o imprevisto se deu. De um salto, Ângela atirou-se para o meio da sala. Nos olhos, tinha um clarão de esperança confiante. Olhou em volta e gritou: 

— Ouçam-me! Vamos chamá-lo! Gritemos todas: "Vem, Menino Jesus!". 

Num instante, todas se puseram de pé, com as mãos erguidas numa prece, os olhos brilhantes, os corações a pulsar numa imensa esperança. Num uníssono vibrante, as suas vozes se ouviram: 

— Vem, Menino Jesus! 

A professora não esperava esta súbita reação. Instintivamente recuou, com os olhos fitos em Ângela. Um silêncio profundo se seguiu, pesado como uma lenta agonia. Depois, de novo se ouviu aquela vozinha de cristal: 

— Vamos! Chamemos mais! Gritem muito alto! 

E um clamor forte, imenso, capaz de transpassar as paredes, vibrou: 

— Vem, Menino Jesus! Vem, Menino Jesus! 

O medo, a dúvida, por um momento jugulados, podiam renascer, mas o sentido da camaradagem deu o impulso que as reuniu em torno daquela que se revelava “chefe” e esperava o milagre. Tinham os olhos fitos, não na porta, por onde poderia entrar o Menino, mas na parede branca, em que se destacava a figurinha de Ângela, e continuavam a repetir: 

— Vem, Menino Jesus! 
Nesse instante a porta abriu-se sem ruído, e as crianças pensaram que toda a luz do dia entrava por ela. Era uma claridade intensíssima, que crescia, crescia, como a chama violenta dum enorme fogo. No meio desse clarão, um globo cheio de luz. O medo invadiu-as, mas nem tiveram tempo para gritar ou fugir: o globo abriu-se e apareceu um Menino lindo e risonho, como nunca tinham visto. O Menino sorria sem proferir uma palavra, e todas sorriram também, tranquilas e contentes. Algumas garotas esfregavam os olhos, para melhor contemplarem o Menino vestido de luz, outras olhavam-no de olhos espantados, sem pestanejarem. O Menino sorria, não falava, sorria para todas. 

Depois o globo fechou-se, de mansinho, e desapareceu devagar. A porta cerrou-se sem que ninguém lhe tocasse, e as crianças emocionadas, os coraçõezinhos inundados de felicidade, sem uma palavra abraçavam-se, a chorar de felicidade. 

O Menino as ouvira! O Menino viera! 

Que tempo durara a aparição? Uns instantes? Uma hora? Cada criança calculava a seu modo, ao testemunhar a aparição do Menino. Todas diziam: “Estava vestido de branco, e parecia um sol pequenino”. 

As crianças olhavam ainda a porta. Subitamente, um grito agudo quebrou a emoção desse silêncio. Aterrada, olhos esgazeados, braços estendidos, mãos enclavinhadas, a professora gritava como louca: 

— Ele veio! Ele apareceu! 

Em seguida fugiu, batendo com força a porta. 

Ângela mexeu-se, enfim, como quem desperta dum sonho: 

— Vocês viram? 

— Sim, vimos! 

— Ele é que trazia a luz — dizia uma. 

— A luz do dia é negra, comparada àquela claridade — acrescentava outra. 

— Vocês viram? — repetia Ângela 

— Ele existe! 
Toda a gente falava deste acontecimento, que as crianças contavam maravilhadas. Os pais vieram ver-me, acompanhados das filhas. Interroguei-as, uma por uma. Pois bem, posso declarar, sob juramento, que nas suas palavras não encontrei contradições. Isto surpreendeu-me, tão extraordinário era o que se tinha passado. Uma garota dizia-me, muito satisfeita: 

— Senhor, nós estávamos com muito medo, e bem precisávamos que o Menino nos acudisse... 

O mundo inteiro já conhece este fato. Mas agora devo dar o epílogo. A Sra. Gertrudes deu entrada num manicômio. O cérebro ressentiu-se do tremendo abalo que sofreu, e não cessava de repetir: “Ele veio! Ele veio”. Tentei visitá-la. Em vão, pois recusam absolutamente entrada aos padres nas casas de alienados. É que são frequentes os casos de obsessão religiosa... Os profanadores de igrejas, em geral, acabam loucos. Todos os dias, ao celebrar a Missa, rezo por ela e por todos. 

Concluídos os exames, Ângela foi para casa, ajudar a mãe. É a filha mais velha dum rancho de irmãos. A minha partida precipitada nada mais me deixou saber a seu respeito.

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Nota: (*) A insurreição da nobre nação húngara contra o comunismo foi tão forte e extensa que chegou a derrubar o governo títere de Moscou e a libertar da prisão o resistente Cardeal Mindszenty, juntamente com numerosos outros prisioneiros. Pouco depois, porém, um poderoso exército russo entrou na Hungria, dizimou a população com seus tanques de guerra, conseguindo novamente dominar o país. O Cardeal Mindszenty mal teve tempo de refugiar-se na embaixada norte-americana.