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11 de abril de 2016

“Quando uma alma abusa da misericórdia divina, a misericórdia divina está bem próxima de a abandonar”

No portal principal da catedral de Notre Dame de Paris, a cena do Juízo Final. À baixo da imagem de Jesus Cristo, à Sua direita, os eleitos que se salvaram; à Sua esquerda, os réprobos que se condenaram

Paulo Roberto Campos 

Nos presentes dias, ouvimos falar por todos os lados, exaustivamente, de misericórdia. Sobretudo neste ano, declarado “Ano Santo da Misericórdia” (ou “Jubileu Extraordinário da Misericórdia”) pelo Papa Francisco através da bula Misericordiae Vultus (O Rosto da Misericórdia).

Mais recentemente, com a divulgação da “Exortação Apostólica Pós-Sinodal Amoris Lætitia” (A alegria do amor), o tema da misericórdia foi ainda mais bafejado. Em suas 272 páginas, o documento do Pontífice — publicado no dia 8 de abril a propósito do último Sínodo da Família — emprega 46 vezes a palavra misericórdia! 

Mas não sejamos caolhos vendo Deus de modo deformado e incompleto. Ele é infinitamente misericordioso, mas também infinitamente justo.

Evidentemente, em Deus não há contradição. Ele deseja a salvação de todos e, para isso, nos oferece misericordiosamente o Céu por toda a eternidade. Entretanto, condena quem peca mortalmente, recusando toda a bondade divina e desprezando toda a disposição que Ele tem para perdoar o pecador. Este, se não se arrepender, será atingido pela divina justiça. 

Pecou e não deseja ser condenado? — Não se desespere, pois há remédio. Com o coração contrito e humilhado e sinceramente arrependido, faça uma boa confissão com o firme propósito de não mais pecar. Nesse perdão — a absolvição dos pecados concedida pelo sacerdote — vemos o que realmente é misericórdia. Vemos a beleza da clemência de Deus para com seus filhos.

O caso da “mulher adúltera”

Quadro de Nicolas Poussin (1653), Museu do Louvre (Paris)
Conforme a narrativa do Evangelho, no caso da mulher que os escribas e fariseus queriam apedrejar por prática de adultério, Nosso Senhor Jesus Cristo não disse à pecadora: Mulher, pode ir embora. Mas disse-lhe: “Vai e não peques mais” (São João, 8,11). Infelizmente, ouve-se muitos comentarem tal passagem do Evangelho de modo estrábico, dizendo apenas que Jesus não condenou a adúltera, omitindo que Ele a perdoou e a aconselhou que não tornasse a pecar.

Somente alguém psicologicamente vesgo diria que misericórdia é sinônimo de tolerância para com o pecado ou qualquer forma de mal. Deus manifesta suprema misericórdia para com o pecador verdadeiramente arrependido — e para isso, a ninguém falta a graça divina —, mas também manifesta Sua justiça para com o pecador empedernido, aquele que abusa de modo contumaz de Sua misericórdia.

Justo castigo por abusar da misericórdia divina 

Santo Afonso Maria de Ligório (1696-1787) — Doutor da Igreja, Padroeiro dos Confessores e dos Moralistas — define perfeitamente essa questão ao afirmar: “Deus envia mais gente ao inferno por abusar de sua misericórdia, do que por obra de sua justiça.” 

É o que esse santo desenvolve num de seus sermões, cujo trecho transcrevo no final, quando trata do abuso que o pecador faz da misericórdia. Ele prega que o próprio demônio nos engana inspirando o falso conceito de misericórdia, para que levemos assim uma vida cometendo pecados, sem nos arrepender deles, nem confessá-los a um bom sacerdote. 


Sandro Magister, célebre jornalista italiano, especializado em temas religiosos, publicou um interessante artigo, intitulado Giubileo della misericordia, ma con i confessionali vuoti (Jubileu da misericórdia, mas com os confessionários vazios), no qual reproduz carta de um sacerdote que lhe escreveu testemunhando que neste “Ano Santo da Misericórdia” os confessionários estão vazios — como se a misericórdia dispensasse o pecador do sacramento da penitência (ou confissão). Entretanto, no “Ano Santo da Misericórdia” deveria ocorrer justamente o contrário: aproveitar para pedir especial misericórdia, acorrendo multidões aos confessionários. É o que não acontece... Os confessionários estão às moscas...

Evitemos qualquer unilateralismo 

Em seu livro “Em Defesa da Ação Católica, Plinio Corrêa de Oliveira, desenvolve o tema da justiça e da misericórdia, do perdão e do castigo divinos, recomendando não sermos unilaterais vendo apenas um aspecto de Deus. O autor cita D. Antonio Joaquim de Melo, “um dos maiores Bispos que teve o Brasil” [quadro ao lado]. que — corroborando a afirmação acima citada de Santo Afonso de Ligório —, dizia: “a Misericórdia de Deus tem mandado mais almas para o inferno do que sua Justiça.”. E o Prof. Plinio comenta: “Em outros termos, afirmava o grande Prelado que a esperança temerária de salvação perderá maior número de almas, do que o temor excessivo da Justiça de Deus. Do mesmo modo, é indiscutível que a excessiva benignidade na aplicação das penas, que ora se observa em muitas associações religiosas, e a inteira carência delas em certos setores, têm depauperado mais as fileiras dos filhos da luz, do que os atos de energia inconsiderados e talvez excessivos, eventualmente levados a cabo” (Plinio Corrêa de Oliveira, Em Defesa da Ação Católica, Artpress, 2ª edição, 1983, pág. 153). 




Passo à transcrição do referido trecho do sermão de Santo Afonso Maria de Ligório [quadro acima], considerado um dos maiores moralistas de todos os tempos. 

“Misericórdia! Sim, mas para aquele que teme a Deus, e não para aquele que abusa da paciência divina!” 


“Pode ser que haja, no meio de vós, meus irmãos, alguém que se encontre com a alma carregada de pecados e que — longe de pensar em se livrar deles pela confissão e penitência — não cessa de cometer novos pecados, se sobrecarregando ainda mais. Este, certamente, abusa da misericórdia divina; pois, a que fim nosso Deus tão bom deixa que este pecador viva senão para que ele se converta e, por consequência, escape da desgraça de perder sua alma?

Ele merece as severas censuras que o Apóstolo dirigiu ao povo judeu impenitente: Porventura desprezas as riquezas da bondade, da paciência e da longanimidade de Deus? Ignoras que Sua bondade te convida à penitência? Mas que na tua dureza e coração impenitente, acumulas para ti um tesouro de ira no dia da ira e da manifestação do justo juízo de Deus (Rom. II. 4,5).

Eu quero vos afastar, meus irmãos, desse funesto abuso, e vos preservar da desgraça de cair na morte eterna do inferno. A esse propósito, chamo vossa atenção para a seguinte verdade: Quando uma alma abusa da misericórdia divina, a misericórdia divina está bem próxima de a abandonar […]. 

Santo Agostinho observa que, para enganar os homens, o demônio emprega ora o desespero, ora a confiança. 

Após o pecado, o demônio nos mostra o rigor da justiça de Deus para que desconfiemos de Sua misericórdia. Entretanto, antes do pecado, o demônio nos coloca diante dos olhos a grande misericórdia de Deus, a fim de que o receio dos castigos, devidos ao pecado, não nos impeça de satisfazer nossas paixões […]. 

Essa misericórdia sobre a qual vós contais para poder pecar, dizei-me, quem vo-la prometeu? — Não Deus, certamente, mas o demônio, obstinado em vos perder. Cuidado!, diz São João Crisóstomo, de dar ouvidos a este monstro infernal que vos promete a misericórdia celeste […]. 

’Deus é cheio de misericórdia, eu pecarei e em seguida confessar-me-ei’. Eis aí a ilusão, ou antes, a armadilha que o demônio usa para arrastar tantas almas ao inferno![…]. 

Nosso Senhor, aparecendo um dia a Santa Brígida, queixou-Se: ‘Eu sou justo e misericordioso, mas os pecadores não querem ver senão minha misericórdia’ (Ego sum justos et misericors; peccatores tantum misericordem me existimant - Rev. 1. I. c. 5). Não duvideis, diz São Basílio, que Deus é misericordioso, mas saibamos que Ele é também justo, e estejamos bem atentos para não considerar apenas uma metade de Deus. Uma vez que Deus é justo, é impossível que os ingratos escapem do castigo […]. Misericórdia! Misericórdia! Sim, mas para aquele que teme a Deus, e não para aquele que abusa da paciência divina!”.
___________
(Sermons de S. Alphonse de Liguori, Analyses, commentaires, exposé du système de sa prédication, par le R.P. Basile Braeckman, de la Congrégation du T. S. Rédempteur, Tome Second. Jules de Meester-Imprimeur-Éditeur, Roulers, pp. 55-60).

23 de março de 2016

CRISTO FLAGELADO — MEDITAÇÃO PARA A SEMANA SANTA

A flagelação de Jesus Cristo, seu pensamento, sua nobreza e elevação de alma em meio aos sofrimentos 


Como tema para meditação, especialmente nos dias da Semana Santa, abaixo apresentamos excertos de conferência proferida por Plinio Corrêa de Oliveira em 10 de fevereiro de 1976 a sócios e cooperadores da TFP. A redação de Catolicismo apenas selecionou trechos mais adequados para esse período da Quaresma, inseriu alguns subtítulos e os transpôs para a linguagem escrita. Em sua exposição — não revista pelo brilhante orador — analisa ele fotografias de uma imagem de Cristo flagelado, tecendo profundas considerações que se prestam à reflexão de nossos prezados leitores. 

Plinio Corrêa de Oliveira
Fonte: Revista Catolicismo, Nº 783, março/2016 

Dizer que essa representação de Cristo flagelado é bela, seria dizer pouco. Muito mais do que isso, ela é impressionante. Profundamente impressionante! E de molde a despertar muito a piedade, e é, enquanto tal, que desejo fazer a exposição. 

À primeira vista, quando me foi apresentado esse quadro de Cristo flagelado fiquei chocado, porque as feridas do corpo sagrado de Nosso Senhor estão apresentadas com tal realismo e de modo tão brutal, que o instinto de conservação do homem clama vendo a cena; tem a tendência a fugir e achar que não é arte representar de modo tão terrificante. O que é de nossa parte um primeiro impulso, mas que deve ser dominado, porque o contrário seria uma ingratidão. 

Tal será que Nosso Senhor Jesus Cristo, tendo sofrido tudo o que padeceu por nós, não queiramos sequer olhar para seu corpo chagado porque pode nos desagradar. É uma ingratidão e uma falta de respeito sem nome. Como um primeiro impulso se compreende. É uma reação quase física. Mas seria ingratidão consentir nesse impulso. 

Compreende-se então que o escultor tenha chegado a esculpir de modo tão terrivelmente realista essa imagem. 

Primeiramente, analisando o quadro, cheguei à conclusão de que deveria ser uma escultura espanhola em madeira. Com aquele realismo das imagens espanholas sobre a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Eu não tinha informações sobre essa imagem, onde ela se encontrava etc. Isto porque apenas me deram de presente a estampa num quadro ornado com muita bonita moldura, mas sem mais informações. Depois soube que é uma imagem do Canadá. 


Nosso Senhor flagelado pelos verdugos 

Para que se tenha ideia do que foi a flagelação de Nosso Senhor Jesus Cristo, como está representada nessa imagem, é preciso compreender todo o significado das chagas terríveis que apresenta, bem como da coroação de espinhos. 

Os verdugos que flagelaram Nosso Senhor eram malfeitores, bandidos, que foram levados para exercer essa função. 

De onde um verdadeiro furor dessa gente péssima, com aquele gosto sádico de fazer o mal que caracteriza esse tipo de pessoas. Homens embebedados, que já tinham flagelado vários condenados, estavam no delírio de seu ódio quando Nosso Senhor lhes caiu nas mãos. Ocorre que gente muito infeliz com frequência tem ódio de quem é normal e feliz. Assim, eles se desafogam do seu triste estado. 

Antes mesmo da flagelação começar, Nosso Senhor foi tratado com tal brutalidade que estremecia à vista da coluna. 


O Cordeiro de Deus, os deicidas e os verdugos 

Crucifixão (detalhe) - Duccio di Buoninsegna
(1308-1311) Museu dell´Opera del duomo,
Siena (Itália)
Segundo relatos de videntes, Nossa Senhora estava vendo o que iriam fazer com seu Divino Filho. E nessa perspectiva, olhava no momento em que Ele se submeteria voluntariamente a esse tormento pavoroso. Isso produziu n’Ela o mais explicável terror, tendo desmaiado nos braços das santas mulheres que A acompanhavam. 

Nosso Senhor sofreu uma distensão porque seu corpo pendia atado à coluna, onde foi flagelado desde a cabeça até os pés. Ele gemeu de dores, mas com um timbre de voz dulcíssimo, que se elevou em meio da brutalidade da cena, fazendo orações enquanto era flagelado de modo pavoroso. 


Flagelação de Cristo - Antônio alemão,
séc. XVI. Museu de Belas Artes,
Córsega (França)
 
A turba multa estava longe, do lado de fora do edifício, acompanhando a flagelação, e de vez em quando se ouvia: “Morra! Morra! Crucifica-O!”. Escutavam-se ora as vozes bestiais da multidão, ora a voz isolada de Nosso Senhor, na qual se marcavam naturalmente o temor e o tremor, mas junto a decisão de continuar em frente. Era a oração que Ele rezava.

Também segundo relatos de videntes, enquanto o Cordeiro de Deus era açoitado, ovelhas que estavam sendo preparadas para a morte baliam. Então havia duas espécies de vozes como que em coro. Um coro que uivava todos os gritos do ódio, e outro coro, do Cordeiro de Deus e das ovelhas preparadas para o sacrifício que baliam. Nosso Senhor rezava e às vezes ouvia-se a trombeta dos soldados romanos ordenando silêncio à multidão para que Pilatos pudesse falar. 

A maldição pairava sobre os judeus deicidas. Até alguns dos soldados romanos tiveram pena de Nosso Senhor; mas aquele povo não teve. De outro lado, percebe-se notar a abominação em que pode cair um povo. Os soldados romanos andavam de um lado para outro proferindo insultos. Os judeus deicidas odiavam Aquele que os havia coberto de benefícios, dos maiores atos de benefício e de bondade. O que é próprio a todos os transviados, a todos os decadentes, a todos os tarados: eles confiam em quem não devem, desconfiam daqueles em quem devem confiar; eles são susceptíveis por ofensas que não recebem e aceitam bem ofensas que não mereciam. Tudo isso devido ao completo desvio de suas mentes. 

Dureza de alma dos homens preocupados só com seus interesses

Narra-se que os verdugos ficavam cansados de tanto açoitar e tinham que ser substituídos. E Nosso Senhor aguentou tudo das turmas sucessivas desses verdugos despencando o ódio contra Ele, açoitado com varas e látegos com pontas de ferro para arrancar a carne. 

Pessoas passavam perto do edifício, montadas em seus camelos, inteiravam-se do que ocorria e iam embora. Não desciam para protestar, ao menos para ver Nosso Senhor e ter pena d’Ele. Nem queriam ouvir os gemidos d’Aquele que os estava resgatando. É bem a atitude do indiferente, do homem dominado apenas por sua vidinha e por seus interesses. 

Não se pode esquecer que Nossa Senhora estava num ângulo da praça assistindo a tudo isto: o ódio contra seu Filho, o ódio dos inimigos da Igreja Católica, o ódio do homem possuído pelo demônio. Pode-se então imaginar o porquê do desmaio da Santíssima Mãe. 

Tormento moral soma-se ao tormento físico

Enquanto Nosso Senhor era flagelado, já se preparava a coroa de espinhos. Uma narração conta que apareceu um homem do povo e cortou as cordas que amarravam Jesus Cristo à coluna; mas depois desapareceu no meio da multidão. Ele não procurou conclamar as pessoas para salvar Nosso Senhor; não optou por sacrificar sua vida ao lado de Jesus Cristo; teve um lampejo de coragem e fugiu. Viu Nosso Senhor cair no solo, mas não foi capaz de erguê-Lo. Nessas épocas históricas até os corajosos são poltrões, os mais admiráveis podem também apresentar aspectos de atitudes desprezíveis. 

O corpo de Jesus permaneceu caído ao solo. Passaram umas mulheres e os soldados proferiram palavras imorais dirigidas a elas. Que houvesse de ocorrer isto: a passagem de mulheres despudoradas, revelando sua frieza diante d’Ele. Logo Ele dirigiu seu olhar para elas — evidentemente uma graça que lhes era concedida. Qual a atitude delas? Afastaram-se. 

Tudo isso foi um contínuo auge do pavoroso. Quando se imagina estar tudo esgotado surgiu algo pior ainda, um tormento moral acrescentou-se ao tormento físico. Uma coisa inenarrável. 

Entretanto, Nosso Senhor rezava por todos os homens de todos os tempos. É algo muito salutar guardarmos a recordação disso. Assim, quando pedirmos alguma coisa a nosso Divino Salvador, suplicarmos por meio de Nossa Senhora, que pelas orações feitas por Ele junto à coluna, nos alcance essa ou aquela graça. Obtenha-nos a emenda de um pecado, a comoção de nossa alma em tal ponto de dureza, enfim qualquer outra graça. É uma esplêndida oração, que podemos fazer e relacionar com a imagem de Cristo flagelado.  

“Ecce Homo” 

Uma cena que se passou mostra a dureza dos malfeitores. Nosso Senhor caiu no solo, dilacerado de dor, sem mais poder mover-se; deram-Lhe pontapés e ordenaram que Ele se levantasse. Não tendo forças para levantar-se por si só, foi colocado de pé e jogaram-Lhe suas roupas. Nosso Senhor limpou o próprio rosto do sangue, sem ter quem Lhe ajudasse. Que cena comovente!

Depois de tudo isso, ainda sobreveio a coroação de espinhos, cujas pontas penetraram na cabeça, ferindo o Redentor, tendo o sangue escorrido até a boca. 

Em seguida, Pilatos apresentou Jesus Cristo ao público dizendo “Eis o homem!” 

Olhar profundamente meditativo

Nessa imagem, a carne aparece toda entumecida, toda lanhada pela flagelação. Olhem as mãos! Analisem o olhar! O que considero mais emocionante nela é o olhar, muito pensativo, profundamente meditativo. Tenho visto incontáveis crucifixos em que Nosso Senhor parece abismado, aliás legitimamente e santamente, na consideração de sua própria dor, em que o artista procura atrair a atenção da pessoa que vê o crucifixo para as dores de Nosso Senhor, visando provocar compaixão. E o próprio olhar d’Ele parece perguntar: “Pelo menos nesta dor tu não tens pena de mim?” 

Porém, nesta imagem, interpreto o olhar de outra maneira. É bem verdade que a dor está presente. É o olhar de uma pessoa que sofre profundamente. Mas, acima da dor, há uma reflexão profunda e consternada, de quem pensa com profundidade a respeito do que Lhe está acontecendo. Pensa a respeito do significado transcendente, metafísico e sobrenatural de todas as dores pelas quais Ele está sofrendo. 

É propriamente uma meditação sobre sua própria Paixão como Ele desejaria que fizéssemos. Meditação que eu interpreto, olhando a face sagrada, partindo de um ponto altíssimo, do mais alto ponto de consideração em que uma mente humana possa colocar-se. Mas é ao mesmo tempo uma meditação que vai até o mais concreto, ao mais palpável, ao mais miúdo, ao mais distante da transcendência, e une tudo numa visão comum. Une tudo numa só consideração global não apenas do que contra Ele estão fazendo, mas também do que fazem por Ele. Não apenas os homens vivos de sua época, mas de todos os homens que ao longo dos tempos considerariam esse passo da Paixão e que seriam frios, indiferentes, cruéis; mas também daqueles que O adorariam, transportados de amor, de admiração, de veneração, considerando a situação em que Ele se encontra.

Em meio à dor, entregue às mais altas cogitações

Essa imagem me relembra as palavras do profeta Simeão sobre Jesus: “Eis que este menino está destinado a ser uma causa de queda e de soerguimento para muitos homens em Israel, e a ser um sinal que provocará contradições, a fim de serem revelados os pensamentos de muitos corações” (São Lucas, 2, 34-35). Quer dizer, dividindo a História, cindindo-a de alto a baixo em dois: os que eram d’Ele e os que eram contra Ele; salvando alguns e perdendo os outros.

Parece-me que tais considerações, e outras ainda altíssimas, estão expressas nesse olhar, que, como se pode ver, pousa ao longe, num ponto indefinido.

Mas de outro lado, a escultura revela uma altaneria na posição d’Ele. Notem que, por mais que esteja alquebrado, Ele não está arqueado; pelo contrário, o tronco sagrado ereto numa posição que se poderia chamar nobre. A própria cabeça não está caída de um modo desairoso; sem estar inteiramente erguida, de modo arrogante, está posta com uma naturalidade profunda e nobre sobre o pescoço, e ereta como um homem que pensa muito, entregue às suas mais altas cogitações.


Em Nosso Senhor, nobreza, beleza e força moral 

Notem, em outro aspecto, a posição lindíssima dos braços. Dir-se-ia um personagem que está num ato de muito protocolo e etiqueta. Nas cortes, muitas vezes o modo correto de postar os braços diante de um rei ou de uma rainha é este. Assim está Ele. E assim podem vê-Lo com o corpo flagelado. Há partes da carne sagrada que não foram batidas e outras em que a carne foi arrancada.

Historicamente, Jesus Cristo estava cercado por gente que ria d’Ele. Mas Ele não olha para as pessoas. Ele as transcende, não toma conhecimento, está infinitamente acima de tudo isso, entregue a seus pensamentos, à sua oração.

Poder-se-ia colocar, entre os muitos títulos que essa imagem mereceria, a frase: “Jesus autem orabat” (Jesus porém orava); como também a frase: “Jesus autem tacebat” (Jesus porém calava-se). 

Observem o manto da irrisão que os verdugos colocaram sobre os ombros de Nosso Senhor por ocasião da coroação de espinhos. Apesar de tudo, o manto cai de modo composto, indicando nobreza, beleza moral e força moral que não O abandonaram nem mesmo nas situações mais terríveis.

Creio que representa a última expressão do comovedor dentro desta linha: Cristo enquanto pensando, enquanto refletindo profundamente, enquanto orando durante sua Paixão. 


Angústia doce, suave, sem agitação e confiante

Nessa outra fotografia da imagem, parece-me discernir no olhar três aspectos: primeiro, muita dor física, que se exprime seguida de muita angústia diante da dor que virá. É uma figura que está no meio de todo tormento e que sente o que ainda terá que suportar. Portanto, no auge do horror, em que Ele ainda não padeceu tudo. A morte que O libertará ainda está longe. Já sofreu tanto que perdeu toda a força para resistir, mas ainda tem que aguentar enormemente. 

Há uma ansiedade e uma angústia; mas uma angústia doce, suave, sem agitação e confiante: Meu Pai atenderá minha prece, Eu chegarei até o fim. Isto tem um sentido. 

Notem também a tristeza moral profunda. Como que divinamente decepcionado com aqueles que O abandonaram. Parece que, nessa hora, Ele se lembra não dos miseráveis que O chicotearam, mas dos Apóstolos que O deixaram! Que Ele está, um por um, revendo cada Apóstolo. E está pensando em São Pedro sobre quem Ele edificou a Igreja. Pensando em São João, o Apóstolo virgem, que horas antes ainda deitara a cabeça sobre Seu peito para fazer-Lhe uma pergunta particular. Pensando em São Bartolomeu, que Ele mesmo qualificara como um verdadeiro israelita no qual não havia fraude, e que, entretanto, igualmente O abandonou. Pensando em todos os outros. Com horror, pensando no filho da perdição que O vendeu. Considerando todos aqueles que O trairiam ao longo dos séculos. 

Mas também está pensando nos sacerdotes de hoje, nos bispos, nos cardeais e no Papa de hoje. 

Ele está refletindo em algo que o angustia enormemente, que é magnífico: no sofrimento de Nossa Senhora. 

Parece-me ver os olhos do pensador meditando, examinando do ponto de vista da filosofia e teologia aquele acontecimento central da História: sua Paixão e Morte. Em meio de tudo isso, Ele está rezando. A meu ver, é patente que há uma magnífica oração. 


Meditação que faz sangrar a alma, mas que eleva e santifica 

Fotografado sob outro ângulo, parece-me que a impressão da dor física é um tanto menor, enquanto a impressão da angústia e da reflexão é ainda maior.

Noutro ângulo, aparece um conjunto de várias expressões, de diversos close-ups de Seu rosto Sagrado. Tudo se junta numa fisionomia una, na qual sobressai a vergastada profunda na testa. 

Quando uma pessoa pensa, costuma frequentemente formar um vinco desse tipo na testa. É a meditação do verdadeiro Homem-Deus, que é acompanhada de dor e pensamento. Quantas vezes conjuga tristeza e amargura. Uma meditação que faz sangrar a alma, que envelhece, encanece, consome, mas também eleva e santifica. 


Nosso Divino Redentor, o “Rei da dor” 

Nessa fotografia aparece por inteiro o corpo divino. Eu não tenho nada que dizer! Notem a tumefação do braço esquerdo que nessa visão se percebe melhor. Esses braços ainda vão carregar a Cruz e as mãos ainda vão ser cravadas na Cruz, até sua Morte. Isso constitui a imensidade de tormentos que O aguardam depois de ter sofrido tanto. 

Em detalhe, vemos amarradas as mãos sagradas do Onipotente. Percebem-se as pontas dos dedos. É belo contemplar que as mãos são apresentadas inteiramente descontraídas, não há contração nervosa. Mas aparecem como as mãos de um rei, prontas para serem osculadas. É o Rei da dor. 

Por vezes tais impressões são pessoais. E se bem que as fotografias da escultura estão muito bem tiradas, sou da tese de que os projetores [de slides] raramente dão toda a realidade do que projetam, e que a imagem é muito mais real.

Eu pretendo depois trazer o quadro e colocá-lo em vários lugares, para que todos os senhores possam vê-lo bem. Após, destinarei o lugar onde com toda propriedade possa ficar de modo definitivo.

Não queria deixar de assinalar esta ocasião de graças que todos recebemos. É evidente que este quadro, para verdadeiros devotos e escravos de Nossa Senhora, segundo a consagração ensinada por São Luís Maria Grignion de Montfort, nos induz a entender que tendo Nosso Senhor sofrido tudo isso, foi pelos rogos de Maria que esse sangue é aplicável a nós. Se nossa presença Lhe não causa horror, mas, pelo contrário, é aceita com misericórdia, deve-se aos rogos de Maria. Ela é o caminho necessário, por vontade de Deus, para nos aproximar de seu Divino Filho. E sermos, não digo dignos, mas ao menos de algum modo proporcionados para olharmos essa figura e rogar por nós e pela Igreja.

Julgo que o escultor produziu uma obra de arte extraordinária no seguinte sentido: muitas vezes vemos num quadro ou escultura a expressão da alma do artista. É o modo pelo qual ele exprimiu o que certo tema lhe produziu na alma. Mas muito mais belo é quando o artista de tal maneira se deixa identificar com o tema, que apenas este aparece. No caso, apenas Nosso Senhor Jesus Cristo. Ou seja, o artista de tal maneira viveu, por assim dizer, a dor de Nosso Redentor, que produziu a representação de Jesus, e depois se apaga. Não se percebe qual era o seu estado de alma a não ser mediante a extrema inteligência, propriedade, finura, e, sobretudo, a extrema piedade com que conseguiu apresentar a obra. A meu ver, este é o auge do mérito quanto a uma obra de arte.

O católico deve aceitar o sofrimento por amor à Igreja 

Uma consideração final: hoje a Igreja está atada à coluna da flagelação. Fazendo cessar a causa, cessa o efeito. Se quisermos eliminar em nossa alma um estado ruim, devemos perguntar qual a causa desse estado para fazê-lo cessar.

Surge então a pergunta: Qual a razão de nossa indiferença? — Ela tem sua raiz na indiferença maldita do homem moderno por tudo que não seja ele próprio. Vemos povos afundarem em desditas, lemos nos jornais atrocidades praticadas pelo sistema comunista, mas as pessoas não se importam com isso.

Por quê? — Porque só se incomodam consigo mesmas, apenas se preocupam com suas coisinhas. Dos verdadeiros interesses sérios elas não cuidam. Interessam-se apenas pelas bagatelinhas de todos os dias.

Quantas e quantas vezes autênticos católicos são escarnecidos, por vezes até agredidos! Quem toma posição em sua defesa?

Todo sofrimento de qualquer católico, se aceito com espírito de fé, pode ser comparado ao sofrimento infinitamente precioso de Nosso Senhor Jesus Cristo. Há uma analogia. Passamos por muitos sofrimentos, mas em comparação com os d´Ele, são insignificantes.



“MAS QUE MAL FEZ ELE?” 

“Pilatos perguntou-Lhe outra vez: Nada respondes? Vê de quantos delitos te acusam! Mas Jesus nada mais respondeu, de modo que Pilatos ficou admirado. Ora, costumava ele soltar-lhes em cada festa qualquer dos presos que pedissem. Havia na prisão um, chamado Barrabás, que fora preso com seus cúmplices, o qual na sedição perpetrara um homicídio. O povo que tinha subido começou a pedir-lhe aquilo que sempre lhes costumava conceder. Pilatos respondeu-lhes: Quereis que vos solte o rei dos judeus? (Porque sabia que os sumos sacerdotes o haviam entregue por inveja.) Mas os pontífices instigaram o povo para que pedissem de preferência que lhes soltasse Barrabás. 
Pilatos falou-lhes outra vez: E que quereis que eu faça daquele a quem chamais o rei dos judeus? 
Eles tornaram a gritar: Crucifica-o! 
Pilatos replicou: Mas que mal fez ele? Eles clamavam mais ainda: Crucifica-o! 
Querendo Pilatos satisfazer o povo, soltou-lhes Barrabás e entregou Jesus, depois de açoitado, para que fosse crucificado. 
Os soldados conduziram-no ao interior do pátio, isto é, ao pretório, onde convocaram toda a coorte. Vestiram Jesus de púrpura, teceram uma coroa de espinhos e a colocaram na sua cabeça. E começaram a saudá-lo: Salve, rei dos judeus! Davam-lhe na cabeça com uma vara, cuspiam nele e punham-se de joelhos como para homenageá-lo. Depois de terem escarnecido d´Ele, tiraram-lhe a púrpura, deram-Lhe de novo as vestes e conduziram-no fora para o crucificar”. (São Marcos, 15, 9-20).

3 de abril de 2015

TU QUE DESCANSO BUSCAS COM CUIDADO

Tu que, descanso buscas com cuidado, 
Neste mar do mundo tempestuoso 
Não esperes de achar nenhum repouso, 
Senão em Cristo Jesus Crucificado. 


Se por riquezas vives desvelado, 
Em Deus está o tesouro mais precioso, 
Se estás de formosura desejoso, 
Se olhas este Senhor ficas namorado. 


Se tu buscas deleites ou prazeres, 
Nele está o dulçor dos dulçores, 
Que a todos nos deleita com vitória. 


Se porventura glória ou honra queres, 
Que maior honra pode ser nem glória 
Que servir ao Senhor Grande dos senhores? 

_____________________
(LUIZ VAZ DE CAMÕES (1524-1580) — In Obras de Luíz de Camões, Vol. II).

13 de janeiro de 2014

Programa “Porta dos Fundos” blasfema contra Deus, zomba da Fé e ultraja a maioria dos brasileiros



Paulo Roberto Campos

Às vésperas do último Natal, humoristas do programa da “Globo” denominado Porta dos Fundos, sob a responsabilidade principal do ator Fábio Porchat (declaradamente ateu), difundiu um vídeo Especial de Natal escarnecendo de modo vil da Religião — principalmente de Deus e da Santíssima Virgem. 

Em tal vídeo, os ridículos atores ofendem gravemente os valores cristãos, procuram ridicularizar a Fé da imensa maioria dos brasileiros, lançam as mais chulas zombarias (de péssimo gosto) contra o catolicismo e a moral pregada pela Santa Igreja, bem como contra seus ensinamentos relativos ao Nascimento e à Crucifixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. 


Os responsáveis e participantes de tal ignóbil programa responderão agora à justiça humana (que poderá falhar) e, mais tarde, à Divina Justiça de Deus (que nunca falha). Lembrem-se eles da primorosa sentença de São Paulo Apóstolo em sua Epístola aos Gálatas: “Não vos enganeis: de Deus não se zomba. O que o homem semeia, isso mesmo colherá” (Gal. VI, 7). 

Quanto à “justiça humana”, em 13-1-14 a Associação Nacional Pró-Vida e Pró-Família deu entrada no Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro de uma ação criminal contra o grupo Porta dos Fundos.

Transcrevo abaixo o texto do documento, encabeçado pelo diretor de imprensa da associação, Prof. Hermes Rodrigues Nery, que fundamentado no Código Penal Brasileiro denuncia Porta dos Fundos por crime de preconceito e ódio à Religião.

______________ 
PS: Se o dileto leitor ainda não assinou, recomendo que acesse o link abaixo e participe da petição dirigida ao Grupo Petrópolis, dono da marca Itaipava, pedindo-lhe que retire o patrocínio ao Porta dos Fundos. Mais de 20 mil pessoas já assinaram! 
http://www.citizengo.org/pt-pt/node/1921


Em 13-1-14, no Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro, o Dr. Rodolpho Loreto (à esq.) e o Prof. Hermes Nery protocolam a entrega do documento-denúncia contra o grupo Porta dos Fundos. 

EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR PROCURADOR GERAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 


HERMES RODRIGUES NERY, brasileiro, casado, exercendo o cargo de diretor de imprensa da Associação Nacional Pró- Vida e Pró-Família, com CNPJ 38.050944/000-46, inscrito no cadastro de pessoas físicas sob o n° 250922927, (61) 3224-9692, hrneryprovida@gmail.com, vem, respeitosamente, ofertar NOTITIA CRIMINIS em face de ANTONIO PEDRO TABET, FÁBIO PORCHAT, GREGÓRIO DUVIVIER, JOÃO VICENTE DE CASTRO, CLARICE FALCÃO, GABRIEL TOTORO, GUSTAVO CHAGAS, JULIA RABELLO, LETÍCIA LIMA, LUIZ LOBIANCO, MARCOS VERAS, MARCUS MAJELLA, RAFAEL INFANTE, ALICE VENTURA, AMANDA MOURA, ARTHUR SANTIAGO, BIANCA CAETANO, BRUNO MENEZES, GABRIEL ESTEVES, GLEICE CASTRO, GUI MACHADO, GUSTAVO CHAGAS, JOÃO MARCOS RODRIGUES, JULI VIDELA, LÍVIA ANDRADE, LUANNE ARAÚJO, MARCELA BRIONES, MAURÍCIO OSÓRIO, NATALY MEGA E RODRIGO MAGAL, todos integrantes do Grupo PORTA DOS FUNDOS (administrado pela empresa PORTA DOS FUNDOS PRODUTORA E DISTRIBUIDORA AUDIOVISUAL S.A., com sede na cidade do Rio de Janeiro - RJ), com endereço comercial à rua Buenos Aires, 334, centro, Rio de Janeiro (21) 4062.7839, responsável pelo vídeo veiculado no dia 24 de dezembro de 2013, na internet, pelo que, a seguir, passa a expor e requerer: 

PRELIMINARMENTE 
Considerando, a finalidade da Associação Nacional Pró-Vida e Pró-Família na defesa da vida humana desde a concepção até a morte natural, sem exceções; defesa dos valores morais e éticos da família, no sentido de promover o encaminhamento, ao Ministério Público, de denúncias referentes a práticas de abusos e indícios de atividades promovidas por qualquer pessoa física ou jurídica, pública ou privada, que venham, de qualquer forma, ofender princípios e garantias constitucionais, no caso em tela o art.5°, VI, da Constituição Federal que estabelece a inviolabilidade da liberdade de crença, sendo assegurada o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e as suas liturgias, venho a presença de V. Excelência dar notícia sobre a atuação do grupo denominado Porta dos Fundos que foi responsável pela produção do vídeo ofensivo à moral cristã, ao qual passo a relatar: 

DOS FATOS 
1. Eis o link para o vídeo em tela:
http://www.youtube.com/watch?v=2VEI_tn090c ou, simplesmente, pesquisando em qualquer mecanismo de busca as palavras “especial de natal porta dos fundos”;

2. Há uma pletora de ataques da parte destes mesmos ao Cristianismo. Eis alguns exemplos facilmente verificáveis:

DOS MOTIVOS DE FATO E DE DIREITO 
A- Douto Procurador-Geral: 

Não é de hoje que esse canal faz questão de debochar e insultar, das mais diversas formas, as religiões monoteístas — em especial o Cristianismo. De todos os vídeos do canal, os que realizam escárnio acerca da fé cristã, direta ou indiretamente são: 

• ESPECIAL DE NATAL – PORTA DOS FUNDOS; 
• ADÃO; 
• DEMÔNIO; 
• ARCA DE NOÉ; 
• CONFESSIONÁRIO; 
• 10 MANDAMENTOS; 
• EXORCISMO; OH, MEU DEUS; 
• SETOR DE RH – JESUS; 
• MODA; 
• BRAINSTORM; 
• FIDELIDADE; 
• MICHELÂNGELO e CICLO DA VIDA.

A proibição legal é contra o escárnio e a chacota desmedida. Essa é a nossa indignação em relação aos atos do Porta dos Fundos, pois tal prática não encontra guarida no nosso ordenamento. Os direitos e garantias individuais e coletivos consagrados na Constituição Federal, dentre eles a liberdade de expressão, são limitados, com o fim de se preservar o âmbito dos demais direitos fundamentais e propiciar uma harmonia social. Desta forma, a liberdade de expressão não pode ser utilizada como um escudo para atividades ilícitas e nitidamente tipificadas em nosso Código Penal, in casu, o vilipêndio público de ato ou objeto de culto religioso. 

Em outras palavras, não olvidamos o fato de que vivemos em um Estado Democrático de Direito e, sendo assim, a liberdade de qualquer cidadão ou grupo de manifestar a sua opinião acerca de qualquer tema é assegurada. A questão que ora se discute não é a liberdade de expressão, mas o excesso no uso deste direito (abuso do direito) mormente quando a manifestação vai de encontro a bens juridicamente tutelados como são o ato e objeto de culto religioso (liberdade religiosa). 

Resta-nos claro que houve a adequação típica do vídeo ora noticiado ao crime previsto no art. 208 do Código Penal, pelos seguintes motivos: 

1- Preconiza o art. 208 do Código Penal,
Art. 208 - Escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa; impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso; vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso: Pena - detenção, de um mês a um ano, ou multa. (Grifo nosso). 

O vídeo foi veiculado na antevéspera do NATAL e seu conteúdo escarnece de modo vil do dogma cristão da concepção virginal de Jesus Cristo; ataca vários símbolos religiosos — cruz do calvário, a passagem da mulher adúltera, o ato da crucificação de Cristo, dentre outros; ofendendo, portanto, o sentimento religioso de milhões de cidadãos brasileiros que são cristãos — sentimento este protegido pela Constituição de 1988, e pelo mencionado art. 208 do Código Penal; 

2- Escárnio por motivo de religião: O tipo objetivo tem o núcleo em escarnecer com o significado de troçar, zombar em público, de pessoa determinada, devido à sua crença (fé religiosa) ou sua posição (função) dentro de um culto, (padre, frade, freira, pastor, rabino etc.), presente ou não o ofendido. O dolo está na vontade livre e consciente de escarnecer e o elemento subjetivo do tipo indicativo do especial motivo de agir é: “por motivo de crença ou função religiosa”. A “ação nuclear típica consubstancia-se no verbo escarnecer, que significa zombar, ridicularizar, de forma a ofender alguém em virtude de crença ou função religiosa. Crença é a fé em uma doutrina religiosa, função religiosa é o ministério exercido por quem participa da celebração de um culto. O escárnio pode ser praticado por diversas formas: oral, simbólica, escrita etc. O escárnio há de ser público” (CAPEZ, Fernando. Curso de Direito Penal. V. 2. São Paulo, Saraiva, 2007. p. 630).

3- Qual a intenção do grupo de fazer tal vídeo e publicá-lo na antevéspera do Natal? Não está clara a intenção de tripúdio e escárnio? Cada segundo do vídeo é uma afronta das mais comezinhas à fé cristã e todos aqueles que são fiéis ao Cristianismo, perfazendo em cada um dos seus dezesseis minutos e quarenta e dois segundos, uma sucessão de escárnios, zombarias, tripúdios e vilipêndios, como V.Exª poderá conferir no link publicamente disponível e citado alhures; 

4- Assim, estão claramente presentes no ato criminoso ora noticiado todas as elementares do tipo penal referido, tanto os subjetivos como os objetivos. 

DO PEDIDO 
Diante dos fatos narrados que se subsumem, perfeitamente, às normas legais referidas, configurando crimes que ofendem garantias e princípios constitucionais, mormente o princípio da tolerância e respeito a diversidade e, considerando a função institucional desse Órgão Ministerial, na qualidade de titular da ação pública incondicionada (art. 129, I, da CF), requer-se a V. EXª: 

  • O recebimento e processamento da presente NOTITIA CRIMINIS, com o fito de servir de base para, constatadas a presença de indícios suficientes de materialidade e autoria, conforme narrados e outros que V. Exa. entenda presentes, ofereça Denúncia-Crime ao Poder Judiciário ou, caso entenda pela necessidade de maiores esclarecimentos, que requisite a instauração de Inquérito Policial para que sejam apurados os fatos e a responsabilidade penal de todos os imputados — grupo Porta dos Fundos —, em 24 de dezembro de 2013, por produzirem o vídeo intitulado “Especial de Natal”, tendo em vista que incorreram na conduta criminosa prevista no Código Penal. 



Termos em que, 
Pede e aguarda deferimento 
Brasília, 13 de Janeiro de 2014 

HERMES RODRIGUES NERY 
Diretor de Imprensa da Associação Nacional Pró-Vida e Pró Família 

ANTONIO CARLOS IRANLEI TOSCANO MOURA DOMINGUES
Advogado – OAB/PB 11.297 

PAULO FERNANDO MELO COSTA 
OAB/DF 19.772 

MARCELO AUGUSTO NOVAES DA COSTA MIRA 
Advogado – OAB/SP 269.533 

UBIRATAN MAIA 
OAB/SC 31.438-B 

IRACEMA VELOSO 
OAB-PE 32.581-D

ANDRÉ SAULO DOS SANTOS 
OAB/PE 24.236-D 

ALDICÉIA SOARES LINS 
OAB/PE 26.659-D 

 MARQUIRAN ALVES DA CRUZ 
OAB PE 31.831-D 

MAGNA BARBOSA DA SILVA 
OAB/PE 26.659-D 

 SANDRO BATISTA DOS SANTOS 
OAB/PE 35.557-D 

MANOEL CARLOS DO N. SILVA 
OAB/PE 6510-E

24 de dezembro de 2013

“Hoje uma luz brilhará sobre nós, porque nasceu-nos o Senhor




“Hoje uma luz brilhará sobre nós, porque nasceu-nos o Senhor, e será chamado Admirável, Deus, Príncipe da Paz, Pai do século futuro, cujo reino não terá fim”(*)


*       Plinio Corrêa de Oliveira
(Catolicismo, dezembro de 1952)

Considerando os fatos numa vasta perspectiva histórica, o Santo Natal foi o primeiro dia de vida da civilização cristã. Vida ainda germinativa e incipiente, como os primeiros clarões do sol que nasce; mas vida que já continha em si todos os elementos incomparavelmente ricos, da esplendida maturidade a que se destinava.

Com efeito, se é bem verdade que a civilização é um fato social, que para existir como tal nem sequer pode contentar-se de influenciar um pequeno punhado de pessoas, mas deve irradiar sobre uma coletividade inteira, não se pode dizer que a atmosfera sobrenatural que emana do presépio de Belém sobre os circunstantes já estava formando uma civilização. Mas se, de outro lado, consideramos que todas as riquezas da civilização cristã se contém em Nosso Senhor Jesus Cristo como em sua fonte única, infinitamente perfeita, e que a luz que começou a brilhar sobre os homens em Belém havia de alongar cada vez mais seus clarões, até se estender sobre o mundo inteiro, transformando mentalidades, abolindo e instituindo costumes, infundindo espírito novo em todas as culturas, unindo e elevando a um nível superior todas as civilizações, pode-se dizer que o primeiro dia de Cristo na Terra foi desde logo o primeiro dia de uma era histórica.
Quem o haveria de dizer? Não há ser humano mais débil do que uma criança. Não há habitação mais pobre do que uma gruta. Não há berço mais rudimentar do que uma manjedoura. Entretanto, esta Criança, naquela gruta, naquela manjedoura, haveria de transformar o curso História.

E que transformação! A mais difícil de todas, pois que se tratava, não de acelerar o curso das coisas no rumo em que seguiam, mas de orientar os homens no caminho mais avesso a suas inclinações: a via da austeridade, do sacrifício, da Cruz. Tratava-se de convidar à Fé um mundo apodrecido pelas superstições, pelo sincretismo religioso e pelo ceticismo completo. Tratava-se de convidar para a justiça uma humanidade afeita a todas as iniquidades: o domínio despótico do forte sobre os fracos, das massas sobre as elites, e da plutocracia — que reúne em si todos defeitos de umas e outras — sobre a própria massa. Tratava-se de convidar ao desapego um mundo que adorava o prazer sob todas as suas formas. Tratava-se de atrair para a pureza um mundo em que todas as depravações eram conhecidas, praticadas, aprovadas. Tarefa evidentemente inviável, mas que a Divina Criança começou a realizar desde o seu primeiro momento nesta Terra, e que nem a força do ódio judaico, nem a força do domínio romano, nem a força das paixões humanas poderia conter.
Dois mil anos depois do Nascimento de Cristo, parecemos ter voltado ao ponto inicial. A adoração do dinheiro, a divinização das massas, a exasperação do gosto dos prazeres mais vãos, o domínio despótico da força bruta, as superstições, o sincretismo religioso, o cepticismo, enfim o neo-paganismo em todos os seus aspectos invadiram novamente a Terra.

Blasfemaria contra Nosso Senhor Jesus Cristo quem afirmasse que este inferno de confusão, de corrupção, de revolta, de violência que temos diante de nós é a civilização cristã, é o Reino de Cristo na Terra. Apenas um ou outro grande lineamento da antiga cristandade sobrevive, abalado, no mundo de hoje. Mas, em sua realidade plena e global a civilização cristã deixou de existir, e da grande luz sobrenatural que começou a fulgir em Belém poucos raios brilham ainda sobre as leis, os costumes, as instituições e a cultura do século XX.

Por que isto? Teria a ação de Jesus Cristo — tão presente em nossos tabernáculos como na gruta de Belém — perdido algo de sua eficácia? Evidentemente não.

E, se a causa não está nem pode estar n´Ele, por certo está nos homens. Vindo a um mundo profundamente corrompido, Nosso Senhor e depois dele a Igreja nascente encontraram almas que se abriram à pregação evangélica. Hoje, a pregação evangélica se dissemina por toda a Terra. Mas cresce assustadoramente o número dos que se recusam com obstinação a ouvir a palavra de Deus, dos que pelas ideias que professam, pelos costumes que praticam, estão precisamente no polo oposto à Igreja. “Lux in tenebris lucet, et tenebrae eam non conprehenderunt” (A Luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam – Jo 1, 5).

Nisto, só nisto, está a causa de ruína da civilização cristã no mundo. Pois se o homem não é, não quer ser católico, como pode ser cristã a civilização que nasce de suas mãos?
Espanta que tantos homens perguntem qual a causa da crise titânica em que o mundo se debate. Basta imaginar que a humanidade cumprisse a Lei de Deus, para que se entenda que ipso facto a crise deixaria de existir. O problema, pois, está em nós. Está em nosso livre arbítrio. Está em nossa inteligência que se fecha à verdade, em nossa vontade que, solicitada pelas paixões se recusa ao bem. A reforma do homem é a reforma essencial e indispensável. Com ela, tudo estará feito. Sem ela, tudo quanto se fizer será nada.

Esta é a grande verdade que se deve meditar no Natal. Não basta que nos inclinemos ante Jesus Menino, ao som dos hinos litúrgicos, em uníssono com a alegria do povo fiel. É necessário que cuidemos cada qual de nossa reforma, e da reforma do próximo, para que a crise contemporânea tenha solução, para que a luz que brilha do presépio recobre campo livre para sua irradiação em todo o mundo.


Mas como conseguir isto? Onde estão nossos cinemas, nossos rádios, nossos diários, nossas organizações? Onde estão nossas bombas atômicas, nossos toques, nossos exércitos? Onde estão nossos bancos, nossos tesouros, nossas riquezas? Como lutar contra o mundo inteiro?

A pergunta é ingênua. Nossa vitória decorre essencialmente e antes de tudo de Nosso Senhor Jesus Cristo. Bancos, rádios, cinemas, organizações, tudo isto é excelente, e temos obrigação de o utilizar para a dilatação do Reino de Deus. Mas nada disto é indispensável. Ou, em outros termos, se a causa católica não contar com estes recursos, não por negligencia e falta de generosidade nossa, mas sem nossa culpa, o Divino Salvador fará o necessário para que vençamos sem isto. O exemplo deram-no os primeiros séculos da Igreja: não venceu esta, a despeito de se terem coligado contra ela todas as forças da Terra?

Confiança em Nosso Senhor Jesus Cristo, confiança no sobrenatural, eis outra lição preciosa que nos dá o Santo Natal.
E não terminemos sem colher mais um ensinamento, suave como um favo de mel. Sim, pecamos. Sim, imensas são as dificuldades que se nos deparam para voltar atrás, para subir. Sim, nossos crimes e nossas infidelidades atrairão sobre nós a cólera de Deus. Mas, junto ao presépio, temos a Medianeira clementíssima, que não é juiz mas advogada, que tem em relação a nós toda a compaixão, toda a ternura, toda a indulgência da mais perfeita das mães.

Olhos postos em Maria, unidos a Ela, por meio dela, peçamos neste Natal a graça única, que realmente importa: o Reino de Deus em nós e em torno de nós.

Todo o resto nos será dado por acréscimo.
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Nota:
(*) Intróito da 2ª Missa do Natal, com base em Is. 9, 2 e 6.