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11 de abril de 2018

O CASO MINDSZENTY

Esse martirizado prelado não dobrou os joelhos diante da tirania vermelha e resistiu admiravelmente à Ostpolitik vaticana de aproximação com os regimes comunistas.
A duríssima situação dos católicos perseguidos na China comunista está na ordem do dia, e vem a propósito recordar um grande herói que resistiu à política de aproximação com o comunismo, sendo por isso preso e torturado: o Cardeal József Mindszenty (1892-1975), Arcebispo de Esztergom e Primaz da Hungria. Esse martirizado prelado não dobrou os joelhos diante da tirania vermelha e resistiu admiravelmente à Ostpolitik vaticana de aproximação com os regimes comunistas. 

Devido a essa resistência, foi destituído por Paulo VI de sua arquidiocese.[1] Comentando o seu caso, Plinio Corrêa de Oliveira escreveu para a “Folha de S. Paulo” (31-3-1974) o artigo intitulado Ao grande criador do caso imenso, do qual reproduzimos o trecho abaixo. 


O Cardeal Mindszenty é recepcionado pela TFP venezuelana no aeroporto de Maiquetia (Caracas, 1975)

No panorama da geral devastação, o Cardeal Mindszenty se tem erguido como o grande inconformado, o criador do grande caso internacional,[2] de uma recusa inquebrantável que salva a honra da Igreja e do gênero humano. O seu exemplo — com o prestígio da púrpura romana intacta nos ombros do robusto pastor valente e abnegado — mostrou aos católicos que não lhes é lícito acompanhar as multidões que vão dobrando o joelho ante Belial.  

Assim, para a figura do egrégio purpurado se voltam as vistas admirativas dos sócios e militantes da TFP e organizações afins, nas Américas e na Europa. Empolgados pela atitude santamente intrépida do ex-Arcebispo de Esztergom, os presidentes dessas entidades lhe enviamos uma mensagem conjunta[3] (vide link abaixo). Estou certo de que incontáveis leitores gostariam de a ter assinado, muitos com seu sangue; ou com suas lágrimas, sangue de suas almas. O sangue da alma do herói de Esztergom e dos que pela Terra inteira sofrem em uníssono com ele. Sangue a que foi dado, desde Abel até o fim do mundo, o poder — maior do que qualquer outro poder — de subir ao Céu e de clamar diante de Deus. 

____________ 

Notas: 
1. A respeito do Cardeal Mindszenty, o "The Sunday Telegraph", de Londres, publicou em 15-9-1974: “Os dois grandes tormentos do Prelado: crucificado pelo Kremlin e traído pelo Vaticano”
2. No dia 10 de janeiro último, em audiência privada, o Papa Francisco disse ao Cardeal Zen: “Não criem outro caso Mindszenty!” — referindo-se aos bispos chineses que, assim como o Cardeal Mindszenty, estavam resistindo ao regime comunista chinês (Cfr. “Settimo Cielo”, 29-1-18). 
3. http://www.pliniocorreadeoliveira.info/FSP%2074-03-31%20Ao%20grande.htm#.WrO239T4_IU

25 de fevereiro de 2018

Apoio à heroica resistência católica à política vaticana de aproximação com a China comunista

Eminentíssimo Senhor 
Cardeal Joseph Zen Ze-kiun 
Hong Kong – China 

Eminência Reverendíssima 

O Instituto Plinio Corrêa de Oliveira, associação cívica continuadora da obra do insigne professor cujo nome ostenta, e associações autônomas e coirmãs nos cinco continentes, dedicam-se a defender os valores fundamentais da Civilização Cristã. Seus diretores, membros e simpatizantes são católicos apostólicos romanos que combatem as investidas do comunismo e do socialismo. 


Cardeal Joseph Zen Ze-kiun 
A posição fundamentalmente anticomunista que resulta das convicções católicas dos membros de nossas organizações ficou revigorada pela heroica resistência da “Igreja clandestina” chinesa fiel a Roma. Seus bispos, sacerdotes e milhões de católicos recusam a se submeter à assim chamada Igreja Patriótica, cismática em relação a Roma e inteiramente submissa ao poder central de Pequim.

“Bem-aventurados os que são perseguidos por amor à justiça, porque deles é o Reino dos céus!” (Mt 5, 10); “se o mundo vos odeia, sabei que me odiou a mim antes que a vós. Se fôsseis do mundo, o mundo vos amaria como sendo seus. Como, porém, não sois do mundo, mas do mundo vos escolhi, por isso o mundo vos odeia” (Jo 15, 18-19). 


Declaração de Resistência.
Para ler sua íntegra, click no link abaixo.
Essas divinas palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo exprimem nossa admiração à única Igreja Católica na China, hoje sob a bota comunista, e que tem em Vossa Eminência um egrégio membro e porta-voz. Vemos nesses católicos perseguidos outros tantos irmãos na Fé aos quais foi dirigida a Declaração de Resistência publicada pelo eminente líder católico brasileiro Prof. Plinio Corrêa de Oliveira (1908-1995), fundador da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade, e inspirador de TFPs e entidades afins nos diversos continentes. O documento é intitulado A política de distensão do Vaticano com os governos comunistas — Para a TFP: omitir-se? Ou resistir?

Como Vossa Eminência poderá ver nessa Declaração, datada de 1974, a diplomacia vaticana na Europa do Leste e na América Latina buscava uma ardilosa política de aproximação com os regimes comunistas gravemente danosa para os verdadeiros católicos, a qual resultaria na submissão da Santa Igreja Católica aos déspotas vermelhos. 

No dia 7 de abril de 1974, a imprensa da maior cidade da América do Sul (cfr. “O Estado de S. Paulo”) ecoou uma entrevista de Mons. Agostino Casaroli asseverando que na infeliz ilha de Cuba, oprimida pelo comunismo fidelcastrista, “os católicos são felizes dentro do regime socialista”. E continuava Mons. Casaroli: “A Igreja Católica cubana e seu guia espiritual procuram sempre não criar nenhum problema para o regime socialista que governa a ilha”.

Essas declarações do alto enviado vaticano — que coincidiam com posicionamentos de outros Prelados colaboracionistas do comunismo — provocavam surpresas dolorosas e traumas morais nos católicos que seguiam a imutável doutrina social e econômica ensinada por Leão XIII, Pio XI e Pio XII. Esta Ostpolitik, como ficou conhecida, era fonte de perplexidades e angústias, e suscitava no mais íntimo de muitas almas o mais pungente dos dramas. Pois, muito acima das questões sociais e econômicas, atingiam o que há de mais fundamental, vivo e terno na alma de um católico apostólico romano: sua vinculação espiritual com o Vigário de Jesus Cristo.

A diplomacia de distensão do Vaticano com os governos comunistas levantava uma dúvida supremamente embaraçosa: é lícito aos católicos não caminharem na direção apontada pela Santa Sé? É lícito cessar a resistência ao comunismo?

Neste momento, encontramo-nos em situação análoga, porém ainda mais perigosa, com a política vaticana em relação à chamada Igreja Patriótica submissa a Pequim. 

Com efeito, causou pasmo no mundo católico a noticia da visita à China de uma delegação vaticana liderada pelo arcebispo Claudio Maria Celli, quem em nome do Papa Francisco pediu aos legítimos pastores das dioceses de Shantou e Mindong que entregassem suas dioceses e seus rebanhos a bispos ilegítimos nomeados pelo governo comunista e rompidos com a Santa Sé. 

Chegaram como aterradora e amplificada repetição das declarações de Mons. Casaroli em Cuba as palavras de Mons. Marcelo Sánchez Sorondo, Chanceler da Pontifícia Academia das Ciências e da Academia Pontifícia das Ciências Sociais, conhecido como conselheiro próximo do Santo Padre. Segundo o jornal “La Stampa” de Turim do dia 2 de fevereiro, declarou ele: “Neste momento, os que melhor praticam a doutrina social da Igreja são os chineses [...]. Os chineses procuram o bem comum, subordinam as coisas ao bem geral".

Após visitar o país esmagado por uma ditadura ainda mais inclemente do que a cubana, Mons. Sánchez Sorondo, ainda à maneira de Mons. Casaroli, declarou: “Encontrei uma China extraordinária; o que as pessoas não sabem é que o principio central chinês é trabalho, trabalho, trabalho. Não tem favelas, não tem drogas, os jovens não tem droga [...] [A China] está defendendo a dignidade da pessoa [...]”

Nem uma só palavra sobre a perseguição religiosa que o comunismo inflige aos nossos irmãos na Fé — bispos, padres e fiéis prisioneiros —, nem à violação sistemática e universal dos direitos fundamentais do homem criado à imagem e semelhança de Deus. 

As controvertidas e falsas afirmações deste alto prelado vaticano vão muito além das próprias declarações de Mons. Casaroli em Cuba no remoto ano de 1974 e ferem muito mais a reta consciência cristã. 

O drama da atual situação dos católicos chineses é o de todos os fiéis que desejam perseverar diante do Leviatã comunista. Ontem como hoje, pressionados pela diplomacia da Santa Sé para aceitarem um acordo iníquo com o regime comunista, enfrentam um gravíssimo problema de consciência: é lícito dizer não à Ostpolitik vaticana e continuar resistindo ao comunismo até o martírio se necessário for? 


Plinio Corrêa de Oliveira
Na referida Declaração de Resistência, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira afirmava (sem ter recebido nenhuma objeção de Paulo VI ou de seus sucessores) que aos católicos é não somente lícito, mas até um dever imitar a atitude de resistência do Apóstolo São Paulo em face de São Pedro, o primeiro Papa:
“Tendo o primeiro Papa, São Pedro, tomado medidas disciplinares referentes à permanência no culto católico de práticas remanescentes da antiga Sinagoga, São Paulo viu nisto um grave risco de confusão doutrinária e de prejuízo para os fiéis. Levantou-se então e ´resistiu em face´ a São Pedro (Gal. II,11). Este não viu, no lance fogoso e inspirado do Apóstolo das Gentes, um ato de rebeldia, mas de união e amor fraterno. E, sabendo bem no que era infalível e no que não era, cedeu ante os argumentos de São Paulo. Os Santos são modelos dos católicos. No sentido em que São Paulo resistiu, nosso estado é de resistência.  
“Resistir significa que aconselharemos os católicos a que continuem a lutar contra a doutrina comunista com todos os recursos lícitos, em defesa da Pátria e da Civilização Cristã ameaçadas.  
“Resistir significa que jamais empregaremos os recursos indignos da contestação, e menos ainda tomaremos atitudes que em qualquer ponto discrepem da veneração e da obediência que se deve ao Sumo Pontífice, nos termos do Direito Canônico.  
“A Igreja não é, a Igreja nunca foi, a Igreja jamais será um cárcere para as consciências. O vínculo da obediência ao Sucessor de Pedro, que jamais romperemos, que amamos com o mais profundo de nossa alma, ao qual tributamos o melhor de nosso amor, esse vínculo nós o osculamos no momento mesmo em que, triturados pela dor, afirmamos a nossa posição. E de joelhos, fitando com veneração a figura de S.S. o Papa Paulo VI, nós lhe manifestamos toda a nossa fidelidade.  
“Neste ato filial, dizemos ao Pastor dos Pastores: Nossa alma é Vossa, nossa vida é Vossa. Mandai-nos o que quiserdes. Só não nos mandeis que cruzemos os braços diante do lobo vermelho que investe. A isto nossa consciência se opõe.”
Cardeal Paul Yü Pin
Ainda nos anos 70, tivemos a alegria de constatar, na gloriosa fileira do episcopado chinês, a resistência destemida do ilustre conterrâneo de Vossa Eminência, o Emmo. Cardeal Paul Yü Pin, então Arcebispo de Nanquim e Reitor da Universidade Católica de Taipé, Formosa (cfr. “The Herald of Freedom” de 15-2-74, em despacho da Religious News Service). 

Declarou o Purpurado à citada agência (como hoje ratifica Vossa Eminência), que seria uma ilusão esperar que a China comunista modifique sua política antirreligiosa. 

Corrobora tal assertiva o próprio presidente Xi Jinping, o qual acentuou no XIX Congresso do PC que “a cultura [...] deve ser aproveitada para a causa do socialismo de acordo com a orientação do marxismo”; e que por causa disso a religião deve ter uma “orientação chinesa” e adaptar-se à sociedade socialista guiada pelo partido ("The Washington Post", 18-10-17).

Voltando ao Cardeal Yu Pin, há 40 anos ele acrescentou: “Queremos permanecer fiéis aos valores perenes da justiça internacional [...]. O Vaticano pode agir de modo diverso, porém não nos comoveríamos muito com isso. Penso que é ilusória a esperança de que um diálogo com Pequim ajudaria os cristãos do continente [chinês]. [...] O Vaticano nada está obtendo para os cristãos da Europa Oriental. [...] Se o Vaticano não pode proteger a Religião, ele não tem muita razão para continuar no assunto. [...] Queremos permanecer fiéis ao nosso mandato, mas somos vítimas da repressão comunista. Sob tal aproximação [do Vaticano com a China comunista], nós perderíamos a nossa liberdade. Como chineses, temos que lutar por nossa liberdade”

A essas lúcidas e vigorosas observações, que lembram a “resistência em face” de São Paulo a São Pedro (Gal. II, 11), o Prelado acrescentou esta emocionante previsão: “Há uma Igreja subterrânea na China. A Igreja na China sobreviverá, como os primeiros cristãos sobreviveram nas catacumbas. E isso poderia significar um verdadeiro renascimento cristão para os chineses.” 

Assim sendo, o Instituto Plinio Corrêa de Oliveira e associações autônomas e coirmãs de todo o mundo, bem como os milhares de católicos que juntam suas assinaturas a esta mensagem de apoio moral: 

Imagem de Nossa Senhora
Imperatriz da China
  1. Manifestam a Vossa Eminência, a toda a hierarquia, clero e povo católico da China, sua admiração e sua solidariedade moral, nesta hora em que urge erguer a resistência ante o Moloch comunista e a Ostpolitik vaticana. Os bispos e sacerdotes da perseguida Igreja clandestina na China que ora resistem, estão sendo para o mundo inteiro um símbolo vivo do “bom pastor que dá sua vida pelas ovelhas”.
  2. Afirmam que haurem alento, força e esperança invencível do épico exemplo dos atuais mártires que perseveram na China. Nossas almas católicas aclamam estas nobres vítimas: “Tu gloria Jerusalem, tu laetitia Israel, tu honorificentia populi nostri” (Jud. 15,10). Esses mártires constituem a glória da Igreja, a alegria dos fiéis, a honra dos que continuam a luta sacrossanta. 
  3. Elevam suas preces a Nossa Senhora Imperatriz da China, para que com desvelo de Mãe socorra e dê ânimo aos seus filhos que lutam para se manterem fiéis apesar de circunstâncias tão cruelmente hostis. 
São Paulo, 25 de fevereiro de 2018 
Instituto Plinio Corrêa de Oliveira

11 de fevereiro de 2018

LOURDES – 1858-2018

Imagem de Na. Sra. de Lourdes venerada na Igreja do Sagrado Coração Jesus [Foto PRC] 


Em memória do 160º aniversário das aparições de Nossa Senhora a Santa Bernadette em Lourdes, reproduzimos a seguir trecho de uma conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, em 10 de fevereiro de 1965, sem sua revisão. 


Plinio Corrêa de Oliveira

Nossa Senhora de Lourdes desejou ser conhecida enquanto sumamente benfazeja. Assim, sugiro pensarmos numa grande graça para pedir a Ela. Devemos ser ousados em nossas orações, pedir coisas arrojadas, não coisas insensatas, e pedir com muita insistência. Por exemplo, pedir uma graça que diga respeito à santificação, e depois algo que se queira de temporal, mas que Ela nos conceda se for para o bem de nossas almas. Isso nos leva a refletir no panorama de nossa vida espiritual, a ter uma visão de nós mesmos e de nossas atividades. 

Na igreja do Sagrado Coração de Jesus [na capital paulista] há uma gruta com uma imagem de Nossa Senhora de Lourdes [foto ao lado e acima]. Não é uma imagem qualquer, é a própria imagem que era venerada na Basílica de Lourdes, na França, antes da imagem atual, segundo documento [foto abaixo] guardado na igreja. Portanto, essa imagem constitui um elo entre Lourdes e o Brasil. 

Nunca devemos nos esquecer de que no Evangelho as doenças do corpo são tratadas como sendo símbolos de doenças da alma. Assim como alguns sofrem paralisia do corpo, outros sofrem paralisia de alma; alguns sofrem de cegueira no corpo, outros na alma; surdez, mudez e outras enfermidades. Se tivermos defeitos de alma que desejamos corrigir, seria o momento adequado de os levarmos àquela gruta de Nossa Senhora de Lourdes e pedir a Ela que nos cure.

Para ampliar, click na foto
Isso tem muita razão de ser, pois se a Virgem Santíssima deseja tanto curar corpos perecíveis e mortais, quanto mais desejará curar almas imperecíveis e imortais. Nosso Senhor Jesus Cristo não veio à Terra para salvar corpos, veio para salvar almas. 

Nossos pedidos não podem deixar de ser muito gratos a Ela. Pedidos feitos para nós ou por outrem; por alguém a quem desejamos fazer um bem; por uma alma cujas dificuldades nos amedrontam; por um amigo cujas aflições, tentações ou perigos constituem para nós uma fonte de preocupação.

31 de janeiro de 2018

SÃO JOÃO BOSCO

São João Bosco em 1887 – última fotografia do santo.


Falecido em 31 de janeiro de 1888, celebra-se, neste dia 31 de janeiro de 2018, 130 anos do passamento à vida eterna do grande São João Bosco. Em memória desse veneradíssimo Apóstolo da juventude, reproduzimos a seguir um artigo de Plinio Corrêa de Oliveira, publicado no “Legionário” de 30 de janeiro de 1938. 


Plinio Corrêa de Oliveira 

Quando o mundo se afasta da Igreja, cai inevitavelmente nos erros mais grosseiros da inteligência, levado pela dissolução dos seus costumes. De fato, os maiores erros da humanidade provieram não da verdadeira ciência, mas dos pecados dos cientistas, que, deturpando suas inteligências, os conduziram ao erro, quer insensivelmente, quer propositalmente, como meio de desculpar as suas faltas. 

É por isso que costuma aparecer livros e teorias pretendendo constituir a moral independente de Deus, muitas vezes mascarando-a com o endeusamento da vontade. Ora, a vontade é verdadeiramente maravilhosa, e reforma verdadeiramente o homem quando coopera com a graça divina, porém é absolutamente impotente quando a despreza. 

O homem verdadeiramente honesto é o católico verdadeiro, pois são tantas as paixões que procuram desviá-lo do cumprimento do dever, que é impossível observar todas as suas obrigações, sem a recepção frequente dos sacramentos.

E só o católico verdadeiro, que recebe frequentemente os Sacramentos e corresponde fielmente à graça de Deus com inquebrantável força de vontade, consegue cumprir escrupulosamente os ensinamentos de Nosso Senhor Jesus Cristo. 


São João Bosco nos revela o quanto pode a graça, quando de nossa parte correspondemos fielmente a ela. Dotado de grande força de vontade, desde pequeno alimentava o desejo de ser padre, embora a extrema miséria de sua família e a oposição do irmão levantassem uma barreira que pareceria intransponível a quem confiasse apenas em suas próprias forças. 

São João Bosco, no entanto, tinha toda confiança em Nosso Senhor Jesus Cristo, e tudo suportou para corresponder à vocação que possuía pelo sacerdócio. 

Depois de ordenado, São João Bosco resolveu dedicar-se inteiramente às crianças abandonadas, reunindo-as determinados dias em “oratórios” como ele designava essas reuniões infantis, para rezarem, divertirem-se em brinquedos honestos e aprenderem o catecismo. 

Por suas crianças, São João Bosco de tudo era capaz. Tanto afrontava os poderosos da época, em geral inimigos da Igreja, como esforçava-se em aprender os malabarismos de um artista de circo que com sua arte desviava os meninos do seu “oratório”. 

Dentro em pouco, tão numerosas eram as crianças que corriam aos “oratórios”, que São João Bosco concebeu a ideia da fundação de uma nova Sociedade religiosa que se dedicasse exclusivamente à educação da juventude. Animado pelo Bem-aventurado (hoje Santo, n.d.c.) José Cafasso e pelo Papa Pio IX fundou a “Pia Sociedade de São Francisco de Salles” e o “Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora”. 


Num sonho, São João Bosco 
teve a revelação de que sua 
imagem estaria acima da estátua 
de bronze de São Pedro e do 
medalhão/mosaico do Papa Pio IX. 
Constrangido com tal glória, 
ele acordou e o sonho de desfez. 
Mas hoje, na nave central da Basílica 
de São Pedro em Roma, 
essa revelação encontra-se imortalizada 
em mármore, como se vê nesta foto. 
A Estátua mede 4.80 m e foi realizada 
pelo famoso escultor Pietro Canonica 
(1869 - 1959) [Foto PRC].
Mais tarde, numa antevisão da “ação católica” instituiu a obra dos cooperadores salesianos, composto quase que exclusivamente de leigos e que tinham por obrigação dedicarem-se às obras de caridade e prestar todo auxílio possível aos vigários, Bispos e ao Santo Padre. 

Apesar de inteiramente dedicado aos meninos, São João Bosco quis que de sua casa partissem religiosos para as missões em busca de novas almas para Cristo. Os primeiros salesianos que partiram para as missões eram chefiados por João Cagliero e se dirigiram à América Meridional. Hoje, eles se acham espalhados por todas as missões do mundo. 

São João Bosco tinha por lema na vida “Dai-me almas e ficai com o resto”, e durante toda sua existência preocupou-se exclusivamente em ganhar almas para o Céu, não poupando sacrifícios e doçura de trato para conseguir a amizade de seus meninos. 

Quando aos 31 de janeiro de 1888, morreu o Santo das crianças, foi extraordinário o número de meninos e ex-alunos de São João Bosco que acorreram ao seu enterro. Desde logo a fama de sua santidade espalhou-se por toda parte. Instaurado o processo para sua beatificação em 1907, Pio XI em 1934 incluía-o entre os Santos da Igreja Católica. 

São João Bosco nada tinha de seu, no começo de sua vida, mas confiado exclusivamente na Providência divina, e cooperando fielmente com a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, construiu igrejas, colégios, fundou duas congregações religiosas, ganhou inúmeras almas para o Céu e, o que vale mais que tudo isto, santificou-se. Que Ele, continuando no Céu seu intenso apostolado, conquiste os brasileiros para a Igreja, a fim de que o Brasil se faça uma nação verdadeiramente católica, merecedora das bênçãos de Nosso Senhor Jesus Cristo.

23 de dezembro de 2017

A noite entre todas sagrada

Nas pompas festivas da Missa do Galo, as famílias, os povos, as nações se sentiam ungidos pelo júbilo sacral descido do mais alto dos céus 


Plinio Corrêa de Oliveira (*)

O Advento, período que no ano litúrgico compreende as quatro semanas antecedentes ao Natal, constituía para a Cristandade uma parte do ano especialmente voltada para o recolhimento, para uma discreta compunção e para a esperança palpitante do grande júbilo que o nascimento do Messias trará. Todos se preparavam assim para acolher o Menino-Deus que, no virginal sacrário materno, se acercava, dia a dia mais, do momento bendito em que iniciaria sua convivência salvífica com os homens.  

Nessa atmosfera densa e vividamente religiosa, a tônica se ia gradualmente deslocando. À medida que se aproximava a noite entre todas sagrada, a compunção ia cedendo lugar à alegria. Até o momento em que, nas pompas festivas da Missa do Galo, as famílias, os povos, as nações se sentiam ungidos pelo júbilo sacral descido do mais alto dos céus; e em cada cidade, em cada lar, no interior de cada alma se difundia, como um bálsamo de celeste odor, a impressão de que o Príncipe da Paz, o Deus Forte, o Leão de Judá, o Emanuel, mais uma vez acabava de nascer. Stille Nacht, Heilige Nacht... a canção célebre que se transpôs para nosso vernáculo, de modo menos expressivo, como Noite Feliz.  
De toda essa preparação, o que restou? Do Advento, quem hoje cogita senão uma minoria ínfima? E dentro dessa minoria ínfima, quantos o fazem sob a influência da verdadeira teologia católica e tradicional, e não das teologias ambíguas e desvairadas que sacodem hoje em dia o mundo cristão, como se fossem convulsões de febre?

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Excertos do artigo de Plinio Corrêa de Oliveira, “No crepúsculo do sol de justiça”, publicado na “Folha de S. Paulo” em 1º-1-1979.

16 de dezembro de 2017

1967 – 2017: meio século de uma graça extraordinária


Leo Daniele 

“Será que meus amigos não percebem que estou muito doente?” 

Foi o que pensou em 1967 o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, sentindo-se debilitado e vendo sua figura, muito abatida, num filme documentário. 

De fato não percebiam, porque ele, sempre muito apostólico e desejoso de animar seus discípulos, disfarçava e não reclamava dos sofrimentos que a Providência lhe pedia. 


Dias depois revelou-se a enfermidade: uma terrível crise de diabete, com ameaça de gangrena, que o fez internar num hospital às pressas. O prognóstico mais provável era ter de submeter-se a algumas cirurgias, que seriam cada vez mais radicais e de eficácia duvidosa. Uma primeira intervenção, com amputação de alguns artelhos do pé, foi executada. 

No dia 16 de dezembro de 1967, há exatamente 50 anos, um de seus amigos, visitando-o, trouxe uma reprodução italiana, em grande formato [acima e ao lado, que se encontra no quarto de Plinio Corrêa de Oliveira], de Nossa Senhora do Bom Conselho de Genazzano.

O Prof. Plinio olhou para a estampa longamente. Depois seu estado de ânimo mudou, mostrando-se mais bem disposto. Algo de sublime se passou naquele momento, pelo qual ele se ligou estreitamente a Nossa Senhora de Genazzano até o fim de sua vida. A partir daí ele começa a recuperar-se, até retomar suas atividades habituais, sem necessidade de novas intervenções cirúrgicas.

10 de dezembro de 2017

Uma solução para Jerusalém: a internacionalização da Cidade Santa


Paulo Roberto Campos

A respeito do post de ontem, intitulado A QUEM PERTENCE JERUSALÉM?, recebi hoje de um colega — tarimbado, brilhante e arguto analista político — este e-mail: 
“Li seu substancioso artigo. Talvez valesse a pena um adendo. ‘Rebus sic stantibus’, creio seria ainda hoje a posição de Dr. Plinio Corrêa de Oliveira”. 
Em vista do recente reconhecimento, por parte dos Estados Unidos, de Jerusalém como capital oficial de Israel, vem muito a propósito o referido adendo, que é uma matéria da TFP publicada na revista Catolicismo (Nº 200 - Agosto de 1967). Ei-la: 


CHANCELER INFORMA À TFP: BRASIL APÓIA A INTERNACIONALIZAÇÃO DE JERUSALÉM



Com data de 11 de junho (de 1967), a Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade enviou telegrama ao Presidente Costa e Silva e ao Chanceler Magalhães Pinto, pedindo que o Brasil propusesse urgentemente, a todos os países latino-americanos, dar apoio conjunto à internacionalização de Jerusalém, segundo o desejo de Sua Santidade o Papa Paulo VI. É o seguinte o texto do despacho: 


"Peço a Vossa Excelência que o Brasil proponha urgentemente a todas as nações da América Latina darem apoio conjunto à internacionalização de Jerusalém, desejada pelo Santo Padre Paulo VI. 

Essa medida, já múltiplas vezes pedida em solenes Documentos do inolvidável Pio XII, constitui merecida homenagem à Cidade Sagrada, que ficará assim resguardada de futuros riscos.  
Corresponde às tradições cristãs brasileiras, bem como a nossos foros de mais populosa das nações católicas, assumir essa simpática iniciativa, a qual será entusiasticamente aplaudida por todos os brasileiros. 

Na antecipada certeza da favorável acolhida de Vossa Excelência, apresento cordiais e respeitosos cumprimentos.  
Plinio Corrêa de Oliveira 

Presidente do Conselho Nacional da 

Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade". 


Em resposta, o Ministro do Exterior telegrafou nestes termos, em data de 7 de julho (de 1967), ao Prof. Plinio Corrêa de Oliveira:
"O Senhor Presidente da República encaminhou-me o telegrama pelo qual Vossa Senhoria solicita o apoio do Brasil à internacionalização de Jerusalém. Apraz-me informar a Vossa Senhoria que o Governo brasileiro tem defendido a tese de que Jerusalém deve ser colocada sob regime internacional permanente que propicie garantias especiais aos Lugares Santos, e nesse sentido expressei-me no discurso que pronunciei perante a Assembleia Geral de emergência das Nações Unidas. 
Por outro lado, a Delegação brasileira patrocinou, juntamente com outros países latino-americanos, um projeto de resolução que, entre outros pontos, propõe a internacionalização da Cidade Santa, apoiando a posição da Santa Sé. Atenciosos cumprimentos.  
José de Magalhães Pinto". 

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A QUEM PERTENCE JERUSALÉM?


Paulo Roberto Campos

Não é de hoje os conflitos envolvendo árabes e judeus pela disputa de Jerusalém. Nos presentes dias eles acirraram-se e ocupam grande parte do noticiário nacional e internacional devido ao recente reconhecimento, por parte do Presidente dos Estados Unidos, daquela Cidade Santa como capital de Israel. Já na década de 1940 Plinio Corrêa de Oliveira tratou dessa problemática.

A questão Palestina/Israel e as guerras intérminas lá desencadeadas parecem sem perspectiva de solução e a disputa entre árabes e judeus pela posse da Terra Santa vem se agravando dia-a-dia. 


Igreja do Santo Sepulcro em Jerusalém
Desde o término da Segunda Guerra Mundial, tal disputa afligia o mundo. Já naquela época, em numerosos artigos o Prof. Plinio chamava a atenção para a gravidade do problema. Ele insistia especialmente num ponto: Os Lugares Santos foram percorridos e santificados por Nosso Senhor Jesus Cristo, que ali nasceu, viveu e morreu. E os católicos não podem ficar insensíveis, não se importando com o que acontece naquele território, uma vez que à Cristandade pertence Jerusalém e os Lugares Santos. Caso não se importassem, sua atitude seria semelhante à dos Apóstolos no Horto das Oliveiras que se entregaram ao sono e não acompanharam o Redentor em Sua Sacrossanta agonia.

A título de exemplo, segue trecho de um artigo de Plinio Corrêa de Oliveira, publicado em 7-12-47 no semanário "Legionário". Mas antes convém relembrar que, por "Cristandade", o Autor entendia a "Civilização Católica Apostólica Romana, totalmente tal, absolutamente tal, minuciosamente tal".


Representação da cidade
de Jerusalém no séc. XIII
“Vamos agora à questão da Terra Santa. O mundo inteiro está cheio do rumor levantado por ela. Os povos islâmicos se estão movimentando. Os elementos radicais do judaísmo, descontentes, reivindicam a própria posse dos Lugares Sagrados. O problema de saber a quem deve pertencer a Palestina parece insolúvel. Aos árabes? Aos judeus? Ninguém sabe. E como são poucos, neste mundo revolto, os que têm a coragem de enunciar a verdadeira decisão! 
Quem tem a coragem de afirmar o princípio verdadeiro de que Jerusalém e os Lugares Santos, por terem sido consagrados pela Vida, Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, são patrimônio da Cristandade, e portanto não podem estar sob domínio exclusivo nem de árabes nem dos judeus?”

17 de novembro de 2017

Primeira Comunhão de um grande líder católico



No dia 19 de novembro de 1917, há exatamente 100 anos, Plinio Corrêa de Oliveira [foto abaixo] fazia sua Primeira Comunhão na igreja de Santa Cecília, no bairro do mesmo nome, na capital paulista. Ele tinha então nove anos de idade e sua devoção eucarística o tornaria depois o grande e destemido líder católico, fundador da TFP brasileira. 

Paulo Roberto Campos


Em 27 de agosto de 1994, alguns jovens que estavam se preparando para a Primeira Comunhão tiveram a oportunidade de um encontro com Plinio Corrêa de Oliveira. Nessa ocasião, eles lhe perguntaram como tinha sido a sua Primeira Comunhão. 

Mais abaixo seguem alguns trechos extraídos da gravação em fita magnética, sem a revisão do autor, com a resposta que ele deu então àqueles jovens. Apenas adaptei o texto, transpondo a linguagem falada para a escrita, e inseri alguns complementos entre parênteses. Transcrevo-o como uma homenagem neste centenário e em agradecimento a quem muitíssimo me auxiliou na autêntica e profunda adoração do Santíssimo Sacramento da Eucaristia.

Durante toda sua vida, aquele grande líder católico, que comungava diariamente, foi um exemplo para todos seus discípulos de como deve ser a verdadeira devoção à Eucaristia — o maior tesouro que Nosso Senhor Jesus Cristo nos deixou: sua presença contínua nesta Terra. “Eu estarei convosco até a consumação dos séculos” (Mt 28,20).

São Pio X — o grande Papa da devoção eucarística e que tanto incentivou a Primeira Comunhão concedida às crianças logo que adquirissem o uso da razão — sintetiza o mais excelso de todos os sacramentos afirmando: “A devoção à Eucaristia é a mais nobre de todas as devoções, porque tem o próprio Deus por objeto; é a mais salutar porque nos dá o próprio autor da graça; é a mais suave, pois suave é o Senhor. Se os anjos pudessem sentir inveja, nos invejariam porque podemos comungar.”

A seguir, as palavras de Plinio Corrêa de Oliveira em resposta ao pedido de como tinha sido sua Primeira Comunhão:
Dona Lucilia e seu esposo, o Dr. João Paulo Corrêa de Oliveira
“Minha primeira comunhão foi preparada por Dona Lucilia [Lucilia Ribeiro dos Santos Corrêa de Oliveira [foto acima], mãe do Prof. Plinio] para mim, minha irmã e uma sobrinha dela que morava em nossa casa e que ela tratava como filha. Éramos ainda muito crianças, pois a Primeira Comunhão foi em 1917. Como nasci em 1908 [no dia 13 de dezembro], tinha nove anos [incompletos], mas já estava largamente na idade recomendada por São Pio X para as crianças fazerem sua Primeira Comunhão. Podia ser mais cedo, mas foi com nove anos que fiz a minha.  

Dona Lucilia, querendo que essa formação religiosa tivesse o maior esmero possível, quis que o vigário de Santa Cecília, chamado Padre Pedrosa — indicado a ela pelo famoso Padre Chico de Paula e tido como o melhor diretor espiritual, o mais piedoso e um dos melhores oradores sacros de São Paulo —, nos preparasse para a Primeira Comunhão. 

Mas foi muito mais do que isso. Ela quis também que essa preparação fosse dada só para nós três. Realizada numa bela sala da igreja de Santa Cecília [foto ao lado], na parte traseira da igreja, com vitrais muito bonitos, uma mesa com madeira grossa muito bem trabalhada. O ambiente dava muito a ideia da seriedade da aula.  

Esse padre sabia muito bem tratar com crianças, sabia explicar como a comunhão é um ato de uma sublime grandeza, mas, ao mesmo tempo, com muita bondade etc. Ele tinha intenção de nos fazer sentir bem a bondade do Sacratíssimo Coração de Jesus e do Sacral e Imaculado Coração de Maria. 

As aulas para as crianças eram muito explicadinhas, tudo muito claro, direito etc., e eram agradáveis de ouvir. Mas, no modo de ensinar catecismo naquele tempo, inculcava-se muito o respeito que se devia àquela doutrina e o respeito e a veneração que se deveria ter a tudo quanto a Igreja ensinava, sua doutrina etc. 

Se eu não me engano, foi lá que ouvi pela primeira vez falar de infalibilidade papal, que foi um das maiores graças da minha vida, porque eu via em torno de mim muitas discussões a respeito.  
Minha família era muito unida, mas nela se discutia muito política, e religião também. E havia alguns que eram católicos e monarquistas, enquanto outros eram ateus e republicanos. E formavam-se discussões. Eram até inteligentes, eles discutiam bem de um lado e do outro. Os republicanos naturalmente não tinham razão, mas também diziam alguma coisa, alguns argumentozinhos que era preciso saber destruir. 
Mas eu notava também que as pessoas mais velhas que me rodeavam, e que eu respeitava naquele tempo profundamente, estavam em desacordo sobre um mundo de outras opiniões. [...]  

E eu, menino ainda, ouvia as discussões e pensava o seguinte: Aqui estão umas pessoas que são razoavelmente inteligentes. Também são razoavelmente instruídas, e estão em desacordo uns com os outros em quase tudo, mas elas mesmas estão vendo que os homens razoavelmente instruídos e inteligentes, caem facilmente em erro. Porque, do contrário, não pode ser que eles tivessem tanto desacordo. Onde há muito desacordo, um dos lados está errado. E se um dos lados está errado, havendo muitas teses opostas, há muitos erros, e se houver muitos erros, há muita gente errada. Onde é que vai parar isso? É natural que eles errem. Eu vejo que está na natureza deles errar. Mas sinto que, quando eu ficar adulto, vou errar também. Se todo o mundo erra, do que adianta raciocinar? 

O que está dito é flagrantemente verdadeiro. E eu pensava: “Não sei que confiança vou ter no meu raciocínio quando for adulto, que bagunça pode dar isso, onde é que isso pode me levar”.  

E nessas considerações eu ficava assim imerso na ideia de que no fundo não vale a pena pensar, porque se em cada dez ideias que a gente tenha pelo menos uma está errada, é mais ou menos como um homem que sabe que em cada dez passos que ele der na caminhada, ele cai uma vez no chão. Então mais vale a pena não andar. Está acabado! Para quê? Para me escangalhar na estrada? Não convém. 

Assim, quando entrou na preparação para a Primeira Comunhão a tese da infalibilidade papal, eu tive um entusiasmo extraordinário. Mas é difícil calcularem o interesse e o entusiasmo que eu tive pela infalibilidade papal. Eu pensei: “Essa é a solução, tem de haver um que é infalível. Se eu errar — e sei de antemão que em vários pontos eu vou errar —, que confiança eu posso ter em mim mesmo? Ah, se eu pudesse me apoiar em um homem que não errasse!”. 
De repente aparece a solução [o dogma da infalibilidade]. Não é um homem que não erra, é um Pastor dos pastores, instituído por Nosso Senhor Jesus Cristo [vira a fita, perdendo-se algumas palavras] É [a Igreja Católica] a única religião que sustenta a infalibilidade. Para saber se essa é a religião de Deus não precisa mais nada! [...]  

Em tudo que eu penso, a minha preocupação essencial é: “O que pensará a Santa Sé? Existem documentos dos Papas dizendo isto?” Porque se existir, aí eu tomo uma firmeza que não tenho em nenhuma opinião minha puramente pessoal. Mas sei que se me apoiar na doutrina infalível dos representantes de Cristo na Terra, não tem perigo de errar. Posso avançar, porque não errarei. [...]  

Graças a Deus, sou um homem que tenho muita convicção do que digo. Na realidade, isto é assim porque eu creio na infalibilidade papal. É o fundamento de tudo. O que me deu muita segurança e muito agradecimento e admiração a Nosso Senhor porque Ele excogitou uma Igreja assim. 
Depois a ideia [na Primeira Comunhão] de que era o próprio Homem-Deus que eu iria receber. Seu Corpo, Sangue, Alma e divindade iriam habitar dentro de mim por certo espaço de tempo. Isso me deixava entusiasmadíssimo! Por outro lado, Dona Lucilia tomava muito cuidado com uma porção de coisas. Em primeiro lugar o seguinte:  

Naquele tempo, para realçar a importância da comunhão, o Papa São Pio X [foto ao lado] tinha querido que todas as famílias — naturalmente cada uma na medida do que pudesse — celebrasse a festa da Primeira Comunhão com alguma coisa que chamasse a atenção das crianças. E o que o costume estabeleceu — não sei se hoje ainda é assim — é que o dia da Primeira Comunhão fosse um dia de festa em casa. Nesse dia as crianças não estudavam, não trabalhavam, ficavam apenas em casa rezando ou fazendo algum giro a pé, alguma outra coisa, mas por pouco tempo. Elas deveriam ficar a maior parte do tempo recolhidas e pensando.  

Em segundo lugar, no dia da Primeira Comunhão, para manter nas crianças o respeito [à Sagrada Eucaristia], os meninos e as meninas deveriam usar uma roupa especial. E essa roupa devia evocar virgindade. Quando ainda crianças, se pode esperar que fossem virgens.  

Assim, a menina se apresentava para a Primeira Comunhão com vestido igual ao de noiva, que simboliza a virgindade. E na cabeça uma grinalda de flores, em geral bonitas. [...] 

Para os meninos era uma roupa — ao menos aqui em São Paulo — copiada do traje oficial de um dos maiores colégios de meninos da
Inglaterra, o Eton College [foto ao lado]. A Inglaterra sempre foi muito cuidadosa e muito bem sucedida no que diz respeito aos trajes. Todos comungavam com essa roupa — que era em ponto pequeno a roupa de um homem adulto, com colarinho duro, gravata muito bonita, colete, sapatos de verniz e uma fita de seda com uns pingentes de ouro no braço — para dar a entender que aquele menino era casto e se alegrava de ser casto.  

Esse traje me impressionou muito e gostei muito usá-lo, porque era muito tradicional e, ao mesmo tempo, muito católico. Essa manifestação de castidade me alegrou muito. Usando essa roupa no dia da Primeira Comunhão, senti-me muito elevado, dignificado em receber Nosso Senhor com esse traje. 

Na véspera do dia da Primeira Comunhão eu tive um sonho [...]. Sonhei em ver um bolo — a minha fantasia estava toda tomada com a ideia dos bolos e dos doces na festa do dia seguinte — e, em certo momento, o bolo se abria e aparecia dentro Nosso Senhor Jesus Cristo pisando sobre um globo e com os braços abertos [...]. Era muito estranho, porque não é adequado Nosso Senhor aparecer num bolo. Enfim, era um sonho que não deixava de me produzir certa emoção. 

Assim foi dia da Primeira Comunhão, que recebi com recolhimento, com muito desejo de que fosse uma comunhão perfeita, mas eu achava que seria natural que essa comunhão fosse para mim um momento de muito enlevo e me sentisse profundamente tocado. Pelo contrário, Nossa Senhora obteve de Nosso Senhor que fosse um momento de aridez. [...] Mas rezei atentamente e creio que Ele, pela intercessão de Nossa Senhora, teve pena de mim, porque essa aridez não me fez mal algum, pelo contrário, eu lucrei, e dias depois a minha vida espiritual tinha retomado seu curso.

1 de outubro de 2017

Santa Teresinha do Menino Jesus

Gravemente enferma, Santa Teresinha em seu leito, colocado no claustro do Carmelo de Lisieux, aproximadamente um mês antes de seu falecimento

Neste dia 1º de outubro a Santa Igreja celebra a festa de Santa Teresinha do Menino Jesus, falecida no dia 30 de setembro de 1897. Portanto, há exatos 120 anos — 120 anos de visão beatífica no Céu!(*) 

Em sua memória, segue trecho de um brilhante artigo de Plinio Corrêa de Oliveira, publicado em 1947 (*), ano em que se comemorou o cinquentenário de falecimento da monumental Santa. O autor disse que tal artigo foi redigido por “alguém que muito e muito lhe deve [a Santa Teresinha] procurará saldar com respeitoso amor parte desta dívida, fazendo como que um comentário doutrinário à sua vida”.



O sentido mais profundo da heróica vocação de Santa Teresinha 

Plinio Corrêa de Oliveira


“Há no jardim da Igreja almas que Deus chama à vida contemplativa. Em conventos reclusos, certas almas de escol se dedicam especialmente a amar a Deus e a expiar pelos pecados dos homens. Estas almas corajosamente pedem a Deus que lhes mande todas as provações que quiser, desde que com isso se salvem numerosos pecadores. 

Deus as flagela sem cessar, de um modo ou de outro, colhendo delas a flor da piedade e do sofrimento, para com estes méritos salvar novas almas. Consagrar-se à vocação de vítima expiatória pelos pecadores, nada há de mais admirável. E isto tanto mais quanto muitos há que trabalham, muitos que rezam, mas quem tem a coragem de expiar? 

Este é o sentido mais profundo da vocação dos Trapistas, Franciscanas e Dominicanas, e também das Carmelitas entre as quais floriu a suave e heróica Teresinha. 


Seu método foi especial. Praticando a conformidade plena com a vontade de Deus, ela não pediu sofrimentos, nem os recusou. Deus fizesse dela o que entendesse. 

Santa Teresinha esmerou-se nesse tipo de mortificação: fazer a toda hora, a todo instante, mil pequenos sacrifícios. Jamais a vontade própria; jamais o cômodo, o deleitável; sempre o contrário do que os sentidos pediam. E cada um desses pequenos sacrifícios era uma pequena moeda no tesouro da Igreja. Moeda pequena, sim, mas de ouro de lei: o valor de cada pequeno ato consistia no amor de Deus com que era feito.


E que amor cheio de méritos! Santa Teresinha não tinha visões, nem mesmo os movimentos sensíveis e naturais que tornam por vezes tão amena a piedade. Aridez interior absoluta, amor árido, mas admiravelmente ardente, da vontade dirigida pela Fé, aderindo firme e heroicamente a Deus na atonia involuntária e irremediável da sensibilidade. Amor árido e eficaz, sinônimo, em vida de piedade, de amor perfeito… 

Grande caminho, caminho simples. Não é simples fazer pequenos sacrifícios? Não é mais simples não ter visões do que as ter? Não é mais simples aceitar os sacrifícios em lugar de os pedir? 

Caminho simples, caminho para todos. A missão de Santa Teresinha foi de nos mostrar uma vida em que pudéssemos todos trilhar. Oxalá ela nos auxilie a percorrer esta estrada real, que levará aos altares não apenas uma ou outra alma, mas legiões inteiras”. 

____________

(*) Segundo o “Novo Catecismo” (item 1023): “Os que morrem na graça e na amizade de Deus e estão perfeitamente purificados, viverão para sempre com Cristo. Serão para sempre semelhantes a Deus, porque O verão ‘tal como Ele é’ (1 Jo 3,2), ‘face a face’ (1 Cor 13,12)”

(**) Fonte: “Legionário” de 29-9-1947. Aqueles que desejarem ler a íntegra deste artigo, podem fazê-lo acessando o link: 

12 de maio de 2017

CENTENÁRIO DE FÁTIMA — Na Cova da Iria, a Rainha do Céu adverte a humanidade e anuncia o seu Reinado na Terra


Revista Catolicismo, 797, Maio/2017

“Na confusão da Terra, abriram-se os Céus e a Virgem apareceu em Fátima para dizer aos homens a verdade. Verdade austera, de admoestação e penitência, mas verdade rica em promessas de salvação. O milagre de Fátima se repetiu [...] para atestar que as ameaças de Deus continuam a pairar sobre os homens, mas que a proteção da Virgem jamais abandonará a Igreja e seus verdadeiros filhos”.1


Fátima — evocativo nome que lembra bênçãos, graças, esperanças, misericórdias, mas também castigos. Nome que ecoa pelo mundo há exatos 100 anos, quando Deus enviou à Terra sua própria Mãe como embaixadora para alertar os homens.
Fátima — basta alguém pronunciar este abençoado nome para que católicos (e até mesmo não católicos) de todo o orbe sintam um toque sobrenatural no coração, saudades da inocência primaveril da vida espiritual, um chamado a abrir suas almas à graça divina.
Fátima — palavra sacrossanta que simplesmente pronunciada evoca lembranças de conversões, de prêmios e punições regeneradoras anunciadas pela Rainha do Céu, que também será Rainha efetiva na Terra, sobretudo quando for implantado o Reinado de seu sapiencial, maternal e imaculado coração.
Fátima — palavra que adquire sonoridade especial neste centenário das aparições de Nossa Senhora a Lúcia, Jacinta e Francisco. Sonoridade sacral como a do mais famoso verso cantado em todas as línguas:
A treze de maio na Cova da Iria
No Céu aparece a Virgem Maria!

*       *       *
Como é mundialmente reconhecido, o maior propagador da mensagem de Nossa Senhora de Fátima no século passado foi o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira (1908–1995), principal colaborador de Catolicismo. Assim, se ainda estivesse entre nós, a ele recorreríamos para pedir-lhe uma matéria exclusiva e/ou entrevista para publicarmos neste centenário das aparições da “Senhora mais brilhante que o sol” aos três pastorzinhos nos idos de 1917.
Não sendo isso possível, compulsamos no vastíssimo acervo intelectual que ele nos legou — conferências, artigos, entrevistas e livros — alguns textos sobre Fátima, e encontramos matéria abundante. As análises desse grande pensador e líder católico, que desde muito jovem procurou investigar tudo que fosse concernente a Fátima, parecem até mais atuais do que naqueles dias das aparições aos pequenos pastores de Aljustrel, nas quais a Santíssima Virgem anunciava ao mundo os terríveis castigos e as grandes recompensas e conversões caso os homens atendessem a seus pedidos.
Assim, o Prof. Plinio dedicou-se a essa extraordinária divulgação — inicialmente nas páginas do “Legionário”, então órgão oficioso da Arquidiocese de São Paulo, do qual era diretor, e a partir de 1951 através do “Grupo de Catolicismo” —, a qual atingiu maior expansão com o nascimento da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP), por ele fundada em 1960. Sociedades coirmãs e autônomas foram se sucedendo em vários países, nos quais também se incumbiam de propagar a Mensagem de Fátima. 

O triunfo do Imaculado Coração de Maria, o que pode ser?

Imagem de Nossa Senhora de
Fátima com o
Imaculado Coração no peito
Vitória que será total e completa quando se efetivar o Reinado do Imaculado Coração de Maria — o ressurgimento revigorado e maravilhoso de uma civilização autenticamente católica, toda voltada para Nosso Senhor Jesus Cristo e sua Santíssima Mãe. Uma civilização “austera e hierárquica, fundamentalmente sacral, anti-igualitária e antiliberal”.2 Essa vitória total e completa, quando se dará? O futuro só a Deus pertence, mas uma das grandes certezas de Plinio Corrêa de Oliveira sempre foi essa vitória da Contra-Revolução3 e o triunfo da Santa Mãe de Deus com o advento do Reino de Maria.
Ao reproduzir aqui os trechos mais elucidativos do líder da Contra-Revolução sobre Fátima, Catolicismo não deseja senão continuar nos passos de seu principal colaborador, que orientou nossa revista a expandir ao máximo as advertências e as promessas de Nossa Senhora na Cova da Iria.
Em uma matéria redigida para Catolicismo, ele indagava: “O triunfo do Imaculado Coração de Maria, o que pode ser, senão o reinado da Santíssima Virgem, previsto por São Luís Maria Grignion de Montfort? E esse reinado, o que pode ser, senão aquela era de virtude em que a humanidade, reconciliada com Deus, no regaço da Igreja, viverá na Terra segundo a Lei, preparando-se para as glórias do Céu?”4
Esse restabelecimento da ordem católica no mundo, segundo a concepção desse grande santo e missionário francês (1673-1716), é o modo mais adequado para a instauração na Terra do Reinado de Nosso Senhor Jesus Cristo:
“Quando virá este tempo feliz em que Maria será estabelecida Senhora e Soberana nos corações, para submetê-los plenamente ao império de seu grande e único Jesus? Quando chegará o dia em que as almas respirarão Maria, como o corpo respira o ar? Então, coisas maravilhosas acontecerão neste mundo, onde o Espírito Santo, encontrando sua querida Esposa como que reproduzida nas almas, a elas descerá abundantemente enchendo-as de seus dons, particularmente do dom da sabedoria, a fim de operar maravilhas da graça. Meu caro irmão, quando chegará esse tempo feliz, esse século de Maria, em que inúmeras almas escolhidas, perdendo-se no abismo de seu interior, se tornarão cópias vivas de Maria, para amar e glorificar Jesus Cristo? Esse tempo só chegará quando se conhecer e praticar a devoção que ensino, Ut adveniat regnum tuum, adveniat regnum Mariae” (Que venha o Reino de Maria, para que assim venha o vosso Reino — ou seja, o Reino de Jesus Cristo).5

Condições para a plena e autêntica conversão da humanidade

“A Rússia espalhará seus erros pelo mundo”…
Soldados do exército russo no desfile
comemorativo da data da Revolução Comunista
Mas, para que tal triunfo da Cristandade fosse possível, Nossa Senhora pediu em Fátima a Consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria, além de oração, penitência, conversão dos homens e a difusão da devoção à Comunhão Reparadora nos primeiros sábados do mês.
Notamos em nossos dias uma humanidade convertida? — O que vemos é precisamente o contrário: a fuga de qualquer penitência e conversão; a busca desenfreada de uma vida uma “vida deliciosa” e hedonista, oposta aos preceitos divinos, cheia dos deleites pecaminosos da sensualidade, sendo poucos aqueles que desejam se sacrificar e lutar em prol da Santa Igreja Católica Apostólica Romana.
Notamos que a prática de “Comunhão Reparadora” se estendeu pelo mundo inteiro? — Infelizmente, também não! Essa devoção foi negligenciada por boa parte do clero, sobretudo por aqueles eclesiásticos da chamada “Igreja progressista”, atados às ideias da “Teologia da Libertação”. A tal respeito, em sua primeira carta dirigida ao Papa Pio XII, em 1940, a Irmã Lúcia escreveu:
“Pediu [Nossa Senhora] se propagasse no mundo a Comunhão Reparadora nos primeiros Sábados de cinco meses seguidos, fazendo com o mesmo fim uma confissão, um quarto de hora de meditação sobre os mistérios do Rosário e rezando um terço com o fim de reparar os ultrajes, sacrilégios e indiferenças cometidos contra o seu Imaculado Coração. Às pessoas que praticarem esta devoção, promete a Nossa boa Mãe do Céu, assistir na hora da morte com todas as graças necessárias para se salvarem”.6
 
“Procissão das Velas” realizada em Fátima, no dia 12 de maio de 2016, na Cova da Iria
onde Nossa Senhora apareceu aos Três Pastorzinhos em 1917 (Foto: Michael Gorre).

“O acontecimento mais importante e mais empolgante do Século XX”

Fátima é sem dúvida uma das mais importantes mensagens marianas de toda a História da Igreja. Conforme o engenheiro Antonio Augusto Borelli Machado, fatimólogo de renome internacional e autor do best-seller As aparições e a mensagem de Fátima conforme os manuscritos da Irmã Lúcia — publicado em primeira mão por Catolicismo em maio de 1967 e que já ultrapassou os cinco milhões de exemplares em 20 línguas e 30 países —, “pode-se afirmar categoricamente e sem o menor receio de contradita, que as aparições de Nossa Senhora de Fátima e do Anjo da Paz em Fátima constituem o acontecimento mais importante e mais empolgante do Século XX”.7
Talvez nossos leitores mais recentes ainda não tenham tomado conhecimento dessa obra, que julgamos fundamental para se ter uma ideia de conjunto de todas as aparições da Senhora de Fátima aos três pastorzinhos. Neste caso, recomendamos vivamente sua aquisição, que pode ser feita através do site da Livraria Petrus.8 Deste mesmo conceituado especialista na temática relativa às mensagens de Fátima recomendamos ainda a leitura de sua entrevista sobre os famosos “segredos de Fátima”, publicada em nossa edição de novembro último.

“Era uma Senhora vestida toda de branco, mais brilhante que o sol”

Em Valinhos, local da aparição de Nossa Senhora 
em 19-8-1917. A única aparição que não ocorreu
nos dias 13 na Cova da Iria. Isto porque, 

no dia 13 de agosto, os três pastorinhos tinham 
sido levados à força para serem interrogados pelo 
administrador de Ourém. [Foto Frederico Viotti]
Para se compreender melhor alguns pontos essenciais da sacrossanta mensagem, vamos rememorar, contextualizar e analisar aqui mais detidamente apenas a terceira aparição (13 de julho de 1917), porquanto uma análise de todas as aparições comportaria um volumoso livro. Contudo, convém antes deixar consignado sinteticamente o seguinte: Nossa Senhora apareceu seis vezes aos três pastorzinhos (entre 13 de maio e 13 de outubro de 1917) na aldeiazinha portuguesa de Aljustrel, na região de Fátima, enquanto eles cuidavam de algumas ovelhas na Cova da Iria. Portanto, essas seis aparições ocorreram ainda em meio à primeira conflagração mundial (1914–1918).
Entre outras sublimes e apocalípticas palavras, a Santíssima Virgem lhes disse: “Vim para vos pedir que venhais aqui seis meses seguidos, no dia 13, a esta mesma hora. Depois vos direi quem sou e o que quero. Depois voltarei ainda aqui uma sétima vez. [...] Rezem o terço todos os dias, para alcançarem a paz para o mundo e o fim da guerra”.9
Assim Lúcia descreveu essa primeira aparição: “E começamos a descer a encosta, tocando as ovelhas em direcção à estrada. Ao chegar, mais ou menos a meio da encosta, quase junto duma azinheira grande que aí havia, vimos outro relâmpago e, dados alguns passos mais adiante, vimos, sobre uma carrasqueira, uma Senhora, vestida toda de branco, mais brilhante que o Sol, espargindo luz, mais clara e intensa que um copo de cristal, cheio d’água cristalina, atravessado pelos raios do sol mais ardente. Parámos surpreendidos pela aparição. Estávamos tão perto, que ficávamos dentro da luz que A cercava ou que Ela espargia, talvez a metro e meio de distância, mais ou menos”.10
 
Lúcia dos Santos (aos dez anos de idade) e seus dois primos: Francisco Marto (de nove anos) e Jacinta Marto (de sete anos).

Algumas profecias de Fátima já realizadas, e outras ainda não

Na já citada terceira aparição, Nossa Senhora — após ter mostrado o inferno a Lúcia, Jacinta e Francisco [vide quadro no final, denominado LÚCIA DESCREVE A VISÃO DO INFERNO] — prevê o fim da Primeira Grande Guerra e a ameaça de outra hecatombe: “A guerra vai acabar. Mas se não deixarem [os homens] de ofender a Deus, no reinado de Pio XI começará outra pior.11 Quando virdes uma noite alumiada por uma luz desconhecida, sabei que é o grande sinal que Deus vos dá de que vai a punir o mundo de seus crimes, por meio da guerra e de perseguições à Igreja e ao Santo Padre.
“Para a impedir, virei pedir a consagração da Rússia a Meu Imaculado Coração e a Comunhão reparadora nos primeiros sábados. Se atenderem a Meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja. Os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas. Por fim, o Meu Imaculado Coração triunfará”.12

“Para a impedir [uma nova guerra mundial], virei pedir a consagração da Rússia a Meu Imaculado Coração e a Comunhão reparadora nos primeiros sábados. Se atenderem a Meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja. Os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas. Por fim, o Meu Imaculado Coração triunfará”.


Ouvindo a celestial voz de Fátima, não endureçamos nossos corações

Quando a primeira conflagração mundial parecia chegar a seu desfecho, e nos bastidores políticos já se confabulava a configuração que o mundo teria na nova era pós-guerra, Plinio Corrêa de Oliveira analisou o acontecimento nas páginas do “Legionário”, de onde extraímos os seguintes trechos:
“Quando começavam a delinear-se apenas, timidamente, as primeiras linhas desse mundo novo, verificou-se um dos fatos mais consideráveis da História contemporânea. Em nosso mundo são muitos os céticos que não acreditam nesse fato. Os que não são céticos são tímidos, e não ousam proclamar os fatos em que acreditam. Uns por falta de Fé, outros por falta de coragem, não ousam incorporar à História contemporânea esse acontecimento. Mas os mais graves motivos sobre que a inteligência humana pode basear-se aí estão patentes, a atestar que Nossa Senhora baixou dos Céus à Terra, e que manifestou a três pequenos pastores de um recanto ignorado e perdido do pequeno Portugal, as condições verdadeiras, os fundamentos indispensáveis para a reorganização do mundo. Ouvida essa mensagem, a humanidade encontraria verdadeiramente a paz. Negada, ignorada essa mensagem, a paz seria falsa e o mundo imergiria em nova guerra. A guerra veio. A guerra aí está. Cogita-se agora de reorganizar novamente o mundo. Nenhum momento é mais oportuno do que este, para recordar a aparição de Nossa Senhora em Fátima. […]
“Antes de tudo, notemos que ela é absolutamente ortodoxa. Não é fácil inventar uma mensagem ortodoxa. Muito figurão ‘católico’ que serve para discursos de inauguração, de luto, etc. etc. etc., toma um cuidado tremendo para não preparar um discurso que cheire a heresia... e solta duas ou três heresias em seu discurso. Ora, todas, absolutamente todas as palavras da Senhora aos pequenos pastores são de uma ortodoxia absoluta. Tratando temas complexíssimos, Ela nem uma só vez erra em doutrina. Positivamente, isto não poderia ser invenção de pequenos pastores.
Desfile da vitória nas ruas de Londres, comemorando
o triunfo sobre o nazismo e o fim da Segunda Guerra Mundial
“Mas há mais. A mensagem da Senhora, que sobreveio precisamente no momento crucial em que se preparava o pós-guerra, desprezando as manifestações aparatosas de falso patriotismo e de cientificismo dos ‘técnicos’, colocou com grande simplicidade todas as coisas em seus termos únicos e fundamentais. A guerra fora um castigo do mundo, por sua impiedade, pela impureza de seus costumes, por seu hábito de transgredir os domingos e dias santos. Isto resolvido, todos os assuntos se resolveriam por si. Isto não resolvido, todas as soluções nada resolveriam... E se o mundo não ouvisse a voz da Senhora, se ele não respeitasse esses princípios, nova conflagração viria, precedida de fenômeno celeste extraordinário. E essa conflagração seria muito mais terrível que a primeira.
Foto de uma senhora fazendo peregrinação
de joelhos no local das aparições.
Oração, sacrifício e reparação — atos que comprazem
a Deus e à sua Mãe Santíssima
.
“Reuniram-se os técnicos — que são hoje os reis da Terra, juntamente com os banqueiros — et convenerunt in unum adversus Dominus. Construíram uma paz sem Cristo, uma paz contra Cristo. O mundo se afundou ainda mais no pecado, a despeito da mensagem de Nossa Senhora. Em Fátima, os milagres se multiplicavam às dezenas, às centenas, aos milhares. Ali estavam eles, acessíveis a todos, podendo ser examinados por todos os médicos de qualquer raça ou religião. As conversões já não tinham número. E, tudo isto não obstante, ninguém dava ouvidos a Fátima. Uns duvidavam sem quererem estudar. Outros negavam sem examinar. Outros criam mas não tinham coragem de o dizer. A voz da Senhora não se ouviu. Passaram-se mais de 20 anos. Um belo dia, sinais estranhos se viram no Céu... era uma aurora boreal, noticiada por todas as agências telegráficas da Terra. Do fundo de seu convento, Lúcia escreveu a seu Bispo: era o sinal, e dentro em breve a guerra viria. A guerra veio dentro em breve. Ela está aí e hoje se cuida novamente de ‘reorganizar o mundo’, aos últimos clarões desta luta potencialmente já vencida.
Si vocem ejus hodie audieritis, nolite obdurare corda vestra (‘Se hoje ouvirdes Sua voz, não endureçais vossos corações’), diz a Escritura. Inscrevendo a festa de Nossa Senhora de Fátima no rol das celebrações litúrgicas, a Santa Igreja proclama a perenidade da mensagem de Nossa Senhora dada ao mundo através dos pequenos pastores. No dia de sua festa, mais uma vez a voz de Fátima chegou a nós: não endureçamos nossos corações, porque só assim teremos achado o caminho da paz verdadeira”.13
 
Inscrevendo a festa de Nossa Senhora de Fátima no rol das celebrações litúrgicas,
a Santa Igreja proclama a perenidade da mensagem de Nossa Senhora dada ao mundo
através dos pequenos pastores.

Desabamento do czarismo, implantação do comunismo na Rússia


Nicolau II, Czar russo, abençoa as tropas
Devido ao não atendimento do maternal pedido de Nossa Senhora, comunicado na aparição de Fátima acima referida, explode alguns meses depois a Revolução Comunista na Rússia, também 100 anos atrás. Comenta o Prof. Plinio:
“Em 1917, um novo sopro de espírito revolucionário varreu a Europa. Deu-se o imenso estrondo do desabamento do czarismo, e se implantou o comunismo na Rússia. Toda a vida intelectual e social se seccionou ainda mais do passado. No Ocidente, a hegemonia se deslocava cada vez mais da Europa tradicional para os Estados Unidos niveladores”.14
 
A família imperial russa, pouco antes do levantamento comunista que acabou
no sacrifício violento de todos os seus membros

Fator que “contribui para dar à Mensagem um peso extraordinário”

Lenine arenga os bolcheviques que derrubaram
o Czar e implantaram o comunismo na Rússia
Na linha da previsão da Senhora de Fátima a respeito “dos erros da Rússia” (questão que, em julho de 1917, fora de difícil compreensão, uma vez que a Revolução Comunista ainda não havia eclodido), Plinio Corrêa de Oliveira escreveu, em maio de 1962, um artigo para a revista “Cruzado Espanhol”, de Barcelona:
“Perto de meio século depois de anunciado por Nossa Senhora — caso seus pedidos não fossem atendidos e o mundo não fizesse penitência a Rússia espalharia seus erros por toda a parte — é forçoso reconhecer que os homens não fizeram penitência, e de fato o mundo inteiro está convulsionado pela ação dos erros que a Rússia está espalhando por toda a parte [...]
“Há uma circunstância que torna particularmente digna de nota essa profecia. É que ela foi anunciada aos pastorzinhos de Fátima por Nossa Senhora em 13 de julho de 1917. Ora, nessa data, a própria Rússia ainda não se fizera comunista, pois a revolução irrompeu a 7 de novembro desse mesmo ano. Isto é, nem ela mesma abraçara os erros dos quais, segundo a revelação de Nossa Senhora, se faria propagadora mundial. Aquilo que a três pequenos pastores analfabetos havia sido anunciado como certo, inúmeros estadistas europeus, americanos ou asiáticos nem de longe o previam.
“Este particular muito contribui para dar à Mensagem de Fátima um peso extraordinário”.
 
A profecia anunciada por Nossa Senhora aos pastorzinhos, tem de insólito que nessa data
a própria Rússia ainda não se tornara comunista, pois a revolução bolchevique irrompeu
no dia 7 de novembro, quase três meses depois.

Cumprida a previsão da hecatombe mundial pior que a primeira

Ainda na revelação acima mencionada (do dia 13 de julho), na qual a Santíssima Virgem alertou que “[se os homens] não deixarem de ofender a Deus, no reinado de Pio XI começará outra [guerra] pior”, pairavam um pedido e uma ameaça: se seu pedido não fosse atendido, viria uma guerra ainda pior. A humanidade ficou surda à celestial voz de Fátima, e a hecatombe eclodiu, envolvendo o mundo inteiro. [vide quadro no final, denominado FÁTIMA — EXPLICAÇÃO E REMÉDIO DA CRISE CONTEMPORÂNEA].
Em março de 1938, a Alemanha nazista anexou a Áustria e, em seguida, o território sudeto. Discernindo os acontecimentos, o Prof. Plinio fez um prognóstico num artigo publicado no “Legionário”: “A guerra é uma questão de dias, ou de meses, mas fatalmente explodirá”.15
Ela não tardou. Em 1º de setembro do ano seguinte, o Führer alemão ordenou a invasão da Polônia. A Grã-Bretanha e a França declararam guerra ao invasor nazista. Iniciou-se a Segunda Grande Guerra. Os Estados Unidos somente entrariam no conflito em 1941, após o bombardeio lançado pelos japoneses contra a base naval norte-americana de Pearl Harbor, no Pacífico.
Após seis anos de conflito, resultou um mapa mundial completamente mudado, fracionado em dois blocos: a URSS, que graças ao Tratado de Yalta abocanhou vários países, especialmente do Leste europeu, escravizando-os, escravizando-os, segregando-os do Mundo Livre e separando-os com uma “Cortina de Ferro”, segundo a feliz expressão de Churchill; e o mundo não comunista, sob a liderança dos Estados Unidos.

Erros espalhados pelo mundo e “fumaça de Satanás” na Igreja

Participantes do Concílio Vaticano II,
na Basílica de São Pedro, em Roma
Quase todas as previsões da Santa Mãe de Deus na terceira aparição de Fátima se cumpriram: o término da Primeira Grande Guerra um ano depois; a Rússia espalhou intensamente seus erros pelo mundo inteiro; a mencionada perseguição à Igreja e aos bons, ora cruenta, ora moral, é um fato doloroso e cotidiano — basta recordar as invasões e investidas islâmicas no mundo inteiro; os católicos sendo martirizados em diversos países; no Ocidente, leis ímpias contrárias à Lei Deus e à Lei Natural destroem a instituição familiar (divórcio, controle artificial da natalidade, aborto, eutanásia, Ideologia de Gênero, “casamento” homossexual e adoção de crianças por esses “casais” etc.); os verdadeiros fiéis enfrentam o martírio de alma devido à imoralidade galopante e à sociedade cada vez mais distanciada dos preceitos divinos; o processo de “autodemolição da Igreja” registrado por Paulo VI após o Concílio Vaticano II, quando afirmou: “Por alguma fissura a fumaça de Satanás entrou no templo de Deus”.16 Constatamos assim um panorama assustador, na Igreja e no mundo.

Perecimento de tradições, naufrágio da História e restauração da civilização

Êxodo de multidões na Síria. Cresceu nos últimos anos
na Europa uma perigosa situação: um número extraordinário de
refugiados desestabilizou a maior parte dos países que a compõem
.
Em artigo para a “Folha de S. Paulo”, o Prof. Plinio sintetiza assim as sequelas deixadas pela Segunda Guerra Mundial:
“Para não alongar por demais as coisas, consideremos só as décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial. Incontáveis mudanças se têm produzido, nesse período, no modo de pensar, de sentir, de viver e de agir dos homens. Consideradas essas mudanças em seu todo — e descontadas as exceções — é inegável que elas rumam para uma situação violentamente oposta a todas as tradições espirituais e culturais que recebemos. Essas tradições ainda estão vivas, mas a todo momento alguma modificação as debilita. Logicamente, se ninguém se levantar em favor delas, acabarão por perecer. Ora, o perecimento dessas tradições importa, a meu ver, no maior naufrágio da História”.17 [vide quadro no final, denominado  FÁTIMA, NUMA VISÃO DE CONJUNTO].
Londres foi surpreendida por um violento
atentado jihadista nas portas do Parlamento
Nesse “naufrágio”, a humanidade perece e os que desejam a salvação necessitam de um farol que lhes ilumine o caminho e indique o “porto seguro”, o rumo desejado por Deus para suas vidas. É caso de todos nós. Mas onde encontrar esse “farol”, no qual podemos olhar com confiança e seguir com toda certeza? — Claro que em Deus. Mas Ele, que nunca abandona seus filhos, enviou-nos sua própria Mãe, para nos orientar, alertar, preservar do pecado e indicar o rumo certo. As proféticas revelações de Fátima constituem esse sacrossanto “farol” para nos iluminar neste mundo tão afastado dos divinos ensinamentos.
“Farol” que é um verdadeiro luzeiro também para nos conduzir no período dos terríveis castigos de proporções universais anunciados pela “Senhora mais brilhante que o Sol” os quais desabarão sobre o mundo contemporâneo porque a humanidade pecadora não atendeu seus pedidos e não se converteu.

“Várias nações serão aniquiladas. Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará!”

Na revelação acima citada, Nossa Senhora prognostica que “várias nações serão aniquiladas”...
         Neste ano em que se comemora o centenário de Fátima, o noticiário geral vem nos informando acerca de acontecimentos trágicos que fazem temer a eclosão de uma grande guerra. Muitos intuem até a iminência de uma terceira guerra mundial. Aproxima-se a grande punição anunciada por Ela em 1917?
É algo cujo conhecimento só a Deus pertence. Em qualquer caso, fundados nas revelações de Fátima e com nossos olhos sempre voltados para a Rainha dos Anjos e dos homens, poderemos atravessar as catástrofes e chegar regenerados à bendita época do Reino do seu Imaculado Coração, de cuja plena glorificação — queira Deus — possamos participar em um mundo todo consagrado a Ela! 

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Notas:
1. Catolicismo, janeiro/1952. A íntegra desse artigo, assim como dos demais aqui reproduzidos apenas parcialmente, encontra-se disponível no site http://www.pliniocorreadeoliveira.info
2. Revolução e Contra-Revolução, Artpress, S. Paulo, 4a. edição em português, 1998, Parte II, Cap. II, 1, p. 93.
3. Revolução é o processo quatro vezes secular que vem desagregando a civilização cristã; Contra-Revolução é o movimento que visa restaurar essa mesma civilização. Ambos os termos são empregados nesta matéria conforme exposto na obra Revolução e Contra-Revolução — publicada em primeira mão por Catolicismo, Abril/1959 —, disponível no site: http://www.pliniocorreadeoliveira.info
4. Catolicismo, dezembro/1957.
5. Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem, São Luís Maria Grignion de Montfort, Editora Vozes, Petrópolis, 1961, VI ed., pp. 210-211.
6. Um caminho sob o olhar de Maria – Biografia da Irmã Lúcia Maria de Jesus e do Coração Imaculado, Carmelo de Coimbra, Edições Carmelo, Coimbra, 2013, p. 248.
7. Antonio Augusto Borelli Machado, As aparições e a mensagem de Fátima conforme os manuscritos da Irmã Lúcia, Editora Vera Cruz Ltda., 46ª edição, São Paulo, 1997, 3a. capa.
9. Um caminho sob o olhar de Maria – Biografia da Irmã Lúcia Maria de Jesus e do Coração Imaculado, Carmelo de Coimbra, Edições Carmelo, Coimbra, 2013, pp. 50-51.
10. Id., Ib. p. 50.
11. Para a Irmã Lúcia não representa maior dificuldade o fato de se entender habitualmente que a guerra começou somente sob o pontificado de Pio XII. Observa ela que a anexação da Áustria, e vários outros acontecimentos políticos no fim do reinado de Pio XI que poderíamos acrescentar, constituem autênticos prolegômenos da conflagração, a qual se configuraria inteiramente como tal algum tempo depois (cfr. Entrevista ao Pe. Iongen, fevereiro de 1946, apud Pe. João M. de Marchi, I.M.C., Era uma Senhora mais brilhante que o sol, Edição do Seminário das Missões de Nossa Senhora de Fátima, Cova da Iria, p. 58.
12. Um caminho sob o olhar de Maria – Biografia da Irmã Lúcia Maria de Jesus e do Coração Imaculado, Carmelo de Coimbra, Edições Carmelo, Coimbra, 2013, pp. 63-64.
13. “Legionário”, 4-5-1944.
14. “Legionário”, 13-5-1945.
15. “Legionário”, 18-9-1938.
16. Insegnamenti di Paolo VI, Alocução de 29 de junho de 1972, Tipografia Poliglota Vaticana, vol. X, pp. 707-709).
17. “Folha de S. Paulo”, 20-3-69 .

Foto dos pastorzinhos tirada logo após a visão do inferno

LÚCIA DESCREVE A VISÃO DO INFERNO


A Santíssima Virgem, a fim de favorecer a conversão dos pecadores empedernidos e evitar assim que afundem nos tormentos eternos, na terceira aparição (13 de julho de 1917) mostrou o inferno aos três confidentes de Fátima. Visão extraordinariamente bem narrada pela Irmã Lúcia.*
           
“Abriu [Nossa Senhora] de novo as mãos, como nos dois meses passados. O reflexo pareceu penetrar a terra e vimos como que um mar de fogo. Mergulhados em esse fogo, os demónios e as almas, como se fossem brasas transparentes e negras ou bronzeadas, com forma humana, que flutuavam no incêndio, levadas pelas chamas que delas mesmas saíam juntamente com nuvens de fumo, caindo para todos os lados, semelhante ao cair das faúlhas em os grandes incêndios, sem peso nem equilíbrio, entre gritos e gemidos de dor e desespero que horrorizava e fazia estremecer de pavor (deveu ser ao deparar-me com esta vista que dei esse ‘ai!’ que dizem ter-me ouvido).
“Os demónios distinguiam-se por formas horríveis e asquerosas de animais espantosos e desconhecidos, mas transparentes como negros carvões em brasa. Assustados e como que a pedir socorro, levantamos a vista para Nossa Senhora que nos disse, com bondade e tristeza:
            “Vistes o inferno, para onde vão as almas dos pobres pecadores; para as salvar, Deus quer estabelecer no mundo a devoção a Meu Imaculado Coração”.
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(*) Um caminho sob o olhar de Maria – Biografia da Irmã Lúcia Maria de Jesus e do Coração Imaculado, Carmelo de Coimbra, Edições Carmelo, Coimbra, 2013, p. 63.



FÁTIMAExplicação e remédio da crise contemporânea

[Excertos]

Plinio Corrêa de Oliveira
Catolicismo, nº 29 - maio de 1953

Os três videntes de Fátima junto
ao arco levantado no local das aparições,
em 13 de outubro de 1917
A Guerra Mundial de 1914-1918 pareceu uma tragédia insuperável. Na realidade, a de 1939-1945 a superou do ponto do vista da duração, da universalidade, da mortandade, e das ruínas que ocasionou. Ela nos deixou a dois passos de uma nova guerra ainda pior sob todos os pontos de vista. Massas humanas têm vivido estes últimos anos no terror dessa perspectiva, cônscias de que um terceiro conflito mundial talvez acarrete o fim de nossa civilização.
O elemento essencial das mensagens do Anjo de Portugal e de Nossa Senhora consiste em abrir os olhos dos homens para a gravidade destes fatos, em lhes ensinar sua explicação à luz dos planos da Providência Divina, e em indicar os meios necessários para evitar a catástrofe. É a própria História de nossa época, e mais do que isto o seu futuro, que nos é ensinado por Nossa Senhora.
O Império Romano do Ocidente se encerrou com uma catástrofe iluminada e analisada pelo gênio de um grande Doutor, que foi Santo Agostinho.
O ocaso da Idade Média foi previsto por um grande profeta que foi São Vicente Ferrer.
A Revolução Francesa, que marca o fim dos Tempos Modernos, foi prevista por outro grande profeta que foi ao mesmo tempo um grande Doutor, São Luís Maria Grignion de Montfort.
Os Tempos Contemporâneos, que parecem na iminência de se encerrar com nova crise, têm um privilégio maior. Veio Nossa Senhora falar aos homens. Santo Agostinho não pôde senão explicar para a posteridade as causas da tragédia que presenciava. São Vicente Ferrer e São Luís Grignion de Montfort procuraram em vão desviar a tormenta: os homens não os quiseram ouvir. Nossa Senhora a um tempo explica os motivos da crise, e indica o seu remédio profetizando a catástrofe caso os homens não a ouçam.
De todo ponto de vista, pela natureza do conteúdo como pela dignidade de quem as fez, as revelações de Fátima sobrepujam pois tudo quanto a Providência tem dito aos homens na iminência das grandes borrascas da História.
Os diversos pontos das revelações relativos a este tema constituem propriamente o elemento essencial das mensagens. O mais, por importante que seja, constitui mero complemento.
Não há uma só aparição em que não se insista sobre um fato: os pecados da humanidade se tornaram de um peso insuportável na balança da justiça divina. Esta a causa recôndita de todas as misérias e desordens contemporâneas. Os pecados atraem a justa cólera de Deus. Os castigos mais terríveis ameaçam pois a humanidade. Para que não sobrevenham, é preciso que os homens se convertam. E para que se convertam é preciso que os bons orem ardentemente pelos pecadores e ofereçam a Deus toda a sorte de sacrifícios expiatórios. 

“Procissão das Velas” junho ao local das principais aparições de Nossa Senhora em 1917. No fundo, a “Capelinha” construída bem no local, na Cova da Iria, em que Ela apareceu aos Três Pastorzinhos (Foto: Michael Gorre).


FÁTIMA, NUMA VISÃO DE CONJUNTO
[Excertos]

Plinio Corrêa de Oliveira
Catolicismo, nº 197 - Maio de 1967

O mundo de hoje se vai dividindo cada vez mais em duas famílias de almas. Uma considera que a humanidade é presa de um feixe de erros e de iniquidades, as quais começaram na esfera religiosa e cultural com o Humanismo, a Renascença e a Pseudo-Reforma protestante. Tais erros se agravaram com o iluminismo e o racionalismo, e culminaram na esfera política com a Revolução Francesa. Do terreno político passaram eles para o campo social e econômico, no século XIX, com o socialismo utópico e com o socialismo dito científico. Com o advento do comunismo na Rússia, toda essa congérie de erros passou a ter um começo de transposição, incipiente mas maciça, para a ordem concreta dos fatos, nascendo daí o império comunista moloch. Ao mesmo tempo, sobretudo a partir da Grande Guerra, a moralidade se pôs a declinar com rapidez espantosa no Ocidente, preparando-o para a capitulação ante o comunismo, o qual é a mais audaciosa expressão doutrinária e institucional da amoralidade.
A concepção histórica contida nessas considerações se encontra exposta no artigo A cruzada do século XX publicado no primeiro número deste órgão. Procuramos dar-lhe um mais amplo desenvolvimento no ensaio Revolução e Contra-Revolução, que Catolicismo estampou em seu nº 100. Por fim, encontra-se ela enunciada com grande elevação e clareza no histórico documento em que duzentos Padres do II Concílio Ecumênico do Vaticano, por iniciativa dos Exmos. Revmos. Srs. D. Antonio de Castro Mayer e D. Geraldo de Proença Sigaud, pediram uma nova condenação do marxismo. Para as incontáveis almas de todos os estados, condições de vida e nações, que condividem este modo de pensar, a mensagem de Fátima é tudo quanto há de mais coerente com a doutrina católica e com a realidade dos fatos.
Há também outra família de almas, para a qual os problemas do mundo contemporâneo pouca ou nenhuma relação têm com a impiedade (considerada enquanto desvio culposo da inteligência) e a imoralidade. Nascem eles exclusivamente de equívocos involuntários, que uma boa difusão doutrinária e um conhecimento objetivo da realidade podem dissipar. Esses equívocos resultam, aliás, de carências econômicas. Filhos da fome, morrerão quando no mundo não houver mais fome. E não morrerão antes disto. Com o auxílio da ciência e da técnica, a crise da humanidade se resolverá. Não só isto. Não havendo como nota tônica das catástrofes e dos perigos em meio aos quais nos debatemos, o fator culpa, a noção de um castigo universal se torna incompreensível. Tanto mais quanto, para esta família de almas, o comunismo não é intrinsecamente mau, e com ele são possíveis acomodações que evitem incômodas perseguições.
É claro que por amor à brevidade a descrição dessas duas famílias de almas esquematiza algum tanto o panorama. Entre uma e outra há muitas gamas. Não haveria porém espaço para retratá-las aqui. Na medida em que qualquer das correntes intermediárias se aproxima de um polo ou do outro, para ela se vai tornando compreensível ou incompreensível a mensagem de Fátima. Fátima se encontra pois, neste sentido, como um verdadeiro divisor de águas das mentalidades contemporâneas.
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