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27 de outubro de 2015

O Sínodo malogrado: todos derrotados, a começar pela moral católica



No dia seguinte ao XIV Sínodo sobre a família, todos parecem ter vencido: o Papa Francisco, porque conseguiu arquitetar um texto de compromisso entre as posições opostas; os progressistas, porque o texto aprovado admite os divorciados recasados à Eucaristia; os conservadores, porque o documento não contém uma referência explícita à comunhão para os divorciados e rejeita o "casamento" homossexual e a teoria de gênero. 

A fim de se compreender melhor como as coisas realmente se passaram, cumpre começar pela noite de 22 de outubro, quando foi entregue aos Padres sinodais o relatório final elaborado por uma comissão ad hoc com base nas emendas (modi) ao Instrumentum laboris propostas pelos grupos de trabalho divididos por idiomas (circuli minores).

Para grande surpresa dos Padres sinodais, o texto entregue a eles nessa quinta-feira estava apenas em língua italiana, com proibição absoluta de comunicá-lo não somente à imprensa, mas também aos 51 auditores e aos outros participantes da assembleia. O texto não levava em nenhuma conta as 1355 emendas sugeridas ao longo das três semanas anteriores e substancialmente propunha de volta a validação do Instrumentum laboris, inclusive dos parágrafos que tinham suscitado as críticas mais fortes na aula sinodal: aquele sobre a homossexualidade e o dos divorciados recasados.

A discussão foi marcada para a manhã seguinte, com a possibilidade de preparar novas emendas apenas à noite, em um texto apresentado numa língua dominada apenas por uma parte dos Padres sinodais. Mas, na manhã de 23 de outubro o Papa Francisco, que sempre acompanhou de perto os trabalhos, viu-se confrontado a uma inesperada rejeição do documento elaborado pela comissão. Nada menos que 51 Padres sinodais intervieram no debate, a maioria deles contra o texto aprovado pelo Santo Padre. Entre estes estavam os cardeais Marc Ouellet, prefeito da Congregação para os Bispos; Angelo Bagnasco, presidente da Conferência Episcopal Italiana; Jorge Urosa, arcebispo de Caracas; e Carlo Caffara, arcebispo de Bolonha; os arcebispos Joseph Edward Kurtz, presidente da Conferência Episcopal norte-americana; Stanislaw Gadecki, presidente da Conferência Episcopal polonesa; Ignace Stankevics, arcebispo de Riga; Tadeusz Kondrusiewicz, arcebispo de Minsk-Mohilev; e Henryk Hoser, arcebispo-bispo de Varsóvia-Praga; os bispos Ignace Bessi Dogbo, de Katiola (Costa do Marfim), HLib Borys Sviatoslav Lonchyna, bispo da eparquia ucraniana da Sagrada Família de Londres, e muitos outros, todos expressando, em diferentes tons, o seu desacordo com o texto.

O mesmo documento não podia obviamente ser apresentado de novo na aula sinodal no dia seguinte, pois arriscava não obter a maioria e produzir um forte racha. A solução de compromisso foi encontrada seguindo o caminho delineado pelos teólogos do "Gemanicus", o círculo que incluía o cardeal Kasper, ícone do progressismo, e o cardeal Müller, prefeito da Congregação da Fé. Entre sexta à tarde e sábado de manhã a comissão elaborou um novo texto, que foi lido na aula na manhã de sábado 24, e em seguida votado no período da tarde, obtendo para cada um dos seus 94 parágrafos a maioria qualificada de dois terços, que era de 177 votos entre os 265 Padres sinodais presentes.

Na coletiva de sábado, o cardeal Schönborn havia antecipado o teor do texto no ponto mais controvertido, o dos divorciados recasados: "Fala-se disso. Fala-se disso com grande atenção, mas a palavra-chave é ‘discernimento’, e convido todos a pensar que [nesse assunto] não há um branco ou preto, um simples sim ou não; é preciso discernir, e este é precisamente o ensinamento de S.S. João Paulo II na Familiaris consortio: a obrigação de exercer um discernimento, porque as situações são diferentes e o Papa Francisco, bom jesuíta, aprendeu a necessidade desse discernimento quando jovem: discernimento é tentar descobrir qual é a situação de tal casal ou de tal pessoa." 

Discernimento e integração é o título dos números 84, 85 e 86. O parágrafo mais controverso, o nº 85, que fundamenta a abertura aos divorciados recasados e a possibilidade de eles receberem os sacramentos – embora sem mencionar explicitamente a comunhão –, foi aprovado por 178 votos a favor, 80 contrários e sete abstenções. Só um voto acima do quórum de dois terços.

A imagem do Papa Francisco não saiu reforçada, mas empanada e enfraquecida no fim da assembleia dos bispos. O documento que ele havia aprovado foi de fato abertamente rejeitado pela maioria dos Padres sinodais na manhã do dia 23, o seu "dia negro". O discurso de encerramento do Papa Bergoglio não manifestou nenhum entusiasmo pela Relatio final, mas uma reiterada repreensão aos padres sinodais que tinham defendido as posições tradicionais. Por isso, entre outras coisas, disse o Papa na noite de sábado: “Encerrar este Sínodo [...] significa também que espoliamos os corações fechados que, frequentemente, se escondem mesmo por detrás dos ensinamentos da Igreja ou das boas intenções para se sentar na cátedra de Moisés e julgar, às vezes com superioridade e superficialidade, os casos difíceis e as famílias feridas. [...] Significa que procuramos abrir os horizontes para superar toda a hermenêutica conspiradora ou perspectiva fechada, para defender e difundir a liberdade dos filhos de Deus, para transmitir a beleza da Novidade cristã, por vezes coberta pela ferrugem de uma linguagem arcaica ou simplesmente incompreensível.” Palavras duras, que exprimem amargura e insatisfação: certamente não as de um vencedor. 

Também foram derrotados os progressistas, não apenas por ter sido removida toda referência positiva à homossexualidade, mas porque a abertura aos divorciados recasados é muito menos explícita do que eles teriam desejado. Mas os conservadores não podem cantar vitória. Se 80 padres sinodais, um terço da assembleia, votaram contra o parágrafo 85, isso significa que ele não era satisfatório. E o fato de esse parágrafo ter passado por um voto não elimina o veneno que ele contém.

De acordo com a Relatio finale, a participação dos divorciados recasados na vida da Igreja pode expressar-se em "serviços diversos": deve-se, portanto, "discernir quais das diversas formas de exclusão atualmente praticadas no âmbito litúrgico, pastoral, educativo e institucional podem ser superadas. Eles não estão e não devem sentir-se excomungados e podem viver e crescer como membros vivos da Igreja" (nº 84); "o percurso de acompanhamento e discernimento orienta estes fiéis a serem conscientes da sua situação perante Deus. O diálogo com o sacerdote, no foro interno, concorre para a formação de um julgamento correto acerca do que obstaculiza a possibilidade de uma participação mais plena na vida da Igreja e sobre os passos que podem favorecê-la e fazê-la crescer" (nº 86). 

Mas o que significa ser "membros vivos" da Igreja, senão encontrar-se em estado de graça e receber a Sagrada Comunhão? E a "participação mais plena na vida da Igreja" não inclui, para um leigo, a participação no sacramento da Eucaristia? Diz-se que as formas de exclusão atualmente praticadas no âmbito litúrgico, pastoral, educacional e institucional podem ser superadas "caso por caso", seguindo uma "via discretionis". Pode ser superada a exclusão da comunhão sacramental? O texto não o afirma, mas não o exclui. A porta não está escancarada, mas entreaberta, e, portanto, não há como negar que esteja aberta

A Relatio não postula um direito dos divorciados recasados de receber a Comunhão (e, portanto, um direito ao adultério), mas nega de fato à Igreja o direito de definir publicamente como adultério a situação objetiva dos divorciados recasados, deixando a responsabilidade dessa avaliação à consciência dos pastores e dos próprios divorciados recasados. Para retomar a linguagem da Dignitatis Humanae, não se trata de um direito "afirmativo" ao adultério, mas de um direito "negativo" de não ser impedido de praticá-lo, ou de um direito à "imunidade de coerção em matérias morais". Como na Dignitatis Humanae, é cancelada a distinção fundamental entre o "foro interno", que diz respeito à salvação eterna dos fiéis, e o "foro externo", relativo ao bem público da comunidade dos fiéis. A comunhão na verdade não é apenas um ato individual, mas um ato público perante a comunidade dos fiéis. A Igreja, sem entrar no foro interno, sempre proibiu a comunhão dos divorciados recasados, por tratar-se de pecado público, cometido no fórum externo. A lei moral fica absorvida pela consciência que se torna um novo locus, não só teológico e moral, mas canônico. A Relatio finalis integra-se bem, sob este aspecto, nos dois motu proprio do Papa Francisco, cujo significado o historiador da escola de Bolonha [NdT.: Alberto Melloni] salientou no Corriere della Sera de 23 de outubro: "Restituindo aos bispos o julgamento sobre a nulidade, Bergoglio não mudou o status dos divorciados, mas fez um enorme ato de reforma do papado".

A atribuição ao bispo diocesano da faculdade, como único juiz, de instruir discricionariamente um processo sumário e de chegar à sentença definitiva é análoga à atribuição ao bispo do discernimento sobre a condição moral do divorciados recasados. Se o bispo local considerar que chegou ao termo o caminho de crescimento e de aprofundamento espiritual de uma pessoa que vive em uma nova união, esta poderá receber a comunhão.

O discurso do Papa Francisco de 17 de outubro ao Sínodo indica na "decentralização" a projeção eclesiológica da moral do "caso por caso". O Papa afirmou depois, em 24 de outubro, que, "sem entrar nas questões dogmáticas, bem definidas pelo Magistério da Igreja – que aquilo que parece normal para um bispo de um continente, pode resultar estranho, quase um escândalo – quase! –, para o bispo doutro continente; aquilo que se considera violação de um direito numa sociedade, pode ser preceito óbvio e intocável noutra; aquilo que para alguns é liberdade de consciência, para outros pode ser só confusão. Na realidade, as culturas são muito diferentes entre si e cada princípio geral – como disse, as questões dogmáticas bem definidas pelo Magistério da Igreja – cada princípio geral, se quiser ser observado e aplicado, precisa de ser inculturado".

A moral da inculturação, que é a do "caso por caso", relativiza e dissolve a lei moral, que é por definição absoluta e universal. Não existe nenhuma boa intenção ou circunstância atenuante capaz de transformar um ato mau em bom. A moral católica não admite exceções: ou é absoluta e universal, ou não é uma lei moral. Portanto, não estão errados os jornais que apresentaram a Relatio finale com este título: “Cai a proibição absoluta da comunhão para os divorciados recasados".

A conclusão é que estamos lidando com um documento ambíguo e contraditório, que permite a todos cantar vitória, embora ninguém tenha vencido. Todos foram derrotados, a começar pela moral católica, que sai profundamente humilhada do Sínodo sobre a família concluído em 24 de outubro (Roberto de Mattei).

_______ 

(*) Professor de História Moderna e História do Cristianismo na Universidade Europeia de Roma, conferencista, escritor e jornalista, Roberto de Mattei é presidente da Fondazione Lepanto. Entre 2004-2011 foi vice-presidente do Conselho Nacional de Pesquisa da Itália. Autor da primeira biografia de Plinio Corrêa de Oliveira, intitulada "O Cruzado do Século XX". É também autor do best-seller "Concílio Vaticano II, uma história nunca escrita".

30 de setembro de 2015

Uma sociedade "miserabilista" atrofia as potencias da alma humana, fomenta a conaturalidade com o horrendo e atenta contra a glória de Deus


Apêndice do livro: “Hasta cuándo las Américas tolerarán al dictador Castro, el implacable stalinista que continúa oprimiendo al pueblo cubano, y amenazando a naciones hermanas?" — Décadas de progresivo acercamiento comuno-católico en la isla-presidio del Caribe. Miami, 1990, pgs. 167 a 172.(*) 


Em termos absolutos, a Deus não era necessário criar o universo, com suas diversas categorias de seres. Mas uma vez que o criou, somente poderia fazê-lo tendo em vista a finalidade mais perfeita dessa obra, que é a sua própria glória. Entretanto as criaturas glorificam a Deus essencialmente pelo fato de ser; e por cumprir plenamente seu fim específico na criação. Assim em seu conjunto, essa última é um reflexo do próprio Deus.

A excelência da ordem mineral se encontra no mero ato de ser; na ordem vegetal, ela se encontra na mesma vida, que aparece assim dentro da escala da criação; na ordem animal tal excelência se encontra na vida sensitiva; e no homem a excelência se encontra na capacidade de usar sua inteligência. 
A criação é um reflexo do próprio Deus

Em que consiste a glória que o homem dá a Deus pelo ato de ser inteligente? Fundamentalmente, em conhecer e amar a ordem do ser no próprio Deus, através da semelhança do Criador que o homem encontra refletida na ordem criada. É um instinto da alma buscar nas coisas aquilo que mais lhe fala de Deus. Esse instinto é uma espécie de desejo natural que a impulsiona a elevar-se progressivamente, por meio das perfeições mais sublimes e transcendentes dos seres criados, a ver a própria essência do primeiro Ser – imutável, transcendente, eterno – que é Deus. 

Um dos objetivos do processo revolucionário que vem assolando a Cristandade, desde o fim da Idade Média até nossos dias,(1) tem sido a diminuição, no homem, da percepção dos transcendentais(2) do ser.
Havana - o regime comunista afundou Cuba no miserabilismo
Assim se poderia dizer, em termos gerais, que a confusão, o caos e a conseguinte perda do sentido das hierarquias, afetam a visão do “unum” [único]; o relativismo filosófico, moral e religioso extingue e ofusca a percepção do “verum” [verdadeiro]; a imoralidade e a amoralidade reinantes nas sociedades contemporâneas contribuem para fazer o mesmo com o “bonum” [bom]; e, por fim, é a concepção do miserabilismo, alentada por correntes de comuno-progressistas, a ponta de lança para destruir nas almas e na sociedade a percepção do “pulchrum” [belo]. (3)

Com esta ofensiva conjugada para extinguir o dinamismo dos transcendentais do ser nas almas, a Revolução vai conseguindo levar imperceptivelmente à humanidade até o ateísmo; ou até formas de panteísmo que excluem a transcendência(4) de Deus. Com isso, caem as barreiras que facilitam a aceitação, na teoria e na prática, de uma convergência dos católicos com o marxismo cultural. 

A tônica revolucionária acentuada na destruição do “pulchrum”, tanto na esfera espiritual quanto na temporal 

Deve-se notar que em cada fase histórica da investida revolucionária contra a Cristandade, se manifesta uma acentuação diferente no processo de destruição da percepção humana de cada transcendental. Uma análise desse fenômeno ultrapassa os limites deste ensaio. Entretanto, podia-se dizer que, nos dias que correm, esse empenho revolucionário está colocado sobre tudo em função da destruição do “pulchrum”, depois de ter conseguido avanços impressionantes nos outros mencionados. 

É o que parece vislumbrar-se por detrás das citações de teóricos comunistas e de teólogos “liberacionistas”. 

As considerações que se seguem neste ensaio focalizam, por isso, os efeitos nefastos que a expansão das concepções de raiz miserabilista trazem – com o consequente obscurecimento da percepção do “pulchrum” –, e isso não somente para a alma humana e a sociedade, como também para a glória de Deus. 

O miserabilismo ofusca o “instinto de Deus” 

Havana
Os modelos miserabilistas da sociedade, propostos por correntes comuno-católicas contemporâneas, são profundamente antinaturais; pois tendem a deformar, e inclusive a atrofiar, os instintos mais profundos da alma humana. 

O instinto fundamental de toda criatura racional é a busca da felicidade, que a conduzirá a Deus. O homem tende à felicidade por um instinto inato e não pode, sem grave violência contra a sua natureza, apartar-se de seu fim ultimo, que é o conhecimento e o amor de Deus; com o auxílio, é certo, da graça sobrenatural que perfeiçoa e eleva a natureza. 


A beleza no mundo eleva a alma a Deus
Se bem que a verdadeira e última felicidade de todo o homem se alcança no Céu, já nesta vida pode-se ter uma certa felicidade que, ainda que imperfeita, tem alguma semelhança com a celeste. Na vida terrena, a felicidade que mais se parece com a do Céu está na contemplação desinteressada da beleza refletida na criação. Conhecendo-a, a própria alma se torna bela. E, com isso, por uma certa conaturalidade, a alma tende a desejar a suprema beleza divina. A esse respeito, diz São Tomás que “quando o homem vê um efeito, experimenta o desejo natural de conhecer sua causa e daí nasce a admiração humana”.(5) Por isso pode afirmar-se que o espetáculo da beleza nas coisas desperta a admiração, e a admiração acende a tendência para Deus, que é o desejo de conhecer a causa última. 

Como uma consequência do argumento anterior, o Doutor Angélico afirma: “É evidente que nenhum homem pode apartar-se voluntariamente da bem-aventurança, pois busca esse objetivo natural e necessariamente, e escapa da miséria”.(6) 

O miserabilismo debilita a inteligência ao eliminar os reflexos cognoscíveis do Criador na sociedade 

Somente o homem é capaz de tender até a felicidade, pois essa é um bem da razão. Agora para encontrar essa felicidade, o homem deve avançar até seu fim, que é Deus. E uma das primeiras e mais diretas formas pelas que a alma racional encontra os vestígios de Deus é, como se tem dito, na beleza das coisas criadas: o desejo natural de ver a Deus nasce na alma suscitado pela contemplação do mundo criado, “porque – como diz São Paulo – as coisas invisíveis de Deus, depois da criação do mundo, se tornaram visíveis através da compreensão das coisas feitas”(7) (Rom. 1:20).


Logo quanto mais beleza encontra a alma no mundo sensível, mais se eleva sua alma a Deus.

Por isso se torna patente a necessidade – tanto para a perfeição do homem quanto, sobretudo, para a glória de Deus – que nessa realidade visível se manifeste e resplandeça a beleza de Deus. Isso, não somente nas obras que saem diretamente das mãos do Criador, como também das dos homens: “Resplandeça Sua obra sobre Israel e Sua magnificência nos cumes”, disse o salmista (Salmos 67:35). 

Pelo contrário, aqueles que, segundo o próprio São Paulo, “tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças” – e que, por isso, “obscureceram seus corações insensatos” – o próprio Deus “os abandonou aos desejos de seu coração, à imundícia” (Romanos 1:21 e 24). A partir dessa rejeição fica aberto, segundo o Apóstolo dos gentios, o caminho para o mundo horrendo. 

O miserabilismo atrofia a vontade e deforma a sensibilidade 

De maneira semelhante ao que ocorre com a inteligência, a vontade tende também a atrofiar-se como resultado da implantação de uma sociedade tal como a desejam os teóricos comuno-católicos do miserabilismo. Por causa das circunstâncias que essa cria – quer dizer, uma sociedade sem ornato nem beleza – a vontade tenderá com menos força até a verdadeira plenitude humana. 

Do mesmo modo que a contemplação da beleza do mundo
sensível é um dos pontos de partida da inteligência para o conhecimento de Deus, essa realidade também é capaz de despertar, desenvolver e enriquecer os atos de vontade e os processos afetivos que, muitas vezes, o precedem(8) e que conduzem à felicidade; ou, pelo contrário, uma sociedade miserabilista pode debilitar e desvanecer esses mesmos atos volitivos e afetivos.

A vontade é uma faculdade espiritual, consciente e livre. Portanto, é capaz de sobrepor-se à desordem ou à ausência dos movimentos instintivos da sensibilidade. Por isso, teoricamente, o homem pode dirigir esse poder da alma até seu fim último em meio da total ausência de estímulos sensíveis, movida apenas pelo conhecimento abstrato de Deus. 

Mas como a natureza humana não é angélica, e, sim, um composto de alma e matéria, se faz necessário que, pelo menos em parte, o apetite da natureza instintiva preceda ao querer da vontade.(9)

Por exemplo, a um menino que viva em uma tribo primitiva da Nova Guiné é enormemente difícil, se não impossível, por causa da rudeza do ambiente, aprender a analisar com sua inteligência, aderir com sua vontade e degustar com sua sensibilidade, desde a beleza estética de uma obra de arte sacra até a qualidade e os diversos sabores de um bom vinho.

Isso acontece porque seus sentidos estão embrutecidos, com o qual sua alma espiritual carece dos instrumentos necessários para distinguir os aspectos transcendentes e formosos da realidade. 

Em uma forma meramente analógica, esse princípio está incluído no mundo animal. Assim, por exemplo, um gato criado no obscurecimento total e sem contato com outros animais, aves ou insetos, verá atrofiado seu instinto de caçador inato. 

O miserabilismo evita que o homem conheça a verdadeira felicidade e adira ao seu fim último que é Deus.

O ditador comunista de Cuba, Raul Castro,
com o Cardeal de Havana, Mons. Jaime Ortega
Em sociedades artificialmente privadas de ornato e beleza, como ocorre nos países comunistas – de onde impera compulsoriamente o feio, o banal e o sórdido nos ambientes, os costumes e as artes – tendem a debilitar o impulso da vontade até seu fim último transcendente, que é Deus. Porque, como recorda São Tomás, “tal como cada um é, tal lhe parece o fim”.(10) 

Isso se dá particularmente naqueles países como Cuba, onde o regime tem optado explicitamente por um modelo “miserabilista”, com o aplauso de “teólogos da libertação”. 

O próprio sistema de racionamento imperante – qualificado como um “êxito político”, no sentido de que implanta uma “base igualitária”(11) na população – coloca em um necessário primeiro plano os desejos mais imediatos e animais do homem, reflexos do instinto de conservação e do instinto gregário.(12)

Se essa situação de fato é aceita passivamente – como acaba ocorrendo em incontáveis pessoas que vivem sob o regime comunista cubano, para as quais as possibilidades de modificar o contexto imperante são remotas – a sensibilidade, em relação ao bem, à verdade e à beleza, se vai deformando ou atrofiando. E como ela influi sobre a vontade, acaba sendo que o desvio da primeira repercute sobre a segunda, ajudando a apartá-la de seu fim verdadeiro, como ensina São Tomás.(13) 

Em um ambiente assim, e através do processo aqui descrito e analisado em suas linhas gerais, os indivíduos vão sendo imperceptivelmente conduzidos até uma forma de ateísmo por assim dizer “vivencial”. Ou então até modalidades de panteísmo que negam a transcendência de Deus. Nessas condições as pessoas estarão muito mais propensas a aceitar uma convergência e identificação com o comunismo. 

Riquezas materiais, manifestação da abundância dos dons de Deus

Para melhor esclarecer este ensaio, ao falar do “pulchrum” na Criação não se tem dito a necessária correlação entre esse transcendental do ser – cujos vestígios a revolução gnóstica e igualitária quer extinguir da face da Terra – e a riqueza ou abundância material. A este aspecto se dedicarão em seguida algumas linhas. 

Como se tem visto, à luz do sentido comum e da filosofia tomista, um dos caminhos principais para que a alma se eleve ao conhecimento de Deus – e, em consequência, alcance de sua própria felicidade – é a contemplação do belo nas coisas criadas. 

Daí a necessidade do esplendor e o ornato na ordem material, para que possam exercitar-se as faculdades naturais da alma que melhor ordenam o homem até Deus, como o são o desejo instintivo da verdade, da bondade e da beleza. 

Nas presentes considerações, se tem insistido especialmente nessa última. E se tem mostrado também como esses instintos espirituais da alma podem atrofiar-se por falta de exercício, tal como se atrofiam os músculos do corpo quando se mantêm imóveis por longo tempo.

Entretanto, a riqueza é uma das condições que favorecem a criação do esplendor inerente ao belo, assim como, pelo contrário, a miséria produz feiura. A sabedoria divina, pela boca do rei Davi, considera feliz o povo que goza da abundância de bens, não somente morais, mas também materiais. 

Um povo assim não somente vive na posse da honra, da verdade e da justiça, como “cheios estão seus celeiros, transbordando toda sorte de frutos; suas ovelhas mil vezes fecundas, se multiplicam pelos campos em numerosos rebanhos; suas vacas estão gordas. Não têm buracos em suas muralhas, nem exílio, nem choro em suas praças. Feliz chamaram o povo que goza dessas coisas” (Salmos 143:12 a 15).

São Tomás sentencia, a respeito da abundância material e espiritual louvada neste Salmo: “Os homens estimam que têm nesta vida alguma felicidade, por certa semelhança com a benção verdadeira; e essas não se enganam de todo”(14) Algo oposto, portanto, à concepção miserabilista da sociedade sustentada pelas correntes comuno-progressistas.

Necessidade de uma riqueza proporcional, em todos os níveis sociais 

As riquezas são uma manifestação da abundância dos dons de Deus. Isso não somente vale para as grandes riquezas, mas também para aquele grau de supérfluo necessário que todo o homem deve ter para adornar sua vida, dando, assim, a essa, o grau de dignidade e esplendor necessários para manter vivo e atuante o dinamismo da alma para as coisas mais altas.

A arte popular, por exemplo, é a seu modo uma forma preciosa de riqueza material de uma nação, que supõe uma dignidade de alma aberta à beleza. E isso somente é possível em um povo onde a fé e o sentimento religioso estão operantes. 

Com mais razão ainda o são também a arte nobre, os palácios, os monumentos faustosos, as grandes instituições e em geral todo aquele que exige não somente nobreza de alma, mas também grandes meios materiais para serem realizados. 

Essas manifestações artísticas se complementam como expressão da alma de todo o povo e a todos aproveita. E a própria psicologia moderna reconhece hoje o grande valor que historicamente tiveram para o bem-estar psíquico de todo o corpo social as diversas manifestações de riqueza material. 
O regime comunista transformou Cuba, a ex- "Pérola da Antilhas", numa imensa favela 

Antes de tudo, o miserabilismo atenta contra a glória de Deus 

Concluindo, pode-se afirmar que atuar para a implantação de uma sociedade miserabilista traz preparada a premissa implícita de que o homem não deve lutar contra seus desejos desordenados nem contra as circunstâncias adversas externas para embelezar moralmente sua alma e aperfeiçoar o mundo que o rodeia; seu bem estaria em deixar-se governar por seus instintos mais baixos e primários.

Sob certo ponto de vista, isso constitui um auge da aversão a Deus – que começou com o pecado do orgulho do “non serviam” [não servirei] – e projeta sérias consequências no plano moral, social e econômico.

O miserabilismo é um pecado contra Deus, porque nega ao criador a glória e a honra que se Lhe deve absolutamente, renunciando ao ordenado uso dos bens terrenos, que Deus entregou aos homens para que os multiplicassem.

O miserabilista é como aquele servo infiel do Evangelho, que enterrou o talento que o Senhor lhe havia dado, não o fazendo frutificar (São Mateus 25: 14 – 30).

É também uma injustiça contra a sociedade, porque destrói e impede o harmonioso desenrolar da ordem natural, que, como explica São Tomás amplamente, em matéria de bens terrenos alcança seu pleno desenrolar no regime de propriedade privada (15). 

É, por fim, uma agressão contra a natureza humana, pois, como se demonstrou, atrofia as potências da alma, removendo do homem os meios adequados para alcançar seu fim último, que é a felicidade.

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Notas: 
(*) "Até quando as Américas tolerarão o ditador Castro, o implacável stalinista que continua oprimindo o povo cubano, e ameaçando as nações irmãs?“, Miami, 1990, pgs. 167 a 172. (Os trechos aqui publicados foram traduzidos por Anselmo de Barcelos Coura). 
1. Sobre as causas desse processo, e seu desenvolvimento histórico até o presente, ver a obra mestra de Plinio Correa de Oliveira, Revolução e Contra-Revolução. 
2. Os transcendentais, em seu sentido filosófico, são qualidades que pertencem ao ser enquanto tal, convindo, portanto, se bem que em graus diversos, a todos os seres. Assim, por exemplo, são perfeições transcendentais a unidade, a verdade e a beleza. 
São Tomás ensina que a noção de propriedades transcendentais do ser domina a respeito tudo o que se pode dizer do ser. Elas são noções análogas de perfeições que se realizam nas criaturas e, de modo eminente e infinito, em Deus.
São Tomás trata amplamente sobre o lugar do “verum” – a qualidade de ser verdadeiro – entre os transcendentais “ens”, “unum”, “aliquid”, “bonum”, na questão I, “De Veritate”, a.1 (Edições Universidade de Navarra, Pamplona, 1967, pp. 151 a 163). Na presente dissertação se enfatiza a ação nefasta do processo revolucionário enquanto provocando um debilitamento da percepção do “pulchrum”. E poderiam efetuar-se estudos análogos centrando-se em outros transcendentais, especialmente o “verum” e o “bonum”. A respeito da verdade e suas principais modalidades, veja o denso opúsculo “A verdade libertadora“, do eminente teólogo espanhol contemporâneo Revmo. Pe. Victorino Rodríguez e Rodíguez, O.P. 
Ao fato experimental, de que as coisas têm propriedades transcendentais que se realizam em diversos graus, como a verdade, a bondade, a beleza e nobreza, etc., São Tomás tem isso como ponto de partida para sua quarta via, na qual demonstra a existência de Deus: “Vemos, nos seres, que alguns são mais ou menos bons, verdadeiros e nobres que outros, e o mesmo acontece com as diversas qualidades. Mas o mais e o menos se atribui às coisas segundo sua proximidade com o máximo, e, por isso, se diz que o mais quente é o que mais se aproxima do máximo calor. Portanto, tem que existir algo que seja o sumo da verdade, da nobreza e do ótimo, e, por isso, ente ou ser supremo. (“Suma Teológica”, I, q.2, a. 3c). 
3. O desenvolvimento dessa tese, em todas as dimensões que ela comporta, transcende os limites do presente trabalho. Neste nos estenderemos especificamente sobre a ação do miserabilismo enquanto destruidor ou obscurecedor da percepção do pulchrum nas almas. Inclusive, sobre esse aspecto, não pretendemos abarcar todo o tema, nem enfocá-lo com a precisão ou com o rigor de um filósofo. 
4. Nesse contexto, o termo “transcendência” diz respeito ao conjunto dos atributos do Criador, que ressaltam sua infinita superioridade em relação as criaturas. 
5. Suma Teológica I, q. 12, a. 1 
6. Suma Teológica I, q. 94, a. 1c 
7. Isto é, as perfeições invisíveis de Deus se tornaram visíveis à inteligência, por meio de Suas obras. 
8. No animal, a finalidade da sensibilidade está no deleite do próprio sentido, na conservação do ser (instinto de conservação) e da espécie (instinto de reprodução). No homem, em troca, os sentidos também estão ordenados à perfeição humana, que, como foi visto, se encontra na felicidade transcendente, conhecida pela inteligência e desejada pela vontade. 
9. cfr. Suma Teológica, 1-2, q. 10, a. 1, art. 1. 
10. Suma Teológica, 1-2, q. 9, a. 2 e ad. 3.
11. cfr. “1917-1987: o socialismo em debate”, Instituto Cajamar, São Paulo, 1988; relato de Juan Valdés, Chefe do Departamento da América Latina do Centro de Estudos de América, da Habana; p. 133. 
12. A vida cotidiana dos cubanos é característica neste sentido. O racionamento, as filas intermináveis para adquirir produtos indispensáveis para a subsistência, etc., conduzem a isso. 
13. cfr. I-II, q. 9, a. 2, e ad. 3. 
14. Suma Teológica, 1-2, q. 5, a. 3, ad. 3. 
15. Suma Teológica, 2-2, 66, 1-2.

8 de julho de 2015

Rádio Vaticano difunde teses escandalosas sobre a moral sexual


Mathias von Gersdorff 

A seção alemã da “Rádio Vaticano” vem difundindo, através de um artigo do Pe. Martin Lintner OSM (Ordem dos Servitas) de 2 de julho de 2015, sob o estranho título “Teólogo moralista: A moral sexual da Igreja está em movimento”, teses sobre a moral sexual de arrepiar os cabelos. 


O Pe. Lintner
é o provincial de
sua Ordem no Tirol
A respeito de suas ideias sobre sexualidade humana, a “Rádio Vaticano” escreve: “O presidente da Sociedade Europeia de Teologia Católica fundamentou sua avaliação com um afastamento de um ato moral determinado pelo direito natural, no qual cada ação sexual era julgada na medida em que correspondesse ‘à natureza da sexualidade’, para uma visão, já defendida no Concílio Vaticano II, segundo a qual ‘o comportamento sexual’ deveria ser tido como ‘uma comunicação corporal’”. 

Isso é um grosseiro disparate, além de um descaramento: interpretar, ou seja, distorcer dessa forma as palavras do Vaticano é promover uma consciente desorientação dos fiéis, aos quais se dá a entender que o Concílio permite tudo e que tudo pode ser interpretado ao bel-prazer das pessoas.

O Pe. Lintner também abusa do Sínodo da Família convocado pelo Papa Francisco, exigindo uma adaptação da moral sexual católica às ideias desordenadas dos adeptos da “Revolução Sexual de 1968”. Como se não bastassem as discussões havidas durante o Sínodo Extraordinário dos Bispos no outono de 2013 e o instrumento de trabalho publicado recentemente para o Sínodo da Família de outubro de 2015, que mostram, segundo Lintner, uma “mudança de pensamento” no trato com pessoas homossexuais”, assim como transmitiu a Rádio Vaticano para a Alemanha.  

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A “Radio Vaticano” ilustrou o texto com uma foto indecorosa, que jamais poderia aparecer num serviço de notícias católico. Por isso não colocamos aqui um link para o artigo. 
Uma onda de protestos indignados levou a "Rádio Vaticano" a suprimir imediatamente o artigo em questão. Porém, no dia seguinte, ela publicou novamente a matéria imoral. 



Secção alemã da Radio Vaticano: Agenda homossexual é mais importante do que a modéstia católica 


A seção alemã da Rádio Vaticano publica novamente artigo discutível com foto

Um artigo da versão alemã da Rádio Vaticano (Teólogo moralista: “A moral sexual da Igreja está em movimento”) de 2 de julho de 2015, com teses sobre a moral sexual de arrepiar os cabelos e ilustrado com uma foto imoral, havia sido retirado por causa de inúmeros protestos. 

Contudo três dias depois, em 6 de julho, o artigo foi novamente publicado. (Não damos aqui o link do mesmo devido à foto indecente). 

O responsável pela secção alemã da Radio Vaticano, Pe. Bernd Hagenkord S.J., chegou a confessar que a foto é problemática: “Talvez não tenha sido bem escolhida”. 

Porém, simultaneamente, coloca-se no papel de vítima e escreve: “Existem algumas pessoas aí fora realmente muito mal fixadas e que não suportam que muita gente seja diferente [...]. Sim. Também ainda hoje. Um espancamento verbal selvagem, como se as palavras não tivessem uma realidade e um efeito. Tudo em nome da doutrina, da verdade e da Igreja.”

A tomada de posição do Pe. Hagenkord é grave e preocupante, pois deixa claro que para a seção alemã da Rádio Vaticano, as exigências da Revolução sexual (feitas pelo artigo) e a agenda homossexual (pela foto de duas mulheres jovens tomando certas atitudes) são mais importantes do que a opinião dos católicos a respeito do pudor, da decência e da modéstia. 

As pessoas que protestaram contra a foto estão agindo, segundo o Pe. Hagenkord, contra o amor ao próximo. A isto chegamos!

Esse caso é simplesmente inacreditável: não se pode mais confiar que a seção alemã da Rádio Vaticano difunda a moral católica. Não se pode mais sequer esperar que a Rádio Vaticano não difunda fotos indecentes.

Semelhante decadência da mídia eclesiástica seria inimaginável alguns anos atrás. 
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Tradução de Renato Murta de Vasconcelos

17 de maio de 2015

A “BEATIFICAÇÃO” DE DOM HELDER = IMPULSO AO NEOCOMUNISMO PAPAL

Afresco de Antonio Campi (séc. XVI) na Igreja de San Sigismondo em Cremona (Itália)

Ronaldo Ausone Lupinacci (*) 

Narram os Evangelhos que, seis dias antes de sua morte na cruz, Nosso Senhor Jesus Cristo compareceu a uma ceia na casa de Simão, o leproso, quando chegou ao local Santa Maria Madalena, trazendo um vaso com perfume de grande preço (Mateus, XXVI, 6-13; Marcos XIV, 3-9; João XII, 1-11). 

Aproximando-se do Salvador, Madalena perfumou-lhe os pés e enxugou-os com seus cabelos, e, depois, quebrando o vaso, derramou o resto do perfume sobre a cabeça de Jesus. Judas Iscariotes censurou aquele gesto de devoção, objetando que se deveria vender o perfume para dar o dinheiro aos pobres. 

Procurou, assim, instigar os presentes contra o Divino Mestre. Judas aludiu aos pobres como pretexto, porque era ladrão, e queria por a mão nas economias de Madalena, pois era ele quem guardava a bolsa do grupo de discípulos do Salvador. 

Ao longo da História, sobretudo da recente, surgiram numerosos “defensores de pobres”, hipócritas como Judas, que manipulam em seus discursos as carências dos menos afortunados para iludir incautos e idiotas.

A coexistência das características de pretensos defensores dos pobres e de ladrões é, aliás, um fato frequente nos meios políticos, e, muito particularmente, num certo partido hoje em destaque no noticiário policial.

Mas, este episódio traz, paralelamente, outro ensinamento importante: Cristo bem sabia o que se passava no coração de Judas, e, se não o afastou de seu círculo de discípulos foi para deixar a lição de que, no futuro, haveria traidores na Igreja, os famosos lobos com pele de ovelha.

Ocorre, efetivamente, que dentre os falsos defensores dos pobres, afora os ladrões, pululam também os demagogos, que dramatizam as amarguras da pobreza com segundas intenções político-ideológicas. 


O preâmbulo acima se relaciona com a anunciada beatificação de Dom Helder Câmara (1909-1999), ex-arcebispo de Olinda e Recife, que ficou conhecido como “Arcebispo Vermelho” em razão de sua trajetória pró-comunista (1).

Com efeito, em 9 de abril último o atual titular daquela arquidiocese pernambucana, Dom Fernando Saburido, com aprovação do Vaticano, assinou o edital de abertura do processo canônico da anunciada beatificação. 

Cumpre assinalar, de passagem, que com a modificação do Código de Direito Canônico em 1983, o ritual da canonização se tornou extremamente simplificado, ou seja, perdeu os rigores investigativos que antes existiam, de modo que a elevação aos altares passou a significar mera escolha pessoal do Papa, excluindo-se, assim, a incidência da hipótese teológica de infalibilidade (2). 

Não é possível aqui descrever toda a longa trajetória de Dom Helder, desde as iniciais simpatias pelo nazi-facismo, até duradoura aproximação com o comunismo. Para os leitores que queiram mais detalhes sugiro consulta ao trabalho bem escrito por Julio Loredo para a publicação “Corrispondenza Romana” (“Quem foi realmente Dom Helder Câmara”) (3).

E, para os leitores que queiram se inteirar da atuação de Dom Helder na conspiração urdida para promover a autodemolição da Igreja indico o livro de Roberto De Mattei intitulado “O Concílio Vaticano II – Uma História Nunca Escrita”(4).

Dom Helder Câmara foi um dos articuladores da criação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), também ela de notório histórico esquerdista (5). Dom Helder, ademais, entre tantas outras iniciativas de favorecimento ao comunismo quis desestimular os norte-americanos na manutenção de seu potencial bélico, advogou a entrada da China comunista na ONU em substituição à China Nacionalista (Taiwan), defendeu o regime de Fidel Castro. 

No âmbito nacional, o fato mais grave consistiu no acobertamento do incólume Padre Joseph Comblin, responsável pela elaboração de minucioso e drástico plano para implantação do comunismo no Brasil. 


No ano de 1977, por ocasião da comemoração do dia 13 de maio, data da primeira aparição de Nossa Senhora em Fátima, o líder católico Plínio Corrêa de Oliveira [foto] proferiu conferência na qual procurou discernir o conteúdo da terceira parte da mensagem transmitida em 1917(6). 

Esta terceira parte se mantinha (e se mantém) oculta pelo Vaticano sem esclarecimentos satisfatórios para o silêncio, embora se saiba que deveria ter sido divulgada no ano de 1960. 

Na ocasião Plínio Corrêa de Oliveira formulou a hipótese de que o segredo consistiria em aviso sobre o apoio e reinstalação do comunismo – já então enfraquecido e desorientado – pelo Papado e pela Hierarquia Eclesiástica.

Pesquisas posteriores vieram confirmar o acerto daquela hipótese. Em primeiro lugar, algum tempo depois se iniciou a derrocada da Cortina de Ferro, e ao estiolamento da força de impacto da propaganda comunista. Em segundo lugar, foram surgindo indícios seguros acerca do conteúdo do segredo inserido na terceira parte da Mensagem de Fátima.

Assim, quando no ano 2000 o Vaticano quis despistar a opinião pública com a divulgação de versão incompleta daquela terceira parte inúmeros estudiosos (principalmente o Padre Paul Kramer e o jornalista Antonio Socci) (7) se levantaram para demonstrar o provável conteúdo até então oculto, a partir de inúmeros depoimentos de pessoas dignas do maior crédito que ou haviam lido o manuscrito da vidente Lúcia (8), ou haviam obtido informações indiretas de quem o lera. 

Portanto, embora não se conheça o texto exato (o documento que circulou em 2010 foi falsificado), se sabe, com segurança, que o segredo fala da apostasia (traição) na Igreja com menção expressa ao Papado, a qual sem ele, aliás, nem seria possível. Fica claro, portanto, o motivo pelo qual Roma sonegou o chamado “Terceiro Segredo” ao conhecimento público: a orientação pós-conciliar de aproximação com o mundo neopagão, e, com o comunismo ficaria desmascarada. 

Vários fatos, mais exatamente sintomas, levam a pensar que o comunismo, embora ferido de morte – e, talvez exatamente por isso – esteja preparando uma nova ofensiva, com a participação de todas as suas forças auxiliares, inclusive aquelas infiltradas na Igreja. 

Um sinal surgiu com a renúncia do Papa Bento XVI que vinha seguindo uma linha progressista moderada e ambígua. Para acelerar o processo revolucionário era necessário substituí-lo, e, tanto a eleição como a orientação do atual Papa Francisco vieram confirmar a suposição. 

Mas, no que consistirá tal ofensiva? Não sei exatamente, mas me parece que entre tantas frentes possíveis por certo começará por um recrudescimento da agitação, visando convulsionar pelo caos as nações do Ocidente, já envoltas em tantas crises. 

E, neste contexto se situa a beatificação de Dom Helder Câmara, a ser apresentado para as massas desinformadas como um “santo” a ser imitado e seguido, em sua demagógica instigação da luta de classes e do combate ao capitalismo, e ao direito de propriedade. 

Graças à atuação de Dom Helder e demais membros da corrente pró-comunista do Clero se desenvolveram as comunidades eclesiais de base, embrião de movimentos de desagregação como o MST, “exército” comandado por João Pedro Stédile e estimulado pelo ex-presidente Lula.

Neste sentido chamam a atenção as iniciativas das mais altas autoridades eclesiásticas, inclusive do Papa Francisco, no sentido de prestigiar movimentos socialistas, tais como MST, Via Campesina, Cartoneros (Argentina) (9), ou assegurar sobrevida à ditadura cubana (10). 

Alguns leitores poderão se espantar que um católico, como eu, possa fazer acusações tão graves contra seus superiores na hierarquia da Igreja. 

Adianto que as fiz com tranquilidade de consciência, e, com a convicção resultante de décadas de estudos, colheita, análise e seleção de provas, e consequentes reflexões, inclusive sobre o dever do leigo de se opor de público (e não apenas pelo “silêncio obsequioso”) a atitudes dos clérigos quando estas concorrem para a destruição da Igreja ou da civilização cristã.

Hoje está claro porque foi a própria Mãe de Deus quem veio falar aos homens nas aparições de Fátima (e outras), porque a corrupção doutrinária e comportamental das autoridades religiosas chegaria a tal ponto que, não fossem as ameaças e promessas de punição e saneamento contidas nas referidas aparições, muitos poderiam perder a Fé.

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Notas: 
(1)http://www.pliniocorreadeoliveira.info/1969_218_CAT_O_Arcebispo_vermelho.htm 
(2)http://www.traditioninaction.org/bev/166bev04_28_2014.htm
(3)http://fratresinunum.com/2015/04/10/quem-foi-realmente-dom-helder-camara/ 
(4)http://caminhosromanos.com/index.php?route=product/product&product_id=50 (5)http://www.midiasemmascara.org/artigos/governo-do-pt/15673-2015-02-20-00-10-34.html;http://veja.abril.com.br/blog/felipe-moura-brasil/2015/04/30/video-sensacional-estudante-desmascara-palestrantes-petistas-na-puc-de-goias-e-e-agredido-claro/ 
(6)http://www.traditioninaction.org/SOD/j127sdFatimaMysteryt_5-13.htm 
(7)http://www.devilsfinalbattle.com/port/ ; http://www.fatima.org/port/news/051607socci.pdf 
(8)https://www.facebook.com/lancelee.osbourn/posts/501532876542445 
(9)http://www.paznocampo.org.br/destaques/Reverente_e_Filial_Mensagem.pdf (10)http://www.cubdest.org/1506/c1501franciscoav.htm 
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* O autor é advogado e pecuarista. 
(http://jornalnovafronteira.com.br/sem-categoria/a-beatificacao-de-dom-helder-impulso-ao-neocomunismo-papal/ )

15 de novembro de 2013

“Aquela não é a nossa Igreja”

 

Relato de um episódio ocorrido ao final de uma reunião com catequistas, em 24 de outubro de 2013.

Por Hermes Rodrigues Nery (*)

Dias atrás, recebi o comunicado da Coordenadora da Catequese de mais uma reunião no meio da semana, em 24 de outubro, com os catequistas. Reunião que visava preparar uma gincana com as crianças para o encerramento de outubro, mês das Missões.

Às 19 horas lá estávamos na igreja de Nossa Senhora dos Remédios. Durante a reunião foi ressaltado de que a gincana seria para as crianças brincarem, um momento para diversão. A coordenadora da Catequese sabia que eu havia lançado o livro “A Igreja é viva e jovem” na Jornada Mundial da Juventude, e disse que iria sugerir ao pároco (muito popular na cidade por ter fundado uma escola de samba, sucesso já em vários carnavais) para que houvesse um lançamento também na paróquia. Na ocasião, com profundo realismo, eu agradecera à Coordenadora pela atenção, mas por ser um trabalho de linha conservadora e em defesa da Tradição e do Magistério da Igreja, não tinha ilusão de que o pároco fosse se interessar. É evidente que o lançamento não aconteceu, e ela não me falou mais sobre o assunto, e eu compreendi perfeitamente a situação, grato de coração pela sua solicitude, mas ciente de que eu teria todo apoio do pároco se fosse um discípulo de Leonardo Boff. Como um último na paróquia, há vários anos, apenas como catequista, gratificava-me o sorriso das crianças nas manhãs de domingo, em que eu podia falar sobre a pessoa de Jesus Cristo, pois toda a catequese dada tinha a marca da profunda devoção mariana (nas orações antes da catequese, rezamos também a Salve Rainha), com o foco sempre cristocêntrico.

Já quase ao final da reunião, o vigário paroquial (recém ordenado padre, número dois na paróquia) perguntou se havia algum aviso ou algum recado de alguém presente na reunião, ao que solicitei a palavra. Disse que diante de uma certa angústia dos catequistas, muitas vezes, sem saber ao certo ao que recorrer, em termos de material de consulta, de informação, de orientação segura sobre os conteúdos da fé, em meio ao relativismo vigente, havia solicitações para que eu indicasse referências (livros, PDFs, DVDs, etc.) para o aprofundamento da fé católica. Outro dia, perguntaram até mesmo qual a melhor edição brasileira, em termos de tradução da Bíblia, pois algumas incluíram termos de expressões da ideologia marxista, etc. Diante disso, eu recomendei aos catequistas as aulas do Padre Paulo Ricardo, disponíveis na internet. Disse que são exposições bem didáticas, em comunhão com o Magistério da Igreja, e que realmente oferecem reflexões e colocações que motivam a conhecer mais o conteúdo do Catecismo, o que muito contribui para aqueles que desejam uma sólida formação católica.

Eis que, feita a indicação, o vigário foi à frente de todos e, como um raio em céu azul, proferiu enfaticamente:

— Refuto com veemência esta recomendação. Se vocês estão angustiados devem recorrer a nós, os padres da paróquia, responsáveis pela Catequese e formação.
E acrescentou, demonstrando muita contrariedade com o que eu havia há pouco recomendado:

— Esse Padre Paulo Ricardo é um cismático, a Igreja “dele” não é a “nossa”. Ele é um padre de antes do Concílio Vaticano II, não aceita a nova realidade. É um padre dos livros, das coisas velhas e ultrapassadas de Roma, não se atualizou. A nossa realidade é local, e temos que dar uma catequese a partir de como vive o nosso povo. O que sabe o Padre Paulo Ricardo da realidade da nossa comunidade? Saibam que ele não é bem visto por muitos de nós, até bispos. Sabiam que ele quer nos impor a batina, aonde já se viu? A “sua” Igreja está no passado, a “nossa” no presente, no aqui e agora. A “sua” Igreja é a da teologia antiga, das hierarquias, que concebe a Igreja como uma monarquia. Mas a Igreja não é uma monarquia, vocês entendem? Ainda bem que houve o Concílio Vaticano II, que o Papa Bom João XXIII, que será agora declamado santo pelo Papa Francisco, abriu as janelas da Igreja, para o ar fresco entrar. Foi o aggiornamento.

E continuou:
— Agora, houve uns bispos cismáticos, como o monsenhor Lefébvre, da Fraternidade São Pio X, que recusaram a “nova” Igreja e ficaram lá, com as coisas velhas do passado. Não é “aquela” Igreja que devemos ensinar aos nossos catequizandos, mas a “nova”, a Igreja da base, a Igreja do povo, da teologia do povo, e não aquela superada pelo Vaticano II. Aquela não é a nossa Igreja!

Muitos ficaram atônitos, diante daquela explosiva colocação. A Coordenadora da Catequese manteve-se de olhos baixos, em silêncio, sem saber o que dizer ou fazer depois daquele balde de água fria e da forma categórica com que o vigário rechaçou a minha indicação que fizera há pouco. Todos se silenciaram, como se estivessem imobilizados, o que me lembrou um comentário há alguns meses de outra catequista, ao final de outra reunião:

— Eu não falo mais nada. Se ainda me mantenho catequista, é por amor a Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele, sim, é nosso Senhor e Salvador!

Mesmo assim, ao terminar de falar o vigário, argumentei dizendo que as aulas de Catecismo do Padre Paulo Ricardo estão em consonância com a sã doutrina e o Magistério da Igreja, e que dão a resposta católica segura aos inúmeros questionamentos da atualidade, em tempos tão convulsivos, de secularização crescente, ateísmo militante e forças manipulatórias que instrumentalizam a Igreja para fins ideológicos anti-cristãos, que de modo sofisticado, agem por dentro da instituição, com a hermenêutica da ambiguidade, com ação cada vez mais corrosiva. Por isso também a evasão do fiéis, que não reconhecem a Igreja de Cristo nesta descaracterização, nos reducionismos e até nas somas das heresias que estão por toda a parte, desconstruindo conceitos, demolindo o arcabouço doutrinal, no afã de fazer valer uma outra Igreja, mais pagã do que cristã.

E ressaltei:
— Mas a Igreja de Cristo é santa, e é a ela que está prometida a proteção permanente do Espírito Santo. E voltei-me aos catequistas presentes, dizendo do quanto me aprecia a frase que rezamos a cada missa: “Bendito seja Deus que nos reuniu no amor de Cristo”.

No caminho de volta para casa, outra catequista concluiu:
— Realmente, o que podemos fazer? Não temos nenhum poder de decisão. Eles assumiram os postos de comando. Estamos sitiados.
Cheguei com minha esposa e filhos ainda muito pequenos, em São Bento do Sapucaí [foto], no dia de São José, em 19 de março de 2001. Sonhava com um lugar que pudesse oferecer uma infância para os filhos, e a bucólica cidadezinha foi um dos presentes de Deus, propiciando os momentos de convivência com o povo bom e devoto daqui, nas alturas azuis da Mantiqueira. Escrevi no meu discurso de posse como Presidente da Câmara, em 1º de janeiro de 2009:

“De fato, há nesta cidade uma leveza especial, que nos eleva e nos dá alento, a almejar às “amplidões supernas” , como um sinal claro e puro do que Deus tem guardado para aqueles que o amam, ambiente aprazível, onde “se frui o lídimo tesouro”, no dizer de Dante: a sua topografia, a claridade límpida do ar, a paisagem doce dessas montanhas, como um bálsamo às vistas; o canto do sabiá ao final da tarde, enquanto as garças brancas sobrevoam a Fazenda do Estado; os vagalumes do vale do Quilombo (mencionados na obra clássica de Eugênia Sereno), os carros de bois do sr. Joaquim Costa, em cuja oficina algumas vezes pude recordar a mística do trabalho inspirado por São José, que aparece na bela estampa de sua oficina. Ali próximo, onde algumas vezes fui com as crianças visitar o admirável jequitibá e ler os salmos à beira do riacho, em meio aos seus bois. Há também os ipês magníficos, especialmente o raríssimo ipê branco, de floração sempre inesquecível.” 

E mais: 
“E ainda as belas cachoeiras, a Pedra do Baú (que escalei uma única vez), o momento de confraternização na fogueira das temporadas do Acampamento Paiol Grande, as cavalgadas, as conversas tão enriquecidas com o artesão Ditinho Joana, em seu atelier de trabalho. Tocante a devoção desse povo: na via-sacra da Quaresma, quando vi — pela primeira vez — a cidade do alto do Cruzeiro, antes das seis da manhã; a reza do terço em família, como na casa de D. Isolina, as procissões e festas religiosas, a Paixão de Jesus Cristo encenada nas ruas da cidade pelo grupo de teatro amador, a coroação de Nossa Senhora pelas crianças no mês mariano, as novenas e celebrações nas igrejas dos bairros rurais, o almoço comunitário no bairro do Quilombo na festa do 13 de maio…”

Somente foi possível residir em São Bento do Sapucaí e recomeçar a vida lá (depois do difícil ano 2000), pois o então pároco local solicitara-me fazer o jornal da paróquia, sugerindo que eu fosse procurar parcerias que pudessem dar sustentação econômica ao periódico, que procurei, desde o início fazer um jornal da “boa notícia”, divulgando iniciativas que pudessem motivar as pessoas à multiplicação dos talentos, conforme a parábola contada por Nosso Senhor Jesus Cristo. De linha conservadora, com o jornal “Comunidade São Bento”, pudemos conhecer todos na cidade, e convergir o trabalho comprometido com a evangelização. Cheguei inclusive a trabalhar um período no escritório paroquial, onde, na pequena biblioteca, pude encontrar alguns volumes dos “Documentos da Igreja”, de modo especial os “Documentos de Pio XII”. Em meio ao trabalho, podia, por exemplo, anotar trechos da Mediator Dei 27, destacando: “É verdade que os sacramentos e o sacrifício do altar têm uma intrínseca virtude enquanto são ações do próprio Cristo que comunica e difunde a graça da Cabeça divina nos membros corpo místico”. E enquanto atendia os paroquianos, fazia as anotações e apontamentos dos documentos do grande Papa Pacelli.

Mas dois anos depois, subitamente, o então pároco ligou-me para dizer que ele seria transferido para a periferia de São Paulo, e que as coisas iriam mudar. De fato, informaram-me que o novo pároco tinha não apenas o estilo, mas o pensamento diferente do anterior. Uma das catequistas me advertira: “As coisas tem de ser do seu modo, e não tem jeito!” Sem sequer usar o clergyman, e com o foco no social, desentendeu-se de cara com o casal que trabalhava no escritório paroquial e não titubeou em demitir os dois, marido e mulher, para mostrar que com ele as coisas funcionavam assim: ou faz as coisas do jeito dele, ou então, não serve. E não tardou para que seu estilo “rolo compressor” fizesse também do jornal paroquial a sua vítima. Incomodado com a metodologia e a linha editorial adotada, alguns meses depois, nos chamou para uma reunião com o conselho paroquial, e foi implacável: “Não quero mais!” E ponto final. Foi assim que o jornal “Comunidade São Bento”, até então o meu ganha-pão na cidade, sofreu esse revés. Ao que socorreu-me um padre norte-americano, presidente de uma instituição educativa no Município, mas residente no Rio de Janeiro, que viabilizou a sustentação daquele periódico comunitário por mais algum tempo. Dez anos se passaram daquele doloroso episódio, ao que, na época, uma catequista ressaltou: “Deu para ver como as coisas funcionam agora? Ou faz do jeito dele ou está fora, entende? Você viu o que aconteceu com a Ana Paula e o Marquinho? E agora, o que você vai fazer? Vai embora?

De fato, o pároco anterior havia me dito: “as coisas vão mudar!” Contudo, permaneci na cidade até hoje, e permaneci Catequista, mas a Ana Paula e o Marquinho tiveram mesmo que ir embora.

Eles conseguiram assumir os postos, em tática gramsciana
Decorridos exatos dez anos, logo após a reunião em que o vigário refutou a minha recomendação das aulas do Padre Paulo Ricardo, a mesma catequista voltou a dizer:

— O nosso sentimento é de impotência, imobilização, acuamento. É isso! Estamos sitiados. O que ocorre é que nós que amamos a Igreja, a Tradição e o Magistério, estamos na base da base, sujeitos aos progressistas, que ocuparam os postos de comando e hoje ditam o que querem, e pronto. Os que buscam manter a Tradição Viva são cuspidos para fora. E aí sim prevalece o burocratismo, a pastoral da manutenção, a instrumentalização e a ideologização da Igreja para fins meramente assistencialistas. Mas você viu o que ele disse: a Igreja “dele” é a de 50 anos para cá, e à “anterior”, de dois mil anos, referiu-se como “coisas velhas e ultrapassadas”. Os que defendem a Tradição de dois mil anos é que são cismáticos, e não eles, com a nova teologia populista, a “teologia do povo”. Eles conseguiram assumir os postos, em tática gramsciana, e agora fazem do modernismo, “a síntese de todas as heresias”, como definiu São Pio X, como o que vale. É fato.

E respondi:
— Sim. Mas ao contrário de muitos que evadiram-se, ainda me mantenho catequista, mesmo sabendo da angústia e o desamparo de boa parte do rebanho católico. Não evadi, pois sou um batizado. Nosso Senhor prometeu proteção à Igreja, à Igreja santa! Não existe isso de “esta” ou “aquela” Igreja, mas a Igreja é uma só: a de Jesus Cristo, “que comunica e difunde a graça da Cabeça divina nos membros corpo místico”, lembrando a Mediator Dei. Ele é a Cabeça, e nós os membros. Ele é a Videira. Queremos estar enxertados na Videira, mesmo que aparentemente estejamos em minoria.

E com isso, descemos a rua da Igreja matriz, em meio à noite escura, mas sabendo que acima de nós, as estrelas feitas por Deus permanecem fixas no firmamento.
______________
(*) Hermes Rodrigues Nery é Catequista na Paróquia São Bento. 


8 de março de 2013

CONCLAVE — dois temas cruciais: “Autodemolição” e “Fumaça de Satanás”



Paulo Roberto Campos


Pesquisando algumas informações a fim de responder à questão colocada por Conceição Pires  na página própria para comentários referentes à matéria “Tendo em vista o ‘Processo de Autodemolição’ e a ‘Fumaça de Satanás’, os católicos desejam uma coisa: CLAREZA” —, encontrei alguns documentos. Lendo-os, julguei que seria interessante fazer um post com a pergunta e minha resposta, pois seria de algum proveito não apenas para a comentarista, mas também para os demais leitores de nosso blog. Aqui segue: 
“Falar de “autodemolição” e de “fumaça de satanás” na época do papa Paulo VI vá lá. Isto em 1978 até que concordo, mas não concordo em falar disso agora. Esses problemas não foram resolvidos com os papados seguintes? Em qualquer caso, classifico-me como uma pessoa que acha importante rezar para que nenhuma fumaça de satanás consiga diminuir a importância da Igreja Católica”. Conceição Pires 
Seria uma enorme satisfação poder comunicar que a “autodemolição” e a “fumaça de satanás no templo de Deus” — expressões do Papa Paulo VI analisadas por Plinio Corrêa de Oliveira em seu memorável artigo CLAREZA (“Folha de S. Paulo”, 16-8-78) — não constituem mais problemas em nossos dias. 


Igrejas modernizadas,
cerimônias religiosas dessacralizadas
Pelo contrário, de lá para cá os problemas não fizeram infelizmente senão crescer. Basta atentar para o esvaziamento dos templos católicos em decorrência das funestas inovações conciliares, que facilitaram a expansão dos evangélicos. Com o falacioso pretexto de atrair o povo, afastaram-no mediante a modernização das Igrejas e das cerimônias religiosas, como se os fieis não estivessem sedentos das tradições que os padres progressistas aboliram. Estes, afinados no diapasão da “Teologia da Libertação”, transformaram a Santa Igreja de Deus numa verdadeira “Torre de Babel” — na qual reina muita confusão e as pessoas, mãozinhas para o alto, falam e cantam aos berros, tocam qualquer instrumento cacofônico, entram vestidas (ou desvestidas) de qualquer jeito...

Devido à crise da Igreja em seus dias, também João Paulo II e Bento XVI alertaram para os mesmos trágicos problemas.

João Paulo II quando declarou em 1981 que “foram difundidas verdadeiras e próprias heresias, no campo dogmático e moral, criando dúvidas, confusões e rebeliões; alterou-se até a Liturgia”.

Pouco antes de ser eleito Papa, em 2005, comentando a IX Estação da Via Sacra, o futuro Bento XVI escreveu (como ainda hoje li no site do Vaticano): “Deveríamos pensar também em tudo quanto Cristo tem sofrido na sua própria Igreja? Quantas vezes se abusa do Santíssimo Sacramento. [...] Quantas vezes se contorce e abusa da sua Palavra [de Nosso Senhor Jesus Cristo]. Quão pouca fé existe em tantas teorias, quantas palavras vazias! Quanta sujeira há na Igreja, e precisamente entre aqueles que, no sacerdócio, deveriam pertencer completamente a Ele! Quanta soberba, quanta auto-suficiência! [...] Senhor, muitas vezes a vossa Igreja parece-nos uma barca que está para afundar, uma barca que mete água por todos os lados. E mesmo no vosso campo de trigo, vemos mais cizânia que trigo. O vestido e o rosto tão sujos da vossa Igreja horrorizam-nos. Mas somos nós mesmos que os sujamos! Somos nós mesmos que Vos traímos sempre, depois de todas as nossas grandes palavras, os nossos grandes gestos”.

Como nossa missivista, Conceição Pires, pode ver, são os mesmos problemas registrados por Paulo VI em seu tempo. Mas é preciso reconhecer que  ela tem razão ao escrever que acha “importante rezar para que nenhuma fumaça de satanás consiga diminuir a importância da Igreja Católica”.


Imagem de São Pedro na Praça
que leva seu nome, em Roma
Estamos às vésperas de um novo Conclave que escolherá o Papa sucessor de Bento XVI. Rezemos empenhadamente para que o Sacro Colégio dos Cardeais seja dócil à inspiração do Espírito Santo e, assim, o próximo Romano Pontífice tenha a força e a virtude necessárias para fazer cessar o desastroso "processo de autodemolição"; extinguir a maldita "fumaça de satanás" que penetrou no Templo de Deus; restaurar a Igreja e impulsionar o mundo inteiro rumo ao magnífico renascimento da Civilização Cristã. 

A Igreja, santa e imortal, poderá passar por períodos de graves crises — como acontece atualmente nesta crise sem precedentes — mas devemos ter a absoluta certeza de que Ela sairá vitoriosa, pois que a assiste o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo, que afirmou: “E eu digo-te que tu és Pedro, e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (São Mateus 16, 19).