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6 de agosto de 2012

FRAGMENTOS DA “HISTÓRIA DA POLIDEZ”

A propósito do que temos exposto sobre excelência da cortesia, mencionei certo comportamento (melhor diria “fenômeno”) que muito me surpreendeu em Paris: temia não ser bem acolhido e ser tratado rispidamente (conforme a lendária falta de hospitalidade e descortesia do francês de nossos dias), mas, muito pelo contrário, fui muito bem acolhido e tratado com extrema gentileza. Como procurava explicação para esse fato que me assombrou, um amigo, o Sr. Marcos Aurélio Vieira, disse-me que tinha lido um livro, publicado em 2009, sobre a história da polidez na França. Segundo ele, em tal livro certamente eu encontraria resposta para o “fenômeno”. 

Claro, pedi o livro emprestado! No que fui gentilmente atendido com toda presteza. Assim, comecei a ler a obra (544 páginas, sem nenhuma ilustração... Para o público brasileiro, creio que ela lucraria com algumas ilustrações...). Pretendo publicar aqui alguns trechos escolhidos para proveito de nossos leitores. Antes disso, alguns dados: 
Frédéric Rouvillois. Nascido em 1964, mora em Paris, onde é professor de Direito Público na Universidade de Paris-V. Autor de várias obras sobre história das ideias, é bibliófilo e colecionador, desde sempre, de tratados de savoir-vivre.(*)  
A obra: A HISTÓRIA DA POLIDEZ. De 1789 aos nossos dias. (Título original: Histoire de la Politesse. De la Révolución à nos jours. “Grua Livros”, São Paulo, 2009. 

O autor: Frédéric Rouvillois. Um professor de Direito que realizou extensa pesquisa histórica a partir da Revolução Francesa — marco da transformação não apenas do regime até então vigente, mas das boas maneiras, costumes e hábitos, impostos pelos novos detentores do Poder (Danton, Marat, Robespierre et caterva). Estes, entre inúmeras aberrações, mudaram até o calendário; gestos de cortesia passaram a ser mal vistos; aboliram o tratamento de “Monsieur” e “Madame” (todos os homens e mulheres, segundo os revolucionários, deveriam ser tratados simplesmente “citoyens” [“cidadãos”]); aboliram o “Vous” (todos eram obrigados a se tratarem por “tu”). Em suma: após terem derrubado a Monarquia, queriam implantar o reino do igualitarismo total. O livro, vencedor do Gran Prix Du histoire de 2007, trata das modificações que ocorreram nos costumes do dia-a-dia, desde a Revolução Francesa (1789) até os tempos atuais. 


Para a postagem de hoje, ofereço aos leitores alguns “morceaux choisis” mais significativos que escaneei da introdução do referido livro (entre as págs. 9 a 16). Apenas inseri os subtítulos, as ilustrações, e assinalei alguns pontos. 

Dedicatória do autor: Para Manon, Charles, Bathilde, Margot e Gabrielle, para Eloi, a fim de que eles compreendam, um dia, por que seus pais lhes ensinaram boas maneiras.  

“A polidez é coisa antiga, mas hoje ressurge com vigor. Desde há alguns anos, a imprensa e todas as mídias constatam seu retorno triunfal, ao mesmo tempo que programas de televisão são dedicados ao savoir-vivre,(*) cursos de civilidade são oferecidos nas escolas ou nos centros socioculturais, obras, artigos, testes e jogos se multiplicam, e a venda de manuais de boas maneiras, que sofrera um declínio acentuado na década de 1970, parece estar de novo a pleno vapor [...]”.
Na parede da Sorbonne, pichado o lema contestatário: “Défense d’interdire!” (É proibido proibir!)
[Comentário: Chamo a atenção para a data “1970”. “As boas maneiras sofrera declínio” logo após a Revolução da Sorbonne (maio de 1968, em Paris). A explosão da rebelião estudantil e libertária, na qual se preconizou uma nova concepção de vida: “Nem mestre, nem Deus, nem regra”. Era um dos slogans bradados pelos estudantes revolucionários de maio de 68. Visava-se implantar a anarquia, estabelecendo uma sociedade “sem regras”. A meta era eliminar os aspectos anti-igualitários da sociedade, expressos nos costumes, nas boas maneiras, na diferença entre os sexos, no respeito pelos superiores, nas tradições de família etc.] 

“Em paralelo a essas iniciativas, uma grande pesquisa de opinião, realizada entre março e abril de 1999, revelava que as boas maneiras são consideradas particularmente importantes por 68% dos franceses; de acordo com outra sondagem, realizada em outubro de 2003 por Mme Figaro, essa cifra se aproximou dos 70% figurando a polidez em segundo lugar, quando os franceses foram questionados sobre os valores que almejam transmitir às crianças: cifras significativas, já que essa opinião, como se sabe, não era partilhada senão por 53% dos entrevistados, quinze anos atrás, e por apenas 21% em 1981.

E não se trata, no caso, de um novo avatar do eterno conflito entre adultos e adolescentes, pois estes, em sua grande maioria, parecem perfilar tais ideias e princípios: a se acreditar na pesquisa Sofres, divulgada em novembro de 2003, os comportamentos que os ‘jovens' consideram, quase por unanimidade, inadmissíveis (insultos ao professor, 96%; falta de respeito com os pais, 94%) dizem respeito a atentados contra as regras da polidez, percebidos por eles como muito mais graves do que um bom número de delitos sujeitos à sanção penal (como trabalho noturno, fraude nos exames, consumo de entorpecentes).

A incivilidade contra os ‘velhos’ e as autoridades, que a ‘cultura de Maio de 1968’ considerava mais uma vez, e até recentemente, um direito imprescritível, como manifestação normal de liberação e desenvolvimento individual, tende nos dias de hoje a ser considerada (novamente) falha imperdoável. Na verdade, nem pesquisadores nem pesquisados esclarecem o que entendem exatamente por ‘polidez’, ‘respeito’ ou ‘boas maneiras’. Mas isso não impede que se constate um verdadeiro retorno a valores que poderiam parecer abandonados para sempre”.

Polidez: uma história de altos e baixos 
 “Ora, sem questionar no momento as razões profundas, a consistência e a perenidade desses indícios, cabe constatar que, se há um retorno, ele se dá porque antes houve um declínio: é que, no curso do tempo, o savoir-vivre conheceu mudanças, mutações profundas. Na verdade, a polidez tem uma história: uma história não linear, descontínua, com altos e baixos, tempos fortes — a Restauração, nas últimas décadas do século XIX, talvez no início do século XXI —; tempos mortos — a Revolução Francesa, o momento posterior a Maio de 1968 —; reviravoltas — a Monarquia de Julho, a Primeira Guerra Mundial —, avanços e recuos...

Se afinarmos o propósito, veremos que não existe apenas uma história geral da polidez — essa que acabamos de evocar —, mas também uma história particular, essa de modos e costumes, formas, regras, ritos do savoir-vivre que também são objetos de variações permanentes, por vezes muito rápidas. Assim é que, no curso da idade de ouro da polidez burguesa, representativa do século XIX, certas práticas surgem, ao passo que outras tendem a desaparecer, a se simplificar ou, ao contrário, a se complicar e a se sobrecarregar”.

Multiplicidade no savoir-vivre em cada país, cada região 
“Paralelamente a essa história, existe uma geografia do savoir-vivre. ‘Sem a polidez’, assinalava o ensaísta Alphonse Karr, na metade do século XIX, ‘não nos reuniríamos senão para combater. É preciso, portanto, ou viver só ou ser polido’.(1) Por essa razão, de uma maneira ou de outra, a polidez existe em todas as sociedades humanas, em todos os países. No entanto, qual cada tem a sua, mais ou menos singular e distinta da dos seus vizinhos: ‘Se um caixeiro viajante, da região do Limousin, me diz: tim, tim, erguendo seu copo, eu lhe respondo gentilmente: com prazer', contava com alegria o romancista Jacques Perret. ‘E se, tendo notado um garagista, na região da Picardia, gritando: bye, bye!, eu dou um passo atrás, para gentilmente me informar sobre o sentido dessa locução e mostrar o interesse que tenho pela gíria da região. O savoir-vivre não é ainda, definitivamente, internacional, e faremos o possível para que não venha a ser. Com a consciência universal, a democracia planetária e a economia mundial, temos amplos motivos para estancar nossa sede, sem instituir a mesura planificada nem racionalizar o buquê de aniversário como se fosse o diâmetro dos pneus. As mil maneiras de realizar uma mesura ou enviar um buquê de aniversário colaboram para essa diversidade que torna a condição humana mais ou menos suportável’. A cada um o seu savoir-vivre: ‘Certos estrangeiros, nórdicos dentre outros, ficam indignados quando nos veem engolir um ovo quente com nacos de pão mergulhados no molho. Estão no seu direito: bom uso aqui, mau costume acolá’.

Num mesmo país, discerniremos às vezes variações sensíveis: sempre mordaz, Jacques Perret sugeriu que é possível ‘estabelecer um mapa da França onde as regiões seriam assinaladas segundo o protocolo das saudações e dos abraços. Veríamos, por exemplo, um traço pontilhado: limite norte do beijo triplo, como para a cultura da vinha’(2) ou um encontrão desagradável.

Essa geografia do savoir-vivre é, de saída, uma geografia histórica, cada região, cada país submetendo-se, no curso do tempo, à influência mais ou menos acentuada de alguns dos seus vizinhos, sem, no entanto, perder inteiramente sua singularidade. Na França, sempre existiram, assim, diferenças notáveis entre o savoir-vivre parisiense, eco direto e herdeiro da corte, e uma polidez provinciana mais rústica, mais tradicional, permanentemente defasada em relação à capital, que nessa matéria sempre deu o tom, sem que ninguém jamais sonhasse em disputar o privilégio.

Dentro da própria capital, distinções acentuadas são discerníveis de longa data: ‘Sob Charles X, e ainda sob Luis Filipe’, observou o historiador Jacques Boulenger, ‘cada quarteirão de Paris tinha seu aspecto particular, seus costumes, seus habitantes, seu ‘mundo’, a bem dizer, e esses ‘mundos’ não se confundiam jamais’, separados por ‘mil nuanças de polidez, de vestimenta, de maneiras e de linguagem’.(3) 

Mas isso significa apenas que, na capital, certos círculos dominantes, em geral reagrupados em determinados lugares (o bairro de Saint-Germain até 1830, o quarteirão do passeio de Antin e da Nouvelle Athènes entre 1830 e 1840), dão o tom aos vizinhos, e a partir daí o impõem, pouco a pouco, ao conjunto da cidade e depois do país. É de Paris, com efeito, que vêm as modas, os usos, mas também sua contestação — como na época revolucionária, depois de 1918, ou ainda, depois de Maio de 1969, no desdobramento da liberação dos costumes.

Em contrapartida, se existe uma geografia (histórica) da polidez, pode-se afirmar que não existe uma sociologia do savoir-vivre, ou, mais exatamente, que esta deixou de existir após a Revolução Francesa, que representa, a esse respeito, uma cisão radical — uma cisão de que Balzac se dá conta num artigo surgido em maio de 1830, ‘Palavras da moda’: ‘Agora que nossos costumes tendem a nivelar tudo, agora que um amanuense de doze centavos pode levar vantagem sobre um marquês, pela graça das maneiras [...], só as nuanças permitirão às pessoas reconhecerem-se, como é devido, no meio da multidão’.(4) Ainda que não goze de unanimidade, ainda que seus preceitos não sejam respeitados de modo idêntico em todos os meios, nem por isso a polidez vem a ser a mesma para todos. [...]”

Revolução Francesa: Golpe contra a “velha França” 
“Ainda que a França, após o reinado de Luis XIV, seja universalmente reputada por seu savoir-vivre, constata-se que a maior parte das regras em vigor evoluiu consideravelmente ao longo dos três últimos séculos. [...]

A história da polidez na França, da Revolução aos nossos dias, poderia ser subdividida em quatro tempos sucessivos. O primeiro se anuncia ao redor de 1789, por meio de uma crise de extrema virulência, no curso da qual os mais radicais tentaram fazer desaparecer a velha civilidade francesa, na qual veem o fruto envenenado do Ancien Régime que eles sonham erradicar até a última lembrança. Mas essa tentativa é rapidamente liquidada por um êxito retumbante, que se inicia com a queda de Robespierre, em julho de 1794, e se conclui com a chegada de Bonaparte ao poder, após o golpe de estado do Brumário no ano VIII (novembro de 1799): os anos seguintes serão marcados pela condenação dessa ‘antipolidez’ jacobina e pela reafirmação das regras do savoir-vivre clássico, que de fato, nesse breve período revolucionário, não se ressentirá de golpes súbitos. Porém, apesar do início catastrófico, o século XIX, em sentido amplo — que se estende de 1800 à Primeira Guerra Mundial — pode ser considerado a idade de ouro da polidez burguesa.

Esse largo período não é evidentemente homogêneo: ele conhece desarranjos significativos, em 1814, com a Restauração, em 1830, com o aquecimento da anglomania, em 1850, com o início do aburguesamento da vida rural, na década de 1890, com a moda fim de século etc. Porém, o período apresenta certo número de traços característicos; o fato de que as regras do savoir-vivre vão ao mesmo tempo se sofisticar — tornando-se no geral cada vez mais complexas, exigentes, rígidas — e se difundir até as camadas relativamente mais modestas da sociedade”.  

Mudanças entre as duas guerras e no post-guerra
“Esse segundo período termina com a Grande Guerra Mundial. Certamente, nessa matéria — que o historiador das representações, dos costumes e dos comportamentos toma como objeto — não existem cesuras nítidas nem fronteiras bem delimitadas: é por isso que bom número de regras de decoro começa a se alterar muitos anos depois da Grande Guerra — como a obrigação de não fumar, imposta às mulheres — ao passo que outras subsistirão, sem mudanças notáveis, nos decênios seguintes e, em alguns casos, até nossos dias.

Todavia, o primeiro conflito mundial não deixa de marcar uma reviravolta decisiva em matéria de savoir-vivre, assim como na ordem política, intelectual, econômica e social: de resto, tudo se intensifica, e o declínio do decoro burguês resulta em particular de terem sido colocadas em causa as condições, em especial materiais e psicológicas, que tinham permitido o seu florescimento ao longo do século anterior. No curso desse terceiro período — o tempo das rupturas, de 1914 à Liberação —, assiste-se com efeito à inversão do movimento que se observara no período precedente, com uma irresistível tendência à simplificação dos usos e ao desaparecimento de alguns deles, aqueles que se tornaram impraticáveis ou que pareceram ilegítimos.

Enfim, com o início da década de 1950 abre-se a era das incertezas, a nossa: de um lado, persegue-se o movimento de desconstrução iniciado no período entre as duas guerras, e o encolhimento progressivo dos grupos sociais respeitadores dos usos do savoir-vivre tradicional; mas, por outro lado, parece também ganhar prestígio, sobretudo depois da década de 1990, certa tomada de consciência de sua importância, assim como a aparição de novas formas de decoro, correspondentes a práticas e atividades até pouco tempo atrás desconhecidas, inabituais ou inconfessáveis. 

Fluxo e refluxo? Numa época em que certa renovação do savoir-vivre parece coexistir com uma radical colocação em causa de seus princípios da metáfora — e, meditando sobre o passado, poderemos nos interrogar sobre qual seria, em nossas sociedades pós-modernas e globalizadas, o futuro da polidez”.
____________
Notas: 
(*) Savoir-vivre. Definição extraída do DICIONÁRIO HOUAISS: Conhecimento e prática dos usos e costumes da vida social; habilidade em lidar com os seres humanos em geral; tirocínio, discernimento.

1. A. Karr, Une poigné de vérités, Michel Lévy Frères, 1866, p. 303. 
2. J. Perret, “La France vue par un Français”, Savoir-Vivre International, ODE, 1951, pp. 14, 18, 20. 3. Boulenger, Les Dandys, Calman-Lévy, 1932, p. 191. 
4. H. de Balzac, “Des morts à la mode”, Oeuvres diverses, t. II, I.

9 de outubro de 2012

Século XIX — saudades da época de bom gosto anterior à Revolução Francesa

Em continuação ao post abaixo (O refluxo da grosseria e o retorno da polidez) — a respeito do empenho revolucionário para a extinção da polidez e o esforço dos franceses, após a Revolução de 1789, para recuperar a antiga cortesia) —, transcrevo novos trechos da obra de Frédéric Rouvillois, “A HISTÓRIA DA POLIDEZ — de 1789 aos nossos dias”.
“Em seu Dicionário dos costumes do mundo, surgido durante a Restauração(*), a condessa de Genlis afirma que as boas maneiras ‘foram inteiramente abolidas em 1792 até 1800, quando algumas delas começaram a ser retomadas’.(1)

De fato, os manuais de polidez se multiplicam entre 1800 a 1814, como se fosse pretendida uma revanche contra a grosseria revolucionária e a corrupção do Diretório. No entanto, essa renovação se efetua segundo um espírito que a governanta do duque de Orleáns considera muito diferente daquele que regera os costumes antigos. [...] 

Sob o Antigo Regime, de fato, o savoir-vivre se forma e se modifica a partir de um lugar único: a corte, centro de gravidade da alta sociedade, da vida mundana e dos bons costumes, na época de Luis XIV(2); uma corte que se estende pelos ‘salões’, sob o reinado de seus dois sucessores, Luis XV e Luis XVI. [...] 

Mas para poder desempenhar o novo papel social que daí por diante lhe cabe, o savoir-vivre sofrerá uma mutação profunda. É certo que deverá ser codificado, a fim de poder ser conhecido, aplicado e difundido. Até a Revolução, as regras do savoir-vivre, transmitidas oralmente no seio das famílias, encontravam-se dispersas, nos escritos dos moralistas. Salvo raras exceções, não se fazia o esforço de reunir esses preceitos de forma ordenada e sistemática, a não ser para as crianças, às quais se destinavam a Civilidade dos costumes das crianças, de Erasmo (1526), e A civilidade pueril e honesta, de [São] Jean-Baptiste de La Salle (1713) [imagem ao lado], dois volumes tão sumários quanto frequentemente reeditados, com infinitas variantes. [...] 

Nostalgia da cortesia que dava o tom antes da Revolução Francesa 
No século XIX, ao contrário, é precisamente a mobilidade social, o surgimento e a rápida ascensão de uma classe média que vão tornar indispensável esse gênero literário. O mesmo fenômeno produz em outras partes, além da Mancha e do Atlântico, onde a criação de manuais de boas maneiras parecem ter sido, paradoxalmente, ainda mais prolífera, com uma média de cinco ou seis por ano, entre 1870 e 1914. Mas a França, a esse respeito, não está em repouso: no século XIX, publicam-se várias centenas de obras consagradas mais ou menos diretamente ao savoir-vivre, ‘códigos’, ‘manuais’, tratados completos ou abreviados, guias ou dicionários, obras inumeráveis, mas que são também muito lidas, mesmo nas camadas mais modestas da população, e reeditadas à exaustão. Uma das mais famosas, Costumes do mundo [ao lado, capa do livro], da baronesa de Stasse, publicada pela primeira vez em 1889, já estava na sua 131ª edição em 1899, dez anos após seu aparecimento, sem saturar o mercado. [...] 

A partir da década de 1860 esses manuais são geralmente redigidos por senhoras portadoras de títulos de nobreza, sendo destinado principalmente ao público feminino, pois se trata de mostrar à pequena e à média burguesia como se deve comportar em alta sociedade e o que é preciso para ‘fazer parte’ dela. [...] 

Os manuais de boas maneiras conferem ao decoro um caráter sistemático, minucioso, sofisticado, que contrasta com a flexibilidade e o tratamento da polidez pré-revolucionária. A crer nos observadores da época, essa rigidez remontaria à etiqueta constrangedora em uso na corte imperial, e ao tom ‘exagerado, enfático, empolado’(3) que, a partir daí, se disseminaria pelo conjunto da polidez francesa. Ou, contrariamente às esperanças dos nostálgicos do Antigo Regime, esta não reencontrará nem seu brilho nem sua simplicidade ingênua, aquilo que Balzac chamava de ‘a graciosa franqueza do século XVIII’. Pois a rigidez napoleônica será bem cedo substituída por um rigorismo de outro gênero, importado da Inglaterra, que marcará fundo os códigos de boas maneiras de 1830. [...] 

É sob o reinado do rei burguês, Luis Felipe, que a França vai saturar-se da polidez à inglesa, que corresponde perfeitamente às expectativas, às necessidades e às estratégias da nova classe dominante. E essa influência inglesa será tão determinante que a Revolução de Julho vai acompanhar por muitos anos ‘o exílio interior’ da alta aristocracia legitimista do bairro de Saint-Germain, que depois da Restauração dava o tom, desempenhando o papel de mantenedor oficioso da antiga cortesia francesa. [...] 

Funções sociais do decoro no vestuário 
‘Dentre todos os hábitos do savoir-vivre, ignorar os que dizem respeito ao toucador e à indumentária denota a máxima vulgaridade’,(4) A etiqueta íntima declara gravemente madame d´Alq, no início da Terceira República.(5) Essa ideia, expressa ao longo de todo o século, brota praticamente da evidência: ‘As funções sociais do decoro no vestuário’, explica a esse propósito o historiador Philippe Perrot, ‘revestem uma importância particular por sua natureza imediatamente visível. Essas leis permitem, antes mesmo de qualquer palavra ou gesto, identificar de imediato o contraventor mais ou menos ignorante e remetê-lo ao lugar que merece’(6) — ou constatar, ao contrário, que a pessoa com quem cruzamos conhece os costumes do savoir-vivre e os pratica corretamente. ‘Assim como uma só palavra basta para trair uma origem, para revelar um passado ou um presente equivoco’, observa Éliane de Sérieul, sob o Segundo Império, ‘da mesma forma não é preciso senão uma renda desajustada, um babado, uma pena, um bracelete e, sobretudo, um par de brincos ou qualquer outro ornamento ambicioso para determinar uma condição social ou propiciar uma classificação aos olhos do homem ou da mulher providos de tato. Certas afetações na maneira de se vestir são falhas de elegância, assim como certas locuções são incompatíveis com a distinção de linguagem’.(7) [...] 

‘Usar uma indumentária em harmonia não só consigo mesmo, com seu caráter, humor, idade, fisionomia, tez, cor de olhos e cabelos, mas também com suas posses e com o lugar que ocupa no mundo, com os eventos e as horas do dia, com as épocas do ano, com os espaços a percorrer, eis aí’, nota Philippe Perrot, ‘um dos primeiros arcanos do decoro no vestuário’.(8) [...] 

Função do chapéu — ao mesmo tempo ornamento e escudo 
Assim como as luvas, e pelas mesmas razões, claramente simbólicas, o chapéu é, no século XIX, um acessório essencial da indumentária feminina, e um dos mais reveladores. E ele de fato corresponde à imagem da mulher, tal como esta é representada pela burguesia dominante: um ser moralmente superior aos homens, mas fisicamente inferior, um bibelô precioso e frágil, que deve ser protegido contra as ameaças sem número que a cercam. 

Daí a função do chapéu, ao mesmo tempo ornamento e escudo. A mulher deve conservar essa proteção, enquanto existir uma ‘ameaça’, por mais virtual ou teórica que seja.

Por isso, estima a baronesa Staffe, é sinal de incivilidade aparecer sem chapéu onde se corre o risco de encontrar, a qualquer momento, algum desconhecido, de quem se ignora o próprio nome.(9) 
Luvas, bengala, gravata — no século XIX, epicentro do decoro masculino 
No século XIX, o vestuário masculino interessa bem menos aos manuais de boas maneiras, às revistas ou às crônicas da moda do que o das mulheres. Depois da Restauração(*), concebido sobre o modelo inglês, o traje do homem tende cada vez mais à uniformidade e à austeridade, contrastando nesse aspecto com a diversidade, a profusão e a suntuosidade dos vestuários femininos. Para o homem de sociedade e o burguês, o século XIX é o século do traje preto e do chapéu alto. 

No entanto, essa simplicidade não deixa de estar igualmente submetida a seus códigos — pois cada hora do dia se caracteriza por um vestuário particular, cada acessório é objeto de regulamentações minuciosas, quer se trate de luvas, bengala ou gravata — epicentro do decoro masculino no vestuário. [...] 

Gravata — influência política, física e moral, suas formas, cores e espécies 
A gravata, escreve Balzac, ‘esparge como que um perfume raro em toda a indumentária’, estando ‘para esta assim como a trufa está para o jantar’. Ela constitui o acessório decisivo, numa época em que estes adquirem uma importância inédita. 

De casaca ou de casaco longo, só um olho de fato bem treinado distingue, ao primeiro golpe, o duque de um funcionário de cartório. São, pois, outros signos que vão indicar as diferenças: as bengalas (particularmente perto do fim do século), as luvas, certamente, mas antes de mais nada e acima de tudo as gravatas, como declara, ainda, Balzac, em um artigo publicado em junho de 1830: ‘Da gravata, considerada em si mesma e em suas relações com a sociedade e os indivíduos’. ‘Sob o Antigo Regime, cada classe da sociedade tinha sua vestimenta; reconhecia-se pela roupa o senhor, o burguês, o artesão. Então, a gravata [...] era só um complemento necessário, de forro mais ou menos rico, mas não merecedor de consideração, assim como sem importância pessoal. Enfim os franceses se tornaram todos iguais em seus direitos, bem como em sua indumentária, e a diferença no forro ou no corte dos trajes não distinguia mais as condições. Como então ser reconhecido em meio a essa uniformidade? Por qual signo exterior distinguir o nível de cada indivíduo? A partir daí, destinava-se à gravata um novo destino: desde então, ela nasceu para a vida pública, adquiriu importância social, pois foi chamada a restabelecer as nuanças, inteiramente apagadas, na indumentária; ela se tornou o critério que permite reconhecer o homem como deve ser e o homem sem educação’(10) 

Acessório por excelência, a gravata, no entanto, esteve sujeita, da Revolução ao início do século XX, a variações muito rápidas.(11) 

Vergonha dos revolucionários, que descobrem o pescoço ou substituem esse símbolo aristocrático por um pano qualquer, amarrado como um lenço; reaparecendo depois do Terror, particularmente entre os jovens extravagantes, que viram aí uma forma de manifesto contra-revolucionário; é sob a Restauração, na época em que Balzac publica sua Fisiologia da Indumentária, que a gravata conhece seu momento de glória. É então que se publica, para uso dos homens elegantes, um Tratado geral das gravatas consideradas em sua origem, sua influência política, física e moral, suas formas, suas cores e suas espécies (1823), Seguida, em 1927, por uma Arte de colocar a gravata de todas as maneiras conhecidas e usuais, ensinada e demonstrada, em dezesseis lições, pelo barão Émile de L´Empesé. [...]

Mas as coisas mudam depois de 1830 e do advento da Monarquia de Julho, dominada pelas elites burguesas mais ativas, que já não dispõem de tanto lazer nem das motivações necessárias, havia pouco, ao rito complexo da gravata. Eis a razão pela qual esta se simplifica, até mesmo em seu volume, assim como também seu papel social tende a se reduzir.

Nem precisaria ser dito, no entanto, que seu uso permanece obrigatório, desde a adolescência, praticamente em todos os momentos do dia.

_________________ 
Notas: 
(*) Período transcorrido de 1814 a 1830, em que se pretendeu, após a queda de Napoleão, o restabelecimento dos princípios monárquicos que vigoraram no regime anterior à Revolução Francesa. 
1. Dictionnaire des usages du monde, Mongie-Ainé, 1818, t. I, p. 75. 
2. N. Élias, La Société de Cour, Flammarion, 1985, pp. 63-64. 
3. La Politesse qui régnait à l´ancienne Cour de France comparée au ton de la Cour de Bonaparte, Renand, 1814, p. 7. 
4. Mme d´Alq, Le Savoir-Vivre en toutes les circonstances de l´vie, librairie de la famille, François Ebhardt, 24ª ed., 1879, p. 209. 
5. Governo republicano da França, de 1870 até a invasão dos nazistas, em 1840, quando passa a ser governo de Vichy. Foi a mais longa república deste a Revolução Francesa de 1789. (N.T.) 
6. Ph. Perrot, Les Dessus et les Dessous de la burgeoisie, une histoire du vétement au XIXe siècle, Bruxelas, Complexe, 1984, p. 169. 
7. Le Diable rose, nº 4, t. 3, 20 de julho de 1862. 
8. Ph. Perrot, Les Dessus et les Dessous de la burgeoisie, une histoire du vétement au XIXe siècle, op. cit., pp. 172-173. 
9. Agenda de la baronne Staffe, 1897, Havard, 1897, p. 51. 
10. H. de Balzac, Physiologie de la toilette, Oeuvres diverses, p. 47. 
11. Ph. Perrot, Les Dessus et les Dessous de la burgeoisie, une histoire du vétement au XIXe siècle, op. cit., pp. 208 e ss.

11 de novembro de 2012

Século XIX — A dama, rainha na sociedade, e o cavalheiro




Continuação do post abaixo (do dia 9-10-12: SéculoXIX — saudades da época de bom gosto anterior à Revolução Francesa, com trechos do livro “A HISTÓRIA DA POLIDEZ — de 1789 aos nossos dias”, de autoria de Frédéric Rouvillois.
 “‘A imagem de um século XIX sombrio e triste, austero e constrangedor para as mulheres, é uma representação espontânea’ (1) — mas sumária, e particularmente inexata. Se o Código Civil adotado em 1804 coloca de fato as mulheres sob a dependência de seus maridos, considerando-as, numa palavra, seres inferiores, debaixo de tutela, é preciso reconhecer que a sociedade, a opinião e a literatura promovem uma imagem muito diferente.
Ao homem, a dominação física e, portanto, a autoridade, o comando, a vontade. O homem, declara assim a baronesa Staffe, é ‘aquele a quem a natureza e a sociedade fizeram o mais forte’.(2). Mas à mulher cabe outro tipo de superioridade moral.
Na década de 1830, madame Celnart recomendava à mulher jamais esquecer que, se ‘ela pode ser superior em espírito, por sua força de vontade [...], exteriormente ela deve ser mulher! Deve agir como esse ser feito para agradar, para amar, buscar um apoio, esse ser tão diferente do homem e tão semelhante ao anjo’.(3) E na mesma época Balzac estigmatizava, sob a pose altiva de madame Rabourdin, o que ele chamava ironicamente ‘a mulher superior’, essa que pretende brilhar por seu espírito ou por seus talentos, independentemente de seu marido e acima dele.
No cômputo geral, a mulher aparece como ao mesmo tempo superior e inferior — colocada num estado que participa da perfeição angélica e da fragilidade pueril. Percebida como essencial, essa diferença entre os sexos deve, a qualquer preço, ser preservada e valorizada.
A rainha e o cavalheiro
Considerados essencialmente diferentes, homens e mulheres obedecem, em suas relações mútuas, a regras distintas, concebidas em função do que os caracteriza.
Do lado dos homens, sua superioridade física e sua inferioridade implicam que eles deem proteção e respeito às mulheres.
Quanto às mulheres, seu estado lhes proporciona certamente múltiplos privilégios, mas também acarreta constrangimentos e interdições sem conta. Para retomar um jargão familiar aos juristas, pode-se dizer que a polidez lhes impõe sobretudo obrigações do ‘não fazer’, numa palavra, interdições, e isso se relaciona ao que, supostamente, é a sua natureza, a meio caminho entre o anjo e a criança — ao passo que os homens, seres ativos, voluntariosos, agentes, se veem submetidos às obrigações do ‘fazer’.
A natureza e a sociedade, explica sem rir a baronesa Staffe, fizeram o homem mais forte, para que ele fosse o protetor da mulher.(4) [...]
A devida proteção à dama
Assim, observa a madame Celnart, ‘a decência exige que um cavalheiro ofereça seu braço a uma dama que passeia a seu lado; a galanteria exige que ele lhe solicite permissão para carregar o que ela traga nas mãos, como uma sacola, um livro, uma sombrinha (com o sol já posto); em caso de recusa, ele deve insistir. Acompanhado de duas damas, o homem não deve se dispensar de dar o braço a cada uma delas’.(5) Com a  graça de Deus, é excepcional o caso do infeliz caminhante que se defronte com o terrível drama de consciência advindo de a regra exigir, de forma imperiosa, que se ofereça à dama o braço esquerdo — sendo  incomensuravelmente raro que se tenha dois deles...
Mas, então, por que o braço esquerdo? Para que a dama acompanhada por ele se mantenha sob sua proteção: enquanto ela se apoia em seu braço esquerdo, o homem deve manter livre seu braço direito, de prontidão, para defende-la em caso de necessidade. Defendê-la, explica a esse propósito a condessa de Gencé, deve ser tomado aqui ‘em sua acepção mais ampla. Defender quer dizer tanto proteger materialmente contra os perigos quanto facilitar as travessias, afastar os importunos, numa palavra: assegurar a passagem e dirigir a marcha’.
Ora, ‘caso o homem se veja na obrigação de proteger a dama contra os malfeitores [...], o braço direito será seguramente o mais útil. Assim, o hábito de oferecer o braço esquerdo resulta em ser lógico, pois é o bom senso que, em matéria de savoir-vivre, proporciona as mais sábias inspirações’.
No entanto, a regra detalhada pela condessa de Gencé, no início do século XX, não parece muito antiga — em 1838, madame Celnart não faz referência alguma a esse respeito — nem muito estrita. Muitos homens, admitindo que o lado direito é o lugar de honra, ‘persistem em oferecer, como se fazia outrora, o braço direito à sua acompanhante’. De fato para dançar, é o braço direito que os cavalheiros oferecem às damas, caso em que a ideia de proteção não tem mais razão de ser, e é o que igualmente sempre fazem aqueles que carregam uma espada, os militares, por exemplo, ‘não para desembainhá-la com facilidade, mas para não prejudicar a passada da montaria’.(6) [...]
Do mesmo modo, na rua, ele cede à mulher a parte alta da calçada, isto é, a parte do passeio mais afastada da rua, fazendo um biombo entre ela e o bueiro — lembrança de um tempo muito recuado em que este não era senão esgoto infecto — e, mais amplamente, entre ela e o exterior. Trata-se, no mais, observa madame Celnart, de uma ‘marca de deferência igualmente devida àqueles que têm direitos respeitantes a nós’(7) — o que demonstra que deferência e proteção podem estar intimamente ligadas, desempenhando o homem, no caso, o papel de um guarda-costas. [...]
A gestão do espaço é aqui manifestação de proteção simbólica. Mas a polidez não exclui a possibilidade de que esta se torne bem real. Assim, caso a mulher acompanhada seja ofendida por outro homem, cabe ao acompanhante, ao cavalheiro, exigir desculpas, e, no limite, reparação pelas armas, como se fosse efetivamente ele, e não a mulher que ele acompanha, a ter sofrido a ofensa. É verdade que um duelo opondo um homem e uma mulher seria não somente contrário a todos os usos, mas propriamente inconcebível: em caso algum um homem bem-educado ergueria a mão contra uma mulher, nem uma dama como deve ser se bateria com um homem. O que não é sempre sem consequências: em junho de 1888, Alphonse Daudet esteve a ponto de se bater em duelo com o jornalista Gabriel Astruc, que tinha escrito um artigo em que insultava sua esposa — e esta chegou a ameaçar o marido com a separação, caso ele não se dispusesse a lavar a afronta. 
Em outro caso, madame Caillaux, mulher do ministro das Finanças, pretendendo punir o editor do Figaro, Gaston Calmette, por haver deixado publicar a correspondência adúltera de seu marido, escolherá — na impossibilidade de um duelo — assassinar o jornalista a tiros de revólver. Conta-se, na época, que, enquanto o policiais entravam em diligência para detê-la, a homicida em potencial teria apostrofado: ‘Não me toquem, eu sou uma dama’.(8)
Mas o homem, protetor nato da mulher, lhe deve também o respeito, esse respeito devido à sua superioridade moral. Um respeito marcado particularmente por meio da saudação, em geral, considerada o mais elementar dos signos exteriores da polidez. ‘Um inferior, qualquer que seja a hierarquia, deverá sempre saudar seu superior. Todavia, um idoso tomará a iniciativa de saudar um homem jovem, caso este esteja acompanhado de uma dama. Mesmo no exército essa regra será rigorosamente observada. Um general deverá saudar, antes, não importa que lugar-tenente, se este estiver em companhia de uma dama. E deverá fazer o mesmo para um ajudante de ordens’.(9) A mulher, qualquer que seja — provado que ela demonstre, como detalha da mesma forma a baronesa Staffe, decência no modo de trajar e um porte adequado(10) — terá direito à deferência naturalmente devida aos superiores, ou aos idosos, qualquer que seja o local do encontro: quando uma mulher entra em sua residência, o dono da casa se inclina diante dela, em princípio tão reverentemente quanto se ele próprio entrasse num salão.
No entanto, se o princípio é estável, incontestado, a prática dessa deferência devida às damas — em especial por meio da saudação — parece sujeita a modas muito flutuantes.
Seria então a mulher, tal como pretende a baronesa Staffe, ‘rainha na sociedade’, e reverenciada pelo homem ‘como um ser mais delicado que ele, como uma pessoa preciosa’?(11) Digamos antes que ela tem, quanto a isso, a ambição, ou a nostalgia. Nostalgia do tempo mítico, em que ‘o príncipe de Ligne, presidente do Senado belga, descobria seus cabelos brancos diante de todas as jovens de baixa corte do castelo de Bel-Oeil’, do tempo em que ‘o orgulhoso Luis XIV [quadro ao lado] erguia seu chapéu diante de uma lavadeira’.(12) Rainha? É o que ela foi outrora, suspira a condessa de Genlis: antes da Revolução. Naquela época, em boa companhia, ‘as mulheres eram tratadas pelos homens com quase todas as atitudes respeitosas prescritas pelos príncipes de sangue; eles não se dirigiam a elas em geral senão em terceira pessoa; entre eles, e diante delas, os homens jamais se tratavam por tu. Quando lhes dirigiam a palavra, era sempre em um tom de voz menos elevado do que o usado entre eles. Essa nuança de respeito’, conclui melancolicamente madame de Genlis, ‘tinha uma graça impossível de descrever’.(13)
Se de fato não é mais rainha, a mulher se mantém sagrada, intocável, o que constitui um considerável privilégio, como afiança Maurice Barrès a Anna de Noailles, a propósito de uma intriga espalhada pela baronesa Deslandes: ‘As mulheres têm verdadeiramente uma irresponsabilidade e um poderio monstruosos. De homem para homem, minha posição seria simples; eu diria: ‘Mas a quem foram mostradas essas cartas? Ao senhor X? Eu vou entender-me com ele’. Seria tudo consensual. Mas, no caso, para além das complicações de detalhe, o fato é que madame D., com seu privilégio de mulher, poderia responder: ‘Eu sei o que sei, eu digo o que digo e me recuso a dar qualquer explicação’.(14) [...]
E isso aconteceria sem que o homem por ela colocado em situação embaraçosa, que ela encurrala até o desespero, pudesse desmentir sem cair no ridículo, ou desafiá-la para um duelo, última solução para resolver, entre homens, os atentados ao decoro e as questões de honra. Em poucas palavras, a mulher, a certos respeitos, está em posição de comando.
Não obstante, essa rainha, essa intocável é também uma escrava, pois tal dignidade e tal superioridade lhe são impostas em troca de obrigações não raro mais pesadas do que as que recaem sobre o sexo oposto. Assim sendo, beneficiárias da proteção dos homens, as mulheres renunciam, no mesmo ato, a toda vontade, a todo poder, a toda autoridade, exceto a mundana e a doméstica.
Em primeiro lugar, sua superioridade moral e mundana faz da mulher a guardiã natural da polidez e do savoir-vivre. Esse lugar comum foi largamente e arrastadamente desenvolvido, em 1801, em um poema medíocre, que, no entanto, gozará de prodigioso sucesso, O mérito das mulheres, de Gabriel Legouvé. No preâmbulo, o autor explica que só as mulheres poderão conduzir o povo francês ‘à genuína urbanidade que quase se perdeu’ [com a Revolução Francesa]. Somente elas, com efeito, ‘aprimoram as maneiras; promovem o sentimento do decoro; são as verdadeiras preceptoras do bom-tom e do bom gosto; elas saberão nos devolver [...] a afabilidade, que era um dos nossos traços distintivos’.(15) É o que continua a repetir, meio século depois, a primeira edição de uma nova revista feminina, O conselheiro das damas [acima, foto da capa]‘As mulheres’, disse em algum lugar madame de Staël, ‘conduzem a sociedade. É sobretudo na França que esse axioma espiritual encontra sua justa aplicação. São as damas de nossos salões que ensinam as regras da verdadeira elegância; somente elas, nesse tempo de lassidão, têm defendido com sua influência civilizadora os princípios do bom gosto, as tradições das belas maneiras e a polidez rara, legada por nossos antepassados’.(16)
Mas exatamente por essa razão, a mulher, e mais ainda a jovem, se submetem a constrangimentos particularmente onerosos. Sobre elas pesam certas restrições, certos interditos desconhecidos dos homens. Assim, o tabaco é geralmente proibido às mulheres, sendo considerado, até o fim do século XIX, como especialmente masculino. Mais constrangedor ainda: até uma idade relativamente mais avançada, uma senhorita só deve sair acompanhada de um parente muito próximo, ou de uma senhora mais idosa, que ganha o título de chaperon, e deve cumprir com zelo seu papel de vigilante.
No início do século seguinte, alguns continuam a ver aí uma interdição necessária, ao passo que outros, a exemplo da condessa de Gencé, constatam, com uma pitada de resignação, que esse ‘velho princípio da polidez francesa, hoje, vem sendo abandonado’, já que daí por diante se chega a autorizar que as jovens, a partir dos 20 ou 21 anos, saiam sozinhas, para passeios na cidade, missas matinais ou visitas de caridade.(17)   
Na realidade, aqui se entremostra uma segunda série de constrangimentos que, na ordem do savoir-vivre, são a contrapartida da proteção de que a mulher se beneficia: o corolário da fraqueza que se lhe atribui e que o decoro a constrange a levar adiante. Supostamente fraca e frágil, ela deve notadamente renunciar a tudo quanto se relacione ao poder e à autoridade, à força e à violência, considerados atributos especificamente masculinos.
Por essa razão, a mulher deve evitar as discussões políticas, que a levariam a se envolver com aquilo que não lhe diz respeito. Como já afirmava madame de Genlis, no início do século XIX, lembrando-se sem dúvida das ambíguas heroínas da Revolução, ‘há de se convir em que, no geral, as mulheres não são talhadas para governar, nem para se envolver nos graves interesses da política’. A prova? ‘Não se encontraria talvez uma só mulher de 20 anos que, dotada de deslumbrante beleza, consentisse (se a troca fosse possível) em abrir mão dela para conquistar um trono’.(18) Em consequência, e ainda que para isso seja preciso fingir, ela deverá ‘nessa conversação, insinuar sua ignorância e se desculpar por não se dispor sequer a emitir uma opinião’. ‘A mulher, continua, a boronesa Staffe, ‘não impõe suas convicções pessoais [...]; um de seus grandes encantos é não posar de superior ao homem, quaisquer que sejam sua inteligência e sua força moral’.(19)
Tal é o leitmotiv do decoro feminino, até a guerra de 1914: reserva e discrição devem marcar cada gesto, cada atitude. O modo de andar, por exemplo, deve ser ‘modesto e compassado’, sem aquela precipitação que, segundo madame Celnart, ensombrece a graciosa decência que caracteriza a mulher.(20) A mulher, acrescenta a condessa Drohojowska, deve mostrar-se amável, cordata, graciosa, mas deve, sobretudo, ‘unir às suas qualidades uma imensa reserva’.(21) No início do século seguinte, a baronesa Staffe ou a marquesa de Pompeillan não dizem outra coisa, ao afirmarem que ‘uma verdadeira mulher do mundo se mostrará reservada em tudo e em toda parte, em casa, na casa de alguém e sobretudo em público’.(22)
Em consequência, proíbe-se, principalmente às jovens, tudo o que poderia ir de encontro a esse princípio, ‘Nada de apertos de mão vigorosos, nada de cruzar as pernas, nada de interesses pelos negócios ou pelo turfe, nada de opiniões categóricas sobre os homens ou as mulheres, nada de familiaridade com os cavalheiros’, lembra a condessa de Gencé. A esse propósito, nem seria preciso dizer que toda iniciativa amorosa é estritamente proibida pelos costumes. Segundo o dito célebre, um homem cortejador é um galante, mas uma mulher que faça o mesmo é apenas uma apreciadora vulgar de galanteios. O máximo que se autoriza às jovens é prestar atenção cordial às galanterias delicadas, ‘desde que’, prossegue a condessa, ‘a galanteria seja uma forma um tanto refinada de polidez’.(23)
Quanto a isso, o século XIX, ‘o século da virgindade’,(24) como por vezes foi qualificado, parece tão afastado do século precedente, quanto do fim do século XX, com sua liberação sexual. É que entre a queda do Antigo Regime e o século seguinte se interpõe a lembrança traumatizante da Revolução — quando se veem, na França, relata madame de Genlis, ‘jovens mulheres de muito boa aparência apresentando-se em público quase inteiramente nuas, como se estivessem na Lacedemônia; tratando-se por tu; [...] dizendo em público, em seu próprio nome, versos eróticos que não poderiam ser assinados nem por homens’.(25) [...]
Dimensão prática da polidez: perenidade da família
Enquanto as opiniões autorizadas por vezes divergem quanto ao sentido e ao alcance de certos princípios de polidez, estes se revelam, quanto a isso, perfeitamente estáveis e concordantes: ‘Um homem que só aplique as regras do savoir-vivre nas suas relações sociais e esqueça-as em família não é um homem de sociedade: tem só o verniz’. Tal julgamento, emitido em 1898 pela marquesa de Pompeillan, ressurge ao longo do século, amparado em justificações ao mesmo tempo utilitárias — é absurdo ser polido no mundo, diante de desconhecidos, com os quais a pessoa talvez jamais volte a se encontrar, e impolido em família, diante daqueles de quem se espera toda a felicidade da vida — e morais.
Nesse quadro privilegiado, a polidez permitirá, de início e efetivamente, evitar que as discussões degenerem em conflito e daí em cenas de descompostura. A baronesa Staffe lembra aos esposos que, em caso de discussão, ‘se souberem refrear qualquer expressão ofensiva ou simplesmente impolida, o bom acordo não tardará a se restabelecer, e um dos cônjuges, o mais dotado, não tardará a ceder. Ao contrário, um dito mordaz, uma palavra injuriosa invocam a tempestade e, não raro, comprometem para sempre o firmamento conjugal’.(27) Percebe-se aí, claramente, a dimensão prática da polidez, fundamento da perenidade da família e da paz dos lares, indispensáveis numa sociedade que proíbe o divórcio ou que o encara sob severa suspeição.
Quanto à intimidade no lar, esclarece madame Celnart, esta pode certamente dispensar certas etiquetas, mas nunca o respeito. Só os abrutalhados imaginam que em família tudo é permitido. Na presença da mulher ou do marido, a pessoa não deve jamais se permitir satisfazer necessidades que introduzam, entre eles, qualquer sentimento de aversão, nem se dedicar a cuidados pessoais que, diante de qualquer um que não seja ela própria, comprometem a decência ou a propriedade — como lavar os pés, cortar as unhas, sair do banho etc.(28)
*       *        *
Em resumo, para o século XIX, a vida conjugal, mesmo na intimidade, não poderia ser uma no man´s land [terra de ninguém] em matéria de polidez — cuja importância aumenta na medida em que se tende a negligenciá-la, já que a inter-relação é decisiva, pois dela depende o futuro da família, à mercê das consequências por vezes incalculáveis de uma expressão fora do lugar, um gesto mal interpretado, em poucas palavras, uma impolidez qualquer.
Uma das gravuras da revista acima mencionada
Notas:
1. G. Fraisse, M. Perrot, in G. Duby, M. Perrot, Histoires des femmes em Occident, t. IV, p. 13.
2. Baronne Staffe, Indications pratiques pour obtenir um brevet de femme chic, Flammarion, 1907, p. 230.
3. Mme Celnart, Nouveau Munuel complet de la bonne compagnie, op. cit., p. 134.
4. Baronne Staffe, Indications pratiques pour obtenir um brevet de femme chic, op. cit., 1907, p. 230.
5. Mme Celnart, Nouveau Munuel complet de la bonne compagnie, op. cit., pp. 267-268.
6. Comtesse de Gencé, Savoir-vivre et usages mondains, Bibliothèque des ouvrages pratiques, [s.d] (1097), pp. 11-12.
7. Mme Celnart, Nouveau Munuel complet de la bonne compagnie, op. cit., p. 270.
8. Citado por L. Daudet, Paris vécu, 1ª série, Rive droite, 1929, p. 109.
9. Comtesse de Gencé, Savoir-vivre et usages mondains, op. cit., p. 5.
10. Baronne Staffe, Usages du monde, Éditions 1900, 1989, p. 104.
11. Baronne Staffe, Indications pratiques pour obtenir um brevet de femme chic, op. cit., p. 78.
12. Baronne Staffe, Usages du monde, op. cit., p. 103.
13. Dictionnaire de l´étiquette, op. cit., t. II, p. 347.
14. M. Barrès a A. de Noailles, carta de 6 de agosto de 1903, em Correspondance, L´Inventaire, 1994, p. 29.
15. G. Legouvé, Le Mérite des femmes, Camuzeaux, 1835, p. XLVII.
16. Le Conseiller des dames, jornal d´économie domestique et de travaux d´aiguille, 1847-1848, t. I, p. 1.
17. Comtesse de Gencé, Code mondain de la jeune fille, Bibliothéque des oeuvres pratiques, 1909, p. 32.
18. Citado por Mme de Saint El..., Les Femmes au XIXe siècle, 1828, pp. 102-103.
19. Baronne Staffe, Usages du monde, op. cit., p. 226.
20. Mme Celnart, Nouveau Munuel complet de la bonne compagnie, op. cit., p. 49.
21. Comtesse Drohojowska, Conseils à une fille sur les devoir à remplir dans le monde, Lyon, Périsse, 1853, p. 98.
22. Marquise de Pompeillan, Usages du monde dans la societé moderne, le guide de la femme du monde, Pontet-Brault, 1898, p. 228.
23. Comtesse de Gencé, Code mondain de la jeune fille, op. cit. Pp. 32, 228.
24. A. Corbin, em Ph. Ariès, G. Duby, Histoire de l avie privée, Le Seuil, 1987, t. IV, p. 540.
25. Cf. A. Montandon, “Civilités”, em Civilités extremes, Clermont-Ferrand, Association publication faculté Clermont-Ferrand, 1997, pp. 115 sq.
26. Marquise de Pompeillan, Guide de la femme du monde, op. cit., p. 149.
27. Baronne Staffe, Usages du monde, 1989, p. 347.
28. Mme Celnart, Nouveau Munuel complet de la bonne compagnie, op. cit., pp. 23-24.

26 de agosto de 2012

Uma infernal Revolução para extirpar a memória do Antigo Regime

No post anterior [“Diz-me como falas e dir-te-ei quem és”] consideramos como cabecilhas da Revolução Francesa declararam uma verdadeira guerra contra a linguagem polida, os bons costumes e os bons modos, e introduziram uma nova linguagem igualitária e grosseira. 

Hoje veremos como nesta “guerra” colaboraram — no mesmo molde do movimento feminista de nossos dias — as reivindicações do feminismo radical; os esforços de revolucionários para se obter uma ruptura dos laços familiares, abolindo hábitos tradicionais, a cortesia e o refinamento do Antigo Regime. Enfim, a implantação do trato igualitário em todas as relações sociais, entre pais e filhos, patrões e empregados, professores e alunos, homens e mulheres, superiores e inferiores etc. 

Tudo isso baseado nos trechos abaixo, que selecionei do livro A HISTÓRIA DA POLIDEZ — De 1789 aos nossos dias, de Fréderic Rouvillois. 

“O papel da mulher na Revolução Francesa é demasiado complexo para ser evocado em algumas linhas. O que se pode salientar é que as principais 'heroínas' da Revolução, como Olympe de Gouges ou Théroigne de Méricourt, reivindicam, pela palavra e pela ação, uma estrita igualdade de sexos. 


Em sua Declaração dos direitos da mulher, datada de 1791, Olympe de Gouges [gravura à esquerda] proclama: ‘A mulher é livre e igual ao homem em direitos’, ‘o princípio de toda soberania reside essencialmente na Nação, que não é senão a reunião da mulher e do homem’, e se ‘tem o direito de subir ao cadafalso, a mulher deve ter igualmente o de subir à tribuna’.(1) 




Théroigne de Méricourt [miniatura à direita] fundou em 1790 o Clube dos Amigos da Lei, no qual as mulheres, como os homens, têm o direito de voto, e em 1792 recebeu uma coroa cívica por sua participação ativa na insurreição de 10 de agosto. Nada de diferenças, nada de hierarquias: a nova mulher não pretende mais situar-se, com o homem, na relação clássica de sedução e proteção, que o século XVIII tinha levado ao paroxismo. Daí uma completa subversão dos códigos em vigor. [...]

“Daí por diante, em virtude do igualitarismo republicano, a mulher que assim o deseje pode decidir sobre seu destino matrimonial e dotar comportamentos e maneiras dificilmente concebíveis sob o império dos costumes antigos. 

Ideia análoga encontra-se nos modelos de cartas de divórcio — sendo que [na França] o divórcio por consentimento mútuo foi reconhecido por lei em 20 de setembro de 1792 — propostos então pelo Secretário dos republicanos: ‘Nós nos casamos sem sermos amantes. Tal união não pode perdurar, num tempo de liberdade, nesse tempo que durará para sempre. É a forma de nos concedermos reciprocamente a liberdade’, escreve o marido. ‘Cidadão’, responde a esposa, ‘eu aceito a proposta que me fazes’.(2) 

Revolução Francesa: ruptura com os laços familiares 
“No que diz respeito às relações entre pais e filhos, deparamos com outra espécie de figura. De um lado, com efeito, alguns dos mais duros atores da Revolução, sans-culottes, enfurecidos etc. se deixam docilmente seduzir por um discurso utópico, em larga medida precursor dos totalitarismos por vir, que implica um relaxamento, senão uma ruptura absoluta dos laços familiares. Para os mais extremados, a criança pertence à República e não mais a seus progenitores, desde a idade de 5 anos, quando não desde o nascimento. 


Na ordem social concebida de acordo com os princípios, assim se explicará, alguns decênios mais tarde, Buonarotti [Filippo Giuseppe Maria Ludovico Buonarotti — mais conhecido como Buonarroti (quadro ao lado)] que é então adjunto do comunista Babeuf: ‘A pátria se apodera do indivíduo ao nascer, para não abandoná-lo senão ao morrer’.(3) Neste caso o amor fraterno será substituído pelo respeito filial, e a hierarquia pela liberdade. 



Sem ir tão longe, o relaxamento dos laços familiares pode se traduzir em contestação da autoridade paterna — que a opinião pública, é verdade, parece pouco inclinada a aceitar. ‘Parece estanho um decreto da Comuna que não permite mais aos mestres, nem aos pais e às mães, corrigir suas crianças por meio de algum castigo corporal, o que, afirma-se, é a causa de as crianças terem-se tornado tão travessas’.(4) 

Supressão das festividades e saudações tradicionais
Porque mesmo aqueles que sonham com isso projetam suas esperanças num futuro distante; enquanto aguardam, o respeito devido aos pais deve subsistir, ainda que se exprima, daí por diante, de um modo simplificado, dessacralizado e racionalizado: ‘Não estamos mais no tempo do cerimonial’, esclarece o autor do Secretário dos republicanos, que lembra não ser mais necessário enviar aos pais voto de feliz ano novo, ‘esse tipo de carta ridícula e bizarra’, de que a polidez antiga fazia questão cerrada. 

‘Eu não acredito’, escreve então um filho a seu pai, ‘que tu te irrites por não receber esses votos [...]. É um costume que o republicano deve abolir. As obras de um pai são [apreciáveis] de outra maneira; não há um dia marcado para lhe testemunhar o reconhecimento que, num filho, deve ser continuo...’. E o pai contra-argumenta, em resposta: ‘Quanta hipocrisia! Que falsos beijinhos. É preciso que o vício não tenha subterfúgios, e que a virtude dispense convenções’.(5) [...] 


“Proclamada a República, a celebração do Dia de Ano é proibida: ‘Morte a quem faça visitas!’, comentam os Goncourt [os irmãos Edmond e Jules de Goncourt (desenho ao lado), conhecidos como “historiadores patrióticos”)], ‘Morte a quem ouse distribuir cumprimentos! E os governantes, nesse dia, vão abrir todas as cartas no correio, para se assegurarem de que todos esqueceram o calendário gregoriano e os votos de boas-festas’.(6) 

Os que celebram o Dia do Ano passam a ser suspeitos, como registra um agente secreto do ministro do Interior, num relatório de 31 de dezembro de 1793: ‘O Antigo Regime ainda não foi suprimido dos corações. Vê-se por toda Paris três quartos de cidadãos apressados em desejar um bom ano’.(7) Na manhã seguinte, outro espião, Rolin, confirma em seu relatório: ‘Os antigos preconceitos podiam bem desaparecer. Observou-se que, não obstante, o ano [republicano] já tenha cumprido uma estação, muitos cidadãos consideram que esteja começando hoje. As visitas se deram, como de costume; até nas ruas foram ouvidos cidadãos se desejando um bom ano’ — o que constitui uma afronta, e uma informação que merece ser transmitida ao ministro. ‘É preciso tempo’, conclui, Rolin, ‘para esquecer os preconceitos, os hábitos contraídos ao nascer’.(8) [...] 

Acima de tudo, ‘os novos costumes’, como diz Robespierre, devem substituir os hábitos, manifestações repreensíveis de uma polidez decididamente suspeita e de um ‘aprumo’ intrinsecamente aristocrático. 

Igualitarismo em todas as categorias, inclusive nas Forças Armadas 
A realidade, com efeito, parece mais difícil de se impor nas relações hierárquicas. Aqui, a antipolidez revolucionária, no contrapé das maneiras antigas, se prende a uma tentativa de neutralização, de nivelamento das diferenças. 

A questão, como se verá mais adiante, ocupará extensamente no século XIX todos os autores de tratados de savoir-vivre. Numa nota algo preciosa, o autor do Secretário dos republicanos esclarece que, doravante, ‘devem chamar-se homens e mulheres de confiança àqueles [empregados domésticos] que o destino ordenou servir a seus iguais. Essa expressão não é insultuosa como lacaio ou doméstico’.(9) 


É essa mesma igualdade que os sans-culottes parisienses, último reduto do extremismo revolucionário, tentam impor às forças armadas: não vem ao caso que aí tenham sobrevivido a velha etiqueta e o protocolo antigo, que manifestam as mesmas desigualdades, as mesmas diferenças das regras da polidez. No dia 25 de novembro de 1792, com base em proposta da seção de Halles, a assembleia da Sociedade Fraternal do Homem em armas decreta não admitir, nessa matéria, ‘nenhuma distinção senão as indispensáveis ao comando’. 

Restabelecer as distinções conduziria de fato a ‘destruir a unidade de ação do serviço e os princípios da igualdade e fraternidade’.(10) Quanto a Hébert, este cede a palavra a um simples soldado, que se pergunta: por que os generais e os oficiais ‘se cobrem de galões de ouro? Republicanos devem se distinguir pelos belos uniformes? Se somos todos iguais, é preciso acabar com a aristocracia dos uniformes, sobretudo no exército’”.(11)
____________ 
Notas: 
1. O. de Gouges, Oeuvres, Mercure de France, 1986, p. 101.
2. Secrétaire des républicains, ou Nouveaux modèles des lettres sur diferentes sujets, Barba, 1793, pp. 89, 91. 
3. Ph. Buonarotti, Conspiration pour l´égalité, Éditions sociais, 1957, t. 1, pp. 204, 164. 
4. Citado por P. Caron, Paris pendant la Terreur, op. cit., t. III, p. 363. 
5. Secrétaire des républicains, op. cit. pp. 72, 10-12. 
6. E. et J. Goncourt, Histoire de la société française pendant de Directoire, Charpentier, nova edição, 1898, p. 196. 
7. P. Caron, Paris pendant la Terreur, op. cit., t. II, p. 101. 
8. Ibid., p. 125; também no relatório Dugas, de 2 de janeiro, p. 135. 
9. Secrétaire des républicains, op. cit. p. 85. 
10. Citado por A. Soboul, Les Sans-Culottes parisiens en l´an II, op. cit., p. 658. 11. Le Père Duschene, nº 311.
11. Le Père Duschene, nº 311.