8 de janeiro de 2011

Moralidade: a única “vacina” eficaz contra a AIDS

O Instituto Plinio Corrêa de Oliveira publicou um documento com o objetivo de esclarecer a enorme confusão causada pelas recentes declarações de Bento XVI a propósito do uso de preservativos.

Para apreciação de nossos leitores defensores da integridade da vida familiar, segue a transcrição de tal documento, divulgado no dia 28 de dezembro passado, escusando-me pela demora. Não o transcrevi antes devido a uma viagem iniciada às vésperas da passagem de ano. 


Como veremos, as verdadeiras armas para se combater o HIV/AIDS, e tantos outros males que assolam as famílias, são a castidade pré-matrimonial e a fidelidade conjugal. A propaganda (enganosa) a favor do uso de preservativos não evita a expansão da AIDS — transmitida principalmente pela relação homossexual — e só favorece a corrupção da instituição da família.




Moral católica e combate à Aids
Declaração do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira

http://www.ipco.org.br/home/destaque/moral-catolica-e-combate-a-aids-um-importante-esclarecimento

28 DE DEZEMBRO DE 2010

Nas últimas semanas, a mídia deu grande destaque a repercussões das palavras de Bento XVI, em seu livro-entrevista Luz do Mundo, sobre o uso de preservativos em determinadas circunstâncias[1].
-----------------------------------------------------------------------------------------------
[1] As palavras do Papa foram as seguintes:
Papa Bento XVI: Não tinha, nesse contexto [viagem à Africa], dado a minha opinião em geral quanto à questão dos preservativos, mas apenas dito – e foi isso que provocou um grande escândalo – que não se pode resolver o problema com a distribuição de preservativos. […] É necessário fazer mais. Desenvolveu-se, entretanto, precisamente no domínio secular, a chamada teoria ABC, que defendeAbstinence – Be faithful – Condom (Abstinência – Fidelidade – Preservativo), sendo que este último só deve ser entendido como uma alternativa quando os outros dois fracassam. […] Pode haver casos pontuais, justificados, como por exemplo a utilização do preservativo por um prostituto, em que a utilização do preservativo possa ser um primeiro passo para a moralização. […] Não é, contudo, a forma apropriada para controlar o mal causado pela infecção por VIH/HIV. Esta tem, realmente, de residir na humanização da sexualidade.
Peter Seewald: Quer isso dizer que, em princípio, a Igreja Católica não é contra a utilização de preservativos?
Papa Bento XVI: É evidente que ela não a considera uma solução verdadeira e moral. Num ou noutro caso, embora seja utilizado para diminuir o risco de contágio, o preservativo pode ser um primeiro passo na direção de uma sexualidade vivida de outro modo, mais humana”.
-----------------------------------------------------------------------------------------------

A interpretação geral da mídia foi de que a Igreja mudou sua posição e agora permite o uso desses pseudo-profiláticos, em certos casos. Alguns teólogos e dignitários eclesiásticos de alto nível adotaram a mesma posição, causando confusão entre os católicos.

O pronunciamento mais significativo em tal sentido veio do Cardeal Georges Cottier, que foi teólogo da Casa Pontifícia sob o Papa João Paulo II. Segundo o purpurado suíço, as palavras do Papa significam que “é legítimo, em certos casos, utilizar o preservativo para não transmitir a Aids” e as pessoas que se encontram diante desse problema “pelo menos sentir-se-ão aliviadas em consciência ao saber que, adotando esse meio, não fazem o mal”[2].
-----------------------------------------------------------------------------------------------
[2] Cfr. Questions à … Cardinal Georges Cottier, ancien théologien du Pape, propos recueillis par Jean-Marie Guénois, "Le Figaro", 22 de novembro de 2010.
Já em 2005, o Cardeal Cottier defendera essa posição (cfr. Luis Sérgio Solimeo e Raymond Drake, The Church’s Infallible and Immutable Doctrine on Contraception Stands Amid Growing Opposition, 18 de março de 2005, http://www.tfp.org/tfp-home/books-and-statements-online/the-churchs-infallible-and-immutable-doctrine-on-contraception-stands-amid-growing-opposition.html ).
-----------------------------------------------------------------------------------------------
No mesmo sentido pronunciou-se o Subsecretário do Conselho Pontifício para a Família, Mons. Carlos Simón, em declarações a um jornal madrilenho: “Uma pessoa pode fazer uso do preservativo de forma responsável para não contagiar nem produzir um mal que prejudique a vida. (…) O preservativo é, portanto, um mal menor que evita um possível contágio”[3].
-----------------------------------------------------------------------------------------------
[3] Cfr. entrevista con Darío Menor, La Razón, Madri, 21-10-2010, http://www.larazon.es/noticia/2083-el-vaticano-matiza-que-las-palabras-del-papa-no-son-un-cambio-revolucionario .
Em 2004, o cardeal belga Godfried Danneels tinha ido até mais longe, transformando essa pretensa autorização numa obrigação positiva, ao declarar à televisão holandesa que “quando uma pessoa soropositiva diz ao seu parceiro ‘Eu quero ter relações sexuais’, ela deve usar o preservativo. (…) A pessoa deve usar preservativo para não infringir o mandamento que condena o assassinato, além de infringir o que proíbe o adultério” ( http://archive.indymedia.be/news/2004/01/79642.html ).
-----------------------------------------------------------------------------------------------
Provavelmente inspirado em princípios similares, o pároco da catedral de Goiás Velho (GO) promoveu, no interior do recinto sagrado, a exposição de cartazes imorais, a projeção de vídeos e a difusão de kits contendo preservativos, junto com um folheto explicativo de como usá-lo, numa parceria da paróquia com a Secretaria Municipal da Saúde daquela cidade. Apesar de ter assumido plena responsabilidade pelo sucedido, até hoje o referido pároco não foi objeto — que se saiba — de nenhuma sanção por parte da Diocese.

Obviamente, tais declarações e atitudes são injustificáveis do ponto de vista da Moral natural e da doutrina católica.

Nas semanas transcorridas desde o dia 20 de novembro – quando "L’Osservatore Romano" divulgou as declarações do Papa[4] – pôde observar-se o júbilo de católicos progressistas, bem como a surpresa e perplexidade de muitos católicos engajados na luta pela vida e pela família. Em particular, daqueles que visitam nosso site Internet e acompanham nossas atividades.
-----------------------------------------------------------------------------------------------
[4] O portavoz da Santa Sé, Pe. Federico Lombardi S.J., esclareceu que, na sua entrevista, o Papa falou “numa forma coloquial e não magisterial” (cfr. Salla Stampa della Santa Sede, http://visnews-ita.blogspot.com/2010/11/nota-direttore-sala-stampa-parole-santo.html ).
Ao apresentar o livro à imprensa, o Arcebispo Rino Fisichella enfatizou que as opiniões nele expressas não requerem o assentimento dos fiéis, mas apenas respeito (Cindy Wooden, Pope’s teaching in new book deserves respect, says Vatican official, The Catholic Telegraph, 23 de novembro de 2010, http://www.thecatholictelegraph.com/index.php?option=com_content&view=article&id=1864:popes-teaching-in-new-book-deserves-respect-says-vatican-official&catid=3:world&Itemid=2 ).
----------------------------------------------------------------------------------------------
O Instituto Plinio Corrêa de Oliveira — IPCO é uma entidade de caráter cívico, que cuida de assuntos temporais, notadamente da defesa dos valores básicos da civilização cristã, aos quais consagrou a vida o ilustre líder católico brasileiro que lhe dá o nome. Portanto, o IPCO não é chamado, ordinariamente, a pronunciar-se sobre assuntos teológicos, morais e pastorais que, por sua própria natureza, encontram-se fora dos seus fins. Porém, na atual emergência, caso as idéias e os comportamentos errôneos acima mencionados continuem a se disseminar, vacilará no espírito dos brasileiros toda a doutrina moral que serve de fundamento à nossa ação, inspirada na doutrina social da Igreja[5].
-----------------------------------------------------------------------------------------------
[5] Na encíclica Sollicitudo Rei Socialis, o Papa João Paulo II insistiu que a doutrina social da Igreja é uma interpretação à luz da fé das complexas realidades da existência do homem na sociedade, com vistas a orientar o comportamento cristão; pelo que ela pertence ao domínio da teologia moral (cfr. n° 41).
-----------------------------------------------------------------------------------------------
O IPCO vê-se assim obrigado a tratar excepcionalmente de tais assuntos, reconhecendo que seus membros não tem as qualificações acadêmicas nem a graça de estado para resolver todas as complexíssimas questões teológicas, morais e pastorais envolvidas no caso. Porém, como é notório, bom número de discípulos de Plinio Corrêa de Oliveira são católicos cultos e instruídos e, como tantos outros católicos perplexos, têm procurado acompanhar os debates que surgem na esfera eclesiástica a respeito dessas questões. E sabem discernir, nos velhos manuais e nos escritos recentes, os ecos do magistério tradicional da Igreja Católica.

É baseados nesses princípios tradicionais da Moral católica e da Lei natural que formulamos a seguir algumas considerações a respeito das implicações morais do uso do preservativo, levando previamente em conta o que dizem a ciência e a experiência quanto aos resultados de tal uso.
*     *     *
1. Preconceitos ideológicos desconsideram o que a ciência e a experiência demonstram quanto ao suposto combate à Aids pelo uso de “preservativos”

A. As relações sexuais promíscuas são a principal causa da epidemia da Aids

É conhecido que a principal causa da epidemia da Aids é a infecção com o virus HIV, o qual se propaga especialmente através de relações sexuais promíscuas ou sodomíticas. Secundariamente, difunde-se pelo uso compartilhado de seringas entre drogados ou pelo contato com sangue contaminado em transfusões, cirurgias, etc., além da transmissão vertical aos bebês pelas mães contaminadas[6].
-----------------------------------------------------------------------------------------------
[6] Cfr. Centers for Disease Control and Prevention, How is HIV passed from one person to another?, http://www.cdc.gov/hiv/resources/qa/transmission.htm ; HIV and AIDS among Gay and Bisexual Men, http://www.cdc.gov/nchhstp/newsroom/docs/FastFacts-MSM-FINAL508COMP.pdf .
-----------------------------------------------------------------------------------------------
Apesar do grande progresso obtido no aumento da expectativa de vida das pessoas contaminadas, mediante o uso adequado de drogas anti-retrovirais, ainda não há nenhuma vacina ou droga para prevenir o contágio em caso de contato com sangue, sêmen ou outros fluidos orgânicos infectados.

B. O uso de preservativos pode diminuir, porém não elimina o risco de contágio

O uso de “profiláticos” pode diminuir o risco de transmissão por via sexual do vírus HIV, porém não o elimina. O tão propalado “sexo seguro”, em relações promíscuas ou antinaturais, é portanto um mito.

Mesmo as agências estatais norte-americanas que recomendam o uso de preservativos reconhecem que a abstinência sexual, ou a fidelidade a um parceiro único e estável não contaminado, são as únicas vias eficazes para evitar a transmissão de doenças sexualmente transmissíveis, incluído o vírus do HIV[7].
-----------------------------------------------------------------------------------------------
[7] Cfr. Centers for Disease Control and Prevention, Condoms and STDs: Fact Sheet for Public Health Personnel, http://www.cdc.gov/condomeffectiveness/latex.htm .
-----------------------------------------------------------------------------------------------
Portanto, a única via eficaz para eliminar a epidemia da Aids é promover a moralização dos costumes.

C. Campanhas de prevenção que não visam a raiz do problema

As campanhas anti-Aids geralmente não visam denunciar a principal causa da disseminação da doença – a promiscuidade sexual – e oferecem um mero paliativo: o uso de “profiláticos”.

Muitas dessas campanhas até exploram o medo da Aids para promover um desvirtuamento da sexualidade, legitimando a promiscuidade sexual e as práticas aberrantes contrárias à natureza, desde que se use o preservativo. Passa-se, assim, de um juízo moral das ações humanas – no caso, da sexualidade – para uma avaliação pragmático-científica das mesmas: bom é aquilo que “funciona” do ponto de vista científico. Entretanto, até essa visualização é contraditada pela ciência e pelos dados empíricos, visto que os preservativos não “funcionam” cem por cento.

D. Preconceitos ideológicos desvirtuam o comportamento sexual de adolescentes e jovens

Tais campanhas, fundadas em preconceitos ideológicos, conduziram a uma quebra do padrão moral da população e facilitaram a disseminação da pandemia, prometendo a falsa garantia de um sexo promíscuo, mas “seguro”. E apesar das relações sexuais promíscuas serem indiscutivelmente o maior vetor de difusão da Aids, tais campanhas espalham o mito do “sexo seguro” em lugar de pregar a moralização dos costumes[8].

-----------------------------------------------------------------------------------------------
[8] A respeito do aspecto ideológico de tais campanhas, ver o excelente estudo de Mons. Michel Schooyans [professor emérito da PUC de São Paulo e membro da Academia Pontifícia pela Vida] e Anne-Marie Libert, Le terrorisme à visage humain(Paris: Éd. de Guibert, 2008).
-----------------------------------------------------------------------------------------------
Na perspectiva errônea dessas campanhas, dá-se por certo que, sendo o ser humano dotado do instinto sexual, é lícito ao homem fazer uso dele sem nenhuma barreira moral; mais ainda, não dar livre curso a essa apetência natural produziria distúrbios físicos e psíquicos. O que não passa de um preconceito ideológico, porque o homem deve regular-se em tudo pela razão, o que o distingue dos animais irracionais. E a razão leva justamente os homens à constituição da família, única instituição em que o instinto sexual pode ser exercido em conformidade com o seu fim natural que é a propagação da espécie humana.

A negação desta verdade e a adoção do preconceito ideológico que acaba de ser mencionado desvirtua o comportamento sexual de adolescentes e de jovens, um grupo demográfico com crescente número de pessoas infectadas com HIV e outras doenças sexualmente transmissíveis[9].

-----------------------------------------------------------------------------------------------
[9] Cfr. Centers for Disease Control and Prevention, Sexual and Reproductive Health of Persons Aged 10–24 Years — United States, 2002–2007, http://www.cdc.gov/mmwr/preview/mmwrhtml/ss5806a1.htm ; Study: Half of Young Americans to Get Sex Diseases, Maggie Fox, Health and Science Correspondent, http://story.news.yahoo.com/news?tmpl=story&cid=571&nci …; Nastasya Tay, UN says AIDS epidemic slows, infections dropping, http://www.ajc.com/health/un-says-aids-epidemic-751864.html .
-----------------------------------------------------------------------------------------------

Uma comparação entre essas iniciativas e as campanhas contra o tabagismo é esclarecedora.

A partir do momento em que as autoridades de numerosos países concluíram que o uso do cigarro é perigoso para a saúde, os governos começaram a adotar todo tipo de medidas, inclusive legais, como a proibição de fumar em lugares públicos, para desencorajar tal hábito. Não há, porém, nenhuma campanha, nacional ou internacional, para promover o “cigarro seguro” e encorajar o uso de filtros para reduzir o risco de câncer das vias respiratórias, insuficiência cardíaca ou outras doenças ligadas ao uso do tabaco. Ninguém organiza a distribuição maciça de filtros nas escolas, nas prisões, etc., como é feito no caso dos preservativos. A razão é simples: a maioria dos promotores das campanhas antitabagistas estão convictos de que a abstinência do fumo é a maneira mais eficaz para reduzir os problemas de saúde ligados ao tabagismo[10].

-----------------------------------------------------------------------------------------------
[10] Cfr. Tara Parker-Pope, “Safer” Cigarettes: A History http://www.pbs.org/wgbh/nova/cigarette/history.htm
-----------------------------------------------------------------------------------------------

Por que, então, no caso da Aids, insiste-se tanto em promover o “sexo seguro”, em lugar de advogar a abstinência e a fidelidade conjugal, desencorajando toda promiscuidade?

E. A cultura erótica rejeita a castidade como solução e sustenta que o prazer sexual é um “direito humano”

Convém insistir sobre este ponto fundamental. A castidade dentro e fora do casamento está de acordo com a Lei natural e a Revelação cristã e eleva o padrão moral da sociedade. Além de trazer benefícios para a saúde, ela é o meio mais eficaz de combater a Aids e outras doenças sexualmente transmissíveis. Porém, devido ao referido preconceito ideológico, a prática da castidade é simplesmente rejeitada em favor do mito do “sexo seguro”[11].

-----------------------------------------------------------------------------------------------
[11] Serve de contraste o fato de que, em lugares como Uganda, onde a castidade é promovida como meio de combater a Aids, os resultados tenham sido excelentes. Nas suas campanhas de prevenção da Aids, os responsáveis ugandenses enfatizam evitaro risco, e não apenas reduzir o risco. Em outras palavras, o foco central das campanhas é a abstinência sexual e a fidelidade conjugal, e não a distribuição e o uso de preservativos. Os resultados obtidos têm sido altamente alvissareiros e vantajosos, sobretudo entre os jovens (cfr. Edward C. Green, Moving Toward Evidence-Based AIDS Prevention, in Thickstun and Hendricks, eds., Evidence that Demands Action, p. 18).
-----------------------------------------------------------------------------------------------

O ambiente cultural erotizado de nossos dias apresenta a prática da castidade como impossível ou até como antinatural, ao passo que defende como “normais” as relações homossexuais. Mais ainda, o prazer sexual é considerado um “direito humano” que cada pessoa pode exercer, quaisquer que sejam o objeto, as circunstâncias ou os meios de satisfazê-lo, sem levar em nenhuma conta os riscos de propagar doenças venéreas, particularmente a Aids[12].

-----------------------------------------------------------------------------------------------
[12] Cfr. Declaração dos Direitos Sexuais do XIII Congresso Mundial de Sexologia, Valência, 1997, emendados no recente congresso de Hong Kong, http://www.dhnet.org.br/direitos/sos/gays/direitossexuais.html, Educação Sexual: Múltiplos Temas, Compromissos Comuns, Mary Neide Damico Figueiró (org.), Universidade Estadual de Londrina, Ministério da Educação, Londrina, 2009, pp. 22-24; http://www.maryneidefigueiro.com.br/pdf/Educacao_Sexual_Multiplos_Temas.pdf , Em Campanha por uma Convenção dos Direitos Sexuais e dos Direitos Reprodutivos, Entrevista com Susana Chiarotti, in Jornal da RedeSaúde, nº 24, dezembro de 2001, http://www.redesaude.org.br/Homepage/JornaldaRede/JR24/Jornal%20da%20Rede%20n%BA%2024.pdf ; e Jennifer Oriela (University of Melbourne), Sexual pleasure as a human right: Harmful or helpful to women in the context of HIV/AIDS, http://www.sciencedirect.com/science?_ob=ArticleURL&_udi=B6VBD-4H103M2-2&_user=10&_coverDate=10%2F31%2F2005&_rdoc=1&_fmt=high&_orig=search&_origin=search&_sort=d&_docachor=&view=c&_searchStrId=1562188037&_rerunOrigin=google&_acct=C000050221&_version=1&_urlVersion=0&_userid=10&md5=b91ad7679efb9bf1ecf776b59964d9f9&searchtype=a.
-----------------------------------------------------------------------------------------------

Estamos, portanto, diante de uma verdadeira Revolução sexual de efeitos catastróficos.

2. A Moral católica e a Lei natural condenam o uso do preservativo como “intrinsecamente mau”

No contexto dessa Revolução sexual, a afirmação constante do Magistério da Igreja de que o uso de preservativo nas relações sexuais é contrário à natureza das mesmas e, por isso, “intrínsecamente mau”[13], começa a ser vista como um absurdo que deve ser combatido por todos os meios, inclusive mediante campanhas contra a Igreja Católica através da mídia e outros meios de comunicação social.

-----------------------------------------------------------------------------------------------
[13] Cfr. Resposta do Santo Ofício de 6 de Abril de 1853: Questão 1 : “É lícito o uso imperfeito do matrimônio, praticado, conforme o caso, de modo onanístico ou condomístico (mediante o uso daquele instrumento abominável vulgarmente chamado « preservativo »? [...] Resposta (decr. 6., publ. 19 abril): A 1) Negativa; porque é intrínsecamente mau”. Resp. S. Officii (sob Pio IX); Apr. 6 (19), 1853; De usuonanistico matrimonii (Denzinger 2795, Enchiridion Symbolorum, http://catho.org/9.php?d=byg#c4z ).
-----------------------------------------------------------------------------------------------

A Igreja não pode, porém, mudar o seu ensinamento a respeito da finalidade própria da sexualidade humana[14], uma vez que o seu Magistério é baseado na Lei natural, na Revelação e nos ensinamentos constantes dos Papas e dos moralistas ao longo da história[15].

-----------------------------------------------------------------------------------------------
[14] A propósito, afirma João Paulo II: “De tal norma [moral] a Igreja não é, certamente, nem a autora nem o juiz. (…) A Igreja interpreta a norma moral e propõe-na a todos os homens de boa vontade, sem esconder as suas exigências de radicalidade e de perfeição” (Exortação Apostólica Familiaris Consortio, http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/apost_exhortations/documents/hf_jp-ii_exh_19811122_familiaris-consortio_po.html ; cfr. Paulo VI, encíclica Humanae Vitae, n°s 4 e 11).
[15] No que concerne, específicamente, à condenação das práticas contraceptivas artificiais, ela “data dos primeiros séculos. São insofismáveis os textos de Clemente de Alexandria, de Santo Epifânio, de São Jerônimo, de Santo Agostinho, de São Cesário de Arles, de São Martinho de Braga, de São Gregório Magno, dos Penitenciais, do antigo Direito Canônico, de São Tomás de Aquino e dos demais Doutores medievais, do Catecismo Romano, de Sixto V, de Gregório XIV, de Santo Afonso de Ligório. No século XIX e na primeira metade do século XX, a doutrina condenatória da contracepção artificial é também firme e incontestado entre os teólogos, e, sobretudo, é sancionada por cerca de vinte documentos do Santo Ofício e da Sagrada Penitenciaria, bem como por graves pronunciamentos de Pio XI e Pio XII. Em vista de tal clareza da Tradição, já no tempo de Pio XII os teólogos eram unânimes em sustentar que a questão estava fechada por uma definição dogmática do Magistério ordinário” (A.V. Xavier da Silveira,Pode um católico rejeitar a ‘Humanae Vitae’?, in Catolicismo, n 212/214, agosto-outubro 1968, p. 20).
-----------------------------------------------------------------------------------------------

A. O uso do preservativo é “intrinsecamente desonesto”

Santo Tomás de Aquino ensina que “em matéria de luxúria diz-se que um ato é contra a natureza quando dele não pode resultar a geração, conforme sua comum espécie”[16].

-----------------------------------------------------------------------------------------------
[16] Cfr. Santo Tomás de Aquino, De Malo, XV, a.2 ad 14.
-----------------------------------------------------------------------------------------------

Ora, o uso do preservativo impede o ato conjugal de chegar a seu fim natural, e por isso é mecanicamente contraceptivo. Portanto, seu uso é contrário à natureza e intrinsecamente desonesto[17].

-----------------------------------------------------------------------------------------------
[17] É o que ensina Pio XI: “Nenhum motivo, ainda que gravíssimo, pode fazer com que o que é intrinsecamente contrário à natureza possa tornar-se honesto e conforme à mesma natureza. E como o ato conjugal, por sua própria natureza, é destinado à geração da prole, aqueles que intencionalmente o privam de sua força e eficácia agem contra a natureza e cometem uma ação torpe e intrinsecamente desonesta” (EncíclicaCasti Connubii, n° 20).
O mesmo afirma João Paulo II: “Paulo VI quis ensinar, ao descrever o ato anticonceptivo como intrinsecamente ilícito, que a norma moral é tal que não admite exceções. Nenhuma circunstância pessoal ou social pôde, pode ou poderá jamais fazer que tal ato seja lícito” (cfr. Alocução de João Paulo II de 12 de novembro de 1988 ao II Congresso Internacional de Teología Moral reunido em Roma para celebrar o XX aniversário da publicação da Humanae Vitae, n° 5).
-----------------------------------------------------------------------------------------------

Quando usado em relações heterossexuais, o preservativo é contraceptivo; por isso não pode ser usado entre marido e mulher mesmo nos períodos inférteis dela ou quando um dos cônjuges ficou estéril por causa da idade ou de doença[18]. A intenção da pessoa que utiliza o preservativo não modifica a natureza deste, que é impedir o curso natural do ato conjugal, e por isso o seu uso é moralmente ilícito.

-----------------------------------------------------------------------------------------------
[18] Tal é o ensinamento de Paulo VI na encíclica Humanae Vitae (n° 11): “Estes atos, com os quais os esposos se unem em casta intimidade e através dos quais se transmite a vida humana, são, como recordou o recente Concílio, ‘honestos e dignos’ (cfr. Const. Past. Gaudium et Spes, n° 49) ; e não deixam de ser legítimos se, por causas independentes da vontade dos cônjuges, se prevê que vão ser infecundos, pois que permanecem destinados a exprimir e a consolidar a sua união. De fato, como o atesta a experiência, não se segue sempre uma nova vida a cada um dos atos conjugais. Deus dispôs com sabedoria leis e ritmos naturais de fecundidade, que já por si mesmos distanciam o suceder-se dos nascimentos. Mas, chamando a atenção dos homens para a observância das normas da lei natural, interpretada pela sua doutrina constante, a Igreja ensina que qualquer ato matrimonial deve permanecer aberto à transmissão da vida (cfr. Pio XI, Enc. Casti Connubii, 31 de dezembro de 1930, em AAS 22 [1930], p. 560; Pio XII, em AAS 43 [1951], p. 853)”.
-----------------------------------------------------------------------------------------------

Os preservativos podem diminuir o risco de contágio de doenças sexualmente transmissíveis; mas tal efeito é obtido unicamente através da distorção da natureza reprodutiva do ato conjugal; em outras palavras, mediante um ato contrário à natureza. Daí não poderem ser usados como profiláticos.
O que dizer do uso de preservativos em relações sodomíticas, contrárias à natureza, como as relações homossexuais? Seria legítimo empregá-los nessas relações incapazes, por si, de ser fecundas?

Aquilo que é mau numa relação heterosexual, por desnaturar o ato conjugal, não pode transformar-se em bom quando usado numa relação homossexual. Caso contrário cair-se-ia no absurdo de admitir que aquilo que é antinatural e intrinsecamente mau (a sodomia) poderia transformar em bom outro ato igualmente antinatural e intrinsecamente mau (o uso do preservativo)[19]. Na realidade, o bem sempre provém de uma causa íntegra[20], pelo que o bem e o mal opoem-se mutuamente[21].

-----------------------------------------------------------------------------------------------
[19] Cfr. Antonio Lanza-Pietro Palazzini, Principios de Teologia Moral, II, Las Virtudes: “De fato, é inconcebível que uma ação ilícita em si mesma possa ficar acidentalmente lícita por causa de circunstâncias particulares” (Madrid: Ediciones Rialp, 1958, p. 195).
[20] Cfr. Santo Tomás de Aquino, Summa I-II, q. 20 a. 2.
[21] Cfr. Santo Tomás de Aquino, De Malo, Questão I, ad 2 arg 3.
-----------------------------------------------------------------------------------------------

Portanto, o uso de preservativos nas relações homossexuais também é ilegítimo. O fato que elas sejam irremissivelmente estéreis não muda a característica intrínseca do preservativo que é de alterar o curso natural do ato sexual, pelo que seu uso permanece ilícito[22].

-----------------------------------------------------------------------------------------------
[22] “O uso do preservativo em relações sodomíticas participa da espécie dos atos desordenados maus e não é moralmente bom, mas moralmente mau – não porque introduza uma nova espécie [de pecado], posto que não há contracepção, mas porque o uso do preservativo é inteira e formalmente incluído na vontade do ato mau e está portanto contido na espécie de tal ato” (Steven A. Long, Remarks of Benedict XVI Regarding Condoms, http://chiesa.espresso.repubblica.it/articolo/1345782 ).
Mesmo que intrinsecamente os pecados de sodomia, com ou sem preservativo, sejam moralmente equivalentes, do ponto de vista extrínseco, o uso de preservativo acrescenta um novo mal: obter e possuir preservativos causa escândalo, alimenta a indústria da perversão e incita a cometer novos pecados (cfr. Mons. Vincent Foym, A response to Fr. Michael Prieur’s defence of the Winnipeg Statemen, C.I., setembro de 2005, p. 37, http://catholicinsight.com/online/church/family/article_624.shtml ).
-----------------------------------------------------------------------------------------------

Do ponto de vista subjetivo, o uso do preservativo em relações homossexuais, no intento frustro de impedir a difusão do HIV e outras doenças sexualmente transmissíveis, revela um endurecimento no mal, pois manifesta a determinação de dar vazão à paixão pecaminosa apesar do perigo de contrair uma doença mortal.

E como tal uso não elimina o risco de contágio, sua utilização em relações homossexuais constitui, ademais, um pecado contra a justiça em relação a terceiros (risco de contaminá-los) e um pecado contra a prudência em relação a si mesmo (risco de contaminar-se).

Finalmente, do ponto de vista objetivo, o uso de preservativos alimenta uma perniciosa indústria e favorece a difusão do mito do “sexo seguro”, assim como da cultura hedonística que promove uma falsa doutrina sobre a finalidade das relações sexuais, as quais passam a ser vistas como um mero prazer egoísta e irresponsável, em vez de uma participação humana na obra divina de perpetuação da espécie no estado matrimonial[23].

-----------------------------------------------------------------------------------------------
[23] Cfr. Pio XI, encíclica Casti Connubii, n° 6; João Paulo II, Familiaris Consortio, n° 14.
-----------------------------------------------------------------------------------------------

B. Falsa aplicação dos princípios do “duplo efeito” e do “mal menor”

Os moralistas apresentam uma série de condições que justificam o emprego desses dois princípios, mas a regra básica é que jamais é permitido desejar o mal ou usar de um meio imoral para conseguir um bem[24]. Aplicados ao uso do preservativo, no primeiro caso escolher-se-ia o mal pelo mal e, no segundo, aceitar-se-ia maquiavelicamente que “o fim justifica os meios”.

-----------------------------------------------------------------------------------------------
[24] Cfr. São Paulo, epístola aos Romanos 3,8.
-----------------------------------------------------------------------------------------------

Em ambos os casos, estar-se-ia violando o primeiro princípio da Lei natural, que é o fundamento de toda moralidade: “deve-se fazer e buscar o bem e evitar o mal”[25].

-----------------------------------------------------------------------------------------------
[25] São Tomás de Aquino, Summa Theologica, I-II, q. 94, a. 2. Cfr. também Mons. Giuseppe Graneris, verbete Effect, Double, p. 448; Fr. Ludovico Bender, O.P., verbeteLesser Evil, Choice of, p. 705; e Mons. Pietro Palazzini, verbete Tolerance, pp. 1236-1238, todos em Francesco Card. Roberti e Mons. Pietro Palazzini, Dictionary of Moral Theology (Westminster, Md.: The Newman Press, 1962); Antonio Lanza e Pietro Palazzini, Principios de Teologia Moral (Madrid: Ediciones Rialp, S.A., 1958, vol. I, pp. 152-153).
-----------------------------------------------------------------------------------------------

Mons. Michel Schooyans, membro da Academia Pontifica pela Vida e professor emérito da PUC de São Paulo, explica de modo cristalino porque o princípio do “mal menor” não se aplica ao uso do preservativo: “Em Moral, o princípio do mal menor é muito simples. Consiste em dizer que se alguém vê-se confrontado a dois males inevitáveis[26] deve escolher o menor deles. É quase uma questão de bom senso. Por exemplo, voltemos ao caso dos preservativos. Ter relações com um soropositivo, tentando proteger-se com um preservativo, não é algo inevitável. A pessoa tem sempre a liberdade de não ter esse tipo de relações”[27].

-----------------------------------------------------------------------------------------------
[26] “A escolha do mal menor não é lícita senão quando nenhuma outra alternativa é possível e quando os males produzidos são inevitáveis; só então é permitido escolher entre eles o mal menor” (cfr. Conseil pontifical pour la famille, Lexicon de termes ambigus et controversés sur la famille, la vie et les questions éthiques, p. 871).
[27] Cfr. Michel Schooyans et Anne-Marie Libert, Le terrorisme à visage humain, Paris: F.-X. de Guibert, 2a ed., 2008, pp. 173-179.
-----------------------------------------------------------------------------------------------

O princípio do “duplo efeito”[28], ou “voluntário indireto”, tampouco é aplicável ao caso do preservativo. Porque ele pressupõe, de um lado, que a ação seja, em si mesma, boa ou neutra e, de outro lado, que não exista uma alternativa isenta de efeitos negativos. Ora, como já foi assinalado, o uso do preservativo é intrínsecamente mau em si mesmo e existe sempre a alternativa, para evitar o contágio, de abster-se de relações sexuais.

C. Nota da Congregação para a Doutrina da Fé confirma o ensino tradicional

Tudo que precede foi, felizmente, reafirmado numa Nota aclaratória difundida, no dia 21 de dezembro p.p., pela Congregação para a Doutrina da Fé. Ela visava retificar “interpretações não corretas, que geraram confusão”[29] por ocasião da publicação do livro-entrevista de Bento XVI, ocasião na qual o Papa falou apenas como doutor privado e não como Sumo Pontífice[30].

-----------------------------------------------------------------------------------------------
[28] Trata-se de uma ação voluntária que tem dois efeitos, um bom e outro mau (do ponto de vista moral). Às vezes, sem se desejar o efeito mau, pode-se tolerá-lo; como no caso de sedativos que são usados para aliviar doentes terminais (efeito bom), ainda que diminuam a consciência e acelerem a morte (efeito mau). Quatro condições são exigidas pela Moral para que uma ação de duplo efeito seja lícita: a) a intenção deve ser reta; b) a ação deve ser, em si mesma, boa ou neutra; c) o efeito bom não pode ser uma consequencia do efeito mau; d) não deve haver outra solução alternativa que não produza o efeito mau e, em qualquer caso, o efeito bom deve ser de tal monta que justifique dever-se tolerar o efeito mau (cfr. Santo Tomás, Summa II-II q.64 a. 7; Pio XII, Discurso de 24 de fevereiro de 1957; Conseil pontifical pour la famille, Lexicon de termes ambigus et controversés sur la famille, la vie et les questions éthiques, p. 99).
[29] O caráter coloquial do livro-entrevista prestou-se, em certa medida, para dita confusão, ao não usar a linguagem técnica dos manuais de teologia moral, fato esse que foi posto em relevo pelo porta-voz do Vaticano durante a apresentação de Luz do mundo à imprensa: “A contribuição que o Papa quis dar não é aquela de uma discussão técnica, com linguagem científica de problemas de moral. Não é esse o objetivo de um livro desse gênero: não quer obstaculizar o trabalho da Congregação para a Doutrina da Fé. Por isso, não empregou ‘mal menor’, ‘duplo efeito’ ou outras fórmulas clássicas específicas, mas quis empregar uma linguagem muito coloquial e que todos pudessem compreender” (http://www.radiovaticana.org/radiogiornale/ore14/2010/novembre/10_11_23.htm).
[30] É clássica na Teologia a distinção do Papa quando fala como Soberano Pontífice e quando o faz enquanto teólogo particular. É somente na primeira condição que o Papa é protegido por vários formas de assistência divina, enquanto na segunda ele não se distingue de outros teólogos e é, tanto quanto eles, sujeito a erros (cfr. Cardeal Charles Journet, The Church of the Incarnate Word, vol. I, pp. 438-439).
-----------------------------------------------------------------------------------------------

Segundo a Nota, tais interpretações errôneas “apresentaram as palavras do Papa como afirmações em contraste com a tradição moral da Igreja” e “como se se tratasse de uma ruptura com a doutrina sobre a contracepção e com a atitude eclesial na luta contra o HIV-SIDA”.


Pelo contrário, segundo a Nota, o uso do preservativo é sempre ilícito, tanto se é usado como meio contraceptivo quanto se é empregado como meio profilático.

Quanto ao uso do preservativo como contraceptivo, diz a Nota: “A ideia de que se possa deduzir das palavras de Bento XVI que seja lícito, em alguns casos, recorrer ao uso do preservativo para evitar uma gravidez não desejada é totalmente arbitrária e não corresponde às suas palavras nem ao seu pensamento”.

Quanto ao emprego do preservativo como profilático, o principal parágrafo da Notareafirma o ensino tradicional, nos seguintes termos: “Alguns interpretaram as palavras de Bento XVI, recorrendo à teoria do chamado «mal menor». Todavia esta teoria é susceptível de interpretações desorientadoras de matriz proporcionalista (cfr. João Paulo II, Encíclica Veritatis splendor, n°s 75-77). Toda ação que pelo seu objeto seja um mal, ainda que um mal menor, não pode ser licitamente querida. O Santo Padre não disse que a prostituição, valendo-se do preservativo, pode ser licitamente escolhida como mal menor, como alguém sustentou”[31].

-----------------------------------------------------------------------------------------------
[31] Lamentamos que a Nota tenha perdido a excelente oportunidade de reafirmar mais claramente que: a) inclusive num contexto de pecado (adultério, fornicação ou prostituição heterossexuais), o preservativo acrescenta uma nova espécie de pecado (onanismo) ao pecado de luxúria; e b) no caso das relações sodomíticas, de si antinaturais, o uso do preservativo acrescenta uma malícia extrínseca colateral (escândalo, enriquecimento da indústria da corrupção, favorecimento de novos pecados, etc.).
-----------------------------------------------------------------------------------------------

3. Pedido filial a S.S. Bento XVI

Em vista de tudo que precede, pedimos filialmente ao Papa que, ao ensejo da Nota aclaratória da Congregação para a Doutrina da Fé, tome medidas eficazes para evitar que, no futuro, altos prelados voltem a confundir os fiéis afirmando ser lícito, ou até obrigatório, o uso de preservativo em alguns casos, e notadamente no caso de pessoas soropositivas.

Também pedimos que ordene uma investigação para apurar as responsabilidades no escândalo – um verdadeiro sacrilégio – que teve lugar na catedral de Goiás Velho, tomando medidas severas contra todos os responsáveis. E que reitere, do modo mais categórico, a proibição de toda e qualquer participação de entidades católicas em programas e eventos, públicos ou privados, nos quais se faça publicidade e/ou distribuição de preservativos e de manuais de como utilizá-lo.
*     *    *
Ao finalizar este pronunciamento, manifestamos nosso pleno acatamento ao Papa e à Sagrada Hierarquia em matéria de Fé e Moral e repetimos aquilo que Plinio Corrêa de Oliveira afirmava ao tratar de assuntos teológicos: Se qualquer princípio apresentado na análise acima se opõe em algo ao Magistério tradicional da Igreja, desde já o rejeitamos, porque a Fé católica é a luz de nossos olhos.

Em meio à invasão galopante da imoralidade e à crescente confusão dos espíritos, que não tem poupado sequer setores da Santa Igreja, continuaremos nossa luta em defesa da castidade, como fundamento da família cristã, e dos demais valores da civilização cristã, pondo toda nossa confiança em Nossa Senhora que, nas suas aparições de Fátima, em 1917, garantiu a vitória final da virtude sobre a corrupção ao prometer: “Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará”.
28 de Dezembro, festa dos Santos Inocentes.
Instituto Plinio Corrêa de Oliveira

24 de dezembro de 2010

É NATAL! Por excelência a festividade familiar

Diletos Amigos do Blog da Família
Agradecendo ao Divino Menino Jesus, à Sua Santíssima Mãe e a São José por todo auxílio ao longo deste ano cheio de embates em defesa da instituição da Família, agradeço também a todos nossos Amigos por terem participado de tais embates e nos incentivado na luta contra os fatores que visam a decomposição da sociedade.


De todo coração desejo-lhes um Santo e Feliz Natal, coroado das mais escolhidas graças da Sagrada Família e celestiais bênçãos de Ano Novo. Que Jesus, Maria e José reinem ao longo de todos os dias de todos anos em seus lares e corações, protegendo e concedendo-lhes a verdadeira paz, que — segundo Santo Agostinho — é a “tranquilidade da ordem”. E por ordem não entendemos apenas viver pacificamente neste mundo anárquico e igualitário, mas a reordenação de todas as coisas (das leis, das instituições, etc.) conforme àquele Divino Infante que veio ao mundo para salvá-lo. Como bem definiu Plinio Corrêa de Oliveira: “Se a Revolução é a desordem, a Contra-Revolução é a restauração da ordem. E por ordem entendemos a paz de Cristo no reino de Cristo. Ou seja, a Civilização Cristã, austera e hierárquica, fundamentalmente sacral, antiigualitária e antiliberal”.
Para esta época natalina, por excelência familiar, ofereço a nossos leitores uma bela lenda de Natal — de autoria do historiador francês G. Lenotre (1857 – 1935), extraída do livro “Lendas de Natal” (Editora Verbo, Lisboa, 1966) —, que narra a nobre atitude do Conde de Plessis-Morambert para com um simples menino limpador de chaminés, chamado Mathiote; bem como a atitude, também nobre, do limpador de chaminés em relação ao Conde, ajudando-o a escapar da prisão à qual fora encarcerado pelos sanguinários sans-culottes na Revolução Francesa.


Um Conto de Natal que bem retrata a harmonia entre as classes sociais, numa “civilização antiigualitária e antiliberal” — que a Revolução de 1789 fez de tudo para destruir, assim como tentou abolir o próprio Natal. O que seria do mundo sem Natal?
Paulo Roberto Campos
Natal/2010



Mathiote

G. Lenôtre

Naquela véspera de Natal, Mathiote, sem despir a roupa enfarruscada de limpa-chaminés, dirigia-se ao palácio de Plessis-Morambert. Tinham-no chamado ali por acaso, três anos antes, para limpar uma chaminé, certa noite de Natal em que o conde dispunha na lareira uma enorme pirâmide de brinquedos e guloseimas, para fazer surpresa a seu filho Tiago, quando acordasse na manhã seguinte. Mathiote era da idade do filho do conde. Ao surpreender o olhar de admiração que o pequeno limpa-chaminés lançava àquelas maravilhas, e seduzido ao mesmo tempo pelo seu ar inteligente e honesto, conversara alguns momentos com ele, dera-lhe uma moeda de ouro e mandara-o para a copa, onde lhe serviram um bom jantar.


A lembrança enternecida daquela festa inesperada levava ali todos os anos, na mesma data, o limpa-chaminés, que recebia sempre broas e sopa quente, para as quais o atraía não só o reconhecimento, mas também a gulodice e o interesse.
Ora, naquela noite, que era a de 24 de dezembro de 1793, o pequeno ficou surpreendido ao encontrar o palácio fechado. Nas janelas não brilhava uma luz. Deixou cair por várias vezes a aldrava da porta, sem obter resposta, e ia já desistir e virar as costas, muito desiludido, quando avistou na extremidade da rua, na escuridão já densa, o vulto de um rapazinho que se encaminhava a largos passos para o palácio. Mathiote reconheceu Tiago de Morambert e correu para ele.
Ah! És tu, Mathiote... Coitado, vieste!... Anda, vem depressa, é melhor entrarmos.
Mal entraram em casa, Tiago rompeu a soluçar:
— Há oito dias que meu pai foi preso. O Comitê revolucionário desta área denunciou-o. Vão julgá-lo antes do fim do ano. Ai, Mathiote! O meu pai está perdido!...
E o pranto do pequeno redobrou. Mathiote, a quem o Terror em nada alterara a humilde existência, soube que o conde era acusado de “incivismo” – crime terrível naquela época – e que o cadafalso era inevitável. Havia oito dias que Tiago ia postar-se todas as tardes em frente à prisão. Tinham-lhe recusado a consolação de falar com o pai, mas pelo menos, através das grades de uma janela que dava para a rua, via o conde atirar-lhe beijos. O pobre rapazinho ficava ali até ao anoitecer. Regressava justamente dessa dolorosa “entrevista”, no momento em que Mathiote o encontrara.
— Não se aflija, senhor Tiago – disse o limpa-chaminés, desolado com o que acabava de ouvir. Esses malvados não podem matar assim o senhor conde, que é tão bom, tão caridoso.
— Enganas-te. Foi isso que o perdeu.
— Tenha coragem e deixe o caso comigo.
— Contigo? Que podes tu fazer?... Qualquer tentativa de o ajudar só serviria para apressar a execução.
E Tiago recomeçou a chorar. Mathiote consolou-o o melhor que pôde. Os dois rapazes estiveram juntos cerca de uma hora. Quando o limpa-chaminés saiu do palácio, anoitecera de todo. Dirigiu-se em passo rápido, e quase alegre, para o centro de Paris.
O conde de Plessis-Morambert fora encerrado na prisão da Abadia. Durante as primeiras horas de cativeiro, dominado por essa sobre-excitação raivosa que se apossa de todos os presos, andara às voltas na cela, como uma fera na jaula, esquadrinhando os cantos da prisão, sacudindo as grades da janela, procurando arrombar a porta, esforçando-se, em suma, por descobrir qualquer meio de evasão. A solidez das barras de ferro, a espessura das paredes, as enormes dimensões da fechadura atarrachada por grandes parafusos, depressa lhe dissiparam as ilusões.
A essa natural agitação, a inatividade forçada fez suceder longas horas de prostração. Invadira-o uma espécie de resignação calma, e nessa noite, à frouxa luz de uma lanterna que o carcereiro acendera, sentado na única cadeira de palha que mobiliava a cela, com os olhos fitos na chaminé vazia, meditava tristemente. O seu pensamento fugia para o lar onde se sabia tão amado. Via o seu pequeno Tiago lavado em lágrimas, sozinho no palácio deserto, pedindo por ele a Deus. E lembrava-se das noites de Natal passadas, quando o pequeno, antes de adormecer, ia pôr os sapatinhos na chaminé, esperando a visita do Menino Jesus, que nunca faltava.
Que pensaria Tiago na manhã seguinte, ao acordar, quando visse que o Menino Jesus se esquecera dele? À idéia daquela decepção inevitável, o conde de Morambert fixava os olhos cheios de lágrimas na chaminé sem lume, comovido pela lembrança dessas noites felizes, quando entrava pé ante pé no quarto do filho adormecido e dispunha na chaminé os brinquedos enfeitados de laçarotes, os altivos soldados de pau na caixa de pinho branco, as laranjas de ouro, as frutas cristalizadas – todo esse paraíso de coisas boas que o menino, ao acordar, festejava com palmas e gritos de alegria.
O conde foi bruscamente arrancado aos seus melancólicos pensamentos por um ruído estridente na chaminé. Uma chuva abundante de caliça e fuligem crepitou na pedra da lareira, seguida quase logo de um volumoso embrulho muito bem amarrado, que caiu pesadamente e rolou até ao meio da cela. Espantado com o caso estranho, o conde se levantou. Os seus olhos iam da chaminé ao misterioso embrulho, quando viu de repente dois pés que balouçavam por cima da lareira. Num instante esses pés tocaram no chão. Uma forma negra agachou-se na chaminé e saltou com esforço para o meio do quarto, dizendo:
— Não se assuste, senhor conde! Sou eu, Mathiote.
Era Mathiote, com efeito. De pé diante do preso, com a cara e a roupa negros de fuligem, sorria, mostrando os dentes brancos. Os olhos, na face de breu, pareciam claros e luziam como estrelas.
— Ma-thi-o-te?... – vacilou o fidalgo, tentando lembrar-se.
— Eu é que não me esqueci do senhor conde. Venho lá da sua casa. O senhor Tiago está bem. Alegre não está, já se sabe... Mas depois falaremos dele com mais vagar. Agora venho buscá-lo, senhor conde.
— Vens buscar-me?
— Sim, não podemos perder tempo. Fale baixo. Tenho aqui tudo o que é preciso. Primeiro, roupas para o senhor.
E o pequeno limpa-chaminés desatava febrilmente o embrulho que atirara pela chaminé.
— Arranjei as roupas em casa do patrão. Está aqui este rolo de luíses de ouro, que o Sr. Tiago me deu. São dois mil francos. Podem servir, mas temos de os esconder. Daqui a um quarto de hora estaremos na rua.
— Mas por onde sairemos, meu pequeno? Não pretendes levar-me por onde vieste, com certeza... Aliás, onde é que iríamos ter? Aos telhados... É verdade: como conseguiste encontrar a minha cela?
— O senhor Tiago tinha-me dito: a última janela à esquina da rua Sainte-Marguérite, e estudei bem o local. Quando se está habituado, não custa nada. Mas olhe, senhor conde, se me dá licença, agora não lhe respondo mais. Conversaremos depois, na rua. Vou trabalhar, e enquanto isso o senhor se vista.
Mathiote dirigiu-se à porta da cela e examinou a fechadura. Tirou da algibeira uma chave de parafusos e começou a tentar soltar a enorme chapa. Trabalhava com precisão e habilidade. O prisioneiro olhava para o que ele fazia, estupefato. Estava numa dessas situações em que a alma, amolecida e desencorajada, se rende antecipadamente, sem luta. A um gesto imperativo de Mathiote, obedeceu quase insensivelmente, despiu a sobrecasaca e começou a enfiar as calças endurecidas de fuligem e o casaco ensebado e enfarruscado, que o pequeno lhe trouxera. A outro sinal, tirou a peruca e foi à chaminé, onde massageou energicamente o rosto com as mãos sujas. Assim disfarçado, tão a rigor que parecia um autêntico limpa-chaminés, voltou para junto de Mathiote que, com ar de triunfo, mas sem dizer palavra, lhe mostrou a fechadura finalmente solta. O pequeno aprovou com um aceno de cabeça a transformação do aristocrata, depois aproximou-se dele e disse em voz baixa:
— Está salvo. Pegue no seu dinheiro e esconda-o. Fiquei com uma moeda, da qual vou precisar agora. O senhor desce a escada atrás de mim. Quando eu me aproximar da sentinela, siga o seu caminho sem parar. Saia naturalmente para a rua e volte à esquerda, sem hesitação. Estamos entendidos?
O conde respondeu-lhe com um aperto de mão. Mathiote abriu a porta e lançou um olhar para o corredor. Sem precipitação, deu passagem ao prisioneiro, saiu com ele e fechou a porta atrás de si. Seguiram pelo corredor e desceram a escada.
No átrio da prisão, o carcereiro, que entrara de serviço havia menos de uma hora, dormia num cubículo envidraçado, aquecido por um fogareiro de barro e mal iluminado por uma lanterna pousada sobre a mesa. O conde, guiado pelo rapazinho, ficou na escuridão, onde o seu vulto negro desaparecia por completo, enquanto Mathiote, com desembaraço, ia bater no vidro e acordava o carcereiro:
— Quero sair, cidadão!
O carcereiro abriu os olhos, dirigiu a luz da lanterna para o local de onde vinha a voz, viu apenas a criança carregada de cordas, de ganchos, de vasculhos – instrumentos do seu ofício – e, tranqüilizado, puxou o cordão da porta. A porta abriu-se, o conde esgueirou-se no escuro até ao limiar. A custo conteve um movimento de recuo, ao ver a sentinela que se voltara, ao ouvir o ruído do fecho. Mathiote, porém, tinha previsto isso e disse, logo que a porta voltou a fechar-se nas costas deles.
— Desculpe, senhor militar, pode indicar-me onde está o chefe do posto?
— O chefe do posto? Que queres tu do chefe do posto? Que estás fazendo por aqui? E quem é esse homem que vai sair? Aqui ninguém passa!
— Queria entregar ao senhor oficial esta moeda de ouro que encontrei lá em cima numa sala vazia, ao varrer as cinzas da chaminé. Está aqui. Não sei o que fazer dela...


E o rapazinho mostrava ao guarda a moeda, que brilhava no escuro, na ponta dos dedos enegrecidos.
O guarda sans-culotte tomou a moeda, examinou-a e meteu-a no bolso. Naquela época, valia duzentos francos em papel-moeda. Já humanizado, o guarda resmungou:
— Está bem, deixa ficar, que eu entrego ao chefe. Não vale a pena acordá-lo por tão pouco.




— Obrigado, cidadão.
— Não há de quê, garoto.
E Mathiote, numa corrida, alcançou o conde de Morambert, que durante este diálogo se adiantara e caminhava já a passos largos pela Rua de Buci.
O valente rapazinho tinha o seu plano. Não ignorava que era impossível esconder o conde em Paris: as buscas domiciliárias inutilizavam qualquer tentativa de despistar a polícia. Além disso, como encontrar, nessa época de terror, um ser tão heróico, tão temerário que estivesse disposto a oferecer hospitalidade, mesmo por uma noite, ao prisioneiro evadido, cuja fuga logo no dia seguinte ia ser participada a todos os agentes do Comitê de Segurança Geral?
Por isso Mathiote resolvera sair da França e ir para a Sabóia. Ali, ao menos, conhecia uma casa, a dos pais, onde o seu nobre protegido poderia viver sem perigo até passar a tormenta revolucionária. Em dez dias poderiam chegar à fronteira, e dois saboianos de regresso à terra, no seu traje regional de limpa-chaminés, tinham grandes probabilidades de fazer toda a viagem sem despertar suspeitas.
Para maior segurança, envolveu numa ligadura de linho a cabeça do fidalgo, como se estivesse ferido. Na realidade, fizera isso apenas para explicar o mutismo absoluto que o conde devia manter, sempre que estivessem entre estranhos. Mathiote encarregava-se de responder a todas as perguntas, de desencorajar todas as indiscrições. E fizeram o seu caminho sem ser alvo de nenhuma curiosidade. Ao segundo dia de jornada, o conde de Morambert, pouco afeito a andar a pé, privado do conforto a que estava habituado, comendo toucinho nas estalagens, bebendo água nas fontes, dormindo nos palheiros das herdades, já não precisava fingir. Representava convincentemente o papel de um trabalhador exausto, ferido e doente, que se arrasta conforme pode, para chegar à sua terra. Ninguém poderia descobrir um aristocrata nesse homem escaveirado e sujo, sempre calado, que levava por companheiro o castiço limpa-chaminés, exuberante no seu dialeto saboiana.
O conde, entretanto, admirava a inteligência e a força de alma dessa criança que o salvara. Não tivera até então oportunidade de apreciar as sólidas virtudes da gente do povo. Encontrava motivo sempre novo de espanto na dedicação, no desinteresse absoluto desse pobre limpa-chaminés, que arriscava a vida em reconhecimento de uma sopa quente e de um luís de ouro. Durante as longas marchas, dias a fio, o conde repetia com os seus botões a frase célebre: “Onde se foi esconder a virtude!”
Doze dias depois de saírem de Paris, os fugitivos chegaram finalmente à última aldeia francesa. Mathiote, fresco, bem disposto e cheio de entusiasmo; o conde, estafado, a coxear, mal podendo arrastar-se. Depois de uma noite inteira de caminho, tinham parado numa estalagem e estavam comendo pão com manteiga, quando o estalajadeiro, dirigindo-se a Mathiote e apontando o conde, perguntou:
— É o teu pai?
— Não, senhor, é o irmão do meu patrão.
— Está doente?
— Caiu de um telhado e aleijou-se. Vou acompanhá-lo à terra.
— Tens passaporte?
— Tenho... o quê?
— Não podem passar a fronteira se não têm os papéis. A fronteira está guardada pelos patriotas. Ainda ontem eles prenderam dois emigrados, que estavam disfarçados como vendedores de queijos.
Mathiote empalideceu, sob a fuligem que lhe cobria o rosto, pois não previra esse desfecho. Mas conseguiu controlar-se, e comentou com simplicidade:
— Apesar disso eu gostaria de passar. Eu já podia ter chegado, mas o velho mal consegue arrastar-se.
— Só pode passar quem tiver os documentos – finalizou o estalajadeiro, e em seguida pôs-se a cuidar de outras coisas.
Uma hora depois os fugitivos, sentados num tronco à beira do caminho, não haviam ainda conseguido, apesar de todo o esforço, achar um meio de transpor aquele último obstáculo. Adiante deles a estrada conduzia a uma ponte sobre um riacho, e do outro lado já era o estrangeiro. Menos de cem metros. Eles até conseguiam já ver um poste com as cores da Savóia, bem na fronteira. Mas antes disso havia uma dezena de soldados bem armados, impedindo a passagem no posto de guardas.
— Senhor Conde, vamos tentar um último esforço. Podemos caminhar pelo mato, e depois cruzaremos o riacho em algum lugar menos profundo.
— Impossível, meu pobre Mathiote. Eu mal consigo caminhar, e não poderia fazê-lo nesta terra gelada.
— Então poderíamos aproximar-nos do posto, e enquanto eu distraio os guardas o senhor dá uma corrida e...
— Correr! Correr com estas pernas doloridas!... E além disso eles começarão a atirar.
— Bem, mas as balas podem não acertar.
— Neste caso eles te farão prisioneiro, e pagarás com a vida. Não posso consentir nisso.
— Então!...
— Então está tudo acabado. Encalhamos bem perto do porto. O melhor é me deixares aqui e seguires sozinho pelo mato. Só estarei tranqüilo quando tiveres passado o riacho.
Mathiote ficou pensativo por um momento, coçou a cabeça, e em seguida propôs:
— Temos uma última possibilidade, Sr. Conde. Vamos caminhando tranqüilamente até o posto da guarda. Se eles nos pedirem os papéis, o senhor continuará caminhando o mais rápido que puder. Enquanto isso eu vou desabotoar lentamente a minha jaqueta, e começarei a simular a procura dos documentos nos bolsos. Isto será suficiente para o senhor avançar uns bons metros. Mas... – e calou-se, hesitando.
— Mas o quê?
— Mas, como não temos a certeza de escapar, é melhor o senhor desfazer-se dos luíses... Se o revistassem e lhe achassem tanto dinheiro, então é que ficaria comprometido de fato!
O conde aquiesceu com um sinal de cabeça. As últimas palavras de Mathiote pareciam confirmar uma leve suspeita que ainda tinha. Na realidade, fora muito ingênuo ao acreditar que um rapazinho daquela condição o ajudara, a ele, rico e nobre, por pura dedicação. Era a primeira vez que se deixava iludir pelo aparente desinteresse de um plebeu. Parecia que o saboiano tivera apenas uma intenção: apropriar-se daquela soma, que para ele era uma fortuna, e receber assim o preço dos seus serviços. Tirou o dinheiro dos bolsos e o pôs na mão do limpa-chaminés. Depois, passando a mão pela testa, como se quisesse afastar a amargura da decepção, levantou-se a custo.
— Vou me entregar. Trata de escapar, se puderes. Tens razão: cada um por si.
— Eu não o deixo! – exclamou Mathiote, seguindo-o com ar alegre.
Minutos depois os fugitivos chegavam diante do posto. Os soldados, sem desconfiança perante o traje característico dos dois viajantes, deixaram-nos passar sem exigir documentos. Mal tinham dado alguns passos para a ponte, o oficial, com uma súbita suspeita, chamou os seus homens:
— Rapazes! Olhem para esses dois, que já transgrediram a ordem! Ei, garoto!
Mathiote fingiu que não ouvia. Isso significava mais alguns passos ganhos.
— Páras ou não, pequeno patife?
Mathiote voltou-se, afetando um ar surpreendido, e retornou ao posto, enquanto o conde, chamando a si todas as forças, estugava o passo em direção à fronteira.
— Que foi, cidadão? – perguntou o rapazinho, com ar inocente.
— O teu passaporte!... E o outro, será que ele é surdo?
— Está ferido...
— Ele que pare, senão disparamos!
— Oh, cidadão, não faça isso!... O meu passaporte... já lho dou... é só um instante...
Seguindo pelo canto do olho o conde de Morambert, que estava já a poucos passos da ponte, Mathiote enfiava as mãos em todos os bolsos, virava a boina pelo avesso, despejava o saco. Aquela manobra não enganou o oficial. Percebendo o embuste, chamou os seus homens com uma praga formidável:
— Façam fogo! Não vêem que é um aristocrata tentando fugir? Abatam esse homem! Fogo! Fogo!
Todas as espingardas se abaixaram ao mesmo tempo. Mathiote, num salto, atirou-se para a frente dos canos apontados. Os soldados hesitaram em fuzilar à queima-roupa aquela criança desarmada.
— Fogo! Façam fogo, senão ele nos escapa!
Mas nesse instante Mathiote, enchendo as mãos com as moedas de ouro que trazia nos bolsos, atirou-as como confeitos de batizado aos pés dos soldados prestes a disparar.
E foi uma confusão indescritível. À vista daquele ouro que rolava pela estrada, os soldados perderam a cabeça, largaram as espingardas e precipitaram-se para o apanhar, empurrando-se, atirando-se ao chão, disputando a soco o despojo inesperado.
Mathiote não se deteve a contemplar aquele quadro épico. Num salto, foi juntar-se ao conde, do outro lado da ponte, fora da França. E enquanto os soldados lutavam ainda, disputando a última moeda, a criança atirou a boina ao ar e gritou no seu dialeto saboiano:
— Evviva la libertà! — E correu para o seu companheiro.
Esgotado, chorando de alegria, de cansaço e de gratidão, o conde caíra abraçado ao poste com as cores da Sabóia.