14 de fevereiro de 2018

Arcebispo esbofeteia impiedosamente a verdade


Péricles Capanema

“Neste momento, os que melhor aplicam a doutrina social da Igreja são os chineses”. Chineses aqui são o Partido Comunista da China e o governo da China Popular. O autor da frase é o arcebispo Dom Marcelo Sánchez Sorondo [foto ao lado], chanceler da Pontifícia Academia das Ciências e da Pontifícia Academia de Ciências Sociais. Argentino como o Papa Francisco, é tido como conselheiro próximo do Pontífice. 

Meses atrás o Prelado visitou rapidamente a China, foi recebido com salamaleques em visita controlada e agora, repentinamente, resolveu falar. Desembestou nas bajulações escandalosas: “Os chineses buscam o bem comum, subordinam as coisas ao bem geral. Encontrei uma China extraordinária, o que o pessoal não sabe é que o princípio central chinês é trabalho, trabalho, trabalho. Nada além, no fundo é como dizia São Paulo, quem não trabalha, que não coma. Não têm favelas, não têm drogas, os jovens não têm droga. Existe como que uma consciência nacional positiva”. Pequim “está defendendo a dignidade da pessoa, seguindo mais que outros países a encíclica de Francisco ‘Laudato sì’”

Para ficar completo o servilismo, não poderia faltar o ataque aos Estados Unidos: “A economia não domina a política, como acontece nos Estados Unidos. Como é possível que as multinacionais do petróleo manipulem o Trump? O pensamento liberal liquidou o conceito de bem comum. Em sentido contrário, os chineses propõem trabalho e bem comum”

Abaixo lembrarei pontos de doutrina. Antes, fatos. Afirmei acima, repentinamente o Prelado resolveu falar. Em termos. Tais declarações não devem ser vistas no mínimo apenas como cadência trágica de covardias diante do tirano intimidador e prepotente. Além de eventuais consonâncias ideológicas — sempre presente entre o Progressismo e o Comunismo (são delas tristes e frisantes exemplos frei Betto e o ex-frei Boff) — esse rebaixamento degradante deve ser analisado no contexto da presente aproximação entre o Vaticano e o governo chinês. 

As notícias a respeito das tratativas puseram em choque os católicos e bispos fieis a Roma, hoje na clandestinidade (a chamada Igreja subterrânea), preteridos por bispos e seguidores da Associação Patriótica Católica Chinesa, organismo estatal fundado em 1957 pelo governo para controlar os católicos do País (ela comanda a chamada Igreja oficial, subserviente a Pequim). A mencionada Associação, segundo texto dela, procura implementar “os princípios da independência e autonomia, autogestão e administração democrática” na Igreja Católica da China. Resumido, é organização fantoche do governo e do Partido Comunista. Alguns de seus membros nem se declaram católicos. 


Emissários da Santa Sé tentam subordinar a ação pastoral de bispos leais a Roma aos bispos indicados por Pequim, subordinar a Igreja subterrânea à Igreja dita patriótica; em uma palavra, são entregues os perseguidos aos perseguidores. O Cardeal Dom Joseph Zen [foto ao lado], arcebispo resignatário de Hong Kong, tomou a defesa dos bispos e dos católicos leais a Roma, abrindo crise séria com a Santa Sé. Adverte o anterior Cardeal de Hong Kong: “Nos últimos dias, irmãos e irmãs vivendo na China continental foram informados que o Vaticano está pronto para se render ao Partido Comunista da China”. Continua o Purpurado: “Percebendo que os bispos ilegítimos e excomungados vão ser legitimados e que os bispos legítimos serão obrigados a se demitir, é forçoso que os bispos legítimos e clandestinos estejam preocupados com seu destino. Quantas noites de sofrimento padres e leigos terão de passar pensando que, curvados, terão de obedecer bispos agora ilegítimos e excomungados, amanhã legitimados pela Santa Sé e apoiados pelo governo?”

O Cardeal Zen informou ainda que o Papa Francisco o advertiu, não quer um “novo caso Mindszenty”. O Cardeal Mindszenty [foto acima] se opôs ao governo comunista húngaro e à política de aproximação de Paulo VI com o governo comunista húngaro.

Outros fatos. Dom Sánchez Sorondo garantiu, os chineses “não têm drogas, os jovens não têm droga”. Vai contra o que dizem os próprios chineses. A Comissão Nacional de Controle de Narcóticos, órgão do governo comunista chinês, em recente declaração oficial advertiu que o problema das drogas no país está “se disseminando com grande velocidade”. E a organização Human Rights Watch condena o “tratamento cruel, desumano e degradante” padecido pelos viciados e traficantes nas prisões chinesas. Uma parte, e não pequena, é fuzilada, outra é internada compulsoriamente em locais de reabilitação. A China, que não fornece dados, apavorantes certamente, é tida como o que mais fuzila condenados no mundo, milhares anualmente. Existência de
favelas. Sonha dom Marcelo: a China “não tem favelas”. Pergunta o padre Bernardo Cervellera [foto acima], missionário do Instituto Pontifício de Missões Exteriores (PIME) e diretor de AsiaNews, especialista em assuntos chineses: “Nosso bispo tentou ir ao sul de Pequim? Ali o governo está fazendo sem-tetos aos milhares, desalojando trabalhadores migrantes. Visitou a periferia de Shanghai? Visitou as periferias das grandes megalópoles chinesas?” [um exemplo ao lado] Claro, nada disso viu o apressado e louvaminheiro eclesiástico. 

Agora, um ponto de doutrina. João XXIII, na “Mater et Magistra” define o bem comum como o conjunto das condições da vida social que permite às pessoas, às famílias e aos grupos alcançarem de maneira mais fácil e plena a própria perfeição. Fica claro, o bem comum facilita a busca da perfeição nos mais variados campos. Começo pelo religioso. No caso, o bem comum deve facilitar a “salus animarum”, a salvação das almas. As gravíssimas advertências do Cardeal-Arcebispo resignatário de Hong Kong me dispensam de comentar qualquer coisa a respeito. Falei em liberdade religiosa. Recordo agora o ambiente favorável ao desenvolvimento das virtudes morais (alcançar mais facilmente a própria perfeição, ensina João XXIII). O governo chinês as favorece? Por exemplo, o fortalecimento da personalidade, com a consequente ampliação do âmbito da autonomia, é favorecido por governos totalitários? Seria um disparate afirmá-lo. Favorece o pleno desenvolvimento das famílias? E a política, agora oficialmente suprimida pelo desastre monumental que ocasionou, de um filho por família? E a imposição dos abortos? Milhões e milhões de abortos impostos a cada ano. Poderia lembrar, sem fim, pontos apavorantes. 

Foi título do artigo: Arcebispo esbofeteia impiedosamente a verdade. Está bem, mas vou acrescentar um advérbio: O Arcebispo esbofeteia impune e impiedosamente a verdade. Deixando mais claro: Na subserviência escandalosa aos tiranos, o Arcebispo impune, impiedosamente esbofeteia a verdade.

QUARTA FEIRA DE CINZAS


Dia de jejum e abstinência de carne. 

Durante a Quaresma, a Igreja preparava os catecúmenos para o batismo solene e tinha especial empenho na reconciliação de pecadores públicos. Estes recebiam as cinzas, símbolo da penitência pelo pecado. 

Posteriormente a Santa Igreja começou a aplicá-las também a todos os fiéis, na Quarta-Feira de Cinzas, para que, depois dos descalabros e orgias do Carnaval, eles tivessem presente o pensamento da morte e da consequência do pecado como preparação para a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. 

Reza a Liturgia: “Memento homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris” (“Lembra-te homem que és pó e que em pó hás de tornar”).

11 de fevereiro de 2018

LOURDES – 1858-2018

Imagem de Na. Sra. de Lourdes venerada na Igreja do Sagrado Coração Jesus [Foto PRC] 


Em memória do 160º aniversário das aparições de Nossa Senhora a Santa Bernadette em Lourdes, reproduzimos a seguir trecho de uma conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, em 10 de fevereiro de 1965, sem sua revisão. 


Plinio Corrêa de Oliveira

Nossa Senhora de Lourdes desejou ser conhecida enquanto sumamente benfazeja. Assim, sugiro pensarmos numa grande graça para pedir a Ela. Devemos ser ousados em nossas orações, pedir coisas arrojadas, não coisas insensatas, e pedir com muita insistência. Por exemplo, pedir uma graça que diga respeito à santificação, e depois algo que se queira de temporal, mas que Ela nos conceda se for para o bem de nossas almas. Isso nos leva a refletir no panorama de nossa vida espiritual, a ter uma visão de nós mesmos e de nossas atividades. 

Na igreja do Sagrado Coração de Jesus [na capital paulista] há uma gruta com uma imagem de Nossa Senhora de Lourdes [foto ao lado e acima]. Não é uma imagem qualquer, é a própria imagem que era venerada na Basílica de Lourdes, na França, antes da imagem atual, segundo documento [foto abaixo] guardado na igreja. Portanto, essa imagem constitui um elo entre Lourdes e o Brasil. 

Nunca devemos nos esquecer de que no Evangelho as doenças do corpo são tratadas como sendo símbolos de doenças da alma. Assim como alguns sofrem paralisia do corpo, outros sofrem paralisia de alma; alguns sofrem de cegueira no corpo, outros na alma; surdez, mudez e outras enfermidades. Se tivermos defeitos de alma que desejamos corrigir, seria o momento adequado de os levarmos àquela gruta de Nossa Senhora de Lourdes e pedir a Ela que nos cure.

Para ampliar, click na foto
Isso tem muita razão de ser, pois se a Virgem Santíssima deseja tanto curar corpos perecíveis e mortais, quanto mais desejará curar almas imperecíveis e imortais. Nosso Senhor Jesus Cristo não veio à Terra para salvar corpos, veio para salvar almas. 

Nossos pedidos não podem deixar de ser muito gratos a Ela. Pedidos feitos para nós ou por outrem; por alguém a quem desejamos fazer um bem; por uma alma cujas dificuldades nos amedrontam; por um amigo cujas aflições, tentações ou perigos constituem para nós uma fonte de preocupação.

10 de fevereiro de 2018

Ultrajes contra Jesus Cristo nos dias de Carnaval

Meditação de Santo Afonso Maria de Ligório* apropriada para os dias carnavalescos, que ele classifica como "dias de extravagância diabólica", nos quais Jesus "será crucificado centenas e milhares de vezes" 



Santo Afonso Maria de Ligório
Consummabuntur omnia quae scripta sunt per prophetas de filio hominis — Será cumprido tudo o que está escrito pelos profetas a respeito do Filho do homem (Lc 18, 31). 

Não é sem uma razão mística que a Igreja propõe à nossa meditação Jesus Cristo predizendo a sua dolorosa Paixão. Como nossa boa Mãe, ela deseja que nós, seus filhos, nos unamos a ela, para nos compadecermos do seu divino Esposo e o consolarmos com os nossos obséquios, ao mesmo tempo em que os pecadores, nestes dias mais do que em outros, lhe renovam todos os ultrajes descritos no Evangelho. Quer ela também que roguemos pela conversão de tantos infelizes, nossos irmãos. Acaso não temos motivos suficientes para isso?

Nestes tristes dias os cristãos, e quiçá entre eles alguns dos mais favorecidos, trairão como Judas o seu divino Mestre e o entregarão nas mãos do demônio. Eles o trairão, já não às ocultas, mas nas praças e vias públicas, fazendo ostentação de sua traição! Eles o trairão, não por trinta dinheiros, mas por coisas mais vis ainda: pela satisfação de uma paixão, por um torpe prazer, por um divertimento momentâneo!


Illudetur, flagellabitur et conspuetur (será motejado, flagelado e coberto de escarros). Uma das baixezas mais infames que Jesus Cristo sofreu em sua Paixão, foi que os soldados lhe vendaram os olhos e, como se ele nada visse, o cobriram de escarros e lhe deram bofetadas, dizendo: Profetiza agora, Cristo, quem te bateu? Ah, meu Senhor, quantas vezes esses mesmos ignominiosos tormentos vos são de novo infligidos nestes dias de extravagância diabólica! Pessoas que cobrem o rosto com uma máscara, como se Deus assim não pudesse reconhecê-las, não têm pejo de vomitar em qualquer parte palavras obscenas, cantigas licenciosas, até blasfêmias execráveis contra o santo Nome de Deus! 

Et postquam flagellaverint, occident eum (e depois de o terem açoitado, o farão morrer). Sim, pois segundo a palavra do Apóstolo, cada pecado é uma renovação da crucifixão do Filho de Deus. Ah! nestes dias Jesus será crucificado centenas e milhares de vezes. 

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(*) Santo Afonso Maria de Ligório, Meditações para todos os dias e festas do ano. Tomo I, Herder & Cia, Friburgo, 1921, p. 279-280.

9 de fevereiro de 2018

“Carnaval: tempo de minhas dores e aflições”


ALGUMAS FRASES PARA REFLEXÃO


“O carnaval é um tempo infelicíssimo, no qual os cristãos cometem pecados sobre pecados, e correm à rédea solta para a perdição” 
(São Vicente Ferrer) 

“Carnaval: tempo de minhas dores e aflições” 
(São Francisco de Sales) 

“Oh! Que tempo diabólico!” 
(Santa Catarina de Siena) 

“Nestes três dias de carnaval, tivemos o Santíssimo Sacramento exposto. São dias de festa e ao mesmo tempo de tristeza. Podemos fazer tão pouco para reparar tanto pecado” (Santa Teresa dos Andes) 

“Se alguém procede durante o carnaval de modo extremamente leviano, é isto uma prova de que anteriormente já havia uma falha na couraça moral dessa pessoa. Por outro lado, se essa falha pode ter ocasionado a renúncia momentânea a certas atitudes e a certas ideias durante o carnaval, como é difícil voltar depois à primitiva linha de moral!” 
(Plinio Corrêa de Oliveira)

4 de fevereiro de 2018

BÉCASSINE

Verdadeiros tratadinhos de sociologia viva 


Plinio Corrêa de Oliveira (*) 

Sempre considerei um verdadeiro sociólogo o artista Joseph Pinchon (1871-1953), autor dos desenhos dos livros de Bécassine, personagem da literatura infantil da época. Camponesa da Bretanha, Bécassine era filha do casal Labournez. Viviam em Clocher-les-Bécasses, cidadezinha de nome encantador que existia em função do castelo de Monsieur e Madame de Grand-Air, os marqueses da região.

Comparadas com as roupas e os modos de ser no meu tempo de menino [início do século XX], as ilustrações mostram características do ambiente social equivalente em São Paulo, consideravelmente afrancesado.
Os livros de Bécassine são verdadeiros tratadinhos de sociologia. Uma cena característica, anterior à Primeira Guerra Mundial, mostra o batizado na família de Bécassine — uma festa de camponeses, para a qual a marquesa foi convidada — onde se destacam três pessoas: a marquesa, o cocheiro e Monsieur Labournez.

Madame de Grand-Air aparenta uns trinta anos, com algo ainda de moça e algo de senhora. O modo como ela ergue os braços é sumamente distinto. O braço sustentando a sombrinha é tão leve, que dir-se-ia não estar sujeito à ação da gravidade. Com o outro braço ela saúda Monsieur Labournez de modo afável.

O pudor do traje é notável. Está toda coberta, os braços revestidos de grandes luvas de pelica branca que chegam até a manga. Demonstra grande segurança, sentada com o porte alto e o olhar benévolo para Monsieur Labournez. Ela o olha muito de cima, sabe marcar a distância, mas também sabe passar por cima dessa distância. De ponta a ponta, é como um arco-íris de benevolência e simpatia.

A importância dela é realçada pelo cocheiro. Com jeito teso e a corpulência de um banqueiro ufano de sua importância, ele guia o coche e sua fisionomia parece dizer: Abram caminho para a marquesa de Grand-Air. Essa atitude do cocheiro contrasta com a afabilidade da marquesa. Fica bem uma senhora desse nível fazer-se preceder por um homem capaz de defendê-la, garantindo a segurança e dando-lhe a possibilidade de ser muito graciosa, acolhedora e leve.

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(*) Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 14 de maio de 1980. Sem revisão do autor.

3 de fevereiro de 2018

DEUS NÃO MORRE!


Plinio Maria Solimeo

Há vários tipos de ateus. O dicionário Houaiss os define como pessoas que não creem em Deus ou nos deuses; ateístas. E, no sentido pejorativo, os que ou aqueles que não revelam respeito ou deferência para com as crenças religiosas alheias; ímpios, hereges. Poder-se-ia acrescentar “os meramente indiferentes em matéria de religião”, que representam a maioria.

Nesse sentido, poder-se-ia afirmar que o emblemático Juliano, o Apóstata [busto ao lado], tido como ateu afamado que tentou exterminar o cristianismo ainda dando os seus primeiros passos do Império Romano, embora se dissesse ateu, no fundo acreditava em Deus, e O odiava. Consta que, ao morrer vítima de uma flechada durante batalha, exclamou: “Venceste, Galileu!”

Poderíamos dizer o mesmo do regime comunista que procurou exterminar do seu “império” toda ideia de Deus e, por conseguinte de religião, como prejudiciais à sua ideologia e métodos de doutrinação. Interessante artigo publicado no site católico espanhol, Religión en Libertad, traz o sugestivo título: “Há 100 anos, o Estado Soviético fuzilava Deus: hoje, 7 entre 10 pessoas declaram sua crença n’Ele”.

Escreve o articulista que há 100 anos, no dia 16 de janeiro de 1918, houve um “Juízo do Estado Soviético contra Deus”, que acabou de modo sumário no dia seguinte: Deus foi condenado à morte, tendo sido disparados cinco rajadas de metralhadora rumo ao céu. À época “os bolcheviques se encontravam apenas há três meses no poder, e controlavam Moscou, São Petersburgo e a zona central da Rússia. Não obteriam o controle total do país senão em outubro de 1922, com a conquista da distante Vladivostok e o fim da guerra civil. Em janeiro de 1918 não havia ainda começado a matança de clérigos. ‘Fuzilar Deus’ era um gesto simbólico e humilhante para ir mostrando [à população] a nova situação”

O responsável por essa pantomina foi Anatóli Lunatcharski [foto ao lado], um intelectual que gostava de encenação. Assim, no dia marcado, diante de numeroso público moscovita, ocorreu a primeira seção do juízo contra Deus. Durante mais de cinco horas, foram lidas as acusações do “povo russo, em representação da espécie humana”, contra “o réu”. A mais protuberante delas: Deus é acusado de “genocídio”. 

Como era impossível personificar o réu, foi colocado num banquinho um exemplar da Bíblia para representá-Lo. Os acusadores “apresentaram” então grande quantidade de provas, baseadas em testemunhos históricos, contra o “réu”. Para demonstrar imparcialidade no julgamento, foram nomeados defensores para o réu, escolhidos pelo Estado Soviético.

Aqueles ímpios “defensores” pediam a absolvição do “réu”, pois ele padecia de “grave demência e transtornos psíquicos”, não sendo, portanto, responsável pelos seus atos. Não podia ir mais longe o burlesco daquela encenação. O resultado não poderia ter sido diferente: Deus foi declarado culpado de todos os delitos, sobretudo, de genocídio e crimes contra a humanidade.

Lunatcharski — com pompa teatral — proclamou a sentença: “Deus morrerá fuzilado amanhã dia 17 de janeiro, sem possibilidade de interpor qualquer tipo de recurso, nem ocorrer o mínimo atraso”. Assim se passou. No dia seguinte houve a “execução” de Deus com o disparo de cinco rajadas de metralhadoras contra o céu... 

*       *       * 
Ora, diz o articulista: “Uma vez que se mata Deus, matar homens não custa nada”. Daí os milhões de vítimas dos regimes comunistas. Essa política ferozmente antirreligiosa, entretanto, se mostrou contraproducente. De modo que, por ocasião da morte de Lenin em 1924, O.Y. Liovin, especialista em História da Igreja Russa, pôde dizer: 

“Ferir os sentimentos religiosos dos crentes, profanar o sagrado, fechar os templos, reprimir o clero [...] tudo isso, de fato, serviu para unir os crentes e provocar um renascimento religioso. De modo que, depois de uma política de carga de cavalaria, o regime recomendou adotar a política de assédio a longo prazo”

Os comunistas viram a necessidade urgente de mudar a tática, seguindo meio mais eficaz de “descristianizar” o povo. Uma circular do Partido, de 5-9-1924, ordenava:

“A propaganda antirreligiosa deve ser levada em forma de explicações das ciências naturais e políticas, que minem a fé em deus, e desmascarem, com fatos concretos, a fraude e a avareza dos milagreiros, curadores. É preciso evitar a agitação antirreligiosa massiva [...] que insulte e fira os sentimentos da parte crente da população”

Por isso, dizemos, o melhor método que encontraram no Ocidente foi o da infiltração comunista nos meios católicos, e inclusive eclesiásticos. Os sem-Deus chegaram à conclusão diabólica de que, a longo prazo, para descristianizar a população, o melhor era começar pelas crianças, nas escolas.

Assim, em março de 1929, antes da retomada das matanças, Lunatcharski, que era então Ministro da Educação, escrevia no jornal “Izvestia”: 

“Na tarefa da educação [...] entra a dissipação de superstições de toda classe, e uma luta sem quartel contra todo obscurantismo, herança do passado, estorvo para a criação do futuro. Em concreto, a escola [...] não pode ser alheia à luta contra a religião, em suas formas velhas ou novas”.

Ora, para os comunistas conseguirem sucesso nessa empreitada, necessitavam de professores ateus. Assim Lunatcharski continua: 

“O Comissariado Popular da Educação [...] declara firmemente que, ter mestres crentes na escola soviética, é uma grave contradição, e que os departamentos de educação devem utilizar qualquer expediente para substituí-los por outros de veio antirreligioso. [...] A escola terá que aplicar seu esforço para dissuadir às crianças de visitar a igreja e as variadas cerimônias religiosas e [...] oferecer-lhes, ao mesmo tempo, um equivalente na escola, algo organizado, algo antirreligioso e ao mesmo tempo atraente”

Infelizmente é o que ocorre em nossas escolas onde, mestres ateus tentam impingir nos seus incautos alunos teorias como a absurda Ideologia de Gênero, de “família” homoafetiva e outros absurdos. 

Apesar de todo esforço de ateização, o sentimento religioso é tão enraizado nas pessoas que, no censo russo de 1937, depois de 20 anos de comunismo e repressão antirreligiosa, de 30 milhões de cidadãos analfabetos maiores de 16 anos, 84% (mais de 25 milhões), ainda se declaravam crentes.

E de 68,5 milhões de alfabetizados, 45% (mais de 30 milhões), ainda criam em Deus. É curioso notar que, entre os analfabetos, a proporção dos crentes foi mais expressiva do que a dos alfabetizados. Bons tempos em que os canais de televisão — muito pouco crédulos — não invadiam a privacidade do lar, até nas mais remotas regiões, para modificar mentalidades com os obscenos conteúdos de novelas. 

Isso deixou os bolcheviques furiosos, e recomeçaram então as matanças. Entre os anos 1937 e 1938, houve 100 mil execuções e 200 mil deportações. De 1939 a 1942, como já havia pouca gente para matar, houve “só” 4 mil execuções. Nesse último ano, como Stalin precisava gente para a guerra, parou a perseguição sangrenta. 

O artigo não apresenta dados mais recentes, mas cita uma pesquisa da agência WinGallup, de 2017, na qual consta: de cada 10 pessoas no mundo, 7 creem em Deus. Isso praticamente se inverte na China, onde prevalece a ditadura comunista que persegue a religião: de cada 10 chineses, 7 se declaram ateus. 

Por fim, assinalo que essa farsa sacrílega de “matar Deus” foi imitada pelos comunistas espanhóis durante a guerra civil espanhola de 1936. Um grupo deles foi até o Cerro de los Ángeles [foto ao lado], nos arredores de Madrid, onde se encontrava uma grande imagem do Sagrado Coração de Jesus, e “a fuzilaram”, como se se tratasse de pessoa viva, mostrando bem que aprenderam a lição com seus mestres do Kremlin.

31 de janeiro de 2018

SÃO JOÃO BOSCO

São João Bosco em 1887 – última fotografia do santo.


Falecido em 31 de janeiro de 1888, celebra-se, neste dia 31 de janeiro de 2018, 130 anos do passamento à vida eterna do grande São João Bosco. Em memória desse veneradíssimo Apóstolo da juventude, reproduzimos a seguir um artigo de Plinio Corrêa de Oliveira, publicado no “Legionário” de 30 de janeiro de 1938. 


Plinio Corrêa de Oliveira 

Quando o mundo se afasta da Igreja, cai inevitavelmente nos erros mais grosseiros da inteligência, levado pela dissolução dos seus costumes. De fato, os maiores erros da humanidade provieram não da verdadeira ciência, mas dos pecados dos cientistas, que, deturpando suas inteligências, os conduziram ao erro, quer insensivelmente, quer propositalmente, como meio de desculpar as suas faltas. 

É por isso que costuma aparecer livros e teorias pretendendo constituir a moral independente de Deus, muitas vezes mascarando-a com o endeusamento da vontade. Ora, a vontade é verdadeiramente maravilhosa, e reforma verdadeiramente o homem quando coopera com a graça divina, porém é absolutamente impotente quando a despreza. 

O homem verdadeiramente honesto é o católico verdadeiro, pois são tantas as paixões que procuram desviá-lo do cumprimento do dever, que é impossível observar todas as suas obrigações, sem a recepção frequente dos sacramentos.

E só o católico verdadeiro, que recebe frequentemente os Sacramentos e corresponde fielmente à graça de Deus com inquebrantável força de vontade, consegue cumprir escrupulosamente os ensinamentos de Nosso Senhor Jesus Cristo. 


São João Bosco nos revela o quanto pode a graça, quando de nossa parte correspondemos fielmente a ela. Dotado de grande força de vontade, desde pequeno alimentava o desejo de ser padre, embora a extrema miséria de sua família e a oposição do irmão levantassem uma barreira que pareceria intransponível a quem confiasse apenas em suas próprias forças. 

São João Bosco, no entanto, tinha toda confiança em Nosso Senhor Jesus Cristo, e tudo suportou para corresponder à vocação que possuía pelo sacerdócio. 

Depois de ordenado, São João Bosco resolveu dedicar-se inteiramente às crianças abandonadas, reunindo-as determinados dias em “oratórios” como ele designava essas reuniões infantis, para rezarem, divertirem-se em brinquedos honestos e aprenderem o catecismo. 

Por suas crianças, São João Bosco de tudo era capaz. Tanto afrontava os poderosos da época, em geral inimigos da Igreja, como esforçava-se em aprender os malabarismos de um artista de circo que com sua arte desviava os meninos do seu “oratório”. 

Dentro em pouco, tão numerosas eram as crianças que corriam aos “oratórios”, que São João Bosco concebeu a ideia da fundação de uma nova Sociedade religiosa que se dedicasse exclusivamente à educação da juventude. Animado pelo Bem-aventurado (hoje Santo, n.d.c.) José Cafasso e pelo Papa Pio IX fundou a “Pia Sociedade de São Francisco de Salles” e o “Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora”. 


Num sonho, São João Bosco 
teve a revelação de que sua 
imagem estaria acima da estátua 
de bronze de São Pedro e do 
medalhão/mosaico do Papa Pio IX. 
Constrangido com tal glória, 
ele acordou e o sonho de desfez. 
Mas hoje, na nave central da Basílica 
de São Pedro em Roma, 
essa revelação encontra-se imortalizada 
em mármore, como se vê nesta foto. 
A Estátua mede 4.80 m e foi realizada 
pelo famoso escultor Pietro Canonica 
(1869 - 1959) [Foto PRC].
Mais tarde, numa antevisão da “ação católica” instituiu a obra dos cooperadores salesianos, composto quase que exclusivamente de leigos e que tinham por obrigação dedicarem-se às obras de caridade e prestar todo auxílio possível aos vigários, Bispos e ao Santo Padre. 

Apesar de inteiramente dedicado aos meninos, São João Bosco quis que de sua casa partissem religiosos para as missões em busca de novas almas para Cristo. Os primeiros salesianos que partiram para as missões eram chefiados por João Cagliero e se dirigiram à América Meridional. Hoje, eles se acham espalhados por todas as missões do mundo. 

São João Bosco tinha por lema na vida “Dai-me almas e ficai com o resto”, e durante toda sua existência preocupou-se exclusivamente em ganhar almas para o Céu, não poupando sacrifícios e doçura de trato para conseguir a amizade de seus meninos. 

Quando aos 31 de janeiro de 1888, morreu o Santo das crianças, foi extraordinário o número de meninos e ex-alunos de São João Bosco que acorreram ao seu enterro. Desde logo a fama de sua santidade espalhou-se por toda parte. Instaurado o processo para sua beatificação em 1907, Pio XI em 1934 incluía-o entre os Santos da Igreja Católica. 

São João Bosco nada tinha de seu, no começo de sua vida, mas confiado exclusivamente na Providência divina, e cooperando fielmente com a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, construiu igrejas, colégios, fundou duas congregações religiosas, ganhou inúmeras almas para o Céu e, o que vale mais que tudo isto, santificou-se. Que Ele, continuando no Céu seu intenso apostolado, conquiste os brasileiros para a Igreja, a fim de que o Brasil se faça uma nação verdadeiramente católica, merecedora das bênçãos de Nosso Senhor Jesus Cristo.

20 de janeiro de 2018

WASHINGTON — Marcha contra o aborto


Abaixo segue um vídeo da recente “March for Life”. A célebre Marcha contra o aborto transcorreu com grande sucesso em Washington, no dia 19 de janeiro, com a participação de centenas de milhares de pessoas. Crescem nos Estados Unidos, sobretudo entre a juventude, fortes reações que exigem a completa revogação da abominável lei -- a infame decisão "Roe v. Wade" (1973) -- que permite o aborto naquela poderosa nação. 

Outro fator que nos faz confiar em tal revogação é que a parte do público favorável ao aborto está envelhecida: são políticos de esquerda, celebridades de Hollywood e feministas radicais.

Oxalá a matança de inocentes ainda no ventre materno seja completamente proibida o quanto antes.



17 de janeiro de 2018

Por que não se recorre mais a referendos?


Plinio Maria Solimeo

Por incrível que pareça, é “politicamente correto” ser a favor do chamado “casamento” homossexual ou de qualquer união estável, considerando-os tão válidos quanto o casamento entre homem e mulher. E políticos e juristas, agindo sempre na contramão da opinião pública, aprovam leis que violam os direitos da sacrossanta instituição da família tradicional. 

É mesmo verdade que a maioria da população é a favor dessas uniões ilegítimas, sobretudo do “casamento” homossexual? Por que não se faz um plebiscito a respeito para conhecer a verdadeira opinião da população? Simplesmente porque os governantes e juristas têm medo de que a população se manifeste contrariamente, salvaguardando o verdadeiro casamento, que é o entre homem e mulher. 

Por isso é que, onde foi redefinido o matrimônio, como na França, Portugal, Espanha, Inglaterra e outros países europeus, isso foi feito pelas elites políticas, sem consultar a população. Em nenhum desses países se realizou um referendo para alterar o matrimônio, incorporando nele as uniões entre pessoas do mesmo sexo. 

Pois toda vez que se dá à população a oportunidade de se manifestar, ela o faz em favor do matrimônio tradicional. 

Triunfo do apoio ao matrimônio tradicional 

Uma das mais recentes provas disso nós a temos em um país que foi subjugado durante décadas pelo tacão comunista e que ainda é governando por um governo socialista: a Croácia. Com efeito, fazendo parte da União Européia desde julho deste ano, foi-lhe dada excepcionalmente pela UE a liberdade de se manifestar a respeito do assunto. E o resultado não se fez esperar: 65,9% dos eleitores se manifestaram em favor de que “o matrimônio seja a união entre homem e mulher, e não outras combinações”. 

Como é que, sendo o primeiro-ministro socialista Zoran Milanovic favorável ao “casamento” homossexual, promoveu um plebiscito visando ratificá-lo e incluí-lo na Constituição croata? 

O problema é que a consulta plebiscitária foi realizada à sua revelia, tendo ele sido obrigado a aceitá-la. A iniciativa partiu da coalizão pró-família “Em nome da família” (U Ime Obitelji), que num país de 4.3 milhões de habitantes recolheu 740 mil assinaturas pedindo o referendo, como previsto constitucionalmente.

Para a reforma da Constituição sobre a definição do matrimônio era necessária uma maioria simples de votos. Entretanto, dois em cada três votantes, apoiaram o matrimônio tradicional, enquanto somente 33,5% votaram contra, havendo apenas 0,6% de votos nulos. Quer dizer, foi uma vitória incontestável.

Para que se possa fazer uma ideia de quanto esse resultado suscitou simpatia em todo o mundo, em menos de 24 horas depois do encerramento dos colégios eleitorais, o Facebook da organização já havia recebido mais de 6.500 mensagens de felicitações de toda a Europa, em inglês, francês, italiano, polonês e espanhol.

É preciso dizer que o cardeal de Zagred, Dom Josip Bozanic, havia apoiado a campanha das entidades pró-vida, lembrando que o matrimônio é uma união especial, que favorece a procriação e a educação equilibrada das crianças. Portanto, não pode ser uma união entre pessoas do mesmo sexo, que é estéril em si mesma. 

É claro que o ministro socialista tentou a todo custo evitar a consulta popular. Mas acabou dizendo à “Agência Efe” que “lamentavelmente não se pôde evitar o referendo sobre o matrimônio, por mais triste que isso soe”. Essa mesma Agência informa que o governo socialista chegou a qualificar de “homofóbica a realização dessa consulta”, esquecendo-se de que o povo decidiu livremente que o matrimônio seja o que sempre foi, e que não seja mudado por governantes e juristas a seu bel-prazer, para se mostrarem politicamente corretos.

Também a Eslovênia rejeita o “casamento” homossexual


Mas a Croácia não foi o único país da ex-Cortina de Ferro a se manifestar contra emendas que visavam redefinir o matrimônio. Também na Eslovênia, país de dois milhões de habitantes, a coalizão cívica “Pelas crianças” (Za Otroke Gre), estruturada em torno do Instituto pela Cultura da Vida, mobilizou-se, e em apenas quatro dias recolheu 48 mil assinaturas reivindicando a consulta dos cidadãos sobre a rejeição de emendas que atingiam diretamente a família. 

O Parlamento, formado por políticos sempre deslocados da realidade, rechaçou as assinaturas, argumentando que era inconstitucional votar sobre a definição de família imposta por eles, por ser homofóbico e discriminatório. Mas o Tribunal Constitucional rejeitou a decisão parlamentar e apoiou a iniciativa dos cidadãos eslovenos. 

Ocorre que em 2015 o mesmo Parlamento havia aprovado a redefinição da família, para aceitar o chamado “casamento” homossexual. Mas, para que a lei entrasse em vigor, era preciso a assinatura do presidente. Este, apesar de favorável à emenda, não se sabe bem por que, ainda não a tinha assinado, razão pela qual nenhum “casamento” homossexual havia se registrado na Eslovênia. 

A pergunta à qual os eslovenos deveriam responder era: “Você é a favor da entrada em vigor da lei sobre emendas e complementos da lei do matrimônio e família que o Parlamento aprovou em 3 de março de 2015?”

Pela lei eslovena, bastava que 20% dos votantes se opusessem à lei para bloqueá-la. Mas seus opositores foram mais de 380 mil (63.5%), que se declararam contra as emendas. Somente 36,5% se manifestaram favoráveis ao “casamento” homossexual. 

Que nossos políticos no Brasil abram os olhos, e vejam que não foram eleitos para contrariarem a vontade da população, tantas vezes manifesta. E apesar de não eleitos, não se creiam divinos alguns ministros do Supremo Tribunal Federal, um dos quais chegou a declarar que certas conquistas do Iluminismo não devem ser objeto de consulta, mas simplesmente aplicadas...

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Fontes consultadas: 
https://www.religionenlibertad.com/eslovenia-es-el-primer-pais-en-el-mundo-en-revocar-el-46670.htm 
https://www.religionenlibertad.com/croacia-unico-pueblo-de-la-ue-al-que-han-dejado-votar-32562.htm

26 de dezembro de 2017

A multiforme inspiração do Espírito Santo nos panetones e bolos de Natal


Santiago Fernandez (*) 

Nos países católicos há uma imensa variedade de pratos e bolos que se preparam somente para o Natal. Nesse ponto os italianos acabaram passando na frente de todos os outros ao criarem o universalmente conhecido e cobiçado “panettone”. 

De onde ele vem? 


Discute-se fortemente na Itália sobre a sua origem. Todos concordam que nasceu na região de Milão. 

Segundo uma versão, o panettone apareceu pelo fim do século XV num banquete oferecido pelo tempestuoso duque Ludovico Sforza, dito “o Mouro”. O ajudante de cozinha, de nome Toni, encarregado de vigiar o forno durante a preparação da sobremesa, teria dormido. E quando acordou ela estava queimada! 

Para se salvar da ira do colérico duque, ele apanhou então tudo o que sobrara na cozinha e misturou, para produzir um pão “enriquecido” que fez as delícias de todos. Essa obra-prima passou para a posteridade como o “pão de Toni”, que acabou dando em “panettone”. 


Mas há outra versão: o jovem nobre Ughetto degli Atellani, que desejava casar-se com Algisa, filha do padeiro Toni, teria conseguido ser contratado pela padaria, onde concebeu o famoso pão de Natal para conquistar a moça. 

Outra versão ainda é aquela segundo a qual Sóror Ughetta — cujo nome significa passa — teria comprado com suas últimas moedas algumas passas e frutas cristalizadas para acrescentar a seu pão de Natal, levando assim um sorriso às irmãs de seu convento. 

O fato histórico incontestável é que, entre outras coisas, na Idade Média nasceu o costume de comemorar o Natal com um pão que fosse melhor do que o quotidiano. Até 1395 os fornos de Milão só podiam assar esse pão no período natalino, e ele era marcado com frequência com uma cruz. 
"Pandoro" de Verona
Mas há o “panettone” glacê e com amêndoas de Turim. E também o “pandoro”, de Verona, que é muito alto, pesa cerca de um quilo, tem sabor de baunilha, uma miga muito leve e é servido num pacote feito com açúcar cristalizado que também se come. 


"Panforte" de Siena
Em Veneza, o “panettone” vem acompanhado de um creme de frutas cristalizadas. Há ainda o “pandolce” de Gênova, um pouco mais compacto, bem como o “panforte” de Siena, feito com especiarias e sem farinha, com a massa consolidada com mel, pimenta e canela. 

O sul da Itália aplicou sua inspiração ao “panettone”, que vinha do Norte, acrescentando-lhe delícias que são inéditas nas regiões frias: laranja, limão, pistache, bergamota e o licor limoncello. 

O “panettone” de Nápoles é feito com laranjas cristalizadas de Amalfi e limoncello. Em Siracusa, ele vem com chocolate, pistaches, laranjas cristalizadas da Sicília e passas de Pantelleria. Todos eles em geral têm preços acessíveis. 


"Christmas pudding" inglês
Deixando agora a Itália e passando a outros países, os britânicos preparam o tradicional “pudding”, oriundo da Idade Média. Segundo instrução da Igreja Católica, ele “deve ser feito no domingo após a festa da Santíssima Trindade, que neste ano de 2017 foi celebrado em 18 de junho. É preparado com 13 ingredientes para representar Cristo e os 12 Apóstolos, e todos os membros da família devem dar uma mexida em sua massa durante a preparação, um de cada vez, de leste a oeste, a fim de homenagear os Reis Magos e sua suposta jornada nessa direção”. 

Por sua vez, os belgas degustam os chamados “cougnoles” ou “cougnous”, pães do tipo brioche cujo tamanho varia entre 15 e 80 cm, com a forma de um presépio que acolhe uma imagenzinha do Menino Jesus. 


"Christstollen" alemão
Os alemães preparam o “Christstollen”, bolo muito denso perfumado com especiarias e recheado com frutos cristalizados e passas, assado numa forma especial. 

Os espanhóis no Natal preferem o “turrón”, uma massa feita com amêndoas e mel. Ele tem muitas variantes: com chocolate, nozes, frutas secas etc. 

Os franceses comemoram com a “bûche”, literalmente pedaço de lenha, que suscita todo ano um verdadeiro concurso para ver quem é o “pâtissier” que concebe a variante mais criativa. 


"Büche de Noël"
Durante séculos, as famílias francesas acendiam na noite de Natal um pedaço de lenha de árvores frutíferas como cerejeira, ameixeira, macieira ou oliveira, ou de madeiras nobres ou comuns. Ficou conhecida como a “bûche de Noël”. 


A família aquecida por esse fogo se reunia para a Ceia de Natal entoando canções. Com o tempo entraram novos sistemas de aquecimento e as velhas lareiras foram se apagando. 

Mas eis que a “bûche de Noël” se transformou em uma obra-prima da pâtisserie francesa, a sobremesa indispensável nos lares da França nos dias abençoados do Natal. É difícil conhecer o autor do prodígio, embora talvez tenham sido muitos, guiados em diversas partes pelo instinto católico, pela tradição e pelo bom gosto. 

Fala-se que um aprendiz de Paris, que trabalhava numa chocolataria do aristocrático bairro de Saint Germain des Prés, teria sido o autor da ideia. Os palacetes do bairro eram habitados por nobres ligados a seus castelos, erigidos muitas vezes em bosques e em contínuo contato com a agricultura e as tradições locais. 


Como esses nobres não encontravam suas rústicas, mas abençoadas “bûches de Noël” na refinada Paris, então o aprendiz concebeu um doce em forma de lenha para lhes aplacar a saudade inspirada pela fé. 

Segundo outros, o famoso bolo foi inventado em Lyon por volta de 1860. Há os que defendem que Pierre Lacam, pasteleiro e sorveteiro do príncipe Carlos III de Mônaco, teria concebido a primeira requintada “bûche” em 1898. 

Quem quer que seja o seu inventor, nas proximidades do Natal a “bûche de Noël” aparece nas pâtisseries da França em forma de sorvete ou bolo, sendo avidamente procurada pelos espíritos amantes da família, da tradição e da Cristandade. 

Na Córsega ela é forçosamente feita à base de castanhas, embora as fórmulas e apresentações sejam inumeráveis, de acordo com a preferência das famílias, dos padeiros, dos confeiteiros de cada região, cidade, rua ou loja. 


"Galettes des rois" da França
Já no início de janeiro as vitrines das pâtisseries de Paris se enchem de “galettes des rois”, conta “Le Petit Journal”. O nome — como o de tantos produtos culinários franceses — não tem tradução, mas alguns tentaram “bolo dos reis”. Ele é vendido com uma coroa especial. Em 2014, entre 85% e 97% dos franceses diziam comê-lo na festa da Epifania, ou Reis. As receitas, acompanhamentos e formas são incontáveis, em geral redondas. Quando o “bolo dos reis” contém o apreciado marzipã, é chamado de “parisiense”; com frutas abrilhantadas é o bordalês. 


"Bolo rei" de Portugal
Em Portugal, ele é feito de um modo especial e recebe o nome de “Bolo Rei”, designação que sublevou sem sucesso muitos revolucionários igualitários e republicanos. Existem receitas semelhantes na cidade norte-americana de Nova Orleans, na Bélgica, no México (“rosca”), na Grécia (“vassilopita”) e na Bulgária (“pitka”), para só citar algumas.


Voltando à França, o mais típico é que a criança mais nova sentada à mesa se encarregue de cortar a “galette des rois” e distribua um pedaço para cada um. Em alguma parte do bolo há uma fava, também chamada “rei”, que faz a alegria da mesa. 

A fava respeita a forma de sua humilde semente original, mas depois passa a ser substituída por pequenos objetos simbólicos imaginosos, como lâmpadas douradas e outros. O fato é que quem recebe o pedaço com a “fava” é chamado de “rei”, ganha a coroa que veio com o bolo e deve beber em uma taça especial, enquanto os demais cantam “o rei bebe, o rei bebe”, em meio ao gáudio geral. 

Aliás, nos bons tempos partia-se a “galette” de acordo com o número dos presentes mais um. Esse pedaço excedente era chamado “a parte do Bom Deus”, ou “a parte da Virgem”, ou “a parte do pobre”, e era destinado ao primeiro pobre que fosse bater à porta do lar. 

O costume comemora a festa da Adoração do Menino Jesus pelos Reis Magos, ou Epifania, celebrada em 6 de janeiro. A Epifania comemora precisamente a chegada de Melchior, Gaspar e Balthazar, conduzidos pela milagrosa estrela. 

Na Espanha, os Reis Magos são muito mais importantes para as crianças do que Papai Noel. São eles que trazem os presentes na noite de 5 para 6 do janeiro, depositando-os sobre os sapatinhos infantis deixados na sacada ou na lareira. 


"Roscón de Reyes" da Espanha
É normal que o fato seja comemorado com um bolo. É o denominado “Roscón de Reyes” em forma de coroa, o qual introduz uma variedade grande em relação à “galette des rois” francesa. 

Foi só no mundo católico que a ação multiforme da graça do Espírito Santo inspirou uma tão larga variedade de pães simples, mas deliciosos, próprios a elevar os espíritos e a fortalecer o corpo nos gaudiosos dias do nascimento do Redentor. 

Procure-se entre os protestantes ou nos decaídos países pagãos e veja se eles criaram uma variedade análoga de uma iguaria saborosa e inocente, tão de acordo com o espírito sobrenatural do Natal católico.

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Fonte: Revista Catolicismo, Nº 804, Dezembro/2017.

23 de dezembro de 2017

A noite entre todas sagrada

Nas pompas festivas da Missa do Galo, as famílias, os povos, as nações se sentiam ungidos pelo júbilo sacral descido do mais alto dos céus 


Plinio Corrêa de Oliveira (*)

O Advento, período que no ano litúrgico compreende as quatro semanas antecedentes ao Natal, constituía para a Cristandade uma parte do ano especialmente voltada para o recolhimento, para uma discreta compunção e para a esperança palpitante do grande júbilo que o nascimento do Messias trará. Todos se preparavam assim para acolher o Menino-Deus que, no virginal sacrário materno, se acercava, dia a dia mais, do momento bendito em que iniciaria sua convivência salvífica com os homens.  

Nessa atmosfera densa e vividamente religiosa, a tônica se ia gradualmente deslocando. À medida que se aproximava a noite entre todas sagrada, a compunção ia cedendo lugar à alegria. Até o momento em que, nas pompas festivas da Missa do Galo, as famílias, os povos, as nações se sentiam ungidos pelo júbilo sacral descido do mais alto dos céus; e em cada cidade, em cada lar, no interior de cada alma se difundia, como um bálsamo de celeste odor, a impressão de que o Príncipe da Paz, o Deus Forte, o Leão de Judá, o Emanuel, mais uma vez acabava de nascer. Stille Nacht, Heilige Nacht... a canção célebre que se transpôs para nosso vernáculo, de modo menos expressivo, como Noite Feliz.  
De toda essa preparação, o que restou? Do Advento, quem hoje cogita senão uma minoria ínfima? E dentro dessa minoria ínfima, quantos o fazem sob a influência da verdadeira teologia católica e tradicional, e não das teologias ambíguas e desvairadas que sacodem hoje em dia o mundo cristão, como se fossem convulsões de febre?

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Excertos do artigo de Plinio Corrêa de Oliveira, “No crepúsculo do sol de justiça”, publicado na “Folha de S. Paulo” em 1º-1-1979.