26 de março de 2018

Julgamento e condenação de Jesus Cristo, uma farsa sórdida e grotesca

Fonte desta matéria aqui reproduzida:
Revista Catolicismo, Nº 807, março/2018
Selecionamos para esta Semana Santa, ligeiramente adaptados, trechos da excelente obra Jesus Cristo, Vida, Paixão e Triunfo, do Pe. Augustin Berthe.(1) No capítulo 7 — Paixão e Morte de Jesus — o autor narra o divino oferecimento de Nosso Senhor no Horto das Oliveiras, aceitando o sacrifício supremo de ser crucificado e morto para redimir o gênero humano. Destaca ainda a ignóbil farsa montada no processo contra Jesus, resultado de uma diabólica conspiração para condenar de antemão o Inocente por excelência. 

O Pe. Berthe expõe com muita eloquência os conciliábulos feitos no julgamento do Sinédrio dirigido por Anás e Caifás. Esses velhos e astutos sumos sacerdotes dos judeus quiseram inicialmente dar certa aparência de legitimidade ao julgamento, a fim de não levantar suspeitas no povo e não dar pretexto ao governador romano para anular a sentença condenatória. Mas não conseguiram dissimular suas iniquidades: praticaram gravíssimas ilegalidades, violaram todas as leis, não respeitaram sequer as formalidades normais de um processo legal. 

Como na época o Sinédrio não tinha o poder de emitir sentenças capitais, por isso Jesus Cristo foi enviado depois ao governador romano, que em nome do Imperador detinha o poder de condenar à morte os habitantes da Judeia, encerrando-se o julgamento no palácio de Pôncio Pilatos.
A Direção de Catolicismo


Jesus Cristo diante de Pilatos – Munkácsy Mihály, séc. XVIII. Coleção Particular.


O Inocente condenado à morte num processo infame e ilegal



Jesus acabara de entrar no horto de Getsêmani, cujo nome significa lagar de azeite. Naquele momento, o Pai Celeste considerou n’Ele apenas o representante da humanidade decaída, degradada por todos os vícios e manchada por todos os crimes. E Jesus consentiu em ser desde aquele momento unicamente o homem das dores. Deixou que a sua divindade se eclipsasse, e que lutasse sozinha com o sofrimento sua humanidade, com as suas debilidades, fraquezas e desolações.
Para não submeter os seus discípulos a uma prova dura demais, mandou-lhes que o esperassem à entrada do Horto: Sentai-vos aqui, enquanto Eu vou além para orar (Mt 26, 36). E tomou consigo Pedro, Tiago e João, aquelas três testemunhas da sua gloriosa transfiguração no Tabor. Só eles, fortalecidos com aquela grande lembrança, eram capazes de assistir ao espetáculo da sua angústia, sem se esquecerem de que era o Filho de Deus. 

Não se faça a minha vontade, mas a tua

Na sua condição humana, o Filho de Deus encontrou-se diante da aterradora visão do suplício que ia sofrer. Um tédio profundo e um horror imenso, junto a uma tristeza que ninguém poderia sequer imaginar, apoderaram-se da sua alma, a tal ponto que irrompeu naquela exclamação angustiosa: A minha alma está numa tristeza de morte! Sem um milagre, a humanidade de Jesus sucumbiria ao peso da dor. Os três discípulos, comovidos e aterrados, olhavam para ele com ternura, mas sem ousar pronunciar uma palavra. Disse-lhes Jesus com voz trêmula: Ficai aqui e vigiai, enquanto Eu também vou orar (Mt 26, 38).
Afastou-se e andou com dificuldade até a gruta, que desde então passou a chamar-se Gruta da Agonia. Mas a terrível visão O seguia. Logo que ali chegou, viu perpassarem-lhe diante dos olhos os diversos instrumentos de suplício: cordas, flagelos, cravos, espinhos e uma cruz; verdugos, com a boca cheia de zombarias e blasfêmias, e uma turba em delírio a oprimi-lo com vilanias sem nome. Por um momento recuou horrorizado. Mas enfim, caindo de joelhos e com o rosto em terra, exclamou: Meu Pai, se é possível, afaste-se de mim este cálice; todavia não se faça a minha vontade, mas a tua (Mt 26, 39). 

Oração no Horto (La Maestà, detalhe) 
Duccio di Buoninsegna, séc. XIV. 
Museo dell’Opera del Duomo, Siena.

Não pudeste velar uma hora comigo

Deus Pai, porém, queria que Ele bebesse o cálice até o fim, por isso nenhuma voz do Céu respondeu ao seu queixume. Aterrado, trêmulo e coberto de suor, levantou-se e caminhou com dificuldade para onde estavam os três discípulos, a fim de neles buscar alguma consolação, mas encontrou-os prostrados pela tristeza. Tão grande era a prostração deles, que mal reconheceram o seu Mestre. Queixou-se Ele daquele abandono, e dirigiu-se mais especialmente a Pedro, que momentos antes fizera tão belas promessas: Tu dormes, Simão. Não pudeste velar uma hora comigo? Vigiai e orai, para não cairdes em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca (Mt 26, 40-41).
Tendo assim estimulado os discípulos, voltou uma segunda vez à gruta. Reapareceu-lhe a visão ainda mais aterradora. Ele, o santo dos santos, viu-se coberto com uma montanha de pecados. Todas as abominações e todos os crimes, desde a prevaricação de Adão até o último pecado cometido pelo último dos homens, se levantaram diante d’Ele e a ele se juntaram, como se fosse Ele o culpado de todos. E bradou-lhe uma voz: Olha para todas essas monstruosidades. Pertence a ti expiá-las com sofrimentos proporcionados ao número e enormidade dos atentados cometidos contra Deus. Prostrado no pó, com o coração triturado e a morrer de dor à vista do pecado, ainda assim encontrou força bastante para tornar a dizer com sublime resignação: Meu Pai, se for preciso que Eu beba este cálice, faça-se a tua vontade. Tendo dito estas palavras, tornou outra vez aos discípulos, na esperança de encontrar junto deles algum conforto para a sua alma exausta; mas tinham os olhos sonolentos, e de tal modo se sentiam oprimidos pela tristeza, que não acharam uma só palavra para lhe responder. 

Monstruosa ingratidão dos homens

Entrou pela terceira vez na gruta, para ali sofrer uma agonia mortal. Coberto com todos os pecados dos homens, e sofrendo tormentos inauditos no seu Corpo e na sua Alma, viu milhões de pecadores que, depois de resgatados por Ele, O perseguiam com os seus desprezos e ódios implacáveis através dos séculos. Viu-os perseguindo a Igreja, calcando aos pés a Hóstia Santa, profanando a cruz, blasfemando da sua Divindade, decapitando-lhe os filhos, trabalhando com todas as forças para conduzir ao inferno as almas, pelas quais iria dar o seu Sangue! À vista de tão monstruosa ingratidão, caiu Jesus ao chão como que aniquilado. O seu corpo estava banhado de suor e de sangue. Gotas de sangue saíam-lhe de todos os poros, corriam-lhe pelo rosto e caíam em terra. Contudo não cessava de orar, e com voz enfraquecida repetia ao Pai que estava pronto para beber até o fim o cálice das dores.
Inevitavelmente culminaria com a morte aquela inexprimível angústia, quando desceu do Céu um anjo para O consolar e fortalecer. No mesmo instante voltou Jesus à sua calma e serenidade; e aproximando-se dos discípulos, disse-lhes com aquela sua habitual indulgência: Agora dormi e descansai, pois já não precisais de velar comigo. Porém, mal haviam cerrado os olhos, disse-lhes: Levantai-vos e vamos. É chegada a hora em que o Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos pecadores. Está perto aquele que me vai entregar (Mt 26, 36-46). E ao clarão dos archotes que alumiavam o vale, puderam ver bandos de gente armada que se dirigiam para o jardim de Getsêmani. Era Judas à frente dos soldados que deviam prender Jesus. 

A Traição de Judas (La Maestà, detalhe) 
Duccio di Buoninsegna, séc. XIV. 
Museo dell’Opera del Duomo, Siena

Traição dissimulada com um beijo

Não tinha o infeliz Judas perdido tempo desde que saíra do cenáculo. Foi dizer aos membros do Supremo Conselho que Jesus se dirigia com os discípulos para o Monte das Oliveiras, e pernoitaria num lugar solitário (perfeitamente conhecido do traidor); e que, por conseguinte, muito fácil seria prendê-lo durante a noite, sem excitar nenhum rumor no povo. Bem satisfeitos, adotaram os príncipes dos sacerdotes aquele plano, e formaram uma chusma de gente armada para o pôr logo em execução. Compunha-se o pelotão de um destacamento de soldados encarregados de guardar o Templo, servos do sumo sacerdote e um punhado de populares com lanças, varapaus, tochas e lanternas. Acompanhavam aquela noturna expedição alguns membros do Sinédrio, para tomar as decisões exigidas pelas circunstâncias.
Os soldados não conheciam Jesus, e receberam ordem de esperar à entrada do horto enquanto Judas avançaria sozinho para o seu Mestre, e o indicaria a todos com um sinal inconfundível: Aquele a Quem eu der um beijo, esse é. Prendei-o e levai-o com toda a precaução, porque bem pode suceder que vos escape (Mt 26, 48). Dado o sinal, devia Judas misturar-se com os discípulos, como se não tivesse parte no crime que se ia perpetrar. Disfarçava assim a traição ao seu Mestre, poupando aos príncipes dos sacerdotes a vergonha de ter recorrido a um vil expediente para satisfazer a sua vingança. Todos, porém, haviam feito os cálculos sem contar com a sabedoria e o poder de Deus.
Era meia-noite quando os soldados chegaram perto do jardim. No vale reinava um pesado silêncio, e a própria tropa evitava fazer barulho, a fim de não despertar o povo. Naquele momento Jesus descia com os discípulos para a porta do jardim. Conforme o pacto, Judas avançou sozinho ao encontro de Jesus. Aproximou-se do Mestre sem o mínimo acanhamento, como se viesse dar-lhe conta de qualquer incumbência, e disse: Salve, Rabbi! Ao mesmo tempo deu-lhe o beijo que os judeus costumavam dar aos amigos e parentes. Em vez de rejeitar o traidor, Jesus disse-lhe com brandura divina: Amigo, a que vieste? Judas, é com um beijo que entregas o Filho do Homem? (Lc 22, 48).
Em lugar de cair de joelhos, para suplicar o perdão do seu pecado, Judas ouvia as invectivas indignadas dos discípulos, e decidiu retroceder para os da sua tropa. Imaginaram os soldados que ele lhes daria alguma explicação, seguindo-se daí um momento de hesitação, dando lugar a uma cena de majestade inigualável. Não esperou Jesus que O viessem prender, mas avançando para os soldados, perguntou-lhes com voz firme:
A quem buscais?
A Jesus de Nazaré – responderam eles.
Sou Eu! – disse Jesus.
E com esta simples palavra, soldados, criados e sinedritas, tomados de um terror súbito, recuaram um passo e caíram todos ao chão. Depois que se levantaram, Jesus, sempre de pé diante deles, repetiu-lhes a pergunta:
A quem buscais?
A Jesus de Nazaré – repetiram eles, trêmulos.
Sou Eu Jesus de Nazaré, como acabo de declarar. Mas se é a mim que buscais, deixai ir estes.
Jesus acompanhou estas últimas palavras com um gesto imperioso. Desejava salvar seus discípulos, conforme a oração que dirigira ao Pai algumas horas antes — De todos os que me confiaste, não perdi um só (Jo 18, 7-9). 

Jesus preso pela soldadesca 
(La Maestà, detalhe) 
Duccio di Buoninsegna, séc. XIV. 
Museo dell’Opera del Duomo, Siena.

A hora do poder das trevas

Os discípulos viram como Jesus prostrara os soldados, imaginaram que se defenderia, e preparavam-se para a resistência. Quando a tropa se aproximou para prendê-lo, rodearam-no os onze, cheios de indignação, e bradaram: Senhor, permitis que desembainhemos a espada? Pedro não deu a Jesus tempo de responder, brandiu sua espada sobre a cabeça de um servo do sumo sacerdote, chamado Malco, e cortou-lhe a orelha direita.
Ia travar-se uma luta, mas logo interveio Jesus, que disse a Pedro e aos seus companheiros: Basta. E então, mostrando mais uma vez o seu divino poder, aproximou-se de Malco e tocou-lhe na orelha, que logo ficou curada do golpe. Depois, dirigindo-se a Pedro e a todos os assistentes, declarou que não precisava ser defendido contra os seus inimigos; e se estes lhe punham agora as mãos, era porque se entregava voluntariamente a eles. A Pedro, Jesus ordenou: Pedro, embainha a tua espada. Os que se servem de espada morrerão pela espada. Não devo beber Eu o cálice que meu Pai me deu? Julgas que não posso pedir a meu Pai, que logo me enviaria mais de doze legiões de anjos? O que agora está acontecendo foi antes profetizado, e é preciso que se cumpram as Escrituras (Mt 26, 52-54; Jo 18,11).
Essa oblação voluntária, Jesus a fez notar aos membros do Sinédrio que acompanhavam os soldados. Voltando-se para eles, disse: Viestes prender-me com espadas e varapaus, como se estivésseis perante um ladrão. Todos os dias estava Eu sentado no Templo, ensinando no meio de vós, e não me prendestes. Mas tudo isto aconteceu para que se cumprissem as Escrituras dos profetas. Esta é a vossa hora, a hora do poder das trevas (Mt 26, 55-56; Lc 22, 53).
Aqueles homens estavam cegos e endurecidos. Quanto mais Jesus fazia brilhar a sua divindade, mais ia crescendo neles o ódio. Por ordem deles, tendo-se apoderado de Jesus, os soldados o prenderam como se fosse um malfeitor. O divino Mestre estendeu as mãos aos algozes, transtornando os discípulos e fazendo-os perder a coragem. Ao verem que Ele não rompia as cadeias, que os soldados O ultrajavam impunemente, que os sacerdotes e escribas blasfemavam contra Ele, e que a populaça começava a vociferar ameaças e imprecações contra eles, esqueceram-se de todas as suas promessas e fugiram, cada qual para o seu lado.
Como Jesus tinha anunciado, ficou sozinho no meio dos seus inimigos. 

Fuga dos Apóstolos no Horto 
(La Maestà, detalhe) 
Duccio di Buoninsegna, séc. XIV. 
Museo dell’Opera del Duomo, Siena.

Jesus tratado como um criminoso vulgar

Os fariseus, senhores enfim de Jesus, puderam satisfazer o ódio feroz que lhe tinham votado. E para humilhar aquele profeta, que se fazia passar pelo Messias, quiseram que fosse tratado como um criminoso vulgar. Deram ordem aos soldados para atarem os seus braços sobre o peito. E depois, por meio de cordas presas a uma cadeia que lhe cingiram à volta do corpo, os esbirros obrigaram-no a caminhar diante deles, como se se tratasse de um ladrão ou de um assassino. O cortejo pôs-se em marcha do jardim de Getsêmani para o Monte Sião, onde se encontrava o palácio dos pontífices. Era lá que Jesus devia ser julgado.
Ao atravessar a ponte do Cedron, por instigação dos fariseus os soldados precipitaram Jesus ao leito do riacho. Caindo Ele sobre as pedras, redobraram os sarcasmos e insultos. Espetáculo divertido para aqueles chefes de Israel, ao verem prostrado no lodo aquele taumaturgo que tirava os mortos do sepulcro! Mal sabiam eles que, naquele mesmo momento, se verificavam em Jesus aquelas palavras proféticas: No caminho beberá da água da corrente, e por isso levantará a cabeça.2 

A sórdida farsa do Sinédrio

Depois daquela queda, o prisioneiro avançou com dificuldade para o palácio do sumo sacerdote. Os habitantes de Jerusalém ignoravam o crime que os seus chefes acabavam de cometer, mas alguma agitação já se iniciava na cidade adormecida. Decididos a concluir o assunto naquela mesma noite, os chefes do Sinédrio tinham mandado prevenir os príncipes dos sacerdotes e os escribas, para que se juntassem no palácio de Caifás. Corriam emissários em todas as direções, à procura de testemunhas falsas, com o fim de encobrir a sua infâmia com aparências de legalidade. Como era preciso dar ao julgamento uma certa publicidade, dirigiram-se para o tribunal os fariseus mais opostos a Jesus e às suas doutrinas, para assistir ao interrogatório e aplaudir os juízes. A populaça, sempre pronta a amotinar-se contra o inocente, já começava a agitar-se na sombra ao comando dos seus mentores.
Chegou o cortejo ao palácio dos pontífices a uma hora da manhã. Os soldados levaram Jesus para uma das salas onde estava o magistrado incumbido de formular a acusação. Esse juiz instrutor, chamado Anás, era sogro de Caifás, sumo sacerdote que devia pronunciar a sentença. Anás ocupara o sumo pontificado durante longos anos, e tinha feito passar o cargo a diversos membros da sua família, ficando ele sempre com a primeira autoridade no Sinédrio. Caifás nada fazia sem a direção do astuto velho.
Jesus diante de Anás 
(La Maestà, detalhe) 
Duccio di Buoninsegna, séc. XIV. 
Museo dell’Opera del Duomo, Siena.
Introduzido à presença do ex-pontífice, Jesus manteve atitude firme e semblante calmo e sereno. Tinha Anás preparado com cuidado o seu interrogatório. Fez ao preso muitas perguntas sobre os seus discípulos e doutrinas, com a esperança de colher qualquer indício de maquinações tenebrosas contra a Lei mosaica, mas aquela esperança foi logo desfeita. Dos seus discípulos não disse Jesus uma só palavra, pois era d’Ele pessoalmente que se tratava, e não dos que O tinham seguido. Quanto à sua doutrina, contentou-se em responder: Eu ensinei nas sinagogas e no Templo diante do povo reunido, não disse nada em segredo. Para que me interrogas sobre a minha doutrina? Pergunta àqueles que me ouviram. Eles bem sabem o que ensinei, e darão testemunho da verdade.
Nada mais acertado que esta resposta, tanto assim que o velho pontífice ficou sumamente desconcertado. Mas um dos servos veio-lhe em socorro. Aproximou-se de Jesus, deu-lhe uma vigorosa bofetada e perguntou em tom furioso: É assim que falas ao pontífice? Jesus, sem deixar transparecer nenhuma emoção, respondeu àquele miserável: Se falei mal, dize-me em quê. Mas se falei bem, por que me bates? (Jo 18, 19-23). O indigno servo ficou calado, bem como o seu amo. Confuso e perplexo, Anás suspendeu bruscamente a sessão a fim de não se expor a novas humilhações, e ordenou aos soldados que levassem o preso ao tribunal de Caifás, onde se encontravam reunidos os membros do Sinédrio.

Contra todas as leis e formalidades

Aquela assembleia composta de fariseus e saduceus inimigos declarados de Jesus, de pontífices invejosos da sua glória, e de escribas que Ele mil vezes confundira perante todo o povo, não pretendia dar uma sentença justa, mas executar um projeto de vingança. Basta lembrar que em conciliábulos secretos aqueles mesmos juízes já tinham condenado Jesus três vezes, excomungado os seus partidários, e por fim decretado a sua morte. Caifás, numa daquelas reuniões, afirmara que o triunfo de Jesus arrastaria consigo a destruição da nacionalidade, portanto a sua morte se tornava uma necessidade de salvação pública (Jo 11, 50). Jesus estava condenado de antemão pelo presidente do tribunal e pelos seus conselheiros, que eram todos da mesma opinião.
Naquele processo, aqueles homens iníquos violaram as leis. Era proibido aos juízes dar audiência na véspera ou no dia de sábado, pois a execução do criminoso devia seguir-se imediatamente à sentença, e assim os preparativos do suplício levariam à violação do descanso do dia santificado. A lei proibia também, sob pena de nulidade, que se julgasse durante a noite um pleito de vida ou morte, porque as sessões deviam ser públicas, e por este motivo o tribunal funcionava só depois do sacrifício que se oferecia de manhã.
O Sinédrio passou por cima de todas as formalidades legais. Prendeu Jesus durante a festa da Páscoa, na véspera do sábado, à meia-noite, e procedeu ao julgamento uma hora depois da prisão. O ódio não podia esperar pelo nascer do sol. E mais: era preciso que o povo, ao despertar, soubesse que Jesus já estava condenado, caindo assim por terra o seu entusiasmo, ao saber que o supremo tribunal de justiça condenara o falso profeta como réu de lesa-majestade divina e de lesa-nação. 

Cristo acusado pelos fariseus 
(La Maestà, detalhe) 
Duccio di Buoninsegna, séc. XIV. 
Museo dell’Opera del Duomo, Siena.

Levado ao matadouro como um cordeiro

O Salvador compareceu na sala do pretório, diante de todo o Sinédrio. Para motivar uma sentença de condenação, tinham os juízes fantasiado uma conspiração contra a Lei mosaica e subornado testemunhas falsas, que deviam sustentar a acusação. Mas estas, por se contradizerem umas às outras, foram colhidas em flagrante delito de mentira e impostura, fato que as expunha a graves castigos. Os juízes pareciam muito embaraçados quando dois homens ali foram formular a acusação. Disse um deles: Nós o ouvimos dizer “Posso destruir o Templo de Deus e reconstruí-lo em três dias” (Mt 26, 61). O depoimento do segundo foi um tanto diferente, pois Jesus ter-se-ia expressado da seguinte forma: Eu destruirei este Templo feito por mãos de homem, e em três dias reconstruirei outro que não será feito com mãos humanas (Lc 14, 58).
Aos olhos dos judeus, esta acusação era de suma gravidade, porque o Templo simbolizava a nação, a Lei e a Religião. Mas como transformar as palavras proferidas por Jesus em atentado contra o Templo de Deus? Ele não dissera posso destruir, ou destruirei este Templo em três dias. Pelo contrário, afirmara: Destruí vós este Templo — isto equivale a dizer “Na hipótese da destruição do Templo” — e Eu o reconstruirei em três dias. A ameaça contra o Templo constituiria delito, se não fosse pura invenção das testemunhas. Por outro lado, dava-se às palavras de Jesus um sentido absolutamente alheio ao seu pensamento. As expressões de que se servira provavam claramente que falava do Templo do seu Corpo, daquele Corpo que os seus inimigos iam destruir; e que Ele, em prova do seu divino poder, ressuscitaria depois de três dias.
Depois que os acusadores acabaram de falar, apontou Caifás ao divino Mestre um olhar interrogador e intimou que respondesse. Mas Jesus permaneceu em silêncio. Erguendo-se então encolerizado, como quem se sentisse insultado, tomou Caifás a palavra: Então! Não respondes nada à acusação que estes formulam contra ti? E Jesus continuou em silêncio. Não há que responder a testemunhas falsas, cujos depoimentos nem ao menos são concordes; nem a juízes que pagaram àqueles caluniadores. E não responde à acusação de ter conspirado contra o Templo Aquele que expulsou os vendilhões desse mesmo Templo, para impedir a profanação da casa de Deus. Calando-se, provava Jesus quanto eram indignos os seus acusadores, e ao mesmo tempo dava cumprimento à profecia de David: Foi maltratado e resignou-se, não abriu a boca, como cordeiro levado ao matadouro, como ovelha emudecida nas mãos do tosquiador (Is 54, 7). 

O Sinédrio confundido pelo 
silêncio de Jesus 
(La Maestà, detalhe) 
Duccio di Buoninsegna, séc. XIV. 
Museo dell’Opera del Duomo, Siena

Sem exame, condenaram à morte o Filho de Deus

Aquele silêncio não deixava de inquietar os conselheiros. Pois, se Ele tantas vezes os confundira com a sua ciência e eloquência, mas agora se recusava a responder às acusações, era porque as julgava indignas de uma instituição respeitável como o Sinédrio. Também Caifás assim o entendia, e aquela humilhação enfurecia-o ainda mais. Deixou de lado as acusações, que para nada serviam, e passou a fazer perguntas que obrigariam Jesus a acusar-se a si próprio. Exclamou em voz ameaçadora: Eu Te ordeno, pelo Deus vivo, que nos digas se Tu és o Cristo, o Filho de Deus (Mt 26, 63).
Não estava Jesus obrigado a obedecer a esta intimação, pois a Lei mosaica proibia impor juramento ao acusado, para não o colocar na alternativa de jurar falsamente ou acusar-se a si mesmo. Caifás, porém, contava com que Jesus não hesitaria em afirmar a sua divindade naquela circunstância solene. Em todo o caso, afirmando ou negando, estaria perdido do mesmo modo: se nega, será condenado como impostor e profeta falso, já que muitas vezes afirmou perante o povo que era o Cristo e igual ao Pai que está nos Céus; e se afirma, nós lhe infligimos a pena ditada pela lei contra os blasfemadores e usurpadores dos títulos divinos.
Não se enganou Caifás. Jesus, ao ver-se interpelado pelo pontífice sobre a sua personalidade divina e sobre a sua qualidade de Messias, quebrou o silêncio que tinha guardado desde o começo da sessão. Sabendo bem que os juízes esperavam apenas uma afirmação da sua boca para lhe decretar a morte, respondeu ao sumo sacerdote com soberana dignidade: Acabais de dizer quem Eu sou. Sim, Eu sou o Cristo, o Filho de Deus vivo. E agora escutai-me todos: Vereis um dia o Filho do Homem, sentado à direita de Deus, descer sobre as nuvens do Céu, para julgar todos os homens.
Caifás rasga as vestes 
(La Maestà, detalhe) 
Duccio di Buoninsegna, séc. XIV. 
Museo dell’Opera del Duomo, Siena.
Mal tinha formulado esta empolgante declaração, quando Caifás, sem tomar um momento para examiná-la, bradou irado: Blasfemou! Bem o ouvistes. É inútil interrogar novas testemunhas (Mt 26, 64-65). E rasgou os vestidos com indignação, para protestar contra a injúria feita a Deus, conforme prescrevia a lei. Mas o criminoso contra Deus era ele, o injusto e indigno pontífice. Com que direito declarava ele que Jesus tinha blasfemado? Para conformar-se à lei, devia ouvir o parecer dos seus colegas, não impor-lhes brutalmente a sua opinião. A mais elementar equidade exigia que se examinassem seriamente as afirmações do acusado, antes de as reprovar como blasfemas. Por que motivo não seria Jesus o Messias e o Filho de Deus, segundo o texto da sua declaração? Acaso não correspondiam maravilhosamente a Jesus de Nazaré os caracteres do Messias, indicados nas Escrituras? Não tinha Ele aparecido na época anunciada por Daniel, no momento em que o cetro saía de Judá; segundo o oráculo de Jacob; na cidade de Belém, como tinha profetizado Miqueias? (Miq 5, 1-3). Não revelavam a sua divindade, da maneira mais evidente, a sua doutrina, a sua vida, os seus milagres operados durante três anos diante de todo o povo, os doentes curados, os mortos ressuscitados? Que razão havia, pois, para condená-lo por se ter proclamado Messias e Filho de Deus?
Mas Caifás, dominado pelo rancor, não quis aliviar a sua consciência. Dirigindo-se aos colegas, verdadeiramente dignos dele, bradou-lhes de novo:
Blasfemou! Que vos parece? Que pena merece?
A morte! – responderam eles (Mt 26, 66).
Friamente e sem exame, condenavam à morte o Filho de Deus. Calmo e impassível, Jesus escutou aquela sentença monstruosa. Olhava com majestade para eles, pois antevia o dia em que desceria do Céu para anular aquela sentença execrável e tratar os seus autores conforme as regras da justiça inexorável.

Negação de São Pedro 
(La Maestà, detalhe) 
Duccio di Buoninsegna, séc. XIV. 
Museo dell’Opera del Duomo, Siena.

És um dos discípulos desse homem?

Enquanto assim caminhava o julgamento no palácio dos pontífices, qual era a situação dos discípulos? Depois de terem declarado que jamais abandonariam o seu Mestre, todos se haviam esmorecido ao vê-lo deixar-se prender pelos seus inimigos, e nenhum teve coragem para O acompanhar até Jerusalém. Fugiram do jardim de Getsêmani, favorecidos pelas trevas, e entraram no sombrio vale da Geena, onde umas grutas nos rochedos ofereceram-lhes abrigo até o dia seguinte.3
Passado o primeiro momento de terror, Pedro e João resolveram seguir de longe a tropa que levava Jesus. Queriam saber o que aconteceria ao Mestre, sem se exporem a ser presos e tratados como Ele. Quando chegaram ao Monte Sião, ia Jesus comparecer diante dos juízes. João, menos comprometido que Pedro, e por outro lado conhecido como era no palácio dos pontífices, entrou primeiro, enquanto Pedro, por prudência, ficava à porta. João espreitou os grupos que estavam no interior, e não notando sinal de perigo para os dois, foi chamar Pedro e o fez entrar no pátio.
O vasto recinto quadrangular formado pelos corpos de construções do palácio era vigiado por grande número de soldados e criados. Como a noite estava fria, puseram-se em círculo à volta de um braseiro aceso no meio do pátio, a conversar sobre a expedição daquela noite. João dirigiu-se para a sala onde se encontravam reunidos os membros do Sinédrio, mas Pedro ficou aquecendo-se, à espera do resultado do julgamento.
À sua volta, Pedro só via inimigos do Mestre, pondo em ridículo o Profeta de Nazaré. Ouvia os rumores sinistros que já corriam, relativos à sentença que os juízes pronunciariam. Tinha a alma amargurada, e apesar dos seus esforços não conseguia ocultar inquietação e tristeza. A porteira do palácio que o introduzira, vendo-o assim triste e silencioso, disse aos que o rodeavam: Este também estava com Jesus, o Nazareno. Todos os olhares se voltaram para Pedro, e ela lhe disse: Não és um dos discípulos desse homem? Com esta inesperada interpelação, Pedro julgou-se perdido. Imaginou-se já preso, manietado e arrastado ao tribunal, como o seu divino Mestre, e disse: Mulher, não sabes o que dizes. Eu não conheço o homem de quem falas (Mt 27, 71; Jo 18, 17). 

Pedro renega o Divino Mestre

O galo canta pela primeira vez 
(La Maestà, detalhe) 
Duccio di Buoninsegna, séc. XIV. 
Museo dell’Opera del Duomo, Siena.
Com esta negação formal, a porteira se calou. Ainda assim, vendo Pedro que era suspeito, esquivou-se o melhor que pôde e dirigiu-se precipitadamente para a porta do palácio. Eram quase duas horas, e cantou o galo a primeira vez; mas Pedro, fora de si naquele momento, não se lembrou do vaticínio de Jesus. Quando se preparava para sair, no vestíbulo outra escrava disse para os que ali estavam reunidos: Este estava também com Jesus de Nazaré. Pedro negou mais uma vez. Porém, a fim de não dar a entender que fugia, voltou atrás e colocou-se entre os soldados e a criadagem. Foi logo rodeado de curiosos, que de todos os lados o interrogavam com grande vivacidade: Com certeza tu és um deles, pois a tua maneira de falar denuncia-te (Mt 26, 69-73). Atemorizado, desta vez Pedro não se contentou em negar, mas protestou com todas as forças que não conhecia Jesus, e que não tinha nada a ver com os seus discípulos.
Deixaram-no tranquilo durante uma hora, pois toda a atenção estava concentrada no julgamento do preso. De quando em quando saíam alguns emissários do tribunal e contavam as cenas sinistras às quais acabavam de assistir. Pedro ouvia e fazia perguntas para se informar. Um dos que estavam próximo notou a sua pronúncia regional de galileu, que era muito característica, e lhe disse: Bem podes negar ser galileu e discípulo deste homem; a tua maneira de falar atraiçoa-te. Com esta observação, mais uma vez se voltaram todos os olhos para o discípulo, e um dos servos do sumo pontífice, parente daquele Malco a quem Pedro cortara a orelha, disse-lhe do seu lado: Sim, é verdade; eu bem te vi no horto de Getsêmani (Jo 18, 26).
Ouvindo isso, e lembrando-se da cutilada que dera, Pedro julgou estar já nas mãos dos esbirros. Perdeu a cabeça, e começou a jurar e a dizer imprecações, negando conhecer o Homem de quem falavam e repetindo que nada tinha a ver com Ele.
Eram três horas. Mal Pedro tinha acabado de falar, ouviu-se o segundo canto do galo, e logo ele se recordou da palavra do Mestre: Antes de o galo cantar duas vezes, ter-me-ás negado três vezes (Mc 14,72). Transtornado até o mais fundo da alma, compreendeu toda a gravidade do seu pecado. Ele, o pobre pescador do lago de Genesaré, elevado à augusta dignidade de discípulo e amigo de Jesus; ele, a pedra fundamental sobre a qual o Mestre pensava edificar a sua Igreja; ele, a testemunha e o objeto de tantos milagres, que há pouco proclamara bem alto a divindade de Jesus, acabava de O renegar covardemente, e de jurar que não O conhecia. Ele havia jurado, algumas horas antes, que O acompanharia à prisão e à morte, antes de o abandonar. E o seu querido Mestre conhecia decerto o seu crime, pois nada escapava aos seus divinos olhos. 

Vigiai e orai, para não cairdes em tentação

Este pensamento de Pedro acabou de o prostrar. Concentrado em si mesmo, não viu nem ouviu mais nada do que se dizia e passava em torno de si. Do íntimo do seu coração despedaçado pelo remorso elevava-se este brado angustioso: Senhor, tende piedade de mim, que sou um pobre pecador! Como outrora nas ondas, sentia-se Pedro sorvido pelo abismo, e pedia socorro.
De repente, as vociferações na sala onde estava sendo julgado o Mestre vieram tirá-lo dos seus pensamentos sombrios. Ouviam-se clamores — A morte! A morte! Merece a morte! Todos os olhos se voltaram para a porta do pretório, que se abriu com estrondo, e um grupo de soldados desceu para o pátio. No meio deles, sempre encadeado, apareceu Jesus com os olhos cheios de tristeza, mas com o rosto tão sereno como no momento em que se entregara aos seus inimigos. A sentença fora dada, e levavam-no agora para a prisão, onde devia passar o resto da noite.
Diante daquela cena, Pedro sentiu-se cambalear. Seus olhos acompanhavam o Mestre, seguindo atentamente todos os seus movimentos. O sinistro cortejo se dirigiu para onde ele estava, Jesus aproximou-se dele, ia passar junto dele. Pedro tinha os olhos arrasados de lágrimas, e a sua alma contrita pedia perdão. Jesus teve compaixão dele, e pôs os seus olhos no discípulo infiel. Mas o fez com tanta bondade, tanto amor temperado com tão suaves repreensões, que Pedro sentiu o coração desfalecer-lhe no peito. Desatou a soluçar e saiu às pressas, pois precisava chorar amargamente.
A algumas centenas de passos, no sombrio vale da Geena, uma gruta solitária4 acolheu a desolação de Pedro. Ele precisava chorar o seu pecado e meditar na advertência de Jesus, que a presunção o tinha impedido de compreender, mas cuja divina sabedoria essa dolorosa experiência lhe mostrava agora: Vigiai e orai para não cairdes em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca (Mt 26, 41). 

 Adivinha, Cristo, quem te bateu!

Adivinha Cristo quem te bateu! 
(La Maestà, detalhe) 
Duccio di Buoninsegna, séc. XIV. 
Museo dell’Opera del Duomo, Siena
Depois de terem condenado Jesus à morte, separaram-se os membros do Supremo Conselho. Mas, como aquele julgamento noturno constituía uma gravíssima ilegalidade, convieram todos em reunir-se às cinco horas, para ditar a sentença com todas as formalidades. Não porque a consciência deles protestasse contra o seu monstruoso modo de proceder, mas urgia dissimular as iniquidades demasiado revoltantes a fim de melhor enganar o povo, e sobretudo para não dar ao governador romano pretexto para lhes anular a sentença.
Das três às cinco da manhã, foi Jesus encerrado pelos guardas num lúgubre recinto, que servia de prisão aos condenados. Com ele entrou um bando de soldados e criados. Durante essas duas longas horas, julgaram aqueles bandidos que tudo lhes era permitido contra aquele a quem Caifás tratara de blasfemo em plena sessão do Sinédrio, e a quem um servo impunemente esbofeteara diante dos juízes. Prodigalizaram insultos e desprezos, nomes odiosíssimos, e não se envergonharam de lhe cuspir no rosto. Exasperados pela invencível paciência de Jesus, e impelidos pelo demônio, deram-lhe pontapés e murros, atirando-o de um lado para outro, como uma bola entre as mãos dos jogadores. Para variar o divertimento e pôr em ridículo os títulos de Messias e Filho de Deus, que Jesus se atribuía, vendaram-lhe os olhos e o esbofetearam; e depois, tirando-lhe a venda, gritavam com escárnio: Adivinha, Cristo, quem te bateu! E lançavam-lhe ainda as piores blasfêmias.
Aceitando esses ultrajes, cumpria Jesus a profecia de Isaías: Não desviei o meu rosto dos que me ultrajavam e me cuspiam (Is 50, 6). Os seus olhos ensanguentados pousavam naqueles esbirros, sem exprimir nenhum sentimento de indignação, e dos seus lábios torturados não saíam queixas nem murmúrios. Com a sua calma soberana, estava à espera da hora em que se abrisse aquela caverna de feras. 

Vós dizeis bem, Eu sou o Filho de Deus

Aceitando esses ultrajes, 
cumpria Jesus a profecia de Isaías: 
Não desviei o meu rosto dos 
que me ultrajavam e me cuspiam (Is 50, 6). 
(La Maestà, detalhe) 
Duccio di Buoninsegna, séc. XIV. 
Museo dell’Opera del Duomo, Siena.
Pelas cinco horas, os guardas foram avisados de que os juízes estavam de novo à espera da sua vítima. Com os cabelos desalinhados, o rosto coberto de sangue e saliva, as mãos bem atadas, Jesus foi reconduzido ao tribunal. Salvo Nicodemos e José de Arimateia, que recusaram ter voz naquele processo, os outros membros do Sinédrio encontravam-se todos reunidos. Aquele aparato solene tinha o objetivo de encobrir as ilegalidades do julgamento noturno, fazer esquecer os falsos testemunhos e os furores do juiz. Cegos pela ânsia de acabar com este caso, passavam mais uma vez por cima da lei, que proibia aos juízes dar audiência em dia de festa, na véspera de sábado e antes do sacrifício da manhã.
Naquela audiência já não se tratava de acusações mal definidas, de palavras equívocas, de testemunhas mais ou menos seguras. O Supremo Conselho queria condenar Jesus unicamente porque Ele se dizia o Messias prometido a Israel. Segundo alegavam, Jesus não aceitava as tradições que os fariseus acrescentaram à Lei de Moisés, não tinha estudado nas escolas dos doutores, não tinha envergadura para fundar um reino judaico sobre as ruínas do império romano. Portanto, era um falso Messias, um impostor que merecia a morte. Por isso, quando Jesus compareceu perante a assembleia, o presidente só lhe pediu uma simples declaração: Declara-nos se Tu és o Messias! Jesus respondeu-lhe: Por que me perguntais? Se disser que sou o Messias, vós não me crereis. E se Eu vos dirigir perguntas, com o fim de vos fazer ver a verdade, vós não me respondereis nem me soltareis.
Isto equivalia a dizer claramente aos membros do Conselho: Não vejo em vós juízes que buscam a verdade, mas esbirros decididos a proferir uma sentença de morte. Jesus desvendou assim diante deles a criminosa deslealdade, fitou-os de frente e acrescentou, em tom pleno de majestade: Depois que tiverdes dado a morte ao Filho do Homem, ficai sabendo que Ele se sentará à direita de Deus onipotente (Lc 22, 67-69).
Ao ouvir esta palavra, ergueram todos a cabeça, pois uma simples criatura não se senta à direita de Deus onipotente.
Tu és então o Filho de Deus? – bradaram-lhe de todos os lados.
Vós dizeis bem. Eu sou o Filho de Deus.
Esperavam apenas esta afirmação solene, para desatar os seus furores. Mal o ouviram, bradaram todos em coro: Ele mesmo acaba de se acusar. Não precisamos de mais testemunhos! Merece a morte! (Lc 22, 70-71). E condenaram-no ao último suplício, como culpado de lesa-nação, por ter usurpado o título de Messias; e de lesa-majestade divina, por ter ousado chamar-se Filho de Deus. Consideraram-se então obrigados a levar o condenado ao pretório do governador romano, a fim de que a sentença fosse ratificada e executada naquele mesmo dia. 
Judas recebe as 30 moedas (La Maestà, detalhe) – Duccio di Buoninsegna, séc. XIV. Museo dell’Opera del Duomo, Siena.

O maldito traidor, Judas Iscariotis

Durante aquela noite tenebrosa, andava um homem sombrio e silencioso em torno do palácio do pontífice, procurando saber as peripécias do espantoso drama que se desenrolava no pretório de Caifás. Era Judas, o traidor que vendera e entregara o seu divino Mestre por trinta moedas de prata. Depois da prisão de Jesus no Jardim das Oliveiras, a vergonha e o remorso invadiram-lhe a consciência, não cessando de o atormentar. O demônio dissimulara a enormidade do seu crime; mas, uma vez cometida a traição, pôs-lhe diante dos olhos toda a monstruosidade do que fizera.
Caim, por ter matado seu irmão, foi amaldiçoado por Deus, e o sangue de Abel clama e clamará eternamente vingança contra o assassino. Mas o inocente Abel era apenas um homem, ao passo que Jesus era o Filho de Deus. ‘Judas, o sangue do Filho de Deus será derramado, e eternamente clamará vingança contra ti!’ — assim lhe falava o demônio. E a alma de Judas fechava-se como a de Caim, insensível ao amor e ao arrependimento, para dar entrada ao desespero e ao ódio a Deus!
Judas sentia pesar e remorso, 
mas o Sinédrio não os tinha 
e lançava toda a culpa sobre ele. 
Judas atirou aos pés dos sacerdotes 
as trinta moedas de prata 
e saiu do Templo, sem saber 
para onde dirigir os seus passos.
Imerso na turba, o traidor encontrava-se à porta do palácio quando ela foi aberta para dar passagem aos soldados que conduziam Jesus ao pretório do governador romano. Soube ele, por este indício, que a vítima da sua traição já estava condenada. O mais espantoso desespero penetrou-lhe o íntimo da alma. Alguns sacerdotes que saíam do Conselho dirigiam-se ao Templo, para o sacrifício da manhã. Seguiu-os, levando as moedas de prata com que eles lhe pagaram a traição. Mal chegaram ao lugar santo, apresentou-se diante deles e disse-lhes com uma voz que o horror tornava trêmula: Pequei, entregando-vos o sangue do Justo (Mt 27, 4). E estendeu-lhes a mão com a bolsa dos trinta dinheiros, que lhe queimavam os dedos.
Ao proclamar ele mesmo a inocência do seu Mestre, restituindo o preço do crime, talvez Judas esperasse abrandar aqueles homens e fazê-los intervir em favor do condenado, arrancando-o assim à morte. Mas tinha diante de si corações mais duros que o dele, e mais insensíveis aos remorsos. Responderam-lhe encolhendo os ombros, com zombarias indignas: Se entregaste o sangue inocente, isso é lá contigo. O que temos nós a ver com o caso? Tu és o único responsável. Judas sentia pesar e remorso, mas o Sinédrio não os tinha e lançava toda a culpa sobre ele. Judas atirou aos pés dos sacerdotes as trinta moedas de prata e saiu do Templo, sem saber para onde dirigir os seus passos. 

Assim morrem os que vendem Jesus e a Igreja

O demônio tira a alma de Judas 
Giovanni Canavesio, 1491. 
Chapelle Notre-Dame des des Fontaines,
La Brigue, França.
Do Monte Moriá, colina do Templo, desceu Judas ao vale de Josafat. Aí andou pelo meio dos sepulcros, passou junto do túmulo de Absalão (esse filho maldito que voltara as armas contra o seu pai) e lançou um olhar para aquele Monte das Oliveiras, ao pé do qual Jesus pouco antes lhe dissera: Amigo, com um beijo entregas o Filho do Homem! Uma voz interior, a voz de Satanás, gritava-lhe sempre: Maldito! Maldito! Entrou logo no vale da Geena, imagem do inferno do qual toma o nome. Abrandou o passo e subiu a vertente escarpada que espreita para o Monte Sião. Estava sozinho no campo de um oleiro, e pela última vez fixou o olhar em Jerusalém. Desatando o cinto, enforcou-se numa árvore e morreu desesperado.
O cadáver do traidor foi encontrado ao pé da árvore. O laço se havia rompido, caindo seu corpo no chão e rebentando-se suas entranhas, que ficaram espalhadas pela terra. Foi enterrado no campo do oleiro. Como os sacerdotes não queriam incluir no tesouro do Templo as trinta moedas de prata, por serem preço de sangue, compraram com aquela quantia o campo do oleiro onde Judas se enforcara, destinando-o à sepultura dos prosélitos estrangeiros. Aquele campo chama-se ainda hoje Haceldama, isto é, preço de sangue. Deste modo se cumpriu a profecia de Jeremias: Receberam os trinta dinheiros de prata, preço d´Aquele que foi posto à venda, e os deram pelo campo de um oleiro, conforme dispôs o Senhor (Zac 11, 12-13; Jer 19, 1 ss; Mt 27, 3-10).
Assim foi a morte do novo Caim, assim morrem os que, à imitação de Judas, vendem Jesus e a Igreja por algumas moedas de prata. O seu espírito extinto já não crê na misericórdia do Deus a quem atraiçoaram, o seu coração endurecido fica insensível ao amor, a sua alma desesperada cai no abismo, onde ecoará aquela palavra de Jesus a Judas: Ai daquele por quem o Filho do Homem for traído! Melhor lhe seria que não tivesse nascido (Mc 14, 21).

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Notas:
1.       Pe. Augustin Berthe, C.SS.R., nasceu a 15 de agosto de 1830, em Merville, diocese de Cambrai (França). Faleceu em Roma em 22 de novembro de 1907. Ordenado sacerdote em 1854, tornou-se grande missionário e pregador da sua Congregação. Foi professor de Retórica, reitor de diversas casas redentoristas na França e consultor geral da Congregação em Roma. Escreveu numerosos artigos e livros traduzidos para diversas línguas, com tiragens muito elevadas.
2.       Esta particularidade da Paixão do Salvador é conhecida pela tradição. Ainda hoje se mostra, junto à ponte do Cedron, uma pedra de bom tamanho na qual Nosso Senhor, ao cair, deixou a impressão dos seus joelhos, pés e mãos. A Igreja concedeu indulgências aos peregrinos que se ajoelham naquela pedra do Cedron, que se tornou uma das estações da Via do Cativeiro, nome do caminho que seguiu Jesus desde o horto de Getsêmani até o palácio de Pilatos.
3.       Uma daquelas grutas chama-se ainda Retiro dos Apóstolos, lugar onde se refugiaram oito apóstolos depois da prisão do Salvador, segundo a tradição.
4.       Ainda hoje, os peregrinos que descem o monte Sião visitam a Gruta do Arrependimento de São Pedro. Segundo uma tradição, depois que saiu do palácio de Caifás, naquela gruta Pedro chorou amargamente (Lc 22, 62). Até o século XII, ela estava encerrada dentro de uma igreja que tinha o nome de S. Pedro em Galicanto (canto do galo). Esta igreja não existe mais.

24 de março de 2018

SUPREMO APEQUENAMENTO DO SUPREMO


Paulo Roberto Campos

Assistindo a sessão do Supremo Tribunal Federal no dia 22 último [foto acima] lembrei-me da declaração de sua Presidente, Carmem Lúcia, de que se o STF fosse rediscutir se Lula da Silva pode ou não ser condenado à prisão, após a condenação em segunda instância, seria “apequenar” a mais alta Corte do País... (Cfr. “Folha de S. Paulo”, 30-1-18). 

Mas foi o que aconteceu naquele triste dia! Essa sessão passará para a História como o dia em que o STF, além de se ter “apequenado” (dando um salvo-conduto ao condenado ex-presidente petista), atropelou a inteligência e o bom senso do brasileiro. No término da vergonhosa sessão, Lula não estava mais no banco dos réus, mas nele encontrava-se sentada a maioria daqueles ministros.

Sobre tal sessão do STF, de todos os artigos que li, o melhor e mais lúcido que encontrei foi do célebre jornalista J.R. Guzzo, publicado em seu blog, hospedado no site da revista VEJA, no próprio dia da sessão. Assim, aqui transcrevo este formidável artigo. 

Para o Juízo Universal 

O STF é o melhor lugar do mundo para delinquentes top de linha

Por J.R. Guzzo 
22 março de 2018 
https://veja.abril.com.br/blog/fatos/para-o-juizo-universal/ 

O Supremo Tribunal Federal já deixou, há muito tempo, de ter alguma relação com o ato de prestar justiça a alguém. O que se pode esperar da conduta de sete ministros, entre os onze lá presentes, que foram nomeados por um ex-presidente condenado a doze anos de cadeia e uma ex-presidente que conseguiu ser deposta do cargo por mais de 70% dos votos do Congresso Nacional? Outros três foram indicados, acredite quem quiser, por José Sarney, Fernando Collor e Michel Temer. Sobra um, nomeado por Fernando Henrique Cardoso — mas ele é Gilmar Mendes, justamente, ninguém menos que Gilmar Mendes. 

Deixem do lado de fora qualquer esperança, portanto, todos os que passarem pela porta do STF em busca da proteção da lei. Quer dizer, todos não — ao contrário, o STF é o melhor lugar do mundo para você ir hoje em dia, caso seja um delinquente cinco estrelas e com recursos financeiros sem limites para contratar advogados milionários. O STF, no fundo, é uma legítima história de superação. Por mais que tenha se degenerado ao longo do tempo, a corte número 1 da justiça brasileira está conseguindo tornar-se pior a cada dia que passa e a cada decisão que toma. Ninguém sabe onde os seus ocupantes pretendem chegar. Vão nomear o ex-presidente Lula para o cargo de Imperador Vitalício do Brasil? Vão dar indulgência plenária a todos os corruptos que conseguirem comprovar atos de ladroagem superiores a 1 milhão de reais? Vão criar a regra segundo a qual as sentenças de seus amigos, e os amigos dos amigos, só “transitam em julgado” depois de condenação no Dia do Juízo Universal?

Os ministros do STF, com as maiorias que conseguem formar hoje em dia lá dentro, podem fazer qualquer coisa dessas, ou pior. Por que não? Eles vêm sistematicamente matando a democracia no Brasil, com doses crescentes de veneno, ao se colocarem acima das leis, dos outros poderes e da moral comum. Mandam, sozinhos, num país com 200 milhões de habitantes, e ninguém pode tirá-los dos seus cargos pelo resto da vida. O presente que acabam de dar a Lula é apenas a prova mais recente da degradação que impõem ao sistema de justiça neste país. Foi uma decisão tomada unicamente para beneficiar o ex-presidente — chegaram a mudar o que eles próprios já tinham resolvido a respeito, um ano e meio atrás, quando declararam que o sujeito pode ir para a cadeia depois de condenado na segunda instância. É assim que se faz em qualquer lugar do mundo onde há justiça de verdade — afinal, as penas de prisão precisam começar a ser cumpridas em algum momento da vida. Para servir a Lula, porém, o STF estabeleceu que cadeia só pode vir depois que esse mesmo STF decidir, no Dia de São Nunca, se vale ou não vale prender criminoso que já foi condenado em primeira e segunda instâncias (no caso de Lula, por nove juízes diferentes até agora), ou se é preciso esperar uma terceira, ou quarta, ou décima condenação para a lei ser enfim obedecida. Falam que a decisão foi “adiada”, possivelmente para o começo de abril. Mentira. Já resolveram que Lula está acima da lei – como, por sinal, o próprio Lula diz o tempo todo que está.

O STF atende de maneira oficial, assim, não apenas a Lula, mas aos interesses daquilo que poderia ser chamado de “Conselho Nacional da Ladroagem” – essa mistura de empreiteiras de obras públicas que roubam no preço, políticos ladrões, fornecedores corruptos das estatais e toda a manada de escroques que cerca o Tesouro Nacional dia e noite. Para proteger essa gente o “plenário” está disposto a qualquer coisa. Ministros se dizem “garantistas”, como Dias Toffoli e Marco Aurélio Mello, e juram que seu único propósito é garantir o “direito de defesa”. Quem pode levar a sério uma piada dessas? A única coisa que garantem é a impunidade. No julgamento do recurso de Lula, o ministro Ricardo Lewandowski teve a coragem de dizer que a decisão não era para favorecer o ex-presidente, mas sim “milhares de mulheres lactantes” e “crianças” que poderiam estar “atrás das grades” se o STF não mandasse soltar quem pede para ser solto. É realmente fazer de palhaço o cidadão que lhe paga o salário. O que uma coisa tem a ver com a outra? Porque raios não se poderia soltar as pobres mulheres lactantes que furtaram uma caixinha de chicletes e mandar para a cadeia um magnata que tem a seu serviço todos os advogados que quer? Tem até a OAB inteira, se fizer questão. À certa altura, no esforço de salvar Lula, chegaram a falar em “teratologia”. Teratologia? Será que eles acham que falando desse jeito as pessoas dirão: “Ah, bom, se é um caso de teratologia…” Aí fica tudo claríssimo, não é mesmo? É um mistério, na verdade, para o que servem essas sessões do STF abertas ao “público”. Depois que um ministro assume a palavra e diz “boa tarde”, adeus: ninguém entende mais uma única palavra que lhe sai da boca; talvez seja mais fácil entender o moço que fica no cantinho de baixo da tela, à direita, e que fala a linguagem dos surdos-mudos. Sem má vontade: como seria humanamente possível alguém compreender qualquer coisa dita pela ministra Rosa Weber? Ou, então, pelos ministros Celso de Mello, ou Marco Aurélio? É chinês puro. 

O espetáculo de prestação de serviço a Lula veio um dia depois, justamente, de uma briga de sarjeta, na frente de todo o mundo, entre os ministros Luis Roberto Barroso e Gilmar Mendes. Entre outras coisas, chamaram-se um ao outro de “psicopata” ou de facilitador para operações de aborto. Por que não resolvem suas rixas em particular? É um insulto ao cidadão brasileiro. Por que precisam punir o público pela televisão (aliás, paga pelo mesmo público) com a exibição de sua valentia sem risco? Os ministros dão a qualquer um, depois disso, o direito de chamá-los de psicopatas ou advogados de abortos clandestinos — por que não, se fizeram exatamente isso e continuam sendo ministros da “Corte Suprema”? Dias ruins, com certeza, quando pessoas desse tipo têm a última palavra em alguma coisa — no caso, nas questões mais cruciais da justiça e, por consequência, da democracia. É o mato sem nenhuma esperança de cachorro, realmente. A televisão nos mostra umas figuras de capa preta, fazendo cara de Suprema Corte da Inglaterra e dizendo frases incompreensíveis. O que temos, na vida real, é um tribunal de Idi Amin, ou qualquer outra figura de pesadelo saída de alguma ditadura africana.

17 de março de 2018

HOLANDA — integrantes do movimento LGBT agridem jovens católicos


Santiago Laia 


No país conhecido por ser o primeiro da União Europeia a legalizar o “casamento” homossexual, a empresa Suitsupply tem divulgado, durante anos, cartazes públicos com conteúdo explicitamente homossexual, ignorando totalmente a onda de protestos daqueles que consideram esses cartazes uma agressão à inocência das crianças e um atentado à instituição da família.

Criada em 2014 para defender a civilização cristã na Holanda, a Associação Civitas Christiana [fotos] realizou, no ultimo sábado, 11 de março, um protesto na cidade de Nijmegen (Holanda) contra os cartazes da Suitsupply.

Portando seus terços, voluntários da associação exibiam cartazes com as frases: “PARE Suitsupply” e “Casamento estabelecido por Deus = 1 Homem e 1 Mulher”.

Integrantes do movimento homossexual, insastifeitos com o protesto, reagiram com intimidação, insultos e agressões.

Veja [abaixo] o vídeo da agressão sofrida pelos jovens da Civitas Christiana.

Ajude-nos a divulga-lo ao máximo, para que seja conhecida a verdadeira face desses que, em nome da tolerância e do “casamento” homossexual, perseguem violentamente os que defendem a doutrina católica a respeito da família.

5 de março de 2018

TRAUMA DO ABORTO

Efeitos negativos do aborto no geral mulheres

Plinio Maria Solimeo 

Os partidários do aborto calam-se a respeito dos múltiplos efeitos negativos que envolvem as mulheres que o praticam. Segundo pesquisas, a vida nunca voltará a ser como antes para a maioria delas: um sentimento de culpa as acompanha pelo resto da vida.

Uma associação americana para a defesa da vida(1) publicou as conclusões de uma pesquisa feita com 987 mulheres que abortaram nos Estados Unidos e depois procuraram centros de ajuda para crises de maternidade. Elas se prontificaram a contar, de maneira anônima, o que sentiram depois do trauma. 

Dessas 987 mulheres, 32% disseram que não obtiveram qualquer benefício de seus abortos. E as que os receberam, estes consistiram num profundo arrependimento e subsequente crescimento espiritual, no comprometimento com campanhas pela vida e no aconselhamento de outras mulheres que consideravam fazer o aborto ou que já o tinham feito. Por outro lado, os aspectos negativos incluíam um profundo sentimento de perda, problema existencial e declínio da qualidade de vida. Nesses lados negativos, o mais marcante é um sentimento de culpa pelo término de uma vida, de vergonha, de culpa, depressão, ansiedade, perda da autoestima e, algumas vezes, um comportamento autodestrutivo.

Os estudiosos observam que as mudanças emocionais pós-aborto estavam em grande parte baseadas no contexto pessoal e social. Por exemplo, seus resultados sugeriram que o aborrecimento emocional persistente pós-aborto, estava associado à visão do feto como ser humano, falta de apoio social, e crença de que a sociedade é julgadora ou não consegue entender o impacto psicológico do aborto nas mulheres. 

Alguns pesquisadores descrevem tais fatores negativos no livro de texto que a National Abortion Federation destina a seus provedores de aborto. Portanto, uma organização abortista. Segundo eles, esses efeitos são provocados: 

“1) por causa de um anterior compromisso e apego à gravidez;
2) da coerção recebida para ter o aborto; 
3) de uma ambivalência significativa sobre a decisão de fazer aborto; 
4) na preocupação de manter o aborto em segredo, pelo medo de estigma; 
5) numa experiência pré-existente de trauma; 
6) em abusos sexuais, físicos ou emocionais, passados ou presentes; 
7) em perdas passadas não resolvidas, e na percepção do aborto como perda; 
8) em sentimento de culpa e vergonha intensas antes do aborto; 
9) num transtorno emocional ou doença mental existente antes do aborto; 
10) na avaliação do aborto, antes de ocorrer, como extremamente estressante; 
11) espera de depressão, sofrimento grave ou culpa e arrependimento após o aborto; finalmente, o mais importante:
12) na crença de que o aborto é o mesmo ato que matar um recém-nascido”. 

É muito útil vermos as respostas que algumas dessas mulheres deram em suas entrevistas, para tocarmos com a mão os problemas que enfrentaram. 

1 — Sentimento de culpa 

Uma entrevistada, quando lhe foi perguntado sobre os efeitos positivos de seu aborto, respondeu taxativamente: “Nenhum! Não há sentimentos positivos. Minha vida não está melhor, mas bastante pior. Carrego a culpa de uma criança perdida para sempre. Sei que fui perdoada, e trabalhei no tema da culpa e da vergonha, mas a dor no coração ainda segue. Poderia [...] ter meu bebê aqui para amá-lo, mas tenho a pena e a dor dos braços vazios”

Ela continua: “O único lado positivo é que me levou ao meu fim, fazendo-me cair de joelhos diante de Deus. Ele me atraiu para Si através de seu eterno perdão, misericórdia e graça. [...] Foi assim que eu vim a Ele, não como uma cristã, pois eu já era, mas como aquela que realmente só O conhece agora”.

Também vai nessa linha este outro depoimento pungente: “Quando meu primeiro filho nasceu, percebi o que fiz há tantos anos [ou seja, o aborto]. O amor que eu tenho pelos meus filhos é mais poderoso do que qualquer emoção que já experimentei. O pensamento de que qualquer pessoa os possa machucar, tem enorme efeito sobre mim, como mãe. Entretanto, logo depois do aborto, comecei a ter comportamentos autodestrutivos, incluindo promiscuidade, autoindulgência e poucas escolhas. Ele mudou minha personalidade. Eu percebi, ao olhar para trás, que eu me via de forma diferente, e senti que não merecia coisas boas. Isso mudou meu relacionamento com meus pais, especialmente com minha mãe, de quem eu estava muito perto. Eu me tornei promíscua, e me afastei de Deus. Então, sinto que arruinei minha vida e o que Deus havia planejado para mim”.

2 — Empenho para que outras não caiam no mesmo erro

Outra entrevistada mostra seu engajamento depois do aborto, para levar outras mulheres a evitá-lo: “Como voluntária do CPC [centro crise de gravidez], consegui persuadir a maioria dos meus clientes envolvidos no aborto a pelo menos esperar até que pudessem ver um ultrassom antes de tomar suas decisões. Todas as que fizeram isso, escolheram depois a vida para seus filhos. Provavelmente não me tornaria uma voluntária se não tivesse sido pelo aborto que tive. Mas então encontrei minha vocação na vida, e renovei minha dedicação à educação”. 

3 — Constatação de que o filho foi morto pela própria escolha da mãe 

A terceira depoente faz uma afirmação de doer o coração: “Meu filho está morto, e por minha própria escolha. Passei anos de raiva, vergonha e tristeza. O aborto danificou meu relacionamento com meu marido, meus filhos e meu Deus. Por 30 anos, não falei com ninguém, além do meu marido. Meu pesar o dominou e o deixou impotente e envergonhado. Durante anos, chorei todos os domingos na igreja, experimentava depressões escuras, pensamentos de suicídio e lampejos de raiva. Meu relacionamento com meus filhos foi desequilibrado. Ou eu tinha que ser a mãe perfeita e eles filhos perfeitos, ou eu acreditava estar abaixo do desprezo. Imagine a bagunça em que eu vivi”

Outro testemunho na mesma linha, com uma nota de quase desespero: “O conhecimento de que eu terminei a vida do meu filho é difícil de gerir emocionalmente. Tenho lutado ao longo dos anos [para alcançar o equilíbrio emocional], mas é extremamente difícil consegui-lo. Por isso luto emocionalmente batendo em mim mesma. [...], é uma batalha que devo ter muito intencional. O arrependimento é um estado incapacitante para mim”

4 — Profunda depressão 

Um problema comum entre as que fizeram o aborto é uma profunda depressão, como afirma outra entrevistada: “Fiquei muito deprimida por anos após o aborto. Eu acredito que a depressão contribuiu para me fazer perder um lucrativo trabalho farmacêutico. Não trabalhei por dois anos após o aborto, e não tive energia para fazer nada. Levei cerca de três anos para me motivar a começar a viver um pouco de uma vida gratificante novamente. [...] Não estou orgulhosa da minha situação na vida, e acredito que é atribuído a uma falta de autoconfiança devido ao aborto”

5 — Destrutivo para a alma 

“O resultado do aborto é destrutivo para a alma. Uma vez que eu tive de enfrentar a realidade de minha escolha para abortar, e não bloqueá-la mais, concluí que não devo continuar a negá-lo e mantê-lo sob o tapete. Minha vida foi interrompida de tal maneira que, depois de 30 anos desde o meu último aborto, ainda estou doente, emocional e mentalmente, como resultado de minhas escolhas. Terei de viver com eles [abortos] para o resto da minha vida na Terra”

6 — Sensação de vergonha 

“Uma sensação de vergonha e arrependimento ficou comigo desde o meu aborto. É temperado pelo perdão e pela fé na misericórdia e graça de Deus, mas ainda existe depois de todos esses anos. Sinto falta dos meus filhos perdidos, e lamento que os irmãos de meus filhos vivos tenham sido roubados por meio do aborto. O meu marido, que não participou de nenhuma forma do aborto, ou de qualquer outro aborto, sofreu raiva e tristeza devido ao meu aborto. Ele luta para perdoar aqueles que forçaram meu aborto“

Para terminar, uma notícia auspiciosa vinda da Argentina: O Consórcio de Médicos Católicos de Buenos Aires assegurou que “em nenhuma circunstância o aborto será legal, seguro nem gratuito, como exigem diversas organizações”. Esses médicos comprometeram sua “fidelidade ética ao serviço da vida, em todas suas etapas e circunstâncias”. O debate sobre o aborto se reavivou na Argentina. Uma iniciativa na Internet, com a etiqueta de #AbortoLegalYa, está pressionando o governo e os demais políticos para que aprovem uma lei de aborto. O projeto de reforma do Código Penal chegará ao Parlamento no próximo dia 8 de março, dia internacional da mulher. Atualmente existe na Argentina o “aborto não punível”, nos casos de risco de saúde para a mãe e de violação” (Fonte: ACI Prensa, via Actuall).(2)

____________ 

Notas: 

http://www.jpands.org/vol22no4/coleman.pdf, Women Who Suffered Emotionally from Abortion: A Qualitative Synthesis of Their Experiences Priscilla K. Coleman, Ph.D. Kaitlyn Boswell, B.S. Katrina Etzkorn, B.S. Rachel Turnwald, B.S.

2 https://mail.google.com/mail/u/0/h/fxwg8g0f7ndz/?&th=161dffb5ff576d92&v=c

27 de fevereiro de 2018

VENEZUELA: igrejas sem hóstias para a Comunhão


Paulo Roberto Campos
prccampos@terra.com.br

A derrocada da Venezuela, fruto da implantação do regime bolivariano-comunista — que os governos petistas queriam reproduzir no Brasil, nunca é suficiente insistir — trouxe à cena não somente um grande êxodo, centenas de milhares de venezuelanos fugindo da fome, mas também famílias procurando comida no lixo, outras comendo carne de cachorro, mercados com as prateleiras vazias, farmácias e hospitais sem remédios, crianças morrendo de desnutrição, pais que entregam os filhos para adoção por não terem como sustenta-los, inflação astronômica etc. etc. 

Na outrora prospérrima Venezuela, o descalabro não para aí. Ele atingiu o inimaginável: os jornais noticiam que em várias igrejas do país não há distribuição da Sagrada Eucaristia durante a Missa por falta de hóstias! Ou seja, não há farinha para produzi-las e assim os fiéis católicos ficam sem a comunhão.

O Vaticano — cujo atual Secretário de Estado foi durante vários anos Núncio em Caracas — não tem conhecimento dessa calamidade? Não escutou nada, não viu nada e não fala nada? Sobretudo, não condena os ditadores fidelcastristas que estão transformando a nação venezuelana numa Cuba de extrema miséria espiritual e material? 

Rezemos pela pobre, infeliz e castigada Venezuela. Lembrando a parábola do “Filho pródigo” do Evangelho, posso afirmar que ela está literalmente comendo as bolotas dos porcos. Quando regressará à casa materna da Virgem de Coromoto, sua tão bondosa e querida Padroeira? Não estará Ela muito esquecida? Nossa Senhora poderá obter de seu Divino Filho a solução para todos os problemas, desde que os venezuelanos se voltem para sua Padroeira com verdadeiro arrependimento, com o coração contrito e humilhado.

25 de fevereiro de 2018

Apoio à heroica resistência católica à política vaticana de aproximação com a China comunista

Eminentíssimo Senhor 
Cardeal Joseph Zen Ze-kiun 
Hong Kong – China 

Eminência Reverendíssima 

O Instituto Plinio Corrêa de Oliveira, associação cívica continuadora da obra do insigne professor cujo nome ostenta, e associações autônomas e coirmãs nos cinco continentes, dedicam-se a defender os valores fundamentais da Civilização Cristã. Seus diretores, membros e simpatizantes são católicos apostólicos romanos que combatem as investidas do comunismo e do socialismo. 


Cardeal Joseph Zen Ze-kiun 
A posição fundamentalmente anticomunista que resulta das convicções católicas dos membros de nossas organizações ficou revigorada pela heroica resistência da “Igreja clandestina” chinesa fiel a Roma. Seus bispos, sacerdotes e milhões de católicos recusam a se submeter à assim chamada Igreja Patriótica, cismática em relação a Roma e inteiramente submissa ao poder central de Pequim.

“Bem-aventurados os que são perseguidos por amor à justiça, porque deles é o Reino dos céus!” (Mt 5, 10); “se o mundo vos odeia, sabei que me odiou a mim antes que a vós. Se fôsseis do mundo, o mundo vos amaria como sendo seus. Como, porém, não sois do mundo, mas do mundo vos escolhi, por isso o mundo vos odeia” (Jo 15, 18-19). 


Declaração de Resistência.
Para ler sua íntegra, click no link abaixo.
Essas divinas palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo exprimem nossa admiração à única Igreja Católica na China, hoje sob a bota comunista, e que tem em Vossa Eminência um egrégio membro e porta-voz. Vemos nesses católicos perseguidos outros tantos irmãos na Fé aos quais foi dirigida a Declaração de Resistência publicada pelo eminente líder católico brasileiro Prof. Plinio Corrêa de Oliveira (1908-1995), fundador da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade, e inspirador de TFPs e entidades afins nos diversos continentes. O documento é intitulado A política de distensão do Vaticano com os governos comunistas — Para a TFP: omitir-se? Ou resistir?

Como Vossa Eminência poderá ver nessa Declaração, datada de 1974, a diplomacia vaticana na Europa do Leste e na América Latina buscava uma ardilosa política de aproximação com os regimes comunistas gravemente danosa para os verdadeiros católicos, a qual resultaria na submissão da Santa Igreja Católica aos déspotas vermelhos. 

No dia 7 de abril de 1974, a imprensa da maior cidade da América do Sul (cfr. “O Estado de S. Paulo”) ecoou uma entrevista de Mons. Agostino Casaroli asseverando que na infeliz ilha de Cuba, oprimida pelo comunismo fidelcastrista, “os católicos são felizes dentro do regime socialista”. E continuava Mons. Casaroli: “A Igreja Católica cubana e seu guia espiritual procuram sempre não criar nenhum problema para o regime socialista que governa a ilha”.

Essas declarações do alto enviado vaticano — que coincidiam com posicionamentos de outros Prelados colaboracionistas do comunismo — provocavam surpresas dolorosas e traumas morais nos católicos que seguiam a imutável doutrina social e econômica ensinada por Leão XIII, Pio XI e Pio XII. Esta Ostpolitik, como ficou conhecida, era fonte de perplexidades e angústias, e suscitava no mais íntimo de muitas almas o mais pungente dos dramas. Pois, muito acima das questões sociais e econômicas, atingiam o que há de mais fundamental, vivo e terno na alma de um católico apostólico romano: sua vinculação espiritual com o Vigário de Jesus Cristo.

A diplomacia de distensão do Vaticano com os governos comunistas levantava uma dúvida supremamente embaraçosa: é lícito aos católicos não caminharem na direção apontada pela Santa Sé? É lícito cessar a resistência ao comunismo?

Neste momento, encontramo-nos em situação análoga, porém ainda mais perigosa, com a política vaticana em relação à chamada Igreja Patriótica submissa a Pequim. 

Com efeito, causou pasmo no mundo católico a noticia da visita à China de uma delegação vaticana liderada pelo arcebispo Claudio Maria Celli, quem em nome do Papa Francisco pediu aos legítimos pastores das dioceses de Shantou e Mindong que entregassem suas dioceses e seus rebanhos a bispos ilegítimos nomeados pelo governo comunista e rompidos com a Santa Sé. 

Chegaram como aterradora e amplificada repetição das declarações de Mons. Casaroli em Cuba as palavras de Mons. Marcelo Sánchez Sorondo, Chanceler da Pontifícia Academia das Ciências e da Academia Pontifícia das Ciências Sociais, conhecido como conselheiro próximo do Santo Padre. Segundo o jornal “La Stampa” de Turim do dia 2 de fevereiro, declarou ele: “Neste momento, os que melhor praticam a doutrina social da Igreja são os chineses [...]. Os chineses procuram o bem comum, subordinam as coisas ao bem geral".

Após visitar o país esmagado por uma ditadura ainda mais inclemente do que a cubana, Mons. Sánchez Sorondo, ainda à maneira de Mons. Casaroli, declarou: “Encontrei uma China extraordinária; o que as pessoas não sabem é que o principio central chinês é trabalho, trabalho, trabalho. Não tem favelas, não tem drogas, os jovens não tem droga [...] [A China] está defendendo a dignidade da pessoa [...]”

Nem uma só palavra sobre a perseguição religiosa que o comunismo inflige aos nossos irmãos na Fé — bispos, padres e fiéis prisioneiros —, nem à violação sistemática e universal dos direitos fundamentais do homem criado à imagem e semelhança de Deus. 

As controvertidas e falsas afirmações deste alto prelado vaticano vão muito além das próprias declarações de Mons. Casaroli em Cuba no remoto ano de 1974 e ferem muito mais a reta consciência cristã. 

O drama da atual situação dos católicos chineses é o de todos os fiéis que desejam perseverar diante do Leviatã comunista. Ontem como hoje, pressionados pela diplomacia da Santa Sé para aceitarem um acordo iníquo com o regime comunista, enfrentam um gravíssimo problema de consciência: é lícito dizer não à Ostpolitik vaticana e continuar resistindo ao comunismo até o martírio se necessário for? 


Plinio Corrêa de Oliveira
Na referida Declaração de Resistência, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira afirmava (sem ter recebido nenhuma objeção de Paulo VI ou de seus sucessores) que aos católicos é não somente lícito, mas até um dever imitar a atitude de resistência do Apóstolo São Paulo em face de São Pedro, o primeiro Papa:
“Tendo o primeiro Papa, São Pedro, tomado medidas disciplinares referentes à permanência no culto católico de práticas remanescentes da antiga Sinagoga, São Paulo viu nisto um grave risco de confusão doutrinária e de prejuízo para os fiéis. Levantou-se então e ´resistiu em face´ a São Pedro (Gal. II,11). Este não viu, no lance fogoso e inspirado do Apóstolo das Gentes, um ato de rebeldia, mas de união e amor fraterno. E, sabendo bem no que era infalível e no que não era, cedeu ante os argumentos de São Paulo. Os Santos são modelos dos católicos. No sentido em que São Paulo resistiu, nosso estado é de resistência.  
“Resistir significa que aconselharemos os católicos a que continuem a lutar contra a doutrina comunista com todos os recursos lícitos, em defesa da Pátria e da Civilização Cristã ameaçadas.  
“Resistir significa que jamais empregaremos os recursos indignos da contestação, e menos ainda tomaremos atitudes que em qualquer ponto discrepem da veneração e da obediência que se deve ao Sumo Pontífice, nos termos do Direito Canônico.  
“A Igreja não é, a Igreja nunca foi, a Igreja jamais será um cárcere para as consciências. O vínculo da obediência ao Sucessor de Pedro, que jamais romperemos, que amamos com o mais profundo de nossa alma, ao qual tributamos o melhor de nosso amor, esse vínculo nós o osculamos no momento mesmo em que, triturados pela dor, afirmamos a nossa posição. E de joelhos, fitando com veneração a figura de S.S. o Papa Paulo VI, nós lhe manifestamos toda a nossa fidelidade.  
“Neste ato filial, dizemos ao Pastor dos Pastores: Nossa alma é Vossa, nossa vida é Vossa. Mandai-nos o que quiserdes. Só não nos mandeis que cruzemos os braços diante do lobo vermelho que investe. A isto nossa consciência se opõe.”
Cardeal Paul Yü Pin
Ainda nos anos 70, tivemos a alegria de constatar, na gloriosa fileira do episcopado chinês, a resistência destemida do ilustre conterrâneo de Vossa Eminência, o Emmo. Cardeal Paul Yü Pin, então Arcebispo de Nanquim e Reitor da Universidade Católica de Taipé, Formosa (cfr. “The Herald of Freedom” de 15-2-74, em despacho da Religious News Service). 

Declarou o Purpurado à citada agência (como hoje ratifica Vossa Eminência), que seria uma ilusão esperar que a China comunista modifique sua política antirreligiosa. 

Corrobora tal assertiva o próprio presidente Xi Jinping, o qual acentuou no XIX Congresso do PC que “a cultura [...] deve ser aproveitada para a causa do socialismo de acordo com a orientação do marxismo”; e que por causa disso a religião deve ter uma “orientação chinesa” e adaptar-se à sociedade socialista guiada pelo partido ("The Washington Post", 18-10-17).

Voltando ao Cardeal Yu Pin, há 40 anos ele acrescentou: “Queremos permanecer fiéis aos valores perenes da justiça internacional [...]. O Vaticano pode agir de modo diverso, porém não nos comoveríamos muito com isso. Penso que é ilusória a esperança de que um diálogo com Pequim ajudaria os cristãos do continente [chinês]. [...] O Vaticano nada está obtendo para os cristãos da Europa Oriental. [...] Se o Vaticano não pode proteger a Religião, ele não tem muita razão para continuar no assunto. [...] Queremos permanecer fiéis ao nosso mandato, mas somos vítimas da repressão comunista. Sob tal aproximação [do Vaticano com a China comunista], nós perderíamos a nossa liberdade. Como chineses, temos que lutar por nossa liberdade”

A essas lúcidas e vigorosas observações, que lembram a “resistência em face” de São Paulo a São Pedro (Gal. II, 11), o Prelado acrescentou esta emocionante previsão: “Há uma Igreja subterrânea na China. A Igreja na China sobreviverá, como os primeiros cristãos sobreviveram nas catacumbas. E isso poderia significar um verdadeiro renascimento cristão para os chineses.” 

Assim sendo, o Instituto Plinio Corrêa de Oliveira e associações autônomas e coirmãs de todo o mundo, bem como os milhares de católicos que juntam suas assinaturas a esta mensagem de apoio moral: 

Imagem de Nossa Senhora
Imperatriz da China
  1. Manifestam a Vossa Eminência, a toda a hierarquia, clero e povo católico da China, sua admiração e sua solidariedade moral, nesta hora em que urge erguer a resistência ante o Moloch comunista e a Ostpolitik vaticana. Os bispos e sacerdotes da perseguida Igreja clandestina na China que ora resistem, estão sendo para o mundo inteiro um símbolo vivo do “bom pastor que dá sua vida pelas ovelhas”.
  2. Afirmam que haurem alento, força e esperança invencível do épico exemplo dos atuais mártires que perseveram na China. Nossas almas católicas aclamam estas nobres vítimas: “Tu gloria Jerusalem, tu laetitia Israel, tu honorificentia populi nostri” (Jud. 15,10). Esses mártires constituem a glória da Igreja, a alegria dos fiéis, a honra dos que continuam a luta sacrossanta. 
  3. Elevam suas preces a Nossa Senhora Imperatriz da China, para que com desvelo de Mãe socorra e dê ânimo aos seus filhos que lutam para se manterem fiéis apesar de circunstâncias tão cruelmente hostis. 
São Paulo, 25 de fevereiro de 2018 
Instituto Plinio Corrêa de Oliveira

23 de fevereiro de 2018

Discutindo sobre Ideologia de Gênero

Paulo Henrique Américo de Araujo

Era uma sexta-feira. À distância já se percebia a feição mal-humorada da professora. Com passo apressado e decidido, vinha ela percorrendo os corredores daquele colégio de ensino médio, num subúrbio da cidade. Segurava na mão direita um pequeno folheto impresso, que agitava com movimentos convulsivos. Dois alunos observavam a cena, e já previam que a professora caminharia até eles, que tinham distribuído na escola uma centena daqueles folhetos. Tratava-se de um pequeno manifesto contra a Ideologia de Gênero nas escolas, publicado pelo Instituto Plinio Corrêa de Oliveira(1). Bastante conciso, o impresso fornecia argumentos rápidos e diretos, e ao final remetia o leitor a uma petição ao Presidente da República, repudiando tal ideologia.

Um dos jovens comentou, enquanto ela se aproximava: 

— Acho que ela não gostou. 

Márcia, a professora, conhecia os dois rapazes e foi direto ao ponto: 

— Davi e Leonardo, eu peguei este “folhetinho” de vocês na sala dos professores. Ele não é científico. Só traz argumentos religiosos, não tem valor acadêmico! 
Após pequena pausa, e vendo que os estudantes não replicavam, embora demonstrassem surpresa, ela prosseguiu, reprimindo um tanto o nervosismo do primeiro momento: 

— Olhem... se eu soubesse que meu filho de seis anos optou por ser uma menina, não haveria problema nenhum para mim. Eu apoiaria. Além disso, seu folheto é muito radical, vocês precisam respeitar os outros. 

— Profa. Márcia... 

Leonardo tentara replicar, mas a atitude impositiva da outra não lhe deixava margem para prosseguir, enquanto ela se expandia em tom taxativo:

— O que vocês estão fazendo não adianta nada! A Ideologia de Gênero vai entrar de um jeito ou de outro. Quem é contra está perdendo seu tempo! Espero que vocês revejam suas posições. É um conselho para o seu próprio bem. Até logo! 

Entregou o folheto a Davi, sem esconder um ar de vitória, e voltou-lhes as costas, seguindo seu caminho. Os jovens ficaram apreensivos, não esperavam uma reação tão ríspida da professora. A veloz sucessão dos argumentos os havia deixado atordoados. O que fazer? 

No dia seguinte, sábado, os dois foram participar de um círculo de estudos da Ação Jovem do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira, ali mesmo no bairro onde moram. Num encontro anterior, juntamente com estudantes de outros colégios, tinham combinado imprimir e distribuir aquele folheto contra a Ideologia de Gênero. Júlio, o mais veterano dos participantes, após ouvir de Davi e Leonardo um aflitivo relato sobre a “contenda” com a Profa. Márcia, ponderou: 

— Amigos, tenham calma. De fato, a professora dispõe de uma autoridade legítima, e é normal exibir o peso da superioridade num caso desses, apesar de ela não ter dado nenhum argumento válido. 

— Como assim? Nenhum argumento válido!? — Exclamou Davi. 


— Vejam... – retomou Júlio. – O folheto não traz apenas argumentos religiosos, mas também apresenta o que personalidades importantes declararam sobre a falta de base científica para a Ideologia de Gênero. Mas o mais importante são os argumentos religiosos, que levantam um problema de consciência para todas as pessoas. A eficácia dos argumentos é exatamente esta. Eles não são feitos para convencer ateus e antirreligiosos, têm sobretudo o objetivo de fortalecer a posição dos que possuem princípios religiosos.

— Entendo – interrompeu Davi. – Mas ela disse que é preciso respeitar a opinião dos que aceitam o ensino de gênero nas escolas. 

Júlio tomou a iniciativa de responder: 

— O fato de a professora apoiar a Ideologia de Gênero não significa que todos são obrigados a segui-la. Se é preciso respeitar os outros, pela lógica devem ser também respeitados os pais contrários ao ensino de gênero nas escolas onde estão os seus filhos. 

— É verdade! 

Leonardo continuou o raciocínio: 

— Será que os pais serão “obrigados” a aceitar a Ideologia de Gênero? Impor que as pessoas aceitem algo contrário à razão, à ciência, à religião, isso sim é “radicalismo”! 

— Exatamente, Leonardo – replicou Júlio. – Uma ação não se torna justificável quando é apoiada por alguns, ou mesmo por muitos. Equivaleria a dizer que todos somos obrigados a aceitar as drogas, pelo simples fato de várias pessoas as aceitarem! 

Davi tinha no fundo da cabeça uma preocupação: 

— Júlio, a professora afirmou que a Ideologia de Gênero vai entrar de qualquer jeito, e é perda de tempo trabalhar contra. O que você acha? 


— Cuidado, Davi. Essa é exatamente a arma mais eficiente dos que desejam impor ideias revolucionárias. Lançam o desânimo sobre seus opositores, para diminuir neles a reação. Aliás, a feminista e ideóloga Judith Butler [foto ao lado] declarou isso numa recente entrevista(2). Ela acha que o mundo já mudou, portanto não adianta pensar diferente nem se manifestar contra a Ideologia de Gênero. Essa é uma tática que todos eles usam, por isso devemos permanecer bastante atentos, e nunca desanimar. 

Leonardo pegou o embalo, e soltou uma frase muito conhecida: 

— Eu li num livro a frase de um escritor chamado Edmund Burke: “Para que o mal triunfe, basta que os bons não façam nada!”

— Se houver oportunidade, exponham esses pontos à professora, mas tratem-na com o devido respeito, por causa da autoridade que ela representa. 

O olhar dos dois jovens manifestava alívio e satisfação, depois de ouvirem as explicações do amigo mais experiente. Na segunda-feira, quando voltassem à escola, estariam encorajados a retomar a discussão com a Profa. Márcia... 


*       *       * 

Caro leitor, usando de legítimo recurso para um artigo, eu poderia ter inventado a pequena história acima. Mas os fatos, relatados durante uma conversa com os dois estudantes, realmente aconteceram. Apenas modifiquei os nomes dos protagonistas e algumas circunstâncias secundárias, que não alteram sua essência. Os fatos ilustram uma realidade dos colégios em nossa Pátria: a Ideologia de Gênero vai sendo imposta, apesar da rejeição massiva da população. 

Desejo e espero que este texto sirva para outros alunos e seus pais continuarem reagindo à malfazeja onda do “gênero”, sem nunca desanimarem(3). 

____________ 

Notas: 
1. O folheto completo pode ser lido em: https://ipco.org.br/wp-content/uploads/2017/10/Ideologia-de-g%C3%AAnero-folheto.pdf 
2. Ver declaração de Judith Butler em: http://brasil.estadao.com.br/noticias/geral,justica-social-nao-vira-sem-o-fim-da-discriminacao-de-genero--diz-pesquisadora,1760597 
3. Para um aprofundamento do assunto, cfr. livro Ideologia de Gênero, Pe. David Francisquini, ed. Artpress. 2017.

19 de fevereiro de 2018

O bom pastor dá a vida por suas ovelhas


Péricles Capanema 

Tenho lido sobre a situação dos católicos na China e despertam entusiasmo recentes atitudes do cardeal-arcebispo resignatário de Hong Kong, Dom Joseph Zen [foto acima], religioso salesiano, 85 anos, saúde delicada. Cada vez mais isolado nas cúpulas eclesiásticas, cada vez mais ligado e próximo ao católico comum, ao fiel que frequenta igrejas e sacristias (sou um deles). Por quê? Verba movent, exempla trahunt (As palavras movem, os exemplos arrastam). Peçamos a Deus que em seus próximos passos continue a brilhar a fidelidade, coragem e lucidez.

O perfil atual de Dom Joseph Zen o aproxima de um herói anticomunista, o Cardeal Mindszenty (1892-1975) [foto ao lado] que resistiu primeiro ao governo fascista; depois se opôs ao governo comunista de Budapeste (foi preso, torturado e condenado à prisão perpétua em 1949). Ficou na cadeia até ser libertado pelos insurgentes de 1956, quando se refugiou na embaixada dos Estados Unidos. 

Também se opôs à política de aproximação de Paulo VI com os governos comunistas da Europa Oriental (a chamada Ostpolitk chefiada pelo Cardeal Agostino Casaroli). A História já deu razão ao antigo primaz de Eztergom, situação que, aliás, lhe foi tirada por Paulo VI; o martirizado Cardeal era obstáculo aos acordos com Budapeste. 

Assim se referiu ao Cardeal Mindszenty o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira: “O non possumus firme de Vossa Eminência, repercutindo no mundo inteiro, vale por uma lição e por um exemplo próprios a manter os católicos na via da fidelidade aos ensinamentos tradicionais imprescritíveis, emanados da Cátedra de Pedro em antigos dias de luta e de glória. E é por esta razão que, a par da admiração, tributamos a Vossa Eminência um agradecimento profundo. […] O Reino Apostólico da Hungria recebeu desde Santo Estêvão a missão gloriosa de ser baluarte da Igreja e da Cristandade. Esta missão, ele a cumpre por inteiro em nossos dias, na Pessoa augusta de Vossa Eminência”

Ressoam as palavras de Nosso Senhor: “Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a sua vida pelas suas ovelhas. Porém o mercenário e o que não é pastor, de quem não são próprias as ovelhas, vê vir o lobo, e deixa as ovelhas; e foge; e o lobo arrebata e faz desgarrar as ovelhas”, Evangelho de São João.

A parábola faz lembrar Dom Joseph Zen. Pastor zeloso, recusa-se a virar as costas para ovelhas débeis e, congruentemente, sorridente acolher ferozes lobos. No caso, abrir as portas do redil. O Cardeal chinês defende a Igreja subterrânea — ameaçada de abandono e traição por muitos dos que a deviam proteger — denunciando perigos mortais na aceitação do predomínio da Igreja patriótica (fantoche do governo comunista), agora favorecida em sua subserviência nas tratativas levadas a cabo por diplomatas da Santa Sé.

Sintoma espantoso da presente situação, noticiou o “New York Times” de 11 de fevereiro que um dos dois bispos católicos da Igreja subterrânea de quem a Santa Sé reclama a renúncia, Dom Vicente Guo Xijin, bispo de Mindong, aceitou se demitir e ser substituído por um bispo da Igreja oficial, indicado pelos comunistas. 

Dom Joseph Zen comentou no seu blog recentes declarações do Cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado da Santa Sé, divulgadas por “La Stampa”, de Turim. Começa assim: “Não há razões para temer uma igreja cismática criada pelo Partido Comunista. Desaparecerá com o colapso do regime. Mas será horrível uma igreja cismática com as bênçãos papais”.

O Cardeal Pietro Parolin afirmou que iria curar as feridas dos católicos perseguidos na China continental com o “bálsamo da misericórdia”. Retrucou o Cardeal Zen: “Misericórdia para os perseguidores? Para seus cúmplices? Premiar traidores? Castigar os fiéis? Forçar um bispo legítimo a entregar seu lugar para um excomungado? De fato, é esfregar sal nas feridas. Noto que há contínua menção à sua compaixão pelos sofrimentos de nossos irmãos na China. Lágrimas de crocodilo”.

“[Os católicos chineses] são vítimas da perseguição de um poder ateu totalitário. Empregar o bálsamo da misericórdia? Não há agravos pessoais a ser perdoados. Eles precisam ser libertados da escravidão. Esta situação dolorosa não foi criada por nós, mas pelo regime. Os comunistas querem escravizar a Igreja”

Dom Joseph Zen relaciona a presente situação com o passado recente da Igreja: “[O cardeal Parolin] adora a diplomacia da Ostpolitik de seu professor, Casaroli”.

Em matéria do “Wall Street Journal”, 14 de fevereiro, o Arcebispo resignatário de Hong Kong analisou as notícias de que a China exige que a Santa Sé aceite os sete bispos da chamada Igreja Patriótica, bem como que dois bispos fiéis a Roma apresentem renúncia para dar lugar a dois indicados pelo governo. Sobre tais tratativas, advertiu o Cardeal-arcebispo: “Colocam-se lobos na direção do rebanho e eles farão um massacre. Estão indicando más pessoas como pastores do rebanho”. 

O que querem os católicos chineses? Responde o Purpurado em seu blog: “Verdadeira liberdade religiosa, que não prejudique, antes favoreça o verdadeiro bem da nação”.

Também foi claro a respeito de sua posição relativa ao Papa Francisco: “Continuo convencido de que existe uma divisão na maneira de pensar entre Sua Santidade e seus colaboradores que se aproveitam do otimismo do Papa. Até que me seja provado o contrário, estou convencido de que defendi o bom nome do Papa, tirando-lhe a responsabilidade das coisas erradas que vêm sendo feitas por seus colaboradores. Se algum dia forem assinados estes maus acordos com a China, obviamente terão o apoio do Papa, então eu me retirarei em silêncio para uma vida monástica. Não serei chefe de rebelião contra o Sumo Pontífice, o Vigário de Cristo na Terra”.

17 de fevereiro de 2018

Em nome da “tolerância”, não se tolera o que você pensa!


Paulo Roberto Campos 

Devido a uma viagem e ao acúmulo de trabalhos inadiáveis, em meu retorno “ao batente” deparo sobre a mesa com um monte de revistas que costumo acompanhar. Assim, somente ontem consegui ler uma VEJA de 15 de novembro último. Nela, encontrei um artigo extraordinário. Intitulado “Um País de chatos”, é assinado por um de seus mais célebres colunistas, J.R. Guzzo. 

Esse grande e mordaz jornalista aborda muito bem uma questão, que eu qualificaria como sendo uma nova inquisição contra quem não se caracteriza por ser “politicamente correto”; uma nova inquisição contra aqueles que pensam sem levar em consideração o “pensamento” imposto pelo “modismo” (ou idiotismo...) difundido pela grande mídia esquerdista.

A foto acima — que flagrei na Avenida Paulista no dia 15 de dezembro — exemplifica a questão. Durante uma manifestação do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira contra a imposição da ideologia de gênero às crianças escolares, um grupo organizou uma contramanifestação que quase degenerou em agressão. Com que argumento? Nenhum! Apenas gritavam “FASCISTAS”, “HOMOFÓBICOS”, “RACISTAS”, insultos que esquerdistas lançam contra todos que não pensam como eles. Qualquer um que defenda um valor moral é estigmatizado de “fascista”. Qualquer um que não apoie o “casamento” de duplas do mesmo sexo é tachado “homofóbico”... Evidentemente, constamos que são termos utilizados por pessoas que não têm argumentos, nem sabem o que dizem. Não sabem esses esquerdistas, adoradores de Max, que o fascismo tem sua origem no marxismo?! Não sabem que Mussolini era marxista?! Portanto, o Duce italiano é pai dos esquerdistas, que, entretanto, acusam os direitistas de “fascistas”... 

Pobres esquerdistas, aqueles que na falta de argumentos apelam para insultos. Estes não atingem o alvo, mas, como um bumerangue, voltam-se contra eles e revelam que são cheios de nada, vazios de tudo — características de um perfeito idiota.

Razão tinha Nelson Rodrigues ao afirmar que “Os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos”

Recomendo a leitura do artigo acima mencionado, no qual assinalei em negrito alguns trechos que mais me chamaram a atenção.

UM PAÍS DE CHATOS 


Por J.R. Guzzo 
VEJA, 15-11-2017 (p. 50-51) 

Seria possível Nelson Rodrigues [foto ao lado] existir como autor no Brasil de hoje? Não dá para saber com certeza científica, mas é extraordinariamente difícil imaginar que pudesse escrever e dizer tudo o que escreveu e disse. Quem deixaria? Nelson Rodrigues é o maior autor de teatro que o Brasil já teve — seu nome estaria no topo da literatura mundial se não tivesse nascido, vivido e escrito na língua-portuguesa. Mas hoje seria considerado uma ameaça nacional. A mídia veria nele um agente da “onda conservadora” ou uma voz da “extrema-direita”; estaria banido pela boa sociedade cultural brasileira como intolerante, preconceituosa e fascista. Os educadores públicos fariam objeções à leitura de seus textos nas salas de aula. Sua entrada poderia ser proibida no departamento de novelas da Rede Globo. Procuradores e juízes estariam em cima dele o tempo todo, tentando condená-lo por machismo, racismo ou homofobia.

Pense um pouco no que Nelson estaria escrevendo, por exemplo, sobre transgêneros, “feminicídio” ou a indignação contra o papel higiênico preto — isso para não falar do homem nu como obra de arte, ou nas multas aplicadas aos clubes de futebol quando a torcida grita para o goleiro de outro time. Não dá. Nelson Rodrigues não cabe no Brasil de 2017.

Como poderia ser diferente, num País tão empenhado no policiamento da atividade de pensar? Não existe hoje no Brasil nenhuma obrigação moral e cívica mais cobrada do cidadão do que se manifestar contra o “preconceito” e a “intolerância”. Não espere, portanto, nenhum Nelson Rodrigues num ambiente assim. Em vez disso, fique atento às suspeitas da ocorrência, próxima ou distante, de qualquer comportamento que possa ser classificado como preconceituoso ou intolerante. Aí, se quiser ser um bom cidadão, assine o mais depressa possível um manifesto de condenação, desses que aparecem todos os dias no jornal — ou, se não tiver cacife para tanto, por não ser licenciado como celebridade, faça alguma coisa a respeito, nem que seja um telefonema anônimo para o “Disque-Denúncia” mais próximo. É fácil descobrir a opinião que você deve ter a respeito dos assuntos em circulação. Preconceito e intolerância, em termos práticos, são o que o Comitê Brasileiro de Vigilância do Pensamento decreta, de hora em hora, que são preconceito e intolerância.

Que “comitê” é esse? É o habitual aglomerado de artistas, com ou sem obra, pessoas descritas como intelectuais, com ou sem intelecto visível, e gente de currículo em estado gasoso, mas que por alguma razão é apresentada como “importante”. São eles os árbitros, hoje em dia, do que é certo ou errado neste país. Decidem como todos os demais cidadãos devem se comportar dos pontos de vista moral, social e político. Não toleram que alguém demonstre intolerância — é assim que chamam, automaticamente, qualquer ponto de vista não autorizado por seu livro de regras. O delito essencial, por esse catecismo é pensar com a própria cabeça a respeito de uma lista cada vez maior de assuntos. Sobre cada um deles há decisões já tomadas em última instância; são apresentados diariamente nos meios de comunicação.

O resultado é que o combate a tudo o que possa ser carimbado como intolerância está criando no Brasil mais uma raça de intolerantes. Acaba de ser derrubado no STF, por exemplo, a regra baixada quatro anos atrás pelos organizadores do Enem pela qual levam nota zero os estudantes que escreveram na prova de redação alguma coisa considerada contrária aos “direitos humanos”. Considerada por quem? Por eles mesmos, os burocratas do “Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais.” Ou seja: nomearam a si próprios árbitros do que os alunos podem ou não podem pensar e dão zero quando não gostam do que o aluno pensa. Nem no regime militar se chegou a esse grau de megalomania na tentativa de controlar o pensamento alheio; nunca, na época, alguém assinou um papel em que se determinava a anulação de provas de conteúdo subversivo. Quem é essa gente para decidir o que você pode dizer?

Outro exemplo comum de hostilidade a ideias discordantes é a conversa da “identidade de gênero” — ou a questão, ou até a “causa”, das pessoas atualmente descritas como “transgêneros”. Ficou estabelecido, como princípio moderno e gerador de mais justiça, que os seres humanos não devem ser diferenciados, para propósitos de identificação, pelo sexo anatômico com que nasceram. Podem escolher o gênero que combina mais com o seu jeito de ser, no momento em que julgarem necessário fazer essa opção. Não há nenhuma razão para a sociedade se escandalizar com quem não concorda, ou não entende, que as coisas sejam assim — ou não acredita que esse seja um assunto de interesse universal. Qual é o problema? Não deveria ser considerado intolerante, retrógrado ou totalitário quem acredita que os sexos são só dois, masculino e feminino. Ou que todo ser humano, sem exceção, tem um pai e uma mãe, que obrigatoriamente são um homem e uma mulher. Ou que é impossível um homem ficar grávido, por lhe faltarem um útero, trompas, ovário. Não pode haver, é claro, nenhum problema com nada disso. Só que há.

A lista de pecados capitais contra o pensamento obrigatório vai longe. Você estará perto da blasfêmia se argumentar que animais não têm direitos, pois a noção de direito se aplica unicamente a seres humanos — animais não podem ter o direito a votar, por exemplo, ou ter nacionalidade, ou de receber salário mínimo. Mas dizer isso é infração gravíssima.

Está vetado, igualmente, o debate sobre questão ambiental como um todo; é considerado suspeito qualquer pedido de mais pesquisas científicas sobre temas como o aquecimento global, ou a cobrança de dados mais seguros sobre a previsão de que o Rio de Janeiro vai ser engolido pelo mar daqui a alguns anos. Defensivos agrícolas são uniformemente descritos como “agrotóxicos”; não insista. Também é tido como preconceito grave discordar da ideia de que o crime do Brasil é “um problema social” e que os criminosos, portanto são vítimas da sociedade, e não agressores. O deputado Jair Bolsonaro foi condenado por uma juíza do Rio de Janeiro, ainda outro dia, por ter feito piada de quilombola durante uma palestra. A Constituição, obviamente, proíbe que um deputado seja punido por falar o que lhe passa pela cabeça, mas a juíza argumentou que “política não é piada” e foi em frente. Não é piada? De que país ela está falando?

A intolerância contra opiniões que incomodam começa a produzir, depois de algum tempo, disparates como esse. É uma surpresa que o Ministério Público ainda não tenha proibido as piadas de papagaio, ou que uma juíza não tenha decretado que a dama deve valer a mesma coisa que o rei no jogo de baralho. Vai se inventando, de cima para baixo, uma sociedade mal-humorada, neurastênica e hostil à liberdade de expressão. É um ambiente que convive mal com a observação dos fatos, a ciência e o raciocínio lógico. Estão construindo, talvez acima de tudo, um país de chatos.