4 de maio de 2018

Sorbonne — assalto do igualitarismo comunista

Slogans contestatários pichados na fachada da capela da Universidade da Sorbonne (Paris). À dir.: “Comment penser librement à l'ombre d'une chapelle?” ("Como pensar livremente à sombra de uma capela?"). Ou seja, os libertários do Sorbonne queriam ficar livres dos ensinamentos da Santa Igreja, mas, claro, presos aos ensinamentos revolucionários. À esq.: “Ceux qui font les revolutions a moitie ne font que se creuser un tombeau” (“Aqueles que fazem revoluções pela metade, não fazem senão cavar o próprio túmulo”).

Dois meses após a explosão da Revolução da Sorbonne, Plinio Corrêa de Oliveira, numa conferência para sócios e cooperadores da TFP*, denunciou o igualitarismo como seu objetivo principal 




Plinio Corrêa de Oliveira 


Fachada da capela da Sorbonne 
(pichada com os slogans descritos na foto do topo). 
Esta imagem registra as estampas de Marx, Lenin 
e Mao Tsé-Tung que sorbonianos colaram nas colunas.
Podemos imaginar um mundo inteiramente igualitário, no qual tivesse desaparecido tudo que representa uma imagem de Deus para os homens; no qual tivesse cessado a submissão de qualquer homem a outro; e, como consequência, tivesse cessado até a ideia da submissão do homem a Deus. Nesse mundo igualitário, a comunismo teria triunfado. 

O jornalista Gilles Lapouge, em artigo publicado no “Estado de São Paulo” [16-7-68], afirmou que o movimento universitário da Sorbonne estava reduzido a cinzas. Mas por baixo das cinzas há brasas que preparam um novo incêndio, e em pouco tempo o tumulto universitário na França será mais intenso do que nunca. 


O movimento universitário da Sorbonne, nascido em maio último, é a ponta de lança do mais violento assalto contra o que resta de desigualdade. Na ordem civil, querem eliminar o direito de propriedade, estabelecer a igualdade entre patrão e empregado. No terreno universitário, querem suprimir as cátedras, estabelecer igualdade entre aluno e professor. E daí por diante, o igualitarismo em todas as esferas. É a tentativa de se chegar logo ao regime comunista. 

Esse igualitarismo que o movimento da Sorbonne quer estabelecer não se limita às funções humanas, é uma espécie de revolta e igualitarismo dentro do próprio homem. De acordo com a ordem normal das coisas, no homem a fé ilumina a inteligência; a inteligência governa a vontade; a inteligência e a vontade juntas dominam os instintos. O movimento universitário deseja implantar o contrário disso: o impulso do instinto arrastando a vontade, obnubilando a inteligência e proclamando a inutilidade da inteligência. Representa uma inversão de valores dentro do próprio homem. 


Na esfera religiosa, o caminho próprio para se obter o igualitarismo não é combater a Igreja, mas sim obter o apoio da Igreja para a obra de nivelamento. Enquanto ocorre essa rebelião na Sorbonne, na Igreja se implanta outro movimento sumamente sintomático. O Santo Padre, em decreto recente, acaba de despir os bispos de muitas das honras e insígnias que faziam deles príncipes da Igreja, portanto conduzindo-os ao nivelamento com as outras categorias de sacerdotes. Caminha para algo como a proclamação da forma de governo republicana dentro da Igreja Católica, segundo a qual todas as funções seriam eletivas, por meio de eleições em que participem o clero e o povo. 

Esse nivelamento acabaria com a monarquia papal, transformando o Papado e a Igreja numa vil e desbotada república. O Papa seria Pontífice durante certo número de anos, como um presidente no sistema republicano. Procura-se uma completa igualdade dentro da Igreja, ao mesmo tempo que se procura completa igualdade dentro da sociedade temporal. No dia em que o nivelamento estiver completo, desaparecerão as condições para que a Igreja exista, e ela teria cometido como que um suicídio, morrendo pelas próprias mãos. 

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* Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 16 de junho de 1968. Sem revisão do autor. Fonte: Revista Catolicismo, Nº 809, maio/2018.

3 de maio de 2018

SORBONNE — 50 anos depois

Obstinação contra a Cristandade na revolução sexual, anárquica e libertária de Maio de 68 


Paulo Corrêa de Brito Filho 

Muitos julgaram que as primeiras badernas estudantis de maio de 1968, na Sorbonne, eram simples manifestações de jovens extravagantes com ideias amalucadas. Mas tais ideias se expandiram e provocaram grandes mudanças nos costumes tradicionais da França, e a partir daí contagiaram como lepra o mundo inteiro, resultando numa verdadeira revolução sexual e cultural, de acordo com o que berravam os sorbonianos: “Inventai novas perversões sexuais”. 


As agitações tomaram as ruas, ergueram-se barricadas, violentos confrontos com as forças da ordem se espalharam para outras regiões. Depois tudo pareceu retornar à normalidade, mas de fato as coisas nunca voltaram a ser como antes. As sementes lançadas em maio de 68 geraram frutos perniciosos para todos os povos.

Incorporada à História como “Revolução da Sorbonne”, ela foi na realidade o marco do que poderíamos chamar de “IV Revolução”, desenvolvendo o processo cujas três primeiras fases foram a Revolução Protestante, a Revolução Francesa e a Revolução Comunista. O que se almejou em maio de 68 foi lançar uma radical revolução sexual, anárquica e libertária, e proclamar a morte dos costumes tradicionais. Foi também o nascimento de uma “nova era histórica” — uma “civilização do instinto” oposta à civilização cristã, tendo por meta a utopia igualitária. 


Passados 50 anos da “Revolução da Sorbonne”, o mundo geme no caos. Enquanto isso, o impulso da onda libertária vai destruindo as instituições e encaminhando as nações rumo ao tribalismo, que seria a “V Revolução”. 

A matéria principal da edição da revista Catolicismo deste mês, redigida pelo nosso colaborador Benoît Bemelmans, presidente da TFP francesa de 1996 a 2009, aponta para o que realmente pretendiam os revolucionários da Sorbonne, explicita a transformação que eles provocaram na sociedade, na mentalidade dos povos e também nos ambientes católicos, e ressalta a necessidade de uma reação para não nos afundarmos na libertinagem desbragada do mundo contemporâneo. 


Na parede da Sorbonne,
pichado o lema contestatário:
“Défense d’interdire!” (É proibido proibir!)
Em face das ideias radicais de maio de 68, sintetizadas no slogan “É proibido proibir” [foto ao lado], nossa resposta só pode ser: “É necessário proibir”. Basta considerar que, dos 10 Mandamentos da Lei Deus, sete são preceitos proibitivos. Em qualquer sociedade onde tudo é permitido, nada fica de pé. Ela se torna insustentável, e acaba por desaparecer na anarquia geral. 

*       *       *
Aconselho vivamente a aquisição da revista Catolicismo deste mês (edição nº 809), que desenvolve em sua matéria de capa o tema:
SORBONNE – MAIO de 68 

Rebelião radical contra os valores da Cristandade 

— 50 anos depois, o que ficou?

1 de maio de 2018

14 filhos, todos varões, todos bem-vindos



Plinio Maria Solimeo

Neste mundo tão egoísta, no qual só se pensa em gozar a vida, os filhos são vistos quase sempre como empecilhos. Por isso deve-se tê-los no menor número possível, ou nenhum, para evitar preocupação.

Por isso é edificante ver uma família que aceita como dom de Deus todos os filhos — já vieram 14 e, surpreendentemente, todos varões.

O casal norte-americano Jay e Kateri Schwandt está disposto a receber outros, “tantos quanto Deus mandar”. A singularidade de ter todos os filhos homens chamou a atenção até da mídia nacional na primavera de 2017, quando Kateri esperava mais um filho. A revista People, por exemplo, perguntou: “Menino ou menina? Família com 12 filhos espera o seu bebê nº. 13”. A resposta veio com a chegada de mais um menino em 13 de maio último, a quem deram o nome de Francisco, em louvor do santo pastorzinho de Fátima. 

Conhecendo-se desde o ginásio, ao se casarem aos 18 anos em 1993, Kateri e Jay não planejaram uma grande família. Claro, eles desejavam ter filhos, mas Jay, que só tem uma irmã, julgava que três ou quatro filhos seria uma grande família. Já Kateri, de uma família de 14 filhos, esperava ter pelo menos cinco. 

Durante os primeiros anos de casados, os esposos tinham pouco dinheiro. “Mas não precisávamos de muito para ser felizes”, afirmam. À medida que a família crescia, Kateri voltava à escola para mestrado em serviço social, enquanto Jay frequentava a Faculdade de Direito e administrava seu próprio negócio de agrimensura. Kateri afirma: “Eu sempre senti que Deus nos aparelha com o que precisamos na situação em que nos coloca.” Quer dizer, como expressa muito bem velho dito brasileiro, “cada filho que nasce, traz consigo o seu pão”.

Quando se aproximava a vinda de mais uma criança, os pais depositavam sua confiança em Deus, acolhendo com atenção a nova vida. Ao chegarem os dois filhos mais novos, a atenção da mídia apresentou a família Schwandt para os comentários públicos, que incluíam palavras de apoio, mas também algumas críticas. 

Jay lembra-se distintamente de um e-mail enviado por um grupo de catequistas logo após o nascimento de Tucker, o penúltimo: “Quantos filhos uma família católica deve ter?” Jay não titubeou: “Tantos quanto Deus quer que você tenha”

Sua residência, aninhada nos bosques a poucos quilômetros do centro de Rockford, é o local perfeito para os meninos fazerem seus jogos, construírem fortes e andarem com segurança em suas bicicletas.

O grande número de filhos não é pretexto para essa família religiosa deixar de cumprir o preceito dominical. O casal escolheu a Missa das 11 da manhã, para dar tempo de preparar todo o rancho. Eles moram a poucos minutos da igreja Nossa Senhora da Consolação. Diz Jay: “Temos uma rotina muito boa. Quando todo mundo se levanta, eu saio com os que estiverem prontos, geralmente os mais novos. Pego um dos garotos mais velhos para me ajudar, e vamos para a igreja, onde temos um banco garantido”. “E eu trago a parte de trás”, diz Kateri, que vai chegar um pouco mais tarde com os filhos mais velhos, mais dorminhocos. 

Na igreja, “quando eles têm 4 ou 5 anos e é hora de ficar em pé, eles ficam de pé; quando é hora de se ajoelhar, eles se ajoelham”, diz Jay. “Eles aprendem fazendo como você age na igreja”

O casal confessa que a fé é a engrenagem que faz funcionar toda a família. Os pais mostram à sua prole o caminho a seguir, com lições de amor, paciência, serviço e perdão no dia-a-dia. 

Evidentemente, diz Jay, “cada um deles tem sua personalidade, e uma das melhores coisas que fizemos foi enviá-los a uma escola católica, porque vão à igreja e começam todos os dias com uma oração”

Frequentemente perguntam ao casal o que há de bom em ter uma família grande. Eles respondem: “É o tempo em que passamos juntos, nos querendo e nos animando. [...] As crianças sempre foram uma parte de nós”, acrescenta Jay. “Seja financeiramente ou oportunamente, nós administramos a família. E quando eles têm idade suficiente para tomar suas próprias decisões, pelo menos mostramos a eles o caminho certo espiritual e fielmente”.

Para reforçar a sua fé e adquirir novas forças para cuidar bem de tantos filhos, o casal recorre à oração. Jay se refere à esposa como o “pilar espiritual” da família. Ela é catequista da paróquia há dez anos, e tanto ela quanto Jay participam da adoração perpétua. “Fico ansiosa por isso, por causa da criação de uma família com tudo o que a acompanha”, diz ela. “Quando sinto falta da adoração perpétua, sinto que estou correndo baixo”, acrescenta.

Jay, para não descuidar dos filhos, costuma fazer sua hora de adoração às 2 da madrugada de segunda-feira, quando provavelmente não será interrompido.

Agora, com pouco mais de 40 anos, bem-humorados e apoiando-se mutuamente, Jay e Kateri reservam para si o que eles chamam de “momentos roubados” aos filhos. São os pequenos passeios a sós pela calçada, ou os 10 minutos que passam juntos na varanda dos fundos, enquanto os mais velhos observam os mais jovens. 

“O casamento, como qualquer outra coisa, evolui”, diz Kateri. “Assim como os profissionais têm que fazer sua educação continuada, você precisa constantemente alimentar seu casamento.” Por isso eles têm o propósito de reservar um tempo para se ampararem mutuamente, e tentar fazer tudo de maneira a incluir sua fé. 

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Referências: https://www.religionenlibertad.com/tenian-hijos-todos-ninos-acaba-nacer-otro-varon-63864.htm
http://www.dioceseofgrandrapids.org/multimedia/faithgr/2015/Pages/10_Feature_Schwandt_Save_pew.aspx#.Wt4nuRsvzct

28 de abril de 2018

“Ter filhos não é ético”, afirmam os antinatalistas


Jurandir Dias
O homem é a “única criatura sobre a Terra que Deus quis por si mesma”[i], dotando-o de toda a dignidade a ponto de permitir que seu Filho se encarnasse e morresse na Cruz para resgatá-lo do pecado original. É por este motivo que o demônio se tem empenhado desde o início em destruí-lo. Compreendemos assim também o porquê da criação de doutrinas como a ideologia de gênero, o ambientalismo e, mais recentemente, o movimento chamado antinatalista.
Deus mostra a sua predileção pelo ser humano por se tratar da mais perfeita de suas criaturas e porque o criou “à sua imagem e semelhança”. O que as Escrituras descrevem poeticamente: “Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”. E depois de tê-los criado, Deus os abençoou e lhes disse: “Sejam férteis e multipliquem-se! Encham e subjuguem a terra! Dominem sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se movem pela terra” (Gênesis, 27 e 28).
Ter filhos, portanto, é um mandado divino. O casal que não quer ter filhos demonstra um egoísmo extremo e peca contra esse mandado.
Audrey Garcia, de 39 anos, casada, é uma dessas pessoas que dizem ter seus motivos para não ter filhos. Numa entrevista para a BBC Mundo em espanhol, ela afirma que  ter filhos “simplesmente não é ético em um mundo superpovoado, onde falta água e comida para muitas pessoas, onde estamos destruindo o meio ambiente, onde não paramos de consumir mais e mais recursos”.[ii]
Audrey Garcia pertence a um grupo de pessoas conhecidas como antinatalistas, que se inspiram nas ideias de David Benatar, diretor do Departamento de Filosofia da Universidade do Cabo, na África do Sul. Benatar é autor do livro Better Never to Have Been (Melhor Nunca ter Nascido). A obra começa com a seguinte dedicatória: “Aos meus pais, apesar de me terem dado a vida”.
Segundo Audrey, o antinatalismo está associado ao veganismo. “Como ativistaluto contra todo tipo de exploração animal. Se eu tivesse filhos, seria responsável por criar uma cadeia sem fim de humanos que vão consumir produtos animais, porque não posso garantir de forma alguma que meus filhos e netos sejam veganos” E continua: “Ter filhos significaria necessariamente aumentar o sofrimento animal”. Para Audrey, ser antinatalista também é ir contra o sistema estabelecido, que “supõe que a mulher está destinada a ser mãe”.
Audrey Garcia fez a cirurgia para se tornar estéril e afirma que “as pessoas costumam ficar chocadas porque veem a esterilização como uma mutilação, mas quando eu explico os motivos, elas entendem”.
Como os casais egoístas, que só pensam no prazer e não querem ter filhos, este é um problema que Audrey tem enfrentado nos seus relacionamentos. Por isso, justifica-se dizendo: “Não vejo o que há de egoísta em querer dedicar sua vida a outra coisa que não seja ter filhos. O que acho egoísta é tomar, de maneira unilateral, a decisão de trazer alguém a este mundo.
Uma das razões que os antinatalistas citam para não terem filhos seriam os sofrimentos físico, psicológico e emocional. Assim, Audrey deixa transparecer o desejo de suicídios dessas pessoas: “Acho que muitas pessoas já pensaram em suicídio uma vez ou outra. Mas já que estou aqui, tento ser útil.
Por causa do pecado original, esta vida é um “vale de lágrimas”. E é muitas vezes no sofrimento que encontramos a nossa consolação. Foi o exemplo que nos deu Nosso Senhor Jesus Cristo morrendo na Cruz. O suicídio é, portanto, a falsa solução que o demônio apresenta àqueles que se entregam ao egoísmo e aos prazeres.

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[i] CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, 2001, p. 103

20 de abril de 2018

Uma tradicional dama paulista

Da. Lucilia aos 16 anos

A revista Catolicismo deste mês publicou uma muito substanciosa entrevista com o Dr. Adolpho Lindenberg sobre sua saudosa tia, Dona Lucilia Ribeiro dos Santos Corrêa de Oliveira. Esta tradicional dama paulista que trouxe ao mundo o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, e que exerceu grande influência na sua formação católica, faleceu em 21 de abril de 1968. Em memória do cinquentenário de seu falecimento reproduzimos aqui a mencionada entrevista publicada em sua homenagem.



Por ocasião do cinquentenário do falecimento dessa tradicional dama paulista (*22-4- 1876 +21-4-1968), Catolicismo não precisou sair dos círculos de seus redatores para encontrar alguém capaz de comunicar aos nossos leitores — que já conhecem muito bem Plinio Corrêa de Oliveira — alguns traços daquela que trouxe este insigne líder católico ao mundo e exerceu grande influência na sua formação. Dr. Adolpho Lindenberg, decano dos nossos colaboradores, guarda muitas recordações de sua “saudosa tia Lucilia”. 

Dona Lucilia pertencia à tradicional classe dos paulistas denominados quatrocentões — provenientes dos fundadores ou dos primeiros povoadores da cidade de São Paulo — e tinha entre seus ascendentes vários bandeirantes famosos. Dentre os antepassados maternos do Prof. Plinio, destacou-se durante o reinado do Imperador D. Pedro II o ilustre Prof. Gabriel José Rodrigues dos Santos, catedrático da famosa Faculdade de Direito de São Paulo, advogado, orador de grandes dotes, deputado provincial e mais tarde nacional. 

Além de nosso decano, o entrevistado é um dos fundadores da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP) e atual presidente do Instituto que leva o nome de seu primo-irmão, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira. Engenheiro pela Universidade Mackenzie, sua atividade profissional sempre esteve relacionada com a Construtora Adolpho Lindenberg, uma das mais conceituadas do País, que se notabilizou pela reintrodução do estilo colonial e o lançamento do estilo neoclássico na construção de edifícios. 



Dr. Adolpho Lindenberg:
“Ela foi muito emblemática do ideal 
perfeito de mãe, esposa, filha e tia. 
Católica ao máximo, monarquista 
e tradicionalista, não pactuava 
com o relaxamento dos costumes”

Catolicismo — Em que época o senhor mais conviveu com sua tia Lucilia e com seu primo Plinio Corrêa de Oliveira? 

Dr. Adolpho Na época em que éramos crianças, e convivíamos na casa de nossa avó, Gabriela Ribeiro dos Santos, mãe de Da. Lucilia. Vovó era uma senhora muito aristocrática, que marcou época na sociedade paulista do início do século passado. 










“Tia Lucilia recordava-se do vovô
como um homem boníssimo,
pleno de qualidades, enquanto vovó Gabriela
tinha deixado a recordação de
uma senhora bonita, imponente e inteligente”




Catolicismo — Antes de passarmos às perguntas sobre Da. Lucilia, desejaríamos conhecer algo mais da personalidade de Da. Gabriela. Alguma lembrança que o senhor pudesse narrar a respeito? 

Dr. Adolpho — Na sala de visitas do apartamento onde morou tia Lucilia há uma bela pintura de minha avó Gabriela, num quadro muito elogiado por Dr. Plinio [foto ao lado]. Retrata uma bela senhora matriarcal, que teve relações de amizade com a Princesa Isabel. Tia Lucilia recordava-se do vovô Antonio (esposo de Da. Gabriela) como tendo sido um homem boníssimo, pleno de qualidades, enquanto vovó Gabriela tinha deixado a recordação de uma senhora bonita, imponente e inteligente. Quando eu era menino, ela aparentemente me ignorava, mas só anos depois vim a compreender que nessa atitude anti-igualitária ela demonstrava apenas uma segurança, uma nota aristocrática e dominadora, uma superioridade diante da qual um menino hesitava. 



Plinio Corrêa de Oliveira e sua irmã Rosée
Catolicismo — Poderia descrever como era o convívio no ambiente da casa de Da. Gabriela? 

Dr. Adolpho — A família Ribeiro dos Santos se destacava pela loquacidade, e o convívio naquele ambiente era animadíssimo. Conservo muitas lembranças e saudades desse convívio com toda a parentela. Nem preciso dizer o quanto Plinio, com sua vitalidade, colaborava nessa animação, por exemplo, formando rodas de conversas agradabilíssimas. Ele proseava com muito bom humor sobre qualquer coisa, desde grandes fatos históricos, passando por episódios ocorridos com nossos tios, até as cores das pedras. Costumo lembrar o dito de Talleyrand: “Quem não viveu na França no período anterior à Revolução Francesa [1789], não conheceu a doçura de viver”. Posso afirmar que algo dessa “doçura de viver” existia em nossa família, na então pequena cidade de São Paulo. Recordo-me de que, alguns meses antes da morte de Dr. Plinio, eu mantive com ele uma conversa durante a qual ele se lembrou daqueles antigos tempos, no convívio com sua irmã Rosée, seus primos e amigos na casa de vovó. Ele, muito mais do que eu, sentia saudades do bem-estar desse pequeno microcosmo que era o nosso ambiente familiar.



Em 1912, Da. Lucilia em Paris
Catolicismo — E como era a presença de Da. Lucilia nesse “microcosmo” na casa dos Ribeiro dos Santos? 

Dr. Adolpho — Tia Lucilia dispensava um trato muito cerimonioso às pessoas — com os filhos e sobrinhos, com seu esposo, meu tio João Paulo, até com seus pais, pelos quais ela nutria uma verdadeira veneração. Muito diferente de certas pessoas modernas, que usam um trato excessivamente íntimo. Ela não apreciava esse tipo de comportamento “sem-cerimônias”, por assim dizer, sem certa solenidade de atitudes. Ela era solene por natureza, o que tornava o ambiente da casa de vovó muito agradável e elevado. 


Catolicismo — Quais suas impressões sobre a figura de sua tia, e o que mais o impressionava nela? 

Dr. Adolpho — Eu quase não comento sobre o modo de ser de tia Lucilia, mas quando aparece uma boa oportunidade, causa-me alegria poder falar dela. Não é fácil, para aqueles que não a conheceram pessoalmente, compreender inteiramente sua figura. Impressionava-me muito, além de sua amabilidade e paz de alma, a força de seu olhar. Olhar de uma pessoa reta, honesta, e de uma superioridade ímpar. Quem não é reto e honesto poderia até ficar envergonhado na sua presença. Olhar muito meigo, muito bondoso, mas quem não estivesse com a consciência em paz não gostava muito. Era o encontro de olhares entre uma pessoa virtuosa e outra sem virtude. Muito me impressionava o olhar dela, que incentivava as pessoas a enfrentar as dificuldades da vida. 

Ela foi muito emblemática do ideal perfeito de mãe, esposa, filha e tia. Católica ao máximo, monarquista e tradicionalista, não pactuava com o relaxamento dos costumes, com as modas extravagantes. Lembro-me dela visitando-me quando eu ficava doente. Ela lia para mim livros interessantes que exaltavam o heroísmo, como o livro dos Três Mosqueteiros. E aplicava a leitura dando bons conselhos, advertindo-me dos perigos que poderia enfrentar em minha vida. Ela me causava a impressão de ser uma senhora muito cerimoniosa e de uma geração anterior. Nesse sentido, nunca tingiu nem cortou curtos os cabelos, não se pintava, usava vestidos muito discretos.



Dr. Plinio e Dr. Adolpho Lindenberg
Catolicismo — Da. Lucilia era enérgica em exigir dos filhos o cumprimento dos deveres diários? 

Dr. Adolpho — No período anterior à Primeira Grande Guerra, notava-se a rivalidade entre a França e a Alemanha. Muitos no Brasil pareciam divididos: os francófilos e os germanófilos. Tia Lucilia amava a França, e meu pai amava a Alemanha. Assim, apesar de tia Lucilia demonstrar equilíbrio, ele se queixava de sua cunhada. Ela era de uma cortesia admirável, manifestava muito afeto às pessoas de bom coração, mas era intransigente em relação às pessoas más, e não cedia ao erro. Até no relacionamento com os filhos, mesmo sendo extremamente afetuosa, exigia deles o cumprimento integral do dever, das obrigações diárias, etc. 

Por isso, elogiava para os filhos o modo de ser do alemão, disciplinado no cumprimento do dever. E foi certamente por isso que ela escolheu para os filhos uma governante alemã, a Fräulein Mathilde Heldman [foto abaixo], fato que deixou papai muito satisfeito... Dr. Plinio admirava muito essa Fräulein bávara, pois ela o ajudou a apreciar o estilo de vida europeu, as tradições e a nobreza europeia, as grandes famílias e figuras do Velho Continente. Com sua cultura, essa governante colaborou na formação de Rosée e de Plinio e no aprendizado da língua alemã, mas também do francês e do inglês. 


Plinio acompanhado de sua irmã e de sua
prima, com a Fräulein Mathilde
Em 1912, num período em que Da. Lucilia sofria de cálculos biliares, ela viajou de navio à Alemanha com vários membros da família — Plinio tinha apenas quatro anos, e eu nem tinha nascido —, para submeter-se a uma cirurgia com um especialista que era médico do Kaiser, o Dr. Bier. Certamente essa viagem colaborou para aumentar nela e nos filhos a admiração pelo modo de ser alemão, o amor à ordem, à disciplina, etc. 

Tia Lucilia e a Fräulein Mathilde colaboraram para formar a Weltanschauung (visão de mundo) do Dr. Plinio. Podemos notar isso em sua vida e em seus escritos, por exemplo, no livro Revolução e Contra-Revolução e em sua última obra, Nobreza e Elites Tradicionais Análogas. Alguns de meus tios ficavam meio perplexos com essa Weltanschauung adquirida por Plinio, com seu modo de ser categórico, e pareciam pensar: “Como é que Lucilia, tão cordata, foi ter um filho tão afirmativo como esse? É realmente inconcebível”


Catolicismo — Como explicar esse modo de ser categórico de Dr. Plinio, sendo sua mãe tão serena? 

Dr. Adolpho — O que levou Plinio a tomar posições categóricas foi sua luta contra-revolucionária em defesa da Igreja e da Cristandade, embora temperamentalmente ele se assemelhasse à sua mãe. Ele foi um menino muito plácido, pacífico, até fleumático, gostava de ficar contemplando as coisas da natureza. Já contei que numa fotografia de família aparece minha prima Rosée, menina de sete anos, andando por uma calçada, muito atenta a tudo, levando pela mão o irmão, dois anos mais novo que ela. Plinio parece distraído, tranquilamente contemplando alguma coisa. 

Mas foi devido à sua luta que ele se viu obrigado a tornar-se um polemista, um cruzado, a discutir para defender a glória de Deus. Quando jovem, vivendo ainda em casa de vovó, ele analisava muito as ideologias modernas enquanto penetravam nos modos e no pensamento de seus primos. E procurava alertá-los, para rejeitarem o que aparecia de ruim no mundo moderno com suas extravagâncias. Tia Lucilia também ficava assustada com as extravagâncias que iam surgindo, as modas em geral. 



“Ela foi muito emblemática do ideal
perfeito de mãe, esposa, filha e tia.
Católica ao máximo, monarquista
e tradicionalista, não pactuava
com o relaxamento dos costumes”
Catolicismo — Portanto, ela não foi uma mulher considerada “moderna”. 

Dr. Adolpho — Tia Lucilia, com seu temperamento calmo e modos aristocráticos, criava em torno de si uma atmosfera tranquila, oposta às agitações do mundo dito moderno. Ela morreu no século XX, mas, por assim dizer, contagiava as pessoas ao seu redor com aquela atmosfera suave e tranquila do século XIX. Poder-se-ia mesmo falar em “atmosfera luciliana”, usando uma espécie de neologismo. As pessoas podiam chegar aflitas e agitadas à sua casa, mas ela as “serenava” com sua calma e carinho, e aos poucos elas se livravam da agitação. O próprio Dr. Plinio disse que ela era excelente consoladora das pessoas: “Quando dela me aproximava, devido a alguma aflição ou numa situação sem saída, bastava ouvi-la dizer 'meu filho, o que é?', e metade do problema já se desfazia”. Ela resolvia com muita benevolência as dificuldades das pessoas, e elas saíam contentes. 



Imagem do Sagrado Coração de Jesus,
do pequeno oratório de Da. Lucilia
Catolicismo — O que o senhor diria sobre as devoções de Da. Lucilia? 

Dr. Adolpho — Muitíssimo devota do Sagrado Coração de Jesus, tia Lucilia tinha especial predileção pela Igreja do Sagrado Coração de Jesus, no bairro Campos Elíseos no qual ela residia, e lá assistia às missas dominicais junto com seus filhos. Como se pode ver ainda hoje, essa Igreja foi decorada com muito bom gosto, belos vitrais, pinturas e imagens. Seu ambiente, com aspectos sobrenaturais, convida verdadeiramente à piedade. Pode-se dizer que o bom temperamento dela e seu modo de ser misericordioso tinham como motivação sua devoção ao Sagrado Coração, do qual possuía duas imagens: uma num pequeno oratório em seu quarto [foto abaixo]; e outra talhada em alabastro, sobre uma coluna no salão [foto mais abaixo], diante da qual passava um bom tempo rezando. 

Tia Lucilia enviou muitas cartas ao Dr. Plinio, quando ele viajava para alguma cidade do Brasil ou do exterior. Eis o que escreveu numa delas: “Agradou-me imenso saber que, quando tens saudades minhas, rezas diante do meu oratório. Eu também rezo tanto por ti. O Sagrado Coração de Jesus, nosso amor, será tua salvaguarda e protetor, filho querido do meu coração!”.
Oratório do Sagrado Coração de Jesus
no quarto de Da. Lucilia

De outra carta, escrita por Da. Lucilia quando meus primos eram adolescentes, destaco estas linhas: “Você [Plinio] e Rosée são confiados a Deus antes de nascer. Portanto, com fé e amor a Deus, vocês não poderão deixar de ser felizes, tanto mais que por vocês eu rezo noite e dia, e é natural que as preces de uma mãe católica, mesmo de tão pouco mérito, sejam atendidas por Nossa Senhora, que também é mãe, e por Nosso Senhor Jesus Cristo”


Para pessoas de fora de seu círculo mais restrito de amizades, Dr. Plinio não falava muito de sua mãe, mas para nós, quando indagado sobre o seu relacionamento com ela, deixava claro o papel que ela exerceu a fim incrementar nele a fé católica e aumentar sua devoção aos Corações de Jesus e Maria.



Catolicismo — Dr. Plinio deixava transparecer a sua gratidão a Da. Lucilia? 

Dr. Adolpho — Dr. Plinio, certa vez, comentou o seguinte sobre sua mãe: “Era verdadeiramente uma senhora católica. Ninguém pode imaginar o bem que ela me fez. Estudei sua bela alma com uma atenção contínua, e era por isso mesmo que eu gostava dela. A tal ponto que, se ela não fosse minha mãe, mas a mãe de outro, eu gostaria dela da mesma maneira, e daria um jeito de ir morar junto a ela. Mamãe me ensinou a amar Nosso Senhor Jesus Cristo, ensinou-me a amar a Santa Igreja Católica”. Difícil encontrar louvor maior de um filho em relação à sua mãe. 

Ela foi mãe modelar, tanto no incentivo ao bem quanto na censura ao mal. Por exemplo, na correção de alguma travessura dos filhos e sobrinhos, procurava fazê-los compreender no que estavam errados e como aquilo não era do agrado de Deus, ao mesmo tempo em que incutia nos pequenos como era belo agir com retidão. Mas também, quando alguma criança praticava algo louvável, era a primeira a elogiar e incrementar nela o quanto a vida virtuosa era deleitável. 

Procurava mostrar que, mesmo se tornando mais dura a vida de quem praticasse as virtudes, a criança seria mais feliz cumprindo o dever, ficando assim com a consciência tranquila. Às vezes tia Lucilia ilustrava sua repreensão ou seu elogio narrando algum episódio da vida de antepassados, ou da história de pessoas que ela conheceu. Com suas recordações do passado, ela exemplificava com pessoas que fracassaram na vida por seguirem o mau caminho, ou pessoas que foram felizes seguindo o bom caminho, apesar de ser mais difícil. Desse modo estimulava os lados bons das crianças e incutia horror aos aspectos maus. Era admirável o senso do bem e do mal, que ela possuiu de modo extraordinário. 
Salão na residência de Da. Lucilia, no fundo, a coluna com a imagem do Sagrado Coração
de Jesus talhada em alabastro

Catolicismo — Certa vez Dr. Plinio fez referência a uma provação à qual Da. Lucilia foi submetida pouco antes do nascimento dele. Poderia contar para nossos leitores? 

Dr. Adolpho — Neste caso, acho que Plinio se referia a um fato que se passou em 1908. Quando ele estava por nascer, o médico preveniu Da. Lucilia de que ela seria submetida a um parto de risco, e tanto ela quanto o filho poderiam não resistir à intervenção cirúrgica. Perguntou se ela concordaria em fazer um aborto, e desse modo garantiria a sua vida. Ela ficou chocada com a pergunta, e respondeu: “Esta é uma pergunta que não se faz a uma mãe. O doutor não deveria sequer cogitar em tal hipótese”. Ela confiou o filho a Deus, o parto se deu com alguma antecedência em relação ao período normal de nove meses, e Plinio nasceu com o peso abaixo do normal, mas logo recuperou plena saúde e peso. 


Sala com o quadro de Da. Gabriela na residência de Da. Lucilia
Catolicismo — Sobre a formação que ela deu aos filhos, o senhor se lembra de algo especial? 

Dr. Adolpho — A vida de Da. Lucilia foi um exemplo de uma mãe caracteristicamente brasileira e católica. Extremamente bondosa, serena e acolhedora, ela se dedicou afetuosamente, de todo o coração, aos dois filhos Rosée e Plinio, assim como aos sobrinhos, procurando incutir nos pequenos a catolicidade que a caracterizava, proporcionando-lhes ótima formação religiosa. 

Dr. Plinio se lembrava de que, ao entrar em casa após alguma atividade externa, sentia o ambiente muito acolhedor de sua residência — os ares “lucilianos”, por assim dizer. Ele se recordava perfeitamente do modo como ela definiu o relacionamento virtuoso e perfeito numa família: “Viver é estar juntos, olhar-se e querer-se bem”
Quarto onde faleceu Da. Lucilia

Catolicismo — Esses episódios são tão interessantes, que nos agradaria conhecer outros que o senhor possa recordar. 

Dr. Adolpho — Dr. Plinio também se lembrava de que, ainda menino, com seus sete anos mais ou menos, lia livros para crianças e fazia considerações sobre a pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo. Com aquela idade, e contemplando as imagens d’Ele, chegou à certeza de que Jesus Cristo era o Homem-Deus. Nisso muito lhe auxiliavam as narrações da História Sagrada que tia Lucilia apresentava para os filhos. Essa formação religiosa foi tão marcante, que aproximadamente naquela idade Plinio dava aulas de catecismo aos empregados da casa, com base no que ouvira de sua mãe. 



Pintura a óleo de Da. Lucilia, representada
no último ano de sua existência terrena,
aos 92 anos
Catolicismo — Dos últimos momentos de Da. Lucilia, o que o senhor poderia nos dizer? 

Dr. Adolpho — Numa reunião com Dr. Plinio, alguém mostrou a ele uma fotografia de tia Lucilia bem idosa, na qual transluzia muito a esperança do Céu e a confiança na misericórdia divina. Mencionando o dito latino “Talis vita finis ita” (tal vida, tal fim), ele comentou que toda a vida dela fora assim, e assim ela caminhava para o final da vida. Nessa foto se percebia a afabilidade, mas também a seriedade de uma pessoa que sofreu e estava tranquila, pronta para se apresentar diante de Deus.

Plinio não assistiu ao desenlace final. Ele estava em casa, mas em outro cômodo. Entretanto, um médico amigo a assistiu e fez uma narração daquele último instante. Disse ele que naquele momento final, apesar da crise cardíaca, tia Lucilia estava muito tranquila, e fez solenemente um grande Sinal da Cruz. Com este sinal, despediu-se da vida e entregou sua alma a Deus aos 92 anos de idade.

18 de abril de 2018

Vaticano-China: Cardeal Zen reitera na Alemanha suas duras críticas ao Cardeal Parolin


Em Bonn, o Cardeal Zen concedendo entrevista a Mathias von Gersdorff
Mathias von Gersdorff 

O Cardeal Joseph Zen Ze-kiun, Arcebispo-emérito de Hong Kong, reiterou em recente viagem à Alemanha sua forte crítica ao planejado acordo entre o Vaticano e a República Popular da China. Esse acordo entregaria a Igreja Clandestina chinesa, que foi sempre fiel à Santa Sé, à Associação Patriótica, criada pelo regime comunista chinês em 1957.


O Cardeal Zen recebeu no dia 7 de abril último em Bonn, antiga capital da Alemanha, um prêmio concedido pela Fundação Stephanus aos cristãos perseguidos — Stephanus Stiftung für verfolgte Christen [foto ao lado].

Em seu discurso de agradecimento, ele explicou que a Secretaria de Estado do Vaticano, liderada pelo Cardeal Pietro Parolin, está disposta a fazer concessões absurdas ao governo comunista. O acordo contemplaria a nomeação de bispos pelo governo chinês. O Papa só teria direito de veto. Devido às distâncias geográficas e às complicações da realidade chinesa, isso significaria que o Papa praticamente não teria influência.

Escandaloso também é o fato de os católicos clandestinos de numerosas dioceses, que vêm sendo perseguidos há várias décadas, terem de aceitar bispos cismáticos de obediência ao regime comunista, que tomariam o lugar dos bispos clandestinos fiéis a Roma. De que serviu então resistir às perseguições durante tantos anos? 


As dioceses chinesas são governadas por bispos “patrióticos” e clandestinos. No início de janeiro de 2018, uma delegação do Vaticano enviada pelo Cardeal Parolin e liderada por Dom Cláudio Maria Celli tentou remover dois bispos clandestinos para que os “patrióticos” aumentassem o número de suas dioceses. 

Os bispos legítimos felizmente não cederam à pressão do Vaticano. Mas essa singular intervenção foi para o Cardeal Zen a gota que transbordou a taça. Ele foi a Roma externar sua perplexidade ao Papa Francisco, que se manifestou surpreso e desconhecedor dos pormenores. 

É por isso que o Cardeal Zen acusa o Cardeal Parolin e o Secretário de Estado de informarem mal, ou inclusive erroneamente, o Papa Francisco.

A viagem à Alemanha para receber o prêmio da Fundação Stephanus constituiu a última etapa da turnê do Cardeal Zen para alertar os católicos de todo o mundo sobre a projetada traição aos católicos chineses. 


O Cardeal deu muitos detalhes sobre a intensificação da perseguição aos católicos nos últimos meses. Uma nova lei das religiões limita severamente a liberdade da Igreja. Há grandes dificuldades em administrar os sacramentos. Por exemplo, é proibido batizar menores de 18 anos de idade. Durante a Semana Santa, os comunistas prenderam os bispos clandestinos para impedi-los de celebrar as cerimônias litúrgicas daquele período. No início deste mês, uma nova lei limitou fortemente a venda de Bíblias. 

É com pessoas dessa natureza que o Secretário de Estado quer encontrar um acordo? Para o Cardeal Zen, isso só pode resultar em catástrofe, numa completa capitulação aos governantes comunistas na China. 

Nenhum acordo é melhor que um péssimo acordo, resume o Cardeal Zen.

11 de abril de 2018

O CASO MINDSZENTY

Esse martirizado prelado não dobrou os joelhos diante da tirania vermelha e resistiu admiravelmente à Ostpolitik vaticana de aproximação com os regimes comunistas.
A duríssima situação dos católicos perseguidos na China comunista está na ordem do dia, e vem a propósito recordar um grande herói que resistiu à política de aproximação com o comunismo, sendo por isso preso e torturado: o Cardeal József Mindszenty (1892-1975), Arcebispo de Esztergom e Primaz da Hungria. Esse martirizado prelado não dobrou os joelhos diante da tirania vermelha e resistiu admiravelmente à Ostpolitik vaticana de aproximação com os regimes comunistas. 

Devido a essa resistência, foi destituído por Paulo VI de sua arquidiocese.[1] Comentando o seu caso, Plinio Corrêa de Oliveira escreveu para a “Folha de S. Paulo” (31-3-1974) o artigo intitulado Ao grande criador do caso imenso, do qual reproduzimos o trecho abaixo. 


O Cardeal Mindszenty é recepcionado pela TFP venezuelana no aeroporto de Maiquetia (Caracas, 1975)

No panorama da geral devastação, o Cardeal Mindszenty se tem erguido como o grande inconformado, o criador do grande caso internacional,[2] de uma recusa inquebrantável que salva a honra da Igreja e do gênero humano. O seu exemplo — com o prestígio da púrpura romana intacta nos ombros do robusto pastor valente e abnegado — mostrou aos católicos que não lhes é lícito acompanhar as multidões que vão dobrando o joelho ante Belial.  

Assim, para a figura do egrégio purpurado se voltam as vistas admirativas dos sócios e militantes da TFP e organizações afins, nas Américas e na Europa. Empolgados pela atitude santamente intrépida do ex-Arcebispo de Esztergom, os presidentes dessas entidades lhe enviamos uma mensagem conjunta[3] (vide link abaixo). Estou certo de que incontáveis leitores gostariam de a ter assinado, muitos com seu sangue; ou com suas lágrimas, sangue de suas almas. O sangue da alma do herói de Esztergom e dos que pela Terra inteira sofrem em uníssono com ele. Sangue a que foi dado, desde Abel até o fim do mundo, o poder — maior do que qualquer outro poder — de subir ao Céu e de clamar diante de Deus. 

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Notas: 
1. A respeito do Cardeal Mindszenty, o "The Sunday Telegraph", de Londres, publicou em 15-9-1974: “Os dois grandes tormentos do Prelado: crucificado pelo Kremlin e traído pelo Vaticano”
2. No dia 10 de janeiro último, em audiência privada, o Papa Francisco disse ao Cardeal Zen: “Não criem outro caso Mindszenty!” — referindo-se aos bispos chineses que, assim como o Cardeal Mindszenty, estavam resistindo ao regime comunista chinês (Cfr. “Settimo Cielo”, 29-1-18). 
3. http://www.pliniocorreadeoliveira.info/FSP%2074-03-31%20Ao%20grande.htm#.WrO239T4_IU

9 de abril de 2018

Padre James Martin: Pastor, ou lobo vestido com pele de ovelha?


Ato de reparação promovido pela TFP norte-americana
Santiago Laia

“Por alguma fissura, a fumaça de Satanás entrou no templo de Deus.”

Não é difícil entender essas palavras do Papa Paulo VI quando se considera, com perplexidade e tristeza, como a Santa Igreja está sendo atacada até mesmo por aqueles que deveriam ser os pastores do rebanho de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas que agem como lobos. 

Padre Martin: declarações confusas e alarmantes 

Nos Estados Unidos, o padre jesuíta James Martin (de Manhattan, Nova York) vem criando uma onda de escândalos entre os fiéis católicos daquele país por recentes declarações e pronunciamentos públicos. 

No dia 5 de setembro de 2017, na Fordham University, ele contradisse o ensinamento da Igreja ao afirmar: “Eu tenho dificuldade em imaginar como até mesmo o católico mais tradicionalista, homofóbico e de mente fechada não pode olhar para o meu amigo [em um ‘casamento’ do mesmo sexo] e dizer: ‘Este é um ato amoroso e essa é uma forma de amor que eu não entendo, mas tenho que reverenciar’.”[1]

No dia 2 de outubro de 2017, o Pe. Martin postou comentários no Facebook apoiando um menino que se apresentou como menina para receber aulas de catecismo numa paróquia católica! Quando a paróquia pôs como condição para ensinar o menino que ele se apresentasse segundo o sexo biológico registrado em seu certificado de batismo, o Pe. Martin objetou, chamando a decisão da Igreja de “um escândalo”.[2] 

Durante uma apresentação na Universidade de Villanova, em 29 de agosto de 2017, ele também disse, referindo-se a um homossexual: “Espero que em 10 anos você possa beijar seu parceiro [na igreja] ou, você sabe, em breve ser seu marido.”[3] 

Protestos! 

A TFP Student Action promoveu em seu site petições de protesto contra as declarações do Pe. Martin. As petições se dirigiam às universidades católicas[4] e às igrejas[5] que promoviam conferências do sacerdote em todo o país. 

Infelizmente, mesmo diante de tais protestos, o Pe. Martin continuou distorcendo e escandalizando impunemente a fé de milhares católicos norte-americanos com suas declarações. 

No último dia 22 de março, em meio ao inverno estadunidense, cerca de 170 pessoas rezaram um terço de reparação em frente à igreja Notre Dame, em Chicago, contra uma palestra que o Pe. James Martin pronunciaria naquele local. O ato de reparação foi organizado pela Sociedade Americana de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP). Na ocasião, a TFP americana recolheu 10 mil assinaturas de protesto [fotos]

Essas manifestações pacíficas, mas firmes, impediram algumas das palestras do padre Martin no país. Uma delas seria realizada no dia 24 de março na University of Cincinnati, onde católicos, professores e jovens daquela TFP também promoveram atos públicos de reparação. 

A Paixão de Jesus Cristo revive na crise da Igreja

Considerando a atual crise da Igreja, onde numerosos pastores não agem mais como pastores, mas como lobos vestidos em pele de ovelha, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira sempre exortou seus discípulos a seguir o exemplo de Verônica no momento da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. 

Santa Verônica arriscou sua vida para consolar Nosso Senhor enquanto Ele carregava sua Cruz. Ela estava tão cheia de compaixão por Jesus Cristo, que empurrou os guardas romanos e ofereceu um véu para limpar o divino rosto ensanguentado e ferido por tantas ofensas e pecados.

Nosso Senhor a recompensou por este ato de reparação com um milagre. Imprimiu para sempre sua Face naquele véu. 

Como Santa Verônica, também nós devemos hoje consolar Nosso Senhor. Precisamos combater o bom combate pela Santa Igreja, por Nosso Senhor Jesus Cristo, nestes dias trágicos como foram trágicos os dias da Paixão. 

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[1] Fonte: Fordham News (59:42 no vídeo): https: //news.fordham.edu/insid 
[2] https://www.facebook.com/FrJam... 
[3] LifeSiteNews.com: https://www.lifesitenews.com/b... 
[4] https://www.tfpstudentaction.org/petitions/urge-misericordia-university-to-cancel-address-by-pro-homosexual-priest - https://www.tfpstudentaction.org/petitions/protest-fr-james-martin-spring-hill-college 
[5] https://www.tfpstudentaction.org/petitions/fr-martin-and-sister-gramick-attack-church-teaching http://www.tfp.org/act/take-action-archive-page/