5 de setembro de 2018

CINZAS QUE CHORAM

➤  Paulo Roberto Campos 

2 de setembro de 2018 — mais um dia trágico de nossa História! Um incêndio muito simbólico reduziu a cinzas o Palácio de São Cristóvão, na Quinta da Boa Vista. Também conhecido como Museu Nacional, foi residência do Rei Dom João VI e dos nossos Imperadores Dom Pedro I e Dom Pedro II no Rio de Janeiro, bem como o local onde a Imperatriz Dona Leopoldina assinou o decreto de nossa Independência, no dia 2 de setembro de 1822. 

Incontáveis brasileiros viram no desleixo com que esse memorável edifício era tratado pelos últimos governos esquerdistas o desejo de incendiar a própria lembrança de nossa gloriosa história monárquica. Restam-nos as cinzas que choram. Pranteamos a perda inestimável, pranteamos o desprezo por nossas tradições, pranteamos a absurda preferência por exposições psicodélicas, extravagantes, pornográficas e até blasfemas em museus nacionais, para as quais governos desperdiçam rios de dinheiro. Como declarou o Príncipe Dom Luiz de Orleans e Bragança, Chefe da Casa Imperial do Brasil, o palácio arruinado representa “um símbolo acabado dessa imensa destruição que políticos, homens públicos, intelectuais e outros vêm empreendendo, há décadas, contra o edifício da brasilidade”. 

Nesse mesmo sentido, o jornalista Juan Arias publica artigo intitulado Mais que um incêndio, um triste símbolo de um país que abandona a si mesmo (“El País”, 3-9-18), no qual adverte: “O incêndio que destruiu o Museu Nacional do Rio, e com ele 200 anos da história do Brasil, foi mais do que um incêndio. As chamas são o triste símbolo de um país que abandona a espinha dorsal da ciência, a da cultura e da arte para privilegiar uma política mesquinha de pequenos interesses pessoais dos que deveriam ser os guardiões da maior riqueza de um país, que é a memória da sua cultura”. 
Vista da Quinta da Boa Vista, com o Paço de São Cristóvão, em meados do séc. XIX
Entretanto, apesar do desaparecimento desse grandioso símbolo, devemos confiar na Providência Divina. Do alto do Corcovado, o Divino Redentor vai restaurar não só o Rio de Janeiro, mas todo o Brasil e, ressurgindo-o das cinzas, torná-lo-á ainda mais glorioso do que no passado. Voltaremos a ser a verdadeira Terra de Santa Cruz, livres de qualquer influência comuno-bolivariana e da presente “Revolução Cultural”, de certo modo ainda mais avassaladora do que a de Mao-Tsé-Tung. 


Em memória da época resplandecente do Palácio Imperial de São Cristóvão, transcrevemos a seguir alguns trechos do excelente livro Revivendo o Brasil-Império, de Leopoldo Bibiano Xavier (1991 – Artpress) [capa ao lado]. O contraste entre Monarquia X República; Palácio São Cristóvão X Palácio do Planalto salta aos olhos... 










O Palácio do Imperador está aberto a todos 


Todo o mundo, sem exceção, podia ser facilmente admitido à presença do Monarca, não se precisando para isso nem de vestuário apropriado, nem de bilhete especial, nem de qualquer declaração ou outra formalidade, e muito menos de empenhos de políticos ou de gente do Paço. Bastava apresentar-se em palácio, declinar o nome, que era lançado num grande livro, e penetrar naquelas salas abertas a todos. Benjamim Mossé afirma: 
“Cada um pode apresentar-se como quiser, de casaca, de uniforme, de blusa, de roupa de trabalho; nem por isso deixa de ser recebido por Sua Majestade. O mais humilde negro, em chinelos ou pés descalços, pode falar ao Soberano”. 

Escragnolle Dória, conhecido historiador e escritor, confirma: 
Retrato de Dom Pedro II, c. 1885,  
por Marc Ferrez (RJ / Acervo IMS)
“Era só chegar e esperar a sua vez, certo de ser atendido. Cada qual trazia o seu interesse, e dava o seu recado sem vexame, na sua gramática. O Imperador costumava referir-se a essas audiências públicas como receber a minha família brasileira. 
“Certa vez, falava ao Imperador uma mulher de cor, já idosa, cabeça nua, mãos trêmulas, xale aos ombros, vestido de chita, sapatos e meias usados. Aproximou-se acanhada, dirigiu-se ao Soberano, e no perturbado da exposição deixou cair papéis, sem dúvida de apoio à modestíssima pretensão. Apanhou-os o Imperador, restituiu-os, continuou a ouvir por muito tempo, despedindo a suplicante com um sorriso de bondade e gesto de encorajamento, ficando a segurar os documentos que ela lhe confiara”. 

O romancista Gustavo Aimard, que visitou o Brasil três vezes, escreveu sobre nosso País o livro Brésil Nouveau. Estava no Rio havia oito dias, em 1881, quando seu amigo Sohier lhe sugeriu que fosse ao Palácio da Boa Vista visitar o Imperador. Perguntou então qual seria a etiqueta. O amigo riu-se, e lhe deu a explicação: 

— Nos sábados, as audiências imperiais são públicas, e duram de duas às cinco da tarde. Os candidatos a um encontro com o Soberano entram no Palácio, sobem ao segundo andar, atravessam uma longa galeria e entram na sala das audiências, sem ninguém para lhes embargar os passos.

— Então não há soldados, funcionários e veadores? 

— Soldados, haverá uns vinte. Mas nenhum se ocupa de quem entra nem de quem sai. 
Monumento em homenagem ao Imperador D. Pedro II, em frente ao palácio
Aimard narrou desta forma a entrevista: 
“Entrei no Palácio, subi uma larga escadaria atapetada, no alto da qual encontrei uma pessoa que imaginei ser um porteiro, mas que era um camarista. Perguntei-lhe onde estava o Imperador: ‘Em frente, na segunda porta à esquerda’, respondeu-me sorrindo esse desconhecido. Atravessei um imenso salão, que parecia estreito por causa de seu extenso comprimento. Estava deserto, completamente sem móveis, não tendo nem mesmo um banco. Em compensação, as paredes se achavam cobertas de quadros, dos quais quase todos me pareceram ser de bons mestres e de várias escolas. Alguns deles chamaram minha atenção, parecendo-me de grande valor. Fiquei de tal modo absorvido por essas telas, que esqueci por muito tempo o que tinha ido fazer ali. Duas pessoas que saíam, conversando em voz alta, chamaram-me à realidade. Abri a porta que o desconhecido me tinha indicado, e achei-me noutro salão, este muito bem mobiliado, no qual se via uma meia dúzia de capuchinhos comodamente sentados, todos cochichando uns com os outros. Atravessei uma galeria bastante estreita, mas muito longa, cheia de gente. O Imperador se encontrava no fim da galeria. Reconheci-o logo pela sua elevada estatura, pela barba loura entremeada de fios de prata, e pela fisionomia sorridente”. 

O Conde d’Ursel, secretário da legação belga no Brasil, aqui desembarcou em 9 de dezembro de 1873. Narra a visita a D. Pedro II: 
Vista do Paço Real durante o reinado de Dom João VI (1817).
“Estava o Palácio Imperial aberto a todo o mundo, e os veadores do Soberano acolhiam os visitantes com a maior cordialidade. Ao limiar daquele Paço, sentia-se que o dono da casa a todos recebia benévola e bondosamente. 
Era sábado, dia de audiência pública, por assim dizer, pois toda e qualquer pessoa era admitida a falar a D. Pedro II. Na extremidade da longa galeria avistei o Imperador vestido de preto, parando em frente a pessoa por pessoa, estendendo freqüentemente a mão e ouvindo o interlocutor, sempre com visível atenção. Nada mais impressionante do que o espetáculo ao mesmo tempo simples e comovedor, que eu tinha diante dos olhos. Havia pessoas de modesta posição, vestidas pobremente, esperando a vez para, sem intermediário algum, submeter ao Soberano a sua petição. O Imperador, com benevolência e dignidade, deixa chegarem-se a ele todos dentre os seus súditos que têm uma reclamação a fazer ou um favor a pedir. É voz corrente que esta prática excelente serve por vezes de freio salutar aos funcionários que se deixam levar a arbitrariedades”. 
Litografia do Paço de São Cristóvão em meados do séc. XIX, por Jean-Baptiste Debret. Nesta época um outro torreão já havia sido acrescentado.

Qualquer brasileiro pode falar com o Imperador e confiar na sua bondade 

[...] Não era um rei entre burgueses, mas um chefe de Estado que procura equiparar-se aos outros dois. Na realidade, acentuava com isso a majestade que lhe é natural. Só os príncipes, educados para o trono, podem ser simples, familiares e agradáveis, sem que os demais ousem romper a zona de respeito de que insensivelmente se cercam. 

Silveira da Mota, secretário de Tamandaré, afirmou: 
Vista lateral do Palácio de São Cristóvão entre 1858 e 1861.
“Confesso que nunca vira, na pessoa de D. Pedro II, tanta força de sedução. Tudo o que havia de simpático e nobre na sua fisionomia, apresentava-se naquela época com o aspecto mais favorável. Parecia ser o Monarca da coxilha, idealizado pela gauchada. Ele não teve sequer o seu batismo de fogo, mas a fleuma com que se aproximava ao alcance do fuzil das trincheiras paraguaias foi o bastante para que os circunstantes fizessem uma alta idéia da sua coragem”. 
Se D. Pedro II tinha um grande, um irremediável defeito, pode dizer-se que esse defeito era a sua bondade. Joaquim Nabuco, o famoso abolicionista, afirmou que durante cinqüenta anos o povo encontrou o Imperador sempre de pé, na galeria de São Cristóvão ou no Paço da Cidade, ouvindo a todos sem enganar a ninguém: 
“A sua porta esteve sempre mais franca do que qualquer outra no País. E quando se deixava de tratar com ele, para falar aos poderosos, todos sentiam que a vaidade da posição começava abaixo do trono”. 
Na sua “Fé de Ofício”, o próprio Imperador afirmou: “O meu dia era todo ocupado no serviço público, e jamais deixei de ouvir e falar a quem quer que fosse”. 

O conselheiro Nuno de Andrade descreveu uma audiência do Imperador: 
Vista da quinta com o Paço de São Cristóvão por volta de 1820, 
antes da reforma neoclássica. O edifício tinha um único torreão. 
O portão em frente ao paço encontra-se atualmente na entrada 
do Jardim Zoológico da Quinta da Boa Vista.
Nos jardins do palácio, 
estátua da Imperatriz Dona Leopoldina 
com seus filhos: a primogênita Maria da Glória, 
que viria a ser Rainha de Portugal, 
e o caçula Pedro de Alcântara (no colo), 
futuro Imperador do Brasil.
“Às cinco horas em ponto desci do tílburi, junto à portinha baixa onde uma sentinela cochilava. Não se pedia licença para entrar. Tomei a escada da direita, e fui ter a um longo salão retangular quase sem móveis, com grandes quadros nas paredes. O Freire, criado da casa, meu conhecido, disse-me: 
— O Imperador não tarda. 
Cerca de quinze pessoas esperavam D. Pedro II, e entre elas um preto vestido de brim pardo, sem gravata, com uns grandes sapatos muito bem engraxados. Depreendia-se do lustro do calçado que o preto cuidara de parecer asseado; e, como era idoso, a intenção traduzia certa altivez nativa. Tinha ido a pé e sentia-se cansado, por isso sentara-se no chão da galeria. O Pederneiras, com sua barba branca, chegou-se a mim, indicou o preto e disse filosoficamente: 
— Ainda querem mais liberdade nesta terra... 
Instintivamente olhamos para as portas, constantemente abertas a todos os brasileiros. 
O Imperador apareceu no extremo da galeria, e o preto levantou-se. Seria o primeiro a falar ao Soberano, e ninguém se lembrou de lhe disputar a precedência. O Imperador lhe perguntou: 
— Então, como está? Que é que temos? 
— Estou bom, sim senhor. E vosmecê? Eu venho dizer a vosmecê que fui voluntário na guerra do Paraguai. Na batalha, fiquei com um braço ferido por bala. Curei-me, e continuei até o fim de tudo. Depois voltei e caí no meu ofício de empalhador. Há um ano adoeci do fígado, e o Dr. Miranda, na Santa Casa, me fez uma operação. Nunca mais tive saúde. Agora, não posso mais trabalhar no ofício, e não tenho vintém para comprar farinha. Na secretaria do Império há falta de servente, e eu fui falar com o ministro. Mas o ministro não fala com toda a gente. Estão lá uns mulatinhos pernósticos, que me dizem sempre: Você espere. Eu espero, sim senhor; e depois os mulatinhos me mandam embora, porque o ministro não recebe mais ninguém. Já três vezes isso me aconteceu. Então fiquei zangado e pensei assim: vou falar ao Imperador, que é nosso pai; ele não manda a gente embora. Ora, pois, eu queria que vosmecê me desse um bilhetinho para o ministro... 
O Imperador chamou o general Miranda Reis, que então o acompanhava, e disse-lhe algumas palavras. Voltando ao preto, exprimiu-se assim: 
— Vá com Deus. Fico sendo seu procurador, e tratarei do seu negócio. 
— Mas eu tinha vontade de mostrar àqueles mulatinhos pacholas... 
— Não tem nada a mostrar. Vá para sua casa e espere. 
Alguns dias depois, contou-me o general Miranda Reis que o Imperador mandara alojar o antigo voluntário numa casinha da Quinta, e ordenara ao comendador João Batista que lhe suprisse a mensalidade de 40 mil réis, pedindo desculpas de não poder dar mais. E o João Batista, honrado mineiro, prodigiosamente econômico, amofinava-se com as freqüentíssimas decisões desta espécie, sustentando, em voz fraca e lacrimosa, que das quatro operações o sábio Imperador só conhecia a de dividir”. 

Em uma das suas audiências do sábado, em que atendia a toda a gente, recebeu D. Pedro II no Paço da Boa Vista um preto velho, que se queixava dos maus tratos de que era vítima: 
— Ah, meu Senhor grande, como é duro ser escravo! 
— Tenha paciência, meu filho. Eu também sou escravo das minhas obrigações, e elas são muito pesadas. As tuas desgraças vão diminuir. 
E mandou alforriar o preto.

31 de agosto de 2018

Massacre da família imperial russa — 100 anos de um crime monstruoso

O Tzar Nicolau II com sua esposa Alexandra e seus fi lhos Olga, Maria, Anastasia, Alexei e Tatiana, em 1913.

No dia 17 de julho de 1918, na esteira dos trágicos acontecimentos da Revolução Comunista, um crime monstruoso consumou a extinção do trono três vezes secular dos Romanov. Instituições, ambientes e costumes fabulosos, frutos do impulso da alma russa para o sublime, o esplendor e a magnificência, foram reduzidos a escombros. 


➤  Renato Murta de Vasconcelos

Escudo dos Romanov
Na calada da noite, num porão de uma casa perdida nos Urais da Rússia, uma saraivada de tiros, gemidos, golpes de baioneta. Ao cheiro da pólvora se junta o do sangue, que corre em profusão. Com esse bárbaro assassinato — ou “procedimento”, segundo Jacó Jurovski, chefe dos assassinos — os bolcheviques puseram fim à vida de Nicolau II, de sua família e de alguns fiéis servidores.


O massacre da família imperial russa serviu de inspiração e modelo para todos os ditadores comunistas (sejam eles Lenine ou Stalin, Mao Tsé-Tung ou Pol Pot, Fidel Castro ou Maduro), que alegam agir “em nome do povo”, “pelo bem do povo”, em seu afã de estabelecer criminosamente uma sociedade antinatural, ateia e igualitária. 

Uma família que fez história 

Até meados do século XIX, a Rússia parecia um imenso e vetusto palácio, com algumas partes esplêndidas, outras ameaçando ruir. Eram necessárias certas reformas, como as similares que poderiam ter sido feitas na França antes de 1789, mas sem destruir a magnífica construção erigida ao longo dos séculos. 

Contemporâneo de Marx, que publicou seu manifesto comunista há exatos 170 anos, o Tzar Alexandre II decretara em 1862 o fim do regime de servidão, abrindo assim aos camponeses a possibilidade de assumir a condição de pequenos proprietários, deixando a de “assentados”. Entretanto, à semelhança do que ocorreria mais tarde no Brasil com a libertação dos escravos, o término do regime de servidão na Rússia deu lugar a uma grande fermentação na população rural, constituindo um caldo de cultura para a insatisfação de grandes proprietários rurais, pertencentes à nobreza e às elites análogas, que perdiam assim mão-de-obra barata. 

Ao par disso, os meios estudantis oriundos da pequena e média burguesia estavam encharcados de ideias revolucionárias, as quais se expressavam nos moderados pelo desejo de uma monarquia constitucional; e nos radicais, pela ânsia de instalar um governo anárquico.

Neste sentido, grupelhos anarquistas praticaram na segunda metade do século XIX vários atentados fracassados contra a vida de Alexandre II. O último deles — um atentado a bomba nas proximidades do Palácio de Inverno em São Petersburgo, no dia 13 de março de 1881 —, ceifou a vida do Imperador e de vários membros de sua guarda. 

Num clima de lenta e crescente efervescência, minando os sustentáculos do governo imperial, subiu ao trono Alexandre III. Não simpatizava com as tendências liberais do pai, e seu governo representou um esfriamento no processo de modernização da monarquia russa. De fato, cumpria fazer uma adaptação da Rússia aos tempos novos, expurgando o que se tornara obsoleto, porém mantendo e aperfeiçoando as estruturas tradicionais. Tudo isso poderia ter sido feito sem concessões ao espírito revolucionário. 

Embora tivesse caráter forte, Alexandre III não havia sido educado para o trono, pois era o terceiro na linha sucessória. Carecia de descortino e tato político, assemelhando-se mais a um mujique coroado, e legou a seu sucessor um país intumescido de problemas espinhosos não resolvidos.
O Tzar Alexandre III com sua família. No círculo, seu fi lho, o futuro Nicolau II (de pé à esq.)

A família de Nicolau II 

O último Tzar da Rússia, Nicolau II, nasceu em 18 de maio de 1868 e ascendeu ao trono com 26 anos, em consequência da morte prematura de seu pai, um gigante de saúde fraca. Culto, cordato, extremamente tímido, não estava devidamente preparado para governar um império de mais de 100 milhões de habitantes, dispersos num território quase três vezes maior que o Brasil. Poderia ter dito como Luís XVI, ao assumir o trono da França: “Reinamos muito cedo”. 

No mesmo ano de sua ascensão ao trono, Nicolau II casou-se com a princesa Alice, filha de Luís IV, Grão-Duque de Hessen, e da princesa Alice do Reino Unido. Esse casamento contrariava a vontade dos pais, que pretendiam vê-lo unido a Helena de Orleans, filha do Conde de Paris. A nova Tzarina, que adotou o nome de Alexandra Feodorovna [quadro abaixo], deu a seu esposo quatro filhas — Olga, Tatiana, Maria e Anastásia — e um filho, o Tzarevitch Alexis. 

No dia do casamento, uma catástrofe ofuscou a alegria geral. Quando se procedia à distribuição de presentes para o povo, um corre-corre degenerou em pânico. Centenas de pessoas caíram ao chão, morrendo pisoteadas pela multidão desvairada. Essa tragédia bem pode ter sido um sinal prenunciativo das que viriam posteriormente. 

Agitações em Moscou e São Petersburgo 

Em fins de 1904, explodiu a guerra entre o Império Russo e o Império Japonês. A Rússia possuía então a sexta maior marinha de guerra do mundo, composta pelas frotas do Pacífico, do Báltico e do Mar Negro. Depois do desastre de Port Arthur, na batalha de Tsushima os navios remanescentes da frota do Pacífico e os da frota do Báltico juntaram-se no fundo do mar. Ao fim da desastrosa guerra, restava à Rússia apenas a esquadra do Mar Negro, por sinal em revolta. Perdeu também suas concessões na Manchúria, e vinte e cinco mil soldados foram aprisionados pelos japoneses. 

Concomitante à eclosão da guerra russo-japonesa, ocorreu o que se poderia chamar “Estados Gerais da Rússia”. Em novembro de 1904 — sob o olhar complacente do Ministro do Interior, Sviatopolski-Mirski — líderes provinciais de toda a Rússia afluíram a São Petersburgo, onde passaram a reunir-se nas casas de liberais eminentes para debater mudanças constitucionais. Dividiram-se em duas facções: uma, conservadora, defendia o estabelecimento de um órgão consultivo para o Tzar; a outra, avançada, queria a criação de um Parlamento com função legislativa. 

Até então o povo tinha se mantido distante dos tumultos políticos, mas o desastre da guerra com o Japão deu pretexto a agitações em Moscou e São Petersburgo. As pressões a favor de mudanças cerceando o regime autocrático provinham quase exclusivamente de estudantes universitários, revolucionários profissionais e senhores de terras das províncias. 
Coroação de Nicolau II – L.Tuxen, 1898. Museu Hermitage, São Petersburgo (Rússia).

Essa situação mudou radicalmente com os acontecimentos do famoso “domingo sangrento” (9 de janeiro de 1905), quando o pope (sacerdote ortodoxo) Gapon liderou uma manifestação de operários destinada a apresentar ao Tzar o pedido de convocação de uma assembleia constituinte. As tropas obstruíam o acesso ao Palácio de Inverno, mas os operários da vanguarda não conseguiam retroceder nem se dispersar, devido à pressão dos operários da retaguarda. As tropas então abriram fogo, matando cerca de 200 manifestantes e ferindo quase mil. 

Uma onda de indignação varreu o país. Irresoluto, o Tzar hesitou, mas afinal concordou em convocar um conselho consultivo de “homens probos”, a serem escolhidos pela nação.

Em 6 de agosto de 1905, o primeiro-ministro Serguei Witte anunciou a convocação próxima de uma Duma de Estado (a Câmara-Baixa do Parlamento) a ser formada por deputados eleitos. A Câmara-Alta era o Conselho de Estado da Rússia Imperial, constituído por membros indicados pelo clero e pela nobreza. Dois meses depois, no Manifesto de Outubro, o Tzar prometia dar à população uma série de liberdades civis, ampliar o direito de voto universal e estabelecer a regra inviolável de que nenhuma norma teria força de lei sem a aprovação da Duma. 

Pela primeira vez na história da Rússia, seria livremente discutida a promulgação de leis fundamentais (o termo constituição nunca foi empregado) no sentido de limitar a autoridade imperial. 

O pope Gapon enfrenta a tropa de cossacos no trágico “domingo sangrento”.

Outubro de 1917: bolcheviques tomam o poder 

Grã-Duquesa Olga
A eclosão da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) iria precipitar a derrubada do Império Russo, e também dos chamados impérios centrais (Alemanha e Áustria). Até 1914, todas as sublevações e tentativas de derrubar o governo russo haviam sido infrutíferas, devido à presença atuante do exército. Mas o conflito mundial exigiu que as tropas fossem transferidas para o front ocidental, desguarnecendo São Petersburgo e Moscou, que ficavam assim à mercê da propaganda e agitação revolucionária, levada a cabo não apenas pelos bolcheviques, mas também por outros elementos da esquerda, como os social-democratas e os socialistas-revolucionários. 

Nicolau II teria agido sabiamente se não tivesse declarado guerra aos Impérios Centrais, na sequela do atentado de Sarajevo, conservando assim, muito provavelmente, o seu trono. Apesar de alguns sucessos iniciais, seguiram-se derrotas humilhantes para o orgulho russo. Convencido de sua responsabilidade pessoal na defesa da Rússia, o Tzar resolveu então assumir pessoalmente o comando de todas as tropas. Decisão desastrosa, pois não estava apto para o posto, e passou a ser-lhe atribuída a responsabilidade por todas as derrotas militares. O enorme custo em vidas humanas, a carestia, uma guerra longa, intérmina, sem perspectiva de vitória, tudo isso ia fornecendo pretextos para a agitação revolucionária. 


Grã-Duquesa Tatiana
No dia 22 de fevereiro de 1917, tranquilizado pelo Ministro do Interior Alexander Protopopov, Nicolau II partiu para a frente de batalha. Não haviam passado 24 horas quando explodiram desordens em São Petersburgo, numa manifestação pelo Dia Internacional da Mulher. Na Duma, reaberta no dia 14, os deputados de esquerda, entre eles Kerensky, criticaram acerbamente o governo, incitando o povo. 

A situação se agravou no dia 24, quando duzentos mil trabalhadores — parte em greve, parte desempregados — invadiram a Avenida Nevsky, a mais importante da capital, saqueando lojas e bradando “abaixo a autocracia”, “abaixo a guerra”. 

A rebelião incipiente estava a ponto de ser debelada no dia seguinte, por um simples telegrama do Tzar ao comando militar da capital, determinando o restabelecimento da ordem pela força. Porém, na Praça Znamienski, tropas do regimento Pavloski atiraram numa multidão que não atendeu a ordem de dispersar. Morreram quarenta manifestantes, e isso foi o estopim para a revolta da guarnição de São Petersburgo. Na manhã de 27 de fevereiro, três dos regimentos da capital estavam amotinados. Oficiais foram linchados. O Ministério do Interior foi saqueado. A turba multa, atiçada por agitadores, invadiu lojas, restaurantes e residências particulares. Os arsenais foram invadidos, e milhares de fuzis roubados. A bandeira vermelha foi hasteada no Palácio de Inverno. 


Alexander Kerensky
No dia seguinte, 28 de fevereiro, cientes de que o Tzar havia determinado a dissolução da Duma, os deputados não acataram a ordem e constituíram uma junta executiva de 12 membros — dez progressistas e dois socialistas, um dos quais Kerensky [ao lado] — denominada “Comitê Provisório dos Membros da Duma para a Restauração da Ordem”. Nesse mesmo dia foi fundado também o Soviete de Petrogrado, constituído de “deputados” escolhidos aleatoriamente nas fábricas e quartéis.

Nicolau II se encontrava em Pskov, no front. Atordoado pela precipitação dos acontecimentos, pressionado pela Duma, por altas patentes do Exército e, infelizmente, por grandes nobres, resolveu abdicar no dia 2 de março. Primeiramente em favor de seu filho Alexis. Depois, levando em consideração a hemofilia do Tzarevitch, doença então incurável, transferiu a coroa para seu irmão, o Grão-Duque Miguel, o qual recusou aceitá-la sem eleições gerais e uma confirmação prévia do Parlamento. 

As rédeas do poder na Rússia passaram então ao Governo Provisório, encabeçado inicialmente pelo príncipe Lvov, de tendência liberal, e posteriormente por Alexander Kerensky, mas tendo ao lado o Soviete de Petrogrado, com poderes semelhantes aos da Comuna de Paris de 1793. 

Era o momento de entrar em cena Lenine, exilado na Suíça desde 1914. Juntamente com outros 32 “camaradas”, partiu de Zurique no dia 27 de março – num trem fornecido pelo governo alemão, e com “status extraterritorial” – rumo ao Báltico, no norte da Alemanha, onde embarcou num vapor rumo a Estocolmo. Daí se dirigiu a São Petersburgo. Por volta da meia-noite de 3 de abril, chegou na Estação Finlândia, recebido com os acordes da Marselhesa (os bolcheviques se viam como sucessores dos jacobinos da Revolução Francesa). 
Lenine voltou à Rússia com apoio do governo alemão, para liderar a revolução comunista e sepultar o império Romanov.
Os acontecimentos de fevereiro e março de 1917 constituíram propriamente a Revolução Russa, com a queda do trono e a instalação de um governo provisório, fraco e indeciso, mas necessário enquanto elemento de transição e de preparação dos espíritos para o que viria depois. A revolução posterior, de outubro, não passou de um “putsch”, por meio do qual os bolcheviques se assenhorearam do poder. 

Encarceramento da família do Tzar 

Grã-Duquesa Maria
Nicolau II, sua esposa e filhos passaram os meses seguintes à abdicação em prisão domiciliar, no palácio de Tsarskoye Selo, nas cercanias de São Petersburgo. Porém, a presença do Tzar e de sua família constituía grave incômodo para os novos governantes da Rússia. A tal ponto que entabularam negociações com a Inglaterra, a fim de obter exílio para a família imperial. No último momento o governo de Sua Majestade britânica recuou, temendo a reação desfavorável do Labour Party, o Partido dos Trabalhadores. 

No início de agosto de 1917, era iminente um ataque alemão à capital, o que levou Kerensky a ordenar que a família imperial e alguns servidores fossem transferidos para Tobolsk, cidade da Sibéria ocidental. 

Instalados na mansão do governador, as condições da detenção eram toleráveis, e a família do Tzar apreciava uma vida modesta e simples. As três filhas mais velhas tinham, inclusive, trabalhado caritativamente no hospital de guerra, desde 1914, para grande desconcerto do povinho, que se admirava de ver princesas vestidas como simples enfermeiras. Ao contrário de Tsarskoye Selo, onde eram constantemente assediados por agitadores comunistas, a vida corria em seu ritmo normal. Os sinos da igreja tocavam todos os dias, e os moradores se reuniam em frente da casa para cumprimentar a família do Tzar. “Estamos bem aqui, vivemos na calma e em paz” — escreveu o Tzar em 10 de dezembro de 1917. 


Tzarevitch Alexei
Dois meses depois, o Governo Provisório era derrubado pelos bolcheviques. Encarapitados no poder, estes ignoraram a família imperial até março de 1918. A assinatura do acordo de Brest-Litovsk — que, entre outras coisas, libertou as nações do Báltico, a Polônia e a Ucrânia — suscitou também muita insatisfação na Rússia. Os bolcheviques temiam uma restauração monárquica, e chegaram mesmo a cogitar num julgamento público do Tzar deposto, à maneira do que a Convenção fizera na França com Luís XVI. No final de maio, no entanto, resolveram entregá-lo, junto com a família, ao soviete de Yekaterinburg, que os aprisionou na casa “requisitada” ao comerciante Ipatiev, usada para “serviços especiais”. 


Grã-Duquesa Anastásia
Nessa casa de Ipatiev, a família do Tzar foi reduzida a viver em completo isolamento, com seu médico e poucos criados. Seus carcereiros ergueram uma paliçada dupla em torno do prédio, e todas as janelas foram caiadas de branco. Nicolau II tinha permissão de passear num pequeno jardim, apenas duas horas por dia. E o Tzarevitch Alexei, de 13 anos, sofrendo de hemofilia, estava acamado praticamente o tempo todo. 


Massacre da família imperial, e de alguns de seus incondicionais acompanhantes, no porão da casa de Ipatiev, em Yekaterinburg.


Por ordem de Lenine, a covarde execução 

No dia 27 de junho de 1918, o chefe do soviete local, Jacó Jurovski, assumiu o comando na casa de Ipatiev. “Vimos o novo Comissário — seu rosto é muito desagradável” — anotou em seu diário a Tzarina. 


Jacó Jurovski, comandante da bárbara execução.
No dia 16 de julho, Alexandra escreveu em seu diário: “Joguei cartas com Nicky. Às 10 horas, para a cama. 15 graus”. O repouso da família imperial não duraria muito: “O pelotão de fuzilamento já estava pronto na sala ao lado, os Romanov não suspeitavam de nada” — relatou Jurovski mais tarde. Por ordem direta de Lenine e de Jacó Sverdlov, seu braço direito, Jurovski tinha sido escolhido para encarregar-se do massacre, como se verificou depois de abertos os arquivos soviéticos.

Por volta de 1h30min da manhã foram todos despertados, com ordem de se dirigirem ao porão, sob o pretexto de que havia tumultos na cidade. Meia hora depois, o Tzar, a Tzarina, seus cinco filhos, a dama de companhia, o médico e dois criados foram conduzidos ao andar de baixo. Jurovski entrou no pequeno cômodo, acompanhado de guardas armados. Suas memórias relatam com frieza brutal a tragédia: 

“Quando o destacamento entrou, eu disse aos Romanov que, pelo fato de seus parentes continuarem a ofensiva contra a Rússia soviética, o Comitê Executivo do Soviete do Ural decidira fuzilá-los. Nicolau deu as costas ao pelotão e encarou a família. Então, como se recompondo, tornou a encarar-me, perguntando: ‘O quê? O quê?’. Repeti rapidamente o que dissera, e ordenei ao pelotão que se preparasse. Todos estavam devidamente instruídos sobre quem fuzilar, visando diretamente no coração, a fim de evitar muito sangue e maiores delongas. Nicolau não pronunciou mais nenhuma palavra, voltando-se novamente em direção à família. Os outros gritaram algumas exclamações incoerentes. Tudo isso durou alguns segundos. Os tiros demoraram dois ou três minutos. Eu matei Nicolau no ato”. 


O sinal da brutal violência aplicada no crime
ficou palpável nas paredes do porão
e nas joias quebradas que as princesas
tinham escondido costuradas em suas roupas.
A morte do Tzar foi imediata. O mesmo não se deu com a Tzarina e as princesas, cujas joias costuradas em seus espartilhos faziam ricochetear as balas. Elas foram então mortas com tiros na cabeça. À jovem Anastásia, ainda respirando, desferiram golpes de baioneta. Quando o pequeno Alexei ferido ainda gemia, Jurovski chutou-lhe brutalmente a cabeça e lhe desferiu dois tiros no ouvido. 


Os cadáveres, depois de saqueados, foram levados para uma clareira perto da aldeia de Koptiaki. Ali foram esquartejados, os rostos deformados por ácido sulfúrico, e depois queimados. Como versão oficial, os soviéticos espalharam a notícia de que a família do Tzar tinha sido “morta numa tentativa de fuga”. 


*       *       * 

Na calada da noite, num porão de uma casa perdida nos Urais, com uma saraivada de tiros, em meio a gemidos e golpes de baioneta — assim se extinguiu uma dinastia multissecular. Pelo ódio bárbaro dos comunistas, cujos herdeiros se dizem hoje defensores dos direitos humanos...
____________ 
Notas:

[1] - Inspiração e modelo sim, porque em 1918 o governo bolchevique estava reduzido a um estado de “cadáver ambulante” — como disse na época um alemão residente em Moscou — , atacado de todos os lados e abandonado por muitos partidários. Para reter seus elementos radicais, era preciso um ato de caráter altamente simbólico e cruel, era preciso “queimar os navios” e prender à Revolução todos os indecisos, pelo laço da infâmia e de um grande crime. Leon Trotski admitiu-o em suas memórias: “A decisão de executar o ex-Tzar e sua família não foi apenas prudente, mas necessária. A severidade da punição mostrou a todos que continuaríamos a lutar sem piedade, sem nos determos diante de nada. Não se tratava apenas de amedrontar, aterrorizar e infundir o senso de desesperança no inimigo, mas também de sacudir nossas fileiras, demonstrando que não havia outra saída: vitória total ou ruína definitiva” (apud Richard Pipes, História Concisa da Revolução Russa, Edições BestBolso, p. 236).
[1] - Para se ter uma ideia dos crimes e desvarios praticados pela turba multa nos dias 27 e 28 de fevereiro de 1917, em São Petersburgo, vale a pena ler as Memórias da Condessa Kleinmichel, onde ela descreve de modo vívido e estarrecedor a invasão e depredação de seu palácio, presenciada através das janelas de uma mansão vizinha. Ver também: Douglas Smith, Der letzte Tanz – Der Untergang der russischen Aristokratie, S. Fischer, Frankfurt am Main, 528 pp.
[1] - No início de 1914, Lenine vivia em Cracóvia, subsidiado pelo governo austríaco. Foi confinado pelo governo polonês no início da guerra, mas logo libertado e levado sob custódia para a Suíça, onde permaneceu até 27 de março de 1917, financiado desta vez pelo governo alemão, desejoso de criar uma quinta-coluna dentro da Rússia. Calcula-se que o governo alemão deu aos bolcheviques 50 milhões de marcos, quantia suficiente na época para comprar 10.000 toneladas de ouro.
[1] - Sobre a história e atuação dos partidos de esquerda no período entre a queda do trono e o “putsch” bolchevique, pode-se consultar com proveito: Die russische Linke – zwischen März und November 1917, ed. Wladislaw Hedeler, Dietz, Berlin, 2017
[1] - De fato, já em julho os bolcheviques haviam tentado tomar o poder através de um golpe. Fracassaram, e Lenine fugiu novamente para o exílio na Finlândia, temendo ser preso e julgado como traidor pelo Governo Provisório.
[1] - Sovietes eram conselhos de operários ou de militares comunistas, durante a revolução russa de 1917.
[1] - Apud Jan von Flocken, Der Tod des Zaren Nikolaus und seiner Familie, Die Welt, 19.11.2010.
[1] - Apud Richard Pipes, op. cit., p. 234.
[1] - Um mês antes dessa tragédia, na noite de 12 de junho, o Grão-Duque Miguel fora fuzilado numa floresta nas cercanias de Perm, nos Urais, juntamente com seu secretário particular. Ao todo, os bolcheviques assassinaram 18 membros da Família Imperial.

22 de agosto de 2018

A comunistização da Nicarágua pela “esquerda católica”

Nos últimos três meses, mais de 400 nicaraguenses foram brutalmente mortos em manifestações contra a ditadura do esquerdista Daniel Ortega


Após a Revolução Sandinista tomar o Poder — o que só foi possível com o apoio da igreja progressista — e metamorfosear-se em “cristã”, tira agora máscara e mostra a sua verdadeira cara no terror 


➤   Paulo Roberto Campos
Revista Catolicismo, Nº 812, agosto/2018

Noite Sandinista – Foi este o título de importante reportagem publicada por Catolicismo na edição de julho-agosto de 1980. Seguia-se ao título uma explicitação do conteúdo: O incitamento à guerrilha, que sandinistas “cristãos” dirigiram à esquerda católica no Brasil e na América espanhola.1 Bem documentada e ilustrada, continha comentários incisivos do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira sobre a Revolução Sandinista na Nicarágua, dentre os quais podemos ressaltar esta conclusão: 
“No caso de emitir um juízo sobre o ‘cristianismo sandinista’ ou ‘sandinismo cristão’, pode-se afirmar com segurança que constitui pelo menos uma possante corrente de ‘companheiros de viagem’ adeptos do comunismo. Ou uma mal velada seção do comunismo internacional, especializada em confundir e iludir os meios religiosos, neles infiltrar-se, e por fim utilizá-los como estribo para alcançar o poder.”
Analisando retrospectivamente o passado recente, pode-se entender claramente a importância da atuação da “esquerda católica” e de “teólogos da libertação” na Nicarágua. Essa era a infiltração ideológica de agentes religiosos a serviço do comunismo, diagnosticada pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira. Inoculada nos últimos anos da década de 70, ela incentivou a guerrilha marxista-sandinista, que culminou no domínio comunista. Assim se arruinou a saúde daquele país centro-americano, levando-o à UTI na qual se encontra nos presentes dias. Esta é a origem profunda dos males atuais, cujo conhecimento evidencia também a medicação necessária. 


Na capa da referida edição de Catolicismo [foto ao lado], um guerrilheiro sandinista com sua metralhadora, no alto da torre de uma igreja, controla a população da cidade colonial de León, a segunda maior da Nicarágua. Na contracapa, a foto de uma freira com um fuzil, ao lado de uma guerrilheira [foto abaixo], é mais um flagrante de atuação da “Teologia da Libertação”. Cenas eloquentes, que vinculam o clero progressista à nefasta Revolução Sandinista. E não foram raros os depósitos de armas e munições dos guerrilheiros descobertos em igrejas nicaraguenses. 

Recomendamos a leitura da referida reportagem [o link para a sua íntegra está no final deste artigo 3], pois revela claramente que sem o apoio da igreja progressista a Nicarágua não estaria imersa na caótica situação atual.


Revolução sandinista – produto de exportação 

Freira "católica" com um fuzil,
ao lado de uma guerrilheira sandinista
A reportagem foi baseada em gravações de conferências de líderes e simpatizantes da Revolução Sandinista durante um congresso realizado em São Paulo. Em fins de fevereiro de 1980, mentores da “Teologia da Libertação” oriundos de vários países se reuniram no Instituto Paulo VI (Centro de Treinamento de Líderes da Arquidiocese de São Paulo), localizado em Taboão da Serra (SP), para a 4ª edição do Congresso Internacional Ecumênico de Teologia. O tema geral foi “Eclesiologia das comunidades eclesiais de base”

O Instituto se localiza em área de 700 mil metros quadrados, que esteve cercada do maior sigilo, com forte esquema de segurança. Podiam entrar apenas pessoas previamente cadastradas: mais de 160 bispos, padres, freiras, sociólogos, economistas, agentes de pastoral, membros das Comunidades de Base e pastores protestantes de 42 nações. 

As reuniões transcorriam ali durante o dia, e à noite havia no Teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC) encontros para clérigos, leigos das Comunidades Eclesiais de Base e alguns outros “engajados” dos movimentos ditos “sociais”. Na noite de 28 de fevereiro de 1980, especialmente dedicada à Revolução Sandinista da Nicarágua, os sandinistas e seus apoiadores pronunciaram discursos com fortes incitamentos à luta guerrilheira no Brasil e em toda a América Latina. 


A tônica dos conferencistas nas sessões noturnas da PUC indicava que a revolução nicaraguense deveria constituir um modelo para o Brasil e os demais países da América Latina, uma “nova experiência” a ser aplicada em outras nações. E a manchete de capa de “O São Paulo”, semanário da Arquidiocese (7 a 13 de março de 1980), era reveladora de todo um programa: “Nicarágua é apenas um começo” [foto ao lado].

É bom lembrar que o atual presidiário Lula esteve na Nicarágua juntamente com Fidel Castro e outros próceres marxistas, para comemorarem o êxito da Revolução Sandinista. Na ocasião, ele afirmou que a única alternativa para os trabalhadores era “a luta contra a burguesia nacional e multinacional”. E Fidel Castro, reunido na capital nicaraguense com religiosos progressistas, declarou: “O perfeito comunista deve ser antes de tudo marxista e cristão”. Para obter a infiltração comunista na Igreja, o ditador barbudo embaralhava cristianismo com sandinismo. E José Dirceu declarou ter ouvido desse mesmo ditador que, caso ele tivesse conhecido antes a “teologia da libertação”, teria evitado vários erros... 
Padres, freiras e militantes das Comunidades de Base constituíram a maioria da assistência que compareceu à “Noite Sandinista” na PUC.

“Chega de teologia e vamos à prática” 

Naquela noite sandinista de 28-2-80, após homenagens a revolucionários sandinistas e ao regime comunista cubano, discursou o próprio Daniel Ortega, então membro da Junta de Governo da Nicarágua, exaltando “a revolução cubana heroica e magnífica com Fidel Castro à frente”.4 Na mesma linha discursaram: Frei Betto, secretário-executivo do Congresso (o mesmo que morou dois anos na casa de Lula, para doutriná-lo); Frei Uriel Molina, O.F.M., pároco em Manágua, conhecido como “capelão dos sandinistas”; e o Padre Miguel D´Escoto, então Ministro das Relações Exteriores da Nicarágua [todos na foto abaixo]. Esses clérigos insistiram na ideia de que o ensaio que fizeram naquele país poderia servir para o Brasil e nações vizinhas. Ou seja, deveriam rumar para um novo tipo de marxismo gestado nas sacristias da “esquerda católica”. 

No dia 1º de março daquele ano, o então Cardeal-Arcebispo de São Paulo, D. Paulo Evaristo Arns, na qualidade de presidente-honorário do IV Congresso Internacional Ecumênico de Teologia, fez o encerramento do ciclo de conferências no teatro da PUC. Afirmou que os planos traçados no congresso estavam apenas começando: “Chega de teologia e vamos à prática: onde estão os grupos que vão para a Nicarágua, para aprender? Eu respondo: sei que, em São Paulo, há grupos se preparando e de malas prontas para partir. Até com a permissão do Arcebispo de São Paulo [...] Não é noite. Estamos na aurora... Vamos agradecer aos mártires aqui na América Latina e no Brasil. Eu recordaria aqui os mártires posseiros e os mártires índios. [...] Não se trata de uma libertação romântica, mas uma libertação da fome, do mau salário, da favela. Que esta semana seja um compromisso no sangue de Cristo. Importa agora traduzir a palavra num testemunho real”.5 
De punho cerrado (saudação comunista), Daniel Ortega, sob os aplausos de Frei Uriel Molina (primeiro à esq.), Frei Betto (do lado esq. de Ortega) e o Padre Miguel D’Escoto (à dir.).

Uniforme guerrilheiro, um “sacramento de libertação” 

Nesse mesmo evento noturno aconteceu algo realmente sombrio: D. Pedro Casaldáliga, então Bispo de São Félix do Araguaia (MT-GO), vestiu um uniforme de guerrilheiro sandinista trazido da Nicarágua [foto abaixo]. Entre os muitos aplausos, ele declarou em “portunhol”: 
D. Pedro Casaldáliga, Bispo de São Félix do Araguaia,
recebeu um uniforme de guerrilheiro sandinista,
cuja jaqueta ele vestiu no mesmo instante.
“Eu vou procurar agradecer com os feitos, voy a procurar agradecer este sacramento de liberación que acabo de recibir, com los hechos [feitos]. Este color verde é verde da cor como as nossas matas sacrificadas da Amazônia. Às vezes significou a repressão, a tortura. Tem significado também, na Nicarágua, a libertação, a vida, uma pátria nova [...]. 
“Digo que vou procurar agradecer com os feitos e, se preciso, com o sangue. Juntaremos nossa esperança comum, que é fé em Deus e fé no povo dos pobres; vontade de termos uma América nova, livre; vontade de conquistarmos a liberdade, que não se dá, se conquista. Unidos dentro de cada pátria, os diferentes povos — indígenas, negros — unidos pátria com pátria. [...] Este dia de hoje, para mim, para todos nós, é um dia verdadeiramente histórico [...]. 
“Eu me sinto, vestido de guerrilheiro, como me poderia sentir paramentado de padre. É a mesma celebração que nos empurra à mesma esperança. Apenas para terminar, gostaria de pedir para todos vocês, que sejamos consequentes. O que estamos celebrando, o que estamos aplaudindo nos compromete até o fim. Nicarágua nos deu o exemplo: todos nós, todos os povos da América Latina, todos os povos do Terceiro Mundo, vamos atrás!” (palmas prolongadas).6 
Depois dos livros com literatura marxista, o que mais se vendia no final dessa conferência eram pôsteres do sanguinário guerrilheiro Che Guevara... 


A ditadura sandinista Ortega/Murillo 

O cardeal da Nicarágua, D. Miguel Obando Bravo,
falecido no último mês de junho,
apoiou desde os anos 70 a guerrilha sandinista.
No cartaz ele aparece ao lado do casal Ortega,
na campanha presidencial de 2011.
A publicação de Catolicismo, que estamos comentando, adquiriu hoje maior atualidade com a catastrófica situação em que se encontra a infeliz Nicarágua, desde 1979 governada intermitentemente pelo ex-guerrilheiro sandinista Daniel Ortega. No comando da Frente Sandinista de Liberación Nacional (FSLN), e sempre subserviente a Fidel Castro, Ortega derrubou após sangrenta guerra civil o governo de Anastasio Somoza, assassinado em 17 de setembro de 1980. Após tomar o poder, assumiu temporariamente o papel de amigo dos Estados Unidos e defensor do direito de propriedade e livre-mercado, mas estabeleceu uma ditadura pior e mais opressora, dentro de um regime radicalmente igualitário e inimigo da propriedade privada. 

Em 2009, agindo de modo análogo ao dos ditadores bolivarianos para se perpetuarem no poder, Ortega pediu à Suprema Corte de Justiça da Nicarágua que declarasse sem efeito o Artigo 147 da Carta Constitucional. Recebendo o pedido como uma ordem, a corte “aparelhada” eliminou o artigo que vedava a reeleição do presidente. Com essa manobra, vai estendendo o seu mandato, o qual ele só pretende transferir em 2021 à sua mulher Rosario Murillo [foto abaixo], grande admiradora de Hugo Chávez, hoje ocupando o cargo de vice-presidente e porta-voz do governo. Com esse modus operandi o país entrou, juntamente com Cuba, Venezuela e Bolívia, para a lista de nações ibero-americanas de “presidentes perpétuos”. Muito contra a vontade do povo, é claro. 


Também é claro que, depois do mandato da excêntrica e esotérica primeira dama nicaraguense — também chamada de “la Chayo” (a bruxa) e de “Senhora dos Anéis” (pelos mais de 30 anéis que ostenta nos dedos) —, Ortega se interessará em ocupar novamente a presidência, em “reeleições” infindáveis. 

Hoje o noticiário do mundo inteiro está registrando o descalabro a que chegou o país. Apenas nestes últimos três meses, mais de 400 nicaraguenses foram brutalmente mortos em manifestações contra a ditadura Ortega/Murillo, inclusive uma universitária brasileira, Raynéia Gabrielle Lima, de 31 anos. Quase três mil foram feridos e centenas estão desaparecidos, sem falar de jovens que foram arbitrariamente sequestrados e torturados, bem como de exilados políticos. Tudo seguindo a mesma cartilha bolivariana de Chávez/Maduro na infeliz Venezuela. 


Partido dos Trabalhadores que não trabalham 

Petistas brasileiros — inclusive a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, e a ex-presidente Dilma Vana Rousseff — estiveram reunidos entre 15 e 17 de julho último com outras forças revolucionárias na capital cubana (que eles “adoram”, desde que por poucos dias...), para mais um encontro do “Foro de São Paulo”, uma reunião de partidos e organizações esquerdistas cujo objetivo é conduzir a América Latina ao comunismo. Nesse esdrúxulo evento, solidarizaram-se com o tirânico governo sandinista e não emitiram uma palavra sequer de conforto para com o sofrido povo da Nicarágua. 

No final desse encontro, a secretária de Relações Internacionais do PT, Mônica Valente, declarou: “Depois de tantos sucessos, sofremos [a esquerda] uma contraofensiva neoliberal, imperialista, multifacetada, com guerra econômica, midiática, golpes judiciais e parlamentares, como ocorre na Nicarágua hoje e ocorreu na Venezuela”. 

Na mesma ocasião, a companheira-de-viagem do PT e presidente do PCdoB, Luciana Santos, afirmou: “Vemos uma tentativa de setores inconformados com a vitória do Ortega, de desestabilizar o governo popular e nacional. É um vale-tudo, como aconteceu no Brasil e em vários países da América Latina.”
Jovens nas barricadas levantadas contra as milícias do sandinista Ortega, em numerosas cidades da Nicaragua.

Corajosa reação do povo, sobretudo dos jovens 

Mas os nicaraguenses estão finalmente acordando. Resistem bravamente nas ruas e denunciam ao mundo inteiro o tirânico governo sandinista que os oprime. Afirmam que não permitirão a transformação da Nicarágua em outra Venezuela, e exigem a renúncia de Ortega/Murillo e a convocação de novas eleições. 


Percebe-se pelo noticiário que está em curso uma autêntica insurreição contra o governo sandinista. Se este não ceder, poderá precipitar o país numa guerra civil. Coragem não tem faltado às populações nicaraguenses. Elas enfrentam valentemente grupos armados pelo governo, que atiram a sangue frio contra manifestantes, torturam pessoas, massacram estudantes, saqueiam igrejas, profanam sacrários. Sem dúvida, os sandinistas estão promovendo uma verdadeira perseguição religiosa, mas em nome de uma “guerra santa”, para implantarem o comunismo materialista e ateu. 

Frente a esse quadro tenebroso de comunistização da Nicarágua, operada graças à colaboração de uma igreja-nova adepta de uma moral-nova, seria uma prova de honestidade intelectual um mea culpa dos expoentes da “teologia da libertação” e outros adeptos da “esquerda católica” que incentivaram a Revolução Sandinista. Salta aos olhos a responsabilidade que tiveram na ruína desse pobre país, mas seria muita ingenuidade imaginar da parte deles esse mea culpa. Fazendo-a ou não, o delito deles continua de pé diante de Deus e dos homens. 

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Notas: 
1. Sob a direção do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, a TFP brasileira realizou diversas campanhas de esclarecimento, tendo caravanistas da entidade divulgado em todo o território nacional 36.500 exemplares do número especial de Catolicismo (edição de julho/agosto de 1980). Tal campanha se estendeu aos seguintes países: Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Uruguai e Espanha, totalizando, com a edição do Brasil, 80.500 exemplares. 
2. Catolicismo, nºs 355-356, edição de julho/agosto de 1980, p. 6. 
3. http://catolicismo.com.br/Acervo/Num/0355-356/P00.html 
4. Catolicismo, nºs 355-356, edição de julho/agosto de 1980, p. 41. 
5. “O São Paulo”, 7 a 13 de março de 1980. 
6. Catolicismo, nºs 355-356, edição de julho/agosto de 1980, pp. 14-15. 
7. “O Estado de S. Paulo”, 28-7-18.