15 de outubro de 2018

Cinquenta anos de autodemolição na Igreja

Membros da TFP em campanha de coleta de assinaturas no centro da capital paulista

Há meio século, um abaixo-assinado com grande número de aderentes denunciou a infiltração comunista nos meios católicos, pedindo a Paulo VI medidas contra o avanço comunista no Brasil 


➤  Paulo Roberto Campos 

Reverente e Filial Mensagem a Sua Santidade o Papa Paulo VI — Assim se intitulava o abaixo-assinado em que a Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP) colheu 1.600.368 assinaturas, entre julho e setembro de 1968 [vide link I]. Membros da TFP ergueram seus estandartes rubros com o leão dourado em 229 cidades de quase todos os estados brasileiros, numa histórica campanha percorrendo o País em coleta de assinaturas e denunciando um processo de autodemolição da Igreja perpetrado por eclesiásticos de mentalidade comunista. As entidades coirmãs do Chile, Uruguai e Argentina aderiram à campanha, elevando o número de adesões para 2.025.201.[1] 

Naquele ano, os católicos estavam preocupados com a atuação do clero comuno-progressista infiltrado na Igreja Católica. Entre eles se destacava o sacerdote belga Joseph Comblin, professor no Instituto Teológico da Arquidiocese de Recife, onde era acobertado por Dom Helder Câmara, cognominado “Arcebispo Vermelho”. Os objetivos e ideias do Pe. Comblin estavam compendiados em um documento reservado, não destinado ao grande público, mas acabaram vazando na imprensa e estarreceram o País [vide link II]. Propunha uma revolução não apenas nos ambientes católicos, mas também na sociedade civil, incluindo tribunais de exceção para punir os adversários anticomunistas. 

Esse documento subversivo foi o estopim para a deflagração da campanha da TFP pedindo a Paulo VI providências para fazer cessar a ação deletéria dentro da Igreja. O regime proposto pelo Pe. Comblin tinha como modelo a ditadura cubana; e o modelo religioso era uma igreja miserabilista a serviço do comunismo. Alguns itens do projeto bastam para avaliar a sua radicalidade: 
• “Será necessário montar um sistema repressivo: tribunais novos de exceção contra quem se opõe às reformas. Os procedimentos ordinários da justiça são lentos demais. O poder legislativo também não pode depender de assembleias deliberativas.  
• “O poder deve neutralizar as forças de resistência: neutralização das forças armadas se [elas] forem conservadoras; controle da imprensa, TV, rádio e outros meios de difusão; censura das críticas destrutivas e reacionárias.  
• “Sem dúvida, a religiosidade católica tradicional do povo está condenada a desaparecer com o desenvolvimento. Se a Igreja não tiver OUTRA religião mais evoluída para oferecer-lhes, as massas voltar-se-ão para outras mensagens mais ao alcance delas ou mais preocupadas com elas.”

Apreciações de autoridades sobre a campanha da TFP 

Plinio Corrêa de Oliveira
observa a impressionante pilha
com mais de dois milhões de assinaturas
Autoridades e órgãos de imprensa se manifestaram sobre a campanha. Dentre elas, destacamos: 

Mons. Alfredo Cifuentes Gómez, Arcebispo de La Serena (Chile), um dos mais destacados e respeitados membros do Episcopado daquele país: “Li com especial interesse a reverente e filial mensagem [...]. Ela reflete duas características que sempre animaram o espírito cristão e o verdadeiro amor à pátria. Espírito cristão, porque justamente veem ameaçados os princípios ligados intimamente à doutrina da Igreja: e amor à pátria, porque precisamente o ataque a esses princípios vulnera em suas bases o bem-estar e a paz da nação. Como filhos fiéis, os senhores recorrem à suprema Autoridade da Igreja com sentimentos de profundo respeito e confiança”. 

A revista americana “Time”, em sua edição de 23-8-68, reconheceu “a facilidade com que a TFP coletou as assinaturas. [...] Reflete o fato de que a maioria dos latino-americanos aprova ou pelo menos tolera o conservadorismo católico”. No mesmo sentido, afirmou o sacerdote francês Charles Antoine: “De todas as campanhas organizadas pelo movimento Tradição, Família e Propriedade, a mais espetacular é sem dúvida a de julho de l968”.[2]

De passagem pelo Brasil naquele ano, o Pe. René Laurentin, renomado teólogo francês e doutor em Mariologia, relatou em um de seus livros: “Grupos volantes recolheram assinaturas um pouco por toda a parte, nas estações ferroviárias, nos aeroportos e noutros lugares públicos. Os autores desta iniciativa abordaram-me muito cortesmente num supermercado de Curitiba. Desfraldavam um estandarte de veludo vermelho com a figura de um leão em pé. Convidavam a assinar ‘contra o comunismo’.” [3] [vide link III]. 


Abaixo-assinado entregue, silêncio do Vaticano 

As folhas do abaixo-assinado formavam uma pilha de 10 metros de altura. Foram copiadas em rolos de microfilmes, e assim entregues na Secretaria de Estado da Santa Sé.

Qual foi a resposta do Vaticano? Lamentavelmente, o silêncio. Desconcertante silêncio, pois revelava insensibilidade ante a preocupação de mais de dois milhões de fiéis que subscreveram o abaixo-assinado. Não mereceriam resposta esses fiéis, cuja preocupação os levou a pedir ao Papa socorro contra a escandalosa infiltração esquerdista nos meios católicos?

Apesar desse silêncio da Santa Sé, a campanha atingiu o seu objetivo: a “esquerda católica” ficou muito desacreditada e enfraquecida, enquanto os autênticos católicos saíram fortificados na fé e reuniram esforços para reagir com ainda maior eficácia. Ademais, o incendiário Pe. Comblin acabou abandonando o Brasil. 


O esquerdismo católico e seus derivados 

Em setembro de 1968, a TFP comemora,
na Casa de Portugal em São Paulo,
o término de sua campanha, em que 1.600.368 brasileiros
pediam providências a Paulo VI contra a infi ltração comunista na Igreja.
Transcorrido exatamente meio século daquele memorável abaixo-assinado — e não tendo sido tomadas as medidas solicitadas pelos signatários — o mal não cessou, antes cresceu de modo ainda mais alarmante, deixando os fiéis mais estarrecidos do que então. Basta considerar que o progressismo católico — herdeiro do modernismo, condenado pelo grande Papa São Pio X como a “síntese de todas as heresias” — atingiu quase todos os ambientes católicos e instituições eclesiásticas, revolucionando a própria liturgia e abolindo tradições da Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Sobretudo a partir do Concílio Vaticano II, avaliado pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira como “uma das maiores calamidades, se não a maior, da História da Igreja”.[4] 

Do progressismo nasceu a “Teologia da Libertação”, cujo programa de luta de classes marxista intoxicou os seminários, além de deformar os missionários com sua neomissiologia indigenista. Uma das suas consequências foi a formação das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Mas elas foram forçadas a um longo período de encolhimento, devido às denúncias do livro-bomba As CEBs... Das quais muito se fala, pouco se conhece ─ A TFP as descreve como são. Nessa obra de 1982, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira e os irmãos Gustavo Antônio e Luís Sérgio Solimeo apresentam contra elas acusações graves, nunca refutadas. Seis edições, num total de 72 mil exemplares, foram amplamente difundidas em todo o território nacional. Foi também editada e divulgada uma versão popular em quadrinhos, com a tiragem de 180.000 exemplares. 


Em entrevista obtida pela Agência Boa Imprensa, publicada com exclusividade em Catolicismo (edição de janeiro/1993),[5] o próprio Pe. Comblin foi obrigado a confessar o fracasso das CEBs: “Elas estão marginalizadas, fustigadas, fulminadas em todas as partes. Hoje, elas constituem minorias sem projeção no conjunto das igrejas locais”. Atualmente as cinzas das CEBs começam a ser exumadas do sepulcro pelo clero comuno-progressista, com o apoio do Papa Francisco.

Outro derivado do esquerdismo católico está contido em matéria publicada por Catolicismo na edição de julho passado.[6] Trata-se de uma ruptura com o Magistério tradicional da Igreja, uma “mudança de paradigma” especialmente sobre a instituição da família monogâmica e indissolúvel, estabelecida por Deus no sacramento do matrimônio entre um homem e uma mulher. Reflete-se também na acolhida que o Pontífice vem concedendo a movimentos ditos “sociais”, que agem segundo a doutrina marxista. Esses movimentos esquerdistas, assim como regimes comunistas de alguns países, veem no Papa Francisco um ponto de apoio, embora seja uma atuação condenada pela doutrina católica tradicional, por servir de base a um sistema “intrinsecamente perverso”.
Concílio Vaticano II


Autodemolição e fumaça de Satanás na Igreja 

Essa verdadeira revolução em curso na Igreja traz à memória as palavras do Papa Paulo VI em 7 de dezembro de 1968, onde se refere ao processo de autodemolição da Igreja, “golpeada também pelos que d´Ela fazem parte”.[7] São palavras que confirmam a grave denúncia contra a infiltração comunista no clero católico, divulgada pela TFP poucos meses antes. Outra confirmação se encontra na alocução “Resistite fortes in fide” (29 de junho de 1972), onde o mesmo Papa alega ter a sensação de que “por alguma fissura tenha entrado a fumaça de Satanás no templo de Deus”.[8]

O que poderia suceder de mais terrível à Santa Igreja do que ser penetrada pela fumaça de Satanás e sofrer o processo de autodemolição? Difícil imaginar tragédia maior! Presentemente, tudo isso leva muitos fiéis católicos a perguntarem para onde ruma a “nova igreja do Papa Francisco”.


A fidelidade à Santa Igreja, mantida a toda prova 

Plinio Corrêa de Oliveira afirmou:
“O Concílio Vaticano II foi uma das maiores calamidades,
se não a maior, da História da Igreja”.
Numa comovente Via Sacra publicada por Catolicismo em 1951, e depois reeditada em opúsculos no Brasil e no exterior, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira comenta na 6ª Estação: 

“No Véu de Verônica, a representação da Face divina foi feita como num quadro. Na Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana ela é feita como num espelho. Em suas instituições, em sua doutrina, em suas leis, em sua unidade, em sua universalidade, em sua insuperável catolicidade, a Igreja é um verdadeiro espelho no qual se reflete nosso Divino Salvador. Mais ainda, Ela é o próprio Corpo Místico de Cristo. 

E nós, todos nós, temos a graça de pertencer à Igreja, de ser pedras vivas da Igreja. Como devemos agradecer este favor! 

Não nos esqueçamos, porém, de que noblesse oblige. Pertencer à Igreja é coisa muito alta e muito árdua. Devemos pensar como a Igreja pensa, sentir como a Igreja sente, agir como a Igreja quer que procedamos em todas as circunstâncias de nossa vida. Isto supõe um senso católico real, uma pureza de costumes autêntica e completa, uma piedade profunda e sincera. Em outros termos, supõe o sacrifício de uma existência inteira”. 

Assistimos hoje a uma verdadeira guerra de extermínio empreendida por inimigos que se infiltraram na Igreja, cuja fisionomia se torna cada vez menos reconhecível. Em reparação, peçamos a graça de ter em relação a Ela a atitude de Verônica, que com seu precioso véu limpou a sagrada face de nosso Redentor. Pertencer à Santa Igreja é uma graça imensurável, mas que nos traz obrigações. Como filhos, devemos mais do que nunca lutar por Ela, manter inabalável a fidelidade e ainda mais ardorosa a nossa fé na sua indestrutibilidade. Sabemos que membros da Igreja podem errar e até ensinar erros, mas Ela, jamais, pois o que ensina está definido claramente por Nosso Senhor Jesus Cristo. 

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 Notas:
1. Argentina (266.512 assinaturas), Chile (121.210 assinaturas), Uruguai (37.111 assinaturas).
2. Pe. Charles Antoine, L'Eglise et le pouvoir au Brésil. Naissance du militarisme, Desclée de Brouwer, Paris, 1971, p. 144.
3. René Laurentin, L'Amérique latine à l'heure de l'enfantement, Ed. Seuil, Paris, 1970.
4. “O êxito dos êxitos alcançado pelo comunismo pós-staliniano sorridente foi o silêncio enigmático, desconcertante, espantoso e apocalipticamente trágico do Concílio Vaticano II a respeito do comunismo. [...] Seu silêncio sobre o comunismo deixou aos lobos toda a liberdade. A obra desse Concílio não pode estar inscrita, enquanto efetivamente pastoral, nem na História, nem no Livro da Vida. É penoso dizê-lo. Mas a evidência dos fatos aponta, neste sentido, o Concílio Vaticano II como uma das maiores calamidades, se não a maior, da História da Igreja. A partir dele penetrou na Igreja, em proporções impensáveis, a “fumaça de Satanás”, que se vai dilatando dia a dia mais, com a terrível força de expansão dos gases. Para escândalo de incontáveis almas, o Corpo Místico de Cristo entrou no sinistro processo da como que autodemolição”. Plinio Corrêa de Oliveira, Revolução e Contra-Revolução, Editora Artpress, São Paulo, Parte III, capítulo II, 4, A, pp. 166-168.
5. http://catolicismo.com.br/index1.cfm/mes/Janeiro1993
6. http://catolicismo.com.br/Acervo/Num/0811/P12-13.html
7. Em alocução aos alunos do Seminário Lombardo, no dia 7 de dezembro de 1968, Paulo VI afirmou que “a Igreja atravessa hoje um momento de inquietação. Alguns praticam a autocrítica, dir-se-ia até a autodemolição. É como uma perturbação interior, aguda e complexa, que ninguém teria esperado depois do Concílio. Pensava-se num florescimento, numa expansão serena dos conceitos amadurecidos na grande assembleia conciliar. Há ainda este aspecto na Igreja, o do florescimento. Mas, posto que bonum ex integra causa, malum ex quocumque defectu, fixa-se a atenção mais especialmente sobre o aspecto doloroso. A Igreja é golpeada também pelos que d´Ela fazem parte” (cfr. Insegnamenti di Paolo VI, Tipografia Poliglotta Vaticana, vol. VI, p. 1188).
8. Cfr. Insegnamenti di Paolo VI, Tipografia Poliglotta Vaticana, vol. X, p. 707.

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LINK 1: http://catolicismo.com.br/Acervo/Num/0813/P32-33.html#.W8VKOfZFx9A

LINK 2: http://catolicismo.com.br/Acervo/Num/0813/P34-35.html#.W8VK3vZFx9A

LINK 3: http://catolicismo.com.br/Acervo/Num/0813/P28-29.html#.W8VKjfZFx9A

6 de outubro de 2018

LEPANTO, 447 ANOS DEPOIS...

A grandiosa vitória da Cristandade sobre o Império Otomano -- que envidou no século XVI todos os esforços para dominar o Velho Continente -- nos leva a confiar que obteremos nos presentes dias uma outra vitória  contra o grande perigo que nos ameaça: a tomada do poder pela esquerda comuno-bolivariana.


➤  Paulo Roberto Campos 

Neste dia 7 de outubro de 2018, em que celebramos 447 anos da vitória da Cristandade na batalha naval no golfo de Lepanto, o Brasil encontra-se numa encruzilhada, em uma outra grande batalha. Naquele ano, por intercessão da Santíssima Virgem do Rosário, as esquadras católicas impediram que o poderio maometano tomasse a Europa. Peçamos também a Ela que proteja nossa Pátria, impedindo que nestas eleições o Brasil seja dominado por movimentos esquerdistas que sonham implantar aqui um tipo de governo bolivariano nos moldes daquele que subjugou a infeliz Venezuela com a nefasta dupla Chávez–Maduro. 

Para quem duvide da realidade da ameaça, basta recordar a recente declaração de um dos próceres da esquerda lulopetista, o ex-ministro José Dirceu, réu triplamente condenado a mais de trinta anos de prisão, e a quem a Justiça deixa incompreensivelmente em liberdade para atacar o Brasil e a própria instituição que lhe concedeu a liberdade. Em entrevista ao jornal “El País” (27-9-18), ele declarou que “é uma questão de tempo” para o PT “tomar o poder”. E sugeriu, segundo o Portal "180 graus" (Piauí), de se “tirar todos os poderes do Supremo”

Na mesma data de Lepanto, celebramos também o dia de Nossa Senhora do Rosário — festividade estabelecida pelo Papa São Pio V em ação de graças pela vitória contra o Islã. Rezemos ao menos um terço suplicando-Lhe uma nova vitória da Cristandade no Brasil e a restauração moral de nosso povo nascido nesta Terra de Santa Cruz. 

Um pouco de história da providencial batalha de Lepanto 

No século XVI, o poderio otomano (sobretudo o Império turco, de religião muçulmana) crescia espantosamente e tudo empreendia para aniquilar e dominar a Europa cristã. Os turcos já haviam conquistado Constantinopla e ocupado a ilha de Chipre, de onde pretendiam marchar em direção ao Ocidente. Em face do iminente perigo para a Cristandade, o Sumo Pontífice de então, o Papa São Pio V [imagem ao lado], conclamou os príncipes europeus a se unirem numa frente comum contra o inimigo. Reuniu uma pequena esquadra composta com o apoio de Felipe II da Espanha, das Repúblicas de Veneza e de Gênova e do Reino de Nápoles, além de um contingente dos Estados Pontifícios.

São Pio V não desanimou ante a desproporção das forças, pois confiava mais na proteção de Deus e de sua Santíssima Mãe. Entregou ao generalíssimo D. João d’Áustria o comando da esquadra e deu-lhe um estandarte com a imagem de Nossa Senhora, pedindo-lhe que partisse logo ao encontro do inimigo. Há 447 anos, em 7 de outubro de 1571, a esquadra católica, composta de aproximadamente 200 galeras, concentrou-se no golfo de Lepanto. Dom João D´Áustria mandou hastear o estandarte oferecido pelo Papa e bradou: “Aqui venceremos ou morremos”, e deu a ordem de batalha contra os seguidores de Maomé. Os primeiros embates foram favoráveis aos muçulmanos, que, formados em meia-lua, desfecharam violenta carga. Os católicos, com o Terço ao pescoço, prontos a dar a vida por Deus e tirar a dos infiéis, respondiam aos ataques com o máximo vigor possível. 


Mas, apesar da bravura dos soldados de Cristo, a numerosíssima frota do Islã, comandada por Ali-Pachá [pintura ao lado], parecia vencer. Após 10 horas de encarniçado embate, os batalhadores católicos receavam a derrota, que traria graves consequências para a Civilização Cristã europeia. Mas, óh prodígio! Ficaram surpresos ao perceberem que, inexplicavelmente e de repente, os muçulmanos, apavorados, bateram em retirada… 

Obtiveram mais tarde a explicação: aprisionados pelos católicos, alguns mouros confessaram que uma brilhante e majestosa Senhora aparecera no céu, ameaçando-os e incutindo-lhes tanto medo, que entraram em pânico e começaram a fugir. 

Logo no início da retirada dos barcos muçulmanos, os católicos reanimaram-se e reverteram a batalha: os infiéis perderam 224 navios (130 capturados e mais de 90 afundados ou incendiados), quase 9.000 maometanos foram capturados e 25.000 morreram. Ao passo que as perdas católicas foram bem menores: 8.000 homens e apenas 17 galeras perdidas. 


Quadro representando a visão que São Pio V teve da vitória de Lepanto
Enquanto se travava a batalha contra os turcos em águas de Lepanto, a Cristandade rogava o auxílio da Rainha do Santíssimo Rosário. Em Roma, o Papa São Pio V pediu aos fiéis que redobrassem as preces. As Confrarias do Rosário promoviam procissões e orações nas igrejas, suplicando a vitória da armada católica. 

O Pontífice, grande devoto do Rosário, no momento em que se dava o desfecho da gloriosa batalha, teve uma visão sobrenatural, na qual ele tomou conhecimento de que a armada católica acabara de obter espetacular vitória. E imediatamente, exultando de alegria, voltou-se para seus acompanhantes exclamando: “Vamos agradecer a Jesus Cristo a vitória que acaba de conceder à nossa esquadra”

A milagrosa visão foi confirmada somente na noite do dia 21 de outubro (duas semanas após o grande acontecimento), quando, por fim, o correio chegou a Roma com a notícia. São Pio V tinha meios mais rápidos para se informar… 

Em memória da estupenda intervenção de Maria Santíssima, o Papa dirigiu-se em procissão à Basílica de São Pedro, onde cantou o Te Deum Laudamus e introduziu a invocação Auxílio dos Cristãos na Ladainha de Nossa Senhora. E para perpetuar essa extraordinária vitória da Cristandade, foi instituída a festa de Nossa Senhora da Vitória, que, dois anos mais tarde, tomou a denominação de festa de Nossa Senhora do Rosário, comemorada pela Igreja no dia 7 de outubro de cada ano. 


Na. Sra. do Rosário de Lepanto [foto Michael Gorre]
Ainda com o mesmo objetivo, de deixar gravado para sempre na História que a Vitória de Lepanto se deveu à intercessão da Senhora do Rosário, o senado veneziano mandou pintar um quadro representando a batalha naval com a seguinte inscrição: “Non virtus, non arma, non duces, sed Maria Rosarii victores nos fecit”. (Nem as tropas, nem as armas, nem os comandantes, mas a Virgem Maria do Rosário é que nos deu a vitória).

Consumado o milagroso triunfo em Lepanto, outro prodígio salvou a armada católica: uma furiosa tempestade ameaçava levar ao fundo do mar todas as naus. Mais parecia uma tempestade desencadeada pelos demônios, como vingança pela derrota que acabavam de sofrer, pois viam escapar de suas garras a Europa Cristã que os seguidores de Maomé tentaram conquistar para o domínio muçulmano. Em meio à fúria das águas, os navegantes começaram a rezar à Santíssima Virgem, Rainha do Santo Rosário, e a tempestade serenou milagrosamente.
*   *   *
A grandiosa vitória da Cristandade sobre o Império Otomano -- que envidou no século XVI todos os esforços para dominar o Velho Continente -- nos leva a confiar que obteremos nos presentes dias outra vitória contra o grande perigo que nos ameça: a tomada do poder pela esquerda comuno-bolivariana.


5 de outubro de 2018

Critérios básicos para o voto eleitoral dos católicos

➤  Mons. José Luiz Villac

Pergunta — Venho notando uma tremenda indefinição de meus conhecidos quanto às próximas eleições. Há muita confusão. Para esclarecê-los, tenho procurado falar que devemos escolher candidatos que não defendem projetos ou práticas transgressoras das Leis de Deus. Como eu não consigo ir além, rogo ao Mons. José Luiz a gentileza de uma ajuda para a minha argumentação. Pergunto se realmente a Igreja proíbe aos católicos votar em candidatos que defendem práticas contrárias às Leis de Deus. 

Resposta — Atendo com muito gosto ao pedido do consulente, frisando de antemão que minha resposta não tem nenhum caráter político-partidário; trata-se apenas de uma orientação teórica para as consciências a respeito do reto exercício dos direitos e obrigações dos fiéis na sua participação na vida pública.

Deve-se de início ressaltar que os cidadãos são moralmente corresponsáveis pela sociedade em que vivem, de modo especial numa democracia, na qual são convocados para eleger representantes que irão reger e legislar em seu nome. Não devem esquecer que a finalidade da votação deve ser, em última análise, a promoção do bem comum da sociedade. 

A qualidade de um candidato, seja qual for o cargo público que pleiteie ocupar, não deve ser medida apenas com base em sua personalidade (simpatia, facilidade para falar em público, habilidade em gestão administrativa, etc.), mas também com base na sua personalidade pública: os princípios e os programas que ele pretende desenvolver para promover o bem comum. 


Valores que um candidato não pode desprezar 

A proteção da vida humana inocente 
desde a concepção até a morte natural, 
uma das condições para um católico votar em consciência
O Catecismo da Igreja Católica menciona os componentes essenciais do bem comum: os direitos fundamentais e inalienáveis da pessoa humana (nº 1907); o bem-estar social e o desenvolvimento da sociedade, incluindo a educação, a cultura, o trabalho, a saúde, etc. (nº 1908); a paz e a segurança cidadã (nº 1909). Portanto, a ordem social “tem por base a verdade, constrói-se na justiça e é vivificada pelo amor” (nº 1912). 

Existe uma hierarquia entre esses componentes do bem comum: alguns são essenciais e não negociáveis, outros são contingentes e permitem várias propostas. Logicamente, os valores não negociáveis devem ter primazia nas preferências dos eleitores católicos, porque dizem respeito a valores essenciais da pessoa humana e da vida social, cuja violação é um mal intrínseco e não pode ser justificado por nenhum motivo ou circunstância. A posição de um candidato a respeito dos valores não negociáveis deve ser, portanto, o critério essencial para julgarmos sua aptidão para ocupar um cargo público.

Atualmente os valores não negociáveis para um eleitor católico são:

  • A proteção da vida humana inocente desde a concepção até a morte natural;
  • O reconhecimento e a promoção da estrutura natural da família, baseada no matrimônio indissolúvel entre um homem e uma mulher;
  • A proteção do direito primário dos pais de educar seus filhos (cfr. Papa Bento XVI - discurso a um grupo de parlamentares europeus em 30-3-06). 


Critérios básicos para bem eleger

Reconheço que, para muitos leitores, escolher em quem votar é uma tarefa por vezes difícil. Mas determinar em quem não votar é relativamente fácil, pois são todos os candidatos que promovem o desrespeito e a violação dos mencionados valores não negociáveis. Tais candidatos são inimigos do bem comum, e sua eventual eleição para os cargos que disputam causaria muitos males ao Brasil e aos direitos dos seus habitantes.

Alguém poderia perguntar: Quais são os princípios morais que obrigam os eleitores, em consciência, a excluir do voto os candidatos favoráveis ao aborto, às uniões homossexuais ou à ideologia de gênero? 

O fundamento é triplo. 

Primeiro, porque a regra fundamental da moralidade é fazer o bem e evitar o mal. Mas para isto ser factível é preciso sabermos quais os bens que devem ser procurados e, acima de tudo, os males que devem ser evitados. 

Segundo, porque os critérios que permitem fazer tais discernimentos entre o bem e o mal nos são dados pela moral católica, com base nos Mandamentos de Deus e na Lei natural: “O Deus Criador é, de fato, a única e definitiva fonte da ordem moral no mundo por Ele criado. O homem não pode por si mesmo decidir o que é bom e o que é mau, não pode ‘conhecer o bem e o mal, como Deus’” (João Paulo II, encíclica Dominum et vivificantem, nº 36). 

Segue-se daí, em terceiro lugar, o que escreve São Boaventura: “A consciência é como o arauto de Deus e o seu mensageiro; e o que ela diz não provém dela própria, mas provém de Deus, à semelhança de um arauto quando proclama o edito do rei. Disto deriva o fato de a consciência ter a força de obrigar” (João Paulo II, encíclica Veritatis Splendor, n° 58).

Portanto, os eleitores católicos devem votar de acordo com a sua consciência, mas primeiro formá-la segundo os ensinamentos de Jesus Cristo e do Magistério da Igreja perene. Não devem seguir as modas do mundo, nem as inovações de alguns falsos teólogos descarrilados. 

As leis humanas, de fato, só obrigam em consciência quando são justas. Quando prescrevem algo intrinsecamente imoral, seu cumprimento não é obrigatório, pelo contrário, é pecado obedecê-las (cfr. Atos 5,29). É intrinsecamente injusto (ou seja, é pecado, e pecado grave) elaborar uma lei semelhante ou votar a seu favor. 


Não se pode contribuir com práticas imorais 

Duas condições não negociáveis para se pensar ao votar em alguém: 
o reconhecimento e a promoção da estrutura natural da família, 
baseada no matrimônio indissolúvel entre um homem e uma mulher, 
e a proteção do direito primário dos pais de educar seus filhos.
Alguém poderá objetar como sendo exagerado proibir por tais motivos o voto em candidato que é bom em outras coisas. Respondemos que não é exagerado, porque votar em um candidato que promove a violação dos valores não negociáveis equivale a colaborar formalmente com a prática dos inúmeros pecados que resultarão da aprovação legal de tal violação da ordem moral. Equivale também a contribuir para a deformação moral de toda a população, pois a ordem legal tem natureza pedagógica. 

No caso específico do aborto, votar por um candidato pró-aborto equivale a associar-se ao que já foi qualificado pelo Concílio Vaticano II como crime abominável (Constituição Gaudium et Spes, nº 51). “A Igreja afirmou, desde o século I, a malícia moral de todo o aborto provocado. E esta doutrina não mudou. Continua invariável. O aborto direto, isto é, querido como fim ou como meio, é gravemente contrário à lei moral”, afirma categoricamente o Catecismo da Igreja Católica (n ° 2271). 


Coerência entre vida privada e vida pública 

Além dessas regras gerais de moral, cumpre ainda respeitar algumas normas elementares de prudência na escolha dos candidatos. Tanto mais isso é necessário quando se constata que grande parte dos nossos políticos não é transparente quanto às suas verdadeiras convicções no âmbito da moral, menos até do que no manejo dos fundos públicos. A vida pública nacional tem mostrado claramente isso nos últimos anos. Por isso, recomendo vivamente aos leitores investigar qual é a posição dos candidatos em relação aos valores não negociáveis mencionados acima. Não basta confiar na ideia simplória de que o candidato deve ser bom, se figura na lista do partido no qual se costuma votar. E se algum candidato ainda não manifestou o que pensa sobre o aborto, as uniões homossexuais, a ideologia de gênero, etc, é necessário pedir-lhe que se explique publicamente. 

Devo lembrar que alguns candidatos se afirmam católicos e dizem que se opõem a essas práticas abomináveis, mas na realidade tomaram iniciativas em favor delas; ou também não estão dispostos a apoiar a sua revogação. Recomendo que desconfiem especialmente desses candidatos com posição ambígua ou contraditória, que afirmam distinguir entre sua vida privada e sua vida pública, entre suas opiniões privadas e suas condutas públicas. Porque contradizer na vida pública a fé e a moralidade que se declara ter na vida privada revela, no melhor dos casos, uma espécie de esquizofrenia espiritual, como salientou Bento XVI. Ou senão, um simples abuso da etiqueta de católico para angariar mais votos.

Finalmente, aconselho a todos rezarem a Nossa Senhora Aparecida, Rainha e Padroeira do Brasil, para que nos proteja e impeça que os valores não negociáveis sejam violados na Terra da Santa Cruz.

3 de outubro de 2018

Carta aberta ao futuro Presidente

 
Manifestação anti-PT na Av. Paulista no último domingo (30-9-18)
Nosso País necessita de homens que estejam dispostos a enfrentar a ditadura do Politicamente Correto e a defender a família tradicional. Acima de tudo, o Brasil precisa de um Presidente que respeite a Lei de Deus e o Direito Natural, que seja fiel ao nosso passado. Não se constrói um país pela negação daquilo que ele é. 

Instituto Plinio Corrêa de Oliveira
3 de outubro de 2018

Raros são os momentos na história de um país em que as aspirações de seu povo e as suas necessidades podem ser tão claramente percebidas pelos governantes, como ocorre em nossos dias.

Após as grandes manifestações que tomaram as ruas do Brasil, manifestações nascidas de um profundo descontentamento, os brasileiros irão às urnas no próximo dia 7 de outubro para escolher não apenas um Presidente, mas um modelo de país.

A depender dos resultados, as eleições de 2018 serão vistas, pelas gerações futuras, como um desses momentos históricos em que um Povo afirma e defende suas tradições, suas características mais profundas e que refletem a alma brasileira.

Assim como os homens, cada Povo tem particularidades próprias. Foi em defesa dessas particularidades que o País tomou as ruas e as praças nas grandes e nas pequenas cidades expressando, a uma voz, um mesmo sentimento.

Era um basta à situação do Brasil, um basta a um modelo de política que aparelhou o Estado, tornando-o instrumento nas mãos de um partido.

A corrupção generalizada era apenas um dos sintomas de que algo precisava mudar. Mas não era o único e nem o mais importante.

Entre muitos outros, citemos alguns:

— Imposição da “ideologia de gênero” nos colégios, chegando até mesmo a tentar censurar livros didáticos contrários aos novos “valores”;
— Tentativa reiterada de criminalizar quem não aceita o homossexualismo, acusando-o de “homofobia”;
— Oficialização paulatina da prática de aborto nos Hospitais Públicos;
— Leis que procuram regular a vida familiar a ponto de impedir até mesmo palmadas corretivas nos filhos;
— Intento de controlar os meios de comunicação;
— Cumplicidade para com invasões de terras e prédios, no campo e na cidade;
— Desrespeito ao Direito de Propriedade através da Reforma Agrária socialista, da promoção dos “quilombolas” e do “indigenismo”, além da subjetiva conceituação de “trabalho escravo”, com a conseqüente expropriação de terras;
— Perseguição à iniciativa privada com leis e impostos cada vez mais escorchantes e uma burocracia interminável;
— Implantação de uma “política racial afirmativa”, procurando criar uma verdadeira luta de raças em território nacional;
— Explícita simpatia para com as ditaduras “bolivarianas”, como as da Venezuela, Bolívia e Cuba;
— Proposta de banir símbolos religiosos das repartições públicas…


Essa mera enumeração demonstra até onde a esquerda — civil e eclesiástica — quer levar o País. Utilizando-se do pretexto de defender minorias e em nome de um conceito vago e errôneo de “direitos humanos”, tentam desfigurar o Brasil.

O Brasil anela por um Presidente que não permita esses erros!

A Nação não quer soluções intermediárias que se escondam em uma falsa moderação, como se entre o certo e o errado fosse lícito escolher o meio-termo.

Nosso País necessita de homens que estejam dispostos a enfrentar a ditadura do Politicamente Correto e a defender a família tradicional. Acima de tudo, o Brasil precisa de um Presidente que respeite a Lei de Deus e o Direito Natural, que seja fiel ao nosso passado. Não se constrói um país pela negação daquilo que ele é.

Nesse próximo dia 7 de outubro, o futuro Presidente receberá os votos dos brasileiros que esperam ter seus anseios ouvidos.

Há um provérbio jurídico que diz: “Dormientibus non succurrit jus”, o Direito não socorre aqueles que dormem. Esses brasileiros que foram às ruas mostram que o “gigante adormecido”, quando provocado, sabe levantar sua voz e se fazer ouvir.

O Instituto Plinio Corrêa de Oliveira, seguindo os ensinamentos de seu patrono, espera que a próxima administração tenha como meta, desde o primeiro momento:

— Combater o aborto, a eutanásia e a Ideologia de Gênero;
— Não permitir a liberação das drogas;
— Defender a família como Deus a estabeleceu, num matrimônio entre um homem e uma mulher;
— Defender o sagrado direito dos pais na educação dos filhos, sem a intromissão do Estado;
— Proteger as propriedades rurais e urbanas, alvo crescente de invasões;
— Diminuir categoricamente a Carga Tributária;
— Incentivar a livre iniciativa;
— Amparar efetivamente quem gera empregos, no campo e na cidade;
— Respeitar e honrar as forças armadas e a Polícia;
— Cortar qualquer financiamento a governos da esquerda “bolivariana”.

Esperamos que o próximo Presidente saiba ouvir a voz dos brasileiros e seja fiel ao Brasil que todos queremos. Uma nação livre da esquerda “bolivariana”, que desejou transformar nosso País, nascido aos pés do Cruzeiro do Sul e que tem como símbolo máximo o Cristo Redentor, em uma terra sem Tradição, sem Família e sem Propriedade e, por isso mesmo, sem futuro.

Na. Sra. de Lepanto [Foto Michael Gorre]
O próximo dia 7 de outubro também é festa da vitória na Batalha de Lepanto, ocorrida em 1571, quando as forças islâmicas tentavam invadir a Europa cristã. Naquela ocasião, os Reinos católicos se uniram em defesa da Civilização e, sob a proteção de Nossa Senhora do Rosário, alcançaram o almejado triunfo.

Que nesse dia 7 de outubro de 2018, 447 anos após aquela vitória em que o futuro da Civilização Cristã estava sendo decidido, queira Nossa Senhora do Rosário nos proteger e nos inspirar para que o Comunismo — tão ou mais terrível inimigo do que foi o Islã em seu auge — possa ser vencido pelos que continuam tementes a Deus, respeitosos de suas Leis e fiéis ao Brasil verdadeiramente brasileiro.

São Paulo, 3 de Outubro de 2018 
Instituto Plinio Corrêa de Oliveira

2 de outubro de 2018

MARCHA CONTRA O ABORTO NA CAPITAL PAULISTA

Na tarde deste domingo (30 de setembro), enquanto ocorria na Avenida Paulista uma grande manifestação contra o PT e a favor de Jair Bolsonaro, o candidato que se encontra em primeiro lugar nas pesquisas, uma chuva torrencial despencou. Mas o aguaceiro não tirou o animo dos participantes que continuaram a se manifestar, por exemplo, bradando: “Brasil acima de tudo. Deus acima de todos”


Ao mesmo tempo, também debaixo daquela forte chuva, uma outra manifestação transcorria: Uma marcha contra o aborto percorreu a Avenida Brigadeiro, deste a Igreja Imaculada Conceição até a Praça da Sé. Um dos brados principais desta marcha foi “Vida sim, aborto não! Salvemos as duas vidas!”

No encerramento da marcha, em frente a Catedral da Sé, uma das personalidades que discursou foi o Príncipe Imperial do Brasil, Dom Bertrand de Orleans e Bragança [foto acima]. Ele apontou para a principal perversidade da execução do inocente nascituro ainda no ventre materno: o grave pecado praticado diretamente contra o Criador, grave violação dos direitos de Deus. 

Na ocasião, jovens do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira coletaram assinaturas contra a ADPF 442 (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental) que pretende, por meio do STF, legalizar o crime do aborto até a 12ª semana de gestação.

Estive nas duas manifestações deste domingo, em ambas ouvi os participantes cantando a pleno pulmões o Hino Nacional. Enquanto que na manifestação pró Haddad houve petistas queimando a Bandeira Nacional. A escolha é sua...





1 de outubro de 2018

Santa Teresinha — Infância espiritual e naturalidade

➤  Plinio Corrêa de Oliveira 

A concepção moderna do traje é fundamentalmente falsa, porque joga com a ideia de naturalidade. O homem tem de fato duas formas de naturalidade. A primeira é quando sua natureza está entregue a todos os seus instintos — é o estado ruim da natureza, que tende para a barbárie. A segunda é quando sua natureza está educada pela civilização. Adquirindo assim o hábito de se mortificar, ele instala-se até mesmo em situações desagradáveis, mas de um modo tão natural que até se poderia dizer espontâneo. 

Este quadro de Santa Teresinha é um monumento, que exemplifica bem a segunda forma de naturalidade. Observem que é quase impossível uma naturalidade maior. É uma criança inteiramente à vontade dentro de seu traje. De tal maneira à vontade, que se tem a impressão de que nem percebe o próprio corpo, e está apenas meditando. Toda a vida dela está no olhar. Mas notem que sua leveza, sua graça, seus movimentos infantis têm toda a expansão que se pode desejar de uma criança. 

Notem também que é uma menina da pequena burguesia. Seu pai, Monsieur Martin, era um joelheiro de Alençon, pequena cidade francesa. Os pais deram a Santa Teresinha uma educação muito estrita, como se pode ver no porte dela: ereta, não tem nada de mole. A aparência de seu corpo é de suma compostura. Numa criança, isso significa o triunfo da segunda forma de naturalidade, numa menina que está perfeitamente bem nessa situação. Assim se compreende como é uma mentira o mito do “conforto” nudista, largado e escarrapachado. 

Existe para o homem um ponto de equilíbrio muito mais verdadeiro, que é o espiritual. Dessa forma — excluindo outras considerações a que esta foto se presta — ela é um documento sociológico de primeiríssima, mostra a autenticidade da infância numa concepção que não é a de uma criança de anúncio de dentifrício, boba, cretina, que não pensa. Vemos nesse quadro a concepção da infância espiritual profundamente meditativa, precoce, embora inteiramente infantil. E com toda a naturalidade. 

Que impressão teria Santa Teresinha, se visse uma criança moderna? Ficaria chocada, por ver a natureza humana no seu escarrapachado, no seu desgovernado, segundo seus instintos. 

____________ 

Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 11 de novembro de 1968. Essa transcrição não passou pela revisão do autor. 
Santa Teresinha (nas fotos, aos 8 anos) nasceu em 2 de janeiro de 1873 em Alençon e faleceu em 30 de setembro de 1897 em Lisieux, França. A grande santa de nossos tempos entrou no Carmelo aos 15 anos, levando uma vida de imolação e sacrifícios em favor das missões e da Igreja. Desejando possuir todas as vocações, para nelas glorificar o Criador, encontrou no amor a Deus a solução para essa aspiração. Por isso foi nomeada padroeira das missões, sem nunca ter deixado a clausura. Sua doutrina espiritual da “pequena via” abriu as portas da perfeição a numerosas almas.

16 de setembro de 2018

A Igreja desprestigiada, fruto da autodemolição

Foto do raio que atingiu a Basílica de São Pedro horas depois de o Papa Bento XVI anunciar sua renúncia ao Pontificado
A mídia vem revelando escândalos gravíssimos do mundo eclesiástico, contribuindo assim para agravar ainda mais a crise e alimentá-la. A consequência inevitável é a perda de prestígio e influência da Igreja, numa decadência contínua que se acelerou após o Concílio Vaticano II, recebendo de Paulo VI o rótulo de “processo de autodemolição”. 

Entretanto, apesar de tal crise, devemos conservar a certeza na indefectibilidade da Santa Igreja, edificada por Nosso Senhor Jesus Cristo sobre a rocha indestrutível de Pedro. Sobre a origem dessa crise, transcrevemos comentários do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, extraídos de seu artigo publicado na “Folha de S. Paulo”, em 20 de março de 1978. 
*       *       *

A imensa influência da Igreja sobre o povo sofreu acentuada diminuição no Brasil — como, aliás, no mundo inteiro — em consequência da crise progressista, que começou a minar os meios católicos desde os últimos anos do pontificado de Pio XII. Como poderia essa influência não diminuir, se os fiéis encontram na Igreja a nauseabunda “fumaça de Satanás”, a que se referiu pública e oficialmente Paulo VI? 

Para compreender essa afirmação do Pontífice, imagine o leitor um lindo palácio construído num ponto elevado de uma cidade. Todos o veem. Todos o admiram. Dele se ufana a população inteira. Se os donos do palácio se entregam subitamente à demolição deste, e a esplêndida fachada vai tomando ares de ruína, como evitar que o prestígio do edifício decaia? Ora, o próprio Paulo VI aludiu, pública e oficialmente, ao misterioso “processo de autodemolição” pelo qual vai passando a Igreja. A fonte do prestígio da Igreja é ela mesma. Mas se ela se autodemole, como imaginar que não destrua ao mesmo tempo seu próprio prestígio?

13 de setembro de 2018

Argentina: Batalha vitoriosa numa “guerra religiosa” que não terminou

Milhares de pessoas dos movimentos antiaborto no dia da votação

A recusa do aborto pelo Senado argentino revelou a dimensão de um dos maiores conflitos religiosos de nossa época 


➤  Luis Dufaur * 

“Sou católica apostólica romana, e não me envergonho disso” — explicou Cristina Fiore Viñuales, senadora da Província de Salta, na Argentina, para encerrar sua douta justificação técnica para a recusa ao projeto de aborto, no dia 8 de agosto último. 

Adolfo Rodríguez Saá, senador pela Província de São Luís, foi também enfático: “Ouvi durante o debate uma permanente condenação à Igreja Católica; e os que pensamos como católicos não somos respeitados. [...] Eu vim aqui defender minhas convicções de católico apostólico e romano”. 

Não foram estes os únicos. A mesma queixa era frequente até mesmo em partidos políticos conflitantes entre si, e a voz das ruas não cessava de repetir: “Dizem que não temos direito a falar porque somos católicos”. 


Católicos e abortistas se enfrentam nas ruas 

Nas fileiras abortistas: agressividade, vulgaridade e injúrias
Num ambiente que evocava a revolta de Maio de 68 na França, as fanáticas ativistas pró-aborto portavam um pano verde no pescoço e se aglomeravam ao lado de agitadores ostentando bandeiras vermelhas com a foice e o martelo, além de piqueteiros extremistas e grupelhos de ultraesquerda, todos empenhados em cobrir de injúrias o sentimento católico do povo argentino. Escolheram como sua “arma” distintiva cantar em coro blasfêmias contra Nosso Senhor Jesus Cristo e Nossa Senhora. Chegaram a encenar um sabbat de bruxas em praça pública, para enviar suas maldições ao presidente Macri, à “burguesia”, ao FMI e ao capitalismo em geral. Baixíssimos recursos da esquerda radical, numa acirrada confrontação religiosa – é como se pode definir tais manifestações a favor do projeto de aborto, cujo resultado seria a extinção da vida de incontáveis argentinos inocentes, custeada pelo dinheiro do Estado. 

A maioria da população argentina é católica e contrária a esse crime, que viola um dos mais sacrossantos Mandamentos da Lei de Deus: Não matarás. Porém a mais eficiente e mais desconcertante contribuição em favor do aborto não provinha dos exaltados de sempre, anticatólicos promotores da matança dos inocentes, e sim dos microfones de igrejas e catedrais. Como que ecoando alguma ordem vinda de Roma, essa mídia religiosa silenciou sobre a doutrina católica que proíbe a matança dos inocentes. 

Mais ainda. Durante uma maciça manifestação contra o aborto ao longo das grandes avenidas centrais de Buenos Aires, dois sacerdotes confidenciaram a velhos amigos a norma baixada pela Conferência Episcopal: o clero não deveria participar da campanha antiabortista, ir às manifestações, rezar publicamente ou abençoar. E assim os religiosos, enviados por Jesus Cristo para pregar o Evangelho, teriam de se calar para abafá-lo, enquanto dialogam com os seus piores inimigos! Tal norma é sem dúvida um reflexo da mudança de paradigma, hoje presente na Santa Sé. Apesar de abandonados no auge da tempestade, cerca de dois milhões de católicos argentinos se manifestaram naquele dia em mais de duzentas cidades do País! 


O cartaz confirma que o aborto
anda de mãos dadas com a esquerda
e com a homossexualidade (diversidade)
A situação interna do catolicismo argentino estava ficando insustentável, e foi agravada ainda mais após o Papa Francisco nomear para a Arquidiocese de La Plata, capital da Província de Buenos Aires, Dom Víctor Manuel Fernandez, considerado o ghost writer de documentos-chaves de seu pontificado, como a Amoris laetitia. Rodeado pelos fiéis que enchiam a sua catedral, bradando “Pela vida, aborto não!”, ele acabaria se recusando a comemorar o NÃO ao aborto, escandalizando assim os fiéis católicos na sua arquidiocese, no país e no mundo! 

Seu procedimento só não foi mais doloroso, e em distonia com os fiéis, porque ainda mais assombroso foi o silêncio do Papa Francisco sobre essa estrepitosa vitória da moral e da religião católica. Sobretudo por ser a Argentina o país onde ele nasceu! Sites católicos brasileiros também se manifestaram espantados com a incompreensível e persistente omissão do Pontífice argentino diante do massacre dos inocentes. 

Sentindo que se descolavam do povo, os bispos resolveram fazer uma mudança de 180º. Começaram a criticar o aborto, e até chegaram a convocar passeatas de protesto em homilias e atos oficiais. Pressionados pela exigência dos leigos, convocaram uma grande missa campal no santuário nacional da Padroeira da Argentina, Nossa Senhora de Luján, que congregou por volta de 40 mil pessoas sob a chuva e o frio. O cardeal Mario Aurelio Poli, Arcebispo de Buenos Aires, agendou uma missa na catedral para a hora em que a matéria estivesse sendo votada no Senado. 


Repercussões da derrota abortista 

Resultado da votação no painel do Senado.
Em vermelho: RECHAZADO (recusado
A vitória católica foi partilhada por grande número de militantes pró-vida no mundo. O Youtube e grandes órgãos de imprensa internacional – como “Il Corriere della Sera”, de Milão, e “El País”, de Madri – retransmitiram online o prolongado debate de 16 horas no Senado. Na Itália, por exemplo, os assistentes enchiam as colunas com comentários críticos aos senadores pró-aborto, juntamente com numerosas orações e jaculatórias. Mas os senadores amigos de todas as esquerdas desconheciam o clamor popular e revidavam com ataques e ameaças ao catolicismo, inclusive pessoais, contra os colegas que não votassem a favor do projeto anticristão. 

É difícil medir, mas fácil compreender, a frustração das esquerdas leigas ou religiosas com a recusa plena desse projeto. Abortistas, comunistas e piqueteiros peronistas protagonizaram nas ruas, em torno do Congresso, badernas próprias do derrotado que não sabe perder, as quais foram logo dissolvidas pela polícia. Atitude análoga foi assumida por grandes jornais, que vituperam as fake news das redes sociais apenas quando elas não servem às esquerdas. O grande quotidiano socialista “El País”, de Madri, deblaterou contra a Argentina, que teria retrocedido um século ao recusar um projeto generoso — na verdade, criminoso — que liberalizava o aborto até os níveis espantosos existentes em países da União Europeia. O jornal pró-socialista “Le Monde”, de Paris, bateu todos os recordes de fake news, ao afirmar que diante do Congresso argentino havia dois milhões de pessoas pró-aborto. Fato materialmente impossível, aliás, mas que servia para desabafar a sua “democrática” antipatia a uma decisão que se reveste de características democráticas. 

Um engenheiro argentino, de férias com a família na China, escreveu num foro virtual que, ao sair de uma igreja católica no centro histórico de Xi’an — cidade que foi capital imperial —, foi abordado por um grupo de freiras que havia acompanhado de perto a polêmica sobre o aborto na Argentina e o seu auspicioso desfecho. Emocionadas, elas o felicitaram, acrescentando que os argentinos não podiam imaginar o efeito universal da sua recusa à morte de inocentes. 


Perspectivas para o futuro 

Consequência da derrota: baderna dos abortistas,
com a participação de comunistas e piqueteiros peronistas
O fracasso dessa ofensiva abortista trouxe alegria e ânimo a todos os que lutam pela Lei de Deus no mundo, desafiando até a mudança de paradigma do Papa Francisco. Mas trata-se ainda de uma batalha no início de uma guerra. De grande valor, mas uma batalha à qual se seguirão outras. Os defensores do aborto, e seus cúmplices nos ambientes eclesiásticos, fazem antever que não arredarão o pé na Argentina. Juram que voltarão à carga em 2019, com novo projeto. Comentaristas mais argutos observam que, devendo uma eleição renovar parcialmente o Congresso, os candidatos não ousarão defender uma bandeira tão impopular como a do aborto. 

Em 2020 os inimigos de Cristo, da Igreja e da vida voltarão sem dúvida a agir. Contarão para isso com o silêncio do Papa, dos bispos e dos maus sacerdotes a respeito da moral e da doutrina católica? 

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Notas:
(*) Fonte: Revista Catolicismo, Nº 813, setembro/2018.
1. Cfr. Sandro Magister, “‘Amoris laetitia’ tiene un autor a la sombra. Se llama Víctor Manuel Fernández’. http://chiesa.espresso.repubblica.it/articolo/1351303ffae.html?sp=y
2. Infocatólica, “El Arzobispo de La Plata no quiere festejar el «No» al aborto en Argentina”, 10/08/18 – http://www.infocatolica.com/?t=noticia&cod=32867
3. Cfr. por exemplo: Rainha Maria, “Argentina aprova lei do aborto, com o silêncio do papa argentino”. http://www.rainhamaria.com.br/Pagina/22626/Argentina-aprova-lei-do-aborto-com-o-silencio-do-papa-argentino