Na entrevista coletiva que concedeu no dia 28 de janeiro aos jornalistas a bordo do avião que o levava de volta a Roma [foto] após a “Jornada Mundial da Juventude” do Panamá, o Papa Francisco afirmou, entre outras coisas que causaram estupefação, ser favorável à educação sexual nas escolas. Eis suas palavras, respondendo ao jornalista Edwin Cabrera Uribe, que lhe perguntara sua opinião sobre o assunto:
“Penso que, nas escolas, é preciso dar educação sexual [...]. É preciso oferecer uma educação sexual objetiva: assim como é, sem colonizações ideológicas. Porque se, nas escolas, se dá uma educação sexual imbuída de colonizações ideológicas, destrói-se a pessoa [...]. O problema está nos responsáveis pela educação, a nível nacional, regional, em cada unidade escolar: que professores escolhem para isso? Que manuais? Já os vi de todas as cores. Há coisas que fazem amadurecer e outras que causam dano [...]. Digo que é preciso haver educação sexual para as crianças. O ideal é que se comece em casa, com os pais. Nem sempre é possível, devido a muitas situações familiares, ou porque não sabem como a fazer. A escola supre isto e deve fazê-lo; caso contrário, fica um vazio que acaba preenchido por qualquer ideologia”.
Tal resposta não poderia evidentemente deixar de causar grande perplexidade em numerosas famílias católicas que lutam para preservar a inocência de suas crianças. Elas conhecem as péssimas condições de imoralidade nas quais os “responsáveis pela educação” sexual nas escolas — mistas em sua imensa maioria — ministrariam suas aulas. Nestas, como já se tem visto, em nome de educação sexual, professores ensinam as coisas mais indecentes, inclusive pornografia, erotizando os pequenos.
Esse danoso ensinamento, ministrado fora do lar e por vezes com distribuição de manuais obscenos com imagens libidinosas, leva com frequência as crianças à iniciação sexual precoce e até mesmo, em certos casos, à prostituição infantil e à gravidez de meninas que sequer chegaram à adolescência. Segundo um relatório de 2018 da OMS (Organização Mundial da Saúde), no Brasil a taxa de gravidez indesejável na adolescência supera a média mundial! Assim sendo, pais e mães de família perguntam: qual é verdadeiramente a posição da Igreja Católica a respeito de tal tipo de educação sexual, que sempre fora reservada aos pais e não às escolas?
Para responder a essa questão, nada melhor do que recorremos ao ensinamento tradicional do Magistério Pontifício. Assim, eis a resposta do Papa Pio XI (1857-1939) [foto ao lado] na Encíclica Divini Illius Magistri:
“Mormente perigoso é, portanto, aquele naturalismo que, em nossos tempos, invade o campo da educação em matéria delicadíssima como é a honestidade dos costumes. Assaz difuso é o erro dos que, com pretensões perigosas e más palavras, promovem a pretendida educação sexual, julgando erradamente poderem precaver os jovens contra os perigos da sensualidade, com meios puramente naturais, tais como uma temerária iniciação e instrução preventiva, indistintamente para todos, e até publicamente, e pior ainda, expondo-os por algum tempo às ocasiões para acostumá-los, como dizem, e quase lhes fortalecer o espírito contra aqueles perigos.
“Estes erram gravemente, não querendo reconhecer a natural fragilidade humana e a lei de que fala o Apóstolo: contrária à lei do espírito (Rom 7, 23), e desprezando até a própria experiência dos fatos, da qual consta que, nomeadamente nos jovens, as culpas contra os bons costumes são efeito, não tanto da ignorância intelectual, quanto e principalmente da fraqueza da vontade, exposta às ocasiões e não sustentada pelos meios da Graça.
“Se, consideradas todas as circunstâncias, alguma instrução individual acerca deste delicadíssimo assunto se torna necessária, quem recebeu de Deus a missão educadora e a graça própria desse estado deve, em tempo oportuno, tomar todas as precauções conhecidíssimas da educação cristã tradicional e suficientemente descritas pelo já citado Antoniano*, quando diz: ‘Tal e tão grande é a nossa miséria e a inclinação para o mal, que muitas vezes até as coisas que se dizem para remédio dos pecados são ocasião e incitamento para o mesmo pecado. Por isso importa sumamente que um bom pai, quando discorre com o filho em matéria tão lúbrica, esteja bem atento, e não desça a particularidades e aos vários modos pelos quais esta hidra infernal envenena uma tão grande parte do mundo; não seja o caso que, em vez de extinguir este fogo, o sopre ou acenda imprudentemente no coração simples e tenro da criança. Geralmente falando, enquanto perdura a infância, bastará usar daqueles remédios que, juntamente com o próprio efeito, inoculam a virtude da castidade e fecham a entrada ao vício’”. (Silvio Antoniano, Dell'educazione cristiana dei figliuoli, lib. II, c. 88).
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* Cardeal Silvio Antoniano, discípulo do admirável educador que foi São Filipe de Nery, e mestre e secretário das cartas latinas de São Carlos Borromeu, a instancias e sob a inspiração do qual escreveu o tratado Della educazione cristiana dei figliuoli.
A multidão marchava decidida e manifestativa em direção à Suprema Corte dos Estados Unidos, bradando slogans de protesto contra a prática do aborto no país. Era a multitudinária e tradicional March for Life, que se realiza todos os anos na capital americana, sempre no mês de janeiro. Alguns slogans, sob a forma de refrões musicais, eram cantados alegremente por vagalhões esparsos de jovens em movimento.
Nesse contínuo mover-se, a imagem de Nossa Senhora de Fátima, levada num andor, causava surpresa a muitos, e a todos profundo respeito. Diante dela, vinham à mente dos participantes os pedidos da Virgem em Fátima, e também as catástrofes anunciadas caso seus pedidos não fossem atendidos. Milhões de inocentes sacrificados nas clínicas abortistas são um indício inequívoco de que tais pedidos foram negligenciados. Fátima continua sendo um apelo, e hoje é também um desafio.
“Muito obrigado por terem dito sim” — disse uma senhora a um membro da TFP americana (American Society for the Defense of Tradition, Family, and Property). Em seguida se inclinou reverente diante da imagem e continuou a caminhar sobre a neve e sob o vento gélido. O que quis ela dizer? Em seu olhar se encontrava a resposta: a TFP havia dito sim ao chamado de Nossa Senhora, bem como aos sacrifícios daí decorrentes.
Um dos participantes da marcha parou diante da imagem de Nossa Senhora e interpelou os custódios: “Por que esse ar tão solene?”. Um jovem que a acompanhava respondeu simplesmente: “Porque eles são os guardas de Nossa Senhora”.
Alguns protestantes tiveram o mau gosto de comparecer à March for Life a fim de criticar os católicos. Após gritar ataques à Igreja e ao Papa, ofenderam Nossa Senhora em brados. Nesse momento, um jovem começou a recitar em alta voz a Ave Maria. Imediatamente todos em volta uniram suas vozes à dele, com aguerrido ímpeto, revidando a ofensa protestante com a saudação à Mãe de Deus. As vozes aumentaram de volume, e com elas a indignação dos presentes. Ao grupelho ultrajante não restou senão calar e desaparecer na multidão.
Quando se deparou com a imagem de Nossa Senhora de Fátima, um jovem cuja esposa acabava de dar-lhe o primogênito interrompeu sua caminhada e a fitou com surpresa e agrado. Nesse instante a evocação da Mãe de Deus era completada pela harmonia longínqua de trompetes e tambores, executada pela exímia banda de música da TFP norte-americana [foto ao lado], cujos acordes realçavam na manifestação a convocação dos presentes ao combate. O jovem pai tirou do bolso um rosário, e ali ficou a rezar. Para ele, a Constitution Avenue (a grande avenida central de Washington) se transformara numa catedral.
Um dos participantes, John Moore, percorreu a pé 4.000 km, de São Francisco (Califórnia) até Washington, portando às costas uma cruz de madeira. Sua filha Laura o acompanhou em automóvel, fornecendo-lhe água e alimentos. Em seu trajeto, John Moore foi ajudado por inúmeras pessoas, até mesmo ateus e indiferentes à questão do aborto, mas comovidas com seu esforço.
A marcha superou em número e seriedade os anos anteriores. Meio milhão de participantes demonstravam seu repúdio ao aborto. Os norte-americanos sabem que, além do aborto, outros graves desvios morais ameaçam seu país e o mundo.
Duas pesquisas de opinião recentes — uma da Universidade Marista, e outra do Instituto Gallup — mostram que a maioria dos norte-americanos (75%) deseja restrições à prática do aborto. Mesmo os que se declaram favoráveis ao aborto passam a achar que ele já foi demasiadamente longe. 53% desejariam eliminar toda forma de aborto ou a maior parte dos casos em que é permitido.
Tal como no ano passado, o Presidente Trump, em transmissão direta da Casa Branca, dirigiu palavras acolhedoras aos manifestantes. O Vice-presidente Mike Pence compareceu com sua esposa ao palanque, no início da marcha [foto ao lado, no telão]. Dali saíram numerosos grupos de paroquianos liderados por seus vigários. Grande era o número de batinas entre os jovens sacerdotes. Alguns bispos se destacavam à frente da marcha. O bispo de Toledo, Dom Daniel Thomas, marchava à frente de seus fiéis. Seguiam-se representantes de ordens religiosas masculinas e femininas, seminários, escolas e colégios. Entre os movimentos do exterior, distinguia-se Droit de Naître [foto abaixo]— associação co-irmã do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira — que combate a prática do aborto na França. [Fonte: Revista Catolicismo, Nº 818, Fevereiro/2019].
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Time lapse video
destroys claim only ‘thousands’ attended 2019 March for Life:
“Os guardas caem por terra” – James Tissot (1836–1902). Brooklyn Museum, Nova York.
Trecho do discurso de Plinio Corrêa de Oliveira no encerramento da campanha da TFP contra a infiltração comunista na Igreja. Pronunciado no dia 12 de setembro de 1968, no auditório da Casa de Portugal, em São Paulo*
Há no Evangelho esta promessa: “Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a Terra”. Devemos entender então como bem-aventurados os que não amam a rixa, nem a briga, nem a violência, porque deles será a Terra. Será deles, pois atrairão a si o amor dos homens que realmente amam o bem. Mas será deles também porque saberão opor-se, com força invencível, a quem os queira jugular por violência ilegítima. Esta é a força cristã do católico, cuja mansidão é a de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Cordeiro de Deus; e a força indomável d’Aquele que também é o Leão de Judá! No momento em que Nosso Senhor foi preso, alguém Lhe perguntou: “És tu Jesus de Nazaré?”. E Ele respondeu: “Ego sum”. Com esta simples resposta — “Eu sou” — os inimigos foram tomados de terror e caíram com a face em terra! Esta é a majestade, a força, a dignidade dos que têm a mansidão cristã! Nosso País é cordato, ama a mansidão, e ao longo da sua história tem fugido às lutas. Mas se algum dia formos ameaçados com a pergunta — “Aceitas a pressão que se quer fazer contra ti? És ainda o Brasil cristão?” — tenho a certeza de que a nação responderá, com uma força que ainda ninguém lhe conhece, mas que está nascendo nas tormentas do momento atual: “Ego sum!”. E todos os agitadores, nossos adversários, serão obrigados a se prostrar e cairão por terra, porque conhecerão isto que existe entre outras coisas autênticas do Brasil novo: a decisão de progredir fiel a si mesmo, fiel à tradição cristã, fiel à família e à propriedade. Com uma força que impressionará o mundo, a nação enfrentará quem tome sua mansidão como moleza, imaginando que pressões possam trazer resultado.
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(*) Fonte: Revista Catolicismo, Nº 817, Janeiro/2019. Aos que desejarem ouvir a gravação deste discurso, ele se encontra no seguinte link: https://www.pliniocorreadeoliveira.info/DIS_680912_infiltracao_comunista_extratos.htm#.XA6tL3RKiUk
"Adoração dos Pastores" – Mattia Preti, séc. XVII. Walker Art Gallery, Liverpool, Inglaterra.
Noite Feliz, a canção de Natal por excelência, ecoa há 200
anos em toda a Cristandade, como um som celestial
Nelson
R. Fragelli
Matéria
especial de Natal publicada na Revista Catolicismo, Nº 816, Dezembro/2018
Stille Nacht, Noite Silenciosa — ou Noite Feliz, na versão brasileira —
traduz em sons o profundo silêncio que inunda de suave tranquilidade a noite de
Natal, envolvendo a imaginação de todos numa atmosfera celestial própria ao
magno acontecimento da Cristandade. Noite sagrada, lembrando a Sagrada Família
e o nascimento de Jesus no silêncio da gruta de Belém. Silêncio...
Profundo recolhimento, acentuado pelos
acordes com que a flauta dos pastores acompanhava as alegres vozes celestiais dos
Anjos anunciando o nascimento do Menino Deus. Tudo é silêncio, calma, harmonia.
Anjos, felicidade, estabilidade. Tem-se o desejo difuso de que essa noite nunca
mais termine. Anunciando um acontecimento celeste, ela nos traz a esperança de chegarmos
à eternidade do Céu. Deus nasceu, e está entre nós. Nada mais precisa
acontecer.
Foi esse estado de espírito
pastoril, angélico, sobrenatural, familiar, íntimo, mas de grande dignidade e grande
alcance simbólico, que inspirou as harmonias do canto Stille Nacht — a
noite silenciosa, santa e tranquila do primeiro Natal. É bem esse o
sentimento que exprimem suas palavras, perfeitamente adaptadas à suavidade da
melodia. Tudo dorme. Sozinho, apenas o casal venerável e santíssimo permanece
desperto — Alles schläft, einsam wacht, nur das traute hochheilige Paar.
Em meio à alegria, a música
exprime doce ternura. E nessa ternura um tanto lírica, uma nota de compaixão,
uma tristeza dentro do festivo — a tristeza pelo frio e pobreza em que nasce o
Menino Jesus. Mas também, mais do que isso, já se percebe uma tristeza na previsão
da Cruz, cuja sombra se projeta sobre a noite de Natal. Assim, no Stille
Nacht a ternura está cercada de suave compaixão, pois Jesus tinha em Belém,
como em todos os momentos de sua vida terrena, a lembrança de que Ele veio para
ser o Redentor, para sofrer e morrer por nós.
Na canção, a afinidade da alma com os coros angélicos
Plinio Corrêa de Oliveira — entusiasmado comentador da canção e em quem
me baseei para muitas explanações contidas neste artigo — dizia que a melodia do
Stille Nacht é simples, popular, mas seu sentido é profundo. Nela se sente
a nota de tranquilidade continuamente acentuada. Não uma tranquilidade
imobilizada e vazia, como a que se adquire com a compreensão apenas intelectual
daquele acontecimento, mas a paz celestial trazida pelos anjos, que anunciavam
o magno acontecimento aos pastores; como a paz angélica dos claustros medievais, onde oravam e meditavam
grandes santos; como a tranquilidade profunda que nos invade ao olharmos
atentamente o firmamento, onde silenciosamente se movem as estrelas; como no Stille
Nacht, onde se movem tranquila e solenemente as notas musicais. Em ambos
domina um repouso celeste, através dos anjos cantando — durch der Engel,
Alleluja.
“De joelhos diante do
Presépio, a contemplação do Menino Jesus nos inspira um respeito sacral,
acompanhado de ternura e compaixão. O amálgama entre o respeito e a compaixão
paira do princípio ao fim nos acordes melodiosos do Stille Nacht. Podemos assim
penetrar docemente no sapiencial e Imaculado Coração de Maria, e ali ouvir a
própria canção d’Ela para ninar seu Filho”, comentou com profunda sensibilidade e enlevo Plinio Corrêa de
Oliveira.
Em alguns de seus arranjos musicais, cantados por um coral, ao término
da canção as palavras emudecem, substituídas por um simples murmúrio gutural. Corresponderia
ao momento em que Nossa Senhora puxa um cobertorzinho sobre seu Filho. Ele
dorme, enquanto a Virgem Mãe e São José continuam a rezar. Na tranquilidade, encerra-se
a canção.
Não, ela não se encerra. Retorna com a
suavidade daquela noite bendita, e continua envolvendo a memória como o perfume
de um bálsamo celeste. A alma se sente coberta por gotas de inocência, que
emanam da Gruta de Belém. Deus está ali. Pode-se sentir Jesus em carne humana — Jesum im Menschengestalt.
Feliz a nação cuja cultura
católica está assim entranhada em todos os aspectos de sua vida. Não se
caracteriza como povo culto aquele que possui famosos gênios entre seus filhos,
mas aquele no qual os sentimentos cristãos impregnam amplamente suas almas. Num
povo assim, um simples pároco do interior pode se unir a um modesto compositor
e conceberem juntos essa altíssima compreensão do nascimento de Jesus em Belém,
entoando-Lhe esse hino de louvor. Sai de seu peito a canção que exprime a
afinidade da alma de seu povo — e de todos os povos — com os coros angélicos. Naturalmente,
inesperadamente, da alma deles desponta essa singela maravilha.
Alegria que eleva à fonte de todas as alegrias
A canção é o chamado de Deus para que o
homem medite no mistério da salvação ali presente. Deus o espera para dar-lhe
perdão, fazê-lo partícipe da grande festa do nascimento de Jesus. Seu orgulho,
sua incredulidade, seus desejos mesquinhos sentem arrependimento em face
daquela inocência. Das alturas douradas do Céu, a plenitude da graça
nos mostra Jesus —Aus des Himmels goldenen Höh’n, uns der
Gnaden Fülle lässt seh’n.
A inocência é calma, traz a apetência
por tudo o que na Terra exprime o maravilhoso. Diante dela a alma evoca sua
infância, seus pais, as florestas por onde passou, as montanhas do alto das
quais descortinou panoramas que a faziam sonhar. Volta a soar para ela a hora
da salvação. A bondade nos lábios divinos faz soar a hora da
graça redentora — Schlägt die
rettende Stunde: Jesus, der Retter, ist da.
Degustar os momentos em que a calma
envolve a inocência é uma das maiores alegrias desta vida. As alegrias do mundo
não são alegrias, apenas excitação, pois não é verdadeira alegria aquela que
não eleva a alma até o Criador, fonte de todas as alegrias. Impregnando-se com as
alegrias do Natal, a alma sentirá um choque ao reencontrar a feiura, a
vulgaridade e o pecado, e fugirá das ilusões que lhe fornece o falso brilho do
mundo — festas, barulheira, ajuntamento e vaidade — Feste Geräusch und Gedräng mit eitlem Gepräng, como diz a versão
alemã do hino “A treze de maio”.
Em confronto com
as verdades que percebe, a alma vê melhor a malícia do erro que a circunda. Os
acontecimentos mundanos são tão tumultuosos e prementes, fazem-nos imergir numa
luta tão forte, que as marcas do tormento, do sangue, das lágrimas tendem a repercutir
negativamente em nossa meditação.
As pessoas e as
coisas não devem ser amadas pelas vantagens que trazem ou pelo prazer que
causam, mas pelo grau de perfeição de que são portadoras. No mundo atual —
desorientado, indiferente a Deus, voltado para sua ciência, suas invenções,
suas diversões — essa visão se afasta. Maria e José não protestaram por terem
sido obrigados a abrigar-se entre animais, no nascimento de Jesus. Naquele estábulo
receberam reis vindos de longe, guiados por uma estrela. Esses reis se ajoelharam
também diante do Menino e Lhe ofereceram preciosos presentes, reconheceram-no
como Rei do Universo. A dignidade da Sagrada Família, em meio à pobreza e à
privação, desperta nobres sentimentos, pois configura um dos mais salientes
traços da nobreza de espírito.
O Menino Jesus — contrastes do Santo Natal
Painel representando o Natal, que se encontra
no interior da Capela de Oberndorf
O
Divino Infante está na manjedoura. Embora cercado de pobreza, sua grandeza é infinita
— tão pequeno e tão grande. Ali mesmo Ele poderia manifestar-se terrível, se quisesse
nos mostrar sua força. Mas desejou colocar-se ao nosso alcance, para nos atrair
a uma familiaridade conosco, ter um contato em família, desembaraçado. Assim, fez-se
menor do que nós quem é infinitamente maior que todos nós juntos. Não desejou que
nos extasiássemos, vendo-O como criador do Céu e da Terra, presidindo a História,
inspirando as ações dos bons e punindo os pecados dos maus. Ao nascer,
apresenta-se a cada um de nós tão pequeno, que nossa admiração exclama: Como é possível, sendo Ele tão grande, fazer-se
tão pequeno? Deitado num estábulo, sentindo frio, chegou ao extremo de
provocar pena, como incentivo para a admiração!
Sua
majestade infinita se mostra cheia de ternura. Ele quer ser amado, e sabe que
não conseguiríamos amá-Lo se não se apresentasse menor, como um ser humano.
Esta verdade, a grande lição do Natal, é sugerida pela delicadeza harmônica do Stille
Nacht. Em sua bondade, para mostrar proporção conosco, Ele se fez criança,
o menino encantador de cabelos cacheados — Holder Knabe im lockigen Haar.
De
joelhos diante do Presépio, a contemplação do Menino Jesus nos inspira um
respeito sacral, acompanhado de ternura e compaixão. O amálgama entre o
respeito e a compaixão paira do princípio ao fim nos acordes melodiosos do Stille Nacht. Podemos assim penetrar docemente
no sapiencial e Imaculado Coração de Maria, e ali ouvir a própria canção d’Ela
para ninar seu Filho.
A graça de Deus trazida à Terra pelo Salvador
Menino Jesus, catedral de Buenos Aires [Foto Luis Guillermo Arroyave]
O encanto do
Natal está em sabermos que o Criador que acaba de nascer — esse Homem-Deus — traz
consigo todas as belezas possíveis da alma humana. Sendo divinamente grande, o
Menino Jesus mostra-se pequeno na Gruta de Belém. Segundo a liturgia, Ele é
pequeno, mas o firmamento celeste é insuficiente para contê-Lo. No Natal nós O
vemos numa manjedoura: fraco, entregue ao zelo dos homens, de Maria, de José, à
adoração dos Magos e dos pastores, ao bafo dos animais que O aqueceram naquela noite
de inverno. Embora tenha criado o Sol, era então acalentado, no frio da Gruta,
não pelo astro-rei, mas pelo bafo dos animais.
Dava-nos assim
uma lição sobre a dignidade da vida: na ordem hierárquica da criação, um boi
vale mais do que um sol, porque o boi tem vida e o sol não a tem. Imensa
humildade. Deixa-se aquecer pelo bafo de um simples animal, nesta Terra de
exílio, Aquele que criou o sol. Há nesta honra primeira uma glorificação da
vida e de tudo o que é vivo. Quando o sol “dormia”, o boi estava acordado e os
anjos convocavam os pastores.
Percebem-se facilmente os contrastes
magníficos que nisto se contêm. Deus nos faz assim entender que o menor dos
homens — o mais torto, o mais limitado, o mais doente — é muito mais do que o Sol.
Desde que não seja pecador, desde que seja fiel à graça de Deus trazida à Terra
pelo Salvador, faz soar para ele, no seu
nascimento,a hora da graça redentora —Da uns
schlägt die rettende Stund’, Christ in deiner Geburt!
A grandeza do que é pequeno
Capela de Oberndorf, construída no lugar em que ficava a igrejinha de São Nicolau, onde se interpretou pela primeira vez o Stille Nacht
Ele veio para
salvar a todos. O menor dos homens vale mais do que o sol. Nosso Senhor Jesus
Cristo entra na Terra dando-nos esta lição magnífica e inesquecível. Fez-se
pequeno para mostrar a grandeza do que é pequeno, de tudo que germina, de tudo
que se desenvolve a partir de um determinado ponto, de tudo que nasce e tem
vida. Lição inesquecível, especialmente numa época como a nossa, em que a vida
é tão ultrajada pelo aborto e pela eutanásia.
Jesus nasceu
dentro da adversidade. Ninguém acolheu seus pais, apesar de Maria estar próxima
de dar à luz. Perseguida por Herodes, a Sagrada Família fugiria para o Egito
pouco depois. Herodes mandaria matar inocentes, esperando assim livrar-se do
Menino Deus. Lição inesquecível para os nossos dias, em que a virtude é
perseguida e a vida inocente é eliminada aos milhões.
Uma canção longamente desejada pela Cristandade
O Pe. Joseph Mohr e Franz Xaver Gruber,
autores, respectivamente, da letra e da música do Stille Nacht
Até 1818,
passados muitos séculos da era cristã, o cântico de Natal popular e perfeito
não tinha ainda aparecido. Dir-se-ia que toda a Cristandade tateava nas
sombras, à procura de uma expressão musical para honrar o Menino-Deus em seu
nascimento. Foi então que a alma enlevada de um simples vigário de aldeia,
associando-se com a sensibilidade artística de um modesto mestre de escola, impregnou
com palavras combinadas com sons musicais o que as pessoas sentiam a propósito
do Natal. Poeta e compositor, para comemorarem a noite do nascimento de Nosso
Senhor Jesus Cristo, exalaram em uníssono a canção natalina da qual se pode
dizer que a humanidade tinha pressa para cantar. Acumulando-se imperceptivelmente
esse anseio em toda a Cristandade, ele encontrou nessas duas almas a expressão perfeita
através do Stille Nacht. Na hora
desejada pela Providência, compuseram a canção imortal; o mundo ouviu-a
maravilhado; e ela se tornou a canção de Natal por excelência.
A singela história de um hino providencial
Instrumento no qual o Prof. Gruber
compôs a música do Stille Nacht
Hertha Pauli* conta
no livro Ein Lied vom Himmel a
história do Stille Nacht. Informa que
na Áustria a aldeia de Oberndorf é vizinha de Salzburg, famosa cidade de Mozart.
No centro dela, às margens de um sonoro riacho de montanha, o Salzach, ergue-se
a igreja de São Nicolau, cuja torre domina a paisagem. Em 1818, São Nicolau era
uma pequena e pobre igreja, cercada de poucas casas. Visto de um dos altos
picos que o rodeiam, esse pequeno conjunto arquitetônico parece um remoto ninho
de pássaros entre altas montanhas.
Era vigário de
São Nicolau o jovem sacerdote Pe. Joseph Mohr. Havia também na aldeia uma
escola, cujo mestre era Franz Xaver Gruber, bom organista e apreciável compositor,
grande amigo do Pe. Mohr. Eram as pessoas mais instruídas da aldeia. Franz era
cinco anos mais velho que o Pe. Mohr, e tinha 29 anos quando foi nomeado para a
escola de Oberndorf. Na tranquilidade da aldeia, podiam calmamente seguir as
inspirações poéticas e musicais de seus corações. Gélidos invernos os recolhiam
em suas casas, onde se dedicavam a escrever e a compor.
Com nítida veia
poética, o Pe. Mohr frequentemente exprimia seus pensamentos através de bons e
despretensiosos versos, onde interpretava sentimentos de sua região e de seu
país. Às vésperas do Natal de 1818, repassava ele o olhar pelas montanhas
vizinhas — cujos sendeiros costumava trilhar nas visitas pastorais aos
paroquianos, no silêncio dos vales e em meio a pinheirais nevados — e sentia
promessas de paz e bênção próprias da Noite Sagrada em que nascera o Salvador. Essas
percepções de sua sensibilidade faziam-no caminhar suavemente por entre os flocos
de neve abundantes, acompanhando o repicar dos sinos nas aldeias vizinhas.
Ocorreu-lhe oferecer ao Menino Jesus, naquele ano, a poesia que latejava em seu
peito. Escreveu então um poema curto, inocente e puro, que é hoje a letra da
canção de Natal mais famosa do mundo — o Stille
Nacht.
Estreia modesta, no Natal de 1818
Na Abadia de São Pedro, famosa por sua escola de música,
o estudante Felix, fi lho do Prof. Gruber,
conhecia de cor o Stille Nacht e o ensinava a pássaros canoros.
O Pe. Mohr logo mostrou
o poema ao seu amigo Gruber. O mestre de escola recebeu a folha do sacerdote,
leu-a atentamente, e confidenciou:
— Estes versos também
palpitam em minha alma.
Releu o poema,
já cogitando notas musicais para cada frase, e pediu licença para compor uma
canção:
— Se a
composição sair bem, talvez possamos entoá-la na noite de Natal.
Às primeiras
notas — ainda hesitantes, sucessivamente corrigidas, modificadas, mas já
surpreendentemente encantadoras — o Pe. Mohr se deixava maravilhar. Levaram logo
texto e partitura ao coral da igrejinha de São Nicolau, composto de paroquianos
de boa voz, que a admiraram e ensaiaram. Enlevado, o coro a cantou pela
primeira vez naquela noite de Natal de 1818.
Pouco depois, um
conhecido construtor de órgãos, Karl Mauracher, de passagem pela aldeia, ouviu em
recolhido silêncio a canção natalina recém-composta. Cofiando sua longa barba, disse
pausadamente:
— Gostaria de
ouvir isso mais uma vez, senhor Gruber.
O professor atendeu
ao pedido do instruído organista, e juntamente com o sacerdote voltou a
entoá-la. Ao retornar à sua cidade, Mauracher pediu licença para levar a letra
e a partitura. Lá chegando, enviou-a a outros coros, recomendando-a com a sua
autoridade musical. Não houve quem não a admirasse, e ela passou a ser
executada por ocasião das festas de Natal, pois seria inapropriada fora do
ambiente natalino. E assim, de Natal em Natal, em todos os lugares onde era
apresentada, a canção transportava as almas para a manjedoura onde dormia o Divino
Menino, impregnando-as com a unção que emana da Sagrada Família.
O Stille Nacht despertava as imaginações. Mas
é exatamente esta a finalidade da música. Era como uma fresta entre as tábuas
do estábulo de Belém, através da qual se podia ouvir e sentir aquele momento
grandioso da Gruta bendita, na convivência doméstica da Sagrada Família. Começou
assim a expandir-se a música pela região vizinha do Tirol, depois pela Áustria
inteira. Transpondo os Alpes, atingiu a Alemanha, sendo desde então entoada com
ternura e compenetração em todo o mundo cristão.
À procura do autor de Stille Nacht
O jovem cantor – Georges de La Tour, séc. XVII. Coleção Particular.
Pouco se sabe sobre os autores do Stille Nacht. Em suas várias
apresentações iniciais, a canção era tida como popular, de autor
desconhecido, enquanto os dados sobre seus autores se perdia. O problema da
autoria foi resolvido a partir do momento em que Frederico Guilherme, Rei da
Prússia, ouviu-a num concerto da corte em 1854. Profundamente impressionado e comovido,
quis conhecer seu autor. Supôs que ainda estivesse vivo, pois até então nunca
ouvira essa obra tocante. Ninguém sabia informá-lo, nem mesmo seu renomado
Mestre dos Concertos Reais, que recebeu então a incumbência de descobrir o nome
do compositor.
Tomando a sério sua
responsabilidade, o Mestre mergulhou nas bibliotecas do reino, a começar pela
de Berlim. Nada encontrando na Alemanha, foi a Viena e Salzburg. Interrogou
membros de orquestras e corais, os melhores professores de música de Salzburg, onde
vicejaram Mozart e outros excelentes compositores. Todos concordavam em que a
canção era recente e muito admirada pelo povo, mas ninguém podia fornecer pista
sobre os autores. Tentaram resolver a questão, baseando-se em alguns indícios,
e escreveram a Frederico Guilherme que “tudo indicava ser Michel Haydn seu
autor”. Michel era irmão do grande compositor católico Joseph Haydn.
Mas a carrancuda
precisão prussiana não podia dar-se por satisfeita, e era preciso saber quem
compôs essa maravilha. O Mestre de Concertos Reais de Berlim, antes de retornar
desanimado, pediu ao inspetor do coro da Abadia de São Pedro, em Salzburg, para
“tentar fazer alguma coisa”. Ele tentou. E deu certo.
Stille Nacht na voz de um passarinho
Na Abadia de São
Pedro, famosa por sua escola de música, o estudante Felix Gruber conhecia de
cor o Stille Nacht e o ensinava a
pássaros canoros. Uma vez bem ensaiados, eram vendidos a bom preço,
contribuindo para rechear sua magra bolsa. Num dia em que ele entoava a canção
no pátio da escola, após um ensaio com seus pássaros, o inspetor ouviu-a e o
interrogou:
— Como você
conhece essa música?
— Meu pai a
compôs — respondeu Felix.
— Seu pai?
— Sim, sou filho
do ex-Mestre de Escola de Oberndorf, Franz Xaver Gruber, e foi ele o compositor
da música Stille Nacht.
O inspetor partiu
imediatamente com seu aluno para a casa de Franz Gruber. Ali chegando, foi a
vez de se alvoroçar o compositor:
— O inspetor do
coro da grande abadia de Salzburg à minha porta?!...
A conversa entre
Gruber e o inspetor foi exultante.
— Sim, compus
essa música para as seis estrofes escritas pelo Pe. Mohr, meu grande amigo, há 35
anos.
Um ano após escrever
a letra do Stille Nacht, o sacerdote
deixara Oberndorf, falecendo em 1848 quando era pároco de Wagram.
Ali mesmo,
diante do inspetor, Gruber lavrou um documento testemunhando ser o procurado
compositor do Stille Nacht. Corrigiu
errôneas modificações introduzidas na partitura, e enviou cópia ao Mestre dos Concertos
Reais. Algumas semanas mais tarde, recebeu uma carta em que o Rei da Prússia o saudava
reverentemente. A partir de então, o Stille
Nacht deixou de ser uma composição de autor
desconhecido.
Stille Nacht, um convite para meditação
Adoração dos Reis Magos – Jerónimo Ezquerra, séc. XVII. Coleção Carmen Thyssen-Bornemisza, Madri.
Os autores do Stille Nacht dotaram sua música com o sentimento de carinho que desperta
no Presépio uma frágil criança — com as suas debilidades físicas, chorando, com
frio — que, no entanto é o próprio Deus! Deus com a formosura de um menino
perfeito, mas destinado a sofrer tanto; uma criança que abre seus pequeninos braços
em forma de cruz, pressagiando as insondáveis dores pelas quais deveria passar.
Inspira-nos indizível ternura por quem se encarnou para o nosso bem, para a
nossa salvação, sem outra finalidade senão a de sofrer por nós, a Redenção longamente desejada — Lange
schon uns bedacht.
Tudo isso desperta no mais alto grau os sentimentos de
ternura e compaixão, mas constitui um paradoxo aplicarmos esses mesmos sentimentos
em relação a um Deus infinitamente mais poderoso que nós. Sentimento paradoxal,
sim, mas de modo algum contraditório. O cálice de dor que bebemos com Ele deve
exprimir compaixão altamente delicada, de alta sensibilidade de alma para ser
digna d’Aquele que de fato merece tal compaixão, mas que também é Deus
onipotente. As palavras e a melodia do Stille
Nacht, se bem meditadas, despertam esses sentimentos por nosso Criador.
Na realidade, a meditação sobre a vida de Nosso
Senhor compõe uma sequência de admirações. Ao primeiro movimento de admiração
pelo Homem-Deus que nascia, Ele quis associar nossa compaixão pelo Menino pobre
e isolado na Gruta de Belém. Do mesmo modo, 33 anos mais tarde, chegado ao
termo de sua vida terrena, quis também a nossa compaixão por sua dor, associada
à nossa admiração por seu martírio: Meu
Deus, eu tenho compaixão de Vós.
O perfeito equilíbrio da alma católica
Os Meninos Cantores de Viena durante um concerto de Natal
A noite de Natal,
noite de graças por excelência, encontra no Stille
Nacht a meditação apropriada para as situações angustiantes criadas pela
sociedade moderna. Os acontecimentos que nos circundam são prementes e tumultuosos.
Dentro de uma luta tão forte, é impossível ouvirmos o Stille Nacht sem serem despertadas na alma as marcas do tormento,
do sangue e das lágrimas, agora aliviadas pela Redenção longamente desejada — Lange schon
uns bedacht, als der Herr vom Grimme befreit, in der Väterurgrauer Zeit — Assim nosso espírito deve se apresentar
ao Menino Jesus.
Genuflexos
diante do presépio, contemplando o Menino que também é Deus, a alma se enche de
respeito sacral, acompanhado de ternura e compaixão. Respeito e compaixão parecem
à primeira vista sentimentos incompatíveis, mas a música do Stille Nacht os inspira do princípio ao
fim. Estende-os também ao respeitabilíssimo e santíssimo casal, o único que
permanece acordado — nur das traute, hochheilige Paar. Mas algo na
música vai muito além, consegue exprimir também de modo extraordinário o
sentimento dos pais despertos, enquanto contemplam o menino encantador de cabelos cacheados — holder Knabe im lockigen Haar.
Ouvindo
esses sons maviosos, podemos sentir-nos conduzidos ao Imaculado Coração de
Maria, e nele ouvir o próprio hino de amor da Virgem Santíssima: Meu filho, meu Deus tão pequenino, tão
grande e tão adorável, como te respeito e protejo! É a inspiração ápice da
noite de Natal. Assim como dois arcos góticos se encontram no alto da ogiva,
nessa inspiração se encontram os mais sublimes sentimentos que o Stille Nacht traz consigo. A música os apresenta
do começo ao fim — ora a gravidade do pensamento adulto, ora a inocência
infantil. É quase um diálogo entre o adulto e o menino, em uma harmonia incomparável.
Amálgama harmonioso de alegria e tristeza
Majestoso órgão da catedral de Sevilha, na Espanha
Percebe-se clara e sutilmente no Stille Nacht um misto de alegria e tristeza. O Menino nasceu:
alegria; mas nasceu para ser vítima: tristeza. Tem-se por vezes a impressão de
que Ele chora, e em outros momentos parece sorrir. É possível que os variados
reflexos do canto se façam sentir diferentemente de pessoa a pessoa, no entanto
todos são tocados profundamente por esta unidade de sentimentos: Deus infinito
e adorável, mostrando-se em sua pequenez.
A percepção da tristeza num momento de
esplendor é muito útil no combate ao ateísmo materialista deste século. Concomitante
com os momentos de uma nota de alegria maior, ou de tristeza maior, há desde o início
no Stille Nacht uma nota de tristeza
augusta ao lado de uma admiração jubilosa. E prossegue até o fim, quando fala do
pecado de Adão: als der Herr vom Grimme befreit, in der Väter urgrauer Zeit — desde que o Senhor aliviou aos nossos pais o castigo e a amargura,
prometendo a Redenção.
De forma similar
à que transparece nessa melodia, as catedrais góticas inspiram um amálgama
harmonioso de alegria e tristeza, que perpassa toda a atmosfera interna dessas
maravilhosas obras arquitetônicas. Em uma catedral cuja rosácea é batida pelo
sol há também penumbra à meia luz. Da rosácea radiante partem dardos de luz
multicolor, espalhando safiras, esmeraldas, rubis e outras cores pelo chão. Mas
sem a penumbra cercando esses reflexos coloridos, não veríamos o esplendor dos
seus matizes. É uma composição de alegria e dor — alegria pelas razões certas,
e dor pelas razões opostas, mas também certas — que forma um dos mais altos
aspectos do equilíbrio da alma humana.
Sacrifício e alegria nos cantos litúrgicos
Este aspecto da
vida da Igreja se exprime nitidamente na liturgia tradicional, universalmente
praticada no tempo em que o Stille Nacht
foi composto. Olhando em torno de nós, encontraremos com frequência a concepção
de que durante a Semana Santa só se deve pensar na dor e no pranto do Calvário,
e no Natal só cabem júbilo e alegria. Mesmo entre almas assíduas aos
sacramentos, muitos pensam assim. Mas o que se pode realmente sentir em
presença da liturgia compungida da Semana Santa, por exemplo, é a tristeza pela
morte do Salvador, mas com aspectos de esperança que nenhuma dor consegue
apagar. Logo depois, na comemoração da Páscoa, acentua-se quase só a presença
de uma luz intensa e gloriosa, pois Nosso Senhor ressuscitou, e além disso foi
consumada a nossa redenção.
Para os que
vivem num mundo de gargalhadas e gozo da vida — feste Geräusch und Gedräng, mit Trunk und Geladen und eitlem Gepräng
— a grandiosa liturgia católica parece enfadonha, pois só sabem viver em busca
de prazeres fugazes. Ignorando a alegria da dor, e só concebendo a dor sem
alegria ou a alegria sem dores, uma alma assim está rachada por dentro, incapaz
de degustar nos acordes do Stille Nacht
a paz que sobrepaira um ambiente de alegria na dor. Não sabe mais distinguir na
tranquilidade do Natal a paz imensa que nos trouxe o sacrifício generosamente
aceito por Jesus Cristo, tão bem expressa nos vários tempos da liturgia católica.
Quão raros são, hoje em dia, os sermões em que transparece
essa mescla de sentimentos. Foram mais numerosos outrora, num tempo em que os
pregadores viviam intensamente antes o que iriam pregar depois. Mostravam então
aos seus ouvintes o que conheciam por experiência própria, com a autenticidade
que hoje lhes falta. Sabiam pintar para seus ouvintes a verdadeira dor, no
fundo da qual habita a alegria inefável de Nosso Senhor e Nossa Senhora, Ele na
cruz e Ela ao pé da cruz. Pregando a alegria, sabiam comunicar também as que
não são contrárias à dor, mas preparam para bem aceitá-la. Quem não vê na
alegria tranquila do Stille Nacht uma
preparação para a Paixão? Quem não percebe, em meio às alegrias de Belém, um
pouco dos soluços de Nossa Senhora aos pés da Cruz?
Representando no contexto da Gruta de Belém as
variegadas sonoridades com que foi concebido, o Stille Nacht comunica suavemente às almas um misto de submissão do
espírito aos mistérios de nossa Fé, de reverência pelos insondáveis desígnios
de Deus, convida à oração e meditação. Pode-se nitidamente acompanhar na música
as alternativas. Cada vez que os tons são mais baixos, trazem-nos ao espírito a
ternura vigilante que pousa sobre o berço, transparente na atenção dos Pais inclinados
sobre a manjedoura. Se o Menino chora, a Mãe O consola. Quando o momento é para
lembrar que Deus ali está, o canto traz a fulgente ideia de um sopro
sobrenatural banhando o entendimento. Então: HeiligeNacht!
Desejo
intenso de salvar as almas
Selo comemorativo do bicentenário da canção Stille Nacht
Talvez seja ainda mais comovente outro aspecto do Natal. De acordo com
a realidade histórica, contemplamos ou imaginamos o Menino Jesus na manjedoura,
à espera dos que vão a Ele. De fato o Menino Jesus nasceu e foi posto numa
manjedoura; os pastores, os habitantes das redondezas e os Reis Magos foram
adorá-Lo ou dar-Lhe as boas vindas; outras pessoas terão passado por lá em
inteira reverência; Nossa Senhora e São José O adoraram sempre.
Junto a esta realidade há outra, fundamentalmente teológica e
sobrenatural, tão mais comovedora e não menos real, que dela não se dissocia:
Jesus procurava almas. A partir da noite de Natal, o Menino Jesus percorreu o
mundo de modo sobrenatural, invisível, à procura de almas. Convidava cada uma
para vir a Ele, a fim de O conhecer e amar, pois trazia a salvação para o
mundo — die der
Welt Heil gebracht.
Jesus tinha a sede de almas, que o acompanhou durante toda a vida, em
tudo o que ensinou, até mesmo nas polêmicas contra os fariseus. Sua sede não foi
saciada até o alto da cruz, quando em sua agonia disse: Tenho sede. Além da sede
física, os teólogos afirmam que ele tinha a sede das almas, e sempre procurou
atraí-las a Si: Como Ele os amava, amou-os até o fim — afirma a
Escritura.
Através da melodia, o Menino Jesus visita as almas
Canção tão suave e singela pode ser cantada numa cidade católica, em
igrejas, em oratórios públicos, em presépios públicos; seria bem acolhida numa
casa de família adornada para o Natal, numa escola, numa universidade. Ouvindo
o pequeno coral da paróquia, o órgão aparatoso da catedral, as melodiosas vozes
infantis ou de anciãos, o fiel pode sentir-se movido por seu Anjo da Guarda e
tocado por um trecho mais adequado à sua sensibilidade. Uma entonação especial
o atrai de modo particular, fixa-se em sua alma, e intimamente ele exclama
extasiado: Meu Senhor e meu Deus! É a graça incidindo sobre a alma por meio daquela harmonia.
Cessado o canto, ela o acompanha de volta ao lar. E em determinado
momento, enquanto se dedica a algo da vida caseira, volta-lhe de repente à
memória aquele trecho, pela ação conjugada da graça com a natureza. Parando e
cogitando, ele então repete: Meu Senhor e meu Deus! É um modo
frequente de o Menino Jesus visitar as almas através da melodia. Assim Ele toca
suavemente uma alma, a propósito da música, e depois retribui a visita indo ao
encalço dos homens, a quem ele sempre quer fazer o bem. A todos os homens de todas as idades, de todas as línguas, de todas as
condições sociais, Ele procura de modo especial na noite de seu aniversário, e lhes
diz alguma coisa através dos trechos do Stille Nacht que lhes tocam o
coração. É a sede de almas — tenho sede — que já o movia quando ainda Menino.
Canção
consoladora dos aflitos e perseguidos
A canção não sensibiliza apenas os que festejam no conforto do lar,
pode também suavizar, em larga medida, o Natal dos tristes, levando alegria aos
lugares onde há tristeza, como manifestação de sua força tão suave.
Pode-se imaginar um católico perseguido, encerrado numa sinistra prisão
comunista da China ou de algum país muçulmano. Ouvindo ao longe essa canção
vinda da única igreja aberta aos fieis naquela região, ele se ilumina e diz: Agora é Noite
de Natal.
Do fundo de sua cadeia, de seu isolamento, num lugar onde só o cercam ódio,
perseguição, pobreza, tristeza, onde todo momento é de aflição e toda aflição
faz nascer mais uma angústia, esse homem, se tem fé, ajoelha-se e diz: Senhor, hoje
é vosso santo Natal. Logo aos primeiros acordes, uma alegria instantânea penetra
nos muros intransponíveis do cárcere, o homem reza e se lembra: Stille Nacht, heilige Nacht, Alles schläft,
einsam wacht, nur das traute hochheilige Paar — Noite
silenciosa, noite Santa, todos dormem. Só e desperto, apenas o fiel e
santíssimo casal.
Do fundo
de seu isolamento ele pode dizer: Ó Deus, não é só o Santíssimo Casal — das traute hochheilige Paar — que está acordado, mas também eu, o
prisioneiro. Olhai, ó meu Deus, para meus pulsos: estão carregados de cadeias.
Quando me movo, meu Deus, eu ouço o arrastar das correntes no chão. Prendem-me
os pés e baixam dos meus pulsos até o chão. Fazem barulho enquanto eu ando, e despertam
guardas que vêm me perseguir como se eu fosse um bicho, trancafiar-me, pois não
tenho direito de viver fora destas quatro paredes. Meu Deus, tudo isso é
verdade. Quanto tempo ficarei aqui? Não sei. Dai-me, eu vos peço por meio de Vossa
Mãe, coragem até o dia de minha libertação, quando poderei cantar no coro de
minha paróquia: Stille
Nacht, heilige Nacht. Minha
solidão e minha dor, minha alegria e minha esperança, de algum modo lembram a
solidão e a dor, a alegria e a esperança da vossa Sagrada Família naquela noite
bendita de Belém.
Compunção e a esperança jubilosa do Natal
Um dos primeiros encantos da criança, no contato com a Igreja
Católica, é o majestoso som do órgão. Ela não sabe ainda ao certo o que é
alegria nem o que é dor. Entretanto, sente no órgão afinidade com a paz do
Natal e com a gravidade da Semana Santa. Ainda tão pequeno, o menino não passou
pelos grandes sofrimentos nem entendeu o júbilo das grandes vitórias. Mas o órgão
coloca suavemente no fundo de sua alma, com mão materna, disposições afins ao
que mais tarde verá serem os sentimentos de alegria ou de dor.
Nos acordes de tudo que o órgão toca há sempre a compunção da
Sexta-feira Santa, associada à esperança jubilosa do Natal. Quando o órgão
acompanha o canto do Stille Nacht,
cada palavra evoca a grandeza de uma catedral, seu caráter profundamente
religioso, sua serenidade, tranquilidade e dignidade. Leva-nos a compreender
que é a voz da Igreja, cantando ao sopro do Espírito Santo o dom grandioso que Deus
nos fez por intermédio dela.
Stille
Nacht, heilige Nacht
Stille Nacht, heilige Nacht,
alles schläft, einsam wacht,
nur
das traute, hochheilige Paar.
Holder Knabe im lockigen Haar,
schlaf’ in himmlischer Ruh’,
schlaf’ in himmlischer Ruh’!
Stille Nacht, heilige Nacht,
Hirten erst kundgemacht!
Durch der Engel Halleluja
tönt es laut von fern und nah:
Christ, der Retter, ist da!
Christ, der Retter, ist da!
Stille Nacht, heilige Nacht!
Gottes Sohn, o wie lacht
Lieb’ aus deinem göttlichen Mund,
da uns schlägt die rettende Stund’,
Christ, in deiner Geburt!
Christ, in deiner Geburt!
Stille Nacht, heilige Nacht,
die der Welt Heil gebracht,
Aus des Himmels goldenen Höh’n,
uns der Gnaden Fülle läßt seh’n,
Jesum in Menschengestalt!
Jesum in Menschengestalt!
Stille Nacht, heilige Nacht,
wo sich heut’ alle Macht
väterlicher Liebe ergoß,
und als Bruder huldvoll umschloß,
Jesus die Völker der Welt!
Jesus die Völker der Welt!
Stille Nacht, heilige Nacht,
lange schon uns bedacht,
als der Herr vom Grimme befreit,
in der Väter urgrauer Zeit
aller Welt Schonung verhieß! Aller Welt Schonung verhieß!
Noite silenciosa, noite Santa
(tradução literal)
Noite silenciosa, noite
Santa,
todos dormem. Só e desperto,
apenas o fiel e santíssimo casal.
O menino encantador de cabelos cacheados
Dorme em paz celestial,
Dorme em paz celestial!
Noite silenciosa, noite
Santa,
Aos pastores foi dado o primeiro anúncio
através dos anjos
cantando
em voz alta, de longe e
de perto:
Cristo, o Salvador, está aqui!
Cristo, o Salvador, está aqui!
Noite silenciosa, noite
Santa
Ó, como sorri o Filho de Deus.
A bondade nos seus lábios divinos
Faz soar a hora da graça
redentora
Cristo, no seu
nascimento!
Cristo, no seu nascimento!
Noite silenciosa, noite
Santa,
traz a salvação para o mundo,
Das alturas douradas do Céu,
A plenitude da graça nos
mostra
Jesus em carne humana!
Jesus em carne humana!
Noite silenciosa, noite
Santa,
Em que o poder do Pai
Derrama hoje seu amor,
e gentilmente, como irmão,
Jesus abraça os povos do
mundo!
Jesus abraça os povos do mundo!