25 de fevereiro de 2019

Homossexualismo, pecado gravíssimo contra a natureza

O Papa São Pio X em foto feita em 1905
A doutrina Católica condena o homossexualismo, que é contrário à ordem natural das coisas e à família. O Catecismo de São Pio X (1910) [foto acima] afirma que o “pecado de impureza contra a natureza" é considerado como daquelas perversidades que "bradam a Deus por vingança” (nº 966). Isto porque, “mais do que outros pecados, apresenta uma assinalada e manifesta malícia, e atrai de modo insigne a ira e a vingança de Deus sobre aqueles que o cometem” (Cardeal Pedro Gasparri, Catechismus catholicus, Tipis Poliglotis Vaticanis, 15ª ed., p. 258). 

Tendo em vista o atual julgamento no Supremo Tribunal Federal [vide post anterior] — que assim como se condena uma hostilidade de caráter racista, poderá condenar injustamente quem se manifestar contra o homossexualismo, desse modo criminalizado a chamada "homofobia" —, recomendo a audição da gravação de uma entrevista do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira ao SBT, concedida em 29 de outubro de 1992. Aqueles que desejarem o texto da mesma podem obtê-lo no seguinte link:
https://www.pliniocorreadeoliveira.info/ENT_921029_homossexualismo.htm

22 de fevereiro de 2019

STF pode tornar crime defender a Moral Católica


Comunicado do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira

Todos os brasileiros são defendidos pela Lei quando agredidos. Querer criar uma categoria de pessoas cuja prática moral não pode ser discutida não é defender o pluralismo de idéias, mas silenciar, discriminar e perseguir os contrários. 


Há mais de 30 anos, Plinio Corrêa de Oliveira dizia que ser católico se tornaria inconstitucional no Brasil por causa do avanço do homossexualismo[i]. 

Segundo a doutrina católica, a prática do ato homossexual constitui um pecado grave, intrinsecamente desordenado, que “brada aos céus e clama a Deus por vingança”. Tanto as Sagradas Escrituras (a Bíblia) como a Tradição da Igreja condenam claramente essa prática. 

Nas últimas décadas, entretanto, fez-se um silêncio crescente a respeito da moral natural e da moral católica nessa matéria, ao mesmo tempo em que uma ampla campanha favorável à prática homossexual foi lançada através dos meios de comunicação de massa. 

Mesmo assim, dentro da sociedade democrática em que vivemos, tanto os defensores da moral católica como os seus opositores podem se manifestar livremente, publicar livros, fazer campanhas públicas e defender suas posições. 

Essa liberdade, agora, está ameaçada pelo julgamento no STF, que pode considerar inconstitucional ser contra o homossexualismo; equiparando o repúdio à prática homossexual ao crime de racismo e aplicando as mesmas penas, inclusive a pena de prisão. 

Nesse sentido, o voto do Min. Celso de Mello, relator do processo, foi de grande gravidade, praticamente “criando” um novo tipo penal de “homofobia”

Em uma época em que a esquerda defende que o aborto deixe de ser crime, assim como deseja liberar as drogas, e ataca o que considera como punitivismo (punir em demasia), essa mesma esquerda entra com um processo querendo criminalizar e punir os que são contrários à prática homossexual. 

Em nome da “não discriminação”, discriminam-se os que defendem publicamente a posição católica nessa matéria. 

Sobre isso, é preciso esclarecer que a palavra “discriminar” está sofrendo uma mudança de conceito com o propósito de quebrar a resistência da sociedade a essas transformações morais. 

Toda lei discrimina, tanto a lei de Deus como a lei dos homens, ao separar o lícito do ilícito, o certo do errado, e punir o crime. Toda pena de prisão é uma discriminação contra um ato considerado crime. A palavra, portanto, é neutra. O ato de discriminar se torna censurável, errado, na medida em que ele é usado para perseguir o bem, como está se dando agora. 

O ministro Celso de Mello, embora reconheça o direito dos que seguem a Lei de Deus de “narrarem” passagens da Bíblia contra o homossexualismo, por outro lado também afirma que nenhuma liberdade religiosa ou mesmo liberdade de expressão é absoluta e que nenhum discurso de ódio pode ser tolerado… 

O termo “discurso de ódio” é suficientemente amplo para poder ser usado contra qualquer pessoa que critique, publicamente, o ato homossexual. Mesmo podendo relatar o que está nas Sagradas Escrituras, os cristãos poderão dizer que o homossexualismo constitui um vício? Poderão eles repudiar uma conduta que consideram intrinsecamente desordenada, como está no Catecismo Católico? 

A Bíblia, quando afirma taxativamente que os efeminados não herdarão o Reino de Deus (1, Coríntios, 6, 9-10) está apenas narrando um fato? Ou essa afirmação pode ser considerada como uma discriminação a um grupo social? Ficará a circulação da Sagrada Escritura dependendo das interpretações de cada juiz? 

Assim ocorreu em diversos regimes totalitários, notadamente com os comunistas, que chegaram a proibir ou a censurar a Bíblia por conter trechos que não eram do agrado do regime. 

Apesar de enaltecer a democracia brasileira, o relator do STF acusava os contrários ao homossexualismo de serem: “cultores da intolerância, cujas mentes sombrias rejeitam o pensamento crítico, …repudiam o direito ao dissenso, …ignoram o sentido democrático da alteridade e do pluralismo de ideias”… que se apresentam como corifeus e epígonos de sectárias doutrinas fundamentalistas. (Grifos nossos). 

Ora, o que está em jogo é, exatamente, censurar o dissenso a respeito do tema do homossexualismo, impondo uma espécie de dogma laico contra a moral Católica, cujos transgressores estariam sujeitos até mesmo à pena de prisão. Há algo mais radicalmente contrário ao senso crítico e ao pluralismo de idéias do que ameaçar de prisão quem não concorda com a prática homossexual? 

Todos os brasileiros são defendidos pela Lei quando agredidos. Querer criar uma categoria de pessoas cuja prática moral não pode ser discutida não é defender o pluralismo de idéias, mas silenciar, discriminar e perseguir os contrários. 

No Direito penal, não há “analogia em prejuízo do réu” (analogia in malam partem), não há “pena e nem crime sem lei anterior que os defina” (Nullum crimen, Nulla poena sine praevia lege). 

Entretanto, nada disso importou. Usando uma interpretação ampla dos direitos constitucionais, o Ministro relator considerou que a homofobia poderia ser enquadrada no tipo penal de racismo. 

Na prática, equivale a penalizar uma ação que antes não era penalizada. 

Sobre isso, os juristas irão discutir. O fato inconteste, entretanto, é que não foi o Legislativo — a quem cabe criar leis e definir penas — que criminalizou a chamada homofobia, mas terá sido uma decisão de uma corte de justiça, baseada em interpretação subjetiva em matéria penal feita em prejuízo do réu. 

A prevalecer essa decisão, estaremos diante de uma perseguição religiosa sem paralelo na história moderna. Através de uma simples interpretação, a Moral católica — e a da imensa maioria do Brasil — terá se tornado inconstitucional. 

O Instituto Plinio Corrêa de Oliveira não poderia ficar inerte diante da gravidade desse momento. 

Cabe aos Ministros do Supremo, homens que ocupam uma posição privilegiada e de alta responsabilidade nos destinos de nosso País, cumprir a sua função jurisdicional, dizer o Direito. Que eles não se deixem levar pela sedução de mudar a sociedade através da força do Estado, pois esse não é o papel dos juízes. 

Que Nossa Senhora Aparecida, invocada pelo ministro Toffoli em sua posse como Presidente do STF, não permita que essa perseguição religiosa seja imposta ao País do Cristo Redentor. 

São Paulo, 21 de fevereiro de 2019 
Festa de São Pedro Damião 
Instituto Plinio Corrêa de Oliveira

19 de fevereiro de 2019

Quando o general se descola da tropa


➤  Marcos Machado 

Contrariando o verdadeiro papel do chamado 4º. Poder, que é o de coadjuvar o Estado na procura do “bem comum”, a mídia de esquerda — das poucas armas que restam ao PT — vem reproduzindo com “torcidas”, más interpretações e futricas quaisquer desavenças ou comentários menos felizes provenientes de membros do governo, logo agora que o Brasil começa a reatar-se consigo mesmo. 

Posto esse princípio fundamental, que é a procura do “bem comum”, passemos à questão do aborto na entrevista concedida pelo general Mourão ao jornal “O Globo” (1º-3-19):
“A questão do aborto também é algo que tem que ser bem discutido, porque você tem aquele aborto no qual a pessoa foi estuprada, ou a pessoa não tem condições de manter aquele filho. Então talvez aí a mulher tivesse que ter a liberdade de chegar e dizer ‘preciso fazer um aborto’. Minha opinião como cidadão, não como membro do governo, é de que se trata de uma decisão da pessoa.” 
Palavras sem dúvida censuráveis, das quais “O Globo” — useiro e vezeiro na arte de explorar e distorcer entrevistas (“'Aborto deve ser uma decisão da mulher', diz o vice-presidente”) — se utilizou em detrimento da boa imagem do próprio governo e em benefício da agenda petista e antifamília. Mas isso só foi possível porque o general se descolou do sentimento geral da tropa... 

A esquerda autêntica tem uma mentalidade, e não um conjunto de opiniões desconexas, pela qual ela sempre defende o aborto, e nunca a propriedade privada ou a família. Nos 13 anos de pesadelo petista, assistimos à investida furiosa a favor da ideologia de gênero, das invasões rurais e urbanas, do aborto e da agenda homossexual. Há, portanto, um nexo profundo entre destruir a família e perseguir a propriedade, como reza a teoria marxista. 

O caráter marcadamente conservador, familiar e, portanto, de direita, ficou patente nas grandes demonstrações populares que tomaram as ruas das principais cidades brasileiras a partir de 2015. Ficou patente na campanha presidencial de Jair Bolsonaro a defesa dos valores familiares e da propriedade privada, bem como a orientação da política externa brasileira “sem viés ideológico” esquerdista. Os discursos de posse do Presidente e de Ernesto Araújo foram tomados como uma confirmação do cumprimento das promessas de que o Brasil se livrou da agenda petista, que incluía o aborto. 

Como o filho pródigo que volta à casa paterna, ou São Paulo a caminho de Damasco, com o novo governo o Brasil livrou-se do despenhadeiro petista para retomar as esperanças de cumprir seu papel conservador, anticomunista e pró-família em âmbito não apenas latino-americano, mas mundial. 

Segundo o princípio da democracia, o eleitor é o mandante e os representantes eleitos são os mandatários que recebem dele uma procuração específica para executar a sua vontade. No presente caso, a vontade de um povo conservador, antipetista e pró-família. A força das redes sociais conservadoras aí está: vigilante, atuante e disposta a servir o Brasil. Já tivemos um exemplo de quão viva permanece essa reação anticomunista na rejeição da infeliz viagem de uma comissão de Parlamentares do PSL à China vermelha. Não é fazendo concessões à esquerda que se edificará o novo Brasil. General, a tropa é antiabortista! 
“A missão providencial do Brasil consiste em crescer dentro de suas próprias fronteiras, em desdobrar aqui os esplendores de uma civilização genuinamente católica. Nossa índole meiga e hospitaleira, a pluralidade das raças que aqui vivem em fraternal harmonia, o concurso providencial dos imigrantes que tão intimamente se inseriram na vida nacional, e mais do que tudo as normas do Santo Evangelho, jamais farão de nossos anseios de grandeza um pretexto para jacobinismos tacanhos, para racismos estultos, para imperialismos criminosos. Se algum dia o Brasil for grande, sê-lo-á para bem do mundo inteiro.  
“Explorai, senhores do poder temporal, as riquezas de nossa terra; estruturai segundo as máximas da Igreja, que são a essência da civilização cristã, todas as nossas instituições civis. Deus jamais é tão bem servido, quanto se César se porta como seu filho. E, senhores, em nome dos católicos do Brasil, eu vo-lo afianço, César jamais é tão grande, como quanto é filho de Deus.”* 
Nem concessões à esquerda nem atentados contra a família e a propriedade nos afastarão de nossa missão providencial. Pelo contrário, seguindo a lei natural e as vias da Civilização Cristã, se construirá um Brasil autêntico, forte e coeso, para exemplo e edificação de nossas irmãs latino-americanas e o bem do mundo inteiro. 

O Cristo Redentor e Nossa Senhora Aparecida nos mantenham alertas e fortes na defesa e no fortalecimento dos pilares da civilização, a tradição, a família e a propriedade. 
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* https://www.pliniocorreadeoliveira.info/DIS%20-%201942-09-07%20-20IV%20Congresso%20Eucaristico.htm

“Saudades do passado”


Pães, foie gras, quitutes, licores, a promessa de sucesso é que “são feitos como antes”.

Propaganda que explora “saudades do passado” revela tendências sociais e religiosas do futuro 



➤  Luis Dufaur 

O marketing ou técnica (nem sempre muito veraz nem leal) para empurrar a venda de algum produto, está obrigado a impressionar os eventuais compradores.

Com esse objetivo procura sondar as apetências profundas dos consumidores para atraí-los (ou enganá-los). 

E as empresas de marketing constataram que no momento presente é ledo engano achar que as apetências profundas do público progridem a uma velocidade vertiginosa para o mais moderno, recusando a tradição, o passado e os gostos antigos que evocam tempos de outrora. 

Hoje essas empresas estão adaptando suas propagandas ao denominado “marketing da nostalgia”, isto é, procuram apresentar “marcas que apostam no retorno às origens”. 


Sorveteria em Buenos Aires empolga clientes restaurando casas nobres de estilo.
Seus astuciosos “gurus” descobrem que “as lembranças do passado podem funcionar como refúgio e espaço de segurança para muitos”, publicou “La Nación” de Buenos Aires, após ouvir diversos especialistas e analisar novas campanhas publicitárias.

Essa nostalgia fala no fundo das cabeças que nos tempos passados “tudo era melhor”, e não leva para o mais ousado e inovador. Ali estaria o segredo das marcas que conseguem se reconectar com seu público-alvo. 

A Nike relançou seu boom dos anos 80, as Nike Air Max; a Adidas criou a linha Adidas Originais que recupera os clássicos modelos dos anos 70 e 80 do século passado. 

E quando a Nintendo ressuscitou sua clássica plataforma modelo de 1997, nos EUA, as filas de compradores ficaram intermináveis. 

A Polaroid prossegue vendendo câmaras de fotos instantâneas que há décadas se dizia perimidas. 


Loja de Saumur monta padarias para parecerem artesanais.
Carolina del Hoyo, diretora de Inovação da multinacional Danone afirma: “Vemos a tendência de retorno dos produtos ou marcas que procuram revalorizar a história ou o conceito que os fizeram únicos”. 

Esses tipos de produtos, poucas décadas atrás praticamente tinham desaparecido ou era difícil encontrá-los, e ela acrescenta. “Hoje, estão novamente de ‘moda’ e nas prateleiras dos grandes supermercados”. 

Julia Kaiser, coordenadora de estratégia de Havas Argentina, explica se tratar de uma contra-tendência que recusa o veloz, o industrializado, a necessidade induzida de novidade e da inovação constante. 
Westvleteren XII é cerveja mais medieval, feita por monges. A corrida é imediata, porque dizem é a melhor do mundo!

“As pessoas gostam de voltar ao que é familiar. Àquilo que apela ao sentimento muito primitivo e muito humano do conforto caseiro”, acrescenta. 


A padaria ‘Le Pain Gascon’ atrai usando um forno da época de Luis XV, precisamente de 1765.
“La Nación” chama isso de “furor nostálgico”. 

Por exemplo a empresa de lácteos La Serenísima lançou um iogurte com a receita original de não se sabe qual século e a mensagem do marketing é “voltar a prová-lo por primeira vez” procurando rememorar as impressões que tivemos quando éramos crianças. 

“Trata-se da valorização do melhor de outros tempos, que nos convida a voltar às nossas origens e comemorar o passado com um olhar hodierno. 

“Nós procuramos gerar esse impacto em nossos consumidores, especialmente os adultos, convidando-os a reconectar com a marca que os viu nascer e que estava na mesa de todos os dias”, acrescentou Del Hoyo. 

A empresa argentina Siam relançou uma linha de geladeiras com estética da metade do século passado. Olmos oferece bicicletas tipo retro. 
Sorveteiro em Paris verificou que carro antigo atrai mais que moderno. 
E que o sorvete não pode ter nenhum elemento de fábrica

A usina Ledesma vende seu açúcar mais seleto garantindo que não foi processado nem refinado, e a cervejaria Quilmes do grupo AmBev ofereceu a receita original sem conservantes. Foi logo imitada pela competição. 

Basta sair à rua para encontrar o Fusca (adaptado à modernidade) mas que evoca o modelo original alemão de inícios dos anos 30, quase um século! 

A Fiat relançou o Fiat 500, a Cinquecento de 1967, e o retro PT Cruiser teve que ceder-lhe a linha na fábrica do México para atender a demanda dos EUA! 

A Citroën pensa fazer o mesmo com o 2CV, o “deux chevaux”. 

Propaganda em jornal espanhol do ‘carro mais amado em todos os tempos’. A versão 500 atualizada percorre as ruas de São Paulo.



O mini-Cooper prolifera pelas ruas de São Paulo, e o Jeep da II Guerra Mundial, bem atualizada, bate recorde de vendas no Brasil. 
Feiras com produtos de granja artesanais atraem
 até os maiores chefs da França. Essa é em Orthez.

As pessoas sempre procuram coisas genuínas da marca (o “Fusca original”), que tenha história no produtor, que seja clássico, tradicional. 

Na cerveja é típico. A tida como a melhor do mundo é produzida na Bélgica por monges cistercienses. 

Esses elaboram uma quantidade limitada para sustentar o convento e só vendem numa data definida do ano. Nessa data a polícia rodoviária belga precisa montar um esquema especial pois todas as estradas que levam à abadia ficam super-lotadas. 

A essas noções acresce no caso dos alimentos a exigência de comestíveis mais saudáveis.

Percorra as prateleiras dos supermercados e conte quantos produtos fazem questão de exibir o selo “tradicional”, original, da fórmula da avó, o lácteo “da fazenda”, e por isso mais saudáveis. 

Na França entrei em padarias que garantiam que a farinha vinha de moinhos que moíam o trigo com roda de pedra como na Idade Média. 

Queijarias que se ufanavam de vender o camembert feito com todos os microorganismos proibidas pela União Europeia; restaurantes que ofereciam a carne ou o frango engordado sem ração. 

Nas casas de vinhos, licores sem preservantes, aditivos, corantes, aromas, estabilizantes e ainda outros ingredientes químicos. 

O “marketing da nostalgia” está se tornando rei em tudo onde ainda não o é, e invade até as farmácias. 

Desde o slogan “quero meu Brasil de volta” na política até a receita original no supermercado, o tradicional gera empatia e é bem recebido. 

Para Julia Kaiser, “está estabelecido um acordo tácito por onde o consumidor entende que a receita original é melhor que a receita que veio depois. No imaginário social a sensação é que o que se fazia antes era mais puro e o que se faz agora é mais artificial”. 

Um estudo da marqueteira planetária Nielsen, constatou que as emoções e a resposta cerebral dos consumidores diante das marcas tradicionais não só aceleram as palpitações do coração, mas agem como disparador de vendas muito eficaz: 23% a mais. 

Quando a marca argentina Quilmes — a maior cervejaria do país que pertence à AmBev — restaurou a receita original as reações positivas foram instantâneas. 
Flagrante numa rua de Paris o queijo camembert 
de ‘leite cru’, com todos os microorganismos 
proibidos pela modernidade, 
é vendido abundantemente e não é caro! 

“Quando comunicamos que tínhamos retornado à receita original sem conservantes, as vendas e o consumo cresceram no mesmo mês. As repercussões foram muito boas e super-rápidas”, afirmou Giannina Galanti Podesta, diretora da marca. 

A Disney começou a fazer o remake de seus grandes êxitos de outrora, A Bela e a Fera vendeu entradas por mais de um bilhão de dólares na sua primeira semana de 2017. Diante desse resultado, a megaempresa de entretenimento planejou apostar grosso em seus filmes clássicos refeitos para 2019.

Mas, se isto é assim em quase todos os campos da atividade humana, não estará acontecendo o mesmo em matéria de religião? 

O “marketing da nostalgia” detectou movimentos coletivos, aspirações e desejos da alma humana que procura explorar, mas não foi ele que os criou. 

Então se isso for assim, não estamos nos aproximando do dia em que os homens preferirão pagar passagem, ainda que muito cara, para visitar a medieval catedral gótica de Paris antes do que entrar na catedral modernosa de Brasília; em que preferirão o canto gregoriano à zoeira religiosa dos templos modernos; então se sentirão mais atraídos pelo Concilio de Trento do que pelo Concílio Vaticano II; e poderão preferir um Papa como São Gregório VII na Cátedra de Pedro ao Papa Francisco? 
A série de Marie Kondo para por ordem em tudo faz furor. 
Ela defende que a ordem na casa, na geladeira, no celular faz bem mentalmente.

Perguntas análogas poderiam se estender por muitas páginas. 

Uma jovem deputada federal recém-eleita declarou à imprensa que seu herói preferido é Godofredo de Bouillon. Aonde foram parar os Beatles ou os Rolling Stones, esses trisavôs sem continuadores? 

Só resta que as multidões clamem pela volta de Dom Sebastião, de Santa Joanna d’Arc, de Carlos Magno, de São Luis Rei da França ou de São Domingos de Gusmão inquisidor...

2 de fevereiro de 2019

Educação sexual nas escolas? — Grave erro!

➤  Paulo Roberto Campos

Na entrevista coletiva que concedeu no dia 28 de janeiro aos jornalistas a bordo do avião que o levava de volta a Roma [foto] após a “Jornada Mundial da Juventude” do Panamá, o Papa Francisco afirmou, entre outras coisas que causaram estupefação, ser favorável à educação sexual nas escolas. 

Eis suas palavras, respondendo ao jornalista Edwin Cabrera Uribe, que lhe perguntara sua opinião sobre o assunto: 
“Penso que, nas escolas, é preciso dar educação sexual [...]. É preciso oferecer uma educação sexual objetiva: assim como é, sem colonizações ideológicas. Porque se, nas escolas, se dá uma educação sexual imbuída de colonizações ideológicas, destrói-se a pessoa [...]. O problema está nos responsáveis pela educação, a nível nacional, regional, em cada unidade escolar: que professores escolhem para isso? Que manuais? Já os vi de todas as cores. Há coisas que fazem amadurecer e outras que causam dano [...]. Digo que é preciso haver educação sexual para as crianças. O ideal é que se comece em casa, com os pais. Nem sempre é possível, devido a muitas situações familiares, ou porque não sabem como a fazer. A escola supre isto e deve fazê-lo; caso contrário, fica um vazio que acaba preenchido por qualquer ideologia”.
Tal resposta não poderia evidentemente deixar de causar grande perplexidade em numerosas famílias católicas que lutam para preservar a inocência de suas crianças. Elas conhecem as péssimas condições de imoralidade nas quais os “responsáveis pela educação” sexual nas escolas — mistas em sua imensa maioria — ministrariam suas aulas. Nestas, como já se tem visto, em nome de educação sexual, professores ensinam as coisas mais indecentes, inclusive pornografia, erotizando os pequenos.

Esse danoso ensinamento, ministrado fora do lar e por vezes com distribuição de manuais obscenos com imagens libidinosas, leva com frequência as crianças à iniciação sexual precoce e até mesmo, em certos casos, à prostituição infantil e à gravidez de meninas que sequer chegaram à adolescência. Segundo um relatório de 2018 da OMS (Organização Mundial da Saúde), no Brasil a taxa de gravidez indesejável na adolescência supera a média mundial! 

Assim sendo, pais e mães de família perguntam: qual é verdadeiramente a posição da Igreja Católica a respeito de tal tipo de educação sexual, que sempre fora reservada aos pais e não às escolas? 

Para responder a essa questão, nada melhor do que recorremos ao ensinamento tradicional do Magistério Pontifício. Assim, eis a resposta do Papa Pio XI (1857-1939) [foto ao lado] na Encíclica Divini Illius Magistri
“Mormente perigoso é, portanto, aquele naturalismo que, em nossos tempos, invade o campo da educação em matéria delicadíssima como é a honestidade dos costumes. Assaz difuso é o erro dos que, com pretensões perigosas e más palavras, promovem a pretendida educação sexual, julgando erradamente poderem precaver os jovens contra os perigos da sensualidade, com meios puramente naturais, tais como uma temerária iniciação e instrução preventiva, indistintamente para todos, e até publicamente, e pior ainda, expondo-os por algum tempo às ocasiões para acostumá-los, como dizem, e quase lhes fortalecer o espírito contra aqueles perigos. 
“Estes erram gravemente, não querendo reconhecer a natural fragilidade humana e a lei de que fala o Apóstolo: contrária à lei do espírito (Rom 7, 23), e desprezando até a própria experiência dos fatos, da qual consta que, nomeadamente nos jovens, as culpas contra os bons costumes são efeito, não tanto da ignorância intelectual, quanto e principalmente da fraqueza da vontade, exposta às ocasiões e não sustentada pelos meios da Graça. 
“Se, consideradas todas as circunstâncias, alguma instrução individual acerca deste delicadíssimo assunto se torna necessária, quem recebeu de Deus a missão educadora e a graça própria desse estado deve, em tempo oportuno, tomar todas as precauções conhecidíssimas da educação cristã tradicional e suficientemente descritas pelo já citado Antoniano*, quando diz: ‘Tal e tão grande é a nossa miséria e a inclinação para o mal, que muitas vezes até as coisas que se dizem para remédio dos pecados são ocasião e incitamento para o mesmo pecado. Por isso importa sumamente que um bom pai, quando discorre com o filho em matéria tão lúbrica, esteja bem atento, e não desça a particularidades e aos vários modos pelos quais esta hidra infernal envenena uma tão grande parte do mundo; não seja o caso que, em vez de extinguir este fogo, o sopre ou acenda imprudentemente no coração simples e tenro da criança. Geralmente falando, enquanto perdura a infância, bastará usar daqueles remédios que, juntamente com o próprio efeito, inoculam a virtude da castidade e fecham a entrada ao vício’”. (Silvio Antoniano, Dell'educazione cristiana dei figliuoli, lib. II, c. 88).
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* Cardeal Silvio Antoniano, discípulo do admirável educador que foi São Filipe de Nery, e mestre e secretário das cartas latinas de São Carlos Borromeu, a instancias e sob a inspiração do qual escreveu o tratado Della educazione cristiana dei figliuoli.

24 de janeiro de 2019

Washington – 46ª Marcha contra o aborto

➤  Nelson R. Fragelli 

A multidão marchava decidida e manifestativa em direção à Suprema Corte dos Estados Unidos, bradando slogans de protesto contra a prática do aborto no país. Era a multitudinária e tradicional March for Life, que se realiza todos os anos na capital americana, sempre no mês de janeiro. Alguns slogans, sob a forma de refrões musicais, eram cantados alegremente por vagalhões esparsos de jovens em movimento.

Nesse contínuo mover-se, a imagem de Nossa Senhora de Fátima, levada num andor, causava surpresa a muitos, e a todos profundo respeito. Diante dela, vinham à mente dos participantes os pedidos da Virgem em Fátima, e também as catástrofes anunciadas caso seus pedidos não fossem atendidos. Milhões de inocentes sacrificados nas clínicas abortistas são um indício inequívoco de que tais pedidos foram negligenciados. Fátima continua sendo um apelo, e hoje é também um desafio.


“Muito obrigado por terem dito sim” — disse uma senhora a um membro da TFP americana (American Society for the Defense of Tradition, Family, and Property). Em seguida se inclinou reverente diante da imagem e continuou a caminhar sobre a neve e sob o vento gélido. O que quis ela dizer? Em seu olhar se encontrava a resposta: a TFP havia dito sim ao chamado de Nossa Senhora, bem como aos sacrifícios daí decorrentes.

Um dos participantes da marcha parou diante da imagem de Nossa Senhora e interpelou os custódios: “Por que esse ar tão solene?”. Um jovem que a acompanhava respondeu simplesmente: “Porque eles são os guardas de Nossa Senhora”.

Alguns protestantes tiveram o mau gosto de comparecer à March for Life a fim de criticar os católicos. Após gritar ataques à Igreja e ao Papa, ofenderam Nossa Senhora em brados. Nesse momento, um jovem começou a recitar em alta voz a Ave Maria. Imediatamente todos em volta uniram suas vozes à dele, com aguerrido ímpeto, revidando a ofensa protestante com a saudação à Mãe de Deus. As vozes aumentaram de volume, e com elas a indignação dos presentes. Ao grupelho ultrajante não restou senão calar e desaparecer na multidão.

Quando se deparou com a imagem de Nossa Senhora de Fátima, um jovem cuja esposa acabava de dar-lhe o primogênito interrompeu sua caminhada e a fitou com surpresa e agrado. Nesse instante a evocação da Mãe de Deus era completada pela harmonia longínqua de trompetes e tambores, executada pela exímia banda de música da TFP norte-americana [foto ao lado], cujos acordes realçavam na manifestação a convocação dos presentes ao combate. O jovem pai tirou do bolso um rosário, e ali ficou a rezar. Para ele, a Constitution Avenue (a grande avenida central de Washington) se transformara numa catedral.

Um dos participantes, John Moore, percorreu a pé 4.000 km, de São Francisco (Califórnia) até Washington, portando às costas uma cruz de madeira. Sua filha Laura o acompanhou em automóvel, fornecendo-lhe água e alimentos. Em seu trajeto, John Moore foi ajudado por inúmeras pessoas, até mesmo ateus e indiferentes à questão do aborto, mas comovidas com seu esforço.

A marcha superou em número e seriedade os anos anteriores. Meio milhão de participantes demonstravam seu repúdio ao aborto. Os norte-americanos sabem que, além do aborto, outros graves desvios morais ameaçam seu país e o mundo.

Duas pesquisas de opinião recentes — uma da Universidade Marista, e outra do Instituto Gallup — mostram que a maioria dos norte-americanos (75%) deseja restrições à prática do aborto. Mesmo os que se declaram favoráveis ao aborto passam a achar que ele já foi demasiadamente longe. 53% desejariam eliminar toda forma de aborto ou a maior parte dos casos em que é permitido.

Tal como no ano passado, o Presidente Trump, em transmissão direta da Casa Branca, dirigiu palavras acolhedoras aos manifestantes. O Vice-presidente Mike Pence compareceu com sua esposa ao palanque, no início da marcha [foto ao lado, no telão]. Dali saíram numerosos grupos de paroquianos liderados por seus vigários. Grande era o número de batinas entre os jovens sacerdotes. Alguns bispos se destacavam à frente da marcha. O bispo de Toledo, Dom Daniel Thomas, marchava à frente de seus fiéis. Seguiam-se representantes de ordens religiosas masculinas e femininas, seminários, escolas e colégios. Entre os movimentos do exterior, distinguia-se Droit de Naître [foto abaixo]— associação co-irmã do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira — que combate a prática do aborto na França. [Fonte: Revista Catolicismo, Nº 818, Fevereiro/2019].

➜ Para percorrer a "galeria de fotos", click na primeira imagem e avance com a setinha do teclado.


























Time lapse video destroys claim only ‘thousands’ attended 2019 March for Life:

7 de janeiro de 2019

A força do Brasil cristão renascendo nas tormentas atuais

“Os guardas caem por terra” – James Tissot (1836–1902). Brooklyn Museum, Nova York.

Trecho do discurso de Plinio Corrêa de Oliveira no encerramento da campanha da TFP contra a infiltração comunista na Igreja. Pronunciado no dia 12 de setembro de 1968, no auditório da Casa de Portugal, em São Paulo* 


Há no Evangelho esta promessa: “Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a Terra”. Devemos entender então como bem-aventurados os que não amam a rixa, nem a briga, nem a violência, porque deles será a Terra. Será deles, pois atrairão a si o amor dos homens que realmente amam o bem. Mas será deles também porque saberão opor-se, com força invencível, a quem os queira jugular por violência ilegítima. Esta é a força cristã do católico, cuja mansidão é a de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Cordeiro de Deus; e a força indomável d’Aquele que também é o Leão de Judá! 

No momento em que Nosso Senhor foi preso, alguém Lhe perguntou: “És tu Jesus de Nazaré?”. E Ele respondeu: “Ego sum”. Com esta simples resposta — “Eu sou” — os inimigos foram tomados de terror e caíram com a face em terra! Esta é a majestade, a força, a dignidade dos que têm a mansidão cristã! 

Nosso País é cordato, ama a mansidão, e ao longo da sua história tem fugido às lutas. Mas se algum dia formos ameaçados com a pergunta — “Aceitas a pressão que se quer fazer contra ti? És ainda o Brasil cristão?” — tenho a certeza de que a nação responderá, com uma força que ainda ninguém lhe conhece, mas que está nascendo nas tormentas do momento atual: “Ego sum!”

E todos os agitadores, nossos adversários, serão obrigados a se prostrar e cairão por terra, porque conhecerão isto que existe entre outras coisas autênticas do Brasil novo: a decisão de progredir fiel a si mesmo, fiel à tradição cristã, fiel à família e à propriedade. Com uma força que impressionará o mundo, a nação enfrentará quem tome sua mansidão como moleza, imaginando que pressões possam trazer resultado. 

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(*) Fonte: Revista Catolicismo, Nº 817, Janeiro/2019.
Aos que desejarem ouvir a gravação deste discurso, ele se encontra no seguinte link: https://www.pliniocorreadeoliveira.info/DIS_680912_infiltracao_comunista_extratos.htm#.XA6tL3RKiUk

25 de dezembro de 2018

STILLE NACHT

"Adoração dos Pastores" – Mattia Preti, séc. XVII. Walker Art Gallery, Liverpool, Inglaterra.

Noite Feliz, a canção de Natal por excelência, ecoa há 200 anos em toda a Cristandade, como um som celestial

*        Nelson R. Fragelli
*        Matéria especial de Natal publicada na Revista Catolicismo, Nº 816, Dezembro/2018

Stille Nacht, Noite Silenciosa — ou Noite Feliz, na versão brasileira — traduz em sons o profundo silêncio que inunda de suave tranquilidade a noite de Natal, envolvendo a imaginação de todos numa atmosfera celestial própria ao magno acontecimento da Cristandade. Noite sagrada, lembrando a Sagrada Família e o nascimento de Jesus no silêncio da gruta de Belém. Silêncio...
Profundo recolhimento, acentuado pelos acordes com que a flauta dos pastores acompanhava as alegres vozes celestiais dos Anjos anunciando o nascimento do Menino Deus. Tudo é silêncio, calma, harmonia. Anjos, felicidade, estabilidade. Tem-se o desejo difuso de que essa noite nunca mais termine. Anunciando um acontecimento celeste, ela nos traz a esperança de chegarmos à eternidade do Céu. Deus nasceu, e está entre nós. Nada mais precisa acontecer.
Foi esse estado de espírito pastoril, angélico, sobrenatural, familiar, íntimo, mas de grande dignidade e grande alcance simbólico, que inspirou as harmonias do canto Stille Nacht — a noite silenciosa, santa e tranquila do primeiro Natal. É bem esse o sentimento que exprimem suas palavras, perfeitamente adaptadas à suavidade da melodia. Tudo dorme. Sozinho, apenas o casal venerável e santíssimo permanece desperto — Alles schläft, einsam wacht, nur das traute hochheilige Paar.
Em meio à alegria, a música exprime doce ternura. E nessa ternura um tanto lírica, uma nota de compaixão, uma tristeza dentro do festivo — a tristeza pelo frio e pobreza em que nasce o Menino Jesus. Mas também, mais do que isso, já se percebe uma tristeza na previsão da Cruz, cuja sombra se projeta sobre a noite de Natal. Assim, no Stille Nacht a ternura está cercada de suave compaixão, pois Jesus tinha em Belém, como em todos os momentos de sua vida terrena, a lembrança de que Ele veio para ser o Redentor, para sofrer e morrer por nós.


Na canção, a afinidade da alma com os coros angélicos

Plinio Corrêa de Oliveira — entusiasmado comentador da canção e em quem me baseei para muitas explanações contidas neste artigo — dizia que a melodia do Stille Nacht é simples, popular, mas seu sentido é profundo. Nela se sente a nota de tranquilidade continuamente acentuada. Não uma tranquilidade imobilizada e vazia, como a que se adquire com a compreensão apenas intelectual daquele acontecimento, mas a paz celestial trazida pelos anjos, que anunciavam o magno acontecimento aos pastores; como a paz angélica dos claustros medievais, onde oravam e meditavam grandes santos; como a tranquilidade profunda que nos invade ao olharmos atentamente o firmamento, onde silenciosamente se movem as estrelas; como no Stille Nacht, onde se movem tranquila e solenemente as notas musicais. Em ambos domina um repouso celeste, através dos anjos cantando — durch der Engel, Alleluja.
“De joelhos diante do Presépio, a contemplação do Menino Jesus nos inspira um respeito sacral, acompanhado de ternura e compaixão. O amálgama entre o respeito e a compaixão paira do princípio ao fim nos acordes melodiosos do Stille Nacht. Podemos assim penetrar docemente no sapiencial e Imaculado Coração de Maria, e ali ouvir a própria canção d’Ela para ninar seu Filho”, comentou com profunda sensibilidade e enlevo Plinio Corrêa de Oliveira.
Em alguns de seus arranjos musicais, cantados por um coral, ao término da canção as palavras emudecem, substituídas por um simples murmúrio gutural. Corresponderia ao momento em que Nossa Senhora puxa um cobertorzinho sobre seu Filho. Ele dorme, enquanto a Virgem Mãe e São José continuam a rezar. Na tranquilidade, encerra-se a canção.
Não, ela não se encerra. Retorna com a suavidade daquela noite bendita, e continua envolvendo a memória como o perfume de um bálsamo celeste. A alma se sente coberta por gotas de inocência, que emanam da Gruta de Belém. Deus está ali. Pode-se sentir Jesus em carne humana — Jesum im Menschengestalt.
Feliz a nação cuja cultura católica está assim entranhada em todos os aspectos de sua vida. Não se caracteriza como povo culto aquele que possui famosos gênios entre seus filhos, mas aquele no qual os sentimentos cristãos impregnam amplamente suas almas. Num povo assim, um simples pároco do interior pode se unir a um modesto compositor e conceberem juntos essa altíssima compreensão do nascimento de Jesus em Belém, entoando-Lhe esse hino de louvor. Sai de seu peito a canção que exprime a afinidade da alma de seu povo — e de todos os povos — com os coros angélicos. Naturalmente, inesperadamente, da alma deles desponta essa singela maravilha.

Alegria que eleva à fonte de todas as alegrias

A canção é o chamado de Deus para que o homem medite no mistério da salvação ali presente. Deus o espera para dar-lhe perdão, fazê-lo partícipe da grande festa do nascimento de Jesus. Seu orgulho, sua incredulidade, seus desejos mesquinhos sentem arrependimento em face daquela inocência. Das alturas douradas do Céu, a plenitude da graça nos mostra Jesus — Aus des Himmels goldenen Höh’n, uns der Gnaden Fülle lässt seh’n.
A inocência é calma, traz a apetência por tudo o que na Terra exprime o maravilhoso. Diante dela a alma evoca sua infância, seus pais, as florestas por onde passou, as montanhas do alto das quais descortinou panoramas que a faziam sonhar. Volta a soar para ela a hora da salvação. A bondade nos lábios divinos faz soar a hora da graça redentora — Schlägt die rettende Stunde: Jesus, der Retter, ist da.
Degustar os momentos em que a calma envolve a inocência é uma das maiores alegrias desta vida. As alegrias do mundo não são alegrias, apenas excitação, pois não é verdadeira alegria aquela que não eleva a alma até o Criador, fonte de todas as alegrias. Impregnando-se com as alegrias do Natal, a alma sentirá um choque ao reencontrar a feiura, a vulgaridade e o pecado, e fugirá das ilusões que lhe fornece o falso brilho do mundo — festas, barulheira, ajuntamento e vaidade — Feste Geräusch und Gedräng mit eitlem Gepräng, como diz a versão alemã do hino “A treze de maio”.
Em confronto com as verdades que percebe, a alma vê melhor a malícia do erro que a circunda. Os acontecimentos mundanos são tão tumultuosos e prementes, fazem-nos imergir numa luta tão forte, que as marcas do tormento, do sangue, das lágrimas tendem a repercutir negativamente em nossa meditação.
As pessoas e as coisas não devem ser amadas pelas vantagens que trazem ou pelo prazer que causam, mas pelo grau de perfeição de que são portadoras. No mundo atual — desorientado, indiferente a Deus, voltado para sua ciência, suas invenções, suas diversões — essa visão se afasta. Maria e José não protestaram por terem sido obrigados a abrigar-se entre animais, no nascimento de Jesus. Naquele estábulo receberam reis vindos de longe, guiados por uma estrela. Esses reis se ajoelharam também diante do Menino e Lhe ofereceram preciosos presentes, reconheceram-no como Rei do Universo. A dignidade da Sagrada Família, em meio à pobreza e à privação, desperta nobres sentimentos, pois configura um dos mais salientes traços da nobreza de espírito.

O Menino Jesus — contrastes do Santo Natal

Painel representando o Natal, que se encontra 
no interior da Capela de Oberndorf
O Divino Infante está na manjedoura. Embora cercado de pobreza, sua grandeza é infinita — tão pequeno e tão grande. Ali mesmo Ele poderia manifestar-se terrível, se quisesse nos mostrar sua força. Mas desejou colocar-se ao nosso alcance, para nos atrair a uma familiaridade conosco, ter um contato em família, desembaraçado. Assim, fez-se menor do que nós quem é infinitamente maior que todos nós juntos. Não desejou que nos extasiássemos, vendo-O como criador do Céu e da Terra, presidindo a História, inspirando as ações dos bons e punindo os pecados dos maus. Ao nascer, apresenta-se a cada um de nós tão pequeno, que nossa admiração exclama: Como é possível, sendo Ele tão grande, fazer-se tão pequeno? Deitado num estábulo, sentindo frio, chegou ao extremo de provocar pena, como incentivo para a admiração!
Sua majestade infinita se mostra cheia de ternura. Ele quer ser amado, e sabe que não conseguiríamos amá-Lo se não se apresentasse menor, como um ser humano. Esta verdade, a grande lição do Natal, é sugerida pela delicadeza harmônica do Stille Nacht. Em sua bondade, para mostrar proporção conosco, Ele se fez criança, o menino encantador de cabelos cacheados — Holder Knabe im lockigen Haar.
De joelhos diante do Presépio, a contemplação do Menino Jesus nos inspira um respeito sacral, acompanhado de ternura e compaixão. O amálgama entre o respeito e a compaixão paira do princípio ao fim nos acordes melodiosos do Stille Nacht. Podemos assim penetrar docemente no sapiencial e Imaculado Coração de Maria, e ali ouvir a própria canção d’Ela para ninar seu Filho.

A graça de Deus trazida à Terra pelo Salvador

Menino Jesus, catedral de Buenos Aires
[Foto Luis Guillermo Arroyave]
O encanto do Natal está em sabermos que o Criador que acaba de nascer — esse Homem-Deus — traz consigo todas as belezas possíveis da alma humana. Sendo divinamente grande, o Menino Jesus mostra-se pequeno na Gruta de Belém. Segundo a liturgia, Ele é pequeno, mas o firmamento celeste é insuficiente para contê-Lo. No Natal nós O vemos numa manjedoura: fraco, entregue ao zelo dos homens, de Maria, de José, à adoração dos Magos e dos pastores, ao bafo dos animais que O aqueceram naquela noite de inverno. Embora tenha criado o Sol, era então acalentado, no frio da Gruta, não pelo astro-rei, mas pelo bafo dos animais.
Dava-nos assim uma lição sobre a dignidade da vida: na ordem hierárquica da criação, um boi vale mais do que um sol, porque o boi tem vida e o sol não a tem. Imensa humildade. Deixa-se aquecer pelo bafo de um simples animal, nesta Terra de exílio, Aquele que criou o sol. Há nesta honra primeira uma glorificação da vida e de tudo o que é vivo. Quando o sol “dormia”, o boi estava acordado e os anjos convocavam os pastores.
Percebem-se facilmente os contrastes magníficos que nisto se contêm. Deus nos faz assim entender que o menor dos homens — o mais torto, o mais limitado, o mais doente — é muito mais do que o Sol. Desde que não seja pecador, desde que seja fiel à graça de Deus trazida à Terra pelo Salvador, faz soar para ele, no seu nascimento, a hora da graça redentora — Da uns schlägt die rettende Stund’, Christ in deiner Geburt!

A grandeza do que é pequeno

Capela de Oberndorf, construída no lugar 
em que ficava a igrejinha de São Nicolau, 
onde se interpretou pela primeira vez o Stille Nacht
Ele veio para salvar a todos. O menor dos homens vale mais do que o sol. Nosso Senhor Jesus Cristo entra na Terra dando-nos esta lição magnífica e inesquecível. Fez-se pequeno para mostrar a grandeza do que é pequeno, de tudo que germina, de tudo que se desenvolve a partir de um determinado ponto, de tudo que nasce e tem vida. Lição inesquecível, especialmente numa época como a nossa, em que a vida é tão ultrajada pelo aborto e pela eutanásia.
Jesus nasceu dentro da adversidade. Ninguém acolheu seus pais, apesar de Maria estar próxima de dar à luz. Perseguida por Herodes, a Sagrada Família fugiria para o Egito pouco depois. Herodes mandaria matar inocentes, esperando assim livrar-se do Menino Deus. Lição inesquecível para os nossos dias, em que a virtude é perseguida e a vida inocente é eliminada aos milhões.

Uma canção longamente desejada pela Cristandade

O Pe. Joseph Mohr e Franz Xaver Gruber, 
autores, respectivamente, da letra e da música do Stille Nacht
Até 1818, passados muitos séculos da era cristã, o cântico de Natal popular e perfeito não tinha ainda aparecido. Dir-se-ia que toda a Cristandade tateava nas sombras, à procura de uma expressão musical para honrar o Menino-Deus em seu nascimento. Foi então que a alma enlevada de um simples vigário de aldeia, associando-se com a sensibilidade artística de um modesto mestre de escola, impregnou com palavras combinadas com sons musicais o que as pessoas sentiam a propósito do Natal. Poeta e compositor, para comemorarem a noite do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, exalaram em uníssono a canção natalina da qual se pode dizer que a humanidade tinha pressa para cantar. Acumulando-se imperceptivelmente esse anseio em toda a Cristandade, ele encontrou nessas duas almas a expressão perfeita através do Stille Nacht. Na hora desejada pela Providência, compuseram a canção imortal; o mundo ouviu-a maravilhado; e ela se tornou a canção de Natal por excelência.

A singela história de um hino providencial

Instrumento no qual o Prof. Gruber 
compôs a música do Stille Nacht
Hertha Pauli* conta no livro Ein Lied vom Himmel a história do Stille Nacht. Informa que na Áustria a aldeia de Oberndorf é vizinha de Salzburg, famosa cidade de Mozart. No centro dela, às margens de um sonoro riacho de montanha, o Salzach, ergue-se a igreja de São Nicolau, cuja torre domina a paisagem. Em 1818, São Nicolau era uma pequena e pobre igreja, cercada de poucas casas. Visto de um dos altos picos que o rodeiam, esse pequeno conjunto arquitetônico parece um remoto ninho de pássaros entre altas montanhas.
Era vigário de São Nicolau o jovem sacerdote Pe. Joseph Mohr. Havia também na aldeia uma escola, cujo mestre era Franz Xaver Gruber, bom organista e apreciável compositor, grande amigo do Pe. Mohr. Eram as pessoas mais instruídas da aldeia. Franz era cinco anos mais velho que o Pe. Mohr, e tinha 29 anos quando foi nomeado para a escola de Oberndorf. Na tranquilidade da aldeia, podiam calmamente seguir as inspirações poéticas e musicais de seus corações. Gélidos invernos os recolhiam em suas casas, onde se dedicavam a escrever e a compor.
Com nítida veia poética, o Pe. Mohr frequentemente exprimia seus pensamentos através de bons e despretensiosos versos, onde interpretava sentimentos de sua região e de seu país. Às vésperas do Natal de 1818, repassava ele o olhar pelas montanhas vizinhas — cujos sendeiros costumava trilhar nas visitas pastorais aos paroquianos, no silêncio dos vales e em meio a pinheirais nevados — e sentia promessas de paz e bênção próprias da Noite Sagrada em que nascera o Salvador. Essas percepções de sua sensibilidade faziam-no caminhar suavemente por entre os flocos de neve abundantes, acompanhando o repicar dos sinos nas aldeias vizinhas. Ocorreu-lhe oferecer ao Menino Jesus, naquele ano, a poesia que latejava em seu peito. Escreveu então um poema curto, inocente e puro, que é hoje a letra da canção de Natal mais famosa do mundo — o Stille Nacht.

Estreia modesta, no Natal de 1818

Na Abadia de São Pedro, famosa por sua escola de música, 
o estudante Felix, fi lho do Prof. Gruber, 
conhecia de cor o Stille Nacht e o ensinava a pássaros canoros.
O Pe. Mohr logo mostrou o poema ao seu amigo Gruber. O mestre de escola recebeu a folha do sacerdote, leu-a atentamente, e confidenciou:
— Estes versos também palpitam em minha alma.
Releu o poema, já cogitando notas musicais para cada frase, e pediu licença para compor uma canção:
— Se a composição sair bem, talvez possamos entoá-la na noite de Natal.
Às primeiras notas — ainda hesitantes, sucessivamente corrigidas, modificadas, mas já surpreendentemente encantadoras — o Pe. Mohr se deixava maravilhar. Levaram logo texto e partitura ao coral da igrejinha de São Nicolau, composto de paroquianos de boa voz, que a admiraram e ensaiaram. Enlevado, o coro a cantou pela primeira vez naquela noite de Natal de 1818.
Pouco depois, um conhecido construtor de órgãos, Karl Mauracher, de passagem pela aldeia, ouviu em recolhido silêncio a canção natalina recém-composta. Cofiando sua longa barba, disse pausadamente:
— Gostaria de ouvir isso mais uma vez, senhor Gruber.
O professor atendeu ao pedido do instruído organista, e juntamente com o sacerdote voltou a entoá-la. Ao retornar à sua cidade, Mauracher pediu licença para levar a letra e a partitura. Lá chegando, enviou-a a outros coros, recomendando-a com a sua autoridade musical. Não houve quem não a admirasse, e ela passou a ser executada por ocasião das festas de Natal, pois seria inapropriada fora do ambiente natalino. E assim, de Natal em Natal, em todos os lugares onde era apresentada, a canção transportava as almas para a manjedoura onde dormia o Divino Menino, impregnando-as com a unção que emana da Sagrada Família.
O Stille Nacht despertava as imaginações. Mas é exatamente esta a finalidade da música. Era como uma fresta entre as tábuas do estábulo de Belém, através da qual se podia ouvir e sentir aquele momento grandioso da Gruta bendita, na convivência doméstica da Sagrada Família. Começou assim a expandir-se a música pela região vizinha do Tirol, depois pela Áustria inteira. Transpondo os Alpes, atingiu a Alemanha, sendo desde então entoada com ternura e compenetração em todo o mundo cristão.

À procura do autor de Stille Nacht

        
O jovem cantor – Georges de La Tour,
séc. XVII. Coleção Particular.
Pouco se sabe sobre os autores do Stille Nacht. Em suas várias apresentações iniciais, a canção era tida como popular, de autor desconhecido, enquanto os dados sobre seus autores se perdia. O problema da autoria foi resolvido a partir do momento em que Frederico Guilherme, Rei da Prússia, ouviu-a num concerto da corte em 1854. Profundamente impressionado e comovido, quis conhecer seu autor. Supôs que ainda estivesse vivo, pois até então nunca ouvira essa obra tocante. Ninguém sabia informá-lo, nem mesmo seu renomado Mestre dos Concertos Reais, que recebeu então a incumbência de descobrir o nome do compositor.
Tomando a sério sua responsabilidade, o Mestre mergulhou nas bibliotecas do reino, a começar pela de Berlim. Nada encontrando na Alemanha, foi a Viena e Salzburg. Interrogou membros de orquestras e corais, os melhores professores de música de Salzburg, onde vicejaram Mozart e outros excelentes compositores. Todos concordavam em que a canção era recente e muito admirada pelo povo, mas ninguém podia fornecer pista sobre os autores. Tentaram resolver a questão, baseando-se em alguns indícios, e escreveram a Frederico Guilherme que “tudo indicava ser Michel Haydn seu autor”. Michel era irmão do grande compositor católico Joseph Haydn.
Mas a carrancuda precisão prussiana não podia dar-se por satisfeita, e era preciso saber quem compôs essa maravilha. O Mestre de Concertos Reais de Berlim, antes de retornar desanimado, pediu ao inspetor do coro da Abadia de São Pedro, em Salzburg, para “tentar fazer alguma coisa”. Ele tentou. E deu certo.

Stille Nacht na voz de um passarinho

Na Abadia de São Pedro, famosa por sua escola de música, o estudante Felix Gruber conhecia de cor o Stille Nacht e o ensinava a pássaros canoros. Uma vez bem ensaiados, eram vendidos a bom preço, contribuindo para rechear sua magra bolsa. Num dia em que ele entoava a canção no pátio da escola, após um ensaio com seus pássaros, o inspetor ouviu-a e o interrogou:
— Como você conhece essa música?
— Meu pai a compôs — respondeu Felix.
— Seu pai?
— Sim, sou filho do ex-Mestre de Escola de Oberndorf, Franz Xaver Gruber, e foi ele o compositor da música Stille Nacht.
O inspetor partiu imediatamente com seu aluno para a casa de Franz Gruber. Ali chegando, foi a vez de se alvoroçar o compositor:
— O inspetor do coro da grande abadia de Salzburg à minha porta?!...
A conversa entre Gruber e o inspetor foi exultante.
— Sim, compus essa música para as seis estrofes escritas pelo Pe. Mohr, meu grande amigo, há 35 anos.
Um ano após escrever a letra do Stille Nacht, o sacerdote deixara Oberndorf, falecendo em 1848 quando era pároco de Wagram.
Ali mesmo, diante do inspetor, Gruber lavrou um documento testemunhando ser o procurado compositor do Stille Nacht. Corrigiu errôneas modificações introduzidas na partitura, e enviou cópia ao Mestre dos Concertos Reais. Algumas semanas mais tarde, recebeu uma carta em que o Rei da Prússia o saudava reverentemente. A partir de então, o Stille Nacht deixou de ser uma composição de autor desconhecido.

Stille Nacht, um convite para meditação

Adoração dos Reis Magos
– Jerónimo Ezquerra, séc. XVII.
Coleção Carmen Thyssen-Bornemisza, Madri.
Os autores do Stille Nacht dotaram sua música com o sentimento de carinho que desperta no Presépio uma frágil criança — com as suas debilidades físicas, chorando, com frio — que, no entanto é o próprio Deus! Deus com a formosura de um menino perfeito, mas destinado a sofrer tanto; uma criança que abre seus pequeninos braços em forma de cruz, pressagiando as insondáveis dores pelas quais deveria passar. Inspira-nos indizível ternura por quem se encarnou para o nosso bem, para a nossa salvação, sem outra finalidade senão a de sofrer por nós, a Redenção longamente desejada — Lange schon uns bedacht.
Tudo isso desperta no mais alto grau os sentimentos de ternura e compaixão, mas constitui um paradoxo aplicarmos esses mesmos sentimentos em relação a um Deus infinitamente mais poderoso que nós. Sentimento paradoxal, sim, mas de modo algum contraditório. O cálice de dor que bebemos com Ele deve exprimir compaixão altamente delicada, de alta sensibilidade de alma para ser digna d’Aquele que de fato merece tal compaixão, mas que também é Deus onipotente. As palavras e a melodia do Stille Nacht, se bem meditadas, despertam esses sentimentos por nosso Criador.
Na realidade, a meditação sobre a vida de Nosso Senhor compõe uma sequência de admirações. Ao primeiro movimento de admiração pelo Homem-Deus que nascia, Ele quis associar nossa compaixão pelo Menino pobre e isolado na Gruta de Belém. Do mesmo modo, 33 anos mais tarde, chegado ao termo de sua vida terrena, quis também a nossa compaixão por sua dor, associada à nossa admiração por seu martírio: Meu Deus, eu tenho compaixão de Vós.

O perfeito equilíbrio da alma católica

Os Meninos Cantores de Viena durante um concerto de Natal
A noite de Natal, noite de graças por excelência, encontra no Stille Nacht a meditação apropriada para as situações angustiantes criadas pela sociedade moderna. Os acontecimentos que nos circundam são prementes e tumultuosos. Dentro de uma luta tão forte, é impossível ouvirmos o Stille Nacht sem serem despertadas na alma as marcas do tormento, do sangue e das lágrimas, agora aliviadas pela Redenção longamente desejada — Lange schon uns bedacht, als der Herr vom Grimme befreit, in der Väterurgrauer Zeit — Assim nosso espírito deve se apresentar ao Menino Jesus.
Genuflexos diante do presépio, contemplando o Menino que também é Deus, a alma se enche de respeito sacral, acompanhado de ternura e compaixão. Respeito e compaixão parecem à primeira vista sentimentos incompatíveis, mas a música do Stille Nacht os inspira do princípio ao fim. Estende-os também ao respeitabilíssimo e santíssimo casal, o único que permanece acordado — nur das traute, hochheilige Paar. Mas algo na música vai muito além, consegue exprimir também de modo extraordinário o sentimento dos pais despertos, enquanto contemplam o menino encantador de cabelos cacheados — holder Knabe im lockigen Haar.
Ouvindo esses sons maviosos, podemos sentir-nos conduzidos ao Imaculado Coração de Maria, e nele ouvir o próprio hino de amor da Virgem Santíssima: Meu filho, meu Deus tão pequenino, tão grande e tão adorável, como te respeito e protejo! É a inspiração ápice da noite de Natal. Assim como dois arcos góticos se encontram no alto da ogiva, nessa inspiração se encontram os mais sublimes sentimentos que o Stille Nacht traz consigo. A música os apresenta do começo ao fim — ora a gravidade do pensamento adulto, ora a inocência infantil. É quase um diálogo entre o adulto e o menino, em uma harmonia incomparável.

Amálgama harmonioso de alegria e tristeza

Majestoso órgão da catedral
de Sevilha, na Espanha
Percebe-se clara e sutilmente no Stille Nacht um misto de alegria e tristeza. O Menino nasceu: alegria; mas nasceu para ser vítima: tristeza. Tem-se por vezes a impressão de que Ele chora, e em outros momentos parece sorrir. É possível que os variados reflexos do canto se façam sentir diferentemente de pessoa a pessoa, no entanto todos são tocados profundamente por esta unidade de sentimentos: Deus infinito e adorável, mostrando-se em sua pequenez.
A percepção da tristeza num momento de esplendor é muito útil no combate ao ateísmo materialista deste século. Concomitante com os momentos de uma nota de alegria maior, ou de tristeza maior, há desde o início no Stille Nacht uma nota de tristeza augusta ao lado de uma admiração jubilosa. E prossegue até o fim, quando fala do pecado de Adão: als der Herr vom Grimme befreit, in der Väter urgrauer Zeit — desde que o Senhor aliviou aos nossos pais o castigo e a amargura, prometendo a Redenção.
De forma similar à que transparece nessa melodia, as catedrais góticas inspiram um amálgama harmonioso de alegria e tristeza, que perpassa toda a atmosfera interna dessas maravilhosas obras arquitetônicas. Em uma catedral cuja rosácea é batida pelo sol há também penumbra à meia luz. Da rosácea radiante partem dardos de luz multicolor, espalhando safiras, esmeraldas, rubis e outras cores pelo chão. Mas sem a penumbra cercando esses reflexos coloridos, não veríamos o esplendor dos seus matizes. É uma composição de alegria e dor — alegria pelas razões certas, e dor pelas razões opostas, mas também certas — que forma um dos mais altos aspectos do equilíbrio da alma humana.

Sacrifício e alegria nos cantos litúrgicos

Este aspecto da vida da Igreja se exprime nitidamente na liturgia tradicional, universalmente praticada no tempo em que o Stille Nacht foi composto. Olhando em torno de nós, encontraremos com frequência a concepção de que durante a Semana Santa só se deve pensar na dor e no pranto do Calvário, e no Natal só cabem júbilo e alegria. Mesmo entre almas assíduas aos sacramentos, muitos pensam assim. Mas o que se pode realmente sentir em presença da liturgia compungida da Semana Santa, por exemplo, é a tristeza pela morte do Salvador, mas com aspectos de esperança que nenhuma dor consegue apagar. Logo depois, na comemoração da Páscoa, acentua-se quase só a presença de uma luz intensa e gloriosa, pois Nosso Senhor ressuscitou, e além disso foi consumada a nossa redenção.
Para os que vivem num mundo de gargalhadas e gozo da vida — feste Geräusch und Gedräng, mit Trunk und Geladen und eitlem Gepräng — a grandiosa liturgia católica parece enfadonha, pois só sabem viver em busca de prazeres fugazes. Ignorando a alegria da dor, e só concebendo a dor sem alegria ou a alegria sem dores, uma alma assim está rachada por dentro, incapaz de degustar nos acordes do Stille Nacht a paz que sobrepaira um ambiente de alegria na dor. Não sabe mais distinguir na tranquilidade do Natal a paz imensa que nos trouxe o sacrifício generosamente aceito por Jesus Cristo, tão bem expressa nos vários tempos da liturgia católica.
Quão raros são, hoje em dia, os sermões em que transparece essa mescla de sentimentos. Foram mais numerosos outrora, num tempo em que os pregadores viviam intensamente antes o que iriam pregar depois. Mostravam então aos seus ouvintes o que conheciam por experiência própria, com a autenticidade que hoje lhes falta. Sabiam pintar para seus ouvintes a verdadeira dor, no fundo da qual habita a alegria inefável de Nosso Senhor e Nossa Senhora, Ele na cruz e Ela ao pé da cruz. Pregando a alegria, sabiam comunicar também as que não são contrárias à dor, mas preparam para bem aceitá-la. Quem não vê na alegria tranquila do Stille Nacht uma preparação para a Paixão? Quem não percebe, em meio às alegrias de Belém, um pouco dos soluços de Nossa Senhora aos pés da Cruz?
Representando no contexto da Gruta de Belém as variegadas sonoridades com que foi concebido, o Stille Nacht comunica suavemente às almas um misto de submissão do espírito aos mistérios de nossa Fé, de reverência pelos insondáveis desígnios de Deus, convida à oração e meditação. Pode-se nitidamente acompanhar na música as alternativas. Cada vez que os tons são mais baixos, trazem-nos ao espírito a ternura vigilante que pousa sobre o berço, transparente na atenção dos Pais inclinados sobre a manjedoura. Se o Menino chora, a Mãe O consola. Quando o momento é para lembrar que Deus ali está, o canto traz a fulgente ideia de um sopro sobrenatural banhando o entendimento. Então: HeiligeNacht!

Desejo intenso de salvar as almas

Selo comemorativo do bicentenário da canção Stille Nacht
Talvez seja ainda mais comovente outro aspecto do Natal. De acordo com a realidade histórica, contemplamos ou imaginamos o Menino Jesus na manjedoura, à espera dos que vão a Ele. De fato o Menino Jesus nasceu e foi posto numa manjedoura; os pastores, os habitantes das redondezas e os Reis Magos foram adorá-Lo ou dar-Lhe as boas vindas; outras pessoas terão passado por lá em inteira reverência; Nossa Senhora e São José O adoraram sempre.
Junto a esta realidade há outra, fundamentalmente teológica e sobrenatural, tão mais comovedora e não menos real, que dela não se dissocia: Jesus procurava almas. A partir da noite de Natal, o Menino Jesus percorreu o mundo de modo sobrenatural, invisível, à procura de almas. Convidava cada uma para vir a Ele, a fim de O conhecer e amar, pois trazia a salvação para o mundo die der Welt Heil gebracht.
Jesus tinha a sede de almas, que o acompanhou durante toda a vida, em tudo o que ensinou, até mesmo nas polêmicas contra os fariseus. Sua sede não foi saciada até o alto da cruz, quando em sua agonia disse: Tenho sede. Além da sede física, os teólogos afirmam que ele tinha a sede das almas, e sempre procurou atraí-las a Si: Como Ele os amava, amou-os até o fim — afirma a Escritura.

Através da melodia, o Menino Jesus visita as almas

Canção tão suave e singela pode ser cantada numa cidade católica, em igrejas, em oratórios públicos, em presépios públicos; seria bem acolhida numa casa de família adornada para o Natal, numa escola, numa universidade. Ouvindo o pequeno coral da paróquia, o órgão aparatoso da catedral, as melodiosas vozes infantis ou de anciãos, o fiel pode sentir-se movido por seu Anjo da Guarda e tocado por um trecho mais adequado à sua sensibilidade. Uma entonação especial o atrai de modo particular, fixa-se em sua alma, e intimamente ele exclama extasiado: Meu Senhor e meu Deus! É a graça incidindo sobre a alma por meio daquela harmonia.
Cessado o canto, ela o acompanha de volta ao lar. E em determinado momento, enquanto se dedica a algo da vida caseira, volta-lhe de repente à memória aquele trecho, pela ação conjugada da graça com a natureza. Parando e cogitando, ele então repete: Meu Senhor e meu Deus! É um modo frequente de o Menino Jesus visitar as almas através da melodia. Assim Ele toca suavemente uma alma, a propósito da música, e depois retribui a visita indo ao encalço dos homens, a quem ele sempre quer fazer o bem. A todos os homens de todas as idades, de todas as línguas, de todas as condições sociais, Ele procura de modo especial na noite de seu aniversário, e lhes diz alguma coisa através dos trechos do Stille Nacht que lhes tocam o coração. É a sede de almas — tenho sede — que já o movia quando ainda Menino.

Canção consoladora dos aflitos e perseguidos

A canção não sensibiliza apenas os que festejam no conforto do lar, pode também suavizar, em larga medida, o Natal dos tristes, levando alegria aos lugares onde há tristeza, como manifestação de sua força tão suave.
Pode-se imaginar um católico perseguido, encerrado numa sinistra prisão comunista da China ou de algum país muçulmano. Ouvindo ao longe essa canção vinda da única igreja aberta aos fieis naquela região, ele se ilumina e diz: Agora é Noite de Natal. Do fundo de sua cadeia, de seu isolamento, num lugar onde só o cercam ódio, perseguição, pobreza, tristeza, onde todo momento é de aflição e toda aflição faz nascer mais uma angústia, esse homem, se tem fé, ajoelha-se e diz: Senhor, hoje é vosso santo Natal. Logo aos primeiros acordes, uma alegria instantânea penetra nos muros intransponíveis do cárcere, o homem reza e se lembra: Stille Nacht, heilige Nacht, Alles schläft, einsam wacht, nur das traute hochheilige PaarNoite silenciosa, noite Santa, todos dormem. Só e desperto, apenas o fiel e santíssimo casal.
Do fundo de seu isolamento ele pode dizer: Ó Deus, não é só o Santíssimo Casal — das traute hochheilige Paarque está acordado, mas também eu, o prisioneiro. Olhai, ó meu Deus, para meus pulsos: estão carregados de cadeias. Quando me movo, meu Deus, eu ouço o arrastar das correntes no chão. Prendem-me os pés e baixam dos meus pulsos até o chão. Fazem barulho enquanto eu ando, e despertam guardas que vêm me perseguir como se eu fosse um bicho, trancafiar-me, pois não tenho direito de viver fora destas quatro paredes. Meu Deus, tudo isso é verdade. Quanto tempo ficarei aqui? Não sei. Dai-me, eu vos peço por meio de Vossa Mãe, coragem até o dia de minha libertação, quando poderei cantar no coro de minha paróquia: Stille Nacht, heilige Nacht. Minha solidão e minha dor, minha alegria e minha esperança, de algum modo lembram a solidão e a dor, a alegria e a esperança da vossa Sagrada Família naquela noite bendita de Belém.

Compunção e a esperança jubilosa do Natal

Um dos primeiros encantos da criança, no contato com a Igreja Católica, é o majestoso som do órgão. Ela não sabe ainda ao certo o que é alegria nem o que é dor. Entretanto, sente no órgão afinidade com a paz do Natal e com a gravidade da Semana Santa. Ainda tão pequeno, o menino não passou pelos grandes sofrimentos nem entendeu o júbilo das grandes vitórias. Mas o órgão coloca suavemente no fundo de sua alma, com mão materna, disposições afins ao que mais tarde verá serem os sentimentos de alegria ou de dor.
Nos acordes de tudo que o órgão toca há sempre a compunção da Sexta-feira Santa, associada à esperança jubilosa do Natal. Quando o órgão acompanha o canto do Stille Nacht, cada palavra evoca a grandeza de uma catedral, seu caráter profundamente religioso, sua serenidade, tranquilidade e dignidade. Leva-nos a compreender que é a voz da Igreja, cantando ao sopro do Espírito Santo o dom grandioso que Deus nos fez por intermédio dela.


Stille Nacht, heilige Nacht


Stille Nacht, heilige Nacht,
alles schläft, einsam wacht,
nur das traute, hochheilige Paar.
Holder Knabe im lockigen Haar,
schlaf’ in himmlischer Ruh’,
schlaf’ in himmlischer Ruh’!

Stille Nacht, heilige Nacht,
Hirten erst kundgemacht!
Durch der Engel Halleluja
tönt es laut von fern und nah:
Christ, der Retter, ist da!
Christ, der Retter, ist da!

Stille Nacht, heilige Nacht!
Gottes Sohn, o wie lacht
Lieb’ aus deinem göttlichen Mund,
da uns schlägt die rettende Stund’,
Christ, in deiner Geburt!
Christ, in deiner Geburt!

Stille Nacht, heilige Nacht,
die der Welt Heil gebracht,
Aus des Himmels goldenen Höh’n,
uns der Gnaden Fülle läßt seh’n,
Jesum in Menschengestalt!
Jesum in Menschengestalt!

Stille Nacht, heilige Nacht,
wo sich heut’ alle Macht
väterlicher Liebe ergoß,
und als Bruder huldvoll umschloß,
Jesus die Völker der Welt!
Jesus die Völker der Welt!

Stille Nacht, heilige Nacht,
lange schon uns bedacht,
als der Herr vom Grimme befreit,
in der Väter urgrauer Zeit
aller Welt Schonung verhieß!
Aller Welt Schonung verhieß!


Noite silenciosa, noite Santa

(tradução literal)
Noite silenciosa, noite Santa,
todos dormem. Só e desperto,
apenas o fiel e santíssimo casal.
O menino encantador de cabelos cacheados
Dorme em paz celestial,
Dorme em paz celestial!

Noite silenciosa, noite Santa,
Aos pastores foi dado o primeiro anúncio
através dos anjos cantando
em voz alta, de longe e de perto:
Cristo, o Salvador, está aqui!
Cristo, o Salvador, está aqui!

Noite silenciosa, noite Santa
Ó, como sorri o Filho de Deus.
A bondade nos seus lábios divinos
Faz soar a hora da graça redentora
Cristo, no seu nascimento!
Cristo, no seu nascimento!

Noite silenciosa, noite Santa,
traz a salvação para o mundo,
Das alturas douradas do Céu,
A plenitude da graça nos mostra
Jesus em carne humana!
Jesus em carne humana!

Noite silenciosa, noite Santa,
Em que o poder do Pai
Derrama hoje seu amor,
e gentilmente, como irmão,
Jesus abraça os povos do mundo!
Jesus abraça os povos do mundo!

Noite silenciosa, noite Santa,
longamente desejada,
Desde que o Senhor aliviou
Aos nossos pais o castigo e a amargura
Prometendo a Redenção!
Prometendo a Redenção!

Noite feliz – Versão brasileira


Noite feliz, noite feliz
Ó senhor, Deus de amor
Pobrezinho nasceu em Belém
Eis na lapa, Jesus nosso bem
Dorme em paz, ó Jesus
Dorme em paz, ó Jesus

Noite feliz, noite feliz
Eis que no ar vem cantar
Aos pastores os anjos dos céus
Anunciando a chegada de Deus

De Jesus, Salvador!
De Jesus, Salvador!

Noite feliz, noite feliz
Ó senhor, Deus de amor
Pobrezinho nasceu em Belém
Eis na lapa, Jesus nosso bem
Dorme em paz, ó Jesus
Dorme em paz, ó Jesus

Noite feliz, noite feliz
Eis que no ar vem cantar
Aos pastores os anjos dos céus
Anunciando a chegada de Deus
De Jesus, Salvador!
De Jesus, Salvador!

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Notas:


* Hertha Pauli – Download do texto em PDF – http://irtamatias.tk/download/iYbCOwAACAAJ-noite-feliz



Links de vídeos contendo execuções recomendáveis do Stille Nacht:

Animação infantil com o Stille Nacht – https://www.youtube.com/watch?v=DKz1eOyIfz8


Canto do Stille Nacht numa igreja – https://www.youtube.com/watch?v=dQnR0p8DdXo&t=239s

Ivan Rebroff e Meninos Cantores de Viena – https://www.youtube.com/watch?v=3XiygYs8axU


Meninos cantores de St. Florian – https://www.youtube.com/watch?v=ixTym6gFTxQ&t=399s


Meninos Cantores de Viena, com imagens de presépios – https://www.youtube.com/watch?v=eNuP5JvrkXQ