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25 de abril de 2026

Uma peculiaridade da devoção a Na. Sra. de Genazzano

 


A fim de assinalar a bela data que celebramos neste dia 26 de abril, a festividade de Na. Sra. do Bom Conselho de Genazzano, segue um trechinho de artigo de Plinio Corrêa de Oliveira, publicado na revista Catolicismo (Nº 212, abril/maio de 1968). 

No século XV, o quadro d´Ela [foto] foi trasladado miraculosamente pelos anjos, da Albânia invadida pelos muçulmanos para cidade de Genazzano, nas proximidades de Roma. Seu quadro operou numerosos milagres, favorecendo pessoas que rezavam diante dele, e incontáveis pessoas alcançaram receberam grandes graças. 


“Não é possível tratar de Nossa Senhora de Genazzano sem pôr em realce uma de suas peculiaridades mais importantes. Muitas das pessoas que recorrem à Virgem diante da Imagem de Genazzano ou de réplicas desta, têm afirmado que o semblante da Senhora lhos ‘responde’ às orações. 

Não que o faça falando ou movendo-se, o que constituiria manifesto milagre. Mas, sem nenhuma alteração propriamente miraculosa, algo do olhar e da expressão da Divina Mãe toma caráter particularmente vivo e impregnado de maternal alegria quando o fiel é atendido. E é à multiplicação deste favor que em boa parte se deve a expansão universal da devoção a Nossa Senhora do Bom Conselho de Genazzano”.

31 de agosto de 2023

“Ela não me disse nada: mas eu compreendi tudo”

 


A conversão de Afonso Ratisbonne 

  Plinio Maria Solimeo

Há um adágio latino bem conhecido, citado pelo Pe. Manoel Bernardes em sua obra Nova Floresta, que exprime uma verdade de observação corrente: “Nemo repente fit summus”, que poderia se traduzir por “ninguém se torna muito grande ou muito ilustre repentinamente”. Mais comumente se diz que “nada de grande ou de muito importante se faz de repente”. 

É o que vemos na série de fatos aparentemente indiferentes que prepararam a conversão do judeu Ratisbonne, transformando-o de feroz inimigo da Igreja em seu apóstolo. 


Quem era Afonso Ratisbonne 

Afonso nasceu em Estrasburgo em 1814 em uma rica e proeminente família de banqueiros. Perdeu a mãe quando tinha apenas quatro anos. Seu pai era presidente do conselho provincial da Alsácia. Um irmão mais velho, Teodoro, converteu-se ao catolicismo em 1827 e ordenou-se sacerdote em 1830. Isso provocou um escândalo em toda a família, principalmente em Afonso. Formado em Direito, ele se tornou membro do banco de um tio e ficou noivo. 

Tudo parecia lhe sorrir na vida que escolhera. 

Inescrutáveis caminhos de Nossa Senhora 


Em 1841, aos 27 anos, sendo sua noiva ainda um pouco nova para se casar, Afonso resolveu fazer uma longa e despreocupada viagem pelo Oriente. 

Embora nominalmente judeu, após a conversão do irmão ele se tornou um ateu radical, passando a ter um “ódio virulento” a tudo que era católico. 

Ratisbonne viajou para Nápoles, para de lá passar por Istambul, e chegar finalmente à Palestina. Em Nápoles ele comprou passagem para ir primeiro até Malta, mas tomou o navio errado e acabou chegando a Roma no dia 5 de janeiro. 

Na Cidade Eterna resolveu visitar um antigo companheiro de escola, o barão Gustavo de Brussières, a quem não via há muito tempo. O barão era protestante, e compartilhava a hostilidade do judeu contra o catolicismo. 

Como Ratisbonne lhe disse que desejava conhecer um pouco Roma, Gustavo indicou-lhe seu irmão Teodoro, que o judeu conhecera em sua casa, como a pessoa mais apta para guiá-lo. O problema é que Teodoro tinha se convertido ao catolicismo, e era amigo sincero do irmão de Afonso, também Teodoro. 

Teodoro de Brussières era um aristocrata de trato ameno e agradável. Contudo, Ratisbonne julgou-o um católico fanático e muito insinuante. Para evitá-lo, decidiu partir de Roma na madrugada do dia 17. Mas antes de partir quis despedir-se de Gustavo, deixando com ele um cartão para Teodoro. 

Não tendo encontrado Gustavo, Afonso dirigiu-se à casa de Teodoro, para deixar seu cartão. Pensava entregá-lo na porta e sair rapidamente para não encontrá-lo. Porém, um criado italiano não entendeu o que ele queria, e o conduziu à sala de estar, onde estava Teodoro com a esposa e duas filhas. 

Ratisbonne ficou extremamente aborrecido, mas dissimulou com um sorriso reservado. E ao cumprimentar o dono da casa, disse-lhe, para provocá-lo, que visitara o gueto de Roma, onde “contemplou a miséria e a degradação dos judeus”. Isso o havia indisposto ainda mais com os católicos. 

Ante as invectivas de Afonso contra os católicos, afirmando “nasci judeu e judeu morrerei”, De Bussières procurou defender com toda energia a religião verdadeira. 


Medalha Milagrosa e Lembrai-Vos 


Passando ao contra-ataque, De Brussières teve uma súbita inspiração e lhe disse abruptamente: “Já que você detesta superstição e se declara tão liberal em relação à doutrina sendo tão iluminado, terá coragem de se submeter a um simples e inocente teste que vou lhe apresentar?” 

Sorrindo, Ratisbonne perguntou: “Que teste?” 

Erguendo uma Medalha Milagrosa, disse-lhe o barão: “Apenas usar por uns dias esta medalha da Santíssima Virgem que lhe darei.” 

Ao vê-la, o judeu afundou-se na poltrona com um gesto de indignação e repulsa. “Que proposta mais bizarra e pueril!”, pensou. 

De Brussières argumentou: “Parece muito ridículo, não é? Mas eu atribuo grande valor e eficácia a esta pequena medalha. Do seu ponto de vista, isto deve ser uma questão de total indiferença, ao passo que me daria o maior prazer se aceitasse”. 

Ratisbonne caiu na gargalhada e disse. “Oh, eu não vou recusar. Pelo menos lhe mostrarei que as pessoas não têm o direito de acusar os judeus de preconceito obstinado e insuperável. Além disso, o senhor está me fornecendo um capítulo encantador para minhas anotações e impressões de viagem...”

Conquistado este terreno, o Barão foi rápido em tirar vantagem. “Para aperfeiçoar o teste, você deve dizer todas as noites e todas as manhãs uma oração muito curta e muito eficaz, o Lembrai-Vos, que São Bernardo dirigiu à Bem-Aventurada Virgem Maria. Recusar-se a recitar a oração tornaria o teste inútil e provaria que os judeus realmente eram tão obstinados quanto muitos afirmavam”

Por fim, exausto pela ridícula impertinência de Teodoro e não querendo dar muita importância ao assunto, Ratisbonne disse: “Bem, então prometo fazer essa oração. Se não me faz bem, não pode me fazer mal”


“Você tem que adiar sua viagem”  

Na manhã seguinte, Afonso foi visitar o barão e lhe disse: “Vim me despedir porque estou partindo esta noite”. 

Ao que De Bussières respondeu sem saber por que: “Quanto à sua partida, você absolutamente deve adiá-la por uma semana”

Ratisbonne escreveria mais tarde: “Fui induzido incompreensivelmente a prolongar minha estada em Roma. Cedi à insistência de um homem que mal conhecia, e a quem havia recusado obstinadamente ter entre meus amigos mais íntimos”

Já que passaria assim mais uns dias na Cidade Eterna, decidiu deixar De Brussières tornar-se seu guia. 

Acontece que, enquanto isso, Ratisbonne não conseguia parar de recitar mentalmente o Lembrai-Vos. “Continuei a murmurar para mim mesmo, embora com grande impaciência, aquela eterna e importuna invocação de São Bernardo”. 


O Conde de La Ferronays 

O Barão de Brussières tinha um grande amigo em Roma, o Conde de La Ferronnays, Pedro Luís Augusto Ferron. Profundamente católico, nasceu em 1777 e foi Ministro das Relações Exteriores de Carlos X entre 1828 e1829; no ano seguinte exerceu o cargo de embaixador da França junto à Santa Sé. O Barão lhe falou de Ratisbonne, pedindo-lhe orações pela sua conversão. 

Movido por uma graça especial, La Ferronays fez mais do que isso: ofereceu a própria vida nessa intenção. E foi ouvido, falecendo repentinamente de um enfarte aos 64 anos, no dia 17 de janeiro de 1842. 

A aparição e a conversão 

No dia seguinte Ratisbonne saiu com De Brussières para continuarem a visita à Cidade Eterna. Ao passarem diante da igreja San Andrea delle Fratte [foto acima], o barão lhe pediu que o esperasse um pouco, pois teria que entrar a fim de tratar de um assunto importante. O judeu poderia também entrar e esperar dentro, por causa do frio. 

Afonso entrou e começou a analisar a igreja. Achou-a muito feia e notou que a estavam preparando para um funeral. Perguntou ao barão quem era o falecido. De Brussières lhe respondeu que era um amigo seu, De La Ferronnays, por quem tinha grande estima, que falecera subitamente na véspera. 

A igreja estava na penumbra e Ratisbonne chegou diante do altar de São Miguel Arcanjo. De repente, todo o templo ao seu redor desapareceu. Ele escreve: “Não vi mais nada. Ou melhor, ó meu Deus, eu vi apenas um objeto!” Era a Rainha do Céu, em todo o esplendor de sua beleza. 

Ratisbonne depois escreveu: “Fiquei prostrado, com o coração completamente absorto e perdido, quando De Brussières me trouxe de volta à vida. Não pude responder às suas perguntas, mas agarrei minha medalha e beijei a imagem da Virgem, radiante de graça. Era de fato Ela mesma. Eu sabia que De Laferronnays havia orado por mim. Não posso dizer como soube disso, assim como não posso explicar as verdades das quais de repente ganhei tanto o conhecimento, quanto a crença. Tudo o que posso dizer é que no momento em que a Santíssima Virgem fez o sinal de sua mão, o véu caiu de meus olhos [...] aí de uma tumba, de um abismo, e estava vivendo, perfeitamente, vivendo energicamente”


Afonso de Ratisbonne se converteu de tal maneira, que se fez sacerdote. Com seu irmão Teodoro fundou uma congregação religiosa para rezar pela conversão dos judeus — Congregação Nossa Senhora do Sion —, um ramo masculino e outro feminino. E passou os últimos anos de sua vida na Terra Santa, onde faleceu no dia 6 de maio de 1886.

26 de janeiro de 2023

Pobreza de milagres aparentes em nossos dias

Panorama da pequena cidade italiana de Genazzano [Fotos PRC]


✅  Plinio Maria Solimeo 

Nosso mundo materializado e ateu não merece testemunhar grandes milagres, como os que ocorriam em épocas de muita fé. É por isso que os há tão poucos. 

Lendo um documentadíssimo livro sobre Nossa Senhora do Bom Conselho de Genazzano, escrito no final do século XIX por Monsenhor George F. Dillon, deparei-me com um fato surpreendente, portador de não somente um, mas de vários milagres sucessivos. 

Descrevendo a capela da Basílica de Nossa Senhora em Genazzano, o autor fala de um altar lateral onde há um afresco da Crucifixão de tamanho natural, muito venerado pelos peregrinos que ali acorrem. Isso se dava na época em que ele escrevia, 1883, e continua em nossos dias. 

O que tem esse altar de especial, para atrair tanta devoção? 

Segundo Mons. Dillon, esse afresco é muito antigo, tendo entrado para a História no ano de 1540, quando o príncipe Colonna, senhor de Genazzano, rebelado contra o Papa Paulo III por uma questão de tributação, fez com que as tropas pontifícias se vissem obrigadas a sitiar suas principais fortalezas, entre as quais a de Genazzano. 

No considerável período desse sítio, alguns dos soldados de Colonna começaram a beber e a jogar para passar o tempo, como é comum entre as tropas. Eis que um deles, tendo perdido tudo no jogo e excitado pelo vinho, começou a blasfemar horrivelmente contra Deus e seus Santos. 

Mas não se deteve aí. Entrou depois na igreja de Santa Maria, onde se deparou com o afresco da Crucifixão [foto]. Em vez de se comover ante tão piedosa cena, atribuindo a culpa de seu infortúnio a Deus, desembainhou a espada e, para horror dos presentes, desferiu um tremendo golpe no rosto do Crucificado, outro em seu sagrado peito, e um terceiro nas suas pernas. 

Ocorreu então um estupendo milagre: como se as feridas tivessem sido infligidas ao Corpo vivo de Cristo, o sangue jorrou de todas elas, e cobriram a espada do malfeitor que as causou. 

Vários dos companheiros do soldado testemunharam com horror o insano sacrilégio. E passado o primeiro impacto, decidiram punir seu miserável autor. Este, em vez de mostrar qualquer sinal de arrependimento à vista do claríssimo milagre, procurou fugir. Alcançado pelos companheiros, foi trucidado por suas espadas. 

Afirma Mons. Dillon que essa história foi assim contada por vários historiadores. Contudo, diz ele que “este escritor ouviu de um velho padre agostiniano outra versão do destino do soldado. Que o infeliz escapou da morte que tão justamente merecia, arrependeu-se e terminou por tendo vida santa e penitencial como irmão leigo agostiniano”. 

Sucederam-se outros fatos milagrosos relacionados a esse. Um deles é que a referida espada se dobrou em três [foto ao lado], exatamente nos lugares em que atingiu a figura sagrada, e nunca pôde ser endireitada. 

Por exemplo, em 1688, por ordem do Cardeal Colonna, na presença dele e de várias testemunhas, a espada foi endireitada pelo ferreiro André Barbarano, que usou fogo e marreta para isso. 

Ocorreu entretanto que, tão logo terminado seu trabalho, a espada voltou instantaneamente à posição dobrada, que mantém até hoje. Por isso ela é guardada cuidadosamente em um nicho de vidro perto do altar da Crucifixão, como um registro perpétuo do milagre. Esse altar passou a ser objeto de especial veneração pelos peregrinos. 

Mons. Dillon afirma que esse fato, ocorrido no século XVI, estava ainda muito vivo em 1883, quando ele escrevia. 

O autor das presentes linhas quis saber se isso ainda ocorre em nossos dias, isto é, no ano de 2023. Escrevendo a Nestor Fonseca, um amigo residente na Itália, recebi dele a seguinte informação: 

 

“Tivemos a graça de, por ocasião do Natal, passar em Genazzano. Lá rezei pelo senhor e pelo bom andamento do livro sobre Nossa Senhora do Bom Conselho. Sim, efetivamente o altar com a pintura de Nosso Senhor crucificado continua tal e qual a descrição de Mons. Dillon, bem como a espada torcida dentro de uma espécie de nicho. Ao lado deste último há três textos emoldurados (em italiano, inglês e francês [foto]) com o relato explicativo daqueles portentos (21-1-2023)”.



Como dissemos, milagres como esses, que ocorriam com tanta frequência nos bons tempos de antanho e alimentavam a piedade dos fiéis, são raros em nossos dias. Ainda os há — basta ver Lourdes —, mas são raros e pouco conhecidos.

20 de fevereiro de 2022

NOSSA SENHORA DO BRASIL

Imagem de Nossa Senhora do Brasil, venerada na Igreja do mesmo nome em São Paulo. Neste dia 22 de fevereiro celebra-se esta importante devoção mariana

C
ontam-se nos dedos as nações cujos nomes constituem título para Nossa Senhora: Nossa Senhora da Áustria, de Luxemburgo, do Líbano, do Brasil... 

É para nós uma razão a mais de esperança ter a Santíssima Virgem querido manifestar-se especialmente dadivosa, como veremos, mediante essa última invocação. Pois quis Ela conceder à nossa Pátria um acréscimo de bondade, em relação aos incontáveis favores espargidos sobre o Brasil, enquanto sua Padroeira, sob a invocação de Nossa Senhora da Conceição Aparecida. 

É digno de nota ter a denominação Nossa Senhora do Brasil surgido informalmente no seio de uma população longínqua, que sempre se distinguiu por singular devoção mariana Foi o povo napolitano o que começou a invocar Madonna del Brasile. E isso ocorreu na primeira metade do século XIX, quando não havia se estabelecido ainda relação popular mais estreita entre Brasil e Itália, pois a grande imigração proveniente da bela Península não tinha começado. 

A imagem que recebeu tal nome representa Nossa Senhora com o Menino Jesus, ambos ostentando o próprio Coração. O Divino Filho aponta com a mão direita o Coração materno. 

Talhada em madeira, a imagem foi esculpida, segundo a tradição, por algum dos nossos primeiros missionários jesuítas, sob a orientação de São José de Anchieta. Exercendo o Apóstolo do Brasil o cargo de Provincial da Companhia de Jesus, fundou ele no Estado do Espírito Santo a primeira capela dedicada ao Sagrado Coração de Jesus. Posteriormente, de visita ou Pernambuco, teria deixado a imagem de Nossa Senhora dos Divinos Corações, como era então chamada, numa das aldeias de indígenas catequizados. 

Por volta de 1630, foi ela escondida para escapar da sanha iconoclasta dos invasores calvinistas holandeses. E quase um século depois, em 1710, a imagem ficou aos cuidados dos padres capuchinhos vindos da Itália. 

Documentos históricos fidedignos comprovam que, em 1725, Nossa Senhora dos Divinos Corações foi escolhida como Padroeira da nova Prefeitura Apostólica dos missionários capuchinhos no Pernambuco, atribuindo-se a Ela um altar na igreja de Nossa Senhora da Penha, no Recife. 

Em 1828, eclodiram diversos movimentos revolucionários naquela região, durante os quais cometeram-se profanações de templos católicos. Frei Joaquim de Afrágola, fervoroso capuchinho, devoto da venerada imagem, constatando o perigo que ela corria, remeteu-a secretamente para o convento de sua Ordem, em Nápoles. Quatro anos mais tarde, foi profanada a igreja que teria abrigado a imagem, caso a previdente atitude de Frei Afrágola não tivesse sido tomada embarcando a imagem para a Itália. 

Em Nápoles, entretanto, por questões de alfândega, os frades capuchinhos retardaram a retirada da encomenda. A imagem tinha chegado sem aviso específico, em meio a outros objetos que tomavam a caixa muito pesada. Os religiosos não dispunham de recursos para pagar o imposto. Transcorrido considerável tempo nesse impasse, os guardas aduaneiros, curiosos, romperam a cinta que envolvia a caixa... Ficaram eles admirados ao descobrir uma bela efígie de Nossa Senhora, que enviaram prontamente para seu destino, o Convento de Santo Efrém, o Novo. 

Impressionados com a notável perfeição dá escultura, aqueles religiosos resolveram expô-la à veneração dos fiéis, na própria igreja de Santo Efrém. O povo napolitano, depois das grandes honras com que foi exposta à veneração pública, espontaneamente começou a denominá-la Madonna del Brasile

A nova devoção difundiu-se em pouco tempo, tornando-se patentes numerosas graças obtidas através da artística imagem. Por exemplo, a cessação da então terrível epidemia de cólera e numerosas curas. 

A 22 de fevereiro de 1840, verificou-se impressionante milagre: um devorador incêndio consumiu a igreja de Santo Efrém, reduzindo-a a cinzas. Contudo, a velha madeira da imagem e as vestes que a ornavam ficaram intactas! Muitos que tinham acorrido, devido a noticia do incêndio, constataram com agradável surpresa a preservação da Madonna del Brasile. Fato que, naturalmente, concorreu para aumentar ainda mais o recurso confiante da população de Nápoles a Ela. 

Paróquia Nossa Senhora do Brasil (na capital paulista)

Tudo o que acima foi narrado era quase desconhecido entre nós. Em 1924, porém, o Bispo brasileiro Dom Frederico Benício de Souza Costa, passando por Nápoles, inteirou-se da história da Madonna del Brasile. E; voltando a nossa Pátria, divulgou-a quanto pôde. 

O culto a Nossa Senhora do Brasil ainda não se tomou muito conhecido no território nacional. Apesar disso, Ela é venerada nas cidades do Rio de Janeiro, Porto Alegre e São Paulo. Na capital paulista, importante paróquia foi a Ela dedicada, no bairro do Jardim América [foto ao lado]. A imagem original, entretanto — apesar de diversas tentativas feitas para obter seu retomo ao Brasil —, continua em Nápoles. 
____________ 
FONTES DE REFERÊNCIA 
• Niha Botelba Megale, 112 invocações do Virgem Maria no Brasil, Editora Vozes, Petrópolis, 1986, 2ª edição, pp. 77-79. 
• Folhetos da Paróquia Nossa Senhora do Brasil, São Paulo.

29 de agosto de 2020

O papel decisivo da instituição familiar na economia


Fonte: Revista Catolicismo, Nº 836, Agosto/2020

Hoje, mais do que nunca, fala-se exaustivamente de economia; o que deixa muitos preocupados, não só com a gravidade da situação econômica como ela se apresenta, mas também com as concepções marxistas de economia. Mas para a família católica, qual a importância que se deve atribuir às questões econômicas? O que ensina a doutrina social da Igreja sobre o assunto? Estas e outras perguntas são respondidas cabalmente nesta entrevista com Ettore Gotti Tedeschi [foto acima], concedida com exclusividade ao colaborador de Catolicismo na Itália, Sr. Julio Loredo de Izcue. 

Para o nosso entrevistado, que é banqueiro, economista, professor universitário, escritor, ex-presidente do IOR (Banco do Vaticano), menosprezar o papel da família produz crises socioeconômicas e culturais; e “o estopim do colapso econômico foi o colapso dos nascimentos, devido às teorias ambientais malthusianas”, pois teve como consequência o envelhecimento da população. 

*   *   *

Enquanto católico apostólico romano, e como homem público, qual o seu enfoque sobre a economia? 

Hoje a economia parece ter-se tornado uma ferramenta utilizada para “assustar” e “deformar a visão moral”, por isso tomo o máximo cuidado ao tratar da questão. Veja bem, toda decisão econômica produz consequências morais, e toda visão moral influencia a utilização de instrumentos econômicos. Mas a economia não é uma ciência. Simplificando, a “maçã” da economia não é a “maçã de Newton”. 

Uma decisão econômica raramente produz o efeito desejado. Se a economia é submetida a projetos “políticos” (para “assustar”), pode ser tentada a inventar utopias (pense no marxismo). Mas se essas utopias forem incorporadas ao Magistério da Igreja, elas correm o risco de produzir heresias (pense na pseudo-teologia da libertação), e mesmo uma heresia pode influenciar o comportamento econômico (pense no luteranismo). 

A moral e a economia estão muito conectadas, por isso a Igreja interveio, a partir de Leão XIII, ao propor a sua própria Doutrina Social. Hoje, como se considera que a Igreja não deve mais se dedicar ao magistério e à evangelização, a antiga Doutrina Social Católica se tornou inaplicável; mas uma nova parece estar em gestação, podendo advir do evento de Assis (Economia de Francisco). 

Conforme acabei de dizer, a economia também pode se tornar uma ferramenta aplicável para deformar a visão moral. Num recente documento pontifício (Evangelii Gaudium), lemos que existe uma economia que mata; e o pior dos males sociais é a desigualdade — isto é, a má alocação de recursos econômicos — e não o pecado. Porém, como explicam com absoluta clareza João Paulo II na Sollecitudo Rei Socialis, e Bento XVI na Caritas in Veritate, quem usa bem ou mal o instrumento econômico é o homem, portanto é o homem que deve ser treinado, deve ser convertido. Não é a ferramenta que precisa ser alterada, embora alguma alteração seja lícita. 

Lendo essas considerações, fiquei preocupado. E a preocupação aumentou quando notei no atual pontificado a ênfase colocada nas questões econômicas. Até ontem a Igreja não tinha que lidar com a economia, na melhor das hipóteses lidava apenas com as consciências individuais. Hoje se diria que ela deve e quer lidar tão-só com a economia, e apenas secundariamente com as consciências. Mas parece lidar com problemas econômicos — tais como pobreza, capitalismo, finanças, desigualdades, redistribuição de riqueza, migração, meio ambiente etc. — sem demonstrar conhecer as causas, mas apenas os efeitos. A suspeita, portanto, é que alguém possa inclusive pensar em utilizar a ferramenta econômica para outros fins até agora inimagináveis, talvez para reinterpretar o próprio Gênesis.

Quais são suas previsões sobre as propostas que poderão surgir em 21 de novembro próximo em Assis, por ocasião da Conferência sobre Economia convocada pelo Papa Francisco? 

No próximo 21 de novembro realizar-se-á em Assis
a Conferência sobre Economia, convocada pelo
Papa Francisco. Nascerá dela uma nova
doutrina social cristã?



Lendo os textos dos organizadores e dos principais convidados, posso imaginar, mais do que fazer previsões, que essa conferência tentaria estabelecer regras de uma nova doutrina social da Igreja. Posso igualmente imaginar que, na visão dos organizadores, uma nova doutrina social cristã se torne necessária, pois o Gênesis até hoje teria sido mal interpretado, portanto mal utilizado. 

A famosa compreensão da “realidade”, muito realçada neste pontificado, explicaria que o homem não é uma prioridade na criação; pois, tendo abusado dela, desequilibrou a ordem da criação. O resultado seria a necessidade de reduzir o seu próprio papel na criação, levando-o talvez a se identificar novamente com a natureza, como os povos primitivos e pagãos (pense no Sínodo da Amazônia). 

Ainda não entendi bem se isso foi uma preliminar, pela necessidade de convencer todos os homens a reconhecer no ambientalismo uma religião universal para a humanidade, de acordo com a nova gênese reconstruída. Pode-se deduzir que o novo bem comum esteja centrado na conservação do meio ambiente, e não no homem ganancioso e egoísta. 

Em Assis pode-se tentar explicar como fazê-lo, propondo mudanças nas estruturas e ferramentas socioeconômicas do sistema capitalista. Tais mudanças poderiam agradar muito ao homem, no entanto prejudicariam a criação, por se oporem ao surgimento de desigualdades baseadas em modelos meritocráticos. 

Também poderia ser possível propor em Assis uma “reumanização” da economia, mudando a “velha e errada ordem natural” por meio da proposta de um novo humanismo ambiental. O significado da vida humana poderia não ser apenas a sua salvação eterna, mas antes a salvação da natureza. Veremos. 

Qual é o papel da família para a economia? 

Uma nova gênese reconstruída, pela qual
os homens terão que reconhecer
no ambientalismo uma religião universal
para a humanidade.Adicionar legenda

13 de agosto de 2017

Dois prefeitos “politicamente incorretos”


Plinio Maria Solimeo

Em outro artigo(*) apresentamos um político inglês conservador, bem casado e pai de seis filhos, que por sua fidelidade à fé católica enfrenta de peito aberto todos os desmandos morais que assolam o pobre mundo moderno.

Hoje falaremos de dois políticos italianos que, coerentes com a sua ideologia, também defendem os valores tradicionais, não aceitando essas pragas que infestam nosso século.


O primeiro é Federico Sboarina [foto ao lado], recém-eleito prefeito, pela coalizão da Liga do Norte, da importante cidade de Verona. Advogado de 46 anos, “tão logo chegou ao cargo, deu ordem para se retirar das escolas e deixar de privilegiar nas bibliotecas públicas todo o material propagandístico da ideologia de gênero que havia sido distribuído nos últimos anos” .(1)

Isso ele fez em cumprimento ao prometido em seu programa eleitoral que, “como forma de apoiar a família, estabelece, entre outros, estes três pontos: 
“Oposição à difusão da ideologia de gênero nas escolas mediante propostas educativas desenvolvidas em colaboração com as associações de famílias, com a finalidade de promover o respeito à dignidade masculina e feminina, sem desprezar suas valiosas diferenças naturais”;  
“Retirada das bibliotecas e das escolas municipais [...], incluídas as creches, de livros e publicações que promovam a equiparação da família natural com as uniões do mesmo sexo, e interrupção das iniciativas que promovem indiretamente este mesmo objetivo”;  
“Compromisso de rechaçar toda iniciativa (deliberações, moções, ordens-do-dia, coleta de assinaturas, orgulho homossexual, etc.) contrária aos valores da vida, da família natural ou das prerrogativas do direito dos pais em educar seus filhos segundo seus princípios morais e religiosos”.
Devido a essas propostas conservadoras, Federico Sboarina obteve 58,11% dos votos no segundo turno das eleições de 25 de junho. É preciso salientar que Verona, com cerca de 250.000 habitantes, é a segunda cidade do Vêneto, logo depois de Veneza. 

Patrizia Bisinella, adversária de Sboarina, também pertencera à Liga do Norte, partido conservador; mas nos últimos anos cedeu ao império do lobby homossexual. O resultado das eleições mostra que a maioria da população é mais conservadora do que os políticos pensam. E, no entanto, eles se iludem defendendo essas aberrações morais, que julgam ter popularidade entre o povinho. 


Campanha de imposição ideológica subvencionada

Como não é de surpreender, as medidas do novo prefeito provocaram um imenso clamor no establishment pró-homossexual. O lobby LGBT fala agora em “confiscar” e “destruir” qualquer livro que questione a ideologia de gênero, além de atacar a “censura” existente em Verona, no que é apoiada pela Associação Italiana de Editores, pela Associação Italiana de Bibliotecas e pela International Publishers Association, que pediram a Federico Sboarina que reconsidere a sua decisão. 

Uma das principais organizações do lobby homossexual italiano, Arcigay, comenta: “É desconcertante que Sboarina seja vítima do grande espantalho e da apoteose paranoica reacionária do momento, do ogro do gênero, que não existe, mas sobre o qual se construiu um partido que consegue alguns votos”. Ao que “os defensores da medida respondem que esses ‘alguns votos’ são quase dois terços dos registrados no dia 25 de junho, e que a própria existência de toda a propaganda retirada agora por Sboarina demonstra que não há nenhum ‘espantalho’ nem ‘paranoia’, mas uma campanha de imposição ideológica bem organizada e subvencionada”

Com efeito, a maioria dos textos infantis, que têm muito pouca venda nas livrarias e “pouca procura da parte dos pais que compram livros para seus filhos, são financiados com dinheiro público para sua distribuição escolar e estão destinados exclusivamente a doutrinar as crianças na ideologia de gênero”.

Apesar do verdadeiro estrondo publicitário que estão fazendo contra essa medida de Federico Sboarina, ela significa apenas que esses lixos morais “simplesmente deixarão de ser leitura escolar obrigatória, e não serão privilegiados, como até agora, nas salas de leitura infantil das bibliotecas públicas”


Católico e cristão à antiga 

O outro prefeito que se opõe à agenda LGBT é Serafim Ferrino [foto ao lado], 68 anos, da pequena cidade de Favria, de cinco mil habitantes, na província de Turim. Reeleito quatro vezes, ele se confessa um “católico e cristão à antiga” .(2)

Também coerente com a sua fé, ele foi o primeiro prefeito na Itália a se negar a celebrar um “casamento” entre dois homens, desde a aprovação, em maio, da lei que o permite. O destemido prefeito afirma: “Para mim, a família está composta só por um homem e uma mulher, não por dois homens ou duas mulheres”. “Essas poderão ser uniões, mas não famílias. Creio firmemente que a base da sociedade é a família. Sem família não há sociedade. É ela que educa os filhos, a que trabalha sobre o terreno”

Em várias entrevistas, Serafim já havia declarado que não celebraria “casamento” entre pessoas do mesmo sexo, “nem delegaria a função de fazê-lo, porque seria uma forma indireta de colaboração”. Foi o que, chegada a ocasião, pôs em prática. 

Como não poderia deixar de ser, a ditadura homossexual pôs a boca no mundo, no que foi secundada pela imprensa liberal. Serafim não se abalou: “Simplesmente obedeço à minha consciência”, disse ele à “La Nuova Bussola Quotidiana”: “Agora todos me fazem guerra, mas paciência. Isso quer dizer que é necessário dar testemunho assim!”

Serafim já havia se manifestado de outras formas, como participando da concentração organizada pelo movimento Sentinelas em Pé na cidade de Ivrea.


A provocação do lobby homossexual 

O prefeito é muito querido em sua cidade, à qual não pertenciam os que provocativamente haviam solicitado o “casamento”. A localidade é muito apreciada para bodas por sua beleza artística, “mas Serafim tem claro que, como não há casualidade, eles escolheram o local justamente para suscitar o caso, porque sabiam de seu rechaço à lei”. Aliás, essa é uma das táticas habituais do lobby homossexual para amedrontar seus oponentes, como sucedeu com o confeiteiro Jack Phillips [foto ao lado], do Colorado, a três mil quilômetros de distância, a quem um casal homossexual encomendou um bolo para sua boda a fim de obter uma negativa e o confeiteiro ser multado. 

Serafim diz por que se recusa a fazer esse “casamento”: “Por razões éticas e morais, porque sou católico praticante, e porque, como prefeito, tenho o dever de opor-me a uma lei injusta. Sou um católico que procura fazer política seguindo o Magistério da Igreja. Ninguém pode impedir-me de professá-lo”.

No clima de ditadura anticristã em que vivemos isso poderá acarretar para Serafim a perda do cargo. Mas ele tem o apoio da esposa, entretanto “muito preocupada com a exposição mediática” deslanchada pela imprensa liberal praticamente de todo o mundo. “Em 37 anos de atividade política e administrativa, jamais isso me havia sucedido. Não estou violando a lei, estou é respeitando minha fé”, diz o destemido batalhador. 
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1. http://www.religionenlibertad.com/alcalde-coherente-retira-colegios-guarderias-todo-material-57992.htm, que vimos seguindo para este artigo. 
2. Este artigo está baseado em http://www.religionenlibertad.com/solo-obedezco-conciencia-dice-alcalde-italiano-que--52245.htm

2 de dezembro de 2016

É questão de ideologia...


Plinio Maria Solimeo 

Muitos ingênuos se perguntam por que os esquerdistas, quase na totalidade, de modo geral são a favor do aborto, do pseudo “casamento homossexual”, da Ideologia de Gênero e de tantas outras aberrações morais que surgem em nossos dias. Para constatá-lo basta ver as plataformas de nossos partidos da esquerda tupiniquim, para os quais se trata pura e simplesmente de uma questão ideológica, como o é para os verdadeiros conservadores a questão da propriedade privada, da livre iniciativa, da teoria de que a vida se dá desde o primeiro instante da concepção e da diferença salutar existente entre os sexos.

Nesse sentido, o diário italiano “Corriere della Sera” publica uma interessante entrevista com o médico Massimo Segato [foto], com o título: “Confissão de um médico a respeito do aborto: ‘Trabalho sujo, como numa guerra’”. E o subtítulo: “O Dr. Segato, radical, socialista, ateu: ‘Eu o faço [o aborto] por senso cívico, por essas mulheres’” que o desejam.

Esse médico de 62 anos, vice-diretor do hospital de Ginecologia de Valdagno, tem nas suas costas — e deve responder por isso a Deus — milhares de abortos, ou seja, de bebês assassinados no ventre materno. 

Um fato ocorrido há 30 anos começou a abalar sua ideia sobre o aborto e poderia tê-lo levado a deixar inteiramente de fazê-lo. Mas questões ideológicas o impediram, por ser ele socialista.

Efetuando um aborto naquela ocasião, Segato cometeu uma barbeiragem qualquer e não matou o feto. Como consequência, a criança nasceu normalmente. Em sua aludida entrevista, esse médico abortista declarou ao jornal: “Uma manhã voltei a encontrar-me com essa senhora, que acabava de dar à luz. Ela me deteve, e me disse: ‘Doutor, lembra-se de mim? Vê isto? É o seu erro’”. E mostrou-lhe o menino não desejado, são e salvo. Continua o médico: Era “um lindo moreninho, já tinha cabelo, e tomava o peito tranquilo. Ela sorria. Foi então quando tive minha primeira crise de consciência”, que não o fez mudar inteiramente sua opinião a respeito do aborto. Hoje aquele menino tem 30 anos, bom trabalho, e dois irmãos maiores. “Foi o erro mais formoso de minha vida”, declara Segato. 

Apesar disso, como socialista convicto, Segato continuou a praticar abortos, mas reduzindo seu número, pois “cada vez que saía da sala de operações, tinha um sentimento de náuseas. Começava a me perguntar se estava realmente fazendo o correto. Quantas crianças poderiam ser como aquele pequeno?” Entretanto, logo abafava esse movimento da consciência, acrescentando: “Mas respondia-me que sim, que estava bem o que fazia. Pois o fazia por essas mulheres”. Quer dizer, sufocava a voz de Deus em sua alma. 

É claro que, para um ateu materialista, continuar a assassinar crianças no ventre materno pode não ser deleitável, mas não causa maiores problemas de consciência. 

Quando se deu o caso do referido bebê não desejado, esse médico assassino realizava 300 abortos por ano! Quantas crianças sacrificadas! Isso evidencia a decadência moral da outrora católica Itália. E escandalizava muitos: “As religiosas do hospital, quando me viam, se persignavam; e o capelão dizia que, comparado comigo, Herodes era um diletante, se bem que logo comíamos juntos, e nos tornamos amigos. Eu, entretanto, continuava convencido de minha decisão. Considerava-a honrada e cheia de sentido cívico, respeitosa da vida das mães destinadas a abortar clandestinamente”. E a vida das crianças abortadas? Não lhe causava, por certo, alguma dor de consciência, que ele culposamente não dava atenção? 

Hoje, 30 anos depois daquele episódio, Segato prefere não fazer mais abortos. Faz intervenções ginecológicas, partos, ecografias, mas não aborto, embora não tenha para isso objeção de consciência: “Se posso, o evito, e me sinto contente”. Conclusão: se não pode evitar, o faz. E explica essa contradição: “Sim, sei que eu também deveria ser um objetante [de consciência para não fazer o aborto], mas não o sou”. Qual a razão que ele dá? “Para não desdizer-me com relação à minha decisão inicial” [de o fazer]. Quer dizer, é por princípio ideológico que o faz.

Continua ele a descrever essa sua atitude dúbia, de ver o erro, mas cometê-lo: “A verdade é que, quanto mais passam os anos, mais desgosto encontro, e só intervenho em emergências. Mas se acontece, não fico sereno”. Repete que, apesar da inquietação que sente quando tem que fazer um aborto, não deixa de fazê-lo por causa de suas convicções.

Para se justificar dessa atitude dúbia, ele apela à sua ideologia: “Continuava só por compromisso cívico, por coerência [doutrinária]. Alguém tinha de fazer o trabalho sujo, e eu era um desses, e ainda sou. É como para um soldado ir à guerra. Se o Estado decide que tem que ir à guerra, tem que ir”. Qual é o “Estado” que o obriga a fazer abortos e ao qual ele tem que obedecer? Será o Partido Socialista? Não o diz...

Ele acrescenta uma coisa que é sabida, mas que na boca de um abortista tem seu peso. Assim como ele não fica sereno quando tem que praticar um aborto, também “não estão [serenas] as mães que durante tantos anos passaram por minha consulta. Jamais vi uma contente com seu aborto. Pelo contrário, muitas são devoradas para sempre pelo sentimento de culpa”. [...] “Quando volto a vê-las, dizem-me: ‘Doutor, ainda tenho aquela cicatriz, que eu levarei para a sepultura’”

Diante disso tudo, ele deveria ser coerente e deixar de fazer os abortos e, a fim de reparar seus inúmeros pecados, lutar contra a prática abortiva. Mas, não: “Logo raciocinas e te dizes que para muitas delas teria sido pior não fazê-lo, e segues adiante, absolvendo-te a ti mesmo”. Assim se embota uma consciência e se chega mesmo a negar a verdade conhecida como tal. Foi o que ocorreu no dia 29 último no STF (vide artigo publicado ontem neste blog). 

Há pouco o Papa Francisco estendeu a todos os sacerdotes a absolvição nos casos de aborto, o que antes era reservado aos bispos e motivo de excomunhão. Sem considerar outros aspectos muito delicados da questão, a atitude do Pontífice tem sua contrapartida: procura-se espalhar a impressão de que esse crime hediondo — como o é o assassinato de seres inocentes — ficou transformado num pecado comum que pode ser absolvido por qualquer sacerdote. O que diminui o horror que todo católico bem formado deve ter a esse gravíssimo pecado que clama aos céus e, sobretudo, leva muitas mulheres católicas a abortar, já com a intenção de depois se confessar com qualquer sacerdote...

5 de março de 2016

A traição histórica dos “católicos”

Roberto de Mattei (*)

A aprovação na Itália do pseudo-casamento homossexual, ocorrida no Senado no dia 25-2-16 com 173 SIM, 71 NÃO e 76 ausências, é a mais recente etapa de um processo de dissolução da sociedade italiana que se iniciou com a introdução do divórcio (1970), passou pela legalização do aborto (1978) e terá seu próximo e iminente passo na legalização da eutanásia.

Pode-se compreender bem, nesta perspectiva, a exultação da imprensa laicista. “Na longa e tortuosa história da libertação sexual da Itália — escreve Francesco Merlo no jornal La Repubblica (26-2-16) — esta lei tem a mesma relevância histórica que as leis do divórcio e do aborto”. O que estes três eventos têm em comum é a traição consumada pelos dirigentes católicos dos respectivos governos. O divórcio veio sob um governo de centro-esquerda liderado pelo democrata-cristão Emilio Colombo. O aborto foi aprovado por um governo democrata-cristão presidido por Giulio Andreotti. 


A Democracia Cristã desabou, mas os principais responsáveis pela nova lei, o presidente do Conselho Matteo Renzi [foto abaixo, à dir.] e o ministro do Interior Angelino Alfano [foto abaixo, à esq.], se definem, nas pegadas de Colombo e Andreotti, como católicos praticantes. Se o ministro Alfano tivesse ameaçado renunciar teria tornado impossível, ou pelo menos teria adiado a aprovação da lei; mas o político siciliano preferiu comportar-se como Andreotti, que no dia 21 de janeiro de 1977 anotou no seu diário: “Sessão na Câmara para votar o aborto. Passa com 310 votos a favor e 296 contra. Pus-me o problema [de consciência] de subscrever esta lei (também o tem [o presidente] Leone para ratificá-la), porém se eu me recusasse, não só abriríamos uma crise após ter apenas começado a tapar os vazamentos, mas, além de ter que aturar a lei do aborto, a DC perderia também a presidência e seria muito mais grave” (Diários 1976-1979. Os anos da solidariedade, Rizzoli, Milão 1981, p. 73). A perda da presidência do governo era considerada mais grave que o homicídio legal de milhões de inocentes. 


O que prevê o atual projeto sobre as uniões civis que leva o nome da senadora Monica Cirinnà? Como explicou o jurista Alberto Gambino no Libero de 26 de janeiro, trata-se de um instituto paramatrimonial no qual são previstos os mesmos direitos e deveres do casamento: assistência moral e material, coabitação, direitos patrimoniais, prerrogativas em matéria de trabalho, previdência, impostos, atribuição de moradia, até mesmo a mudança de nome e a comunhão de bens. 

O único direito matrimonial que não é reconhecido é o de adoção, mas a Sra. Cirinnà anunciou que “um projeto de lei sobre as adoções de casais homossexuais está quase pronto. Será iniciado na Câmara, onde os números são seguros, de modo que chegará ao Senado blindado” (Il Fatto Quotidiano, 26 de fevereiro). Como se isso não fosse suficiente, existem ainda as instâncias da Europa Unida. A Corte Europeia de Direitos Humanos estabeleceu que basta inserir na legislação de um país um regime jurídico substancialmente igual à instituição do casamento, ainda que se o chame de “união civil”, para tornar-se obrigatória a introdução da adoção de crianças e assim evitar a discriminação. 

O projeto de lei Cirinnà, tornado projeto Renzi-Alfano, apesar de não conter as adoções homossexuais, é em si injusto e inaceitável, não só porque introduz um pseudo-casamento, mas por atribuir direitos aos homossexuais não enquanto pessoas, mas enquanto homossexuais. Segundo a doutrina católica e, antes mesmo, segundo a lei natural, o homossexualismo ou sodomia é um vício do homem que subverte os princípios da ordem moral. Mas o ministro Angelino Alfano declarou no programa Agorà na RAI3: “Eu nunca ameacei o governo [de retirar-me] pela questão da adoção de crianças pelas famílias homossexuais, farei de tudo para chegar a um acordo. [...] No projeto de lei Cirinnà, voto ‘sim’ se eles tirarem as adoções. Sou a favor de direitos para todos os casais, inclusive os casais homossexuais. Estou absolutamente aberto” (La Repubblica, 5-2-16). 

Tem razão Merlo ao escrever que “de qualquer perspectiva que se olhe, esta lei é uma nova Porta Pia” [NdT: local pelo qual as tropas de Garibaldi penetraram em Roma], pois “desvaticaniza [ou seja, descristianiza] a Itália” (La Repubblica, 26-2-16). Mas como podemos ignorar a responsabilidade da hierarquia eclesiástica nesta descristianização da Itália? O vaticanista Giuseppe Rusconi observa que “a amargura e a raiva” dos fiéis, muito mais do que contra os políticos católicos, “se dirigem contra outro alvo: o secretário-geral da Conferência Episcopal Italiana, Dom Nunzio Galantino” (Rossoporpora, 26-2-16), alto expoente da “Igreja em saída” [desejada pelo Papa Francisco], que “ao confronto aberto e até mesmo duro  especialmente nas questões da família e da vida — prefere um diálogo exagerado e incerto com o poder político, o qual se desenvolve nos bastidores e em reuniões amistosas de conversa”

Devemos acrescentar que nenhuma palavra veio de quem exerce o cargo de Bispo de Roma e Primaz da Itália. A este respeito, o projeto de lei aprovado no Senado é uma derrota pesada para todos os católicos, incluindo aqueles que vêm chamando de “vitória” o Family Day e a supressão da adoção de crianças por casais homossexuais sob a forma de stepchild adoption, ou seja de adoção de enteado. Foi propriamente esta “vitória” que tornou possível o acordo Renzi-Alfano, resultando numa derrota colossal para o mundo católico. Uma manifestação pública é sempre uma forte mensagem que se remete a alguém e a importância do Family Day se encontra no fato de que ele tenha existido. 


O povo que participou da gigantesca manifestação do Family Day [foto] é um povo que perdeu uma batalha, mas que deseja prosseguir a guerra. E que já está se mobilizando para um referendo a fim de revogar integralmente a lei que vai introduzir as uniões homossexuais na Itália.

O mundo católico na Itália sempre foi relutante a grandes manifestações públicas, porque sempre tentou evitar o conflito aberto com o adversário, com a ilusão de vencer por meio de compromissos. Mas a renúncia à luta é o pressuposto da derrota. Devemos, portanto, nos alegrar com a demonstração do dia 30 de janeiro, porque ela expressou o espírito militante de um povo vindo de toda a Itália, reunido com esforço e sacrifício para fazer ouvir a sua voz. Mas não devemos confundir a base do Family Day com os líderes do mundo católico. 

Tampouco confundamos as intenções e os planos dos organizadores da manifestação com a forte mensagem que veio das ruas. O povo do Family Day é um povo que perdeu uma batalha, mas que deseja prosseguir a guerra. E que já está se mobilizando para um referendo a fim de revogar integralmente a lei que vai introduzir as uniões homossexuais na Itália. O próximo compromisso é em Roma, no dia 8 de maio, para a Marcha pela Vida.

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(*) Fonte: “Corrispondenza Romana”, 2-3-2016. Matéria traduzida do original italiano por Paulo Henrique Chaves.

5 de fevereiro de 2016

A Itália do Family Day


Roberto de Mattei (*) 

O Family Day de 30 de janeiro trouxe à luz a existência de outra Itália, bem diversa daquela relativista e imoral apresentada pela mídia como a única real. 

A Itália do Family Day é aquele conjunto de pessoas, mais amplo do que habitualmente se imagina, que permaneceu fiel (ou retornou nos últimos anos) àquilo que Bento XVI definiu como “valores não negociáveis” — a vida, a família, a educação dos filhos —, na convicção de que somente sobre esses pilares é possível fundar uma sociedade bem ordenada. 

A Itália do Family Day é contrária ao projeto de lei apresentado pela senadora Monica Cirinnà para introduzir o casamento e a adoção homossexual em nosso País. 


A Itália do Family Day não é só uma Itália que defende a instituição familiar, mas antes uma Itália que se arregimenta contra os inimigos da família, a começar pelo grupo de relativistas que, por trás do pano da lei Cirinnà, quer impor ao País uma ideologia e uma prática pansexualista. Esta minoria é apoiada pela União Europeia, pelo lobby marxista-iluminista e pela maçonaria de vários níveis e graus, mas goza infelizmente da simpatia e da benevolência de uma parte dos bispos e dos movimentos católicos. 

Nesse sentido, a Itália do Family Day não é a de Dom Nunzio Galantino, secretário da Conferência Episcopal Italiana (CEI), nem a de associações como Comunhão e Libertação, Agesci, Focolari, Renovação Carismática, que em 30 de janeiro desertaram do Circo Máximo [local da concentração, em Roma]. Dom Galantino procurou por todos os meios evitar a manifestação, e posteriormente, na impossibilidade de impedi-la, quis impor-lhe outro objetivo, como observa Riccardo Cascioli em “La Nuova Bussola quotidiana” de 1º de fevereiro: “chegar a uma lei sobre as uniões civis que mantenha a diferença com a família fundada no casamento entre homem e mulher e que evite as adoções. Em outras palavras, a CEI quer o DICO contra o qual ela mesma combateu há oito anos”

O primeiro Family Day foi de fato promovido pelos bispos italianos em 2007, contra a legalização das uniões civis (DICO, acrônimo de “direitos dos conviventes”), justamente apresentada pela CEI como uma porta aberta ao pseudo-casamento homossexual. Hoje ela nos conta que é preciso aceitar as uniões civis a fim de evitar o referido “casamento”. 

Pleteia-o, entre outros, em uma entrevista, Dom Marcello Semeraro, bispo de Albano: “Em princípio, não tenho objeção ao fato de que, na esfera pública, se dê consistência jurídica a essas uniões. Parece-me que a oposição refere-se ao aspecto da filiação, das adoções, não ao reconhecimento público das uniões. O importante é que não sejam assimiladas à realidade do casamento.” E, para que não restem dúvidas, acrescenta: “Não há nenhum problema em se fazer uma lei sobre uniões civis” (“Corriere della Sera”, 31-1-16). A posição é clara: não à adoção de crianças pelos homossexuais, sim à legalização das uniões homossexuais, desde que não sejam formalmente definidas como casamento. Se fossem removidos do projeto de lei Cirinnà alguns elementos que equiparam em tudo as uniões civis homossexuais ao casamento, então um católico poderia aceitá-lo. 

Dom Semeraro é considerado, como Dom Galantino, um confidente do Papa Francisco. Portanto, a pergunta surge naturalmente: qual é a posição do Papa sobre o assunto? 

No “Libero” de 31 de janeiro, Antonio Socci observa que foi “evidentíssima a ausência e palpável a frieza” do Papa Francisco, que nem sequer enviou uma saudação ao Family Day, nem o mencionou no discurso da audiência da manhã de sábado nem no Ângelus do dia seguinte. Como julgar esse silêncio, quando o Governo e o Parlamento italiano estão se preparando para infligir uma ferida moral na Itália? 

Tanto mais quanto a Congregação para a Doutrina da Fé já declarou três décadas atrás que a homossexualidade não pode reivindicar qualquer reconhecimento jurídico, porque aquilo que é mau aos olhos de Deus não deve ser admitido oficialmente como justo (Carta sobre a assistência pastoral das pessoas homossexuais, 1º de outubro de 1986, nº 17). 

A Itália do Family Day talvez ignore este documento, que o
Papa não pode ignorar. Mas tendo como arma apenas o bom senso, ela proclamou no dia 30 de janeiro o seu não claro e límpido não apenas à chamada stepchild adoption [adoção de enteado, ou seja, de um filho ou filha do parceiro ou da parceira homossexual], mas a todo o projeto Cirinnà. Quanto ao posicionamento da multidão que abarrotava o Circo Máximo, ele pôde ser conferido pela força dos aplausos que acompanharam os discursos mais fortes de alguns oradores italianos e estrangeiros, como Seljka Marrkic, líder da Iniciativa cívica que promoveu na Croácia o referendo que rejeitou a união civil e, três meses depois, derrubou o presidente do Conselho de ministros. 

Devemos reconhecer com serena objetividade que a Marcha pela Vida — que vem ocorrendo na Itália desde 2011 — quebrou o gelo ao desfazer um mito que pesava sobre o mundo pró-vida italiano: a ideia de que era impossível, ou pelo menos contraproducente, fazer uma grande manifestação pública em defesa da vida. 

Nas pegadas da March for Life dos EUA, mas também da grande Manif pour tous da França, nasceu o Family Day, desejoso de aglomerar uma massa tão grande quanto possível, reunindo diferentes correntes. Intransigentes algumas, outras abertas ao compromisso. A razão do seu sucesso em termos de quantidade é também a razão de sua fraqueza em termos de substância e metas. A batalha em curso não é de fato política, mas cultural, que não se ganha tanto pela mobilização das massas quanto pela força das ideias que se contrapõem ao adversário. 

Trata-se de uma batalha entre duas visões do mundo, ambas fundadas em alguns princípios fundamentais. Se admitirmos a existência de uma Verdade absoluta e de um Bem absoluto que é Deus, nenhuma concessão é possível. A defesa da verdade deve ser levada até o martírio. 

A palavra mártir significa testemunho da verdade, e hoje, ao lado do martírio cruento dos cristãos, que recomeçou em muitas partes do mundo, há um martírio sem derramamento de sangue, mas não menos terrível, infligido pelas armas midiáticas, jurídicas e psicológicas, com a intenção de ridicularizar, fazer calar, e, se possível, aprisionar os defensores da ordem natural e cristã. 

Por isto esperamos que o “Comitê de defesa dos nossos filhos”, promotor do Dia da Família, continue a denunciar as iniquidades da lei Cirinnà, mesmo se esta vier infelizmente a ser aprovada e ainda que sob uma fórmula edulcorada. 

A Manif pour tous francesa levou pela primeira vez quase um milhão de pessoas às ruas em 13 de janeiro de 2013, poucas semanas antes do debate no Parlamento da lei Taubira. Mas continuou a se manifestar, com força ainda maior, mesmo após a aprovação do pseudo-casamento homossexual, provocando um movimento que abriu caminho a muitos outros na Europa. Dias atrás, Christiane Taubira, de quem a celerada lei francesa toma o nome, saiu de cena, demitindo-se de suas funções de ministro da Justiça. 

Portanto, esperamos que se realizem novas manifestações na Itália, conduzidas com força e determinação, ainda que o número de participantes devesse ser menor, pois o que importa não é a magnitude do número, mas a força da mensagem. 

Não utilizamos a expressão Family Day para nos referirmos aos organizadores daquele evento, mas para identificar uma multidão que vai muito além daquela fisicamente reunida no Circo Máximo em 30 de janeiro. Esta Itália não está resignada, quer lutar e precisa de um guia. Os guias devem ser autênticos, nas suas intenções, ideias, linguagem e comportamento. E a Itália do Family Day está pronta para denunciar os falsos guias com a mesma força com a qual continuará a combater os verdadeiros inimigos.
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(*) Fonte: “Corrispondenza Romana”, 3-2-2016. Matéria traduzida do original italiano por Hélio Dias Viana.