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25 de setembro de 2025

GARCIA MORENO — SESQUICENTENÁRIO DE SEU FALECIMENTO

 
Gabriel García Moreno faleceu em 6 de agosto de 1875, aos pés do altar de Nossa Senhora das Dores, na Catedral Metropolitana de Quito. Foto: Arquivo Nacional de Fotografia do Equador

  Paulo Roberto Campos

Modelo perfeito de Presidente de República, Don Gabriel García Moreno foi o mais católico dos chefes de Estado das Américas. Grande e exemplar estadista, foi líder político — fundador do Partido Conservador (1869) — autenticamente imbuído dos ensinamentos perenes da Santa Igreja Católica Apostólica Romana.

Nascido na véspera do Natal de 1821 em Guayaquil, principal cidade portuária do Equador, no seio de família aristocrática, recebeu no Batismo o nome Gabriel Gregorio Fernando José María García y Moreno y Morán de Buitrón. Em 6 de agosto de 1875, após assistir a Santa Missa e comungar na Igreja de Santo Domingo, como fazia todos os dias, ele foi apunhalado e baleado na Plaza de la Independência, junto ao Palácio Presidencial. Os sicários — chefiados por Faustino Rayo e pagos por conspiradores anticlericais que odiavam mortalmente o Catolicismo — desfecharam sobre ele seis ou sete golpes de facão e seis tiros de revolver. Suas últimas palavras, já agonizando, ecoam até os presentes dias: “Dios no muere!”.


O tumulto atraiu uma multidão, soldados perseguiam os criminosos e sacerdotes correram para assistir o agonizante. Levaram-no para a catedral — a poucos passos da cena do crime —, onde recebeu a absolvição, a extrema-unção e expirou aos pés da imagem de Nossa Senhora das Dores, em meio a lágrimas e soluços dos presentes. Era a primeira sexta-feira do mês, dedicada ao Sagrado Coração de Jesus.

Com a notícia da tragédia, toda a cidade se cobriu espontaneamente de luto. Estandartes fúnebres foram estendidos nas janelas das casas, os sinos dobravam luto, um canhão lançava de hora em hora um fúnebre estampido, as lágrimas cobriam as faces como se cada um tivesse perdido um membro de sua própria família.

Ao ser informado do assassinato de García Moreno, o Papa Pio IX ordenou a celebra ção de uma missa solene de Réquiem na Igreja de Santa Maria in Trastevere. 


Garcia Moreno preparado para se encontrar com Deus

Papa Pio IX

Na véspera do crime, o mártir havia escrito ao seu amigo Juan Aguirre Montúfar: “Vou ser assassinado; sou feliz de morrer pela Fé: nos veremos no Céu”. Neste mesmo dia, discutindo com seu Conselho de Estado essa conspiração para matá-lo, afirmou “Os inimigos de Deus e da Igreja podem me matar, mas Deus não morre!”.

Ainda na véspera desse cruel assassinato, um sacerdote havia dito a Garcia Moreno: “Alertaram-me de que tua morte foi decretada pelos maçons; mas não me disseram quando. Ouvi dizer que os assassinos irão levar o plano deles a cabo logo. Pelo amor de Deus, tome as medidas necessárias!”. O Presidente respondeu que já tinha ouvido algo análogo e que, naquele momento, a melhor medida que poderia tomar era preparar-se para comparecer perante o Juízo de Deus. Assim, ele já havia feito sua última confissão.

Graça de derramar o sangue por Jesus Cristo

Ao ser informado do assassinato desse mártir equatoriano, o Papa Pio IX ordenou a celebração de uma missa solene de Réquiem na Igreja de Santa Maria in Trastevere. Depois afirmou que Garcia Moreno foi um filho sempre submisso da Igreja, cheio de devoção à Santa Sé e de zelo para manter a Religião e a piedade em todo o Equador. O Pontífice concluiu: “Os conselhos das trevas organizados pelas seitas decretaram o assassinato do ilustre Presidente. Ele caiu sob o aço dos assassinos como vítima da fé e da caridade cristã por seu amado país.”

Certamente, motivou esse crime pavoroso o fato de Don Gabriel Garcia Moreno ter seguido à risca seu lema: Liberdade para tudo e para todos, exceto para o mal e os malfeitores”. No sentido desse admirável lema, ele havia enviado uma carta a Pio IX. Eis um profético trecho dela:

“Que riqueza para mim, Santíssimo Padre, ser odiado e caluniado por meu amor ao nosso Divino Redentor! Que felicidade se a sua bênção me obtivesse do Céu a graça de derramar meu sangue por Ele, que sendo Deus, estava disposto a derramar Seu sangue por nós na Cruz!”

De fato, Garcia Moreno derramou seu sangue pelo Divino Redentor e pela civilização católica. Tal foi sua dedicação à Santa Igreja, que no pátio Santa Rosa de Lima do Colégio Pio Latino-Americano, em Roma, por recomendação de Pio IX, foi erigido um monumento. Os dizeres são eloquentes e exaltam bem a heroicidade de virtudes do Presidente-Mártir:

“Gabriel García Moreno, Presidente da República do Equador, com ímpia mão morto por traição no dia 6 de agosto de 1875, cuja virtude e causa de sua gloriosa morte foi admirado, celebrado e lamentado por todos os bons. O Soberano Pontífice Pio IX, com sua generosidade e as ofertas de numerosos católicos, ergueu este monumento ao defensor da Igreja e da República.”

“Religionis integerrimus custos

Auctor studiorum optimorum

Obsequentissimus in Petri sedem

Justitiae cultor; scelerum vindex”.

 

[Tradução: “O mais íntegro guardião da religião, / O autor dos melhores estudos, / O mais obediente à Sé de Pedro, / O adorador da justiça, o vingador dos crimes].

 

Heroicidade de virtudes do Presidente-Mártir


Num dos bolsos do traje que o Presidente usava quando caiu morto foi encontrado o livrinho Imitação de Cristo e, dentro, anotado por ele, os oito itens abaixo. Eles bem revelam virtudes próprias a um santo, e que certamente serão de auxilio no processo de sua canonização. Garcia Moreno será, em toda a história da humanidade, o primeiro Presidente de República elevado à honra dos altares.

1.   Cada manhã, enquanto faço minhas orações, pedirei especialmente a virtude da humildade.

2.   Cada dia assistirei Missa, rezarei o rosário e lerei, além de um capítulo da Imitação, esta regra e as instruções anexas.

3.   Procurarei manter-me, tanto quanto me for possível, na presença de Deus, especialmente na conversação, de modo a não dizer palavras inúteis. Oferecerei constantemente meu coração a Deus, principalmente no início de cada ação.

4.   Em meu quarto, nunca rezar sentado quando puder fazê-lo de joelhos ou de pé. Praticar pequenos atos diários de humildade, como oscular o chão, por exemplo. Desejar toda sorte de humilhações, mas ao mesmo tempo tomar cuidado para não as merecer. Regozijar-me quando minhas ações ou minha pessoa forem insultadas e censuradas.

5.   Nunca falar de mim mesmo, a não ser para reconhecer meus defeitos ou faltas.

6.   Fazer todo esforço, pelo pensamento de Jesus e Maria, para controlar minha impaciência e contradizer minhas inclinações naturais. Ser paciente e amável, mesmo quando quiserem abusar de mim; nunca falar mal de meus inimigos.

7.   Cada manhã, antes de começar meu trabalho, escreverei o que tenho que fazer, sendo muito cuidadoso em distribuir bem meu tempo, entregar-me somente a coisas úteis e necessárias, e continuá-las com zelo e perseverança. Observarei escrupulosamente as leis da justiça e da verdade, e não terei intenção, em todas as minhas ações, senão em buscar a maior glória de Deus.

8.   Farei exame particular duas vezes por dia do meu exercício das diferentes virtudes, e um exame geral cada noite. Confessar-me-ei toda semana.

“Uma das maiores personalidades da história das Américas”

Esse Chefe de Estado providencial proporcionou ao Equador — além do progresso espiritual e moral — a estabilidade política e a gozar de muita prosperidade. Ele retirou o país do caos e da pobreza em que se encontrava devido a várias revoluções internas; conseguiu reorganizar as Forças Armadas; saneou as contas públicas; aumentou muito o comércio, o número de escolas, hospitais e estradas — progressos que são reconhecidos até por adversários. Por isso, o Senado e a Câmara de Deputados do país lhe outorgaram o título de “Regenerador da Pátria e Mártir da Civilização Católica”.

O historiador Calderón García assim deixou registrado: “Infatigável, estoico, justo, enérgico em suas decisões, admiravelmente lógico em sua vida, García Moreno é uma das maiores personalidades da história das Américas. Em 15 anos, transformou completamente seu pequeno país, de acordo com um vasto sistema político que só a morte o impediu de completar. Era um místico do tipo espanhol, não satisfeito com a contemplação estéril, necessitava de ação. Era um organizador e um criador.”

A cerimônia mais bela da “República do Sagrado Coração”


Mas, entre os grandes lances do Presidente-Mártir que marcaram a História, um dos mais belos e destemidos foi a Consagração de todo o Equador ao Sagrado Coração de Jesus, realizada em 25 de março de 1874. Depois de muitos preparativos e celebrações, o ato oficial do Estado — aprovado pela Hierarquia católica e pelo Parlamento, e acolhido com entusiasmo pelo povo — foi realizado na catedral da capital equatoriana, na presença das principais autoridades religiosas, civis e militares. A solene consagração foi lida pelo Arcebispo de Quito, Dom José Ignácio Checa y Barba, em nome da Igreja, e Garcia Moreno a repetiu em nome do Estado. Há relatos registrando a cerimônia como a mais esplendorosa da Igreja já realizada na “República do Sagrado Coração”.

O decreto do Poder Legislativo assim referendou a Consagração: “Considerando que o III Concílio de Quito, por um decreto especial, consagrou a República ao Sagrado Coração de Jesus, colocando-a sob a defesa e proteção d’Ele; que esse ato, o mais eficaz para conservar a Fé, é também o melhor meio de assegurar o progresso e a prosperidade do Estado; o Congresso decreta que a República, doravante consagrada ao Coração de Jesus, O toma como padroeiro e protetor.”


Em ação de graças, e para perpetuar a memória de tão magnífico acontecimento — o primeiro país do mundo consagrado oficialmente ao Sagrado Coração —, organizou-se a construção, no centro histórico quitenho, repleto de belas igrejas, da monumental “Basílica del Voto Nacional” em estilo neogótico [foto abaixo]. Essa iniciativa surgiu em meados de 1883 através do venerável Pe. Julio María Matovelle Maldonado (1852-1929). Em nome de todo o povo equatoriano, a pedra fundamental foi colocada em 1892, mas a basílica só foi inaugurada em 1988.



Considerando a edificante vida de Garcia Moreno, assim como suas numerosas ações pelo bem de seu país, percebemos quanta falta faz atualmente ao Brasil e ao mundo um estadista da altura e categoria desse Chefe de Estado equatoriano do século XIX. Ele era tão querido pelo povo, que foi escolhido com larga maioria em três eleições presidenciais. Infelizmente, neste século XXI, pobre de líderes autênticos e valorosos, a mediocridade toma conta dos postos públicos até das mais importantes nações.

Em homenagem a esse magnânimo Chefe de Estado, herói e mártir da Fé, oferecemos aos nossos leitores dois artigos do provecto colaborador de Catolicismo, Dr. Celso da Costa Carvalho Vidigal, publicados nas edições de abril e de julho de 1964 [brevemente tais artigos serão aqui reproduzidos]. E fechamos a matéria de capa com artigo do Prof. Luis Eduardo Dufaur expondo as recentes manifestações organizadas em cidades do Equador pelos membros da Sociedade Equatoriana Tradição e Ação Pro Cultura Ocidental em honra de Garcia Moreno e do centésimo quinquagésimo aniversário de seu falecimento — de sua entrada no Céu, pode-se afirmar, pois morreu como mártir, uma vez que assassinado “in odium fidei” (por ódio à fé católica).

____________

Obras consultadas:

·         R.P. Augustin Berthe, Gabriel García Moreno, Dios no muere - Ideal de un fervoroso Católico jefe de Estado. Sociedad Equatoriana Tradicíon y Acción. Segunda Edición: Quito, Ecuador, 2025.

·         Macpherson, E. (1909). Gabriel García Moreno. Em The Catholic Encyclopedia. Nova York: Robert Appleton Company. http://www.newadvent.org/cathen/06379b.htm

·         Gary Potter, Garcia Moreno, Stateman and Martyr, http.www.catholicism.org/bookstore/private/Housetops.htm

13 de setembro de 2025

GARCÍA MORENO

 

Quadro de Don Gabriel Garcia Moreno, herói e mártir da fé, grande estadista equatoriano, o mais católico dos Chefes de Estado de nosso Continente, considerado uma das maiores personalidades do século XIX.


No sesquicentenário de seu martírio, considerações da heroicidade das virtudes de um modelo perfeito de um Presidente de República 


Fonte: Editorial da Revista Catolicismo, Nº 897, Setembro/2025 

Antes de ler o parágrafo abaixo, dileto leitor, procure responder à seguinte pergunta: quem foi a pessoa mais influente do século XIX? 

Como nós, acho que muitos ficarão na dúvida. 

O jornal parisiense “Le Figaro” organizou em 1900 uma pesquisa — patrocinada por equatorianos — a fim de se eleger o mais influente homem do século que acabara de expirar. O ex-presidente do Equador, Gabriel Garcia Moreno (1821-1875), foi o escolhido! Superando outros líderes famosos da centúria, como Bismarck, Lincoln, Simón Bolívar etc. Para marcar este fato, afixou-se uma placa comemorativa com os dizeres: “Presidente Gabriel Garcia Moreno, o maior homem do mundo em seu século. Pesquisa feita em Paris. Ano 1900”.

Mesmo sendo uma pesquisa patrocinada por admiradores do ex-presidente equatoriano, não deixa de ser sintomática a alta consideração de que ele foi objeto. 

Em qualquer caso, tratou-se de uma muito justa homenagem, pois Garcia Moreno reergueu seu país, então na pobreza e no caos, a um alto patamar, tanto do ponto de vista moral e dos bons costumes, quanto da prosperidade material. Ele conseguiu realizar a união entre a Igreja e o Estado, num século em que as correntes revolucionárias trabalhavam para a separação. 

Donde o ódio visceral que se abateu sobre ele, em particular da parte de movimentos de seitas anticlericais, culminando com o seu cruel assassinato. 

Num momento crucial de sua vida, sendo caluniado e padecendo pressões quase insuportáveis de seus inimigos, ele escreveu ao Papa Pio IX dizendo que, apesar das pressões, mantinha toda fidelidade à Santa Sé: “Peço a sua bênção, Santíssimo Padre, tendo sido, sem mérito algum, reeleito para governar esta República Católica por mais seis anos... Tenho mais necessidade do que nunca da proteção divina, para viver e morrer em defesa de nossa santa religião e desta amada República que Deus ainda me chama a governar.” 

Quais foram os grandes feitos de Don Gabriel Garcia Moreno que justificam a mencionada homenagem? Mais ainda. Que justificam os títulos de herói e mártir da Fé Católica, de modelo perfeito de um Chefe de Estado e de ter constituído a “República do Sagrado Coração de Jesus”? É o que nossos leitores poderão ver na matéria de capa da edição deste mês da revista Catolicismo, comemorativa do sesquicentenário de seu martírio. 

Peçamos a Deus que faça surgir no Brasil outro Garcia Moreno... Certamente, este também será odiado e receberá igualmente a palma do martírio, mas de seu sangue poderá nascer algo que fará ressurgir um Brasil livre do caos atual, um Brasil verdadeiramente digno do nome “Terra de Santa Cruz”!

7 de setembro de 2025

NATIVIDADE DA SANTÍSSIMA VIRGEM

 


   Paulo Roberto Campos 

A grande festa litúrgica do dia 8 de setembro é a celebração da Natividade de Nossa Senhora. Dia solene em que comemoramos seu Aniversário; dia especial para suplicarmos a Ela as mais especiais graças que necessitamos. 

Se temos a alegria de celebrar o aniversário de nossas mães, como não celebrar com maior júbilo o natalício d´Aquela que é a Mãe de todas as mães, a Santa Mãe de Deus? 

A respeito, o grande Santo Ambrósio (340-397), bispo de Milão, escreveu o trecho que reproduzimos abaixo. Extraído de um dos seus três livros consagrados à beleza da virgindade, exaltando sobretudo o esplendor da Pureza de Nossa Senhora, com conselhos à prática da virtude da pureza. Obra de tal importância que o autor ficou conhecido como "doutor da virgindade". 

"Vinde e contemplai a vida e a virgindade de Maria, que será como um espelho, no qual vereis o modelo da castidade e da virtude. O primeiro motivo de imitação é a nobreza do modelo. E o que há de mais nobre que a Mãe de Deus? […]. Era virgem de corpo e de alma, de uma pureza incapaz de simulação, humilde de coração, grave em suas palavras, prudente em suas resoluções. Falava pouco e só dizia o necessário […]. 

“Cifrava sua confiança não nas riquezas perecíveis, mas nas orações dos pobres. Fervorosa sempre, só queria a Deus por testemunha de quanto se passava em Seu coração, e só a Ele encomendava o que fazia e possuía. "Longe de fazer a menor injúria a alguém, todos reconheciam seu caráter benéfico. Honrava seus superiores e não invejava seus iguais. Evitava a vanglória, seguia a razão e amava ardentemente a virtude […]. 

“Toda sua conduta levava o timbre da modéstia. Nada se podia observar em suas ações que não fosse conveniente. Sua alegria não era superficial, nem sua voz anunciava o que procedesse de um fundo de amor próprio. Seu exterior estava ordenado com tanta harmonia, que o movimento de seu corpo era a imagem de sua alma e um completo modelo de todas as virtudes. Sua caridade para com o próximo não conhecia limites […]. 

“Se saía, era apenas para ir ao Templo e sempre em companhia de seus pais".

29 de julho de 2025

VIDA — HEROISMO OU INSIGNIFICÂNCIA



✅  Paulo Roberto Campos 

Dizer que a vida é uma luta é um chavão muito comum, mas uma verdade irretorquível. Assim como viver é lutar, lutar é viver, e viver só para viver não é vida, é mediocridade. Ninguém vive sem esforço. Não apenas os pobres precisam se esforçar para viver, mas todos e de qualquer classe; os bem abastados muitas vezes são obrigados a se esforçarem ainda mais do que aqueles de classes inferiores. 

As dificuldades diárias ao longo da vida são inerentes à nossa existência neste campo de batalha — neste “Vale de Lágrimas”, como rezamos na oração “Salve Rainha”. Inerentes a todos sem exceção, pois nascemos com a mancha original devido à desobediência a Deus cometida pelos nossos primeiros pais, motivo da expulsão deles do Paraíso terrestre. Por isso, somos, como consta na mesma oração, os “degredados filhos de Eva”. 

E a beleza da vida consiste justamente em vencer as dificuldades, tanto as externas como as internas. É a beleza que contempla e a alegria que tem um alpinista escalando uma montanha deparando-se com mil dificuldades, mas todas vencidas. Quando ele atinge o pico da montanha, é uma conquista realizada. Uma conquista sobre a montanha e sobre si. Ele do alto, mesmo muito esgotado pelo esforço, contempla a beleza do panorama e a vitória sobre si mesmo por não ter desistido no meio do caminho. É a alegria do heroísmo por ter chegado ao pico. Metáfora aplicável ao alpinismo na vida espiritual; vamos escalando a montanha — com o objetivo de contemplar Deus — vencendo as provações, as tentações, os desânimos, as cruzes ao longo de nossos caminhos. 

Esse aspecto da vida, como uma luta contínua, nos reporta ao Hino dos Tamoios, poema de Gonçalves Dias. Aqui a primeira estrofe, uma alusão ao pai exaltando a bravura que deve ter o filho a fim de ser verdadeiramente um índio tamoio: 
Não chores, meu filho; 
Não chores, que a vida 
É luta renhida: 
Viver é lutar. 
A vida é combate, 
Que os fracos abate, 
Que os fortes, os bravos 
Só pode exaltar. 

 

Para refletirmos sobre o valor da luta, à qual o homem medíocre tem horror, seguem alguns pensamentos: 

 

“A vitória no combate não depende do número, mas da força que desce do Céu.”  
(I Macabeus 3, 19) 

 

“Não há nada, por fácil que seja, que a nossa tibieza não apresente como difícil e pesado; como nada há tampouco tão difícil e penoso que o nosso fervor e determinação não torne fácil e leve.”  
(São João Crisóstomo) 

 

"Não há, caríssimos, obras de virtude sem experiência da tentação, fé sem provações, combate sem inimigo, vitória sem luta."  
(São Leão Magno) 

 

“Bom mesmo é ir à luta com determinação, abraçar a vida com paixão, perder com classe e vencer com ousadia, porque o mundo pertence a quem se atreve e a vida é muito para ser insignificante. Tentar de novo mostra como você está disposto a lutar por aquilo em que acredita.”
(Santo Agostinho) 

 

“Os grandes choques e as grandes lutas robustecem a alma e forjam o caráter. As almas que não têm às vezes sobressaltos não são comumente grandes almas.” 
(Padre J. Baeteman)

 

6 de julho de 2025

CARDEAL MINDSZENTY — (1975 – 2025)

O Cardeal József Mindszenty, Arcebispo-Príncipe de Esztergom-Budapeste, indômito herói anticomunista da Hungria, exemplo do destemido combate católico.


Fonte: Editorial da Revista Catolicismo, Nº 895, Julho/2025

“Derrotado, venceu” (em latim, Devictus, vincit). Lema episcopal escolhido pelo Cardeal József Mindszenty em 1944. 
O lema bem expressa sua vida de luta, pois, mesmo derrotado, venceu no sentido análogo ao de Nosso Senhor Jesus Cristo, que aparentemente “derrotado” — pois fora crucificado —, triunfou da morte, redimiu o gênero humano, ressuscitou, abriu as portas do Céu e estabeleceu a Santa Igreja Católica Apostólica Romana. 

O prelado húngaro, Arcebispo-Príncipe de Esztergom-Budapeste, apesar de morrer no exílio em Viena, em 1975, terminou seus dias vitorioso e carregado de honra, pois teve a coragem de enfrentar o tirânico governo comunista que havia subjugado sua pátria. 

Várias vezes preso e torturado cruelmente por agentes do comunismo, permaneceu inquebrantável. Ele teve a coragem de suportar as dores da perseguição, especialmente uma dor ainda mais cruel: a provação de ver as mais altas autoridades da própria Igreja Católica pedir-lhe para cessar sua luta anticomunista. 

Mas o Cardeal Mindszenty continuou a resistir destemidamente, atuando contra vários programas do governo comunista húngaro, como por exemplo a Reforma Agrária, o divórcio, o ensino marxista nas escolas, a estatização socialista etc. 

As autoridades eclesiásticas agiam para estabelecer um acordo entre a Igreja e o Estado comunista, com o qual Ela se submeteria aos projetos do Kremlin. Desse modo, haveria uma coexistência pacífica entre o Vaticano e Moscou. Esse embate levou o jornal londrino The Sunday Telegraph a descrever assim vida do Cardeal Mindszenty: “Crucificado pelo Kremlin e traído pelo Vaticano”

Queriam que o Cardeal ficasse em silêncio, mas, obviamente, isso ele considerava uma cumplicidade com o bolchevismo e até mesmo uma traição ao ensino perene da Igreja. 

Aquela atitude do alto clero progressista-colaboracionista — da época do Concílio Vaticano II nos pontificados de João XXIII e Paulo VI — foi bem oposta à do Papa anterior, Pio XII, ao comentar, em junho de 1956, que a resistência de Mindszenty “causava admiração aos Anjos de Deus”

Em 10 de dezembro de 1948,
manifestação católica em
apoio ao Cardeal Mindszenty
O Cardeal teria sido um derrotado aos olhos dos homens e de Deus se tivesse capitulado, mas se tornou um símbolo imortal da resistência ao comunismo e ao progressismo ecumenista; ele estimulou com seu exemplo os católicos do mundo inteiro a não cruzarem os braços no bom combate. 

Destacamos aqui um aspecto da admirável vida do invencível Cardeal József Mindszenty, mas com a leitura da matéria de capa da edição deste mês da revista Catolicismo, comemorativa do cinquentenário da morte do heroico prelado, o leitor se encantará com vários outros aspectos do seu bom e exemplar combate.

14 de junho de 2025

Há um século da beatificação de Santa Bernadette


  Paulo Roberto Campos

Neste dia 14 comemoramos a passagem dos 100 anos da beatificação da venerabilíssima vidente de Lourdes, Santa Bernadette Soubirous. Beatificada por Pio XI em 14 de junho 1925. Oito anos depois, pelo mesmo Papa, ela foi canonizada. 

Nascida em Lourdes, no Moulin de Boly, no dia 7 de janeiro de 1844, foi uma camponesa encantadora, puríssima, pobre, inteligente, discreta, de uma honestidade a toda prova. Falecida em 16 de abril de 1879 como freira no convento das “Irmãs da Caridade” da cidade de Nevers, onde alcançou o ápice da santidade. Tinha 35 anos, mas, apesar dos terríveis sofrimentos de corpo e de alma que padecera, continuava bela como na época de sua adolescência. 

Representação da aparição da Virgem Maria a Bernadette Soubirous (por Virgílio Tojetti, 1877)

Seu corpo foi exumado em 1908 e encontrado incorrupto. Milagre que pode ser interpretado como Deus selando o dogma da “Imaculada Conceição”, pois assim Nossa Senhora se apresentou. Numa de suas aparições à santa francesa, então com apenas 14 anos, esta perguntou quem era. “Eu sou a Imaculada Conceição” — foi a resposta! 

Após duas exumações, dois dias antes da beatificação (12 de Junho de 1925), foi feita uma terceira (e última) exumação do seu corpo a fim de se retirar algumas relíquias. E, como nas vezes anteriores, o corpo continuava incorrupto, muito preservado e sem o mínimo sinal de putrefação. Fato histórico e milagroso registrado no relatório do Dr. Comte:

“Eu queria abrir o lado esquerdo do tórax para retirar algumas costelas e então remover o coração, o qual eu tinha certeza que estaria intacto. Porém, como o tronco estava levemente apoiado no braço esquerdo, haveria dificuldade em ter acesso ao coração. Como a Madre Superiora expressou o desejo de que o coração de Santa Bernadette não fosse retirado, bem como também este era o desejo do Bispo, mudei de ideia de abrir o lado esquerdo do tórax, e apenas retirei duas costelas do lado direito, que estavam mais acessíveis. O que mais me impressionou durante esta exumação foi o perfeito estado de conservação do esqueleto, tecidos fibrosos, musculatura flexível e firme, ligamentos e pele após 46 anos de sua morte. Após tanto tempo, qualquer organismo morto tenderia a desintegrar-se, a se decompor e adquirir uma consistência calcária. Contudo, ao cortar, eu percebi uma consistência quase normal e macia. Naquele momento, eu fiz esta observação a todos os presentes de que eu não via aquilo como um fenômeno natural.” 
Na sepultura no convento de Nevers, corpo incorrupto de Santa Bernadette exposto à veneração pública 

De Santa Bernadette comentou o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira: 

“Nela vemos bem o espírito da verdadeira contra-revolucionária, católica e santa, que não se importa com as pompas deste mundo; que não dá importância a ser tida em grande ou pequena conta; e que, por causa disso, despreza as honras e louvores mundanos. Para se ter sobranceria, é preciso não ligar para o mundo". 

Neste centenário, peçamos a ela essa graça: sermos verdadeiramente contra-revolucionários, no sentido de não compactuarmos com a Revolução gnóstica e igualitária que se alastra em nossos dias destruindo aquelas virtudes sublimes que tanto caracterizaram Santa Bernadette de Lourdes!

16 de maio de 2025

Centenário da canonização de uma Doutora da Igreja que iluminou o pensamento contra-revolucionário

 

 Pintura da Basílica de São Pedro, no Vaticano, lotada para a cerimônia de canonização de Santa Teresinha. 

  Caio V. Xavier da Silveira

  Fonte: Revista Catolicismo, 893, maio/2025 

Este ano marca o centenário da canonização de Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face, uma das santas mais amadas da Igreja Católica. Em meio às comemorações, é oportuno refletir sobre o significado de sua espiritualidade e sua influência sobre a vida espiritual dos católicos no mundo inteiro. Um “furacão universal de glória”, segundo Pio XI, o Papa que a canonizou.

A fotografia retrata bem a verdadeira fisionomia de Sta. Teresinha


Essa reflexão torna-se ainda mais necessária depois que se difundiu, em certos ambientes religiosos, uma verdadeira caricatura de vida espiritual, resultante de um conceito sulpiciano1 e romântico da Santa de Lisieux e da sua Pequena Via, que deforma a profundidade de sua espiritualidade em uma visão excessivamente sentimental e ingênua da fé cristã.

Imagem deturpada de Sta. Teresinha 

Essa deturpação apresenta a santidade como algo acessível sem grandes desafios, sem a necessidade de verdadeira conversão ou renúncia, reduzindo a confiança radical em Deus e o abandono à Sua vontade a uma espécie de passividade doce e conformista. Em muitos ambientes eclesiásticos, essa versão adocicada se reflete em imagens de Santa Teresinha sempre sorridente, cercada de flores e nuvens cor-de-rosa, como se sua entrega a Deus fosse isenta de sofrimentos, hesitações ou batalhas espirituais.

Esse conceito simplificado ignora o heroísmo real da Pequena Via, que não é uma caminhada fácil ou sentimental, mas um abandono total na fé, mesmo em meio à noite escura da alma e às mais trágicas provações interiores. Santa Teresinha, em seus escritos, fala de sua profunda luta espiritual, de sua confiança em Deus apesar do vazio e da aridez, e de seu desejo de ser consumida pelo amor divino em um espírito de verdadeira humildade e sacrifício.

A caricatura sulpiciana, ao contrário, tende a esvaziar essa radicalidade, transformando a santidade em algo acessível sem esforço, confundindo a infância espiritual com infantilização da fé, e reduzindo o caminho da perfeição cristã a uma ternura superficial desprovida da cruz. Essa visão empobrece o chamado universal à santidade, pois desconsidera a seriedade da luta espiritual que Santa Teresinha viveu de maneira intensa até o fim de sua vida.

 

Sacrifício grande da pequena mortificação de todos os dias

Sta. Teresinha no claustro do convento

Por isso é conveniente estudar a verdadeira fisionomia espiritual de Santa Teresinha, como ela foi corretamente interpretada pelo grande pensador e mestre espiritual contra-revolucionário Plinio Corrêa de Oliveira, que via nela não apenas um modelo de virtude pessoal, mas um farol para a luta espiritual dos católicos na época moderna2.

Seu testemunho é tanto mais expressivo e valioso quanto ele não se sentia pessoalmente atraído por essa via dos pequenos sacrifícios:

“A mim me pareceria muito mais fácil a via de Santa Teresa a Grande, do que a de Santa Teresinha do Menino Jesus. Porque Santa Teresa a Grande tinha provações tremendas, mas também tinha deslumbramentos, visões, entusiasmos etc. Santa Teresinha, não: céu plúmbeo, igual, sem graça; estradinha estreitinha, banal, pequena. Tanta aridez que as ações mais comuns custavam a ela para fazer. Ela não fugia de nada, fazia tudo, enfrentava todas essas pequenas coisas o dia inteiro, fazendo o contrário do que ela queria fazer. A mim isso abafa muito mais do que as tremendas desolações da vida de Santa Teresa, mas acompanhadas daquelas lufadas de ar em que ela se via em presença da Santíssima Trindade, daquilo, daquilo outro. Cada um é feito de um jeito. Eu confesso que tenho menos medo dessas catástrofes trágicas seguidas de grandes sóis, do que dessa uniformidade plúmbea na pequena mortificação de todos os dias.”

Porém, Dr. Plinio compreendia bem que, para além da aparente oposição entre a via de Santa Teresa e a via de Santa Teresinha, há uma profunda sintonia de fundo nas suas espiritualidades respectivas:

“É o oposto no sentido de que a misericórdia é o oposto da justiça. Não é um contrário que se choca, mas são dois caminhos numa mesma linha que se reduzem numa síntese maravilhosa. E em que, exatamente, é inteiramente coerente e compreensível que na família espiritual da grande Santa Teresa apareça a Pequena Via de Santa Teresinha do Menino Jesus.”

Por que motivo a Providência suscitou duas vias espirituais tão diferentes, como a “grande via” de Santa Teresa ou de Santo Inácio de Loyola nos Exercícios Espirituais e a Pequena Via de Santa Teresinha? — É porque cada uma delas é adaptada ao feitio das almas da respectiva época e das almas com traços semelhantes nas épocas sucessivas:

“Quando Santa Teresa de Ávila morreu, o filósofo alemão luterano e racionalista Gottfried Leibnitz, numa carta a um amigo, disse: ‘Morreu um grande homem, a freira espanhola Teresa de Jesus’. Era a impressão que ela causava aos seus contemporâneos. Uma inteligência privilegiada, muito forte, de grandes rumos. Ao par disso, uma amplitude de personalidade extraordinária e sobre essa grandeza natural enorme um derramar de graças sobrenaturais mensuráveis pela amplitude dos fenômenos místicos com que ela foi favorecida. Era, em última análise, a grandeza da personalidade humana num de seus exemplares mais privilegiados na ordem da natureza, refulgindo com as grandezas da graça, e dando uma espécie de ideia plena do que seria o tipo perfeito da religiosa-matriarca, de maneira tal que a gente quase esquece das debilidades do sexo feminino, para ver nela uma espécie de querubim que tem todas as grandezas de um ser puramente espiritual. Santa Teresa de Jesus a Grande poderia ser considerada por excelência a santa do feitio de alma das gerações antigas, dotadas de todos os recursos psíquicos necessários.

“Pelo contrário, Santa Teresinha do Menino Jesus representa de algum modo a aurora da época das gerações mais recentes. Aquela família das almas pequenas que, por assim dizer, morrem de admiração pelas almas grandes, que não as invejam, que as compreendem, que as respeitam, que procuram segui-las, mas que, no plano natural, não têm aquela plenitude de personalidade das grandes almas do passado.

“Santa Teresinha, por exemplo, era muito amedrontável por natureza, tinha acessos de timidez e de inibição. Bem menina, quando a mãe a chamava ao pé da escada, ela descia aos poucos, esperando que a mãe lhe pedisse, de um modo risonho e acolhedor, para descer mais um degrau. Se a mãe a chamasse de um modo grave, severo, ela ficaria enregelada e não conseguiria descer. Então, ela dizia que esse era o modo pelo qual Deus a atraía; era a Pequena Via.

“Esta Pequena Via não poderia ter sido vivida com mais grandeza de alma, com mais largueza de horizonte, com mais plenitude de santidade do que Santa Teresinha do Menino Jesus viveu. Ela representa a mesma música grandiosa de Santa Teresa a Grande tocada num outro instrumento, em que tudo, em vez de ser grandeza, é mais delicadeza, mais suavidade. Mas, no fundo, uma grandeza, uma austeridade, uma generosidade e uma entrega a Deus tão grande que quando a gente acaba de ler a História de uma alma, a gente compreende bem que o colossal das coisas pequenas não fica abaixo do colossal das coisas grandes.”

 

Santa Teresa a Grande em êxtase

Santa Teresinha encarnava a essência do espírito contra-revolucionário

Dir-se-ia que Deus, prevendo o aparecimento de gerações sucessivamente mais frágeis — até a geração atual, que os sociólogos começam a chamar de “geração de cristal”, por causa de sua extrema fragilidade psicológica —, já foi preparando para elas uma via de santificação adaptada à sua personalidade e às circunstâncias adversas nas quais teriam que viver, por causa da destruição da família, do desaparecimento de balizas orientadoras para a existência, da erosão das relações sociais etc. fruto do avanço da Revolução anticristã. Nesse contexto psicológico e social, já emergente no início do século passado, Santa Teresinha propôs um caminho de santidade acessível a todos, que em vez das grandes mortificações valorizou os pequenos sacrifícios cotidianos, oferecendo-os a Deus com amor.

Para Plinio Corrêa de Oliveira, essa doutrina era especialmente relevante em um mundo marcado pela Revolução e pela desordem moral atual, enquanto antídoto contra o orgulho e a autossuficiência endeusados pela modernidade. Nesse aspecto, Santa Teresinha encarnava a essência do espírito contra-revolucionário: uma inocência admirativa de tudo aquilo que é superior e uma combatividade suave, mas inquebrantável.

Para Dr. Plinio, Santa Teresinha era “o protótipo da alma inocente”:

“Sente-se nela, desde pequena, admiração por tudo quanto é divino, por tudo quanto diz respeito a Deus, sumo respeito ao tratar com os superiores e com Deus, a par de suma intimidade com Deus, a ponto que mandava as noviças beijarem o crucifixo na face, algo que nunca tive a coragem de fazer. Ora, onde não entra admiração, veneração e respeito, não há verdadeiro amor. As almas incapazes de admirar são incapazes de amar.”

E, em outra oportunidade, explicou o porquê disso:

“A admiração é o elemento fundamental do amor. Admirar é considerarmos uma coisa cujo porte, cujo vulto, cuja qualidade é muito superior a nós. E nós, diante disso, termos dentro da alma um movimento que diz mais ou menos o seguinte: ‘Como tal coisa é excelente! Como ela é magnífica! Como ela é maravilhosa! Como ela é superior a mim!’”

 

 “Compreendi que, se todas as pequeninas flores quisessem ser rosas, a natureza perde ria o seu adorno primaveril, os campos não ficariam esmaltados de florzinhas”

Amor teresiano à desigualdade e à hierarquia na ordem do universo


Essa capacidade de admirar da inocência favoreceu o desabrochar em Santa Teresinha de um espírito profundamente contra-revolucionário, o qual transparece na passagem de seu primeiro manuscrito autobiográfico, onde ela conta que durante muito tempo se perguntou por que Deus tinha preferências, em vez de as almas receberem um igual grau de graças. Mas que, lendo o livro da natureza, ela compreendeu que o esplendor da rosa e a alvura do lírio nada tiram do perfume da pequena violeta. “Compreendi que, se todas as pequeninas flores quisessem ser rosas, a natureza perderia o seu adorno primaveril, os campos não ficariam esmaltados de florzinhas”. Dá-se a mesma coisa no mundo das almas, concluiu ela: Deus “quis os grandes Santos, que podem ser comparados aos lírios e às rosas; mas criou também outros menores, e estes devem contentar-se com serem margaridas ou violetas, destinadas a deleitar os olhares de Deus quando olha para o chão. A perfeição consiste em fazer a Sua vontade, em ser o que Ele quer que sejamos” (Manuscrito A, folha 2, verso).


Após destacar a beleza literária e o voo metafísico desse trecho, o autor de Revolução e Contra-Revolução comentou, para um grupo de jovens discípulos, seu caráter contra-revolucionário:

“Ela levanta o problema do igualitarismo na ordem espiritual, enquanto outros o levantam na ordem temporal, onde há a mesma desigualdade que Deus pôs na ordem espiritual: Ele criou, na ordem humana, uns com muitos talentos e outros com poucos. Um tem uma voz magnífica, outro foi criado com uma voz comum e até, em virtude do pecado original, um terceiro tem uma voz fanhosa. Essa variedade de talentos projeta naturalmente uma desigualdade de caráter social, porque é natural que aquele que é muito mais capaz tenha meios para ganhar mais dinheiro, para educar seus filhos melhor do que outro, de onde então decorre uma desigualdade no ponto de partida.

“Santa Teresinha vai procurar a solução em um campo mais poético e chega a esta conclusão: O mundo das flores, tomado no seu conjunto, seria muito menos bonito se Deus, por amor à igualdade, apenas tivesse feito rosas de uma beleza suprema, mas perfeitamente iguais. Poderia haver coisa mais monótona do que um jardim com um só tipo de flor e todas iguais umas às outras? A beleza da rosa só se nos torna compreensível porque há flores diferentes e porque há rosas desiguais umas das outras. É um modo de mostrar que as coisas pequenas têm também a sua função, e que, portanto, Deus é mais perfeito criando coisas grandes e pequenas, do que criando coisas iguais. E que a criação de todo igual estaria contra a sabedoria e a bondade d’Ele.”

Esse amor à desigualdade e à hierarquia — que é o cerne do espírito contra-revolucionário — levava Santa Teresinha a fazer aplicações práticas muito subtis, nas quais se percebe a finura de seu senso de observação. No relato de sua peregrinação a Roma, junto com a família e numerosos peregrinos da diocese de Bayeux, ela conta que gostou muito de Loreto, a cidade para a qual os anjos levaram a casa de Nazaré, porque “a paz, a alegria, a pobreza reinam ali como soberanas. Tudo é simples e primitivo”. E acrescenta: “As mulheres conservaram o gracioso traje italiano e não adotaram, como as de outras cidades, a moda de Paris” (Manuscrito A, folha 59 verso).

Comenta Dr. Plinio a esse propósito: “Ela faz sentir a adequação daquela paisagem às virtudes que a presença de uma tal relíquia como a Santa Casa deveria disseminar em torno de si. E faz um comentário de caráter essencialmente tradicionalista, mostrando como as mulheres do lugar fizeram bem em ter conservado os seus cândidos trajes de outrora, em vez de usarem a moda de Paris, que era a moda que a Revolução impunha a todos como processo para cosmopolizar o mundo e para acabar com todas as características regionais. Vocês podem calcular, através disso, quanto havia de contra-revolucionário na alma dela e quanto o espírito dela era sensível à observação das circunstâncias da vida temporal e ao princípio da correlação entre a vida temporal e a vida espiritual, de sorte que uma boa organização social favorece a prática da virtude e a santificação. A gente não pode deixar de sorrir pensando que ela mesma estava vestida do que ela chamava a moda de Paris que, naquele tempo, era uma moda decente, que respeitava o pudor, mas na qual ela via o mal muito grave do cosmopolitismo.”

 

Peregrinos chegando a Loreto para visitar a casa da Santíssima Virgem. Algumas das senhoras estão com seus trajes típicos (foto da época da viagem de Santa Teresinha)

“Santa Teresinha era a Joana d’Arc do século XIX”

Outro traço muito contra-revolucionário de sua alma era sua combatividade e espírito épico. Por trás da simplicidade estava uma alma profundamente heroica, que abraçava o sofrimento sem esmorecer. Para Santa Teresinha, a Pequena Via não era uma fuga da luta, mas uma forma sublime de travá-la.

Santa Teresinha no papel de Santa Joana d’Arc
 em uma obra de teatro no convento

Dr. Plinio comenta a esse propósito: “Ela era bem a mulher forte do Evangelho. Ela vivia da audácia como se fosse um guerreiro ou um pioneiro de todas as ousadias, mas inteiramente como mulher. Santa Teresinha era a Joana d’Arc do século XIX.”

A prova disso encontra-se nos seus escritos onde relata que ela sentia em si “a vocação de Guerreiro, de Sacerdote, de Apóstolo, de Doutor, de Mártir”, assim como sentia o desejo de realizar por Jesus todas as obras mais heroicas — “sinto na minha alma a coragem de um cruzado, de um zuavo pontifício, quereria morrer num campo de batalha pela defesa da Igreja” (Carta à Irmã Maria do Sagrado Coração, que forma parte do chamado Manuscrito B da História de uma alma).

Não menos expressiva é sua poesia “As minhas armas” — uma alegoria dos votos de pobreza, castidade e obediência, por ocasião da profissão religiosa de sua prima Soror Maria da Eucaristia —, que tem como epígrafe duas passagens bíblicas: “Revesti-vos da armadura de Deus, para que possais resistir às ciladas do demônio” (Ef6, 11) e “A Esposa do Rei é terrível como um exército em ordem de batalha, ela é semelhante a um coro de música em um acampamento militar” (adaptação do Cântico dos Cânticos, 6). A poesia termina com estes versos de fogo: “Se do Guerreiro eu tenho as armas poderosas, / se o imito e luto valentemente, / como a Virgem de graças encantadoras, / também quero cantar enquanto combato. [...] Sorrindo, enfrento a metralha, / e em teus braços, ó meu Esposo Divino, / cantando, morrerei no campo de batalha, / com as armas na mão!” (Poésies, p. 221).

E ainda há esta outra passagem onde afirma: “Oh! não, eu não temeria ir à guerra. Com que alegria, por exemplo, no tempo das cruzadas, teria partido para combater os hereges. Sim! Eu não temeria levar um tiro! E eu, que desejava morrer mártir, será possível que tenha de morrer numa cama?” (Derniers entretiens, p. 302).

 

Santa Joana d’Arc no cerco de Orleans
Jules Eugène Lenepveu, (1886-1890). O Panteão, Paris.

Vida espiritual concebida como uma guerra contra si mesma

 

Dr. Plinio comenta: “Os senhores vejam a fisionomia dela. Quem é que haveria de dizer que nessa fisionomia entrava o desejo de combater como cruzado? Que ela teria tido a alegria de se revestir de ferro, da cabeça aos pés, e tomar uma lança e investir a todo galope contra o adversário, contra os sarracenos, por exemplo? Uma pessoa, boa psicóloga, diria que sim; agora, a maior parte das pessoas diria que não. Mas a gente vê quanto ela gostaria de, em vez de morrer tuberculosa numa cama, morrer num campo de batalha epicamente, morrer matando os inimigos de Deus. Esta é a alma de uma santa.”

Essa atitude combativa diante da vida não era, porém, uma veleidade romântica de uma mocinha encerrada num claustro. Ela a adotava em relação a si mesma. Nos seus escritos, Santa Teresinha comenta que, ao contrário do bem-aventurado Henrique Suso, que foi armado cavalheiro por um anjo após grandes penitências corporais que abalaram sua saúde, “o bom Deus não quis saber de mim como simples soldado, eu fui imediatamente armada cavaleiro e parti em guerra contra mim mesma, no campo espiritual, pela abnegação, pelos pequenos sacrifícios escondidos; eu encontrei a paz e a humildade nesse combate obscuro, onde a natureza não tem nenhuma ingerência” (Dernières paroles, pp. 237 e 239).

Comenta Plinio Corrêa de Oliveira: “A doutrina da Pequena Via está enunciada aí. Não as mortificações físicas terríveis, não os atos extraordinários que poucos praticam, mas uma via interior toda de sacrifícios. Pois ela nada tem de comum com a moleza. Santa Teresinha nos ensina aí que nós devemos conceber a vida espiritual como uma guerra contra nós mesmos; uma guerra conduzida sob o olhar amoroso de Deus, fazendo sempre o que há de mais perfeito — é isso o que ela entende como abnegação —, pelos pequenos sacrifícios, pelas obras escondidas que ninguém vê. A gente vencer os próprios defeitos espirituais é muito mais duro do que praticar a penitência corporal.”

E acrescenta: “Muita gente interpreta a Pequena Via como sendo uma perpétua inércia, um perpétuo descer de um raio de luz sobre a gente, que nos ilumina e depois nós não temos mais nada que fazer. Isto é completamente errado. A pequena via supõe a atitude militante de nossa alma contra os nossos defeitos, contra as tentações que nós sofremos, e isso ainda que se trate de uma santa.”

 


“Chuva de rosas”: prenúncio de uma nova etapa da humanidade

Por esses traços marcantes de sua espiritualidade, Santa Teresinha pode ser considerada como uma santa para a era do Reino de Maria. Há um grande paralelo entre a pequena via e a escravidão a Nossa Senhora ensinada por São Luís Maria Grignion de Montfort, pois ambos os caminhos levam à mesma realidade: a entrega total a Deus por meio da humildade e do amor filial.

A contínua peregrinação das relíquias de
Santa Teresinha é causa de inúmeras graças,
que confirmam sua promessa de que
após sua morte faria cair
sobre o mundo uma chuva de rosas.

Nesse sentido, em suas reflexões, Dr. Plinio enxergava em Santa Teresinha uma santa profética, que anunciava um novo tempo para a Igreja, em que o mundo será restaurado segundo os desígnios divinos. A santa carmelita de Lisieux, com sua confiança absoluta na Providência e seu amor à Virgem Santíssima, prefigurava essa nova ordem espiritual. A sua “chuva de rosas” pode ser interpretada como um prenúncio de uma nova etapa da humanidade, onde o amor de Deus e a santidade serão, por obra da graça e a rogos de Maria, de maior quilate que nas eras anteriores. Os Apóstolos dos Últimos Tempos — que segundo São Luís Grignion serão, em relação aos santos do passado, como carvalhos ao lado de ervinhas — alcançarão esse grau altíssimo de virtude por serem, em grande parte, almas da Pequena Via, chegando ao extremo da dedicação através do amor e dos pequenos sacrifícios, com base no lema de Santa Teresinha: ‘Para o amor nada é impossível’.”

Essa dimensão profética de sua via espiritual transparece sobretudo no seu oferecimento como vítima do amor misericordioso. O seu fundamento encontra-se numa das passagens mais conhecidas da História de minha alma, no manuscrito B, redigido a pedido de sua irmã Maria, justamente após ela exprimir seu desejo de ser missionária, cruzado, mártir:

“A caridade deu-me a chave de minha vocação. Compreendi que, se a Igreja tinha um corpo composto de diferentes membros, não lhe faltava o mais necessário, o mais nobre de todos. Compreendi que a Igreja tinha um coração e que esse coração era ardente de amor. Compreendi que só o amor fazia agir os membros da Igreja, e que se o amor viesse a se extinguir, os apóstolos não anunciariam mais o Evangelho, os mártires recusariam derramar o sangue. Compreendi que o amor encerra todas as vocações, que o amor é tudo, abraça todos os tempos e todos os lugares. Numa palavra, ele é eterno. No excesso de minha alegria delirante, exclamei então: Ó Jesus, meu amor, encontrei enfim minha vocação. Minha vocação é o amor. Sim, encontrei [meu] lugar na Igreja. E esse lugar, ó meu Deus, fostes Vós que me destes. No coração da Igreja, minha mãe, eu serei o amor! Assim serei tudo, assim será realizado o meu sonho.”

Comenta Dr. Plinio: “Ela entendeu que, trabalhando, rezando, agindo para que aumentasse o grau de caridade na Igreja Católica, seria como que uma prodigiosa nascente de vida dentro da Igreja: os profetas seriam fiéis, os doutores seriam lúcidos, os apóstolos seriam infatigáveis, os guerreiros seriam indomáveis, e na Igreja tudo começaria a se mover com renovada intensidade. E, então, ela entendeu que deveria morrer vítima de amor. Vítima pelo amor misericordioso, para que os outros também amassem, de maneira tal que, por essa retonificação do amor dentro da Igreja, todas as vocações se realizassem.

“O holocausto ao amor misericordioso que Santa Teresinha fez tem muita relação com as graças de conversão de que fala São Luís Grignion de Montfort na sua Oração Abrasada. Porque ela mesma anunciou que ia espalhar pelo mundo uma chuva de rosas e vê-se que ela intuía que, em razão do holocausto que ela ia oferecer, haveria uma nova postura do espírito humano em relação ao amor de Deus. Na história do amor dos homens a Deus haveria uma modificação, haveria um capítulo novo que seria aberto pelo sacrifício dela, o qual abriria a Pequena Via e por esta forma mudaria a atitude tíbia da humanidade em relação a Deus.”

 

Santa Teresinha morta (1897)

“Santa Teresinha foi uma precursora do Reino de Maria”

No fim de sua curta vida, Santa Teresinha tinha muito claro qual seria seu papel futuro: “Eu sinto que vou entrar no descanso... Mas, acima de tudo, sinto que vai começar a minha missão, a minha missão de fazer com que o bom Deus seja amado como eu O amo, de dar às almas a minha pequena via. Quero passar meu céu fazendo bem na terra até o fim do mundo” (Dernières paroles, pp. 166-167).

“A marcha progressiva do amor misericordioso no mundo”, comentou Dr. Plinio, “é uma marcha que deverá ser feita a partir do caminho aberto por ela. A Pequena Via acaba sendo a via pela qual as almas pequenas de uma humanidade decadente serão colhidas pela misericórdia e levadas à santidade. Santa Teresinha foi uma precursora do Reino de Maria, porque exatamente o reino das pequenas almas é o Reino de Maria”.

A Basílica de São Pedro com sua fachada toda decorada e iluminada na noite da canonização de Santa Teresinha


Todos os comentários acima adquirem ainda maior relevo quando se toma em consideração que em 1997 Santa Teresinha do Menino Jesus foi proclamada Doutora da Igreja pelo Papa João Paulo II, o que representa o máximo reconhecimento da profundidade espiritual e teológica de sua Pequena Via. Embora tenha vivido uma vida breve e sem nenhuma produção acadêmica, sua doutrina sobre o amor, a humildade e a confiança total em Deus terá uma influência profunda na espiritualidade católica até o fim dos tempos. De outro lado, sua elevação a Doutora confirma que a santidade e a sabedoria não estão necessariamente vinculadas a grandes tratados teológicos, mas podem manifestar-se na simplicidade de uma vida entregue inteiramente ao amor divino.

No centenário de sua canonização, peçamos a Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face que, no meio das trevas contemporâneas, continue a iluminar os caminhos da Igreja e dos fiéis, para que sua Pequena Via, longe de ser considerada um chamado à passividade, seja verdadeiramente a estrada de uma batalha espiritual que exige coragem, confiança e entrega. Assim, sua mensagem será a resposta providencial para os desafios do mundo moderno.

Que neste jubileu de sua canonização possamos renovar nossa devoção a ela e seguir seus passos com o mesmo ardor e esperança que animaram Plinio Corrêa de Oliveira.

Santa Teresinha do Menino Jesus, rogai por nós!

Santuário construído para Sta. Teresinha em Lisieux
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Notas:

1.       Espiritualidade e estilo artístico associados ao Seminário de São Sulpício e às lojas de artigos religiosos que funcionavam em seu entorno, em Paris, caracterizados por um tom devocional sentimental, com ênfase na ternura e na afabilidade da vida cristã.

2.       Todos os textos citados neste artigo são extraídos da apostila “Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face”, compilada pelo Sr. Enrique Loaiza a partir de artigos de Plinio Corrêa de Oliveira nos jornais O Legionário e Catolicismo, assim como de palestras aos seus discípulos. Eles foram ligeiramente adaptados para a linguagem escrita.