Mostrando postagens com marcador Tradições. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Tradições. Mostrar todas as postagens

11 de fevereiro de 2026

CHOQUE DE CULTURAS


  Plinio Corrêa de Oliveira

A respeito de se realizar de fato uma “União Europeia”, o problema não é principalmente econômico. É fundamentalmente cultural. Isto devido à harmonia ou choque de culturas e de psicologias. 

Poderíamos falar dos vinhos, que países europeus os produzem de primeiríssima qualidade, ou dos sabonetes. 

Objetar-me-ão: “Mas que questões frívolas!” — Eu responderia: É próprio de uma grande civilização levar a um alto requinte coisas frívolas. A frivolidade de alta classe é um dos índices da substância de uma civilização. 

Em quase todos os países europeus se produzem sabonetes esmerados, mas o caráter do sabonete primoroso varia de acordo com o temperamento e a psicologia do povo que o fabrica. O produto de um determinado país é reputado o melhor porque tem certa mentalidade típica dele, outro país tendo uma mentalidade diferente pode não gostar. 

Vamos exemplificar com os deliciosos bombons europeus. Certa vez, assisti a uma discussão entre duas pessoas: uma se deliciava preferencialmente com os chocolates ingleses e holandeses (de variedade amarga), enquanto a outra gostava mais dos suíços e italianos. Os chocolates suíços eram mais doces, digamos mais bem humorados e tranquilos. Os chocolates ingleses têm seu indiscutível sabor, são excelentes, mas não têm aquela bonomia do chocolate suíço e aquele movimentado e aliciante dos chocolates italianos.

Assim, poderíamos multiplicar os exemplos para cada nação. Mas, no fundo, eu percebi que as pessoas, quando discutem a respeito, estão discutindo mais é uma questão filosófica, como que escondida por trás dos chocolates. Com isso, percebi que se discute mais sobre qual a visão que se deve ter da vida. 


Como estas questões não são discutidas em profundidade, a questão da unificação europeia vai por um ziguezague que não se sabe até onde chegará. 
____________ 
Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 22 de julho de 1990. Esta transcrição não passou pela revisão do autor.

24 de janeiro de 2026

SÃO PAULO DE OUTRORA

 

Vale do Anhangabaú

✅  Plinio Corrêa de Oliveira

No tempo antigo do bairro Campos Elíseos, onde morei na capital paulista, os jardins eram muito bonitos, com flores ornamentais. As casas eram ‘sossegadonas’, distintas e elegantes.

Campos Elíseos, nos anos 30

Quando eu era mocinho, gostava de dar um giro a pé pelas ruas (nas quais meus familiares habitualmente não transitavam) para flanar sozinho. Gostava de passar diante das casas e observar seus jardins, as flores particularmente bonitas, mais adiante ouvir a voz de alguma mulher cantando desafinada, com a janela aberta, eu a percebia costurando. 

Observava um caniche que passava, depois um lulu da Pomerânia, mais adiante um cachorro ‘de rua’. Às vezes aparecia um filhote mestiço (certamente uma cadela tinha escapado para a rua e encontrado um cachorro sem raça, daí o nascimento desse mestiço) com a saúde robusta, por um lado, e por outro um pouquinho de finura da cadela. Andava luzidio e exibicionista como um burguesinho, abanando o rabo e latindo para se fazer ver. 

Chá no Mappin
Mais adiante eu encontrava uma padaria de portugueses, exalando o cheiro bom de pão quente saindo do forno, convidando-me a entrar e comprar. 

Naqueles tempos as coisas tinham certo molejo, havia tempo para tudo, ninguém fazia as coisas depressa. Sabia-se que catástrofes podem acontecer, mas nada inopinadamente, e todo mundo levava vida tranquila. 

Inúmeras vezes, pessoas de minha família se queixavam desse ou daquele incômodo (em geral eram pequenos incômodos), e eles iam ao médico no centro da cidade, que era ao mesmo tempo lugar de negócios e de passeios. Havia cinemas, confeitarias, uma porção de atrações dessas, de boa qualidade, e essa ida ao médico se transformava também num passeio. 

Era comum uma senhora ir ao médico levando dois ou três filhos ou sobrinhos, para depois tomarem chá na casa Mappin, por exemplo. No centro da cidade a pessoa podia ir e se distrair. Como seria isso hoje?... 


____________ 
Excertos de comentários feitos pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 8 e 14 de setembro de 1991. Esta transcrição adaptada não passou pela revisão do autor.

14 de fevereiro de 2025

CONCHITA FUENTES — sábio conselho da provecta influencer católica


  Paulo Roberto Campos 

A respeito do sacramento do matrimônio, viralizou conselhos de Conchita Fuentes, residente em Granada (Espanha), mas nascida em Madrid. Ela tem cinco filhos, nove netos e três bisnetos. 

Geralmente, ela fala de recordações de tempos passados, particularmente lembranças familiares, mas recentemente fez um vídeo falando da alegria, do sacrifício, da importância e da maravilha de vida daqueles que não se separaram após o casamento. 

Do alto dos seus 91 anos, suas valorosas e sinceras reflexões sobre a beleza da vida matrimonial, quando se respeita a Lei de Deus, causaram comoção nas redes sociais e fortificaram a fé de muitos, sobretudo de casais. 

Com ajuda técnica de uma neta de 17 anos, a elegante madrilena conta com 172 mil seguidores no Instagram, que ela os chama de “preciosos e queridíssimos”, pelos quais ela reza. Certa vez afirmou: “Minha oração está sempre focada no bem da minha alma e dos outros e quero que cada um que me vê saia melhor. Devo orar por cada um deles.” 

Com seu último vídeo, com o qual conquistou muito mais seguidores — alcançou mais de 1 milhão de visualizações, recebeu mais de 60 mil curtidas e uma quantidade enorme de comentários — Dona Conchita respondeu à seguinte questão: 

— "O que a senhora recomendaria aos jovens sobre o casamento?" 


— "Eles não sabem o que estão perdendo. O casamento é ordem, o casamento é alegria e, claro, sacrifício. Mas é algo maravilhoso. Não sei por que as pessoas hoje em dia não querem se comprometer. Não há nada melhor no mundo do que o compromisso e a seriedade. É daí que nascem a alegria, a esperança e os filhos – e como precisamos de mais filhos! Sou apaixonada pelo casamento. Sei que há momentos difíceis, mas eles podem ser superados. E, claro, devemos estar dispostos a tudo." 

Alguns comentários de seguidores, que extraí no Instagram dela: 

"Simples, clara e acertada! Impecável, como sempre!" 

"Concordo plenamente! Meu casamento teve desafios, mas fui muito feliz. Tenho lindas lembranças do meu esposo e sou grata por ter tido seis filhos e netos." 

"Que elegância, o que diz me encanta". 

"Lembra-me minha avó! Amo meu esposo e em dezembro completamos 25 anos juntos. Concordo totalmente com ela". 

"Eu também sou encantada pelo matrimônio". 

"Dou testemunho disso, já estou sete anos casada". 

"Fez-me chorar. Que beleza e quão acertado o que diz essa bela senhora. Todo meu respeito!” 

“O casamento é lindo, mesmo com tudo que a convivência diária acarreta, não é fácil, claro que não, digo com firmeza, muitas vezes a gente quer dizer basta, mas aí a gente respira e no silêncio você pede a Deus sabedoria, serenidade, paciência para resolver o problema que a pessoa pode estar passando e a paz chega e conversa com o seu marido e a gente percebe que tudo tem solução". 

"Fui casada por 50 anos até a morte do meu marido e me lembro dele todos os dias".

Termino com outro conselho de Dona Conchita sobre uma longa existência terrena. Ela diz que podemos todos chegar ao último dia de nossas vidas como um “Bom vinho Jerez: sendo útil, sendo elegante, não sendo vinagre, sendo vinho”...


10 de fevereiro de 2025

BOLO NO ESPETO


  Jorge Vicente Saidl 

“Bolo no espeto” soa realmente muito estranho em português. No entanto, é a tradução literal de “gâteau à la broche”, expressão francesa que designa uma muito bela e saborosa tradição culinária lituana.

Porque um bolo lituano com nome francês? No fim do artigo vai ficar claro. 

Espeto não é bem o termo adequado, porque a iguaria é preparada num torno, como se pode ver na ilustração, e, ademais, sobre o eixo há um cone. 

A massa é derramada sobre o cone, junto ao fogo, fazendo com que, à medida em que o torno vai girando, vá espirrando e se solidificando, formando pontas como se fossem galhos, daí o termo lituano “šakotis“, derivado de “šaka“ (galho de árvore). 

O bolo, depois de pronto, é retirado do eixo, ficando parecido com o galho de uma de árvore. 

O “bolo no espeto” tem várias versões em diferentes países, porém são cilíndricos simplesmente e não têm os “galhos”. 

Com uma receita que leva muitos ovos, fica com coloração amarelada e tem mais propriamente a consistência de um biscoito. 

Enquanto na Alemanha a versão local chamada de “Baumkuchen” é servida mais no Natal, e talvez mais ou menos o mesmo aconteça com os “parentes” de outros países, o “šakotis”, que em princípio é destinado a ocasiões especiais, é enormemente difundido na Lituânia e não há supermercado onde não se encontre mais de uma marca do produto. 

Passando-se a fronteira da Lituânia, já não mais se vê. 

Entretanto, é surpreendente encontrá-lo na sua versão francesa, num canto da França, perto de Lourdes. 

No Château Fort Musée, dessa importante cidade mariana, está a explicação: Numa das salas do museu se encontra uma representação do torno para o feitio do bolo e uma placa explicando que, passando pela Lituânia, as tropas napoleônicas levaram a receita para seu país natal. Curiosamente que só para este extremo sul do território francês. Apenas um ou alguns soldados franceses da região dos Pirineus se interessaram pela receita. Talvez outros tiveram interesse, mas estavam muito apressados para deixar o território então russo ou caíram no campo de batalha. Em terras francesas, o “Šakotis” que poderia se chamar “Chacotis”, entretanto foi batizado com o nome de “gâteau a la broche”

O Šakotis talvez deva ser considerado o principal manjar doce lituano. 

Dos salgados, o prato principal é provavelmente o Didžkukuliai, mais conhecido como Cepelinai, por ter o formato de um balão Zeppelin. Mas isso é outra questão, que poderia ser tema para um próximo artigo.






26 de dezembro de 2024

“Pousadas”: tradição mexicana que ilumina o Natal



No Natal, piedoso costume mexicano faz reparação à recusa de hospedagem feita a São José e a Nossa Senhora em Belém

 

 ✅  Luis Dufaur

A doçura e as alegrias de Natal contrastam com a dureza da recusa a São José e à Santíssima Virgem quando pediram pousada em Belém, a cidade do rei David, fundador da estirpe da Sagrada Família.

São José bateu à porta da hospedaria explicando que sua esposa estava prestes a dar à luz. Responderam-lhe que não havia lugar. Ele bateu em outras portas, mas ninguém se apiedou da humildade da alta nobreza empobrecida, mas que era daquela cidade e pedia em grande necessidade.

Na fria noite de inverno, só lhes restou irem se abrigar numa gruta que era refúgio de animais!

Em Jerusalém, cidade enriquecida pelas ofertas ao Templo para atrair a vinda do Messias, onde residiam as maiores figuras do povo hebraico como o Sumo Sacerdote, o Sinédrio, o rei usurpador Herodes, a classe sacerdotal e os ricos comerciantes, nem pensavam que o Messias estivesse por nascer em Belém, como deveriam saber pelos anúncios dos profetas.

Isaías assim profetizara tal insensibilidade: “O boi conhece o seu proprietário, e o asno o estábulo do seu dono; mas Israel não conhece nada, e meu povo não tem entendimento. Ai da nação pecadora, do povo carregado de crimes, da raça de malfeitores, dos filhos desnaturados! Abandonaram o Senhor, desprezaram o Santo de Israel, e lhe voltaram as costas” (Isaías 1, 3-4).

Nosso Senhor Jesus Cristo deveria ter nascido em alguma dependência do Templo, ou o rei deveria ter-lhe cedido seu palácio. O Menino Jesus deveria ser aclamado pela nação inteira. Nada disso aconteceu, e o divino recém-nascido foi depositado numa manjedoura, cumprindo-se a profecia de Simeão de que Ele seria a pedra de escândalo para a perdição e salvação de muitos, e para que se conhecessem as cogitações ocultas dos corações (Lc 2, 34-35).



Natal transmite a santa alegria

A Sagrada Família, entretanto, nem parecia incomodada por essa recusa. Pelo contrário, ninguém poderia imaginar a alegria de Nossa Senhora e de São José junto àquele misérrimo — e quão glorioso! — presépio da gruta de Belém. Eles adoravam o Menino recém-nascido, Filho d’Ela e Filho de Deus, a divindade encarnada na natureza humana, o Messias anunciado havia séculos!

Nele viam o executor de tudo o que foi prometido aos profetas: a Redenção do gênero humano, a fundação da Santa Igreja, a expansão da civilização cristã em todos os continentes ao longo de todos os séculos.

Nossa Senhora chamou alguns para participar da sua sacrossanta alegria na Santa Gruta de Belém. A começar pelos três santos pastorinhos e, pouco depois, pelos três Reis Magos que vieram do Oriente guiados por uma maravilhosa estrela.

Não há na Terra gáudio mais autêntico do que a alegria do Natal, porque nele o amor religioso toca o mais profundo dos corações. E esse amor, se é autêntico, inspira ódio ao mal, pois do contrário não seria verdadeiro. Prova é que hoje os corações endurecidos renovam sua rejeição ao Santo Casal com um Natal comercial que profana a sublimidade desse grande acontecimento.



Reparação das “pousadas”

É oportuno indagar se não há almas sensíveis que pelo menos com um simples gesto reparem a dureza de coração — “não havia lugar para eles na estalagem” (Lc 2, 7) — que fechou portas ao augusto casal.

Reconforta-nos na Fé, no amor e na alegria natalina uma bela tradição do México católico. Pois naquela grande nação os bons católicos fazem uma celebração religiosa reparando a cruel recusa de Belém e do povo eleito em geral.

São as “pousadas”. Trata-se de uma piedosa novena de festas populares, celebradas de 16 a 24 de dezembro, para dar à Virgem Maria e a seu castíssimo esposo a acolhida que não lhes foi dada antes do nascimento de Jesus.

Essa prática foi introduzida em 1587 pelo Frei Diego de Soria, superior do convento de Santo Agostinho de Acolman, com aprovação do Papa Sisto V. Posteriormente ela se expandiu para vários países da América Central, tendo sido levada pela migração até os EUA, onde é hoje muito praticada.

No que consistem as “pousadas”?

Elas formam uma procissão de 10, 15, 20 ou mais casais acompanhando São José e Nossa Senhora prestes a dar à luz, batendo nas portas das casas pedindo pousada.

Meninos e meninas chamados de “pastores” se formam em duas alas, uma para elas e outra para eles. Na noite de 24 de dezembro, vestindo uma roupa especial que evoca os tempos do império espanhol e usando chapéus decorados, tocam um chocalho, dançam e cantam para o Menino Jesus no portal de Belém.

Cada criança recita um verso enquanto oferece um presente na festa. O conjunto chama-se “pastorela”, pois leva alguma reprodução de São José e da Virgem no tradicional burrico à procura de hospedagem pelas vielas de Belém. Ou até uns figurantes representando-os.

Os peregrinos batem à porta de uma casa — previamente combinada — entoando a primeira das 12 estrofes tradicionais do pedido de pousada que, embora variem um pouco em cada lugar, dizem: “Em nome do Céu / peço-te pousada / porque minha amada esposa não pode andar”.

O grupo dentro da casa então nega o ingresso: “Aqui não é pousada / continua / não posso abrir para ti / pode ser que sejas um ladrão”.

Inicia-se uma troca verbal de alguns minutos. Os peregrinos insistem: “Não sejas inumano, / tem caridade. / O Deus dos Céus / vai te premiar /. Peço-te uma pousada / senhor querido / porque a Rainha do Céu vai ser Mãe”.

A resposta é sempre negativa: “Podem ir embora logo e não incomodar mais / porque se ficar bravo vou te bater”.

Nada desanima os fiéis na rua. que dizem em coro: “Chegamos esgotados de Nazaré, / eu sou o carpinteiro de nome José”.

E o retorno é ainda um menosprezo: “Pouco me importa o nome, / deixa-me dormir, /pois eu te digo que não vou abrir”.

E mais uma vez, a insistência: “Pousada te pede, amado caseiro, / por só uma noite, a Rainha do Céu”.

Ante essas palavras o coração duro diz: “Pois bem, se é uma Rainha que solicita / como é que anda tão sozinha na noite?”

E a resposta: “Minha esposa é Maria, /é Rainha do Céu, /e vai ser Mãe do Verbo Divino”.

De dentro se ouve cantar: “És tu José? Tua esposa é Maria? / Entrai, peregrinos, /não vos conhecia”.

Na rua, então, entoam: “Deus te pague, senhor, pela tua caridade / e te encha o Céu de felicidade”.

      Do interior da casa as vozes se aproximam: “Ditosa a casa que neste dia hospeda / a Virgem pura, a formosa Maria”.

Quando as portas se abrem, todos entoam em coro: “Entrai, Santos Peregrinos, /aceitai esta casinha que, apesar de pobre morada, / vos dou de coração”.

A “pastorela”, ou procissão, ingressa na casa precedidos pelo “mistério” — imagens de Jesus e Maria, ou pessoas fantasiadas representando-os, e até um anjo e um burrinho, segundo a piedosa fantasia.



A oração, a “pinhata” e a festa

Todos juntos então rezam um terço, entoam ladainhas e/ou canções natalinas. Depois servem-se frutas da estação, como tangerinas, cana-de-açúcar e tejocotes (pequenas maçãs locais), além de doces e amendoins, um quentão — nesta época faz frio na região — feito com frutas como goiaba, cana-de-açúcar, maçã e canela. Variam de acordo com cada receita de família e com o toque pessoal de quem prepara a bebida.

Chega então o momento preferido das crianças. Elas devem destruir a “pinhata”, que consiste num pote de barro, ou papelão com uma estrutura de arame forrada de papel machê intensamente colorido.

Ela deve ter o formato de uma estrela de sete pontas em que cada uma representa um pecado capital, ou o próprio diabo, que com suas cores vivas e enfeites seduz a alma inocente, levando-a ao pecado.

Cada criança com os olhos vendados representa o fiel que, embora sem ver, com a virtude teológica da fé derrota o pecado recuperando o dom sobrenatural da graça. Com um bastão na mão, símbolo do poder do próprio Deus que dá forças para vencer as tentações, procura acertar golpes na “pinhata” pendurada do teto. Antes de começar, as crianças são viradas três vezes, em memória dos trinta e três anos que Cristo viveu.



Quando alguma criança acerta e quebra a “pinhata”, todos celebram a vitória do Bem sobre o Mal. Então chovem sobre as crianças guloseimas, doces e frutas de que a “pinhata” está repleta, simbolizando as graças e os dons de Deus que nos irriga com seu amor e que, ao destruir o mal, obtém para nós as bênçãos do Céu. Em certas cidades, a tradição manda reproduzir a cena no átrio da igreja, reunindo todos os habitantes da vila ou comunidade, mudando as famílias a cada dia da novena. As famílias são responsáveis por oferecer a cada um dos participantes frutas da época, doces, bebidas e alguns petiscos.

Por fim, no final da “pousada”, há troca de lembranças na forma de saquinhos com doces, frutas e salgadinhos. 

____________ 

Fonte: Revista Catolicismo, dezembro/2024


18 de novembro de 2024

Magnata húngaro — Reluzimento da Ásia com a categoria do Ocidente




  Plinio Corrêa de Oliveira 

O que é um magnata húngaro? A palavra magnata vem de magnus, grande. Equivale mais ou menos ao título de Grande de Espanha. Magnata húngaro seria um Grande da Hungria. 

Qual a característica própria ao magnata húngaro? Coube aos húngaros, devido a circunstâncias históricas, ficarem situados durante muito tempo nos confins entre o Oriente e o Ocidente.

Há na realidade daquele país, nas maneiras húngaras de ser, em seus trajes etc., algo que participa, ao mesmo tempo, do equilibrado, do acertado, do distinto do Ocidente e de algo do fabuloso do Oriente. Existe um reluzimento da Ásia conjugando-se com a categoria do Ocidente. E isso fazia-se notar muito nos trajes com que os magnatas húngaros compareciam a certo tipo de cerimônias na corte da Áustria, em Viena. 

A Áustria e a Hungria constituíam uma monarquia dual. O imperador da Áustria era Rei da Hungria. Em vista disso, na corte de Viena apareciam muitos húngaros, e naturalmente, conforme a cerimônia, com traje regional. 

Eles ostentavam vestes que constituíam um conjunto de indumentária difícil de ser descrita em seus pormenores. Figurava nela um chapéu alto, de pele, com uma aigrette, isto é, uma pena alta, bonita. Depois havia nela uma espécie de capa colocada nas costas, de forma um tanto enviesada, com botões e alamares muito bonitos. Por fim, botas altas, de verniz.

O todo era muito imponente, com um quê de ultra civilizado, mas deixando entrever, pelo meio, alguma coisa do tigre, que pode pular em cima de quem lhe desagradar muito vivamente... 

Tal mescla de alguma coisa de fera com certa característica de gentil-homem, de um toque oriental com uma dosagem ocidental, confere uma força e uma distinção — além de indicar o poder do magnata no feudo onde ele é o senhor — que enchem a alma católica de delícias.  

____________ 
Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira para sócios e cooperadores da TFP em 1o de junho de 1993. Sem revisão do autor.
Fonte: Revista Catolicismo, Nº 635, Novembro/2003.

12 de setembro de 2024

DO FUNDO ABENÇOADO DO BAÚ


  Paulo Roberto Campos 


Procurando uma foto “do fundo do baú”, encontrei por acaso um recorte antigo de jornal que merece ser reproduzido. 

Trata-se do costume, então em vigor, de na maioria das famílias se pedir a bênção aos pais e avós — e até mesmo a outros parentes, como tios e padrinhos —, inclusive de lhes beijar respeitosamente as mãos no momento do pedido. De modo geral isso era feito no momento de os filhos irem dormir, ao acordarem, ao saírem para o colégio e outras atividades distantes do lar. 

 A bênção do avô
– Adolph Tidemand (1875).
 Museu de Arte de Bergen, Noruega.
Sinal de que os filhos consideravam os pais como canais para receberem as graças de Deus. E os pais também tinham essa noção de que Deus estava abençoando os filhos por meio deles. 

De modo popular, nas regiões rurais simplificava-se com “a bença pai”, “a bença mãe”; ou simplesmente, “abença”. Quando longe do lar por razões de estudos, em cartas depois de escreverem o nome do local e a data, vinha “meus pais, abençoem-me”. Em muitas famílias, os pais respondiam: “Deus e Nossa Senhora te abençoem!” Abençoar deriva do latim “bene-dicere” (dizer bem, desejar o bem, falar coisas boas). 

Aos nossos primeiros pais, Adão e Eva, “Deus os abençoou” e disse: “Frutificai e multiplicai-vos, enchei a Terra e submetei-a” (Gênesis 1, 28). Assim, ao recebermos as bênçãos de nossos pais biológicos, estamos rememorando aquela primeira bênção divina aos homens. 

O bom costume da bênção paterna e materna, atualmente bastante esquecido e relegado aos tempos de outrora, merece ser recordado e restaurado. Conheço muitos pais que na infância tinham o hábito de pedir a seus pais que os abençoassem, mas que não transmitiram essa tradição aos filhos. Que tal restabelecê-la hoje mesmo? É tão simples e abençoado! No Deuteronômio ficou recomendado por Deus para todos os tempos: “Honra teu pai e tua mãe, como te mandou o Senhor, para que se prolonguem teus dias e prosperes na terra que te deu o Senhor teu Deus” (5,16). 
A Santíssima Trindade (det.)
– Antonio de Pereda (1611–1678).
 Museum of Fine Arts, Budapest, Hungria


“Abençoarei aqueles que te abençoarem” 

Há na Sagrada Escritura várias passagens com a recomendação da bênção na família. Eis dois exemplos que encontrei: 
“Quem honra sua mãe é semelhante àquele que acumula um tesouro. Quem honra seu pai achará alegria em seus filhos, será ouvido no dia da oração. Quem honra seu pai gozará de vida longa; quem lhe obedece dará consolo à sua mãe. Quem teme ao Senhor honra pai e mãe. Servirá aqueles que lhe deram a vida como a seus senhores. Honra teu pai por teus atos, tuas palavras, tua paciência, a fim de que ele te dê sua bênção, e que esta permaneça em ti até o teu último dia. A bênção paterna fortalece a casa de seus filhos, a maldição de uma mãe a arrasa até os alicerces” (Eclesiástico 3, 5-11). 

Nesta última frase, podemos por antonímia ter a profunda noção do valor da bênção ao considerarmos a ruína que pode causar o contrário, ou seja, a maldição (male-dicere). Se esta pode desgraçar, prejudicar e arrasar; a bênção só pode agraciar, favorecer e elevar.

No capítulo 12 do Gênesis, sobre a promessa de Deus ao fundador da nação hebraica, o Patriarca Abraão, encontramos estes versículos: 
“Farei de ti uma grande nação; eu te abençoarei e exaltarei o teu nome, e tu serás uma fonte de bênçãos. Abençoarei aqueles que te abençoarem, e amaldiçoarei aqueles que te amaldiçoarem; todas as famílias da Terra serão benditas em ti” (12, 2-3).

 Jacó abençoando os filhos de José
– Rembrandt (1656).
 Gemäldegalerie Alte Meister, Dresden, Alemanha.


“Põe teu olhar sobre essa menina” 

Enquanto procurava a citação acima, deparei-me com o “Protoevangelho de São Tiago” — um evangelho apócrifo, mas autorizado pela Igreja. No capítulo relativo ao Nascimento da Virgem Maria, encontrei um belo trecho no qual se diz que ao completar um ano de vida, seu pai 
“Joaquim deu uma grande festa, convidando os sacerdotes, os escribas, o sinédrio e todo o povo de Israel. E Joaquim apresentou a menina aos sacerdotes, que a abençoaram com estas palavras: ‘Ó Deus de nossos pais, abençoa essa menina e dá-lhe um nome glorioso e eterno por todas as gerações’. E todo o povo respondeu: ‘Assim seja. Amém’. Joaquim também a apresentou aos príncipes dos sacerdotes e esses a abençoaram: ‘Ó Deus altíssimo, põe teu olhar sobre essa menina e outorga-lhe a maior bênção’”.*
Com essas breves noções sobre bênçãos, reproduzo aqui, como prometido no início, o recorte do “fundo do baú”. 


BÊNÇÃO DOS PAIS  

“Bênção, Pai”… “Bênção, Mãe”…, e em tempos já distantes, pegando a mão do pai e da mãe, a beijávamos, enquanto ouvia-se um “Deus te abençoe”. 

Não se usa mais. 

Mas que falta que faz! 

Abençoar alguém significa desejar coisas tão boas que só podem vir de Deus. A bênção materna e paterna deve ser dada de forma mais especial: 

“Filho, Deus te abençoe”. “Deus te acompanhe”, “Deus te proteja”. Estas expressões têm poder, porque constituem um sinal muito forte da proteção divina. 

Não se usa mais. 

Mas que falta que faz! 

A mão que abençoa representa a bênção, o apoio, o carinho dos pais para com o filho. A bênção é uma ação divina que dá vida e da qual Deus é a fonte. 

Não se usa mais. 

Mas que falta que faz! 

À noite, assentar na calçada, crianças e adultos conversar, contar causos…

Filhos cediam o lugar aos mais velhos, com todo respeito. 

Mães trocavam receitas de remédios caseiros. 

As famílias se visitavam, frequentavam a igreja… Nas refeições todos se assentavam à mesa. E outras coisas mais… 

Não se usa mais. 

Mas que falta que faz! 

Nós somos fracos, somos carentes, e quando estamos em situação difícil, precisamos da bênção de Deus como se fosse um abraço, um colo, um carinho… 

Quanta falta nos faz! 

Ditinha Schanoski 
Cadeira nº 19 — Patrono Dr. Benedito Motta Navarro 


____________ 
Nota: * Evangelhos Apócrifos, Tradução de Urbano Zilles, Coleção Teologia – 17, 3ª edição, EdiPUCRS, Porto Alegre, 2004, pag. 29.

30 de maio de 2023

NOSSA SENHORA RAINHA


E
m todos os anos nos dias 31 de maio, no calendário tradicional, celebrava-se a festividade de Nossa Senhora Rainha. Ainda hoje em muitas igrejas neste dia é realizada a Coroação Solene da Rainha dos Anjos e dos Homens, seguida de uma chuva de pétalas de rosas, queima de fogos de artifício, enquanto todos os sinos tocam alegremente.

Para lembrar esta data mariana tão querida de seus devotos, reproduzimos uma bela poesia do português Gil Vicente (1465 – 1536), poeta renomado, primeiro grande dramaturgo de Portugal.

 


O GLORIOSA DOMINA

Ó gloriosa Senhora do mundo,
Excelsa Princesa do Céu e da Terra,
Formosa batalha de paz e de guerra,
Da Santa Trindade secreto profundo!

 

Santa esperança, oh Madre d'amor,
Ama discreta do Filho de Deus,
Filha e Madre do Senhor dos Céus,
Alva do dia com mais resplendor!
 
Formosa barreira, ó alvo e fito,
A quem os Profetas direito atiravam!
A Ti, gloriosa, os Céus esperavam,
E as três Pessoas um Deus Infinito.
 
Ó cedro nos campos, estrela no mar,
Na serra ave fénis, uma só amada,
Uma só sem mácula, e só preservada,
Uma só nascida, sem conto e sem par!

 

Do que Eva triste ao mundo tirou,
Foi o teu fruto restituído
Dizendo-te ave o Embaixador,
O nome de Eva te significou.
 
Ó porta dos paços do mui alto Rei,
Câmera cheia do Espírito Sancto
Janella radiosa de resplandor tanto,
E tanto zelosa da Divina Lei!
 
Ó mar de ciência, a tua humildade,
Que foi senão porta do céu estrelado?
Ó fonte dos Anjos, oh horto cerrado,
Estrada do mundo para a Divindade,
 
Quando os Anjos cantão a glória de Deus.
Não são esquecidos da glória tua;
Que as glórias do Filho são da Madre Sua,
Pois reinas com Elle na Côrte dos Céus.
 
Pois que faremos os salvos por Ella,
Nascendo em miséria, tristes peccadores,
Senão tanger palmas e dar mil louvores
Ao Padre, ao Filho e Espírito, e a Ella.

26 de dezembro de 2022

Árvore de Natal tem sua origem no paganismo? É símbolo religioso?

Mercado de Natal de Estrasburgo, França.

  Pe. David Francisquini

Fonte: Revista Catolicismo, Nº 864, dezembro/2022

Pergunta — Já ouvi algumas pessoas dizerem que a árvore de Natal é de origem pagã, e também que teria sido introduzida por Lutero. Seria isso verdade? De qualquer forma, ela é realmente um símbolo religioso comparável ao presépio? 

Resposta — Começo pela segunda pergunta, por ser mais fácil e rápida de ser respondida. Tudo depende da definição que se dê à expressão “símbolo religioso”. Se significa apenas um objeto ou gesto ao qual se possa atribuir um significado religioso, não há dúvida de que se pode atribuí-lo à árvore de Natal. A associação mais apropriada é com a Árvore da Vida colocada por Deus no Éden, a qual é evocada pelos adornos “paradisíacos” de que era revestida. 

O fato de se utilizar o pinheiro como árvore de Natal transmite também a ideia de perenidade, de vida eterna, uma vez que, ao contrário das demais árvores, ele nunca perde as folhas, nem sequer no inverno. Agora, se a expressão “símbolo religioso” de uma festividade litúrgica significa um objeto tangível intrinsecamente ligado a esse feriado, sem o qual o feriado não seria o mesmo, então a árvore de Natal não tem esse significado. Simplesmente porque a celebração da Natividade de Nosso Senhor Jesus Cristo não requer árvores de Natal, que durante 15 séculos não foram colocadas como símbolos do período natalino. 

“Nascimento do Invicto” 

Surge, então, a primeira pergunta: qual é a origem desse costume de montar árvores de Natal? É fácil historiar a aparição dos presépios, pois foi São Francisco de Assis que os popularizou em 1223, no vilarejo de Greccio, três anos antes de sua morte. Já a origem da árvore é mais nebulosa. 

Segundo alguns, ela remontaria às religiões pagãs anteriores ao cristianismo. A hipótese é válida, pois, ao que tudo indica, a própria data de 25 de dezembro, destinada a festejar a Natividade de Cristo, teria sido gradualmente recomendada na Roma cristianizada para suplantar as festas pagãs do solstício de inverno, que culminavam com a celebração do Natalis invicti, ou seja, a vitória do sol, quando no hemisfério norte os dias começam a ficar novamente mais longos. 

De fato, a mais antiga aproximação cristã entre a vitória do sol e o nascimento do Salvador é a exclamação de São Cipriano (De pasch. Comp. XIX), no século III: “O quam præclare providentia ut illo die quo natus est Sol... nasceretur Christus” (Oh, quão maravilhosamente agiu a Providência dispondo que naquele dia em que o Sol nasceu... Cristo deveria nascer). 

Um século mais tarde, São João Crisóstomo escreveu: “Mas Nosso Senhor também nasce no mês de dezembro... no oitavo dia antes das calendas de janeiro [ou seja, o 25 de dezembro]... Mas eles [os pagãos] o chamam de 'Nascimento do Invicto'. Quem de fato é tão invicto como Nosso Senhor? ... Ou, então, se dizem que é o nascimento do Sol, Ele é o Sol da Justiça” (Del Solst. Et Æquin, II, p. 118, ed. 1588). 

Tradição desde o século XV 

Local da primeira árvore de Natal em Riga, na Letônia
No norte da Europa, entre certos povos germânicos e na Escandinávia, o período do solstício de inverno era chamado de “Yule”. Na mitologia desses povos, o deus Heimdall vinha visitar à noite todos os lares humanos, deixando presentes para aqueles que tivessem se comportado bem durante o ano. 

Uma constante dessas festividades nórdicas é o uso de árvores perenes como elementos decorativos, pelo motivo já evocado, ou seja, simbolizando que no auge do inverno os pinheiros com folhas sempre verdes prenunciam o retorno dos dias mais longos e da primavera. 

A árvore de Natal, segundo essa hipótese, seria uma apropriação pela Igreja dessa tradição ancestral, depois que São Bonifácio, o evangelizador da Alemanha, derrubara a golpes de machado o “carvalho do trovão” sob o qual os pagãos sacrificavam uma criança ao deus Thor. Outra lenda atribui essa tradição a São Columbano, monge irlandês que viajou extensamente pela Gália. Numa noite de Natal, ele teria levado alguns monges do mosteiro de Luxeuil, fundado por ele no sopé dos montes Vosges, para o topo de uma das montanhas vizinhas. Havia ali um pinheiro muito antigo, objeto de um culto pagão entre os celtas, que o consideravam “a árvore do parto”. São Columbano e seus companheiros teriam então pendurado suas lanternas nos galhos da árvore, desenhando uma cruz luminosa. Mas essa história parece lendária, pois não a atesta nenhum documento da época. 

Na realidade, a associação da árvore com a festa da natividade é atestada somente a partir dos primórdios do século XVI, e, ao que se presume, começou a se tornar comum no século XV — bem antes, portanto, da revolta de Lutero, que nada teve a ver com a introdução desse costume, reivindicada por várias cidades da Europa do Norte. 

Os habitantes de Freiburg, na Alemanha, afirmam que essa tradição se iniciou em 1419 com os padeiros da cidade, que a partir desse Natal teriam passado a decorar anualmente uma árvore com Lebkuchen (os tradicionais biscoitos de gengibre), nozes, maçãs e outras frutas. Mas apenas no dia de Ano Novo as crianças podiam sacudir a árvore para comer suas iguarias. 

Natal em Londres

Belas tradições em outros países 

Por sua vez, a cidade de Riga, capital da Letônia, reivindica oficialmente a paternidade da primeira árvore de Natal, a qual teria sido instalada por uma corporação de mercadores em 1510. Inicialmente destinada a ser queimada no dia do solstício, acabou por ser preservada, decorada e erguida no mercado da cidade para celebrar o Natal. Ainda hoje, uma laje de pedra marca o local. 

A primeira menção escrita desse costume data de 1521, em um livro de contas da cidade de Sélestat (Alsácia, França), que na época pertencia ao Sacro Império Romano Alemão. Este registro indica a seguinte despesa: “Quatro xelins aos guardas florestais para vigiar o mais [do alemão meyen, “árvores festivas”] de São Tomás”, cuja festa era celebrada no dia 21 de dezembro. O município de Sélestat sustenta que, se era preciso proteger a sua floresta, dever-se-ia supor que decorar uma árvore nesta época do ano era relativamente comum e fazia parte dos costumes locais... 

A origem do costume de trazer árvores da floresta e decorá-las provém, por sua vez, dos chamados “mistérios”, ou seja, das representações teatrais com cenas da Bíblia e do Jardim do Éden, que eram feitas durante a Idade Média no átrio das igrejas por ocasião das grandes festas litúrgicas. Como macieiras com seus frutos não fossem encontráveis no início do inverno, colocava-se um pinheiro com decorações que imitavam as maçãs. 

Seja como for, o costume de se erguer nas casas árvores de Natal com bolas coloridas e guirlandas, encimadas por uma estrela de Belém, começou no século XIX no mundo germânico. Foram princesas alemãs, cujas infâncias tinham sido iluminadas pela presença do pinheiro em um salão do palácio, que levaram essa tradição aos demais países da Europa. 

Na França, a inciativa partiu da princesa Helena de Mecklembourg Schwerin, Duquesa de Orléans, que em 1837 pediu ao seu sogro, o rei Luís Filipe, permissão para colocar uma árvore de Natal no palácio das Tulherias. 

Na Inglaterra, foi o marido da rainha Vitória, o príncipe Alberto de Saxe-Coburgo Gotha, também nascido na Alemanha, que importou essa tradição na década de 1840. As ilustrações de jornais da época representam a família real inglesa diante de uma árvore de Natal ricamente decorada, na qual se percebem velinhas acessas. 

Em Portugal, a árvore de Natal foi introduzida por volta de 1844, no Paço Real das Necessidades, por Dom Fernando II, duque de Saxe-Coburgo-Gotha e rei consorte, pelo seu casamento com a rainha Maria II, filha de Dom Pedro I. Uma gravura desenhada pelo próprio rei [foto ao lado] mostra-o vestido de São Nicolau, junto à árvore decorada com velas, bolas e frutos, distribuindo presentes aos sete principezinhos. 

A primeira árvore de Natal nas Américas teria sido instalada em 1781, na cidade canadense Sorel, pela Sra. Friederike Riedesel von Lauterbach, esposa do general comandante das tropas alemãs enviadas pelo Duque Brunswick como auxiliares do exército inglês para tentar impedir a independência dos Estados Unidos. 

Convém destacar que, a partir de 1982, iniciou-se a tradição de erguer na Praça de São Pedro, em Roma, uma enorme árvore de Natal, doada cada ano por um país diferente. 

A cidade de Gramado (RS) no mês de dezembro

Brasil: tradição vinda da Europa 

E como a árvore de Natal chegou ao Brasil? Alguns dizem que foi através de Dona Leopoldina, Arquiduquesa da Áustria e esposa do Imperador Dom Pedro I. Ela teria instalado a primeira árvore de Natal no Palácio da Boa Vista. Embora isso possa ser verdade, não consta que o costume tenha se difundido muito, continuando a predominar entre nós aquele dos países do sul da Europa, de privilegiar o presépio. 

Mais realista é supor duas origens paralelas. De um lado, com a difusão das árvores de Natal a partir dos paços reais, palácios e mansões da aristocracia e da alta burguesia europeias, é possível que durante a segunda metade do século XIX as famílias da aristocracia brasileira — que viajavam muito à Europa e seguiam a moda europeia — importaram o costume para as nossas terras, e provavelmente também as decorações. 

De outro lado, é certo que os imigrantes alemães que se fixaram no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Bahia não somente trouxeram as receitas natalinas e a Coroa de Advento [foto ao lado], mas também as árvores de Natal, difundindo-as nas demais classes sociais. 

O certo é que por mais de um século as crianças brasileiras têm se encantado com as árvores de Natal, nutriente de sua inocência ao ajudá-las, por essa via, a aceitar com simplicidade e alegria as maravilhosas verdades da Fé, especialmente o dogma da Encarnação do Deus que se fez homem e nasceu de uma Virgem numa noite fria na Gruta de Belém.