19 de fevereiro de 2020

Centenário do falecimento de Santa Jacinta de Fátima

No dia 20 de fevereiro comemoramos o primeiro centenário da ida para o Céu, com apenas 10 anos, de Jacinta, a mais jovem dos videntes das aparições de Nossa Senhora em Fátima no ano de 1917. 


➤  Plinio Maria Solimeo
Fonte: Revista Catolicismo, Nº 831, Março/2020

Tendo Catolicismo publicado em diversas ocasiões matérias sobre Fátima e os videntes, daremos aqui apenas alguns traços da santidade de Jacinta, de quem sua prima, a Irmã Lúcia, afirmou em tom profético: “Tenho esperança de que o Senhor, para glória da Santíssima Virgem, lhe concederá a auréola da santidade. Ela só era criança nos anos, no demais sabia já praticar a virtude e mostrar a Deus e à Santíssima Virgem o seu amor, pela prática do sacrifício [...]. É admirável como ela compreendeu o espírito de oração e sacrifício, que a Santíssima Virgem nos recomendou [...]. Por estes e outros [fatos] sem conta, conservo dela grande estima de santidade”.

A canonização de Francisco e Jacinta 

Francisco e Jacinta de Fátima se tornaram os mais novos santos não mártires da Igreja Triunfante. Qual foi, para a vida da Igreja, a importância dessa canonização? Respondemos com as palavras do Pe. Joaquin Maria Alonso, por ocasião da beatificação deles: “Fátima tem tido tais influências de santidade difundidas pelo mundo e pela Igreja, que seu caráter extraordinário não pode entrar nas leis ordinárias da sociologia em uso. Porque Fátima possui, como talvez nenhum outro carisma da Igreja, o que poderia chamar-se o carisma da atração religiosa. Desde o princípio, Fátima tem atraído os fiéis ao lugar de penitência e oração, sem outros apelos, motivos ou insinuações além dos que procedem de sua Mensagem austera de salvação [...]. Os frutos, na conversão dos corações, têm sido espetaculares. Por todas as partes os fiéis se sentem estranhamente comovidos e atraídos aos lugares por onde passa a imagem peregrina, a fazer oração e penitência, pela simples presença da imagem bendita. E este fenômeno não tem precedentes nem explicações sociológicas suficientes”. A canonização de dois dos três videntes da divina história de Fátima aumentou ainda mais esse interesse e fervor. 

Jacinta: piedade precoce 

Muito piedosa desde a mais tenra infância, Jacinta nasceu em 11 de março de 1910, há exatos 110 anos. Sua prima Lúcia, que sempre a conheceu, assim se exprime: “Ainda de cinco anos mais ou menos, ao ouvir narrar os sofrimentos do Nosso Divino Redentor, enternecia-se e chorava: ‘Coitadinho de Nosso Senhor. Eu não hei-de fazer nunca nenhum pecado, não quero que Jesus sofra mais’. Se as palavras feias eram pecado, e faziam sofrer o Menino Jesus, a Jacinta fugirá então delas e das companhias entre as quais há perigo de contrair hábito tão mau”

Crescendo ela um pouco mais, Lúcia registrou ainda: “A Jacinta tinha um porte sempre sério, modesto e amável, que parecia traduzir a presença de Deus em todos os seus atos, própria de pessoas já avançadas em idade e de grande virtude. Não lhe vi nunca aquela demasiada leviandade ou entusiasmo próprio das crianças pelos enfeites e brincadeiras (isto depois das aparições); não posso dizer que as outras crianças corressem para junto dela como faziam para junto de mim; e isto, talvez, porque ela não sabia tanta cantiga e historieta para lhes ensinar e as entreter, ou então porque a seriedade do seu porte era demasiado superior à sua idade”


O convite de Nossa Senhora à santidade 

Na primavera de 1916, a vida dos três — antes alegres e despreocupados pastorinhos de apenas nove, oito e seis anos de idade — iria sofrer brusca mudança: “Os corações de Jesus e Maria estão atentos à voz de vossas súplicas”, diz-lhes numa aparição o Anjo de Portugal, o Anjo da Paz. “Oferecei constantemente ao Altíssimo orações e sacrifícios. De tudo o que puderdes, oferecei um sacrifício ao Senhor em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido, e de súplica pela conversão dos pecadores [...]. Sobretudo aceitai e suportai com submissão o sofrimento que o Senhor vos enviar”

Este é um programa de santidade, só pedido aos verdadeiros íntimos de Deus. E os três hão de cumpri-lo à risca e com fervor, sem lamúrias, queixas nem pena de si mesmos, com verdadeira alegria e amorosa submissão. Inventavam até mesmo os mais variados meios de se sacrificar. Assim, aproximadamente um ano depois, estavam prontos para receber a visita da Rainha do Céu. E Ela veio. Não com agrados, não com mimos, mas com seriedade, repetindo logo no primeiro encontro o convite à oração e ao sofrimento, feito pelo Anjo. “Ides pois ter muito que sofrer. Mas a graça de Deus será o vosso conforto”. 

Oração e sofrimento em reparação ao Imaculado Coração de Maria e ao Sagrado Coração de Jesus, tão ofendidos pela terrível apostasia da Humanidade. A extensão desse pedido eles só a compreenderiam aos poucos, com o auxílio de uma graça especial. As três crianças levaram muito a sério o pedido da Mãe de Deus, de orarem e se sacrificarem para a conversão dos pecadores. 

Jacinta, por ser a menor e a mais sensível dos três pastorinhos, empenhou-se particularmente em atender ao pedido da Virgem. Como pôde ela, tão pequenina, assumir e compreender tão profundamente o espírito de mortificação e penitência? Lúcia responde: “Primeiro, por uma graça especial que Deus, por meio do Imaculado Coração de Maria, lhe quis conceder; segundo, vendo o inferno e a desgraça das almas que ali caem”. Comenta o já citado Pe. Alonso: “Diante de Jacinta, a própria Lúcia sentia o que de ordinário se sente junto a uma pessoa santa, que em tudo parece comunicar-se com Deus [...]. A vista do inferno a havia horrorizado a tal ponto, que todas as penitências e mortificações lhe pareciam nada, contanto que conseguisse livrar dali algumas almas”.

Fenômenos místicos, bilocação 

Não é de admirar que Jacinta fosse obsequiada por várias graças místicas. Teve visões proféticas, obteve curas e graças consideradas milagrosas, e conta-se dela também um fato de bilocação, em cujo relato seguimos o Pe. Ayres Ferreira:

 O filho de uma família aparentada com a dos os Martos fugiu de casa, sem que se soubesse seu paradeiro. A “tia Vitória”, como era conhecida a mãe desse do rapaz, pediu a Jacinta que rezasse por ele. Dias depois o jovem reapareceu e pediu perdão aos pais. Contou que, depois de ter gastado o que roubara, fora detido como vadio e metido na cadeia. Certa noite, durante um temporal, ele conseguiu evadir-se, mas se perdeu no meio de num pinheiral. Tomado de terror, caiu de joelhos e começou a rezar. Nesse momento Jacinta lhe apareceu, pegou-o pela mão e o deixou em uma estrada,fazendo sinal para que continuasse a percorrê-la. Ao amanhecer, encontrou-se num local que logo reconheceu, e assim foi ter à casa paterna. Interrogada sobre o fato, Jacinta respondeu que nem conhecia o tal pinheiral, e que só se limitara a rezar pelo infeliz. 

Jacinta e os Sagrados Corações de Jesus e Maria 

Certo dia Lúcia deu a Jacinta uma estampa do Sagrado Coração de Jesus, que julgava bastante bonita. Jacinta a pegou, olhou-a com atenção, e exclamou: “É tão feio!... Não se parece nada com Nosso Senhor, que é tão bonito. Mas quero; sempre é Ele”. E constantemente o trazia consigo; de noite e na doença, colocava-o debaixo do travesseiro; beijava-o frequentemente, e dizia: “Beijo o Coração, que é o de que mais gosto. Quem me dera [obter] também o Coração de Maria, para ter os dois juntos!”

Com efeito, a missão reparadora de Jacinta vai intimamente ligada ao Coração Imaculado de Maria. Quando Nossa Senhora mostrou o inferno aos três pastorinhos, disse-lhes: “Vistes o inferno, para onde vão as almas dos pobres pecadores; para salvá-las, Deus quer estabelecer no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração”. Jacinta foi uma missionária dessa devoção. 

Por isso, ao despedir-se de Lúcia antes de partir para Lisboa, e depois para o Céu, recomendou-lhe veementemente: “Tu permaneces aqui para dizer que Deus quer estabelecer no mundo a devoção ao Imaculado Coração de Maria. Quando tiveres que dizer isto, não te escondas”. E acrescentou: “Diz a todo o mundo que Deus nos concede as graças por meio do Coração Imaculado de Maria. Que se peça a Ela. O Coração de Jesus quer que, a Seu lado, se venere o Imaculado Coração de Maria. Que peçam a paz ao Imaculado Coração de Maria; Deus a entregou a Ela. Oh! Se eu pudesse meter no coração de todo mundo o fogo que tenho aqui dentro do peito, queimando-me e fazendo-me gostar tanto do Coração de Jesus e do Coração de Maria!” 

Pelo relatório oficial do Prior da freguesia de Leiria, acabado no mês de agosto de 1918 e entregue à Autoridade Eclesiástica em 28 de abril de 1919, sabemos que Nossa Senhora apareceu particularmente a Jacinta, pelo menos três vezes, no curto espaço de outubro de 1917 a agosto de 1918.


O impressionante calvário de Jacinta 

No dia 23 de dezembro de 1918, Francisco e Jacinta adoeceram gravemente, atacados pela terrível epidemia bronco-pneumônica [conhecida no Brasil como gripe espanhola] que tantas vítimas fazia então por toda a Europa. Pelo mesmo tempo caiu doente toda a família, exceto o pai que, assistido por pessoas caridosas, se tornou um desvelado enfermeiro.

Atingidos pela doença, os dois inocentes não perderam em nada seu fervor pelos sacrifícios, mas as ocasiões agora se multiplicavam, sem que as tivessem de procurar. Depois da piedosa morte de Francisco, começou o terrível calvário de Jacinta. Nossa Senhora perguntou a se queria ficar um pouco mais na Terra, para sofrer pela conversão dos pecadores. A generosa criança respondeu que sim. Com isso foi para dois hospitais em Lisboa, onde muito sofreu e acabou morrendo sozinha, afastada dos parentes. Mas Nossa Senhora não a deixou só. Aparecia-lhe frequentemente, instruindo-a, aconselhando-a, alertando-a sobre a situação do mundo e a iminência dos castigos.

A Madre Maria da Purificação Godinho, a quem Jacinta fazia suas confidências, anotou muitas das comunicações celestes e meditações da jovem pastorinha, as quais constam em vários livros e revelam o grau de maturidade espiritual a que chegara essa menina de menos de 10 anos.


Relíquias de Jacinta e Francisco
Jacinta já fora operada uma segunda vez em fevereiro de 1920. Devido a seu estado de fraqueza, só puderam utilizar clorofórmio e anestesia local. Chorou muito, ao ver que estava sendo tratada pelos médicos despida de suas roupas. Retiraram-lhe duas costelas, deixando um orifício tão grande que por ele se podia atravessar uma mão. Ela sofreu tudo caladinha, só gemendo às vezes: “Ai, minha Nossa Senhora!”. Mas, para consolar os que a viam sofrer, dizia: “Paciência! Todos temos que sofrer para chegar ao Céu”.

Comenta o Pe. Alonso: “O Senhor uniu Jacinta à sua Paixão dolorosa e às dores da Virgem do modo mais íntimo. E todas as graças de consolo que recebeu, das várias visitas de Nossa Senhora, não foram impedimento para que essa Paixão acerba tocasse os limites do martírio mais horrível. Diríamos que, para ser modelo de vítima reparadora, Jacinta teve que passar por todas as noites dos sentidos, e também do espírito, sofrendo aquela temível solidão que ela tanto temia”. 

Na Sexta-feira, 20 de fevereiro de 1920, Nossa Senhora veio buscar Jacinta. Apesar de não ter completado 10 anos, já estava plenamente madura para o Céu.
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[1] “Contribuição de memórias pessoais para a biografia da pequenina Jacinta”, Irmã Lúcia, apud Pe. Luís Gonzaga Ayres da Fonseca S.J., Editora Vozes Ltda., Petrópolis, quinta edição, 1954, Prólogo.
[2] Joaquin Maria Alonso, Doctrina y espiritualidad del mensaje de Fátima, Arias Montano Editores, S.L., Madrid, 1990, p. 333, 334.
[3] Pe. João De Marchi, I.M.C., Era uma Senhora mais brilhantes que o Sol..., Seminário das Missões de Nossa Senhora de Fátima, Cova da Iria, 4ª edição, 1954, p. 39.
[4] Id. p. 215.
[5] Pe. Alonso, pp. 133, 134.
[6] Apud Pe. Luís Gonzaga Ayres da Fonseca S.J., Editora Vozes Ltda., Petrópolis, 5ª edição, 1954, p. 141.
[7] Id. p. 145.
[8] Apud Pe. Alonso, 143.
[9] Cfr. Relatório oficial do Prior da freguesia de então, acabado no mês de agosto de 1918 e entregue à Autoridade Eclesiástica em 28 de abril de 1919, in Pe. Luís Gonzaga Ayres da Fonseca, op. cit.
[10] Op. cit., p. 144.

12 de fevereiro de 2020

O grande retorno de Nossa Senhora e a conversão da humanidade


Fonte: Revista Catolicismo, Nº 830, Fevereiro/2020

Não há quem nunca tenha ouvido no interior de sua alma algo como uma voz inspirando uma profunda conversão a Deus. Essa voz interior pode ser uma graça divina sugerindo um sincero desejo de servi-Lo inteiramente, num caminho de maior perfeição, de santificação. 

Por “conversão” não se entende apenas uma mudança de religião, como no caso paradigmático do Apóstolo São Paulo, mas também no sentido de uma metanoia (uma completa mudança de vida). Assim, alguém que já é católico pode ansiar por uma conversão, a fim de se tornar um católico na plena acepção da palavra, perfeito em toda sua conduta, praticando as virtudes em grau heroico.

Sem dúvida, este é um caminho árduo a ser trilhado, sobretudo em nossos dias de neopagnismo. Mas a graça divina pode proporcionar os meios de santificação até mesmo aos que se encontram imersos na vida pecaminosa; como o caso muito conhecido de Santo Agostinho em sua conversão. 

Exemplifica bem esse aspecto a parábola do “Filho Pródigo”. Tendo abandonado a casa paterna, esse filho afundou-se no mundo do pecado, dos prazeres. Mas a graça divina o tocou no fundo do coração, e ele teve saudades do pai. Foi o primeiro passo para o seu arrependimento, sua conversão, seu retorno à casa paterna (cfr. Lc 15, 11-32).

Estando os homens de nosso século atolados na dissolução geral dos costumes, poderá a graça do arrependimento tocar suas almas, fazê-los retornar convertidos à “casa paterna”? É claro que Deus, como pai infinitamente misericordioso, deseja e espera o retorno desses “filhos pródigos”. E para ajudá-los nesse abençoado retorno, oferece a todos uma advogada e uma mãe, que é a Sua própria Mãe, a Rainha do Céu e da Terra, dos anjos e dos homens. 

A história de um maravilhoso retorno é mostrada na matéria de capa da edição deste mês da revista Catolicismo* [capa acima], onde o prezado leitor conhecerá Notre Dame du Grand-Retour (Nossa Senhora do Grande Retorno), devoção magnífica da cidade francesa de Boulogne-sur-Mer. O retorno da imagem da Virgem de Boulogne e sua peregrinação pela França provocaram um afervoramento da fé e um firme desejo das almas de retornarem à prática séria das virtudes. Foi uma imensa graça de conversão e de confiança numa restauração espiritual da humanidade. 

Antes, durante e depois dos castigos purificadores previstos em Fátima (1917), certamente uma nova, imensa e irresistível graça, como a de Nossa Senhora do Grand-Retour, poderá impulsionar a humanidade ao arrependimento, à total conversão, a um “Grande Retorno” à casa paterna. Um verdadeiro renascimento da Cristandade, rumo ao reinado do Sapiencial e Imaculado Coração de Maria.

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 * Para fazer uma assinatura da revista Catolicismo, envie um e-mail para catolicismo@terra.com.br

1 de fevereiro de 2020

Washington — 500 mil manifestantes contra o crime do aborto


Pela primeira vez, um presidente norte-americano esteve presente e com muita coragem discursou durante a célebre Marcha contra o Aborto



➤  Paulo Roberto Campos

Na edição deste ano da grandiosa e já tradicional MARCH FOR LIFE da capital norte-americana, realizada no dia 24 de janeiro, mais de 500 mil pessoas lotaram as ruas e praças nas proximidades da Suprema Corte. Elas se manifestaram contra a prática do aborto nos Estados Unidos, onde a maioria da população rejeita categoricamente tal prática criminosa. 


Donald Trump fez história ao se tornar o primeiro Presidente norte- americano a participar da Marcha, que conta com uma longa, brilhante e trágica trajetória de 47 anos. Ele discursou para a multidão, animando todos a uma reação ainda mais forte contra a matança de inocentes no ventre materno. 

Abaixo, transcrevo alguns trechos do corajoso discurso do presidente americano, muito entrecortado por calorosos aplausos. Tomei a liberdade de assinalar em negrito as palavras que mais me chamaram a atenção e que revelam o correto enfoque de nossa luta contra o aborto, enquanto uma grave afronta a Deus, Criador de todas as coisas. 

“É uma grande honra ser o primeiro presidente da história a participar da March For Life. Estamos aqui por uma razão muito simples: para defender o direito de todas as crianças, nascidas e por nascer, de cumprir seu potencial concedido por Deus. [...]

“Os jovens são o coração da Marcha pela Vida. E é a sua geração que está fazendo da América uma nação pró-família e pró-vida. [...]


“Todos aqui entendemos uma verdade eterna: toda criança é um dom precioso e sagrado de Deus. Juntos devemos proteger, valorizar e defender a dignidade e a santidade de toda vida humana.

“Quando vemos a imagem de um bebê no útero, vislumbramos a majestade da criação de Deus. Quando seguramos um recém-nascido em nossos braços, conhecemos o amor sem fim que cada criança traz para uma família. Quando observamos uma criança crescer, vemos o esplendor que irradia de cada alma humana. Uma vida muda o mundo e posso dizer, desde o primeiro dia no cargo, tomei como uma ação histórica apoiar as famílias da América e proteger os nascituros. [...] 

“Notifiquei o Congresso que vetaria qualquer legislação que enfraquecesse as políticas pró-vida ou que incentivasse a destruição da vida humana. 

“Nas Nações Unidas, deixei claro que os burocratas globais não têm como atacar a soberania das nações que protegem a vida inocente. Os nascituros nunca tiveram um defensor tão forte na Casa Branca.


“Como a Bíblia nos diz, cada pessoa é maravilhosamente criada. [...] Infelizmente, a extrema-esquerda está trabalhando para apagar nossos direitos dados por Deus, fechar instituições de caridade baseadas na fé, banir líderes religiosos da praça pública e silenciar os americanos que acreditam na santidade da vida. [...] Lutamos por aqueles que não têm voz. E venceremos porque sabemos como vencer.

“Quase todos os principais democratas do Congresso agora apoiam o aborto, financiado pelos contribuintes, até o momento do nascimento. No ano passado, os legisladores de Nova York aplaudiram com satisfação a aprovação da legislação que permitiria que um bebê fosse arrancado do útero da mãe até o momento do parto. [...]

“E para todas as mães que aqui estão hoje, homenageamos vocês e declaramos que as mães são heroínas. Sua força e devoção é o que alimenta nossa nação. Por sua causa, nosso país foi abençoado com almas incríveis que mudaram o curso da história da humanidade. [...] Toda criança traz alegria a uma família. Vale a pena proteger toda pessoa. E, sobretudo, sabemos que cada alma humana é divina e cada vida humana é divina, nascida e por nascer, é feita à santa imagem de Deus Todo-Poderoso”. 




A Sociedade Americana para a Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP) [foto acima], que participa dessa impressionante marcha em defesa da vida inocente desde o seu início em 22 de janeiro de 1974, distribuiu na manifestação de 2020 um folheto que trata, entre outros temas, do seguinte: 

“O contraste é eloquente. O movimento pró-aborto está lutando dividido e desencorajado, enquanto o movimento pró-vida está radiante de juventude, vitalidade e entusiasmo incomparável. [...] 


“Mantendo a lei de Deus no centro da luta pela América, a March For Life é um sinal de que o pulso pró-vida nos Estados Unidos está mais forte do que nunca, algo que o lobby pró-aborto é incapaz de esmorecer. 

“Os americanos, cada vez mais preocupados, estão recorrendo a Deus e a sua Mãe Santíssima para ajudá-los na luta contra o aborto. [...] 

“Nesta luta, a derrota não é uma opção e o compromisso com o erro é covardia. Os pró-vida não devem recuar, devem redobrar seus esforços para garantir que o aborto seja erradicado. Nas belas palavras de Santa Joana d’Arc, ‘Em nome de Deus, os soldados lutarão e Ele lhes dará a vitória’”. 


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Do Brasil, o Instituto Plinio Corrêa de Oliveira [foto ao lado] enviou uma representação, como também o fizeram outras entidades coirmãs do Instituto em outros países, como a Sociedade Irlandesa de Civilização Cristã, Droit de Naître (da França) e Voglio Vivere (Itália). 

Alguns dias antes dessa multitudinária manifestação antiaborto, outra manifestação, denominada “Marcha das Mulheres”, fez, também em Washington, uma passeata pró-aborto. E foi um fiasco! Ela estava desmotivada e não atraiu a juventude, enquanto a March For Life contou com quase 80% de jovens muito animados e dispostos a tudo dentro das leis para obrigar seus legisladores a abolir a infame decisão Roe vs Wade da Suprema Corte, que legalizou o aborto em todo o país em 1973.
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PS: As fotos são de Matthew Johnson (para ampliá-las, basta um click). Assista, no final desta página, dois vídeos da March for Life deste ano.
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23 de janeiro de 2020

Atitudes em face da morte

➤ Plinio Maria Solimeo 

Nosso mundo hedonista e gozador da vida de nada tem maior temor do que da morte. Só o pensar nela aterroriza-o, estraga todos seus prazeres. Entretanto, dela ninguém escapa. 

Este é o tema que Peter Kwasniewski — escritor católico, autor, palestrante, editor, publicista e compositor — desenvolve em seu interessante artigo publicado no Life Site News sob o sugestivo título: Monges católicos revelam como se preparam para a morte em um mosteiro

Kwasniewski [foto ao lado] começa falando com muita propriedade de uma das pragas de nosso tempo, a tão propalada eutanásia: “Uma prática antes considerada abominável — na verdade, simplesmente uma forma de assassinato a sangue frio daqueles que são mais vulneráveis e mais merecedores de nossa atenção e carinho amorosos — está sendo promovida como a melhor maneira de ‘tirar alguém de sua miséria’, assim como um cavalo manco ou um animal de estimação frágil é ‘abatido’ pelo veterinário [...]. Em vez de enfrentarmos a morte como sendo uma passagem purificadora para a vida eterna, tentamos mercantilizá-la como uma forma final de paliativo”

Ele concorda que o medo da morte é natural, pois o próprio Filho de Deus o teve. Entretanto, escondê-la ou ignorá-la não adianta, além de ir contra o que diz a Sagrada Escritura: “Pensa nos teus novíssimos e não pecarás eternamente” (Ecl. 7, 40). Sabemos que os “novíssimos” são as últimas coisas que irremediavelmente nos acontecerão: a morte, à qual sucederão o juízo particular e — conforme nós tivermos vivido — o inferno ou o paraíso para sempre.

Mesmo quando é irremediável encarar a morte, procura-se tirar dela todo o aspecto religioso. A eutanásia, por exemplo, é baseada em considerações puramente materialistas e ateias. A explicação para isso no-la dá o ilustre escritor: “Sem Deus, a morte não pode ter sentido; sem Cristo, a morte não pode ter benefício; sem o Espírito Santo, a morte não pode ser encarada com amor e esperança. Torna-se o grande absurdo, e não a passagem da vida mortal para a imortal”.

Kwasniewski passa então a falar de um livro que foi publicado há pouco nos Estados Unidos, escrito pelo jornalista francês Nicolas Diat e intitulado Hora de morrer: monges no limiar da vida eterna [capa ao lado], no qual o autor relata sua experiência nas visitas que fez a oito mosteiros na França com o objetivo de conversar com os monges sobre seus pontos de vista sobre a morte, como eles se preparam para ela e como os afeta verem seus irmãos de hábito passar desta vida para a eterna. 

Entre os monges entrevistados, Dom David, da Abadia de En-Calcat, considerou que o homem construiu um mundo tão tecnológico, que esse mesmo mundo agora o humilha e o faz sentir vergonha, numa espécie de complexo de inferioridade. Aduziu que para a antropologia clássica o homem era o rei e o cume do reino animal, mas que nos últimos 50 anos ele se tornou insignificante num mundo dominado por ídolos tecnológicos. Afirma o jornalista: “Dom David diz que a nossa tecnologia médica se desenvolveu a tal ponto, que prolonga a nossa agonia e nos deixa em frangalhos. Podemos acabar vendo a nós mesmos e uns aos outros de uma maneira despersonalizada, como se fôssemos máquinas com partes funcionais ou não funcionais, em vez de ver a imagem de Deus, que é infinitamente mais preciosa que a própria vida corporal e qualquer tecnologia que possamos reunir”. Comenta Diat: “Os leitores podem se surpreender ao saber (embora seja lógico) que os mosteiros enfrentam os mesmos desafios que os leigos enfrentam no mundo: cuidados com o fim da vida, remédios para dor, quando levar alguém do hospital para casa a fim de morrer em sua própria cama” etc. 

Como a morte é o momento mais importante de nossa vida porque sela o nosso destino eterno, ela o é sobretudo na vida de um monge. Assim, o enfermeiro da conhecida Abadia de Solesmes disse que aprendeu a “desacelerar” para prestar atenção nos detalhes no cuidado dos doentes: “Existe o risco de mercantilização do doente. Devo rezar para manter acordada a força do meu desejo de servir. [O irmão doente] é Cristo. Quando chegarmos diante de Deus, seremos responsáveis por nossa caridade para com os mais fracos. Preciso saber como ‘perder meu tempo’ com os doentes. Na vida, dar livremente é essencial. Cristo disse que o homem que perde a vida a ganha”. 

Por sua vez, comenta o Irmão Teofano, da Abadia de Sept-Fons [foto]: “Nunca estou tão consciente da presença de Deus como no momento da morte de meus irmãos. Há uma pausa, um antes e depois. Estamos no ponto da mais perfeita intersecção entre Deus e os vivos”.

Dom Olivier, monge da Abadia de Cîteaux, fala filosoficamente sobre a preparação diária para a morte: “A morte mais difícil é a pequena morte diária, quando estamos perfeitamente saudáveis. Na vida, passamos de uma morte para outra; elas nos preparam para o fim último. Poucas mortes do ego se tornam grandes e permitem uma boa morte”. 

Diat comenta que na abadia de Mondayes e conta a história de um velho soldado da Segunda Guerra Mundial que se tornou monge ali. Quando ele estava muito doente no hospital, o abade de seu mosteiro foi ministrar-lhe os últimos ritos a fim de prepará-lo para a morte. Quando terminou a cerimônia, o Superior inusitadamente abriu uma garrafa de champanhe, e ambos beberam um brinde à morte. Dois dias depois, o veterano soldado e monge, trazido de volta ao seu mosteiro, entregava em paz sua alma a Deus. Conclui Diat: “Uma comunidade completa se compõe de vivos e mortos”.

Um monge da Abadia de Fontgombault, mosteiro beneditino de observância totalmente tradicional, afirmou o que se pode aplicar a todo mundo, e não só aos religiosos: “Quanto mais forte a vida sobrenatural, maior a familiaridade com a vida após a morte, e mais simples a morte”. “A tradição católica enfatizou há muito esse mesmo ponto: se desejamos ter uma morte santa, devemos construir os hábitos em nossas vidas que entrarão em jogo em nossa hora de maior necessidade. A morte, nesse sentido, não passa de um momento final de um processo que a antecede e se prepara por muito tempo. Aqueles que acham ‘injusto’ que o destino eterno de uma pessoa dependa unicamente do estado da alma no momento da morte, não estão pensando corretamente: não veem a verdade de que ‘como um homem vive, ele morre’”

Também monge de Fontgombault, Dom Pateau, afirma que “a tecnologia nos domina até os momentos finais”. “Deus deve nos forçar a aproveitar esse tempo: Ele diz: ‘Basta’, quando o homem moderno responderia prontamente: ‘Não tenho tempo’. Estaríamos prontos para perder o ponto alto desta vida. O homem se tornou escravo. Do mesmo modo, ele não tem mais tempo para si e para Deus. A falta é cruel. Ele não tem tempo para morrer porque não tem tempo para viver. Por sua parte, o monge concorda em perder todo o seu tempo para Deus. A vida monástica é feliz; a morte monástica também é”

O autor conclui considerando como a morte é vista pelos cartuxos, os mais austeros e inacessíveis de todos os religiosos. Um deles lhe diz: “Passo metade da minha vida pensando na vida eterna. Ela é o pano de fundo constante que reveste toda a minha existência [...]. Devemos amar esta porta que nos permitirá conhecer o Pai”. Depois acrescenta: “Não é a porta que eu estou esperando, mas o que está do outro lado dela. Não estou esperando pela morte, mas pela Vida”

Diat comenta que se diz correntemente dos cartuxos que eles “fazem santos”, “mas não promovem suas causas”, porque todos devem tender à santidade. E narra o caso de um irmão leigo cartuxo que em meados do século XVII começou a praticar muitos milagres em sua sepultura, ameaçando tornar o mosteiro um lugar de peregrinação, com todos os inconvenientes inerentes a isso. O prior então, para cortar o mal pela raiz, dirigiu-se ao falecido monge e lhe disse: “Em nome da santa obediência, eu vos proíbo de fazer milagres”. A partir de então os fenômenos extraordinários cessaram. _______________ 
Fonte: https://www.lifesitenews.com/blogs/catholic-monks-reveal-how-they-prepare-for-death-in-a-monastery

11 de janeiro de 2020

Para esses dias aterrorizadores...

"A Paz carregada num carro de Guerra" - Monumento em Londres, o "Arco de Green Park", para comemorar as vitórias britânicas nas Guerras Napoleônicas.

Para esses dias aterrorizadores, com ameças de conflitos que poderiam envolver várias nações, seguem algumas frases para refletirmos: 

“Não se busca a paz para provocar a guerra, mas faz-se a guerra para conseguir a paz”. 

(Santo Agostinho)

 

“Si vis pacem, para bellum” (Se queres a paz, prepara-te para a guerra). 

(Provérbio latino)

 

“Apenas ameaçai com a guerra, e tereis paz; vejam-vos preparados para usar a força, e eles mesmos restaurarão o direito”. 

(Tito Lívio)

 

“Pior do que a guerra é o próprio medo da guerra”. 

(Sêneca)

 

“Se quisermos gozar da paz, é preciso fazer a guerra”. 

(Cícero)

 

“A guerra é a continuação da política por outros meios”. 

(Clausewitz)

 

“Tínheis a escolher entre a vergonha e a guerra. Escolhestes a vergonha, e tereis a guerra”. 

(Churchill)

9 de janeiro de 2020

RETROSPECTO DE 2019

Crise social, moral, religiosa e reações auspiciosas numa civilização e num mundo em combustão. Não é fácil encontrar um fato que sintetize os acontecimentos desse ano que findou, mas poderíamos escolher uma imagem como sendo a mais figurativa de 2019: o incêndio em Notre-Dame, a catedral arquetípica, o edifício mais visitado da Europa, resume a história da Civilização, que sente, como todos nós, o abalo causado pelas chamas.  


Fonte: Revista Catolicismo, Nº 829, Janeiro/2020 

Para sintetizar de algum modo o ano de 2019, poderíamos escolher uma imagem muito simbólica: o incêndio em Notre-Dame, a belíssima Catedral de Paris. Ela representa não somente a alma da França, mas a alma da Cristandade. Para inúmeras pessoas, é a mais bela e mais simbólica do mundo, o pináculo da arte francesa, a glória da arquitetura gótica medieval. 

Esse monumental símbolo da Cristandade ardeu em chamas no dia 15 de abril. Não somente a França, mas também grande parte da população mundial sentiu-se coberta de luto. E se o fogo tivesse devorado completamente essa catedral por excelência, todos nos sentiríamos em alguma medida na condição de órfãos. Atingindo tão violentamente esse símbolo da Cristandade, o desastre bem pode simbolizar o incêndio na “barca de Pedro” (a fumaça de Satanás, no dizer de Paulo VI), que vai corroendo os alicerces da Civilização Cristã. 

O ano de 2019 esteve carregado de grandes acontecimentos auspiciosos, mas também de muitos outros sintomáticos da revolução cultural e do caos generalizado, introduzidos na Igreja e no mundo. Por exemplo, arderam agitações violentas e anárquicas em muitos países, com expressão máxima nas antes tranquilas e prósperas ruas de cidades chilenas. 

Tais agitações agradaram ao ex-presidente Lula da Silva, que logo ao ser solto da cadeia incitou arruaças no Brasil, dizendo ser preciso imitar o Chile. No entanto essa grandiloquência agitante caiu no vazio, pois todos conhecemos na própria pele suas funestas consequências. E o projeto das esquerdas de “venezuelizar” várias nações continua na ordem do dia. Está presente também na pauta de grande parte da mídia, que torce desesperadamente pela implantação da agenda lulopetista-bolivariana, apesar do total fracasso dos governos esquerdistas. 

Expressão máxima do ano, como causa e efeito do “incêndio” na Igreja católica, o Sínodo Pan-Amazônico deve passar para a história como “Sínodo da Pachamama”. Além de impulsionar o comuno-tribalismo indigenista, muitos de seus participantes introduziram e veneraram nos jardins do Vaticano, com a presença e apoio do Papa Francisco, esse ídolo pagão. Mais um gesto coletivo de “autodemolição” da Igreja, que levou muitas autoridades a falar em cisma. 

No sentido oposto ao ambicionado pela mídia esquerdista, Catolicismo deseja ardentemente que 2020 seja decisivo na marcha pela restauração dos valores da Cristandade, em todo o seu esplendor e integridade; características estas que desejamos e apoiamos também no que se refere à restauração da Catedral de Notre-Dame — ou seja, exatamente como foi em seu glorioso passado, e não desfigurada por modernismo nem paganismo disfarçado. 

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Esses e outros grandes acontecimentos são expostos na matéria principal da edição deste mês da Revista Catolicismo. (Para fazer uma assinatura desta publicação, envie um e-mail para catolicismo@terra.com.br).

23 de dezembro de 2019

Os Reis Magos seguiram a estrela de Belém e encontraram o berço de Cristo

Capa da Revista Catolicismo, Dezembro/2019 *
Orientados pela estrela de Belém, os três Reis Magos seguiram de suas longínquas regiões até a gruta onde nascera o Menino Jesus. Lá eles O encontraram iluminado pela estrela, amparado maternalmente nos braços da Santíssima Virgem, protegido por São José. 

Diante de tão magnífica cena, os Reis Magos — os veneráveis sábios Melchior, Gaspar e Baltasar — se prosternaram e adoraram o Divino Infante, enviado para redimir o gênero humano. Nesse ato eles representavam todas as raças e povos da Terra, chamados a amar, servir e glorificar a Deus. O Papa São Leão Magno afirmou: “Reconhecemos nos Magos, que adoraram a Cristo, as primícias de nossa vocação e de nossa fé”. 

Qual o simbolismo daquela estrela, mais brilhante e mais bela que todas as demais disseminadas pelos céus? Foi um novo astro que apareceu, vindo do Oriente? Ou era um Anjo incumbido pelo Criador para anunciar que todas as nações deveriam reconhecer no recém-nascido o Messias profetizado desde os primeiros tempos? E os três Reis Magos, o que significaram para a humanidade? Qual a missão deles? Que simbolismo há nos presentes (ouro, incenso e mirra) que ofereceram ao Menino-Deus? 

Com a leitura da matéria principal da edição da revista Catolicismo deste mês, nossos leitores conhecerão as explicações expostas pelo jesuíta Cornélio a Lapide, grande exegeta do século XVI. Em um dos volumes de sua célebre obra Commentaria in Scripturam Sacram, ele analisa e interpreta as seguintes palavras de São Mateus: “Tendo, pois, nascido Jesus em Belém de Judá, nos dias do rei Herodes, eis que uns magos vieram do Oriente a Jerusalém, dizendo: ‘Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Porque nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo’” (Mt 21, 12). 

Genuflexos diante do Presépio, e desejando a todos um Santo e Feliz Natal, suplicamos à Sagrada Família que dispense aos nossos leitores as mais escolhidas graças e bênçãos, extensivas a todos os seus familiares. Que Jesus, Maria e José, à maneira da estrela de Belém, a todos orientem, iluminando seus caminhos ao longo desse novo ano que se anuncia. Pediremos também à Sagrada Família que conduza o Brasil nas trilhas de sua grandiosa vocação, traçada pela Providência Divina desde o batismo de nosso País como Terra de Santa Cruz. 

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22 de dezembro de 2019

NATAL — Algumas frases para refletirmos diante do Santo Presépio

“Era sábio [o Menino Jesus] de maneira inexplicável, de uma sabedoria unida à infância”. 

(Santo Agostinho) 


“Meu divino Redentor, na medida em que vos abaixastes, fazendo-vos homem e criança, brilharam a misericórdia e o amor que nos mostrastes, a fim de ganhar os nossos corações”. 

(São Bernardo) 


“Que alma haverá tão feroz que não se deixe vencer pelos encantos dessa criança? Que coração tão duro que não se enterneça à sua vista?” 

(São Pedro Crisólogo) 


“Oh acontecimento admirável! Uma virgem se torna mãe, permanecendo virgem! Considera a nova ordem da natureza. Qualquer outra mulher, se permanece virgem, não pode tornar-se mãe; tornando-se mãe, já não conserva a virgindade. Neste caso, porém, as duas qualidades se mantêm. A mesma pessoa é mãe e virgem. A virgindade não a impediu de gerar, o parto não lhe tirou a virgindade. Era conveniente que, vindo para tornar os homens íntegros e incorruptos, o Salvador fizesse seu ingresso na vida humana a partir da integridade total, consagrada a Ele sem reserva”. 

(São Gregório de Nissa)

19 de dezembro de 2019

Bolo em camadas

O ambiente familiar é o mais importante para a formação do caráter e o florescimento do que a instrução fora de casa poderá proporcionar. O que acontece até os 5 anos marca fundo a vida toda. Se no Brasil faz muita falta a primeira educação familiar, é porque a família está falhando. 


➤  Péricles Capanema

Meu primeiro impulso foi pôr aí em cima o equivalente, mais expressivo, gâteau de couches e não bolo em camadas. Gâteau de couches nos remete a mais sabores e a formas mais bonitas, à pâtisserie (doçaria, confeitaria) francesa, produtos que são verdadeiras obras de arte, pequenos andares de delícias de diferentes gostos.

A ideia de fundo é a de soma, adição de realidades harmônicas e complementares. Como metáfora, serve para quê? Para os mais variados fins, no meu caso para representar virtude, para muitos amarga e dura, a seriedade. O contrário, a seriedade é atitude que torna suave a vida. Seriedade é objetividade; vou procurar tê-la como inspiração e ser objetivo ao tratar dos dados divulgados pelo PISA mais recente. Não me esqueço, como os bolos, temos seriedade de uma camada, seriedade de duas, de várias camadas, a seriedade simples do porteiro e a seriedade elaborada do general. 

De início, vamos considerar com seriedade simples (bolo de uma camada), sem desviar o olhar, os dados devastadores do PISA de 2018 (Programme for International Student Assessment – PISA, em inglês, Programa Internacional de Avaliação de Alunos), exame aplicado a cada três anos em 79 países a estudantes de até 15 anos; mais de 600 mil avaliados, dos quais 17,5 mil brasileiros. São dados controversos, mas apontam uma direção. O Brasil ficou na 66ª posição. Em leitura, 54ª, ciências, 67ª, em matemática, na 70ª. Na China, 16% dos estudantes estão no nível mais alto da disciplina, com raciocínio matemático considerado avançado. Entre os países da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento), apenas 2,4% dos alunos chegam a esse patamar. 

Outro ponto. Os colégios de elite brasileiros colocam o país na 5ª posição da leitura, ao lado da Estônia. O resultado das escolas públicas nesse quesito é o 65º. Escolas privadas de elite, o Brasil em ciências fica no 12º no mundo. Escola pública em ciências, Brasil no 71º. Privada de elite em matemática, 30º lugar. Púbica em matemática, 75º. 10% dos jovens do mundo conseguem diferenciar fato de opinião. No Brasil, total bem menor, 2%. Nenhum aluno das classes mais pobres conseguiu fazer tal distinção. Parte dos alunos das privadas de elite termina os estudos no Exterior e não volta ao Brasil.

O quadro desolador vem do que tem sido nossa educação fundamental há décadas. Se não for mudado, esqueçam o Brasil entre as nações mais prósperas da Terra para as próximas décadas. Estamos dentro da sociedade do conhecimento. O começo do caminho — não é o único, mas essencial — para a prosperidade do Brasil é aumentar o padrão do ensino fundamental das escolas públicas. Vale tri-trilhões de vezes mais que ficar tagarelando e papagaiando frases feitas como “resgatar a pobreza”, “pagar a dívida social”, “eliminar a desigualdade”, “distribuir renda”, e vai por aí afora. Pior ainda seria moldar o ensino fundamental segundo doutrinas demolidoras como as de Paulo Freire ou a ideologia de gênero. Acabaria de afundar. 

Não vou ser conselheiro Acácio, temos grandes técnicos na área que sabem exatamente o que propor e fazer. O óbvio ululante é que nos últimos 50 anos o rumo foi frouxo e cheio de defeitos. Repito, se não for consertado o ensino fundamental, a rabeira será nosso destino permanente. Sei, boa instrução não basta para a prosperidade. Mas é essencial. E, quem nasceu pobre, via de regra, só tem uma oportunidade de crescer na vida; fazer, nos seus primeiros anos, um bom curso fundamental.

Vou deixar o bolo em uma camada, vamos para o bolo em duas camadas. De outro modo, colocar mais algumas questões no quadro. Por vezes com boas razões se criticam no Brasil as desigualdades gritantes, a infância desamparada, o uso que o crime organizado faz de crianças. Como diminuí-los? Ao lado do ensino fundamental, base dele, faz falta a primeira educação familiar. O ambiente familiar é o mais importante para a formação do caráter e o florescimento do que a instrução fora de casa poderá proporcionar. O que acontece até os 5 anos marca fundo a vida toda. Se no Brasil faz muita falta a primeira educação familiar, é porque a família está falhando. E assim, quem a defende com unhas e dentes, luta por causa social de generalizado impacto na diminuição da pobreza. O economista Prof. Roberto Macedo, discorrendo sobre educação, em especial a infantil, ressaltou ponto de enorme importância: 
“Tive circunstâncias educacionais muito favoráveis, pois minha mãe deixou o magistério para cuidar dos seus oito filhos. Na época, famílias desse tamanho eram comuns. Ela levou todos à escola, e nossa casa era também uma escola, pois ela ensinava várias coisas, e cobrava desempenho escolar. Havia também muitos livros e até jornais diários, que atraíam nossa atenção. E jogos infantis, muita conversa com ela e entre irmãos, tudo isso estimulando nossa cabeça já na primeira infância. E, ainda, a interação com os filhos de famílias vizinhas, também ajudando no desenvolvimento intelectual e social”. 
As duas primeiras camadas eram até certo ponto previsíveis. A terceira, acho, nesse bolo em três camadas, é que traz novidade. Relia partes do livro “Minha vida de menina” de Helena Morley (pseudônimo de Alice Dayrell Caldeira Brant) — do qual Georges Bernanos certa vez comentou com o ministro Capanema: “obra genial, livro único, impossível de traduzir, um milagre” — e topei com cena instrutiva de fins do século XIX em Diamantina: 
“Hoje tive o maior espanto de minha vida. Vovó, todos os sábados, manda um de meus irmãos ao Palácio, que é perto da Chácara, trocar uma nota em borruquês do Bispo. Põe tudo numa caixa de papelão e fica sentada na sala de jantar, à espera das pobres delas. A cada uma dá um borruquê novo de duzentos réis. São elas, Chichi Bombom, Frutuosa Pau-de-Sebo, Teresa Doida, Aninha Tico-Tico, Carlota Pistola, Teresa Buscapé, Eufrásia Boaventura, Maria Pipoca e siá Fortunata. [...] Eu sempre fico por perto ouvindo as queixas”. 
Uma avó, com a neta por perto, recebe na sala mulheres pobres para dar esmola. Ambiente descontraído, acolhedor, simples, respeitoso, onde, imersas num ar difícil de definir, pretas, brancas, mulatas conversam, trocam opiniões e depois as pobres vão embora. Se o Brasil quer de fato um dia ser grande — grande de grandeza cristã, a única que interessa — e não apenas próspero, este ar difícil de definir não pode morrer. Digo mais, não pode definhar. Enfatizo: tem que se firmar, aperfeiçoar-se e conquistar espaços.

É esse o ambiente do Brasil antigo, também percebido nas palavras do Prof. Macedo. Definha, infelizmente, está morrendo. Se desaparecer por inteiro, de nada vai adiantar estarmos na primeira fila do ensino fundamental. E concluo, para ser proveitosa, a análise da formação infanto-juvenil entre nós requer olhares de profundidade diferentes. Só então se apresentará apetitosa, atraente e nutritiva como um bolo em camadas. (periclescapanema.blogspot.com).