18 de novembro de 2020

É errado falar de Nossa Senhora enquanto mãe solteira?

Anunciação – Girolamo Lucenti (1602-1624). Museu Hermitage, São Petersburgo, Rússia.


✅ Padre David Francisquini

Pergunta — A freira americana que fez um discurso contra o aborto na convenção do Partido Republicano, elogiando as iniciativas pró-vida do presidente Trump em defesa dos direitos do nascituro, disse uma frase que me chocou: “Como cristãos, conhecemos Jesus pela primeira vez como um embrião no ventre de uma mãe solteira, e o vimos nascer nove meses depois na pobreza de uma gruta”. Por mais que a frase estivesse destinada às moças que ficam grávidas, recomendando-lhes que não abortem, essa analogia me pareceu inapropriada, pois parece esquecer a virgindade perpétua de Nossa Senhora e o fato de que Ela estava casada com São José. O que o senhor pensa disso? 


Resposta — A Igreja tem muitas formas de censura para as proposições contrárias ao seu ensinamento. São chamadas de “notas teológicas”. As mais graves se relacionam com o conteúdo das proposições censuradas: herética, errônea na fé, temerária. Outras se referem à forma defeituosa pela qual elas são expressas: equivocada, suspeita, malsoante. Por fim, uma formulação pode não ser errônea no conteúdo e na forma, mas ser censurada pelos efeitos que produz num contexto determinado, qualificando-se então como escandalosa, perigosa, sedutora dos simples ou ofensiva aos ouvidos pios. Por exemplo, seria verdadeira uma ladainha que dissesse São Pedro renegado, rogai por nós, porque de fato ele negou Nosso Senhor três vezes. Mas a piedade dos fiéis ver-se-ia contundida pela evocação desse gravíssimo pecado no contexto de uma ladainha em que se pede sua intercessão. Da mesma maneira, é louvável o corajoso discurso contra o aborto, evocado na pergunta; mas foi muito infeliz a formulação com que a freira se referiu à concepção virginal, pois choca os ouvidos piedosos dos fiéis, especialmente dos devotos de Nossa Senhora. 

É preciso reconhecer que a frase da freira é até certo ponto materialmente verdadeira, pois no momento da Anunciação e da Encarnação do Verbo no seio virginal de Maria Ela ainda não estava casada legalmente com São José, nem vivia com ele sob o mesmo teto. Essas duas realidades estão declaradas explicitamente no primeiro capítulo do Evangelho de São Mateus. No versículo 18, ele diz que Nossa Senhora tinha concebido por virtude do Espírito Santo “antes de coabitarem”. E no versículo 20, que o anjo disse em sonhos a São José: “Não temas receber Maria por esposa”, o que significa que ele ainda não a havia recebido como tal.

O anjo disse em sonhos a São José:
“Não temas receber Maria por esposa”

Como explicar que no primeiro dos versículos citados se diga que Maria estava “desposada com José”? Como podia recebê-La por esposa, se já estava desposado com Ela? A aparente contradição resulta das traduções portuguesas da Bíblia, pois nas traduções em outras línguas os substantivos e verbos indicam claramente que Nossa Senhora estava apenas prometida, e ainda era noiva de São José. Essa afirmação pode causar surpresa em alguns leitores, mas será desfeita conhecendo-se melhor a legislação e as tradições matrimoniais dos judeus. 

No início da história do povo eleito — como fica patente no relato do casamento de Isaac com Rebeca — eram os pais que negociavam o casamento de seus filhos. Depois passaram os próprios filhos a escolher suas futuras esposas, como ocorreu com Sansão. Querendo casar-se com uma filha dos filisteus, ele pediu aos pais para negociarem a boda, pois o candidato deveria oferecer um dote que fosse aceitável pela família da moça. Uma vez obtido o consentimento desta, fazia-se um contrato, que era verbal antes do cativeiro na Babilônia e passou a ser escrito depois, como o que foi redigido conjuntamente por Tobias e o pai de Sara. 

Celebrava-se então com certa solenidade a cerimônia do noivado, durante a qual o noivo dava à noiva (se ela fosse menor, ao pai dela) um anel de ouro ou algum outro objeto de certo valor. A duração do noivado era de um ano, para dar tempo à noiva de se preparar para o casamento e aprontar seu enxoval. Durante esse período os futuros esposos permaneciam em suas respectivas casas, só se comunicando através do “amigo do esposo”, personagem ao qual São João Batista se comparou quando explicou a seus discípulos que não era Cristo, mas um enviado para anunciá-Lo. 

Porém é necessário notar que, ao contrário de nossos dias, o noivado era tão irrevogável quanto o casamento; de tal maneira que, se a noiva se deixasse seduzir por outro homem, era punida de morte por lapidação, tal como acontecia com uma mulher adúltera já casada. E caso seu noivo viesse a morrer antes do casamento, ela deveria ser desposada por um cunhado, não podendo casar-se fora dessa família com um estranho, respeitando o costume do levirato (Deut. 25, 5). Devido ao caráter irrevogável do noivado, não existia na língua hebraica uma palavra específica para designar esse período, sendo assimilado linguisticamente ao casamento. 
Os desponsórios da Virgem
– Sebastián López de Arteaga (1610-1652).
Museu Nacional de Arte, Cidade do México


À vista dessas considerações, compreende-se por que São Lucas, ao escrever que o anjo Gabriel foi enviado a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, “a uma virgem desposada com um varão, chamado José”, não quis dizer que Nossa Senhora estivesse casada, mas apenas comprometida a casar-se com ele. Tanto os verbos desponso e despondeo da Vulgata latina, quanto o verbo μνηστή do original grego e seus derivados, significam prometer em matrimônio, pedir em casamento, pretendente, noivo. Por isso São José e a Virgem Maria não viviam sob o mesmo teto, como refere São Mateus, pois os costumes só autorizavam a coabitação depois das núpcias. Foi após a visita de São Gabriel que “José fez como o anjo do Senhor lhe havia mandado, e recebeu em sua casa sua esposa” (Mt 1, 24). 

Essa explicação dos fatos, que corresponde inteiramente às tradições do povo judeu, não é desmentida por São Lucas quando, ao relatar a subida do santo casal a Belém para o recenseamento (portanto, depois das núpcias), se refere a Nossa Senhora com as palavras ἐμνηστευμένῃ αὐτῶ (original grego), traduzidas por desponsata sibi uxore na Vulgata latina, o que literalmente quer dizer, como vimos acima, “sua noiva”. É possível que o evangelista tome aqui o verbo grego no sentido de “casar-se”, que por vezes tem. Contudo, o mais provável é que tenha desejado expressar-se com uma delicadeza suprema, para dar a entender que, no tocante ao Filho divino que Maria portava em seu seio virginal, Ela era apenas a prometida de São José. De qualquer maneira, São Jerônimo achou por bem acrescentar uxore — ou seja, esposa — para deixar as coisas bem claras. 

Em resumo, e para concluir a resposta ao consulente, podemos dizer que a Santíssima Virgem Maria, na hora bendita da Anunciação, ainda não estava casada com São José. Isso não significa que fosse realmente solteira, pois já estava comprometida com ele mediante um contrato irrevogável, prescrito pela tradição judaica. Portanto, ainda que a expressão “mãe solteira” tenha sido utilizada com boa intenção pela religiosa mencionada na pergunta do consulente, ela é inapropriada e até chocante quando associada à concepção virginal de Maria Santíssima.
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Fonte: Revista Catolicismo, Nº 839, Novembro/2020.

14 de novembro de 2020

A BÊNÇÃO DE ESPADAS

 

O Cardeal Friedrich Gustav Piffl consagra as espadas dos oficiais recém-qualificados do Exército Austro-Húngaro na Academia Militar Franz Joseph em Viena, em 1914.

✅ Plinio Corrêa de Oliveira 

A bênção das espadas lembra ligeiramente as tradições da cavalaria, a vigília de armas, o rito litúrgico com que os cavaleiros eram incorporados à cavalaria da Cristandade. Entretanto, muito mais que simples reminiscência convencional, a cerimônia da bênção das espadas deve ser para os católicos um ensinamento fecundo em conclusões da maior atualidade. 


Por que razão a Igreja abençoa a espada dos militares que, recebendo as dragonas do oficialato, se incorporam à alta direção das forças armadas? Por que timbra Ela em dar às espadas, que são instrumentos de morte, uma bênção que é o penhor da proteção do Deus vivo? Ela o faz porque vê a espada dos militares como o baluarte da justiça. 

A espada do militar não é, para a Igreja, o instrumento com que se mata em guerra de conquista, mas o meio de defesa do direito lesado, da civilização agredida, da moral conspurcada. Se o próprio Salvador não relutou em empunhar o açoite com que flagelou vigorosamente os vendilhões do templo, que conspurcavam os direitos de Deus, a Igreja não poderia deixar de abençoar as espadas com que o Estado arma seus paladinos para a defesa dos direitos da Igreja, da Civilização e da Pátria. 

Em outros termos, significa isto que a Igreja, mesmo dedicando amor maternal em relação a todos os seus filhos, não reluta em abençoar a violência, desde que seja a santa violência da ordem contra a desordem, do bem agredido contra o mal agressor, da vítima prejudicada contra o causador do dano injusto. 


Quando a espada da Justiça se deixa paralisar pela inércia — enquanto a civilização periclita, a Pátria corre risco e os direitos da Igreja são calcados aos pés — por essa omissão ela colabora com o mal contra o bem, com a anarquia contra a civilização, com o demônio contra Deus. Deixando de servir como sublime instrumento de defesa, ela abandona sua função sagrada, perde o direito ao respeito que merecia, e se transforma em inútil fonte de gastos inúteis, ou em odioso meio de opressões. 



Excertos de artigo do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira publicado no “Legionário”, em 23-5-1937.

11 de novembro de 2020

Presidente da Guatemala veta organização abortista no país


✅ Costa Marques 


“Sou um defensor fiel da vida e sou enfático em afirmar que não endossarei em meu governo a criação, registro ou lançamento de qualquer organização que atente contra a vida”, disse o presidente guatemalteco Alejandro Giammattei [foto acima]. 

Conforme matéria do site LifeSiteNews (11-11-20, “O presidente da Guatemala, Alejandro Giammattei, revogou um acordo para permitir que a Planned Parenthood Global abrisse um escritório no país.” 

“Reconheço a vida desde a concepção e por isso não tolerarei em minha gestão nenhum movimento que viole o que está estabelecido em nossa Constituição Política da República, que vá contra os valores com os quais fui criado e que entre em conflito com meus princípios de médico”, escreveu o presidente, que é também médico. 

Esses Valores são aqueles estabelecidos de acordo com a Lei Natural e os Mandamentos da Lei de Deus. O aborto é um pecado gravíssimo. 

O valor e alcance da reação conservadora


“Em 7 de outubro, o Ministério do Interior do país fez um acordo com a Planned Parenthood para operar na Guatemala. Mas quando esse acordo foi tornado público em 2 de novembro, grupos contrários ao aborto fizeram sua oposição claramente ouvida, resultando na rescisão do acordo e na renúncia do Ministro do Interior responsável por sua aprovação inicial.” 

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Essa é a nossa posição: vamos fazer valer os direitos de Deus, da Santa Igreja, da integridade moral de nosso País defendendo a vida desde a concepção até a morte natural. 


O aborto é uma plataforma inerente à Planned Parenthood. Nos EUA a TFP [foto] tem feito protestos pacíficos contra a matança dos inocentes. 

Joe Biden e Kamala Harris são protagonistas do aborto. Ainda recentemente, quando o Senado americano sabatinava a Juíza Barret, Kamala aproveitou-se da ocasião para fazer apologia do aborto. 

Esquerda e aborto são afins aqui, lá e acolá. O aborto é um pecado gravíssimo contra Deus e contra o próximo. 
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Fhttps://www.lifesitenews.com/news/guatemala-blocks-planned-parenthood-from-opening-office-in-the-countryonte:

6 de novembro de 2020

AUTODEMOLIÇÃO DA IGREJA

 


✅ 
Plinio Corrêa de Oliveira


As recentes declarações do Papa Francisco — propondo “uma legislação para a união” de pessoas do mesmo sexo, e afirmando que “os homossexuais têm direito a uma família” — deixaram perplexos inúmeros católicos em todo o mundo. Veem a propósito os comentários de Plinio Corrêa de Oliveira, em 6-9-94,* analisando um artigo do Pe. Jim Galluzzo no “The Wanderer” de 24-3-94.


“V
ê-se a entrada de um esforço metódico dentro da Igreja, como nos demais setores da sociedade, não apenas de tolerância, mas de legitimação da homossexualidade, que acabará dando cumprimento aos desejos do Parlamento Europeu, de que se reconheçam à união de pessoas do mesmo sexo os mesmos efeitos jurídicos do casamento.

“Considerando-se as heresias mais perigosas, mais carregadas de ódio, mais profundamente dissonantes da doutrina católica, não se encontra nada que destoe mais profundamente dela do que essa legitimação da homossexualidade. Ela está entrando, mas veja-se o modo como penetra. Não é um panfleto apresentado por protestantes, mas por sacerdotes católicos. Há no artigo uma referência a um documento de bispos de 1976, já bem antigo, que convida a uma espécie de mistura entre homossexuais e não homossexuais.

“É um trabalho feito de cima para baixo, por autoridades eclesiásticas, no sentido de fazer esquecer a doutrina tradicional e dar à homossexualidade direito de cidadania na Santa Igreja de Deus. Haverá em determinado momento, dentro da Igreja Católica, uma manifestação de completa inconformidade contra esse trabalho de legitimação. E teremos então uma divisão dentro da Igreja, de caráter oficial. 

“Poder-se-ia objetar: ‘Se a grande maioria dos bispos estiver de acordo com isso, não haveria divisão’. Não existe grande maioria para mudar a doutrina católica! É indiscutível, e está claramente nas Escrituras, em todos os documentos do Magistério da Igreja e nos tratados de todos os moralistas, que este é um pecado que brada ao Céu e clama a Deus por vingança. Não pode haver entendimento — ponto final! 

“As fronteiras estão cortadas, as barreiras estão erguidas. Então haverá um choque interno dentro da Igreja, e esse choque interno produzirá uma das maiores convulsões da História”. ____________ 
* Trecho extraído do livro “Plinio Corrêa de Oliveira — Profeta do Reino de Maria”, do Prof. Roberto de Mattei – Artpress, São Paulo, 2015, pp. 359-360.

3 de novembro de 2020

Não há concórdia racial sem rejeição ao igualitarismo marxista


O conflito entre raças pode ser “vacinado” eliminando-se o vírus da doutrina comunista que promove a desarmonia social, o ódio à hierarquia, a repulsa a toda superioridade

✅ Fonte: Revista Catolicismo, Nº 839, Novembro/2020 

Nesta época de pandemias, um “vírus” contagioso foi lançado com o objetivo de contaminar todos os povos, e é disseminado por agentes da Revolução gnóstica e igualitária. Coadjuvadas pela mídia esquerdista e pelo clero da chamada “esquerda católica”, etnias irmãs são incentivadas a se entredilacerarem, numa luta de raças de inspiração marxista. Essa guerra fratricida, sobretudo entre negros, brancos e índios, não é senão pretexto para caotizar e abater os restos do mundo civilizado. 


Nesse sentido a revista Catolicismo já analisou, em sua edição de agosto passado, os violentíssimos protestos nos Estados Unidos, levados a cabo especialmente pelo movimento Black Lives Matter (BLM) e sequazes. Em nome do igualitarismo de origem comunista e do antirracismo, sustentam a luta racial que degenera em divisões, ressentimentos e convulsões sociais. Tais protestos continuam conturbando a grande nação americana, e em algumas outras vão surgindo manifestações semelhantes. Ainda recentemente, em Santiago do Chile, turbas de vândalos rebelados promoveram arruaças e sacrilégios, com furor satânico, quebrando imagens sacras e incendiando belas igrejas históricas da cidade [foto acima]. 

A tal ponto se radicalizaram os brutais tumultos do BLM, que grupos de negros americanos se desvinculam e se distanciam desse movimento. Inspiram-se no distanciamento da Inglaterra em relação à União Europeia, popularizado com o nome Brexit (neologismo formado pela junção de Britain + exit — saída da Grã-Bretanha). Os que abandonam o BLM estão se identificando com o neologismo Blexit (black + exit – equivalente à saída dos negros). 

Abandonando os movimentos negros que açulam a luta de raças, os adeptos do Blexit optam pela concórdia social entre brancos e negros e entre todas as classes sociais. Eis uma forte e eficiente “vacina” — forte rejeição ao igualitarismo comunista, promoção da harmonia social, respeito à hierarquia — movida pelo amor a toda superioridade, e tendo como fonte e modelo a infinita superioridade de Deus. 


A matéria de capa da revista Catolicismo deste mês apresenta um belo exemplo histórico da prática desses valores: o venerável negro católico Pierre Toussaint [foto ao lado], um autêntico e digno filho de Deus. Serve-nos de inspiração a sua vida de trabalho e desprendimento, impregnada pela caridade, despretensão, dignidade e gentileza católica. Sem confrontos entre raças e classes, combatia invejas e inimizades como verdadeiro paradigma de admiração e respeito pelas desigualdades sacrais. 
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Para fazer uma assinatura da revista Catolicismo, envie um e-mail para catolicismo@terra.com.br

2 de novembro de 2020

Algumas frases para meditarmos neste dia de FINADOS


A
Santa Igreja sempre nos recorda da vida eterna após a morte, mas de modo especial no dia de Finados. 

Lembremo-nos de rezar pelo sufrágio das almas que padecem no Purgatório e não nos esqueçamos de visitar as sepulturas de nossos parentes e conhecidos, pedindo que misericordiosamente Deus permita que as almas padecentes sejam levadas para o Céu.

Ocasião também para seguir o conselho da Igreja “Em todas as tuas obras, lembra-te dos teus novíssimos, e jamais pecarás” (Ecl. 7, 40), ou seja, meditar na Morte, no Juízo Final, no Céu e no Inferno. Com esse objetivo, seguem alguns pensamentos. 

*       *       * 

“Uma flor sobre a sepultura, murcha; uma lágrima sobre as recordações, seca; mas uma oração por uma alma, Deus a recebe”. 
(Santo Agostinho) 


“Não existe arrependimento para os Anjos após a queda, assim como não há arrependimento para os homens após a morte”. 
(São João Damasceno) 


“Tudo o que não serve para a eternidade, não é senão vaidade”. 
(São Francisco de Sales) 


“Ó meu Deus! Que vergonha teremos quando o dia do Juízo Final nos fizer ver toda a nossa ingratidão! Compreenderemos então... mas já não será tempo. Nosso Senhor nos perguntará: ‘Por que me ofendestes?’ E não saberemos o que responder”.

(Santo Afonso de Ligório)


“Quereis saber o que é a alma? Olhai um corpo sem ela”. 
(Padre Antonio Vieira) 


“A vida é como uma sala de espetáculos: entra-se, vê-se e sai-se”. 
(Pitágoras) 


“Entramos e gritamos, é a vida; gritamos e saímos, é a morte”. 
(Ausone de Chancel)

25 de outubro de 2020

Amabilidade: virtude quão necessária hoje!

 


✅ 
Plinio Maria Solimeo
 

A amabilidade é uma das virtudes mais encantadoras e das mais necessárias ao bom convívio humano. Ela tempera o que pode haver de brusco no nosso temperamento, e leva-nos a tratar os outros como gostaríamos de ser tratados. 

Fazem parte dessa virtude uma série de outras muito necessárias nos dias de hoje, e que constituem o cortejo liderado pela verdadeira caridade: “a benignidade, que leva a tratar e julgar os outros e as suas atuações com delicadeza; a indulgência em face dos defeitos e erros alheios; a educação e a urbanidade nas palavras e nas maneiras; a simpatia, que por vezes será necessário cultivar com especial esmero; a cordialidade e a gratidão; o elogio oportuno às coisas boas que vem” . Podemos ainda acrescentar a isso a gentileza, cortesia, brandura, carinho, meiguice, ternura e suavidade no trato com as pessoas. 

O famoso apologista americano, arcebispo Dom Fulton Sheen, explica que “a palavra inglesa «kindness» (amabilidade) é derivada de «kindred» ou «kin» (parentes), e portanto implica uma afeição que dedicamos naturalmente àqueles que são a nossa carne e o nosso sangue. A amabilidade original e típica é a de um pai para com o filho ou a de um filho para com o pai. Gradualmente a palavra adquire maior amplitude até atingir todos os que desejamos tratar como parentes” . 

A amabilidade deriva da virtude da misericórdia que, por sua vez, é um dos efeitos da caridade. Como diz o renomado teólogo Pe. Royo Marin, O.P., ela “nos inclina a ter compaixão das misérias do próximo, considerando-as de certo modo como nossas próprias, porque o que lhe causa tristeza, do mesmo modo nos causa a nós [...]. O próprio Deus manifesta misericórdia num grau extremo, ao ter compaixão de nós” . 

Essa virtude também está relacionada com a da piedade, que por sua vez, como diz o mesmo teólogo, é “um amor filial por Deus considerado como Pai, e um sentimento de irmandade universal para com todos os homens como nossos irmãos e filhos do mesmo Pai celeste” (p. 387). E acrescenta: “É essa piedade que levava São Paulo a se afligir com os aflitos, a chorar com os que choram, e suportar as fraquezas e misérias do próximo com o propósito de o salvar” (p. 390). 

O eminente teólogo continua dizendo (p. 402), que a afabilidade ou amabilidade, é “a virtude social por excelência, e uma das mais delicadas manifestações do verdadeiro espírito cristão”. Ela é muito afim com a verdadeira amizade, que é definida como “uma virtude pela qual nossas palavras e ações externas são dirigidas à preservação de uma amigável e agradável associação com nosso próximo [...]. A verdadeira amizade procede do amor, e entre os cristãos, deve ser o resultado natural da caridade fraterna, a afabilidade é uma espécie de amizade que consiste em palavras e ações com relação aos outros, requerendo de nós que nos conduzamos de um modo amigável e maneira social com o próximo, sejam amigos íntimos ou estranhos”. Por isso, acrescenta o Pe. Royo Marin “Benignidade, polidez, simples louvor, indulgência, sincera gratidão, hospitalidade, paciência, mansidão, refinamento em palavras e ações etc., exercem uma espécie de atração que é difícil de resistir.” O que faz com que “Esta preciosa virtude é extremamente importante não somente em nossa associação com amigos, vizinhos ou estranhos, mas de um modo especial mesmo no círculo de nossa própria família, onde ela é frequentemente muito negligenciada”. 

A importância dessas virtudes nas relações sociais, é porque todas pessoas querem, no trato com as outras, três coisas essenciais: afabilidade, respeito, e perdão para suas faltas. E ficam felizes quando são assim tratadas. Pelo contrário, sofrem e se sentem feridas no seu ego quando são objeto de desatenção, mau trato ou recriminação. 

Nesse sentido conta-se que uma das filhas de Luís XV, da França, um dia recriminou impacientemente uma camareira sem muito motivo. Esta lhe manifestou seu desagrado. A princesa então lhe disse: “Não sabe que eu sou filha do Rei?”. Ao que respondeu dignamente a camareira: “E Vossa Majestade não sabe que eu sou filha de Deus?” Quer dizer, se cada um visse no outro um filho de Deus, o trataria de modo muito diferente. Desse modo a amabilidade, tendo Deus como principal motor, é o contrário da dureza de coração, que resulta geralmente de um doentio amor de si mesmo. 

Alguns países, como a França do Ancien Régime, levaram a amabilidade e a cortesia a um alto grau. Foi então que ocorreu a “douceur de vivre”, a doçura de viver, pois cada um se sentia tratado segundo o melhor lado de si mesmos. É muito conhecido o fato de o rei Luiz XIV, o Rei Sol, em todo o seu esplendor, tirar o chapéu quando cumprimentava uma simples lavadeira. 

Pelo que “São Francisco de Sales nos ensina que a primeira condição [para termos um trato cortês] é sermos humildes, pois ‘a humildade não é somente caritativa, mas também doce. A caridade é a humildade que se projeta externamente, e a humildade é a caridade escondida’; ambas as virtudes estão estreitamente unidas. Se lutarmos por ser humildes, saberemos ‘venerar a imagem de Deus que há em cada homem’, saberemos tratá-los com profundo respeito” . 

É também o que afirma o já citado D. Fulton Sheen, “Todas as anomalias mentais têm suas raízes no egoísmo, toda a felicidade tem suas raízes na amabilidade. Mas para sermos realmente amáveis, devemos ver em todos uma alma imortal, que há de ser amada pelo amor de Deus. Então, não haverá quem não seja para nós de grande apreço”. 

Na mesma linha, diz a Águia de Hipona, Santo Agostinho, com o vôo que lhe é característico: “Os frutos da caridade são alegria, paz e misericórdia. A caridade exige bondade e correção fraterna. É benevolente. Promove a reciprocidade e permanece desinteressada e generosa. É amizade e comunhão. O amor é em si a realização de todas as nossas obras. Essa é a meta; é para ela que corremos. Corremos em sua direção, e assim que nela chegarmos, nela encontraremos nosso descanso”.

Infelizmente está cada vez mais longe o tempo em que as pessoas primavam por serem corteses, amáveis, respeitosas dos outros pois, com o avanço da técnica, e sobretudo com a malícia dos tempos decorrente da profunda orfandade religiosa, essa virtude está cada vez mais posta de lado. As pessoas estão ficando cada vez mais pragmáticas, egoístas, pensando só em si mesmas e no seu mundinho, entretidas com seus celulares. Para elas, as outras não existem. 

Por isso é sobretudo difícil ser amável com aqueles que nos pedem um favor, uma esmola. Ora, diz ainda D. Fulton Sheen, “A amabilidade para com os que sofrem torna-se compaixão, que significa sofrer com outrem, partilhar a mágoa e as dores de outrem, como se fossem nossas”. Isso porque, explica ele, “A amabilidade estimula o interesse do coração para além de todo o interesse pessoal, e impele-nos a dar o que temos na forma de esmola, ou o nosso talento, como o médico que trata um doente pobre, ou o nosso tempo, que às vezes é a coisa mais difícil de dar”. Como consequência, “O homem verdadeiramente compassivo e amável, que dá o seu tempo aos outros, consegue encontrar sempre tempo”. 

Ele observa que “muitas pessoas, amabilíssimas nos seus lares e escritórios, podem se tornar grosseiras e egoístas ao volante de um automóvel. Isto é talvez devido a que nos seus lares elas são conhecidas; no automóvel, à sombra do anonimato, podem ser quase brutais sem receio de serem reconhecidas”. E conclui: “Sermos amáveis pelo receio de que os outros pensem que somos grosseiros, não é amabilidade real, mas antes uma forma dissimulada de egoísmo”.

O diz-que-diz, o deboche, a chanchada, a brincadeira porca, a libertinagem são fonte frequente de desavenças e de maus tratos, estando nas antípodas da amabilidade e do respeito no trato social. Infelizmente, como dissemos, com a decadência da prática religiosa e consequente queda dos bons costumes, isso está cada vez mais em voga no mundo de hoje. 

Mudando de quadro: felizmente ainda não se apagaram de todo os resquícios de amabilidade pelo mundo, e quando menos esperamos, disso temos exemplos frisantes. 

Nesse sentido, um amigo meu contou-me um exemplo marcante disso, e do qual jamais se esquecerá, do trato surpreendentemente amável de que foi objeto em circunstâncias quase dramáticas quando viajava pelo Exterior. 

Vindo dos Estados Unidos para o Brasil com uma conexão em Toronto, no Canadá, como havia grande diferença entre a chegada do primeiro e a partida do segundo vôo, ele deixou as malas no aeroporto, tomou um trem, e foi conhecer a cidade para ocupar aquele tempo. À tarde, depois de muito andar num frio congelante, caminhava por uma grande avenida quando, tropeçando nos seus próprios pés, caiu com todo o peso do corpo com a face no chão. Não pôde amortecer a queda com as mãos, pois as tinha no bolso da gabardine por causa do frio. A queda foi tão violenta, que fraturou-lhe o nariz, cortou-lhe os lábios, e quebrou-lhe dois dentes. O sangue corria em profusão do nariz. 

Ele ficou tão atordoado com a queda, que perdeu momentaneamente a memória e não conseguia mover-se. Foi aí que acorreu um casal de jovens em seu auxílio. Com muito cuidado, o ajudaram a sentar-se e a enxugar o sangue do rosto. Isso tudo com muita amabilidade e consideração à sua idade, pois era octogenário. Quando viram que ele estava um pouco refeito, perguntaram-lhe onde morava, se tinha algum parente ou amigo que pudessem avisar, em que hotel estava. Depois de um momento de amnésia, tendo recobrado a memória, meu amigo pôde explicar que estava somente de passagem etc. Como seu lenço já estava todo encharcado de sangue, a jovem correu a um restaurante próximo, e trouxe-lhe um punhado de guardanapos de papel. 

Nesse momento acorreu outro jovem que, vendo que o amigo tiritava de frio, foi a uma loja e comprou um par de luvas, ajudou-o a calçá-las, e perguntou se havia mais algo que pudesse fazer. Então os dois rapazes conseguiram ampará-lo para sentar-se em um banco de pedra das proximidades. 

Mas não parou aí. O primeiro jovem já tinha telefonado para um serviço de saúde, e logo apareceu uma ambulância com um casalzinho de para-médicos, muito simpáticos. Profissionalmente eles examinaram as feridas para ver se ele tinha recebido algum golpe na cabeça, mediram-lhe a pressão e a temperatura, controlaram as batidas do coração, tudo feito com muita amabilidade e consideração à sua idade. Para se certificarem de que ele tinha tido mesmo uma queda acidental, e não devido a um mal súbito e não estava com memória afetada, começaram a lhe fazer perguntas sobre o Brasil, família, São Paulo etc. Enfim, deixaram-no no hospital, onde lhe fizeram suturas no nariz e nos lábios, e lhe deram alta. Ele pôde assim voltar no mesmo dia para o Brasil. 

Esse amigo ficou muito grato e até comovido com a amabilidade e atenção desses vários jovens, tanto mais por serem eles já de uma geração técnica, informatizada, pragmática, órfã de religião, e que provavelmente não receberam em casa lições de boas maneiras ou de bom trato. 

Meu amigo afirmou que, estando em um país estrangeiro, numa cidade em que não conhecia ninguém, tendo um grave acidente, apesar disso não se sentiu desamparado, pois encontrou pessoas que se interessaram por ele, e o trataram com uma caridade cristã e com a consideração que teriam com um parente.
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[1] https://semeandocatequese.wordpress.com/2014/01/23/virtude-da-amabilidade/

[1] https://rumoasantidade.com.br/rumo-felicidade/contentamento/)

[1] Pe. Antônio Royo Marín, O.P., The Theology of Christian Perfection, The Foundation for a Christian Civilization, New York, 1987, p. 356.

[1] Semeando...


24 de outubro de 2020

Mau uso de dispositivos móveis gera crianças zumbis

 


✅ Luis Dufaur

Um oftalmologista argentino recebeu um casal de pacientes que compareceu com sua filhinha para consultas. Assim que chegaram a menina de três anos deitou-se no sofá e começou a brincar com o smartphone numa distância de apenas 10 centímetros dos olhos durante quase uma hora. 

O oftalmologista percebeu que o caso não era apenas de óculos, mas que a criança estava se transformando num zumbi digital com vários de problemas de saúde e comportamento, segundo descreveu em seu site Cuida tu vista. (https://cuidatuvista.com/ninos-moviles-tablets-problemas-usar-mal/). 

Para os pais o smartphone parecia uma solução porque a criança não dava trabalho e eles podiam se dedicar a outras coisas. O oftalmologista comentou para si: eles não percebem o imenso dano que estão provocando. 

Na consulta, explicou cuidadosamente aos pais da importância de fazer a menina a passar o menor tempo possível com os dispositivos digitais. É o que recomendam os profissionais sanitários de referência no caso das crianças, como pediatras, optometristas etc. 

Os pais devem se informar dos graves problemas que provocam nas crianças o mau uso das novas tecnologias, que podem produzir zumbis digitais. A expressão é dura, mas é da Associação Americana de Pediatria e outras academias correspondentes como a canadense e a japonesa. Veja mais em Digital Zombie: https://en.wikipedia.org/wiki/Digital_Zombie 

Os períodos de uso de dispositivos móveis segundo as idades de acordo com a Associação Americana de Pediatria são: 
• Bebês e crianças de 0 a 2 anos: “0” minutos por dia. Seu cérebro não está preparado para esse tipo de estímulos que podem lhes causar muitos problemas no futuro. 

• Entre 3 a 5 anos: 1 hora/dia, no máximo. 

• Entre 6 a 18 anos: 2 horas-dia, no máximo. 


Os 8 principais problemas que causa o mau uso de celulares e tablets nas crianças 

1. Desenvolvimento cerebral inadequado e transtornos mentais 

Inclui alterações no crescimento do cérebro, problemas de aprendizagem, falta ou déficit de atenção, impulsividade e acessos de raiva frequentes. Também o aparecimento de doenças mentais como depressão, ansiedade infantil, psicose e outros transtornos. 

2. Atraso no desenvolvimento infantil 

Inclui dificuldades para adquirir boas habilidades físicas, que influenciarão muito o desempenho escolar, esportes etc. Surgem muitos problemas para ler porque têm dificuldade para mover os olhos corretamente. 

3. Aumento no número de crianças míopes 

4. Obesidade infantil 

A obesidade e o sedentarismo são agravados pelos pais que permitem uma alimentação com muitos doces e bolos industriais. 

5. Distúrbios do sono 

6. Agressão 

As crianças imitam tudo, mesmo os jogos violentos aos quais ficam expostas. 

7. Comportamentos viciantes, como se isolarem da família e dos amigos. 

8. Superexposição à luz azul gerada pelas telas de LED. 


A Organização Mundial de Saúde classifica os celulares como um risco à saúde devido à emissão de radiação. A superexposição à luz azul emitida por essas telas pode ter um efeito tóxico na retina. AOMS publicou em 2019 novas diretrizes para crianças menores de 5 anos, elaboradas por um comitê de especialistas. Cfr. “El Universo”. 

(https://www.eluniverso.com/noticias/2020/03/27/nota/7797483/enfermedades-ninos-exceso-uso-celulares). 

Entre essas diretrizes, recomenda que “os períodos prolongados em que as crianças pequenas permanecem sujeitas ou em atividades sedentárias em frente a uma tela devem ser substituídos por jogos mais ativos". 

Além desses danos, os especialistas registraram transtornos do sono; hiperestimulação sensorial que afeta o sistema neurológico; cãibras nos braços e nas mãos derivadas de Lesões por Esforços Repetitivos (LER) ou Lesões por Movimentos Repetitivos (LMR). 
“As mãos são as mais afetadas, seguidas dos punhos, cotovelos e ombros. As lesões, principalmente, são geradas nos tendões, o que causa inflamação dos mesmos e influencia a sensibilidade”, disse Carlos Lupotti, médico ortopedista especialista em cirurgia da mão e reconstrutiva do membro superior e integrante da Clínica de Diagnóstico e Tratamento da Patologia do Ombro, Cotovelo e Mão de Buenos Aires (CLIMBA). 

Outro efeito danoso é isolar as crianças de seu entorno social dificultando o relacionamento com outras crianças ou a adaptação a ambientes diferentes. Acrescenta que a exposição às telas LED em uma idade precoce pode causar problemas como miopia ou astigmatismo. Ademais, o uso prolongado de celulares podem causar tumores cerebrais. 

A American Cancer Society (ACS) manifesta em seu site a preocupação de que “os telefones celulares podem aumentar o risco de desenvolver tumores no cérebro ou na região da cabeça e pescoço”. 

Em sentido positivo saudável incentive seus filhos a atividades ao ar livre. Evite televisão, celular ou tablet nas refeições. 

A psicóloga Silvia Álava no livro “Queremos que eles cresçam felizes” recomenda não permitir dispositivos eletrônicos (celulares, tablets, computador ou vídeo game) no quarto. As crianças devem sempre utilizá-los em espaços comuns, para que os pais possam ter um mínimo de controle, evitar horários inadequados e impedir que os pequenos utilizem tais aparelhos mais tempo do que o necessário. 

O problema está muito mais nos pais do que nos filhos. Aprenda a dizer não para eles e verão como tudo funcionará melhor. Não importa se os pais têm estudos ou não, basta aplicar essas orientações. 

Se ainda não vê claramente o problema, peça ajuda de um psicólogo — conclui site Cuida tu vista. https://cuidatuvista.com/ninos-moviles-tablets-problemas-usar-mal/.

22 de outubro de 2020

O MAL NÃO PREVALECERÁ

✅ Pe. David Francisquini*


E
nquanto o Supremo Tribunal Federal revoga a prisão de uma enfermeira acusada de realizar centenas de abortos clandestinos, condena o Pe. Luiz Carlos Lodi da Cruz [foto] que impediu, via judicial, um só aborto. 

A enfermeira encontra-se livre por força de liminar concedida pelo relator do caso no STF, Marco Aurélio Melo, por ter um filho portador de transtorno de espectro autista, dependente de seus cuidados. Para o ministro, a prisão que já durava nove meses excedeu o prazo razoável, pois foi presa em flagrante no ano passado, num hotel, em Belo Horizonte, quando se preparava para praticar ali mais um aborto clandestino. 

Em sua sentença, o ministro Barroso afirmou que a criminalização do aborto viola os direitos fundamentais das mulheres pobres, já que elas não podem ter acesso às clínicas de luxo... Por sua vez, a ministra Rosa Weber alegou que sendo a sociedade machista, não valoriza e nem reconhece os direitos reprodutivos da mulher... Alexandre de Moraes sentenciou que a soltura da enfermeira para cuidar de um filho menor ressalta que o distanciamento dos fatos a impedirá de atitudes criminosas. (Jornal online: Conexão política, Publicado por Marcos Rocha. Acesso em 17-10-20). 

Já o referido caso do Padre Lodi, por ter impedido a realização de um aborto, foi condenado a pagar uma indenização de quase R$ 400 mil por ‘danos morais’ causados aos pais que desejariam abortar o filho. Antes, no Supremo Tribunal de Justiça, a ministra Nancy Andrighi, que se declara católica, na sua sentença afirma que o sacerdote teria abusado de seus direitos ao pedir liminar para que a realização do aborto não fosse levada a cabo. 

Enquanto nos é negada a liberdade de ir e vir a propósito da epidemia, de trabalhar, de frequentar a igreja, de impedir que cada qual procure resolver o seu problema de saúde, a magistrada — para condenar o padre — discorre sobre a liberdade que a pessoa tem para proceder um aborto a fim de evitar traumas. 


Tal ‘liberdade’, aliás muito particular de se fazer aborto, vem sendo imposta pela agenda esquerdista de todos os naipes ao fornecer os instrumentos legais para o judiciário, sob pretextos diversos, como no caso em pauta, de evitar traumas para a mãe. Contudo, um ponto importante é omitido nessa trama, pois o aborto pode ocasionar traumas ainda maiores como desequilíbrios psíquicos, loucuras, depressões, podendo chegar até mesmo ao suicídio pelo problema de consciência causado, pois está inscrito no coração da mãe a proibição de matar o próprio filho. 

O carinho e o afeto maternos são proibidos de ter a sua livre expansão no coração de uma jovem mãe que pede proteção, evitando usar de crueldade. Abusar dessa liberdade é um ato cruel. A Ministra sentenciou que o padre "buscou ao menos por via estatal a imposição de seus conceitos e valores a terceiros, retirando deles a mesma liberdade de ação que vigorosamente defende para si”

Afirmou ainda que o sacerdote violou a liberdade do casal para fazer prevalecer a sua "posição particular", tendo pois agredido a honra da família ao denominar a atitude tomada por eles de "assassinato", além de ter agido de forma temerária ao impor a eles "sentimento inócuo". A criança a ser abortada, segundo os médicos, não teria condições de sobreviver após o nascimento. O que de fato sucedeu. 

Salta aos olhos que a nossa legislação não está sendo feita para favorecer a vida, mas para implantar a cultura da morte. A propósito, levanto algumas questões. Qual a relação entre a interrupção do curso normal de uma criança que virá à luz do mundo com o poder das trevas e o obscurantismo? Já estaríamos na época das trevas? Haveria ainda uma relação entre aborto e drogas, homicídios, amor livre, libertinagem, eutanásia, liberdade dos traficantes? 

Esta sentença que caiu sobre o Padre Luiz Lodi é um fato inédito no Brasil, por isso não deixa de ser para os defensores do aborto uma ocasião a ser comemorada. Do ponto de vista judicial, tal medida tem um papel preponderante de inibir a voz da Igreja em questões morais e religiosas, pois ninguém se atreverá a impedir o avanço da agenda pró-aborto, mesmo via judicial, como fez esse zeloso sacerdote. 

Pelo que eu saiba, nunca ocorrera na América Latina repercussão tão grave no edifício multissecular do Mandamento da Lei de Deus, ancorado na lei natural, que proíbe matar, principalmente em se tratando de um inocente e indefeso no ventre materno. 

Talvez nem todo leitor saiba da existência de entidades que ajudam mulheres entrarem na justiça para receber danos morais reais ou pretensos. Uma delas é o "Fundo Vivas", que presta auxílio financeiro, por meio de doações a essas mulheres e que tem também como objetivo arrecadar dinheiro para auxiliá-las em situações similares. 


Seus dirigentes partem do princípio de que não se pode defender o nascituro, mas sim os que livremente procederam a geração de uma criança, isso acima de qualquer princípio moral e ético. Os responsáveis pelo filho em gestação têm o direito de matá-lo, pois um nascimento indesejado iria atrapalhar suas vidas despreocupadas e indiferentes a Deus. Imaginam eles que a liberdade consiste apenas em gozar a vida e ser feliz. 

Para eles, o papel do Estado moderno é fazer leis pelas quais cada indivíduo possa afirmar que ‘na minha vida quem manda sou eu’, e ai de quem discordar, poderá de ser punido! A isso eu dou o nome de ditadura do hedonismo, pois a liberdade é para se fazer o bem, e não o que cada um quiser. Há advogados que afirmam que a interrupção da gravidez é um direito da gestante e opção do casal, do qual se pode fazer uso, sem persecução penal posterior e até mesmo sem a interferência de terceiros. 

Fatos como esse, poderão abrir precedentes para qualquer pessoa que queira se utilizar de meios legais para o planejamento e a execução do crime de assassinato da vida intrauterina, pois terão a garantia da impunidade. Isso representa de fato um enorme rompimento na história do cumprimento às Leis de Deus, pois é o homem querendo se sobrepor a Deus! 

Com certeza atrairá sobre si e sobre nossa nação terríveis castigos. Vozes como a do Padre Luiz Lodi precisam ser ouvidas e apoiadas. Não é permitido que o mal e o erro triunfem sobre a verdade e a virtude! Aqui poderemos parafrasear David dizendo a Saul que não quis estender a sua mão contra ele, pois queria conservar a sua mão sem mancha, sem nenhuma iniquidade, para não pecar contra o ungido do Senhor, mesmo quando Saul o procurava para matar. 

Os abortistas não sossegam, não dão tréguas contra a vida do inocente: dos ímpios sairá a impiedade; as mãos dos abortistas estão carregadas de sangue contra as crianças inocentes, clamando a Deus por vingança. 

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*Sacerdote da Igreja do Imaculado Coração de Maria – Cardoso Moreira (RJ).

6 de outubro de 2020

SANTO ROSÁRIO — Poderosa arma contra o demônio e seus sequazes




Neste dia 7 de outubro celebramos a festa do Santo Rosário. Essa festividade foi instituída pelo grande Papa São Pio V em ação de graças pela vitória alcançada na batalha de Lepanto (1571) contra o poder maometano, prestes a invadir a Europa. 











“O Santo Rosário é a homenagem mais agradável à Mãe de Deus” 

(Santo Afonso de Ligório) 


“Nunca será considerado um bom cristão, quem não reza o Santo Rosário” 

(Santo Antônio Maria Claret) 


“Rezar meu Rosário é minha doce ocupação e uma verdadeira alegria, porque sei que enquanto o rezo estou falando com a mais amável e generosa das mães” 

(São Francisco de Sales) 


“A devoção do Santo Rosário cotidiano defronta-se com tantos e tais inimigos, que julgo uma das mais assinaladas mercês de Deus perseverar na mesma até a morte” 

(São Luís Grignion de Montfort) 


“Amar a Senhora e rezar o Rosário, porque o Rosário é a arma contra os males do mundo” 

(São Pio de Pietrelcina) 


“O Santo Rosário contém todo o mérito da oração vocal e toda a virtude da oração mental” 

(Santa Rosa de Lima) 

“Dai-me um exército que reze o Rosário, e eu vencerei o mundo” 

(Papa São Pio X) 


“O Rosário flagela o diabo” 

(Papa Adriano VI)

26 de setembro de 2020

Notícia muito alentadora para todas as famílias

 


✅ 
 Paulo Roberto Campos 

Neste sábado (26 de setembro) o Presidente Donald Trump indicou a juíza Amy Coney Barrett [foto]  para a mais alta Corte dos Estados Unidos. 

“Hoje tenho a honra de nomear para a Corte Suprema uma das mentes jurídicas mais brilhantes e talentosas de nossa nação. Ela é uma mulher de realização incomparável, intelecto imponente, ótimas credenciais e lealdade inflexível à Constituição”, disse o presidente americano durante a cerimônia realizada nos jardins da Casa Branca. 

Agora apenas resta a aprovação do Senado norte-americano, o que facilmente deve ocorrer, pois conta com maioria republicana (53 senadores republicanos X 47 democratas). 


Amy Coney Barrett, 48 anos, nascida em New Orleans, é católica, mãe de sete filhos [foto], Emma, Vivian, Tess, John Peter, Liam, Juliet e Benjamin (dois deles são adotados) — será na história do país a primeira mãe de crianças em idade escolar a atuar na Corte Suprema dos EUA. Ela graduou-se pela Rhodes College e, em primeiro lugar da classe, pela Faculdade de Direito da Universidade de Notre-Dame (Indiana), onde lecionou por 15 anos. 

Um renomado e muito respeitado professor de direito em Notre-Dame escreveu: “Amy Coney é a melhor aluna que já tive”. Atualmente é Juíza da Corte de Apelações Federal de Chicago. Ela substituirá Ruth Bader Ginsburg, falecida recentemente aos 87 anos, que era de tendência esquerdista. 


Graças a Deus, com esta escolha de hoje, a Suprema Corte americana se tornará mais conservadora (6 conservadores X 3 esquerdistas), o que poderá auxiliar muito na defesa dos valores da instituição familiar, como a proibição do comércio de drogas, do aborto, da eutanásia, do “casamento” homossexual e do absurdo ensino nas escolas da "teoria de gênero" às crianças.

Claro, e não nos causa nenhuma surpresa, a mídia esquerdista (e intolerante) está bufando de ódio, denominando a juíza como ultraconservadora etc. Não nos surpreende também que líderes feministas — que deveriam comemorar a eleição de uma mulher para a mais alta Corte da nação mais poderosa do mundo —, estejam igualmente encolerizadas. Por quê? — Certamente pela mesma razão pela qual as mulheres autenticamente femininas e mães de família estão comemorando...

24 de setembro de 2020

Trump anuncia ordem executiva para proteger bebês sobreviventes do aborto

 


  Fonte: ACI, 3-9-2020 *
 

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou nesta quarta-feira uma ordem executiva para que seja obrigatório o atendimento médico aos bebês sobreviventes do aborto. 

“Hoje, anuncio que assinarei a ordem executiva ‘Born-Alive’ (Nascido Vivo) para garantir que todos os preciosos bebês nascidos vivos, independentemente de suas circunstâncias, recebam os cuidados médicos que merecem. Este é o nosso sacrossanto dever moral”, disse Trump em um vídeo que foi transmitido em 23 de setembro durante o Café da manhã Nacional de Oração Católica, realizado de forma virtual. 

O projeto de lei para a "proteção dos bebês nascidos vivos" já foi apresentado diversas vezes no Congresso, mas não chegou a se converter em lei. Estagnou na Câmara dos Representantes entre 2019 e 2020 devido ao número insuficiente de membros que assinaram uma “discharge petition”, uma petição que teria levado a uma votação sobre o assunto. 

O projeto não criaria novos limites ou restrições ao acesso ao aborto, mas possibilitaria que bebês nascidos vivos após tentativa de aborto recebessem atendimento médico adequado, semelhante ao de uma criança nascida com a mesma idade gestacional, em uma circunstância diferente. Vários estados aprovaram sua própria versão do projeto de lei. 

O texto completo da ordem executiva ainda não foi publicado, mas deve refletir a mesma intenção da legislação federal sobre o assunto. 


Trump também anunciou que seu governo estaria "aumentando o financiamento federal para pesquisas neonatais, para garantir que cada criança tenha a melhor chance de prosperar e crescer". Setembro é o Mês da Conscientização sobre a Unidade de Terapia Intensiva Neonatal.

O Café da Manhã Nacional de Oração Católica foi remarcado devido à pandemia do coronavírus, uma vez que deveria ocorrer no final de março. 

Esta é a primeira vez que Trump participa do evento; no entanto, funcionários de sua administração, incluindo o vice-presidente Mike Pence e o ex-chefe de gabinete interino da Casa Branca, Mick Mulvaney, participaram do café da manhã nos últimos anos. 

Leonard Leo, copresidente da Sociedade Federalista e presidente do comitê do Café da Manhã Nacional de Oração Católica, apresentou o presidente Trump. Leo elogiou os esforços do governo para proteger as escolas confessionais e a liberdade religiosa. 

Leo também elogiou o compromisso de Trump com a defesa da vida. O presidente assumiu uma postura ativa contra o aborto, tornando-se o primeiro presidente em funções a discursar na Marcha pela Vida e a anunciar planos para expandir a política da Cidade do México, que proíbe o fornecimento de ajuda externa federal para organizações que promovem ou realizam abortos. 
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 * Publicado originalmente em “ACI Prensa”. Traduzido e adaptado por Nathália Queiroz.

23 de setembro de 2020

Quem combate de modo “politicamente correto” não conquista a vitória


Plinio Maria Solimeo 

Hoje em dia tal é a pressão dos meios de comunicação social sobre as pessoas em geral que, independentemente de seu nível social e representativo, ao se manifestarem, para serem “politicamente corretas”, elas silenciam sobre as opiniões que deveriam por dever de ofício expressar com clareza. 

É o que ocorre inclusive com eclesiásticos de alto escalão quando falam de problemas morais. Em vez de justificá-los com base na religião que professam, por uma espécie de incompreensível respeito humano, para não ferir os ateus ou agnósticos ou destoar da opinião geral, silenciam o aspecto religioso do que dizem. Exemplifiquemos com dois casos recentes. 

Está em tramitação no Congresso espanhol, propulsionado pelos esquerdistas radicais apoiados pela esquerda em geral, uma nova lei para aprovar a eutanásia, o suicídio assistido etc. 

A propósito desse polêmico assunto, a Comissão Executiva da Conferência dos Bispos Espanhóis publicou no dia 14 uma “reflexão”. 

Os prelados recordam que essa lei “é uma má notícia, pois a vida humana não é um bem à disposição de ninguém”. Por isso, “insistir no ‘direito à eutanásia’ é próprio de uma visão individualista e reducionista do ser humano, e de uma liberdade desvinculada da responsabilidade. Afirma-se uma radical autonomia individual e, ao mesmo tempo, se reclama uma intervenção ‘compassiva’ da sociedade, através da medicina, originando-se uma incoerência antropológica”. Ora, dizem os bispos, “o próprio da medicina é curar, mas também cuidar, aliviar e consolar, sobretudo no final da vida. A medicina paliativa se propõe a humanizar o processo da morte, e acompanhar o doente até o final. Não há enfermos ‘não cuidáveis’ mesmo que sejam incuráveis”

Acrescentam os bispos: “O suicídio crescente entre nós também reclama uma reflexão e práticas sociais e sanitárias de prevenção e cuidado oportuno. A legalização de formas de suicídio assistido não ajudará na hora de insistir quem está tentado de suicídio que a morte não é a saída adequada. A lei, que tem uma função de proposta geral de critérios éticos, não pode propor a morte como solução do problema.” 

A Conferência Episcopal Espanhola considera ademais que “uma sociedade não pode pensar na eliminação total do sofrimento e, quando não o consegue, propor sair do cenário da vida; deve, pelo contrário, acompanhar, paliar e ajudar a viver esse sofrimento”.

Os bispos concluem: “O sim à dignidade da pessoa, sobretudo nos momentos em que é mais indefesa e frágil, nos obriga a nos opor a essa lei que, em nome de uma dita morte digna, nega em sua raiz a dignidade de toda vida humana.” 

Essa “reflexão” — que poderia ter sido escrita por qualquer movimento civil de defesa da vida sem orientação religiosa ou filantrópica específica — é muito censurável numa Conferência Episcopal que deveria se expressar de modo católico. Ela omite o principal aspecto do problema, que é o religioso, pois a eutanásia viola o V Mandamento de Lei de Deus: NÃO MATAR. 

Essa mesma crítica se pode fazer à “Carta Aberta” do Cardeal Cañizares, de Valência, entretanto forte e contundente em muitos aspectos, se comparado com seus pares que nada fizeram. 

O purpurado diz que a aprovação da lei da eutanásia foi uma derrota “histórica, humilhante [...] da Espanha inteira, da sociedade espanhola, das pessoas que habitamos aqui, derrota também da humanidade, do próprio homem, pela aprovação da lei da eutanásia em trâmite, suicídio assistido, e pelo rechaço de outras propostas sobre cuidados paliativos que melhoravam a atual legislação”

Numa linguagem forte, o Cardeal Cañizares diz: “Sr. Presidente do Governo, membros do Governo, ministros, parlamentares que aprovaram tamanha injustiça, aliás monstruosa, estão os Srs. loucos, perderam a cabeça, ou sua moral é não tê-la? Deem-se conta de que os Srs., como Governo ou como Parlamentares, existem para defender, proteger, tutelar o bem comum baseado em direito e deveres fundamentais da sociedade à que representam — o primeiro é a vida —, e acontece que se converteram em inimigos que se opõem à sociedade, dispostos a derrotar essa sociedade que representam e devem proteger, ao propugnar semelhante proposta de Lei, que difunde e aumenta uma cultura de morte, sobretudo em meio à Pandemia do Covid-19. Que credibilidade podem manter diante de dita Pandemia? Com que autoridade moral podem dirigir-se a esse povo e pedir-nos o que nos pedem? Não se veem como um sinal de contradição?”

Depois de dizer que sua atitude não representa uma intromissão na política, mas que sua responsabilidade como bispo e como cidadão não lhe permite calar, ele conclui dizendo: “E assim devo denunciar ante a opinião pública esse comportamento, como também o dos meios de comunicação que tanta importância deram ao ‘assunto dos prefeitos’, e sem embargo tão pouco relevo ao assunto da eutanásia, que constitui não uma derrota histórica de um Governo, mas uma derrota de todo um Estado.” 

Concluímos repetindo ser lastimável ver um Cardeal e bispos da Santa Igreja, que enfrentaram os Poderes constituídos, o fazerem não como ministros de Deus e guardiães de sua santa doutrina que são, mas como uma autoridade civil qualquer. 

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- https://www.religionenlibertad.com/espana/545654904/obispos-espanoles-eutanasia-enfermos-incuidables-incurables.html XXXXXXXXXXXXX 

- https://www.religionenlibertad.com/espana/978146941/Estan-locos-han-perdido-la-cabeza-o-su-moral-es-no-tenerla-dura-carta-de-Canizares-al-Gobierno.html?utm_source=boletin&utm_medium=mail&utm_campaign=boletin&origin=newsletter&id=31&tipo=3&identificador=978146941&id_boletin=923471013&cod_suscriptor=452495753

22 de setembro de 2020

O estupro e o exemplo de uma boa mãe


✅Fonte: “Gazeta do Povo”, 17-9-20


Em 1991, a mãe de Paula K. Peyton foi estuprada, engravidou e optou pela filha. Paula K. Peyton [fotos] nasceu em Memphis, no Tennessee, e ali também foi vítima de estupro, em 2017. Decidida a levar adiante a gravidez, apesar da pressão para que abortasse, hoje é mãe de Caleb, um garoto que completa três anos no dia 4 de outubro. 

Ativista pró-vida, Paula criou uma fundação para prestar suporte para outras mulheres que se veem na mesma situação - e também como crianças nascidas a partir de agressões sexuais. 

Paula, que tem 28 anos e continua morando em Memphis, concedeu entrevista à "Gazeta do Povo" , por escrito. As respostas foram organizadas na forma de um relato, em que ela não é só seu drama pessoal, como também apresenta suas motivações para defender que os filhos que nascem nessa situação podem ajudar suas mães a superar o trauma. Esta é sua história: 

"O que é um aborto?" 


“Minha mãe biológica foi estuprada em 1991, aqui em Memphis. Ela tinha 32 anos, quase 33. Até onde eu sei, ela não formaliza a polícia. Quando eu tinha cinco anos, minha mãe discutiu com a mãe dela, minha avó. Algumas coisas foram ditas na ocasião, e então minha mãe foi embora de casa. Perguntei a minha avó sobre alguns dos comentários que ouvi durante a briga. 

Ela me respondeu que minha mãe não sabia quem era meu pai, porque ela tinha sido estuprada. Disse também que eu teria sido abortada se minha mãe soubesse fazer as coisas direito. 

Eu não entendia nem um dos dois conceitos, nem estupro, nem aborto, então continuei fazendo perguntas. Descobri então que aborto é quando um bebê é morto antes de nascer. 

Não lembro dos comentários específicos dela sobre estupro, mas lembro de perceber que era algo realmente ruim. Entendi nesse dia também que é por eu ser concebida em um estupro que as pessoas me tratavam diferentes. 

Fiquei envergonhada e chorei muito naquele dia. Esses conceitos, de aborto e estupro, foram levados de forma tão negativa que derrubaram minha autoestima. 

Estudei em escolas públicas e sou agradecida por essa oportunidade. Tive professores maravilhosos, que preencheram uma série de vácuos na minha vida, já que minha infância não foi a ideal, fui muito negligenciada. 

Mas Deus sempre providenciou tudo o que eu precisava e me evoluía a atravessar pelos períodos mais difíceis, com frequência graças a meus professores"

O estupro 

“Fui estuprada em janeiro de 2017. Estava conhecendo um rapaz, que me convidou para assistir televisão. Fui a seu apartamento, e depois de algum tempo ele começou a tocar em mim de uma maneira que me deixou desconfortável. 

Quando me levantei para ir embora, o colega de quarto apareceu de outro cômodo com uma arma nas mãos, e os dois me estupraram diante da mira da arma. Eu fiquei com hematomas e mais tarde desenvolvi uma infecção feia, que poderia causar aborto espontâneo. Sangrei muito na primeira metade da minha gravidez por causa dessa infecção. 

Quando descobri que estava grávida, sorri pela primeira vez desde o estupro. Estava vivendo em luto e perguntando por que Deus poupou minha vida. Descobrir que estava grávida do meu filho deu-me razão para continuar vivendo. 

Eu sabia que Deus me tinha dado uma dor que eu conseguiria conectar, e tinha dado por uma razão. Nunca houve nenhuma dúvida em minha mente de que eu manteria o bebê. Ele era meu filho, e eu o amei instantaneamente. 

Fui abençoada de ter contato com muitas disciplinas filhos foram concebidos por estupro e hoje são adultos. Elas compartilharam o que funcionou bem, e também o que não funcionou, em relação a contar a seus filhos como eles foram concebidos. O conselho que recebi foi o de compartilhar informações apropriadas para a idade, na medida em que meu filho necessita a fazer perguntas. 

No início do ano, ele começou a perguntar por que não tem um pai, então eu contei uma história bem básica, que ele ama e pede para ouvir novamente o tempo todo. Ele chama de 'a história da mamãe feliz'! ” 

O que dizer a seu filho? 


“É assim: 'Há muito tempo, algumas pessoas machucaram a mamãe, e ela estava muito triste. Chorou, perguntou para Deus por que tinha que estar tão triste o tempo todo. Deus estava triste também, porque não gosta de nos ver machucados, e Ele sabia exatamente o que fazer para me ajudar. Ele decidiu que eu precisava de um presente especial, então me deu um menininho doce, forte, esperto e lindo, que dá os melhores beijos e abraços. E esse é o Caleb! 

Então Deus colocou você dentro de mim, e quando eu descobri que você estava lá fiquei tão feliz! Você foi o melhor presente. Você cresceu e cresceu dentro de mim, e, no seu aniversário, você saiu e nasceu. Então você chorou até que colocaram você nos meus braços, e parou de chorar quando eu te acalentei. E eu estava ainda mais feliz por finalmente segurar você nos braços. ' 

Ele ainda não entende que foi elaborado num estupro, mas estou plantando as sementes, de forma que a informação não seja tão chocante quando ele for mais velho.

Vou continuar garantindo que ele entenda que coisas ruínas acontecem com todos nós, mas que, quando Deus atua em nossas vidas, podemos usar tudo isso para nosso bem. Uma beleza que vem das cinzas! 

Sou cristã. Eu não teria sobrevivido à minha gravidez e à intensa pressão que sofri de outras pessoas para fazer um aborto se não for meu relacionamento com Cristo. Deus tem estado comigo a cada passo do caminho, escrevendo uma linda história de redenção em minha vida. 

Meu versículo favorito da Bíblia é Gênesis 50:20, e esse trecho é certeiro [o versículo diz: Vocês planejaram o mal contra mim, mas Deus o tornei em bem, para que hoje fosse preservada a vida de muitos.] ” 

Uma fundação que dá esperança 

“Eu criei uma fundação, chamada Hope After Rape Conception [“ Esperança para a Concepção após o Estupro], que tem por objetivo oferecer esperança para mães que passaram por essa situação, e também para seus filhos. 

As necessidades de cada uma delas são diferentes. Algumas precisam apenas contar histórias que elas não se sentem seguras para compartilhar com os amigos e as famílias. 

Outras necessidades de aconselhamento para lidar com o trauma, e muitas pedem aconselhamento jurídico porque os homens que as estupraram entram na justiça para ter o direito de visita ou de custódia das crianças. 

Aqui nos Estados Unidos, essas leis variam para cada estado. Alguns fornecem proteção adequada para as mulheres, mas aproximadamente metade não oferece. Também estou trabalhando com os legisladores para implementar uma legislação mais adequada para proteger a vítima de estupro e seus filhos. 

Acredito que toda mulher, em qualquer situação, deveria continuar a gravidez. Há casos, como a gravidez ectópica, em que a vida da mãe é ameaçada pelo fato de o bebê se implantar fora do útero. 

Num caso assim, a intenção importa: se a intenção é fazer o parto antes para garantir a saúde da mãe, o bebê acaba morrendo por não conseguir sobreviver por conta própria, essa é uma situação inteiramente diferente da arrancar o bebê do útero da mãe apenas por conveniência. 

As pessoas com frequência citam ou estupro, que respondem por 1% dos abortos praticados nos Estados Unidos, como uma justificativa para todos os abortos. A existência de pessoas como eu e como meu filho é usada para justificar o assassinato de milhões de bebês no mundo todo, todos os anos. 

Mesmo entre as pessoas que se identificam como pró-vida, você vai encontrar quem justifique o aborto em casos de estupro, e isso é simplesmente um ato de compaixão deslocada. Essas pessoas não entendem o que sentimos porque não conversaram diretamente conosco e não conhecem os fatos. 

Todo estudo de grande alcance já realizado sobre o assunto mostra que a esmagadora maioria das mulheres que engravidaram em resultado de estupro escolhem pela vida.

Daquelas que abortam depois do estupro, quase todas relatam terem sido forçadas a realizar o procedimento e agora expressam grande arrependimento, e 90% diz que não recomendariam o aborto para mulheres que se veem nas paralelas. O aborto após o estupro apenas adiciona mais trauma para a situação. Nossos bebês nos curam com alegria e um propósito. 

Então, sim, eu acredito que toda vida importa e deveria ser protegida. A gravidez é temporária, a morte é permanente. O desejo de não estar grávida não justifica matar outra pessoa. No entanto, também tenho grande compaixão por mulheres que passaram pelo aborto, porque, por gerações, nossa cultura mentiu para elas e disse que bebês no útero são grupos de células, e não seres humanos únicos, que apenas estão num estágio diferente da vida. ” 
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* https://www.gazetadopovo.com.br/ideias/paula-nasceu-de-um-estupro-e-tambem-foi-estuprada-ela-decidiu-manter-o-filho-esta-e-sua-historia/