17 de outubro de 2018

Contradições do movimento feminista

Simone de Beauvoir

As feministas alegam defender os interesses das mulheres, mas os fatos as desmentem 

➤  Paulo Henrique Américo de Araújo 

Uma das iniciativas mais funestas, na tarefa em que se empenham os destruidores da Civilização Cristã, é o chamado feminismo. As raízes relativistas, hegelianas e marxistas desse movimento se encontram, em boa medida, nas ideias de Simone de Beauvoir, “companheira” de Jean Paul Sartre, o criador da escola existencialista.[1] Beauvoir baseou-se no princípio da luta de classes, arma que Marx inventou contra a “opressão” dos ricos sobre os pobres, e estendeu o conceito à “opressão” do homem sobre a mulher. Assim, deve ser combatido qualquer aspecto da convivência humana que não seja regido pela igualdade entre os sexos, mesmo em questões cujas diferenças biológicas são flagrantes.

Em conferência promovida pelo Instituto Plinio Corrêa de Oliveira, a Profª. Fernanda Takitani afirmou que “a origem das atuais discussões sobre ‘gênero’ pode ser buscada no movimento feminista, que nega a complementaridade entre o homem e a mulher”.[2] Tanto o feminismo quanto a ideologia de gênero negam essa complementaridade, portanto são parceiros na guerra infame que movem contra a concepção católica de família; no fundo, contra a Civilização Cristã.

Atualmente, o viés mais radical do feminismo chega inclusive a promover rituais místicos dos mais bizarros, segundo observou Julio Loredo em recente estudo.[3] Todas essas tendências não conseguem, no entanto, esconder as contradições e falsidades em que se baseiam. Para demonstrá-lo, convido o leitor a acompanhar o raciocínio a seguir, que possibilita reconhecer os reais fundamentos do feminismo.

Incoerência feminista 

Se o feminismo fosse coerente com seus princípios, não faria acepção ideológica em relação às mulheres. Entretanto, nem sempre essa alegada “defesa das mulheres” se apresenta no currículo feminista. Vejamos um exemplo. 

No último mês de maio, correu como rastilho de pólvora na imprensa brasileira a ação da policial Katia Sastre, que evitou um assalto em frente à escola de sua filha em São Paulo.[4] Vestida à paisana, por estar fora do seu horário de trabalho, com rapidez e perícia ela atirou no assaltante, que ameaçava com uma pistola as crianças e seus pais, e o imobilizou no meio da rua. Pouco depois ele veio a falecer no hospital. 

Katia Sastre, policial que evitou um assalto 
em frente à escola de sua filha em São Paulo
Muitos especialistas atribuíram principalmente ao treinamento e profissionalismo a eficácia da policial, e algumas vozes apontaram riscos e agressividade na sua atitude. De qualquer modo, é estranho não se ter conhecimento de nenhuma manifestação de apoio proveniente dos arraiais feministas,[5] mesmo diante dessa patente vitória de uma mulher contra um homem criminoso que intimidava impunemente mulheres e crianças. Por que o movimento feminista silenciou a respeito? Afinal, a policial Sastre demonstrou agilidade e “sangue frio”, tornando-se uma verdadeira heroína na defesa da sociedade. Por que não é ela um modelo para as feministas?

Uma das muitas hipóteses sobre as razões desse silêncio seria a de que as feministas são contra qualquer tipo de violência, mas tal hipótese não se coaduna com a realidade dos fatos, como veremos.

Um peso, duas medidas 

Em dezembro de 2016, o então presidente da França, François Hollande, concedeu liberdade a uma mulher que havia assassinado o próprio marido com três tiros nas costas.[6] Ela sofrera abusos dele durante décadas, havia sido condenada pelos tribunais, e cumpria pena desde 2012. No imenso alarido midiático desse fato, as ONGs feministas comemoraram a libertação.

Nesse caso, as feministas consideraram que a violência da mulher estaria justificada por ter sido praticada contra a “opressão” em um casamento abusivo. Mas a atitude da heróica policial brasileira, enfrentando a “opressão” do bandido, recebeu apenas o silêncio dessas mesmas feministas. Endossaram a ação violenta da mulher francesa, mas não a da policial brasileira. Como desvendar esse enigma? 

A resposta só pode estar em outro fator, e não na simples questão da violência. No fundo, o feminismo não visa defender as mulheres contra a “opressão da sociedade patriarcal”. Tendo sua origem na Revolução gnóstica e igualitária, na realidade ele pretende subverter o que resta da boa ordem desejada por Deus no convívio humano. 

Não interessa às feministas defender uma mulher policial que mata um bandido numa ação legítima. Tal ação se apresenta aos olhos do público como uma vitória contra a criminalidade e o caos moderno, expressões uma e outro da Revolução que visa destruir os restos da Civilização Cristã. E o feminismo é parte dessa Revolução. 

Além disso, a policial paulista agiu para defender sua filha e os filhos de outras mães, que corriam risco em frente à mencionada escola. Ora, as feministas, nas suas correntes mais extremadas, repudiam até a maternidade, daí o seu invariável apoio ao aborto. Nada mais natural, portanto, que elas tenham se calado quando uma mãe policial saiu vencedora. 

Por outro lado, quando uma esposa mata o próprio marido e é libertada antes de cumprir toda a pena estabelecida pela justiça, as feministas aplaudem e festejam, pois isso representa, em tese, uma rejeição aos ideais do casamento e da família. Estes são restos da Cristandade, ainda presentes na sociedade, que a vertente feminista detesta. 

Muçulmanos poupados pelo feminismo 

A
Feminista protesta nos EUA
s feministas são sempre contrárias a agressões sexuais contra mulheres? Seria normal elas sempre levantarem protestos indignados diante de qualquer fato desse gênero. No entanto, vejamos o que aconteceu em Colônia (Alemanha), no final de 2015.[7] Centenas de mulheres alemãs relataram assédio sexual ou agressões físicas por homens de origem árabe, na celebração de Ano Novo no centro da cidade. Em dois meses, 73 suspeitos foram identificados como imigrantes do norte da África. 


Dias depois, em resposta aos ataques, a prefeita de Colônia, Henriette Reker, tida como feminista, simplesmente instruiu as mulheres alemãs a se manterem “a um braço de distância de desconhecidos, para evitar agressões”.[8] A declaração foi muito criticada, bem como todo o movimento feminista, pois não se ouviu dele nenhuma manifestação relevante repudiando os ataques. 

Por cima do cinismo escancarado da prefeita alemã, e do silêncio das feministas, fica a marca de sua indiferença — para dizer o mínimo — quanto aos perigos que representam para a Civilização Cristã as atuais ondas de imigração na Europa. Aparentemente, para o feminismo vale mais a conivência com a multidão desenfreada de imigrantes do que a proteção das mulheres europeias.

Em resumo, o feminismo é sinônimo de subversão, de Revolução anticristã, não de verdadeira defesa das mulheres.  

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Notas 
1. Cfr. Catolicismo, novembro/2005. A Revolução Sexual destrói a família. 
2. Cfr. https://ipco.org.br/conferencia-sobre-ideologia-de-genero/#.Wz-GuNJKiUk 
3. Teologia da Libertação – Um salva-vidas de chumbo para os pobres, p. 407. 
4. Cfr. https://brasil.elpais.com/brasil/2018/05/16/politica/1526422216_815525.html 
5. Cfr. https://www.noticiasagricolas.com.br/noticias/politica-economia/214032-a-mulher-que-matou-o-bandido-por-jr-guzzo-na-veja.html#.Wz-bX9JKiUk 
6. Cfr. http://br.rfi.fr/franca/20161229-feministas-comemoram-perdao-de-hollande-mulher-que-matou-marido 
7. Cfr. https://www.theguardian.com/world/2016/jan/05/germany-crisis-cologne-new-years-eve-sex-attacks 
8. Cfr. https://www.theguardian.com/world/2016/jan/06/cologne-attacks-mayor-women-keep-men-arms-length-germany

15 de outubro de 2018

Cinquenta anos de autodemolição na Igreja

Membros da TFP em campanha de coleta de assinaturas no centro da capital paulista

Há meio século, um abaixo-assinado com grande número de aderentes denunciou a infiltração comunista nos meios católicos, pedindo a Paulo VI medidas contra o avanço comunista no Brasil 


➤  Paulo Roberto Campos 

Reverente e Filial Mensagem a Sua Santidade o Papa Paulo VI — Assim se intitulava o abaixo-assinado em que a Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP) colheu 1.600.368 assinaturas, entre julho e setembro de 1968 [vide link I]. Membros da TFP ergueram seus estandartes rubros com o leão dourado em 229 cidades de quase todos os estados brasileiros, numa histórica campanha percorrendo o País em coleta de assinaturas e denunciando um processo de autodemolição da Igreja perpetrado por eclesiásticos de mentalidade comunista. As entidades coirmãs do Chile, Uruguai e Argentina aderiram à campanha, elevando o número de adesões para 2.025.201.[1] 

Naquele ano, os católicos estavam preocupados com a atuação do clero comuno-progressista infiltrado na Igreja Católica. Entre eles se destacava o sacerdote belga Joseph Comblin, professor no Instituto Teológico da Arquidiocese de Recife, onde era acobertado por Dom Helder Câmara, cognominado “Arcebispo Vermelho”. Os objetivos e ideias do Pe. Comblin estavam compendiados em um documento reservado, não destinado ao grande público, mas acabaram vazando na imprensa e estarreceram o País [vide link II]. Propunha uma revolução não apenas nos ambientes católicos, mas também na sociedade civil, incluindo tribunais de exceção para punir os adversários anticomunistas. 

Esse documento subversivo foi o estopim para a deflagração da campanha da TFP pedindo a Paulo VI providências para fazer cessar a ação deletéria dentro da Igreja. O regime proposto pelo Pe. Comblin tinha como modelo a ditadura cubana; e o modelo religioso era uma igreja miserabilista a serviço do comunismo. Alguns itens do projeto bastam para avaliar a sua radicalidade: 
• “Será necessário montar um sistema repressivo: tribunais novos de exceção contra quem se opõe às reformas. Os procedimentos ordinários da justiça são lentos demais. O poder legislativo também não pode depender de assembleias deliberativas.  
• “O poder deve neutralizar as forças de resistência: neutralização das forças armadas se [elas] forem conservadoras; controle da imprensa, TV, rádio e outros meios de difusão; censura das críticas destrutivas e reacionárias.  
• “Sem dúvida, a religiosidade católica tradicional do povo está condenada a desaparecer com o desenvolvimento. Se a Igreja não tiver OUTRA religião mais evoluída para oferecer-lhes, as massas voltar-se-ão para outras mensagens mais ao alcance delas ou mais preocupadas com elas.”

Apreciações de autoridades sobre a campanha da TFP 

Plinio Corrêa de Oliveira
observa a impressionante pilha
com mais de dois milhões de assinaturas
Autoridades e órgãos de imprensa se manifestaram sobre a campanha. Dentre elas, destacamos: 

Mons. Alfredo Cifuentes Gómez, Arcebispo de La Serena (Chile), um dos mais destacados e respeitados membros do Episcopado daquele país: “Li com especial interesse a reverente e filial mensagem [...]. Ela reflete duas características que sempre animaram o espírito cristão e o verdadeiro amor à pátria. Espírito cristão, porque justamente veem ameaçados os princípios ligados intimamente à doutrina da Igreja: e amor à pátria, porque precisamente o ataque a esses princípios vulnera em suas bases o bem-estar e a paz da nação. Como filhos fiéis, os senhores recorrem à suprema Autoridade da Igreja com sentimentos de profundo respeito e confiança”. 

A revista americana “Time”, em sua edição de 23-8-68, reconheceu “a facilidade com que a TFP coletou as assinaturas. [...] Reflete o fato de que a maioria dos latino-americanos aprova ou pelo menos tolera o conservadorismo católico”. No mesmo sentido, afirmou o sacerdote francês Charles Antoine: “De todas as campanhas organizadas pelo movimento Tradição, Família e Propriedade, a mais espetacular é sem dúvida a de julho de l968”.[2]

De passagem pelo Brasil naquele ano, o Pe. René Laurentin, renomado teólogo francês e doutor em Mariologia, relatou em um de seus livros: “Grupos volantes recolheram assinaturas um pouco por toda a parte, nas estações ferroviárias, nos aeroportos e noutros lugares públicos. Os autores desta iniciativa abordaram-me muito cortesmente num supermercado de Curitiba. Desfraldavam um estandarte de veludo vermelho com a figura de um leão em pé. Convidavam a assinar ‘contra o comunismo’.” [3] [vide link III]. 


Abaixo-assinado entregue, silêncio do Vaticano 

As folhas do abaixo-assinado formavam uma pilha de 10 metros de altura. Foram copiadas em rolos de microfilmes, e assim entregues na Secretaria de Estado da Santa Sé.

Qual foi a resposta do Vaticano? Lamentavelmente, o silêncio. Desconcertante silêncio, pois revelava insensibilidade ante a preocupação de mais de dois milhões de fiéis que subscreveram o abaixo-assinado. Não mereceriam resposta esses fiéis, cuja preocupação os levou a pedir ao Papa socorro contra a escandalosa infiltração esquerdista nos meios católicos?

Apesar desse silêncio da Santa Sé, a campanha atingiu o seu objetivo: a “esquerda católica” ficou muito desacreditada e enfraquecida, enquanto os autênticos católicos saíram fortificados na fé e reuniram esforços para reagir com ainda maior eficácia. Ademais, o incendiário Pe. Comblin acabou abandonando o Brasil. 


O esquerdismo católico e seus derivados 

Em setembro de 1968, a TFP comemora,
na Casa de Portugal em São Paulo,
o término de sua campanha, em que 1.600.368 brasileiros
pediam providências a Paulo VI contra a infi ltração comunista na Igreja.
Transcorrido exatamente meio século daquele memorável abaixo-assinado — e não tendo sido tomadas as medidas solicitadas pelos signatários — o mal não cessou, antes cresceu de modo ainda mais alarmante, deixando os fiéis mais estarrecidos do que então. Basta considerar que o progressismo católico — herdeiro do modernismo, condenado pelo grande Papa São Pio X como a “síntese de todas as heresias” — atingiu quase todos os ambientes católicos e instituições eclesiásticas, revolucionando a própria liturgia e abolindo tradições da Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Sobretudo a partir do Concílio Vaticano II, avaliado pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira como “uma das maiores calamidades, se não a maior, da História da Igreja”.[4] 

Do progressismo nasceu a “Teologia da Libertação”, cujo programa de luta de classes marxista intoxicou os seminários, além de deformar os missionários com sua neomissiologia indigenista. Uma das suas consequências foi a formação das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Mas elas foram forçadas a um longo período de encolhimento, devido às denúncias do livro-bomba As CEBs... Das quais muito se fala, pouco se conhece ─ A TFP as descreve como são. Nessa obra de 1982, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira e os irmãos Gustavo Antônio e Luís Sérgio Solimeo apresentam contra elas acusações graves, nunca refutadas. Seis edições, num total de 72 mil exemplares, foram amplamente difundidas em todo o território nacional. Foi também editada e divulgada uma versão popular em quadrinhos, com a tiragem de 180.000 exemplares. 


Em entrevista obtida pela Agência Boa Imprensa, publicada com exclusividade em Catolicismo (edição de janeiro/1993),[5] o próprio Pe. Comblin foi obrigado a confessar o fracasso das CEBs: “Elas estão marginalizadas, fustigadas, fulminadas em todas as partes. Hoje, elas constituem minorias sem projeção no conjunto das igrejas locais”. Atualmente as cinzas das CEBs começam a ser exumadas do sepulcro pelo clero comuno-progressista, com o apoio do Papa Francisco.

Outro derivado do esquerdismo católico está contido em matéria publicada por Catolicismo na edição de julho passado.[6] Trata-se de uma ruptura com o Magistério tradicional da Igreja, uma “mudança de paradigma” especialmente sobre a instituição da família monogâmica e indissolúvel, estabelecida por Deus no sacramento do matrimônio entre um homem e uma mulher. Reflete-se também na acolhida que o Pontífice vem concedendo a movimentos ditos “sociais”, que agem segundo a doutrina marxista. Esses movimentos esquerdistas, assim como regimes comunistas de alguns países, veem no Papa Francisco um ponto de apoio, embora seja uma atuação condenada pela doutrina católica tradicional, por servir de base a um sistema “intrinsecamente perverso”.
Concílio Vaticano II


Autodemolição e fumaça de Satanás na Igreja 

Essa verdadeira revolução em curso na Igreja traz à memória as palavras do Papa Paulo VI em 7 de dezembro de 1968, onde se refere ao processo de autodemolição da Igreja, “golpeada também pelos que d´Ela fazem parte”.[7] São palavras que confirmam a grave denúncia contra a infiltração comunista no clero católico, divulgada pela TFP poucos meses antes. Outra confirmação se encontra na alocução “Resistite fortes in fide” (29 de junho de 1972), onde o mesmo Papa alega ter a sensação de que “por alguma fissura tenha entrado a fumaça de Satanás no templo de Deus”.[8]

O que poderia suceder de mais terrível à Santa Igreja do que ser penetrada pela fumaça de Satanás e sofrer o processo de autodemolição? Difícil imaginar tragédia maior! Presentemente, tudo isso leva muitos fiéis católicos a perguntarem para onde ruma a “nova igreja do Papa Francisco”.


A fidelidade à Santa Igreja, mantida a toda prova 

Plinio Corrêa de Oliveira afirmou:
“O Concílio Vaticano II foi uma das maiores calamidades,
se não a maior, da História da Igreja”.
Numa comovente Via Sacra publicada por Catolicismo em 1951, e depois reeditada em opúsculos no Brasil e no exterior, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira comenta na 6ª Estação: 

“No Véu de Verônica, a representação da Face divina foi feita como num quadro. Na Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana ela é feita como num espelho. Em suas instituições, em sua doutrina, em suas leis, em sua unidade, em sua universalidade, em sua insuperável catolicidade, a Igreja é um verdadeiro espelho no qual se reflete nosso Divino Salvador. Mais ainda, Ela é o próprio Corpo Místico de Cristo. 

E nós, todos nós, temos a graça de pertencer à Igreja, de ser pedras vivas da Igreja. Como devemos agradecer este favor! 

Não nos esqueçamos, porém, de que noblesse oblige. Pertencer à Igreja é coisa muito alta e muito árdua. Devemos pensar como a Igreja pensa, sentir como a Igreja sente, agir como a Igreja quer que procedamos em todas as circunstâncias de nossa vida. Isto supõe um senso católico real, uma pureza de costumes autêntica e completa, uma piedade profunda e sincera. Em outros termos, supõe o sacrifício de uma existência inteira”. 

Assistimos hoje a uma verdadeira guerra de extermínio empreendida por inimigos que se infiltraram na Igreja, cuja fisionomia se torna cada vez menos reconhecível. Em reparação, peçamos a graça de ter em relação a Ela a atitude de Verônica, que com seu precioso véu limpou a sagrada face de nosso Redentor. Pertencer à Santa Igreja é uma graça imensurável, mas que nos traz obrigações. Como filhos, devemos mais do que nunca lutar por Ela, manter inabalável a fidelidade e ainda mais ardorosa a nossa fé na sua indestrutibilidade. Sabemos que membros da Igreja podem errar e até ensinar erros, mas Ela, jamais, pois o que ensina está definido claramente por Nosso Senhor Jesus Cristo. 

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 Notas:
1. Argentina (266.512 assinaturas), Chile (121.210 assinaturas), Uruguai (37.111 assinaturas).
2. Pe. Charles Antoine, L'Eglise et le pouvoir au Brésil. Naissance du militarisme, Desclée de Brouwer, Paris, 1971, p. 144.
3. René Laurentin, L'Amérique latine à l'heure de l'enfantement, Ed. Seuil, Paris, 1970.
4. “O êxito dos êxitos alcançado pelo comunismo pós-staliniano sorridente foi o silêncio enigmático, desconcertante, espantoso e apocalipticamente trágico do Concílio Vaticano II a respeito do comunismo. [...] Seu silêncio sobre o comunismo deixou aos lobos toda a liberdade. A obra desse Concílio não pode estar inscrita, enquanto efetivamente pastoral, nem na História, nem no Livro da Vida. É penoso dizê-lo. Mas a evidência dos fatos aponta, neste sentido, o Concílio Vaticano II como uma das maiores calamidades, se não a maior, da História da Igreja. A partir dele penetrou na Igreja, em proporções impensáveis, a “fumaça de Satanás”, que se vai dilatando dia a dia mais, com a terrível força de expansão dos gases. Para escândalo de incontáveis almas, o Corpo Místico de Cristo entrou no sinistro processo da como que autodemolição”. Plinio Corrêa de Oliveira, Revolução e Contra-Revolução, Editora Artpress, São Paulo, Parte III, capítulo II, 4, A, pp. 166-168.
5. http://catolicismo.com.br/index1.cfm/mes/Janeiro1993
6. http://catolicismo.com.br/Acervo/Num/0811/P12-13.html
7. Em alocução aos alunos do Seminário Lombardo, no dia 7 de dezembro de 1968, Paulo VI afirmou que “a Igreja atravessa hoje um momento de inquietação. Alguns praticam a autocrítica, dir-se-ia até a autodemolição. É como uma perturbação interior, aguda e complexa, que ninguém teria esperado depois do Concílio. Pensava-se num florescimento, numa expansão serena dos conceitos amadurecidos na grande assembleia conciliar. Há ainda este aspecto na Igreja, o do florescimento. Mas, posto que bonum ex integra causa, malum ex quocumque defectu, fixa-se a atenção mais especialmente sobre o aspecto doloroso. A Igreja é golpeada também pelos que d´Ela fazem parte” (cfr. Insegnamenti di Paolo VI, Tipografia Poliglotta Vaticana, vol. VI, p. 1188).
8. Cfr. Insegnamenti di Paolo VI, Tipografia Poliglotta Vaticana, vol. X, p. 707.

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LINK 1: http://catolicismo.com.br/Acervo/Num/0813/P32-33.html#.W8VKOfZFx9A

LINK 2: http://catolicismo.com.br/Acervo/Num/0813/P34-35.html#.W8VK3vZFx9A

LINK 3: http://catolicismo.com.br/Acervo/Num/0813/P28-29.html#.W8VKjfZFx9A

6 de outubro de 2018

LEPANTO, 447 ANOS DEPOIS...

A grandiosa vitória da Cristandade sobre o Império Otomano -- que envidou no século XVI todos os esforços para dominar o Velho Continente -- nos leva a confiar que obteremos nos presentes dias uma outra vitória  contra o grande perigo que nos ameaça: a tomada do poder pela esquerda comuno-bolivariana.


➤  Paulo Roberto Campos 

Neste dia 7 de outubro de 2018, em que celebramos 447 anos da vitória da Cristandade na batalha naval no golfo de Lepanto, o Brasil encontra-se numa encruzilhada, em uma outra grande batalha. Naquele ano, por intercessão da Santíssima Virgem do Rosário, as esquadras católicas impediram que o poderio maometano tomasse a Europa. Peçamos também a Ela que proteja nossa Pátria, impedindo que nestas eleições o Brasil seja dominado por movimentos esquerdistas que sonham implantar aqui um tipo de governo bolivariano nos moldes daquele que subjugou a infeliz Venezuela com a nefasta dupla Chávez–Maduro. 

Para quem duvide da realidade da ameaça, basta recordar a recente declaração de um dos próceres da esquerda lulopetista, o ex-ministro José Dirceu, réu triplamente condenado a mais de trinta anos de prisão, e a quem a Justiça deixa incompreensivelmente em liberdade para atacar o Brasil e a própria instituição que lhe concedeu a liberdade. Em entrevista ao jornal “El País” (27-9-18), ele declarou que “é uma questão de tempo” para o PT “tomar o poder”. E sugeriu, segundo o Portal "180 graus" (Piauí), de se “tirar todos os poderes do Supremo”

Na mesma data de Lepanto, celebramos também o dia de Nossa Senhora do Rosário — festividade estabelecida pelo Papa São Pio V em ação de graças pela vitória contra o Islã. Rezemos ao menos um terço suplicando-Lhe uma nova vitória da Cristandade no Brasil e a restauração moral de nosso povo nascido nesta Terra de Santa Cruz. 

Um pouco de história da providencial batalha de Lepanto 

No século XVI, o poderio otomano (sobretudo o Império turco, de religião muçulmana) crescia espantosamente e tudo empreendia para aniquilar e dominar a Europa cristã. Os turcos já haviam conquistado Constantinopla e ocupado a ilha de Chipre, de onde pretendiam marchar em direção ao Ocidente. Em face do iminente perigo para a Cristandade, o Sumo Pontífice de então, o Papa São Pio V [imagem ao lado], conclamou os príncipes europeus a se unirem numa frente comum contra o inimigo. Reuniu uma pequena esquadra composta com o apoio de Felipe II da Espanha, das Repúblicas de Veneza e de Gênova e do Reino de Nápoles, além de um contingente dos Estados Pontifícios.

São Pio V não desanimou ante a desproporção das forças, pois confiava mais na proteção de Deus e de sua Santíssima Mãe. Entregou ao generalíssimo D. João d’Áustria o comando da esquadra e deu-lhe um estandarte com a imagem de Nossa Senhora, pedindo-lhe que partisse logo ao encontro do inimigo. Há 447 anos, em 7 de outubro de 1571, a esquadra católica, composta de aproximadamente 200 galeras, concentrou-se no golfo de Lepanto. Dom João D´Áustria mandou hastear o estandarte oferecido pelo Papa e bradou: “Aqui venceremos ou morremos”, e deu a ordem de batalha contra os seguidores de Maomé. Os primeiros embates foram favoráveis aos muçulmanos, que, formados em meia-lua, desfecharam violenta carga. Os católicos, com o Terço ao pescoço, prontos a dar a vida por Deus e tirar a dos infiéis, respondiam aos ataques com o máximo vigor possível. 


Mas, apesar da bravura dos soldados de Cristo, a numerosíssima frota do Islã, comandada por Ali-Pachá [pintura ao lado], parecia vencer. Após 10 horas de encarniçado embate, os batalhadores católicos receavam a derrota, que traria graves consequências para a Civilização Cristã europeia. Mas, óh prodígio! Ficaram surpresos ao perceberem que, inexplicavelmente e de repente, os muçulmanos, apavorados, bateram em retirada… 

Obtiveram mais tarde a explicação: aprisionados pelos católicos, alguns mouros confessaram que uma brilhante e majestosa Senhora aparecera no céu, ameaçando-os e incutindo-lhes tanto medo, que entraram em pânico e começaram a fugir. 

Logo no início da retirada dos barcos muçulmanos, os católicos reanimaram-se e reverteram a batalha: os infiéis perderam 224 navios (130 capturados e mais de 90 afundados ou incendiados), quase 9.000 maometanos foram capturados e 25.000 morreram. Ao passo que as perdas católicas foram bem menores: 8.000 homens e apenas 17 galeras perdidas. 


Quadro representando a visão que São Pio V teve da vitória de Lepanto
Enquanto se travava a batalha contra os turcos em águas de Lepanto, a Cristandade rogava o auxílio da Rainha do Santíssimo Rosário. Em Roma, o Papa São Pio V pediu aos fiéis que redobrassem as preces. As Confrarias do Rosário promoviam procissões e orações nas igrejas, suplicando a vitória da armada católica. 

O Pontífice, grande devoto do Rosário, no momento em que se dava o desfecho da gloriosa batalha, teve uma visão sobrenatural, na qual ele tomou conhecimento de que a armada católica acabara de obter espetacular vitória. E imediatamente, exultando de alegria, voltou-se para seus acompanhantes exclamando: “Vamos agradecer a Jesus Cristo a vitória que acaba de conceder à nossa esquadra”

A milagrosa visão foi confirmada somente na noite do dia 21 de outubro (duas semanas após o grande acontecimento), quando, por fim, o correio chegou a Roma com a notícia. São Pio V tinha meios mais rápidos para se informar… 

Em memória da estupenda intervenção de Maria Santíssima, o Papa dirigiu-se em procissão à Basílica de São Pedro, onde cantou o Te Deum Laudamus e introduziu a invocação Auxílio dos Cristãos na Ladainha de Nossa Senhora. E para perpetuar essa extraordinária vitória da Cristandade, foi instituída a festa de Nossa Senhora da Vitória, que, dois anos mais tarde, tomou a denominação de festa de Nossa Senhora do Rosário, comemorada pela Igreja no dia 7 de outubro de cada ano. 


Na. Sra. do Rosário de Lepanto [foto Michael Gorre]
Ainda com o mesmo objetivo, de deixar gravado para sempre na História que a Vitória de Lepanto se deveu à intercessão da Senhora do Rosário, o senado veneziano mandou pintar um quadro representando a batalha naval com a seguinte inscrição: “Non virtus, non arma, non duces, sed Maria Rosarii victores nos fecit”. (Nem as tropas, nem as armas, nem os comandantes, mas a Virgem Maria do Rosário é que nos deu a vitória).

Consumado o milagroso triunfo em Lepanto, outro prodígio salvou a armada católica: uma furiosa tempestade ameaçava levar ao fundo do mar todas as naus. Mais parecia uma tempestade desencadeada pelos demônios, como vingança pela derrota que acabavam de sofrer, pois viam escapar de suas garras a Europa Cristã que os seguidores de Maomé tentaram conquistar para o domínio muçulmano. Em meio à fúria das águas, os navegantes começaram a rezar à Santíssima Virgem, Rainha do Santo Rosário, e a tempestade serenou milagrosamente.
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A grandiosa vitória da Cristandade sobre o Império Otomano -- que envidou no século XVI todos os esforços para dominar o Velho Continente -- nos leva a confiar que obteremos nos presentes dias outra vitória contra o grande perigo que nos ameça: a tomada do poder pela esquerda comuno-bolivariana.


5 de outubro de 2018

Critérios básicos para o voto eleitoral dos católicos

➤  Mons. José Luiz Villac

Pergunta — Venho notando uma tremenda indefinição de meus conhecidos quanto às próximas eleições. Há muita confusão. Para esclarecê-los, tenho procurado falar que devemos escolher candidatos que não defendem projetos ou práticas transgressoras das Leis de Deus. Como eu não consigo ir além, rogo ao Mons. José Luiz a gentileza de uma ajuda para a minha argumentação. Pergunto se realmente a Igreja proíbe aos católicos votar em candidatos que defendem práticas contrárias às Leis de Deus. 

Resposta — Atendo com muito gosto ao pedido do consulente, frisando de antemão que minha resposta não tem nenhum caráter político-partidário; trata-se apenas de uma orientação teórica para as consciências a respeito do reto exercício dos direitos e obrigações dos fiéis na sua participação na vida pública.

Deve-se de início ressaltar que os cidadãos são moralmente corresponsáveis pela sociedade em que vivem, de modo especial numa democracia, na qual são convocados para eleger representantes que irão reger e legislar em seu nome. Não devem esquecer que a finalidade da votação deve ser, em última análise, a promoção do bem comum da sociedade. 

A qualidade de um candidato, seja qual for o cargo público que pleiteie ocupar, não deve ser medida apenas com base em sua personalidade (simpatia, facilidade para falar em público, habilidade em gestão administrativa, etc.), mas também com base na sua personalidade pública: os princípios e os programas que ele pretende desenvolver para promover o bem comum. 


Valores que um candidato não pode desprezar 

A proteção da vida humana inocente 
desde a concepção até a morte natural, 
uma das condições para um católico votar em consciência
O Catecismo da Igreja Católica menciona os componentes essenciais do bem comum: os direitos fundamentais e inalienáveis da pessoa humana (nº 1907); o bem-estar social e o desenvolvimento da sociedade, incluindo a educação, a cultura, o trabalho, a saúde, etc. (nº 1908); a paz e a segurança cidadã (nº 1909). Portanto, a ordem social “tem por base a verdade, constrói-se na justiça e é vivificada pelo amor” (nº 1912). 

Existe uma hierarquia entre esses componentes do bem comum: alguns são essenciais e não negociáveis, outros são contingentes e permitem várias propostas. Logicamente, os valores não negociáveis devem ter primazia nas preferências dos eleitores católicos, porque dizem respeito a valores essenciais da pessoa humana e da vida social, cuja violação é um mal intrínseco e não pode ser justificado por nenhum motivo ou circunstância. A posição de um candidato a respeito dos valores não negociáveis deve ser, portanto, o critério essencial para julgarmos sua aptidão para ocupar um cargo público.

Atualmente os valores não negociáveis para um eleitor católico são:

  • A proteção da vida humana inocente desde a concepção até a morte natural;
  • O reconhecimento e a promoção da estrutura natural da família, baseada no matrimônio indissolúvel entre um homem e uma mulher;
  • A proteção do direito primário dos pais de educar seus filhos (cfr. Papa Bento XVI - discurso a um grupo de parlamentares europeus em 30-3-06). 


Critérios básicos para bem eleger

Reconheço que, para muitos leitores, escolher em quem votar é uma tarefa por vezes difícil. Mas determinar em quem não votar é relativamente fácil, pois são todos os candidatos que promovem o desrespeito e a violação dos mencionados valores não negociáveis. Tais candidatos são inimigos do bem comum, e sua eventual eleição para os cargos que disputam causaria muitos males ao Brasil e aos direitos dos seus habitantes.

Alguém poderia perguntar: Quais são os princípios morais que obrigam os eleitores, em consciência, a excluir do voto os candidatos favoráveis ao aborto, às uniões homossexuais ou à ideologia de gênero? 

O fundamento é triplo. 

Primeiro, porque a regra fundamental da moralidade é fazer o bem e evitar o mal. Mas para isto ser factível é preciso sabermos quais os bens que devem ser procurados e, acima de tudo, os males que devem ser evitados. 

Segundo, porque os critérios que permitem fazer tais discernimentos entre o bem e o mal nos são dados pela moral católica, com base nos Mandamentos de Deus e na Lei natural: “O Deus Criador é, de fato, a única e definitiva fonte da ordem moral no mundo por Ele criado. O homem não pode por si mesmo decidir o que é bom e o que é mau, não pode ‘conhecer o bem e o mal, como Deus’” (João Paulo II, encíclica Dominum et vivificantem, nº 36). 

Segue-se daí, em terceiro lugar, o que escreve São Boaventura: “A consciência é como o arauto de Deus e o seu mensageiro; e o que ela diz não provém dela própria, mas provém de Deus, à semelhança de um arauto quando proclama o edito do rei. Disto deriva o fato de a consciência ter a força de obrigar” (João Paulo II, encíclica Veritatis Splendor, n° 58).

Portanto, os eleitores católicos devem votar de acordo com a sua consciência, mas primeiro formá-la segundo os ensinamentos de Jesus Cristo e do Magistério da Igreja perene. Não devem seguir as modas do mundo, nem as inovações de alguns falsos teólogos descarrilados. 

As leis humanas, de fato, só obrigam em consciência quando são justas. Quando prescrevem algo intrinsecamente imoral, seu cumprimento não é obrigatório, pelo contrário, é pecado obedecê-las (cfr. Atos 5,29). É intrinsecamente injusto (ou seja, é pecado, e pecado grave) elaborar uma lei semelhante ou votar a seu favor. 


Não se pode contribuir com práticas imorais 

Duas condições não negociáveis para se pensar ao votar em alguém: 
o reconhecimento e a promoção da estrutura natural da família, 
baseada no matrimônio indissolúvel entre um homem e uma mulher, 
e a proteção do direito primário dos pais de educar seus filhos.
Alguém poderá objetar como sendo exagerado proibir por tais motivos o voto em candidato que é bom em outras coisas. Respondemos que não é exagerado, porque votar em um candidato que promove a violação dos valores não negociáveis equivale a colaborar formalmente com a prática dos inúmeros pecados que resultarão da aprovação legal de tal violação da ordem moral. Equivale também a contribuir para a deformação moral de toda a população, pois a ordem legal tem natureza pedagógica. 

No caso específico do aborto, votar por um candidato pró-aborto equivale a associar-se ao que já foi qualificado pelo Concílio Vaticano II como crime abominável (Constituição Gaudium et Spes, nº 51). “A Igreja afirmou, desde o século I, a malícia moral de todo o aborto provocado. E esta doutrina não mudou. Continua invariável. O aborto direto, isto é, querido como fim ou como meio, é gravemente contrário à lei moral”, afirma categoricamente o Catecismo da Igreja Católica (n ° 2271). 


Coerência entre vida privada e vida pública 

Além dessas regras gerais de moral, cumpre ainda respeitar algumas normas elementares de prudência na escolha dos candidatos. Tanto mais isso é necessário quando se constata que grande parte dos nossos políticos não é transparente quanto às suas verdadeiras convicções no âmbito da moral, menos até do que no manejo dos fundos públicos. A vida pública nacional tem mostrado claramente isso nos últimos anos. Por isso, recomendo vivamente aos leitores investigar qual é a posição dos candidatos em relação aos valores não negociáveis mencionados acima. Não basta confiar na ideia simplória de que o candidato deve ser bom, se figura na lista do partido no qual se costuma votar. E se algum candidato ainda não manifestou o que pensa sobre o aborto, as uniões homossexuais, a ideologia de gênero, etc, é necessário pedir-lhe que se explique publicamente. 

Devo lembrar que alguns candidatos se afirmam católicos e dizem que se opõem a essas práticas abomináveis, mas na realidade tomaram iniciativas em favor delas; ou também não estão dispostos a apoiar a sua revogação. Recomendo que desconfiem especialmente desses candidatos com posição ambígua ou contraditória, que afirmam distinguir entre sua vida privada e sua vida pública, entre suas opiniões privadas e suas condutas públicas. Porque contradizer na vida pública a fé e a moralidade que se declara ter na vida privada revela, no melhor dos casos, uma espécie de esquizofrenia espiritual, como salientou Bento XVI. Ou senão, um simples abuso da etiqueta de católico para angariar mais votos.

Finalmente, aconselho a todos rezarem a Nossa Senhora Aparecida, Rainha e Padroeira do Brasil, para que nos proteja e impeça que os valores não negociáveis sejam violados na Terra da Santa Cruz.

3 de outubro de 2018

Carta aberta ao futuro Presidente

 
Manifestação anti-PT na Av. Paulista no último domingo (30-9-18)
Nosso País necessita de homens que estejam dispostos a enfrentar a ditadura do Politicamente Correto e a defender a família tradicional. Acima de tudo, o Brasil precisa de um Presidente que respeite a Lei de Deus e o Direito Natural, que seja fiel ao nosso passado. Não se constrói um país pela negação daquilo que ele é. 

Instituto Plinio Corrêa de Oliveira
3 de outubro de 2018

Raros são os momentos na história de um país em que as aspirações de seu povo e as suas necessidades podem ser tão claramente percebidas pelos governantes, como ocorre em nossos dias.

Após as grandes manifestações que tomaram as ruas do Brasil, manifestações nascidas de um profundo descontentamento, os brasileiros irão às urnas no próximo dia 7 de outubro para escolher não apenas um Presidente, mas um modelo de país.

A depender dos resultados, as eleições de 2018 serão vistas, pelas gerações futuras, como um desses momentos históricos em que um Povo afirma e defende suas tradições, suas características mais profundas e que refletem a alma brasileira.

Assim como os homens, cada Povo tem particularidades próprias. Foi em defesa dessas particularidades que o País tomou as ruas e as praças nas grandes e nas pequenas cidades expressando, a uma voz, um mesmo sentimento.

Era um basta à situação do Brasil, um basta a um modelo de política que aparelhou o Estado, tornando-o instrumento nas mãos de um partido.

A corrupção generalizada era apenas um dos sintomas de que algo precisava mudar. Mas não era o único e nem o mais importante.

Entre muitos outros, citemos alguns:

— Imposição da “ideologia de gênero” nos colégios, chegando até mesmo a tentar censurar livros didáticos contrários aos novos “valores”;
— Tentativa reiterada de criminalizar quem não aceita o homossexualismo, acusando-o de “homofobia”;
— Oficialização paulatina da prática de aborto nos Hospitais Públicos;
— Leis que procuram regular a vida familiar a ponto de impedir até mesmo palmadas corretivas nos filhos;
— Intento de controlar os meios de comunicação;
— Cumplicidade para com invasões de terras e prédios, no campo e na cidade;
— Desrespeito ao Direito de Propriedade através da Reforma Agrária socialista, da promoção dos “quilombolas” e do “indigenismo”, além da subjetiva conceituação de “trabalho escravo”, com a conseqüente expropriação de terras;
— Perseguição à iniciativa privada com leis e impostos cada vez mais escorchantes e uma burocracia interminável;
— Implantação de uma “política racial afirmativa”, procurando criar uma verdadeira luta de raças em território nacional;
— Explícita simpatia para com as ditaduras “bolivarianas”, como as da Venezuela, Bolívia e Cuba;
— Proposta de banir símbolos religiosos das repartições públicas…


Essa mera enumeração demonstra até onde a esquerda — civil e eclesiástica — quer levar o País. Utilizando-se do pretexto de defender minorias e em nome de um conceito vago e errôneo de “direitos humanos”, tentam desfigurar o Brasil.

O Brasil anela por um Presidente que não permita esses erros!

A Nação não quer soluções intermediárias que se escondam em uma falsa moderação, como se entre o certo e o errado fosse lícito escolher o meio-termo.

Nosso País necessita de homens que estejam dispostos a enfrentar a ditadura do Politicamente Correto e a defender a família tradicional. Acima de tudo, o Brasil precisa de um Presidente que respeite a Lei de Deus e o Direito Natural, que seja fiel ao nosso passado. Não se constrói um país pela negação daquilo que ele é.

Nesse próximo dia 7 de outubro, o futuro Presidente receberá os votos dos brasileiros que esperam ter seus anseios ouvidos.

Há um provérbio jurídico que diz: “Dormientibus non succurrit jus”, o Direito não socorre aqueles que dormem. Esses brasileiros que foram às ruas mostram que o “gigante adormecido”, quando provocado, sabe levantar sua voz e se fazer ouvir.

O Instituto Plinio Corrêa de Oliveira, seguindo os ensinamentos de seu patrono, espera que a próxima administração tenha como meta, desde o primeiro momento:

— Combater o aborto, a eutanásia e a Ideologia de Gênero;
— Não permitir a liberação das drogas;
— Defender a família como Deus a estabeleceu, num matrimônio entre um homem e uma mulher;
— Defender o sagrado direito dos pais na educação dos filhos, sem a intromissão do Estado;
— Proteger as propriedades rurais e urbanas, alvo crescente de invasões;
— Diminuir categoricamente a Carga Tributária;
— Incentivar a livre iniciativa;
— Amparar efetivamente quem gera empregos, no campo e na cidade;
— Respeitar e honrar as forças armadas e a Polícia;
— Cortar qualquer financiamento a governos da esquerda “bolivariana”.

Esperamos que o próximo Presidente saiba ouvir a voz dos brasileiros e seja fiel ao Brasil que todos queremos. Uma nação livre da esquerda “bolivariana”, que desejou transformar nosso País, nascido aos pés do Cruzeiro do Sul e que tem como símbolo máximo o Cristo Redentor, em uma terra sem Tradição, sem Família e sem Propriedade e, por isso mesmo, sem futuro.

Na. Sra. de Lepanto [Foto Michael Gorre]
O próximo dia 7 de outubro também é festa da vitória na Batalha de Lepanto, ocorrida em 1571, quando as forças islâmicas tentavam invadir a Europa cristã. Naquela ocasião, os Reinos católicos se uniram em defesa da Civilização e, sob a proteção de Nossa Senhora do Rosário, alcançaram o almejado triunfo.

Que nesse dia 7 de outubro de 2018, 447 anos após aquela vitória em que o futuro da Civilização Cristã estava sendo decidido, queira Nossa Senhora do Rosário nos proteger e nos inspirar para que o Comunismo — tão ou mais terrível inimigo do que foi o Islã em seu auge — possa ser vencido pelos que continuam tementes a Deus, respeitosos de suas Leis e fiéis ao Brasil verdadeiramente brasileiro.

São Paulo, 3 de Outubro de 2018 
Instituto Plinio Corrêa de Oliveira

2 de outubro de 2018

MARCHA CONTRA O ABORTO NA CAPITAL PAULISTA

Na tarde deste domingo (30 de setembro), enquanto ocorria na Avenida Paulista uma grande manifestação contra o PT e a favor de Jair Bolsonaro, o candidato que se encontra em primeiro lugar nas pesquisas, uma chuva torrencial despencou. Mas o aguaceiro não tirou o animo dos participantes que continuaram a se manifestar, por exemplo, bradando: “Brasil acima de tudo. Deus acima de todos”


Ao mesmo tempo, também debaixo daquela forte chuva, uma outra manifestação transcorria: Uma marcha contra o aborto percorreu a Avenida Brigadeiro, deste a Igreja Imaculada Conceição até a Praça da Sé. Um dos brados principais desta marcha foi “Vida sim, aborto não! Salvemos as duas vidas!”

No encerramento da marcha, em frente a Catedral da Sé, uma das personalidades que discursou foi o Príncipe Imperial do Brasil, Dom Bertrand de Orleans e Bragança [foto acima]. Ele apontou para a principal perversidade da execução do inocente nascituro ainda no ventre materno: o grave pecado praticado diretamente contra o Criador, grave violação dos direitos de Deus. 

Na ocasião, jovens do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira coletaram assinaturas contra a ADPF 442 (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental) que pretende, por meio do STF, legalizar o crime do aborto até a 12ª semana de gestação.

Estive nas duas manifestações deste domingo, em ambas ouvi os participantes cantando a pleno pulmões o Hino Nacional. Enquanto que na manifestação pró Haddad houve petistas queimando a Bandeira Nacional. A escolha é sua...





1 de outubro de 2018

Santa Teresinha — Infância espiritual e naturalidade

➤  Plinio Corrêa de Oliveira 

A concepção moderna do traje é fundamentalmente falsa, porque joga com a ideia de naturalidade. O homem tem de fato duas formas de naturalidade. A primeira é quando sua natureza está entregue a todos os seus instintos — é o estado ruim da natureza, que tende para a barbárie. A segunda é quando sua natureza está educada pela civilização. Adquirindo assim o hábito de se mortificar, ele instala-se até mesmo em situações desagradáveis, mas de um modo tão natural que até se poderia dizer espontâneo. 

Este quadro de Santa Teresinha é um monumento, que exemplifica bem a segunda forma de naturalidade. Observem que é quase impossível uma naturalidade maior. É uma criança inteiramente à vontade dentro de seu traje. De tal maneira à vontade, que se tem a impressão de que nem percebe o próprio corpo, e está apenas meditando. Toda a vida dela está no olhar. Mas notem que sua leveza, sua graça, seus movimentos infantis têm toda a expansão que se pode desejar de uma criança. 

Notem também que é uma menina da pequena burguesia. Seu pai, Monsieur Martin, era um joelheiro de Alençon, pequena cidade francesa. Os pais deram a Santa Teresinha uma educação muito estrita, como se pode ver no porte dela: ereta, não tem nada de mole. A aparência de seu corpo é de suma compostura. Numa criança, isso significa o triunfo da segunda forma de naturalidade, numa menina que está perfeitamente bem nessa situação. Assim se compreende como é uma mentira o mito do “conforto” nudista, largado e escarrapachado. 

Existe para o homem um ponto de equilíbrio muito mais verdadeiro, que é o espiritual. Dessa forma — excluindo outras considerações a que esta foto se presta — ela é um documento sociológico de primeiríssima, mostra a autenticidade da infância numa concepção que não é a de uma criança de anúncio de dentifrício, boba, cretina, que não pensa. Vemos nesse quadro a concepção da infância espiritual profundamente meditativa, precoce, embora inteiramente infantil. E com toda a naturalidade. 

Que impressão teria Santa Teresinha, se visse uma criança moderna? Ficaria chocada, por ver a natureza humana no seu escarrapachado, no seu desgovernado, segundo seus instintos. 

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Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 11 de novembro de 1968. Essa transcrição não passou pela revisão do autor. 
Santa Teresinha (nas fotos, aos 8 anos) nasceu em 2 de janeiro de 1873 em Alençon e faleceu em 30 de setembro de 1897 em Lisieux, França. A grande santa de nossos tempos entrou no Carmelo aos 15 anos, levando uma vida de imolação e sacrifícios em favor das missões e da Igreja. Desejando possuir todas as vocações, para nelas glorificar o Criador, encontrou no amor a Deus a solução para essa aspiração. Por isso foi nomeada padroeira das missões, sem nunca ter deixado a clausura. Sua doutrina espiritual da “pequena via” abriu as portas da perfeição a numerosas almas.