23 de janeiro de 2020

Atitudes em face da morte

➤ Plinio Maria Solimeo 

Nosso mundo hedonista e gozador da vida de nada tem maior temor do que da morte. Só o pensar nela aterroriza-o, estraga todos seus prazeres. Entretanto, dela ninguém escapa. 

Este é o tema que Peter Kwasniewski — escritor católico, autor, palestrante, editor, publicista e compositor — desenvolve em seu interessante artigo publicado no Life Site News sob o sugestivo título: Monges católicos revelam como se preparam para a morte em um mosteiro

Kwasniewski [foto ao lado] começa falando com muita propriedade de uma das pragas de nosso tempo, a tão propalada eutanásia: “Uma prática antes considerada abominável — na verdade, simplesmente uma forma de assassinato a sangue frio daqueles que são mais vulneráveis e mais merecedores de nossa atenção e carinho amorosos — está sendo promovida como a melhor maneira de ‘tirar alguém de sua miséria’, assim como um cavalo manco ou um animal de estimação frágil é ‘abatido’ pelo veterinário [...]. Em vez de enfrentarmos a morte como sendo uma passagem purificadora para a vida eterna, tentamos mercantilizá-la como uma forma final de paliativo”

Ele concorda que o medo da morte é natural, pois o próprio Filho de Deus o teve. Entretanto, escondê-la ou ignorá-la não adianta, além de ir contra o que diz a Sagrada Escritura: “Pensa nos teus novíssimos e não pecarás eternamente” (Ecl. 7, 40). Sabemos que os “novíssimos” são as últimas coisas que irremediavelmente nos acontecerão: a morte, à qual sucederão o juízo particular e — conforme nós tivermos vivido — o inferno ou o paraíso para sempre.

Mesmo quando é irremediável encarar a morte, procura-se tirar dela todo o aspecto religioso. A eutanásia, por exemplo, é baseada em considerações puramente materialistas e ateias. A explicação para isso no-la dá o ilustre escritor: “Sem Deus, a morte não pode ter sentido; sem Cristo, a morte não pode ter benefício; sem o Espírito Santo, a morte não pode ser encarada com amor e esperança. Torna-se o grande absurdo, e não a passagem da vida mortal para a imortal”.

Kwasniewski passa então a falar de um livro que foi publicado há pouco nos Estados Unidos, escrito pelo jornalista francês Nicolas Diat e intitulado Hora de morrer: monges no limiar da vida eterna [capa ao lado], no qual o autor relata sua experiência nas visitas que fez a oito mosteiros na França com o objetivo de conversar com os monges sobre seus pontos de vista sobre a morte, como eles se preparam para ela e como os afeta verem seus irmãos de hábito passar desta vida para a eterna. 

Entre os monges entrevistados, Dom David, da Abadia de En-Calcat, considerou que o homem construiu um mundo tão tecnológico, que esse mesmo mundo agora o humilha e o faz sentir vergonha, numa espécie de complexo de inferioridade. Aduziu que para a antropologia clássica o homem era o rei e o cume do reino animal, mas que nos últimos 50 anos ele se tornou insignificante num mundo dominado por ídolos tecnológicos. Afirma o jornalista: “Dom David diz que a nossa tecnologia médica se desenvolveu a tal ponto, que prolonga a nossa agonia e nos deixa em frangalhos. Podemos acabar vendo a nós mesmos e uns aos outros de uma maneira despersonalizada, como se fôssemos máquinas com partes funcionais ou não funcionais, em vez de ver a imagem de Deus, que é infinitamente mais preciosa que a própria vida corporal e qualquer tecnologia que possamos reunir”. Comenta Diat: “Os leitores podem se surpreender ao saber (embora seja lógico) que os mosteiros enfrentam os mesmos desafios que os leigos enfrentam no mundo: cuidados com o fim da vida, remédios para dor, quando levar alguém do hospital para casa a fim de morrer em sua própria cama” etc. 

Como a morte é o momento mais importante de nossa vida porque sela o nosso destino eterno, ela o é sobretudo na vida de um monge. Assim, o enfermeiro da conhecida Abadia de Solesmes disse que aprendeu a “desacelerar” para prestar atenção nos detalhes no cuidado dos doentes: “Existe o risco de mercantilização do doente. Devo rezar para manter acordada a força do meu desejo de servir. [O irmão doente] é Cristo. Quando chegarmos diante de Deus, seremos responsáveis por nossa caridade para com os mais fracos. Preciso saber como ‘perder meu tempo’ com os doentes. Na vida, dar livremente é essencial. Cristo disse que o homem que perde a vida a ganha”. 

Por sua vez, comenta o Irmão Teofano, da Abadia de Sept-Fons [foto]: “Nunca estou tão consciente da presença de Deus como no momento da morte de meus irmãos. Há uma pausa, um antes e depois. Estamos no ponto da mais perfeita intersecção entre Deus e os vivos”.

Dom Olivier, monge da Abadia de Cîteaux, fala filosoficamente sobre a preparação diária para a morte: “A morte mais difícil é a pequena morte diária, quando estamos perfeitamente saudáveis. Na vida, passamos de uma morte para outra; elas nos preparam para o fim último. Poucas mortes do ego se tornam grandes e permitem uma boa morte”. 

Diat comenta que na abadia de Mondayes e conta a história de um velho soldado da Segunda Guerra Mundial que se tornou monge ali. Quando ele estava muito doente no hospital, o abade de seu mosteiro foi ministrar-lhe os últimos ritos a fim de prepará-lo para a morte. Quando terminou a cerimônia, o Superior inusitadamente abriu uma garrafa de champanhe, e ambos beberam um brinde à morte. Dois dias depois, o veterano soldado e monge, trazido de volta ao seu mosteiro, entregava em paz sua alma a Deus. Conclui Diat: “Uma comunidade completa se compõe de vivos e mortos”.

Um monge da Abadia de Fontgombault, mosteiro beneditino de observância totalmente tradicional, afirmou o que se pode aplicar a todo mundo, e não só aos religiosos: “Quanto mais forte a vida sobrenatural, maior a familiaridade com a vida após a morte, e mais simples a morte”. “A tradição católica enfatizou há muito esse mesmo ponto: se desejamos ter uma morte santa, devemos construir os hábitos em nossas vidas que entrarão em jogo em nossa hora de maior necessidade. A morte, nesse sentido, não passa de um momento final de um processo que a antecede e se prepara por muito tempo. Aqueles que acham ‘injusto’ que o destino eterno de uma pessoa dependa unicamente do estado da alma no momento da morte, não estão pensando corretamente: não veem a verdade de que ‘como um homem vive, ele morre’”

Também monge de Fontgombault, Dom Pateau, afirma que “a tecnologia nos domina até os momentos finais”. “Deus deve nos forçar a aproveitar esse tempo: Ele diz: ‘Basta’, quando o homem moderno responderia prontamente: ‘Não tenho tempo’. Estaríamos prontos para perder o ponto alto desta vida. O homem se tornou escravo. Do mesmo modo, ele não tem mais tempo para si e para Deus. A falta é cruel. Ele não tem tempo para morrer porque não tem tempo para viver. Por sua parte, o monge concorda em perder todo o seu tempo para Deus. A vida monástica é feliz; a morte monástica também é”

O autor conclui considerando como a morte é vista pelos cartuxos, os mais austeros e inacessíveis de todos os religiosos. Um deles lhe diz: “Passo metade da minha vida pensando na vida eterna. Ela é o pano de fundo constante que reveste toda a minha existência [...]. Devemos amar esta porta que nos permitirá conhecer o Pai”. Depois acrescenta: “Não é a porta que eu estou esperando, mas o que está do outro lado dela. Não estou esperando pela morte, mas pela Vida”

Diat comenta que se diz correntemente dos cartuxos que eles “fazem santos”, “mas não promovem suas causas”, porque todos devem tender à santidade. E narra o caso de um irmão leigo cartuxo que em meados do século XVII começou a praticar muitos milagres em sua sepultura, ameaçando tornar o mosteiro um lugar de peregrinação, com todos os inconvenientes inerentes a isso. O prior então, para cortar o mal pela raiz, dirigiu-se ao falecido monge e lhe disse: “Em nome da santa obediência, eu vos proíbo de fazer milagres”. A partir de então os fenômenos extraordinários cessaram. _______________ 
Fonte: https://www.lifesitenews.com/blogs/catholic-monks-reveal-how-they-prepare-for-death-in-a-monastery

11 de janeiro de 2020

Para esses dias aterrorizadores...

"A Paz carregada num carro de Guerra" - Monumento em Londres, o "Arco de Green Park", para comemorar as vitórias britânicas nas Guerras Napoleônicas.

Para esses dias aterrorizadores, com ameças de conflitos que poderiam envolver várias nações, seguem algumas frases para refletirmos: 

“Não se busca a paz para provocar a guerra, mas faz-se a guerra para conseguir a paz”. 

(Santo Agostinho)

 

“Si vis pacem, para bellum” (Se queres a paz, prepara-te para a guerra). 

(Provérbio latino)

 

“Apenas ameaçai com a guerra, e tereis paz; vejam-vos preparados para usar a força, e eles mesmos restaurarão o direito”. 

(Tito Lívio)

 

“Pior do que a guerra é o próprio medo da guerra”. 

(Sêneca)

 

“Se quisermos gozar da paz, é preciso fazer a guerra”. 

(Cícero)

 

“A guerra é a continuação da política por outros meios”. 

(Clausewitz)

 

“Tínheis a escolher entre a vergonha e a guerra. Escolhestes a vergonha, e tereis a guerra”. 

(Churchill)

9 de janeiro de 2020

RETROSPECTO DE 2019

Crise social, moral, religiosa e reações auspiciosas numa civilização e num mundo em combustão. Não é fácil encontrar um fato que sintetize os acontecimentos desse ano que findou, mas poderíamos escolher uma imagem como sendo a mais figurativa de 2019: o incêndio em Notre-Dame, a catedral arquetípica, o edifício mais visitado da Europa, resume a história da Civilização, que sente, como todos nós, o abalo causado pelas chamas.  


Fonte: Revista Catolicismo, Nº 829, Janeiro/2020 

Para sintetizar de algum modo o ano de 2019, poderíamos escolher uma imagem muito simbólica: o incêndio em Notre-Dame, a belíssima Catedral de Paris. Ela representa não somente a alma da França, mas a alma da Cristandade. Para inúmeras pessoas, é a mais bela e mais simbólica do mundo, o pináculo da arte francesa, a glória da arquitetura gótica medieval. 

Esse monumental símbolo da Cristandade ardeu em chamas no dia 15 de abril. Não somente a França, mas também grande parte da população mundial sentiu-se coberta de luto. E se o fogo tivesse devorado completamente essa catedral por excelência, todos nos sentiríamos em alguma medida na condição de órfãos. Atingindo tão violentamente esse símbolo da Cristandade, o desastre bem pode simbolizar o incêndio na “barca de Pedro” (a fumaça de Satanás, no dizer de Paulo VI), que vai corroendo os alicerces da Civilização Cristã. 

O ano de 2019 esteve carregado de grandes acontecimentos auspiciosos, mas também de muitos outros sintomáticos da revolução cultural e do caos generalizado, introduzidos na Igreja e no mundo. Por exemplo, arderam agitações violentas e anárquicas em muitos países, com expressão máxima nas antes tranquilas e prósperas ruas de cidades chilenas. 

Tais agitações agradaram ao ex-presidente Lula da Silva, que logo ao ser solto da cadeia incitou arruaças no Brasil, dizendo ser preciso imitar o Chile. No entanto essa grandiloquência agitante caiu no vazio, pois todos conhecemos na própria pele suas funestas consequências. E o projeto das esquerdas de “venezuelizar” várias nações continua na ordem do dia. Está presente também na pauta de grande parte da mídia, que torce desesperadamente pela implantação da agenda lulopetista-bolivariana, apesar do total fracasso dos governos esquerdistas. 

Expressão máxima do ano, como causa e efeito do “incêndio” na Igreja católica, o Sínodo Pan-Amazônico deve passar para a história como “Sínodo da Pachamama”. Além de impulsionar o comuno-tribalismo indigenista, muitos de seus participantes introduziram e veneraram nos jardins do Vaticano, com a presença e apoio do Papa Francisco, esse ídolo pagão. Mais um gesto coletivo de “autodemolição” da Igreja, que levou muitas autoridades a falar em cisma. 

No sentido oposto ao ambicionado pela mídia esquerdista, Catolicismo deseja ardentemente que 2020 seja decisivo na marcha pela restauração dos valores da Cristandade, em todo o seu esplendor e integridade; características estas que desejamos e apoiamos também no que se refere à restauração da Catedral de Notre-Dame — ou seja, exatamente como foi em seu glorioso passado, e não desfigurada por modernismo nem paganismo disfarçado. 

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Esses e outros grandes acontecimentos são expostos na matéria principal da edição deste mês da Revista Catolicismo. (Para fazer uma assinatura desta publicação, envie um e-mail para catolicismo@terra.com.br).

23 de dezembro de 2019

Os Reis Magos seguiram a estrela de Belém e encontraram o berço de Cristo

Capa da Revista Catolicismo, Dezembro/2019 *
Orientados pela estrela de Belém, os três Reis Magos seguiram de suas longínquas regiões até a gruta onde nascera o Menino Jesus. Lá eles O encontraram iluminado pela estrela, amparado maternalmente nos braços da Santíssima Virgem, protegido por São José. 

Diante de tão magnífica cena, os Reis Magos — os veneráveis sábios Melchior, Gaspar e Baltasar — se prosternaram e adoraram o Divino Infante, enviado para redimir o gênero humano. Nesse ato eles representavam todas as raças e povos da Terra, chamados a amar, servir e glorificar a Deus. O Papa São Leão Magno afirmou: “Reconhecemos nos Magos, que adoraram a Cristo, as primícias de nossa vocação e de nossa fé”. 

Qual o simbolismo daquela estrela, mais brilhante e mais bela que todas as demais disseminadas pelos céus? Foi um novo astro que apareceu, vindo do Oriente? Ou era um Anjo incumbido pelo Criador para anunciar que todas as nações deveriam reconhecer no recém-nascido o Messias profetizado desde os primeiros tempos? E os três Reis Magos, o que significaram para a humanidade? Qual a missão deles? Que simbolismo há nos presentes (ouro, incenso e mirra) que ofereceram ao Menino-Deus? 

Com a leitura da matéria principal da edição da revista Catolicismo deste mês, nossos leitores conhecerão as explicações expostas pelo jesuíta Cornélio a Lapide, grande exegeta do século XVI. Em um dos volumes de sua célebre obra Commentaria in Scripturam Sacram, ele analisa e interpreta as seguintes palavras de São Mateus: “Tendo, pois, nascido Jesus em Belém de Judá, nos dias do rei Herodes, eis que uns magos vieram do Oriente a Jerusalém, dizendo: ‘Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Porque nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo’” (Mt 21, 12). 

Genuflexos diante do Presépio, e desejando a todos um Santo e Feliz Natal, suplicamos à Sagrada Família que dispense aos nossos leitores as mais escolhidas graças e bênçãos, extensivas a todos os seus familiares. Que Jesus, Maria e José, à maneira da estrela de Belém, a todos orientem, iluminando seus caminhos ao longo desse novo ano que se anuncia. Pediremos também à Sagrada Família que conduza o Brasil nas trilhas de sua grandiosa vocação, traçada pela Providência Divina desde o batismo de nosso País como Terra de Santa Cruz. 

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* Faça uma assinatura de Catolicismo para receber, de janeiro a dezembro/2020, a revista em sua residência. Para isso envie um e-mail para: catolicismo@terra.com.br

22 de dezembro de 2019

NATAL — Algumas frases para refletirmos diante do Santo Presépio

“Era sábio [o Menino Jesus] de maneira inexplicável, de uma sabedoria unida à infância”. 

(Santo Agostinho) 


“Meu divino Redentor, na medida em que vos abaixastes, fazendo-vos homem e criança, brilharam a misericórdia e o amor que nos mostrastes, a fim de ganhar os nossos corações”. 

(São Bernardo) 


“Que alma haverá tão feroz que não se deixe vencer pelos encantos dessa criança? Que coração tão duro que não se enterneça à sua vista?” 

(São Pedro Crisólogo) 


“Oh acontecimento admirável! Uma virgem se torna mãe, permanecendo virgem! Considera a nova ordem da natureza. Qualquer outra mulher, se permanece virgem, não pode tornar-se mãe; tornando-se mãe, já não conserva a virgindade. Neste caso, porém, as duas qualidades se mantêm. A mesma pessoa é mãe e virgem. A virgindade não a impediu de gerar, o parto não lhe tirou a virgindade. Era conveniente que, vindo para tornar os homens íntegros e incorruptos, o Salvador fizesse seu ingresso na vida humana a partir da integridade total, consagrada a Ele sem reserva”. 

(São Gregório de Nissa)

19 de dezembro de 2019

Bolo em camadas

O ambiente familiar é o mais importante para a formação do caráter e o florescimento do que a instrução fora de casa poderá proporcionar. O que acontece até os 5 anos marca fundo a vida toda. Se no Brasil faz muita falta a primeira educação familiar, é porque a família está falhando. 


➤  Péricles Capanema

Meu primeiro impulso foi pôr aí em cima o equivalente, mais expressivo, gâteau de couches e não bolo em camadas. Gâteau de couches nos remete a mais sabores e a formas mais bonitas, à pâtisserie (doçaria, confeitaria) francesa, produtos que são verdadeiras obras de arte, pequenos andares de delícias de diferentes gostos.

A ideia de fundo é a de soma, adição de realidades harmônicas e complementares. Como metáfora, serve para quê? Para os mais variados fins, no meu caso para representar virtude, para muitos amarga e dura, a seriedade. O contrário, a seriedade é atitude que torna suave a vida. Seriedade é objetividade; vou procurar tê-la como inspiração e ser objetivo ao tratar dos dados divulgados pelo PISA mais recente. Não me esqueço, como os bolos, temos seriedade de uma camada, seriedade de duas, de várias camadas, a seriedade simples do porteiro e a seriedade elaborada do general. 

De início, vamos considerar com seriedade simples (bolo de uma camada), sem desviar o olhar, os dados devastadores do PISA de 2018 (Programme for International Student Assessment – PISA, em inglês, Programa Internacional de Avaliação de Alunos), exame aplicado a cada três anos em 79 países a estudantes de até 15 anos; mais de 600 mil avaliados, dos quais 17,5 mil brasileiros. São dados controversos, mas apontam uma direção. O Brasil ficou na 66ª posição. Em leitura, 54ª, ciências, 67ª, em matemática, na 70ª. Na China, 16% dos estudantes estão no nível mais alto da disciplina, com raciocínio matemático considerado avançado. Entre os países da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento), apenas 2,4% dos alunos chegam a esse patamar. 

Outro ponto. Os colégios de elite brasileiros colocam o país na 5ª posição da leitura, ao lado da Estônia. O resultado das escolas públicas nesse quesito é o 65º. Escolas privadas de elite, o Brasil em ciências fica no 12º no mundo. Escola pública em ciências, Brasil no 71º. Privada de elite em matemática, 30º lugar. Púbica em matemática, 75º. 10% dos jovens do mundo conseguem diferenciar fato de opinião. No Brasil, total bem menor, 2%. Nenhum aluno das classes mais pobres conseguiu fazer tal distinção. Parte dos alunos das privadas de elite termina os estudos no Exterior e não volta ao Brasil.

O quadro desolador vem do que tem sido nossa educação fundamental há décadas. Se não for mudado, esqueçam o Brasil entre as nações mais prósperas da Terra para as próximas décadas. Estamos dentro da sociedade do conhecimento. O começo do caminho — não é o único, mas essencial — para a prosperidade do Brasil é aumentar o padrão do ensino fundamental das escolas públicas. Vale tri-trilhões de vezes mais que ficar tagarelando e papagaiando frases feitas como “resgatar a pobreza”, “pagar a dívida social”, “eliminar a desigualdade”, “distribuir renda”, e vai por aí afora. Pior ainda seria moldar o ensino fundamental segundo doutrinas demolidoras como as de Paulo Freire ou a ideologia de gênero. Acabaria de afundar. 

Não vou ser conselheiro Acácio, temos grandes técnicos na área que sabem exatamente o que propor e fazer. O óbvio ululante é que nos últimos 50 anos o rumo foi frouxo e cheio de defeitos. Repito, se não for consertado o ensino fundamental, a rabeira será nosso destino permanente. Sei, boa instrução não basta para a prosperidade. Mas é essencial. E, quem nasceu pobre, via de regra, só tem uma oportunidade de crescer na vida; fazer, nos seus primeiros anos, um bom curso fundamental.

Vou deixar o bolo em uma camada, vamos para o bolo em duas camadas. De outro modo, colocar mais algumas questões no quadro. Por vezes com boas razões se criticam no Brasil as desigualdades gritantes, a infância desamparada, o uso que o crime organizado faz de crianças. Como diminuí-los? Ao lado do ensino fundamental, base dele, faz falta a primeira educação familiar. O ambiente familiar é o mais importante para a formação do caráter e o florescimento do que a instrução fora de casa poderá proporcionar. O que acontece até os 5 anos marca fundo a vida toda. Se no Brasil faz muita falta a primeira educação familiar, é porque a família está falhando. E assim, quem a defende com unhas e dentes, luta por causa social de generalizado impacto na diminuição da pobreza. O economista Prof. Roberto Macedo, discorrendo sobre educação, em especial a infantil, ressaltou ponto de enorme importância: 
“Tive circunstâncias educacionais muito favoráveis, pois minha mãe deixou o magistério para cuidar dos seus oito filhos. Na época, famílias desse tamanho eram comuns. Ela levou todos à escola, e nossa casa era também uma escola, pois ela ensinava várias coisas, e cobrava desempenho escolar. Havia também muitos livros e até jornais diários, que atraíam nossa atenção. E jogos infantis, muita conversa com ela e entre irmãos, tudo isso estimulando nossa cabeça já na primeira infância. E, ainda, a interação com os filhos de famílias vizinhas, também ajudando no desenvolvimento intelectual e social”. 
As duas primeiras camadas eram até certo ponto previsíveis. A terceira, acho, nesse bolo em três camadas, é que traz novidade. Relia partes do livro “Minha vida de menina” de Helena Morley (pseudônimo de Alice Dayrell Caldeira Brant) — do qual Georges Bernanos certa vez comentou com o ministro Capanema: “obra genial, livro único, impossível de traduzir, um milagre” — e topei com cena instrutiva de fins do século XIX em Diamantina: 
“Hoje tive o maior espanto de minha vida. Vovó, todos os sábados, manda um de meus irmãos ao Palácio, que é perto da Chácara, trocar uma nota em borruquês do Bispo. Põe tudo numa caixa de papelão e fica sentada na sala de jantar, à espera das pobres delas. A cada uma dá um borruquê novo de duzentos réis. São elas, Chichi Bombom, Frutuosa Pau-de-Sebo, Teresa Doida, Aninha Tico-Tico, Carlota Pistola, Teresa Buscapé, Eufrásia Boaventura, Maria Pipoca e siá Fortunata. [...] Eu sempre fico por perto ouvindo as queixas”. 
Uma avó, com a neta por perto, recebe na sala mulheres pobres para dar esmola. Ambiente descontraído, acolhedor, simples, respeitoso, onde, imersas num ar difícil de definir, pretas, brancas, mulatas conversam, trocam opiniões e depois as pobres vão embora. Se o Brasil quer de fato um dia ser grande — grande de grandeza cristã, a única que interessa — e não apenas próspero, este ar difícil de definir não pode morrer. Digo mais, não pode definhar. Enfatizo: tem que se firmar, aperfeiçoar-se e conquistar espaços.

É esse o ambiente do Brasil antigo, também percebido nas palavras do Prof. Macedo. Definha, infelizmente, está morrendo. Se desaparecer por inteiro, de nada vai adiantar estarmos na primeira fila do ensino fundamental. E concluo, para ser proveitosa, a análise da formação infanto-juvenil entre nós requer olhares de profundidade diferentes. Só então se apresentará apetitosa, atraente e nutritiva como um bolo em camadas. (periclescapanema.blogspot.com).

12 de dezembro de 2019

A poesia e o encanto da noite de Natal

➤  Plinio Corrêa de Oliveira 

Nós imaginamos a noite de Natal e todas as noites natalinas — exceto a do Natal laico e comercializado de hoje — com as harmonias da sublime canção alemã “Stille Nacht, heilige Nacht, alles schläft, einsam wacht, nur das traute, hochheilige Paar” (Noite silenciosa, noite Santa, todos dormem. Só e desperto, apenas o fiel e santíssimo casal). 

Outrora a noite de Natal tinha um néctar, uma poesia, um encanto, um discernimento de espírito por onde todo mundo como que sentia e conhecia a graça propiciada pelo Menino Jesus, que do mais alto do Céu desce até nós como um orvalho. 


Natividade – Giovanni Antonio Pellegrini (1725-1727).
Presbitério da igreja dos Salesianos, Viena. 
Do claustro sacratíssimo de Nossa Senhora, e sem transgredir a virgindade intacta da mãe, Ele vem à Terra. A Virgem teve um Filho, e a Terra se extasia. É realmente uma maravilha!







Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 15 de agosto de 1980. Esta transcrição não passou pela revisão do autor. Fonte: Revista Catolicismo, Nº 828, Dezembro/2019.

11 de dezembro de 2019

Aspectos nobres e grandiosos da noite

➤  Plinio Corrêa de Oliveira 

Um modo trivial de considerar as horas do dia é de acordo com as necessidades do nosso corpo, e assim se diz comumente que a manhã é a hora em que as pessoas se levantam e iniciam seu trabalho; o meio dia, aproximadamente a hora em que almoçamos; e à noite se dorme, se descansa. 


Quanto à noite, há um modo físico de considerá-la, como a parte do dia em que há escuridão; ou o período em que as pessoas não trabalham. Mas essas considerações não abrangem tudo que realmente se concebe por noite. Todas as forças malignas da natureza se desatam quando escurece. Enquanto colibris, águias e pombas dormem, os bichos selvagens, como morcegos e répteis, saem de suas tocas e começam a vaguear. É a hora em que as febres aumentam, as doenças pioram e a maioria dos crimes são cometidos. Há um desatar de forças maléficas durante a noite, que durante o dia ficam subjugadas. 

Joseph de Maistre, que viveu numa época em que não havia telefone, comentava que durante as noites ele permanecia sem informações sobre amigos doentes, pois os perigos da noite — quando também aumentam as doenças, mortes, desenlaces trágicos — o impediam de mandar o lacaio à casa deles, para saber como estavam passando. 

Entretanto a noite, sendo a hora em que os homens repousam, em que as atividades quotidianas cessam, tem concomitantemente algo que de certo modo é contrário a este. Trata-se do aspecto belo e grandioso da noite, em que os homens de contemplação e de pensamento tomam certo recuo em relação às coisas. É a hora da análise, da reflexão, a hora em que os homens se elevam acima do trivial diário, em que empreendem o voo de seu espírito e de sua capacidade de meditação.


Jesus Cristo na vigília noturna no Horto das Oliveiras
A noite é a hora da oração, em que Deus parece velar assiduamente pelos que estão dormindo. É também a hora na qual os homens mais facilmente conseguem, por meio da prece, obter de Deus o que desejam. É a hora em que vigiam os que sofrem, os que se sacrificam pela Igreja. É a hora em que se empenham defensivamente os que são tentados, atormentados, e que não conseguem conciliar o sono. Nesta hora se medita e se reza. 

Há algo de particularmente digno na meditação noturna, e isto confere à noite uma espécie de nobreza, que nem o meio dia, com o sol no seu apogeu, consegue proporcionar. Nessa hora a vida adquire um colorido especial, mais nobre, mais alto. Esta nobreza e solenidade da noite é um fato. A tal ponto que certos atos solenes são realizados à noite, por ficarem revestidos de maior pompa do que se fossem realizados durante o dia.


Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 30 de junho de 1965. Esta transcrição não passou pela revisão do autor.

O Natal e a Sagrada Família

➤  Mathias von Gersdorff 

Nos próximos dias a Igreja vai comemorar diversas festas, cuja mensagem não é apenas extremamente forte, mas também excepcionalmente atual. Assim, teremos no dia 25 de dezembro o nascimento do Menino Jesus; no dia 26 o martírio de Santo Estevão; no dia 28 a matança dos Santos Inocentes, e no primeiro domingo depois do Natal a festa da Sagrada Família. 

Dessas festas, a da Natividade de Nosso Senhor Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, sem dúvida é a mais importante. Seu nascimento marca também o início de uma nova fase na história da humanidade. É compreensível que o Cristianismo tenha dividido a História em tempo antes e depois de Cristo, expressando deste modo que toda a criação, incluindo tudo o que é terreno, está ordenado a Jesus Cristo. Todas as ações humanas têm Nosso Senhor como ponto de referência (Mt 12, 30; Mc 9, 40).

Deus Pai, Todo-Poderoso, Criador do Céu e da Terra, poderia ter disposto que seu Filho viesse ao mundo como adulto para pregar o Evangelho e salvar a humanidade decaída. Ele quis, porém, que Jesus nascesse em uma família como um bebê vulnerável, necessitado de proteção. O desígnio divino parece tão adequado hoje em dia, que a ideia de que poderia ter sido diferente parece quase blasfema.

A Sagrada Família é por excelência o modelo de família 

Sagrada Família, conjunto escultórico da Igreja do Carmo,
Rio de Janeiro [Foto PRC]
Deste modo a Sagrada Família entra em nosso campo de visão: Jesus, Maria e José. Uma família composta pelo Filho de Deus, por sua Mãe e pelo protetor que Deus lhes destinou. Não é uma família qualquer. É a Sagrada Família, a família por excelência, modelo de todas as famílias, sagrada não apenas pela santidade ímpar de seus membros, mas também pelo fato de servir de exemplo para todas as famílias em todos os tempos e lugares.

Nela encontramos imensos contrastes, de nenhum modo exagerados, antes pelo contrário. Assim, conquanto muito inferior do ponto de vista sobrenatural ao Menino Jesus e a Nossa Senhora, São José era o chefe dessa família, embora Jesus fosse Deus encarnado e Maria sua verdadeira mãe. São José, embora carpinteiro, pertencia à mais alta linhagem judaica, à família real de Davi (São Lucas 2, 4; São Marcos 10, 47). Muitos teólogos e exegetas de renome são da opinião de que São José era então de jure o soberano legítimo da Palestina. 

Embora Deus humanado, Jesus subordinou-se a seus pais e lhes obedeceu (São Lucas 2, 51). Pois Deus ama a tal ponto sua própria criação, que se conformou às leis que regem o matrimonio e a família. 

O contexto social em que Jesus Cristo nasceu 

Sagrada Família, quadro venerado na sede do
Instituto Plinio Corrêa de Oliveira [Foto PRC]
Deus considerou proporcionado e adequado crescer durante nove meses no seio puríssimo da Virgem Maria, e depois de nascido, ser nutrido por Ela. Naturalmente falando, Maria é a mais baixa das três pessoas dessa família, pois Jesus Cristo é Deus, e São José, o chefe da família. Mas a maternidade divina eleva Maria à preeminência sobre todas as criaturas: “Porque olhou para a humildade de sua serva. Doravante todas as gerações me chamarão bem-aventurada” (São Lucas 1, 48). A Igreja Católica venera Maria pelo fato de ser Mãe de Jesus, como Rainha do Céu e da Terra (cf. Papa Pio XII, encíclica Ad Caeli Reginam). Assim, na Sagrada Família, encontramos desigualdades que dificilmente poderiam ser mais extremas. No entanto, nenhuma pessoa razoável afirmaria que nela não existe harmonia. 

Ao magno acontecimento de Belém, cerca de 2.000 anos atrás, seguiram-se implicações políticas, culturais e sociais. A família é o núcleo da sociedade. Mas a Sagrada Família é o núcleo da civilização cristã. A noite santa e feliz representou igualmente o nascimento da civilização cristã. Naquela noite começava um processo histórico que produziu todas as obras espirituais, intelectuais, sociais e materiais do Cristianismo ao longo de dois milênios. Com a Sagrada Família, cercada de pastores e acompanhada dos Reis Magos, o Cristianismo começa a se tornar uma realidade social e, portanto, também cultural e política. Todas as riquezas espirituais e morais que viriam à luz no curso da História já estavam presentes em germe na gruta de Belém. 

Nesse sentido, Cristo nasce não apenas em uma família, mas em um contexto social criado pelo próprio Deus. Assim como hoje, esse núcleo cristão estava em nítido contraste com a sociedade então moralmente corrupta de adoradores de ídolos do paganismo antigo. 

Santo Estevão, o protomártir 

Santo Estevão, 
Francesco Raibolini (1450), Galeria Borghese
As duas festas dos dias subsequentes mostram bem que esse processo não se desenvolveu sem percalços: em 26 de dezembro — ou seja, no segundo dia de Natal, conforme se comemora na Alemanha —, a Cristandade celebra a memória do protomártir Santo Estevão. Ao longo da História, incontáveis cristãos seguirão a mesma via, massacrados pelos Neros, Robespierres, Stalins, Hitlers e, mais recentemente, pelo terrorismo islâmico. Jesus Cristo veio ao mundo para trazer a paz entre Deus e os homens, mas muitos destes não querem essa paz e, para evitá-la, estão dispostos a matar. 

Dois dias depois, em 28 de dezembro, segue-se outro incidente sangrento: a matança dos Santos Inocentes. As circunstâncias deste assassinato em massa estão bem descritas no Evangelho. Herodes, o governante ilegal da Terra Santa, temeu perder o poder ao tomar conhecimento do nascimento de um rei. A fim de eliminar o futuro concorrente, ordenou o assassinato de todos os meninos de até dois anos de idade.


“O Massacre dos Santos Inocentes” 
(detalhe do quadro de Hans Memling, 1480)
Assim Herodes tornou-se um modelo espantoso para todos aqueles que, por desejo de mando ou por cálculos políticos, atacam crianças moral ou fisicamente. É precursor dos que promovem a matança de crianças. O apoderamento das crianças por mero cálculo político é o denominador comum de todas as ideologias que surgiram no século XX.

No comunismo foram figuras como Margot Honecker que subordinaram a educação infantil inteiramente à criação do homem novo socialista. Hoje, políticos detentores do poder são os que atacam as almas inocentes nas escolas através da educação sexual e da ideologia de gênero. Embora não tirem a vida das crianças, tentam matar-lhes a inocência a fim de torná-las propagandistas de suas ideologias insanas. 

No fundo, porém, todas essas festas litúrgicas da Igreja contêm uma estupenda mensagem de esperança: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade” (São Lucas 2, 14). Essa mensagem dos Anjos, dada no meio da noite aos pastores de Belém, é dirigida a todas as pessoas de boa vontade, encontrem-se elas num campo de concentração comunista em Cuba, na China ou na Coreia do Norte. E a todos os pais de família que no mundo inteiro defendem seus filhos das garras dos ideólogos de gênero.

Desejo a todos os leitores um Santo Natal e um feliz Ano Novo! 

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Fonte: http://mathias-von-gersdorff.blogspot.com 
Título original: Weihnachten und die Heilige Familie 
Tradução: Renato Murta de Vasconcelos

9 de dezembro de 2019

Como entender o que acontece no Chile?


➤  Juan Antonio Montes

Santiago – Causou surpresa na opinião mundial a violência desencadeada no Chile a partir de 18 de outubro passado, com saques e incêndios do metrô, lojas, sedes de partidos políticos e igrejas, e inúmeras cenas de vandalismo. De fato, como entender que uma população com os melhores índices econômicos do continente possa estar tão insatisfeita? Como justificar que seus beneficiários repudiem o que construíram com tanto esforço e dificuldade em três décadas?

Comentaristas e analistas de todo o mundo tentaram explicar o inexplicável. Em seus comentários, há razões como insatisfação acumulada há anos, expectativas que não se atendem na velocidade desejada, uma geração que recebeu tudo sem esforço e não o valorizou. Todos esses aspectos do problema podem influenciar os fatos, mas não explicam o ódio mais profundo que aí se manifestou. 

Um ânimo destruidor repentino? 

Estação do metrô de Santiago incendiada
Por ocasião dos feriados nacionais em 18 de setembro, precisamente um mês antes do início dos protestos, a grande preocupação dos chilenos era saber onde as festas aconteceriam, e se os pedágios seriam automatizados para permitir o atendimento rápido de milhares de carros que se deslocariam em direção à costa ou ao sul do país. Nada pressagiava que, apenas quatro semanas depois, estivessem ardendo em chamas as mesmas cabines das praças de pedágio, que as pessoas queriam rápidas e eficientes. 

Eis aí uma constatação que evidencia o caráter repentino da manifestação. Bastou um aumento de pouco menos de 25% no valor da passagem do metrô, para que as manifestações anárquicas começassem. Houve um colapso das catracas das principais estações e o subsequente incêndio criminoso de várias delas e de ônibus do serviço de transporte. Pessoas que antes pareciam satisfeitas com a vida queimavam e destruíam tudo ao seu alcance.

Três décadas de governos permissivos 

Igrejas católicas saqueadas e sacrilégios praticados
Os incendiários e predadores de bens públicos e privados geralmente não excedem 30 anos de idade. Correspondem, portanto, àqueles que nasceram durante o constante crescimento da produção, do poder de compra e do valor real dos salários. De acordo com a Pesquisa Casen, divulgada em agosto passado, “em 11 anos a taxa [de pobreza] caiu 20,5%; quanto à pobreza extrema, entretanto, é de 2,3%, o que equivale a 412.839 pessoas”. O ministro do Desenvolvimento, que anunciou esses resultados, declarou: “Na primeira vez que a pobreza é medida no Chile, ela estagnou”. 

Entretanto, ao mesmo tempo em que nessas três décadas a sociedade era economicamente enriquecida, a instituição da família, célula básica da sociedade, rapidamente foi corroída nos seus fundamentos cristãos. Tal corrosão não foi obra do acaso ou das tendências modernas. Foi o objetivo pretendido pelos socialistas, quando recuperaram o poder após a tragédia da experiência socialista do ex-presidente Allende. Os socialistas chilenos perceberam que, após esse fracasso, nunca mais voltariam ao poder político com um discurso estatista e nivelador. A única maneira de o retomarem seria aplicar seus postulados igualitários à esfera cultural, especialmente à instituição da família. Com método, teimosia, e muitas vezes com a colaboração de parlamentares do centro-direita, foram aplicados esses postulados para estabelecer o conceito de “diferentes tipos de família” e a relativização do pátrio poder. 

Os governos esquerdistas impunham uma sucessiva cultura de “direitos”: aborto, gênero, educação sexual permissiva, igualdade entre crianças nascidas dentro e fora do casamento, união homossexual, etc. Saíram gradualmente do cenário conceitos como deveres, obrigações, requisitos e esforço individual dos mais novos.

Não surpreende portanto que, após três décadas de imposição dessa agenda amoral, seu fruto seja o de uma geração apenas desejosa de ter “tudo, agora, e para sempre”, como reivindicava na França o ex-presidente socialista François Mitterrand. No entanto, como é evidente que nem todos podem ter “tudo, agora, e para sempre”, os destruidores pensam ser melhor que ninguém tenha nada, e que não o tenha nunca. 

Os objetivos desses ataques 

Imagem do Sagrado Coração de Jesus roubada da Igreja e profanada na rua
Para conhecer o espírito de uma revolução — e o que está acontecendo no Chile é precisamente uma revolução —, devemos discernir os objetivos dos setores mais radicais. Há neles um desejo revolucionário niilista, que não foi suficientemente considerado, pois parecem movidos por um ódio novo, quase metafísico, no qual o slogan é “destruir”, “fugir” de qualquer compromisso com a sociedade e com o bem comum de seus membros. 

Os políticos, tanto do governo quanto da oposição, acreditam que o problema será resolvido com medidas econômicas (mais royalties e menos liberdade individual) e de ordem política (uma nova Constituição). Uns e outros se apressam em atender a essas supostas demandas, pois a cegueira do chamado “centro esquerda” não os deixa entender que o objetivo dos vândalos é incendiar o próprio Congresso, onde os políticos, como tribunos da República, estão sempre prontos a ceder. 

Foram inúteis as advertências das autoridades policiais que, com as filmagens em mãos, forneceram a evidência desse objetivo incendiário generalizado. Esses ataques tampouco têm relação com o crescente crescimento das bandeiras mapuche nas manifestações, como símbolo de rejeição ao Estado chileno, com os ataques aos monumentos dos heróis nacionais e com incêndios, saques e profanações praticados em várias igrejas católicas.
Algumas igrejas foram sacrilegamente profanadas

Consequências de um quadro incerto 

Ainda é cedo para saber como terminará esse confronto entre um Chile que deseja continuar crescendo e outro setor do país que deseja reverter o caminho para o socialismo “bolivariano”. No entanto, uma coisa é certa: os campos foram profundamente separados entre os que seguem o Chile honesto e trabalhador e aqueles que pretendem retornar às experiências fracassadas do socialismo. 

Movidos por um ódio “sem Deus e sem lei”, esses últimos queimaram bens públicos e privados. Talvez não tenham percebido que, ao mesmo tempo, estavam também destruindo o tecido social que fazia todos os chilenos se reconhecerem como membros de uma nação. Dessa forma, não apenas se isolaram do país real, mas demonstraram ainda que não há possibilidade de entendimento com eles. 

Fazemos votos de que vença o Chile do trabalho e do progresso. Mas, ao mesmo tempo, queremos que se aproveite a lição. E a grande lição desses ataques deve corresponder ao entendimento de que não há progresso autêntico que não seja ancorado na moralidade firme revelada por Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele nos advertiu: “Eu sou a videira; vós, os ramos. Quem permanece em mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer. Se alguém não permanecer em mim, será lançado fora, como o ramo. Ele secará e hão de ajuntá-lo e lançá-lo ao fogo, e queimar-se-á” (Jo 15, 5-6).
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Fonte: Revista Catolicismo, Nº 828, Novembro/2019.

7 de dezembro de 2019

A escolha da festa da Imaculada Conceição

Imaculada Conceição – Guido Reni (1627). Metropolitan Museum of Art (Nova York).

Um prodigioso triunfo das armas católicas levou a Igreja a escolher a data de 8 de dezembro para glorificar a Imaculada Conceição e seu dogma. 


➤  Luis Dufaur

No dia 8 de dezembro a Igreja comemora a Imaculada Conceição de Nossa Senhora. Ela é padroeira do Brasil sob o título de Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Enquanto tal ela é glorificada nesse dia, e também na sua festa principal, em 12 de outubro. 

Por que o dia 8 de dezembro é a festa da Imaculada Conceição? Pouco sabemos sobre a razão da escolha desse dia, embora um fato sobrenatural esteja na origem de tudo: o milagre de Empel. A intervenção da Imaculada Conceição se deu nos dias 7 e 8 de dezembro de 1585, numa encarniçada batalha na pequena elevação da ilha de Bommel, conhecida como Empel. Na localidade holandesa com esse nome, a Virgem Imaculada interveio para dar a vitória aos regimentos católicos, em luta contra exércitos e frotas que impulsionavam o protestantismo. 

A revolução protestante foi uma das mais ferozes da História, a ponto de envolver em guerras regiões das mais remotas do planeta, como o Brasil, o Japão e as Filipinas, numa época de comunicações dificílimas. Nesse quadro histórico a insurreição protestante havia deflagrado nos Países Baixos (Bélgica, Holanda, Luxemburgo e partes da França e Alemanha) a guerra dos Oitenta Anos, travada intensamente nas cidades de Flandres e em campos pantanosos, entre canais e trincheiras onde a infantaria desempenhava papel decisivo.

Os protestantes holandeses professavam os erros de Calvino e eram apoiados por seus cúmplices ingleses, franceses, alemães e suecos, adeptos de outros heresiarcas. Seus erros religiosos foram aplicados ao terreno político-social, levando-os a se insurgir contra o rei católico Felipe II e os sucessores dele na Espanha, onde o monarca regia seu império e era defensor do catolicismo. Na época, o reino de Portugal estava unido à Espanha pelo casamento, incluindo naturalmente o Brasil, que também sofreria os cruentos assaltos dos hereges holandeses. 

Retrato de Felipe de Hohenlohe-Neuenstein 
(apelidado Hollac) – 
Jan van Ravesteyn  (1572–1657). 
Rijksmuseum, Amsterdã.
Nos Países Baixos, os tercios (regimentos) espanhóis lutavam em condições de extrema dificuldade, apoiados pela minoritária população católica local. A geografia pantanosa e o auxílio dos vizinhos protestantes conferiam aos rebeldes facilidades de luta e poder de fogo extraordinários. Porém, tinham acabado de perder a Antuérpia, primeira capital da revolta e maior cidade da época, com aproximadamente 100 mil habitantes. Alexandre Farnese, duque de Parma e governador de Flandres, a arrancara dos hereges, mas entendeu que a conquista seria insuficiente enquanto os revoltosos controlassem o mar. Enviou então o conde Carlos de Mansfeld com parte do seu exército para tomar as ilhas de Zelândia e Holanda, que dominavam a costa e constituíam o coração da revolta. 

A ilha de Bommel, entre os rios Mosa e Waal, foi ocupada por cinco mil soldados espanhóis do Terço Velho de Zamora, comandado pelo mestre de campo Francisco Arias de Bobadilla. Os protestantes julgavam imperioso revidar a perda de Antuérpia com uma vitória de grandes proporções, e o almirante calvinista Felipe de Hohenlohe-Neuenstein (apelidado Hollac), comandante dos rebeldes Estados Gerais dos Países Baixos, percebeu a vantagem que lhe oferecia a dispersão do exército católico pelas ilhas. Aparelhou então uma frota de 100 barcos, e pediu o reforço de calvinistas franceses. No entanto os franceses se lembravam do que dissera o almirante Guillaume Gouffier de Bonnivet, derrotado e morto pelos hispanos em 1525, na batalha de Pavia: “Cinco mil espanhóis são cinco mil homens que lutam e cinco mil cavalos ligeiros, e cinco mil homens de infantaria e cinco mil sapadores e cinco mil demônios”. Temerosos, os franceses tiraram o corpo.


Antes a morte que a desonra 

Os arautos do erro de Calvino não queriam enfrentar as tropas espanholas por terra, porque os tercios constituíam a mais temível infantaria do mundo. Então Hollac projetou um cerco naval da ilha de Bommel e reuniu uma frota formidável nos rios em volta. Pretendia assim cortar os insumos bélicos de Bobadilla, deixá-lo sem comida e sem abrigo. Ao mesmo tempo, ofereceu-lhe uma capitulação honrosa apelando ao “bom senso”: os católicos poderiam sair sem deixar reféns e levariam suas bandeiras. Assim Hollac evitaria uma luta corpo a corpo com os tercios.

Apresentada a proposta, o mestre de campo Bobadilla respondeu: “A infantaria espanhola prefere a morte à desonra. Nós vamos falar sobre a capitulação após a morte”. Se dita por outro, a frase soaria como bravata, mas feitos de armas nessas terras ensinavam que ela seria levada muito a sério. Havia entre aqueles homens os que alguns anos atrás tinham sido capturados em Tournai e Maastricht, mas que voltaram e reconquistaram Dunkerque e Nieuwpoort, desfilaram suas bandeiras por Bruges e Gant, e ainda conquistaram Antuérpia. 

Hollac, arauto de uma seita impura e igualitária, estava certo de que aqueles católicos fariam o que tinham dito. Concebeu então um estratagema para quebrá-los, sem ter que medir forças com os sitiados: mandou inundar a ilha de Bommel, onde estavam os católicos, rompendo as barragens dos rios Mosa e Waal. A terra ocupada pelos espanhóis foi inundada por uma enxurrada violenta, e só a colina de Empel sobressaía da água. Os soldados dos tercios, esgotados e famintos “como sempre”, ficaram ensopados até os ossos, reduzidos a um pedaço de terra facilmente bombardeável pelo inimigo. Enquanto isso, 100 barcaças e galeões holandeses se juntaram à artilharia dos fortes da área, que já vomitavam fogo sobre os resistentes. 

Afastando a lama, surgiram as cores azul e branca,
até finalmente aparecer um quadro 
flamengo da Imaculada Conceição
terras
Os tercios passaram o dia 7 de dezembro defendendo-se na colina de Empel. Durante a noite, alguns homens de Bobadilla escavavam abrigos, e nesse trabalho a pá de um soldado bateu num objeto estranho, que a princípio fora confundido com uma pedra. Removeu a terra que o circundava, e constatou ser um pedaço de madeira. Afastando a lama que o cobria, surgiram as cores azul e branca, até finalmente aparecer um quadro flamengo da Imaculada Conceição. A devoção dos povos espanhol e português à Imaculada se manifestava fervorosamente entre aqueles soldados, que A tinham em conta de heroína da histórica vitória contra os mouros em Navas de Tolosa, em 1212, e da conquista de Granada em 1492. Ela voltava agora a aparecer em Empel, onde só um milagre impediria a derrota! 

Nas cidades católicas vizinhas — como Bolduque, capital da província de Brabante do Norte — os habitantes conduziam o Santíssimo Sacramento em procissão nas ruas, implorando pelos sitiados. Foi nessa hora que apareceu a imagem da Imaculada, cujo dogma ainda não havia sido proclamado, e cuja festa não fora instituída, mas que grandes teólogos e o fervor popular defendiam com devoção. Transcorreriam quase três séculos até que o bem-aventurado Papa Pio IX, em 1854, proclamasse o dogma da Imaculada Conceição, confirmado em 1858 por Nossa Senhora em Lourdes.


Prometendo à Imaculada vencer ou morrer 

Desenho de época do lugar da batalha 
e  da posição das tropas de ambos os lados
Exaustos, os oficiais e soldados improvisaram um altar de pedras fixadas com lama, e o ornaram com a Cruz de Santo André, símbolo do exército espanhol. Para louvar a imagem da Imaculada Conceição, milagrosamente encontrada, entoaram a Salve Rainha. Concluída a oração, Bobadilla exortou com palavras inspiradas aqueles homens que se aprontavam para morrer: “Soldados! A fome e o frio nos levam à derrota, mas a descoberta milagrosa veio para nos salvar. Quereis que à noite abordemos as galeras inimigas, prometendo ganhá-las ou tudo perder pela Virgem, sem que reste uma vida?”. 

Os soldados escolheram o espírito heroico, e juraram que o desejavam. Queimaram as bandeiras, para em caso de derrota não caírem em mãos inimigas; e pela mesma razão destruíram seus canhões. A iniciativa era desesperada, mas não havia alternativa: embarcar numas canoas, desafiar a artilharia inimiga e abordar os navios holandeses na ponta das armas brancas. Mas naquela noite algo maravilhoso pegou todos de surpresa. Um vento glacial persistente, com a força de um furacão, fez a temperatura despencar para 22 graus negativos, quando nas piores condições atingia apenas 1 ou 2 graus negativos. Os mais poderosos navios holandeses se afastaram antes de serem estraçalhados pelo gelo, mas muitos outros ficaram bloqueados. Entre os católicos, a esperança renasceu: na manhã do dia 8, o gelo tinha espessura de 12 metros, e dava para caminhar sobre ele.


O único Deus verdadeiro é dos católicos 

Correndo por cima dos rios e da lama endurecida, os tercios de Bobadilla atacaram os fortes, que caíram um após outro. Fizeram o mesmo com os navios que não puderam escapar. Capturaram dez, com seus suprimentos, artilharia e munição, fazendo dois mil prisioneiros. Considerada impossível algumas horas antes, a vitória foi total. Pela primeira vez, uma frota de mar era vencida por um exército de terra. Com a chuva que se seguiu, o gelo derreteu-se numa velocidade surpreendente. 

Não foram somente os católicos que discerniram a intervenção divina. Vendo seu fracasso, o protestante Hollac concluiu que lutava contra forças muito mais poderosas que as humanas. Enquanto fugia, sua frase foi registrada para a História: “Parece que Deus é espanhol, operando tão grande milagre”.[1] A batalha tivera dois dias de duração, e no final de 8 de dezembro a vitória estava consumada para os que combatiam à sombra da Imaculada. Os últimos calvinistas bateram em retirada. A imagem da Imaculada foi transferida para a igreja de Bolduque ('s-Hertogenbosch em holandês ou Bar-le-Duc, em francês), onde hoje se encontra. 

Até então, cada tercio tinha um nobre que o financiava. Depois do milagre de Empel, a Imaculada se tornou a padroeira de todos os tercios dos Países Baixos e da Itália. Na ocasião foi fundada a Irmandade dos Soldados da Virgem Concebida Sem Mancha, cujo primeiro irmão foi Bobadilla. Todos os alistados nos territórios de Flandres e Itália passaram a pertencer a ela. Até hoje, ano após ano, uma delegação de representantes de cada uma das armas espanholas comparece a uma capelinha erigida em Empel, no local da descoberta, para render honras e gratidão à Imaculada.
As tropas prestam homenagem à imagem, que de maneira tão inesperada se juntava a eles, dando-lhes força e confiança para a difícil batalha contra as hostes protestantes.  milagre de Empel – Augusto Ferrer-Dalmau (2015).


Discussões sobre o milagre 

Não há posição canônica sobre o prodigioso acontecimento. O fenômeno meteorológico incomum, naquele dia 8 de dezembro de 1585, foi objeto de estudo de historiadores e meteorologistas holandeses. Hoje o Instituto Holandês de Meteorologia se declara incapaz de compreender a concatenação de circunstâncias que levaram a água ao redor de Empel a se congelar durante apenas uma noite. Foi um fenômeno nunca antes visto naquelas terras, e nunca depois. Mas ficou claro que os homens que acreditavam na Imaculada Conceição foram levados por Ela ao triunfo, de modo prodigioso. 

Como agradecimento pelo milagre de Empel, a Imaculada Conceição foi proclamada padroeira da infantaria espanhola, e sua festa foi fixada no dia 8 de dezembro em todo o império espanhol, que nessa época incluía o reino de Portugal e o próprio Brasil. A festa da Imaculada havia sido inscrita no calendário litúrgico pelo Papa Sisto IV, em 28 de fevereiro de 1477. 

Após restaurar a independência portuguesa, em 25 de março de 1646 o Rei D. João IV proclamou solenemente Nossa Senhora da Conceição como Rainha e Padroeira de Portugal e de todos os seus territórios ultramarinos, que incluíam o Brasil. O Rei determinou: 

“Com parecer de todos, assentamos de tomar por padroeira de Nossos Reinos e Senhorios a Santíssima Virgem Nossa Senhora da Conceição, [...] e lhe ofereço de novo em meu nome e do Príncipe D. Teodósio, meu prezado filho sobre todos muito amado, e de todos os meus descendentes, sucessores, Reinos, Senhorios e Vassalos, à sua Santa Casa da Conceição sita em Vila Viçosa, por ser a primeira que houve em Espanha desta invocação, cinquenta escudos de ouro em cada ano, em sinal de Tributo e Vassalagem. E da mesma maneira prometemos e juramos, com o Príncipe e Estados, de confessar e defender sempre (até dar a vida, sendo necessário) que a Virgem Maria Mãe de Deus foi concebida sem pecado original. [...] E se alguma pessoa intentar alguma coisa contra esta nossa promessa, juramento e vassalagem, por este mesmo efeito, sendo vassalo, o havemos por não natural, e queremos que seja logo lançado para fora do Reino; e se for Rei (o que Deus não permita), haja a sua e nossa maldição, e não se conte entre nossos descendentes; esperando que pelo mesmo Deus que nos deu o Reino e subiu à dignidade real, seja dela abatido e despojado”.[2]
Correndo por cima dos rios e da lama endurecida, os tercios de Bobadilla atacaram os fortes, que caíram um após outro. Fizeram o mesmo com os navios que não puderam escapar. Capturaram dez, com seus suprimentos, artilharia e munição, fazendo dois mil prisioneiros.


Escolha do dia 8 de dezembro 

A consagração foi confirmada pelo Papa Clemente X em 1671, na bula Eximia dilectissimi. Posteriormente, em 1708, o Papa Clemente XI estendeu a festa da Imaculada Conceição a toda a Igreja Católica, tornando 8 de dezembro dia-santo-de-guarda. Por fim, em 1854, o bem-aventurado Papa Pio IX escolheu a data de 8 de dezembro para proclamar o dogma da Imaculada Conceição de Nossa Senhora, por meio da bula Ineffabilis Deus.3 [vide quadro no final

Na ocasião, quis o santo pontífice honrar especialmente a Espanha. Em 8 de dezembro de 1857, inaugurou um grande monumento à Imaculada na Praça de Espanha, em Roma, capital dos Estados Pontifícios, onde ainda reinava. Ao abençoar a imagem, colocada no topo de uma imponente coluna em frente à legação espanhola, disse ao embaixador: “A Espanha foi a Nação cujos reis e teólogos trabalharam mais do que ninguém para tornar possível o dia da proclamação do dogma da Imaculada Conceição de Maria”. 

Dez anos depois do dogma, o mesmo Papa confirmou o especial privilégio da Espanha e de todas as nações que lhe foram unidas, de usar paramentos azuis na festa da Imaculada Conceição — que, repetimos, é Padroeira do Brasil sob o título de Nossa Senhora Aparecida. O gesto do bem-aventurado Pio IX é renovado todos os anos pelos Papas: chegam junto à famosa coluna da Imaculada e mandam colocar no braço da Virgem uma coroa de flores, que é levada até o alto por um regimento de bombeiros romanos. 


Reflexão para o Reino de Maria

Bem-aventurado Papa Pio IX
Quando o bem-aventurado Pio IX proclamou o dogma na Basílica de São Pedro, os presentes tiveram em geral a impressão de que uma luz sobrenatural o envolvia. O próprio Pio IX contou à superiora de uma ordem religiosa o fenômeno místico que sentiu: 

“Quando comecei a publicar o decreto dogmático, senti a minha voz impotente para se fazer ouvir pela imensa multidão (50 mil pessoas) que se apinhava na Basílica Vaticana. Mas, quando cheguei à fórmula da definição, Deus deu à voz do seu Vigário tal força e tal vigor sobrenatural, que a fez ressoar em toda a Basílica. E eu fiquei tão impressionado por tal socorro divino, que fui obrigado a suspender a palavra, por um instante, para dar livre desafogo às minhas lágrimas [...]. Nenhuma prosperidade, nenhuma alegria deste mundo poderia dar a menor ideia daquelas delícias. E não temo em afirmar que o Vigário de Cristo precisou de uma graça especial para não morrer de doçura, sob a impressão de tal conhecimento e de tal sentimento de beleza incomparável de Maria Imaculada”.4 

Nenhum dos soldados famintos e feridos, saltando para dentro dos navios dos hereges em Empel, podia imaginar tal cena gloriosa que aconteceria três séculos depois no Vaticano. Mas a graça que os levou a atingir o píncaro do heroísmo foi uma participação da mesma graça divina que depois empolgaria o Santo Pontífice, ao definir o dogma contra a impiedade revolucionária e o liberalismo reinante. 

A promessa de Nossa Senhora em Fátima — por fim, meu Imaculado Coração triunfará — tornar-se-á futuramente um fato consumado. Então, todas as amarguras e aparentes frustrações, enfrentadas hoje com bravura contra os inimigos da Cristandade, com a confiança posta em Nossa Senhora, poderão nos fazer lembrar a gesta dos andrajosos e corajosos soldados católicos em Empel. Num dia 8 de dezembro, eles corriam para dar assalto à frota encalhada no gelo, com a certeza de que “de mil soldados não teme a espada quem pugna à sombra da Imaculada!”
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Notas: 
Fonte: Revista Catolicismo, Nº 828, Dezembro/2019.
1. Wikipedia, Milagro de Empel, https://es.wikipedia.org/wiki/Milagro_de_Empel. 
2. Pe. Moreira das Neves, Nossa Senhora da Conceição na Restauração de Portugal, in Revista dos Centenários, Lisboa: nos 19-20, 1940, páginas 4-6 e 8. 
3. http://www.corazones.org/doc/ineffabilis_deus.htm 
4. Apud Domenico Bertetto, Il papa dell’Immacolata, Pio IX, Civiltà, 1972, pp. 63 a 65, http://senzapagare.blogspot.com/2015/12/pio-ix-quando-proclamou-o-dogma-da.html 

Afresco, no Vaticano, representando Pio IX no momento da proclamação do Dogma da Imaculada Conceição

O dogma da Imaculada Conceição 

Alguns trechos da Bula Ineffabilis Deus, proclamada em 8 de dezembro de 1854 pelo bem-aventurado Pio IX 


“Coluna da Imaculada” 
na Praça Mignanelli, em Roma
[...] Pelo que, em oração e jejum, não cessamos de oferecer a Deus Pai, por seu Filho, Nossas preces particulares e as de todos os filhos da Igreja, para que se dignasse dirigir e fortalecer Nossa inteligência com a força do Espírito Santo. Imploramos, ainda, a ajuda de toda a milícia celeste e, com verdadeiros anelos do coração, invocamos o Paráclito. Portanto, por sua inspiração, para honra da Santa e Indivisa Trindade, para glória e adorno da Virgem Mãe de Deus, para exaltação da Fé Católica e para a propagação da Religião Católica, com a autoridade de Jesus Cristo, Senhor Nosso, dos Bem-aventurados Apóstolos Pedro e Paulo, e Nossa, declaramos, promulgamos e definimos que a Bem-aventurada Virgem Maria, no primeiro instante de sua Conceição, foi preservada de toda mancha de pecado original, por singular graça e privilégio do Deus Onipotente, em vista dos méritos de Jesus Cristo, Salvador dos homens, e que esta doutrina está contida na Revelação Divina, devendo, por conseguinte, ser crida firme e inabalavelmente por todos os fiéis. 

Em consequência, se alguém ousar — o que Deus não permita — pensar contrariamente ao que definimos, saiba e esteja ciente de que ipso facto incidiu em anátema, de que naufragou na fé e apostatou da unidade da Igreja; além disso, por sua própria causa incorre nas penalidades estabelecidas por lei, caso se atreva a manifestar, por palavras ou por escrito, ou por outros quaisquer meios externos, sua opinião íntima.