17 de novembro de 2017

Primeira Comunhão de um grande líder católico



No dia 19 de novembro de 1917, há exatamente 100 anos, Plinio Corrêa de Oliveira [foto abaixo] fazia sua Primeira Comunhão na igreja de Santa Cecília, no bairro do mesmo nome, na capital paulista. Ele tinha então nove anos de idade e sua devoção eucarística o tornaria depois o grande e destemido líder católico, fundador da TFP brasileira. 

Paulo Roberto Campos


Em 27 de agosto de 1994, alguns jovens que estavam se preparando para a Primeira Comunhão tiveram a oportunidade de um encontro com Plinio Corrêa de Oliveira. Nessa ocasião, eles lhe perguntaram como tinha sido a sua Primeira Comunhão. 

Mais abaixo seguem alguns trechos extraídos da gravação em fita magnética, sem a revisão do autor, com a resposta que ele deu então àqueles jovens. Apenas adaptei o texto, transpondo a linguagem falada para a escrita, e inseri alguns complementos entre parênteses. Transcrevo-o como uma homenagem neste centenário e em agradecimento a quem muitíssimo me auxiliou na autêntica e profunda adoração do Santíssimo Sacramento da Eucaristia.

Durante toda sua vida, aquele grande líder católico, que comungava diariamente, foi um exemplo para todos seus discípulos de como deve ser a verdadeira devoção à Eucaristia — o maior tesouro que Nosso Senhor Jesus Cristo nos deixou: sua presença contínua nesta Terra. “Eu estarei convosco até a consumação dos séculos” (Mt 28,20).

São Pio X — o grande Papa da devoção eucarística e que tanto incentivou a Primeira Comunhão concedida às crianças logo que adquirissem o uso da razão — sintetiza o mais excelso de todos os sacramentos afirmando: “A devoção à Eucaristia é a mais nobre de todas as devoções, porque tem o próprio Deus por objeto; é a mais salutar porque nos dá o próprio autor da graça; é a mais suave, pois suave é o Senhor. Se os anjos pudessem sentir inveja, nos invejariam porque podemos comungar.”

A seguir, as palavras de Plinio Corrêa de Oliveira em resposta ao pedido de como tinha sido sua Primeira Comunhão:
Dona Lucilia e seu esposo, o Dr. João Paulo Corrêa de Oliveira
“Minha primeira comunhão foi preparada por Dona Lucilia [Lucilia Ribeiro dos Santos Corrêa de Oliveira [foto acima], mãe do Prof. Plinio] para mim, minha irmã e uma sobrinha dela que morava em nossa casa e que ela tratava como filha. Éramos ainda muito crianças, pois a Primeira Comunhão foi em 1917. Como nasci em 1908 [no dia 13 de dezembro], tinha nove anos [incompletos], mas já estava largamente na idade recomendada por São Pio X para as crianças fazerem sua Primeira Comunhão. Podia ser mais cedo, mas foi com nove anos que fiz a minha.  

Dona Lucilia, querendo que essa formação religiosa tivesse o maior esmero possível, quis que o vigário de Santa Cecília, chamado Padre Pedrosa — indicado a ela pelo famoso Padre Chico de Paula e tido como o melhor diretor espiritual, o mais piedoso e um dos melhores oradores sacros de São Paulo —, nos preparasse para a Primeira Comunhão. 

Mas foi muito mais do que isso. Ela quis também que essa preparação fosse dada só para nós três. Realizada numa bela sala da igreja de Santa Cecília [foto ao lado], na parte traseira da igreja, com vitrais muito bonitos, uma mesa com madeira grossa muito bem trabalhada. O ambiente dava muito a ideia da seriedade da aula.  

Esse padre sabia muito bem tratar com crianças, sabia explicar como a comunhão é um ato de uma sublime grandeza, mas, ao mesmo tempo, com muita bondade etc. Ele tinha intenção de nos fazer sentir bem a bondade do Sacratíssimo Coração de Jesus e do Sacral e Imaculado Coração de Maria. 

As aulas para as crianças eram muito explicadinhas, tudo muito claro, direito etc., e eram agradáveis de ouvir. Mas, no modo de ensinar catecismo naquele tempo, inculcava-se muito o respeito que se devia àquela doutrina e o respeito e a veneração que se deveria ter a tudo quanto a Igreja ensinava, sua doutrina etc. 

Se eu não me engano, foi lá que ouvi pela primeira vez falar de infalibilidade papal, que foi um das maiores graças da minha vida, porque eu via em torno de mim muitas discussões a respeito.  
Minha família era muito unida, mas nela se discutia muito política, e religião também. E havia alguns que eram católicos e monarquistas, enquanto outros eram ateus e republicanos. E formavam-se discussões. Eram até inteligentes, eles discutiam bem de um lado e do outro. Os republicanos naturalmente não tinham razão, mas também diziam alguma coisa, alguns argumentozinhos que era preciso saber destruir. 
Mas eu notava também que as pessoas mais velhas que me rodeavam, e que eu respeitava naquele tempo profundamente, estavam em desacordo sobre um mundo de outras opiniões. [...]  

E eu, menino ainda, ouvia as discussões e pensava o seguinte: Aqui estão umas pessoas que são razoavelmente inteligentes. Também são razoavelmente instruídas, e estão em desacordo uns com os outros em quase tudo, mas elas mesmas estão vendo que os homens razoavelmente instruídos e inteligentes, caem facilmente em erro. Porque, do contrário, não pode ser que eles tivessem tanto desacordo. Onde há muito desacordo, um dos lados está errado. E se um dos lados está errado, havendo muitas teses opostas, há muitos erros, e se houver muitos erros, há muita gente errada. Onde é que vai parar isso? É natural que eles errem. Eu vejo que está na natureza deles errar. Mas sinto que, quando eu ficar adulto, vou errar também. Se todo o mundo erra, do que adianta raciocinar? 

O que está dito é flagrantemente verdadeiro. E eu pensava: “Não sei que confiança vou ter no meu raciocínio quando for adulto, que bagunça pode dar isso, onde é que isso pode me levar”.  

E nessas considerações eu ficava assim imerso na ideia de que no fundo não vale a pena pensar, porque se em cada dez ideias que a gente tenha pelo menos uma está errada, é mais ou menos como um homem que sabe que em cada dez passos que ele der na caminhada, ele cai uma vez no chão. Então mais vale a pena não andar. Está acabado! Para quê? Para me escangalhar na estrada? Não convém. 

Assim, quando entrou na preparação para a Primeira Comunhão a tese da infalibilidade papal, eu tive um entusiasmo extraordinário. Mas é difícil calcularem o interesse e o entusiasmo que eu tive pela infalibilidade papal. Eu pensei: “Essa é a solução, tem de haver um que é infalível. Se eu errar — e sei de antemão que em vários pontos eu vou errar —, que confiança eu posso ter em mim mesmo? Ah, se eu pudesse me apoiar em um homem que não errasse!”. 
De repente aparece a solução [o dogma da infalibilidade]. Não é um homem que não erra, é um Pastor dos pastores, instituído por Nosso Senhor Jesus Cristo [vira a fita, perdendo-se algumas palavras] É [a Igreja Católica] a única religião que sustenta a infalibilidade. Para saber se essa é a religião de Deus não precisa mais nada! [...]  

Em tudo que eu penso, a minha preocupação essencial é: “O que pensará a Santa Sé? Existem documentos dos Papas dizendo isto?” Porque se existir, aí eu tomo uma firmeza que não tenho em nenhuma opinião minha puramente pessoal. Mas sei que se me apoiar na doutrina infalível dos representantes de Cristo na Terra, não tem perigo de errar. Posso avançar, porque não errarei. [...]  

Graças a Deus, sou um homem que tenho muita convicção do que digo. Na realidade, isto é assim porque eu creio na infalibilidade papal. É o fundamento de tudo. O que me deu muita segurança e muito agradecimento e admiração a Nosso Senhor porque Ele excogitou uma Igreja assim. 
Depois a ideia [na Primeira Comunhão] de que era o próprio Homem-Deus que eu iria receber. Seu Corpo, Sangue, Alma e divindade iriam habitar dentro de mim por certo espaço de tempo. Isso me deixava entusiasmadíssimo! Por outro lado, Dona Lucilia tomava muito cuidado com uma porção de coisas. Em primeiro lugar o seguinte:  

Naquele tempo, para realçar a importância da comunhão, o Papa São Pio X [foto ao lado] tinha querido que todas as famílias — naturalmente cada uma na medida do que pudesse — celebrasse a festa da Primeira Comunhão com alguma coisa que chamasse a atenção das crianças. E o que o costume estabeleceu — não sei se hoje ainda é assim — é que o dia da Primeira Comunhão fosse um dia de festa em casa. Nesse dia as crianças não estudavam, não trabalhavam, ficavam apenas em casa rezando ou fazendo algum giro a pé, alguma outra coisa, mas por pouco tempo. Elas deveriam ficar a maior parte do tempo recolhidas e pensando.  

Em segundo lugar, no dia da Primeira Comunhão, para manter nas crianças o respeito [à Sagrada Eucaristia], os meninos e as meninas deveriam usar uma roupa especial. E essa roupa devia evocar virgindade. Quando ainda crianças, se pode esperar que fossem virgens.  

Assim, a menina se apresentava para a Primeira Comunhão com vestido igual ao de noiva, que simboliza a virgindade. E na cabeça uma grinalda de flores, em geral bonitas. [...] 

Para os meninos era uma roupa — ao menos aqui em São Paulo — copiada do traje oficial de um dos maiores colégios de meninos da
Inglaterra, o Eton College [foto ao lado]. A Inglaterra sempre foi muito cuidadosa e muito bem sucedida no que diz respeito aos trajes. Todos comungavam com essa roupa — que era em ponto pequeno a roupa de um homem adulto, com colarinho duro, gravata muito bonita, colete, sapatos de verniz e uma fita de seda com uns pingentes de ouro no braço — para dar a entender que aquele menino era casto e se alegrava de ser casto.  

Esse traje me impressionou muito e gostei muito usá-lo, porque era muito tradicional e, ao mesmo tempo, muito católico. Essa manifestação de castidade me alegrou muito. Usando essa roupa no dia da Primeira Comunhão, senti-me muito elevado, dignificado em receber Nosso Senhor com esse traje. 

Na véspera do dia da Primeira Comunhão eu tive um sonho [...]. Sonhei em ver um bolo — a minha fantasia estava toda tomada com a ideia dos bolos e dos doces na festa do dia seguinte — e, em certo momento, o bolo se abria e aparecia dentro Nosso Senhor Jesus Cristo pisando sobre um globo e com os braços abertos [...]. Era muito estranho, porque não é adequado Nosso Senhor aparecer num bolo. Enfim, era um sonho que não deixava de me produzir certa emoção. 

Assim foi dia da Primeira Comunhão, que recebi com recolhimento, com muito desejo de que fosse uma comunhão perfeita, mas eu achava que seria natural que essa comunhão fosse para mim um momento de muito enlevo e me sentisse profundamente tocado. Pelo contrário, Nossa Senhora obteve de Nosso Senhor que fosse um momento de aridez. [...] Mas rezei atentamente e creio que Ele, pela intercessão de Nossa Senhora, teve pena de mim, porque essa aridez não me fez mal algum, pelo contrário, eu lucrei, e dias depois a minha vida espiritual tinha retomado seu curso.

12 de novembro de 2017

Canonização dos 30 mártires brasileiros, massacrados pelos invasores protestantes

Executados em Cunhaú e Uruaçu por ódio à fé católica, eles são considerados protomártires — os primeiros santos mártires do Brasil.

Paulo Roberto Campos

Em duas pequenas vilas do Nordeste foram escritas com sangue gloriosas páginas da História pátria — páginas hoje censuradas ou pouco referidas nos livros didáticos.
Em meados do século XVII, parte do Nordeste brasileiro sofrera a invasão holandesa de discípulos de Lutero e Calvino. Estes, além de se aproveitarem das nossas terras para se enriquecerem com o comércio, saqueavam o que encontravam de mais precioso nas regiões que dominavam. Mais grave: profanavam nossas igrejas, praticavam atos sacrílegos, destroçando o que nelas havia de sagrado: imagens preciosas, sacrários, paramentos, objetos litúrgicos. Não se contentando com tais profanações, incendiavam templos católicos, torturavam, encarceravam sacerdotes, violentavam mulheres.

Atos praticados para mostrar poder e aterrorizar as populações nordestinas que resistissem em se perverter ao protestantismo — cujo fundador, o heresiarca Lutero, por ocasião dos 500 anos de sua revolta, está sendo paradoxalmente comemorado até por altas autoridades da Igreja Católica, instituição que ele tanto odiou e quis inutilmente destruir.

Cerimônia de canonização na Praça de São Pedro

Tapeçaria com os Santos brasileiros,
exposta na fachada da Basílica
de São Pedro no dia da canonização
Foram canonizados os chamados “mártires de Cunhaú e Uruaçu” — nomes de duas localidades que hoje correspondem aos municípios de Canguaretama e São Gonçalo do Amarante, no interior do Rio Grande do Norte.
Aproximadamente 20 mil pessoas acompanharam no dia 15 de outubro último a cerimônia de canonização presidida pelo Papa Francisco na Praça de São Pedro [foto acima], contando entre os assistentes cerca de 400 peregrinos brasileiros, a maioria do Nordeste. Esses mártires, massacrados por invasores protestantes da Holanda — como narraremos abaixo —, podem ser agora venerados pelos católicos do mundo inteiro.
Na mesma cerimônia foram também canonizados dois meninos martirizados em 1527 no México; um sacerdote espanhol, falecido em 1925; e um frade capuchinho da Itália, morto em 1739.



Martírio: morte violenta, por ódio à fé católica, aceita livremente

Os 30 brasileiros heróis da fé (dois sacerdotes e 28 leigos) haviam sido beatificados no dia 3 de março de 2000 pelo Papa João Paulo II. Agora, com a canonização, 372 anos depois do martírio, foram elevados oficialmente à glória dos altares.
No meio da celebração, soldados e comerciantes holandeses,
auxiliados por índios tapuias do Potengi pervertidos
à religião de Lutero, trancaram as portas da capela
e iniciaram um massacre.
Eles são considerados mártires porque seus algozes calvinistas queriam que apostatassem — renegando a Religião católica e adotando a seita protestante, para, em seguida, ajudarem os invasores holandeses —, contudo preferiram morrer a renegar o catolicismo.
Três condições são necessárias ao martírio: morte violenta, “in odium fidei” (por ódio à fé católica) e livremente aceita. “A atitude resignada dos fiéis ao suportar tantos suplícios, confissões explícitas de fé, orações e penitências feitas pelos moradores momentos antes do martírio, são sinais mais do que evidentes de que, do ponto de vista das vítimas, foram preenchidos todos os requisitos teológicos para o martírio” — afirmou o Mons. Francisco de Assis Pereira (1935-2011), postulador da causa dos mártires de Cunhaú e Uruaçu.
Os fatos são comprovados por documentos disponíveis na Torre do Tombo (Portugal), no Museu de Ajax (Holanda) e em arquivos nacionais. Segundo os documentos, somente nas duas mencionadas vilas, mais de 150 heroicos nordestinos derramaram o sangue em defesa da fé católica, embora apenas 30 deles — fidedignamente identificados e reconhecidos por historiadores — tenham sido canonizados.

“Protomártires do Brasil”

Esses 30 santos são também considerados “protomártires do Brasil”, por terem sido os primeiros brasileiros a alcançarem a palma do martírio em nossas terras. O que se poderia objetar dizendo que quase um século antes havia ocorrido o martírio dos 40 religiosos da Companhia de Jesus, que viajavam em uma nau proveniente da Europa para esta “Terra de Santa Cruz”. Conhecidos como os “40 Mártires do Brasil”, eles foram mortos num assalto, ocorrido no dia 15 de julho de 1570 próximo às Ilhas Canárias, perpetrado por navios de calvinistas franceses comandados pelo huguenote Jacques Sourie. Esses sequazes de Calvino, ao tomarem conhecimento que se tratava de missionários católicos, executaram-nos. Todos foram lançados ao mar, alguns já mortos, outros feridos.
Respondendo à objeção acima, podemos dizer que esses 40 mártires não eram brasileiros, pois 32 nasceram em Portugal e oito na Espanha. Eram jovens entre 20 e 30 anos, pertencentes à Companhia de Jesus, que os destinara em 1570 às missões no Brasil. Lideravam-nos o Pe. Inácio de Azevedo, S.J., e se compunham de dois sacerdotes, um diácono, 14 irmãos e 23 estudantes. Eles foram beatificados em 11 de maio de 1854 pelo Bem-aventurado Papa Pio IX.1

Como foi o martírio dos heróis da fé em Cunhaú e Uruaçu?

O dia 16 de julho de 1645, festividade de Nossa Senhora do Carmo, transcorria normalmente no vilarejo de Cunhaú, até o momento em que um judeu-alemão de nome Jacob Rabbi, atuando a serviço dos hereges holandeses, espalhou a notícia de que, após a Missa, os habitantes seriam informados de assuntos de importância para eles e para o Estado.
Então, a fim de assistirem à Missa de preceito e depois se inteirarem daquilo que seria anunciado, 70 fiéis se reuniram na capela de Nossa Senhora das Candeias, do Engenho de Cunhaú. No meio da celebração, contudo, soldados e comerciantes holandeses, auxiliados por índios tapuias do Potengi pervertidos à religião de Lutero, trancaram as portas da capela e iniciaram um massacre. O celebrante, Pe. André de Soveral — paulista de São Vicente e discípulo do Pe. Anchieta —, exortou os fiéis a se arrependerem de seus pecados, numa breve preparação para a morte e salvação das almas. Os invasores trucidaram o idoso sacerdote e, em seguida, os demais foram passados à espada, com exceção de três homens que fugiram. Um dos fiéis, Mateus Moreira [imagem acima], foi apunhalado e morreu testemunhando sua fé ao exclamar “Louvado seja o Santíssimo Sacramento”. Seu coração foi arrancado pelas costas.
Dois meses e meio depois, em 2 de outubro de 1645, aproximadamente 80 católicos nordestinos foram torturados até a morte às margens do Rio Uruaçu, por não renunciarem a fé católica. A crueldade foi ainda maior do que no massacre de Cunhaú. Os fiéis foram cortados em pedaços, degolados, muitos tiveram olhos e línguas arrancados. Os seguidores de Lutero, também contando com ajuda de índios tapuias, não pouparam sequer as crianças nos braços de suas mães, nem mesmo um bebê. Nesse mesmo massacre foi torturado e morto o Pe. Ambrósio Francisco Ferro.

A gloriosa epopeia da “Insurreição Pernambucana”

Nas regiões nordestinas, à medida que recrudesciam as perseguições aos católicos, com o intento de arrancar-lhes a fé e obter-lhes a perversão ao protestantismo, cresciam as indignações contra os intrusos holandeses.
Começou-se a organizar as reações para dar um basta ao plano de conquista de uma parte do Brasil pela heresia protestante. Nascia uma verdadeira cruzada — a “Insurreição Pernambucana” — para expulsar os invasores e impedir a implantação da “Nova Holanda” no Nordeste brasileiro.
Pernambuco, então capitania governada por Mathias de Albuquerque (1580–1647), já estava sendo dominado pela Holanda, que ali estabeleceu a “Companhia das Índias Ocidentais”. Seu objetivo era explorar e comercializar as riquezas de nosso território, então pouco povoado, valendo-se para isso de poderosa esquadra e milhares de soldados. O exército holandês no século XVII era considerado moderno, numeroso e com muito poder de fogo. Por seu lado, não contando os heroicos pernambucanos com um exército, deviam contentar-se em fazer apenas escaramuças contra os soldados batavos — assim chamados, pois originários da Batávia, antigo nome dos Países Baixos.
No entanto, pouco a pouco, católicos resistentes do Nordeste foram se organizando, sobretudo com a liderança de João Fernandes Vieira (1610-1681) [quadro ao lado], rico senhor de engenho. Juntaram-se a este heroico líder o paraibano André Vidal de Negreiros, o índio potiguara Antonio Felipe Camarão, o líder negro Henrique Dias, bem como outros senhores de engenho, que representavam a aristocracia da terra.
Unindo providencialmente brancos, negros e índios, representando as três raças constitutivas do autêntico Brasil, forjava-se a grandeza da nacionalidade de um país nascido católico e que passou a lutar para expulsar o invasor herege do solo pátrio.

Vitória sobrenatural alcançada no Monte das Tabocas

Após algumas escaramuças contra os hereges holandeses, em 3 de agosto de 1645 travou-se a memorável batalha do Monte das Tabocas, atualmente Vila da Vitória de Santo Antão. A luta foi árdua, sobretudo devido à escassez de recursos dos resistentes nordestinos, com suas espadas enferrujadas, contra o poderio formidável das armas dos batavos, além da enorme diferença numérica entre os combatentes. Num momento em que tudo parecia perdido, por iniciativa de um sacerdote, rezaram pedindo a intervenção da Santíssima Virgem, tendo Fernandes Vieira prometido construir duas igrejas: uma dedicada a Nossa Senhora de Nazaré, e outra a Nossa Senhora do Desterro.
Afinal, a vitória foi alcançada graças a uma intervenção sobrenatural! Insurgentes católicos testemunharam ter ouvido soldados hereges presos confessarem que viram aparecer do céu “uma mulher muito formosa com um menino nos braços, e junto a ela um velho venerando, vestido de branco, os quais davam armas, pólvora e balas aos nossos soldados, e que era tanto o resplendor que a mulher e o menino lançavam, que lhes cegava os olhos e não podiam olhar para eles de fito a fito. E que esta visão lhes fez logo virar as costas e retirar-se descompostamente”.2
Batalha dos Montes Guararapes – Victor Meirelles, 1879. Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro


As duas vitórias obtidas nos Montes Guararapes

Quase três anos depois da batalha do Monte das Tabocas, travou-se a primeira batalha dos Montes Guararapes (19 de abril de 1648), também comandada por João Fernandes Vieira. Este, no período entre as duas mencionadas batalhas, continuou treinando os insurgentes católicos e realizando escaramuças para atormentar e enfraquecer os calvinistas.
Na primeira batalha de Guararapes, apesar da desproporção numérica — 2.200 brasileiros contra 7.400 holandeses —, nossos insurgentes saíram vitoriosos, mas não foi suficiente para quebrar o ânimo batavo.
Entretanto, na segunda batalha de Guararapes, travada em 19 de fevereiro de 1649, os hereges holandeses perceberam que o fim de sua permanência no Brasil estava chegando. Somente nesse combate eles tiveram cerca de 2.000 baixas, enquanto apenas 47 brasileiros perderam a vida — entre os quais, infelizmente, o líder negro Henrique Dias, que morreu lutando heroicamente.
Mesmo enfraquecidos pela grande perda de soldados, armas e munições, apreendidas pelos católicos insurgentes nessas batalhas, os calvinistas conseguiram permanecer no Nordeste até 1654.
Nesse ano, a resistência católica conseguiu reconquistar dos batavos alguns fortes importantes. Percebendo estes que chegara seu fim, capitularam. Assinaram a rendição no dia 27 de janeiro de 1654 e retornaram para onde não deveriam ter saído.
Com o triunfo dos heróis da “Insurreição Pernambucana”, João Fernandes Vieira foi aclamado “governador da independência” e tomou posse da capital naquele histórico dia. Também nascia, sob o patrocínio dele, de Felipe Camarão [quadro ao lado] e de Henrique Dias [quadro abaixo], o glorioso Exército brasileiro, para proteção de nosso território.

Escandaloso silêncio, revelador das intenções de muitos

Chama a atenção o fato de a grande mídia, mesmo publicando matérias sobre a canonização dos mártires de Cunhaú e Uruaçu, não as tenha relacionado com a epopeia da “Insurreição Pernambucana”, uma vez que esta nasceu da indignação contra as perseguições perpetradas pelos protestantes holandeses. Nos dias posteriores à canonização acompanhei de perto os grandes jornais do País, não encontrei neles uma linha sequer estabelecendo essa correlação. Por que esse silêncio?
A mesma pergunta poder-se-ia fazer às nossas autoridades eclesiásticas que, mesmo falando da canonização, também não fizeram tal vinculação dos fatos. Refletindo nesse silêncio, julguei-o mais triste do que a “censura” da mídia, pois os eclesiásticos, mais do que ninguém, têm a missão de ressaltar a beleza da resistência católica contra a heresia. Por que silenciar tão belas e gloriosas páginas da História do Brasil e da Igreja?

Nova resistência católica no Brasil de hoje

No detalhe, representação
da aparição de Nossa Senhora
que auxiliou os católicos
durante a batalha
e aterrorizou
os invasores protestantes
Rezemos aos nossos santos-mártires pedindo-lhes que, assim como do sangue que verteram venceu a “Insurreição Pernambucana” contra o herege invasor do território nordestino, suscitem também no Brasil de hoje nova “insurreição” — no sentido de uma autêntica cruzada em defesa da verdadeira fé — para não se permitir que a Religião católica, em nosso País ou em qualquer parte do mundo, seja perseguida e aviltada como tem sido ultimamente em muitos lugares. Por exemplo, através de exposições blasfemas, sacrílegas e pornográficas. Para citar apenas um caso recente: à guisa de “apresentação teatral”, um homem inteiramente nu ralou uma imagem de Nossa Senhora Aparecida e lançou seu pó sobre a plateia!
Em face de tais agressões anticatólicas, convidamos nossos leitores a oporem uma resistência pacífica, mas firme. Outro convite que poderíamos acrescentar: fazermos o propósito de sempre que mencionarmos os novos santos-mártires de Cunhaú e Uruaçu, estabelecermos a vinculação deles com a gloriosa “Insurreição Pernambucana” contra a dominação protestante. Tema de suma importância nestes dias em que se comemoram os 500 anos de Lutero — o heresiarca em face de cuja religião os santos-mártires potiguares preferiram morrer a se perverterem.


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Matéria publicada na Revista Catolicismo, Nº 803, Novembro/2017.
Fontes consultadas:
Robert Southey, História do Brasil (Traduzido do inglês pelo Dr. Luiz Joaquim de Oliveira e Castro, com anotações do Cônego Dr. Fernandes Pinheiro), Livraria B. L. Garnier, Rio de Janeiro, 1862, tomo III.
Pedro Calmon, História da Civilização Brasileira, Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1958, 6ª edição (aumentada), vol. 14.
Notas:
  1. A respeito, para melhor conhecimento, recomendamos a edição de Catolicismo de julho/2014, p. 36.
  2. Diogo Lopes Santiago, História da Guerra de Pernambuco, Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco, Recife, 1984, p. 258.

3 de novembro de 2017

Respondendo objeções (repetitivas) de protestantes

Baldaquino em bronze e ouro construído por Bernini (de 1624-1633) sobre o altar-mor da Basílica de São Pedro 

Oscar Vidal 


Neste espaço, nos posts dos dias 31 de outubro e 1º novembro, publicamos matérias a respeito da “esquerda católica” festejando os 500 anos da rebelião de Lutero. Elas apontaram o quão abstruso é comemorar o pandemônio armado pelo heresiarca contra a Igreja Católica. No mesmo sentido da pergunta abaixo (em negrito) recebemos duas objeções — normalmente os protestantes sempre repetem as mesmas objeções. Como elas já foram primorosamente respondidas pelo Monsenhor José Luiz Villac, seguem as respostas publicadas na revista Catolicismo, Nº 574, Outubro/1998.

Pergunta — Qual foi o verdadeiro motivo que fez Martin Lutero se revoltar contra a Igreja? Segundo a História, foi porque ele era contra o luxo do Vaticano. O que a Igreja pensa sobre isso?


Resposta — A afirmação de que Lutero revoltou-se contra a Igreja por ter-se escandalizado com o luxo do Vaticano, não é historicamente correta. Na realidade, tal revolta pode ser explicada – ademais de fatores preternaturais que não podem ser descartados, provenientes de uma violenta ação diabólica contra a Santa Igreja Católica — também por fatores psicológicos como o temperamento exaltado e insubmisso, e o voto inconsiderado que fez Lutero de tornar-se religioso (por medo e não por vocação autêntica, ao que tudo indica) e, finalmente, pela má formação filosófica e teológica que recebeu, afetada de erros que já haviam sido condenados.

Com efeito, Lutero reeditou erros do inglês Wiclef, do checo Jan Huss e das heresias medievais que defendiam uma Igreja dos Santos, puramente carismática e sem Hierarquia.

Em relação ao esplendor do Vaticano, é preciso como premissa considerar que Deus deve ser louvado com magnificência e seu culto deve necessariamente refletir a infinita grandeza e santidade divinas. Por ordem expressa de Deus, já no Antigo Testamento, Salomão construiu o Templo com o máximo de riqueza, não somente empregando madeiras preciosas, mas utilizando ainda verdadeira profusão de ouro.

Assim, lemos no Iº Livro dos Reis:
“Mandou revestir de ouro todo o Templo, de cima a baixo; mandou recobrir de ouro também todo o altar destinado ao recinto dos fundos.  

“No recinto dos fundos o Rei mandou fazer de madeira de oliveira brava dois querubins, cada um com cinco metros de altura. Uma asa do querubim media dois metros e meio e outros tantos media sua segunda asa, de modo que entre uma e outra extremidade das asas havia cinco metros. Também o segundo querubim tinha cinco metros, de modo que os dois querubins tinham a mesma dimensão e aparência: a altura dos dois querubins era de cinco metros. Estes querubins, Salomão os colocou no meio do recinto interno; eles tinham as asas desdobradas, de modo que a asa de um tocava numa parede e a do outro tocava na outra parede, e no meio do recinto a asa de um encostava na do outro. Salomão mandou revesti-los de ouro.  

“Mandara cobrir de baixos-relevos esculpidos, representando querubins, palmeiras e grinaldas de flores entreabertas, todo o âmbito das paredes do Templo, por dentro e por fora. Também o pavimento do Templo, revestiu-o de ouro por dentro e por fora. 
 
“Na entrada para o recinto dos fundos mandou fabricar batentes de portas de madeira de oliveira brava, formando a padieira e o umbral a quinta parte da porta. Quanto às duas folhas da porta de madeira de oliveira brava, mandou esculpir nelas baixos-relevos com querubins, palmeiras e grinaldas de flores entreabertas e revesti-las de ouro; aplicou as folhas de ouro batido nos querubins e nas palmeiras. Do mesmo modo, fez para a entrada do recinto central umbrais de madeira de oliveira brava, formando um quarto do conjunto. Fez igualmente duas folhas de madeira de junípero; pôs duas almofadas giráveis numa das folhas da porta e duas almofadas giráveis na outra folha. Nas folhas mandou esculpir baixos-relevos de querubins, palmeiras e grinaldas de flores entreabertas, revestindo-os de ouro bem ajustado sobre os relevos. 

“Salomão ainda construiu o muro do pátio interno com três carreiras de pedra esquadriadas e uma carreira de barrotes de cedro.  

“No ano quarto, no mês de Ziv, tinham sido lançados os fundamentos da casa do Senhor, e no ano 11, no mês de Bul, que corresponde ao oitavo mês, estava terminada a casa, de acordo com todos os planos e requisitos. Salomão a levantou em sete anos.” 


Como vemos, o luxo a serviço do louvor de Deus não somente não é condenável, mas é virtuoso e desejado por Ele mesmo. A riqueza e esplendor dos templos ajudam-nos a compreender melhor a beleza e a grandeza divinas, predicados de sua santidade sem limites. E é um tributo que a criatura presta ao Criador e Soberano Senhor de todas as coisas, de todas as riquezas, de tudo o que existe. 

Os protestantes e os anticlericais que falam contra essa riqueza dos templos são, no fundo, igualitários com tendências socialistas e miserabilistas, como mostrou, aliás, o Prof. Plínio Corrêa de Oliveira em sua obra máxima Revolução e Contra Revolução. 

Em relação aos protestantes, não devemos nos deixar enredar por seus sofismas e pretender rebater acusação por acusação, mas rejeitar em bloco sua doutrina — a do Livre Exame — segundo o qual cada um pode interpretar a Bíblia como bem entenda, e que não é preciso um magistério autêntico e uma autoridade instituída por Deus para ensinar, santificar e governar o povo fiel. 

31 de outubro de 2017

500 ANOS DA REVOLTA DE LUTERO — Parte II

"Eu não posso e não vou me retratar". Com essas palavras, Lutero defende seus
escritos na "Dieta de Worms", em abril de 1521
Oscar Vidal

A propósito da comemoração do meio milênio da pseudo Reforma Protestante, publicamos ontem matéria [para visualizá-la click aqui] a respeito da inconcebível celebração de Lutero por parte de altas cúpulas da Igreja Católica — o que tem causado perplexidade entre os fiéis. Isto porque eles ficam naturalmente sem entender que lógica há em festejar a figura do revoltado heresiarca que se empenhou, entre outros malefícios à Cristandade, na destruição da Igreja Católica e na abolição do próprio Papado.


31-10-2917 — Vaticano lançou um selo 
comemorativo do 
V centenário da Reforma Protestante! 
A estampilha, tem como fundo 
a cidade Wittenberg, berço da heresia luterana
O Vaticano lançou hoje um selo comemorativo do V centenário da Reforma Protestante! A estampilha tem como fundo a cidade Wittenberg, berço da heresia luterana, no centro um crucifixo, à esquerda a figura de Lutero (portando a bíblia traduzida e deformada por ele) e, à direita seu comparsa na expansão da Revolução Protestante, Melanchton (portando a “Confissão de Augsburgo” — o primeiro documento oficial dos princípios do protestantismo) [foto ao lado]. 

Os atos festejando Lutero entram fragorosamente em contradição com a afirmação do cardeal Gerhard Müller: “Nós, católicos, não temos qualquer motivo para celebrar o dia 31 de outubro de 1517, data do início da Reforma”. Também se opõem a uma antiga advertência (2012) do cardeal Kurt Koch: “Não podemos celebrar um pecado [...]. Os acontecimentos que dividem a Igreja não podem ser chamados dias de festa”

Como prometido, segue a transcrição do artigo de Plinio Corrêa de Oliveira, publicado na “Folha de S. Paulo” em 10-01-1984. De sua leitura podemos deduzir quão absurdo é esse enaltecimento de Lutero promovido pela esquerda católica.


Máscara mortuária do heresiarca Lutero

Lutero pensa que é divino!


Plinio Corrêa de Oliveira
Transcrito da “Folha de S. Paulo”, 10 de janeiro de 1984


Não compreendo como homens da Igreja contemporâneos, inclusive dos mais cultos, doutos ou ilustres, mitifiquem a figura de Lutero, o heresiarca, no empenho de favorecer uma aproximação ecumênica, de imediato com o protestantismo, e indiretamente com todas as religiões, escolas filosóficas etc. Não discernem eles o perigo que a todos nos espreita, no fim deste caminho, ou seja, a formação, em escala mundial, de um sinistro supermercado de religiões, filosofias e sistemas de todas as ordens, em que a verdade e o erro se apresentarão fracionados, misturados e postos em balbúrdia? Ausente do mundo só estaria — se até lá se pudesse chegar — a verdade total; isto é, a fé católica apostólica romana, sem nódoa nem jaça.

Sobre Lutero — a quem caberia, sob certo aspecto, o papel de ponto de partida nessa caminhada para a balbúrdia total — publico hoje mais alguns tópicos que bem mostram o odor que sua figura revoltada espargiria nesse supermercado, ou melhor, nesse necrotério de religiões, de filosofias, e do próprio pensamento humano.

Segundo em anterior artigo prometi, tiro-os da magnífica obra do padre Leonel Franca S. J., “A Igreja, a Reforma e a Civilização” (Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 3ª ed., 1934, 558 pp.). [capa ao lado].

Elemento absolutamente característico do ensinamento de Lutero é a doutrina da justificação independente das obras. Em termos mais chãos, que os méritos superabundantes de Nosso Senhor Jesus Cristo só por si asseguram ao homem a salvação eterna. De sorte que se pode levar nesta Terra uma vida de pecado, sem remorsos de consciência, nem temor da justiça de Deus.

A voz da consciência era, para ele, não a da graça, mas a do demônio!

Por isso escreveu a um amigo que o homem vexado pelo demônio, de quando em quando “deve beber com mais abundância, jogar, divertir-se e mesmo fazer algum pecado em ódio e acinte ao diabo, para lhe não darmos azo de perturbar a consciência com ninharias [...] Todo o decálogo se nos deve apagar dos olhos e da alma, a nós tão perseguidos e molestados pelo diabo” (M. Luther, "Briefe, Sends breiben und Bedenken", e. De Wette, Berlim, 1825-1828 – cfr. op. cit., pp. 199-200).

Neste sentido, escreveu ele também: “Deus só te obriga a crer e a confessar. Em todas as outras coisas te deixa livre e senhor de fazeres o que quiseres, sem perigo algum de consciência; antes é certo que, de si, Ele não se importa, ainda mesmo se deixasses tua mulher, fugisses do teu senhor e não fosses fiel a vínculo algum. E que se lhe dá (a Deus), se fazes ou deixas de fazer semelhantes coisas?” ("Werke", ed. de Weimar, 12, pp. 131 ss. — cfr. op. cit., p. 446).

Talvez ainda mais taxativo é este incitamento ao pecado, em carta a Melanchton [quadro ao lado],  de 1º de agosto de 1521: “Sê pecador, e peca a valer (esto peccator et pecca fortiter), mas com mais firmeza ainda crê e alegra-te em Cristo, vencedor do pecado, da morte e do mundo. Durante a vida presente devemos pecar. Basta que pela misericórdia de Deus conheçamos o Cordeiro que tira os pecados do mundo. Dele não nos há de separar o pecado, ainda que cometêssemos por dia mil homicídios e mil adultérios” (Briefe, Sendschreiben und Bedenken", ed. De Wette, 2, p. 37 – cfr. op. cit. p. 439).
Tão descabelada é esta doutrina, que o próprio Lutero a duras custas nela conseguia acreditar: “Nenhuma religião há, em toda a Terra, que ensine esta doutrina da justificação; eu mesmo, ainda que a ensine publicamente, com grande dificuldade a creio em particular” (Werke", ed. de Weimar, 25, p. 330 – cfr. op. cit., p. 158).

Mas os efeitos devastadores da pregação assim confessadamente insincera de Lutero, ele mesmo os reconhecia: “O Evangelho hoje em dia encontra aderentes que se persuadem não ser ele senão uma doutrina que serve para encher o ventre e dar larga a todos os caprichos” ("Wekw", ed. de Weimar, 33, p. 2 – cfr. po. cit., p. 212).

E Lutero acrescentava, acerca de seus sequazes evangélicos, que “são sete vezes piores que outrora. Depois da pregação da nossa doutrina, os homens entregaram-se ao roubo, à mentira, à impostura, à crápula, à embriaguez e a toda espécie de vícios. Expulsamos um demônio (o papado) e vieram sete piores” ("Werke", ed. de Weimar, 28, p. 763 – cfr. op. cit., p. 440).

“Depois que compreendemos não serem as boas obras necessárias para a justificação, ficamos muito mais remissos e frios na prática do bem [...] E se hoje se pudesse voltar ao antigo estado de coisas, se de novo revivesse a doutrina que afirma a necessidade do bem fazer para ser santo, outra seria a nossa alacridade e prontidão no exercício do bem” ("Werke", ed. de Weimar, 27, p. 443 – cfr. op. cit., p. 441).

Todas essas insânias explicam que Lutero chegasse ao frenesi do orgulho satânico, dizendo de si mesmo: “Este Lutero não vos parece um homem extravagante? Quanto a mim, penso que ele é Deus. Senão, como teriam os seus escritos e o seu nome a potência de transformar mendigos em senhores, asnos em doutores, falsários em santos, lodo em pérolas!” (Ed. Wittemberg, 1551, t. 4, p. 378 – cfr. op. cit., p. 190).
Lutero morto


Em outros momentos, a opinião que Lutero tinha de si mesmo era muito mais objetiva: “Sou um homem exposto e implicado na sociedade, na crápula, nos movimentos carnais, na negligência e em outras moléstias, a que se vêm ajuntar as do meu próprio ofício” ("Briefe, Sendschreiben und Bedenken", ed. De Wette, 1, p. 232 – cfr. op. cit., p. 198). Excomungado em Worms em 1521, Lutero entregou-se ao ócio e à moleza. E a 13 de julho escreveu a outro prócer protestante, Melanchton: “Eu aqui me acho, insensato e endurecido, estabelecido no ócio, oh dor!, rezando pouco, e deixando de gemer pela Igreja de Deus, porque nas minhas carnes indômitas ardo em grandes labaredas. Em suma, eu que devo ter o fervor do espírito, tenho o fervor da carne, da libidinagem, da preguiça, do ócio e da sonolência” (Briefe, Sendscheiben und Bedenken", ed. De Wette, 2, p. 22 – cfr. op. cit. p. 198).

Num sermão pregado em 1532: “quanto a mim confesso — e muitos outros poderiam sem dúvida fazer igual confissão — que sou desleixado assim na disciplina como no zelo, sou muito mais negligente agora que sob o papado; ninguém tem agora pelo Evangelho o ardor que se via outrora” ("Saemtliche Werke", ed. de Plochman-Irmischer, 28 (2), p. 353 – cfr. op. cit. p. 441).
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O que de comum se pode encontrar, pois, entre esta moral, e a da Santa Igreja Católica Apostólica Romana?

500 ANOS DA REVOLTA DE LUTERO CONTRA A CRISTANDADE

A pseudo-reforma protestante impulsionou a humanidade ao igualitarismo comunista e à anarquia 

Oscar Vidal 

Neste dia 31 de outubro completa-se o V centenário da Revolução Protestante, marco oficial da revolta do heresiarca Martinho Lutero contra Roma, quando o monge apóstata pregou suas 95 teses na porta da capela do castelo de Wittenberg, em Augsburgo (Alemanha), no dia 31 de outubro de 1517. [pintura ao lado

Os erros de tais teses blasfemas, fruto do orgulho e da sensualidade desse fementido herege, começaram a ser difundidos pelo mundo, impulsionado outras revoltas e dando origem, séculos depois, à Revolução Francesa e à Revolução Comunista. 

Tratando do processo revolucionário em sua obra Revolução e Contra-Revolução (Parte I, Cap. 6, 1 A e B), Plinio Corrêa de Oliveira descreve as tendências desordenadas e as paixões desenfreadas como sendo “a força propulsora da Revolução”.
“Como os cataclismos, as más paixões têm uma força imensa, mas para destruir. “Essa força já tem potencialmente, no primeiro instante de suas grandes explosões, toda a virulência que se patenteará mais tarde nos seus piores excessos. Nas primeiras negações do protestantismo, por exemplo, já estavam implícitos os anelos anarquistas do comunismo. Se, do ponto de vista da formulação explícita, Lutero não era senão Lutero, todas as tendências, todo o estado de alma, todos os imponderáveis da explosão luterana já traziam consigo, de modo autêntico e pleno, embora implícito, o espírito de Voltaire e de Robespierre, de Marx e de Lenine”. (Cfr. Leão XIII, Encíclica Quod Apostolici Muneris, de 28/12/1878, Bonne Presse, Paris, vol. I, p. 28). 

Como até na Igreja Católica setores progressistas estão celebrando esse centenário — uma incoerência que está provocando desconcerto e perplexidade em inúmeros fiéis católicos —, reproduzimos abaixo uma colaboração do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, publicada na “Folha de S. Paulo” em 27-12-83. Essa leitura auxiliará uma análise sobre a gravidade dessa celebração tão ilógica. Como até autoridades eclesiásticas podem comemorar o ódio contra a Igreja Católica e o desejo de destruí-la?


Gravura representando o "casamento" do ex-frade Lutero com a ex-freira Catarina von Bora

Lutero: não e não

Plinio Corrêa de Oliveira
Transcrito da “Folha de S. Paulo”, 27 de dezembro de 1983


         Tive a honra de ser, em 1974, o primeiro signatário de um manifesto publicado em cotidianos dos principais do Brasil e reproduzido em quase todas as nações onde existiam as então onze TFPs. Era seu título: A política de distensão do Vaticano com os governos comunistas – Para a TFP: Omitir-se? Ou resistir? (cfr. “Folha de S. Paulo”, 10-4-74).

Nele, as entidades declaravam seu respeitoso desacordo face à "ostpolitik" conduzida por Paulo VI, e expunham pormenorizadamente suas razões para tanto. Tudo — diga-se de passagem — expresso de maneira tão ortodoxa que ninguém levantou a propósito qualquer objeção.

Para resumir numa frase, ao mesmo tempo toda a sua veneração ao Papado e a firmeza com a qual declaravam sua resistência à "ostpolitik" vaticana, as TFPs diziam ao Pontífice “Nossa alma é Vossa, nossa vida é Vossa. Mandai-nos o que quiserdes. Só não nos mandeis que cruzemos os braços diante do lobo vermelho que investe. A isto nossa consciência se opõe”.

Lembrei-me desta frase com especial tristeza lendo a carta escrita por João Paulo II ao cardeal Willebrands (cfr. "L’Osservatore Romano", 6-11-83), a propósito do quingentésimo aniversário do nascimento de Martinho Lutero, e assinada no dia 31 de outubro p.p. data do primeiro ato de rebelião do heresiarca, na igreja do castelo de Wittenberg. Está ela repassada de tanta benevolência e amenidade, que me perguntei se o Augusto signatário esquecera as terríveis blasfêmias que o frade apóstata lançara contra Deus, Cristo Jesus Filho de Deus, o Santíssimo Sacramento, a Virgem Maria e o próprio Papado.

O certo é que ele não as ignora, pois estão ao alcance de qualquer católico culto, em livros de bom quilate, os quais ainda hoje não são difíceis de obter.

Tenho em mente dois deles. Um, nacional é “A Igreja, a Reforma e a Civilização, do grande jesuíta Pe. Leonel Franca. Sobre o livro e o autor, os silêncios oficiais vão deixando baixar a poeira.

O outro livro é de um dos mais conhecidos historiadores franceses do século XX, Funck-Brentano, membro do Instituto de França, e aliás insuspeito protestante.

Comecemos por citar textos colhidos na obra deste último: "Luther" (Grasset, Paris, 1934, 7ª ed., 352 pp.). [capa ao lado] E vamos diretamente a esta blasfêmia sem nome: “Cristo — diz Lutero — cometeu adultério pela primeira vez com a mulher da fonte, de que nos fala João. Não se murmurava em torno dele: “Que fez, então, com ela? Depois com Madalena, em seguida com a mulher adúltera, que ele absolveu tão levianamente. Assim Cristo, tão piedoso, também teve de fornicar, antes de morrer” ("Propos de table", nº 1472, ed. de Weimar 2. 107 – cfr op. cit. p. 235).

Lido isto, não nos surpreende que Lutero pense — como assinala Funck-Brentano — que "certamente Deus é grande e poderoso, bom e misericordioso [...] mas é estúpido — "Deus est stultissimus" ("Propos de table", no. 963, ed. de Weimar, I, 487). É um tirano. Moisés agia movido por sua vontade, como seu lugar-tenente, como carrasco que ninguém superou, nem mesmo igualou em assustar, aterrorizar e martirizar o pobre mundo” (op. cit. p. 230).

Tal está em estrita coerência com estoutra blasfêmia, que faz de Deus o verdadeiro responsável pela traição de Judas e pela revolta de Adão: “Lutero — comenta Funck-Brentano — chega a declarar que Judas, ao trair Cristo, agiu sob imperiosa decisão do Todo-poderoso. Sua vontade (a de Judas) era dirigida por Deus: Deus o movia com sua onipotência. O próprio Adão, no paraíso terrestre, foi constrangido a agir como agiu. Estava colocado por Deus numa situação tal que lhe era impossível não cair” (op. cit. p. 246).

Coerente ainda nesta abominável sequência, um panfleto de Lutero intitulado “Contra o pontificado romano fundado pelo diabo”, de março de 1545, chamava o Papa, não “Santíssimo”, segundo o costume, mas “infernalíssimo”, e acrescentava que o Papado mostrou-se sempre sedento de sangue (cfr. op. cit. pp. 337-338).

Não espanta que, movido por tais ideias, Lutero escrevesse a Melanchton, a propósito das sangrentas perseguições de Henrique VIII contra os católicos da Inglaterra. “É lícito encolerizar-se quando se sabe que espécie de traidores, ladrões e assassinos são os papas, seus cardeais e legados. Prouvesse a Deus que vários reis da Inglaterra se empenhassem em acabar com eles” (op. cit. p. 254).

Por isso mesmo exclamou ele também: “Basta de palavras: o ferro! o fogo!” E acrescenta: “Punimos os ladrões à espada, por que não havemos de agarrar o papa, cardeais e toda a gangue da Sodoma romana e lavar as mãos no seu sangue?” (op. cit., p. 104).

Esse ódio de Lutero o acompanhou até o fim da vida. Afirma Fuck-Brentano: “Seu último sermão público em Wittenberg é de 17 de janeiro de 1546; o último grito de maldição contra o papa, o sacrifício da missa, o culto da Virgem” (op. cit., p. 340).

Não espanta que grandes perseguidores da Igreja tenham festejado a memória dele. Assim “Hitler mandou proclamar festa nacional na Alemanha a data comemorativa de 31 de outubro de 1517, quando o frade agostiniano revoltoso afixou nas portas da igreja do castelo de Wittenberg as famosas 95 proposições contra a supremacia e as doutrinas pontifícias” (op. cit., p. 272).

E, a despeito de todo o ateísmo oficial do regime comunista, o Dr. Erich Honnecker, presidente do Conselho de Estado e do Conselho de Defesa, o primeiro homem da República Democrática Alemã, aceitou a chefia do comitê que, em plena Alemanha vermelha, organizou as espalhafatosas comemorações de Lutero neste ano (cfr. "German Comments", de Osnabruck, Alemanha Ocidental, abril de 1983).

Que o frade apóstata tenha despertado tais sentimentos num líder nazista, como mais recentemente no líder comunista, nada de mais natural.

Nada mais desconcertante e até vertiginoso, do que o ocorrido quando da recentíssima comemoração do quingentésimo aniversário do nascimento de Lutero num esquálido templo protestante de Roma, no dia 11 do corrente.

Deste ato festivo, de amor e admiração à memória do heresiarca, participou o prelado que o conclave de 1978 elegeu Papa. E ao qual caberia, portanto, a missão de defender, contra heresiarcas e hereges, os santos nomes de Deus e de Jesus Cristo, a Santa Missa, a Sagrada Eucaristia e o Papado!

“Vertiginoso, espantoso” — gemeu, a tal propósito, meu coração de católico. Que, sem embargo, com isto redobrou de fé e veneração pelo Papado.
No próximo artigo me resta citar “A Igreja, a Reforma e a Civilização”, do grande Pe. Leonel Franca. 

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[Amanhã 31 de outubro, publicaremos o artigo acima mencionado]