21 de fevereiro de 2024

Morto prematuramente o maior opositor de Putin



  Paulo Roberto Campos 

Na Rússia putinista aconteceu o que todos os analistas políticos sérios receavam: a morte de Alexeï Anatolievitch Navalny [foto]. Certamente, não por causas naturais, mas foi morto. Tinha apenas 47 anos. Era o maior opositor do ditador comunista Vladimir Putin.

Ocorrido no último dia 16, o fato indignou boa parte do mundo, mas não surpreende aqueles que acompanham os acontecimentos na Rússia atual. Não é o primeiro caso e nem será o último morto em circunstâncias misteriosas e suspeitas. 

Navalny provavelmente seria eleito no lugar de Putin [foto] caso na Rússia houvesse eleições livres. Como se sabe, lá elas são inteiramente manipuladas pelo Kremlin, que segue com o mesmo histórico das “eleições” durante a triste era soviética. Na época da URSS, os candidatos do Partido Comunista sempre “venciam” as eleições aproximadamente com 90% dos votos... Quem dirá “me engana que eu gosto”? 

O mesmo ocorria com líderes comunistas de outros países, como em Cuba, onde Fidel Castro sempre foi reeleito com quase 100% dos votos. Por mais de 50 anos, ele foi praticamente candidato único... 


Os mesmos métodos tipo KGB 

Assim, sem Navalny como concorrente, nas eleições presidenciais do próximo dia 15 de março, o autocrata Putin, será novamente “reeleito” com os votos — dirá o Kremlin — da “imensa maioria”. Ele se perpetua no Poder com seu 5º mandato, ficando no comando, pelo menos, até 2030! 

Qualquer um que tenha apoio popular na Rússia, com real possibilidade de ser eleito e ousar candidatar-se será tirado do caminho, como ocorreu com Navalny, um mês antes do pleito. Já em 2018, quando se candidatou, fora impedido de concorrer, acusado de organizar manifestações contra o governo e de tentar depor Putin... 

Navalny, além de já ter sido preso algumas vezes por participar de protestos contra o déspota russo, sofrera alguns atentados. Em 2017, enquanto caminhava numa rua, foi atacado por agentes do serviço secreto com um spray que quase o deixou cego. Em 2020, num voo de Tomsk (Sibéria) a Moscou passou mal e teve de ser internado. Havia sido envenenado.

Temendo a morte, conseguiram levá-lo para a Alemanha, onde médicos especialistas do hospital militar de Berlim descobriram o tipo de veneno que usava a KGB, o letal tóxico Novichok. [foto]. Assim, puderam salvá-lo. Laboratórios alemães, franceses e suecos confirmaram o envenenamento por esse neurotóxico colocado na roupa de Navalny. 

É fabricado apenas por laboratórios muito avançados (na Rússia há alguns que forneciam para a KGB), afeta o sistema nervoso e leva a vítima à morte. Outras vítimas de Putin sofreram o mesmo tipo de envenenamento, mas não tiveram a mesma sorte, tiveram mortes atrozes. 


Eliminação dos concorrentes 

Navalny com a esposa Yulia Navalnaya

Depois de ter recuperado a saúde na Alemanha, em 2021 Navalny retornou à Rússia, mas logo ao desembarcar no aeroporto de Moscou foi preso, acusado de não ter respeitado a “liberdade condicional”. É o vale tudo para se eliminar os opositores do novo Tsar russo. Seu recado é claro: se algum outro concorrente surgir para sucedê-lo, terá a mesma sorte... 

Mesmo trancado no presídio, o prestígio de Navalny crescia. Era corajoso, carismático e popular, sobretudo entre os jovens, contava com milhões de seguidores nas redes sociais. Por meio de auxiliares, ele criticava a invasão russa na Ucrânia — o que na Rússia é considerado crime... 

Em 2022, numa das audiências no Tribunal, acusou Putin de iniciar uma “guerra estúpida, sem nenhum propósito ou significado”. Também criticava a enorme corrupção e a podridão do governo russo, por ele caracterizado como sendo composto por “vigaristas e ladrões”. 

Mais recentemente, ele anunciou uma campanha contra a reeleição de Putin nas eleições do próximo mês, mostrando que será uma eleição-farsa. O todo poderoso Putin, sentido seu trono ameaçado, mandou seu rival para bem longe a fim de ficar praticamente incomunicável. 

No final de dezembro passado, desapareceu da prisão de Vladimir (a 250 km de Moscou), e reapareceu dias depois numa prisão na Sibéria (a 2000 km da capital) para cumprir pena de 30 anos! 


Condenado sem ter praticado crime 

A mãe de Navalny, Liudmila Navalnaya [foto], o havia visitado naquele cárcere no dia 12 último e declarou que o filho estava bem de saúde e bem animado, apesar de estar em “Lobo Polar”, uma das prisões mais temidas do mundo, localizada na Sibéria, onde as temperaturas chegam a 42 graus abaixo de zero! Neste mês de fevereiro, o clima está ‘ameno’, mais ou menos 30 graus negativos... 

Conhecida também como IK-3, é uma prisão de segurança máxima na região de Yamalo-Nenets, no Ártico [foto abaixo]. Construída nos anos 60 num antigo campo de concentração da União Soviética, para onde eram mandados os dissidentes do regime comunista. Conta com 1000 detentos, os criminosos mais perigosos da Rússia, como assassinos em série, estupradores e pedófilos contumazes. 

Mas no caso de Navalny foi condenado sem ter praticado nenhum crime, mas suspeito de ter ajudado organizações para depor o ditador russo. Muitos achavam que ele ficaria naquela “colônia penal” pelo resto de sua vida, ou pelo resto da vida de Putin. 

Em isolamento total, lá os presos são proibidos de manter qualquer comunicação sob severas penas. Na primavera os presos sofrem pavorosamente com enxames de mosquitos; no inverno são forçados a ficar imóveis na neve, se um deles se move, todos recebem jatos de água gelada. 

As celas não têm janelas, em algumas o condenado só consegue ficar agachado. Não podem fazer caminhadas, a não ser dentro de uma pequena jaula uma vez por dia durante 90 minutos. Mesmo nestas condições, Navalny estava bem. Na véspera da morte, numa audiência, ele se apresentou saudável, sorrindo e bem humorado brincando com o juiz. 


Mortes não esclarecidas 

Navalny é o 9º opositor de Putin que morre de modo misterioso. Alguns morreram “caindo” das janelas ou sacadas de seus apartamentos... Ou foram defenestrados pelos agentes dos serviços secretos? 

Dezenas de jornalistas e políticos que fizeram oposição a Putin só tiveram uma alternativa para escapar da prisão e possivelmente da morte: fugiram da Rússia. Dos que ficaram alguns foram atropelados ou baleados “acidentalmente”, morreram em seus carros explodidos, envenenados com chá com polônio radioativo, outro teve o avião “implodido” [foto].

É o caso mais famoso do ano passado. O chefe do ‘Grupo Wagner’, Yevgeny Prigozhin, depois de décadas de serviços especiais prestados a Putin, foi acusado de traição e tramar um golpe de Estado. 

Assim são as coisas na Rússia putinista, e Navalny entra para mais um na lista de opositores de Putin que morreram misteriosamente. Lista extensa e negra de assassinatos encomendados pelo Kremlin, que nunca serão esclarecidos. Menos mal que várias autoridades do mundo ocidental responsabilizaram diretamente Putin pela morte de Navalny.

Realmente seria preciso muita ingenuidade para não se colocar a culpa em Putin. Já o presidente brasileiro [na foto com Putin], ao ser indagado, disse que esperará o resultado dos exames antes de se pronunciar. Mas aí não é por ingenuidade, mas para tentar salvar o ditador russo, assim como age em relação aos ditadores, como o de Cuba, Venezuela e Nicarágua.
Forças policiais reprimindo manifestação pró Navalny

Um dia virá, a Rússia será verdadeiramente anticomunista 

No dia seguinte à morte de Navalny, familiares pediram seu corpo para o sepultamento, mas não obtiveram até esta data (21 de fevereiro). A própria mãe retornou à prisão no Ártico para ver o corpo do filho, mas não conseguiu, deram-lhe apenas um documento afirmando que Navalny morreu no dia 16 de fevereiro às 2:17 da tarde. 

No documento não há explicação da causa mortis... Tudo leva a crer que o Kremlin está ganhando tempo para encobrir as provas do assassinato. 

A viúva de Navalny, Yulia Navalnaya [foto com o esposo e filhos], que sequer pôde ver o corpo do marido no necrotério, acusou diretamente Putin de ter mandado envenenar o marido. Ela disse que o governo russo espera os vestígios do veneno ministrado desaparecerem do corpo para só depois entregá-lo à família. 

Em várias cidades russas as ruas foram tomadas por manifestações acusando Putin de ser o culpado por ter calado a principal voz da oposição. Mas elas foram duramente reprimidas pela polícia, que efetuou, até o momento, quase 500 prisões de manifestantes.

Mesmo com proibição policial, centenas de simpatizantes depositaram arranjos florais na “Pedra Solovetsky” — monumento às vítimas da repressão política, que fica em frente ao Kremlin, onde outro líder oposicionista foi morto em 2015. 

Flores vermelhas colocadas na neve bem simbolizam o sangue que se verterá em defesa de uma Rússia verdadeiramente anticomunista. Um dia virá!

15 de fevereiro de 2024

BRASILIDADE

Pau Brasil. O vermelho da madeira pode ser observado neste exemplar adulto do Jardim Botânico do Rio de Janeiro

✅  Plinio Corrêa de Oliveira

Entre brasileiros verdadeiramente católicos, apostólicos, romanos — assim como em qualquer outro povo quando é inteiramente católico — chega-se ao mais característico de sua pátria quando são católicos de modo autêntico. A religião católica faz com os caracteres nacionais de cada povo o que o verniz faz com a madeira. 

É muito diferente uma madeira envernizada da mesma madeira não envernizada. É também muito diferente o verniz quando ainda está no balde para ser usado e depois de usado na madeira. Ninguém, conhecendo só a madeira ou conhecendo só o verniz, poderia imaginar que a madeira envernizada ficasse tão bonita e nem que o verniz ficasse tão bonito sobre a madeira. 

Assim também se dá com a Religião Católica na alma de cada nação. O pau-brasil, por exemplo, só é inteiramente pau-brasil depois de bem envernizado. A madeira fica com todas as suas características e atinge toda a sua beleza depois de envernizada.

Deus criou a madeira para uso do homem e para que o homem fosse capaz de inventar vernizes e capaz de imaginar para a madeira uma forma de beleza que Deus queria. 

Desse modo é a Religião Católica com as várias nações. Para imaginar o ápice de cada uma delas, pensem nos grandes católicos que nela viveram. Porque aí é que o país aparece com toda a sua fisionomia. 


Para falar de nosso País: um Brasil “envernizado” é um Brasil católico, um Brasil verdadeiramente brasileiro. A brasilidade é algo por onde todos se sentem unidos, se sentem filhos da mesma Pátria. O elemento fundamental da brasilidade se faz de uma prodigiosa capacidade de intercambiar, de permutar, de influenciar e de receber influência. Por exemplo a influência portuguesa. Nós olhamos para a Torre de Belém [foto acima] e encontramos ali nossas ressonâncias e consonâncias. 

Antiga Câmara e Cadeia de Ouro Preto, outrora Vila Rica

Essa intercambiabilidade ajudou o brasileiro a ser suave como uma gota de azeite. O bom brasileiro tem a índole mansa e cordial, mas se for brutalizado, enguiça tudo.

A colonização portuguesa foi penetrando aqui com o “imperialismo do azeite”. Foi penetrando como o azeite numa folha de papel. Deita a gota de azeite, ele não rasga a folha, não dilacera, mas vai se estendendo. Assim foi o colonialismo de Portugal. Creio que não há uma ex-colônia tão amiga da ex-metrópole como Portugal e Brasil. 

É o dom dessa intercomunicação. É um modo especial de fazer as coisas, de ser, de arranjar. É um estilo brasileiro! O que mais dá felicidade a ele é procurar e encontrar afinidade. O bom brasileiro tem uma alma admirativa, por isso capaz de assimilar, porque de bom grado admira os outros. Olha para os outros sabendo reverenciar, prestar homenagem, admirar.

Quem admira, assimila e lucra. A alma do brasileiro é fundamentalmente admirativa. Esse gosto de ter afinidade na admiração, e de intercambiar, é o próprio bem-estar do brasileiro. É como ele se sente realizado. 

Isso forma o que o ambiente nacional tem para construir, com nota brasileira, num território novo, um mundo novo feito de contribuições de toda espécie de passados, para um futuro de síntese. Aqui está o Brasil autêntico. 

Profeta Joel (Aleijadinho),Congonhas do Campo

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Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 3 de novembro de 1979. Esta transcrição não passou pela revisão do autor.

9 de fevereiro de 2024

Não se deixem enganar pela “indústria bilionária do aborto”



✅  Paulo Roberto Campos 

Na última Walk for Life — [foto acima e no final] marcha contra o aborto, realizada em São Francisco (EUA) no dia 20 de janeiro —, Chrystal Neria, mais conhecida pelo nome artístico de Kaya Jones [fotos abaixo], ex-cantora, vocalista da banda musical The Pussycat Dolls, fez um comovente depoimento público sobre os abortos que fora obrigada a praticar. 

Profundamente arrependida, ela disse que, quando tinha apenas 16 anos, fez seu primeiro aborto e não contou aos pais, pois não precisava do consentimento deles. “Neste mundo estranho não há necessidade de tal consentimento para se matar um bebê”.

Perante a multidão reunida na manifestação antiaborto, ela prosseguiu: “Isso me prejudicou tanto que senti como se alguém tivesse arrancado uma parte de meu corpo [...]. Lembro-me de acordar e sentir como se eu tivesse perdido minha costela ou meu rim para sempre [...]. Gostaria de chorar junto à sepultura do meu bebê, mas ela não existe”

Três anos depois ela engravidou novamente, e, num período em que sua carreira de cantora decolava, disseram-lhe que deveria livrar-se do bebê se desejasse fazer carreira e ficar famosa. O mesmo aconteceu quando com 30 anos ela gestava o seu terceiro filho.

Por sua vez, Kaya Jones, atualmente com 40 anos, afirmou: “Venho de uma indústria que promove o aborto [...] Se você deseja ter um filho e quer ser uma artista e ter sucesso, eles forçam você a abortar. [...]Tenho um Grammy [2019], mas nada disso trará meus filhos de volta”, afirmou muito arrependida e carregando sua dor, pois “Eu sei que as pessoas desejam amenizar isso, mas sou mãe de crianças que foram mortas”. 

Enquanto foi uma Pussycat Dolls, com milhões de álbuns vendidos, a cantora afastou-se de Deus, mas depois que saiu da célebre e imoralíssima banda, retornou a Ele, começou a propagar sua fé e a declarar que nem a fama que teve apaga a dor por ter-se submetido a abortos. “Não importa quanto dinheiro você tenha, não importa quanta fama você possa ter, não importa quantos discos você possa vender. Nada disso trará meus filhos de volta”. 

A ex-estrela deseja agora usar sua voz a favor dos inocentes que não têm voz: os nascituros nos ventres maternos. E falar para as mães que abortaram que Deus pode perdoá-las se estiverem arrependidas. 

“Tive que passar por depressão grave, ansiedade e coisas que não quero falar. Há traumas mentais que surgem por causa dos abortamentos”. Muitas pesquisas revelam isso claramente, que a maioria das mulheres que fizeram aborto teria preferido dar à luz se tivessem recebido mais apoio de familiares e conhecidos, e que muitas delas foram forçadas a abortar seus bebês, mas nunca se esquecem deles. 


Rezemos para que a coragem dessa cantora ajude outras mães e salve a vida de muitos bebês condenados à morte em tantos e tantos países que, entretanto, têm leis que não permitem a pena de morte. Que as mães não se deixem enganar pela “indústria bilionária do aborto”, não se deixem explorar por inescrupulosos e pela escravização da “Revolução sexual”, que força a mulher a praticar o aborto.

7 de fevereiro de 2024

Retorno à caligrafia para não prejudicar a educação

Meninos praticam caligrafia em uma escola sueca. 

A total digitalização da atividade escolar contribui para criar o cenário perfeito de uma educação deplorável. Na Suécia, o retorno à escrita manual. 


  Luis Dufaur 

Diante dos estragos produzidos nas mentes infantis e juvenis pela dependência das telas LCD, escolas na Europa e nos EUA redescobrem o valor do contato pessoal, a importância da sala de aula, da memorização, da escrita, dos livros de papel e da própria caligrafia, noticiou o jornal “El Colombiano”.[1] 

Estudos, livros especializados e muitos testes científicos recomendaram a des-digitalização massiva das escolas. E ela já começou nos países nórdicos e pode tornar-se tendência em todo o mundo. 

Em países desenvolvidos, as crianças de famílias de baixa renda consomem quase o dobro de tecnologia do que as crianças de famílias de alta renda. Cunhou-se o termo “ciberproletariado”: uma massa de jovens minimamente capacitados, mentalmente desfavorecidos, rebaixados pelas escolas para a condição de novos servos pelo uso das tecnologias digitais. 

A ministra sueca da Educação, Lotta Edholm, insurgiu-se contra esse rebaixamento. Para ela, a digitalização das aulas foi um experimento acrítico, em que a tecnologia foi aceita sem levar em conta o conteúdo e o resultado. Por sua vez, as ciências mostraram que os efeitos foram tão danosos que chegou a hora de dar marcha-à-ré, porque os alunos recebem cada vez menos conhecimentos e têm uma queda intelectual e cerebral. Eles mal sabem ler, sua compreensão da leitura caiu vertiginosamente, a caligrafia foi perdida e, acima de tudo, a capacidade de manter a atenção. 

A Suécia desistiu da digitalização escolar e o governo deseja que a aula funcione como lugar de leitura e escrita. A tecnologia não será descartada, mas a solução para os problemas da educação consistirá em não abandonar os alunos diante de uma tela. 

“Des-digitalizar” é progresso 

Ministra sueca da Educação,
 Lotta Edholm
 
Pesquisadores e educadores apalpam essa queda e veem com preocupação a geração que, segundo a UNICEF, cresceu sem conhecer a vida antes do smartphone e desanimou da leitura. As mudanças com a digitalização em todos os níveis deterioraram o QI dessa geração. 

Os dispositivos digitais são poderosos e, se utilizados de modo exclusivo ou abusivo, exibem um sem-número de efeitos deseducativos e mentais danosos. Acresce que a juventude está entrando na era da ‘Inteligência Artificial’, cheia de riscos, que nem os adultos conseguem mensurar. Os especialistas recomendam que as crianças tenham acesso à tecnologia só após aprenderem a ler e escrever com fluência. De fato, o que faria um jovem que precisa escrever de próprio punho uma mensagem, mas que só pode digitar? 

Os cientistas constatam que em países como os EUA há milhares de escolas públicas para crianças carentes saturadas de tecnologia, nas quais se diminuiu a importância dos professores. Resultado: estes ficaram pouco qualificados, com baixos salários e em escasso número. 

Restaurar o ensino tradicional é o futuro 

A cultura medieval empregava muito
 os desenhos como parte da caligrafia
Formou-se o cenário perfeito para uma educação deplorável, resultado da ausência do relacionamento entre uma pessoa qualificada — o professor — e o aluno, exaltada desde a Antiguidade pelos mestres na Grécia, por exemplo. Um grande promotor da digitalização, Steve Jobs, fundador da Apple, confessou em 2001, em um relatório intitulado “A sala de aula do futuro”: “Eu trocaria toda a minha tecnologia por uma tarde com Sócrates”. 

Se se procura uma cultura democrática, esta não pode depender de um algoritmo, método ideal para uma ditadura de Science-fiction, mas dos valores e conhecimentos que o mestre transmite aos discípulos.

Em 2023, 100 escolas públicas de Seattle (EUA) e 50 mil alunos processaram empresas de tecnologia por danos à saúde mental causados por aplicativos como TikTok, Instagram, Facebook, SnapChat ou YouTube. Restaurar a educação clássica é a maior urgência. 

A ministra da Educação da Suécia foi apoiada pela ministra da Cultura, e os partidos conservadores aceitam a “mudança de paradigma”, ainda que num país como a Suécia isso possa parecer retrógrado. Os políticos pensam na reação positiva dos pais de família, preocupados com a queda cultural das crianças. 

A História registra a importância da leitura da escrita na idade infantil. Os textos cuneiformes sumérios de 2.500 anos atrás insistiam em que os alunos requintassem a caligrafia. As escolas sumérias tinham um “encarregado do chicote” para aqueles que não cultivassem na perfeição a arte da escrita. Um grande educador e teólogo, o Pe. Henri Ramière SJ, fiel ao estilo que elevou a Companhia de Jesus a um patamar educativo superior, exigia dos alunos uma redação pessoal primorosa de apenas uma página, não só sem erros de ortografia ou gramática, mas com perfeição caligráfica, sem manchas, borrões ou outras imperfeições.[2] 

Progressistas contra a ciência 

Os opositores da restauração não gostam que as evidências científicas reprovem a digitalização das aulas. É fácil encontrar estudos de pediatria, neurociência e psicologia alertando para os danos do uso excessivo de tecnologias digitais. A ira modernista foi contra o fato de o governo se apoiar em “evidências científicas”. Quando a ciência se posiciona contra as utopias esquerdistas, vituperam a ciência, como registrou Critical Studies of Education & Technology.[3] 

A mentalidade ‘moderna’, revoltada contra as ciências, reclama uma liberdade irrestrita para os alunos navegarem no mundo digital, mas pouco se importam com a educação dos jovens. 

Confirmação de professor português 

O português Prof. Antonio Duarte[4] ressaltou que em 15 anos as aptidões intelectuais dos alunos suecos diminuíram, a dependência da informação pronta na Internet lhes tirou a vontade de pensar, e ficaram cada vez mais incapazes de se exprimir, enquanto enfraquecia a leitura. 

As ministras suecas da Educação e da Cultura anunciaram o retorno ao ensino baseado nos livros, e pensam em dispensar os computadores e tablets. O desenvolvimento cerebral e a habilidade manual são essenciais, mas se ficam inibidos pelas telas LCD estaremos voltando às cavernas, iluminadas, é claro, pelos reflexos das telas acesas. 

É indispensável a avaliação rigorosa, isenta, honesta, que o mestre faz da experiência pedagógica de cada aluno, não jogando nossas crianças e jovens num sistema que não tem dado bons resultados e caminha para um desastre civilizacional. Para isso, a Suécia investe R$ 315 milhões em livros, observou “O Estado de S. Paulo”.[5] 

O mencionado jornal acrescentou que, segundo a ministra Lotta Edholm, “novas descobertas na ciência cognitiva mostram que os alunos aprendem mais quando leem em um livro do que em um tablet”. Segundo ela, professores e alunos gostaram da decisão: “As respostas são muito positivas. Ter livros é quase visto como um luxo e, mais do que tudo, muitos pais aceitam a mudança”

Em maio de 2023 a avaliação global PIRLS (Progress in International Reading Literacy Study), mediu a capacidade dos alunos do 4º ano do ensino fundamental para a leitura e intelecção de textos em 57 países. A Suécia ficou na 13ª posição, e o Brasil, dói dizê-lo, ficou à frente só do Irã, da Jordânia, do Egito da e África do Sul. 

O governo de São Paulo tinha um plano de mandar imprimir 10 milhões de livros didáticos, que seriam distribuídos gratuitamente. A repercussão foi tão negativa que o governo mudou de ideia. 

Equilíbrio entre letra e imagem

O Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, que foi catedrático da PUC, defendia o equilíbrio entre caligrafia e imagem. Ele dava como exemplo as iluminuras nos livros e pergaminhos medievais. A letra capitular poderia ter um passarinho cantando, uma flor, uma cena da vida quotidiana etc. A cultura medieval empregava muito os desenhos como parte da caligrafia. Essa harmonização, no aprendizado, da letra e da contemplação da imagem, agradava muito e foi se aprimorando com o tempo, formando uma geração que forjou a civilização ocidental cristã. 
________ 
Notas: 
1.http://surl.li/lhebc 
2.http://surl.li/lhecl 
3.http://surl.li/lhedk 
4.http://surl.li/lheea 
5.http://surl.li/lheeu

5 de fevereiro de 2024

SÃO PIO V — Raciocínio lógico, límpido e inflexível



Em 17 de janeiro de 1504 nascia em Bosco Marengo (Itália), Antonio Ghislieri, futuro São Pio V. Seu Pontificado durou apenas seis anos (de 1566 a 1572), mas marcou a fundo a História da Igreja e foi o grande Papa de Lepanto e do Concílio de Trento. Comemoramos 520 anos em que ele veio ao mundo para a maior glória de Deus.

  Plinio Corrêa de Oliveira

Este quadro é do Papa São Pio V. Um nariz possante, enorme, mas com um corte muito definido, que tem qualquer coisa do bico da águia, qualquer coisa de uma ave de rapina. O formato do nariz indica muito a fisionomia. A linha dos lábios também diz muito e concorre para dar a expressão fisionômica. 

Observem o olhar: olhos no fundo de uma cavidade ocular óssea também possante, tão possante que o olho fica um pouco pequeno dentro dela. 

Tudo isto dá ideia de um homem de uma personalidade fortíssima. É o contrário desse tipo de pessoas que se guiam sobretudo pelos instintos. Na fisionomia do Papa nota-se que a razão, a inteligência e a vontade atingiram toda a maturidade que um homem pode atingir. Ele se guia pelo raciocínio lógico, límpido e inflexível. E por uma vontade de ferro para executar aquilo que sua razão indicou como verdadeiro. 

A fronte, também possante, confirma o conjunto da impressão que a fisionomia causa. Há um imponderável, ao lado da firmeza do santo, que revela sua doçura. 

No modo harmonioso como a barba cai e o bigode se revolve nela, desprende-se algo de tão doce, tão suave, tão resignado à vontade divina, que soberanamente me agrada ver e me enleva. 

É um homem forte como tudo contra os inimigos de Deus, mas nas mãos d’Ele é um Papa fácil de governar, aceita amorosa e submissamente o que Deus quiser dele. Por isso também é paciente em relação a todos aqueles que, arrependidos de seus pecados ou pelo menos envergonhados deles, se apresentarem perante ele. É verdadeiramente o Pastor Bonus, terrível contra o adversário e ao mesmo tempo manso, bom e misericordioso para com aqueles que não atacam a Igreja. É um Papa na própria expressão de palavra. 




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Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 14 de junho de 1968. Esta transcrição não passou pela revisão do autor. 

3 de fevereiro de 2024

Fotos: Nikolas Scheureu


Por que o Movimento Pró-Vida não pode e não irá se render 

 ✅ Kevin Romain 

Americanos contrários ao aborto reuniram-se em Washington no dia 19 de janeiro para a Marcha pela Vida, marcando os 51 anos desde que a infame decisão Roe vs. Wade legalizou o aborto provocado nos Estados Unidos. 

Membros da Sociedade Americana para a Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP) participaram desse multitudinário evento anual, exortando os pró-vida a continuarem a batalha para eliminar o aborto nos Estados Unidos e retornar à ordem cristã. 



Pressionando o Ataque 

A participação da TFP americana incluiu a fanfarra Holy Choirs of Angels tocando gaitas de foles, metais, pífanos e tambores. A música era alegre e firme, encorajando os que marchavam a fortalecer a sua determinação de derrotar o aborto definitivamente. 

Membros da campanha América Precisa de Fátima, da TFP, carregavam uma imagem de Nossa Senhora de Fátima, implorando ajuda sobrenatural nesta batalha. A Academia St. Louis de Montfort, também dirigida por aquela TFP, esteve presente com força total. 

A faixa da TFP dizia: “Os abortistas põem em circulação recentes derrotas dos antiabortistas, tentando assim desencorajar os pró-vida. A TFP diz: ‘Continuem lutando com confiança! Com Deus, venceremos!’” 

Apesar do frio intenso e da neve, uma imensa multidão encheu as ruas da capital americana, sendo de se assinalar o grande número de jovens cheios de entusiasmo pela causa dos nascituros e pelo futuro da família. Um verdadeiro mar de faixas e cartazes de grupos antiabortistas de todo o país cobriu o National Mall na abertura da Marcha. 

A multidão incluía não apenas grupos americanos, mas também pessoas contrárias ao aborto de outros países como Canadá, México, Irlanda, Brasil, Equador e outros.

Um destaque da Marcha pela Vida deste ano foi a presença do presidente da Câmara, Mike Johnson, de posição francamente pró-vida e pró-família. Ele pronunciou palavras de encorajamento à multidão reunida no National Mall antes do início da marcha. 

Ao longo das décadas, a Marcha pela Vida uniu o movimento e fez com que todos os participantes se sentissem parte de um impulso único empenhado na batalha pela cultura. Cada pró-vida torna-se assim parte de algo maior, movendo-se sincronizadamente em direção às novas batalhas que se apresentarem durante o ano. 

A visão de centenas de milhares de pessoas marchando todos os anos em Washington não pode deixar de causar medo nos defensores do aborto. A Marcha é muito mais do que uma manifestação ou protesto. Essa força juvenil posta em movimento cria a impressão de invencibilidade. 



Quatro coisas para lembrar enquanto o movimento pró-vida é posto à prova

 Voluntários da TFP americana distribuíram um folheto assinalando “quatro coisas para lembrar enquanto o movimento pró-vida é posto à prova”. 

A mensagem centra-se em quatro conselhos para os contrários ao aborto utilizarem frente às dificuldades futuras. “Devemos sempre lembrar a grande vitória que representou a derrubada de Roe v. Wade. Essa derrubada abalou o mundo e alcançou o impossível… A derrota de Roe serve para provar que uma vitória improvável é possível.” 

A declaração da TFP também enfatizou que o aborto é uma questão moral e não mera questão de direitos das mulheres. Explica que a batalha é religiosa e representa um choque violento de duas mentalidades, uma a favor de Deus e outra contra Ele. 

Presidente da Câmara, Mike Johnson 
“Devemos resistir à tentação de limitar o debate a uma discussão laicista sobre o valor da vida humana. A razão mais importante pela qual o aborto provocado é errado é que ofende um Deus infinitamente justo e misericordioso. Cada criança por nascer sacrificada aos ídolos pós-modernos de hoje elimina um plano de Deus que nunca será realizado. Violar a Lei de Deus é um ato de revolta contra a Sua Bondade.” 

Finalmente, o folheto afirma que o movimento pró-vida deve ter confiança em Deus. “Armados de confiança, marchemos corajosamente contra os espíritos malignos destes tempos sombrios e depravados, mudando o debate pela introdução da realidade sobrenatural da ajuda de Deus.” 



Lutando cheios de confiança 

“O movimento pró-aborto gostaria que esquecêssemos as nossas vitórias e ficássemos desanimados”, disse o líder da Ação Estudantil da TFP, John Ritchie. “No entanto, não o faremos e, confiando em Deus e na Sua Santa Mãe, venceremos a cultura da morte!” 

O sucesso é especialmente evidente no nível estadual. Desde que Roe v. Wade foi derrubado, 14 estados implementaram proibições totais contra o aborto, e vários outros introduziram restrições a ele. 

“Esta marcha exige confiança”, comentou Jon Paul Fabrizio, 20 anos, voluntário da Ação Estudantil da TFP. “Este é o momento de redobrar nossos esforços.” 

O movimento pró-vida deve adaptar as suas táticas com os olhos fixos numa América moralizada e livre do aborto. Os pró-vida americanos não podem descansar até que o aborto provocado se torne impensável e Deus e a Sua Mãe Santíssima sejam amados e obedecidos. 

“Agora é a hora de lutar! Agora não é hora para meias medidas!” afirmou Preston Noell, do Bureau de Tradição, Família e Propriedade de Washington. 

“Os pró-aborto estão cambaleando. Precisamos manter a pressão e fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para conquistar os nossos compatriotas, para que nos ouçam, e não à mídia, que deseja que eles desistam. Mais uma vez, agora é a hora de lutar! Devemos sempre lembrar que sabemos o resto da história, e o resto da história é que Deus vence! Deus vult!” 

1 de fevereiro de 2024

NON LICET

“Non Licet”, obra de Antoine Ansiaux, St. John Rebuking Herod (1822), Palais des Beaux-Arts of Lille, França. São João Batista severamente increpou Herodes Antipas. Devido ao seu pecado de adultério (por viver com Herodias, mulher de seu irmão), São João repreendeu Herodes dizendo-lhe que não era lícita aquela relação adulterina (Não te é permitido tomá-la por mulher – Mt 14,4).

“A Igreja não dispõe, nem pode dispor, do poder de abençoar uniões de pessoas do mesmo sexo”  [Cardeal Luis Ladaria]


Fonte: Editorial da e Revista Catolicismo, Nº 878, Fevereiro/2023

Causou imensa perplexidade no mundo católico a Declaração Fiducia Supplicans, de 18 de dezembro de 2023, da lavra do Cardeal Victor Manuel Fernandez, prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, e que conta com a assinatura do Papa Francisco. 

Muitos bispos e sacerdotes, e até mesmo Conferências Episcopais, afirmaram que não vão acatar as disposições da Declaração, ou seja, não vão conceder a bênção da Igreja a duplas homossexuais e a casais em situações irregulares, pois, além de confundir e escandalizar os fiéis católicos, ela equivale objetivamente a abençoar relações baseadas em pecados contra o Sexto Mandamento, usando o nome de Deus em vão. 

De fato, a Declaração contradiz outro documento emitido pela então chamada Congregação para a Doutrina da Fé, em 2021. O prefeito-emérito dessa Congregação, o Cardeal Gerhard Ludwig Müller, chegou a declarar que a recomendação de tal bênção “é uma blasfêmia”! 

Prédio do "Dicasterium pro Doctrina Fidei",
sediado no "Palazzo del Sant'Uffizio",
na Piazza del Sant'Uffizio, em Roma.

O mencionado Dicastério — um dos órgãos mais antigos da Cúria Romana — tem a missão de preservar o depósito da Fé e da moral, defendendo a Igreja das heresias e, para isso, deve vigiar os escritos de autores católicos, principalmente daqueles cujas obras são usadas nos seminários. Deve também pronunciar-se, à luz da Revelação, sobre novos temas de debate, resultantes das novidades científicas ou das evoluções sociais. 

Ora, a própria Declaração do Cardeal Fernandez é o oposto dessa grandiosa missão, pois suas disposições práticas contrariam a Fé Católica e o ensinamento perene da Igreja, e conduzem à aceitação de uma imoralidade — a legitimidade de uma “homo-heresia”.

Os prelados opositores lamentam que a Declaração submete-se às exigências de movimentos homossexuais. Estes contam com “companheiros de viagem” infiltrados na própria hierarquia católica e, é claro, não pouparam elogios à nova posição do Vaticano. Tudo isso, preparando o terreno para ousarem ainda mais: a retirada do trecho do Catecismo Católico que condena o homossexualismo; o reconhecimento conjugal das relações homossexuais; a autorização para se realizarem “casamentos” entre pessoas do mesmo sexo e, no futuro, outras depravações... 

Tudo, dentro da agenda LGBT, para levar a sociedade em geral a acabar aceitando o pecado de sodomia como uma forma natural da sexualidade humana, merecedora das bênçãos da Igreja. Deus não abençoa o pecado, mas, pelo contrário, o abomina e castiga, como o fez destruindo as cidades de Sodoma e Gomorra, justamente devido à perversão sexual, aos pecados contra a Lei de Deus e à Lei Natural. 

Como o leitor percebe, este assunto é extremamente delicado e gravíssimo. Por isso Catolicismo pediu ao seu colaborador José Antonio Ureta — especialista no tema que vem acompanhando há algumas décadas a evolução da questão dentro do Vaticano —, um artigo que constitui a matéria de capa da edição deste mês.

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31 de janeiro de 2024

Escolas melhoram sem celular


A Flórida vetou o uso celular nas aulas de suas escolas públicas. Em muitas delas foi proibido durante todo o dia, pois os pais pedem medidas drásticas contra seu uso desenfreado, que ameaça a educação, o bem-estar e a segurança dos alunos. 

Jovens filmaram agressões a colegas apenas para postar em redes sociais. 

Marc Wasko, diretor da escola de Timber Creek (Flórida), com 3.600 alunos, afirmou que agora os professores os encontram mais participativos. 

“Adorei. Os alunos estão mais falantes e colaborativos”, confirmou a professora Nikita McCaskill.

(Fonte: Revista Catolicismo, Nº 877, Janeiro/2023)

29 de janeiro de 2024

Qual é o pensamento católico sobre o mau hábito de se dizer palavrões?

“Deixai de lado todas estas coisas: ira, animosidade, maledicência, maldade, palavras torpes da vossa boca” (Colossenses 3,8)


  Padre David Francisquini 

Fonte: Revista Catolicismo, Nº 875, Novembro/2023

 

Pergunta Um amigo me comentou recentemente que havia parado de dizer palavrões, pois lhe tinham dito que era pecado. Acrescentou que recomeçara, porque não via nada de prejudicial nisso, desde que evitasse insultar a Deus, ofender injustamente o próximo ou proferi-los em situações inapropriadas —  num exame oral,  numa entrevista para conseguir emprego, por exemplo. Acrescentou ainda que, sendo colérico, era justificável liberar a pressão da panela soltando palavrões. Objetei que tal hábito não condiz com a boa imagem de um católico. Ele me respondeu que quase todas as pessoas gostam de ouvir palavrões e que estes até ajudam a apimentar as conversas e a fazer-se passar por simpático. O que o senhor tem a dizer a respeito?

 

RespostaNa cultura popular de hoje, dizer palavrões ou usar linguagem chula é extremamente comum, tendo a vulgaridade se tornado habitual na música, no cinema, na literatura e na linguagem cotidiana, chegando-se ao extremo de moças e até mesmo senhoras soltarem palavrões. Isso à primeira vista pode não parecer pecado, sob a alegação de não se ter necessariamente a intenção de ofender a Deus ou machucar alguém e, quando o fazem, é visto apenas como fruto de uma irritação passageira e sem consequências.

Mas a realidade é mais profunda, e mais rigorosa a resposta. Se o palavrão ou a linguagem vulgar inclui de alguma maneira o nome de Deus, de Jesus Cristo, da Virgem Maria e dos santos, isso é uma violação direta do segundo mandamento, que impõe não usar o santo nome de Deus em vão. Se no ato de xingar se ofende o próximo com nomes ou adjetivos vulgares, isso pode constituir um pecado de injúria contra o oitavo mandamento e, de qualquer maneira, vai contra o que diz o Catecismo da Igreja Católica sobre o respeito devido à honra do próximo (n. 2158): “Deus chama a cada um pelo seu nome. O nome de todo o homem é sagrado. O nome é a imagem da pessoa. Exige respeito, como sinal da dignidade de quem por ele se identifica”. Por fim, se o palavrão inclui cumulativamente referências impudicas a órgãos ou questões sexuais, isso entra em colisão também com o sexto mandamento, que proíbe as palavras e canções licenciosas.

Condenações nas Sagradas Escrituras

Existe ainda uma zona cinzenta de palavrões que não entram em nenhum dos três casos acima, mas que constituem uma linguagem vulgar, frequentemente relacionada com funções corporais indecorosas. A Bíblia é muito severa a esse respeito:

“O homem bom tira coisas boas do bom tesouro do seu coração, e o homem mau tira coisas más do seu mau tesouro, porque a boca fala daquilo de que o coração está cheio” (São Lucas, 6, 45).

“Não é aquilo que entra pela boca que mancha o homem, mas aquilo que sai dele. Eis o que mancha o homem” (São Mateus 15,11).

“Eu vos digo: no dia do juízo os homens prestarão contas de toda palavra vã que tiverem proferido. É por tuas palavras que serás justificado ou condenado” (São Mateus 12, 36-37).

“Que as vossas conversas sejam sempre amáveis, temperadas com sal [da sabedoria], e saibais responder a cada um devidamente” (Colossenses 4, 6).

“Deixai de lado todas estas coisas: ira, animosidade, maledicência, maldade, palavras torpes da vossa boca” (Colossenses 3,8).

“Quanto à fornicação, à impureza, sob qualquer forma, ou à avareza, que disto nem se faça menção entre vós, como convém a santos. Nada de obscenidades, de conversas tolas ou levianas, porque tais coisas não convêm; em vez disso, ações de graças” (Efésios 5, 3-4).

A Sagrada Família – Rafael Flores (1832 - 1886). Museu Nacional de Arte, Cidade do México

“Teu modo de falar te dá a conhecer”

É claro que, para os palavrões constituírem pecado, é necessário que sejam proferidos com pleno conhecimento e pleno consentimento. A raiva ou um grande aborrecimento diminuem a responsabilidade moral e a gravidade da falta, porque tornam mais difícil conter o fluxo de palavras grosseiras que vêm à mente. Mas isso não ocorre se a pessoa se habituou a jamais proferir palavrões e a usar sempre uma linguagem respeitosa e elevada.

É precisamente nessas circunstâncias que se deixa ver se a pessoa recebeu uma boa educação ou melhorou a que recebeu no ambiente em que foi criado. Alguém disse que a cortesia é a liturgia da caridade e isso é muito verdadeiro, pois a pessoa polida demonstra ter preocupação pela sensibilidade das pessoas que a rodeiam. Mais ainda, como a caridade começa em casa, ela demonstra ter uma consciência clara de sua própria dignidade de católico batizado e de membro de uma família digna.

Aqueles que se habituaram a dizer palavrões devem se esforçar para corrigir esse mau hábito e procurar afinar a sua sensibilidade de maneira a se chocarem quando ouvirem músicas, diálogos de filmes ou conversas entre colegas ou amigos que empregam linguagem chula. De fato, a vulgaridade tem o efeito muito danoso de conseguir amortecer na alma das pessoas a rejeição a coisas que normalmente deveriam chocá-las.

Essa obrigação de corrigir-se é tanto maior quanto mais a pessoa estiver em contato com crianças, pois estas são propensas ao mimetismo e tendem a repetir o que ouvem dos maiores. Se o entorno acha graça, elas percebem nos sorrisos maliciosos um encorajamento para enveredar pela via da vulgaridade e da faceirice.

Aos que colocam as crianças no bordo desse precipício, aplicam-se as severas palavras de Nosso Senhor: “Se alguém fizer cair em pecado um destes pequenos que creem em mim, melhor fora que lhe atassem ao pescoço a mó de um moinho e o lançassem no fundo do mar” (São Mateus 18, 6).

Uma consideração final e colateral, já não diretamente de ordem moral, mas que pode ajudar a nossa sociedade decadente a fazer um derradeiro esforço de correção da linguagem. É as pessoas tomarem consciência de que a linguagem vulgar cai bem em certos ambientes ditos “prá-frente”, mas é muito mal vista nos círculos mais cultivados e elevados de uma cidade, nos quais a elegância da apresentação e dos modos de ser ainda é um critério de avaliação das pessoas. Esses círculos poderão dizer ao “boca suja” aquilo que os criados disseram a Simão Pedro na casa de Caifás: “Teu modo de falar te dá a conhecer” (São Mateus 26, 73).

O mais importante, porém, é procurar ajustar em tudo nossas vidas ao divino modelo de Nosso Senhor Jesus Cristo, cuja linguagem era constituída somente de “palavras de vida eterna” (São João 6, 68). Pode-se imaginar a elevação, a seriedade e a doçura das conversas da Sagrada Família na casa de Nazaré?