23 de junho de 2018

11ª Marcha nacional contra o aborto de Brasília

  
Marcelo Augusto Siqueira

Clima ameno e céu aberto proporcionaram a realização de mais uma Marcha Nacional contra o aborto, ocorrida em Brasília no último dia 20. 

Mais de 3.000 compareceram ao evento promovido pela entidade Brasil Sem Aborto. A presença de sacerdotes, religiosas e famílias inteiras foi marcante. A juventude mostrou-se ativamente contra o aborto, marcando o evento. 


O Instituto Plinio Corrêa de Oliveira compareceu também com seus estandartes, o Pendão Nacional e portando durante toda a marcha uma imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima, que foi muito notada causando a admiração e veneração do público em geral. 

A marcha tem por objetivo representar a grande e maioritária parcela da população brasileira que é conservadora e que é contra crime tão nefasto: a prática do aborto. Sobretudo, cristão de nascimento, o povo brasileiro ama e devota todo o seu esforço para que o decálogo e os princípios morais católicos sejam acatados e afirmados. 


O Brasil gloriosamente e perigosamente vai entrando no rol de países que ainda não despenalizaram o aborto totalmente. Gloriosamente, pois a luta contra este assassinato se mostra eficaz e o sacrifício de muitos que lutam, frutificou. Porém, estar neste elenco, faz com que os inimigos da lei de Deus voltem seus olhos cada vez mais para a Terra de Santa Cruz, para aqui implantar totalmente o crime do aborto.

18 de junho de 2018

Violência urbana, crise religiosa, corrupção política – Por quê?

➤  Paulo Corrêa de Brito Filho

Assaltos nas ruas, roubos à mão armada, ônibus incendiados, balas perdidas, arrombamento de caixas-eletrônicas, sequestros, enfim o quadro trágico da violência urbana é o que mais preocupa o cidadão comum. Mais ainda do que o fantasma do desemprego, do péssimo ensino escolar, do desastroso serviço de saúde, da corrupção política que se agigantou dantescamente nos últimos governos de esquerda. 

Embora se trate continuamente da violência urbana, fala-se muito pouco de seu ponto mais importante: suas causas morais.

Campeia uma televisão destruidora dos mais comezinhos princípios da moral familiar, sendo uma minoria os valentes que ousam reagir contra ela; no cinema, nos teatros, nas salas de aulas, até no interior dos lares vão rareando os bons exemplos, o ensino dos princípios formadores do caráter, o culto do dever. A própria campanha contra a disseminação da AIDS tem por fundamento a propaganda da mais crua imoralidade.

Há ainda o receio de afirmar que na base da desagregação moral no Brasil está uma terrível e dolorosa crise religiosa. Mas, para uma compreensão completa do problema, cumpre ter a coragem de conhecê-lo por inteiro, a fim de lhe aplicar a terapia acertada.

Sem que esses fatores sejam atacados, pode surpreender o aumento da criminalidade, a escalada incontenível das drogas, e a transformação do outrora moralizado, ameno e reconfortante convívio domestico em ríspido, desgastante e penoso?
A cordialidade brasileira provinha de um fundo de benquerença, de um olhar sossegado em considerar a vida. 
Houve no passado numerosos estudos sobre a cordialidade brasileira, de tal modo esta nota estava presente entre nós. Ela vinha de um fundo de benquerença, de um olhar sossegado em considerar a vida, e também da sensação difusa de que, pelo nosso jeitinho, conseguiríamos afastar de nosso País as tragédias causadas pela perda do senso moral, da crise religiosa e dos maus governos. 

Desapareceram tais estudos... E estão sendo substituídos por maçudos ensaios sobre o alastramento das drogas, a respeito da violência no lar, nas ruas, nos locais de trabalho. Um modo de ser vai se apagando, enquanto outro, que lhe é oposto, vai se afirmando. 

O que está mudando? Estão mudando os hábitos morais!

Qual a solução? Primeiramente reconhecer os problemas, e depois combatê-los corajosamente.

14 de junho de 2018

O ser humano, o cisne e o gato

As mil lições que o gato proporciona ao homem simbolizam mil aspectos da realidade, com seu lado ruim decorrente do pecado original, mas com seu lado bom que tem fundamento em Deus


➤ Plinio Corrêa de Oliveira*

Os seres minerais, não tendo sensibilidade, não têm nenhum conhecimento. A planta pode ter reações, mas não tem conhecimento. O animal tem um grau de vida superior ao da planta, e tem conhecimento. Por exemplo, quando um rato passa perto de um gato, este o reconhece como um alimento e corre atrás dele, pois precisa se alimentar. Também o rato reconhece o gato, sabe que o gato costuma ter fome, identifica-o como um perigo e foge. É natural que o gato e o rato, tendo ambos o instinto de conservação, queiram sobreviver, e o mais adequado a cada um é o gato comer e o rato fugir. 


Essas reações naturais dos animais existem em seres irracionais, portanto não se devem a raciocínios, e sim ao conflito de instintos de conservação que ambos têm. Trata-se de um mundo de operações admiravelmente razoáveis que os animais possuem. Muitas vezes são operações de grande complexidade, cujo mecanismo os cientistas levam gerações estudando para explicar, e nem sempre o conseguem. Elas estão de acordo com a ordem e natureza das coisas, simplesmente por associações de imagens, reflexos, instintos, mas não são frutos de raciocínios. 



Quando o gato dá um miado choroso, cujo tom lamuriante é infalível para comover corações femininos, é porque sabe que a sua dona pode dar-lhe um pouco de leite. Ele não faz um raciocínio como este: “Ela é dona do leite, e dá se quiser. Por isso, se eu quero leite, devo manifestar a ela que estou precisando de leite. Quanto mais lacrimejante for o meu miado, mais depressa ela vai dar. Logo, vou caprichar no meu miado”. Mas o gato é totalmente incapaz disso, o que faz é movido pelo instinto. 


Não deixa de ser verdade que, quando ele tem fome, acaricia a dona, levado por um conjunto de instintos, reflexos, movimentos que decorrem do princípio vital dele, daquilo que nós poderíamos chamar “alma”. Não uma alma espiritual como a humana, mas um princípio vital do animal. Um mineral, como a pedra, não tem nenhuma vida e não é capaz de nada disso que se passa no mundo animal. 

O homem é um ser muito mais complexo, possui uma razão que o leva a compreender as coisas, e tem todos os movimentos voluntários no nível da razão. O raciocínio funciona associado ao instinto, e muitas vezes o homem completa a ação do instinto pensando, raciocinando. Algumas coisas podem ser feitas automaticamente, por um reflexo, sem precisar de raciocínio, mas outras vezes é necessário um raciocínio. Pode-se mesmo não saber, num caso concreto, se agimos racionalmente ou apenas instintivamente. Nem sempre sabemos, em nossa ação, qual é o grau de colaboração da natureza animal e qual é a colaboração da alma racional. 

Um exemplo é quando alguém entra depressa numa sala durante a noite, à procura de um objeto. Para isso, instintivamente estende a mão para o lado e acende a luz. O que se passou é uma mera associação de imagens e lembranças, e até um animal seria capaz disso. Poderá também ser resultado de um raciocínio: “Eu preciso de mais luz; para aumentar a luz, tenho que acionar este botão; portanto, vou acionar o botão”. 


Por mais que o animal esteja abaixo do homem, há um ponto em que está acima dele: no animal não há uma luta interior, que ora o leva para um lado, ora para outro. Exemplo: uma das atitudes mais vis no reino animal, e por isso muito simbólica, é uma galinha quando foge espavorida. Ela pode hesitar, mudando várias vezes o seu rumo de corrida, pois de alguma forma o conhecimento dela indica que o perigo mudou de lugar, ou então ela primeiro viu o perigo de um jeito, depois viu de outro. Mas ela não tem uma divisão interna, uma incerteza, uma dúvida, obedece ao instinto. 

Já o ser humano tem dúvidas. Em geral sentimos duas leis opostas. São Paulo chama isso “a lei da carne e a lei do espírito”. Queremos algo pela apetência carnal, mas pela apetência espiritual desejamos outra coisa. Há um combate interior, que nos leva a contradições, e às vezes fazemos uma coisa, depois mudamos e fazemos outra. O animal, nesse ponto, é superior ao homem. 
*       *       *
Quando eu era pequeno, ia ao Jardim da Luz em São Paulo, onde havia um lago artificial com cisnes, e gostava de vê-los nadando. A maioria eram cisnes brancos, e um ou outro preto. Eu ficava encantado de ver a decisão suave, mas sem nenhuma forma de hesitação, com que um cisne tomava rumo na água, aparentemente sem motivo. Algumas vezes seguia em frente, outras vezes dava uma volta, nadava sem rumo aparente pelo meio do lago, mas nunca tontamente. Seguro de si, olhando o lago com aquele pescoção alto e a superioridade de cisne, flutuando como quem não se molha, mas regozijando-se do contato com a água. 

Eu não conhecia ainda a doutrina do pecado original, e me perguntava: por que não sou assim? Por que não tenho essa segurança que tem o cisne, essa lisura no viver? Não seria melhor que eu tivesse nascido cisne? 

Eu percebia que o cisne não tinha luta interior. Mesmo quando fazia alguma coisa sem razão aparente, a decisão era determinada por algo do seu instinto. Não havia luta interior, e durante muito tempo ele tornou-se para mim o próprio símbolo da falta de hesitação e da ausência de dúvida interior. Parecia haver um acordo implícito do cisne com as águas — elas nunca tentavam contra ele, nem ele contra elas. Deslizando sobre aquelas águas, ele parecia orná-las, e elas nunca se moviam de modo a contrariá-lo. O cisne ficava seco, com a toalete perfeita para o dia inteiro. Agradava-me enormemente contemplá-lo. 

Essa divisão — ora querendo uma coisa, ora outra — nos joga tão baixo que parece representar uma vergonha. No entanto, isso nos coloca muito acima dos cisnes e dos outros animais, representa de fato uma vantagem. Nós somos capazes de nos conhecer a nós mesmos e de conhecer os outros. Somos capazes de conhecer o mundo externo. Nosso intelecto nos torna capazes de conhecer a Deus. Nós compreendemos. O simples fato de compreendermos a nossa alteridade — que cada um de nós é eu, e não o outro — o fato de cada um poder dizer “sou eu” é uma superioridade fabulosa. Somos inteligentes, conhecemos a Deus e o mundo externo, conhecemo-nos, sabemos quem somos. Também por isso o homem é o rei da criação. Um rei que cambaleia e que cai, se não abrir os olhos e se não rezar muito. Rei cego, mas que tem em sua fronte um diadema, uma coroa. 

O que move o homem a agir nas várias situações? Move-o um modo de conhecimento animal que há em si, em face da realidade exterior. Exemplifico com as características deste nosso grupo de pessoas conhecidas. Meus olhos os veem, a todos e a cada um, e essa função de meus olhos é puramente animal. No entanto, a ela se somam imediatamente mil memórias, recordações sobre o nosso relacionamento anterior: as razões pelas quais estamos juntos; as metas que tenho, ao aceder em estar junto dos conhecidos; as facilidades e dificuldades que tenho na obtenção dessas metas. Portanto, levam-me a avaliar o que devo dizer e como devo dizer, para a obtenção dessas metas. Entra aí uma pirâmide de dados que foram intermediados pelo corpo e estão na inteligência, são armazenados na inteligência. 

O corpo tem seu papel, e bem maior do que muitos imaginam. Se meu corpo fosse outro — se, por assim dizer, minha animalidade fosse outra — eu veria as pessoas como estou vendo, mas ressaltaria algumas coisas e outras não, reagiria de modo diferente em relação a umas coisas e outras. Portanto, o mesmo quadro que estou vendo agora, para mim teria relevos e cores diferentes. Cada homem é assim, à maneira de um tapete que, colocado junto à luz, toma reflexos variados. Nenhum homem tem, em face das coisas que vê, uma atitude inteiramente idêntica à de outro homem. 

Embora sendo do mundo animal, devido às nossas inteligências nós somos capazes de julgar. Se algo não for conforme à Lei de Deus, conforme à verdade que minha inteligência percebe, sou capaz de reprimir o que é ruim e aceitar o que é bom, e até de desenvolver o que é bom. Portanto, minha alma continua a rainha, mesmo em águas convulsas. A batalha e a dificuldade são diferentes de uma pessoa para outra, e cada um pode também compreender a Deus de um modo ou de outro. 

Voltando ao exemplo do gato. Volto de bom grado a ele, porque é um animal muito interessante, muito sugestivo e muito velhaco. E tem a vantagem de seus estados de animalidade serem muito matizados, ele muda continuamente en dégradé, sem saltos, como numa espécie de opala. Inspira também um certo medo, porque pode ter mudanças muito súbitas e muito variáveis. 

Há gatos que são a própria imagem do raffinement. Sedosos, peludos, movem-se com elegância, fazem poses. Outros são a própria imagem do carinho, brinquedinhos vivos, que brincam de modo encantador. Gatinhos bebendo juntos de uma mesma tigela com leite, por exemplo, podem fazer coisas encantadoras. 

Uma proeza felina que enraivece a dona, é quando ele consegue enfiar a pata pela porta da gaiola, agarra o passarinho e se banqueteia com uma refeição requintada. Cunharam até essa expressão bem achada, para a cara de fingido arrependimento quando alguém é apanhado em flagrante delito: cara de gato que comeu passarinho. Quem nunca viu a cena, pode facilmente imaginá-la. 

Outra é a do gato que sobe no aquário e fica observando os movimentos do peixinho. Quando ele está numa posição conveniente, o gato mete rapidamente a pata e joga o nadador para fora da água, depois dá um salto felino e o apanha. Há em Paris uma Rue du Chat-qui-Pêche (Rua do gato que pesca) [foto abaixo], em memória de um gato que sobressaiu-se nessa habilidade no rio Sena, e era espetáculo gratuito para muitos, a ponto de merecer essa homenagem da municipalidade. 

Por que Deus criou o gato com todas essas diversidades? Funcionaria igualmente bem o mundo, se não houvesse gatos? Evidentemente, Deus criou o gato para os homens, mas o que lucram os homens com a existência do gato? Ele distrai o homem, e também lhe serve de exemplo. Ora o encanta, ora o frustra. Por mais mansinho e apreciador de carinho, de repente lhe mete uma unhada. 

O gato deixa no homem certo pesar de não existir o gato ideal: interessante como o gato ruim e encantador como o gato bom; vivo como o gato de goteira e sedoso como o gato criado sobre a almofada vermelha de uma marquesa; gatinho de brinquedo para distrair, mas nunca agredindo nem arranhando, nunca pregando má surpresa; capaz de arranhar e pregar má surpresa aos inimigos do homem, que são os ratos da casa. Na verdade o homem desejaria um gato duplo: tigrinho para o rato e brinquedinho para ele, pressupondo-se também a condição de não incluir peixinhos e passarinhos na sua dieta, nem derrubar louças frágeis. 

Em todos esses estados de espírito que o contato com o gato proporciona, não estaria o homem sonhando com o Paraíso perdido? Não fica propenso a sentimentos de bondade? De outro lado, não fica propenso a sentimentos de prudência? E junto com a virtude da prudência, não exercita também a virtude da bondade, da caridade, da mansidão? Mais ainda a virtude da fortaleza, quando o gato atrapalha e o homem sai em sua perseguição? Não recebe do gato uma lição de vigilância, quando o vê levantar as orelhas e começar a olhá-lo? Nessa situação, o homem não se sente um bobo em face do gato? O reboliço que os gatos fazem dentro de um “saco de gatos” pode lembrar muito bem a consciência acusadora do pecador... 

Essas mil lições que o gato proporciona ao homem simbolizam mil aspectos da realidade, com seu lado ruim decorrente do pecado original, mas com seu lado bom que tem fundamento em Deus. O sedoso e macio do gato simbolizam de algum modo as delícias do convívio divino. O interessante e o novo que há no gato simbolizam de algum modo o que há de inesgotável e sempre surpreendente para nós em Deus: sempre o mesmo, mas motor imóvel, causando todas as coisas e fazendo coisas que nos deixam continuamente surpresos, encantados e tranquilamente habituados a algo que não muda nunca. E assim, subindo até o mais alto ponto, elevamo-nos a Deus. 

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* Comentários feitos por Plinio Corrêa de Oliveira durante um almoço no dia 7-7-1983, extraídos de gravação em fita magnética. A fim de serem publicados, alguns comentários foram ligeiramente adaptados. Essa transcrição não passou pela revisão do autor.
Fonte: Revista Catolicismo, Nº 810, Junho/2018.

12 de junho de 2018

A radical intolerância dos “tolerantes”

Momento de uma das várias agressões físicas. A polícia, presente o tempo todo, teve temor de intervir
Julio Loredo 

Fui convidado pela Fundação Civitas Christiana (TFP holandesa) para fazer algumas conferências em Nijmegen, uma das mais tradicionais cidades da Holanda. O programa previa um dia dedicado a um pequeno grupo de rapazes, sobre o tema A santidade da civilização cristã; e meio dia de palestras para cerca de 60 simpatizantes, ávidos por informações sobre Plinio Corrêa de Oliveira, o cruzado do século XX. O interesse pelo pensamento e a ação desse eminente líder católico contra-revolucionário brasileiro vem crescendo cada vez mais no país. 

Chamam a atenção as imagens de “Che” Guevara
portadas pelos agitadores LGBT. Afinidades ideológicas
com o comunismo, cada vez mais claras
No sábado à tarde, como parte do programa juvenil, fomos ao centro de Nijmegen para protestar contra um cartaz imoral divulgado na cidade, o qual mostra dois homossexuais se beijando. Hugo Bos, diretor da TFP dos Países Baixos, definiu corretamente o cartaz como “altamente impróprio para a moral pública, especialmente para as crianças”. A manifestação consistia na distribuição, de forma pacífica e legal, de um folheto exortando as pessoas a assinar uma petição on-line de protesto contra esse cartaz. 

Poucos minutos após o início da campanha, apresentou-se um magote com cerca de 100 militantes LGBT, claramente preparados para um ato de guerrilha urbana. Alguns tinham o rosto coberto por lenços, outros usavam capacetes que lhes cobriam toda a cabeça. Revoltados, atacaram-nos fisicamente, de forma bastante violenta; atingiram nossos olhos com balões contendo pó de pimenta e purpurina; arrebataram com força os folhetos das nossas mãos, para em seguida rasgá-los; e tentaram apossar-se dos nossos banners, sem o conseguir. 

Começamos a rezar o Santo Rosário, mas os hooligans LGBT ignoraram o caráter estritamente religioso deste ato, e passaram a arrancar os terços de nossas mãos, arrebentá-los e zombar de nós. O ódio à Fé era óbvio. Mas nossa calma, coadjuvada por indiscutível superioridade moral, impediu que a situação se degradasse. A Polícia, muito favorável ao nosso trabalho, só nos protegeu em parte, pois temia ser erroneamente censurada como favorecedora de “atos homofóbicos”. 

Não foi esta a primeira vez que estive na rua, lidando com agitadores LGBT. Mas neste caso tão característico de intolerância, algumas conclusões eram evidentes. 

Um dos hooligans LGBT
1. A Holanda é considerada um país liberal e tolerante. Mas a tolerância parece ter mão e não ter contra-mão. Basta mencionar que quatro gráficas se recusaram a imprimir os nossos folhetos, por temerem represálias do movimento homossexual. Conseguimos que uma pequena tipografia aceitasse o encargo, mas só depois de nos comprometermos a manter sigilo. Como pode ser considerado liberal um país onde a liberdade de imprensa é coibida? Até onde nos consta, o controle da imprensa é um elemento típico das ditaduras. Outro elemento é o clima de terror ideológico imposto pelo lobby LGBT. Liberdade em teoria, mas intolerância na prática. 

2. A Polícia afirmou que só podia nos proteger até certo ponto, pois deveria ter muito cuidado para não ser acusada de “crime de homofobia”, o qual poderia implicar em expulsão e processo penal. É um direito do cidadão ser protegido pelas forças da ordem, mas outro elemento típico das ditaduras é esse controle da Polícia. 

3. Além de ordeiro e pacífico, nosso protesto estava firmemente motivado, tanto do ponto de vista intelectual quanto moral. Apresentávamos de forma serena um ponto de vista: o da moral católica e do direito natural. Porém a intolerância da ditadura LGBT é radical, total, absoluta. Ninguém tem o direito de manifestar um ponto de vista contrário ao dela. Quem o faz, literalmente põe em risco a própria pele. Eis um terceiro elemento da ditadura: o controle do pensamento por meio da força bruta. 

4. A fúria dos elementos LGBT atingiu seu paroxismo quando começamos a rezar o Santo Rosário. Não só arrancaram o terço das nossas mãos, mas também praticaram atos lascivos em nossa presença, chegando mesmo a colocar as mãos sobre nós. Não reagimos com desforço físico, pois seríamos imediatamente acusados de praticar “violência de gênero”. Mais um elemento da ditadura: virtual proibição de praticar a própria religião, inclusive no domínio moral. 

Estamos caminhando com celeridade para aquela “ditadura do relativismo” denunciada pelo Papa Bento XVI. Na Holanda, já conseguiram criar um clima de terror ideológico. Fatos como esses, frequentes também em outros países, devem abrir os olhos das pessoas sobre o perigo de uma ditadura LGBT em franca expansão. 

Nestas páginas, algumas fotos da campanha em Nijmegen não dão bem a ideia do ódio e da violência dos hooligans LGBT. A imprensa holandesa evitou difundir as cenas mais violentas, mas filmamos tudo e nos reservamos o direito de publicar o vídeo integral, caso julguemos necessário.

9 de junho de 2018

SOL, ESPELHO DE DEUS


Plinio Corrêa de Oliveira * 

Deus nos deixou uma imagem d’Ele mesmo, mais significativa que qualquer outra: o Sol. Ficaríamos desapontados se percebêssemos no Sol a intenção de dar um show, fazendo poses no céu para ser admirado por nós. Pelo contrário, por não ser inteligente, não pode ter intenções. Enche-nos de benefícios com sua luz e seu calor, mas em nenhuma extremidade dos seus raios se preocupa em ser bem visto. Composto de uma massa de gazes em fricção, gerando altíssimas temperaturas, não tem pensamento, nem conhecimento, nem plano. Arde sem cessar, mas é indiferente a tudo e prossegue o seu ciclo. 


O Sol brilha com seu fogo e penetra em todas as partes, iluminando tudo. Tem a sua rota de todos os dias, com um aspecto na aurora, outros ao longo do dia, ambos distintos do ocaso. Pela faiscante frase de Edmond Rostand — o Sol, sem o qual as coisas seriam apenas o que elas são — o astro-rei acrescenta a todas as coisas aspectos que por si mesmas elas não teriam. 



Quantas auroras, quantos ocasos ao longo dos anos, dos séculos, dos milênios, sem se repetir nunca. Mas nessa existência tão luminosa e variegada, ele nem tem consciência de que existimos. O que de melhor ele nos faz é espelhar continuamente Alguém infinitamente maior que ele. Quando olhamos para o céu, podemos pensar em Deus criador, puro espírito, e exclamar: Ó Deus, como sois grandioso! 

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(*) Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 19 de setembro de 1981. Sem revisão do autor.

3 de junho de 2018

Rótulos da perseguição religiosa


Paulo Henrique Américo de Araújo 

Cada vez mais o mundo se torna inimigo implacável da moral católica, e não surpreende que isso se transforme em perseguição religiosa franca e declarada.

Recentemente, uma pequena propaganda online mostrava duas simpáticas meninas sorridentes [foto abaixo]. Até aí, nada demais, é bom e agradável ver duas meninas simpáticas e sorridentes, e os peritos em propaganda nunca o ignoraram. Pelo contrário, usam e abusam de imagens assim tanto quanto podem, e eu não perderia meu tempo com mais essa. Mas a inscrição associada à imagem atraiu a minha atenção: “Love has no labels”, que se traduz por “O amor não tem rótulos”. A pergunta inevitável me veio à mente: o que tem a ver uma coisa com a outra? 


Contradição aparente e insensatez são armas poderosas de atração em muitas propagandas. Havia uma relação intrigante entre a imagem das crianças e essa “chamada”, e por meio dela os idealizadores do anúncio me atraíram. Procuro sempre controlar a “louca da casa” (é assim que os doutores em vida espiritual denominam a curiosidade), mas preciso também conhecer os novos passos que vem dando a Revolução, para melhor combatê-la, daí minha decisão de clicar na figura. Não foi sem proveito, pois tenho agora a possibilidade de alertar nossos leitores sobre o que se esconde por trás da imagem das duas inocentes meninas, como também sobre uma verdadeira avalanche midiática que nos ameaça. 

O link leva ao site lovehasnolabel.com,* onde um vídeo mostra o público das arquibancadas durante o intervalo de uma partida de futebol americano. Parece ter-se tornado um costume nesse tipo de evento esportivo um telão exibir pessoas da plateia, inclusive casais, demonstrando sua afeição, com abraços e beijos. Crianças, casais e famílias assim o fazem, sob aplausos do público. Uma cena bem ensaiada focaliza então um casal em tais demonstrações de afeto. Em seguida o rapaz se vira para o lado oposto ao da moça, onde está seu “companheiro”, e o novo “casal” passa a demonstrar sua afeição do mesmo modo. Surpresa, risos e aplausos dos espectadores, provavelmente tão ensaiados quanto os três atores. Pessoas de origens diversas, famílias, adultos, crianças, todos em harmonia, todos festejando as demonstrações de afeto entre personagens tão heterogêneos... 

Uma impressão de simpatia penetra implicitamente, imperceptivelmente, as pessoas que assistem ao vídeo. E a mensagem não formulada, mas muito evidente, é que o afeto entre um homem e uma mulher ou entre dois homossexuais são ambos igualmente aceitáveis. Tanto o enredo quanto os sorrisos e aplausos conduzem o espectador, portanto, a simpatizar com as uniões homossexuais. E outra conclusão, que não está longe de ser explicitada, é a rejeição dos princípios religiosos contrários às uniões homossexuais, a mesma rejeição que se aplica a um vil racista ou xenófobo. 

Seguem-se relatos das mesmas pessoas que apareceram no vídeo, e algumas frases pontuais: “Nossa amizade não tem religião”; “O amor diz respeito a quem você é, e não a o que você é”. Para arrematar, uma música insinuante completa as cenas, repetindo ad nauseam o refrão Show me love (mostre-me amor). 

A coisa não para aí, na realidade o vídeo mostra apenas a ponta de um iceberg. A pesquisa mais detalhada do site revela uma ampla campanha internacional, com o objetivo de combater “preconceitos” e “discriminações”. Inúmeras frases-chave se espalham por suas páginas: “Está na hora de assumir a diversidade”; “Coloque de lado os rótulos, em nome do amor”

Há guias práticos ensinando como empreender esse combate, e podem ser “baixados” por qualquer visitante. No chamado “Guia para o orgulho”, lê-se: “Saiba mais como apoiar a comunidade LGBTQ”. Na sequência, explica que o guia “inclui dicas de como ser um bom aliado, um glossário de termos relacionados com a identidade de gênero e sugestões para quando aparecerem ‘novos amigos’”

Outra seção procura determinar claramente as metas: “Love Has No Labels encoraja as pessoas a examinarem e contestarem seus próprios preconceitos. A Liga Antidifamação (ADL), um parceiro deste projeto, desenvolveu este guia para ajuda-lo na promoção de discussões em sua casa sobre preconceito e discriminação”

Mais adiante, de modo habilidoso, o texto coloca no mesmo patamar vários tipos dos chamados “preconceitos”, como se todos tivessem as mesmas razões (ou a falta delas) para existirem. Mas não há dúvida de que a nota tônica da campanha é um violento ataque aos princípios católicos em matéria de moral sexual: “[...] destina-se ao entendimento e à aceitação de todas as comunidades, a despeito de raça, religião, gênero, orientação sexual, idade ou habilidade”

Não poderia faltar nisso a famigerada Ideologia de Gênero. Como exemplo do funcionamento dessas instruções na prática, eis um pequeno trecho que tem por alvo as crianças: “O vídeo [mencionado acima] fornece uma grande abertura aos pais e outros membros da família, para conversarem com as crianças sobre formas implícitas e explícitas de preconceito. [...] Torne o mais inclusiva possível a sua casa e a sua vida de família”. Não só na sua casa: “Se não há muita diversidade [na escola ou em seus círculos sociais], tenha em mente formas de tornar sua vida mais inclusiva. Esforce-se para que seus filhos travem contato com pessoas de origens diferentes: raça, religião, idade, orientação sexual. [...] Leia livros, assista programas de TV, filmes”...

Para o leitor medir a envergadura da tal campanha, basta observar os nomes que aparecem em destaque ao fim da página, como seus patrocinadores: Coca-Cola, Pepsico, Bank of America, Google, Johnson&Johnson, dentre outros.

Apesar de o site apresentar-se em inglês, visa atingir todos os países. O próprio anúncio contendo a foto das duas meninas, ao qual me refiro no início, apareceu também numa página brasileira. Versões em outras línguas, ou publicações similares, provavelmente já estão se disseminando na mídia mundial. Não se surpreenda o leitor, caso se depare com um desses guias no seu ambiente de trabalho ou na escola de seus filhos, num futuro próximo. Se isto acontecer, defenda-se com calma e firmeza, demonstrado e sustentando os perenes princípios morais da Santa Igreja. 

A perseguição anticatólica parece a nota preponderante da atual intolerância neopagã. Dir-se-ia que já não há espaço no mundo para o ensino católico tradicional sobre a família, num embate que vai se ampliando a cada dia. Mas não devemos esmorecer, nem temer a perseguição religiosa. A Igreja conhece esse inimigo desde os seus primórdios. “Se o mundo vos odeia, antes odiou a mim”, disse Nosso Senhor. Continuemos reagindo com o auxílio de Nossa Senhora, que nunca deixa de ouvir a súplicas de seus filhos.

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Nota: * Todas as citações, transcritas em tradução livre, foram extraídas do site http://lovehasnolabels.com e dos textos em PDF por ele fornecidos. 
Fonte: Revista Catolicismo, Nº 810, junho/2018. http://catolicismo.com.br/

30 de maio de 2018

IRLANDA — Aprovada a diabólica prática do aborto

A catástrofe da aprovação do aborto na Irlanda é também um desastre para a Igreja Católica 


Mathias von Gersdorff 

O resultado do referendo na Irlanda sobre a questão do aborto foi tão esmagador que os comentários se tornam quase supérfluos. O ocorrido fala por si. 

É de tirar o fôlego o fato de dois terços dos irlandeses terem votado a favor da abolição da proibição do aborto e de uma regulamentação bastante liberal. Em 1983, com igual resultado, a proibição do aborto foi introduzida na Constituição irlandesa. 

Este terremoto na opinião pública só pode ser explicado pela erosão da influência do clero católico no país. 

Quando a Irlanda ainda fazia parte do Reino Unido, ser irlandês significava também ser católico. Irlandês e católico eram sinônimos, como ainda é o caso na Polônia de hoje, onde praticamente não polonês que não seja católico. 

Agora isso já é história na Irlanda. 


Contudo, podemos ver neste triste episódio o enorme risco de um catolicismo apoiado quase que exclusivamente sobre a autoridade do clero, enquanto os princípios morais e as verdades de fé são relegados ao segundo plano: quebrada essa autoridade, como aconteceu nos últimos anos devido a muitos escândalos graves, o povo então vai perdendo a fé. 

Parece que a Igreja Católica na Irlanda chegou a uma espécie de “hora zero”. Ela precisa reencontrar o antigo brilho da fé a fim de recuperar a influência que já teve outrora. 

Amargo também é que esses casos se multiplicam. Basta pensar no Chile, onde a influência do clero caiu também para zero. Não apenas por causa de escândalos sexuais, mas também porque desde a década de 1960 a Hierarquia católica vem flertando com as correntes políticas socialistas. 

Por uma situação similar está passando atualmente a Igreja Católica na Itália. 

Nas últimas eleições a Conferência Episcopal Italiana fez uma grande propaganda a favor de uma política liberal de imigração. Finalmente, cerca de dois terços dos italianos votaram em partidos que postularam exatamente o oposto. Longe vão os tempos dos arranjos cúmplices entre a Igreja e a Democracia Cristã. 

Em países como a Alemanha não se podem mais temer as condições "irlandesas", porque o clero quase não tem influência. E personalidades como o cardeal Marx, com seus constantes e bizarros discursos, estão prestes a demolir os resquícios de influência que ainda têm os prelados. 

A Igreja Católica só pode sair desta crise se ela mesma quiser. Mas não terá sucesso se pensar que precisa confraternizar-se com o espírito dos tempos, como vem fazendo atualmente o cardeal Marx. 

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Tradução do original alemão por Renato Murta de Vasconcelos.

26 de maio de 2018

Ativistas pró-aborto colocam em dúvida a utilidade do conceito de “autodeterminação”


Mathias von Gersdorff

Para defender a prática do aborto, seus ativistas geralmente utilizam um único argumento: a mulher grávida tem “direito à autodeterminação”. 

O que querem dizer com isso é que a mulher deve ser completamente autônoma ao decidir se vai portar a criança em seu ventre ou não. Para justificar essa posição, abstraem completamente da existência do nascituro. A criança gerada não existe quase nunca nos textos apologéticos dos ativistas do aborto. 

É óbvio que esta estratégia não apenas reduz, mas também distorce a realidade do problema, enfraquecendo significativamente a sua credibilidade: qualquer mulher que não padeça de uma completa cegueira ideológica compreende que se trata na verdade da vida de um ser humano. Caso contrário, seria difícil entender por que desde há décadas existe um debate intenso e dramático sobre o aborto, mesmo em países onde ele é legal e subsidiado pelo Estado.

Mas, entrementes, surgiram outras questões: ao se fixar no argumento da autodeterminação, o feminismo radical está se excluindo completamente dos debates mais recentes, que dizem respeito inteiramente a posições ideológicas que realmente o interessam. 

Quem entendeu isso é a jornalista feminista Kirsten Achtelik, que publica suas obras em editoras ultraesquerdistas, como “Verbrecher” (Criminosos). Ela defende o aborto radical, mas parece reconhecer a simplicidade da argumentação de seu meio, que leva a posições fanáticas e injustificáveis. 

Kirsten Achtelik reconhece o perigo de o termo “autodeterminação” permitir uma normatividade completamente moldada pelo individualismo e pela auto-realização através da perfeição e do desempenho. 

Essa visão do tema permitiria facilmente matar crianças que não cumprem certos padrões de saúde (antes ou depois do nascimento). 

Nos últimos anos, uma das atividades mais importantes dos movimentos de esquerda tem sido a luta contra as normatividades (supostamente) arbitrárias. Essa luta tem enfrentado considerável oposição devido ao seu empenho em prol da “autodeterminação”. 

Isso é mais evidente do que nunca nos novos temas do movimento de proteção à vida, como por exemplo o diagnóstico pré-natal. Esse diagnóstico leva, como se sabe, ao assassinato de quase todas as crianças com deficiências físicas, como a síndrome de Down. 

Quando a saúde perfeita se torna a norma absoluta, isso só pode significar que as crianças com deficiências físicas não têm direito à vida. 

Essa é a prática, embora poucos o digam claramente. Tal visão utilitarista da vida humana foi formulada pelo filósofo australiano e ativista dos direitos dos animais Peter Singer, que defende até a matança de crianças após o nascimento, caso tenham defeitos físicos. 
O autor deste artigo numa manifestação contra o aborto em Roma. No cartaz: “Ativo pelo direito à vida dos não nascidos”. Mathias von Gersdorff é diretor da Aktion SOS Leben, Frankfurt (Alemanha).

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Tradução do original alemão por Renato Murta de Vasconcelos.

11 de maio de 2018

FÁTIMA — Algumas frases para reflexão

Aproximando-se a celebração do 101º aniversário da primeira aparição de Nossa Senhora aos três pastorinhos de Fátima, no dia 13 de maio de 1917, seguem algumas frases para refletirmos neste dia a respeito do tema do castigo providencial por Ela anunciado.

“Se os homens não se emendarem, Nossa Senhora enviará ao mundo um castigo como não se viu igual” 

(Santa Jacinta de Fátima) 

“O que podemos fazer para evitar o castigo anunciado em Fátima, na tênue medida em que ele é evitável? O que podemos fazer para obter a conversão dos homens, na fraca medida em que ela ainda possa ser obtida antes do castigo, dentro da economia comum da graça? O que podemos fazer para apressar a aurora bendita do Reino de Maria, e para nos ajudar a caminhar no meio das hecatombes que tão gravemente nos ameaçam? Nossa Senhora o indica: afervoramento na devoção a Ela, oração e penitência”

(Plinio Corrêa de Oliveira) 

“O Senhor castiga misericordiosamente os filhos que erram. Perseverai, pois, na sua disciplina. Se Deus vos poupa o castigo e a correção, temei que vos reserve para o suplício” 

(Bossuet) 

“Não haverá iniquidade que não tenha o seu castigo apropriado”

 (Tomás de Kempis) 

“O tempo que precede o castigo esperado é a pior parte desse castigo” 

(Sêneca)

6 de maio de 2018

Maio de 1968 – Maio de 2018: 50 anos depois, o que mudou na mentalidade dos católicos?

De maio de 1968 até os nossos dias, o mundo sofreu profunda mudança. Uma verdadeira revolução cultural transformou as mentalidades e as sociedades. Não escapou desse fenômeno o católico “comum”. Segundo o IBGE, 93% dos brasileiros se declaravam católicos em 1960, caindo para 64,6% em 2010. Quais foram, nesse meio século, as principais mudanças nos modos de ser, pensar e sentir dos católicos? 

Benoît Bemelmans

Esta matéria aqui reproduzida foi publicada
na Revista Catolicismo, Nº 809, Maio/2018
Os acontecimentos de maio de 1968, na França, são denominados de vários modos: “revolta estudantil”, “movimentos sociais”, “revolução da Sorbonne”, ou ainda “revolução de maio 68”. Foram explosões temperamentais, acompanhadas de greves operárias e estudantis, numerosos enfrentamentos violentos com a polícia, manifestações, ocupações de universidades, fábricas e teatros, protestos passivos (sit-in) e “assembleias populares”. Aconteceram não somente na Sorbonne de Paris, mas em todas as faculdades e universidades da França; e depois, com características diversas, em muitos pontos do mundo. 

Não sem acerto, o jornalista francês Jean-François Revel, em suas memórias, define assim os acontecimentos de maio de 1968: “Foi um movimento internacional que trouxe uma profunda [...] transformação nos costumes, nas sensibilidades, nas mentalidades”. 

O que pretendiam os agitadores de 68 

As características do movimento são bem conhecidas. Os estudantes se revoltaram antes de tudo contra qualquer tipo de autoridade e contestaram as hierarquias, todas as hierarquias. Queriam acabar com o capitalismo, com a propriedade privada, queriam uma sociedade baseada na “cooperação”, quando não diretamente na “autogestão”. Por meio de assembleias populares em todas as partes, pretendiam instaurar uma democracia “participativa”. Rejeitavam os preceitos da moral e da religião, pregavam o amor livre, e lançaram de fato a revolução sexual, justificando todas as perversões, inclusive a pedofilia. 

Outra característica muito importante: afirmavam que o poder deve ser tomado pelos jovens. Nesse sentido, foram influenciados pela revolução cultural maoísta que se implantava então na China, segundo a qual os jovens “guardas vermelhos” substituem os “velhos” dignitários comunistas. 

Atribuindo valor absoluto à espontaneidade da juventude e ao seu entusiasmo lúdico, julgando-a capaz de guiar a sociedade por novos caminhos, consideravam os “velhos” como burgueses reacionários, que impedem o advento de um novo mundo. A infantilização das mentes era proposta como método revolucionário para alcançar a igualdade. 

Em resumo, pregavam a derrubada da família, da propriedade, das tradições, das instituições, das nações e das fronteiras, da moral, das hierarquias, das classes sociais, e até da razão e da lógica. 
Feministas a favor do abroto

Os slogans da Sorbonne 

Numerosos slogans contendo algum espírito e muita maldade, pichados nos muros da Sorbonne e de outras universidades, dão bem a medida do que queriam alcançar com sua revolta:  
É proibido proibir 
• A imaginação no poder 
• Todo poder é um abuso. 
• As hierarquias são como as estantes: quanto mais altas menos servem  
• Se quiseres ser feliz, enforca o teu proprietário 
• Desfrute sem limites  
• Gozar aqui e agora  
• Invente novas perversões sexuais  
• A chateação é contrarrevolucionária 
• Nem Senhor nem Deus. Deus sou e 
• Mesmo se Deus existisse, seria preciso suprimi-lo  
• A mercadoria é o ópio do povo  
• A preguiça é um direito  
• Nunca trabalheis  
• Você também pode voar 
• Seja realista, exija o impossível  
• Todo ensinante é ensinado, todo ensinado é ensinante  
• Tudo que é discutível deve ser discutido  
• O respeito se perde, não vá atrás dele 
• A política se faz na rua 
• A mais bonita escultura é o paralelepípedo que lançamos na cara da polícia
• Abramos as portas dos manicômios, das prisões e demais faculdades. 

Uma profunda transformação da sociedade 

Nas semanas e meses que se seguiram aos levantes e às greves, aparentemente a vida voltou ao normal, e o movimento revolucionário parecia momentaneamente ter fracassado. Na realidade, uma profunda revolução psicológica e cultural foi se desenvolvendo até hoje, transformando completamente a sociedade. 

Para medir essa transformação, basta considerar a que ponto chegamos em termos de destruição da família, com a implantação do divórcio, do aborto [foto acima], do “casamento” homossexual, da Ideologia de Gênero, além da invasão da pornografia que hoje está ao alcance inclusive das crianças. 

 As elites tradicionais estão desaparecidas da vida da sociedade, tentando apenas sobreviver no seu canto sem chamar a atenção. Foram substituídas por falsas elites, o jet-set. Qualquer pessoa que ocupe um posto hierárquico, seja na economia, na política, ou mesmo na Igreja, faz questão de se apresentar como um homem qualquer, comum, mesmo se para isso tiver que rebaixar a dignidade do seu cargo. 

Os países ocidentais caminham com celeridade rumo a uma sociedade sem classes. A noção de herança, de bens de família cuja propriedade se transmite como um patrimônio precioso, tornou-se uma noção rejeitada por quase todos, mesmo quando se imaginam contrários ao comunismo. 

A civilização da imagem, comandada pelo turbilhão midiático que não deixa um minuto para a reflexão e a análise — internet, redes sociais, smartfones, televisão — são todos filhos da mentalidade de Maio de 68. Uma de suas consequências é a decadência da linguagem, e portanto do pensamento e do raciocínio, com a incapacidade para a abstração e o pensamento doutrinário. Eis o campo ideal para uma nova forma de coletivismo. Não mais o coletivismo dos meios de produção, mas o coletivismo dos meios de informação e formação da opinião, que se resume a um pensamento único. Tudo isso não deixa de ter semelhanças com o “modelo” tribalista, mas de tribos superconectadas, proposto por alguns a partir da Revolução de 1968. O avanço do feminismo, do trans-humanismo, do animalismo, do papel que se deseja dar à “inteligência” artificial, tudo caminha de acordo com a ideologia de Maio 68. 

Mudança de mentalidade do católico “comum” 

O leitor de Catolicismo não é um católico “comum”, cela va sans dire (nem precisaria dizer). Por isso mesmo entende sem dificuldades que, para medir a quanto estamos nessa destruição dramática do que foi outrora uma sociedade fundada nos princípios católicos, precisamos tentar medir até que ponto o conjunto dos católicos convencionais, “comuns”, se deixou levar por essas mudanças no seu modo de pensar e de agir. Quanto perdemos ou abandonamos, sem praticamente nos darmos conta? Até onde chegamos na aceitação dessa nova mentalidade? Qual a diferença entre o católico de hoje e aquele de 50 anos atrás? 

Para apalpar essa realidade, vejamos o quadro psicológico dos católicos antes de 1968. Nessa época, o que prevalecia era ainda a “Igreja constantiniana”, sobre a qual diremos algumas palavras. Nos três primeiros séculos do cristianismo, a Igreja Católica viveu a maior parte do tempo perseguida e nas catacumbas. Em 313, o Imperador romano Constantino deu-lhe liberdade pelo Edito de Milão. A Igreja passou então a influenciar a fundo as instituições e toda a vida da sociedade temporal, nascendo dessa influência a civilização cristã. Uma socióloga francesa definiu o papel da Igreja, durante os séculos seguintes, como “matriz de civilização”. Com altos e baixos, essa influência modeladora da Igreja sobre as sociedades em que os católicos são preponderantes se manteve até os anos 1960. 

O católico “constantiniano” dos anos 1960 

Independentemente de sua prática religiosa e de sua piedade maior ou menor — ou seja, independentemente de sua vida espiritual — o católico “constantiniano” dos anos 60 mantinha um apreço essencial ao fato de que o espírito católico rege profundamente a vida da sociedade. Estava um passo atrás, digamos, em relação à moda em vigor. Embora pessoalmente nem sempre seguisse todos os Mandamentos, recusava o amor livre e queria que as normas da moral católica fossem as normas da sociedade, não frequentava socialmente quem as violasse abertamente. Era contra o divórcio, e uma prova cabal disso é a campanha de abaixo-assinado que a TFP brasileira realizou em 1966. Em apenas 20 dias, 570.000 brasileiros firmaram esse abaixo-assinado contra o divórcio.

O católico “constantiniano” dos anos 60 tinha um apreço pelo formal e pelo cerimonioso, até nos artigos de jornais. Sentia um desgosto pelo baixo nível e a proletarização dos hippies. Tinha um gosto preferencial pelas formas tradicionais de beleza artística, desaprovando a arte moderna e a extravagância.

Mais nacionalista do que admirador da civilização cristã, o católico “constantiniano” era afeito a uma vida social ainda com hierarquias de classes sociais e de dignidades individuais. O direito de propriedade era central na concepção da vida, daí ser anticomunista por temperamento. Gostava de ler livros e artigos profundos, com raciocínios lógicos apoiados na doutrina social da Igreja, da qual já não era muito bom conhecedor. Sem ter sempre claros todos os princípios ideológicos, vivia num ambiente que se pode designar segundo a trilogia tradição, família, propriedade. 
O que o católico “comum” de hoje pensa das hierarquias? O que pensa, por exemplo, das elites que vê, do Papa, do Presidente da República?

Como definir o católico de hoje? 

O que o católico “comum” de hoje pensa das hierarquias? O que pensa, por exemplo, das elites que vê, do Papa, do Presidente da República? 

Como se comporta em relação às modas — na praia, por exemplo? 

O que pensa sobre o Estado laico, sobre o papel que a Igreja deve exercer para moldar as instituições, as leis e os costumes? 

Como se comporta em relação às pessoas que praticam o amor livre, o divórcio, o aborto, o homossexualismo, o concubinato? O que acha da facilidade com a qual a Igreja declara nulos os casamentos? 

Como sente a distinção entre o clero e os leigos? O que opina sobre a democracia participativa dentro da Igreja? 

Com que vigor defende ainda a propriedade privada? Qual o grau de rejeição ao socialismo e seu conhecimento da doutrina social da Igreja? 

Em que medida, quando se mantém católico praticante, aceita viver num mundo que voltou para o paganismo? 

Essa espécie de “exame de consciência coletivo” que propomos é fundamental para se perceber até que ponto o católico “comum” de hoje se afastou dos conceitos, normas de vida e de comportamento que compunham a mentalidade do católico constantiniano. Nenhuma reação efetiva poderá ser feita, se a compreensão dessa profunda decadência não estiver suficientemente clara. 

Em face da situação de decadência, o que fazer? 

Diante deste quadro, o leitor se perguntará naturalmente o que fazer. A primeira coisa, de grande importância, é ver o problema de frente e entendê-lo em seus matizes e múltiplos aspectos. Nós nos deixamos muitas vezes levar demasiadamente por certa torcida, queremos agir antes de ter feito uma análise profunda. Ver e compreender são os primeiros passos da ação. 

O Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, nos trechos do livro Revolução e Contra-Revolução que reproduzimos no final, acentuou a importância de conhecermos essa forma de revolução psicológica enquanto atuando nas tendências, a fim de denunciá-la, e usar todos os recursos legítimos e cabíveis para combatê-la.
Revolução Cultural de Mao Tsé-Tung

Alguns pontos cronológicos dos eventos de 1968 na França e no mundo

Em 1966, começa na China a Revolução Cultural de Mao Tsé-Tung; seus jovens guardas vermelhos liquidam toda sorte de hierarquia, no partido e na sociedade. 
"Primavera de Praga"
Início da “Primavera de Praga” na Checoslováquia.  
Na Itália, em fevereiro, ocupação primeiramente da Universidade de Roma, e depois da Vila Borghese, com confrontos violentos com a polícia. Mais tarde, durante a primavera, greve geral operária.  
Nos Estados Unidos, manifestações violentas na Califórnia, em Chicago e na Carolina do Sul, onde são mortos três estudantes. Motins em muitas cidades depois da morte de Martin Luther King.  
Manifestações violentas na Alemanha, no Japão, no Canadá e na Suíça. 
No Brasil, manifestações estudantis no Rio contra o regime militar; bombas terroristas em prédios de jornais e da Bolsa de Valores.  
Barricadas nas ruas de Paris
Maio de 1968 na França  
Nos primeiros dias de maio, ocupação violenta da Sorbonne, de Nanterre e demais faculdades de Paris. No dia 3, primeiras barricadas para impedir o acesso à Sorbonne e primeiros enfrentamentos com a polícia. Os estudantes lançam pedras do calçamento contra os policiais. Primeiras detenções.  
No dia 6, violentos enfrentamentos com a Polícia em todo o Quartier latin [bairro da Sorbonne], com centenas de feridos.  
Dia 9: começam as primeiras greves operárias e ocupações de fábricas. 
Nos dias seguintes, noites de barricadas e enfrentamentos com a polícia.  
13 de maio: início da greve geral em toda a França, que se estende por vários dias. No dia 22 de maio o número de grevistas chega a oito milhões. 
Linhas telefônicas e correios não funcionam mais. Falta gasolina. Continuam as barricadas e as manifestações violentas.  
Dia 27: o governo propõe os “Acordos de Grenelle” para acabar com a greve geral.  
No dia 29, o General De Gaulle, Presidente da República, desaparece por algumas horas, por ter ido consultar na Alemanha o General comandante das tropas francesas.  
Dia 30: De Gaulle regressa, dissolve a Assembleia dos Deputados e convoca eleições. Uma manifestação de apoio a De Gaulle lota os Champs-Elysées. 
Greve geral em toda a França
5 de junho: início da retomada de trabalho dos funcionários públicos. Pouco a pouco os transportes e demais setores econômicos retomam suas atividades.  
14 e 16 de junho: evacuação pela polícia da Sorbonne e do Teatro Odeon, ocupados até então.  
23 e 30 de junho: eleições legislativas com ampla vitória dos deputados gaullistas. 




Nas páginas de Revolução e Contra-Revolução, uma análise da revolução cultural e do tribalismo eclesiástico decorrentes de maio de 68


Na Parte III de Revolução e Contra-Revolução — redigida em 1976, e completada com notas em 1992 — Plinio Corrêa de Oliveira [foto ao lado] oferece algumas linhas de reflexão sobre os acontecimentos de maio de 1968. Ressalta a importância da guerra psicológica revolucionária, desenvolvida como consequência da “explosão temperamental” da Sorbonne, a “revolução cultural” e a revolução nas tendências: 

Como uma modalidade de guerra psicológica revolucionária, a partir da rebelião estudantil da Sorbonne em maio de 1968, numerosos autores socialistas e marxistas passaram a reconhecer a necessidade de uma forma de revolução prévia às transformações políticas e socioeconômicas, que operasse na vida cotidiana, nos costumes, nas mentalidades, nos modos de ser, de sentir e de viver. É a chamada ‘revolução cultural’. 

Consideram eles que esta revolução, preponderantemente psicológica e tendencial, é uma etapa indispensável para se chegar à mudança de mentalidade que tornaria possível a implantação da utopia igualitária, pois, sem tal preparação, a transformação revolucionária e as consequentes ‘mudanças de estrutura’ tornar-se-iam efêmeras. 

O referido conceito de ‘revolução cultural’ abarca, com impressionante analogia, o mesmo campo já designado por ‘Revolução e Contra-Revolução’, em 1959, como próprio da Revolução nas tendências (cfr. parte I, cap. 5). 

A guerra psicológica revolucionária 

Em seguida, o Prof. Plinio insiste na importância do conceito de guerra psicológica total, travada contra todos os homens e em todos os campos do agir humano, para levá-los não somente ao comunismo, mas também à etapa seguinte da Revolução, num processo contínuo: 

A guerra psicológica visa a psique toda do homem, ‘trabalha-o’ nas várias potências de sua alma e em todas as fibras de sua mentalidade. Visa todos os homens, tanto partidários ou simpatizantes da III Revolução [a comunista] quanto neutros ou até adversários. Lança mão de todos os meios, a cada passo lhe é necessário dispor de um fator específico para levar insensivelmente cada grupo social, e até cada homem, a se aproximar do comunismo, por pouco que seja: nas convicções religiosas, políticas, sociais e econômicas, nas impostações culturais, nas preferências artísticas, nos modos de ser e de agir em família, na profissão, na sociedade. 

A grife italiana Gucci se inspirou na revolução estudantil de Maio de 68 para sua coleção de inverno de 2018. Como se vê na foto, mais atual do que nunca.

Revolução cultural a serviço do comunismo

Para Plinio Corrêa de Oliveira, é muito importante não esquecer que essa revolução cultural está a serviço do comunismo, e faz nascer desde já, em muitos dos seus aspectos, a IV Revolução. Essa explosão — visível para todos na Sorbonne, e que se desenvolve de tantos modos diversos até nossos dias — não é um fenômeno independente do grande processo revolucionário multissecular, mas é antes a sua continuação direta: 

Como é bem sabido, nem Marx nem a generalidade dos seus mais notórios sequazes, tanto ‘ortodoxos’ como ‘heterodoxos’, viram na ditadura do proletariado a etapa terminal do processo revolucionário. Ela não é, segundo eles, senão o aspecto mais quintessenciado e dinâmico da Revolução universal. Na mitologia evolucionista, inerente ao pensamento de Marx e seus seguidores, a Revolução não terá termo. Assim como a evolução, ela se desenvolverá ao infinito no suceder dos séculos, [da mesma forma que] da I Revolução já nasceram duas outras. A terceira gerará mais uma, e daí por diante.

Não é impossível prever como será a IV Revolução, e os próprios marxistas já o fizeram. Ela deverá ser a derrocada da ditadura do proletariado, em consequência de uma nova crise, por força da qual o Estado hipertrofiado será vítima de sua própria hipertrofia. E desaparecerá, dando origem a um estado de coisas cientificista e cooperativista, no qual o homem terá alcançado um grau de liberdade, igualdade e fraternidade até aqui insuspeitável. 
No mundo todo, o vício de “caçar” Pokémon levou milhões de pessoas às ruas, reflexo de uma revolução tribalista cibernética em andamento

O estruturalismo e o tribalismo

Plinio Corrêa de Oliveira cogita em seguida qual poderá ser, nesse nascimento da IV Revolução, o papel das correntes ideológicas estruturalistas que promovem o tribalismo como modelo. A hipótese que levanta adquire hoje relevo ainda maior, quando conjugada com a revolução cibernética, em marcha rumo a uma nova forma de coletivismo. Teríamos então uma revolução tribalista cibernética, levando o homem para a utopia igualitária por meio de uma guerra psicológica e tendencial: 

O estruturalismo vê na vida tribal uma síntese ilusória entre o auge da liberdade individual e do coletivismo consentido, na qual este último acaba por devorar a liberdade. Segundo tal coletivismo, os vários ‘eus’ ou as pessoas individuais — com sua inteligência, sua vontade e sua sensibilidade, e consequentemente com seus modos de ser característicos e conflitantes — se fundem e se dissolvem na personalidade coletiva da tribo geradora de um pensar, de um querer, de um estilo de ser densamente comuns. 

Bem entendido, o caminho rumo a este estado de coisas tribal tem de passar pela extinção dos velhos padrões de reflexão, volição e sensibilidade individuais, gradualmente substituídos por modos de pensamento, deliberação e sensibilidade cada vez mais coletivos. É neste campo, portanto, que principalmente a transformação se deve dar. De que forma? 

Nas tribos, a coesão entre os membros é assegurada sobretudo por um comum pensar e sentir, do qual decorrem hábitos comuns e um comum querer. A razão individual fica circunscrita a quase nada, isto é, aos primeiros e mais elementares movimentos que seu estado atrofiado lhe consente. ‘Pensamento selvagem’, pensamento que não pensa e se volta apenas para o concreto. 

O tribalismo na educação e nos costumes 

Outras manifestações dessas tendências pré-tribais tiveram seu ponto de partida em maio de 1968 na Sorbonne. As que tinham nascido antes se aceleraram muito a partir de então: 

As tradições indumentárias do Ocidente, corroídas cada vez mais pelo nudismo, tendem obviamente para o aparecimento ou consolidação de hábitos nos quais se tolerará, quando muito, a cintura de penas usada por certas tribos. Onde o frio o exija, seriam alternadas com coberturas mais ou menos à maneira das usadas pelos lapões. 

O desaparecimento rápido das fórmulas de cortesia só pode ter como ponto final a simplicidade absoluta do trato tribal. 

A crescente ojeriza a tudo quanto é raciocinado, estruturado e metodizado só pode conduzir, em seus últimos paroxismos, à perpétua e fantasiosa vagabundagem da vida das selvas, alternada também com o desempenho instintivo e quase mecânico de algumas atividades absolutamente indispensáveis à vida. 

A aversão ao esforço intelectual — notadamente à abstração, à teorização, ao pensamento doutrinário — só pode induzir, em última análise, a uma hipertrofia dos sentidos e da imaginação; a essa ‘civilização da imagem’, para a qual Paulo VI julgou dever advertir a humanidade. 

Tendências igualitárias na estrutura eclesiástica 

Frei Junípero, missionário franciscano,
 dedicou sua vida à conversão
 dos índios no que hoje é o México 
e parte dos Estados Unidos. 
Foi canonizado recentemente.
Para o autor de Revolução e Contra-Revolução, são especialmente importantes nesse panorama as profundas transformações que atingem os católicos nos seus modos de pensar e de sentir. No centro dessas transformações se encontra a tendência igualitária a suprimir a separação essencial entre a Sagrada Hierarquia — que ensina, dirige e santifica — e o povo fiel que é ensinado, dirigido e santificado. A consequência última seria o abandono da convicção de uma verdade e uma moral absolutas em proveito de opiniões e modos de sentir flutuantes e circunstanciais: 

Também a esfera espiritual, a IV Revolução quer reduzi-la ao tribalismo. E o modo de fazê-lo já se pode bem notar nas correntes de teólogos e canonistas que visam transformar a nobre e óssea rigidez da estrutura eclesiástica — como Nosso Senhor Jesus Cristo a instituiu, e vinte séculos de vida religiosa a modelaram magnificamente — num tecido cartilaginoso, mole e amorfo de dioceses e paróquias sem circunscrições territoriais definidas, de grupos religiosos em que a firme autoridade canônica vai sendo substituída gradualmente pelo ascendente de ‘profetas’ mais ou menos pentecostalistas, eles mesmos congêneres dos pajés do estruturalismo-tribalismo, com cujas figuras acabarão por se confundir. Também a paróquia ou diocese progressista-pentecostalista se confundirá necessariamente com a tribo-célula estruturalista.

Desmonarquização das autoridades eclesiásticas 

O Papa Francisco com um cocar da etnia pataxó, durante
a visita que fez ao Brasil em 2013
Nesta perspectiva, que tem algo de histórico e de conjectural, certas modificações de si alheias a esse processo poderiam ser vistas como passos de transição entre o status quo pré-conciliar e o extremo oposto aqui indicado. Por exemplo, a tendência ao colegiado como modo de ser obrigatório de todo poder dentro da Igreja, e como expressão de certa ‘desmonarquização’ da autoridade eclesiástica. Em cada grau esta ficaria, ipso facto, muito mais condicionada do que antes ao escalão imediatamente inferior. 

Tudo isto, levado às suas extremas consequências, poderia tender à instauração estável e universal do sufrágio popular dentro da Igreja. No quadro sonhado pelos tribalistas, chegaria num último lance a uma indefensável dependência de toda a Hierarquia em relação ao laicato, suposto porta-voz necessário da vontade de Deus. Obedecendo ao laicato, a Hierarquia supostamente cumpriria sua missão de obedecer à vontade do próprio Deus.

As obrigações do católico fiel 

Diante da revolução cultural, tendencial, psicológica, que vem transformando a humanidade com velocidade e profundezas provavelmente nunca antes atingidas, quais são as obrigações do católico? O que nossa consciência de católicos nos manda fazer? O autor de Revolução e Contra-Revolução responde: 

Na perspectiva de Revolução e Contra-Revolução, devemos antes de tudo acentuar a preponderante importância das tendências no processo gerador desta IV Revolução e no mundo dela nascido; e consequentemente preparar-nos para lutar, não só no intuito de alertar os homens contra essas tendências — fundamentalmente subversivas da boa ordem humana — como também a usar, no plano tendencial, de todos os recursos legítimos e cabíveis para combater essa mesma Revolução nas tendências. Cabe-nos também observar, analisar e prever os novos passos do processo, para ir opondo obstáculos à Revolução tendencial e à guerra psicológica revolucionária, inerentes à IV Revolução nascente.