4 de agosto de 2022

No Bicentenário da Independência do Brasil, algumas reflexões históricas


Recordações das Proezas de Deus pelos Brasileiros

Fonte: Revista Catolicismo, Nº 860, Agosto/2022

No próximo dia 7 de Setembro celebramos o Bicentenário da Independência do Brasil, quando o Imperador Dom Pedro I, após passar por Aparecida para rezar à nossa gloriosa Rainha e Padroeira, nas margens do Ipiranga proclamou o Brasil como País soberano. Sem romper os laços afetivos com Portugal, nascia uma nova e imensa nação católica. Grandioso fato que ficou imortalizado no quadro pintado por Pedro Américo.

A propósito dessa efeméride de 200 anos, a revista Catolicismo deste mês oferece a seus leitores uma matéria de capa que patenteia os grandiosos desígnios de Deus para com nossa Pátria. 

Somos herdeiros dos heroicos portugueses, que transpondo mares temidos e desconhecidos, empreenderam uma epopeia evangelizadora de “cristãos atrevimentos” para dilatar a fé e o império. Descobriram novas regiões para a Cristandade, então dilacerada pelo protestantismo, tiraram povos da barbárie e os elevaram às excelências da cultura e do requinte de uma civilização autenticamente católica apostólica romana. 

Um desses povos descobertos sob o signo da Cruz vicejou nesta Terra de Santa Cruz, que teve como primeiro ato oficial a celebração da Santa Missa, no Domingo de Páscoa, 26 de abril de 1500. 

Nesses cinco séculos nem tudo foi límpido como raios do sol, mas apesar da imensa crise com que se debate, o Brasil é o país com a maior população católica do mundo, chamado pela Providência Divina a uma grandeza ímpar, conforme as palavras do Papa Pio XII: “Deus fadou-vos para serdes uma das grandes nações católicas da Igreja, na América e no mundo. Nessa vocação está cifrada a maior glória, a maior grandeza, a verdadeira felicidade do Brasil”. 
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olorosa notícia propagou-se pelo mundo no dia 15 de julho, véspera da festa de Nossa Senhora do Carmo: o falecimento de Sua Alteza Imperial e Real, o Príncipe Dom Luiz de Orleans e Bragança, Chefe da Casa Imperial do Brasil. Da página 5 à 17, a mesma edição de agosto de Catolicismo presta sua homenagem ao nobilíssimo tetraneto do nosso Imperador Dom Pedro I — fato que motivou diversos órgãos da mídia a relacionar o triste passamento do nosso já saudoso Dom Luiz com o Bicentenário da Independência do Brasil.

20 de julho de 2022

PEREGRINANDO DENTRO DE UM OLHAR

Foto: Felipe Del Campo


Parte III. Em continuação ao post de ontem, "LÁGRIMAS... — UMA ADVERTÊNCIA AO MUNDO!"

http://blogdafamiliacatolica.blogspot.com/2022/07/lagrimas-uma-advertencia-ao-mundo.html


·         Plinio Corrêa de Oliveira

“Folha de S. Paulo”, 12-11-1976

 

Fisionomia igual não conheço. Tenho-a bem diante de mim, e, movido pelo hábito inveterado de tudo observar e explicar para meu próprio uso, fito-a com atenção. E de repente percebo que entro dentro dela.

Sim, essa fisionomia única como que deflui da face e especialmente dos olhos. Envolve-me no ambiente que ela cria. Ao mesmo tempo, convida-me a entrar fundo no seu olhar.

— Que olhar! Nenhum é tão límpido, tão franco, tão puro, tão acolhedor. Em nenhum se penetra com tal facilidade. Contudo, nenhum também apresenta profundidades que se perdem em tão longínquo horizonte. Quanto mais dentro desse olhar se caminha, tanto mais ele atrai para um indescritível ápice interior e profundo.

— Que ápice? — O estado de alma que eu seria tentado a dizer cheio de paradoxo, se a palavra "paradoxo", da qual tanto se abusa na linguagem corrente, não me morresse nos lábios por desrespeitosa.

Toda perfeição — diz a Escola — resulta do equilíbrio de contrários harmônicos. De nenhum modo é um equilíbrio precário entre contradições flagrantes (e, dizendo-o, penso nesta pobre paz, esclerosada e vacilante, que o mundo contemporâneo procura preservar à custa de tantas concessões e tantas vergonhas), mas uma harmonia suprema entre todas as formas de bem.

É precisamente este vértice, no qual todas as perfeições se conjugam, que vejo erguer-se no fundo desse olhar. Vértice incomparavelmente mais alto do que as colunas que sustentam o firmamento. Vértice do alto do qual um imperativo cristalino, categórico, irresistível exclui toda forma de mal, por mais leve e miúdo que seja.

Pode alguém passar a vida inteira caminhando dentro desse olhar, sem jamais tocar nesse vértice. — Caminhada inútil? — Não. Dentro desse olhar não se anda; voa-se. Não se passeia; faz-se peregrinação.

Aquela montanha sagrada, súmula de todas as perfeições criadas, o peregrino, sem jamais alcançá-la, cada vez a vê mais claramente à medida que voa em direção a Ela.

Ao longo desta peregrinação da alma, o olhar no qual voa, já não o envolve, apenas. Mas penetra nele. Quando o peregrino cerra os olhos, julga vê-lo à maneira de luz no mais profundo de si mesmo. Tenho a impressão de que, se durante toda a vida, ele for fiel nesse voo, quando cerrar definitivamente os olhos, esta luz brilhará no fundo de sua alma por toda a eternidade.

O olhar é a alma da fisionomia. — Que fisionomia essa, que tenho diante de mim! A um tolo, pareceria inexpressiva. A um observador destro ela manifesta uma plenitude de alma maior do que a História, porque toca na eternidade. Maior do que o universo, porque espelha o infinito.

A fronte parece conter cogitações que, a partir de um Presepe e a terminar em uma Cruz, abarcam todo o acontecer humano.

Foto: Paulo Campos

A face toda, o nariz, cuja linha possui um “charme mais belo do que a beleza” segundo diz o poeta, os lábios silenciosos, mas que dizem tudo a todo momento, parecem louvar a Deus em cada criatura segundo as características de cada uma; e pedir a Deus por toda miséria como se estivesse a condoer-se das peculiaridades de cada uma delas... Estes lábios têm uma eloquência perto da qual a de Demóstenes ou a de Cícero não seriam senão barulheira. — O que dizer da cútis: nívea? — O qualificativo diz tudo e não diz nada. Pois, para descrevê-la seria preciso imaginar um níveo que deixasse reluzir em sua profundidade, com discrição infinita, todos os matizes do arco-íris, e com isso mesmo inspirasse na alma de quem a contempla todos os encantos da pureza.

Sim, peregrinei neste olhar tão cheio de surpresas. E, inesperadamente, percebo que o olhar peregrina ao mesmo tempo dentro de mim. Pobre e misericordiosa peregrinação, não de esplendor a esplendor, mas de carência a carência, de miséria a miséria. É só abrir-me a ele que, para cada defeito, ele me oferece um remédio, para cada obstáculo uma ajuda, para cada aflição uma esperança.

Mas, afinal, quem tenho diante de mim? — Uma imagem de madeira como tantas outras, sem nenhum valor artístico especial.

É só fitá-la, entretanto, que, sem se mover, sem a mínima transformação, essa Imagem começa a fazer luzir todos esses esplendores.

— Como? — Não sei também. Mas se o leitor quiser, venha ver.

É a Imagem de Nossa Senhora de Fátima, a qual verteu lágrimas em Nova Orleans, a propósito dos pecados dos homens e dos castigos que estes assim acumulam sobre si.

Por toda parte aonde vai, a Imagem atrai multidões. Há pouco, em Caracas, só em um dia, 40 mil pessoas. Ela está vindo de Fortaleza, onde cerca de 10 mil bravos cearenses a veneraram. No Crato, em 10 horas, 8 mil pessoas afluíram para vê-la e rezar ante Ela. Em Recife foram 5 mil.

Insisto, leitor. Se crês na descrição que fiz, convido-te a que faças por tua vez esta magnífica peregrinação dentro do olhar da Virgem. Se não crês, vem ver; melhor convite eu não poderia te fazer.

Reza então por ti. Reza pela Santa Igreja conturbada e atormentada como nunca. E por esse enorme Brasil de Maria.


19 de julho de 2022

LÁGRIMAS, MILAGROSO AVISO

No ano de 1917, Lúcia, Francisco e Jacinta tiveram várias visões de Nossa Senhora em Fátima


Em continuação ao post de ontem, "LÁGRIMAS... — UMA ADVERTÊNCIA AO MUNDO!"

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  Plinio Corrêa de Oliveira

“Folha de S. Paulo”, 6-8-1972

 

A imprensa diária de São Paulo publicou [em 21 de julho de 1972] uma fotografia procedente de Nova Orleans, na qual se via uma imagem de Nossa Senhora de Fátima a verter lágrimas. O documento despertou vivo interesse no público paulista. Penso, pois, que algumas informações sobre este assunto satisfarão os justos anelos de muitos leitores.

Não conheço melhor fonte sobre a matéria do que um artigo intitulado, muito americanamente, “As lágrimas da imagem molharam meu dedo”. Seu autor é o Pe. Elmo Romagosa. Publicou seu trabalho o “Clarion Herald” (20 de julho de 1972), semanário de Nova Orleans, e distribuído em 11 paróquias do Estado de Louisiana.

Os antecedentes do fato são universalmente conhecidos. No ano de 1917, Lúcia, Jacinta e Francisco tiveram várias visões de Nossa Senhora em Fátima. A autenticidade dessas visões foi confirmada por vários prodígios no sol, atestados por toda uma multidão reunida enquanto a Virgem se manifestava às três crianças.

Em termos genéricos, Nossa Senhora incumbiu os pequenos pastores de comunicar ao mundo que estava profundamente desgostosa com a impiedade e a corrupção dos homens. Se estes não se emendassem, viria um terrível castigo, que faria desaparecer várias nações. A Rússia difundiria seus erros por toda parte. O Santo Padre teria muito que sofrer.

O castigo só seria obviado se os homens se convertessem, se fosse consagrada a Rússia e o Mundo ao Imaculado Coração de Maria e se se fizesse a Comunhão reparadora dos primeiros sábados de cada mês.

Isto posto, a pergunta que naturalmente salta ao espírito é se os pedidos foram atendidos.

Pio XII fez, em 1942, uma consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria. A Irmã Lúcia asseverou que ao ato faltaram algumas das características indicadas por Nossa Senhora. Não pretendo analisar aqui o complexo assunto. Registro apenas, de passagem, que é discutível se o primeiro pedido de Nossa Senhora foi atendido, ou não.

Quanto ao segundo pedido, isto é, a conversão da humanidade, é tão óbvio que não foi atendido, que me dispenso de entrar em pormenores.

Como Nossa Senhora estabeleceu o atendimento de seus pedidos, como condição para que fossem desviados os flagelos apocalípticos por Ela previstos, está na lógica das coisas que baixe sobre a humanidade a cólera vingativa e purificadora de Deus, antes de vir a nós a conversão dos homens e a instauração do Reino de Maria.

Das três crianças de Fátima, a única sobrevivente é a irmã Lúcia, hoje religiosa carmelita em Coimbra [nd: 33 anos após publicação deste artigo, ela falecera naquela cidade portuguesa]. Sob a direção imediata desta última, um artista esculpiu imagens, que correspondem quanto possível aos traços fisionômicos com que a Santíssima Virgem apareceu em Fátima. Essas imagens, chamadas "peregrinas", têm percorrido o mundo, conduzidas por sacerdotes e leigos. Uma delas foi levada recentemente a Nova Orleans. E ali verteu lágrimas.

“Como Nossa Senhora estabeleceu o atendimento de seus pedidos, como condição para que fossem desviados os flagelos apocalípticos por Ela previstos, e eles não foram atendidos, está na lógica das coisas que baixe sobre a humanidade a cólera vingativa e purificadora de Deus, antes de vir a nós a conversão dos homens e a instauração do Reino de Maria”

O Pe. Romagosa, autor da crônica a que me referi, tinha ouvido falar dessas lacrimações pelo Pe. Breault, ao qual está confiada a condução da imagem. Entretanto, sentia ele funda relutância em admitir o milagre. Por isto, pediu ao Pe. Breault que o avisasse assim que o fenômeno começasse a se produzir.

O Pe. Breault, notando alguma umidade nos olhos da imagem, no dia 17 de julho, telefonou ao Pe. Romagosa, o qual acorreu junto à imagem às 21:30, trazendo fotógrafos e jornalistas. De fato, notaram todos alguma umidade nos olhos da imagem, que foi logo fotografada. O Pe. Romagosa passou então o dedo pela superfície úmida, e recolheu assim uma gota do líquido, que também foi fotografada. Segundo o Pe. Breault, esta era a 13ª lacrimação da imagem.

Às 6:15 horas da manhã seguinte, o Pe. Breault telefonou novamente ao Pe. Romagosa informando-o de que desde as quatro horas da manhã, a imagem chorava. O Pe. Romagosa chegou pouco depois à Igreja, onde, diz ele, vi uma abundância de líquido nos olhos da imagem, e uma gota grande de líquido na ponta do nariz da mesma”. Foi essa gota, tão graciosamente pendente, que a fotografia da “Folha de S. Paulo” mostrou a nosso público.

O Pe. Romagosa acrescenta que vira um movimento do líquido enquanto surgia lentamente da pálpebra inferior”.

Mas o Pe. Romagosa queria eliminar dúvidas. Notara ele que a imagem tinha uma coroa fixada na cabeça por uma haste metálica. Ocorreu-lhe uma pergunta: não haveria sido introduzida, no orifício em que penetrava a haste, certa porção de líquido que depois escorrera até os olhos da imagem?

Cessado o pranto, o Pe. Romagosa retirou a coroa da cabeça da imagem: a haste metálica estava inteiramente seca. Introduziu ele, então, no orifício respectivo, um arame revestido de papel especial, que absorveria forçosamente todo líquido que ali estivesse. Mas o papel saiu absolutamente seco.

Ainda não satisfeito com tal experiência, o Pe. Romagosa introduziu no orifício certa quantidade de líquido. Sem embargo, os olhos se conservaram absolutamente secos. O Pe. Romagosa voltou então a imagem para o solo: todo o líquido introduzido no orifício escorreu normalmente. Estava cabalmente provado que do orifício da cabeça — único existente na imagem — nenhuma filtração de líquido para os olhos seria possível.

O Pe. Romagosa ajoelhou-se. Enfim ele acreditara.

Foto atual da Imagem Peregrina que chorou em Nova Orleans. 

“Mas
, dirá alguém, esta não é uma meditação própria para um ameno domingo”. Não é preferível — pergunto — ler hoje este artigo sobre a suave manifestação da profética melancolia de nossa Mãe, a suportar os dias de amargura trágica que, a não nos emendarmos, terão que vir?

Se vierem, tenho por lógico que haverá neles, pelo menos, uma misericórdia especial para os que, em sua vida pessoal, tenham tomado a sério o milagroso aviso de Maria.

É para que minhas leitoras, meus leitores, se beneficiem dessa misericórdia, que lhes ofereço o presente artigo...

O misterioso pranto nos mostra a Virgem de Fátima a chorar sobre o mundo contemporâneo, como outrora Nosso Senhor chorou sobre Jerusalém. Lágrimas de dor profunda, na previsão do castigo que virá.

Virá para os homens de nosso século, se não renunciarem à impiedade e à corrupção. Se não lutarem especialmente contra a autodemolição da Igreja, a maldita fumaça de Satanás que, no dizer do próprio Paulo VI, penetrou no recinto sagrado.

Ainda é tempo, pois, de sustar o castigo, leitor, leitora!

______________

* Cfr. Paulo VI, Alocuções de 7-12-68 e 29-6-72.

18 de julho de 2022

LÁGRIMAS... — UMA ADVERTÊNCIA AO MUNDO!

 


Meio século de um grandioso milagre: em julho de 1972, em Nova Orleans (EUA), lágrimas humanas correram pela face virginal de uma das imagens peregrinas de Nossa Senhora de Fátima. 50 anos depois, a Santíssima Virgem continua sendo ofendida e, portanto, com motivos para chorar ainda mais, em consequência da degringolada geral da sociedade, tanto temporal quanto espiritual. Lágrimas também de dor na previsão do castigo que está prestes a punir a humanidade.
 

  Oscar Vidal

 Frente à apocalíptica crise da Igreja e do mundo moderno, em meio ao caos, à imoralidade desbragada, à corrupção geral dos costumes e à profunda decadência moral e religiosa, podemos ficar surpreendidos com o pranto da Santíssima Mãe de Deus? Vendo o lastimável estado de desregramento do gênero humano, poderia Ela estar contente? — De modo algum! Ela chorou! Foi um milagroso aviso!

No dia 18 de julho de 1972, enquanto era venerada em uma igreja da cidade americana de Nova Orleans, uma das quatro imagens “peregrinas internacionais” de Nossa Senhora de Fátima verteu lágrimas humanas 14 vezes.

50 anos de um pranto milagroso, devidamente comprovado, testemunhado por muitas pessoas e divulgado em diversos jornais do Brasil e do exterior, inclusive estampando a pungente fotografia do milagre: a bela imagem com os olhos lacrimejantes e uma lágrima nobremente pendente no nariz. A “Folha de S. Paulo” de 21-7-72, por exemplo, publicou-a com destaque na primeira página [foto acima]

A fim de se obter mais comprovações para o prodígio, o Padre Elmo Romagosa fez várias experiências, e não encontrando explicação natural, caiu de joelhos, passando a crer naquele autêntico milagre.

Inexplicável mutação fisionômica da imagem

Uma das características mais impressionantes dessa sagrada e milagrosa imagem de Nossa Senhora de Fátima é a sua mutação de fisionomia. Por incrível que pareça, sem mover os traços de sua face, ela parece mudar de expressão fisionômica, como que “falando” profundamente às almas dos que a veneram. Muitos fiéis atestaram esse prodígio, testemunhando uns que a viam serena, outros triste, outros apreensiva, alegre, caridosa, afável. A cada um a imagem “falava” de um modo diferente, de acordo com as necessidades individuais.

Entre os diversos comentários do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a tal respeito, eis um, especialmente significativo:

“Ora mostrando apreensiva e até aflita [A imagem da Virgem], como quem considera a crise catastrófica da Igreja e da civilização cristã; ora interrogativa, como quem nos dirige à alma uma pungente indagação sobre nossas cogitações e nossas vias, para nos convidar à seriedade e à emenda de vida; ora plácida, como para nos comunicar serenidade celeste, tão diversa dos nervosismos contemporâneos; ora, enfim, sorridente e meiga, para despertar em nós a confiança e unir-­nos a Ela; entretanto os traços da imagem jamais esboçaram o menor movimento, ao contrário das faces terrenas, que só com algum movimento podem mudar de expressão. Fato único e admirável, que constitui a cada minuto um convite da bondade de Nossa Senhora. Convite, sim, para que nos associemos aos estados de alma assim expressos. E sobretudo para que nos deixemos elevar ao inefável nível espiritual, que através desses estados de alma se nos torna sensível”.

Em maio de 1973, a Imagem Peregrina desembarcou no aeroporto de Congonhas, na capital paulista


O Brasil honrado com a presença da Augusta Visitante

Na Sede do Conselho Nacional da TFP,
em São Paulo
Esculpida em cedro brasileiro sob a orientação direta da Irmã Lúcia — para que lembrasse ao máximo possível a fisionomia da Santíssima Virgem durante suas aparições na Cova da Iria —, a abençoada imagem de Nossa Senhora esteve algumas vezes no Brasil. Sua primeira honrosa visita se deu em 1973, e a última em 2017. Fomos agraciados com o privilégio de ser o primeiro país a receber a Augusta Visitante após seu pranto em Nova Orleans!

Com leves alterações, seguem trechos de um relato sobre essas visitas-peregrinações, que redigi para uma matéria publicada em julho de 2002:

“Em maio de 1973, desembarcou no aeroporto de Congonhas, na capital paulista, a Imagem da Senhora de Fátima que comprovadamente verteu lágrimas em Nova Orleans, cabendo à TFP brasileira a honrosa incumbência de trasladá-la. Primeiramente ela ficou na Sede do Conselho Nacional da TFP, em São Paulo, depois percorreu várias cidades do Norte fluminense e retornou aos Estados Unidos.

A maravilhosa e sagrada imagem concedeu-nos a imerecida graça de voltar diversas vezes ao Brasil, a fim de visitar outros Estados da Federação. Durante suas peregrinações ela atraiu multidões, ocorreram muitas conversões e várias pessoas atestaram que foram curadas.

— “Nossa Senhora me comoveu, tenho que mudar de vida!”

— “Ela parecia que me falava!”

— “A imagem mudou de expressão!”

— Olha! Ela está tão triste que parece que vai desmaiar!”

— “Senti que ela sorriu para mim!”

Na cidade de Campos, no Norte fluminense

Esses comentários e outros análogos eram habituais. Sem dúvida, como já referimos, a imagem — de modo prodigioso e com expressões fisionômicas diferentes — parece “falar” no fundo do coração de cada um, amoldando-se ao estado de espírito e conveniências de cada qual naquele momento.

Em um de seus artigos para a “Folha de S. Paulo” (12-11-1976) — posteriormente reproduzido em diversos jornais do exterior —, Plinio Corrêa de Oliveira fez uma pungente narrativa daqueles admiráveis olhos que lacrimejaram. Esse artigo, intitulado “Peregrinando dentro de um olhar”, será aqui postado amanhã.

Nossa Senhora atrai multidões de brasileiros

Nas cidades que a imagem da Rainha do Céu percorreu, ela era sempre acolhida apoteoticamente [fotos??]. Em muitas ocasiões, fogos de artifício anunciavam sua entrada, algumas vezes transportavam-na no alto de carros de bombeiros, e chuvas de pétalas de rosa, lançadas pelos devotos, caíam por onde passava. Era comum contemplar as janelas das casas adornadas com belas toalhas, flores e velas, em homenagem à celestial visitante que passava em procissão.

Eis o trecho de relato de um membro da TFP que a acompanhou por várias cidades da Zona da Mata de Minas Gerais: “Em todos os lugares em que tenho estado, são milhares de pessoas que vêm visitar a sagrada imagem todos os dias [...] Há um momento em que os guardiães da imagem podem tocar nela objetos pertencentes ao público, então formam-se filas enormes. São rosários tocados nos pés da imagem, santinhos, fitas, medalhas, livros, alianças, flores etc. Não apenas objetos de piedade, mas também lembranças de família, como certidões, joias etc., e até mães que pedem para tocar seus bebês”.

“Este olhar me converteu, vou confessar-me”

Em Caracas (Venezuela).
A partir de 1976, toda a América do Sul foi agraciada com a visita da Augusta Peregrina, que percorreu todos os países do continente, entre aquele ano e 1985. Em todas as cidades onde ficava exposta, intérminas filas de devotos se formavam, à espera da oportunidade de rezar diante de sua milagrosa imagem.

Diversas pessoas afastadas havia muito dos sacramentos, ao contemplarem a imagem se convertiam, abandonavam a vida pecaminosa e retornavam à prática da virtude.

“Este olhar me converteu, vou confessar-me”, afirmou um senhor de Mérida (Venezuela), após passar alguns instantes diante da Virgem de Fátima. Ele voltou a frequentar os sacramentos depois de 40 anos... 11 mil pessoas foram venerá-la nessa cidade. Na capital venezuelana, em um único dia acorreram mais de 40 mil fiéis.

Medellín (Colômbia)
São páginas e páginas de relatos e milhares de repercussões registradas durante essas peregrinações pelo Brasil e pelo mundo, que se torna quase impossível transcrevê-los. A título de amostragem, quando a imagem chegou ao aeroporto da capital colombiana, um embaixador sul-americano ofereceu sua Mercedes para trasladá-la. Dispensou o motorista, e ele próprio assumiu o volante, dizendo: “Ante a Virgem, o embaixador é o último dos homens”.

A milagrosa imagem não cingiu sua presença às capitais, mas estendeu-a a cidades menores, até mesmo a pequenos povoados, deixando todos profundamente emocionados e agradecidos. Em muitos desses lugares, as pessoas ainda se recordam do dia de sua visita, sempre trasladada por membros da TFP.

Meio século depois...

Na Sicília, a igreja que guarda o corpo incorrupto de Santa Ágata
foi vandalizada, o sacrário arrombado, as partículas jogadas ao chão
e algumas roubadas. 
50 anos depois, um dos mais portentosos acontecimentos do século XX é filialmente recordado por um pugilo de fiéis da Santa Mãe de Deus. Mas e o geral dos homens?

50 anos depois daquelas sacrossantas lágrimas vertidas, seria um atrevimento dizer que esse milagroso pranto não foi desprezado.

50 anos depois não diminuíram as razões da lacrimação, muito pelo contrário. O grau do estado pecaminoso da humanidade hedonista só piorou, acelerando vertiginosamente o processo revolucionário, no qual se inserem as Revoluções Protestante, Francesa, Comunista e Cultural. Para comprová-lo, basta abrir os jornais, ligar a TV ou acessar a internet... O que vemos? — Dissolução de casamentos, concubinatos, divórcios, amor livre, diminuição da natalidade, drogas, criminalidade, aumento da gravidez entre adolescentes, pílulas anticoncepcionais, abortos, modas que caminham para o nudismo, pornografia, eutanásia, experiências com embriões, tentativas de clonagens humanas, igualitarismo, ateísmo, satanismo, progressismo “católico”, blasfêmias e sacrilégios, (des)educação sexual para crianças, pedofilia, “casamento” homossexual, enfim imoralidades sem limites despejadas como lixo nos lares, aumentando a cada dia a degradação moral e a desintegração da família. Toneladas de lixo elaborado adrede por certas forças visam eliminar o que resta de civilização cristã no mundo.

Durante os atos de violência esquerdista no Chile,
em 2020, a turba invadiu a paróquia da Assunção, em Santiago,
quebrou suas imagens e depois a incendiou
50 anos de um pranto que revela ao mesmo tempo a tristeza da Mater Dolorosa e uma advertência, o anúncio de um castigo, a hora da justiça de Deus, após a qual virá a hora da misericórdia. Temos a promessa de que, após o mundo ser severamente “flagelado”, como prenunciado em Fátima, haverá muita provação, mas também muitas e grandes conversões em todo o orbe. Como na parábola do “filho pródigo” (cfr. Lc 15, 11-32), os filhos arrependidos retornarão com o coração contrito e humilhado à “casa paterna”, e Nossa Senhora triunfará, estabelecendo seu Reino nesta Terra, purificada pelas punições divinas.

Em artigo publicado na “Folha de S. Paulo” (6-8-1972), intitulado “Lágrimas, Milagroso Aviso” (será postado aqui no próximo dia 20 próximo), o Prof. Plinio nos ajuda a interpretar aquela pungente lacrimação de Nossa Senhora: um aviso à humanidade prevaricadora por permanecer surda à Mensagem revelada por Ela em 1917.

Quem ousaria perguntar por que chorais?

50 anos depois, líderes da maioria das nações procuram extirpar os restos de sociedade orgânica da antiga Cristandade edificada por Nosso Senhor Jesus Cristo ao preço de seu Preciosíssimo Sangue. Pode-se dizer que quase todos os dias se estabelecem leis para desfigurar a Cristandade, a ponto de sua fisionomia não ser mais reconhecível no mundo contemporâneo. Disso, apenas um exemplo em um só país: em fevereiro último, a Corte Constitucional colombiana descriminalizou o aborto até a 24ª semana de gestação. Agora se pode matar um bebê de seis meses naquele país sem que isso seja considerado um delito. Como se sabe, muitas crianças nascem prematuramente com essa idade...

         No dia 20 último, diversos jornais publicaram a trágica notícia: “Ex-guerrilheiro é eleito presidente da Colômbia”. Os periódicos também afirmaram que “é a primeira vez na História que um candidato de esquerda vence a principal disputa eleitoral do país”. De fato, eles deveriam noticiar que é de “de extrema esquerda” ou comunista, pois o novo presidente, Gustavo Petro, militou como guerrilheiro do M-19. Seu governo será formado com outros partidos de esquerda, inclusive com políticos que “foram” terroristas das FARC. Triste Colômbia, agora com um presidente alinhado às miseráveis Cuba e Venezuela.

Agora, todos aqueles itens que elencamos no subtítulo acima: “Meio século depois...” — aquele indigesto e longo “desfile” de ignomínias — serão postos em marcha de modo radical, acelerando o processo de decomposição da Colômbia “petrista”. Assim, em breve, veremos colombianos — à maneira dos pobres venezuelanos — fugindo do país e vindo para o Brasil e outras nações. Não permita Deus que aqui um novo governo petista tome o poder. Se tal desgraça acontecer, serão brasileiros que daqui estarão fugindo...

Todos esses tristes fatos só podem contribuir para que a Santíssima Virgem chore.

A liturgia católica atribui a Nossa Senhora a lamentação do Profeta Jeremias: “Ó vós todos os que passais pelo caminho, parai e vede se há dor semelhante à minha dor” (Lam 1, 12).

Nesse mesmo sentido, da Via Sacra composta por Plinio Corrêa de Oliveira, publicada nesta revista (edição de março de 1951), copiamos um trecho lapidar:

“Quem, Senhora, vendo-Vos assim em pranto, ousaria perguntar por que chorais? Nem a Terra, nem o mar, nem todo o firmamento poderiam servir de termo de comparação à vossa dor. Dai-me, minha Mãe, um pouco, pelo menos, desta dor. Dai-me a graça de chorar a Jesus com as lágrimas de uma compunção sincera e profunda.

“Sofreis em união a Jesus. Dai-me a graça de sofrer como Vós e como Ele. Vossa dor maior não foi por contemplar os inexprimíveis padecimentos corpóreos de vosso Divino Filho. Que são os males do corpo, em comparação com os da alma? Se Jesus sofresse todos aqueles tormentos, mas ao seu lado houvesse corações compassivos! Se o ódio mais estúpido, mais injusto, mais alvar, não ferisse o Sagrado Coração enormemente mais do que o peso da Cruz e dos maus tratos feriam o Corpo de Nosso Senhor! Mas a manifestação tumultuosa do ódio e da ingratidão daqueles a quem Ele tinha amado... a dois passos, estava um leproso a quem havia curado... mais longe, um cego a quem tinha restituído a vista... pouco além, um sofredor a quem tinha devolvido a paz. E todos pediam a sua morte, todos O odiavam, todos O injuriavam. Tudo isto fazia Jesus sofrer imensamente mais do que as inexprimíveis dores que pesavam sobre seu Corpo.”

Nossa Senhora como Rainha que está sendo destronada

Recentemente uma professora apresentou aos alunos
de um colégio carioca um cartaz com Nosso Senhor Crucificado
e a inscrição: “Bandido bom é bandido morto” 
Se desejamos reparar nossa indiferença em relação àquelas sublimes lágrimas da Rainha dos Anjos e dos Homens e nossa ingratidão às graças recebidas, não podemos assistir de braços cruzados tantas afrontas e ultrajes perpetrados contra Deus e a Santíssima Virgem por nossos contemporâneos. Recentemente, para dar apenas só mais um exemplo, num colégio carioca uma professora apresentou aos alunos um cartaz no qual aparece Nosso Senhor Crucificado e a inscrição: “Bandido bom é bandido morto” [foto ao lado?]. Tal infâmia dispensa comentários, mas esta é apenas uma notícia de incontáveis outras sobre afrontas e ultrajes com que O injuriam e ridicularizam em filmes, novelas, shows, exposições “de arte”, teatros com representações profanas, sacrílegas e blasfemas.

         Considerando esses virulentos ataques — feitos por vezes até em ambientes católicos com permissão de altas figuras do clero progressista e esquerdista que promove uma autodemolição da Igreja —, não podemos abandonar Nosso Senhor e Sua Mãe puríssima; precisamos, além de desagravar os ofendidos, sair a campo em defesa de seus santíssimos Nomes. Ou vamos abandoná-Los e continuar de braços cruzados?

         Uma metáfora nos proporciona uma clara visão dessa trágica situação. Ela foi expressa pelo Prof. Plinio em uma conferência no dia 26 de fevereiro de 1966:

Nossa Senhora é como uma Rainha que está sentada no seu trono. A sala está cheia de inimigos. Os inimigos já Lhe arrancaram o dossel, já tiraram da sua fronte veneranda a coroa de glória a que Ela tem direito, já Lhe arrancaram das mãos o cetro. Ela está amarrada para ser morta.

“Dentro dessa sala cheia de gente poderosa, armada, influente — todos diante da Rainha, que não faz outra coisa senão chorar —, há também um pugilo de fiéis, e Ela evidentemente olha para tais fiéis.

“Assim, ou este olhar faz em nós o que o olhar de Jesus fez em São Pedro, ou não há mais nada para dizer…

“A Rainha vai ser arrancada do trono. Pergunta-se: o que nós vamos fazer? Nesta hora de tal olhar, isso não me interessa? Este olhar não me sensibiliza?

“Poder-se-ia então perguntar: Quem sou eu? Eu sou o homem para quem Nossa Senhora olhou!

“Mas serei o homem a quem Ela terá olhado em vão?”

 

Fidelidade à mensagem que o milagroso pranto significa

50 anos depois das lágrimas de advertência ao mundo, supliquemos a Nossa Senhora Rainha dos Corações que não permita que façamos parte do imensíssimo número de prevaricadores para os quais Ela olhou em vão, insensíveis ao “milagroso aviso”. E se em algum momento fomos indiferentes às suas lágrimas de dor, que Ela nos perdoe e nos dê fidelidade à mensagem que seu pranto significa, arranque de nossas almas essa indiferença, conceda-nos um coração contrito e humilhado, e nos prepare para o castigo — muito merecido, uma vez que não houve a conversão pedida reiteradamente — que se abaterá sobre todo o gênero humano como profetizado na Cova da Iria em 1917.

Que Ela misericordiosamente nos coloque no número daqueles de seus filhos que A defendem e lutam pelo restabelecimento da nova ordem católica no mundo — a renovação espiritual de toda a humanidade —, ou seja, pela restauração da Cristandade com o advento do Reino de Maria nesta Terra, que será a plenitude do Reinado de Nosso Senhor Jesus Cristo, conforme profetizou o grande missionário francês do século XVIII, São Luís Maria Grignion de Montfort:

“Ah! quando virá este tempo feliz em que Maria será estabelecida Senhora e Soberana nos corações, para submetê-los plenamente ao império de seu grande e único Jesus? [...] Então, coisas maravilhosas acontecerão neste mundo [...]. Quando chegará esse tempo feliz, esse século de Maria, em que inúmeras almas escolhidas, perdendo-se no abismo de seu interior, se tornarão cópias vivas de Maria, para amar e glorificar Jesus Cristo? Esse tempo só chegará quando se conhecer e praticar a devoção que ensino, ‘Ut adveniat regnum tuum, adveniat regnum Mariae’”*. (Que venha o Reino de Maria, para que assim venha o vosso Reino – ou seja, o Reino de Jesus Cristo).

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* Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem, São Luís Maria Grignion de Montfort, Editora Vozes, Petrópolis, 1961, VI edição, tópico 217, pp. 210-211.

Fonte: Revista Catolicismo, Nº 859, Julho/2022. 

14 de julho de 2022

A Revolução Francesa “guilhotinou” o caráter religioso das cerimônias públicas

Coroação de Carlos VII - Eugène Lenepveu (1819–1898). Panteão de Paris.

✅  Plinio Corrêa de Oliveira 

Até a Revolução Francesa (1789), o mundo não conheceu a aberração que se chama o agnosticismo de Estado. Nos povos pagãos como nos cristãos era convicção, que não sofria controvérsia, o caráter religioso de que se deveriam revestir todas as manifestações da vida pública. 

Nas grandes monarquias, nas repúblicas aristocráticas ou burguesas, todos os acontecimentos de relevo da vida civil eram comemorados de modo religioso: investidura de chefes de Estados, celebração de heróis nacionais, glorificação de feitos de armas notáveis, expressão dos grandes lutos nacionais, tudo se fazia em cerimônias de culto, como a sagração, as missas de ação de graças ou de Requiem, os Te Deum etc. 

Esses atos, como é bem de ver, não tinham um caráter exclusivamente simbólico ou alegórico. Se bem que servissem também para manifestar de modo oficial o louvor, a alegria ou a tristeza nacional, eles tinham também um conteúdo muito real, que era o ato religioso pelo qual a coletividade nacional, como tal, referia ao Criador suas alegrias e suas dores, sua glória e seu infortúnio, adorando, agradecendo, expiando ou suplicando graças, oficialmente reunida aos pés do Deus três vezes Santo.

No altar da catedral de Notre Dame de Paris,
na diabólica Revolução Francesa durante uma "Festa da Razão",
foi cultuada a "Deusa da Razão"... Atos análogos se repetiram
em outras catedrais ou igrejas francesas.
Com a Revolução Francesa começaram os atos públicos de caráter meramente leigo. Esses atos procuravam copiar as manifestações públicas de fundo religioso do Ancien régime — "ersatz" que não raras vezes foi simiesco, como a adoração de uma atriz seminua, que representava a Deusa Razão [quadro ao lado]. Despidas forçosamente essas manifestações de seu conteúdo real, que era religioso, ficaram elas reduzidas à condição de fórmulas ocas, sem nenhum outro valor que o de uma fria alegoria. 

De 1789 para cá [233 anos de laicismo], a composição de alegorias cívicas evoluiu sem dúvida, e aos poucos se encontraram, nesse terreno, fórmulas tocantes, expressões de grande formosura literária ou cênica, perfeitamente capazes de impressionar uma grande multidão. Mas, no fundo de todas elas, fica sempre a impressão das alegorias que não são senão uma figura fugitiva e impalpável da realidade, de alegorias que se desvanecem logo depois da cerimônia, e que passam como passam todas as coisas da Terra. 
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(“Legionário”, Nº 675, 15 de julho de 1945).

11 de julho de 2022

MAGNIFICAT! — Grande e histórico dia na luta contra o aborto


Por fim, depois de quase 50 anos do bom combate contra leis abortistas, os americanos contrários à prática infanticida e os movimentos pró-life venceram uma grande batalha em defesa da vida inocente no seio materno. Mas a guerra ainda não terminou... 

  Paulo Roberto Campos 

Como o dia 22 de janeiro de 1973 foi uma data histórica para os defensores do crime do aborto, o dia 24 de junho de 2022 também passará para a História para aqueles que defendem a vida desde a concepção. 

Com efeito, no último dia 24 de junho foi anulada pela Corte Suprema dos EUA, a abjeta e infanticida decisão judicial Roe vs. Wade, aprovada em 1973 por uma trapaça [vide quadro no final] que liberalizou o “direito” ao aborto naquele país, restringindo o poder dos Estados de proibi-lo. 

A anulação reverte uma jurisprudência de quase meio século, ao criar outra que facilita a interdição pelos Estados de legislações favorecedoras da prática abortiva. Ademais, terá muita influência nas eleições de novembro, quando se disputará o controle das duas câmaras do Congresso americano. 

Convém destacar o alto significado do dia 24 de junho: festividade solene do Sagrado Coração de Jesus e também dia em que se comemora a Natividade de São João Batista — aquele que desde bebê, ainda no ventre de sua mãe, Santa Isabel, saltou de alegria quando a Santíssima Mãe de Deus visitava a sua prima. Por uma imensa graça, ele havia percebido Jesus encarnado no seio da Virgem, fato miraculoso que se tornou símbolo da luta contra o aborto. 


Revogação da decisão Roe vs. Wade 

Apesar da enorme pressão de movimentos esquerdistas — apoiados pelo atual governo Biden e outros grupos abortistas, como a Planned Parenthood (organização multinacional fundada por movimentos feministas nos anos 50) —, os ministros Supremo Tribunal dos Estados Unidos declararam abolido, por uma maioria de 6 x 3, o acórdão de seus colegas de 1973 no mesmo Tribunal. No fundo, os ministros da Corte daquele ano haviam decidido que os nascituros não eram seres humanos. Logo, poderiam ser executados “legalmente”... 

Agora, graças a Deus, essa aberração jurídica foi revertida. A causa antiaborto sai vitoriosa de uma grande batalha. Entretanto, não ganhou a guerra final. Ainda há muito combate pela frente, até se obter a proibição total do extermínio de vidas no seio materno. 

A atual e histórica decisão da Corte Suprema devolve aos 50 Estados da Federação americana a faculdade de adotar leis próprias a favor ou contra o aborto.

A boa notícia é que se calcula que mais da metade dos Estados fará leis proibindo o aborto, alguns permitindo-o apenas em certos casos específicos. Muitos outros já tinham “leis de gatilho” contra a matança de inocentes, prontas para entrarem em vigor tão logo Roe vs. Wade fosse declarada inconstitucional. Assim, logo após a recente decisão da Corte Suprema, dez Estados proibiram totalmente o aborto, e muitos outros restringiram bastante o acesso à prática abortiva. Todos os abortos programados foram cancelados, e algumas clínicas fechadas. 


“É hora de cumprir a Constituição” 

O juiz Samuel Alito, autor da sentença revogando a decisão Roe vs. Wade, proferiu o parecer, ao qual se juntaram os Juízes Clarence Thomas, Neil Gorsuch, Brett Kavanaugh e Amy Coney Barrett. O presidente da Corte, John Roberts, acompanhou o voto deles.

A recente sentença — na mesma linha do rascunho vazado para a mídia em maio último, segundo o qual já havia maioria para reverter a decisão Roe vs. Wade — declara que o acórdão lavrado em 1973 é “extremamente censurável desde o início” e que teve “consequências danosas [...]. Nós sustentamos que [as decisões] Roe vs. Casey devem ser anuladas. A Constituição não faz referência ao aborto, e tal direito não é implicitamente protegido por qualquer disposição constitucional [...]. É hora de cumprir a Constituição e devolver a questão do aborto aos representantes eleitos pelo povo” — assim o juiz conservador Samuel Alito justificou seu voto. 

O juiz Samuel Alito, autor da sentença revogando a decisão Roe vs. Wade 

E os direitos de Deus e do nascituro? 

O presidente John Biden declarou que fará todo o possível, através de ordens executivas, para manter o “direito” ao aborto. Ele se “esqueceu” do direito do bebê indefeso e, sobretudo, dos direitos de Deus, Criador de todas as coisas e que prescreveu o Mandamento “Não Matarás”. 

Esqueceu-se Biden, que se diz “católico”, de que nenhuma lei humana pode contradizer a Lei Divina? O abortamento é um pecado gravíssimo, com o agravante de ser a própria mãe, que em vez de proteger seu bebê, permite que o executem. Mas Biden quer permitir a venda online de pílulas abortivas — pílulas da matança de inocentes no início de sua existência. Mas sua promessa, feita durante a campanha eleitoral, de transformar em lei federal a Roe vs. Wade, já caiu por terra. Graças a Deus e à forte reação antiaborto nos EUA! 

A magnífica e recente decisão reflete o compromisso da maioria dos magistrados da Corte Suprema com o princípio exposto pelo juiz conservador Clarence Thomas: “Não podemos ser uma instituição que pode ser intimidada a emitir apenas os resultados que você deseja.”

A polarização da opinião pública americana — já muito dividida em torno de questões religiosas, culturais e morais — agora aumentou muito mais. Movimentos esquerdistas, defensores dos “direitos humanos”, da liberação das drogas, da eutanásia, bem como feministas e anarquistas dos EUA e do mundo inteiro estão furibundos. Eles não aceitam a decisão da Corte Suprema — ainda que seja para salvar milhões de vidas com “direitos humanos” — e fazem manifestações violentas, vandalizando igrejas e até as incendiando. 

Os ativistas de tais movimentos libertários se uniram. Eles percebem que a proibição do aborto nos EUA é o caminho para se proibirem outras aberrações promovidas pela revolução sexual. 

“Brada aos céus e clama a Deus por vingança” 

Nessa revolução sexual, o massacre de inocentes faz parte dos planos daqueles que afrontam a Lei de Deus e a Lei Natural. Com a decisão judicial de 1973, o número de nascituros executados “legalmente” no ventre materno aumentou exponencialmente nos Estados Unidos, tornando-se o maior holocausto de inocentes de todos os tempos. Alguns pesquisadores falam em aproximadamente 63 milhões de abortos desde aquele ano até o final de 2021. 

Agora, com a revogação da Roe vs. Wade, seria um bom momento para que a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) mandasse celebrar cerimônias de “Te Deum” em ação de graças. E nos próximos dias promovesse atos de reparação pelos milhões de bebês executados no ventre materno. Nesses atos poder-se-iam renovar as excomunhões para aqueles que praticam ou ajudam a praticar o aborto. 

A CNBB o fará? Pelo seu passado, dificilmente! Entretanto, o Código Canônico de 1983 é claro e taxativo: “Quem provoca aborto, seguindo-se o efeito, incorre em excomunhão latae sententiae.” (Cânon 1398). Ou seja, é automaticamente excomungado — não necessita ser decretado pela autoridade eclesiástica. Aquele que incorre em excomunhão não pode, por exemplo, receber os sacramentos. 

E o Bem-aventurado Papa Pio IX também foi categoricamente claro nesta matéria: “Declaramos estar sujeitos a excomunhão latae sententiae (anexa diretamente ao crime) os que praticam aborto com a eliminação do concebido.” 

Esse decreto é inteiramente justificável, pois como ensina o Catecismo, o aborto é um pecado gravíssimo que “brada aos céus e clama a Deus por vingança”, por transgredir diretamente a ordem natural das coisas. 

Lula da Silva é favorável ao crime do aborto 

A legalização completa do aborto foi sempre uma pauta prioritária dos partidos de esquerda, “abençoados” pelo clero progressista. Não sem razão os ativistas desses partidos estão amargurados com a abolição da sentença que tornava o aborto um ato legal nos EUA.

Mas em Santa Catarina assistimos recentemente ao triste desfecho, comemorado pela esquerda, do caso da menina de 11 anos que acabou recebendo autorização para abortar seu bebê com 29 semanas de gestação. 

Também recentemente, o ex-presidente e ex-presidiário Lula da Silva declarou que todos deveriam ter acesso ao aborto. Portanto, ele afronta diretamente a Deus em seu V Mandamento. 

Entretanto, por alguma “mágica”, os institutos de pesquisa projetam Lula em primeiro lugar como candidato presidencial nas eleições de outubro próximo. Mas as pesquisas de rua desmentem os institutos, pois para não ser vaiado ele sequer pode aparecer em público, devido à maciça rejeição popular. 

O momento presente é de ouro para todos aqueles que combatem o infanticídio no seio materno, para que exijam dos congressistas a proibição de uma vez por todas de qualquer tipo de prática abortiva no Brasil. O geral dos brasileiros rejeita o aborto, e por isso mesmo leis abortivas só são possíveis através do Supremo Tribunal Federal, que vem legislando, tomando o lugar do Congresso Nacional. 

Mas se, a exemplo dos norte-americanos, houver aqui uma forte reação, com manifestações no estilo das gigantescas March for Life realizadas todos os anos em Washington — das quais a TFP americana participa com seus símbolos desde o início, dando-lhe um brilho todo especial —, as autoridades brasileiras não poderão avançar contra o desejo da maioria defensora da vida humana desde a concepção até à morte natural.  

Norma McCorvey comemora diante da Corte Suprema, em abril de 1989, o veredicto a favor do aborto, após o Tribunal ouvir argumentos em um caso que já naquela época poderia ter anulado a decisão Roe vs. Wade.

Roe vs. Wade — uma trapaça 

A americana Norma McCorvey — com o pseudônimo de Jane Roe — foi a primeira mulher a ganhar na Suprema Corte (1973) o pretenso “direito” de abortar nos EUA. Assim, devido à jurisprudência criada, seu caso serviu para que toda mulher passasse a ter o mesmo “direito de tirar” o seu bebê naquela nação. Ademais, outros países começaram a imitar a decisão daquela Corte. 

Após 30 anos de ativismo abortista, Norma McCorvey se arrependeu, converteu-se ao catolicismo e revelou a trapaça armada pelos abortistas. Ela havia ficado horrorizada com os traumas adquiridos pelas mulheres que praticaram o aborto, com a enorme quantidade de dinheiro que os médicos aborteiros recebiam, e com o desprezo de seus advogados pela medicina. Afirmou também que se as mulheres soubessem a verdade sobre o aborto, jamais se submeteriam a ele, acrescentando que “as duas advogadas me disseram que seria bom que as mulheres pudessem escolher entre ter o bebê ou não; eu então pensava o mesmo”. 

Relata ainda que certo dia, ao passar perto de um parquinho com brinquedos para crianças, viu os balanços vazios balançando ao vento, sem crianças brincando. Assim, perdeu sua convicção pró-aborto... 

Ela redigiu um relatório — publicado no jornal “El Mundo”, do Panamá, em 19-01-2003 — confessando ter sido manipulada por advogadas que buscavam um caso para atacar a lei que proibia o aborto, além de quererem fama a qualquer custo. Eis o texto revelado por aquele jornal: 

“Era o ano de 1969. Ela estava só, havia abandonado os estudos e dado os filhos para a adoção. As advogadas Sarah Weddington e Linda Coffee convenceram-na a denunciar o fiscal de Dallas, Henry Wade, e a lutar pelo seu direito de abortar no Texas. Assim nasceu o caso ‘Roe vs. Wade’, que foi, de acordo com Norma, um cúmulo de mentiras. Para que a Justiça fosse mais rápida, disse às advogadas que fora violentada. 

“Mais tarde, em uma entrevista à televisão por ocasião dos 25 anos da sentença, confessou a farsa: a sua gravidez tinha sido fruto de ‘uma simples aventura’. Começou a sentir certa aversão pelas campanhas abortistas e pela clínica no início dos anos 90; não suportava a pressão de todas as mulheres que a procuravam para lhe agradecer, porque tinham podido abortar. 

“Quando começou a trabalhar com o grupo católico, toda a sua vida até aquele momento pareceu-lhe um erro. Assim, Norma se converteu em porta-voz da sua causa e publicou um novo livro, contrário ao aborto desde o título da capa: Won by Love (Vencida pelo amor)”. 

Norma McCorvey, já convertida ao catolicismo,
 participa de uma campanha pró-vida no Texas. 
Em 14-1-2005 ela entrou com uma petição na Suprema Corte pedindo a reversão da sentença do caso Roe vs. Wade, apresentando o testemunho autêntico de mais de mil mulheres traumatizadas por terem praticado o aborto, juntamente com 5.300 páginas de depoimentos médicos contrários a essa prática infanticida.

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Fonte: Revista Catolicismo, Nº 859, Julho/2022 

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