11 de setembro de 2017

Marido e Esposa: autoridade idêntica na Família?

A instituição primitiva do casamento, deturpado pelo pecado dos homens, Nosso Senhor Jesus Cristo veio restaurá-lo na sua plenitude, elevando-o, além do mais, à condição de sacramento, que transmite a graça e simboliza a união entre Cristo e a Igreja. (Pintura: Casamento da Virgem – detalhe do tríptico do pintor Goswin van der Weyden, que se encontra na Igreja Sint-Gummaruskerk, em Lier (Bélgica).
Um leitor da revista Catolicismo enviou uma pergunta, para ser respondida pelo Monsenhor José Luiz Villac, que muito interessa àqueles que costumam acompanhar os temas deste espaço especialmente apropriado às famílias. Segue a muito instrutiva resposta, publicada na edição deste mês da revista (Edição Nº 801, Setembro/2017).
Pergunta Conversando recentemente com um canonista, ele me disse que, no casal, o marido e a mulher mandam em igualdade de condições. Que nas últimas décadas houve uma evolução no modo de a Igreja considerar a autoridade na família, pelo que a versão mais tradicional, segundo a qual prevalece a autoridade do marido, deu lugar a um conceito mais igualitário. Creio que a última encíclica do Papa Francisco “Amoris Laetitia” trata de algo sobre isto. Será que o Sr. poderia me esclarecer e, se for o caso, inclusive me dizer se existe algum ensino infalível da Igreja sobre esta matéria?
Resposta Para responder com profundidade a essa “polêmica” pergunta do nosso caro missivista — que se situa na contracorrente da escalada feminista na sociedade —, é preciso relembrar, ainda que de modo sucinto, a teologia do matrimônio cristão e da família. 

O casamento foi divinamente instituído para três finalidades elevadas: propagação do gênero humano, educação dos filhos, auxílio mútuo dos esposos. Para assegurar essas altíssimas finalidades, o casamento possui duas características essenciais: a indissolubilidade e a unicidade ou monogamia. 

Assim, através do pacto matrimonial pelo qual os esposos se dão inteiramente um ao outro para formar “uma só carne” (Gn 2, 24), eles são constituídos num estado que pode ser definido como uma união perpétua e exclusiva entre um homem e uma mulher com a finalidade principal de gerar filhos e educá-los, e, secundariamente, para se prestarem mútuo apoio. 

Essa foi a instituição primitiva do casamento. Deturpado pelo pecado dos homens, Nosso Senhor Jesus Cristo veio restaurá-lo na sua plenitude, elevando-o, além do mais, à condição de sacramento, que transmite a graça e simboliza a união entre Cristo e a Igreja. 

Na pequena comunidade que é a sociedade doméstica, Deus estabeleceu, no IV Mandamento da sua Lei, as regras que devem governar as relações entre os pais e os filhos e que Leão XIII assim descreve: “Pelo que respeita aos filhos, devem submeter-se e obedecer a seus pais, honrá-los e venerá-los por dever de consciência, e, por outro lado, os pais devem aplicar todos os seus pensamentos e cuidados em proteger seus filhos e, sobretudo, em educá-los na virtude: ‘Pais [...] educai os vossos filhos na disciplina e nos mandamentos do Senhor' (Ef. 6, 4)” (Enc. Arcanum divinae sapientiae, n° 8). 
O Apóstolo São Paulo na sua Epístola aos Efésios: “Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela [...] Assim os maridos devem amar as suas mulheres, como a seu próprio corpo” (Pintura: Carícia materna – Mary Cassatt, 1896. The Philadelphia Museaum of Art, EUA).

Duas existências numa só 

Mas Deus também estabeleceu as regras que devem governar as relações dos esposos entre si. Quanto à finalidade principal de procriar e educar os filhos, pelo pacto matrimonial os esposos são obrigados ao débito conjugal, conforme ensina São Paulo: “O marido cumpra o seu dever para com a sua esposa e da mesma forma também a esposa o cumpra para com o marido. A mulher não pode dispor de seu corpo: ele pertence ao seu marido. E da mesma forma o marido não pode dispor do seu corpo: ele pertence à sua esposa” (1 Cor 7, 3-4).

As obrigações decorrentes da finalidade secundária, ou seja, o fundir-se de duas existências numa só e o apoio mútuo que marido e mulher devem prestar-se, o mesmo São Paulo as formulou na sua Epístola aos Efésios.

Aos maridos, o Apóstolo diz que eles devem se sacrificar por suas respectivas esposas: “Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela [...] Assim os maridos devem amar as suas mulheres, como a seu próprio corpo. Quem ama a sua mulher, ama-se a si mesmo. Certamente, ninguém jamais aborreceu a sua própria carne; ao contrário, cada qual a alimenta e a trata, como Cristo faz à sua Igreja porque somos membros de seu corpo. Por isso, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois constituirão uma só carne” (5, 25-31). 

E às esposas, São Paulo ensina que devem obedecer aos seus maridos: “As mulheres sejam submissas a seus maridos, como ao Senhor, pois o marido é o chefe da mulher, como Cristo é o chefe da Igreja, seu corpo, da qual ele é o Salvador. Ora, assim como a Igreja é submissa a Cristo, assim também o sejam em tudo as mulheres a seus maridos” (5, 22-24). 

“Toda a família é uma sociedade” 

Nesse santo consórcio, ao marido cabe a autoridade, porque a força física e de caráter com que Deus dotou o sexo masculino serve de apoio à delicadeza de sua mulher e à fraqueza de seus filhos. À mulher cabe principalmente educar os filhos e influenciar toda a família pela sua delicada sensibilidade de coração, sua dedicação, sua benignidade, seu carinho. 

Em uma das suas alocuções aos recém-casados, de 10 de setembro de 1949, afirma o Papa Pio XII: 
“Toda a família é uma sociedade, e toda a sociedade bem ordenada reclama um chefe, todo o poder de chefe vem de Deus. Portanto, a família que vós fundastes tem também seu chefe, um chefe que Deus investiu de autoridade sobre aquela que se deu a ele para ser sua companheira, e sobre os filhos que virão, pela bênção de Deus, crescer e alegrar a família, tais como os rebentos verdes em torno do tronco de oliveira. Sim, a autoridade do chefe de família vem de Deus, assim como de Deus que Adão recebeu a dignidade e a autoridade de primeiro chefe do gênero humano e todos os dons que ele transmitiu à sua posteridade”

Ele não fazia senão repetir a doutrina salutar reiterada pelo Papa Pio XI na sua famosa encíclica Casti connubii, na qual especifica a “ordem do amor” que deve revestir a hierarquia doméstica: 
“Essa ordem implica de um lado a superioridade do marido sobre a mulher e os filhos, e de outro a pronta sujeição e obediência da mulher, não pela violência, mas como a recomenda o Apóstolo [...] Tal sujeição não nega nem tira à mulher a liberdade a que tem pleno direito, quer pela nobreza da personalidade humana, quer pela missão nobilíssima de esposa, mãe e companheira, nem a obriga a condescender com todos os caprichos do homem, quando não conformes à própria razão ou à dignidade da esposa [...] Se efetivamente o homem é a cabeça, a mulher é o coração; e, se ele tem o primado do governo, também a ela pode e deve atribuir-se como coisa sua o primado do amor. O grau e o modo desta sujeição da mulher ao marido podem variar segundo a variedade das pessoas, dos lugares a dos tempos; e até, se o homem menosprezar o seu dever, compete à mulher supri-lo na direção da família. Mas em nenhum tempo e lugar é lícito subverter ou prejudicar a estrutura essencial da própria família e a sua lei firmemente estabelecida por Deus” (n° 26-27). 
Família na Alemanha do séc. XIX – Ludwig Knaus (1829 – 1910). Märkisches Museum, Berlim.

A família não é uma sociedade igualitária 

A exortação pós-sinodal Amoris laetitia, pelo contrário, saúda a “superação de velhas formas de discriminação e o desenvolvimento de um estilo de reciprocidade” no casamento, afirmando ver nessa superação “a obra do Espírito no reconhecimento mais claro da dignidade da mulher e dos seus direitos”, embora nessa evolução tenham aparecido “formas de feminismo que não podemos considerar adequadas” (n° 54). E acrescenta: “No lar, as decisões não se tomam unilateralmente, e ambos [marido e mulher] compartilham a responsabilidade pela família”. Assim, “em cada nova etapa da vida matrimonial, é preciso sentar-se e negociar novamente os acordos, de modo que não haja vencedores nem vencidos, mas ganhem ambos” (n° 220).

A Exortação apostólica não hesita em “reinterpretar” a epístola do Apóstolo dos Gentios aos Efésios, acima citada. O preceito paulino de que “as mulheres sejam submissas a seus maridos” não significa “submissão sexual”, diz o Papa Francisco. “São Paulo exprime-se em categorias culturais próprias daquela época”; trata-se, segundo ele, apenas de uma “roupagem cultural” que “nós não devemos assumir” (n° 156). 

E para tentar justificar teologicamente esse novo modelo de casamento igualitário, o Papa Francisco se apoia num ensinamento de S.S. João Paulo II, na audiência geral de 11 de agosto de 1982, no qual ele afirma que a comunidade constituída pelos cônjuges “realiza-se por meio de uma recíproca doação, que é também submissão mútua”, porquanto o Apóstolo aconselha: “Submetei-vos uns aos outros” (Ef. 5,21). Seis anos mais tarde, na carta apostólica Mulieris dignitatem, o mesmo Papa afirmou que “enquanto na relação Cristo-Igreja a submissão é só da parte da Igreja, na relação marido-mulher a ’submissão’ não é unilateral, mas recíproca!” (n° 24). 

O grande problema dessa interpretação é que ela não se baseia em nenhum texto escriturário, patrístico ou magisterial, tratando-se, portanto, de uma interpretação puramente pessoal e gratuita, que contradiz o que a Igreja Católica sempre ensinou durante quase dois mil anos. 

O modelo ideal é a família patriarcal 

Em segundo lugar, a expressão “submissão mútua” é um contrassenso, uma contradição nos termos, porque é impossível alguém mandar em outrem e ao mesmo tempo lhe estar submetido a respeito de uma mesma esfera de assuntos. Mesmo imaginando um marido que fosse empregado de sua mulher na vida profissional, não se poderia falar de “submissão mútua”, porque enquanto ele mandaria na casa, a mulher mandaria no escritório, e um seria súdito do outro, mas em momentos e áreas diferentes. 

Além de o versículo 21 (“submetei-vos uns aos outros no temor de Cristo”) constituir uma advertência a toda a comunidade, nele a expressão “uns aos outros” não pode ser entendida como uma reciprocidade de relações pela qual todos se submetem a todos (coisa impossível, como visto), mas antes no sentido de que alguns da comunidade devem se submeter a outros da mesma comunidade (os jovens aos idosos, os discípulos aos mestres, as mulheres aos maridos, os filhos aos pais, etc. todos eles membros da mesma comunidade).

Algo semelhante ocorre na Epístola aos Colossenses, na qual São Paulo exorta: “A palavra de Cristo permaneça entre vós em toda a sua riqueza, de sorte que com toda a sabedoria vos possais instruir e exortar uns aos outros” (3,16). Ora, é sabido que no Novo Testamento o ensino e a exortação são atividades claramente restritas aos detentores dessa missão eclesial. 

Se essas considerações não fossem suficientes, bastaria relembrar a analogia que São Paulo estabelece entre marido e mulher, e Cristo e a Igreja: é inimaginável supor que Nosso Senhor e sua Esposa mística estejam “submetidos um ao outro”! Pelo contrário, ele diz que a mulher deve submeter-se ao marido “em tudo”, como a Igreja é submissa a Cristo. Aliás, se a mulher deve se submeter ao marido em tudo, no que poderia ele ser submisso a ela?

É exercendo sua autoridade que o marido imita Nosso Senhor, o qual, como os Papas João Paulo II e Francisco ressaltaram, “não veio para ser servido, mas para servir, e dar a sua vida em redenção por muitos”, e que, assim fazendo, introduziu um modelo cristão de exercício do poder, radicalmente diferente do pagão. 

Após cinco décadas de igualitarismo no exercício do hoje chamado “poder familiar”, substituto do “pátrio poder” do antigo Código Civil, nunca a família brasileira padeceu semelhante crise, nem o número de divórcios foi tão elevado, com indizível custo psicológico e moral para suas principais vítimas: os filhos.

Somente retornando ao modelo austero e hierárquico da família patriarcal, fundada no matrimônio indissolúvel e na prole numerosa, é que a família brasileira poderá recuperar seu vigor de outrora. 

Que São José, modelo do exercício virtuoso da autoridade paterna na Sagrada Família — onde era menor a outros títulos —, nos ajude nessa obra fundamental de restauração!

28 de agosto de 2017

Origens monásticas da cerveja


Plinio Maria Solimeo

Numa calorenta tarde de verão — ou mesmo de inverno —, poucos são os que resistem a uma cerveja bem gelada. De preferência, de garrafa; ou um chope espumante, tomado em caneca de louça ou de vidro.

Ao saborear a agradável bebida — uma das mais populares do mundo entre os adultos —, não passa pela cabeça da maioria das pessoas que ela tem uma longa história, que se prende aos mosteiros do início da Idade Média na Europa.

Com efeito, a cerveja foi elaborada com um contributo indispensável da religiosa beneditina Santa Hildegarda de Bingen, e aperfeiçoada mais tarde por monges trapistas, fazendo com que sua história seja cercada de muitas bênçãos.

Foi na noite dos tempos da Alta Idade Média (760-1000) que os monges penetraram no território europeu, no insano trabalho de converter as tribos bárbaras. Esses homens de visão não se restringiram a essa nobre atividade; foram também responsáveis pela salvação da cultura, ameaçada em meio àquele caos, ensinando a esses povos primitivos o uso da terra e, sobretudo, cultivando seus espíritos. 

Por acaso — ou melhor, pela mão da Providência, pois coincidência não existe —, em determinado momento os monges começaram a fabricar para uso próprio uma bebida forte e saudável que servia ao mesmo tempo para alegrar um pouco o coração do justo e matar a sede e alimentar o corpo. Desse mosteiro ignoto a bebida se espalhou para outros mosteiros, começando assim a sua história.

Acidentalmente, consta que a cerveja foi também responsável pela boa saúde de muitos, pois em várias regiões ela mitigava o mau efeito da insalubridade ou má qualidade da água, que provocava enfermidades.

Com o tempo, muitos monges de várias Ordens religiosas — franciscanos, beneditinos, mínimos e, pouco depois, os trapistas —, começaram também a fazer cerveja, que lhes servia não apenas como fonte de renda, mas também de subsistência. 

Pode-se por isso dizer que a Igreja e a cerveja sempre estiveram juntas, no sentido de que até hoje algumas das melhores cervejas do mundo são feitas por monges. 

Contributo de Santa Hildegarda

A cerveja de hoje não se parece com a medieval. Pelo menos com a da Alta Idade Média. Entretanto, essa bebida recebeu no século XII o inesperado e indispensável contributo de Santa Hildegarda [pintura ao lado], beneditina alemã, que modificou de vez a deliciosa bebida. 

Nascida no século XI, Santa Hildegarda de Bingen (1098-1179), a Sibila do Reno, foi colocada pelo Papa Bento XVI no número das Doutoras da Igreja. Verdadeira erudita entre as quatro paredes da clausura do convento, ela escreveu desde tratados de teologia e de mística até alguns de botânica e de medicina. Neles indicava um sem-número de remédios e tecia considerações sobre determinadas doenças, que até hoje assombram os cientistas. 

Em seu tempo, utilizava-se na cerveja uma mistura de ervas aromáticas chamada gruit. Hildegarda observou que as bebidas doces eram muito populares e, não sabemos por que, supunha que o seu consumo elevado ocasionava problemas de visão, podendo chegar até à cegueira. 

Em seu tratado sobre botânica, ela escreveu sobre os benefícios do lúpulo [foto] para a saúde, e da conveniência de seu emprego na fabricação da cerveja. De modo que esse complemento — essencial para a fabricação de uma boa cerveja — foi introduzido por indicação dela. Dando à bebida um toque mais amargo, contrabalançava o abuso de seu consumo, evitando assim os males decorrentes de outras bebidas mais doces. 
Abadia trapista de Molesme (França)

Contributo dos monges trapistas

Exatamente no ano em que nascia Santa Hildegarda, São Roberto, abade do convento de Molesme, estabelecia-se em Cîteaux, com o propósito de restaurar uma literal observância da Regra de São Bento. Um dos mais extraordinários frutos desse convento foi o célebre São Bernardo, enviado depois com outros monges para fundar uma filial em Claraval, que ele tornaria famosa. 

Os monges da reforma de Cîteaux passaram a ser chamados de cistercienses. Infelizmente, como acontece com todas as obras humanas, essa Ordem começou a decair. Foi então que, no século XVII, na Abadia de La Trappe, o abade Jean-Armand le Bouthillier de Rancé — mais conhecido como Abade de Rancé (1626-1700) —, empreendeu uma reforma para levar seus monges ao antigo fervor. Por causa de sua abadia de La Trappe, seus monges reformados começaram a ser chamados de trapistas (ou da Ordem dos Cistercienses Reformados), para distingui-los dos monges da Ordem dos Cistercienses da Observância comum.


Os trapistas são monges contemplativos, que levam uma vida considerada muito dura pelas pessoas do mundo. Eles se levantam antes do amanhecer para começar o dia com a oração litúrgica, que rezam conjuntamente várias vezes ao dia. Fora das orações, cada qual prossegue o seu trabalho em silêncio, pois este é obrigatório, como o é também o trabalho manual. Cada mosteiro tem a sua especialidade específica. O silêncio é assim praticamente perpétuo, proporcionando aos monges um ambiente que os ajuda a permanecer sempre em oração.

Portanto, foi num convento trapista que se chegou ao aperfeiçoamento da técnica de preparação da cerveja, a qual se estende até os nossos dias. E aquela produzida nesse convento alcançou tal fama, que os monges viram-se obrigados a registrar a marca “trapista”, nome que passou a ser utilizado como propaganda para a venda de cerveja.

Por isso, apenas dez cervejas levam o logotipo oficial trapista em suas etiquetas: Chimay, Achel, La Trappe, Orval, Rochefort, Westmalle, Westvleteren, Engelszell, Zundert e Spencer. Quase todas são belgas, mas há também holandesas, francesas, austríacas, e inclusive uma americana.

É preciso dizer que, para não prejudicar sua vida de piedade e oração, os trapistas dedicam apenas poucas horas ao fabrico da cerveja, o que faz com que sua produção seja limitada. O alto lucro que eles obtêm com sua venda destina-se primeiramente à manutenção dos monges e do mosteiro, sendo o restante empregado em obras caritativas, pessoas necessitadas e no desenvolvimento da área do mosteiro.

Um padre americano cervejeiro

Recentemente, um sacerdote americano ganhou o prêmio nacional de mestres cervejeiros. Trata-se do Pe. Jeff Poirot, pároco da igreja da Sagrada Família, de Forth Worth, no Texas. Em seus limitados tempos livres, ele começou a fabricar cerveja artesanal com um amigo na garagem de sua casa, como passatempo.

Ambos começaram a participar do concurso cervejeiro National Homebrew Competition [foto] há três anos, e agora ganharam o prêmio Ninkasi, concedido aos cervejeiros que acumularam mais pontos nas 33 categorias. 

Mas sua produção é também bastante limitada, uma vez que o Pe. Poirot é muito solicitado pelos paroquianos e pelos deveres inerentes ao seu cargo. Por isso pede algumas vezes ao seu sócio que termine de preparar a cerveja, pois ele deve priorizar o seu trabalho como sacerdote. Acima de tudo, está o serviço de Deus.(*)
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(*) Obra consultada: http://www.religionenlibertad.com/gracias-una-santa-disfrutas-cerveza-tal-como--58124.htm

13 de agosto de 2017

Dois prefeitos “politicamente incorretos”


Plinio Maria Solimeo

Em outro artigo(*) apresentamos um político inglês conservador, bem casado e pai de seis filhos, que por sua fidelidade à fé católica enfrenta de peito aberto todos os desmandos morais que assolam o pobre mundo moderno.

Hoje falaremos de dois políticos italianos que, coerentes com a sua ideologia, também defendem os valores tradicionais, não aceitando essas pragas que infestam nosso século.


O primeiro é Federico Sboarina [foto ao lado], recém-eleito prefeito, pela coalizão da Liga do Norte, da importante cidade de Verona. Advogado de 46 anos, “tão logo chegou ao cargo, deu ordem para se retirar das escolas e deixar de privilegiar nas bibliotecas públicas todo o material propagandístico da ideologia de gênero que havia sido distribuído nos últimos anos” .(1)

Isso ele fez em cumprimento ao prometido em seu programa eleitoral que, “como forma de apoiar a família, estabelece, entre outros, estes três pontos: 
“Oposição à difusão da ideologia de gênero nas escolas mediante propostas educativas desenvolvidas em colaboração com as associações de famílias, com a finalidade de promover o respeito à dignidade masculina e feminina, sem desprezar suas valiosas diferenças naturais”;  
“Retirada das bibliotecas e das escolas municipais [...], incluídas as creches, de livros e publicações que promovam a equiparação da família natural com as uniões do mesmo sexo, e interrupção das iniciativas que promovem indiretamente este mesmo objetivo”;  
“Compromisso de rechaçar toda iniciativa (deliberações, moções, ordens-do-dia, coleta de assinaturas, orgulho homossexual, etc.) contrária aos valores da vida, da família natural ou das prerrogativas do direito dos pais em educar seus filhos segundo seus princípios morais e religiosos”.
Devido a essas propostas conservadoras, Federico Sboarina obteve 58,11% dos votos no segundo turno das eleições de 25 de junho. É preciso salientar que Verona, com cerca de 250.000 habitantes, é a segunda cidade do Vêneto, logo depois de Veneza. 

Patrizia Bisinella, adversária de Sboarina, também pertencera à Liga do Norte, partido conservador; mas nos últimos anos cedeu ao império do lobby homossexual. O resultado das eleições mostra que a maioria da população é mais conservadora do que os políticos pensam. E, no entanto, eles se iludem defendendo essas aberrações morais, que julgam ter popularidade entre o povinho. 


Campanha de imposição ideológica subvencionada

Como não é de surpreender, as medidas do novo prefeito provocaram um imenso clamor no establishment pró-homossexual. O lobby LGBT fala agora em “confiscar” e “destruir” qualquer livro que questione a ideologia de gênero, além de atacar a “censura” existente em Verona, no que é apoiada pela Associação Italiana de Editores, pela Associação Italiana de Bibliotecas e pela International Publishers Association, que pediram a Federico Sboarina que reconsidere a sua decisão. 

Uma das principais organizações do lobby homossexual italiano, Arcigay, comenta: “É desconcertante que Sboarina seja vítima do grande espantalho e da apoteose paranoica reacionária do momento, do ogro do gênero, que não existe, mas sobre o qual se construiu um partido que consegue alguns votos”. Ao que “os defensores da medida respondem que esses ‘alguns votos’ são quase dois terços dos registrados no dia 25 de junho, e que a própria existência de toda a propaganda retirada agora por Sboarina demonstra que não há nenhum ‘espantalho’ nem ‘paranoia’, mas uma campanha de imposição ideológica bem organizada e subvencionada”

Com efeito, a maioria dos textos infantis, que têm muito pouca venda nas livrarias e “pouca procura da parte dos pais que compram livros para seus filhos, são financiados com dinheiro público para sua distribuição escolar e estão destinados exclusivamente a doutrinar as crianças na ideologia de gênero”.

Apesar do verdadeiro estrondo publicitário que estão fazendo contra essa medida de Federico Sboarina, ela significa apenas que esses lixos morais “simplesmente deixarão de ser leitura escolar obrigatória, e não serão privilegiados, como até agora, nas salas de leitura infantil das bibliotecas públicas”


Católico e cristão à antiga 

O outro prefeito que se opõe à agenda LGBT é Serafim Ferrino [foto ao lado], 68 anos, da pequena cidade de Favria, de cinco mil habitantes, na província de Turim. Reeleito quatro vezes, ele se confessa um “católico e cristão à antiga” .(2)

Também coerente com a sua fé, ele foi o primeiro prefeito na Itália a se negar a celebrar um “casamento” entre dois homens, desde a aprovação, em maio, da lei que o permite. O destemido prefeito afirma: “Para mim, a família está composta só por um homem e uma mulher, não por dois homens ou duas mulheres”. “Essas poderão ser uniões, mas não famílias. Creio firmemente que a base da sociedade é a família. Sem família não há sociedade. É ela que educa os filhos, a que trabalha sobre o terreno”

Em várias entrevistas, Serafim já havia declarado que não celebraria “casamento” entre pessoas do mesmo sexo, “nem delegaria a função de fazê-lo, porque seria uma forma indireta de colaboração”. Foi o que, chegada a ocasião, pôs em prática. 

Como não poderia deixar de ser, a ditadura homossexual pôs a boca no mundo, no que foi secundada pela imprensa liberal. Serafim não se abalou: “Simplesmente obedeço à minha consciência”, disse ele à “La Nuova Bussola Quotidiana”: “Agora todos me fazem guerra, mas paciência. Isso quer dizer que é necessário dar testemunho assim!”

Serafim já havia se manifestado de outras formas, como participando da concentração organizada pelo movimento Sentinelas em Pé na cidade de Ivrea.


A provocação do lobby homossexual 

O prefeito é muito querido em sua cidade, à qual não pertenciam os que provocativamente haviam solicitado o “casamento”. A localidade é muito apreciada para bodas por sua beleza artística, “mas Serafim tem claro que, como não há casualidade, eles escolheram o local justamente para suscitar o caso, porque sabiam de seu rechaço à lei”. Aliás, essa é uma das táticas habituais do lobby homossexual para amedrontar seus oponentes, como sucedeu com o confeiteiro Jack Phillips [foto ao lado], do Colorado, a três mil quilômetros de distância, a quem um casal homossexual encomendou um bolo para sua boda a fim de obter uma negativa e o confeiteiro ser multado. 

Serafim diz por que se recusa a fazer esse “casamento”: “Por razões éticas e morais, porque sou católico praticante, e porque, como prefeito, tenho o dever de opor-me a uma lei injusta. Sou um católico que procura fazer política seguindo o Magistério da Igreja. Ninguém pode impedir-me de professá-lo”.

No clima de ditadura anticristã em que vivemos isso poderá acarretar para Serafim a perda do cargo. Mas ele tem o apoio da esposa, entretanto “muito preocupada com a exposição mediática” deslanchada pela imprensa liberal praticamente de todo o mundo. “Em 37 anos de atividade política e administrativa, jamais isso me havia sucedido. Não estou violando a lei, estou é respeitando minha fé”, diz o destemido batalhador. 
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1. http://www.religionenlibertad.com/alcalde-coherente-retira-colegios-guarderias-todo-material-57992.htm, que vimos seguindo para este artigo. 
2. Este artigo está baseado em http://www.religionenlibertad.com/solo-obedezco-conciencia-dice-alcalde-italiano-que--52245.htm

7 de agosto de 2017

Jovem revela que, mesmo após confessar-se, não perdoa a si própria por ter abortado o seu bebê


Paulo Roberto Campos


Adela Alonso [fotos], uma jovem paraguaia de 22 anos, revelou o trauma que lhe causou o fato de ter feito um aborto no segundo mês de sua gravidez. Ela afirmou no programa de TV RPC (Red Paraguaya de Comunicación) que — mesmo tendo-se confessado e obtido o perdão pelo pecado — não consegue perdoar-se a si mesma. 


Chorando muito, disse ela que abortou no dia 17 de abril, dois dias depois de seu aniversário, e até hoje não consegue superar aquele momento mais difícil de sua existência.

Muito comovida, ela fez a revelação no programa de reality show “Mundos Opuestos”, num momento em que comentava sua vida: “Quando abortei, eu escutei o barulho que se fazia quando trituravam o bebê. E não posso esquecer isso. Acho que é difícil perdoar a mim mesma, embora tenha me confessado, não estou tranquila comigo mesma; eu me sinto como uma assassina”. 


No final de seu depoimento [gravação abaixo] ainda disse, “Perdão! Perdão, Fausto, ou perdão, Adela”. A jovem explicou que se o bebê fosse menino, se chamaria Fausto; e se fosse menina, seria Adela. 

“Perdão! Perdão!”. Com essas palavras encerrou, pois não conseguia mais falar por ter ficado com a voz embargada. 

Queira Deus que verdadeiramente arrependida e com o coração contrito e humilhado, a jovem seja perdoada e que o bebê possa interceder por ela junto ao Divino Salvador.



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Com informações do diário “Hoy”, de Assunção (Paraguai), 08 de julho de 2017: http://www.hoy.com.py/espectaculos/video-modelo-revela-aborto-en-mundos-opuestos-me-cuesta-perdonarme-a-m-mism

4 de agosto de 2017

COISA RARÍSSIMA...


Político conservador, católico praticante, casado no rito tridentino e pai de seis filhos 


Plinio Maria Solimeo 

No corrupto mundo da política de nossos dias ainda existe isso? Onde se encontra essa avis rara (algo muito raro, excepcional), que transita na contramão do que ocorre hoje em quase todo o mundo? 


Sim, essa avis rara existe e pode ser encontrada nada menos que na Câmara dos Comuns da Inglaterra. Chama-se Jacob Rees-Mogg [foto], tem 48 anos e pertence a uma das famílias católicas mais importantes da Inglaterra e da aristocracia do Reino Unido. Seu pai foi editor do “Times” de Londres .

“Este deputado é todo um personagem, tanto fora como dentro do Parlamento, destacando-se por sua fina ironia, seu peculiar sentido de humor, e por ser o máximo e um dos últimos representantes do conservadorismo britânico mais puro. Mas, antes de tudo, é um firme e fiel católico, defensor acérrimo da Igreja e da figura do papado”, em um país majoritariamente protestante. “Criado em um ambiente anticatólico, Jacob não se incomoda com o termo ‘papista’, antes o reivindica”

Alegria pela paternidade 

Quando já era pai de cinco filhos, ao chegar o sexto assim anunciou Jacob Rees-Mogg no Instagram o seu nascimento: “Helena e eu anunciamos com alegria que já temos nosso bebê, Sixto Domingos Bonifácio Cristóvão, irmão de Pedro, Maria, Tomás, Anselmo e Alfredo”

“Nunca o nascimento do filho de um simples deputado da Câmara dos Comuns havia alcançado tanto eco na imprensa britânica. Os principais meios [de comunicação] publicam, nestes dias, que o membro do Partido Conservador, Jacob Rees-Mogg foi, aos 48 anos, pai pela sexta vez. E ser uma família tão numerosa não é o mais chamativo que aparece nesses artigos, mas sim o nome de seu filho”

Esse católico de truz quer honrar os Santos pondo seus nomes nos filhos. Todos eles têm por isso mais de um nome, seja de santo ou de figuras ilustrativas de seu país. Sixto, o primeiro nome de seu sexto filho, que causou tanto alvoroço, foi para honrar os três Papas santos com esse nome. Com o segundo nome, Domingos, o deputado quis honrar o fundador da Ordem dos Pregadores ou Dominicanos. Já o terceiro nome foi dado em honra de São Bonifácio, santo inglês e padroeiro dos alemães. Finalmente, Cristóvão foi acrescentado para honrar o mártir São Cristóvão. 


Jacob dera ao seu primogênito o nome de Pedro Teodoro Alfege em honra do primeiro Papa, de São Teodoro de Tiro e de Santo Alfege. Este último foi o primeiro bispo de Cantuária e nasceu em Somerset, região onde Jacob cresceu e da qual é representante político. 

A segunda e única filha do deputado é Maria Ana Carlota Ema, em honra à Virgem e à sua mãe, Santana, e a Santa Ema da Saxônia. 

O terceiro filho se chama Tomás Wenthworth Somerset Duston em honra de São Tomás Becket, mártir inglês. Anselmo Carlos Fitzwilliam é o quarto filho, para honrar Santo Anselmo de Cantuária, Doutor da Igreja e bispo dessa diocese.

O quinto filho é Alfredo Wulfric Leyson Pius, em honra do rei inglês Santo Alfredo, o Grande, e de São Wulfric de Haselbury, também britânico; e Pio para honrar o Beato Papa Pio IX, considerado “seu grande herói”, pois tem “qualidades admiráveis”, destacando sua “visão tradicional do Estado e da Igreja”. Apesar dessa preferência, o ínclito deputado diz que é “fã de todos os Papas”. 

A fé em primeiro lugar 

O curioso é que este político usa métodos muito simples em suas campanhas eleitorais. Acompanhado do filho mais velho [foto], ele vai de casa em casa em seu distrito eleitoral, distribuindo folhetos com sua plataforma política. Com isso ele mantém um trato muito pessoal com a população, da qual se tornou muito conhecido, tanto pelo método de abordagem, quanto pela defesa dos valores morais e tradicionais, que lhe valeu ser reeleito três vezes pela circunscrição de North East Somerset, no sul do país, com um apoio cada vez maior dos eleitores. 


Em suas campanhas ele não esconde que votaria inclusive contra seu Partido e seu Governo em questões nas quais sua fé e seus princípios são questionados. E não sofre com isso nenhuma pressão. Em 2014, por exemplo, quando estava em pauta o casamento homossexual, ele votou contra seu Partido, que apoiava essa infame paródia do verdadeiro casamento. “Sou católico romano”, afirmou, acrescentando que neste tipo de assunto de ordem moral os ensinamentos da Igreja prevalecem sobre a orientação de seu Partido. Na ocasião, Jacob havia dito que se opunha a determinada medida porque ela entrava em choque com o ensino católico, já que o matrimônio é um Sacramento. 

Coerente com seu perfil conservador, ele costuma dizer que “não sou um ‘modernizador’”, destacando que “a estratégia de modernização deixou em segundo plano os problemas que realmente preocupam as pessoas”.

Nem aborto, nem eutanásia, nem suicídio assistido 

A posição assumida por Jacob foi também muito firme nas tentativas de legalização do suicídio assistido no Reino Unido, finalmente reprovado pela Câmara. Em sua opinião, no fundo do debate há muitas semelhanças entre o que se passou com o aborto e o que poderá ocorrer com a eutanásia. Diz ele: “É muito fácil usar casos muito preocupantes para permitir circunstâncias excepcionais que se convertem com bastante rapidez em norma. E então se pressionam as pessoas para porem fim à sua vida, porque elas são uma carga para seus familiares. E assim sucessivamente”. Denunciou que o mesmo poderia ocorrer como com o aborto, “que passou de algo relacionado com a saúde da mãe para uma variedade a mais de anticoncepção”


Jacob não se ilude quanto à dificuldade que há em defender sua fé como político: “Creio que vivemos em um mundo cada vez mais secular, apesar de um grande número de deputados ter crença religiosa. Mas a percepção é de que, como disse Alastair Campbell, ‘nós não nos ocupamos de Deus’, e isso tornou mais difícil que alguns políticos se sentissem cômodos em admitir sua fé”. Entretanto, ele assegura que Deus está acima de tudo, e que O defenderá sem medo: “Eu sou um filho fiel da Igreja”. 

Coerente com isso, esse destemido deputado participa habitualmente de retiros, e em suas leituras espirituais destacam-se a vida de santos e a Bíblia. Sempre que suas obrigações parlamentares lhe permitem, ele assiste à Missa tradicional, segundo o rito extraordinário, no qual também se casou.

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1 de agosto de 2017

AGERE CONTRA


Paulo Roberto Campos


A instituição da família é uma das mais vilipendiadas por movimentos revolucionários, propagadores de projetos ideológicos opostos aos ensinamentos tradicionais do Magistério da Igreja. O que eles visam é a desagregação da família e mesmo a sua extinção, por exemplo, por meio do estabelecimento do “casamento” entre duplas do mesmo sexo ou da antinatural Ideologia de Gênero

Assim, adeptos que somos do princípio do “Agere Contra” — tese muito estimada e pregada por Santo Inácio de Loyola, que consiste em agir contra os males mais propalados no momento —, precisamos sempre agir de modo contrário à onda impulsionada em nossos dias por tais movimentos. Neste sentido, o “Agere Contra” consiste remarmos contra a corrente, atuando de modo oposto aos arautos da desagregação da família. 

Com o objetivo de fortalecer a instituição familiar, reproduzimos a seguir trecho de uma alocução do Papa Pio XII [foto abaixo], em 5 de Janeiro de 1941, extraído do documento Discorsi e Radiomessaggi di Sua Santità Pio XII, Tipografia Poliglotta Vaticana, pp. 364-366.


AMBIENTE PRIVILEGIADO DA FAMÍLIA



“É fato que Cristo Nosso Senhor preferiu, para conforto dos pobres, vir ao mundo desprovido de tudo, e crescer numa família de simples operários; mas é igualmente verdadeiro que Ele quis, com o seu nascimento, honrar a mais nobre e ilustre das casas de Israel, a própria estirpe de David.
Por isso, fiéis ao espírito d'Aquele do qual são Vigários, os Sumos Pontífices sempre tiveram em alta consideração o Patriciado e a Nobreza romana, cujos sentimentos de inalterável adesão a esta Sé Apostólica constituem a parte mais preciosa da herança recebida dos seus antepassados, e que eles mesmos transmitirão aos seus filhos.
Desta grande e misteriosa coisa que é a hereditariedade — quer dizer, o passar através de uma estirpe, perpetuando-se de geração em geração, um rico acervo de bens materiais e espirituais; a continuidade de um mesmo tipo físico e moral, conservando-se de pai para filho; a tradição que une através dos séculos os membros de uma mesma família — desta hereditariedade, dizemos, pode-se sem dúvida distorcer a verdadeira natureza com teorias materialistas. Mas pode-se também, e deve-se, considerar esta realidade de tão grande importância, na plenitude da sua verdade humana e sobrenatural.
Por certo, não se negará à transmissão dos caracteres hereditários um substrato material; considerar tal fato surpreendente seria esquecer a união íntima da nossa alma com o nosso corpo, e em quão larga medida as nossas próprias atividades mais espirituais dependem do nosso temperamento físico. Por isso a moral cristã não deixa de lembrar aos pais as grandes responsabilidades que lhes cabem a esse respeito.
Porém o que mais vale é a herança espiritual, transmitida não tanto por esses misteriosos liames da geração material, quanto pela ação permanente daquele ambiente privilegiado que constitui a família; com a lenta e profunda formação das almas, na atmosfera de um lar rico de altas tradições intelectuais, morais e sobretudo cristãs; com a mútua influência existente entre os que moram numa mesma casa, influência esta cujos benéficos efeitos se prolongam para muito além dos anos da infância e da juventude, até alcançar o termo de uma longa vida, naquelas almas eleitas que sabem fundir em si mesmas os tesouros de uma preciosa hereditariedade com o contributo das suas próprias qualidades e experiências.
Tal é o património, mais do que todos precioso, que, iluminado por firme Fé, vivificado por forte e fiel prática da vida cristã em todas as suas exigências, elevará, aprimorará, enriquecerá as almas dos vossos filhos.
 [...]
Aos anciãos, guardiães das nobres tradições familiares e fachos de sábia experiência para os mais novos; aos pais e às mães, mestres e exemplos de virtude para os filhos e filhas; aos jovens que crescem puros, sãos, operosos, no santo temor de Deus, esperanças da família e da pátria querida; aos pequenos que sonham com o futuro dos seus projetos nos impulsos e nos jogos da infância; a vós todos que gozais e participais da concórdia e da alegria familiares, apresentamos paternais e vivas felicitações, que correspondam ao desejo de cada um e cada uma de vós, lembrados de que todos os nossos anseios são sempre avaliados e pesados por Deus na balança do nosso maior bem, na qual em geral tem menor peso aquilo que nós pedimos do que aquilo que Ele nos concede”.

17 de julho de 2017

Suicídios na juventude. Por quê?


Paulo Henrique Américo de Araújo (*)

No vocabulário de expressões modernas surgiu mais uma novidade: o jogo da “Baleia Azul”. Ao contrário do que seu nome sugere, não há inocência por detrás de tal brincadeira. Ela pode até levar um jovem ao suicídio, caso a vítima aceite os desafios propostos por um desconhecido online, controlador do jogo. 

No mês de maio último, a polícia encontrou alguns adolescentes à beira de uma rodovia no Distrito Federal.[1] Chorando de desespero, eles procuravam cumprir a última etapa da “baleia azul”: atirar-se na frente de um ônibus em alta velocidade! 


Em outros casos, não houve tempo de salvar a vítima. 

A onda do macabro jogo é provavelmente passageira e parece que vai saindo “de moda”. Mas um assunto de maior vulto relaciona-se diretamente com ele. Por que adolescentes suicidam-se cada vez mais? 


Calculando a dimensão do problema

Segundo recente artigo da "BBC Brasil",[2] um estudo baseado em dados oficiais do Sistema de Informações de Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, revela dados preocupantes. A primeira informação: considerando toda a população brasileira, entre 1980 e 2014, houve um aumento de 60% na taxa de suicídios. 

Quanto aos dados relativos à população jovem, o mesmo artigo reproduz o que diz o estudo: “Em 1980, a taxa de suicídios na faixa etária de 15 a 29 anos era de 4,4 por 100 mil habitantes; chegou a 4,1 em 1990 e a 4,5 em 2000”. Já no período entre 2002 e 2014, a taxa subiu de 5,1 para 5,6 por 100 mil habitantes. O estudo conclui: “Assim, entre 1980 a 2014, houve um crescimento de 27,2%” na taxa de suicídios, considerando a mesma faixa de idade. 

Para se ter uma ideia mais concreta do que tais números representam, a mesma pesquisa mostra que em 2014, houve, somente no Brasil, 2.898 suicídios de jovens de 15 a 29 anos. 

Insisto, pois a questão se impõe: por que tantos jovens acabam com a própria vida? 

É importante fazer notar, antes de tudo, que o artigo citado tenta fornecer algumas respostas à pergunta acima, usando declarações de diversos sociólogos e psicólogos. Segundo esses especialistas, “o problema é normalmente associado a fatores como depressão, abuso de drogas e álcool, além das chamadas questões interpessoais, violência sexual, abusos, violência doméstica e bullying”

De fato, podemos encontrar tais causas por detrás dos suicídios. Contudo, o que impele um jovem a usar drogas, por exemplo, ou o que ocasiona sua depressão? Qual é a raiz da violência doméstica? 

A falta da noção do sofrimento na vida

O mais fundo do problema reside, sem dúvida, na decadência moral generalizada do mundo contemporâneo. Essa decadência afeta diretamente a constituição da família. Se a família se desfaz, é inevitável a propensão do jovem para as drogas e a violência, de um lado; e sua menor capacidade, por outro lado, de suportar as dificuldades quotidianas, cujo desfecho pode ser a depressão.

Há mais um fator, ignorado pelo artigo da BBC: o mundo contemporâneo oferece sem cessar múltiplos divertimentos e prazeres. Sendo a juventude o grupo que mais deveria se “beneficiar” deles, a lógica conclui que, quanto mais jovem, maior o desejo de aproveitar a vida e, portanto, mais afastada a hipótese de suicídio. 

Contudo, não é o que ocorre na prática. E aqui fica desmascarada uma grande ilusão de nossos dias: quanto mais gozo da vida, mais felicidade. Se assim fosse, deveria haver menos suicídios, sobretudo entre os jovens.

Volto ao jogo da “Baleia Azul”. Supostamente, jovens conectados à internet têm diante de si possibilidades ilimitadas de entretenimento. Diversões fáceis e constantes, sempre mais almejadas. No banquete frenético de diversões aparece outra: um jogo de desafios cada vez mais ousados. O último deles termina em suicídio. 

Assim, a saturação dos prazeres leva à frustração, a qual, por sua vez, provoca a busca intensa de novidades e entretenimento. Diversões, festas e jogos em demasia... decepção, desespero, suicídio! 

E não adianta dizer que os suicídios atingem jovens das classes baixas ou com menos oportunidades na vida. O artigo mencionado demonstra que jovens considerados de elite, como estudantes de medicina, pertencem também às estatísticas de suicídio. E não nos esqueçamos do grande número de viciados em drogas entre a juventude das classes mais altas. 

Revela-se aqui uma das maiores causas do suicídio juvenil: a hipertrofia dos prazeres — incentivada pela grande mídia e pela pedagogia moderna, como o ensino da chamada Ideologia de Gênero —, que além de rejeitarem e negarem a ideia do sofrimento e, por conseguinte, do pecado, criam um circuito de ilusões na mente dos jovens. O pecado leva a outro pecado, e como consequência surge o fantasma dos problemas de consciência, sofrimento interior... suicídio!

A admirável lição de Santa Teresinha

O que fazer diante dessa constatação? Talvez uma rápida lição de santidade deite um pouco de luz nessas sombras. 

Abro a famosa História de uma Alma, autobiografia de Santa Teresinha do Menino Jesus, e leio o seguinte trecho sobre sua juventude: “Tudo, ao redor de mim, era alegria e felicidade; eu era festejada, acariciada, admirada, numa palavra, [...] minha vida foi semeada só de flores... Confesso que esta vida tinha encantos para mim”.[3] 

A “pequena santa” [na foto, aos 8 anos de idade] de Lisieux reconhece os atrativos e os prazeres da juventude. Mas logo adiante — algo negado à juventude moderna — vem a reflexão serena e coerente: “Aos dez anos o coração deixa-se facilmente fascinar, por isso considero uma grande graça não ter ficado em Alençon; os amigos que tínhamos aí eram muito mundanos, [...] Não pensavam bastante na morte e, no entanto, a morte veio visitar um grande número de pessoas jovens, ricas e felizes, que conheci!!!”


Eis aí uma lição a ser ensinada aos jovens de hoje. Os momentos de felicidade são transitórios e muitas vezes ilusórios. A vida não se constitui só de prazeres. E estes devem ser moderados e regulados segundo a moral. É necessário ter diante de si as dificuldades e os sofrimentos de todos os dias. Saber enfrentá-los reverte-se em eficaz remédio contra a frustração, o desespero, e, por fim, o suicídio. 

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Notas:
(*) Fonte: Revista Catolicismo, nº 799, julho/2017. Para se fazer assinatura da revista envie e-mail para: catolicismo@terra.com.br

1. http://www.jornaldebrasilia.com.br/cidades/pmdf-impede-suicidio-de-quatro-adolescentes-que-participavam-do-baleia-azul/
2. http://www.bbc.com/portuguese/brasil-39672513 
3. Manuscritos autobiográficos, 2ª edição, Cotia – SP, 1960, p. 100.