26 de abril de 2017

"DIREITOS DOS ANIMAIS?"


Plinio Maria Solimeo

Dados do Censo de 2010 divulgados pelo IBGE confirmam que a taxa de fecundidade no País era naquele ano de 1,9 filhos por mulher. O que já estava abaixo da taxa de reposição da população, que é de 2,1, pois as duas crianças substituem os pais, e a fração de 0,1 é necessária para compensar os indivíduos que morrem antes de atingirem a idade reprodutiva.


Já a projeção do mesmo Instituto para 2016 aponta que essa já baixa taxa de fecundidade caiu no Brasil para 1,69 filhos por mulher. 

Os estudiosos apontam várias causas para isso, como o número de mulheres que trabalham fora, a insegurança, a crise na economia e, sobretudo, os métodos anticoncepcionais modernos mais ao alcance. Só não apontam a causa principal, que é a desastrosa queda da religiosidade da população. O esquecimento de que o principal fim da união matrimonial é, de acordo com a doutrina católica, a perpetuação da espécie, isto é, gerar e educar os filhos. 


Deixando isso de lado, devemos considerar que o ser humano para expandir sua afetividade, e não tendo filhos, quer preencher esse vazio no lar, substituindo-o por um animal doméstico. Daí sua proliferação vertiginosa nos lares modernos. 

Mostra-o, por exemplo, esta manchete da “G1.Globo”: “Brasileiros têm 53 milhões de cães e 22 milhões de gatos, aponta IBGE: 44,3% dos lares têm pelo menos um cão, e 17,7% têm ao menos um gato”. 

A mesma fonte noticia ainda: “O dado mostra que, no Brasil, existem mais cachorros de estimação do que crianças. De acordo com outra pesquisa do IBGE, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), em 2013 havia 44,9 milhões de crianças de até 14 anos”.(1) Quer dizer, o número de cães supera em quase nove milhões o de crianças! 


Não é de admirar que surjam em todo canto lojas de material para cães e gatos [foto ao lado], e que a profissão de veterinário tenha se tornado hoje uma das mais lucrativas. 



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Direitos dos animais? 

Esses animais domésticos são, em geral, tratados com requintes desconhecidos de inúmeras crianças. Hoje em dia, em alguns países já se efetivou ou está para ser efetivada uma lei permitindo que os “pets” sejam enterrados junto a seus donos, ou em cemitérios próprios a eles, com túmulos, monumentos etc. como para seres humanos. E já dispõem de praias especiais, hotéis, e até salões de beleza! [Foto ao lado]

Tornou-se hoje “politicamente correto” falar desses “direitos” dos animais, havendo em quase todo mundo movimentos que defendem não só os “pets”, como também as baleias e praticamente todos os animais, até mesmo os mais repulsivos. 

Em quase sua totalidade, esses movimentos são orientados por uma ideologia esquerdizante, que é a mesma dos que defendem o aborto e outras aberrações do mundo contemporâneo. 

Nesse sentido, o jornalista J. Lozano, do site espanhol Religión en Libertad, publicou um sugestivo artigo intitulado “O animalismo, de origem marxista, outorga ‘direitos aos animais e os nega a certos humanos”,(2) no qual comenta uma entrevista concedida pelo naturalista e conferencista espanhol Alexander Lachhein à "La Contra TV" sobre esta matéria. 


Segundo Lozano, Lachhein explicou em sua entrevista que “a mensagem de que os animais têm direitos, e que devem ser tratados a este respeito como se fossem seres humanos, vai calando na sociedade, fruto de um bombardeio ideológico. Uns por sentimentalismo, pois já não é infrequente que as mascotes estejam começando a substituir os filhos e sejam tratadas como tais, e outros por ideologia. Mas, o objetivo final é ‘socavar os fundamentos desta civilização’ através do marxismo cultural, que se esconde por detrás” (grifo do original). 


Lozano explica que Alex Lachhein se dedica aos animais. “Mas seu amor pelos animais é tão firme quanto sua luta contra a politização desta causa [dos direitos dos animais], e por isso denuncia o que denomina de ‘politicamente correto’, que impede de dizer certas coisas”. Para Lachhein, todo este assunto vem com uma “profunda carga ideológica [...] para conseguir o ecologismo político e o animalismo”. Para ele, por exemplo, as feministas radicais [foto ao lado], representantes deste marxismo cultural, são também parte do movimento “animalista”. 

Alex Lachhein explica que os ideólogos marxistas, ao virem que o comunismo econômico estava fracassando em muitos países, apostaram então em “derrubar os fundamentos” e ir, “a partir de baixo, impondo o marxismo cultural, que é sinônimo do politicamente correto”. E assim surge o ativista ecologista profissional, que organiza manifestações, e que, segundo Lachhein, “é um político que não tem nada a ver com o ecólogo”, que é um personagem que “aplica a ciência e está à margem de todo elemento político”. 

Em sua entrevista, Lachhein explica que alguns defensores desse “animalismo” chegam a defender que “não parece muito sensato [...] permitir que aumente o número de crianças com deficiência”. Segundo essa doutrina, tais crianças “não teriam direitos”. Cita o caso de um vídeo que se tornou viral na Espanha, no qual uma simpatizante do partido animalista PACMA criticava o fato de que ninguém lhe deu os pêsames quando morreu seu “pet”, mas o deram à família de Victor Barrio, toureiro que morreu numa tourada. Pois esses radicais são também contra as touradas por terem pena dos touros... 

Não têm direitos porque não têm obrigações 


Lachhein afirma que “os animais não têm direitos, porque não podem ter obrigações”. Pois, para ele, “os direitos são algo da sociedade humana, e criado pelos humanos. Você não pode dizer a um leão que não pode comer uma zebra, nem que o diga aos leõezinhos”

O naturalista comenta enfim a grande influência que os filmes de Walt Disney tiveram nesse âmbito. Segundo ele, “o mundo de Disney é a humanização total dos animais, e a natureza e as pessoas se formam crendo que é vida real. E quando crescem, pensam que os sentimentos da natureza são assim. E a realidade é que aqui [entre os animais] impera a lei do mais forte, o comer para não ser comido”. “As pessoas têm uma má formação do que é o meio ambiente, e continuam vivendo no universo de Disney”.

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1. http://g1.globo.com/natureza/noticia/2015/06/brasileiros-tem-52-milhoes-de-caes-e-22-milhoes-de-gatos-aponta-ibge.html

20 de abril de 2017

O escândalo dos nossos tempos


Roberto de Mattei (*)

O mundo está cheio de escândalos, e Jesus diz: “Ai do mundo por causa dos escândalos” (Mt 18, 7). O escândalo, de acordo com a moral católica, é o comportamento daqueles que causam o pecado ou a ruína espiritual de seu próximo (Catecismo da Igreja Católica n° 2284). 

Não basta abster-se de fazer aquilo que em si mesmo é pecado, mas é preciso evitar aquilo que, não sendo pecado, põe os outros em perigo de pecar; e o Dicionário de teologia moral dos cardeais Roberti e Palazzini ensina que isso é especialmente obrigatório para aqueles que têm uma posição elevada no mundo ou na Igreja (Editrice Studium, Roma 1968, p.1479). 

As formas mais graves de escândalo são hoje a publicidade, a moda, a apologia que a mídia faz da imoralidade e da perversão, as leis que aprovam a violação dos mandamentos divinos, como aquelas que introduziram o aborto e as uniões civis homossexuais. 

A Igreja sempre considerou escândalo também o recasamento civil dos divorciados. João Paulo II, na Familiaris consortio, indica o escândalo que dão os divorciados recasados como uma das razões pelas quais eles não podem receber a Sagrada Comunhão. De fato, “se se admitissem estas pessoas à Eucaristia, os fiéis seriam induzidos em erro e confusão acerca da doutrina da Igreja sobre a indissolubilidade do matrimônio” (nº. 84). 

O cânon 915 do Código de Direito Canônico afirma: “Não sejam admitidos à sagrada comunhão os excomungados e os interditos, depois da aplicação ou declaração da pena, e outros que obstinadamente perseverem em pecado grave manifesto.” 

Uma declaração do Pontifício Conselho para os Textos Legislativos reafirmou a proibição contida nesse cânone contra aqueles que pretendem que tal regra não se aplica ao caso dos divorciados recasados. A declaração afirma: “No caso concreto da admissão dos fiéis divorciados novamente casados à Sagrada Comunhão, o escândalo, concebido qual ação que move os outros para o mal, diz respeito simultaneamente ao sacramento da Eucaristia e à indissolubilidade do matrimônio. Tal escândalo subsiste mesmo se, lamentavelmente, um tal comportamento já não despertar alguma admiração: pelo contrário, é precisamente diante da deformação das consciências, que se torna mais necessária por parte dos Pastores, uma ação tão paciente quanto firme, em tutela da santidade dos sacramentos, em defesa da moralidade cristã e pela reta formação dos fiéis” (Pontifício Conselho para os Textos legislativos, Declaração sobre a admissibilidade à Sagrada Comunhão dos divorciados recasados, 24-6-2000, em Communicationes, 32 [2000], pp. 159-162). 

Após a promulgação da Exortação pós-sinodal Amoris laetitia, aquilo que sempre representou um escândalo para o Magistério da Igreja passou a ser considerado um comportamento aceitável, que merece ser acompanhado com compreensão e misericórdia. Monsenhor Pietro Maria Fragnelli, bispo de Trapani e presidente da Comissão para a família, os jovens e a vida, da Conferência Episcopal Italiana, disse em uma entrevista de 10 de Abril à agência SIR (dos bispos), dedicada ao documento do Papa Francisco, que “a recepção da exortação apostólica na diocese está crescendo, no sentido de se procurar entrar cada vez mais no espírito profundo da Amoris laetitia, que pede de nós uma nova mentalidade face ao amor em geral, vinculado à família e à vida de família”. 

Para transformar a mentalidade do mundo católico, a Conferência Episcopal Italiana está empenhada numa assídua obra de promoção de conferências, seminários, cursos para noivos ou para casais em crise, mas, sobretudo, como escreve a agência dos bispos, a fim de promover “uma mudança de estilo para sintonizar a pastoral familiar ao modelo de Bergoglio”. De acordo com Mons. Fragnelli, “pode-se dizer claramente que começou uma mudança de mentalidade, tanto do episcopado, quanto das nossas dioceses, como algo que tem de ser feito, vivido e procurado em conjunto. Pode-se dizer: trabalho em andamento”. 

Os “trabalhos em andamento” consistem na “deformação das consciências” denunciada há poucos anos atrás pelo Pontifício Conselho para os Textos Legislativos, ou seja, adotar uma mentalidade que nega, no plano da práxis, a santidade dos sacramentos e a moralidade cristã. 

Em 25 de fevereiro último, falando em um curso de formação para os párocos, o Papa Bergoglio os convidou a se tornarem “próximos, com o estilo próprio do Evangelho, no encontro e no acolhimento daqueles jovens que preferem conviver sem se casar. Nos planos espiritual e moral, eles se encontram entre os pobres e os pequeninos, dos quais a Igreja, nos passos do seu Mestre e Senhor, quer ser uma mãe que não abandona, mas que se aproxima e cuida deles”

De acordo com a agência SIR, os casais conviventes — com ou sem filhos — representam atualmente 80% daqueles que participaram, na Itália, dos cursos de preparação para o casamento em 2016. Ninguém recorda a esses conviventes que eles vivem em situação de pecado grave. A própria expressão “casais irregulares" é proibida. Em 14 de janeiro, o “Osservatore Romano” publicou as orientações pastorais dos dois bispos malteses, D. Charles Scicluna (arcebispo de Malta, ex-promotor de justiça da Congregação para a Doutrina da Fé), e D. Mario Grech (Gozo). “Através do processo de discernimento — dizem eles — precisamos avaliar o grau de responsabilidade moral em determinadas situações, dando a devida consideração aos condicionamentos e às circunstâncias atenuantes”. Por causa desses “condicionamentos e circunstâncias atenuantes, o Papa ensina que ‘já não é possível dizer que todos os que estão numa situação chamada ‘irregular’ vivem em estado de pecado mortal, privados da graça santificante”. 

A consequência é que “se, como resultado do processo de discernimento, empreendido com ‘humildade, reserva, amor à Igreja e a seu ensinamento, na busca sincera da vontade de Deus e com o desejo de alcançar uma resposta a ela mais perfeita’ (AL 300), uma pessoa separada ou divorciada que vive uma nova relação consegue com clara e informada consciência, reconhecer e crer que ela ou ele estão em paz con Deus, ela ou ele não podem ser impedidos de participar dos sacramentos da Reconciliação ou Eucaristia”

Um ano após a promulgação da Amoris laetitia, o “modelo Bergoglio” que vem sendo imposto é o acesso dos divorciados recasados a todos os sacramentos. A coabitação não constitui escândalo. Mas, para o Papa Francisco, o escândalo — mais ainda, o principal escândalo do nosso tempo — é a desigualdade econômica e social. 

Em carta dirigida no Domingo de Páscoa ao bispo de Assis-Nocera Umbra, D. Domenico Sorrentino, o Papa Bergoglio disse que os pobres são “um testemunho da escandalosa realidade de um mundo marcado pela desproporção entre o gigantesco número de pobres, amiúde privados do estritamente necessário, e a minúscula parcela de endinheirados que detêm a maior parte da riqueza e pretendem determinar os destinos da humanidade. Infelizmente, a dois mil anos do anúncio do Evangelho e após oito séculos do testemunho de Francisco, estamos diante de um fenômeno de ‘iniquidade global’ e de ‘economia que mata’”

O antagonismo moral entre o bem e o mal é substituído pela oposição sociológica entre riqueza e pobreza. A desigualdade social passa a ser um mal pior que o assassinato de milhões de nascituros e o oceano de impureza que submerge o Ocidente. Como não compartilhar o que escreveu o cardeal Gerhard L. Müller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, no livro-entrevista Esperança da Família: “O maior escândalo que pode dar a Igreja não é o fato de que dentro dela existam pecadores, mas que deixe de chamar pelo nome a diferença entre o bem e o mal e passe a relativizá-la, que pare de explicar o que é o pecado ou finja justificá-lo em nome de uma alegada maior proximidade e misericórdia para com o pecador”

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(*) Fonte: “Corrispondenza romana”, Roma, 19-4-2017. Matéria traduzida do original italiano por Hélio Dias Viana.

17 de abril de 2017

Tradição viva que reflete a dor da Paixão



José Carlos Sepúlveda da Fonseca

Pode-se afirmar, sem exagero, que um dos slogans de nossos dias, repetido à saciedade, é que o “hábito não faz o monge”. 

Repetido com “autoridade” por aqueles mesmos que se vergam facilmente à ditadura da moda, tal slogan contém em si uma distorção. É claro que o homem não se torna monge pelo simples uso do hábito. Mas os costumes sociais sempre consagraram certos trajes como característicos de profissões, estados de vida, ou expressões de alma e o seu uso, além de uma expressão externa do espírito, ajuda o homem a viver coerente e perfeitamente aquilo a que se propõe.

Tradição que assinala a Paixão de Cristo 

Mulheres revestidas de longas mantilhas negras revivem nesta Quinta-feira Santa, em Sevilha, uma tradição que assinala a morte de Nosso Senhor Jesus Cristo e que antecipa a grande jornada da Semana Santa na cidade, conhecida como “la Madrugá”, quando saem às ruas em procissão as confrarias das dezenas e dezenas de Irmandades. 

A mantilha, cuja origem é imprecisa, é uma veste tipicamente espanhola, que se generalizou no século XIX e que se usa em sinal de luto e em comemoração pela Paixão e Morte de Cristo. 

Manter e conservar a tradição 

As mulheres vestem-se com trajes e meias negras, mantilhas, peinetas e luvas da mesma côr e portam rosários nas mãos. Os homens, por seu turno, vestem-se com ternos e gravatas escuras; percorrem junto as igrejas nas quais se encontram os “monumentos” e as imagens das treze confrarias que sairão em procissão entre a Quinta e a Sexta-feira Santas. 

É o modo piedoso de recordar que a Paixão de Cristo, após a Última Ceia, antes de ser preso e julgado perante Caifás como consequência da traição de Judas. A tradição da mantilha é preciso mantê-la e conservá-la, diz uma jovem andaluza de 23 anos, que anseia pelo momento de envergá-la e participar das solenidades com sua família. 

Contrastes 

O jornal “ABC” de Madrid destaca que, nas ruas centrais de Sevilha, é nestes dias da Semana Santa que aumenta o contraste entre as gentes da terra e os forasteiros. Os primeiros, enlutados, com suas melhores galas, enquanto os segundos envergam bermudas, camisetas e chinelos, observando atônitos a solenidade das mantilhas negras das mulheres. O “hábito não faz o monge”, mas ajuda-o a viver e portar-se segundo suas convicções e princípios.




14 de abril de 2017

Ó Cruz árvore sublime, arma triunfante


Ó arma unicamente só triunfante. 
Propugnáculo só de nossas vidas, 
Com que foram ganhadas as perdidas 
Com que o Tártaro horrendo andava ovante! 

Siga-se esta bandeira militante, 
Por quem são tais vitórias conseguidas, 
Por quantas almas, delas divertidas, 
No Ponente erram cá, lá no Levante. 

Ó Árvore sublime e marchetada 
De branco e carmezi, de ouro embutida. 
Dos rubis mais preciosos esmaltada. 
E de troféus mais claros guarnecida! 
A vida à Morte vimos em ti dada, 
Para que em ti se desse a Morte à vida. 

Luís Vaz de Camões

9 de abril de 2017

“Ai de quem escandalizar um desses pequeninos”


Plinio Maria Solimeo

         Certo dia Nosso Senhor Jesus Cristo estava pregando, quando Lhe trouxeram alguns meninos para que Lhes abençoassem. Os Apóstolos tentaram afastá-los, mas o Divino Mestre lhes disse: “Deixai vir a mim estas criancinhas e não as impeçais, porque o Reino dos céus é para aqueles que se lhes assemelham” (Mt 19, 14). E acrescentou: “Se não vos transformardes e vos tornardes como criancinhas, não entrareis no Reino dos céus” (Mt 18, 3). Quer dizer, devemos ser inocentes como as crianças pequenas em geral o são.

Digo em geral porque infelizmente um número cada vez maior delas paga tributo à maldade dos tempos em que vivemos, sendo precocemente corrompidas, ao contrário do que acontecia com as crianças puras e inocentes daqueles bíblicos tempos. Tanto essas quanto as que ainda hoje conservam a inocência, atraíam e atraem o olhar de Jesus. Por isso Ele alerta que, quem procurar corrompê-las por palavras ou obras, Melhor lhe seria que se lhe atasse em volta do pescoço uma pedra de moinho e que fosse lançado ao mar, do que levar para o mal a um só destes pequeninos. Tomai cuidado de vós mesmos (Lc. 17, 2).

         Não há nada de mais diabólico do que utilizar uma posição de influência ou de mando, seja paterna, seja de magistério, seja de amizade, para abafar o germe da piedade e da inocência na alma das crianças, afastando-as assim de Deus e de sua Igreja. Quantos são os pais que dão mau exemplo a seus filhos por palavras, ações ou omissões, por exemplo, não cuidando de sua educação religiosa, não vigiando sua boa ou má conduta, por brigas em casa e, sobretudo, pela divisão na família! Esses servem de escândalo para seus filhos e por isso não se pode deixar de dizer que merecem a maldição de Nosso Senhor.

O mesmo se pode dizer dos professores materialistas e ateus que, com sua impiedade, matam na alma dos alunos os bons germes que podem ter recebido da família.


O senso inato do bem e do mal, da verdade e do erro

Deus Nosso Senhor incutiu no coração de cada recém-nascido a lei natural, com a qual o bebê começa a distinguir desde cedo o bem do mal, a verdade do erro. Assim, instintivamente, desde o berço, ele é levado a sentir atração pelo que é bom ou belo, e repulsa pelo que lhe é oposto.

Isso é comprovado pela ciência. Paul Bloom, professor de Psicologia na célebre universidade de Yale, nos Estados Unidos, sua mulher Karen Wynn e Kiley Hamlin, do Laboratório de Cognição Infantil dessa Universidade, estudaram profundamente a capacidade de valoração moral em meninos entre seis e dez meses de idade. E chegaram à conclusão de que já nessa tenra idade as crianças distinguem entre as pessoas boas e as más, manifestando atração pelas primeiras e rechaço pelas segundas.

Esses investigadores publicaram suas conclusões em livro, onde afirmam que suas experiências demonstraram que os bebês não são moralmente indiferentes, mas tendem a sorrir e aplaudir quando postos diante das coisas boas e belas, e a fazer caretas e voltar suas cabeças face às más ou feias.

Concluem com isso que as crianças já nascem com um instinto (a lei natural imposta por Deus em suas almas) que lhes permite discernir o bem e o mal, o belo e o feio.

O que tem como consequência que a moral não é de nenhum modo fruto do condicionamento ambiental, cultural, social ou religioso, mas algo que deriva da própria lei natural criada por Deus[i].

É necessário preservar essa visão dourada nas crianças

A visão primeira, e como que dourada da vida, inteiramente verdadeira, vai sendo hoje cada vez mais erodida nas crianças, pela má educação ou por um ambiente malsão decorrente de tantos fatores de corrupção e desagregação das famílias.
         
Uma criança crescida em uma família unida e religiosa tem chance de conservar por muito mais tempo sua inocência do que aquela crescida em uma família dividida e sem religião. Do mesmo modo, em uma família numerosa, o convívio entre pais e filhos é muito mais íntimo e os ajuda a preservar da corrupção de fora.

Para falar de alguns dos fatores corrosivos da inocência das crianças, temos principalmente toda a devastação que provocam em suas almas os programas televisivos — amorais quando não perversamente imorais — que são oferecidos abundantemente aos telespectadores.

Isso é ainda mais agravado com o desenvolvimento prodigioso da internet.

Um artigo publicado no site católico Religión en Libertad alusivo à Espanha, mas que facilmente se pode aplicar ao Brasil, afirma: “Os estudiosos não param de advertir sobre o abuso que se faz do consumo televisivo — as crianças espanholas estão diante da tela em média mais de duas horas e meia por dia — e os riscos que provoca o uso sem controle da internet e dos celulares com aplicações Whatsapp, Youtube ou Instragram. E tudo isso está se convertendo em um problema de primeira ordem, que poucos fazem algo para remediar. Sem embargo, a cultura dominante vai em direção contrária, e cada vez crianças menores têm celulares com acesso à rede e tablets com os quais elas podem surfar no amplo mundo da internet com tudo o que ela traz” de ocasiões de pecado.

         Pelo que a própria Academia Americana de Pediatria alerta: “A AAP recomenda aos pais que estabeleçam ‘zonas livres de aparelhos televisivos’ no lar, assegurando-se de que não há televisão, computador ou videogame nos dormitórios das crianças, e apagando a televisão durante as refeições. As crianças e adolescentes deveriam usar estes meios não mais que duas horas diárias, e sempre com conteúdos de alta qualidade. É importante para elas empregar seu tempo em jogos ao ar livre, leitura, suas inclinações e uso de sua imaginação em situações de jogo livre.”

O artigo continua: “São também numerosos os estudos científicos que afirmam que o excesso de exposição à televisão — e agora aos tablets e celulares — está associado a uma ampla variedade de efeitos negativos sobre a saúde, que vão desde o incremento da violência e de condutas agressivas, imagens sexuais distorcidas, problemas de atenção e aprendizagem, de imagens corporais ou nutricionais.”

         O articulista analisa também um estudo do Dr. Michel Desmurguet, do Instituto Nacional de Saúde e Investigação Médica dos EUA, que escreve: “Durante os últimos anos, o tempo empregado face a várias telas, incluindo televisão, videogames, smartphones e computadores, incrementou-se dramaticamente. Numerosos estudos mostram, com notável consistência, que esta tendência tem um forte impacto negativo no desenvolvimento cognitivo de crianças e adolescentes. As áreas afetadas incluem, em particular, resultados acadêmicos, linguagem, atenção, sono e agressividade. Cremos que este problema, habitualmente menosprezado — para não dizer negado —, deve ser considerado como um importante problema de saúde pública. Os médicos de atenção primária devem informar os pais e filhos acerca deste tema, e proporcionar uma prevenção eficaz.”[ii]


É mais fácil conter o uso do que controlar o abuso


O citado Religión en Libertad afirma em outro artigo, que “o debate sobre os efeitos da tecnologia digital nas crianças e adolescentes continua chamando a atenção de pais, educadores e peritos. O uso precoce de telefones celulares por parte das crianças, o consumo abusivo da televisão, e a introdução de tablets e outras tecnologias como método educativo nos colégios, está gerando grandes controvérsias pelas consequências que podem ter sobre os mais novos”.

Um dos preocupados com o problema é o Dr. Manfredo Spitzer [foto à esquerda], formado em medicina, psicologia e filosofia, com cátedra em psiquiatria, ademais diretor da Clínica Psiquiátrica Universitária da cidade de Ulm, na Alemanha.

         Em entrevista ao jornal barcelonês “La Vanguardia”, ele afirma que “o uso desses aparelhos atrasa a maturidade das crianças e adolescentes, e impede-os de concentrar-se e aprender. O melhor para o ensino é ler, escrever, tomar notas, trabalhar com o professor: isso é tecnologia pedagógica de ponta!” “As crianças e adolescentes necessitam sobretudo de um bom educador. Toda essa tecnologia [digital] só os distrai e atrasa. É triste ver crianças zumbis com smartphone, isoladas de tudo, olhando sua tela”.

         Quando usados nas aulas, esses parelhos facilitam o aprendizado? O Dr. Spitzer é taxativo: “Se você grava a aula do professor diretamente em um arquivo de computador, sua mente, eu lhe asseguro, não aprende nada, porque não estabelece conexões. Se as crianças usam Google e o que encontram não estabelece relação com o que já sabiam, tampouco nada aprendem. Necessitam de alguém que vá estruturando o que aprendem.”

         O entrevistado esclarece: “Sou psiquiatra e neurocientista, e não dou opiniões, mas tenho recolhido provas durante anos sobre os efeitos da introdução da tecnologia digital nas aulas, que demonstram que prejudicam ao aprendizado.”

         Esse cientista alemão é coerente com o que diz. Por isso, em sua casa não tem televisão, e seus filhos só tiveram um celular depois dos 18 anos. “La Vanguardia” objeta: “Mas o senhor não via televisão em casa, quando criança?” A resposta do cientista é categórica: “Não, nem tampouco meus filhos. E me agradecem. Enquanto cresciam, líamos juntos e comentávamos livros. Falávamos de mil coisas. Compartíamos experiências, e nos livramos de muitas horas de tele-lixo. A televisão causa obesidade, depressão, insônia...”. E conclui: “Meus filhos cresceram mais sãos e espertos sem televisão. E eu também”[iii].


A morte da conversa


         Uma das consequências mais graves da adição a esses aparelhos eletrônicos em nossos dias é a morte da conversa, inclusive no interior das próprias famílias. A culpa é da televisão, ligada até na hora das refeições, quando não do celular conectado à internet. É um problema que prejudica muito, inclusive os estudantes universitários, como veremos.

         Nesse sentido, Sherry Turkle, professora de Ciências Sociais e Tecnologia no Instituto Tecnológico de Massachusetts, afirma: “Nos últimos vinte anos, constatou-se uma diminuição de 40% da empatia entre estudantes universitários em todos os modos que conhecemos de medi-la. O maior descenso foi na última década, o que se atribui ao uso de dispositivos digitais. É na conversação face a face que a empatia e a intimidade nascem; pagamos um preço se deixarmos fora esta conversação: passa-se da conversação à mera conexão.”[iv] Ou seja, a um convívio mais próprio a animais.

         Perguntamos: o desaparecimento da conversa e do convívio familiar entre esposo e esposa, pais e filhos, não será um dos fatores mais determinantes para o fim da família e do número assombroso de divórcios? 

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4 de abril de 2017

MODAS E OS SEUS “DIKTATS”



Padre David Francisquini (*) 

Não deixa de ser curiosa a maneira como os meios de comunicação costumam tratar das modas. Via de regra, eles se utilizam de uma linguagem evasiva como “Você já conhece as tendências da moda?”; “Fique de olho nos desfiles e descubra qual será a tendência...”; “Tendências que vão bombar no próximo verão...”. 

O dicionário define tendência como uma disposição natural que leva algo ou alguém a se mover em direção a outra coisa ou a outra pessoa. Afirma-se também que os estilistas se baseiam em tendências universais. 

Como nos encontramos num processo revolucionário várias vezes secular, todo ele feito por etapas, que tem por origem última em determinadas tendências desordenadas; lutando por realizar-se, elas começam sempre por modificar as mentalidades, as expressões artísticas e os costumes. 

Com efeito, tais tendências têm muito de natural, mas considerando o processo revolucionário como o descreve Plinio Corrêa de Oliveira na sua obra-prima Revolução e Contra-Revolução, elas podem ser facilmente induzidas, o que facilita a compreensão de onde elas vêm e para onde vão.

Afinal, quem dita tendências na moda? — As grandes grifes mundiais, ou seja, agentes revolucionários, com desígnios escusos, na pretensão de abalar convicções, costumes, modos de ser e de agir das pessoas que ainda prezam e vivem valores herdados da civilização cristã. 

Ainda que tais grifes quisessem apenas vender, mas o que é a publicidade moderna senão a exploração de um ou mais vícios capitais? Com tal objetivo, tais agentes avaliam o panorama das psicologias das almas, com suas tendências, contando sempre com o mecanismo dos vícios e das tendências desordenadas.

Com que objetivo? — Destronar Nosso Senhor e colocar Satanás em um trono; liquidar a boa ordem das coisas e preparar os gostos, os pendores, os humores para os vícios. Modificar o estado temperamental, para que as pessoas vão se habituando à cacofonia, ao mau gosto, a tudo quanto é desordenado; estimular os hábitos imoderados e tendenciosos na maneira de se vestir, cores extravagantes sem harmonia e beleza, bem como a minimização das vestes rumo à nudez.

Trata-se de uma ofensiva que, muitas vezes, tenta transtornar a ordem espiritual, com desregramentos morais, para assim golpear a boa ordem no âmbito temporal. Ofensiva satânica visando atacar a glória de Deus, tentando destruir a ordem espiritual e temporal, sugerindo concessões ao mal.

Tudo isso é feito por meio de devotados agentes que atuam de maneira inversa à dos evangelizadores que edificaram a civilização cristã. É deprimente notar o descaso com que as modas indecentes vão penetrando e se avolumando rumo ao nudismo, em detrimento dos modos de se vestir do passado. [bons exemplos na foto ao lado]. 

Mais triste ainda é o desdém, a indiferença e a omissão cada vez maiores por parte daqueles que deveriam ser o sal da terra e a luz do mundo, que permitem pessoas indecorosas nos recintos sagrados e até mesmo aproximarem-se da mesa eucarística. 

Tudo isso leva crer na existência de uma ação junto àqueles que deveriam ser o baluarte da fé e da ortodoxia a fim de conduzi-los a um pacto com o mundo, permitindo a contaminação dos ambientes católicos com os erros modernos ao cerrar os olhos para o uso de roupas masculinas pelas mulheres, alegando que não se deve incomodar com essas “ninharias”...

Porventura, não sabem eles, com base em Santo Ambrósio e São Tomás de Aquino, ser o próprio Deus quem vestiu as aves e os animais, com penas e pelos? E que Ele mesmo diferenciou o sexo de cada um? 

Assim, Deus pôs no homem um princípio inteligente e volitivo, estabeleceu a diferenciação entre homem e mulher e que cada um deve regrar seus atos de acordo com essa diferença, vestindo-se convenientemente, conforme a natureza de cada sexo. 

Diz Santo Ambrósio: “Não se conserva a castidade quando não se guarda a distinção dos sexos”. Isto faz parte de um princípio, estabelecido pelo próprio Deus, que tem como base a própria natureza racional do homem e da mulher. 

Lemos nas Escrituras que é abominável o homem que se veste como mulher e a mulher como homem, porque é a transgressão da própria natureza.

Faz parte da boa ordenação das coisas que o homem ao atingir um grau de civilização e de progresso se dignifique em toda a sua plenitude na maneira de se vestir, nos hábitos comportamentais condizentes ao seu fim nesta Terra, qual seja conhecer, amar e servir a Deus, preparando-se para a vida eterna. 

O que as ditas modas introduzem é uma depravação do próprio homem em sua dignidade de ser racional e ontológico. Prepara-o para todas as aberrações conduzindo-o ao caos, visto que semelhante conduta reflete a negação do próprio Deus.

Quando nossos primeiros pais, por desobediência a Deus, pecaram no Paraíso terrestre, esconderam-se confusos e envergonhados devido à nudez. Deus Pai, com a sua bondade, teceu-lhes vestes e os cobriu, como quem cobre as aves de penas, e os animais de pelos, e os campos de vegetação.

No ambiente de permissivismo moral, a distinção de um sexo do outro, vai se atenuando de tal forma que hoje se chega a fazer justificação da Ideologia de Gênero, escancarando a negação da evidência que a natureza se encarregou de estabelecer entre homem e mulher. 

Afirma São Tomás de Aquino: 
“Que o vestuário exterior deve corresponder à condição da pessoa, de conformidade do uso comum. Por isso, em si mesmo é pecaminoso uma mulher trazer trajes viris ou inversamente. Sobretudo por que pode ser causa de lascívia. O que a lei antiga expressamente proibia, porque os gentios usavam desses travestimentos pela superstição da idolatria.”
O igualitarismo constitui uma das características dominantes de hoje. Em nome da igualdade vai se impondo ao homem o sentimento anticristão. A igualdade entre os sexos representa uma das inúmeras manifestações de igualitarismo que leva a negação de Deus e da religião, afastando as pessoas de sua própria identidade. 

Uma instrução da Santa Sé, de 12-1-1930, afirma:
“Muitas vezes, dada a oportunidade, o Sumo Pontífice reprovou e condenou acerbamente a maneira insolente de se vestir que se vai introduzindo entre as senhoras e jovens católicas. 
Esse modo de vestir, não só ofende o decoro feminino e a modéstia, mas, o que é mais grave, causa sério prejuízo a essas mesmas mulheres. E pior, leva miseravelmente outros homens à condenação eterna. 
Nada mais lógico e forçoso que os bispos, assim como convém aos ministros de Cristo, como se fossem uma só voz, oponham toda barreira a essa audácia e libertinagem da moda, suportando com serenidade e coragem as zombarias e insultos que receberem de espíritos malévolos por essa tomada de posição. 
Os párocos e pregadores, nas ocasiões que se oferecerem, conforme recomenda São Paulo, ‘insistam, expliquem, increpem, exortem’ para que as mulheres usem vestes que irradiem o pudor e que sejam o ornamento e defesa da virtude; e admoestem aos pais para que não deixem suas filhas usar vestes indecorosas. 
Os pais conscientes da obrigação gravíssima que têm de cuidar, em primeiro lugar, da educação religiosa e moral dos filhos, fomentem, em seu espírito, por todos os meios, quer pela palavra, quer pelo exemplo, o amor da virtude, da modéstia e da castidade”.

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(*) Sacerdote da Igreja do Imaculado Coração de Maria – Cardoso Moreira (RJ) – o Revmo. Pe. David Francisquini é colaborador da Agência Boa Imprensa (ABIM).