16 de julho de 2018

Festa de Nossa Senhora do Carmo — 16 de julho

No século XII, como consequência do estabelecimento do Reino Latino de Jerusalém, muitos peregrinos da Europa vieram se juntar aos solitários da santa montanha do Carmelo [foto abaixo], na Palestina, aumentando-lhes assim o número. Pareceu bom dar à sua vida, até então mais eremítica que conventual, uma forma que fosse mais de acordo com os hábitos ocidentais. Foi quando o Legado Aimeric Malafaida, Patriarca de Antioquia, os reuniu em uma comunidade sob a autoridade de São Bertoldo, a quem foi dado pela primeira vez o título de Prior Geral. Santo Alberto, Patriarca de Jerusalém e igualmente Legado Apostólico, completou, nos primeiros anos do século seguinte, a obra de Aimeric, concedendo uma Regra fixa à Ordem, que começou a se expandir em Chipre, na Sicília e nos países de além-mar, favorecida pelos príncipes e pelos cavaleiros, de volta da Terra Santa. 


Logo depois, tendo Deus abandonado os cristãos do Oriente aos castigos merecidos por suas faltas, tornaram-se tais — nesse século de adversidades para a Palestina — as represálias dos sarracenos vitoriosos, que uma assembleia geral, realizada no Monte Carmelo, sob os auspícios de Alain le Breton, decretou a emigração total dos religiosos, não deixando para cuidar do berço da Ordem senão alguns poucos sedentos de martírio. No preciso momento em que ela se extinguia no Oriente (1245), Simão Stock foi eleito Geral, no primeiro Capítulo do Ocidente, reunido em Aylesford, na Inglaterra.

Na noite do dia 15 para 16 de julho do ano de 1251, a graciosa Soberana do Carmelo confirmava a seus filhos, por um sinal externo, o direito de cidadania que Ela lhes havia obtido nas novas regiões para as quais os havia conduzido seu êxodo. Senhora e Mãe de toda a Ordem religiosa, Ela lhes conferia de suas próprias e augustas mãos o escapulário, parte do vestuário que caracteriza a maior e mais antiga das famílias religiosas do Ocidente. São Simão Stock, no momento em que recebia da Mãe de Deus essa insígnia [representação na pintura abaixo], enobrecendo-a ainda pelo contato de seus dedos sagrados, ouviu a própria Virgem Santíssima dizer: “Todo aquele que morrer dentro deste hábito não sofrerá de maneira nenhuma as chamas eternas”


A Rainha dos Santos manifestou-se posteriormente a Jacques d’Euze, que o mundo iria saudar em breve como novo Papa sob o nome de João XXII. Anunciava-lhe Ela sua próxima elevação ao sumo pontificado, e, ao mesmo tempo, recomendava-lhe publicar o privilégio de uma pronta libertação do purgatório, que Ela havia obtido de seu divino Filho para seus filhos do Carmelo: “Eu, sua Mãe, descerei por misericórdia até eles, no sábado que se seguir à sua morte, e a todos que encontrar no purgatório livrá-los-ei e levá-los-ei à montanha da eterna vida”. São as próprias palavras de Nossa Senhora, citadas por João XXII na bula em que ele disto deu testemunho, e que foi chamada Sabatina em razão do dia designado pela gloriosa libertadora, no qual Ela exerceria o misericordioso privilégio. 

A munificência de Maria, a piedosa gratidão de seus filhos pela hospitalidade que lhes dava o Ocidente, a autoridade, enfim, dos sucessores de Pedro, tornaram logo essas riquezas espirituais acessíveis a todo o povo cristão, pela instituição da Confraria do Santo Escapulário, que faz seus membros participarem dos méritos e privilégios de toda a Ordem do Carmo.

Quando o Papa Bento XIII, no século XVIII, estendeu a festa do dia 16 de julho para a Igreja inteira, ele, por assim dizer, nada mais fez do que consagrar oficialmente a universalidade do fato de que o culto da Rainha do Carmelo havia conquistado quase todas as latitudes do orbe. 

____________

Dom Prosper Guéranger, O.S.B., L’Année Liturgique – Le temps après la Pentecôte, Maison Alfred Mame et Fils, Tours, 1922, tomo IV, excertos das pp. 149-153.

13 de julho de 2018

Desfazendo mitos sobre a Idade Média


➤  Plinio Maria Solimeo 

Quase todos nós aprendemos na escola que a Idade Média foi uma época de mil anos de trevas e de fanatismo religioso, sem nada digno de ser mencionado nos séculos seguintes. E não nos damos ao trabalho de estudar as obras, as instituições, a arquitetura, a vida de família e, sobretudo, a profunda religiosidade, que a tornaram insuperável. 

Segundo o prestigioso jornal “Economist” , isso começa a mudar: 
“Desde os ataques de 11 de setembro, a direita norte-americana desenvolveu um fascínio pela Idade Média e pela Renascença em particular, com a ideia do Ocidente como uma civilização que estava se defendendo de um desafio do Oriente. Essa tendência tem sido estimulada pela descoberta do movimento de suas contrapartes europeias que usavam imagens medievais e de cruzados desde o século XIX.” 
Para o jornal, alguns exemplos disso são o frequente aparecimento e as ilustrações de cruzados revestidos de capacete e que bradam o grito de guerra Deus vult! Diz ainda: 
Charles Martel na batalha de Poitiers (732),
obra de Charles de Steuben
(museu de história da França, Versailles)
“Os jornais e sites contrários ao islamismo se nomeiam segundo o rei franco Charles Martel [quadro ao lado], que lutou contra exércitos muçulmanos no século VIII, ou a derrota otomana (levemente pós-medieval) em Viena”, enquanto “milhões de outros [...] são atraídos pela era medieval, de que são testemunhos a popularidade de reconstituições renascentistas ou as fantasias medievais de inspiração, como Game of Thrones”. 
A esse respeito, o também muito conceituado site do “National Catholic Register” publica uma entrevista com o especialista da Idade Média, Andrew Willard Jones [foto], professor de história da Igreja, teologia e doutrina social na Universidade Franciscana de Steubenville, Ohio, sobre seu novo livro Diante da Igreja e do Estado: um estudo da ordem social no reino sacramental de São Luís IX [ao lado, foto da capa], no qual esse acadêmico traz considerações acerca de verdades esquecidas e frequentemente negadas sobre a Idade Média, a qual foi chamada de “A doce primavera da Fé” por Montalembert. 

Respondendo a uma pergunta sobre o que o levou a escrever seu livro, ele explica: 
“Eu estava estudando o papado do século XIII. E fui inspirado pelo que estava lendo. Era todo um mundo que não havia sido ainda investigado [...]. Somos abençoados na história medieval. Eles [os medievais] tinham se avantajado nas operações de escrita de cartas. Havia cartas e manuscritos papais. [...] É um tesouro de registros da Corte, de registros monárquicos e de crônicas”. 
Por isso, Jones afirma: 
“A Idade Média tem um papel na história do mundo moderno. Nós tendemos a vê-la como um mundo obscuro, de dogma e opressão, pelo que só agora entendemos o que significa liberdade.” O escritor faz então esta afirmação tantas vezes já repetida: “A visão da Idade Média como um período sombrio vem de um ceticismo moderno muito anticatólico.” 
Para evitar equívocos, ele esclarece: 
“Eu não romantizo excessivamente a Idade Média como uma utopia.” Mas vê a era medieval como a de uma civilização sacramental e cristianizada. Pelo que afirma: “Nós somos tendentes a imaginar o catolicismo como vida privada. O catolicismo pede uma civilização da caridade. A Idade Média pode nos ajudar a ver isso de novo.”
Hoje em dia se fala muito em igualdade. É um dogma do mundo moderno. Jones explica: 
“A modernidade tem uma noção específica de igualdade. Ela vê a desigualdade [entre as pessoas] como fonte inerente de conflito e competição. No cristianismo, as desigualdades levam à paz. Nós vemos diferenças na família: elas se manifestam na busca do bem comum”. E ainda: “Eu usei o exemplo de um pai e um filho, dizendo que eles alcançam o bem comum através de diferentes papéis.” 
Quer dizer, as diferenças entre ambos os fazem se complementar e completar-se, o que é muito diferente do jargão esquerdista. 

Jones afirma: 
“No mundo moderno, se entende por paz fazer compromissos, enquanto na Idade Média a paz se obtinha pelo modo de lidar com as diferenças de maneira adequada e caridosa. Enquanto os modernos veem [as desigualdades como] uma violação dos direitos, na Idade Média elas consistiam em se restabelecer as diferenças de modo pacífico. O mundo moderno é cético. Os medievais não tinham cinismo em relação à doação mútua. Por exemplo, há [hoje em dia] conflitos entre pai e filhos, porque não são propriamente diferentes. A mesmice é uma fonte de conflito. Somente essa ideia seria proveitosa para a nossa sociedade meditar, quando considerarmos como a cultura popular se tornou infantilizada”. 
O autor trata também em seu livro do tão difamado tema da Inquisição, abordando o tema da Inquisição Francesa do século XIII. Jones afirma: 
“Há uma visão polêmica e anticatólica da Inquisição. Naquela época havia muito pouco interesse em saber o que as pessoas conservavam em suas mentes. O problema era se [na manifestação das ideias] havia rejeição da ordem social e se a heresia se tornava pública. Uma investigação poderia começar, não havia interesse em pegar ou enganar as pessoas. Na maioria das vezes, a penalidade era a correção. Temos nossa própria versão da Inquisição e da heresia com os mobs do Twitter”. 
E conclui: 
“Precisamos ampliar nossa imaginação. A tentativa moderna de um mundo sem Deus vai falhar. Haverá uma concepção cristã de ordem social, mas não o mesmo que a Idade Média [...]. Meu livro visa afastar os leitores do mundo ao seu redor, e a procurar vê-lo a partir de um ponto de vista mais elevado [como foi o mundo medieval]. Isso nos salva do desespero. As coisas mudam. A esperança é uma virtude. O bom e o verdadeiro vencerão”.

____________

Notas:
1. http://www.economist.com/blogs/democracyinamerica/2017/01/medieval-memes 
2. http://www.ncregister.com/blog/annaabbott/steubenville-prof-sets-the-record-straight-on-the-middle-ages

11 de julho de 2018

Crianças que ameaçam os tiranos


Paulo Henrique de Araújo

O drama de Alfie Evans,[1] o bebê inglês falecido no final de abril passado, percorreu o mundo e movimentou desde simples opiniões individuais até discussões em altos escalões do direito internacional.[foto ao lado]

Nascido em maio de 2016, filho de Tom Evans e Kate James, inicialmente Alfie aparentava boa saúde, mas em dezembro do mesmo ano deu entrada no Hospital Infantil Alder Hey, de Liverpool. 

Para angústia dos pais, logo foi diagnosticada uma rara doença neurológica degenerativa; e incurável, segundo os pareceres médicos. A direção do hospital tomou a decisão de desligar os aparelhos que mantinham o bebê vivo, mas o pai insistia em que seu filho apresentava certas condições de melhora, portanto ainda havia esperança no tratamento. 

A partir de então iniciou-se uma disputa judicial para determinar o destino da criança. Os pais recorreram aos tribunais, invocando o direito de manter os cuidados médicos do filho. Os pedidos foram rejeitados, um a um, pelos diversos julgadores que analisaram o caso. Os tribunais ingleses, e mesmo a Corte Europeia de Direitos Humanos, alegavam que os “melhores interesses” do bebê consistiam em que o deixassem morrer. 

Durante as discussões legais, o hospital italiano Menino Jesus, de Roma, ofereceu seus serviços para o tratamento de Alfie. Tudo seria custeado, até mesmo o transporte aéreo da criança da Inglaterra para a Itália. Tratava-se de uma nova esperança para os pais. Mas tudo foi rejeitado pelo juiz Anthony Hayden sob alegação de que, sendo Alfie um cidadão inglês, seu destino deveria ser decidido pela justiça britânica, e não por um Estado estrangeiro. 

O último apelo dos pais [foto acima] ao poder judiciário foi negado em 25 de abril último, e em consequência foram desligados os aparelhos que ajudavam Alfie a respirar. Ele ainda sobreviveu por quatro dias, pairando no ar a hipótese de que um tratamento mais prolongado poderia tê-lo salvado. Se a hipótese de cura era real ou não, é um assunto que foge à nossa competência, e não é o aspecto que nos parece importante nesse caso. Muito mais importante que isso é a flagrante violação do pátrio poder pelo poder judiciário, cuja função é exatamente a defesa de todo o direito. 

Cada pessoa tem o dever de manter a própria vida, usando para isso os recursos disponíveis e sem recorrer também ao suicídio; e da mesma forma, ao pátrio poder compete fazer o possível para manter a vida dos filhos. Mas a impressão que nos fica, em todo esse caso, é que o destino de Alfie já estava selado desde a primeira decisão judicial. 

Negada a manutenção do tratamento nessa instância, todas as outras decisões seguiriam o mesmo entendimento. Nada adiantavam os inúmeros e insistentes apelos dos pais ao poder judiciário, representante do Estado inglês. Pode-se perguntar: Terá algum valor o pátrio poder para esses tribunais? E os direitos de Deus, onde ficam? 


Luís XVII, delfim de França
– Alexander Kucharsky, 1792.
Palácio de Versalhes, Paris.
Quem acompanha o noticiário, procurando observar onde estão sendo violados os direitos de Deus, poderia considerar pequena a violação no caso desse menino inglês. Pelo contrário, ela já é de si enorme, e além disso se inclui na obsessão midiática e legislativa de âmbito mundial pela aprovação do aborto, controle da natalidade pelo poder estatal, “suicídio assistido”, “morte consentida”, e tantos outros eufemismos para eutanásia, assassinato, violações criminosas do pátrio poder. 

É próprio às tiranias violar esses direitos, que em última análise são também direitos de Deus. 

Nada melhor do que o recuo histórico, para se entender a importância do assunto. Passemos a alguns exemplos. 

Um dos episódios mais cruéis da Revolução Francesa foi o sequestro e a degradação do pequeno delfim, herdeiro do trono francês, que o ocuparia como Luís XVII.[2] Em janeiro de 1793, a Convenção Nacional — autointitulada neste período representante do povo[3] — havia mandado executar seu pai, o rei Luís XVI, num pérfido processo judicial. A rainha Maria Antonieta permanecia prisioneira com seus dois filhos, Maria Teresa e Luís, este com apenas oito anos.

Maria Antonieta e Mme Elizabeth sofreriam em outubro de 1793 o mesmo destino de Luís XVI. Mas antes disso, em julho, os deputados convencionais decidiram arrancar o delfim dos cuidados da mãe — para ela um golpe pior do que a própria morte — e entregá-lo às garras de um brutal carcereiro chamado Simon. 


O pequeno Luís XVII é cruelmente separado de sua mãe, a
Rainha Maria Antonieta
Esse jacobino encarniçado recebera ordens de “reeducar” o menino nos moldes da mentalidade revolucionária. Caso ele não abandonasse seus costumes requintados e polidos para se tornar um “republicano” sanguinário e mal-educado, Simon deveria, segundo instruções de Marat, “não o matar, não o envenenar, mas desvencilhar-se dele”. Em outros termos, o filho do rei deveria se transformar num bruto como todos os revolucionários, ou então ser-lhe aplicada a morte. 

Essa atitude dos revolucionários franceses havia se tornado inevitável, pois além de o menino de oito anos ser inocente, ele representava uma ameaça para todo o desenvolvimento da Revolução, podendo galvanizar a reação de incontáveis franceses desejosos da antiga legitimidade real. 

Tendo falhado na “reeducação” do menino-rei, os revolucionários o atiraram num calabouço imundo, e aí o mantiveram por meses. Aos dez anos de idade, faleceu de infecções e desnutrição. Pode-se afirmar, no entanto, que a história da França seria muito diferente com o delfim ocupando o trono francês. E os tiranos não queriam isso. 


*       *       * 

O fato histórico por excelência de decisão tirânica contra um inocente foi o do Menino Jesus, que despertou a ira de Herodes, o tirano usurpador do trono de Judá. Herodes temia ser deposto pelo Rei dos Judeus, por isso ordenou o assassinato dos santos inocentes, entre os quais se incluiria o Menino Jesus. 


Fuga para o Egito – Bartolomé Esteban Murillo, 1647-50.
Detroit Institute of Arts
Qual teria sido o futuro da França, na hipótese de que o delfim sobrevivesse e fosse educado convenientemente para reinar como Luís XVII, após os desatinos da Revolução Francesa? E o leitor já pensou sobre o destino da humanidade inteira, se a ordem de Herodes tivesse sido cumprida? Qual teria sido o tamanho do crime de São José, na hipótese de uma negligência deixando de cumprir a ordem de fugir para o Egito? São hipóteses que merecem ser levantadas. Só hipóteses?! 

O mínimo que se pode dizer de tais hipóteses é de que não estão fora de qualquer cogitação nem podem ser liminarmente descartadas. Um exemplo concreto é o de outro inglês, o cientista Stephen Hawking, acometido de esclerose lateral amiotrófica aos 21 anos e que faleceu enquanto a situação de Alfie era discutida. Quase todos os portadores dessa doença degenerativa sobrevivem no máximo quatro anos, com grandes sofrimentos para si mesmos e para os pais. 

Os tribunais ingleses, se os juízes fossem os atuais, poderiam ter forçado os pais e os médicos de Hawking a “desligar os aparelhos”, pois os “melhores interesses” dele seriam deixá-lo morrer. Mas Hawking viveu ainda 55 anos, falecendo aos 76, após ter dado suas contribuições no campo da astrofísica contemporânea. Os juízes que julgassem o seu caso como o fizeram os de hoje, provavelmente teriam cometido o assassinato de um cientista e feito tabula rasa dos seus “melhores interesses”. 

Também no caso de Alfie, alguém poderia objetar que se tratava apenas da vida de um recém-nascido condenado a sofrer durante a vida inteira, além de trazer inúmeros trabalhos e sofrimentos para os pais. Mas quem pode garantir que, nos planos de Deus, essa criança não estaria destinada a grandes coisas, trazendo benefícios inimagináveis para a humanidade? 

Alfie, o menino inglês, representava também uma ameaça à tirania de dirigentes supremos na Inglaterra e na União Europeia. Não sob a forma do terror revolucionário, mas escamoteada sob o manto de juízes agindo em nome dos “melhores interesses” dele e violando os direitos dos pais. 


____________ 

Notas: 
1. Dados extraídos do artigo: http://www.bbc.com/news/uk-england-merseyside-43754949 

2. Cfr. Renaud Escande, O.P. (direção), O Livro Negro da Revolução Francesa, Aletheia Editores, Liboa, 2010. 

3. Segundo o historiador Pierre Gaxotte, a Convenção foi eleita com os votos de apenas 10% dos eleitores franceses. Cfr. Gaxotte, Pierre; A Revolução Francesa, ed. Tavares Martins, Porto, 1962, p. 203.

9 de julho de 2018

Em Roma, a oitava marcha contra o aborto


➤  Samuele Maniscalco 

Por ocasião dos 40 anos da Lei 194 sobre a prática abortiva, realizou-se no dia 19 de maio em Roma a oitava edição da “Marcha Nacional pela Vida”, o mais importante evento italiano pró-vida. Os milhares de participantes ocuparam as ruas da Cidade Santa para exigir a revogação dessa lei criminosa, através da qual mais de seis milhões de crianças foram executadas no ventre materno desde 22 de maio de 1978, quando o aborto foi legalizado na Itália.

A Sra. Virginia Coda Nunziante, presidente da Marcha pela Vida, afirmou: “Existe um livro da vida e há um livro da morte. Neste livro da morte, a data de 22 de maio de 1978 é escrita em letras de sangue, o sangue de quase seis milhões de vítimas”. Denunciou também o aborto por ser totalmente pago pelo governo, portanto pelos contribuintes. E acrescentou: “Não queremos passar este aniversário sem pedir a revogação da Lei 194, e enquanto isso retirar imediatamente dos gastos públicos os 2 a 3 bilhões de euros que todos os anos são usados para matar nossos filhos”

Foi também lembrado o assassinato do pequeno Alfie Evans, perpetrado em 28 de abril último pela equipe do hospital de Liverpool, com o apoio dos tribunais ingleses e do Tribunal Europeu de Direitos Humanos. 

O evento contou com a presença aproximada de 15 prefeitos e de várias figuras institucionais, como Lorenzo Fontana, vice-presidente da Câmara dos Deputados. Estiveram também presentes autoridades religiosas como o Cardeal Raymond Leo Burke; Mons. Carlo Maria Viganò, Núncio Apostólico emérito nos Estados Unidos; Mons. Luigi Negri, Arcebispo emérito de Ferrara-Comacchio. Participaram também párocos, representantes de institutos religiosos, e numerosas delegações internacionais dos cinco continentes contrárias ao aborto. 

Os organizadores se empenharam em que todos pedissem a ajuda de Deus, fundamental para se ganhar a batalha em defesa do direito à vida inocente. Nesse sentido, na noite de 18 de maio organizou-se na igreja de Santa Maria in Campitelli uma solene adoração eucarística presidida pelo Cardeal Raymond Burke. 

Nos dias 17 e 18 de maio, um dos auditórios da Pontifícia Universidade Santo Tomás de Aquino (Angelicum) sediou o importante simpósio IV Rome Life Forum, promovido pela Voice of the Family, uma coalizão que reúne diversas associações pró-vida do mundo. Neste ano, o Forum foi dedicado ao tema da verdadeira e da falsa consciência.

8 de julho de 2018

“Felizes os puros de coração, porque verão a Deus”

Única foto existente de Santa Maria Goretti, encontrada em 2011 no álbum de recordações dos Condes Mazzoleni que acolheram os Goretti em sua propriedade, nas proximidades de Roma.
Ontem postamos uma matéria sobre Santa Maria Goretti (1890-1902). Inocente menina de apenas 12 anos, que sofreu o martírio para defender sua pureza. Verdadeiro modelo para nossas crianças e adolescentes. Hoje transcrevo alguns pensamentos de grandes santos sobre a virtude da castidade — denominada também de “virtude angélica”, uma vez que aqueles que a praticam se assemelham aos anjos de Deus, donde a afirmação de São Mateus “Felizes os puros de coração, porque verão a Deus”.

No final deste post: um vídeo da cerimônia de canonização de Santa Maria Goretti pelo Papa Pio XII, no dia 29 de junho de 1950). No trecho do velho filme (apenas 2 minutos) vemos uma religiosa que avança entre a multidão: é a irmã de Maria Goretti; o Papa, da sedia gestatoria, abençoa os presentes na imensa multidão (300 mil pessoas!); o Presidente da República Italiana assiste a cerimônia; dois irmãos da santa se acham presentes na tribuna da postulação; de uma janela do Vaticano, a mãe da jovem-mártir da pureza contempla a canonização.


“A castidade é o lírio das virtudes e torna os homens quase iguais aos anjos; nada é belo senão pela pureza, e a pureza dos homens chama-se castidade”.

(São Francisco de Sales)  


“Toda virtude em sua alma é um ornamento precioso que o torna querido de Deus e dos homens. Mas a santa pureza, a rainha das virtudes, a virtude angélica, é uma joia tão preciosa, que aqueles que a possuem se tornam como os anjos do Céu, mesmo que envoltos em carne mortal”.


(São João Bosco)  


“Devemos praticar a pureza e a modéstia, não apenas em nossa aparência, mas em todo nosso comportamento, particularmente no vestir, no andar, na conversa e em nossas ações para com os outros”.


(Santo Afonso Maria de Ligório) 

“Uma alma pura é como uma pérola rara. Enquanto está escondida na concha, no fundo do mar, ninguém pensa nela com admiração. Mas se for trazida à luz, essa pérola brilha e atrai todos os olhares. Assim a alma pura, que está escondida dos olhos do mundo, vai um dia brilhar diante dos anjos na luz da eternidade”.

(São João Maria Vianney, Cura d’Ars)



7 de julho de 2018

Santa Maria Goretti

Unica foto conhecida da menina Maria Goretti, tirada em 1902 [detalhe abaixo]

Esta menina de 12 anos incompletos preferiu morrer cruelmente do que perder sua pureza virginal. Pio XII afirma ser ela “o fruto de lar cristão, onde se reza, se educam cristãmente os filhos no santo amor de Deus, na obediência aos pais, no amor à verdade, na honestidade e na pureza”. Exemplo para todas as meninas e adolescentes.

➤  Plinio Maria Solimeo

         No dia 24 de junho de 1950, o Papa Pio XII deparou-se com um problema singular: a canonização de Maria Goretti deveria ser celebrada na Basílica de São Pedro, mas cerca de 500 mil pessoas afluíram à cerimônia, ultrapassando em muito a capacidade do templo — era a maior concentração na história de Roma até então. A solução foi celebrá-la do lado de fora, pela primeira vez em uma canonização.
        
O que levou tanta gente a afluir para essa canonização? Possivelmente foram os pormenores da vida e morte de Maria Goretti, que maravilharam a Itália e todo o mundo católico. Uma menina de apenas onze anos preferiu morrer a pecar; a sua atitude acabou convertendo o próprio assassino, que se tornou religioso; a mãe da vítima o perdoou, e recebeu a Sagrada Comunhão ao lado dele. Tudo isto traduz uma coerência na fé e na piedade, muito rara em nossos dias.

Muita pobreza e muita virtude

Terceira das seis crianças de uma família empobrecida, Maria Goretti nasceu em Corinaldo (Itália), no ano de 1890. Em 1899, a família de Luís Goretti mudou-se para Le Ferriere di Conca, a 40 milhas de Roma, trocando o trabalho agrícola pela situação de meeiros. Os Goretti passaram a compartilhar com os Serenelli — um viúvo de nome Giovanni e seu filho Alessandro — um prédio abandonado da propriedade, ocupando estes últimos o andar superior, enquanto os Goretti ficavam no andar térreo.
Tanto uns quanto outros tiravam seu sustento do árduo trabalho no campo, cuja terra era muito pobre, meio pantanosa, infectada de insetos e muito dura de trabalhar. No ano seguinte, Luís Goretti foi picado por um inseto transmissor da malária, falecendo onze dias depois.

Maria, então com nove anos, era a mais velha dos irmãos; e Assunta, sua mãe, colocou-a em seu lugar nos afazeres domésticos, a fim de substituir o marido no trabalho do campo. Ela passou a cozinhar, fazer limpeza, lavar roupa e cuidar dos irmãos. Também cozinhava e cuidava da limpeza do andar dos Serenelli.

Não era vaidosa

        
Casa onde nasceu a santa
Longe de se lamentar por um estado tão penoso, Maria Goretti era uma fonte de encorajamento para a mãe, a quem assegurava que Jesus Cristo as ajudaria em suas necessidades. Era uma criança piedosa, ia à Missa sempre que podia, aprendeu o Catecismo e recebeu a Primeira Comunhão com grande respeito, na festa de Corpus Christi de 1901. Apesar de todos os trabalhos e cuidados, crescia em graça e sabedoria diante de Deus e dos homens.


Assunta diria mais tarde a respeito da filha: “Não era vaidosa, não ambicionava vestidos novos. Procurava que os irmãozinhos estivessem cobertos e compostos, e ela própria guardava grande modéstia. Aborrecia palavras e conversas contrárias à honestidade.”

Depois de convertido, Alessandro declarou: “Seguindo as pegadas da mãe, era modesta, usava vestidos compridos, fugia de certas moças levianas, não se fixava em jornais ou revistas com gravuras indecentes. Era verdadeiramente um anjo, inocente como uma pomba, e tão piedosa, tão boa, tão serviçal em casa: era uma moça modelo.”

Martírio pela pureza

Alessandro Serenelli, assassino da santa,
após longo período preso,
reza no quarto que pertenceu a ela
Alessandro, pelo contrário, era um rapaz rude, sem nenhuma formação religiosa. Sua mãe tinha morrido num hospital psiquiátrico quando ele ainda era bebê, e seu pai era alcoólatra, sendo ele próprio dado à bebida. Era muito impuro, e fazia propostas indecentes a Maria quando esta se encontrava só. Ela detestava o procedimento vil e as sugestões torpes do rapaz, e sempre lhe retorquia: “Não, nunca, isso é pecado! Deus o proíbe, e iríamos para o inferno”.

Por que a menina não contava à mãe as investidas lúbricas do rapaz? De um lado, por não querer preocupá-la; de outro, porque Alessandro ajudava sua mãe nos trabalhos mais difíceis do campo. E também porque, se o fizesse, a família não teria para onde ir. Preferia então calar-se e confiar em Deus.

No dia 5 de julho de 1902, enquanto Maria costurava uma camisa de Alessandro e cuidava de uma irmã menor, ele apareceu sob um pretexto qualquer, entrou na cozinha e fechou a porta. Aproximou-se com uma peça de ferro pontiaguda e ameaçou-a de morte, caso ela não cedesse aos seus desejos impuros. Maria gritou: “Não! Isso é pecado! Deus não o quer!” Quando ele quis forçá-la, ela reagiu e lutou com ele, dizendo que preferia morrer a pecar. Furioso, Alessandro a perfurou nove vezes com a peça de ferro. No meio da aflição e das dores, a mártir continuou a recompor seus vestidos, resguardando sua pureza.

Julgando-a morta, o algoz se retirou. Maria conseguiu entreabrir a porta e gritar para o pai de Alessandro. O assassino então voltou e desferiu contra seu peito mais cinco punhaladas. Depois fechou a porta e saiu, deixando prostrada sobre uma poça de sangue a inocente vítima de 11 anos, que gemia: “Meu Deus! Meu Deus! Mãezinha, mãezinha”.

Teresita — uma de suas irmãs, ainda de berço — começou então a chorar desesperadamente, fazendo com que o pai de Alessandro acudisse e encontrasse a mártir esvaindo-se em seu próprio sangue.

Enquanto Maria era levada às pressas para o hospital de Nettuno, Alessandro, de 20 anos, ia para a cadeia, onde ficaria durante 28 anos.

Sofrimento oferecido a Deus

Quarto de Sta. Maria Goretti
Chegando ao hospital, pediu água insistentemente, devido à sede decorrente da perda de sangue, mas não podia ser atendida por causa das chagas no corpo. O pároco foi chamado para ministrar-lhe a Extrema Unção, antes de iniciar-se a arriscada operação. 

Mostrando um crucifixo, disse-lhe que Jesus também sofreu sede na cruz, e perguntou se ela queria oferecer sua sede a Ele pela salvação dos pecadores. A menina aceitou e não mais pediu água.

Antes de receber o Sagrado Viático, o sacerdote perguntou: “Mariazinha, perdoas de todo coração ao teu assassino?”. Ela respondeu: “Sim, por amor de Jesus perdoo-lhe. E também quero que ele esteja no Céu comigo”.

Os médicos deram início à operação. Eram 14 feridas, nove das quais perfurantes. Como a menina estava muito fraca, eles não usaram anestesia. Maria estava inteiramente consciente quando cada uma das feridas foi aberta para ser suturada por dentro. Apesar das dores, ela não chorou e sofreu sua agonia com perfeita paciência, oferecendo-a a Deus. Às 4 horas da tarde do dia 6 de julho de 1902, com 12 anos incompletos, Maria Goretti entregou sua alma virginal ao Criador, por cujo amor preferiu a morte à ofensa.

Além da dilacerante dor de ver sua filha morrer tão cruelmente, Assunta teve uma pungente dor adicional: uma semana depois, não dispunha de mais ninguém para cuidar dos filhos enquanto trabalhava no campo. Por ser muito pobre, não teve outro remédio senão entregá-los à adoção.

Conversão do assassino

Uma pintura da santa
Na prisão, Alessandro mostrou-se agressivo e revoltado, tendo de ser removido para uma solitária. Entretanto, seis anos depois, Maria Goretti lhe apareceu em sonho, e sem dizer uma só palavra lhe entregou 14 alvos lírios, símbolo da pureza, cada lírio representado uma de suas punhaladas.

O assassino compreendeu por esse sonho que Maria o havia perdoado do crime e estava no Céu. Comovido, sentiu grande arrependimento, seguido de milagrosa conversão. Pediu então que chamassem o bispo encarregado da prisão, a quem confessou seus crimes e pecados. Pagou o resto da sentença como prisioneiro modelo, razão pela qual foi libertado três anos antes do fim de sua pena.

Uma vez posto em liberdade, Alessandro foi procurar a mãe de sua vítima. Era véspera de Natal, e queria saber se ela ainda o reconhecia. Sim, ela o reconhecia como o homem que matou sua filha e destruiu sua família. 

Alessandro então lhe pediu perdão. A resposta dessa mãe verdadeiramente católica foi: “Se Maria, minha filha, o perdoa, e Deus o perdoa, como posso também não perdoá-lo?”. Os dois foram então à Missa de Natal, durante a qual receberam a comunhão de joelhos, lado a lado. Alessandro fez mais: confessou então publicamente na igreja seu pecado, diante dos fiéis, aos quais pediu também perdão.
As relíquias de Santa Maria Goretti, em peregrinação pelos EUA

Aceitação da sentença

No longo período que passou na prisão, Alessandro teve tempo para pensar no mal que fizera e se arrepender. Uma vez cumprida a pena, recolheu-se em um convento dos Padres Capuchinhos, onde faleceu em 1970 aos 88 anos de idade. Em 1962 ele escreveu o que pode ser tido como seu testamento espiritual, do qual transcrevemos aqui uma parte:

“Estou velho, com quase 80 anos, e prestes a terminar a minha vida na Terra. Olhando para o meu passado, reconheço que na minha mocidade segui um caminho errado. [...] Aos 20 anos, cometi o meu crime passional, cuja lembrança hoje me aterroriza. Maria Goretti, agora santa, foi o anjo bondoso que a Providência pôs nos meus passos. Ainda trago as suas palavras de repreensão e de perdão impressas no coração. Rezou por mim, intercedeu por mim, seu assassino.

“Passaram-se os 30 anos de cadeia. Se não fosse menor de idade, teria sido condenado por toda a vida. Aceitei a sentença merecida; resignado, expiei a minha culpa. Maria Goretti foi verdadeiramente a minha luz, a minha padroeira. Com o seu auxílio comportei-me bem, e procurei viver honestamente, quando de novo a sociedade me recebeu entre os seus membros.

“Os filhos de São Francisco, os Capuchinhos, acolheram-me com caridade seráfica, não como criado, mas como irmão. Estou com eles desde 1936. E agora espero serenamente o momento de ser admitido à visão de Deus, de rever e abraçar os meus entes queridos, e de estar perto do meu Anjo protetor (Santa Maria Goretti) e da sua querida mãe, a senhora Assunta.

“Os que lerem esta minha carta, queiram tirar a boa lição de sempre, de fugirem do mal desde novos e seguirem o bem. Convençam-se de que a Religião, com os seus mandamentos, não é coisa para se pôr de lado, mas é o conforto verdadeiro, o único caminho seguro em todas as circunstâncias, mesmo as mais dolorosas da vida.”

Glorificação final

Relíquia de Sta. Maria Goretti
A causa da beatificação de Maria Goretti foi aberta em 1935, com o próprio Alessandro testemunhando sua santidade e sua intercessão. Foi beatificada em 1947 por Pio XII. Sua mãe, presente ao ato, relata: “Quando vi o Papa se aproximando, rezei: ‘Madonna, por favor, ajudai-me’. Ele pôs sua mão em minha cabeça, e disse: ‘Bendita mãe, feliz mãe, mãe de uma Beata’”.

Maria Goretti foi canonizada três anos depois, pelo mesmo Papa, com a presença de Alessandro Serenelli, Assunta Goretti e seus quatro filhos restantes.

Os restos mortais da Santa estão na Basílica de Santa Maria Goretti, ao lado do mar, em Nettuno, Itália, perto do local onde ela viveu e morreu. Estão em um relicário, envoltos numa imagem de cera seguindo seus traços.

____________

Fontes:
Site “Who is St. Maria?”, disponível em http://mariagoretti.com/who-is-st-maria/
Pe. José Leite, S.J., Santos de Cada Dia, Editorial A.O., Braga, Portugal, 1987, tomo II, pp. 385-388.

29 de junho de 2018

11.418 contra a Ideologia de Gênero

➤  Nelson Ramos Barretto


Carta apresentando ao Presidente Temer o abaixo-assinado
O Instituto Plinio Corrêa de Oliveira e associações Pró-Vida encaminharam ao Presidente Michel Temer um abaixo-assinado com 11.418 assinaturas resultantes da campanha promovida contra a inclusão da Ideologia de Gênero na Base Nacional Comum Curricular (BNCC). 

A campanha apelava aos brasileiros estarrecidos com os rumos da BNCC, para que o Presidente excluísse desta a nefasta identidade de gênero. 

Primeiro, porque a Ideologia de Gênero, destituída de qualquer sustentação científica, visa quebrar nas crianças a noção de que elas nascem com um sexo definido. Segundo, porque essa ideologia já foi rejeitada pelos brasileiros, que obtiveram a sua proibição oficial em mais de 90% de nossos municípios. 


Membros do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira em frente a Catedral da Sé (SP)
coletando assinaturas contra a implantação da Ideologia de Gênero no BNCC
Tendo o Presidente Temer, no decurso da coleta de assinaturas, tomado a corajosa iniciativa de excluir a Ideologia de Gênero da BNCC e de impedir seu ensino obrigatório nos colégios, os organizadores da campanha também lhe fizeram chegar seus calorosos cumprimentos, na esperança de que esta sua valorosa postura em defesa da Família se mantenha nos diversos órgãos governamentais.

25 de junho de 2018

Suicídio — mais uma loucura do mundo moderno



Plinio Maria Solimeo 

Ultimamente têm saído notícias de suicídios de atores famosos e de pessoas do mundo das artes. Para não falar do número sempre crescente de jovens em todo o mundo, principalmente no Japão. 

Ora, afirma o 5º Mandamento da Lei de Deus: “Não matar”. Isso não se refere somente a tirar a vida do próximo, mas sobretudo a não tirar a própria. Por isso o suicida era visto como pessoa que cometera uma grande ofensa a Deus, Autor da vida. A Igreja, para manifestar seu horror a esse ato extremo, não lhe concedia cerimônias fúnebres públicas — como Missa de 7º Dia ou enterro no campo santo. (Ao mesmo tempo, como Mãe misericordiosa, não lhe negava os sufrágios em privado, desde que o escândalo fosse evitado).

Entretanto, em nossa época de relativismo, a ateização das mentes é tal, que leva a retirar na consideração do suicídio todo o aspecto religioso da questão, ou seja, a ofensa a Deus. É verdade que uma das grandes causas dos suicídios em nossos dias é a falta de esperança num porvir, o que provoca em muitos casos a depressão e a falta de objetivo na vida, levando por sua vez ao desespero. Isso acaba de certo modo, se não justificando essa atitude desesperada, pelo menos atenuando-a em muitos casos. 

Em conseqüência, essa violação da Lei de Deus passou a ser vista com indiferença, ou até com certa simpatia, como mais um dos “direitos” reclamados por um mundo “emancipado” de Deus e da Lei moral.


Por isso o chamado “suicídio assistido” e a “eutanásia” estão se tornando comuns entre os povos ditos civilizados. Alegam seus partidários, geralmente da esquerda, que é preciso conceder às pessoas uma “liberdade de eleição”.

Essa posição vem curiosamente junto com a luta para a aprovação da eutanásia, do aborto, do “casamento” homossexual, da absurda “teoria de gênero” e demais bandeiras dos movimentos ditos progressistas.

Um dos países que está liderando essa investida contra a vida é o Canadá. Em Quebec, enquanto desde 2016 se dá todo o apoio ao suicídio assistido, somente 30% da população tem possibilidade de acesso aos cuidados que conservariam a vida ou aliviariam os sofrimentos dos pacientes terminais.

O problema que alegam os hospitais é a falta de verba para atender os pacientes terminais. O Colégio dos Médicos de Quebec pediu repetidas vezes mais verbas para isso ao Ministro de Saúde, Gaetan Barrette, mas não recebeu resposta. Muitos médicos opinam que essa falta de fundos é programada, para obrigar os pacientes em estado terminal a pedirem o “suicídio assistido”. Esse problema não é só de Quebec, mas de todo o Canadá.

O site do The Star apresenta um exemplo típico dessa luta entre os que querem continuar a viver e aos quais se oferece, pelo contrário, o que é hipocritamente chamado “morrer com dignidade”, ou seja, o “suicídio assistido”.

Trata-se de Roger Foley, de 42 anos, diagnosticado com ataxia cerebral, patologia que lentamente afeta a capacidade de mover-se e de falar, internado num hospital de Ontário. Ele denunciou a província de Ontário quando o hospital, para continuar a administrar-lhe o tratamento adequado, apresentou-lhe uma conta de 1.800 dólares diários, esclarecendo que, caso ele não pudesse pagar, lhe oferecia o acesso gratuito ao “suicídio assistido”.


Algo semelhante ocorreu no Estado de Oregon, nos Estados Unidos, onde o suicídio assistido é legal desde 1997. Um caso famoso é o de Randy Stroup, diagnosticado com câncer de próstata e a quem os médicos se negaram a tratar com quimioterapia porque o tratamento era muito caro. O Estado opôs-se ao tratamento, mas ofereceu pagar os gastos com a eutanásia. Randy exclamou: “Quase desmaiei quando me disseram isso. Como é possível que não paguem o tratamento para ajudar-me a viver, e se ofereçam a assumir o gasto para fazer-me morrer?”

Já na Califórnia, onde o suicídio assistido foi legalizado em 2015 (e temporariamente suspenso há algumas semanas por razões legais), Stephanie Packer, ainda viva, mãe de quatro filhos, viu seu seguro-saúde negar-lhe tratamento em 2016. “Antes que a lei da eutanásia entrasse em vigor, estavam dispostos a pagar. Depois da aprovação do suicídio assistido, me disseram que, como não me restava muito para viver, não cobririam o tratamento de minha esclerodermia. Mas acrescentaram que, se escolhesse o suicídio assistido, gastaria somente um dólar e vinte centavos”, declarou ao Washington Times.

Esses absurdos só são possíveis no atual mundo materialista, voltado contra o Criador de todas as coisas! [i] 

____________ 
[1] Fontes: consultadas:https://www.religionenlibertad.com/vida_familia/29536501/Caso-real-Acuidarle-a-usted-nos-cuesta-1.00-euros-al-dia-le-proponemos-la-eutanasiaA.html?utm_source=boletin&utm_medium=mail&utm_campaign=boletin&origin=newsletter&id=31&tipo=3&identificador=29536501&id_boletin=603269936&cod_suscriptor=452495753;https://www.thestar.com/opinion/contributors/2018/04/02/the-right-to-a-compassionately-assisted-life-not-death.html

23 de junho de 2018

11ª Marcha nacional contra o aborto de Brasília

  
Marcelo Augusto Siqueira

Clima ameno e céu aberto proporcionaram a realização de mais uma Marcha Nacional contra o aborto, ocorrida em Brasília no último dia 20. 

Mais de 3.000 compareceram ao evento promovido pela entidade Brasil Sem Aborto. A presença de sacerdotes, religiosas e famílias inteiras foi marcante. A juventude mostrou-se ativamente contra o aborto, marcando o evento. 


O Instituto Plinio Corrêa de Oliveira compareceu também com seus estandartes, o Pendão Nacional e portando durante toda a marcha uma imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima, que foi muito notada causando a admiração e veneração do público em geral. 

A marcha tem por objetivo representar a grande e maioritária parcela da população brasileira que é conservadora e que é contra crime tão nefasto: a prática do aborto. Sobretudo, cristão de nascimento, o povo brasileiro ama e devota todo o seu esforço para que o decálogo e os princípios morais católicos sejam acatados e afirmados. 


O Brasil gloriosamente e perigosamente vai entrando no rol de países que ainda não despenalizaram o aborto totalmente. Gloriosamente, pois a luta contra este assassinato se mostra eficaz e o sacrifício de muitos que lutam, frutificou. Porém, estar neste elenco, faz com que os inimigos da lei de Deus voltem seus olhos cada vez mais para a Terra de Santa Cruz, para aqui implantar totalmente o crime do aborto.

18 de junho de 2018

Violência urbana, crise religiosa, corrupção política – Por quê?

➤  Paulo Corrêa de Brito Filho

Assaltos nas ruas, roubos à mão armada, ônibus incendiados, balas perdidas, arrombamento de caixas-eletrônicas, sequestros, enfim o quadro trágico da violência urbana é o que mais preocupa o cidadão comum. Mais ainda do que o fantasma do desemprego, do péssimo ensino escolar, do desastroso serviço de saúde, da corrupção política que se agigantou dantescamente nos últimos governos de esquerda. 

Embora se trate continuamente da violência urbana, fala-se muito pouco de seu ponto mais importante: suas causas morais.

Campeia uma televisão destruidora dos mais comezinhos princípios da moral familiar, sendo uma minoria os valentes que ousam reagir contra ela; no cinema, nos teatros, nas salas de aulas, até no interior dos lares vão rareando os bons exemplos, o ensino dos princípios formadores do caráter, o culto do dever. A própria campanha contra a disseminação da AIDS tem por fundamento a propaganda da mais crua imoralidade.

Há ainda o receio de afirmar que na base da desagregação moral no Brasil está uma terrível e dolorosa crise religiosa. Mas, para uma compreensão completa do problema, cumpre ter a coragem de conhecê-lo por inteiro, a fim de lhe aplicar a terapia acertada.

Sem que esses fatores sejam atacados, pode surpreender o aumento da criminalidade, a escalada incontenível das drogas, e a transformação do outrora moralizado, ameno e reconfortante convívio domestico em ríspido, desgastante e penoso?
A cordialidade brasileira provinha de um fundo de benquerença, de um olhar sossegado em considerar a vida. 
Houve no passado numerosos estudos sobre a cordialidade brasileira, de tal modo esta nota estava presente entre nós. Ela vinha de um fundo de benquerença, de um olhar sossegado em considerar a vida, e também da sensação difusa de que, pelo nosso jeitinho, conseguiríamos afastar de nosso País as tragédias causadas pela perda do senso moral, da crise religiosa e dos maus governos. 

Desapareceram tais estudos... E estão sendo substituídos por maçudos ensaios sobre o alastramento das drogas, a respeito da violência no lar, nas ruas, nos locais de trabalho. Um modo de ser vai se apagando, enquanto outro, que lhe é oposto, vai se afirmando. 

O que está mudando? Estão mudando os hábitos morais!

Qual a solução? Primeiramente reconhecer os problemas, e depois combatê-los corajosamente.

14 de junho de 2018

O ser humano, o cisne e o gato

As mil lições que o gato proporciona ao homem simbolizam mil aspectos da realidade, com seu lado ruim decorrente do pecado original, mas com seu lado bom que tem fundamento em Deus


➤ Plinio Corrêa de Oliveira*

Os seres minerais, não tendo sensibilidade, não têm nenhum conhecimento. A planta pode ter reações, mas não tem conhecimento. O animal tem um grau de vida superior ao da planta, e tem conhecimento. Por exemplo, quando um rato passa perto de um gato, este o reconhece como um alimento e corre atrás dele, pois precisa se alimentar. Também o rato reconhece o gato, sabe que o gato costuma ter fome, identifica-o como um perigo e foge. É natural que o gato e o rato, tendo ambos o instinto de conservação, queiram sobreviver, e o mais adequado a cada um é o gato comer e o rato fugir. 


Essas reações naturais dos animais existem em seres irracionais, portanto não se devem a raciocínios, e sim ao conflito de instintos de conservação que ambos têm. Trata-se de um mundo de operações admiravelmente razoáveis que os animais possuem. Muitas vezes são operações de grande complexidade, cujo mecanismo os cientistas levam gerações estudando para explicar, e nem sempre o conseguem. Elas estão de acordo com a ordem e natureza das coisas, simplesmente por associações de imagens, reflexos, instintos, mas não são frutos de raciocínios. 



Quando o gato dá um miado choroso, cujo tom lamuriante é infalível para comover corações femininos, é porque sabe que a sua dona pode dar-lhe um pouco de leite. Ele não faz um raciocínio como este: “Ela é dona do leite, e dá se quiser. Por isso, se eu quero leite, devo manifestar a ela que estou precisando de leite. Quanto mais lacrimejante for o meu miado, mais depressa ela vai dar. Logo, vou caprichar no meu miado”. Mas o gato é totalmente incapaz disso, o que faz é movido pelo instinto. 


Não deixa de ser verdade que, quando ele tem fome, acaricia a dona, levado por um conjunto de instintos, reflexos, movimentos que decorrem do princípio vital dele, daquilo que nós poderíamos chamar “alma”. Não uma alma espiritual como a humana, mas um princípio vital do animal. Um mineral, como a pedra, não tem nenhuma vida e não é capaz de nada disso que se passa no mundo animal. 

O homem é um ser muito mais complexo, possui uma razão que o leva a compreender as coisas, e tem todos os movimentos voluntários no nível da razão. O raciocínio funciona associado ao instinto, e muitas vezes o homem completa a ação do instinto pensando, raciocinando. Algumas coisas podem ser feitas automaticamente, por um reflexo, sem precisar de raciocínio, mas outras vezes é necessário um raciocínio. Pode-se mesmo não saber, num caso concreto, se agimos racionalmente ou apenas instintivamente. Nem sempre sabemos, em nossa ação, qual é o grau de colaboração da natureza animal e qual é a colaboração da alma racional. 

Um exemplo é quando alguém entra depressa numa sala durante a noite, à procura de um objeto. Para isso, instintivamente estende a mão para o lado e acende a luz. O que se passou é uma mera associação de imagens e lembranças, e até um animal seria capaz disso. Poderá também ser resultado de um raciocínio: “Eu preciso de mais luz; para aumentar a luz, tenho que acionar este botão; portanto, vou acionar o botão”. 


Por mais que o animal esteja abaixo do homem, há um ponto em que está acima dele: no animal não há uma luta interior, que ora o leva para um lado, ora para outro. Exemplo: uma das atitudes mais vis no reino animal, e por isso muito simbólica, é uma galinha quando foge espavorida. Ela pode hesitar, mudando várias vezes o seu rumo de corrida, pois de alguma forma o conhecimento dela indica que o perigo mudou de lugar, ou então ela primeiro viu o perigo de um jeito, depois viu de outro. Mas ela não tem uma divisão interna, uma incerteza, uma dúvida, obedece ao instinto. 

Já o ser humano tem dúvidas. Em geral sentimos duas leis opostas. São Paulo chama isso “a lei da carne e a lei do espírito”. Queremos algo pela apetência carnal, mas pela apetência espiritual desejamos outra coisa. Há um combate interior, que nos leva a contradições, e às vezes fazemos uma coisa, depois mudamos e fazemos outra. O animal, nesse ponto, é superior ao homem. 
*       *       *
Quando eu era pequeno, ia ao Jardim da Luz em São Paulo, onde havia um lago artificial com cisnes, e gostava de vê-los nadando. A maioria eram cisnes brancos, e um ou outro preto. Eu ficava encantado de ver a decisão suave, mas sem nenhuma forma de hesitação, com que um cisne tomava rumo na água, aparentemente sem motivo. Algumas vezes seguia em frente, outras vezes dava uma volta, nadava sem rumo aparente pelo meio do lago, mas nunca tontamente. Seguro de si, olhando o lago com aquele pescoção alto e a superioridade de cisne, flutuando como quem não se molha, mas regozijando-se do contato com a água. 

Eu não conhecia ainda a doutrina do pecado original, e me perguntava: por que não sou assim? Por que não tenho essa segurança que tem o cisne, essa lisura no viver? Não seria melhor que eu tivesse nascido cisne? 

Eu percebia que o cisne não tinha luta interior. Mesmo quando fazia alguma coisa sem razão aparente, a decisão era determinada por algo do seu instinto. Não havia luta interior, e durante muito tempo ele tornou-se para mim o próprio símbolo da falta de hesitação e da ausência de dúvida interior. Parecia haver um acordo implícito do cisne com as águas — elas nunca tentavam contra ele, nem ele contra elas. Deslizando sobre aquelas águas, ele parecia orná-las, e elas nunca se moviam de modo a contrariá-lo. O cisne ficava seco, com a toalete perfeita para o dia inteiro. Agradava-me enormemente contemplá-lo. 

Essa divisão — ora querendo uma coisa, ora outra — nos joga tão baixo que parece representar uma vergonha. No entanto, isso nos coloca muito acima dos cisnes e dos outros animais, representa de fato uma vantagem. Nós somos capazes de nos conhecer a nós mesmos e de conhecer os outros. Somos capazes de conhecer o mundo externo. Nosso intelecto nos torna capazes de conhecer a Deus. Nós compreendemos. O simples fato de compreendermos a nossa alteridade — que cada um de nós é eu, e não o outro — o fato de cada um poder dizer “sou eu” é uma superioridade fabulosa. Somos inteligentes, conhecemos a Deus e o mundo externo, conhecemo-nos, sabemos quem somos. Também por isso o homem é o rei da criação. Um rei que cambaleia e que cai, se não abrir os olhos e se não rezar muito. Rei cego, mas que tem em sua fronte um diadema, uma coroa. 

O que move o homem a agir nas várias situações? Move-o um modo de conhecimento animal que há em si, em face da realidade exterior. Exemplifico com as características deste nosso grupo de pessoas conhecidas. Meus olhos os veem, a todos e a cada um, e essa função de meus olhos é puramente animal. No entanto, a ela se somam imediatamente mil memórias, recordações sobre o nosso relacionamento anterior: as razões pelas quais estamos juntos; as metas que tenho, ao aceder em estar junto dos conhecidos; as facilidades e dificuldades que tenho na obtenção dessas metas. Portanto, levam-me a avaliar o que devo dizer e como devo dizer, para a obtenção dessas metas. Entra aí uma pirâmide de dados que foram intermediados pelo corpo e estão na inteligência, são armazenados na inteligência. 

O corpo tem seu papel, e bem maior do que muitos imaginam. Se meu corpo fosse outro — se, por assim dizer, minha animalidade fosse outra — eu veria as pessoas como estou vendo, mas ressaltaria algumas coisas e outras não, reagiria de modo diferente em relação a umas coisas e outras. Portanto, o mesmo quadro que estou vendo agora, para mim teria relevos e cores diferentes. Cada homem é assim, à maneira de um tapete que, colocado junto à luz, toma reflexos variados. Nenhum homem tem, em face das coisas que vê, uma atitude inteiramente idêntica à de outro homem. 

Embora sendo do mundo animal, devido às nossas inteligências nós somos capazes de julgar. Se algo não for conforme à Lei de Deus, conforme à verdade que minha inteligência percebe, sou capaz de reprimir o que é ruim e aceitar o que é bom, e até de desenvolver o que é bom. Portanto, minha alma continua a rainha, mesmo em águas convulsas. A batalha e a dificuldade são diferentes de uma pessoa para outra, e cada um pode também compreender a Deus de um modo ou de outro. 

Voltando ao exemplo do gato. Volto de bom grado a ele, porque é um animal muito interessante, muito sugestivo e muito velhaco. E tem a vantagem de seus estados de animalidade serem muito matizados, ele muda continuamente en dégradé, sem saltos, como numa espécie de opala. Inspira também um certo medo, porque pode ter mudanças muito súbitas e muito variáveis. 

Há gatos que são a própria imagem do raffinement. Sedosos, peludos, movem-se com elegância, fazem poses. Outros são a própria imagem do carinho, brinquedinhos vivos, que brincam de modo encantador. Gatinhos bebendo juntos de uma mesma tigela com leite, por exemplo, podem fazer coisas encantadoras. 

Uma proeza felina que enraivece a dona, é quando ele consegue enfiar a pata pela porta da gaiola, agarra o passarinho e se banqueteia com uma refeição requintada. Cunharam até essa expressão bem achada, para a cara de fingido arrependimento quando alguém é apanhado em flagrante delito: cara de gato que comeu passarinho. Quem nunca viu a cena, pode facilmente imaginá-la. 

Outra é a do gato que sobe no aquário e fica observando os movimentos do peixinho. Quando ele está numa posição conveniente, o gato mete rapidamente a pata e joga o nadador para fora da água, depois dá um salto felino e o apanha. Há em Paris uma Rue du Chat-qui-Pêche (Rua do gato que pesca) [foto abaixo], em memória de um gato que sobressaiu-se nessa habilidade no rio Sena, e era espetáculo gratuito para muitos, a ponto de merecer essa homenagem da municipalidade. 

Por que Deus criou o gato com todas essas diversidades? Funcionaria igualmente bem o mundo, se não houvesse gatos? Evidentemente, Deus criou o gato para os homens, mas o que lucram os homens com a existência do gato? Ele distrai o homem, e também lhe serve de exemplo. Ora o encanta, ora o frustra. Por mais mansinho e apreciador de carinho, de repente lhe mete uma unhada. 

O gato deixa no homem certo pesar de não existir o gato ideal: interessante como o gato ruim e encantador como o gato bom; vivo como o gato de goteira e sedoso como o gato criado sobre a almofada vermelha de uma marquesa; gatinho de brinquedo para distrair, mas nunca agredindo nem arranhando, nunca pregando má surpresa; capaz de arranhar e pregar má surpresa aos inimigos do homem, que são os ratos da casa. Na verdade o homem desejaria um gato duplo: tigrinho para o rato e brinquedinho para ele, pressupondo-se também a condição de não incluir peixinhos e passarinhos na sua dieta, nem derrubar louças frágeis. 

Em todos esses estados de espírito que o contato com o gato proporciona, não estaria o homem sonhando com o Paraíso perdido? Não fica propenso a sentimentos de bondade? De outro lado, não fica propenso a sentimentos de prudência? E junto com a virtude da prudência, não exercita também a virtude da bondade, da caridade, da mansidão? Mais ainda a virtude da fortaleza, quando o gato atrapalha e o homem sai em sua perseguição? Não recebe do gato uma lição de vigilância, quando o vê levantar as orelhas e começar a olhá-lo? Nessa situação, o homem não se sente um bobo em face do gato? O reboliço que os gatos fazem dentro de um “saco de gatos” pode lembrar muito bem a consciência acusadora do pecador... 

Essas mil lições que o gato proporciona ao homem simbolizam mil aspectos da realidade, com seu lado ruim decorrente do pecado original, mas com seu lado bom que tem fundamento em Deus. O sedoso e macio do gato simbolizam de algum modo as delícias do convívio divino. O interessante e o novo que há no gato simbolizam de algum modo o que há de inesgotável e sempre surpreendente para nós em Deus: sempre o mesmo, mas motor imóvel, causando todas as coisas e fazendo coisas que nos deixam continuamente surpresos, encantados e tranquilamente habituados a algo que não muda nunca. E assim, subindo até o mais alto ponto, elevamo-nos a Deus. 

____________ 
* Comentários feitos por Plinio Corrêa de Oliveira durante um almoço no dia 7-7-1983, extraídos de gravação em fita magnética. A fim de serem publicados, alguns comentários foram ligeiramente adaptados. Essa transcrição não passou pela revisão do autor.
Fonte: Revista Catolicismo, Nº 810, Junho/2018.