27 de fevereiro de 2018

VENEZUELA: igrejas sem hóstias para a Comunhão


Paulo Roberto Campos
prccampos@terra.com.br

A derrocada da Venezuela, fruto da implantação do regime bolivariano-comunista — que os governos petistas queriam reproduzir no Brasil, nunca é suficiente insistir — trouxe à cena não somente um grande êxodo, centenas de milhares de venezuelanos fugindo da fome, mas também famílias procurando comida no lixo, outras comendo carne de cachorro, mercados com as prateleiras vazias, farmácias e hospitais sem remédios, crianças morrendo de desnutrição, pais que entregam os filhos para adoção por não terem como sustenta-los, inflação astronômica etc. etc. 

Na outrora prospérrima Venezuela, o descalabro não para aí. Ele atingiu o inimaginável: os jornais noticiam que em várias igrejas do país não há distribuição da Sagrada Eucaristia durante a Missa por falta de hóstias! Ou seja, não há farinha para produzi-las e assim os fiéis católicos ficam sem a comunhão.

O Vaticano — cujo atual Secretário de Estado foi durante vários anos Núncio em Caracas — não tem conhecimento dessa calamidade? Não escutou nada, não viu nada e não fala nada? Sobretudo, não condena os ditadores fidelcastristas que estão transformando a nação venezuelana numa Cuba de extrema miséria espiritual e material? 

Rezemos pela pobre, infeliz e castigada Venezuela. Lembrando a parábola do “Filho pródigo” do Evangelho, posso afirmar que ela está literalmente comendo as bolotas dos porcos. Quando regressará à casa materna da Virgem de Coromoto, sua tão bondosa e querida Padroeira? Não estará Ela muito esquecida? Nossa Senhora poderá obter de seu Divino Filho a solução para todos os problemas, desde que os venezuelanos se voltem para sua Padroeira com verdadeiro arrependimento, com o coração contrito e humilhado.

25 de fevereiro de 2018

Apoio à heroica resistência católica à política vaticana de aproximação com a China comunista

Eminentíssimo Senhor 
Cardeal Joseph Zen Ze-kiun 
Hong Kong – China 

Eminência Reverendíssima 

O Instituto Plinio Corrêa de Oliveira, associação cívica continuadora da obra do insigne professor cujo nome ostenta, e associações autônomas e coirmãs nos cinco continentes, dedicam-se a defender os valores fundamentais da Civilização Cristã. Seus diretores, membros e simpatizantes são católicos apostólicos romanos que combatem as investidas do comunismo e do socialismo. 


Cardeal Joseph Zen Ze-kiun 
A posição fundamentalmente anticomunista que resulta das convicções católicas dos membros de nossas organizações ficou revigorada pela heroica resistência da “Igreja clandestina” chinesa fiel a Roma. Seus bispos, sacerdotes e milhões de católicos recusam a se submeter à assim chamada Igreja Patriótica, cismática em relação a Roma e inteiramente submissa ao poder central de Pequim.

“Bem-aventurados os que são perseguidos por amor à justiça, porque deles é o Reino dos céus!” (Mt 5, 10); “se o mundo vos odeia, sabei que me odiou a mim antes que a vós. Se fôsseis do mundo, o mundo vos amaria como sendo seus. Como, porém, não sois do mundo, mas do mundo vos escolhi, por isso o mundo vos odeia” (Jo 15, 18-19). 


Declaração de Resistência.
Para ler sua íntegra, click no link abaixo.
Essas divinas palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo exprimem nossa admiração à única Igreja Católica na China, hoje sob a bota comunista, e que tem em Vossa Eminência um egrégio membro e porta-voz. Vemos nesses católicos perseguidos outros tantos irmãos na Fé aos quais foi dirigida a Declaração de Resistência publicada pelo eminente líder católico brasileiro Prof. Plinio Corrêa de Oliveira (1908-1995), fundador da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade, e inspirador de TFPs e entidades afins nos diversos continentes. O documento é intitulado A política de distensão do Vaticano com os governos comunistas — Para a TFP: omitir-se? Ou resistir?

Como Vossa Eminência poderá ver nessa Declaração, datada de 1974, a diplomacia vaticana na Europa do Leste e na América Latina buscava uma ardilosa política de aproximação com os regimes comunistas gravemente danosa para os verdadeiros católicos, a qual resultaria na submissão da Santa Igreja Católica aos déspotas vermelhos. 

No dia 7 de abril de 1974, a imprensa da maior cidade da América do Sul (cfr. “O Estado de S. Paulo”) ecoou uma entrevista de Mons. Agostino Casaroli asseverando que na infeliz ilha de Cuba, oprimida pelo comunismo fidelcastrista, “os católicos são felizes dentro do regime socialista”. E continuava Mons. Casaroli: “A Igreja Católica cubana e seu guia espiritual procuram sempre não criar nenhum problema para o regime socialista que governa a ilha”.

Essas declarações do alto enviado vaticano — que coincidiam com posicionamentos de outros Prelados colaboracionistas do comunismo — provocavam surpresas dolorosas e traumas morais nos católicos que seguiam a imutável doutrina social e econômica ensinada por Leão XIII, Pio XI e Pio XII. Esta Ostpolitik, como ficou conhecida, era fonte de perplexidades e angústias, e suscitava no mais íntimo de muitas almas o mais pungente dos dramas. Pois, muito acima das questões sociais e econômicas, atingiam o que há de mais fundamental, vivo e terno na alma de um católico apostólico romano: sua vinculação espiritual com o Vigário de Jesus Cristo.

A diplomacia de distensão do Vaticano com os governos comunistas levantava uma dúvida supremamente embaraçosa: é lícito aos católicos não caminharem na direção apontada pela Santa Sé? É lícito cessar a resistência ao comunismo?

Neste momento, encontramo-nos em situação análoga, porém ainda mais perigosa, com a política vaticana em relação à chamada Igreja Patriótica submissa a Pequim. 

Com efeito, causou pasmo no mundo católico a noticia da visita à China de uma delegação vaticana liderada pelo arcebispo Claudio Maria Celli, quem em nome do Papa Francisco pediu aos legítimos pastores das dioceses de Shantou e Mindong que entregassem suas dioceses e seus rebanhos a bispos ilegítimos nomeados pelo governo comunista e rompidos com a Santa Sé. 

Chegaram como aterradora e amplificada repetição das declarações de Mons. Casaroli em Cuba as palavras de Mons. Marcelo Sánchez Sorondo, Chanceler da Pontifícia Academia das Ciências e da Academia Pontifícia das Ciências Sociais, conhecido como conselheiro próximo do Santo Padre. Segundo o jornal “La Stampa” de Turim do dia 2 de fevereiro, declarou ele: “Neste momento, os que melhor praticam a doutrina social da Igreja são os chineses [...]. Os chineses procuram o bem comum, subordinam as coisas ao bem geral".

Após visitar o país esmagado por uma ditadura ainda mais inclemente do que a cubana, Mons. Sánchez Sorondo, ainda à maneira de Mons. Casaroli, declarou: “Encontrei uma China extraordinária; o que as pessoas não sabem é que o principio central chinês é trabalho, trabalho, trabalho. Não tem favelas, não tem drogas, os jovens não tem droga [...] [A China] está defendendo a dignidade da pessoa [...]”

Nem uma só palavra sobre a perseguição religiosa que o comunismo inflige aos nossos irmãos na Fé — bispos, padres e fiéis prisioneiros —, nem à violação sistemática e universal dos direitos fundamentais do homem criado à imagem e semelhança de Deus. 

As controvertidas e falsas afirmações deste alto prelado vaticano vão muito além das próprias declarações de Mons. Casaroli em Cuba no remoto ano de 1974 e ferem muito mais a reta consciência cristã. 

O drama da atual situação dos católicos chineses é o de todos os fiéis que desejam perseverar diante do Leviatã comunista. Ontem como hoje, pressionados pela diplomacia da Santa Sé para aceitarem um acordo iníquo com o regime comunista, enfrentam um gravíssimo problema de consciência: é lícito dizer não à Ostpolitik vaticana e continuar resistindo ao comunismo até o martírio se necessário for? 


Plinio Corrêa de Oliveira
Na referida Declaração de Resistência, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira afirmava (sem ter recebido nenhuma objeção de Paulo VI ou de seus sucessores) que aos católicos é não somente lícito, mas até um dever imitar a atitude de resistência do Apóstolo São Paulo em face de São Pedro, o primeiro Papa:
“Tendo o primeiro Papa, São Pedro, tomado medidas disciplinares referentes à permanência no culto católico de práticas remanescentes da antiga Sinagoga, São Paulo viu nisto um grave risco de confusão doutrinária e de prejuízo para os fiéis. Levantou-se então e ´resistiu em face´ a São Pedro (Gal. II,11). Este não viu, no lance fogoso e inspirado do Apóstolo das Gentes, um ato de rebeldia, mas de união e amor fraterno. E, sabendo bem no que era infalível e no que não era, cedeu ante os argumentos de São Paulo. Os Santos são modelos dos católicos. No sentido em que São Paulo resistiu, nosso estado é de resistência.  
“Resistir significa que aconselharemos os católicos a que continuem a lutar contra a doutrina comunista com todos os recursos lícitos, em defesa da Pátria e da Civilização Cristã ameaçadas.  
“Resistir significa que jamais empregaremos os recursos indignos da contestação, e menos ainda tomaremos atitudes que em qualquer ponto discrepem da veneração e da obediência que se deve ao Sumo Pontífice, nos termos do Direito Canônico.  
“A Igreja não é, a Igreja nunca foi, a Igreja jamais será um cárcere para as consciências. O vínculo da obediência ao Sucessor de Pedro, que jamais romperemos, que amamos com o mais profundo de nossa alma, ao qual tributamos o melhor de nosso amor, esse vínculo nós o osculamos no momento mesmo em que, triturados pela dor, afirmamos a nossa posição. E de joelhos, fitando com veneração a figura de S.S. o Papa Paulo VI, nós lhe manifestamos toda a nossa fidelidade.  
“Neste ato filial, dizemos ao Pastor dos Pastores: Nossa alma é Vossa, nossa vida é Vossa. Mandai-nos o que quiserdes. Só não nos mandeis que cruzemos os braços diante do lobo vermelho que investe. A isto nossa consciência se opõe.”
Cardeal Paul Yü Pin
Ainda nos anos 70, tivemos a alegria de constatar, na gloriosa fileira do episcopado chinês, a resistência destemida do ilustre conterrâneo de Vossa Eminência, o Emmo. Cardeal Paul Yü Pin, então Arcebispo de Nanquim e Reitor da Universidade Católica de Taipé, Formosa (cfr. “The Herald of Freedom” de 15-2-74, em despacho da Religious News Service). 

Declarou o Purpurado à citada agência (como hoje ratifica Vossa Eminência), que seria uma ilusão esperar que a China comunista modifique sua política antirreligiosa. 

Corrobora tal assertiva o próprio presidente Xi Jinping, o qual acentuou no XIX Congresso do PC que “a cultura [...] deve ser aproveitada para a causa do socialismo de acordo com a orientação do marxismo”; e que por causa disso a religião deve ter uma “orientação chinesa” e adaptar-se à sociedade socialista guiada pelo partido ("The Washington Post", 18-10-17).

Voltando ao Cardeal Yu Pin, há 40 anos ele acrescentou: “Queremos permanecer fiéis aos valores perenes da justiça internacional [...]. O Vaticano pode agir de modo diverso, porém não nos comoveríamos muito com isso. Penso que é ilusória a esperança de que um diálogo com Pequim ajudaria os cristãos do continente [chinês]. [...] O Vaticano nada está obtendo para os cristãos da Europa Oriental. [...] Se o Vaticano não pode proteger a Religião, ele não tem muita razão para continuar no assunto. [...] Queremos permanecer fiéis ao nosso mandato, mas somos vítimas da repressão comunista. Sob tal aproximação [do Vaticano com a China comunista], nós perderíamos a nossa liberdade. Como chineses, temos que lutar por nossa liberdade”

A essas lúcidas e vigorosas observações, que lembram a “resistência em face” de São Paulo a São Pedro (Gal. II, 11), o Prelado acrescentou esta emocionante previsão: “Há uma Igreja subterrânea na China. A Igreja na China sobreviverá, como os primeiros cristãos sobreviveram nas catacumbas. E isso poderia significar um verdadeiro renascimento cristão para os chineses.” 

Assim sendo, o Instituto Plinio Corrêa de Oliveira e associações autônomas e coirmãs de todo o mundo, bem como os milhares de católicos que juntam suas assinaturas a esta mensagem de apoio moral: 

Imagem de Nossa Senhora
Imperatriz da China
  1. Manifestam a Vossa Eminência, a toda a hierarquia, clero e povo católico da China, sua admiração e sua solidariedade moral, nesta hora em que urge erguer a resistência ante o Moloch comunista e a Ostpolitik vaticana. Os bispos e sacerdotes da perseguida Igreja clandestina na China que ora resistem, estão sendo para o mundo inteiro um símbolo vivo do “bom pastor que dá sua vida pelas ovelhas”.
  2. Afirmam que haurem alento, força e esperança invencível do épico exemplo dos atuais mártires que perseveram na China. Nossas almas católicas aclamam estas nobres vítimas: “Tu gloria Jerusalem, tu laetitia Israel, tu honorificentia populi nostri” (Jud. 15,10). Esses mártires constituem a glória da Igreja, a alegria dos fiéis, a honra dos que continuam a luta sacrossanta. 
  3. Elevam suas preces a Nossa Senhora Imperatriz da China, para que com desvelo de Mãe socorra e dê ânimo aos seus filhos que lutam para se manterem fiéis apesar de circunstâncias tão cruelmente hostis. 
São Paulo, 25 de fevereiro de 2018 
Instituto Plinio Corrêa de Oliveira

23 de fevereiro de 2018

Discutindo sobre Ideologia de Gênero

Paulo Henrique Américo de Araujo

Era uma sexta-feira. À distância já se percebia a feição mal-humorada da professora. Com passo apressado e decidido, vinha ela percorrendo os corredores daquele colégio de ensino médio, num subúrbio da cidade. Segurava na mão direita um pequeno folheto impresso, que agitava com movimentos convulsivos. Dois alunos observavam a cena, e já previam que a professora caminharia até eles, que tinham distribuído na escola uma centena daqueles folhetos. Tratava-se de um pequeno manifesto contra a Ideologia de Gênero nas escolas, publicado pelo Instituto Plinio Corrêa de Oliveira(1). Bastante conciso, o impresso fornecia argumentos rápidos e diretos, e ao final remetia o leitor a uma petição ao Presidente da República, repudiando tal ideologia.

Um dos jovens comentou, enquanto ela se aproximava: 

— Acho que ela não gostou. 

Márcia, a professora, conhecia os dois rapazes e foi direto ao ponto: 

— Davi e Leonardo, eu peguei este “folhetinho” de vocês na sala dos professores. Ele não é científico. Só traz argumentos religiosos, não tem valor acadêmico! 
Após pequena pausa, e vendo que os estudantes não replicavam, embora demonstrassem surpresa, ela prosseguiu, reprimindo um tanto o nervosismo do primeiro momento: 

— Olhem... se eu soubesse que meu filho de seis anos optou por ser uma menina, não haveria problema nenhum para mim. Eu apoiaria. Além disso, seu folheto é muito radical, vocês precisam respeitar os outros. 

— Profa. Márcia... 

Leonardo tentara replicar, mas a atitude impositiva da outra não lhe deixava margem para prosseguir, enquanto ela se expandia em tom taxativo:

— O que vocês estão fazendo não adianta nada! A Ideologia de Gênero vai entrar de um jeito ou de outro. Quem é contra está perdendo seu tempo! Espero que vocês revejam suas posições. É um conselho para o seu próprio bem. Até logo! 

Entregou o folheto a Davi, sem esconder um ar de vitória, e voltou-lhes as costas, seguindo seu caminho. Os jovens ficaram apreensivos, não esperavam uma reação tão ríspida da professora. A veloz sucessão dos argumentos os havia deixado atordoados. O que fazer? 

No dia seguinte, sábado, os dois foram participar de um círculo de estudos da Ação Jovem do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira, ali mesmo no bairro onde moram. Num encontro anterior, juntamente com estudantes de outros colégios, tinham combinado imprimir e distribuir aquele folheto contra a Ideologia de Gênero. Júlio, o mais veterano dos participantes, após ouvir de Davi e Leonardo um aflitivo relato sobre a “contenda” com a Profa. Márcia, ponderou: 

— Amigos, tenham calma. De fato, a professora dispõe de uma autoridade legítima, e é normal exibir o peso da superioridade num caso desses, apesar de ela não ter dado nenhum argumento válido. 

— Como assim? Nenhum argumento válido!? — Exclamou Davi. 


— Vejam... – retomou Júlio. – O folheto não traz apenas argumentos religiosos, mas também apresenta o que personalidades importantes declararam sobre a falta de base científica para a Ideologia de Gênero. Mas o mais importante são os argumentos religiosos, que levantam um problema de consciência para todas as pessoas. A eficácia dos argumentos é exatamente esta. Eles não são feitos para convencer ateus e antirreligiosos, têm sobretudo o objetivo de fortalecer a posição dos que possuem princípios religiosos.

— Entendo – interrompeu Davi. – Mas ela disse que é preciso respeitar a opinião dos que aceitam o ensino de gênero nas escolas. 

Júlio tomou a iniciativa de responder: 

— O fato de a professora apoiar a Ideologia de Gênero não significa que todos são obrigados a segui-la. Se é preciso respeitar os outros, pela lógica devem ser também respeitados os pais contrários ao ensino de gênero nas escolas onde estão os seus filhos. 

— É verdade! 

Leonardo continuou o raciocínio: 

— Será que os pais serão “obrigados” a aceitar a Ideologia de Gênero? Impor que as pessoas aceitem algo contrário à razão, à ciência, à religião, isso sim é “radicalismo”! 

— Exatamente, Leonardo – replicou Júlio. – Uma ação não se torna justificável quando é apoiada por alguns, ou mesmo por muitos. Equivaleria a dizer que todos somos obrigados a aceitar as drogas, pelo simples fato de várias pessoas as aceitarem! 

Davi tinha no fundo da cabeça uma preocupação: 

— Júlio, a professora afirmou que a Ideologia de Gênero vai entrar de qualquer jeito, e é perda de tempo trabalhar contra. O que você acha? 


— Cuidado, Davi. Essa é exatamente a arma mais eficiente dos que desejam impor ideias revolucionárias. Lançam o desânimo sobre seus opositores, para diminuir neles a reação. Aliás, a feminista e ideóloga Judith Butler [foto ao lado] declarou isso numa recente entrevista(2). Ela acha que o mundo já mudou, portanto não adianta pensar diferente nem se manifestar contra a Ideologia de Gênero. Essa é uma tática que todos eles usam, por isso devemos permanecer bastante atentos, e nunca desanimar. 

Leonardo pegou o embalo, e soltou uma frase muito conhecida: 

— Eu li num livro a frase de um escritor chamado Edmund Burke: “Para que o mal triunfe, basta que os bons não façam nada!”

— Se houver oportunidade, exponham esses pontos à professora, mas tratem-na com o devido respeito, por causa da autoridade que ela representa. 

O olhar dos dois jovens manifestava alívio e satisfação, depois de ouvirem as explicações do amigo mais experiente. Na segunda-feira, quando voltassem à escola, estariam encorajados a retomar a discussão com a Profa. Márcia... 


*       *       * 

Caro leitor, usando de legítimo recurso para um artigo, eu poderia ter inventado a pequena história acima. Mas os fatos, relatados durante uma conversa com os dois estudantes, realmente aconteceram. Apenas modifiquei os nomes dos protagonistas e algumas circunstâncias secundárias, que não alteram sua essência. Os fatos ilustram uma realidade dos colégios em nossa Pátria: a Ideologia de Gênero vai sendo imposta, apesar da rejeição massiva da população. 

Desejo e espero que este texto sirva para outros alunos e seus pais continuarem reagindo à malfazeja onda do “gênero”, sem nunca desanimarem(3). 

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Notas: 
1. O folheto completo pode ser lido em: https://ipco.org.br/wp-content/uploads/2017/10/Ideologia-de-g%C3%AAnero-folheto.pdf 
2. Ver declaração de Judith Butler em: http://brasil.estadao.com.br/noticias/geral,justica-social-nao-vira-sem-o-fim-da-discriminacao-de-genero--diz-pesquisadora,1760597 
3. Para um aprofundamento do assunto, cfr. livro Ideologia de Gênero, Pe. David Francisquini, ed. Artpress. 2017.

19 de fevereiro de 2018

O bom pastor dá a vida por suas ovelhas


Péricles Capanema 

Tenho lido sobre a situação dos católicos na China e despertam entusiasmo recentes atitudes do cardeal-arcebispo resignatário de Hong Kong, Dom Joseph Zen [foto acima], religioso salesiano, 85 anos, saúde delicada. Cada vez mais isolado nas cúpulas eclesiásticas, cada vez mais ligado e próximo ao católico comum, ao fiel que frequenta igrejas e sacristias (sou um deles). Por quê? Verba movent, exempla trahunt (As palavras movem, os exemplos arrastam). Peçamos a Deus que em seus próximos passos continue a brilhar a fidelidade, coragem e lucidez.

O perfil atual de Dom Joseph Zen o aproxima de um herói anticomunista, o Cardeal Mindszenty (1892-1975) [foto ao lado] que resistiu primeiro ao governo fascista; depois se opôs ao governo comunista de Budapeste (foi preso, torturado e condenado à prisão perpétua em 1949). Ficou na cadeia até ser libertado pelos insurgentes de 1956, quando se refugiou na embaixada dos Estados Unidos. 

Também se opôs à política de aproximação de Paulo VI com os governos comunistas da Europa Oriental (a chamada Ostpolitk chefiada pelo Cardeal Agostino Casaroli). A História já deu razão ao antigo primaz de Eztergom, situação que, aliás, lhe foi tirada por Paulo VI; o martirizado Cardeal era obstáculo aos acordos com Budapeste. 

Assim se referiu ao Cardeal Mindszenty o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira: “O non possumus firme de Vossa Eminência, repercutindo no mundo inteiro, vale por uma lição e por um exemplo próprios a manter os católicos na via da fidelidade aos ensinamentos tradicionais imprescritíveis, emanados da Cátedra de Pedro em antigos dias de luta e de glória. E é por esta razão que, a par da admiração, tributamos a Vossa Eminência um agradecimento profundo. […] O Reino Apostólico da Hungria recebeu desde Santo Estêvão a missão gloriosa de ser baluarte da Igreja e da Cristandade. Esta missão, ele a cumpre por inteiro em nossos dias, na Pessoa augusta de Vossa Eminência”

Ressoam as palavras de Nosso Senhor: “Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a sua vida pelas suas ovelhas. Porém o mercenário e o que não é pastor, de quem não são próprias as ovelhas, vê vir o lobo, e deixa as ovelhas; e foge; e o lobo arrebata e faz desgarrar as ovelhas”, Evangelho de São João.

A parábola faz lembrar Dom Joseph Zen. Pastor zeloso, recusa-se a virar as costas para ovelhas débeis e, congruentemente, sorridente acolher ferozes lobos. No caso, abrir as portas do redil. O Cardeal chinês defende a Igreja subterrânea — ameaçada de abandono e traição por muitos dos que a deviam proteger — denunciando perigos mortais na aceitação do predomínio da Igreja patriótica (fantoche do governo comunista), agora favorecida em sua subserviência nas tratativas levadas a cabo por diplomatas da Santa Sé.

Sintoma espantoso da presente situação, noticiou o “New York Times” de 11 de fevereiro que um dos dois bispos católicos da Igreja subterrânea de quem a Santa Sé reclama a renúncia, Dom Vicente Guo Xijin, bispo de Mindong, aceitou se demitir e ser substituído por um bispo da Igreja oficial, indicado pelos comunistas. 

Dom Joseph Zen comentou no seu blog recentes declarações do Cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado da Santa Sé, divulgadas por “La Stampa”, de Turim. Começa assim: “Não há razões para temer uma igreja cismática criada pelo Partido Comunista. Desaparecerá com o colapso do regime. Mas será horrível uma igreja cismática com as bênçãos papais”.

O Cardeal Pietro Parolin afirmou que iria curar as feridas dos católicos perseguidos na China continental com o “bálsamo da misericórdia”. Retrucou o Cardeal Zen: “Misericórdia para os perseguidores? Para seus cúmplices? Premiar traidores? Castigar os fiéis? Forçar um bispo legítimo a entregar seu lugar para um excomungado? De fato, é esfregar sal nas feridas. Noto que há contínua menção à sua compaixão pelos sofrimentos de nossos irmãos na China. Lágrimas de crocodilo”.

“[Os católicos chineses] são vítimas da perseguição de um poder ateu totalitário. Empregar o bálsamo da misericórdia? Não há agravos pessoais a ser perdoados. Eles precisam ser libertados da escravidão. Esta situação dolorosa não foi criada por nós, mas pelo regime. Os comunistas querem escravizar a Igreja”

Dom Joseph Zen relaciona a presente situação com o passado recente da Igreja: “[O cardeal Parolin] adora a diplomacia da Ostpolitik de seu professor, Casaroli”.

Em matéria do “Wall Street Journal”, 14 de fevereiro, o Arcebispo resignatário de Hong Kong analisou as notícias de que a China exige que a Santa Sé aceite os sete bispos da chamada Igreja Patriótica, bem como que dois bispos fiéis a Roma apresentem renúncia para dar lugar a dois indicados pelo governo. Sobre tais tratativas, advertiu o Cardeal-arcebispo: “Colocam-se lobos na direção do rebanho e eles farão um massacre. Estão indicando más pessoas como pastores do rebanho”. 

O que querem os católicos chineses? Responde o Purpurado em seu blog: “Verdadeira liberdade religiosa, que não prejudique, antes favoreça o verdadeiro bem da nação”.

Também foi claro a respeito de sua posição relativa ao Papa Francisco: “Continuo convencido de que existe uma divisão na maneira de pensar entre Sua Santidade e seus colaboradores que se aproveitam do otimismo do Papa. Até que me seja provado o contrário, estou convencido de que defendi o bom nome do Papa, tirando-lhe a responsabilidade das coisas erradas que vêm sendo feitas por seus colaboradores. Se algum dia forem assinados estes maus acordos com a China, obviamente terão o apoio do Papa, então eu me retirarei em silêncio para uma vida monástica. Não serei chefe de rebelião contra o Sumo Pontífice, o Vigário de Cristo na Terra”.

17 de fevereiro de 2018

Em nome da “tolerância”, não se tolera o que você pensa!


Paulo Roberto Campos 

Devido a uma viagem e ao acúmulo de trabalhos inadiáveis, em meu retorno “ao batente” deparo sobre a mesa com um monte de revistas que costumo acompanhar. Assim, somente ontem consegui ler uma VEJA de 15 de novembro último. Nela, encontrei um artigo extraordinário. Intitulado “Um País de chatos”, é assinado por um de seus mais célebres colunistas, J.R. Guzzo. 

Esse grande e mordaz jornalista aborda muito bem uma questão, que eu qualificaria como sendo uma nova inquisição contra quem não se caracteriza por ser “politicamente correto”; uma nova inquisição contra aqueles que pensam sem levar em consideração o “pensamento” imposto pelo “modismo” (ou idiotismo...) difundido pela grande mídia esquerdista.

A foto acima — que flagrei na Avenida Paulista no dia 15 de dezembro — exemplifica a questão. Durante uma manifestação do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira contra a imposição da ideologia de gênero às crianças escolares, um grupo organizou uma contramanifestação que quase degenerou em agressão. Com que argumento? Nenhum! Apenas gritavam “FASCISTAS”, “HOMOFÓBICOS”, “RACISTAS”, insultos que esquerdistas lançam contra todos que não pensam como eles. Qualquer um que defenda um valor moral é estigmatizado de “fascista”. Qualquer um que não apoie o “casamento” de duplas do mesmo sexo é tachado “homofóbico”... Evidentemente, constamos que são termos utilizados por pessoas que não têm argumentos, nem sabem o que dizem. Não sabem esses esquerdistas, adoradores de Max, que o fascismo tem sua origem no marxismo?! Não sabem que Mussolini era marxista?! Portanto, o Duce italiano é pai dos esquerdistas, que, entretanto, acusam os direitistas de “fascistas”... 

Pobres esquerdistas, aqueles que na falta de argumentos apelam para insultos. Estes não atingem o alvo, mas, como um bumerangue, voltam-se contra eles e revelam que são cheios de nada, vazios de tudo — características de um perfeito idiota.

Razão tinha Nelson Rodrigues ao afirmar que “Os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos”

Recomendo a leitura do artigo acima mencionado, no qual assinalei em negrito alguns trechos que mais me chamaram a atenção.

UM PAÍS DE CHATOS 


Por J.R. Guzzo 
VEJA, 15-11-2017 (p. 50-51) 

Seria possível Nelson Rodrigues [foto ao lado] existir como autor no Brasil de hoje? Não dá para saber com certeza científica, mas é extraordinariamente difícil imaginar que pudesse escrever e dizer tudo o que escreveu e disse. Quem deixaria? Nelson Rodrigues é o maior autor de teatro que o Brasil já teve — seu nome estaria no topo da literatura mundial se não tivesse nascido, vivido e escrito na língua-portuguesa. Mas hoje seria considerado uma ameaça nacional. A mídia veria nele um agente da “onda conservadora” ou uma voz da “extrema-direita”; estaria banido pela boa sociedade cultural brasileira como intolerante, preconceituosa e fascista. Os educadores públicos fariam objeções à leitura de seus textos nas salas de aula. Sua entrada poderia ser proibida no departamento de novelas da Rede Globo. Procuradores e juízes estariam em cima dele o tempo todo, tentando condená-lo por machismo, racismo ou homofobia.

Pense um pouco no que Nelson estaria escrevendo, por exemplo, sobre transgêneros, “feminicídio” ou a indignação contra o papel higiênico preto — isso para não falar do homem nu como obra de arte, ou nas multas aplicadas aos clubes de futebol quando a torcida grita para o goleiro de outro time. Não dá. Nelson Rodrigues não cabe no Brasil de 2017.

Como poderia ser diferente, num País tão empenhado no policiamento da atividade de pensar? Não existe hoje no Brasil nenhuma obrigação moral e cívica mais cobrada do cidadão do que se manifestar contra o “preconceito” e a “intolerância”. Não espere, portanto, nenhum Nelson Rodrigues num ambiente assim. Em vez disso, fique atento às suspeitas da ocorrência, próxima ou distante, de qualquer comportamento que possa ser classificado como preconceituoso ou intolerante. Aí, se quiser ser um bom cidadão, assine o mais depressa possível um manifesto de condenação, desses que aparecem todos os dias no jornal — ou, se não tiver cacife para tanto, por não ser licenciado como celebridade, faça alguma coisa a respeito, nem que seja um telefonema anônimo para o “Disque-Denúncia” mais próximo. É fácil descobrir a opinião que você deve ter a respeito dos assuntos em circulação. Preconceito e intolerância, em termos práticos, são o que o Comitê Brasileiro de Vigilância do Pensamento decreta, de hora em hora, que são preconceito e intolerância.

Que “comitê” é esse? É o habitual aglomerado de artistas, com ou sem obra, pessoas descritas como intelectuais, com ou sem intelecto visível, e gente de currículo em estado gasoso, mas que por alguma razão é apresentada como “importante”. São eles os árbitros, hoje em dia, do que é certo ou errado neste país. Decidem como todos os demais cidadãos devem se comportar dos pontos de vista moral, social e político. Não toleram que alguém demonstre intolerância — é assim que chamam, automaticamente, qualquer ponto de vista não autorizado por seu livro de regras. O delito essencial, por esse catecismo é pensar com a própria cabeça a respeito de uma lista cada vez maior de assuntos. Sobre cada um deles há decisões já tomadas em última instância; são apresentados diariamente nos meios de comunicação.

O resultado é que o combate a tudo o que possa ser carimbado como intolerância está criando no Brasil mais uma raça de intolerantes. Acaba de ser derrubado no STF, por exemplo, a regra baixada quatro anos atrás pelos organizadores do Enem pela qual levam nota zero os estudantes que escreveram na prova de redação alguma coisa considerada contrária aos “direitos humanos”. Considerada por quem? Por eles mesmos, os burocratas do “Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais.” Ou seja: nomearam a si próprios árbitros do que os alunos podem ou não podem pensar e dão zero quando não gostam do que o aluno pensa. Nem no regime militar se chegou a esse grau de megalomania na tentativa de controlar o pensamento alheio; nunca, na época, alguém assinou um papel em que se determinava a anulação de provas de conteúdo subversivo. Quem é essa gente para decidir o que você pode dizer?

Outro exemplo comum de hostilidade a ideias discordantes é a conversa da “identidade de gênero” — ou a questão, ou até a “causa”, das pessoas atualmente descritas como “transgêneros”. Ficou estabelecido, como princípio moderno e gerador de mais justiça, que os seres humanos não devem ser diferenciados, para propósitos de identificação, pelo sexo anatômico com que nasceram. Podem escolher o gênero que combina mais com o seu jeito de ser, no momento em que julgarem necessário fazer essa opção. Não há nenhuma razão para a sociedade se escandalizar com quem não concorda, ou não entende, que as coisas sejam assim — ou não acredita que esse seja um assunto de interesse universal. Qual é o problema? Não deveria ser considerado intolerante, retrógrado ou totalitário quem acredita que os sexos são só dois, masculino e feminino. Ou que todo ser humano, sem exceção, tem um pai e uma mãe, que obrigatoriamente são um homem e uma mulher. Ou que é impossível um homem ficar grávido, por lhe faltarem um útero, trompas, ovário. Não pode haver, é claro, nenhum problema com nada disso. Só que há.

A lista de pecados capitais contra o pensamento obrigatório vai longe. Você estará perto da blasfêmia se argumentar que animais não têm direitos, pois a noção de direito se aplica unicamente a seres humanos — animais não podem ter o direito a votar, por exemplo, ou ter nacionalidade, ou de receber salário mínimo. Mas dizer isso é infração gravíssima.

Está vetado, igualmente, o debate sobre questão ambiental como um todo; é considerado suspeito qualquer pedido de mais pesquisas científicas sobre temas como o aquecimento global, ou a cobrança de dados mais seguros sobre a previsão de que o Rio de Janeiro vai ser engolido pelo mar daqui a alguns anos. Defensivos agrícolas são uniformemente descritos como “agrotóxicos”; não insista. Também é tido como preconceito grave discordar da ideia de que o crime do Brasil é “um problema social” e que os criminosos, portanto são vítimas da sociedade, e não agressores. O deputado Jair Bolsonaro foi condenado por uma juíza do Rio de Janeiro, ainda outro dia, por ter feito piada de quilombola durante uma palestra. A Constituição, obviamente, proíbe que um deputado seja punido por falar o que lhe passa pela cabeça, mas a juíza argumentou que “política não é piada” e foi em frente. Não é piada? De que país ela está falando?

A intolerância contra opiniões que incomodam começa a produzir, depois de algum tempo, disparates como esse. É uma surpresa que o Ministério Público ainda não tenha proibido as piadas de papagaio, ou que uma juíza não tenha decretado que a dama deve valer a mesma coisa que o rei no jogo de baralho. Vai se inventando, de cima para baixo, uma sociedade mal-humorada, neurastênica e hostil à liberdade de expressão. É um ambiente que convive mal com a observação dos fatos, a ciência e o raciocínio lógico. Estão construindo, talvez acima de tudo, um país de chatos.

14 de fevereiro de 2018

Arcebispo esbofeteia impiedosamente a verdade


Péricles Capanema

“Neste momento, os que melhor aplicam a doutrina social da Igreja são os chineses”. Chineses aqui são o Partido Comunista da China e o governo da China Popular. O autor da frase é o arcebispo Dom Marcelo Sánchez Sorondo [foto ao lado], chanceler da Pontifícia Academia das Ciências e da Pontifícia Academia de Ciências Sociais. Argentino como o Papa Francisco, é tido como conselheiro próximo do Pontífice. 

Meses atrás o Prelado visitou rapidamente a China, foi recebido com salamaleques em visita controlada e agora, repentinamente, resolveu falar. Desembestou nas bajulações escandalosas: “Os chineses buscam o bem comum, subordinam as coisas ao bem geral. Encontrei uma China extraordinária, o que o pessoal não sabe é que o princípio central chinês é trabalho, trabalho, trabalho. Nada além, no fundo é como dizia São Paulo, quem não trabalha, que não coma. Não têm favelas, não têm drogas, os jovens não têm droga. Existe como que uma consciência nacional positiva”. Pequim “está defendendo a dignidade da pessoa, seguindo mais que outros países a encíclica de Francisco ‘Laudato sì’”

Para ficar completo o servilismo, não poderia faltar o ataque aos Estados Unidos: “A economia não domina a política, como acontece nos Estados Unidos. Como é possível que as multinacionais do petróleo manipulem o Trump? O pensamento liberal liquidou o conceito de bem comum. Em sentido contrário, os chineses propõem trabalho e bem comum”

Abaixo lembrarei pontos de doutrina. Antes, fatos. Afirmei acima, repentinamente o Prelado resolveu falar. Em termos. Tais declarações não devem ser vistas no mínimo apenas como cadência trágica de covardias diante do tirano intimidador e prepotente. Além de eventuais consonâncias ideológicas — sempre presente entre o Progressismo e o Comunismo (são delas tristes e frisantes exemplos frei Betto e o ex-frei Boff) — esse rebaixamento degradante deve ser analisado no contexto da presente aproximação entre o Vaticano e o governo chinês. 

As notícias a respeito das tratativas puseram em choque os católicos e bispos fieis a Roma, hoje na clandestinidade (a chamada Igreja subterrânea), preteridos por bispos e seguidores da Associação Patriótica Católica Chinesa, organismo estatal fundado em 1957 pelo governo para controlar os católicos do País (ela comanda a chamada Igreja oficial, subserviente a Pequim). A mencionada Associação, segundo texto dela, procura implementar “os princípios da independência e autonomia, autogestão e administração democrática” na Igreja Católica da China. Resumido, é organização fantoche do governo e do Partido Comunista. Alguns de seus membros nem se declaram católicos. 


Emissários da Santa Sé tentam subordinar a ação pastoral de bispos leais a Roma aos bispos indicados por Pequim, subordinar a Igreja subterrânea à Igreja dita patriótica; em uma palavra, são entregues os perseguidos aos perseguidores. O Cardeal Dom Joseph Zen [foto ao lado], arcebispo resignatário de Hong Kong, tomou a defesa dos bispos e dos católicos leais a Roma, abrindo crise séria com a Santa Sé. Adverte o anterior Cardeal de Hong Kong: “Nos últimos dias, irmãos e irmãs vivendo na China continental foram informados que o Vaticano está pronto para se render ao Partido Comunista da China”. Continua o Purpurado: “Percebendo que os bispos ilegítimos e excomungados vão ser legitimados e que os bispos legítimos serão obrigados a se demitir, é forçoso que os bispos legítimos e clandestinos estejam preocupados com seu destino. Quantas noites de sofrimento padres e leigos terão de passar pensando que, curvados, terão de obedecer bispos agora ilegítimos e excomungados, amanhã legitimados pela Santa Sé e apoiados pelo governo?”

O Cardeal Zen informou ainda que o Papa Francisco o advertiu, não quer um “novo caso Mindszenty”. O Cardeal Mindszenty [foto acima] se opôs ao governo comunista húngaro e à política de aproximação de Paulo VI com o governo comunista húngaro.

Outros fatos. Dom Sánchez Sorondo garantiu, os chineses “não têm drogas, os jovens não têm droga”. Vai contra o que dizem os próprios chineses. A Comissão Nacional de Controle de Narcóticos, órgão do governo comunista chinês, em recente declaração oficial advertiu que o problema das drogas no país está “se disseminando com grande velocidade”. E a organização Human Rights Watch condena o “tratamento cruel, desumano e degradante” padecido pelos viciados e traficantes nas prisões chinesas. Uma parte, e não pequena, é fuzilada, outra é internada compulsoriamente em locais de reabilitação. A China, que não fornece dados, apavorantes certamente, é tida como o que mais fuzila condenados no mundo, milhares anualmente. Existência de
favelas. Sonha dom Marcelo: a China “não tem favelas”. Pergunta o padre Bernardo Cervellera [foto acima], missionário do Instituto Pontifício de Missões Exteriores (PIME) e diretor de AsiaNews, especialista em assuntos chineses: “Nosso bispo tentou ir ao sul de Pequim? Ali o governo está fazendo sem-tetos aos milhares, desalojando trabalhadores migrantes. Visitou a periferia de Shanghai? Visitou as periferias das grandes megalópoles chinesas?” [um exemplo ao lado] Claro, nada disso viu o apressado e louvaminheiro eclesiástico. 

Agora, um ponto de doutrina. João XXIII, na “Mater et Magistra” define o bem comum como o conjunto das condições da vida social que permite às pessoas, às famílias e aos grupos alcançarem de maneira mais fácil e plena a própria perfeição. Fica claro, o bem comum facilita a busca da perfeição nos mais variados campos. Começo pelo religioso. No caso, o bem comum deve facilitar a “salus animarum”, a salvação das almas. As gravíssimas advertências do Cardeal-Arcebispo resignatário de Hong Kong me dispensam de comentar qualquer coisa a respeito. Falei em liberdade religiosa. Recordo agora o ambiente favorável ao desenvolvimento das virtudes morais (alcançar mais facilmente a própria perfeição, ensina João XXIII). O governo chinês as favorece? Por exemplo, o fortalecimento da personalidade, com a consequente ampliação do âmbito da autonomia, é favorecido por governos totalitários? Seria um disparate afirmá-lo. Favorece o pleno desenvolvimento das famílias? E a política, agora oficialmente suprimida pelo desastre monumental que ocasionou, de um filho por família? E a imposição dos abortos? Milhões e milhões de abortos impostos a cada ano. Poderia lembrar, sem fim, pontos apavorantes. 

Foi título do artigo: Arcebispo esbofeteia impiedosamente a verdade. Está bem, mas vou acrescentar um advérbio: O Arcebispo esbofeteia impune e impiedosamente a verdade. Deixando mais claro: Na subserviência escandalosa aos tiranos, o Arcebispo impune, impiedosamente esbofeteia a verdade.

QUARTA FEIRA DE CINZAS


Dia de jejum e abstinência de carne. 

Durante a Quaresma, a Igreja preparava os catecúmenos para o batismo solene e tinha especial empenho na reconciliação de pecadores públicos. Estes recebiam as cinzas, símbolo da penitência pelo pecado. 

Posteriormente a Santa Igreja começou a aplicá-las também a todos os fiéis, na Quarta-Feira de Cinzas, para que, depois dos descalabros e orgias do Carnaval, eles tivessem presente o pensamento da morte e da consequência do pecado como preparação para a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. 

Reza a Liturgia: “Memento homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris” (“Lembra-te homem que és pó e que em pó hás de tornar”).

11 de fevereiro de 2018

LOURDES – 1858-2018

Imagem de Na. Sra. de Lourdes venerada na Igreja do Sagrado Coração Jesus [Foto PRC] 


Em memória do 160º aniversário das aparições de Nossa Senhora a Santa Bernadette em Lourdes, reproduzimos a seguir trecho de uma conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, em 10 de fevereiro de 1965, sem sua revisão. 


Plinio Corrêa de Oliveira

Nossa Senhora de Lourdes desejou ser conhecida enquanto sumamente benfazeja. Assim, sugiro pensarmos numa grande graça para pedir a Ela. Devemos ser ousados em nossas orações, pedir coisas arrojadas, não coisas insensatas, e pedir com muita insistência. Por exemplo, pedir uma graça que diga respeito à santificação, e depois algo que se queira de temporal, mas que Ela nos conceda se for para o bem de nossas almas. Isso nos leva a refletir no panorama de nossa vida espiritual, a ter uma visão de nós mesmos e de nossas atividades. 

Na igreja do Sagrado Coração de Jesus [na capital paulista] há uma gruta com uma imagem de Nossa Senhora de Lourdes [foto ao lado e acima]. Não é uma imagem qualquer, é a própria imagem que era venerada na Basílica de Lourdes, na França, antes da imagem atual, segundo documento [foto abaixo] guardado na igreja. Portanto, essa imagem constitui um elo entre Lourdes e o Brasil. 

Nunca devemos nos esquecer de que no Evangelho as doenças do corpo são tratadas como sendo símbolos de doenças da alma. Assim como alguns sofrem paralisia do corpo, outros sofrem paralisia de alma; alguns sofrem de cegueira no corpo, outros na alma; surdez, mudez e outras enfermidades. Se tivermos defeitos de alma que desejamos corrigir, seria o momento adequado de os levarmos àquela gruta de Nossa Senhora de Lourdes e pedir a Ela que nos cure.

Para ampliar, click na foto
Isso tem muita razão de ser, pois se a Virgem Santíssima deseja tanto curar corpos perecíveis e mortais, quanto mais desejará curar almas imperecíveis e imortais. Nosso Senhor Jesus Cristo não veio à Terra para salvar corpos, veio para salvar almas. 

Nossos pedidos não podem deixar de ser muito gratos a Ela. Pedidos feitos para nós ou por outrem; por alguém a quem desejamos fazer um bem; por uma alma cujas dificuldades nos amedrontam; por um amigo cujas aflições, tentações ou perigos constituem para nós uma fonte de preocupação.

10 de fevereiro de 2018

Ultrajes contra Jesus Cristo nos dias de Carnaval

Meditação de Santo Afonso Maria de Ligório* apropriada para os dias carnavalescos, que ele classifica como "dias de extravagância diabólica", nos quais Jesus "será crucificado centenas e milhares de vezes" 



Santo Afonso Maria de Ligório
Consummabuntur omnia quae scripta sunt per prophetas de filio hominis — Será cumprido tudo o que está escrito pelos profetas a respeito do Filho do homem (Lc 18, 31). 

Não é sem uma razão mística que a Igreja propõe à nossa meditação Jesus Cristo predizendo a sua dolorosa Paixão. Como nossa boa Mãe, ela deseja que nós, seus filhos, nos unamos a ela, para nos compadecermos do seu divino Esposo e o consolarmos com os nossos obséquios, ao mesmo tempo em que os pecadores, nestes dias mais do que em outros, lhe renovam todos os ultrajes descritos no Evangelho. Quer ela também que roguemos pela conversão de tantos infelizes, nossos irmãos. Acaso não temos motivos suficientes para isso?

Nestes tristes dias os cristãos, e quiçá entre eles alguns dos mais favorecidos, trairão como Judas o seu divino Mestre e o entregarão nas mãos do demônio. Eles o trairão, já não às ocultas, mas nas praças e vias públicas, fazendo ostentação de sua traição! Eles o trairão, não por trinta dinheiros, mas por coisas mais vis ainda: pela satisfação de uma paixão, por um torpe prazer, por um divertimento momentâneo!


Illudetur, flagellabitur et conspuetur (será motejado, flagelado e coberto de escarros). Uma das baixezas mais infames que Jesus Cristo sofreu em sua Paixão, foi que os soldados lhe vendaram os olhos e, como se ele nada visse, o cobriram de escarros e lhe deram bofetadas, dizendo: Profetiza agora, Cristo, quem te bateu? Ah, meu Senhor, quantas vezes esses mesmos ignominiosos tormentos vos são de novo infligidos nestes dias de extravagância diabólica! Pessoas que cobrem o rosto com uma máscara, como se Deus assim não pudesse reconhecê-las, não têm pejo de vomitar em qualquer parte palavras obscenas, cantigas licenciosas, até blasfêmias execráveis contra o santo Nome de Deus! 

Et postquam flagellaverint, occident eum (e depois de o terem açoitado, o farão morrer). Sim, pois segundo a palavra do Apóstolo, cada pecado é uma renovação da crucifixão do Filho de Deus. Ah! nestes dias Jesus será crucificado centenas e milhares de vezes. 

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(*) Santo Afonso Maria de Ligório, Meditações para todos os dias e festas do ano. Tomo I, Herder & Cia, Friburgo, 1921, p. 279-280.

9 de fevereiro de 2018

“Carnaval: tempo de minhas dores e aflições”


ALGUMAS FRASES PARA REFLEXÃO


“O carnaval é um tempo infelicíssimo, no qual os cristãos cometem pecados sobre pecados, e correm à rédea solta para a perdição” 
(São Vicente Ferrer) 

“Carnaval: tempo de minhas dores e aflições” 
(São Francisco de Sales) 

“Oh! Que tempo diabólico!” 
(Santa Catarina de Siena) 

“Nestes três dias de carnaval, tivemos o Santíssimo Sacramento exposto. São dias de festa e ao mesmo tempo de tristeza. Podemos fazer tão pouco para reparar tanto pecado” (Santa Teresa dos Andes) 

“Se alguém procede durante o carnaval de modo extremamente leviano, é isto uma prova de que anteriormente já havia uma falha na couraça moral dessa pessoa. Por outro lado, se essa falha pode ter ocasionado a renúncia momentânea a certas atitudes e a certas ideias durante o carnaval, como é difícil voltar depois à primitiva linha de moral!” 
(Plinio Corrêa de Oliveira)

4 de fevereiro de 2018

BÉCASSINE

Verdadeiros tratadinhos de sociologia viva 


Plinio Corrêa de Oliveira (*) 

Sempre considerei um verdadeiro sociólogo o artista Joseph Pinchon (1871-1953), autor dos desenhos dos livros de Bécassine, personagem da literatura infantil da época. Camponesa da Bretanha, Bécassine era filha do casal Labournez. Viviam em Clocher-les-Bécasses, cidadezinha de nome encantador que existia em função do castelo de Monsieur e Madame de Grand-Air, os marqueses da região.

Comparadas com as roupas e os modos de ser no meu tempo de menino [início do século XX], as ilustrações mostram características do ambiente social equivalente em São Paulo, consideravelmente afrancesado.
Os livros de Bécassine são verdadeiros tratadinhos de sociologia. Uma cena característica, anterior à Primeira Guerra Mundial, mostra o batizado na família de Bécassine — uma festa de camponeses, para a qual a marquesa foi convidada — onde se destacam três pessoas: a marquesa, o cocheiro e Monsieur Labournez.

Madame de Grand-Air aparenta uns trinta anos, com algo ainda de moça e algo de senhora. O modo como ela ergue os braços é sumamente distinto. O braço sustentando a sombrinha é tão leve, que dir-se-ia não estar sujeito à ação da gravidade. Com o outro braço ela saúda Monsieur Labournez de modo afável.

O pudor do traje é notável. Está toda coberta, os braços revestidos de grandes luvas de pelica branca que chegam até a manga. Demonstra grande segurança, sentada com o porte alto e o olhar benévolo para Monsieur Labournez. Ela o olha muito de cima, sabe marcar a distância, mas também sabe passar por cima dessa distância. De ponta a ponta, é como um arco-íris de benevolência e simpatia.

A importância dela é realçada pelo cocheiro. Com jeito teso e a corpulência de um banqueiro ufano de sua importância, ele guia o coche e sua fisionomia parece dizer: Abram caminho para a marquesa de Grand-Air. Essa atitude do cocheiro contrasta com a afabilidade da marquesa. Fica bem uma senhora desse nível fazer-se preceder por um homem capaz de defendê-la, garantindo a segurança e dando-lhe a possibilidade de ser muito graciosa, acolhedora e leve.

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(*) Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 14 de maio de 1980. Sem revisão do autor.

3 de fevereiro de 2018

DEUS NÃO MORRE!


Plinio Maria Solimeo

Há vários tipos de ateus. O dicionário Houaiss os define como pessoas que não creem em Deus ou nos deuses; ateístas. E, no sentido pejorativo, os que ou aqueles que não revelam respeito ou deferência para com as crenças religiosas alheias; ímpios, hereges. Poder-se-ia acrescentar “os meramente indiferentes em matéria de religião”, que representam a maioria.

Nesse sentido, poder-se-ia afirmar que o emblemático Juliano, o Apóstata [busto ao lado], tido como ateu afamado que tentou exterminar o cristianismo ainda dando os seus primeiros passos do Império Romano, embora se dissesse ateu, no fundo acreditava em Deus, e O odiava. Consta que, ao morrer vítima de uma flechada durante batalha, exclamou: “Venceste, Galileu!”

Poderíamos dizer o mesmo do regime comunista que procurou exterminar do seu “império” toda ideia de Deus e, por conseguinte de religião, como prejudiciais à sua ideologia e métodos de doutrinação. Interessante artigo publicado no site católico espanhol, Religión en Libertad, traz o sugestivo título: “Há 100 anos, o Estado Soviético fuzilava Deus: hoje, 7 entre 10 pessoas declaram sua crença n’Ele”.

Escreve o articulista que há 100 anos, no dia 16 de janeiro de 1918, houve um “Juízo do Estado Soviético contra Deus”, que acabou de modo sumário no dia seguinte: Deus foi condenado à morte, tendo sido disparados cinco rajadas de metralhadora rumo ao céu. À época “os bolcheviques se encontravam apenas há três meses no poder, e controlavam Moscou, São Petersburgo e a zona central da Rússia. Não obteriam o controle total do país senão em outubro de 1922, com a conquista da distante Vladivostok e o fim da guerra civil. Em janeiro de 1918 não havia ainda começado a matança de clérigos. ‘Fuzilar Deus’ era um gesto simbólico e humilhante para ir mostrando [à população] a nova situação”

O responsável por essa pantomina foi Anatóli Lunatcharski [foto ao lado], um intelectual que gostava de encenação. Assim, no dia marcado, diante de numeroso público moscovita, ocorreu a primeira seção do juízo contra Deus. Durante mais de cinco horas, foram lidas as acusações do “povo russo, em representação da espécie humana”, contra “o réu”. A mais protuberante delas: Deus é acusado de “genocídio”. 

Como era impossível personificar o réu, foi colocado num banquinho um exemplar da Bíblia para representá-Lo. Os acusadores “apresentaram” então grande quantidade de provas, baseadas em testemunhos históricos, contra o “réu”. Para demonstrar imparcialidade no julgamento, foram nomeados defensores para o réu, escolhidos pelo Estado Soviético.

Aqueles ímpios “defensores” pediam a absolvição do “réu”, pois ele padecia de “grave demência e transtornos psíquicos”, não sendo, portanto, responsável pelos seus atos. Não podia ir mais longe o burlesco daquela encenação. O resultado não poderia ter sido diferente: Deus foi declarado culpado de todos os delitos, sobretudo, de genocídio e crimes contra a humanidade.

Lunatcharski — com pompa teatral — proclamou a sentença: “Deus morrerá fuzilado amanhã dia 17 de janeiro, sem possibilidade de interpor qualquer tipo de recurso, nem ocorrer o mínimo atraso”. Assim se passou. No dia seguinte houve a “execução” de Deus com o disparo de cinco rajadas de metralhadoras contra o céu... 

*       *       * 
Ora, diz o articulista: “Uma vez que se mata Deus, matar homens não custa nada”. Daí os milhões de vítimas dos regimes comunistas. Essa política ferozmente antirreligiosa, entretanto, se mostrou contraproducente. De modo que, por ocasião da morte de Lenin em 1924, O.Y. Liovin, especialista em História da Igreja Russa, pôde dizer: 

“Ferir os sentimentos religiosos dos crentes, profanar o sagrado, fechar os templos, reprimir o clero [...] tudo isso, de fato, serviu para unir os crentes e provocar um renascimento religioso. De modo que, depois de uma política de carga de cavalaria, o regime recomendou adotar a política de assédio a longo prazo”

Os comunistas viram a necessidade urgente de mudar a tática, seguindo meio mais eficaz de “descristianizar” o povo. Uma circular do Partido, de 5-9-1924, ordenava:

“A propaganda antirreligiosa deve ser levada em forma de explicações das ciências naturais e políticas, que minem a fé em deus, e desmascarem, com fatos concretos, a fraude e a avareza dos milagreiros, curadores. É preciso evitar a agitação antirreligiosa massiva [...] que insulte e fira os sentimentos da parte crente da população”

Por isso, dizemos, o melhor método que encontraram no Ocidente foi o da infiltração comunista nos meios católicos, e inclusive eclesiásticos. Os sem-Deus chegaram à conclusão diabólica de que, a longo prazo, para descristianizar a população, o melhor era começar pelas crianças, nas escolas.

Assim, em março de 1929, antes da retomada das matanças, Lunatcharski, que era então Ministro da Educação, escrevia no jornal “Izvestia”: 

“Na tarefa da educação [...] entra a dissipação de superstições de toda classe, e uma luta sem quartel contra todo obscurantismo, herança do passado, estorvo para a criação do futuro. Em concreto, a escola [...] não pode ser alheia à luta contra a religião, em suas formas velhas ou novas”.

Ora, para os comunistas conseguirem sucesso nessa empreitada, necessitavam de professores ateus. Assim Lunatcharski continua: 

“O Comissariado Popular da Educação [...] declara firmemente que, ter mestres crentes na escola soviética, é uma grave contradição, e que os departamentos de educação devem utilizar qualquer expediente para substituí-los por outros de veio antirreligioso. [...] A escola terá que aplicar seu esforço para dissuadir às crianças de visitar a igreja e as variadas cerimônias religiosas e [...] oferecer-lhes, ao mesmo tempo, um equivalente na escola, algo organizado, algo antirreligioso e ao mesmo tempo atraente”

Infelizmente é o que ocorre em nossas escolas onde, mestres ateus tentam impingir nos seus incautos alunos teorias como a absurda Ideologia de Gênero, de “família” homoafetiva e outros absurdos. 

Apesar de todo esforço de ateização, o sentimento religioso é tão enraizado nas pessoas que, no censo russo de 1937, depois de 20 anos de comunismo e repressão antirreligiosa, de 30 milhões de cidadãos analfabetos maiores de 16 anos, 84% (mais de 25 milhões), ainda se declaravam crentes.

E de 68,5 milhões de alfabetizados, 45% (mais de 30 milhões), ainda criam em Deus. É curioso notar que, entre os analfabetos, a proporção dos crentes foi mais expressiva do que a dos alfabetizados. Bons tempos em que os canais de televisão — muito pouco crédulos — não invadiam a privacidade do lar, até nas mais remotas regiões, para modificar mentalidades com os obscenos conteúdos de novelas. 

Isso deixou os bolcheviques furiosos, e recomeçaram então as matanças. Entre os anos 1937 e 1938, houve 100 mil execuções e 200 mil deportações. De 1939 a 1942, como já havia pouca gente para matar, houve “só” 4 mil execuções. Nesse último ano, como Stalin precisava gente para a guerra, parou a perseguição sangrenta. 

O artigo não apresenta dados mais recentes, mas cita uma pesquisa da agência WinGallup, de 2017, na qual consta: de cada 10 pessoas no mundo, 7 creem em Deus. Isso praticamente se inverte na China, onde prevalece a ditadura comunista que persegue a religião: de cada 10 chineses, 7 se declaram ateus. 

Por fim, assinalo que essa farsa sacrílega de “matar Deus” foi imitada pelos comunistas espanhóis durante a guerra civil espanhola de 1936. Um grupo deles foi até o Cerro de los Ángeles [foto ao lado], nos arredores de Madrid, onde se encontrava uma grande imagem do Sagrado Coração de Jesus, e “a fuzilaram”, como se se tratasse de pessoa viva, mostrando bem que aprenderam a lição com seus mestres do Kremlin.