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11 de dezembro de 2019

Aspectos nobres e grandiosos da noite

➤  Plinio Corrêa de Oliveira 

Um modo trivial de considerar as horas do dia é de acordo com as necessidades do nosso corpo, e assim se diz comumente que a manhã é a hora em que as pessoas se levantam e iniciam seu trabalho; o meio dia, aproximadamente a hora em que almoçamos; e à noite se dorme, se descansa. 


Quanto à noite, há um modo físico de considerá-la, como a parte do dia em que há escuridão; ou o período em que as pessoas não trabalham. Mas essas considerações não abrangem tudo que realmente se concebe por noite. Todas as forças malignas da natureza se desatam quando escurece. Enquanto colibris, águias e pombas dormem, os bichos selvagens, como morcegos e répteis, saem de suas tocas e começam a vaguear. É a hora em que as febres aumentam, as doenças pioram e a maioria dos crimes são cometidos. Há um desatar de forças maléficas durante a noite, que durante o dia ficam subjugadas. 

Joseph de Maistre, que viveu numa época em que não havia telefone, comentava que durante as noites ele permanecia sem informações sobre amigos doentes, pois os perigos da noite — quando também aumentam as doenças, mortes, desenlaces trágicos — o impediam de mandar o lacaio à casa deles, para saber como estavam passando. 

Entretanto a noite, sendo a hora em que os homens repousam, em que as atividades quotidianas cessam, tem concomitantemente algo que de certo modo é contrário a este. Trata-se do aspecto belo e grandioso da noite, em que os homens de contemplação e de pensamento tomam certo recuo em relação às coisas. É a hora da análise, da reflexão, a hora em que os homens se elevam acima do trivial diário, em que empreendem o voo de seu espírito e de sua capacidade de meditação.


Jesus Cristo na vigília noturna no Horto das Oliveiras
A noite é a hora da oração, em que Deus parece velar assiduamente pelos que estão dormindo. É também a hora na qual os homens mais facilmente conseguem, por meio da prece, obter de Deus o que desejam. É a hora em que vigiam os que sofrem, os que se sacrificam pela Igreja. É a hora em que se empenham defensivamente os que são tentados, atormentados, e que não conseguem conciliar o sono. Nesta hora se medita e se reza. 

Há algo de particularmente digno na meditação noturna, e isto confere à noite uma espécie de nobreza, que nem o meio dia, com o sol no seu apogeu, consegue proporcionar. Nessa hora a vida adquire um colorido especial, mais nobre, mais alto. Esta nobreza e solenidade da noite é um fato. A tal ponto que certos atos solenes são realizados à noite, por ficarem revestidos de maior pompa do que se fossem realizados durante o dia.


Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 30 de junho de 1965. Esta transcrição não passou pela revisão do autor.

4 de setembro de 2014

PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL / 1914 – 2014

Paulo Roberto Campos 
Muito se tem falado sobre os 100 anos da Primeira Guerra Mundial, mas pouco de suas reais consequências. Iniciada em 28 de junho de 1914, com o assassinato do herdeiro do Império Áustro-Húngaro, o Arquiduque Francisco Ferdinando (Sarajevo), a hecatombe só encerrou-se em 1918, acarretando no mundo inteiro sérias consequências, profundo desmoronamento de valores morais, graves cicatrizes na Civilização Cristã. 


Naqueles primórdios do século passado, num clima saturado de otimismo, dançavam-se as valsas vienenses nos faustosos salões iluminados pelas recém-inventadas lâmpadas elétricas e exalavam-se os melhores perfumes da Belle Époque. 

Na Paris de 1900, a capital da “douceur de vivre” [doçura de viver], realizou-se a primeira grande exposição universal. Visitantes de todos os quadrantes da Terra lá estiveram, prestando admirados suas homenagens aos surpreendentes progressos que a técnica acabara de descobrir. 

Nascia a era apoteótica da máquina. Despontava a civilização industrial e o mundo mecanizado, nos quais os homens esperavam poder viver plenamente felizes — a tecnologia resolveria todos as dificuldades, a ciência eliminaria as doenças e, quiçá, até a morte. 

Essa concepção de vida é denunciada por Plinio Corrêa de Oliveira em sua magna obra "Revolução e Contra-Revolução":
“Auto-suficiente pela ciência e pela técnica, [o homem] pode ele resolver todos os seus problemas, eliminar a dor, a pobreza, a ignorância, a insegurança, enfim tudo aquilo a que chamamos efeito do pecado original ou atual. [...] Nesse mundo, a Redenção de Nosso Senhor Jesus Cristo nada tem a fazer. Pois o homem terá superado o mal pela ciência e terá transformado a terra em um ‘céu’ tecnicamente delicioso. E pelo prolongamento indefinido da vida esperará vencer um dia a morte” (Parte I, Cap. XI, 3). 
Com uma tal mentalidade a entrava a humanidade nessa nova era, que prometia “um paraíso na Terra”. E entrava eufórica, como eufórica ingressara no Titanic — o fabuloso e gigantesco palácio flutuante — os futuros náufragos daquele colosso “insubmergível” que hoje jaz no fundo do oceano.

Como um raio céu sereno, o assassinato do herdeiro do Império Áustro-Húngaro, executado por um anarquista sérvio, foi a centelha da Primeira Guerra Mundial. Teria sido um castigo da Providência? Por quê? Não teria sido pelo fato de a humanidade ter posto mais fé na ciência e na tecnologia do que no Criador de todas as coisas? 


Pior que a própria guerra foram as suas consequências: o continente europeu foi profundamente abalado por um psy-terremoto que fez tremer o magnífico edifício da Civilização Cristã e revolucionar os costumes. Apesar de seu “epicentro” ter ocorrido no Velho Mundo, seus efeitos fizeram-se sentir em todo o orbe. No Brasil, por exemplo — que vivia até então tranquilo, tendo como polo de atração a Europa, particularmente Paris —, uma profunda modificação transformou as mentalidades e os modos de ser. Novos “valores” emergiram, os costumes mais tradicionais foram abalados, tudo em nome da modernidade lançada pelos Estados Unidos — a American way of life —, especialmente do cinema, a grande novidade da época. Hollywood passou a ser o novo polo de atração mundial. 

O mundo saído das trincheiras da guerra de 1914-1918 era completamente outro. A Europa católica foi a grande prejudicada, de modo especial o glorioso Império Áustro-Húngaro. As suaves melodias das valsas vienenses foram abafadas pelos grunhidos do fox trot e os ruídos da jazz band, oriundos da América do Norte. Usando linguagem metafórica, em artigo publicado no “O Legionário” (13-5-1945), Plinio Corrêa de Oliveira assim descreve os efeitos do pós-Guerra:
“É preciso ter vivido em 1920, ou 1925, para compreender o tremendo caos ideológico em que se debatia a humanidade. A Cristandade parecia um imenso prédio em trabalhos finais de demolição. Não havia o que não se fizesse para a destruir. Aqui, especialistas silenciosos e metódicos arrancavam uma a uma as pedras, desconjuntavam as traves, tiravam as portas a seus batentes, e as janelas a suas esquadrias. Essa faina, que faziam com o mutismo, a solércia e a agilidade de conspiradores, progredia com frieza inexorável, sem perda de um instante, sem desperdício de um segundo. [...] Procuravam com o material roubado à Casa de Deus, construir em suas linhas extravagantes e sensuais, a orgulhosa Cidade do Demônio. Tudo isto não é senão alegoria. E não há alegoria, nem imagem, nem descrição que possa retratar a confusão daqueles dias de pós-Guerra”.

3 de novembro de 2013

MARCHA DOS ZUMBIS — Depravação dos costumes

Em continuidade com o artigo que publiquei no post anterior (“Dia de Todos os Santos e Finados — oposição ao Halloween”), hoje transcrevo uma matéria que aborda a macabra “Marcha dos Zumbis”, que vai se expandindo pelo mundo como se fosse uma epidemia ou moda. Moda evidentemente imposta por certa corrente, com largo apoio da mídia, que tem como objetivo descristianizar a família e a sociedade e acostumá-las com o hediondo,  a não se ter mais repugnância a coisas satânicas.

Ilustro a referida matéria com fotos tiradas na tarde de ontem na denominada “Zombie Walk” (ou Marcha dos Mortos Vivos”) no centro da capital paulista. E fotos de determinados "restaurantes" REPUGNANTES!

Peço desculpas por ter que estampar neste espaço cenas tão horrendas, mas julgo necessário, pois, do contrário, só a descrição delas seria insuficiente para que todos percebam a que fundo chegou a depravação moral dos costumes na sociedade “moderna”   do homem, criado à imagem e semelhança de Deus, pretendem deformá-lo na imagem e semelhança do demônio!

Zumbis marcham… para o inferno


Gregório Vivanco Lopes

Vejam as seguintes notícias.

1 — Cerca de 20 mil zumbis invadiram as ruas centrais de Santiago, no Chile, na 6ª edição da “Zombie Walk”, realizada anualmente na capital chilena. Os “mortos vivos” percorreram dois quilômetros da Alameda Bernardo O’Higgins, a principal avenida da capital (Portal UOL, 19-10-13).

2 — Os zumbis invadiram Buenos Aires. A tradicional reunião de fanáticos dos mortos vivos juntou mais de 30.000 pessoas na Capital Federal. Em Tucumán se realizará em 3 de novembro (La Gaceta, Argentina, 14-10-13).

3 — Zombie Walk ao redor do mundo – Zombie Walk é um evento realizado em várias cidades do mundo, no qual pessoas se disfarçam de zumbis e realizam uma caminhada por áreas urbanas (Hoy, Paraguay, 24-10-13). 

“Marchas dos zumbis” realizam-se pelo mundo todo. 

O que significa isso? Vamos por partes.

É próprio da natureza humana ordenada tender para a perfeição. Mesmo que não se consiga alcançá-la na sua plenitude, deve-se sempre estar à procura da verdade, do bem e da beleza. Em escala social, uma magnífica realização histórica nos foi legada pela Idade Média. Basta olhar para as imponentes catedrais góticas, para a harmonia entre as classes diferentes, para a beleza do canto gregoriano. Foi a civilização cristã. Com as limitações, é claro, de tudo quanto é terreno, algo de celeste foi ali realizado, com a ajuda da graça divina. Daí os tão grandes elogios feitos à Idade Média pelo Papa Leão XIII.

Se, como diz Tertuliano, a imitação da pessoa sagrada de Nosso Senhor Jesus Cristo faz do indivíduo um alter-Cristo, também a busca ordenada da perfeição faz da sociedade um alter-Céu.

Pelo contrário, quando as pessoas não buscam a perfeição mas a si mesmas e aos prazeres fugazes, elas vão descambando, ainda que insensivelmente e por degraus, para as piores abominações, até chegar a formar uma anti-civilização, em que os parâmetros não sejam mais a verdade, o bem e o belo, mas sim a mentira, o mal e o horrendo. 

Parafraseando Tertuliano poderíamos dizer que a imitação do demônio vai fazendo da pessoa um alter-demônio; e da sociedade, um alter-inferno. 

É esta sociedade que as marchas dos zumbis buscam representar e, talvez, de algum modo iniciar. O pretexto para atrair os incautos é divertir-se e brincar, ceder à apetência de extravagância total, sem levar em conta que o homem se assemelha àquilo em que se compraz. 

Figuras horrendas, monstruosas, repugnantes, em atitudes criminosas ou de demência, saídas não dos túmulos mas dos infernos. Um olho que cai da órbita e fica pendurado, uma boca inchada e apodrecida, uma criancinha servindo de alimento a um monstro e vai por aí afora.

Os organizadores fazem uma espécie de proselitismo, pois em algumas dessas marchas colocam à disposição de quem queria se tornar zumbi cabines de maquiagem para ganharem a aparência de recém saídos da tumba.

Como se chega a isso. Evidentemente, por etapas. Começa-se a ser indiferentes em relação ao belo; depois vem o rock, acompanhado de outros sons desvairados; o gosto de usar roupas rasgadas e amarrotadas, não por pobreza, mas por prazer; o sentir-se bem na sujeira; a imoralidade ostentada de modo despudorado e a conivência com atos contra a natureza; o modo degradado de apresentar-se em público; a linguagem habitualmente chula e imoral; habituar-se a comer baratas e outros bichos repugnantes. 

Nessa linha, o mais recente de que tenhamos notícia é um restaurante nos Estados Unidos em que não só as cadeiras imitam vasos sanitários, mas os próprios pratos e travessas têm esse formato, ou então formatos de urinóis. Aí as pessoas comem! E ao que dizem, em Taiwan tais restaurantes são frequentes. 


Tudo isso não é indiferente, produz um reflexo profundo nas almas, fazendo-as adquirir traços semelhantes aos do pai da mentira. Já advertiu o Profeta Oséias (9,10): “tornaram-se tão abomináveis como as coisas que amavam”.

Em meio a uma passeata de zumbis, se um demônio de verdade nela se infiltrasse, provavelmente nem seria notado, tal é a semelhança. Em outros termos, tais demonstrações de horror, tomadas como naturais e até engraçadas,
preparam as almas para um convívio com Satanás. 

Para onde está caminhando nossa civilização ex-cristã?

11 de novembro de 2012

Século XIX — A dama, rainha na sociedade, e o cavalheiro




Continuação do post abaixo (do dia 9-10-12: SéculoXIX — saudades da época de bom gosto anterior à Revolução Francesa, com trechos do livro “A HISTÓRIA DA POLIDEZ — de 1789 aos nossos dias”, de autoria de Frédéric Rouvillois.
 “‘A imagem de um século XIX sombrio e triste, austero e constrangedor para as mulheres, é uma representação espontânea’ (1) — mas sumária, e particularmente inexata. Se o Código Civil adotado em 1804 coloca de fato as mulheres sob a dependência de seus maridos, considerando-as, numa palavra, seres inferiores, debaixo de tutela, é preciso reconhecer que a sociedade, a opinião e a literatura promovem uma imagem muito diferente.
Ao homem, a dominação física e, portanto, a autoridade, o comando, a vontade. O homem, declara assim a baronesa Staffe, é ‘aquele a quem a natureza e a sociedade fizeram o mais forte’.(2). Mas à mulher cabe outro tipo de superioridade moral.
Na década de 1830, madame Celnart recomendava à mulher jamais esquecer que, se ‘ela pode ser superior em espírito, por sua força de vontade [...], exteriormente ela deve ser mulher! Deve agir como esse ser feito para agradar, para amar, buscar um apoio, esse ser tão diferente do homem e tão semelhante ao anjo’.(3) E na mesma época Balzac estigmatizava, sob a pose altiva de madame Rabourdin, o que ele chamava ironicamente ‘a mulher superior’, essa que pretende brilhar por seu espírito ou por seus talentos, independentemente de seu marido e acima dele.
No cômputo geral, a mulher aparece como ao mesmo tempo superior e inferior — colocada num estado que participa da perfeição angélica e da fragilidade pueril. Percebida como essencial, essa diferença entre os sexos deve, a qualquer preço, ser preservada e valorizada.
A rainha e o cavalheiro
Considerados essencialmente diferentes, homens e mulheres obedecem, em suas relações mútuas, a regras distintas, concebidas em função do que os caracteriza.
Do lado dos homens, sua superioridade física e sua inferioridade implicam que eles deem proteção e respeito às mulheres.
Quanto às mulheres, seu estado lhes proporciona certamente múltiplos privilégios, mas também acarreta constrangimentos e interdições sem conta. Para retomar um jargão familiar aos juristas, pode-se dizer que a polidez lhes impõe sobretudo obrigações do ‘não fazer’, numa palavra, interdições, e isso se relaciona ao que, supostamente, é a sua natureza, a meio caminho entre o anjo e a criança — ao passo que os homens, seres ativos, voluntariosos, agentes, se veem submetidos às obrigações do ‘fazer’.
A natureza e a sociedade, explica sem rir a baronesa Staffe, fizeram o homem mais forte, para que ele fosse o protetor da mulher.(4) [...]
A devida proteção à dama
Assim, observa a madame Celnart, ‘a decência exige que um cavalheiro ofereça seu braço a uma dama que passeia a seu lado; a galanteria exige que ele lhe solicite permissão para carregar o que ela traga nas mãos, como uma sacola, um livro, uma sombrinha (com o sol já posto); em caso de recusa, ele deve insistir. Acompanhado de duas damas, o homem não deve se dispensar de dar o braço a cada uma delas’.(5) Com a  graça de Deus, é excepcional o caso do infeliz caminhante que se defronte com o terrível drama de consciência advindo de a regra exigir, de forma imperiosa, que se ofereça à dama o braço esquerdo — sendo  incomensuravelmente raro que se tenha dois deles...
Mas, então, por que o braço esquerdo? Para que a dama acompanhada por ele se mantenha sob sua proteção: enquanto ela se apoia em seu braço esquerdo, o homem deve manter livre seu braço direito, de prontidão, para defende-la em caso de necessidade. Defendê-la, explica a esse propósito a condessa de Gencé, deve ser tomado aqui ‘em sua acepção mais ampla. Defender quer dizer tanto proteger materialmente contra os perigos quanto facilitar as travessias, afastar os importunos, numa palavra: assegurar a passagem e dirigir a marcha’.
Ora, ‘caso o homem se veja na obrigação de proteger a dama contra os malfeitores [...], o braço direito será seguramente o mais útil. Assim, o hábito de oferecer o braço esquerdo resulta em ser lógico, pois é o bom senso que, em matéria de savoir-vivre, proporciona as mais sábias inspirações’.
No entanto, a regra detalhada pela condessa de Gencé, no início do século XX, não parece muito antiga — em 1838, madame Celnart não faz referência alguma a esse respeito — nem muito estrita. Muitos homens, admitindo que o lado direito é o lugar de honra, ‘persistem em oferecer, como se fazia outrora, o braço direito à sua acompanhante’. De fato para dançar, é o braço direito que os cavalheiros oferecem às damas, caso em que a ideia de proteção não tem mais razão de ser, e é o que igualmente sempre fazem aqueles que carregam uma espada, os militares, por exemplo, ‘não para desembainhá-la com facilidade, mas para não prejudicar a passada da montaria’.(6) [...]
Do mesmo modo, na rua, ele cede à mulher a parte alta da calçada, isto é, a parte do passeio mais afastada da rua, fazendo um biombo entre ela e o bueiro — lembrança de um tempo muito recuado em que este não era senão esgoto infecto — e, mais amplamente, entre ela e o exterior. Trata-se, no mais, observa madame Celnart, de uma ‘marca de deferência igualmente devida àqueles que têm direitos respeitantes a nós’(7) — o que demonstra que deferência e proteção podem estar intimamente ligadas, desempenhando o homem, no caso, o papel de um guarda-costas. [...]
A gestão do espaço é aqui manifestação de proteção simbólica. Mas a polidez não exclui a possibilidade de que esta se torne bem real. Assim, caso a mulher acompanhada seja ofendida por outro homem, cabe ao acompanhante, ao cavalheiro, exigir desculpas, e, no limite, reparação pelas armas, como se fosse efetivamente ele, e não a mulher que ele acompanha, a ter sofrido a ofensa. É verdade que um duelo opondo um homem e uma mulher seria não somente contrário a todos os usos, mas propriamente inconcebível: em caso algum um homem bem-educado ergueria a mão contra uma mulher, nem uma dama como deve ser se bateria com um homem. O que não é sempre sem consequências: em junho de 1888, Alphonse Daudet esteve a ponto de se bater em duelo com o jornalista Gabriel Astruc, que tinha escrito um artigo em que insultava sua esposa — e esta chegou a ameaçar o marido com a separação, caso ele não se dispusesse a lavar a afronta. 
Em outro caso, madame Caillaux, mulher do ministro das Finanças, pretendendo punir o editor do Figaro, Gaston Calmette, por haver deixado publicar a correspondência adúltera de seu marido, escolherá — na impossibilidade de um duelo — assassinar o jornalista a tiros de revólver. Conta-se, na época, que, enquanto o policiais entravam em diligência para detê-la, a homicida em potencial teria apostrofado: ‘Não me toquem, eu sou uma dama’.(8)
Mas o homem, protetor nato da mulher, lhe deve também o respeito, esse respeito devido à sua superioridade moral. Um respeito marcado particularmente por meio da saudação, em geral, considerada o mais elementar dos signos exteriores da polidez. ‘Um inferior, qualquer que seja a hierarquia, deverá sempre saudar seu superior. Todavia, um idoso tomará a iniciativa de saudar um homem jovem, caso este esteja acompanhado de uma dama. Mesmo no exército essa regra será rigorosamente observada. Um general deverá saudar, antes, não importa que lugar-tenente, se este estiver em companhia de uma dama. E deverá fazer o mesmo para um ajudante de ordens’.(9) A mulher, qualquer que seja — provado que ela demonstre, como detalha da mesma forma a baronesa Staffe, decência no modo de trajar e um porte adequado(10) — terá direito à deferência naturalmente devida aos superiores, ou aos idosos, qualquer que seja o local do encontro: quando uma mulher entra em sua residência, o dono da casa se inclina diante dela, em princípio tão reverentemente quanto se ele próprio entrasse num salão.
No entanto, se o princípio é estável, incontestado, a prática dessa deferência devida às damas — em especial por meio da saudação — parece sujeita a modas muito flutuantes.
Seria então a mulher, tal como pretende a baronesa Staffe, ‘rainha na sociedade’, e reverenciada pelo homem ‘como um ser mais delicado que ele, como uma pessoa preciosa’?(11) Digamos antes que ela tem, quanto a isso, a ambição, ou a nostalgia. Nostalgia do tempo mítico, em que ‘o príncipe de Ligne, presidente do Senado belga, descobria seus cabelos brancos diante de todas as jovens de baixa corte do castelo de Bel-Oeil’, do tempo em que ‘o orgulhoso Luis XIV [quadro ao lado] erguia seu chapéu diante de uma lavadeira’.(12) Rainha? É o que ela foi outrora, suspira a condessa de Genlis: antes da Revolução. Naquela época, em boa companhia, ‘as mulheres eram tratadas pelos homens com quase todas as atitudes respeitosas prescritas pelos príncipes de sangue; eles não se dirigiam a elas em geral senão em terceira pessoa; entre eles, e diante delas, os homens jamais se tratavam por tu. Quando lhes dirigiam a palavra, era sempre em um tom de voz menos elevado do que o usado entre eles. Essa nuança de respeito’, conclui melancolicamente madame de Genlis, ‘tinha uma graça impossível de descrever’.(13)
Se de fato não é mais rainha, a mulher se mantém sagrada, intocável, o que constitui um considerável privilégio, como afiança Maurice Barrès a Anna de Noailles, a propósito de uma intriga espalhada pela baronesa Deslandes: ‘As mulheres têm verdadeiramente uma irresponsabilidade e um poderio monstruosos. De homem para homem, minha posição seria simples; eu diria: ‘Mas a quem foram mostradas essas cartas? Ao senhor X? Eu vou entender-me com ele’. Seria tudo consensual. Mas, no caso, para além das complicações de detalhe, o fato é que madame D., com seu privilégio de mulher, poderia responder: ‘Eu sei o que sei, eu digo o que digo e me recuso a dar qualquer explicação’.(14) [...]
E isso aconteceria sem que o homem por ela colocado em situação embaraçosa, que ela encurrala até o desespero, pudesse desmentir sem cair no ridículo, ou desafiá-la para um duelo, última solução para resolver, entre homens, os atentados ao decoro e as questões de honra. Em poucas palavras, a mulher, a certos respeitos, está em posição de comando.
Não obstante, essa rainha, essa intocável é também uma escrava, pois tal dignidade e tal superioridade lhe são impostas em troca de obrigações não raro mais pesadas do que as que recaem sobre o sexo oposto. Assim sendo, beneficiárias da proteção dos homens, as mulheres renunciam, no mesmo ato, a toda vontade, a todo poder, a toda autoridade, exceto a mundana e a doméstica.
Em primeiro lugar, sua superioridade moral e mundana faz da mulher a guardiã natural da polidez e do savoir-vivre. Esse lugar comum foi largamente e arrastadamente desenvolvido, em 1801, em um poema medíocre, que, no entanto, gozará de prodigioso sucesso, O mérito das mulheres, de Gabriel Legouvé. No preâmbulo, o autor explica que só as mulheres poderão conduzir o povo francês ‘à genuína urbanidade que quase se perdeu’ [com a Revolução Francesa]. Somente elas, com efeito, ‘aprimoram as maneiras; promovem o sentimento do decoro; são as verdadeiras preceptoras do bom-tom e do bom gosto; elas saberão nos devolver [...] a afabilidade, que era um dos nossos traços distintivos’.(15) É o que continua a repetir, meio século depois, a primeira edição de uma nova revista feminina, O conselheiro das damas [acima, foto da capa]‘As mulheres’, disse em algum lugar madame de Staël, ‘conduzem a sociedade. É sobretudo na França que esse axioma espiritual encontra sua justa aplicação. São as damas de nossos salões que ensinam as regras da verdadeira elegância; somente elas, nesse tempo de lassidão, têm defendido com sua influência civilizadora os princípios do bom gosto, as tradições das belas maneiras e a polidez rara, legada por nossos antepassados’.(16)
Mas exatamente por essa razão, a mulher, e mais ainda a jovem, se submetem a constrangimentos particularmente onerosos. Sobre elas pesam certas restrições, certos interditos desconhecidos dos homens. Assim, o tabaco é geralmente proibido às mulheres, sendo considerado, até o fim do século XIX, como especialmente masculino. Mais constrangedor ainda: até uma idade relativamente mais avançada, uma senhorita só deve sair acompanhada de um parente muito próximo, ou de uma senhora mais idosa, que ganha o título de chaperon, e deve cumprir com zelo seu papel de vigilante.
No início do século seguinte, alguns continuam a ver aí uma interdição necessária, ao passo que outros, a exemplo da condessa de Gencé, constatam, com uma pitada de resignação, que esse ‘velho princípio da polidez francesa, hoje, vem sendo abandonado’, já que daí por diante se chega a autorizar que as jovens, a partir dos 20 ou 21 anos, saiam sozinhas, para passeios na cidade, missas matinais ou visitas de caridade.(17)   
Na realidade, aqui se entremostra uma segunda série de constrangimentos que, na ordem do savoir-vivre, são a contrapartida da proteção de que a mulher se beneficia: o corolário da fraqueza que se lhe atribui e que o decoro a constrange a levar adiante. Supostamente fraca e frágil, ela deve notadamente renunciar a tudo quanto se relacione ao poder e à autoridade, à força e à violência, considerados atributos especificamente masculinos.
Por essa razão, a mulher deve evitar as discussões políticas, que a levariam a se envolver com aquilo que não lhe diz respeito. Como já afirmava madame de Genlis, no início do século XIX, lembrando-se sem dúvida das ambíguas heroínas da Revolução, ‘há de se convir em que, no geral, as mulheres não são talhadas para governar, nem para se envolver nos graves interesses da política’. A prova? ‘Não se encontraria talvez uma só mulher de 20 anos que, dotada de deslumbrante beleza, consentisse (se a troca fosse possível) em abrir mão dela para conquistar um trono’.(18) Em consequência, e ainda que para isso seja preciso fingir, ela deverá ‘nessa conversação, insinuar sua ignorância e se desculpar por não se dispor sequer a emitir uma opinião’. ‘A mulher, continua, a boronesa Staffe, ‘não impõe suas convicções pessoais [...]; um de seus grandes encantos é não posar de superior ao homem, quaisquer que sejam sua inteligência e sua força moral’.(19)
Tal é o leitmotiv do decoro feminino, até a guerra de 1914: reserva e discrição devem marcar cada gesto, cada atitude. O modo de andar, por exemplo, deve ser ‘modesto e compassado’, sem aquela precipitação que, segundo madame Celnart, ensombrece a graciosa decência que caracteriza a mulher.(20) A mulher, acrescenta a condessa Drohojowska, deve mostrar-se amável, cordata, graciosa, mas deve, sobretudo, ‘unir às suas qualidades uma imensa reserva’.(21) No início do século seguinte, a baronesa Staffe ou a marquesa de Pompeillan não dizem outra coisa, ao afirmarem que ‘uma verdadeira mulher do mundo se mostrará reservada em tudo e em toda parte, em casa, na casa de alguém e sobretudo em público’.(22)
Em consequência, proíbe-se, principalmente às jovens, tudo o que poderia ir de encontro a esse princípio, ‘Nada de apertos de mão vigorosos, nada de cruzar as pernas, nada de interesses pelos negócios ou pelo turfe, nada de opiniões categóricas sobre os homens ou as mulheres, nada de familiaridade com os cavalheiros’, lembra a condessa de Gencé. A esse propósito, nem seria preciso dizer que toda iniciativa amorosa é estritamente proibida pelos costumes. Segundo o dito célebre, um homem cortejador é um galante, mas uma mulher que faça o mesmo é apenas uma apreciadora vulgar de galanteios. O máximo que se autoriza às jovens é prestar atenção cordial às galanterias delicadas, ‘desde que’, prossegue a condessa, ‘a galanteria seja uma forma um tanto refinada de polidez’.(23)
Quanto a isso, o século XIX, ‘o século da virgindade’,(24) como por vezes foi qualificado, parece tão afastado do século precedente, quanto do fim do século XX, com sua liberação sexual. É que entre a queda do Antigo Regime e o século seguinte se interpõe a lembrança traumatizante da Revolução — quando se veem, na França, relata madame de Genlis, ‘jovens mulheres de muito boa aparência apresentando-se em público quase inteiramente nuas, como se estivessem na Lacedemônia; tratando-se por tu; [...] dizendo em público, em seu próprio nome, versos eróticos que não poderiam ser assinados nem por homens’.(25) [...]
Dimensão prática da polidez: perenidade da família
Enquanto as opiniões autorizadas por vezes divergem quanto ao sentido e ao alcance de certos princípios de polidez, estes se revelam, quanto a isso, perfeitamente estáveis e concordantes: ‘Um homem que só aplique as regras do savoir-vivre nas suas relações sociais e esqueça-as em família não é um homem de sociedade: tem só o verniz’. Tal julgamento, emitido em 1898 pela marquesa de Pompeillan, ressurge ao longo do século, amparado em justificações ao mesmo tempo utilitárias — é absurdo ser polido no mundo, diante de desconhecidos, com os quais a pessoa talvez jamais volte a se encontrar, e impolido em família, diante daqueles de quem se espera toda a felicidade da vida — e morais.
Nesse quadro privilegiado, a polidez permitirá, de início e efetivamente, evitar que as discussões degenerem em conflito e daí em cenas de descompostura. A baronesa Staffe lembra aos esposos que, em caso de discussão, ‘se souberem refrear qualquer expressão ofensiva ou simplesmente impolida, o bom acordo não tardará a se restabelecer, e um dos cônjuges, o mais dotado, não tardará a ceder. Ao contrário, um dito mordaz, uma palavra injuriosa invocam a tempestade e, não raro, comprometem para sempre o firmamento conjugal’.(27) Percebe-se aí, claramente, a dimensão prática da polidez, fundamento da perenidade da família e da paz dos lares, indispensáveis numa sociedade que proíbe o divórcio ou que o encara sob severa suspeição.
Quanto à intimidade no lar, esclarece madame Celnart, esta pode certamente dispensar certas etiquetas, mas nunca o respeito. Só os abrutalhados imaginam que em família tudo é permitido. Na presença da mulher ou do marido, a pessoa não deve jamais se permitir satisfazer necessidades que introduzam, entre eles, qualquer sentimento de aversão, nem se dedicar a cuidados pessoais que, diante de qualquer um que não seja ela própria, comprometem a decência ou a propriedade — como lavar os pés, cortar as unhas, sair do banho etc.(28)
*       *        *
Em resumo, para o século XIX, a vida conjugal, mesmo na intimidade, não poderia ser uma no man´s land [terra de ninguém] em matéria de polidez — cuja importância aumenta na medida em que se tende a negligenciá-la, já que a inter-relação é decisiva, pois dela depende o futuro da família, à mercê das consequências por vezes incalculáveis de uma expressão fora do lugar, um gesto mal interpretado, em poucas palavras, uma impolidez qualquer.
Uma das gravuras da revista acima mencionada
Notas:
1. G. Fraisse, M. Perrot, in G. Duby, M. Perrot, Histoires des femmes em Occident, t. IV, p. 13.
2. Baronne Staffe, Indications pratiques pour obtenir um brevet de femme chic, Flammarion, 1907, p. 230.
3. Mme Celnart, Nouveau Munuel complet de la bonne compagnie, op. cit., p. 134.
4. Baronne Staffe, Indications pratiques pour obtenir um brevet de femme chic, op. cit., 1907, p. 230.
5. Mme Celnart, Nouveau Munuel complet de la bonne compagnie, op. cit., pp. 267-268.
6. Comtesse de Gencé, Savoir-vivre et usages mondains, Bibliothèque des ouvrages pratiques, [s.d] (1097), pp. 11-12.
7. Mme Celnart, Nouveau Munuel complet de la bonne compagnie, op. cit., p. 270.
8. Citado por L. Daudet, Paris vécu, 1ª série, Rive droite, 1929, p. 109.
9. Comtesse de Gencé, Savoir-vivre et usages mondains, op. cit., p. 5.
10. Baronne Staffe, Usages du monde, Éditions 1900, 1989, p. 104.
11. Baronne Staffe, Indications pratiques pour obtenir um brevet de femme chic, op. cit., p. 78.
12. Baronne Staffe, Usages du monde, op. cit., p. 103.
13. Dictionnaire de l´étiquette, op. cit., t. II, p. 347.
14. M. Barrès a A. de Noailles, carta de 6 de agosto de 1903, em Correspondance, L´Inventaire, 1994, p. 29.
15. G. Legouvé, Le Mérite des femmes, Camuzeaux, 1835, p. XLVII.
16. Le Conseiller des dames, jornal d´économie domestique et de travaux d´aiguille, 1847-1848, t. I, p. 1.
17. Comtesse de Gencé, Code mondain de la jeune fille, Bibliothéque des oeuvres pratiques, 1909, p. 32.
18. Citado por Mme de Saint El..., Les Femmes au XIXe siècle, 1828, pp. 102-103.
19. Baronne Staffe, Usages du monde, op. cit., p. 226.
20. Mme Celnart, Nouveau Munuel complet de la bonne compagnie, op. cit., p. 49.
21. Comtesse Drohojowska, Conseils à une fille sur les devoir à remplir dans le monde, Lyon, Périsse, 1853, p. 98.
22. Marquise de Pompeillan, Usages du monde dans la societé moderne, le guide de la femme du monde, Pontet-Brault, 1898, p. 228.
23. Comtesse de Gencé, Code mondain de la jeune fille, op. cit. Pp. 32, 228.
24. A. Corbin, em Ph. Ariès, G. Duby, Histoire de l avie privée, Le Seuil, 1987, t. IV, p. 540.
25. Cf. A. Montandon, “Civilités”, em Civilités extremes, Clermont-Ferrand, Association publication faculté Clermont-Ferrand, 1997, pp. 115 sq.
26. Marquise de Pompeillan, Guide de la femme du monde, op. cit., p. 149.
27. Baronne Staffe, Usages du monde, 1989, p. 347.
28. Mme Celnart, Nouveau Munuel complet de la bonne compagnie, op. cit., pp. 23-24.