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2 de maio de 2026

Ambiente familiar na velha Europa

 


  Plinio Corrêa de Oliveira

Quando eu tinha uns 14 anos, lia livros franceses de contos. Num deles, lembro-me da narração de um domingo numa propriedade agrícola europeia, anterior à Primeira Guerra Mundial. 

A cena se passava num pequeno castelo de um barão viúvo com vários filhos — crianças, moços e moças. Todos sentados, muito saudáveis, conversando alegremente durante um almoço servido por lacaios, numa sala de jantar com uma mesa grande. 

As comedorias representavam um papel importante, sobretudo as deliciosas carnes assadas, em baixela de prata; sem grande luxo, mas comidas opulentas. O barão sentado à cabeceira da mesa, gorducho, com um apetite devastador. 

À medida que os pratos entravam, a criançada fazia festa. Os lacaios serviam contentes, o barão se divertia em ver tudo isso, e todos se divertiam em ver o divertimento dele. Era uma circulação geral de alegria, mas alegria muito casta, o problema da pureza nem entrava em cena. 

O que entrava em cena era o que minha mãe dizia: “viver é estar juntos, olhar-se e querer-se bem”. Era o ‘banquete espiritual’ de todos se quererem bem, terem a mesma mentalidade, sentirem todas as coisas do mesmo modo. 

O ambiente interno era iluminado por discretos abajures, e externamente uma chuvinha fina insuportável — o que tornava ainda mais agradável estar dentro de casa. 

Ainda adolescente, eu ia pensando nisso e achando que assim valia a pena viver. Daí eu ter tirado uma consequência que não se realizou: quando eu ficar maduro, vou morar na Europa.
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Excertos de comentários feitos pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 25 de julho de 1993. Esta transcrição não passou pela revisão do autor.

8 de março de 2026

Dia da Dama: Como as Senhoras Católicas podem opor-se ao "Dia da Mulher" feminista



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Em 8 de março feministas ao redor do mundo, em um espírito igualitário, celebrarão o "Dia Internacional da Mulher." Seu objetivo: Um "mundo igualitário de gênero (...) livre de preconceitos e discriminação" para "promover a igualdade de gênero."

Do outro lado da batalha moral, as mulheres católicas respondem a essa postura igualitária celebrando o 8 de março como um dia de virtude cristã e beleza feminina. Por meio do vestuário, dos modos e da moral, elas aspiram ser exemplos brilhantes de pureza – a virtude que define uma verdadeira dama. Entre essas mulheres católicas, nasceu uma graça – o dia da mulher foi batizado e renomeado como "Dia da Senhora". Para as mulheres católicas, 8 de março é um dia para expressar, em um lugar público, com intenção e propósito, a beleza de uma dama verdadeiramente feminina da forma mais plena possível.

Ao manter fiel ao conceito católico de dama, esse movimento, especialmente no Dia da Senhora, realiza quatro objetivos:

Primeiro, diante da cultura revolucionária que promove a vulgaridade e pecado entre as mulheres, Lady Day desafia a narrativa. Como uma estrela brilhante em um céu escuro, ela brilha como prova de que algumas almas permanecem dispostas a se destacar e proclamar com convicção e sem hesitação que toda mulher tem a vocação de sustentar o verdadeiro, o bom e o belo. É uma forma de enfrentar de frente os ataques à verdadeira feminilidade, manter a linha católica, influenciar a opinião pública e fazer reparação a Deus.

Em segundo lugar, a observância do Dia da Senhora é uma afirmação da crença de que todas as mulheres são feitas à imagem e semelhança de Deus e devem se tratar com dignidade. Uma dama se veste, fala e age, tendo diante dos olhos o conhecimento de que é um ser humano com uma alma que exige respeito. Suas qualidades femininas são um dom nobre de Deus para serem tratadas com reverência. Assim, no Dia da Senhora, uma mulher demonstra respeito por si mesma e por sua pureza, abraçando sua vocação dada por Deus.

A terceira razão para apresentar o quadro completo de uma dama em público é elevar a sociedade. Ao agir com elegância e elegância, a dama realiza um "apostolado de presença" que não beneficia apenas a si mesma, mas também à sociedade. Enquanto a cultura igualitária promove a promiscuidade, a senhora católica usa sua influência para defender a moralidade e a pureza. Seu apostolado de presença é refinado, porém firme. É refinado porque ela é uma dama, e firme porque seu modo de ser está enraizado no idealismo. Ela fornece um eixo moral para as famílias e um padrão de virtude pelo qual uma sociedade pode prosperar. Assim, ela atrai Deus para seu lado, e ninguém pode negar que essa união sublime é poderosa para mover as almas daqueles ao seu redor.

Isso nos leva à quarta e mais sublime realização de uma verdadeira dama. Ao agir de acordo com sua natureza feminina, ela honra Aquele que ordenou as funções distintas dos sexos. A cada passo que dá, movimento da mão, olhar dos olhos, a verdadeira dama católica presta homenagem à Lei Natural e honra Deus na ordem que Ele colocou na criação. Suas ações são uma expressão externa desse nobre princípio.

Além de glorificar Deus, sua dignidade e pureza honram a maior de todas as damas: Nossa Senhora. Por meio do cultivo dessa graça feminina concedida apenas às mulheres, ela se torna um reflexo da Bem-Aventurada Virgem e assume um certo aspecto de sua beleza. Nossa Senhora naturalmente se sente satisfeita e cuida dessas filhas especiais enquanto elas se esforçam para incorporar suas virtudes. Assim, vemos uma relação em que os esforços da dama terrena aumentam o esplendor de nossa Rainha Celestial, que por sua vez recompensa suas filhas ao concedê-las sua própria marca.

Em resumo, pode-se dizer que o Dia da Senhora é um "decreto" para o insondável desígnio de Deus e para cultivar aquele aspecto de Nossa Senhora que Deus chama cada mulher a refletir. Além de honrar Nosso Senhor e Nossa Senhora, Lady Day honra a própria senhora como uma criatura feita à imagem e semelhança de Deus. Também beneficia outros; como o Dia da Dama inclui aparecer em público, as mulheres compartilham com os outros, por meio de símbolos, os princípios que a tornam uma dama. E, finalmente, com sua elegância, ela desferir um golpe forte aos inimigos de Deus; com a mesma respiração que diz "fiat" à sua vocação, ela responde "não" a toda afronta a Nossa Senhora, especificamente ao espírito igualitário na raiz do "Dia da Mulher."

Finalmente, nos encontrando no meio de um mundo que exibe impureza e promiscuidade como norma, vamos fazer um apelo à nossa Rainha e Mãe neste próximo 8 de março, 2026 para ser o modelo supremo de damas e dar a coragem necessária para empunhar a espada da pureza e dignidade diante do pecado e da vulgaridade.

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Fonte: Lady Day: How Catholic Ladies Can Oppose the Feminist "Woman's Day"

https://www.returntoorder.org/2026/03/lady-day-how-catholic-ladies-can-oppose-the-feminist-womans-day/

22 de setembro de 2022

ADEUS MINHA RAINHA !!


Paulo Roberto Campos

Vendo nesse vídeo (abaixo) o esplendor das cerimônias com o majestoso e último cortejo feito por Elizabeth Alexandra Mary Windsor, assim como o vídeo das exéquias no interior da Abadia Westminster — tudo reflexo do glorioso passado católico da Inglaterra , fico sem palavras! Só silêncio e lágrimas, tendo como fundo o toque da marcha fúnebre, os passos cadenciados e as solenes badaladas do Big-Ben, para homenagear a Rainha! 

Rainha não apenas do britânicos, mas de todos nós! 
A última Rainha de nossos tempos? 

God Save The Queen!
 



12 de fevereiro de 2022

CORTESIA FRUTO DA CIVILIZAÇÃO CRISTÃ


“A cortesia é uma das propriedades de Deus, que dá seu sol e sua chuva aos justos e aos injustos por cortesia, e a cortesia é irmã da caridade, que extingue o ódio e conserva o amor.” 
(São Francisco de Assis) 


“A Revolução Francesa foi satânica porque ela cometeu sacrilégios, entronizou a deusa razão etc. Mas não só por isso. Foi satânica porque representou uma explosão de ódio contra o bem, representado pela pompa, pela graça, pela cortesia, que brilharam naquele tempo.” 
(Plinio Corrêa de Oliveira) 


“A polidez é o ritual da sociedade, assim como a oração o é da Igreja.” 
(Madame de Staël) 


“A corte é como um edifício de mármore, quer dizer, é composta de homens muito duros, mas muito polidos.” 
(Racine) 


“O homem não educado é a caricatura de si próprio.” 
(Friedrich von Schlegel) 


“As raízes da educação são amargas, e os frutos dulcíssimos.” 
(Aristóteles)

25 de outubro de 2020

Amabilidade: virtude quão necessária hoje!

 


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Plinio Maria Solimeo
 

A amabilidade é uma das virtudes mais encantadoras e das mais necessárias ao bom convívio humano. Ela tempera o que pode haver de brusco no nosso temperamento, e leva-nos a tratar os outros como gostaríamos de ser tratados. 

Fazem parte dessa virtude uma série de outras muito necessárias nos dias de hoje, e que constituem o cortejo liderado pela verdadeira caridade: “a benignidade, que leva a tratar e julgar os outros e as suas atuações com delicadeza; a indulgência em face dos defeitos e erros alheios; a educação e a urbanidade nas palavras e nas maneiras; a simpatia, que por vezes será necessário cultivar com especial esmero; a cordialidade e a gratidão; o elogio oportuno às coisas boas que vem” . Podemos ainda acrescentar a isso a gentileza, cortesia, brandura, carinho, meiguice, ternura e suavidade no trato com as pessoas. 

O famoso apologista americano, arcebispo Dom Fulton Sheen, explica que “a palavra inglesa «kindness» (amabilidade) é derivada de «kindred» ou «kin» (parentes), e portanto implica uma afeição que dedicamos naturalmente àqueles que são a nossa carne e o nosso sangue. A amabilidade original e típica é a de um pai para com o filho ou a de um filho para com o pai. Gradualmente a palavra adquire maior amplitude até atingir todos os que desejamos tratar como parentes” . 

A amabilidade deriva da virtude da misericórdia que, por sua vez, é um dos efeitos da caridade. Como diz o renomado teólogo Pe. Royo Marin, O.P., ela “nos inclina a ter compaixão das misérias do próximo, considerando-as de certo modo como nossas próprias, porque o que lhe causa tristeza, do mesmo modo nos causa a nós [...]. O próprio Deus manifesta misericórdia num grau extremo, ao ter compaixão de nós” . 

Essa virtude também está relacionada com a da piedade, que por sua vez, como diz o mesmo teólogo, é “um amor filial por Deus considerado como Pai, e um sentimento de irmandade universal para com todos os homens como nossos irmãos e filhos do mesmo Pai celeste” (p. 387). E acrescenta: “É essa piedade que levava São Paulo a se afligir com os aflitos, a chorar com os que choram, e suportar as fraquezas e misérias do próximo com o propósito de o salvar” (p. 390). 

O eminente teólogo continua dizendo (p. 402), que a afabilidade ou amabilidade, é “a virtude social por excelência, e uma das mais delicadas manifestações do verdadeiro espírito cristão”. Ela é muito afim com a verdadeira amizade, que é definida como “uma virtude pela qual nossas palavras e ações externas são dirigidas à preservação de uma amigável e agradável associação com nosso próximo [...]. A verdadeira amizade procede do amor, e entre os cristãos, deve ser o resultado natural da caridade fraterna, a afabilidade é uma espécie de amizade que consiste em palavras e ações com relação aos outros, requerendo de nós que nos conduzamos de um modo amigável e maneira social com o próximo, sejam amigos íntimos ou estranhos”. Por isso, acrescenta o Pe. Royo Marin “Benignidade, polidez, simples louvor, indulgência, sincera gratidão, hospitalidade, paciência, mansidão, refinamento em palavras e ações etc., exercem uma espécie de atração que é difícil de resistir.” O que faz com que “Esta preciosa virtude é extremamente importante não somente em nossa associação com amigos, vizinhos ou estranhos, mas de um modo especial mesmo no círculo de nossa própria família, onde ela é frequentemente muito negligenciada”. 

A importância dessas virtudes nas relações sociais, é porque todas pessoas querem, no trato com as outras, três coisas essenciais: afabilidade, respeito, e perdão para suas faltas. E ficam felizes quando são assim tratadas. Pelo contrário, sofrem e se sentem feridas no seu ego quando são objeto de desatenção, mau trato ou recriminação. 

Nesse sentido conta-se que uma das filhas de Luís XV, da França, um dia recriminou impacientemente uma camareira sem muito motivo. Esta lhe manifestou seu desagrado. A princesa então lhe disse: “Não sabe que eu sou filha do Rei?”. Ao que respondeu dignamente a camareira: “E Vossa Majestade não sabe que eu sou filha de Deus?” Quer dizer, se cada um visse no outro um filho de Deus, o trataria de modo muito diferente. Desse modo a amabilidade, tendo Deus como principal motor, é o contrário da dureza de coração, que resulta geralmente de um doentio amor de si mesmo. 

Alguns países, como a França do Ancien Régime, levaram a amabilidade e a cortesia a um alto grau. Foi então que ocorreu a “douceur de vivre”, a doçura de viver, pois cada um se sentia tratado segundo o melhor lado de si mesmos. É muito conhecido o fato de o rei Luiz XIV, o Rei Sol, em todo o seu esplendor, tirar o chapéu quando cumprimentava uma simples lavadeira. 

Pelo que “São Francisco de Sales nos ensina que a primeira condição [para termos um trato cortês] é sermos humildes, pois ‘a humildade não é somente caritativa, mas também doce. A caridade é a humildade que se projeta externamente, e a humildade é a caridade escondida’; ambas as virtudes estão estreitamente unidas. Se lutarmos por ser humildes, saberemos ‘venerar a imagem de Deus que há em cada homem’, saberemos tratá-los com profundo respeito” . 

É também o que afirma o já citado D. Fulton Sheen, “Todas as anomalias mentais têm suas raízes no egoísmo, toda a felicidade tem suas raízes na amabilidade. Mas para sermos realmente amáveis, devemos ver em todos uma alma imortal, que há de ser amada pelo amor de Deus. Então, não haverá quem não seja para nós de grande apreço”. 

Na mesma linha, diz a Águia de Hipona, Santo Agostinho, com o vôo que lhe é característico: “Os frutos da caridade são alegria, paz e misericórdia. A caridade exige bondade e correção fraterna. É benevolente. Promove a reciprocidade e permanece desinteressada e generosa. É amizade e comunhão. O amor é em si a realização de todas as nossas obras. Essa é a meta; é para ela que corremos. Corremos em sua direção, e assim que nela chegarmos, nela encontraremos nosso descanso”.

Infelizmente está cada vez mais longe o tempo em que as pessoas primavam por serem corteses, amáveis, respeitosas dos outros pois, com o avanço da técnica, e sobretudo com a malícia dos tempos decorrente da profunda orfandade religiosa, essa virtude está cada vez mais posta de lado. As pessoas estão ficando cada vez mais pragmáticas, egoístas, pensando só em si mesmas e no seu mundinho, entretidas com seus celulares. Para elas, as outras não existem. 

Por isso é sobretudo difícil ser amável com aqueles que nos pedem um favor, uma esmola. Ora, diz ainda D. Fulton Sheen, “A amabilidade para com os que sofrem torna-se compaixão, que significa sofrer com outrem, partilhar a mágoa e as dores de outrem, como se fossem nossas”. Isso porque, explica ele, “A amabilidade estimula o interesse do coração para além de todo o interesse pessoal, e impele-nos a dar o que temos na forma de esmola, ou o nosso talento, como o médico que trata um doente pobre, ou o nosso tempo, que às vezes é a coisa mais difícil de dar”. Como consequência, “O homem verdadeiramente compassivo e amável, que dá o seu tempo aos outros, consegue encontrar sempre tempo”. 

Ele observa que “muitas pessoas, amabilíssimas nos seus lares e escritórios, podem se tornar grosseiras e egoístas ao volante de um automóvel. Isto é talvez devido a que nos seus lares elas são conhecidas; no automóvel, à sombra do anonimato, podem ser quase brutais sem receio de serem reconhecidas”. E conclui: “Sermos amáveis pelo receio de que os outros pensem que somos grosseiros, não é amabilidade real, mas antes uma forma dissimulada de egoísmo”.

O diz-que-diz, o deboche, a chanchada, a brincadeira porca, a libertinagem são fonte frequente de desavenças e de maus tratos, estando nas antípodas da amabilidade e do respeito no trato social. Infelizmente, como dissemos, com a decadência da prática religiosa e consequente queda dos bons costumes, isso está cada vez mais em voga no mundo de hoje. 

Mudando de quadro: felizmente ainda não se apagaram de todo os resquícios de amabilidade pelo mundo, e quando menos esperamos, disso temos exemplos frisantes. 

Nesse sentido, um amigo meu contou-me um exemplo marcante disso, e do qual jamais se esquecerá, do trato surpreendentemente amável de que foi objeto em circunstâncias quase dramáticas quando viajava pelo Exterior. 

Vindo dos Estados Unidos para o Brasil com uma conexão em Toronto, no Canadá, como havia grande diferença entre a chegada do primeiro e a partida do segundo vôo, ele deixou as malas no aeroporto, tomou um trem, e foi conhecer a cidade para ocupar aquele tempo. À tarde, depois de muito andar num frio congelante, caminhava por uma grande avenida quando, tropeçando nos seus próprios pés, caiu com todo o peso do corpo com a face no chão. Não pôde amortecer a queda com as mãos, pois as tinha no bolso da gabardine por causa do frio. A queda foi tão violenta, que fraturou-lhe o nariz, cortou-lhe os lábios, e quebrou-lhe dois dentes. O sangue corria em profusão do nariz. 

Ele ficou tão atordoado com a queda, que perdeu momentaneamente a memória e não conseguia mover-se. Foi aí que acorreu um casal de jovens em seu auxílio. Com muito cuidado, o ajudaram a sentar-se e a enxugar o sangue do rosto. Isso tudo com muita amabilidade e consideração à sua idade, pois era octogenário. Quando viram que ele estava um pouco refeito, perguntaram-lhe onde morava, se tinha algum parente ou amigo que pudessem avisar, em que hotel estava. Depois de um momento de amnésia, tendo recobrado a memória, meu amigo pôde explicar que estava somente de passagem etc. Como seu lenço já estava todo encharcado de sangue, a jovem correu a um restaurante próximo, e trouxe-lhe um punhado de guardanapos de papel. 

Nesse momento acorreu outro jovem que, vendo que o amigo tiritava de frio, foi a uma loja e comprou um par de luvas, ajudou-o a calçá-las, e perguntou se havia mais algo que pudesse fazer. Então os dois rapazes conseguiram ampará-lo para sentar-se em um banco de pedra das proximidades. 

Mas não parou aí. O primeiro jovem já tinha telefonado para um serviço de saúde, e logo apareceu uma ambulância com um casalzinho de para-médicos, muito simpáticos. Profissionalmente eles examinaram as feridas para ver se ele tinha recebido algum golpe na cabeça, mediram-lhe a pressão e a temperatura, controlaram as batidas do coração, tudo feito com muita amabilidade e consideração à sua idade. Para se certificarem de que ele tinha tido mesmo uma queda acidental, e não devido a um mal súbito e não estava com memória afetada, começaram a lhe fazer perguntas sobre o Brasil, família, São Paulo etc. Enfim, deixaram-no no hospital, onde lhe fizeram suturas no nariz e nos lábios, e lhe deram alta. Ele pôde assim voltar no mesmo dia para o Brasil. 

Esse amigo ficou muito grato e até comovido com a amabilidade e atenção desses vários jovens, tanto mais por serem eles já de uma geração técnica, informatizada, pragmática, órfã de religião, e que provavelmente não receberam em casa lições de boas maneiras ou de bom trato. 

Meu amigo afirmou que, estando em um país estrangeiro, numa cidade em que não conhecia ninguém, tendo um grave acidente, apesar disso não se sentiu desamparado, pois encontrou pessoas que se interessaram por ele, e o trataram com uma caridade cristã e com a consideração que teriam com um parente.
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[1] https://semeandocatequese.wordpress.com/2014/01/23/virtude-da-amabilidade/

[1] https://rumoasantidade.com.br/rumo-felicidade/contentamento/)

[1] Pe. Antônio Royo Marín, O.P., The Theology of Christian Perfection, The Foundation for a Christian Civilization, New York, 1987, p. 356.

[1] Semeando...


24 de março de 2020

Virgem Maria, Anunciação do Anjo e Cortesia


Em memória do magno dia da Anunciação e da Encarnação do Verbo de Deus, celebrado em 25 de março, segue um belo trecho extraído do livro “Courtoisie chrétienne et dignité humaine” (Cortesia cristã e dignidade humana), de Roger Dupuis, S.J. e Paul Celier. 

“A cortesia é até hoje reconhecida como uma das características próprias à nobreza. Lendo o Evangelho sobre a Anunciação [transcrição abaixo], nota-se com que delicadeza sobrenatural Deus propõe a Maria ser a Mãe do Messias. 

E a fineza de Maria corresponde perfeitamente à delicadeza divina. Pois a verdadeira humildade não é aquela que se abaixa, mas a que obedece. Naquele mesmo ato sublime, Maria toma conhecimento do favor sobrenatural concedidos a sua prima, Santa Isabel. 

Seu primeiro movimento consiste em ir visitá-la. Mais tarde, quando seu Divino Filho disse de si mesmo ‘sou manso e humilde de coração’, revelava a influência de sua Mãe. Jesus quis ter em Maria um modelo perfeito de cortesia”. 


"Eis aqui a serva do Senhor"



“No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um homem que se chamava José, da casa de Davi e o nome da virgem era Maria.  
Entrando, o anjo disse-lhe: Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo.
Perturbou-se ela com estas palavras e pôs-se a pensar no que significaria semelhante saudação. 
O anjo disse-lhe: Não temas, Maria, pois encontraste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-se-á Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi; e reinará eternamente na casa de Jacó, e o seu reino não terá fim. 
Maria perguntou ao anjo: Como se fará isso, pois não conheço homem? 
Respondeu-lhe o anjo: O Espírito Santo descerá sobre ti, e a força do Altíssimo te envolverá com a sua sombra. Por isso o ente santo que nascer de ti será chamado Filho de Deus. Também Isabel, tua parenta, até ela concebeu um filho na sua velhice; e já está no sexto mês aquela que é tida por estéril, porque a Deus nenhuma coisa é impossível.  
Então disse Maria: Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra. E o anjo afastou-se dela” (São Lucas 1, 26-38)”.

25 de janeiro de 2017

CONTOS DE FADAS



Plinio Maria Solimeo

Por anos, gerações e gerações de crianças e adolescentes — e por que não dizer, também de pais? — se encantaram com a leitura dos contos de fadas para crianças. Lembro-me ainda com saudades de ler com muito deleite, quando pequeno, por exemplo, a história do “Patinho Feio”, do “Soldadinho de Chumbo”, da “Gata Borralheira” ou “Cinderela”, do “Pinóquio”... e outras tantas histórias que alegravam minha vida de criança. 


Num artigo anterior, comentei que, de acordo com cientistas, a criança nasce com o senso do bem e do mal, da verdade e do erro. E que o bebê se alegra e ri diante de algo bom ou belo, e faz careta e afasta o rosto diante do contrário. Trata-se, como nos ensina a doutrina católica, da lei natural, comunicada pela Providência Divina, a cada alma dos que nascem.

Por isso é muito benfazejo e formativo alimentar essa boa tendência na alma das crianças, ajudando-as a preservar essa visão primeira. 

Porque, em geral, os contos de fadas procuram mostrar o lado bom, belo e deleitável da vida, e por isso ajudam a formar as mentalidades das crianças, incentivando esse lado bom, e servindo de alimento para suas almas. 


O eminente líder genuinamente católico, Plinio Corrêa de Oliveira, dizia que as crianças têm seus primeiros contatos com a vida através das histórias e, por meio delas, a inteligência infantil transpõe os limites do ambiente doméstico. Assim, aprende as noções iniciais sobre a sociedade humana. Segundo esse grande pensador, essas primeiras noções sobre esta luta que é a vida, e as impressões mais profundas que recebem em seus primeiros anos de existência, ajudam a criança a tomar posição diante delas. Donde a importância capital, para uma civilização católica, de proporcionar às crianças uma literatura profunda e saudavelmente formativa, que as ajude a manter-se fiéis à inocência, e a empreender o caminho da admiração pelo maravilhoso. Isso poderá constituir o verdadeiro timão de suas vidas . Como estamos longe disso nos nossos tristes dias!

Hans Christian Andersen, o mais célebre escritor infantil 

Antônio Giuliano, jornalista de “Il Timone”, da Itália, ao comentar a biografia do maior escritor de narrações infantis de todos os tempos, Hans Christian Andersen (1805-1875) [foto ao lado], comenta: “A miúdo se escrevem mais os contos para os adultos, que para as crianças. E eles [os contos] têm um estranho poder: ajudam-nos a reler nossa existência, projetando-a para horizontes mais amplos e inimagináveis”.

Diz o jornalista que “o grande escritor dinamarquês revela, em sua autobiografia, alguns traços ainda pouco notados e paradoxais de sua personalidade. Ele a começa assim: ‘A minha vida tem sido um formoso conto, rica e feliz’, quando, na realidade, sua existência foi tudo, menos um conto”. De família pobre, seu pai, sapateiro, enviuvou quando ele tinha 11 anos, deixando-o “abandonado a seus sonhos e à sua fantasia, alimentados pela leitura de livros infantis, feita com o pai”.

Aos 14 anos Andersen resolveu partir para Copenhague, “abandonado a mim mesmo, sem ninguém mais que o Deus do Céu”

Depois de várias tentativas frustras, começou a escrever peças e contos. Alguns doadores generosos lhe permitiram satisfazer uma de suas maiores paixões: “viajar”. Fez 30 viagens fora da Dinamarca, sete só na Itália, que muito amava. Nunca teve casa própria nem família, vivia quase sempre em casa de amigos. Só no fim da vida foi-lhe reconhecido o mérito, e começou a gozar a merecida fama. 

Quando se dedicou exclusivamente ao conto infantil, “Desaconselharam-me absolutamente, e todos me disseram que me faltava o talento necessário, e que isso não era coisa para nossa época”. Esses pessimistas não mostraram ser profetas...

Giuliano comenta: “Mas, em seus contos, o bem é superior ao mal, e o fazia sobretudo passar a mensagem de que, na vida, nunca se pode dar por vencido. Basta crer, sustentados por essa certeza posta no início de sua autobiografia: ‘A história de minha vida dirá ao mundo o que ela me diz: existe um Deus amoroso, que conduz tudo a melhor fim’”.

“Escola de Princesas” 

Qual a menina de antanho que não pensou em ser uma princesa de contos de fada, pelo menos por um dia? Ou qual o menino que não sonhava com um uniforme de soldadinho, com espadinha e tudo? 


Foi, pois, com prazer que li a reportagem do “Estado de São Paulo”, sobre uma “Escola de Princesas”, fundada em Uberlândia, na qual as meninas de quatro a 15 anos são ensinadas “desde os valores de uma princesa — como humildade, solidariedade e bondade — e como arrumar o cabelo e se maquiar, até regras de etiqueta, de culinária, e como organizar a casa”, tudo isso num ambiente elevado e tradicional. As aulas são ministradas por profissionais, entre os quais cozinheiras, nutricionistas e psicólogos. 

É claro que, em nosso mundo tão igualitário, uma escola dessas tinha que ser alvo de críticas. Diz a jornalista Hyndaira Freitas em sua reportagem: “‘O sonho de toda menina é tornar-se uma princesa’: esse é o mote da escola, que recebe críticas por ser, supostamente, um retrocesso, ao ensinar tarefas domésticas apenas para meninas, como se ensinasse que lugar de mulher é na cozinha” . Isso horripila as feministas e os esquerdistas de todos os matizes de nosso tempo. 

Por isso, como não poderia deixar de ser, logo surgiu a reação da esquerda. O mesmo “Estado de São Paulo” traz, no dia 17 de novembro, o artigo: “Meninas fazem oficina antiprincesa”.

É preciso dizer que esse título é forçado, e não condiz com a matéria. Pois não se trata de meninas que fazem esse curso, mas de adultos “engajados”, que idearam e tocam avante essa oficina. 


A reportagem refere-se — aliás com indisfarçada simpatia —, a uma “Oficina de Desprincesamento”, que uns chilenos estão introduzindo em São Caetano do Sul (SP). Pelo que diz a mãe de uma menina, candidata ao curso, pode-se avaliar o grau de engajamento ideológico que seus idealizadores têm em vista.

Com efeito, explica a mãe da mencionada menina que “no encontro, as garotas terão workshop de autodefesa, e serão apresentadas a personalidades como Clarice Lispector [escritora, conhecida como a “grande bruxa da literatura brasileira”], Patrícia Galvão (a “Pagu”), [“membro do Partido Comunista Brasileiro, trotkista”] , e Violeta Parra [chilena, folclorista, “mãe da canção comprometida com a luta dos oprimidos e explorados, suicida” ]. “Estão planejados ainda um debate sobre auto-imagem, o que é ser princesa [segundo o conceito marxista], e o que pode ser feito para manter um cotidiano mais igualitário entre meninos e meninas”.

Ainda, segundo ela, “entre os assuntos debatidos no treinamento dado pelos chilenos, foram abordados o amor romântico [que soa como o amor entre pessoas do mesmo sexo] e questões de gênero [não podia faltar!]. Explica ela que “o curso é uma forma de ‘plantar uma semente’ nas novas gerações, para minimizar a desigualdade de gênero nas próximas décadas” (grifos do jornal). Não podia ser mais ideologizado! 

É trágico verificar como esses radicais não perdem ocasião de pregar e pôr em prática suas mais perversas teorias. E vão matando assim na alma das crianças aquela visão primeira e dourada da vida, apresentadas a elas pelos contos de fadas.

____________ 

[1] Cfr. “O maravilhoso, o real e o horrendo na literatura infantil”, Ambientes, Costumes e Civilizações, Catolicismo Nº 40 - Abril de 1954.

[6] https://pt.wikipedia.org/wiki/Violeta_Parra

11 de novembro de 2012

Século XIX — A dama, rainha na sociedade, e o cavalheiro




Continuação do post abaixo (do dia 9-10-12: SéculoXIX — saudades da época de bom gosto anterior à Revolução Francesa, com trechos do livro “A HISTÓRIA DA POLIDEZ — de 1789 aos nossos dias”, de autoria de Frédéric Rouvillois.
 “‘A imagem de um século XIX sombrio e triste, austero e constrangedor para as mulheres, é uma representação espontânea’ (1) — mas sumária, e particularmente inexata. Se o Código Civil adotado em 1804 coloca de fato as mulheres sob a dependência de seus maridos, considerando-as, numa palavra, seres inferiores, debaixo de tutela, é preciso reconhecer que a sociedade, a opinião e a literatura promovem uma imagem muito diferente.
Ao homem, a dominação física e, portanto, a autoridade, o comando, a vontade. O homem, declara assim a baronesa Staffe, é ‘aquele a quem a natureza e a sociedade fizeram o mais forte’.(2). Mas à mulher cabe outro tipo de superioridade moral.
Na década de 1830, madame Celnart recomendava à mulher jamais esquecer que, se ‘ela pode ser superior em espírito, por sua força de vontade [...], exteriormente ela deve ser mulher! Deve agir como esse ser feito para agradar, para amar, buscar um apoio, esse ser tão diferente do homem e tão semelhante ao anjo’.(3) E na mesma época Balzac estigmatizava, sob a pose altiva de madame Rabourdin, o que ele chamava ironicamente ‘a mulher superior’, essa que pretende brilhar por seu espírito ou por seus talentos, independentemente de seu marido e acima dele.
No cômputo geral, a mulher aparece como ao mesmo tempo superior e inferior — colocada num estado que participa da perfeição angélica e da fragilidade pueril. Percebida como essencial, essa diferença entre os sexos deve, a qualquer preço, ser preservada e valorizada.
A rainha e o cavalheiro
Considerados essencialmente diferentes, homens e mulheres obedecem, em suas relações mútuas, a regras distintas, concebidas em função do que os caracteriza.
Do lado dos homens, sua superioridade física e sua inferioridade implicam que eles deem proteção e respeito às mulheres.
Quanto às mulheres, seu estado lhes proporciona certamente múltiplos privilégios, mas também acarreta constrangimentos e interdições sem conta. Para retomar um jargão familiar aos juristas, pode-se dizer que a polidez lhes impõe sobretudo obrigações do ‘não fazer’, numa palavra, interdições, e isso se relaciona ao que, supostamente, é a sua natureza, a meio caminho entre o anjo e a criança — ao passo que os homens, seres ativos, voluntariosos, agentes, se veem submetidos às obrigações do ‘fazer’.
A natureza e a sociedade, explica sem rir a baronesa Staffe, fizeram o homem mais forte, para que ele fosse o protetor da mulher.(4) [...]
A devida proteção à dama
Assim, observa a madame Celnart, ‘a decência exige que um cavalheiro ofereça seu braço a uma dama que passeia a seu lado; a galanteria exige que ele lhe solicite permissão para carregar o que ela traga nas mãos, como uma sacola, um livro, uma sombrinha (com o sol já posto); em caso de recusa, ele deve insistir. Acompanhado de duas damas, o homem não deve se dispensar de dar o braço a cada uma delas’.(5) Com a  graça de Deus, é excepcional o caso do infeliz caminhante que se defronte com o terrível drama de consciência advindo de a regra exigir, de forma imperiosa, que se ofereça à dama o braço esquerdo — sendo  incomensuravelmente raro que se tenha dois deles...
Mas, então, por que o braço esquerdo? Para que a dama acompanhada por ele se mantenha sob sua proteção: enquanto ela se apoia em seu braço esquerdo, o homem deve manter livre seu braço direito, de prontidão, para defende-la em caso de necessidade. Defendê-la, explica a esse propósito a condessa de Gencé, deve ser tomado aqui ‘em sua acepção mais ampla. Defender quer dizer tanto proteger materialmente contra os perigos quanto facilitar as travessias, afastar os importunos, numa palavra: assegurar a passagem e dirigir a marcha’.
Ora, ‘caso o homem se veja na obrigação de proteger a dama contra os malfeitores [...], o braço direito será seguramente o mais útil. Assim, o hábito de oferecer o braço esquerdo resulta em ser lógico, pois é o bom senso que, em matéria de savoir-vivre, proporciona as mais sábias inspirações’.
No entanto, a regra detalhada pela condessa de Gencé, no início do século XX, não parece muito antiga — em 1838, madame Celnart não faz referência alguma a esse respeito — nem muito estrita. Muitos homens, admitindo que o lado direito é o lugar de honra, ‘persistem em oferecer, como se fazia outrora, o braço direito à sua acompanhante’. De fato para dançar, é o braço direito que os cavalheiros oferecem às damas, caso em que a ideia de proteção não tem mais razão de ser, e é o que igualmente sempre fazem aqueles que carregam uma espada, os militares, por exemplo, ‘não para desembainhá-la com facilidade, mas para não prejudicar a passada da montaria’.(6) [...]
Do mesmo modo, na rua, ele cede à mulher a parte alta da calçada, isto é, a parte do passeio mais afastada da rua, fazendo um biombo entre ela e o bueiro — lembrança de um tempo muito recuado em que este não era senão esgoto infecto — e, mais amplamente, entre ela e o exterior. Trata-se, no mais, observa madame Celnart, de uma ‘marca de deferência igualmente devida àqueles que têm direitos respeitantes a nós’(7) — o que demonstra que deferência e proteção podem estar intimamente ligadas, desempenhando o homem, no caso, o papel de um guarda-costas. [...]
A gestão do espaço é aqui manifestação de proteção simbólica. Mas a polidez não exclui a possibilidade de que esta se torne bem real. Assim, caso a mulher acompanhada seja ofendida por outro homem, cabe ao acompanhante, ao cavalheiro, exigir desculpas, e, no limite, reparação pelas armas, como se fosse efetivamente ele, e não a mulher que ele acompanha, a ter sofrido a ofensa. É verdade que um duelo opondo um homem e uma mulher seria não somente contrário a todos os usos, mas propriamente inconcebível: em caso algum um homem bem-educado ergueria a mão contra uma mulher, nem uma dama como deve ser se bateria com um homem. O que não é sempre sem consequências: em junho de 1888, Alphonse Daudet esteve a ponto de se bater em duelo com o jornalista Gabriel Astruc, que tinha escrito um artigo em que insultava sua esposa — e esta chegou a ameaçar o marido com a separação, caso ele não se dispusesse a lavar a afronta. 
Em outro caso, madame Caillaux, mulher do ministro das Finanças, pretendendo punir o editor do Figaro, Gaston Calmette, por haver deixado publicar a correspondência adúltera de seu marido, escolherá — na impossibilidade de um duelo — assassinar o jornalista a tiros de revólver. Conta-se, na época, que, enquanto o policiais entravam em diligência para detê-la, a homicida em potencial teria apostrofado: ‘Não me toquem, eu sou uma dama’.(8)
Mas o homem, protetor nato da mulher, lhe deve também o respeito, esse respeito devido à sua superioridade moral. Um respeito marcado particularmente por meio da saudação, em geral, considerada o mais elementar dos signos exteriores da polidez. ‘Um inferior, qualquer que seja a hierarquia, deverá sempre saudar seu superior. Todavia, um idoso tomará a iniciativa de saudar um homem jovem, caso este esteja acompanhado de uma dama. Mesmo no exército essa regra será rigorosamente observada. Um general deverá saudar, antes, não importa que lugar-tenente, se este estiver em companhia de uma dama. E deverá fazer o mesmo para um ajudante de ordens’.(9) A mulher, qualquer que seja — provado que ela demonstre, como detalha da mesma forma a baronesa Staffe, decência no modo de trajar e um porte adequado(10) — terá direito à deferência naturalmente devida aos superiores, ou aos idosos, qualquer que seja o local do encontro: quando uma mulher entra em sua residência, o dono da casa se inclina diante dela, em princípio tão reverentemente quanto se ele próprio entrasse num salão.
No entanto, se o princípio é estável, incontestado, a prática dessa deferência devida às damas — em especial por meio da saudação — parece sujeita a modas muito flutuantes.
Seria então a mulher, tal como pretende a baronesa Staffe, ‘rainha na sociedade’, e reverenciada pelo homem ‘como um ser mais delicado que ele, como uma pessoa preciosa’?(11) Digamos antes que ela tem, quanto a isso, a ambição, ou a nostalgia. Nostalgia do tempo mítico, em que ‘o príncipe de Ligne, presidente do Senado belga, descobria seus cabelos brancos diante de todas as jovens de baixa corte do castelo de Bel-Oeil’, do tempo em que ‘o orgulhoso Luis XIV [quadro ao lado] erguia seu chapéu diante de uma lavadeira’.(12) Rainha? É o que ela foi outrora, suspira a condessa de Genlis: antes da Revolução. Naquela época, em boa companhia, ‘as mulheres eram tratadas pelos homens com quase todas as atitudes respeitosas prescritas pelos príncipes de sangue; eles não se dirigiam a elas em geral senão em terceira pessoa; entre eles, e diante delas, os homens jamais se tratavam por tu. Quando lhes dirigiam a palavra, era sempre em um tom de voz menos elevado do que o usado entre eles. Essa nuança de respeito’, conclui melancolicamente madame de Genlis, ‘tinha uma graça impossível de descrever’.(13)
Se de fato não é mais rainha, a mulher se mantém sagrada, intocável, o que constitui um considerável privilégio, como afiança Maurice Barrès a Anna de Noailles, a propósito de uma intriga espalhada pela baronesa Deslandes: ‘As mulheres têm verdadeiramente uma irresponsabilidade e um poderio monstruosos. De homem para homem, minha posição seria simples; eu diria: ‘Mas a quem foram mostradas essas cartas? Ao senhor X? Eu vou entender-me com ele’. Seria tudo consensual. Mas, no caso, para além das complicações de detalhe, o fato é que madame D., com seu privilégio de mulher, poderia responder: ‘Eu sei o que sei, eu digo o que digo e me recuso a dar qualquer explicação’.(14) [...]
E isso aconteceria sem que o homem por ela colocado em situação embaraçosa, que ela encurrala até o desespero, pudesse desmentir sem cair no ridículo, ou desafiá-la para um duelo, última solução para resolver, entre homens, os atentados ao decoro e as questões de honra. Em poucas palavras, a mulher, a certos respeitos, está em posição de comando.
Não obstante, essa rainha, essa intocável é também uma escrava, pois tal dignidade e tal superioridade lhe são impostas em troca de obrigações não raro mais pesadas do que as que recaem sobre o sexo oposto. Assim sendo, beneficiárias da proteção dos homens, as mulheres renunciam, no mesmo ato, a toda vontade, a todo poder, a toda autoridade, exceto a mundana e a doméstica.
Em primeiro lugar, sua superioridade moral e mundana faz da mulher a guardiã natural da polidez e do savoir-vivre. Esse lugar comum foi largamente e arrastadamente desenvolvido, em 1801, em um poema medíocre, que, no entanto, gozará de prodigioso sucesso, O mérito das mulheres, de Gabriel Legouvé. No preâmbulo, o autor explica que só as mulheres poderão conduzir o povo francês ‘à genuína urbanidade que quase se perdeu’ [com a Revolução Francesa]. Somente elas, com efeito, ‘aprimoram as maneiras; promovem o sentimento do decoro; são as verdadeiras preceptoras do bom-tom e do bom gosto; elas saberão nos devolver [...] a afabilidade, que era um dos nossos traços distintivos’.(15) É o que continua a repetir, meio século depois, a primeira edição de uma nova revista feminina, O conselheiro das damas [acima, foto da capa]‘As mulheres’, disse em algum lugar madame de Staël, ‘conduzem a sociedade. É sobretudo na França que esse axioma espiritual encontra sua justa aplicação. São as damas de nossos salões que ensinam as regras da verdadeira elegância; somente elas, nesse tempo de lassidão, têm defendido com sua influência civilizadora os princípios do bom gosto, as tradições das belas maneiras e a polidez rara, legada por nossos antepassados’.(16)
Mas exatamente por essa razão, a mulher, e mais ainda a jovem, se submetem a constrangimentos particularmente onerosos. Sobre elas pesam certas restrições, certos interditos desconhecidos dos homens. Assim, o tabaco é geralmente proibido às mulheres, sendo considerado, até o fim do século XIX, como especialmente masculino. Mais constrangedor ainda: até uma idade relativamente mais avançada, uma senhorita só deve sair acompanhada de um parente muito próximo, ou de uma senhora mais idosa, que ganha o título de chaperon, e deve cumprir com zelo seu papel de vigilante.
No início do século seguinte, alguns continuam a ver aí uma interdição necessária, ao passo que outros, a exemplo da condessa de Gencé, constatam, com uma pitada de resignação, que esse ‘velho princípio da polidez francesa, hoje, vem sendo abandonado’, já que daí por diante se chega a autorizar que as jovens, a partir dos 20 ou 21 anos, saiam sozinhas, para passeios na cidade, missas matinais ou visitas de caridade.(17)   
Na realidade, aqui se entremostra uma segunda série de constrangimentos que, na ordem do savoir-vivre, são a contrapartida da proteção de que a mulher se beneficia: o corolário da fraqueza que se lhe atribui e que o decoro a constrange a levar adiante. Supostamente fraca e frágil, ela deve notadamente renunciar a tudo quanto se relacione ao poder e à autoridade, à força e à violência, considerados atributos especificamente masculinos.
Por essa razão, a mulher deve evitar as discussões políticas, que a levariam a se envolver com aquilo que não lhe diz respeito. Como já afirmava madame de Genlis, no início do século XIX, lembrando-se sem dúvida das ambíguas heroínas da Revolução, ‘há de se convir em que, no geral, as mulheres não são talhadas para governar, nem para se envolver nos graves interesses da política’. A prova? ‘Não se encontraria talvez uma só mulher de 20 anos que, dotada de deslumbrante beleza, consentisse (se a troca fosse possível) em abrir mão dela para conquistar um trono’.(18) Em consequência, e ainda que para isso seja preciso fingir, ela deverá ‘nessa conversação, insinuar sua ignorância e se desculpar por não se dispor sequer a emitir uma opinião’. ‘A mulher, continua, a boronesa Staffe, ‘não impõe suas convicções pessoais [...]; um de seus grandes encantos é não posar de superior ao homem, quaisquer que sejam sua inteligência e sua força moral’.(19)
Tal é o leitmotiv do decoro feminino, até a guerra de 1914: reserva e discrição devem marcar cada gesto, cada atitude. O modo de andar, por exemplo, deve ser ‘modesto e compassado’, sem aquela precipitação que, segundo madame Celnart, ensombrece a graciosa decência que caracteriza a mulher.(20) A mulher, acrescenta a condessa Drohojowska, deve mostrar-se amável, cordata, graciosa, mas deve, sobretudo, ‘unir às suas qualidades uma imensa reserva’.(21) No início do século seguinte, a baronesa Staffe ou a marquesa de Pompeillan não dizem outra coisa, ao afirmarem que ‘uma verdadeira mulher do mundo se mostrará reservada em tudo e em toda parte, em casa, na casa de alguém e sobretudo em público’.(22)
Em consequência, proíbe-se, principalmente às jovens, tudo o que poderia ir de encontro a esse princípio, ‘Nada de apertos de mão vigorosos, nada de cruzar as pernas, nada de interesses pelos negócios ou pelo turfe, nada de opiniões categóricas sobre os homens ou as mulheres, nada de familiaridade com os cavalheiros’, lembra a condessa de Gencé. A esse propósito, nem seria preciso dizer que toda iniciativa amorosa é estritamente proibida pelos costumes. Segundo o dito célebre, um homem cortejador é um galante, mas uma mulher que faça o mesmo é apenas uma apreciadora vulgar de galanteios. O máximo que se autoriza às jovens é prestar atenção cordial às galanterias delicadas, ‘desde que’, prossegue a condessa, ‘a galanteria seja uma forma um tanto refinada de polidez’.(23)
Quanto a isso, o século XIX, ‘o século da virgindade’,(24) como por vezes foi qualificado, parece tão afastado do século precedente, quanto do fim do século XX, com sua liberação sexual. É que entre a queda do Antigo Regime e o século seguinte se interpõe a lembrança traumatizante da Revolução — quando se veem, na França, relata madame de Genlis, ‘jovens mulheres de muito boa aparência apresentando-se em público quase inteiramente nuas, como se estivessem na Lacedemônia; tratando-se por tu; [...] dizendo em público, em seu próprio nome, versos eróticos que não poderiam ser assinados nem por homens’.(25) [...]
Dimensão prática da polidez: perenidade da família
Enquanto as opiniões autorizadas por vezes divergem quanto ao sentido e ao alcance de certos princípios de polidez, estes se revelam, quanto a isso, perfeitamente estáveis e concordantes: ‘Um homem que só aplique as regras do savoir-vivre nas suas relações sociais e esqueça-as em família não é um homem de sociedade: tem só o verniz’. Tal julgamento, emitido em 1898 pela marquesa de Pompeillan, ressurge ao longo do século, amparado em justificações ao mesmo tempo utilitárias — é absurdo ser polido no mundo, diante de desconhecidos, com os quais a pessoa talvez jamais volte a se encontrar, e impolido em família, diante daqueles de quem se espera toda a felicidade da vida — e morais.
Nesse quadro privilegiado, a polidez permitirá, de início e efetivamente, evitar que as discussões degenerem em conflito e daí em cenas de descompostura. A baronesa Staffe lembra aos esposos que, em caso de discussão, ‘se souberem refrear qualquer expressão ofensiva ou simplesmente impolida, o bom acordo não tardará a se restabelecer, e um dos cônjuges, o mais dotado, não tardará a ceder. Ao contrário, um dito mordaz, uma palavra injuriosa invocam a tempestade e, não raro, comprometem para sempre o firmamento conjugal’.(27) Percebe-se aí, claramente, a dimensão prática da polidez, fundamento da perenidade da família e da paz dos lares, indispensáveis numa sociedade que proíbe o divórcio ou que o encara sob severa suspeição.
Quanto à intimidade no lar, esclarece madame Celnart, esta pode certamente dispensar certas etiquetas, mas nunca o respeito. Só os abrutalhados imaginam que em família tudo é permitido. Na presença da mulher ou do marido, a pessoa não deve jamais se permitir satisfazer necessidades que introduzam, entre eles, qualquer sentimento de aversão, nem se dedicar a cuidados pessoais que, diante de qualquer um que não seja ela própria, comprometem a decência ou a propriedade — como lavar os pés, cortar as unhas, sair do banho etc.(28)
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Em resumo, para o século XIX, a vida conjugal, mesmo na intimidade, não poderia ser uma no man´s land [terra de ninguém] em matéria de polidez — cuja importância aumenta na medida em que se tende a negligenciá-la, já que a inter-relação é decisiva, pois dela depende o futuro da família, à mercê das consequências por vezes incalculáveis de uma expressão fora do lugar, um gesto mal interpretado, em poucas palavras, uma impolidez qualquer.
Uma das gravuras da revista acima mencionada
Notas:
1. G. Fraisse, M. Perrot, in G. Duby, M. Perrot, Histoires des femmes em Occident, t. IV, p. 13.
2. Baronne Staffe, Indications pratiques pour obtenir um brevet de femme chic, Flammarion, 1907, p. 230.
3. Mme Celnart, Nouveau Munuel complet de la bonne compagnie, op. cit., p. 134.
4. Baronne Staffe, Indications pratiques pour obtenir um brevet de femme chic, op. cit., 1907, p. 230.
5. Mme Celnart, Nouveau Munuel complet de la bonne compagnie, op. cit., pp. 267-268.
6. Comtesse de Gencé, Savoir-vivre et usages mondains, Bibliothèque des ouvrages pratiques, [s.d] (1097), pp. 11-12.
7. Mme Celnart, Nouveau Munuel complet de la bonne compagnie, op. cit., p. 270.
8. Citado por L. Daudet, Paris vécu, 1ª série, Rive droite, 1929, p. 109.
9. Comtesse de Gencé, Savoir-vivre et usages mondains, op. cit., p. 5.
10. Baronne Staffe, Usages du monde, Éditions 1900, 1989, p. 104.
11. Baronne Staffe, Indications pratiques pour obtenir um brevet de femme chic, op. cit., p. 78.
12. Baronne Staffe, Usages du monde, op. cit., p. 103.
13. Dictionnaire de l´étiquette, op. cit., t. II, p. 347.
14. M. Barrès a A. de Noailles, carta de 6 de agosto de 1903, em Correspondance, L´Inventaire, 1994, p. 29.
15. G. Legouvé, Le Mérite des femmes, Camuzeaux, 1835, p. XLVII.
16. Le Conseiller des dames, jornal d´économie domestique et de travaux d´aiguille, 1847-1848, t. I, p. 1.
17. Comtesse de Gencé, Code mondain de la jeune fille, Bibliothéque des oeuvres pratiques, 1909, p. 32.
18. Citado por Mme de Saint El..., Les Femmes au XIXe siècle, 1828, pp. 102-103.
19. Baronne Staffe, Usages du monde, op. cit., p. 226.
20. Mme Celnart, Nouveau Munuel complet de la bonne compagnie, op. cit., p. 49.
21. Comtesse Drohojowska, Conseils à une fille sur les devoir à remplir dans le monde, Lyon, Périsse, 1853, p. 98.
22. Marquise de Pompeillan, Usages du monde dans la societé moderne, le guide de la femme du monde, Pontet-Brault, 1898, p. 228.
23. Comtesse de Gencé, Code mondain de la jeune fille, op. cit. Pp. 32, 228.
24. A. Corbin, em Ph. Ariès, G. Duby, Histoire de l avie privée, Le Seuil, 1987, t. IV, p. 540.
25. Cf. A. Montandon, “Civilités”, em Civilités extremes, Clermont-Ferrand, Association publication faculté Clermont-Ferrand, 1997, pp. 115 sq.
26. Marquise de Pompeillan, Guide de la femme du monde, op. cit., p. 149.
27. Baronne Staffe, Usages du monde, 1989, p. 347.
28. Mme Celnart, Nouveau Munuel complet de la bonne compagnie, op. cit., pp. 23-24.