14 de agosto de 2026

O perfume da Assunção de Nossa Senhora ao Céu permanece em todos os povos da Terra

 



15 de agosto — Solenidade da Assunção da Santíssima Virgem, levada por Anjos em corpo e alma ao Céu 


Paulo Roberto Campos 

Há festas da Igreja que nos falam sobretudo de um acontecimento. A Assunção de Nossa Senhora, porém, nos fala de um acontecimento e, ao mesmo tempo, de uma presença.

Maria Santíssima foi elevada ao Céu em corpo e alma. A Igreja ensina que, terminado o curso de sua vida terrestre, Ela foi glorificada por Deus e introduzida na bem-aventurança celeste. Plinio Corrêa de Oliveira, em uma conferência pronunciada precisamente no dia 15 de agosto de 1975, convida-nos a contemplar esse mistério sob um aspecto particularmente tocante: Nossa Senhora partiu, mas deixou na Igreja um perfume que atravessaria os séculos.

Uma primeira consideração dessa sua conferência é a diferença entre a Ascensão de Nosso Senhor e a Assunção de Maria. Nosso Senhor Jesus Cristo sobe ao Céu por seu próprio poder; Ela, criatura perfeitíssima, é elevada pelo poder de Deus. Daí a própria diferença dos termos: Ascensão para Nosso Senhor, Assunção para Nossa Senhora. 

Mas há algo ainda mais profundo: Nossa Senhora, concebida sem pecado original e Mãe de Deus, poderia ter sido preservada da morte. Entretanto, quis assemelhar-se inteiramente ao seu Divino Filho. Se Ele desejou passar pela morte, Ela também desejou passar por esse misterioso limiar. E sua morte foi inteiramente incomum. 

É por isso que a tradição fala da “Dormitio Beatae Mariae Virginis” (Dormição da Virgem Maria). Não se trata de negar a realidade da morte, mas de indicar sua particular suavidade e a proximidade imediata de sua glorificação. Maria morreu; sua alma separou-se de seu corpo. Mas essa morte foi como uma dormição, seguida pela ressurreição e pela gloriosa Assunção.




Há aqui uma lição extraordinária para nós. 

A morte, consequência do pecado original, é naturalmente uma ruptura dolorosa. Mas Nosso Senhor transformou a própria morte em porta de entrada para a vida eterna. E Nossa Senhora, associando-se ao sacrifício de Cristo, quis também passar por essa porta. 

Talvez seja este um dos pontos mais originais e mais consoladores da meditação do Prof. Plinio na referida conferência. 

Ele sugere que, quando chegar para nós a hora da morte, procuremos unir nossa morte à morte de Nossa Senhora e, por meio d´Ela, à morte infinitamente preciosa de Nosso Senhor Jesus Cristo. Assim como o verdadeiro devoto de Maria procura chegar a Jesus por meio d'Ela durante toda a vida, também na hora suprema pode pedir que sua morte seja oferecida em união com a morte de sua Mãe Santíssima. 

É uma perspectiva profundamente católica. Não se trata de amar a morte por si mesma. A morte é um terrível efeito do pecado. Mas, em Cristo, ela pode adquirir outro significado: pode tornar-se sacrifício, entrega, reparação e passagem para a glória. 

Por isso, diante da morte, o católico não perde a esperança e pode dizer interiormente a Nossa Senhora: “Assim como Vós quisestes entregar-Vos inteiramente a Deus, ajudai-me a entregar-me também. Uni a minha morte à vossa e, por meio da vossa morte, à morte infinitamente preciosa de Nosso Senhor”

A morte deixa então de ser simplesmente o momento em que tudo termina. Torna-se o momento em que começa a verdadeira vida. 

Mas é na contemplação da Assunção propriamente dita que surge a nota mais delicada aparece na conferência. 

Nossa Senhora sobe ao Céu. Os Apóstolos e os discípulos maravilhados contemplam sua partida [notem no quadro no início do artigo]. Aquele contato terrestre com Ela termina. Seus olhos já não poderão vê-La como antes. A Mãe que os acompanhara, que os consolara, que lhes comunicara sua presença, desaparece de seus horizontes terrenos. 

Poderia parecer que, a partir desse momento, tudo seria apenas saudade. Mas não. É justamente aqui que o Prof. Plinio coloca uma de suas ideias mais belas: uma alma verdadeiramente católica pode continuar presente depois de sua partida através do “perfume” que deixa atrás de si. E isso se realizou de modo incomparável em Nossa Senhora.

Ela já não estava diante dos olhos dos Apóstolos. Mas estava, de certo modo, ainda mais presente em suas almas. 

A lembrança de seu olhar, de sua pureza, de sua bondade, de sua dignidade, de sua serenidade e de sua incomparável união com Deus deveria permanecer para sempre na Igreja. 

E assim aconteceu. Ao longo dos séculos, povos inteiros aprenderam a pronunciar seu nome com ternura. Reis e camponeses, sábios e simples, religiosos e mães de família, mártires e contemplativos encontraram em Maria uma luz, uma consolação e um modelo.

E esse perfume não se extinguiu. É Nossa Senhora! Há algo de profundamente expressivo na observação do Prof. Plinio de que, quando se fala verdadeiramente d´Ela, muitas vezes as palavras parecem insuficientes. Há realidades que podem ser explicadas; outras precisam ser contempladas. 

Falar de Maria é tocar numa realidade que ultrapassa nossas fórmulas. Ela é a Imaculada Conceição! É a Mãe de Deus! É a Virgem Santíssima! É a Rainha dos Anjos e dos Santos! É a Mãe espiritual de todos nós! É Aquela que esteve junto à Cruz e que agora reina junto ao Filho no Céu! 

Por isso, depois de tudo quanto se possa dizer, permanece uma espécie de silêncio cheio de significado: é Nossa Senhora! Essa expressão, aparentemente tão simples, contém algo como um universo. 

Na parte final de sua conferência, o Prof. Plinio faz uma consideração particularmente apropriada para nossa época: já que não podemos contemplar com nossos olhos terrenos a fisionomia de Nossa Senhora, as suas imagens podem ser, de certo modo, uma ponte entre Ela e nós. Não adoramos a imagem. A imagem nos conduz à Pessoa representada. 

Quando olhamos uma boa imagem de Nossa Senhora, procuramos algo mais do que uma bela obra de arte. Procuramos imaginar sua alma, sua pureza, sua bondade, sua majestade, sua maternidade. 

É como se aquela representação nos dissesse: “Ela existiu; Ela vive; Ela está no Céu; e é para Ela que voltamos o nosso olhar.” 

A imagem torna-se, assim, uma lembrança visível daquela presença que a Assunção tornou invisível aos nossos olhos. 

A Assunção não é, portanto, simplesmente a despedida de Nossa Senhora da Terra. É a inauguração de uma forma nova e ainda mais profunda de presença. Antes, Maria estava fisicamente junto dos Apóstolos. Agora, está espiritualmente junto a todos nós. 

Antes, poucos podiam aproximar-se d'Ela. Depois da Assunção, todos os homens podemos recorrer à sua maternidade. Antes, sua presença estava limitada a um lugar. Agora, seu “perfume” se espalhou pelo mundo inteiro. E esse perfume continua chegando até nós.

Talvez seja esta a graça mais apropriada a pedir nesta grandiosa festa do dia 15 de agosto: que Nossa Senhora impregne em nossas almas algo de seu perfume. Que depois de convivermos com Ela pela oração, pelo Rosário, pela meditação e pela frequência aos Sacramentos, alguma coisa d´Ela permaneça em nosso modo de pensar, de falar, de agir e de enfrentar as dificuldades. 

Que aqueles que convivem conosco possam encontrar, não nossa própria personalidade, mas alguma coisa que lhes recorde Nossa Senhora. Que sejamos, por assim dizer, portadores de seu perfume. 

E quando chegar a hora de nossa partida, possamos também deixar atrás de nós — embora de modo infinitamente menor — alguma lembrança de fidelidade, de pureza, de coragem e de amor a Deus. Porque a verdadeira morte católica não é simplesmente desaparecer. É partir deixando para trás uma lembrança que conduz a Deus. 

Nossa Senhora partiu há tantos séculos. Entretanto, sua presença nunca foi tão grande. Ela está no Céu em corpo e alma, gloriosa junto de seu Divino Filho. E, ao mesmo tempo, continua maternalmente próxima daqueles que invocam a Medianeira Universal de Todas as Graças

A Igreja inteira está impregnada desse perfume. Um perfume que não se dissipa. Um perfume que atravessa os séculos. O perfume de Nossa Senhora! 
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Obs: A conferência original é bem mais longa e interessante. Para este breve artigo, selecionei apenas alguns pontos. A íntegra pode ser lida por meio do seguinte link: O perfume da Assunção de Nossa Senhora

9 de agosto de 2026

SER PAI É SABER RETIRAR-SE



  Evaristo de Miranda 

É fácil estar presente na vida de um filho. Difícil é saber retirar-se. Há pai tão presente na vida do filho a ponto de negar-lhe autonomia. Decide por ele. Define seu futuro, estudos e carreiras. Decide deixar-lhe de herança seu negócio, loja ou posto de gasolina. Até sugere com quem deveria se casar ou não. 

Há pais onipresentes e dominadores na vida dos filhos. Depois de mortos, ainda os perseguem com suas exigências incorporadas na mente dos filhos. Ser amado implica em atender os desejos paternos? O filho segue, inconscientemente, atendendo seu pai, anos e anos após sua morte.

Filhos não vieram ao mundo apenas para satisfazer sonhos e desejos paternos. O brilho do pai não pode projetar uma sombra sobre o filho. Ao pai cabe retirar-se para a sombra, enquanto o filho emerge na luz. 

Retirar-se da vida do filho não significa abandonar. É deixá-lo encontrar-se e ir para si. Não é apenas nunca fazer por ele o que ele pode fazer sozinho, coisa em si já difícil. Retirar-se é dar espaço ao outro em sua própria vida. Exige intuição, maturidade, desapego, contemplação e atenção. Foi assim com José, um carpinteiro da Galileia. 

O esposo de Maria foi um pai diligente. Agiu com coragem, presença e eficiência quando necessário. Esteve ao lado de Maria no parto, organizou a fuga para o Egito, cuidou da família durante o exílio e conduziu o retorno à Palestina. E diante do crescimento e da vida própria do filho soube se retirar. Com um desapego de dar inveja. Num silêncio e numa discrição tão sutis, ele desaparece até dos textos evangélicos. 

Esse pai soube retirar-se diante da autonomia da vida e face às dimensões únicas de seu filho Jesus e de sua esposa. Contraiu-se para dar espaço ao Outro. Abdicou da posse implícita na paternidade: paradigma para a Igreja, paradoxo para os não crentes. Nesse abdicar da propriedade, da posse e do poder implícitos na paternidade — sobre os quais a psicologia moderna já se debruçou tanto — José se revela um homem extremamente centrado em sua essência. Exemplo de pai e esposo.

Na tradição judaica, José poderia denunciar Maria e expô-la publicamente. O evangelho o apresenta como vir justus, homem justo. Não desejando sua desgraça, resolve deixá-la secretamente (Mt 1,19). Essa decisão, ele não levará adiante. Ao sonhar, entende: o que nela foi gerado é obra do Espírito Santo (Mt 1,20). Manteve com sua mulher, até na dúvida e no conflito, uma relação com o feminino particularmente radical e de serviço. 

Quem, ao acordar, todo santo dia, lembra seus sonhos, psicologicamente, é nota 10. É raro. Quem além de recordar, interpreta o significado e entende a mensagem de cada um de seus sonhos, é nota 100. Dificílimo interpretar os próprios sonhos. Se além de recordar, analisar e entender, a pessoa age em conformidade com seus sonhos, muda sua vida e seu viver, então é nota 1.000. Como José. Um homem com quem Deus só falava por sonhos! 

Deus fala com José em pelo menos quatro sonhos (Mt 1,20; 2,13; 2,19 e 2,22), segundo Mateus. José vive atento, em harmonia e diálogo com seu eu profundo. Essa extraordinária capacidade de lembrar, interpretar e agir segundo seus sonhos diz muito sobre sua alma, sua interioridade e seu equilíbrio psicológico. Em hebraico, Iossef significa “Deus acrescentará”. 

José foi resgatado de forma polissêmica pela Igreja e movimentos religiosos por séculos. Como pai me permito uma leitura da condição vivida por José e pelos homens, pais. Suas atitudes, descritas no evangelho, são próximas de muitos aspectos da condição paterna e a interpelam. 

No catolicismo, São José é o Padroeiro da Boa Morte. Ele teria morrido antes de Jesus e Maria. Provavelmente, morreu tendo os dois em sua cabeceira. Difícil imaginar morte em melhor companhia, tendo de um lado Jesus e do outro Maria, fisicamente. Daí a Boa Morte. Para além dessa imagem piedosa, José é mesmo o Padroeiro da Boa Morte, dada a sua vida de desapego. Morre bem quem está desapegado de tudo não destinado à eternidade. Está pronto para partir, livre de qualquer amarra. O desapego de São José na paternidade, no matrimônio e até da condição de personagem bíblico faz dele um exemplo de caminho para a boa morte. 

Educar um filho para a autonomia também é preparar-se para a própria finitude. Ao retirar-se da vida do filho, o pai aprende a retirar-se da própria vida. A boa morte, de certa forma, os filhos também anunciam e ajudam os pais, docemente e em família, a aceitar, como parte da plenitude da Vida.

5 de agosto de 2026

570 anos da Festa da Transfiguração: a luz do Tabor para enfrentar o Calvário, as horas de provação

 

A Transfiguração. Giovanni Bellini (1487-1495). Atualmente no Museo Nazionale di Capodimonte, em Nápoles.


Instituída há mais de cinco séculos pelo Papa Calisto III, após a memorável vitória de Belgrado, a festa da Transfiguração recorda-nos que Deus revela Sua glória para nos fortalecer antes das grandes provações.

  Paulo Roberto Campos

No calendário litúrgico da Igreja Católica, poucas festas encerram um simbolismo tão profundo quanto a da Transfiguração de Nosso Senhor Jesus Cristo, celebrada em 6 de agosto. Para a maioria dos fiéis, ela evoca apenas uma das mais belas passagens do Evangelho: Jesus resplandecendo de glória no alto do Monte Tabor (na Galileia, em Israel), diante dos Apóstolos Pedro, Tiago e João.

Entretanto, poucos sabem que esta data guarda também uma extraordinária página da história da Cristandade.

Neste 6 de agosto de 2026, completam-se 570 anos desde que o Papa Calisto III [quadro ao lado], em ação de graças pela surpreendente vitória cristã sobre os turcos em Belgrado, estendeu a toda a Igreja latina a celebração da festa da Transfiguração. O gesto do Pontífice não foi apenas uma homenagem a um triunfo militar. Constituiu uma profissão pública de fé na Providência Divina, que jamais abandona Sua Igreja quando as circunstâncias parecem mais sombrias.

Mais de cinco séculos depois, a mensagem permanece surpreendentemente atual.

Em uma época marcada por guerras, crises culturais, perseguições religiosas e profundas incertezas sobre o futuro da civilização cristã, a Transfiguração continua proclamando que, antes das horas mais difíceis, Deus costuma conceder aos Seus filhos uma visão antecipada da vitória.

O episódio é narrado por três Evangelistas (Mt 17, 1-9; Mc 9, 2-10; Lc 9, 28-36).

Seis dias após anunciar Sua Paixão, Jesus sobe a um alto monte, levando consigo apenas Pedro, Tiago e João, onde acontece algo absolutamente extraordinário.

“Lá se transfigurou na presença deles: seu rosto brilhou como o sol, suas vestes tornaram-se resplandecentes de brancura” (Mt 17, 2).

Não se trata de um milagre realizado por Nosso Senhor Jesus Cristo sobre outra criatura, mas de uma manifestação da própria glória divina que sempre existira em Sua natureza humana, embora normalmente permanecesse velada.

Ao lado do Divino Salvador aparecem duas figuras venerandas do Antigo Testamento: Moisés, representante da Lei, e Elias, o maior dos profetas. Ambos conversam com Jesus sobre a Paixão que se aproximava.

Enquanto isso, Pedro, arrebatado pela beleza da cena, exclama: "Senhor, é bom estarmos aqui!" Logo uma nuvem luminosa envolve o monte, e dela ressoa a voz do Pai Eterno: "Este é o meu Filho amado, em quem pus toda a minha complacência; ouvi-O."

É uma das poucas ocasiões em que as três Pessoas da Santíssima Trindade se manifestam conjuntamente: o Filho transfigurado, o Pai falando do alto dos céus e o Espírito Santo simbolizado pela nuvem luminosa.

A Igreja sempre contemplou essa cena como uma das mais sublimes revelações da divindade de Jesus Cristo.

Preparando os Apóstolos para o Calvário

Igreja da Transfiguração,
no Monte Tabor.
Mas por que Jesus quis manifestar Sua glória justamente naquele momento? — A resposta foi dada de maneira admirável por São Leão Magno (+461), em um sermão clássico sobre a Transfiguração: 

"O principal objetivo da Transfiguração foi remover do coração dos discípulos o escândalo da Cruz, para que a humilhação da Paixão voluntariamente aceita não abalasse a fé daqueles a quem fora revelada a excelência da dignidade escondida."

Poucas semanas separavam o Tabor do Calvário. Os mesmos Apóstolos que contemplavam Jesus revestido de esplendor logo O veriam coberto de sangue, coroado de espinhos, abandonado pela multidão, pregado numa cruz. Sem a recordação daquela visão extraordinária, a provação poderia parecer insuportável.

São João Crisóstomo desenvolve a mesma ideia. Segundo ele, Jesus mostrou Sua glória "para que, quando O vissem crucificado, compreendessem que Sua Paixão era voluntária e não fruto de impotência".

A Transfiguração, portanto, não foi um prêmio concedido aos discípulos, mas uma preparação para o sofrimento.

A exclamação espontânea de São Pedro atravessou 20 séculos de cristianismo: "Senhor, é bom estarmos aqui!"

Quem nunca experimentou, ainda que por breves momentos, algo semelhante? — São aqueles instantes em que a alma sente com particular intensidade a presença de Deus: graças especiais que Ele nos concede por intercessão de Sua Mãe Santíssima.

O homem gostaria de permanecer para sempre nesse "Tabor". Pedro chegou a propor a edificação de três tendas para prolongar naquela montanha aquela felicidade. Mas Jesus desce imediatamente da montanha. Era preciso caminhar rumo a Jerusalém. Era preciso enfrentar o Calvário.

Lição para todos os tempos

Essa alternância entre o Tabor e o Calvário acompanha toda a história da Igreja. Também a vida espiritual de cada cristão conhece momentos luminosos e períodos de prova.

Comentando esse episódio evangélico, Plinio Corrêa de Oliveira [foto] observava que Deus, em Sua misericórdia, costuma conceder aos homens certos "Tabor" ao longo da vida. São recordações destinadas a sustentar a alma quando chegam inevitavelmente as cruzes. Donde sua conhecida síntese espiritual: "Nas piores horas, lembremo-nos das melhores, para podermos confiar no dia de amanhã." Não se trata de um simples exercício psicológico de memória afetiva. É um ato de fé na Divina Providência.

Recordar as graças já recebidas fortalece a certeza de que Aquele que conduziu ontem continuará conduzindo amanhã. É precisamente essa perspectiva que ajuda a compreender por que a Igreja resolveu ligar a festa da Transfiguração a um dos momentos mais dramáticos da história da Cristandade.

Quando a Europa parecia caminhar para uma derrota irreversível diante do avanço maometano, um Papa enxergou, na vitória inesperada de Belgrado, um verdadeiro reflexo da luz do Tabor projetando-se sobre a história.

Foi então que nasceu a celebração universal do dia 6 de agosto — uma data que, neste ano, completa 570 anos de existência.

Quando a Cristandade parecia condenada

Para compreender plenamente o significado da decisão de Calisto III, é preciso recuar alguns anos. Em 29 de maio de 1453, Constantinopla — a antiga capital do Império Romano do Oriente — caiu diante das tropas do sultão Maomé II. A notícia abalou profundamente a Europa cristã. Durante mais de 1000 anos, aquela cidade fora um dos grandes baluartes da civilização cristã. Sua conquista pelos otomanos pareceu anunciar um avanço irresistível do Islã sobre o continente europeu. A ameaça era real.

Depois de Constantinopla, o caminho parecia aberto para a conquista dos Bálcãs e, em seguida, da própria Europa Central. Muitos contemporâneos acreditavam que seria apenas uma questão de tempo até que cidades como Viena, Veneza ou mesmo Roma se tornassem os próximos alvos.

Foi nesse cenário dramático que, em abril de 1455, subiu ao trono de São Pedro o valenciano Alfonso de Borja, que tomou o nome de Calisto III.

Já idoso, o novo Pontífice compreendeu imediatamente que não se tratava apenas de um conflito político ou militar. Estava em jogo a sobrevivência da Cristandade como realidade espiritual e cultural.

Sua primeira reação foi conclamar os príncipes cristãos à união, superando rivalidades que há muito enfraqueciam a Europa. Nem todos corresponderam ao apelo. As divisões internas mostraram-se mais fortes do que a consciência do perigo comum.

Calisto III, então, voltou-se para aquilo que considerava a arma mais poderosa da Igreja: a oração.

Papa que mobilizou a Cristandade

Entre as iniciativas do Pontífice, uma tornou-se particularmente célebre. Ele determinou que, todos os dias, ao toque dos sinos do meio-dia, os fiéis interrompessem suas atividades por alguns instantes para rezar pela vitória das armas cristãs e pela libertação dos povos ameaçados.

Com o passar do tempo, essa prática fundiu-se à oração do Ângelus, tornando-se uma das mais belas tradições da piedade católica. Ainda hoje, em milhares de cidades, os sinos do meio-dia recordam, mesmo sem que muitos o saibam, aquele dramático momento da história em que um Papa convocou toda a Cristandade para uma Cruzada de Oração.

Enquanto isso, o exército otomano preparava sua grande ofensiva. O alvo escolhido era Belgrado, a principal fortaleza do Reino da Hungria e verdadeira porta de entrada para a Europa Central. Se Belgrado caísse, dificilmente haveria obstáculos capazes de deter o avanço turco. 

Heróis de Belgrado

János Hunyadi,
comandante dos cruzados
que libertou Belgrado
do domínio otomano
A defesa da cidade foi confiada a um dos maiores estrategistas militares de seu tempo, o regente húngaro János Hunyadi [estátua ao lado], cuja experiência nas campanhas contra os otomanos já lhe granjeara enorme prestígio.

Ao seu lado encontrava-se uma figura muito diferente, mas igualmente decisiva: São João de Capistrano [pintura abaixo], frade franciscano de mais de 70 anos, célebre pregador popular e profundo conhecedor da alma humana.

Enquanto Hunyadi organizava as defesas militares, Capistrano percorria cidades e aldeias inflamando os espíritos com seus sermões. Milhares de voluntários responderam ao chamado. Muitos eram camponeses e artesãos, mal armados, mas profundamente convencidos de que defendiam não apenas suas famílias, mas a própria fé cristã.

O santo empunhando um grande crucifixo durante os combates, conclamava os homens à confiança em Jesus Cristo. Seu brado tornou-se célebre: "A vitória pertence ao Senhor!"

São João de Capistrano
na batalha de Belgrado.
Igreja dos Bernardinos, Cracóvia.
Em julho de 1456, um poderoso exército otomano cercou Belgrado. Durante semanas, os combates foram intensos. Tudo parecia favorecer os invasores. Entretanto, em 22 de julho de 1456, contra muitas expectativas, os defensores lançaram uma ofensiva inesperada que rompeu as linhas inimigas. O próprio sultão Maomé II ficou ferido, e suas tropas retiraram-se em desordem.

A Europa estava salva! Não definitivamente — ainda haveria novos confrontos nas décadas seguintes —, mas o ímpeto da expansão otomana sofrera um golpe decisivo.

Historiadores de diversas correntes reconhecem que a vitória de Belgrado representou um dos momentos decisivos da história europeia. Caso a cidade tivesse sucumbido, o destino político e religioso do continente poderia ter sido muito diferente.


Inspirada resposta do Papa

Quando a notícia da vitória chegou a Roma, Calisto III viu naquele acontecimento algo muito maior do que um êxito militar. Ele discerniu um sinal da Providência.

Como expressão de gratidão a Deus, decidiu estender a toda a Igreja latina a festa da Transfiguração de Nosso Senhor Jesus Cristo, fixando definitivamente sua celebração no dia 6 de agosto. A escolha não foi casual.

A luz contemplada pelos Apóstolos no Monte Tabor tornava-se, assim, símbolo da assistência divina concedida à Cristandade em um dos momentos mais sombrios de sua história.

A mensagem era clara. Assim como Nosso Senhor manifestara Sua glória antes da Paixão, Deus também mostrara Sua proteção quando muitos julgavam inevitável o triunfo das forças que ameaçavam a Cristandade.

O Papa desejava que essa recordação permanecesse viva de geração em geração. A cada 6 de agosto, os fiéis não apenas rememorariam um episódio do Evangelho, mas também renovariam sua confiança na ação da Providência sobre a História.

Leitura espiritual da História

Séculos depois, o Papa Pio XII voltou a recordar esse significado histórico da festa. Em uma época igualmente marcada por guerras mundiais, perseguições religiosas e regimes totalitário-comunistas, o Pontífice apresentou a Transfiguração como um convite permanente à esperança sobrenatural.

A História da Igreja — ensinava, em substância — conhece horas de esplendor e horas de sofrimento. Contudo, por trás dos acontecimentos humanos, permanece a mão de Deus conduzindo os destinos dos povos e realizando Seus desígnios.

Essa perspectiva ajuda a compreender por que a festa da Transfiguração jamais foi apenas a comemoração de um acontecimento passado. Ela se tornou uma profissão de fé.

Ao celebrar Nosso Senhor glorioso do Tabor, a Igreja proclama que nenhuma derrota aparente, nenhuma perseguição, nenhuma crise possui a última palavra. A glória revelada naquele monte continua sendo a garantia da vitória definitiva d´Ele sobre todas as maléficas forças revolucionárias.

É precisamente essa convicção que faz da Transfiguração uma das festas mais atuais do calendário litúrgico, especialmente em tempos de incerteza e de provações.

 

O “Tabor” e os "Calvários" de nossa existência

Por que a festa da Transfiguração continua tocando com tanta força os corações católicos de nosso século neo-pagão? — Porque ela toca uma das experiências mais universais da existência humana.

Todos conhecem os dias de entusiasmo e também as horas de desânimo; os momentos em que Deus parece próximo e aqueles em que Seu silêncio parece envolver todas as coisas.

A pedagogia divina, porém, não muda. Antes da Paixão, Nosso Senhor Jesus Cristo mostrou aos Apóstolos um lampejo da glória que Lhe pertencia desde toda a eternidade. Não eliminou a cruz, mas fortaleceu seus discípulos para carregá-la.

É por isso que São Leão Magno afirma que o Senhor quis "fortalecer a esperança da Igreja", revelando antecipadamente a glória que aguardava os membros de Seu Corpo Místico.

Também São João Damasceno contempla o Tabor como uma manifestação gradual da divindade de Cristo. Segundo o Doutor da Igreja, Jesus "transfigurou-Se, não assumindo o que não era, mas manifestando aos discípulos aquilo que era", abrindo-lhes os olhos para que pudessem contemplar, tanto quanto lhes era possível, o esplendor do Verbo Encarnado.

Essas reflexões inspiraram gerações de mestres espirituais. Entre eles, São Tomás de Aquino, ao reunir na Catena Aurea os comentários dos Padres ao Evangelho da Transfiguração, mostra uma impressionante convergência: todos veem no Tabor uma preparação para o “escândalo” da Cruz e uma antecipação da glória da Ressurreição.

Em outras palavras, o caminho do cristão passa inevitavelmente pelo Calvário, mas termina na luz da glória.

Lição para nossos dias

Comentando esse episódio evangélico, Plinio Corrêa de Oliveira chamou a atenção para um aspecto de grande alcance espiritual.

Segundo ele, Deus costuma conceder aos homens, ao longo de suas vidas, momentos particularmente luminosos: ocasiões em que uma inesperada graça especial, uma conversão, uma cerimônia, uma Missa profundamente recolhida, uma oração fervorosa, uma peregrinação, uma palavrinha que fortalece a virtude, uma leitura, uma comunhão particularmente consoladora, ou mesmo um acontecimento providencial deixam na alma uma marca profunda.

Esses momentos não são um fim em si mesmos. São reservas de luz para o futuro. Donde sua conhecida observação, já citada acima: "Nas piores horas, lembremo-nos das melhores, para podermos confiar no dia de amanhã." Essa frase sintetiza admiravelmente a pedagogia do Tabor.

Quando chegam as provações — e elas chegam para todos —, o católico não se deixa dominar pelo desalento. Volta o olhar para as graças que Deus já lhe concedeu por meio de Maria, recorda as intervenções da Providência em sua vida e na história da Igreja, e reencontra a coragem para prosseguir. Isto não é apenas saudades, é esperança, é confiança!

Festividade extraordinariamente atual

Vivemos uma época marcada por rápidas transformações. Guerras, revoluções, perseguições religiosas, crise da família, relativismo moral, conflitos culturais e profundas inquietações nacionais e internacionais fazem muitos perguntarem se o mundo caminha para um futuro de paz ou para novas convulsões.

Não faltam motivos de preocupação. Mas também não faltam razões para a esperança.

Ao longo de 2000 mil anos, a Igreja atravessou perseguições romanas, invasões bárbaras, grandes heresias, cismas, revoluções, totalitarismos e duas guerras mundiais. Em cada uma dessas crises, parecia, aos olhos de muitos contemporâneos, que o futuro da fé estava seriamente comprometido.

No centro da batalha, São João de Capistrano
segurando um Crucifixo.
Cerco de Belgrado por Huge Loischinger,
Museu Nacional Húngaro.
Entretanto, a História mostrou repetidas vezes que a Providência escrevia direito por linhas que os homens julgavam tortuosas. A vitória de Belgrado constitui um desses momentos emblemáticos.

Quando tudo indicava que a expansão otomana seria irresistível, que a Europa estava perdida, Deus suscitou heroicos homens de fé inabalável, um Papa, um general de rara competência e um santo pregador capaz de inflamar milhares de homens simples. O resultado ultrapassou os cálculos humanos.

Foi exatamente essa leitura sobrenatural dos acontecimentos que levou o Papa Calisto III a perpetuar a memória daquela vitória por meio da festa da Transfiguração. Seu gesto continua ecoando em nosso século.

Luz que não se extingue

Mosaico da Transfiguração (séc. VI)
no Mosteiro de Santa Catarina, no Monte Sinai.
Há uma notável harmonia entre o Tabor, Belgrado e a vida de cada um de nós. No Tabor, Nosso Senhor manifesta Sua glória antes da Cruz. Em Belgrado, a Providência concede uma vitória quando a Cristandade parecia caminhar para uma derrota irreversível.

Na vida espiritual, Deus também permite que a alma contemple, de tempos em tempos, reflexos de Sua luz antes das grandes provas. Talvez seja essa a principal razão pela qual a festa da Transfiguração conserva um fascínio tão singular. Ela recorda que a última palavra da História pertence a Ele.

Ao completar 570 anos de sua instituição para toda a Igreja latina, a festa de 6 de agosto continua proclamando exatamente a mesma mensagem que inspirou o Papa Calisto III em 1457: quando a noite parece mais escura, Deus continua governando os acontecimentos; quando o futuro parece incerto, a Providência permanece conduzindo a História; quando o Calvário se aproxima, o Tabor já deixou na alma uma luz suficiente para sustentar a esperança.

É essa certeza na vitória que explica por que, há mais de cinco séculos e meio, prossegue a subida ao alto do Tabor. Ali, por um breve instante, os Apóstolos contemplaram aquilo que um dia será a alegria eterna dos justos. E dali desceram fortalecidos para enfrentar a Cruz.

A mesma luz continua iluminando os caminhos da Igreja e de todos os homens que, nas horas difíceis, suplicam o auxilio de Nossa Senhora e conservam os olhos fixos em Jesus Cristo, "Luz da Luz", vencedor do pecado, da morte e da própria História.

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Fontes principais:

Sagrada Escritura: Mateus 17, 1-9; Marcos 9, 2-10; Lucas 9, 28-36.

Padres e Doutores da Igreja: São Leão Magno, Sermão 51 (De Transfiguratione Domini); São João Damasceno, Homilia sobre a Transfiguração; São Tomás de Aquino, Catena Aurea sobre São Mateus.

Documentos e História: instituição universal da festa pelo Papa Calisto III (1457); documentos e estudos sobre o cerco e a vitória de Belgrado (1456); referências de Pio XII sobre a Transfiguração e a esperança cristã.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Transfigura%C3%A7%C3%A3o_de_Jesus

Texto baseado em conferências e comentários de Plinio Corrêa de Oliveira sobre a Transfiguração e o significado espiritual do Monte Tabor.

1 de agosto de 2026

NOSSO AMOR A DEUS DEVE SER EXAGERADO

 

Esse título poderá contundir certos “piis auribus” (ouvidos pios), mas assim é o amor abrasado dos santos, porque, como veremos, “O amor que nos testemunha Nosso Senhor permanecendo conosco sem honras, sem servidores, não é também exagerado?” 


Em 2 de agosto celebramos o dia de São Pedro Julião Eymard, Fundador do Instituto do Santíssimo Sacramento para a adoração perpétua, seus últimos anos foram cheios de sofrimentos. Ele dizia a Nosso Senhor: “Eis-me aqui, Senhor, no Jardim das Oliveiras; humilhai-me, despojai-me; dai-me a cruz, contanto que me deis também o vosso amor e a vossa graça.” 

Em homenagem à memória deste grande santo — o Apóstolo da Eucaristia —, transcrevo um esplêndido trecho que extrai do manifesto da TFP, datado de 11 de fevereiro de 1993.




Em contato com esta família de almas, tem-se ímpetos de aplicar o conselho de Dante: “Non raggionare di loro, ma guarda e passa”. Tais mentalidades só têm em nossos dias uma forma principal de fanatismo: é o fanatismo anti-TFP. As pessoas de grande elevação moral sabem, entretanto, fustigar com extraordinária adequação de termos, estes idólatras do farniente e refutar-lhes as objeções. Assim, São Pedro Julião Eymard (1811-1868), fundador da admirável obra da adoração perpétua ao Santíssimo Sacramento e da Congregação dos Sacramentinos, escreveu: 

“Nosso Senhor quer estabelecer em nós um amor apaixonado por Ele. “Toda virtude, todo pensamento que não se termina em uma paixão, que não acaba por tornar-se uma paixão, nada de grande produzirá jamais. (…). 

“O amor só triunfa quando é em nós uma paixão vital. Sem isso, podem produzir-se atos isolados de amor, mais ou menos frequentes; a vida não é tomada, não é dada. (…). 

“Nosso Senhor, decerto, nesse Sacramento (da Sagrada Eucaristia), ama-nos com paixão, ama-nos cegamente, sem pensar em Si, devotando-Se inteiramente por nós: é preciso corresponder-Lhe. 

“Nosso amor, para ser uma paixão, deve sofrer as leis das paixões humanas. Falo das paixões honestas, naturalmente boas; pois as paixões são indiferentes em si mesmas; nós as tornamos más quando as dirigimos para o mal, mas só de nós depende utilizá-las para o bem. 

“Ora, a paixão que domina um homem, concentra-o. 

“Tal homem quer chegar a uma determinada posição honrosa e elevada. Só para isso trabalhará: dez, vinte anos, não importa. Chegarei, diz ele; faz unidade: tudo se acha reduzido a servir esse pensamento, esse desejo, deixa de lado tudo quanto não o conduzisse a seu objetivo. 

“Eis como se chega no mundo ao que se deseja; essas paixões podem tornar-se más, e ai! muitas vezes não são mais que um crime contínuo; mas enfim podem ser e são ainda honoríficas. 

“Sem uma paixão, nada se alcança: a vida carece de objetivo; arrasta-se uma vida inútil. 

“Pois bem, na ordem da salvação, é preciso ter também uma paixão que nos domine a vida e a faça produzir, para a glória de Deus, todos os frutos que o Senhor espera. 

“Amai tal virtude, tal verdade, tal mistério apaixonadamente. Devotai-lhe a vossa vida, consagrai-lhe os vossos pensamentos e trabalhos; sem isso, nada alcançareis jamais, sereis apenas um assalariado, jamais um herói! 

“Tende um amor apaixonado pela Eucaristia. Amai Nosso Senhor no Santíssimo Sacramento com todo o ardor com que se ama no mundo, mas por motivos sobrenaturais. (…). 

“Considerai os santos; seu amor os transporta, abrasa, faz sofrer; é um fogo que os consome, despende as suas forças e acaba por lhes causar a morte. 

“Morte feliz! 

“Mas, se não chegamos todos a esse ponto, ao menos podemos amar apaixonadamente a Nosso Senhor, deixar que nos domine o seu amor. 

“Há pessoas que amam até à loucura os pais, os amigos, e não sabem amar o bom Deus! Mas o que se faz com a criatura, é o que se deve fazer com Deus: somente, ao bom Deus, é preciso amá-Lo sem medida, e cada vez mais. (…). 

“Mas poderíamos dizer: Somos então obrigados a amar assim? 

“Bem sei que o preceito de amar assim não se acha escrito; não há necessidade! Nada o diz, tudo o clama: a lei está em nosso coração. (…). 

“A Eucaristia é a mais nobre aspiração de nosso coração: amêmo-la pois apaixonadamente. 

“Dizem: Mas é exagero tudo isso. 

“Mas que é o amor, senão exagero? Exagerar é ultrapassar a lei; pois bem, o amor deve exagerar! 

“O amor que nos testemunha Nosso Senhor permanecendo conosco sem honras, sem servidores, não é também exagerado? 

“Quem se limita ao que é absolutamente de seu dever, não ama. — Só se ama quando se sente interiormente a paixão do amor. 

“E tereis a paixão da Eucaristia quando Nosso Senhor no Santíssimo Sacramento for o vosso pensamento habitual; a vossa felicidade, a de achar-se a seus pés; e vosso constante desejo, o de Lhe causar prazer. 

“Vamos! Entremos em Nosso Senhor! Amêmo-lO um pouco por Ele; saibamos esquecer-nos e dar-nos a esse bom Salvador! Imolemo-nos um pouco! Considerai estes círios, esta lâmpada, que se consomem sem deixar vestígios, sem nada reservar” 

(São Pedro Julião Eymard, O Santíssimo Sacramento, Coleção “Os grandes Autores Espirituais”, nº 24, Edições Paulinas, São Paulo, 1956, pp. 27 a 32 / Pode imprimir-se: Mons. Caruso, Pró-Vigário geral, Rio, 8-7-1953).

26 de julho de 2026

QUAL O PODER DOS AVÓS?

Quadro do pintor austríaco Franz von Defregger (1912)

 

A misericórdia de Deus se estende sobre os filhos dos seus filhos.
Salmos 102, 17

✅  Evaristo de Miranda

Perguntaram a Sofia, uma menina de nove anos, com síndrome de Down, o que ela gostaria de ser quando crescesse. Ela respondeu: - Eu gostaria de ser avó! Perguntaram-lhe por quê. Ela completou: - Porque as avós escutam, compreendem. E além do mais, a família se reúne inteirinha na casa dos avós. Nem sempre os avós recebem a devida atenção. Nem lhes são dadas as oportunidades para manifestar seus dons.


Ao desejar ser avó, Sofia resumiu perfeitamente três das principais capacidades dos avós: escutar, compreender e reunir. Avós escutam. Eles têm tempo. Se aposentados, seu ritmo de vida diminui. Enquanto o pai e a mãe trabalham até o esgotamento, os avós têm tempo. Os pais levam os filhos à escola correndo. Avisam: estão atrasados, apressam os filhos... Com os avós, eles caminham tranquilamente. Basta observá-los na entrada das escolas. Seus passos estão harmonizados. Uma das graças dos avós consiste em dedicar às crianças, sobretudo às mais frágeis, tempo de admiração e maravilhamento. Eles saboreiam as perguntas das crianças. Compartilham suas pequenas alegrias. Ouvem suas queixas, mágoas e tristezas. Sua disponibilidade parece infinita. Sua paciência ultrapassa gerações.


Quadro do pintor americano
Morgan Weistling
Além de ouvir, os avós compreendem. A discrição dos avós é capaz de guardar os segredos dos adolescentes, as aventuras dos jovens e suas confidências dolorosas... muitas vezes negadas aos ouvidos dos pais. Os pais são a lei. Os avós são o sonho. São espaço de tolerância e aceitação. Erros e equívocos, escondidos dos pais, são relatados em toda confiança aos avós.


Finalmente, os avós reúnem a família. Suas casas são locais encantados onde ocorrem as celebrações natalinas, a Páscoa, as passagens de ano... lugares onde se saboreiam pratos especiais. Hoje em dia, essas reuniões se tornam mais raras e difíceis, com as famílias nucleares e seus infinitos afazeres. A família extensa ainda é um dom. Permite à criança tomar consciência das próprias raízes. Permite participar de uma memória comum, de uma herança transmitida entre gerações. Essa experiência convida a ampliar a vida comunitária, a solidariedade nas dificuldades e passagens difíceis. Os avós têm a graça de manter - até onde é possível - os laços familiares. Só se percebe isso, quando eles não estão mais aqui. O vivido na infância, na casa dos avós, é marca indelével para o resto da vida.


Diversos estudos em psicologia do desenvolvimento, neurociência e sociologia mostram o impacto positivo da convivência entre avós e netos: maior segurança emocional, fortalecimento da identidade familiar, transmissão de memória, desenvolvimento da linguagem, redução da solidão dos idosos e até benefícios cognitivos para ambos.


A ciência apenas confirmou aquilo conhecido havia séculos pelas famílias: a convivência entre avós e netos faz bem às duas gerações.


Claro, nenhuma generalização é possível. Existem avós abandonados em clínicas e casas de geriatria. Existem avós sem condições físicas ou psicológicas de participar da vida dos filhos e netos. Existem avós isolados e segregados. Existem avós cuidando e criando os netos, normais e deficientes, em favelas e bairros pobres. Para a maioria deles, escutar, compreender e ser traço de união familiar parece uma agradável missão. Avós não podem, nem devem, ser marginalizados das informações e da convivência com os netos. Os avós entregam aos netos tesouros muitas vezes desconhecidos dos próprios pais. A força do amor e do desejo possui um poder quase infinito. Sofia tinha razão. Os avós podem muito.

19 de julho de 2026

No turbilhão invasivo da Inteligência Artificial, como reagir e separar o ‘joio’ do ‘trigo’?


Fonte: Editorial da Revista Catolicismo, Nº 906, julho/2026 * 

“Tenho medo do dia em que a tecnologia vier a sobrepor-se à interação humana. O mundo terá uma geração de idiotas.” A frase é atribuída a Albert Einstein, mas não encontramos comprovação histórica. Entretanto, o que importa é esta verídica advertência.

O referido dia parece ter chegado com o domínio onímodo e onipresente da Inteligência Artificial (IA). Especialistas dizem que ela está suplantando a inteligência humana, “pensando por você”, “decidindo por você”. 

Ou seja, embora o próprio do ser humano é ser racional, os humanos estão deixando de pensar. Os algoritmos de IA estão amortecendo o raciocínio e a criatividade, eliminando os aspectos mais inerentes (e mais deleitáveis) à vida humana: pensar, analisar, decidir. 

Por isso, idiotices, mediocridades, imoralidades, fakes, deepfakes estão dominando o mundo. 

Muitas pesquisas científicas vêm comprovando que praticamente todos estão ficando dependentes da internet, todos tendem a ficar com o pensamento atrofiado e homogêneo. Isto porque recebem overdoses de informações propagadas por bots e robôs de IA. O pior é que todos ficam sem meios para separar o joio do trigo — muitas vezes, permanecendo apenas com o ‘joio’ (inverdades, ocultismo, pornografia). Com a IA, o ‘joio’ é transmitido em toneladas, enquanto o ‘trigo’ em apenas alguns gramas... 

Assim sendo, uma pergunta se impõe: quais são os seres que estão dirigindo tais robôs de IA? Seres invisíveis? Seres transnacionais ou preternaturais? 

O que é certo é que aqueles que controlam os robôs de IA detêm poderes titânicos, sem precedentes na História. Eles podem controlar quase tudo o tempo todo; podem remodelar as mentes, vigiar e escravizar os utilizadores de IA, torná-los autômatos, a fim de fazerem não o que desejam, mas o que ordena aqueles que concentram em suas mãos todo o poder tecnológico. 

Com o objetivo de ajudar nossos leitores a separar melhor o ‘joio’ do ‘trigo’, publicamos a presente matéria de capa sobre a avassaladora IA, que está penetrando em todos os ambientes, fazendo vítimas entre jovens, adultos, idosos e até entre crianças que desde cedo perdem a inocência. 

Neste tsunami da nova era digital, peçamos a Nossa Senhora, invocada como Sedes Sapientiae (Sede da Sabedoria), que não nos deixe naufragar no mar de lixo eletrônico, e nos conceda a graça e a inteligência para seguirmos bem o Farol e assim chegarmos ao Bom Porto, que é seu Divino Filho.
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*Para fazer uma assinatura da revista Catolicismo envie um e-mail para: catolicismo@terra.com.br 

15 de julho de 2026

ELIAS, PRÍNCIPE DOS PROFETAS


Profeta Elias – Igreja dos Carmelitas do Porto. Escultura em madeira policromada e dourada,  dourada, século XVIII (c. 1750-1775) [Foto PRC].



Celebrado liturgicamente no dia 20 de julho, Santo Elias é considerado o Fundador da Ordem do Carmo, apesar de ter vivido muitos séculos antes da constituição oficial dos Carmelitas. Em memória, segue trecho de uma palestra de Plinio Corrêa de Oliveira em 20 de julho de 1967. 

✅  Plinio Corrêa de Oliveira


S
anto Elias constituiu a primeira Ordem religiosa que houve na História! Aproximadamente 900 anos antes do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, ele reuniu discípulos no Monte Carmelo (situado na região noroeste de Israel), desejando formar suas almas segundo a pureza da Fé da Antiga Lei. O que deu origem à Ordem do Carmo. 

A Ordem nasceu com a finalidade principal de cultuar Nossa Senhora do Carmo (festejada no dia 16 de julho), que o profeta Elias anteviu numa revelação, na expectativa da vinda do Messias à Terra. 

Mas ao lado dessa finalidade principal, havia uma finalidade essencial sem a qual a Ordem não seria ela mesma: o combate contra o politeísmo. 

O politeísmo tinha penetrado às torrentes dentro da nação judaica, que era a única nação monoteísta do mundo. Elias e seus discípulos deveriam com sumo ardor e combatividade atacar o politeísmo. Eles eram a espada e o escudo da verdadeira Fé. Para isto, precisavam de teólogos, doutores, pregadores capazes de sustentar a verdadeira Fé contra a invasão do espírito mau nas fileiras de Israel. 

Habitando nas cercanias do Monte Carmelo, faziam seus estudos em conjunto a fim de se prepararem para essa missão. 

Segundo Cornélio a Lapide, Elias foi “o porta-estandarte dos profetas”. Ele era uma espécie de príncipe dos profetas, porque teve um papel maior do que todos os outros. Ele converteu mais gente, atuou mais profundamente na nação israelita, foi um verdadeiro condutor do povo de Deus, salvou o povo israelita da ruína, lutou contra os erros do seu tempo. E isto se deu num momento em que a nação eleita estava completamente deteriorada.

A Providência escolheu Elias para, a partir dele, comunicar seu espírito a uma Ordem de religiosos e, a partir destes, comunicar esse espírito a toda nação de Israel. Muitos séculos depois, a Ordem do Carmo se espalhou pelo mundo inteiro.

26 de junho de 2026

NOSSA SENHORA DO PERPÉTUO SOCORRO

Foto do milagroso quadro original, pintura atribuída a São Lucas, atualmente venerado na Igreja de Santo Afonso em Roma [Foto PRC]



Se quisermos conhecer as origens primeiras do quadro da Mãe do Perpétuo Socorro ou de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, precisamos remontar aos primórdios do Cristianismo. Consta, por uma tradição oriental, que são Lucas, evangelista, era não só médico e perito conhecedor das letras, mas também pintor. Assim, teria ele pintado –– quando ainda vivia a Santíssima Virgem –– pelo menos uma imagem da Mãe de Deus levando em seus braços o Menino Jesus. Nossa Senhora, tendo visto o ícone, teria dito: "A minha graça o acompanhará"

Com o correr dos séculos, foram sendo feitas cópias desta imagem, com pequenas variações, conforme a piedade e o gênio dos artistas. 

Ao contemplarmos o quadro de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, verifica-se que o artista a concebeu com algumas e, aliás muito felizes modificações em relação ao mencionado ícone primitivo: a cabeça da Virgem está inclinada para seu divino Filho, com uma fisionomia régia, suave e profundamente triste. O Menino Jesus volta-se para o lado, onde contempla atenta e seriamente algo que Lhe atrai a atenção. Ele parece ver em espírito os futuros sofrimentos de sua vida, simbolizados nos instrumentos da Paixão levados por São Miguel e São Gabriel Suas mãozinhas apertam a mão direita da Mãe como a pedir proteção; e, pormenor tocante, com o seu movimento a sandália do pé direito se desamarra. 

Como chegou até nós o milagrooso quadro de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro? Era ele venerado em uma igreja da ilha de Creta, onde operava estupendos milagres. Mas foi roubado por um rico negociante, que o levou para Roma onde pretendia, talvez, vendê-lo por bom preço. 

Mal havia o navio levantado ferros, desencadeou-se horrível tempestade que ameaçava submergi-lo. Os tripulantes, no auge do desespero –– nem de longe suspeitando qual a preciosa carga que estava em risco de perder-se fizeram promessas a Deus e à Santíssima Virgem, e foram atendidos, pois a tempestade dissipou-se, e dias depois o barco entrava num porto da Itália. 

Após a morte do ladrão sacrílego, que felizmente morreu arrependido, a própria Virgem Maria, por uma série de aparições em sonhos a diversas pessoas, manifestou o desejo de ser venerada na igreja de São Mateus, em Roma. 

Não tendo sido satisfeito o seu desejo, Nossa Senhora apareceu a uma menina de seis anos, filha da mulher que mantinha em seu poder o quadro, e disse-lhe: “Dize a tua mãe e a teu avô que a Santa Maria do Perpétuo Socorro vos admoesta que a leveis de vossa casa para uma igreja, senão morrereis dentro em pouco”. 

A referida mulher atendeu à ordem comunicada por Nossa Senhora e levou o quadro à igreja de São Mateus, dos padres agostinianos, onde foi solenemente entronizado no dia 27 de março de 1499. Durante três séculos a milagrosa imagem fez desta igreja um centro glorioso de devoção, de peregrinações e de graças maravilhosas. 

No ano de 1798, Roma foi invadida pelos revolucionários franceses que destruíram a igreja de São Mateus. Os religiosos, guardiães da imagem, foram dispersos, levando-a consigo. Mas, em meados do século XIX, Pio IX chamou para a Cidade Eterna os Redentoristas, que se estabeleceram no lugar da antiga igreja de São Mateus, os quais acabaram por descobrir a milagrosa imagem. Foi então esta, por ordem do Papa, reconduzida, num cortejo triunfal ao seu trono, na igreja de Santo Afonso, edificada no lugar da antiga igreja de São Mateus. A 23 de junho do ano seguinte, foi a imagem solenemente coroada ao troar dos canhões e ao repicar dos sinos das velhas basílicas, que anunciavam à Cidade Eterna o novo triunfo da Mãe de Deus. 

* Nossa Senhora do Perpétuo Socorro é a padroeira principal da prelazia de Cristalândia (Goiás), onde se comemora sua festa a 30 de julho.
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Bibliografia 
1. Dr. Clemente M. Henze C.SS.R, Mater de Perpetuo Succursu,, Typis A. de Bièvre, Brasschaat, Bonn, 1926. 2. Edésia Aducci, Maria e seus gloriosos títulos, Editora "Lar Católico", Florianópolis, 1958,