13 de outubro de 2026

 

O Papa Inocêncio III sonha com São Francisco sustentando com o ombro a Igreja — Giotto di Bondone (1266–1337). Afresco na Basílica Superior de São Francisco de Assis. 

No dia 4 deste mês, unimo-nos às alegrias da Santa Madre Igreja e de toda imensa família franciscana, para dar graças a Deus por ter dado ao mundo o ‘Poverello de Assis’ para a honra e glória da Trindade Santíssima e de toda a Igreja

 

✅ Plinio Maria Solimeo

São Paulo, o Apóstolo dos Gentios, vivia tão unido a Nosso Senhor Jesus Cristo, que pôde afirmar: “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim” (Gl 2,20).

O mesmo poderia dizer de si São Francisco de Assis, um dos santos mais populares do mundo, que marcou profundamente não só a vida da Igreja, mas também a sociedade temporal. Poucos santos terão vivido as máximas evangélicas tão profundamente, de modo a merecer, à semelhança do Salvador, a graça de receber em seu corpo os sagrados estigmas da Paixão.

Por isso São Boaventura, 3º Geral dos Franciscanos, contemporâneo e póstero do Poverello, chamou-o de um “Outro Cristo” (Alter Christus), pois “consagrava a Ele um amor tão vivo, e o Bem-amado, em troca, mostrava para com ele uma ternura tão familiar, que o servo de Deus parecia sentir fisicamente diante dos olhos a presença contínua do Salvador, como por várias vezes confidenciou a companheiros”.

         É o que confirma também, por exemplo, Frei Ugolino Brunforte, provável autor dos poéticos Fioretti, numa linguagem bem medieval: “O glorioso monsior S. Francisco, em todos os atos de sua vida foi conforme a Cristo bendito... Por ter sido o verídico servo de Cristo, monsior S. Francisco, em certas coisas quase um outro Cristo dado ao mundo para a salvação dos homens, Deus Pai o quis fazer em muitas ações conforme e semelhante a seu filho Jesus Cristo”.

Sustentáculo da Igreja ameaçada de ruína

         O hagiógrafo e historiador francês Daniel Rops (1901 – 1965), membro da Academia Francesa de Letras, assim introduz São Francisco de Assis em seu estudo A Igreja das Catedrais e das Cruzadas: “No decorrer do verão de 1210, Inocêncio III viu apresentar-se numa audiência um rapaz franzino, de olhar ardente, vestido com a grosseira túnica e capuz dos camponeses da época, a cintura apertada com uma corda e os pés nus dentro de sandálias. Vinha de Assis, um povoado da Úmbria, rodeado de doze companheiros tão indigentes como ele — doze discípulos como os Apóstolos — e, conforme se dizia, desejava expor ao Santo Padre as suas observações sobre a situação da Igreja e suas ideias sobre o apostolado.”

         Ora, diz Daniel Rops, esse Papa tivera “nessa mesma noite, um sonho em que via a basílica de Latrão, igreja-mãe da Igreja, oscilando, prestes a desmoronar-se. Mas surgia um homem enviado por Cristo que, sozinho, apoiando-se contra as muralhas vacilantes, impedia a catástrofe. Era um homem magro, jovem, rosto de asceta, olhar inflamado, vestido com um humilde burel, o retrato exato daquele que estava ali de pé na sua frente [...]. Rompendo por fim o seu longo silêncio, [o Papa] exclamou: ‘Na verdade, é por meio deste homem piedoso e santo que a Igreja de Deus será restabelecida nas suas bases!’ Desceu do seu trono, abraçou aquele pequeno pobre e, dirigindo-se ao reduzido grupo dos discípulos, acrescentou: ‘Ide com Deus, meus irmãos, e pregai a penitência segundo a inspiração do Senhor. E, quando o Todo-Poderoso vos tiver feito crescer, voltai a procurar-me, e eu vos concederei então muito mais do que hoje”.

Síntese biográfica

Francisco nasceu em 1182, na pequena e poética cidade de Assis, um dos filhos do rico mercador de tecidos Pedro Bernardone — que se tornará famoso por sua usura e cegueira em relação ao filho — e de uma dama de origem francesa de nobre sangue e grande virtude, chamada Pica Bourlemont.

Narra uma lenda que sentindo as dores do parto ela não conseguindo dar à luz, trasladaram-na à estrebaria da casa, onde nasceu Francisco, à semelhança do Salvador, sobre a palha, entre o asno e o boi.

 

Alegre, esbanjador, mas temente a Deus

Nada sabemos da infância do santo. Na Legenda de São Francisco (ou Dos Três Amigos), escrita por três de seus primeiros discípulos, lemos: “— Já crescido, como era dotado de inteligência viva, dispôs-se a continuar o ofício paterno, isto é, a mercancia, porém com outros entendimentos, pois ele era muito mais alegre e liberal do que o pai: gostava de andar em festiva companhia, quer durante o dia quer durante a noite, pelas ruas de Assis, em divertimentos e cantos, e era tão grande esbanjador, que gastava em reuniões e banquetes tudo quanto ganhava.” Ao que acrescenta São Boaventura: “Mas, com o auxílio divino, jamais se deixou levar pelo ardor das paixões que dominavam os jovens de sua companhia.”

O próprio Francisco confessa: “— Eu verdadeiramente creio nunca haver, por graça de Deus, cometido falta sem ter feito disso expiação, confessando o meu pecado e me arrependendo da minha culpa.”.

Alegre, jovial, desprendido, gentil, afável, “— o Senhor incutia em seu coração um sentimento de piedade que o tornava generoso com os pobres. Este sentimento foi crescendo em seu coração; e impregnou-o de tanta bondade, que ele decidiu, como ouvinte atento que era do Evangelho, ser generoso com quem lhe pedisse esmola, sobretudo a quem pedisse por amor de Deus”, de modo a dar até parte de seu vestuário se não tivesse mais dinheiro.

A popularidade que Francisco adquirira até então entre seus conterrâneos se devia mais às suas qualidades morais que às físicas, pois “— era pequeno e de aspecto miserável”, atraindo pouco a atenção daqueles que não o conheciam.

“Despreza o que amaste” — entrega à Dama Pobreza

Levava ele essa alegre e despreocupada vida, quando teve as primeiras revelações divinas que o chamavam para uma vida mais elevada. Rezando um dia na igreja de São Damião, ouviu o Crucificado pedir-lhe que restaurasse sua casa, que estava em ruínas. Tomando as palavras literalmente, empenhou-se na reforma não só desse templo, mas de dois outros mais. O Divino Redentor, porém, pediu que sobretudo restaurasse não os edifícios das igrejas, mas a própria Igreja enquanto instituição.

Mas disse-lhe o Salvador: “Se queres conhecer minha vontade, precisas desprezar todas as coisas que até aqui materialmente amaste e desejaste. Quando tiveres feito isto, ser-te-á agradável tudo quanto te é insuportável e se tornará insuportável tudo quanto desejas”.

Foi então que interveio o pai, Pedro Bernardone, pois o filho dava de esmola tudo o que tinha e passou a levar uma vida considerada insensata pelo mundo.

Ocorreu então o conhecido episódio de Bernardone apelar ao Bispo para fazer cessar as “extravagâncias” do filho; este se apressa em despojar-se até da roupa do corpo para satisfazer a ganância do pai. Depois disso Francisco entregou-se inteiramente ao que chamou a Dama Pobreza, seguindo ao pé da letra os conselhos do Evangelho.

Narra uma lenda que sentindo sua mãe as dores do parto e não conseguindo dar à luz, transladaram-na à estrebaria da casa, onde nasceu Francisco, à semelhança do Salvador, sobre a palha, entre o asno e o boi. Benozzo Gozzoli (1420–1497). Museu Complexo de São Francisco, Montefalco (Itália).


Fundação dos Frades Menores

“Como outro Elias, começou Francisco a anunciar a verdade, no pleno ardor do Espírito de Cristo. Convidou outros a se associarem a ele na busca da perfeita santidade, insistindo para que levassem uma vida de penitência. Começaram alguns a praticar a penitência, e em seguida se associaram a ele, partilhando a mesma vida, usando vestes vis. O humilde Francisco decidiu que eles se chamariam Frades Menores”.

Surgiram assim os primeiros 12 discípulos que, segundo registram os Fioretti, “foram homens de tão grande santidade que, desde os Apóstolos até hoje, não viu o mundo homens tão maravilhosos e santos”.“Aqueles que vinham abraçar esta vida distribuíam aos pobres tudo o que tinham. Contentavam-se só com uma túnica, uma corda e um par de roupas internas, e não queriam mais”, dirá mais tarde Francisco em seu Testamento.

Os novos apóstolos reuniram-se em torno da pequena igreja da Porciúncula, ou Santa Maria dos Anjos, que passou a ser o berço da Ordem.

O santo sustém a Igreja Católica

         Aqui se insere a cena relatada por Daniel Rops, citada acima.

Munidos da aprovação pontifícia, os novos religiosos saíram para pregar, em duplas, percorrendo as cidades da região e mostrando aos seus habitantes, pela palavra e pelo exemplo, o caminho da salvação.

Espírito e força de Elias

Certa noite os frades viram um carro de fogo de um esplendor maravilhoso, com um globo brilhante parecido com o sol, entrar pelo aposento em que estavam, dando três voltas no recinto. Compreenderam que Deus os quisera mostrar, por aquela figura, “que seu pai Francisco viera ‘no espírito e na força de Elias’. Desde então [Francisco] penetrava os segredos de seus corações, predizia o futuro e realizava milagres. Estava patente para todos que o espírito de Elias, duas vezes mais poderoso, viera habitar nele com tal plenitude, que o mais seguro para todos era seguir sua vida e ensinamentos”.

Francisco manifestava seu amor a Deus por uma alegria imensa, que se expressava muitas vezes em cânticos ardorosos. A quem lhe perguntava qual a razão de tal alegria, respondia que “ela deriva da pureza do coração e da constância na oração”.

Essa divina loucura da cruz que assomou Francisco e lhe angariou muitos discípulos, devia atrair também uma jovem filha do Conde de Sasso Rosso, Clara, de 17 anos. Desde o momento em que ouviu o Pobrezinho pregar, compreendeu que a vida que ele indicava era a que Deus queria para ela. Francisco tornou-se seu guia e pai espiritual de sua alma.

Como os pais tinham outros planos para Clara, foi preciso que ela fugisse para a igrejinha da Porciúncula, onde cortou os cabelos e passou a se vestir com um simples hábito. Nascia assim a Ordem Segunda dos Franciscanos, a das Clarissas. Duas semanas depois, Inês, irmã de Clara, a seguia no claustro, e mais tarde uma terceira, Beatriz.

Encontro de São Francisco e São Domingos em Roma — Federico Zuccaro (1541-1609). Coleção Particular.


Encontro de dois homens providenciais

Em 1217, indo a Roma, Francisco se encontrou com outro luminar da Igreja da época, Domingos de Gusmão, que também havia fundado uma Ordem religiosa para combater a decadência dos costumes. Os dois santos se abraçaram, estabelecendo uma amizade solidificada pelo amor de Deus.

Pouco depois Francisco recebia em sua Ordem um dos que seria sua maior glória e tornar-se-ia o santo mais popular do mundo, Frei Antônio de Lisboa — mais tarde, também “— de Pádua”.

Dissabores e fundação da Ordem Terceira

Uma das maiores dores de Francisco foi ver surgir uma nova tendência entre seus frades, chefiada pelo Superior Frei Elias, que dava uma orientação diferente da do santo, principalmente em relação aos estudos e ao modo de observar a pobreza. Francisco chegou a amaldiçoar Frei Pedro de Stacia, um dos frades da nova tendência.

Por outro lado, eram tantos os leigos que, ligados pelos laços do matrimônio ou com outros encargos terrenos não podiam observar inteiramente as regras franciscanas, mas queriam pertencer à sua família de almas, que Francisco fundou uma Ordem Terceira para abranger a todos. Muitos grandes personagens — como São Luís, Rei de França, e Santa Isabel, Duquesa da Turíngia — a ela pertenceram.

São Francisco recebe os estigmas — Vincenzo Carducci (1576–1638). Hospital da Venerável Ordem Terceira, Madri.


Recepção dos estigmas

Dois anos antes de sua morte, tendo Francisco ido ao Monte Alverne em companhia de alguns de seus frades mais íntimos, pôs-se em oração fervorosa e foi objeto de uma graça insigne. Na figura de um serafim de seis asas apareceu-lhe Nosso Senhor crucificado, que depois de Se entreter com ele em doce colóquio, partiu deixando-lhe impressos no corpo os sagrados estigmas da Paixão. Assim, esse discípulo de Cristo, com quem tanto desejara se assemelhar, obteve mais este traço de similitude com o Divino Salvador.

Cantando os louvores da “Irmã Morte”

Em sua última doença e já próximo da morte, queria Francisco que Frei Ângelo e Frei Leão permanecessem junto a seu leito para cantar os louvores da “Irmã Morte”. Àqueles que se escandalizavam com essa atitude, respondia: “Por graça do Espírito Santo, sinto-me tão profundamente unido ao meu Senhor Deus, que não posso deixar de me alegrar n’Ele.”

“Por fim, tendo-se realizado nele todos os planos de Deus, o bem-aventurado adormeceu no Senhor, rezando e cantando um Salmo, no dia 4 de outubro de 1226, aos 45 anos, sendo canonizado apenas dois anos depois.” 

Retrato do Santo

“Segundo a descrição deixada por Tomás de Celano, a aparência física de Francisco era extremamente agradável, e sua face refletia a inocência de sua vida, a pureza de seu coração e o ardor do fogo divino que o consumia. Era de estatura um pouco abaixo da média, cabeça proporcionada e redonda, com a face alongada e nariz reto e fino, pescoço esguio, testa plana e curta, olhos negros e límpidos, cabelos castanhos, orelhas pequenas. Sua voz era forte, doce, clara e sonora; os dentes eram unidos, alinhados e brancos, os lábios pequenos e delgados, a barba era preta e um tanto rala; seus ombros eram direitos, os braços curtos, as mãos delicadas com dedos longos, as pernas delgadas, pés pequenos, pele fina e sempre muito magro.

“Sua visão de si mesmo era, porém, oposta: descrevia-se como ‘um franguinho preto’, e o retrato pintado no ‘Fioretti’ segue a mesma linha, mostrando-o como um homem miúdo de aspecto muito desprezível e vil, e que, por este motivo nunca conseguia muitas esmolas entre gentes que não o conheciam.”

Amor abrasado à Sagrada Eucaristia

[Francisco] “Encontrara a liberdade interior dos filhos de Deus; ele extraía sua força de sua íntima união com Jesus na Sagrada Comunhão. O mistério da Sagrada Eucaristia, sendo uma extensão da Paixão, ocupava um lugar preponderante em sua vida, e ele não tinha nada mais importante do que tudo o que dizia respeito ao culto do Santíssimo Sacramento. Assim, não apenas ouvimos falar de Francisco exortando o clero a demonstrar o devido respeito por tudo o que se relaciona com o Sacrifício da Missa, mas também o vemos varrendo igrejas pobres, buscando vasos sagrados para elas e providenciando hóstias feitas por ele mesmo.”

Isso é confirmado por São Boaventura que, na sua Legenda Maior, diz: “O sacramento do Corpo do Senhor inflamava-o de amor até o mais íntimo do coração: pasmava de admiração perante uma misericórdia tão amante e um amor tão misericordioso. Comungava com frequência e com uma devoção irradiante que contagiava quem o ouvia. Ao saborear o Cordeiro Imaculado, como inebriado, era muitas vezes arrebatado em êxtase. Dedicava um amor indizível à Mãe de Jesus, por ter sido Ela que nos deu por irmão o Senhor de majestade, e por meio dela termos alcançado misericórdia. Depois de Cristo, era nela que depositava a maior confiança, e por isso a escolheu como padroeira para si e para os seus, e em sua honra jejuava com grande fervor desde a festa de S. Pedro e S. Paulo até à Assunção.”

Participação no mistério da Cruz

 Na obra acima citada, diz ainda São Boaventura que “o mistério da cruz, profundo e insondável, irradiante de carismas e graças, fonte de mérito e de virtude, tesouro de sabedoria e de ciência, permanece oculto aos sábios e prudentes deste mundo. Mas foi plenamente revelado a esse pequenino e humilde servo de Cristo, de tal sorte que a sua vida não foi outra coisa senão seguir o caminho da cruz, saborear a doçura e pregar a glória da mesma cruz. E assim, logo no princípio da sua total entrega ao Senhor, pôde com verdade dizer como o Apóstolo: ‘Longe de mim gloriar-me, a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo’. Posteriormente, já mais avançado no caminho da perfeição, poderia acrescentar com não menos verdade: ‘Todos quantos seguirem esta norma, sobre eles desça a paz e a misericórdia’. Finalmente, ao consumar-se a sua união com Cristo, diria por certo, e se possível ainda com mais verdade: ‘Trago no meu corpo as chagas do Senhor Jesus’”.

Tentativas de converter os infiéis

         São Francisco, em seu fervor missionário, desejava ardentemente converter os infiéis, sobretudo os muçulmanos. Por isso ele fez várias tentativas de ir para o Oriente.

         Narra o Pe. Paschal Robinson em seu artigo na The Catholic Encyclopedia:

“No outono do mesmo ano (1212), o ardente desejo de Francisco pela conversão dos sarracenos levou-o a embarcar para a Síria; mas, após naufragar na costa da Eslavônia, teve de retornar a Ancona.”

Porém, o Santo não esmoreceu com esse fracasso. Tanto assim que “[em 1214] partiu para o Marrocos, em outra tentativa de alcançar os infiéis e, se necessário, derramar seu sangue pelo Evangelho; mas, enquanto ainda estava na Espanha, foi acometido por uma doença tão grave que foi obrigado a retornar à Itália mais uma vez”.

Persistente, novamente “Francisco partiu de Ancona em 21 de junho rumo a São João de Acre, e esteve presente no cerco e na tomada de Damieta. Após pregar às forças cristãs ali reunidas, destemidamente se dirigiu ao acampamento infiel, onde foi feito prisioneiro e levado perante o sultão. Segundo o testemunho de Jacques de Vitry, que estava com os cruzados em Damieta, o sultão recebeu Francisco com cortesia, mas, além de obter deste governante a promessa de um tratamento mais indulgente para os cativos cristãos, a pregação do santo parece ter surtido pouco efeito. Antes de retornar à Europa, acredita-se que o santo tenha visitado a Palestina e ali obtido para os frades o apoio que ainda hoje mantêm como guardiões dos lugares sagrados”.

Concluindo o artigo, citamos como surgiu o primeiro presépio, segundo relatado por Thomas de Celano.

São Francisco celebra o Natal em 1223 — Giotto di Bondone (1266–1337). Afresco na Basílica Superior de São Francisco de Assis


Tradição dos presépios

A bela tradição de montar presépios para comemorar o nascimento do Menino Jesus foi-nos legada por São Francisco de Assis. Tomás de Celano conta como São Francisco celebrou o Natal no ano de 1223:

“O que ele [São Francisco] fez no aniversário de Nosso Senhor Jesus Cristo, perto da pequena cidade chamada Greccio, no terceiro ano antes de sua gloriosa morte, deve ser especialmente lembrado e recordado com reverência. Naquele lugar havia um homem chamado João, de boa reputação e vida ainda melhor, a quem o bem-aventurado Francisco amava com um amor especial.

“O bem-aventurado Francisco mandou chamar esse homem, como costumava fazer, cerca de quinze dias antes do nascimento do Senhor, e disse-lhe: ‘Se queres que celebremos a festa de Nosso Senhor em Greccio, vai depressa e prepara diligentemente o que te disser. Pois desejo fazer algo que nos faça recordar o Menino que nasceu em Belém e que mostre aos nossos olhos, de alguma forma, as dificuldades das suas necessidades infantis, como jazia numa manjedoura, como, com um boi e um jumento ao lado, se deitou sobre a palha onde fora colocado.’ Quando o bom e fiel homem ouviu estas coisas, correu depressa e preparou naquele lugar tudo o que o santo lhe havia dito.

“Mas o dia da alegria se aproximava, chegava o tempo do grande júbilo. Os Irmãos foram chamados de seus respectivos lugares. Homens e mulheres daquela vizinhança prepararam, com corações alegres, de acordo com suas posses, velas e tochas para iluminar aquela noite que iluminava todos os dias e anos com sua estrela brilhante. Finalmente, o santo de Deus chegou e, encontrando tudo preparado, viu e se alegrou. A manjedoura estava pronta, o feno havia sido trazido, o boi e o jumento foram trazidos. Ali a simplicidade era honrada, a pobreza exaltada, a humildade louvada, e Greccio se tornou, por assim dizer, uma nova Belém. A noite estava iluminada como o dia e encantou homens e animais. O povo veio e se encheu de nova alegria com o novo mistério. A mata ressoava com as vozes da multidão e as rochas respondiam à seu júbilo. Os Irmãos cantaram, pagando sua dívida de louvor ao Senhor, e toda a noite ecoou com sua alegria. O santo de Deus estava diante da manjedoura, suspirando, tomado de amor e repleto de uma felicidade maravilhosa. As solenidades da Missa foram celebradas sobre a manjedoura e o sacerdote experimentou uma nova consolação.

O vilarejo medieval de Greccio, localizado na província de Rieti, na região do Lácio, na Itália. O local é famoso por sua arquitetu ra de pedra nas encostas das montanhas Sabine e por sua forte ligação com São Francisco de Assis, que ali criou o primeiro pre sépio da história em 1223. (Creative Commons: Fiaba77).


“O santo de Deus estava vestido com as vestes de diácono, pois era diácono, e cantava o santo Evangelho com voz sonora. E sua voz era forte, doce, clara, sonora, convidando a todos às mais altas recompensas. Então, ele pregou para o povo que ali estava, e proferiu palavras encantadoras sobre o nascimento do pobre Rei e a pequena cidade de Belém. Frequentemente, quando desejava chamar Cristo Jesus, chamava-o simplesmente de Menino de Belém, transbordando de amor por Ele; e ao pronunciar a palavra Belém, sua voz era mais como o balido de uma ovelha. Sua boca estava mais cheia de doce afeto do que de palavras. Os dons do Todo-Poderoso se multiplicaram ali, e uma visão maravilhosa foi vista por um certo homem virtuoso. Pois ele viu uma criança deitada sem vida na manjedoura, e viu o santo homem de Deus aproximar-se e despertar a criança como de um sono profundo. Essa visão não era inadequada, pois o Menino Jesus havia sido esquecido no coração de muitos; mas, pela ação de sua graça, Ele foi trazido de volta à vida por meio de seu servo São Francisco e gravado em suas memórias fervorosas. Por fim, a solene celebração noturna chegou ao fim, e cada um retornou para sua casa com santa alegria.

“O feno que havia sido colocado na manjedoura foi guardado para que o Senhor pudesse salvar os animais de carga e outros animais por meio dele, multiplicando sua santa misericórdia. E, de fato, muitos animais de toda a região circunvizinha, que sofriam de diversas doenças, foram curados após comerem desse feno. [...] e um grande número de pessoas de ambos os sexos daquele lugar, que sofriam de várias doenças, obtiveram a saúde que buscavam. Mais tarde, o local onde a manjedoura havia ficado foi santificado com a construção de um templo do Senhor, e um altar foi erguido em honra do beatíssimo padre Francisco sobre a manjedoura, e uma igreja foi construída”.

7 de outubro de 2026

LEPANTO — 455 anos depois: vitória que ainda fala ao Brasil

 


✅  Paulo Roberto Campos

Há 455 anos, em 7 de outubro de 1571, as águas do golfo de Lepanto, na costa ocidental da Grécia, tornaram-se cenário de uma das batalhas navais mais célebres da História. De um lado, a poderosa armada do Império Otomano; de outro, as forças da Liga Santa, reunidas sob o impulso do Papa São Pio V.

O confronto ultrapassou desde o início os limites de uma disputa militar. Para a Europa do século XVI, estava em jogo a contenção do avanço otomano no Mediterrâneo. Para São Pio V, tratava-se também de uma batalha espiritual: enquanto as galeras avançavam sobre o inimigo, a Cristandade era convocada a rezar o Rosário.

Quatro séculos e meio depois, Lepanto continua sendo evocada como símbolo de uma vitória alcançada quando tudo parecia favorecer o adversário.

Neste 7 de outubro de 2026, a recordação adquire para os brasileiros uma atualidade particular. O País acaba de atravessar o primeiro turno de uma eleição decisiva e, no segundo turno, permanece diante de escolhas que poderão marcar profundamente seu futuro político, moral e cultural.

Para os católicos, Lepanto recorda sobretudo uma verdade: há batalhas nas quais os meios humanos são indispensáveis, mas não suficientes. Foi essa convicção que levou São Pio V a pedir à Cristandade que recorresse à Santíssima Virgem por meio do Rosário.

Perigo que ameaçava a Europa

Em meados do século XVI, o Império Otomano encontrava-se no auge de sua expansão. Constantinopla havia caído em 1453 e, pouco mais de um século depois, os turcos controlavam vastos territórios nos Bálcãs, no Oriente Médio e no Mediterrâneo oriental.

Em 1570, a invasão otomana de Chipre tornou ainda mais evidente o perigo. A ilha, então sob domínio veneziano, possuía enorme importância estratégica. Sua conquista abriria novas possibilidades para a expansão turca pelo Mediterrâneo.

Diante da ameaça, o Papa São Pio V empenhou-se em conseguir aquilo que as rivalidades políticas europeias tornavam extremamente difícil: uma aliança entre potências católicas.

Nasceu assim a Santa Liga, formada principalmente pela Espanha, República de Veneza e Estados Pontifícios, com participação de Gênova, dos Cavaleiros de Malta e de outros Estados italianos.

O comando da armada foi confiado a Dom João d’Áustria, filho natural do imperador Carlos V e meio-irmão do rei Felipe II da Espanha. Tinha apenas 24 anos. São Pio V depositava nele grandes esperanças. Mais ainda, porém, depositava sua confiança no auxílio de Nossa Senhora.

Na manhã de 7 de outubro de 1571, as duas esquadras finalmente se avistaram nas proximidades do golfo de Patras, tradicionalmente associado ao nome de Lepanto.

Mais de 400 embarcações e dezenas de milhares de homens participariam do combate. Nas galeras cristãs, sacerdotes haviam celebrado Missa, confessado os combatentes e distribuído a Comunhão. Muitos soldados levavam consigo o Rosário.

Dom João d’Áustria percorreu as linhas de sua armada animando os homens para o combate. Sobre sua nau capitânia tremulava o estandarte da Santa Liga. Começava uma batalha da qual poderia depender o futuro do Mediterrâneo cristão. Durante horas, os navios se chocaram numa luta feroz. Artilharia, arcabuzes, flechas e combates corpo a corpo transformaram o mar num imenso campo de batalha.

Apesar da bravura dos soldados de Cristo, a numerosíssima frota do Islã, comandada por Ali-Pachá [pintura ao lado], parecia vencer. Após 10 horas de encarniçado embate, os batalhadores católicos receavam a derrota, que traria graves consequências para a Civilização Cristã europeia. Mas, óh prodígio! Ficaram surpresos ao perceberem que, inexplicavelmente e de repente, os muçulmanos, apavorados, bateram em retirada…

O momento decisivo ocorreu no centro das duas formações, onde se enfrentaram a Real, capitânia de Dom João d’Áustria, e a Sultana, de Ali Paxá, comandante da esquadra otomana. Depois de sucessivas investidas, os cristãos conseguiram abordar a nau inimiga. Ali Paxá morreu no combate. A bandeira otomana foi derrubada e o estandarte cristão erguido sobre a embarcação.

Os católicos alcançaram a vitória, mas só mais tarde obtiveram a explicação: aprisionados pelos católicos, alguns mouros confessaram que uma brilhante e majestosa Senhora aparecera no céu, ameaçando-os e incutindo-lhes tanto medo, que entraram em pânico e começaram a fugir.

A notícia espalhou-se rapidamente entre as galeras. A linha turca começou a desmoronar. Ao final daquela tarde, a poderosa frota otomana estava destroçada. Mais de uma centena de suas embarcações caiu nas mãos dos vencedores, dezenas foram afundadas ou incendiadas e milhares de prisioneiros cristãos que serviam como escravos nas galeras foram libertados.

Era uma vitória que poucos, horas antes, ousariam considerar certa.

Quadro representando a visão que São Pio V teve da vitória de Lepanto


Os soldados combatiam, a Cristandade rezava

A centenas de quilômetros dali, outra batalha era travada. O grande São Pio V havia conclamado os católicos a recorrerem ao Rosário pela vitória da armada católica. Em Roma e em outras cidades, confrarias organizavam orações e procissões.

A tradição relata que, no próprio dia 7 de outubro, o Pontífice encontrava-se reunido com seus colaboradores quando interrompeu subitamente os trabalhos, aproximou-se de uma janela e permaneceu alguns instantes em silêncio.

Depois anunciou que a armada cristã acabava de vencer e convidado os presentes a agradecerem a Deus. A notícia oficial somente chegaria posteriormente a Roma...

O episódio tornou-se inseparável da memória católica de Lepanto. O próprio magistério pontifício conservaria essa associação entre o Rosário e a vitória. Séculos depois, Leão XIII recordaria que São Pio V havia conclamado os fiéis a invocarem a Mãe de Deus e que, após a vitória, determinou que o aniversário da batalha fosse celebrado em honra de Nossa Senhora das Vitórias.

Mais tarde, sob Gregório XIII, a comemoração ficou definitivamente ligada a Nossa Senhora do Rosário. Por isso, 7 de outubro não é apenas aniversário de uma batalha. É também o dia de Nossa Senhora do Rosário.

A lição de Lepanto

O que pode dizer Lepanto ao Brasil de 2026?

A resposta não está em estabelecer uma equivalência simplista entre uma batalha naval do século XVI e uma eleição democrática do século XXI. As circunstâncias são evidentemente diferentes. Existe, porém, uma lição que atravessa os séculos.

Lepanto mostra uma Cristandade ameaçada, dividida internamente e confrontada com um adversário poderoso, mas que soube reagir quando encontrou unidade, determinação e confiança sobrenatural.

O Brasil também vive uma hora de profundas divisões. O primeiro turno das eleições de 2026, realizado no último domingo, mostrou novamente a polarização do eleitorado e a intensidade da disputa pelo futuro político do País.

Nesse contexto, vale recordar um episódio que provocou enorme controvérsia em 2018. Em entrevista ao jornal espanhol El País, o ex-ministro José Dirceu declarou: “Dentro do país é uma questão de tempo pra gente tomar o poder. Aí nós vamos tomar o poder, que é diferente de ganhar uma eleição.”

Em outra entrevista, concedida ao portal 180graus, fez também uma declaração contundente sobre o Supremo Tribunal Federal: “Primeiro, deveria tirar todos os poderes do Supremo e ser só Corte Constitucional.”

Passados oito anos, José Dirceu tentou retornar à Câmara dos Deputados nas eleições deste ano. Candidato pelo PT em São Paulo, recebeu cerca de 78 mil votos, ficou em 17º lugar entre os candidatos de seu partido e não conseguiu eleger-se, terminando apenas como suplente...

Batalha sobretudo moral

Entretanto, reduzir a crise brasileira a uma disputa entre partidos seria permanecer na superfície do problema. Para um católico, existe uma batalha ainda mais profunda. É a batalha pela alma de um povo.

Um país não se perde apenas quando adota determinada política econômica ou elege determinado partido. Pode perder-se lentamente quando abandona seus princípios, relativiza a família, enfraquece a fé, aceita a corrupção dos costumes e deixa de reconhecer as raízes cristãs de sua própria civilização.

É nesse sentido que Lepanto conserva extraordinária atualidade. Os combatentes de 1571 fizeram aquilo que lhes competia: organizaram navios, reuniram soldados, estabeleceram uma estratégia e foram ao combate. Mas São Pio V compreendeu que era necessário fazer algo mais. Mandou rezar. O Rosário tornou-se assim a arma inseparável de Lepanto.

455 anos depois

Na. Sra. do Rosário de Lepanto
[Foto Michael Gorre]
Neste 7 de outubro, quando a Igreja celebra Nossa Senhora do Rosário e o mundo recorda os 455 anos da Batalha de Lepanto, talvez seja oportuno que os brasileiros ergam os olhos e contemplem uma questão maior: que Brasil queremos deixar às próximas gerações?

Para aqueles que veem com preocupação o avanço de projetos políticos de inspiração socialista ou bolivariana na América Latina, o exemplo da Venezuela permanece como grave advertência sobre os riscos da deterioração de uma nação.

Mas a resposta cristã não pode limitar-se ao temor. Lepanto ensina justamente o contrário. Ensina a confiança. Quando as circunstâncias pareciam desfavoráveis, São Pio V não cruzou os braços. Mobilizou os homens e, simultaneamente, colocou sua esperança na proteção da Santíssima Virgem.

Quatrocentos e cinquenta e cinco anos depois, a mesma confiança pode inspirar os brasileiros. Neste dia de Nossa Senhora do Rosário, rezemos ao menos um Terço pela nossa Pátria tão deteriorada pelo lulo-petismo. Peçamos a Maria Santíssima que proteja o Brasil, ilumine seus eleitores e governantes, afaste dele os erros que possam conduzi-lo à ruína anda mais profunda e, sobretudo, obtenha a restauração moral e religiosa deste grande povo nascido na Terra de Santa Cruz.

Porque a importante lição de Lepanto permanece de pé: quando os homens fazem tudo aquilo que lhes compete, mas reconhecem que acima das forças humanas está a Divina Providência, até uma situação que parece perdida pode transformar-se em vitória.


5 de outubro de 2026

SÃO FRANCISCO DE ASSIS (1226 – 2026). Suscitado por Deus para defender e restaurar a Cristandade

Retábulo de São Francisco de Assis na Igreja do Real Monastério de Santa Clara, Sevilha. Entalhado em madeira policromada e dourada pelo escultor espanhol Juan Martínez Montañés (1625-1626). Creative Commons: Jl FilpoC.

 

Fisionomia bem diferente dos habituais ‘santinhos’ que conhecemos — normalmente distribuídos em igrejas e pintados segundo uma iconografia progressista — em que o santo parece sentimental, adocicado, hesitante e mole. O oposto das grandes virtudes de São Francisco de Assis, considerado uma das maiores glórias da Igreja em todos os tempos, um varão de extrema determinação e força de vontade, sem nenhuma moleza como é apresentado por tal iconografia. Oito séculos depois sua mensagem permanece atual e increpando o mundo.


✅  Fonte: Revista Catolicismo, Nº 910, outubro/2026

No dia 3 de outubro completam-se 800 anos da morte de São Francisco de Assis, ocorrida em 1226. Para ressaltar esta importante efeméride, a matéria de capa da edição deste mês contempla a riquíssima grandeza do Poverello de Assis. 

Muito mais do que o santo sentimental, mole e adocicado, amigo bonzinho dos animais e da natureza, como tantas vezes o apresentam de modo desfigurado os progressistas — que de católicos só têm o nome —, apresentamos São Francisco como ele de fato foi: um homem de extraordinária firmeza, pureza, serenidade, espírito de contemplação e força de vontade; em suma, um cruzado! 

O centro de sua espiritualidade encontra-se na Cruz. Neste sentido, dele afirmou o restaurador da Ordem de São Bento na França, Dom Prosper Guéranger, O.S.B.: “A Cruz é o grande livro no qual se formou a alma de Francisco. Desde a hora em que o Cristo da Igreja do Damião lhe falou, ele não quis pensar a não ser na Paixão de Jesus.” 

Daí toda a sua existência trilhada nos passos de Nosso Senhor Jesus Cristo, dando origem à radical pobreza do santo franciscano. Ao renunciar aos bens — e até mesmo às suas roupas diante de seu pai, Pedro Bernardone —, ele não realizou simplesmente uma ruptura familiar, mas, por uma razão mais alta, proclamou, com sua própria vida, que Deus deve ocupar o primeiro lugar e que nenhum bem terreno pode escravizar a alma. 

Como poderemos ver em tal edição, Plinio Corrêa de Oliveira revela o segredo da santidade e grandeza de São Francisco, e o considera portador de uma efetiva “ação contra-revolucionária preventiva”. Pois sua humildade, pureza e austeridade contribuíram para deter tendências de orgulho, sensualidade e apego aos bens terrenos que começavam a corroer no século XIII a Cristandade medieval. 

A missão de São Francisco foi profundamente marial, aparecendo como uma das grandes figuras suscitadas pela Providência Divina para defender e restaurar a Cristandade. Sua devoção à Imaculada Conceição ocupou lugar central na espiritualidade franciscana muito antes da definição dogmática desse privilégio de Nossa Senhora.

Oito séculos depois, sua mensagem permanece atual e increpando o mundo: amar a Cruz; vencer o orgulho pela humildade; a sensualidade pela pureza; o apego pelo desapego, e colocar toda a vida a serviço de Deus e da Santíssima Virgem. 

Para todos os católicos — especialmente para os inúmeros devotos de São Francisco —, este oitavo centenário constitui, portanto, uma ocasião privilegiada para renovar o autêntico espírito franciscano e pedir a ele que nos alcance a graça de sermos, em nosso tempo, de modo íntegro, plenamente de Nosso Senhor e de Sua Mãe Santíssima.

29 de setembro de 2026

Eleições, Ideal Católico ou a Sovietização do Brasil

Embora de outros tempos, a tese da presente matéria continua muito atual. Publicada em “O Legionário”, no longínquo 15 de janeiro de 1933, ela tratou da Liga Eleitoral Católica (LEC) constituída por Plinio Corrêa de Oliveira e alguns amigos em 1932, quando ele tinha apenas 24 anos.

A LEC exerceu enorme influência na opinião pública brasileira daquela década. Apesar de ela não mais existir, continua de pé nossa obrigação de lutar pela causa autenticamente católica. Para se compreender melhor essa luta — sobretudo agora, às vésperas das eleições nacionais —, convidamos o leitor a apenas substituir “LEC” por “ideal católico” no artigo que segue.


Bafejada pela simpatia e aprovação das autoridades eclesiásticas e desenvolvendo uma atividade rigorosamente conforme às diretrizes da Santa Sé, constitui a Liga Eleitoral Católica a expressão mais eloquente do desejo dos católicos de que o Brasil não seja mais um país em que se adore Deus apenas no segredo do íntimo dos corações ou no recesso dos lares, mas em todos os campos da atividade humana.

Os acontecimentos que se desenrolaram, e que todos nós conhecemos, colocaram o Catolicismo em tal situação que, do futuro pleito eleitoral, apenas um resultado não podemos esperar: a manutenção do atual estado de coisas.

Ou o catolicismo conseguirá vencer nas urnas e fazer progredir resolutamente o País no caminho de sua restauração religiosa, ou o socialismo extremado se apoderará do Brasil, para fazer dele a vítima dos numerosos Calles e Lenines que pululam nos bastidores de nossa política, sequiosos de “sovietizar” a Terra de Santa Cruz.

Ou o espiritualismo se afirma nas eleições, na sua expressão mais elevada e mais genuína, que é o catolicismo, ou vencerá o materialismo na sua forma mais violenta e mais nefasta, que é o comunismo.

Ora, de que depende o resultado do pleito? Depende dos votos do eleitorado brasileiro.

O eleitorado brasileiro, portanto — e tanto vale dizer os católicos brasileiros — tem em suas mãos os destinos espirituais do Brasil, e talvez os do mundo.

Dormir enquanto uma tal batalha se prepara, viver sua vida de todos os dias indiferente a tudo quanto não seja a banalidade das ocupações de sempre, construir egoisticamente sua felicidade individual, enquanto se esboroa a felicidade do Brasil e corre risco a prosperidade da Igreja, eis aí atitudes próprias certamente de um Pilatos, nunca porém de um católico brasileiro.

No momento presente, a ninguém é lícito repousar com a consciência tranquila enquanto não tiver empregado todas as suas horas vagas, todos os seus momentos de lazer, todos os seus recursos intelectuais e morais a serviço da LEC.

E este serviço não é somente próprio aos eleitores. Podem prestá-lo todos os católicos realmente ciosos da maior glória de Deus.

Na foto, visita de congregados marianos
do interior de São Paulo
à sede da Congregação Mariana
 de Santa Cecília e redação
do “Legionário”, em 1935.
No centro, Plinio Corrêa de Oliveira.


Uma discussão em favor da LEC no escritório onde se trabalha, ou no clube em que se faz esporte; uma palestra a respeito do programa da LEC com um companheiro que encontramos na rua ou um parente que nos visita em casa, uma oração feita em rápida visita ao Santíssimo Sacramento pelo triunfo da LEC, quem não o poderá fazer?

Ora, é destas dedicações perseverantes e ardorosas, deste proselitismo combativo e prudente que a LEC precisa para seu triunfo, pois que é principalmente dele que depende o sucesso do pleito.

Vemos, pois, que todos podem trabalhar pela LEC e que, portanto, todos devem trabalhar pela LEC.

Reflitam todos os católicos sobre a grande responsabilidade que atualmente pesa sobre seus ombros. Decidam-se a sair a campo pelos ideais da Igreja. Porque, se algum dia se ensopar o solo brasileiro com o sangue das perseguições religiosas, ou se encher de luto a Igreja pela crescente descristianização do Brasil, é sobre os inertes, sobre os indiferentes, sobre os Pilatos que cairá toda a culpa deste sangue e pesará todo o horror deste luto.

Como na narrativa evangélica, aproximam-se os asseclas do farisaísmo para crucificar novamente a Jesus. Entregá-lo-emos como Judas? Dormiremos como os Apóstolos? Negaremos como São Pedro?

18 de setembro de 2026

Em Cimbres, Pernambuco, em 1936, a Santíssima Virgem alertou que o comunismo flagelaria o Brasil

 


✅  Fonte: Revista Catolicismo, Nº 909, setembro/2026

Grave advertência da Santíssima Virgem ao Brasil! Há 90 anos que tal admoestação paira como uma espada de Dâmocles sobre todos os brasileiros. 

Em Cimbres, no agreste de Pernambuco, Nossa Senhora advertiu sobre tempos calamitosos, pedindo oração, penitência e conversão. Ela nos alertou do perigo de o Brasil ser dominado pelo comunismo. 

Cimbres tornou-se cenário de acontecimentos que marcariam a fundo a história religiosa do Brasil. Em agosto de 1936, duas meninas, Maria da Luz Teixeira de Carvalho e Maria da Conceição Silva, afirmaram ter visto Nossa Senhora no Sítio Guarda, distrito de Cimbres, município de Pesqueira. Para pesquisadores das aparições em Cimbres, elas têm analogias com as aparições de Fátima, 19 anos antes. 

Os acontecimentos começaram em meio à violência dos cangaceiros que assolavam a região. A família de Maria da Luz havia sido obrigada a esconder-se no mato para escapar dos bandoleiros. Foi nesse contexto que, nove décadas atrás, as duas meninas, enquanto colhiam mamonas, avistaram uma figura luminosa, vestida de branco e acompanhada de um Menino. Quando perguntaram quem era, a resposta foi: “Eu sou a Graça”. E acrescentou uma advertência que se tornaria o centro das aparições: 

“Minhas filhas, virão tempos calamitosos para o Brasil. Digam a todo o povo que se aproximam três grandes castigos se não fizer muita penitência e oração.”

A notícia alastrou-se rapidamente. Peregrinos começaram a afluir. Até hoje continuam as peregrinações ao local. Um dos sinais associados aos acontecimentos foi o surgimento de uma fonte de água junto à rocha, após as videntes pedirem um sinal que pudesse confirmar suas palavras. Nossa Senhora disse que a água serviria como remédio.

A investigação ganhou mais importância com a atuação do Pe. José Kehrle, sacerdote alemão e secretário do Bispo de Pesqueira, Dom Adalberto Accioli Sobral. Encarregado de examinar os fatos, Pe. Kehrle submeteu as meninas a vários interrogatórios. As respostas incluíram afirmações sobre a identidade da aparição como “Mãe do Céu”, sobre Jesus e, notadamente, a respeito do futuro do Brasil. 

Perguntada se o comunismo viria para o País, a resposta d’Ela foi afirmativa e que se derramaria muito sangue. À pergunta sobre o que deveria ser feito para evitar os castigos, a resposta foi clara: “Penitência e oração”. Também recomendou a devoção aos Corações de Jesus e Maria, numa perspectiva profundamente vinculada à doutrina católica sobre a mediação de Maria e sua união com o Sagrado Coração de seu Divino Filho.

Além do Pe. Kehrle, outros investigadores se enfronharam no estudo das aparições e deixaram relatos escritos, documentos e cartas. Baseia-se neles a inédita matéria de capa da edição deste mês da revista Catolicismo — um estudo histórico das aparições, desconhecido do grande público, uma profecia que o Brasil parece ter esquecido. 

Não esperemos o castigo para começar a rezar e a fazer penitência...