23 de março de 2021

Mistérios da Encarnação do Verbo de Deus

 


Celebramos neste dia 25 de março uma festa magna da História da Humanidade: 2021 anos atrás se operou, após a Anunciação do Anjo São Gabriel, a Encarnação do Verbo de Deus no seio puríssimo da Santíssima Virgem Maria. Em memória desta magnífica data, a seguir transcrevemos excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 24 de março de 1984.

✅  Plinio Corrêa de Oliveira 

Na Encarnação do Verbo de Deus no seio puríssimo de Maria paira um mistério divino do qual não temos noção. Mistério sublime, e eu gostaria de estudar profundamente o que escreveu sobre ele Cornélio a Lápide (o grande exegeta jesuíta). Seria um modo de eu me preparar para chegar ao Céu, se até lá me levar Nossa Senhora. 

Desejaria saber tudo a respeito da Encarnação e dos desponsórios do Espírito Santo com Maria Santíssima; gostaria de estudar tudo o que nos diz a doutrina da Igreja a respeito da Encarnação; e como foram, desde aquele momento sublime, as relações d’Ela com o Divino Espírito Santo. Isso é algo admirável, que eu gostaria enormemente de conhecer. 

O Divino Espírito Santo engendrou Nosso Senhor,
e desde o primeiro instante Ele começou
a existir no claustro de Maria, de modo perfeitíssimo.
[Anunciação – Século XV, autor desconhecido.
Museu Nacional d’Art de Catalunya, Barcelona].


O Espírito Santo gerou Nosso Senhor Jesus Cristo no claustro de Maria, e a partir da carne e do sangue d’Ela começou a gerar a carne e o sangue de Cristo. Santo Agostinho escreveu “Caro Christi, caro Mariæ” (que a carne de Cristo, de algum modo, é a própria carne de Maria). 

Todos os homens são formados da carne de seu pai e de sua mãe, mas Jesus Cristo foi formado da carne exclusivamente de Maria, sem participação do esposo, o castíssimo São José, que foi apenas o pai legal, o pai adotivo de Jesus. 

O Divino Espírito Santo engendrou Nosso Senhor, e desde o primeiro instante Ele começou a existir no claustro de Maria, de modo perfeitíssimo. 

Pode-se imaginar qual foi a primeira palavra de amor d’Ele para sua Santa Mãe, e qual foi a resposta d’Ela, sentindo o carinho do Filho de Deus. Teria Ela dito ‘Meu Deus e meu Filho?’ Ou teria dito ‘Filhinho?’. 

Que riqueza de alma era preciso ter, para responder adequadamente a esse primeiro carinho! Que noção dos matizes e das situações Ela tinha! Que perfeita disponibilidade de alma para corresponder a tudo perfeitamente, e oferecer ao Divino Filho primícias incomparáveis: o primeiro ato de amor que o gênero humano oferecia a Deus feito homem!

22 de março de 2021

Em defesa da virilidade

✅  Plinio Maria Solimeo


H
oje em dia infelizmente o homem está perdendo muito de sua virilidade. É grande o número, principalmente entre os jovens, dos que se enfeitam com adornos próprios a mulheres, e se portam de uma maneira que se diria mais feminina que masculina. O mau exemplo para eles vem quase sempre de artistas que frequentemente se apresentam como seres andrógenos, cabelos longos, rostos bizarramente pintados, brincos nas orelhas, maquiagem excessiva, roupa unissex, e jeitos e trejeitos mais próprios a mulheres. 

Além disso, com a funesta ideologia de gênero defendendo que a criança deve poder escolher seu próprio sexo e a facilidade e profusão das operações para mudança de sexo, é muito grande a pressão em favor de se reconhecer um “terceiro sexo” trans, nem masculino nem feminino. 

Por outro lado, o que aumenta a crise da masculinidade que afeta os homens é que, além de um efeminamento acentuado nas maneiras e modos de ser, muitos deles se portam como se fossem eternas crianças. 

São Paulo já escrevia aos coríntios: “Quando eu era pequenino, costumava falar como pequenino, pensar como pequenino, raciocinar como pequenino; mas agora que me tornei homem, eliminei as características de pequenino” (1 Co 13,11). Isto é, deixei as atitudes próprias da infância por outras maduras no modo de pensar, falar e agir, e no enfrentamento da vida como ela é.

Pode-se dizer que essa crise na masculinidade tem muito de planejada, como afirma com propriedade o jornalista Felipe Marques, da Associação São Próspero, em lúcida análise. Segundo ele, com a Escola de Frankfurt foi criado por marxistas um mecanismo na área da psicologia, “com vistas a melhor aplicar o marxismo na cultura e, então, facilitar a destruição dessa mesma cultura desde o seu núcleo, sem que os cidadãos se apercebessem do processo”. 

Declara Marques que 
“A masculinidade é um dos principais alvos desses ataques de subversão, porque justamente o homem foi constituído para o combate e para doar sua vida pelos outros. Longe dessa realidade, o homem se torna um ser egoísta e autoritário que visa somente seu bem-estar e sua busca por prazer, esquecendo-se da justiça e da sua vocação magna ao sacrifício. Dessa forma, com uma masculinidade frouxa e pusilânime, os tiranos conseguem solapar os direitos da civilização, abusam das mulheres e crianças e colocam-se no lugar de Deus”. 
O jornalista apresenta então como deve ser verdadeiramente um varão católico: 
“Para ser homem católico, é necessário amar a Deus, amar a Verdade e configurar-se em tudo a Deus. Isso pode ser feito na doação diária de si mesmo para o bem dos mais fracos, para o bem das mulheres e crianças, para o bem da sociedade, e para o bem da Santa Madre Igreja. Enamorados pela Verdade, os homens são capazes de saírem de si mesmos e irem em busca do outro, rejeitando toda espécie de abuso, toda espécie de egoísmo, utilitarismo e vaidade. [...] Ser homem, enfim, é estar disposto a derramar o próprio sangue pela Santa Igreja Católica e para que outros vivam pois, se o grão de trigo, caído na terra, não morrer, fica só; se morrer produz muito fruto (São João 12, 24). Quer dizer, Deus deseja levantar verdadeiros homens que não tenham medo de viver a partir dos valores evangélicos, e que abracem uma vida de santidade”.[1] 

O Apóstolo dos Gentios [imagem ao lado] dá também algumas das características próprias do varão católico: primeiro, deve ser respeitoso, amando o próximo com caridade fraterna (Ro 2,10); não buscando o bem próprio, mas o do próximo (1 Co 10,24); suportando o peso de seu próprio fardo (Gl 6,5). E, segundo o livro dos Provérbios, sendo pacientes, pois “o paciente vale mais que o herói; é o que domina o seu ânimo” (16,32), suportando a velhice com altanaria, porque “a velhice é uma coroa de glória, a qual se encontra nos caminhos da justiça” (id. 31). 

Esse problema da crise da virilidade no homem, sobretudo do católico, tem preocupado algumas autoridades eclesiásticas. Por exemplo D. Thomas J. Olmsted [foto abaixo], bispo da cidade de Phoenix, Arizona, nos Estados Unidos, como aponta Fernando de Navascués em Religion en Libertad. Um dos desafios que esse bispo enfrenta, e que expôs em uma exortação pastoral intitulada “Na ‘Brecha”, segundo Navascués, “é [sobre] o desaparecimento do homem no seio da família, seja porque os filhos nascem fora do matrimônio, seja porque abandonou suas responsabilidades como esposo e pai. Para o bispo do Arizona, nunca se viu uma crise como a atual na hora do homem viver sua masculinidade, quer dizer, seu compromisso matrimonial e sua paternidade, sua liderança na família, sua obrigação de ouvir o coração de sua mulher e de seus filhos, bem como sua capacidade de sacrifício pessoal para levar adiante sua família”


Com efeito, em sua exortação pastoral, D. Olmsted afirma que os varões católicos “não duvidem em entrar na batalha que se luta ao seu redor, a batalha que está ferindo nossas crianças e famílias, a batalha que está distorcendo a dignidade tanto de homens quanto de mulheres. Essa batalha habitualmente está oculta, mas é muito real. Essa batalha é primordialmente espiritual, e está matando progressivamente o que resta do caráter cristão de nossa sociedade e cultura, inclusive em nossos próprios lares”

Segundo o Prelado, tal batalha provocou, desde o ano 2000 até o 2016 (ano em que foi escrita sua exortação) que 14 milhões de católicos deixassem a Igreja (cremos que só nos Estados Unidos), e que os casamentos religiosos caíssem 41% e os batismos das crianças 28%. 

Qual a causa disso? Responde D. Olmsted: “Uma das razões chaves pelas quais a Igreja está vacilando sob os ataques de Satanás, é porque muitos homens católicos não têm estado dispostos a ‘se manterem firmes na brecha’, deixando esse espaço aberto e vulnerável ao ataque. Um terço deixou a fé, e muitos dos que ainda são ‘católicos’ praticam a fé com timidez e com um compromisso mínimo de transmitir a fé a seus filhos”

A ideologia de gênero e a propagação da mania de “mudança de sexo” criaram muita confusão em nossos dias, pondo em dúvida a própria masculinidade. Pelo que diz D. Olmsted, “isso que pareceria óbvio [a virilidade do homem], em nosso mundo há muitas imagens distorcidas e evidência de confusão sobre o que é a masculinidade verdadeira. Podemos dizer com certeza que, pela primeira vez na História, as pessoas estão confusas ou são tão arrogantes para agora determinar sua própria masculinidade ou feminilidade”


D. Olmsted fala também do papel do homem no matrimônio, como esposo e como pai. “Em nossos dias, esse compromisso é visto habitualmente como a eleição de algo convencional, inclusive aborrecido; algo que limita a liberdade ou ameaça o amor. Nada poderia estar mais longe da verdade!” E acrescenta: “Homens! Essa é a glória! Chamados ao matrimônio, vocês são chamados a ser Cristo para suas esposas. Devido a que esse amor os une sacramentalmente ao amor infinito que Cristo tem a cada um, seu matrimônio sacramental se sobrepõe aos limites do matrimônio natural, e alcança o infinito e eterno caráter a que todo amor aspira”. E conclui: “Homens, sua presença e missão na família é insubstituível; despertem, e com amor retomem seu lugar, dado por Deus, como protetores, provedores e líderes espirituais de seu lar”

Para Navascués, de Religión en Libertad, interpretando provavelmente D. Olmsted, “se um homem quiser perseverar nesta luta por sua masculinidade, deve viver os seguintes passos: 1) Rezar todos os dias (“sem oração o homem é como um soldado sem comida, água ou munição!)”; 2) Examinar sua consciência antes de dormir e rezar o ato de contrição; 3) Ir à Missa, ao menos aos domingos e dias de festa; 4); Ler a Sagrada Escritura ou outro livro de piedade; 5) Santificar as festas; 6) Confessar-se e comungar; 7) Estabelecer vínculos de amizade com outros homens católicos. 

“Como são seus amigos? Tem amigos com quem compartilhar a missão de santidade?” “Uma renovada masculinidade não será possível sem que os homens primeiro se unam como irmãos e verdadeiros amigos”. 


Como não poderia deixar de ser, o bispo de Phoenix apresenta como modelo para os homens o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo: “Aqui está a masculinidade em sua totalidade; todo católico deve estar preparado para manter-se firme na brecha, entrar em combate espiritual, defender a mulher, as crianças e demais contra a adversidade e ciladas do demônio”.[2] 

*   *   * 
Entretanto, há também reação, da parte dos leigos, contra essa tendência malsã, conforme relata J. Lozano no mesmo site Religión en Libertad: “Durante os últimos anos, estão se multiplicando na Igreja os grupos de evangelização e de formação só para homens, nos quais se reivindica a masculinidade para que os varões reencontrem seu lugar na sociedade, no seio da família, e na própria Igreja”

Lozano explica: “Na Espanha teve uma grande acolhida o ‘Projeto São José para a evangelização’ e formação de homens, organizado pela Arquidiocese de Toledo”.

O Pe. Miguel Garrigós, delegado diocesano da Família e Vida de Toledo, explicou que, com esse Projeto, “queremos ajudar a aprofundar na comum dignidade essencial entre homem e mulher, e na diferença existente querida por Deus desde a Criação, para a complementaridade. Diante das mudanças que se têm produzido nos últimos tempos, parece-nos particularmente necessário ajudar os homens a encontrar seu lugar nesta sociedade e também no seio da família”

E acrescentou: “Com este projeto queremos propor uma reflexão profunda sobre a masculinidade, que pode ajudar os homens de qualquer estado. A influência da ideologia de gênero é tão grande, que nos afeta a todos, e pode criar desorientação em muitos”.[3]

O projeto reuniu neste ano cerca de 200 homens para “aprofundar à luz de São José, a vocação e a missão que Deus confiou ao varão”. Emílio Boronat, professor na Universidade Abat Oliva, de Barcelona, “fez uma conferência sobre a masculinidade. Começou sua dissertação analisando as raízes da teoria de gênero, para passar depois a mostrar de maneira profunda como os homens devem alcançar sua plenitude vivendo as virtudes teologais e cardeais”

Depois da conferência e das perguntas, houve uma Adoração ao Santíssimo Sacramento. Diz um dos presentes: “Foi comovedor contemplar esse grupo tão numeroso de homens [200!], prostrados aos pés de Jesus Cristo, Deus e Homem verdadeiro”

O encontro terminou com um jantar de confraternização nos salões paroquiais.[4]

Esse movimento de homens procurando reafirmar sua varonilidade também se alastrou em outros países, sobretudo nos Estados Unidos, onde em muito grupos, inclusive paroquiais, “os homens se juntam em um ambiente cristão para falar não só da fé, mas também realizar atividades nas quais Deus é o imã que os une”. 

Temos um exemplo na paróquia de Santa Rita, em Alexandria, na Virginia, “onde o grupo de homens está realizando uma série de chamativas atividades na Quaresma, pelas quais se poderia facilmente chamá-los de ‘guerreiros espirituais’”

Esse grupo põe seu foco na oração, no ascetismo e na fraternidade, baseando-se numa interpretação mais ou menos livre do programa Êxodo 90 de exercícios espirituais. Esse Êxodo 90 é um programa também só para homens católicos, de noventa dias de duração. Entre outras coisas, diz o programa: “Não podemos dizer ‘Sim’ a Deus, e aceitá-Lo em nossas vidas, até que digamos ‘Não’ às comodidades mundanas. Retornarás à ancestral — e por muito tempo esquecida — tradição da Igreja do ascetismo”. Pelo que, durante os três meses desse programa, muitas práticas ascéticas são utilizadas. 

Os promotores desse movimento na paróquia de Santa Rita, visando facilitar aos homens um crescimento espiritual na Quaresma, tomaram como base sobretudo as palavras de Bento XVI: “O mundo te oferece consolo, mas não fostes feito para a comodidade. Fostes feito para a grandeza”

Nesse sentido, foi pedido aos participantes desse grupo paroquial para escolherem cinco práticas ascéticas que desejassem fazer durante a Quaresma. As cinco de nove que escolheram, iam desde duchas de água fria ou com uma temperatura que não fosse superior à do ambiente, até exercícios físicos, como fazer uma caminhada levando nas costas uma mochila de pedras pesando 20 quilos; diminuir a hora do sono regular, abster de álcool, das redes sociais ou dos dispositivos eletrônicos. Explica um dos organizadores: “Estamos dando um passo atrás às comodidades deste mundo, e dizendo: ‘não acontecerá nada se eu não tomar uma cerveja ou não usar ducha quente esta noite’, porque ‘isso não determina quem somos’”

Para terminar, citamos as palavras do jovem beato Pier Giorgio Frassati: “Viver sem fé, sem um patrimônio que defender, sem uma luta estável pela verdade, não é viver, é [apenas] existir”.  
____________ 
Notas: 
1.https://www.ofielcatolico.com.br/2006/02/confortare-esto-vir-seja-homem.html 2.https://www.religionenlibertad.com/vida_familia/58990/obispo-los-hombres-deben-descubrir-identidad.html 
3.https://www.religionenlibertad.com/nueva_evangelizacion/60503/exito-total-del-proyecto-san-jose-evangelizacion-hombres-.html 
4. Id. ib.

19 de março de 2021

Aborto matando mais que Covid

 


✅  Plinio Maria Solimeo

“Já houve três vezes mais abortos em 2021, do que mortes por Covid”. Essa afirmação estarrecedora é de Francisco Vêneto em interessante artigo no portal PTAleteia, no qual ele acrescenta que isso significa que houve “praticamente 8 milhões de abortos em menos de dois meses e meio, versus 2,6 milhões de mortes por Covid, em mais de 14 meses”.[1]

A isso acrescenta o site Arrow que “a Organização Mundial da Saúde comunicou que uma média de 73.3 milhões de abortos — seguros e não seguros — ocorreram por ano entre 2015 e 2019, sendo a taxa de abortos maior nas regiões em desenvolvimento que nas desenvolvidas”.[2] 

Temos então essa espantosa cifra de inocentes que são cruelmente assassinados por suas próprias mães. Considerando-se que cada aborto provocado é um pecado mortal contra o 5º. Mandamento da Lei de Deus, temos uma cifra escandalosa de pecados mortais cometidos sem remorso, sendo que um só deles, não sendo absolvido pelo sacramento da confissão, leva à condenação eterna. 

Entretanto, não são apenas essas mães desnaturadas as únicas a cometerem esse pecado mortal, mas também todos os que concorreram para a efetivação do aborto, como médicos, enfermeiras, assistentes sociais, entre outros. 

A coisa não pára por aí. Cada nação que aprova o aborto, participa oficialmente da gravidade desse crime hediondo. Como é da doutrina católica que as nações, não existindo na outra vida, devem pagar por seus crimes aqui mesmo nesta Terra, que castigos não merecerão? 

Pode-se perguntar se a pandemia de COVID já não é um dos castigos devidos aos inúmeros abortos cometidos. Para a organização Center For Reproductive Rigths, a maioria dos países desenvolvidos permite o aborto até o terceiro mês de gestação. Isto é, quando o feto está em pleno desenvolvimento. O que é um assassinato e, portanto, um pecado grave. 

Em outros 66 países como a Suécia, Holanda, Portugal, Rússia, Suíça e Uruguai, cabe à mulher grávida o “direito” de decidir se deseja ou não abortar, sem nenhum problema com o Estado. 

No Brasil, desde 1984, o Código Penal prevê que o aborto é crime, sendo permitido “apenas” em casos de estupro, de risco para a vida da mãe, ou quando o feto não possui a maior parte do cérebro (anencefalia). Mesmo nesses casos, o aborto não deixa de ser um crime contra uma criança indefesa. Portanto, também um pecado mortal. 

A malfadada Organização Mundial da Saúde é quem promove esse crime monstruoso em todo o mundo. Ela, usando agora o pretexto da pandemia, recomenda que se faça o aborto em casa, utilizando pílulas químicas. 

Já em uma decisão de 1994, ela afirmou eufemisticamente que “cada indivíduo tem o direito de decidir livre e responsavelmente — sem discriminação, coerção ou violência — o número, espaçamento e tempo de seus filhos, e de ter informação e meios para isso, e o direito de obter o mais elevado estado de saúde sexual e reprodutiva”. 

E o meio para isso, é claro, consiste em recorrer ao aborto na possibilidade de uma gestação indesejada. Pois logo afirma: “O acesso ao aborto legal, seguro e compreensivo, incluindo cuidados pós-aborto, é essencial para se atingir o mais elevado nível de saúde sexual reprodutiva”.[3] 

Por isso o número dos abortos provocados crescem assustadoramente. Segundo ainda Francisco Vêneto, “nesta mesma manhã [10 de março], o total de abortos perpetrados no mundo somente em 2021, em menos de dois meses e meio, já superou o triplo desta marca dramática: foram mais de 7,985 milhões de abortos desde o dia 1º de janeiro [...] os abortos propositais já equivalem a três pandemias de Covid-19, com base no total de mortes provocadas por essa peste histórica ao longo de mais de 14 meses. A fonte dos dados é o site Worldometers.info, um painel de estatísticas mundiais que apresenta números a partir de fontes oficiais. Ele mostra, por exemplo que, do dia 1º de janeiro de 2021, até a manhã deste dia 10 de março, já nasceram 26,2 milhões de pessoas, enquanto faleceram 11 milhões de seres humanos — sem contar os casos de aborto”

Entretanto, a infâmia não fica só aí. Pois quase todos os países que aprovam o aborto, também legalizam a homossexualidade em todas suas formas, que representa um pecado que brada aos céus e clama a Deus por vingança. 

Segundo fontes do Worldmeters e do Google, citados pela revista "Piauí", temos que, de início de janeiro a fim de dezembro de 2020, houve 42.652.318 abortos em todo mundo. Essa cifra é seguida de perto pelo número de mortes por HIV/Aids, que se eleva a 42.371.699 mortes. Segundo a mesma fonte, as mortes por coronavírus vêm muito abaixo, com 1.810.360.[4]

Baseando-se somente nesses dados, e não se falando dos inúmeros pecados que se cometem com toda a facilidade contra a virtude da pureza nas uniões ilícitas, modas imorais, e obscenidades de toda ordem na TV e Mídia; contra a santidade do matrimônio com a proliferação do adultério. 

E sobretudo no campo religioso, principalmente com os sacrilégios cometidos contra Nosso Senhor Jesus Cristo na Sagrada Eucaristia, contra suas igrejas e imagens etc., não se pode deixar de afirmar que o mundo de hoje, com raríssimas e louváveis exceções, vive em estado de pecado mortal. 
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Notas: 
1.https://pt.aleteia.org/2021/03/10/ja-houve-3-vezes-mais-abortos-em-2021-do-que-mortes-por-covid-na-pandemia-toda/?utm_campaign=NL_pt&utm_source=daily_newsletter&utm_medium=mail&utm_content=N_pt
2.https://arrow.org.my/safe-abortion-crucial-for-womens-reproductive-health/ 
3.https://www.who.int/health-topics/abortion#tab=tab_1 
4.https://piaui.folha.uol.com.br/lupa/2021/01/11/verificamos-mortes-aids-covid-19-2020/

18 de março de 2021

Grandezas incomensuráveis de São José

 


Comentários sobre as excelências peculiares da vocação incomparável do escolhido para esposo de Maria e pai adotivo de Jesus, sua altíssima nobreza e a santidade 


Renato Murta de Vasconcelos

O mês de março é dedicado na liturgia católica a São José, o esposo castíssimo de Maria, cuja festa se celebra no dia 19. Os teólogos, em grande número, são unânimes em declará-lo o maior de todos os santos depois da Virgem Santíssima. Na Encíclica Quamquam Pluries (agosto de 1899), Leão XIII o proclamou patrono e defensor da Igreja universal e dos cristãos. 

Hoje, no auge do processo de autodemolição da Igreja e descristianização do Ocidente, seu auxílio e sua proteção se tornam cada vez mais necessários. Neste sentido, a devoção a ele é mais atual do que nunca. Dentre suas incontáveis qualidades morais, refulge de modo especial a virtude da pureza, tão odiada pela Revolução gnóstica e igualitária. Insondavelmente puro, São José foi escolhido por Deus para esposo e guardião castíssimo de Maria e pai adotivo de Jesus. Privilégios estupendos, que lhe conferem um lugar único na ordem do universo e na história da salvação. 

Jacó gerou José, esposo de Maria

São José, pai adotivo de Jesus
– Miguel Cabrera, séc. XVIII.
 Museu Nacional do Virreinato,
 Tepozotlán (México).

Cornélio a Lapide, o famoso exegeta jesuíta do século XVII, analisando o Evangelho de São Mateus (Mt 1, 16 ss), e apoiado no ensinamento de Padres da Igreja, santos e teólogos, comenta a vocação incomparável de São José. 

Pode-se perguntar inicialmente por que a geração de Cristo é apresentada no Evangelho de São Mateus por meio da genealogia de José, tendo em vista que Jesus Cristo não era Filho de José, mas da Virgem Maria. Argumenta-se que Ela poderia casar-se com um homem de outra tribo, como ocorreu com sua prima Isabel, que era da tribo de Judá e se casou com o sacerdote Zacarias, da tribo de Levi. 

De fato, as mulheres judias podiam se casar em outra tribo. Mas elas mesmas, na falta de herdeiros do sexo masculino, se tornavam herdeiras de seus pais, e nesse caso eram obrigadas a se casar com homens de sua própria tribo e família, para que sua herança não passasse por casamento para outra tribo (cf. último capítulo de Números, vers. 7). São Joaquim, o pai da Santíssima Virgem, não tinha filhos varões, fato que São Mateus omite por ser algo perfeitamente conhecido na época em que escreveu. Era um dever de Maria, portanto, casar-se com um varão de sua própria tribo e família, ou seja, José. Assim a genealogia de São José se tornou a genealogia da Santíssima Virgem, e consequentemente de Cristo Senhor Nosso. Ademais, os Padres ensinam universalmente que José e Maria eram da mesma tribo e família. 

São José, legítimo pai de Jesus Cristo 

Ademais, São Mateus apresenta a genealogia de Nosso Senhor Jesus Cristo a partir de José, e não de Maria, em primeiro lugar porque entre os judeus e outros povos a genealogia costuma ser traçada a partir de pais e maridos, não de mães e esposas. Em segundo lugar porque José, legítimo pai de Cristo, que era o herdeiro do trono e do cetro de Davi, não o era por meio de Maria, mas de José, de acordo com a promessa de Deus a David (2 Sam. 7, 12; Ps. 88 e 131). 

O cetro de Judá repousou, portanto, sobre Jesus Cristo, não apenas pela promessa e dom de Deus, mas pelo direito de sucessão hereditária. Porque, se por direito comum os filhos sucedem à herança de seus pais, bastando para tal serem considerados seus filhos pela reputação comum, tanto mais era Cristo herdeiro de José, seu pai, visto que era Filho de sua Esposa, pelo poder e obra do Espírito Santo! Portanto, José tinha o direito paterno sobre Cristo. Na verdade, tinha todos os direitos que os pais têm sobre os filhos. Por outro lado, Cristo possuía em relação a José todos os direitos que os filhos têm em relação aos pais. Ele detinha, portanto, o direito ao trono de Israel após a morte de José. Daí a pergunta dos Reis Magos (Mt. 2, 2): “Onde está o Rei dos Judeus, que acaba de nascer?” 
São Mateus apresenta a genealogia de Nosso Senhor Jesus Cristo a partir de José, e não de Maria, porque entre os judeus e outros povos a genealogia costuma ser traçada a partir de pais e maridos, não de mães e esposas. [Quadro: Casamento de Nossa Senhora e São José, Igreja de Notre-Dame de Recouvrance (Restabelecimento). Orleans, França. / Foto: Frederico Viotti].

Restaurador do cetro de Judá 

Era o que quis demonstrar São Mateus, que, como diz Santo Agostinho, insiste na realeza de Cristo. E isso explica o porquê de ele traçar a genealogia de José, em vez da progênie de Maria. Ela não poderia ser a herdeira do trono enquanto sobrevivessem os herdeiros do sexo masculino, como José e outros. Como consequência, é preciso afirmar também que o pai e outros ancestrais de José eram primogênitos, ou pelo menos os filhos mais velhos sobreviventes de seus pais, de modo que o direito de reinar recaiu sobre eles. 

É isso que o primeiro capítulo de São Lucas explicita com as palavras: “E o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai David”. Assim também em Gen. 49, 10: “O cetro não será tirado de Judá, nem o príncipe da sua descendência, até que venha aquele que deve ser enviado”; isto é, Cristo devia restaurar o cetro a Judá, iniquamente tirado por Herodes; e na realidade devia elevar seu reino a uma grandeza muito mais alta, tornando-o espiritual em vez de corporal, celestial em vez de terrestre, e eterno em vez de temporal. 

Incomparável dignidade de José e Maria 

Imagem de São José
na antiga igreja de São Patrício,
 em Ann Arbor, Michigan (EUA)



É preciso notar a expressão José, marido de Maria. O árabe traduz como o esposo de Maria. Disto podemos deduzir que São José tinha todos os direitos de um verdadeiro esposo em relação à Virgem, por conseguinte é justa e verdadeiramente chamado pai de Cristo, segundo comenta Santo Agostinho. 

1. Cristo pode ser considerado fruto do casamento de José e Maria, porque nasceu no casamento, embora não do casamento. A filiação pode ser atribuída, portanto, ao pai e à sua mãe. 

2. Visto que o homem e sua mulher se tornam um pelo casamento – ou seja, como se fossem apenas uma pessoa aos olhos da lei – eles têm tudo em comum, e assim todos os seus filhos são legítimos. Assim, Cristo era o Filho da Virgem Mãe de Deus e era também Filho de José, que era esposo de Maria, e portanto o companheiro de todas as suas honras e bênçãos. José era mais verdadeiramente pai de Cristo do que alguém, quando adota um filho, é pai desse filho. Ele era pai de Cristo, não por adoção mas por casamento. Portanto, segue-se que José tinha a autoridade de um pai sobre Cristo, portanto a maior solicitude e afeição por Ele. E Cristo, em troca, amou e honrou José como a um pai, e lhe foi obediente, como está claro em Lucas 2, 51. Como diz Gerson, “Esta sujeição marca ao mesmo tempo a indescritível humildade de Cristo e a incomparável dignidade de José e de Maria”

3. Cristo pertencia propriamente à família de José, pois pertencia à família de sua mãe, como sua própria mãe pertencia à de José. Nesta família nobilíssima, divina e celestial, o pai e governante era José; a mãe, a Virgem Santíssima; o filho, Cristo. Nesta família estavam as três pessoas mais excelentes de todo o mundo: primeiro Cristo, Deus e homem; em segundo lugar a Virgem Mãe de Deus, mais intimamente unida a Cristo; e em terceiro lugar José, o pai de Cristo pelo casamento. 

Altíssima nobreza e santidade do esposo de Maria 

Muitos dos sábios deste mundo, e mesmo a maior parte dos homens, pensam em José apenas como um carpinteiro pobre e desprezado. Porém é bom ter em mente que ele era ‘Filho de David’, como vimos, e isso não é dizer pouco. Quanto mais desprezado e desconhecido ele foi na Terra, tanto maior é a sua glória no Céu. O Papa Gregório XV decretou que sua festa fosse celebrada por toda a Igreja no dia 19 de março. Esta é uma honra bem merecida, pois grandes eram suas prerrogativas, seu cargo e sua dignidade acima de todos os outros homens. 

1. José foi esposo da Santíssima Virgem e pai de Cristo. Foi, portanto, cabeça e superior tanto da Virgem quanto de Cristo enquanto homem. 

2. Como conclusão, havia um amor e uma reverência singulares por parte da Santíssima Virgem e de Cristo para com José. Donde Jean Gerson, Chanceler da Universidade de Paris (Serm. de Nativ. BVM), exclamar: “Ó José, quão maravilhosa é a tua exaltação, quão incomparável a tua dignidade, pois a Mãe de Deus, a Rainha do Céu, a Senhora do mundo, não desdenhou chamar-te de senhor!”. São Gregório Nazianzeno (Orat. 11), para enaltecer a excelência do marido de sua irmã Gorgônia, nada de melhor encontra para isso do que mencionar que ele era seu marido: “Deseja que eu descreva o homem? Ele era seu marido, e não sei o que mais acrescentar”. Pode-se dizer o mesmo de São José: ‘Quer saber quem e quão grande ele foi? Ele era o esposo da Mãe de Deus!’ 

3. O ministério e o ofício de São José foram muito nobres, no que diz respeito à ordem da união hipostática do Verbo com a nossa carne. Pois exerceu todos os seus labores e ações na proximidade imediata da Pessoa de Cristo. Ele nutriu, educou e protegeu Cristo, e Lhe ensinou sua arte de carpinteiro, segundo a opinião comum dos Doutores. Francisco Suárez diz a este respeito: “Existem alguns ofícios que pertencem diretamente à ordem da graça, e nisto os Apóstolos ocupam a posição mais elevada, portanto precisam de maior assistência da graça do que todos os outros. Existem também outros ofícios que pertencem à ordem da união hipostática, a qual em seu gênero é uma ordem superior, como fica claro na maternidade divina na Santíssima Virgem. Nesta ordem São José exerceu seu ministério” (3ª parte. Quæst. 29, disp. 8, seção 1). 

4. José, por sua convivência familiar e constante com Cristo e a Santíssima Virgem, tornou-se participante de seus segredos divinos, e diariamente via e imitava suas virtudes sublimes. 

5. José era um varão de altíssima santidade, dotado por Deus de dons singulares, tanto da natureza como da graça; de modo que em sua época não havia homem mais santo ou mais digno de esposar a Mãe de Deus. Donde Suárez apresentar como provável que José fosse superior aos apóstolos e a João Batista em graça e glória, porque seu ofício era mais excelente do que o deles: ser pai e governador de Cristo é mais do que ser pregador e precursor. E acrescenta que ele já estava maduro quando desposou a Santíssima Virgem. Tendo morrido antes da crucifixão, por isso na Paixão de Cristo nenhuma menção lhe é feita. Ele ressuscitou com Cristo, juntamente com outros patriarcas, dos quais é feita menção em Mat. 27, 52: “Ressuscitaram muitos corpos de santos que dormiam”


Essas excelências peculiares do excelso esposo de Maria são bem expressas nos qualificativos que lhe são atribuídos na bela ladainha aprovada pela Igreja: “São José, ilustre filho de Davi, luz dos patriarcas, Esposo da Mãe de Deus, guarda da Virgem pura, nutrício do Filho de Deus, zeloso defensor de Cristo, chefe da Sagrada Família, justíssimo, castíssimo, prudentíssimo, fortíssimo, obedientíssimo, fidelíssimo, espelho de paciência, amador da pobreza, exemplo dos trabalhadores, honra da vida doméstica, custódio das virgens, amparo das famílias, alívio dos miseráveis, esperança dos enfermos, padroeiro dos moribundos, terror dos demônios, protetor da santa Igreja”.
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Fonte: Revista Catolicismo, Nº 843, Março/2021.

7 de março de 2021

Recusa de qualquer pacto com a heresia


E
m artigo publicado em dezembro de 1946 no “O Legionário”, Plinio Corrêa de Oliveira [foto] indaga “Quem somos nós?” — ou seja o Grupo do jornal “O Legionário”, também conhecido como o “Grupo do Plinio” e, alguns anos depois, com a fundação do jornal “Catolicismo” (hoje no formato de revista), passou a ser conhecido como o “Grupo de Catolicismo”.

A seguir, alguns trechos da antológica resposta do eminente jornalista contra-revolucionário:

“Os que não dobram os dois joelhos, e nem sequer um só, diante de Baal. Os que temos a Lei de Deus escrita no bronze de nossa alma, e não permitimos que as doutrinas deste século gravem seus erros sobre este bronze, que sagrado que vossa Redenção tornou. 

Os que amamos como o mais precioso dos tesouros a pureza imaculada da ortodoxia, e que recusamos qualquer pacto com a heresia, suas obras e infiltrações".

Em conferência no dia 9-8-1995, o Prof. Plinio complementou a definição acima dizendo: 

“Quem somos nós? Na tormenta, na aparente desordem, na aparente aflição, na quebra aparente de tudo aquilo que para nós seria a vitória, nós somos aqueles que confiaram, que jamais duvidaram, mesmo quando o mal parecera ter vencido para sempre”. 

E em conferência anterior (em 20-12-1991), o autor afirmou algo que serve de conclusão à resposta-definição do “Quem somos nós?” 

“Somos filhos e seremos heróis da confiança, os paladinos desta virtude! Quanto mais os acontecimentos parecerem desmentir a voz da graça que nos diz — ‘vencereis’ —, tanto mais acreditaremos na vitória de Maria!”

6 de março de 2021

Casal se converte do esoterismo pela Medalha Milagrosa

Ó Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a Vós”.

✅  Plinio Maria Solimeo

O caminho da graça de Deus é surpreendente. Nos meios mais hostis, as graças atuam sobre pessoas, mesmo junto àquelas menos preparadas para recebê-las, e acabam triunfando apesar de todos os percalços. 

Foi o que ocorreu com um jovem francês, Misha Demidjuk [foto abaixo]. Filho de um comunista radical e de uma mãe seguidora da Nova Era, não foi batizado nem recebeu formação religiosa em casa. Cresceu assim pagão e ateu, e correu mundo entregando-se a uma vida de sexo e aventuras. 

Entre outras coisas, foi cozinheiro na Austrália e dirigiu um bar em Mali, numa acidentada vida. Foi quando voltou à França que começou a sentir um grande vazio em sua existência, que nem viagens nem experiências no mundo podiam preencher. Era esse um primeiro apelo da graça no interior de sua alma. 

Contudo Misha, em vez de se abrir a ela, procurou preencher esse vazio dedicando-se ao xamanismo. Muito resumidamente, esse culto animista esotérico, consiste num conjunto de ritos e práticas, dirigidas pelo Xamã (feiticeiro) que, por meio da magia e contato com o mundo preternatural, obtém curas e outras vantagens para seus adeptos.

Parece inacreditável que o homem moderno seja capaz de fazer pactos com o demônio, pois é o que encontra nesse mundo preternatural. Dir-se-ia que ele considerava tudo isso como histórias de épocas de trevas, nas quais a ignorância e o atraso teriam levado alguns à ilusão de terem estabelecido um comércio com seres supostamente superiores aos homens, e a procurar deles aquilo que a ciência do tempo não lhes permitia alcançar por outros meios. 

Dir-se-ia também que ele, já no terceiro milênio, não teria necessidade desse recurso, pois lhe bastariam a ciência e a técnica que, somadas ao seu trabalho, garantir-lhe-iam os elementos para a completa felicidade nesta Terra. 

Essa concepção materialista é um pouco simplista, e contrasta com o que se passa diariamente sob nossos olhos pelo que vemos nas páginas dos jornais e noticiários de televisão, relatando crimes hediondos praticados com o fim de se conseguir de forças extranaturais uma vantagem para si próprio, para terceiros, ou um mal para o inimigo. 

Por isso, na mesma época em que a ciência e a técnica parecem não ter limites para progredir, a imensa sensação de vazio espiritual que deixa sem sentido todo esse progresso, faz o homem voltar-se para as forças extranaturais mais frequentemente do que em épocas precedentes. 

Foi o caminho que seguiu esse jovem incauto, tido como normal que, por uma curiosidade malsã, cedeu ao desejo de explorar esse mundo esotérico para procurar preencher o vazio de sua vida. Misha deveria saber que: 

“Sempre que se procuram determinados efeitos por meios desproporcionados, os quais de nenhum modo podem conduzir ao resultado desejado, se confia, ao menos implicitamente, na atuação de ‘forças misteriosas’ para se obter esse resultado. 

Como essas forças não vêm de Deus nem de seus anjos, só podem provir do espírito das trevas. E assim, a partir da superstição se chega facilmente, ainda que de forma não inteiramente consciente, ao recurso implícito ao demônio. 

Em suma, o desejo de subjugar as ‘forças superiores’ e dessa maneira chegar a ‘ser como deuses’ (Gn 3,5), é o fundamento de toda a superstição e de toda a magia”. 

Pois sempre que se entra nesse mundo preternatural, acaba-se chegando cedo ou tarde, a ter um o recurso implícito com demônio. 

“Como em todo contrato, cada parte [homem e demônio] procura atender os seus interesses. Se, de um lado, o espírito maligno aceita o acordo unicamente para o mal, a outra parte, o homem, poderá exigir que esse mal lhe traga alguma vantagem, ao menos subjetiva: dinheiro, honras, vingança, prazer; do contrário não haverá razão para haver acordo[...].

É fácil, sobretudo para os cristãos, compreender que um pacto formal, um recurso explícito ao demônio, é contrário à lei de Deus. Mas o recurso implícito, mediante práticas supersticiosas, nem sempre aparece claramente como um recurso ao Maligno e choca menos o senso moral [...].

Em muitos casos, o homem se dá conta disso; porém, cego por suas paixões desregradas, já não cogita de averiguar a origem do resultado obtido: o que lhe interessa é alcançá-lo. Assim vai se acostumando aos poucos a ver o demônio não como o ‘espírito do mal’ que ele é, mas apenas como um ‘ser poderoso’, que ele pode utilizar a seu proveito, como uma espécie de divindade conivente com suas paixões, a quem convém cultuar”.[1]

Foi assim que Misha, à medida que se precipitava mais profundamente nesse abismo, começou a ter contato com os “espíritos”. Num curso de formação xamânica em 2005, ele conheceu, Letícia, com quem se casou. 

Acontece que a graça de Deus como que perseguia esse casal. Na sua entrevista à revista francesa Famille Chrétienne, Misha diz que em determinado momento, tanto ele quanto a esposa, “cansados dos gurus”, decidiram deixar tudo e se instalar em uma pequena cidade nos Alpes, dedicando-se a dirigir uma propriedade rural. Isso já não vai sem uma graça especial. 

Os demônios, entretanto, não quiseram largar sua presa. Assim que, declara ele, “nesse momento um espírito com o qual havia estado em contato, regressou para me atormentar”. Isso porque, quando o homem abre sua alma à ação do demônio, este facilmente exerce sobre ele a mais cruel e implacável tirania, da qual é muito difícil de se livrar. 

Frequentemente, para isso, é preciso mesmo recorrer aos exorcismos da Igreja. Mas não foi o que sucedeu com Misha e sua esposa. Ainda sob o impulso de uma graça especial, “decidimos queimar tudo o que se relacionava com o esoterismo que tínhamos em casa, incluindo nossos amuletos, e nos fomos sem nada”. 


Ocorreu então o imprevisível. Ao sair de casa, Letícia percebeu que, sem se dar conta, ficara ainda com um amuleto. Este caiu no chão e se rompeu. E o que não podiam esperar, sucedeu: em seu interior encontraram uma Medalha Milagrosa! [foto abaixo]

Essa medalha que, pelo número de milagres obtidos mereceu ser chamada a “Milagrosa” por excelência, foi revelada a Santa Catarina Labouré em 1830, na Rue du Bac, em Paris [foto acima]. As primeiras medalhas foram cunhadas em 1832, e distribuídas naquela cidade. Foi tão extraordinário o número de graças obtidas por aqueles que a portavam no pescoço, que a medalha começou a se difundir por todo o mundo até os dias de hoje.

Pode-se supor o quanto marido e mulher ficaram impressionados com o achado, sobretudo com o que vinha escrito na medalha. Procuraram pesquisar e, “graças a isto, diz Letícia, descobrimos a capela da Rue de Bac, e nos enviaram medalhas já bentas. Começamos então a rezar todo o tempo: ‘Ó Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a Vós’”. 

Um dia Misha ia se dirigindo a algum lugar em sua motocicleta recitando esta oração, quando diz que recebeu uma graça verdadeiramente mística: De repente, não sabe como, ele “encheu-se de amor a Maria”. Ele descreve esse amor como sendo “gigantesco, humano e maternal”, uma graça “sensacional”

Ainda sem saber qual o próximo passo a dar, o casal resolveu comprar uma Bíblia. Misha leu o Antigo Testamento, e Letícia o Novo. E juntos começaram a rezar. 

O próximo passo foi procurar uma igreja. E assim o pároco de Bugarach, onde se tinha instalado a família nesse tempo, os ajudou muito nesse princípio de conversão. Misha afirma: “No esoterismo tudo se centra na vontade da pessoa, mas na Igreja aprendemos a fazer a vontade de Deus. Por isso gosto muito de Joana d’Arc: ajoelhava-se e rezava para fazer a vontade de Deus”

À medida em que se ia aprofundando no conhecimento da fé católica, cresceu na família o desejo do batismo, desejosos de se tornar parte da Igreja. Afirma Letícia: “Estava lendo o Ato dos Apóstolos com todos aqueles batizados massivos, espontâneos, era o que toda minha alma queria seguir”. Finalmente Misha, Letícia e seus quatro filhos se batizaram em 2014. 

Misha descobriu então o artesanato de madeira e a ele se dedicou, passando a confeccionar brinquedos “inteligentes”; primeiro para seus quatro filhos, depois, com o êxito na empresa, para a venda. Em 2016 comprou um antigo presbitério em Chalabre, reformou-o, e para ele se mudou com a família e atelier. 

Sobre sua empresa, comenta um jornal da região: “Em meio ao mundo dos tablets e videogames digitais, ainda existem os jogos de construção em madeira que mantêm todo o seu charme e ainda estimulam as crianças. 

Em Kercorb, em Chalabre, Misha Demidjuk é um daqueles inventores que colocam a cabeça para trabalhar em fabricar e comercializar produtos originais, no caso dele, um jogo artístico para crescer e rejuvenescer”.[2]

A conversão da família foi profunda. Eles passaram a viver segundo a vontade de Deus, inclusive no trabalho. Diz Misha: “Ponho meu trabalho em oração para deixar a porta aberta a Deus. Já sabe, o ora et labora”

Nestes tempos de pandemia, a fé dos Dmidjuk foi posta a prova, pois, como ocorreu com milhões de pessoas em todo o mundo, com o confinamento o atelier que tinham conseguido com tanto trabalho pôr em funcionamento, viu-se ameaçado de fechamento por falta de fregueses. 

Misha prometeu então fabricar um ex-voto para dedicá-lo ao Sagrado Coração de Jesus em Paray-le-Monial — onde esse divino Coração manifestou a Santa Margarida Maria seu grande amor aos homens —, se conseguisse manter o atelier. 

Publicou então um vídeo na internet apresentando seus brinquedos e objetos em madeira. A quantidade de pedidos que recebeu disparou como nunca, nem ele nem sua esposa tinham visto. A tal ponto que ultrapassou a capacidade do atelier atender a todos os pedidos. 

Os esposos, agradecidos, então afirmam: “Seguiremos com as peregrinações, porque tudo o que nos passa está sempre firmado com a mão do Senhor”.[3]

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Notas:

1. Gustavo Antônio Solimeo e Luiz Sérgio Solimeo, Anjos e Demônios – a luta contra o poder das Trevas, Artpress, 1996, pp.149-151-153

2.https://www.ladepeche.fr/article/2018/06/25/2824337-le-jeu-en-bois-de-misha.html

3.https://www.religionenlibertad.com/personajes/566649808/misha-demidjuk-esoterismo-conversion-catolicismo.html?utm_source=boletin&utm_medium=mail&utm_campaign=boletin&origin=newsletter&id=31&tipo=3&identificador=566649808&id_boletin=93499549&cod_suscriptor=452495753

https://www.famillechretienne.fr/36128/article/ils-ont-abandonne-lesoterisme-pour-le-christ

5 de março de 2021

Pode a Igreja privar da comunhão quem promove o aborto?

Como o ensinamento da Igreja a respeito do aborto não mudou, nem pode mudar, os políticos que promovem o aborto, como é o caso do presidente Biden dos Estados Unidos [ foto], deveriam continuar proibidos de comungar, e até mesmo ser excomungados, ou seja, excluídos da Igreja.

  Padre David Francisquini 

Pergunta — Vejo em órgãos da imprensa que alguns bispos norte-americanos têm afirmado que o Presidente Biden, por ser favorável ao aborto, deveria ser proibido de comungar, enquanto outros dizem que a Eucaristia não pode ser utilizada como arma de guerra cultural. Embora eu tenha certeza de que os primeiros têm razão, gostaria de conhecer os motivos pelos quais a Igreja pode privar da comunhão quem promove o aborto. 

Resposta — O pedido de nosso leitor tem todo o propósito, uma vez que a mídia do mundo inteiro divulgou a nota na qual o atual presidente americano Joe Biden, e sua vice Kamala Harris, manifestaram o propósito de transformar a decisão judicial Roe v. Wade (1973), da Corte Suprema americana, em lei federal que permite o aborto. Paralelamente, publicou fotografias e vídeos nos quais se vê Joe Biden comungando. 

Na Argentina, a mesma perplexidade resultou de o atual presidente ter comungado, junto com sua concubina, numa missa celebrada na cripta da Basílica de São Pedro, poucos meses antes de apresentar o projeto que liberou o aborto no país vizinho. 

Diante desses escândalos, os fiéis se perguntam se a doutrina da Igreja em relação ao aborto teria mudado. Porque, se não mudou, os políticos que promovem o aborto deveriam continuar proibidos de comungar, e até mesmo ser excomungados, ou seja, excluídos da Igreja. 

Como o ensinamento da Igreja a respeito do aborto não mudou, nem pode mudar, há motivos de sobra para que essas duas penalidades sejam aplicadas aos homens públicos que discordam abertamente do ensinamento da Igreja Católica, pois a matéria é gravíssima em si mesma; e além do mais, ocasiona o massacre anual de milhões de inocentes no ventre materno. 

Magistério ordinário e universal 

O ensinamento da Igreja sobre o aborto é uma verdade irreformável. Declarou-o João Paulo II na encíclica Evangelium vitæ: “Com a autoridade que Cristo conferiu a Pedro e aos seus sucessores, em comunhão com os Bispos da Igreja Católica, confirmo que a morte direta e voluntária de um ser humano inocente é sempre gravemente imoral. Esta doutrina, fundada naquela lei não-escrita que todo o homem, pela luz da razão, encontra no próprio coração (cf. Rm 2, 14-15), é confirmada pela Sagrada Escritura, transmitida pela Tradição da Igreja e ensinada pelo Magistério ordinário e universal” (n° 57). 

No texto acima, o negrito que colocamos na última frase destaca duas observações importantes: 

1. O Papa não fez uma declaração solene ex cathedra, usando as fórmulas habituais, em cujo caso a encíclica Evangelium vitæ seria infalível ex sesse  ou seja, por si mesma. Limitou-se a reiterar que esse é um ensinamento do “Magistério ordinário e universal”. Mas, no fim da frase, colocou uma nota que remete para o n° 25 da Lumen Gentium, do Concílio Vaticano II, o qual, por sua vez, remete para o n° 3 da Constituição Dogmática Dei Filius, que declara solenemente: “Deve-se, pois, crer com fé divina e católica tudo o que está contido na palavra divina escrita ou transmitida pela Tradição, bem como tudo o que a Igreja, quer em declaração solene, quer pelo Magistério ordinário e universal, nos propõe a crer como revelado por Deus”. Em outros termos, trata-se de uma doutrina irreformável, não por ser uma declaração ex cathedra, mas por ter sido ensinada sempre, por todos e em todas as partes. 

2. Na encíclica Evangelium vitæ, porém, o Papa não diz que essa doutrina “está contida” na Revelação (como recita a fórmula da declaração Dei Filius), mas apenas que ela “é confirmada” pela Sagrada Escritura. Caso dissesse “está contida”, João Paulo II teria afirmado que tal doutrina deve ser crida com fé divina; e implicitamente, que sua negação importa numa heresia. 

Dizendo do segundo modo  “está contida”, ou seja, que o ensinamento está apenas baseado nas Escrituras (que, de fato, não fazem nenhuma menção direta ao aborto)  ele evitou engajar sua autoridade magisterial até o ponto de transformar automaticamente esse ensinamento moral num dogma de fé. A infalibilidade dessa doutrina passa a depender, então, de uma avaliação do grau de conexão com a divina Revelação dessa verdade ensinada universalmente pelo magistério. 

Ensina São Paulo: “Todo aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será culpável do Corpo e do Sangue do Senhor” e “come e bebe a sua própria condenação” (I Coríntios, 11, 27 e 29).

Pecadores públicos 

No meu humilde entender, essa relação entre o ensinamento tradicional e a Revelação é íntima, e além do mais o Papa afirma que ele é transmitido pela Tradição. Por isso, pode-se concluir, segundo meu ponto de vista, que já é uma doutrina infalível a ser crida com fé divina, sendo hereges os que a negam. Mas há teólogos que opinam diferentemente, para os quais a negação dessa doutrina mereceria apenas a censura de “doutrina errônea”, evitando cominar os dissidentes com a qualificação de hereges. 

Os católicos que batalham contra o aborto teriam preferido que João Paulo II não deixasse pairar ambiguidade a respeito de um aspecto tão relevante da questão, tanto mais quanto tal aspecto tem consequências canônicas graves. Contudo, o então Cardeal Joseph Ratzinger, na conferência de apresentação da Evangelium vitæ, confirmou os rumores de que a palavra “infalível” figurava nos primeiros esboços da encíclica, mas a ideia foi abandonada. Segundo ele, seria “um pouco absurdo” solenizar ensinamentos tão evidentes nas Escrituras e na Tradição. A posteriori¸ em vista das atitudes de Biden, Fernández e tantos outros políticos “católicos”  e, infelizmente, do apoio que recebem de tantos bispos e cardeais , estamos vendo que transformar a condenação do aborto voluntário em dogma de fé explícito não era nem um pouco absurdo. 

Seja como for, mesmo não sendo formalmente hereges os políticos que promovem o aborto e os bispos que os apoiam, certamente são pecadores públicos, por dissentirem abertamente do ensinamento oficial da Igreja. Esse fato, que é evidente para todo fiel zeloso da fé, foi também reiterado pelo mesmo Cardeal Ratzinger, então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, numa carta ao arcebispo de Washington Theodore McCarrick (hoje reduzido ao estado leigo, devido a crimes de abuso sexual) afirmando que, sendo o aborto um pecado grave, e sua despenalização uma lei injusta, nunca é lícito fazer propaganda ou cooperar com a sua adoção. De onde resulta que, “quando a cooperação formal de uma pessoa se torna manifesta — entendida, no caso de um político católico, como fazer campanha e votar reiteradamente em favor de leis permissivas do aborto e da eutanásia” —, seu pastor, seja o vigário ou o bispo, deve informá-lo da doutrina da Igreja e adverti-lo de que, se persistir na sua atitude, não poderá apresentar-se para receber a Sagrada Comunhão, “até que ponha fim à sua situação objetiva de pecado”. A carta prossegue citando um documento do Pontifício Conselho para os Textos Legislativos: “Quando a pessoa em questão, com obstinada persistência, ainda se apresenta para receber a Sagrada Eucaristia, ‘o ministro da distribuição da Comunhão deve recusar-se a dá-la’”.[1]

Comunhão indigna, alimento para a própria condenação

Se Nosso Senhor expulsou os vendilhões
do Templo, o que faria com aqueles que
não se importam que seu Corpo e seu Sangue
sejam profanados, em benefício dos que
promovem o maior massacre de inocentes
 da história da humanidade?
[Foto: Frederico Viotti - Igreja de
São Roque, Paris



De fato, tais políticos pró-aborto são publicamente indignos de receber a Sagrada Comunhão (cânon 915), de receber a Extrema-unção (cânon 1007) ou de se beneficiar de funerais religiosos (cânon 1184). O motivo é que eles são ‘pecadores manifestos’, designação que o novo Código de Direito Canônico dá aos que o antigo incluía como ‘pecadores públicos’. 

A recusa dos sacramentos é particularmente obrigatória no caso da Sagrada Comunhão, não apenas para evitar o escândalo dos fiéis, mas sobretudo para evitar que o pecador cometa um sacrilégio. Pois, como ensina São Paulo, “todo aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será culpável do Corpo e do Sangue do Senhor” e “come e bebe a sua própria condenação” (I Coríntios, 11, 27 e 29). 

O Pontifício Conselho dos Textos Legislativos sublinha, muito apropriadamente, que “a proibição feita no citado cânon [915], por sua natureza deriva da lei divina e transcende o âmbito das leis eclesiásticas positivas: estas não podem introduzir modificações legislativas que se oponham à doutrina da Igreja”. Disso resulta que “nenhuma autoridade eclesiástica pode dispensar em caso algum desta obrigação do ministro da sagrada Comunhão, nem emanar diretrizes que a contradigam”. 

Merecem a mais peremptória condenação, portanto, os sacerdotes, bispos e cardeais que, passando por cima da legislação eclesiástica, dão a comunhão a políticos abortistas ou justificam que isso seja feito. Por sua atitude, estão implicitamente negando que a Eucaristia é o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor; ou negando que os políticos são pecadores manifestos ao aprovar leis injustas; ou ainda isentando o aborto da qualificação de crime abominável. Mais provavelmente eles negam tudo isso, mas não têm a coragem de dizê-lo de modo claro e se escondem atrás de desculpas esfarrapadas, como indicado pelo nosso missivista. 

Se Nosso Senhor expulsou os vendilhões do Templo, o que faria com aqueles que não se importam que seu Corpo e seu Sangue sejam profanados, em benefício dos que promovem o maior massacre de inocentes da história da humanidade? Peçamos a Nossa Senhora que dê coragem aos poucos Pastores corajosos, nos Estados Unidos e alhures, que ainda defendem a honra de seu Filho e não hesitam em enfrentar os modernos Herodes, como fez São João Batista ao preço de seu próprio sangue. 
____________ 
Fonte: Revista Catolicismo, Nº 843, Março/2021.
[1] <https://www.ewtn.com/catholicism/library/worthiness-to-receive-holy-communion-general-principles-2153>

1 de março de 2021

Feminismo radical e verdadeiro feminismo católico

O horrível cartaz do movimento "Maria 2.0", de mulheres "católicas" alemãs, que pede igualdade na Igreja. Ilustração Lisa Kõtter.

✅  Plinio Maria Solimeo 


Nessa revolução igualitária que avassala o mundo, não é de espantar que tenham surgido movimentos feministas dos mais radicais. Muito deles são de índole anarquista, invadem e profanam igrejas, atacam manifestações contra aborto etc. 

Há os de índole mais pacífica, que visam acabar de modo legal a diferença entre homens e mulheres na sociedade. Entre esses, há os que se dizem “católicos”, e para obter seus fins, querem uma reforma total na Igreja, inclusive na Sagrada Escritura para que seja reescrita, para dela tirar o caráter “machista”, atribuindo a Deus um gênero neutro. 

Entretanto, a maioria desses movimentos se baseiam na doutrina marxista da “luta de classes”, trocando-a pela de gênero, e defendem postulados abortistas, contra a vida, contra a família e defendendo a ideologia de gênero. 

Recentemente um grupo de feministas alemãs que se dizem católicas, nas vésperas da assembleia plenária da Conferência Episcopal alemã que começou no dia 23 de fevereiro, fixaram nas portas de inúmeras catedrais e igrejas do país um cartaz com “7 Teses por uma Igreja viva”

Afirmam elas que, “com a afixação destas teses em toda a Alemanha, queremos chamar a atenção para situações insuportáveis no seio da Igreja Católica, e reforçar as nossas exigências de reformas para uma Igreja de futuro, irmã e plural”

É sintomático que mulheres que se dizem católicas, para manifestar seu desagrado com a Igreja, se inspiram no heresiarca Martinho Lutero, que em 1517 teria afixado suas 95 teses na porta da igreja do Castelo de Wittenberg, o que foi considerado o início de seu rompimento com a verdadeira Igreja.

O que pedem concretamente essas feministas? Nada de novo na lógica feminista: Uma atitude de valorização em relação à sexualidade autodeterminada — quer dizer, não a do sexo biológico, mas a que a pessoa afirma ter —, com a introdução da teoria de gênero em “uma Igreja com justiça de gênero, na qual todas as pessoas tenham acesso a todos os cargos” — quer dizer, com o sacerdócio feminino, “bispas”, “sacerdotisas” etc. — e pedem também, pasmem, o fim do celibato eclesiástico para os sacerdotes! 

Por que essas feministas se importam em que um homem se entregue, livre e voluntariamente, ao serviço de Deus pelo celibato? Porque esse também é um dos pontos da agenda revolucionária que defendem. Mais ainda: Elas exigem que o episcopado alemão comece faça reformas nas normas da Igreja Católica. Ora, o episcopado alemão já é a ponta de lança da revolução na Igreja. Mas elas acham que os bispos estão caminhando lento demais! 

É natural que haja reações da parte sã da população, sobretudo da católica. Foi o que sucedeu, por exemplo, na França, onde um grupo de mulheres publicou um manifesto “Sobre a vocação do feminino”, no qual contesta muitas das teses feministas mais radicais. Esse manifesto já recebeu a adesão de mais de 500 mulheres entre donas de casa, engenheiras, professoras, estudantes etc. 

No subtítulo do manifesto, está: “Por ocasião da publicação do ‘Motu Proprio Spiritus Domini’, nós, mulheres católicas, desejamos que a beleza da nossa vocação específica seja reconhecida e amada”. Ora, esse motu proprio do Papa Francisco é exatamente visto por muitos como um perigoso caminho que pode chegar até a ordenação sacerdotal de mulheres. 

Entretanto, dizem as signatárias do documento: “A questão da presença da mulher no santuário, e a obstinação de alguns pelo casamento dos padres ou pelo sacerdócio da mulher são, para nós, os sintomas de uma grave crise litúrgica enraizada numa crise antropológica ainda mais profunda na complementaridade do homem e mulher. Todo católico, seja qual for seu estado de vida ou sua orientação litúrgica, deveria se preocupar com essa atitude, que gera profundo mal-estar. É no momento em que percebemos o perigo do clericalismo que, paradoxalmente, esquecemos que as mulheres são divinamente excluídas da hierarquia eclesial para o bem de toda a Igreja. Nunca, até hoje, a vocação feminina foi representada em tamanha caricatura, tão empobrecida”


Para mostrar que, em toda época, houve mulheres de relevo que tiveram um papel histórico em seu tempo, citam Judite e Ester, que foram decisivas para libertar seu povo. Mas sobretudo recordam o mistério da Encarnação, no qual “Deus nos dá seu próprio Filho através da Virgem Maria” e, nela “o Amor de Deus encontra sua morada irrevogável”. 

“Mulheres católicas”, continuam, “conscientes de nosso privilégio mariano, optamos por colocar nossas energias e talentos a serviço da efetiva complementaridade entre homem e mulher. Consideramos que a nossa vocação específica não é espelho da do homem, e que não precisa ser enobrecida pelo serviço do altar. Do mesmo modo que o homem contrai uma dívida vis-à-vis da maternidade espiritual, exprimimos nossa gratidão para com o serviço masculino no altar”.

Por isso, “homem ou mulher, temos uma dívida com este sim feminino. Como resultado desta resposta, as mulheres no cristianismo têm sua própria liberdade de expressão e de ação. É justo recordar algumas figuras ilustres como Santa Catarina de Siena ou Santa Joana d’Arc, mas também reconhecer as discretas intervenções das mulheres inclusive em nossa vida pessoal”

As signatárias acrescentam que, “A tradição de deixar as mulheres longe do altar é muito antiga, dir-se-ia original”. Aqui as signatárias remetem para a citação de São Paulo na primeira carta aos coríntios, 14, 34-35, que diz: “Calem-se as mulheres nas assembleias, porque não compete a elas falar, senão viver sujeitas, como diz a Lei. Se quiserem aprender alguma coisa, perguntem em casa a seus maridos, porque não é decoroso para a mulher falar na igreja”

Continuam: Essa tradição: 

“1: está presente tanto no Oriente quanto no Ocidente”. [Aqui remetem para Can. 44 de la collection de Laodicée du IVe

2: “O Cristianismo, que sempre ensinou a igual dignidade do homem e da mulher, mantendo a exclusão das mulheres do sacerdócio ministerial, lembra a cada ser humano, homem ou mulher, que a medida da sua vocação é a união com Deus. Longe de diminuir a mulher, a Igreja, cuja hierarquia é masculina, apresenta-se assim como uma Noiva”.

Além do mais, “a mulher é [sobretudo] educadora. Queremos que nossos filhos encontrem marcos claros sobre suas vocações como homens e mulheres. As meninas não devem ser incentivadas a se envolver em um clima de lutas e demandas. Elas devem ser encorajadas a desenvolver e prestar contas de seus próprios talentos e carismas. Devem receber o fato de ser mulher, pelo que isso significa: uma graça notável!” 

Essas católicas segundo a Igreja, sabem que os pastores hoje em dia têm que ser muito firmes para rejeitar o “politicamente correto”, e pregar a verdadeira doutrina, doa a quem doer. Por isso concluem o documento afirmando: “Estamos conscientes de que nossos pastores, para serem fiéis ao chamado evangélico e à tradição bíblica e eclesial, têm que sofrer pressões e muito que sofrer. Asseguramos-lhes a nossa oração e o nosso afeto fraterno, para que seu celibato oferecido e unido ao Único Sacrifício, seja sempre mais fecundo”.

É salutar encontrar, em meio a esse caos e confusão que imperam na sociedade espiritual e na temporal, valentes vozes que se levantam em defesa da boa doutrina.