20 de abril de 2026

150 ANOS DE UMA TRADICIONAL DAMA PAULISTA

 

Dona Lucilia em Paris (1912) 

Nossas homenagens no sesquicentenário do nascimento de Da. Lucilia Ribeiro dos Santos Corrêa de Oliveira, extremosa mãe do idealizador e principal colaborador de Catolicismo, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira

Fonte: Revista Catolicismo, Nº 903, abril/2026

Nossos leitores bem conhecem Plinio Corrêa de Oliveira. Pouco conhecem, entretanto, a respeito de quem lhe deu a vida e o formou no amor de Deus, inculcando-lhe desde a mais tenra idade a devoção aos Sagrados Corações de Jesus e de Maria e o amor à Santa Igreja Católica Apostólica Romana, à qual ele dedicou toda a sua vida, lutando incansavelmente em sua defesa e da civilização cristã dela nascida e combatendo seus adversários.

Lucilia Ribeiro dos Santos Corrêa de Oliveira pertencia à tradicional linhagem dos paulistas denominados quatrocentões — provenientes dos fundadores ou dos primeiros povoadores da cidade de São Paulo, inclusive alguns bandeirantes. Dentre seus antepassados maternos, destacou-se, durante o reinado do Imperador D. Pedro II, o Prof. Gabriel José Rodrigues dos Santos (1816-1858), catedrático da renomada Faculdade de Direito de São Paulo, advogado, orador brilhante, deputado provincial e mais tarde nacional.

O Prof. Plinio sempre manifestou suma gratidão a Dona Lucilia pela formação religiosa, moral e psicológica que ela lhe imprimiu. De uma esmerada educação e modo de ser bem característico das famílias aristocráticas da São Paulo de outrora, ela possuía uma cordialidade exemplar no trato com as pessoas. Era também de uma piedade exemplar no trato com as coisas sagradas. Virtudes que tão bem transmitiu ao filho, como que por osmose permeadas de alma a alma.

Certa vez, ele comentou que sua devoção ao Sagrado Coração de Jesus remontava à mais tenra infância, e que — conta-se entre seus familiares —, antes mesmo de aprender a pronunciar as palavras mamãe e papai, ela lhe ensinara a apontar para a imagem do Sagrado Coração quando lhe perguntavam onde estava Jesus, e as primeiras palavras que dela aprendeu a pronunciar foram Jesus e Maria.

A devoção ao Sagrado Coração de Jesus marcou profundamente a vida de Dona Lucilia, que soube bem comunicá-la ao filho, como se verá no texto que segue — assim como na entrevista que reproduziremos proximamente —, mas muitos outros aspectos podem-se destacar em seu caráter e em sua alma. 

Assim, para homenageá-la neste mês em que recordamos os seus 150 anos, escolhemos para nossos leitores alguns comentários do Prof. Plinio que ressaltam primordiais aspectos dela.

 

Lucilia com 23 anos

Inflexibilidade, suavidade,

gentileza, coerência

         Durante um almoço, conversando com discípulos, todos membros da TFP, que se encontravam na fazenda Morro Alto de Nossa Senhora do Amparo (na cidade de Amparo, no interior paulista), em 12 de agosto de 1988, pediram ao Prof. Plinio que explanasse sobre os principais traços que mais admirava em sua mãe.

Não era de seu costume tomar a iniciativa de falar a respeito dela, mas o fazia quando insistiam para que tratasse do assunto. Foi o que se passou nesse almoço, cujo texto, extraído de fita magnética (K-7), reproduzimos a seguir. Apenas o transpomos para a linguagem escrita o que fora dito de modo informal numa conversa durante uma refeição.

*   *   *

“Constituía traço dominante da alma dela [Dona Lucilia] uma seriedade grave, mas paradoxalmente muito suave; uma pessoa muito certa e segura no julgar as coisas; um espírito muito ‘pão-pão, queijo-queijo’, pouco sujeito a dúvidas.

Ela podia hesitar no tocante a coisas pequenas e secundárias, mas nas grandes linhas gerais da vida, nas convicções, no modo de tocar os seus afazeres, ela não tinha um pingo de hesitação. Era feita de certezas — certezas calmas, lúcidas, de quem via logo à primeira vista e com muita nitidez o que era verdade e o que era o erro, o que era o bem e o que era o mal, o que era o feio e o que era bonito. Ela aderia inteiramente ao ‘Verum, Bonum, Pulchrum’ [Verdadeiro, Bom e Belo — três dos transcendentais do ser, como ensina a filosofia escolástica. O Verum aponta para a inteligência, o Bonum para a vontade, e o Pulchrum para a contemplação].

Uma alma com uma honestidade, com uma limpidez, que faziam uma espécie de um só com ela. Uma sinceridade que a levava a não querer senão o ‘Verum, Bonum, Pulchrum’. Aquilo que ela queria, queria mesmo, fortemente, e o que não fosse isso ela rejeitava. A aceitação era aceitação forte, a rejeição era a rejeição, a convicção era convicção, a negação era a negação e a inflexibilidade verdadeiramente inflexível, mas suave e gentil.

Família Ribeiro dos Santos, da esq. para dir.: Antônio (Toni), Gabriel, Dr. Antônio, Da. Gabriela, Eponina (Yayá), Lucilia e a pequena Brazilina (Zili). [Foto de 1899]


Acrescente-se a isso uma tendência de espírito a ver as coisas sempre pelo lado maravilhoso e pelo seu mais alto aspecto. Ela tinha um espírito muito elevado. Quando se conversava com ela sobre determinado tema, tendia logo a colocá-lo no mais alto, conforme seu feitio intelectual, como uma senhora e mãe de família.

Junto com esses aspectos, ela era uma pessoa que tinha ao mesmo tempo muita alegria de viver e muita tristeza acumulada. Ela tinha ideia de como deveria ser a vida, e tinha ideia de que a vida era um Vale de Lágrimas, e que, portanto, normalmente as pessoas deveriam passar pelo sofrimento.

Ela nasceu em Pirassununga [no dia 21 de abril de 1876], no interior de São Paulo, onde seu pai advogava no começo de sua carreira. Depois, ele mudou-se para a capital [em 1893], onde fundou um escritório de advocacia e prosperou.

Ela, já idosa, se referia a Pirassununga como se fosse o dia de ontem. Contava coisas de sua cidade natal com verdadeiro encanto, por exemplo, dos colibris da cidade. Falava que havia tantos que — numa sala da casa onde ficavam expostos dois óleo-gravuras representando buquês de diversas flores — eles se iludiam e batiam com o bico no vidro do quadro. Certa vez um deles bateu com tanto ímpeto que caiu no chão, e que uma tia molhou o bico do beija-flor para ele se recompor e voltar a voar. Mamãe contava isso, e um mundo de outros episódios, mas tudo com pormenores, vendo o alcance simbólico das coisas, como, no caso, a delicadeza e a beleza dos colibris.

Ela possuía um espírito elevado, mas capaz de descer aos últimos pormenores e se entreter com uma simples pétala de flor e outras coisas pequenas, mas também com recordações dela em Paris, na Alemanha, no Rio de Janeiro ou com episódios da sociedade.

Ela gostava também de contar muitos casos da vida quotidiana. Em todas as suas narrativas ela revelava a variedade de sua alma, considerando os aspectos simbólicos e morais com certo fundo religioso.

Lembro-me dela falando das festas de seu tempo. Por exemplo, de um baile que houve no palacete do Conde Álvares Penteado. Ela descrevia com pormenores a casa toda ornamentada; que sua mãe, Dona Gabriela Ribeiro dos Santos (1852-1934), uma senhora realmente muito bonita e de grande distinção, fora escolhida para dançar com o Conde.

Sobre todas as coisas mamãe gostava de comentar, desde o Conde até uma velha senhora de Pirassununga; da visita que tinha feito a Neuilly-sur-Seine até a visita à Princesa Isabel, mas tudo sob o ângulo de análises dos ambientes e costumes, marcando os comentários com o aroma de uma boa formação moral.

Na família se conversava muito sobre política, mas nisso ela não entrava, não tomava partido. Entretanto, quando eclodiu a I Guerra Mundial, ela não aceitou que a Alemanha invadisse a França. Quando foi atingida a Catedral de Reims, por um bombardeio alemão, ela tomou aquilo como se tivessem atingido a própria casa dela. Ela acordava cedo e ia ver nos jornais as notícias da guerra. Comentava com meu pai, pois eu, muito menino ainda, não entendia.

Imagem do Sagrado Coração
 que pertenceu a Dona Lucilia

Entretanto, mamãe melhor se manifestava ela mesma nos momentos em que estava rezando. Nesses momentos, eu tinha impressão de que todas as qualidades dela cresciam e se estabelecia uma espécie de vínculo entre o Sagrado Coração de Jesus e ela — mas sem visões nem milagres ou revelações. Era uma espécie de relacionamento por onde toda a bondade dela, todo seu modo de ser era em parte produto da tradição brasileira, mas era muito mais fruto da devoção dela ao Sagrado Coração, que lhe comunicava a bondade d’Ele, as qualidades d’Ele. Tudo isso se realizava de modo inefável, mas enchia a alma dela e estabelecia uma consonância entre ela e todas as coisas da Igreja.

Quando [em 1919] entrei no Colégio São Luís, dos padres jesuítas em São Paulo, compreendi perfeitamente, pelo natural desenvolvimento do espírito de todo menino, que mamãe podia significar algo muito alto na minha vida, mas que não era o paradigma de minha vida. Meu paradigma era a Santa Igreja Católica Apostólica Romana, como meus professores jesuítas ensinavam.

Naquele tempo, eles ensinavam muito bem, ao menos para o meu intelecto de criança. Falavam muito bem do Papa, da devoção que se deve ter a ele; promoviam a devoção a Nossa Senhora; impulsionava a Congregação Mariana; falavam e combatiam duramente os adversários da Igreja. Por exemplo, eles repugnavam o movimento de insurreição dos liberais italianos contra os Estados Pontifícios no século XIX, falavam mal da invasão de Roma, de Garibaldi etc. Ensinavam bem tudo isso — o que, desde cedo, me fazia ir compreendendo a Revolução que visava destruir a ordem cristã no mundo.

Naquela época de menino, eu via dois valores diferentes: primeiro a Igreja, fonte da verdade; depois a Revolução, da qual, em última análise, a ignomínia essencial era de se atirar contra a Igreja. Por outro lado, eu olhava minha mãe e, como criança, me perguntava: o que valia mais?

E a resposta que me veio ao espírito foi: essas coisas não se dissociam, pois tudo quanto há em mamãe ela recebeu da Igreja. E ainda me perguntava: nela, tudo é conforme a Igreja? Porque se algo nela não for conforme a Igreja, eu prefiro a Igreja a ela, porque a Igreja foi fundada por Deus. Quero muito bem à minha mãe, mas ela é uma criatura humana que pode errar como eu, como qualquer um. E eu a reexaminava ponto por ponto. Inclusive fazia perguntas a ela para saber o que pensava de certos temas. Ela passou comigo por um ‘Santo Ofício’, por uma inquisição. Eu fui o ‘inquisidor’ dela. ‘Inquisidor’ afetuoso, respeitoso, meticuloso, inflexível. Nem preciso dizer que ela passou nesse exame com nota 100...

A resposta a todas as perguntas — na cabeça de uma criança — era invariavelmente a seguinte: ‘Isso é bom porque é conforme à Igreja, e não porque é conforme a mamãe, senão enquanto ela representa — como uma boa mãe de família deve representar — a Igreja. Mas o bem é a Igreja!’.

Um exemplo: eu tinha um tio, irmão dela, que fazia parte do governo de São Paulo, era Secretário de Estado. Na época arrebentou uma Revolução e o governo começou a convocar os jovens para irem combater por essa Revolução.

Um dia, meu tio estava se despedindo dela em casa e ela foi acompanhá-lo até à porta, e fui junto. Quando chegou à porta da rua, ele — brincando, mas ela não percebendo que era uma brincadeira — disse que ela precisava ‘dispor de tudo para que o Plinio pegasse em armas e seguisse para o combate.’

Ela respondeu: ‘Não, não vai não! Meu filho não vai combater nessa Revolução!’. Ele fingiu-se de zangado: ‘Mas como não! É um dever da Pátria!’. Ela, com firmeza, disse: ‘Gabriel! Fique bem sabendo, o Plinio não vai entrar nesse negócio!’. Meu tio sabia que eu não iria, mas continuou a gracejar: ‘É, vocês são assim, hein? Mas se fosse para defender a religião iria!’ E ela retrucou imediatamente: ‘Aí naturalmente, Plinio seria o primeiro a ir…’

Fatos assim, muito coerentes, aconteceram durante toda a vida dela até o fim. O último eu não tive a alegria de assistir, por estar convalescente de uma grave crise de diabetes. Mas o médico, Dr. Duncan, me contou.

Ele estava amavelmente prestando assistência médica a ela e havia passado a noite em claro junto à sua cama. Pela manhã, ele mandou a empregada me avisar no meu quarto que mamãe estava com uma crise cardíaca fortíssima, e que estava prestes a falecer. Eu então me levantei e fui para o quarto dela.

Quando cheguei, ela tinha acabado de entregar sua alma a Deus, mas o Dr. Duncan me contou o último gesto dela. Que quando chegou o último instante, mamãe fez o Sinal da Cruz bem grande e imergiu na morte rumo à eternidade, mas com toda serenidade, decisão e força”.

*   *   * 

Era o amanhecer de 21 de abril de 1968. Naquele momento de dolorosa separação, o filho osculou sua querida mãe e disse entre lágrimas: “Mamãe me ensinou a amar Nosso Senhor Jesus Cristo, ensinou-me a amar a Santa Igreja Católica”. Haveria um obituário mais elogioso do que este?

No dia seguinte, essa tradicional dama paulista, da qual Plinio Corrêa de Oliveira se honrava de ter nascido, completaria 92 anos.

Numa carta a Júlio de Mesquita Neto — ex-diretor de um famoso jornal que ecoou ofensas caluniosas contra Dona Lucilia — o Prof. Plinio escreveu, em 15 de agosto de 1979, encerrando a missiva: “Beati mortui qui in domino moriuntur – bem-aventurados os mortos que morrem em paz com Deus. Da paz do Senhor onde se encontra, bem sei que minha querida mãe reza por mim. Segundo a ilimitada bondade de seu coração, sei que ela também está rezando pelo autor da ofensa. E pede que a este ninguém faça o mal feito a ela e a mim”.

A Dona Lucilia nosso preito de homenagem e agradecimento pelo varão que gerou e formou com caráter tão magnânimo e entregou como filho fidelíssimo da Santa Igreja Católica.

É de origem latina o nome Lucilia, cuja raiz é lux, lucis. Etimologicamente, significa luminosa ou iluminação, que pertence à luz, e está também associado a clareza e a pureza (Cfr. Oxford Dictionary of First Names, 2ª edição, 2006, p. 186).

Que desde o Céu, por tantos méritos de mãe autenticamente católica, ela ilumine ‘lucilianamente’ nossos caminhos, obtendo-nos dos Sagrados Corações de Jesus e Maria a graça de continuar no rumo do bom combate iluminado e empreendido por seu querido filho neste Vale de Lágrimas.

Da Redação de Catolicismo

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