18 de junho de 2026

A BUSCA PELA PERFEIÇÃO

A Sagrada Família – Bartolomé Esteban Murillo (1617–1682). Coleção Museu do Prado, Madri

Todo católico deve tender a Deus, portanto tender à perfeição em todas as coisas; levar ao mais alto grau as nobres qualidades humanas; buscar a santidade. 


  Plinio Corrêa de Oliveira 

Deus não é propriamente perfeito. Ele é a perfeição! É algo diferente de “ser perfeito”. Um homem que era perfeito, se deixa de sê-lo, continua sendo homem. No mundo está cheio de imperfeitos, enchendo cidades, montes e vales. 

Entretanto, no que concerne a Deus, não pode Ele ser imperfeito. Há uma impossibilidade suprema e divina de Ele ser imperfeito. Sua onipotência consiste em ser perfeitíssimo! 

No que concerne ao homem católico, como ele deve tender a Deus, deve procurar tender à perfeição em todas as coisas. Antes de tudo na vida espiritual, ele deve tender a ter um amor o mais possível perfeito em relação a Deus. 

Como isso é um ideal altíssimo, que normalmente não está ao alcance dos homens, é preciso pedir por meio de Nossa Senhora — que foi perfeitíssima, concebida sem pecado original, filha do Padre Eterno, Mãe do Verbo Encarnado, Esposa do Divino Espírito Santo, e, portanto, colocada numa altura incalculável e amada pela Santíssima Trindade com um amor que não temos possibilidade de calcular. 

Ela, entretanto, é uma mera criatura humana como somos nós. Mas poderá ter pena de nós, dando-nos o desejo da perfeição. Ou seja, desejando alcançar a santidade. 

Santo é aquele que obteve a perfeição na vida espiritual, e todos devemos desejar a santidade. Essa é nossa meta, nossa razão de ser. Tal desejo tem reflexo na nossa atitude querendo que todas as coisas sejam perfeitas. 



Perfeita ordenação na Santa Casa de Loreto 


Um exemplo. A mais simples das casas é aquela que a Sagrada Família teve na Terra Santa, e que os anjos, séculos depois, transportaram para Loreto, na Itália, onde hoje essa casa é venerada. 

Imaginem nessa casa, no centro de uma sala, uma mesinha com três bancozinhos para a Sagrada Família tomar refeições. No meio dela um vasinho e perto uma caixa para guardar coisas. Tudo simplicíssimo, mas não se pode imaginar que o vasinho estivesse colocado de modo errado na mesa e que a flor nele colocada estivesse posta sem arte. Os bancozinhos, feitos por São José, simples, mas com tanta distinção, arte e bom gosto, que seriam obras-primas. Também não se pode imaginar jogado pelo meio da sala uma sandália, ainda que fosse uma celestial sandália do Menino Jesus. Não é verdade que na Sagrada Casa de Loreto deveria reinar a mais perfeita ordem? 

Por que essa ordem perfeita? Por causa da tendência para a perfeição deles três — Nosso Senhor Jesus Cristo, Nossa Senhora e São José. Assim sendo, numa civilização onde todos fossem católicos, e, sobretudo, tendendo à santidade e execrando o vício, tudo deveria ser admirável, bem arranjado, fino, simpático. Mesmo entre pessoas pobres. Ninguém tem obrigação de ser rico, todo mundo tem obrigação de procurar ser perfeito! 

Isso deve levar a que um homem que deseje a perfeição, queira ser perfeito em todas as coisas. Se sua alma for perfeita, ele tem os gestos, a amabilidade, a cortesia, o modo de fazer, perfeitos também. No exemplo da Sagrada Família, não se pode imaginar os três comendo apoiados na mesa de modo vulgar, mas, sim, com modos perfeitamente celestiais. 

Nobreza e Santidade 


Retrato de Madame Clotilde de França
– Johann J. Heinsius (1740-1812).
Coleção Privada.

Também o homem deve procurar a perfeição de modo esplêndido. Tanto quanto a natureza humana permite, procurar levar as qualidades ao mais alto grau. Esse é um nobre.

É duro levar até ao mais alto grau as qualidades humanas. Em geral, isso é mais fácil quando a família toda é assim, quando se tem uma tradição de família que modela o homem. Por isso a nobreza é hereditária. 

Encerro com outro exemplo. Luís XVI, o Rei da França que foi decapitado na Revolução Francesa, teve uma irmã que é bem-aventurada. Os revolucionários não gostam que se lembre de alguém venerado nos altares que seja nobre. Ela é a bem-aventurada Clotilde de França, uma Princesa Real.* 

Essa senhora levava numa alma perfeita toda a distinção, toda a nobreza, toda a elegância de Versailles. É a perfeição! Era uma nobre santa. O ter boas maneiras e distinção facilita a aquisição da virtude. Sobretudo, ter virtude facilita a ter boas maneiras. 

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NOTA: 
* Marie Adelaide Clotilde Xavière de France (1759-1802), mais conhecida como Madame Clotilde, não deixou descendência. Seu esposo, o Rei Carlos Emanuel IV da Sardenha-Piemonte, após ser derrubado do trono em 1798 pelas tropas francesas do Diretório, passou por toda sorte de privações no exílio. A Princesa foi notável pela grande virtude e eminente piedade, muitos diziam dela, ainda em vida, que era uma santa. A exemplo de seus irmãos, sofreu as consequências nefastas da Revolução Francesa. Faleceu em Nápoles, onde está enterrada na Igreja de Santa Catarina a Chiaia. Pio VII, que a conheceu pessoalmente, declarou-a Venerável em 1808 e introduziu seu processo de beatificação. Em 11 de fevereiro de 1982, João Paulo II assinou o decreto proclamando a heroicidade de suas virtudes.

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Excertos de uma conversa com o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 17 de fevereiro de 1992. Esta transcrição não passou pela revisão do autor.

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