14 de fevereiro de 2026

VENEZUELA — Um país que foi próspero, comunistizado por Chávez e Maduro


A capital venezuelana sendo bombardeada

Chávez morreu e Maduro está preso. Mas o governo comuno-chavista continua dilapidando as riquezas, abolindo o direito de propriedade, deteriorando as instituições, oprimindo seu infeliz povo, desmantelando o que resta de civilização cristã. Até quando?

 

✅  Paulo Roberto Campos

 

Um acontecimento sem precedentes na América do Sul deixou pasmo o mundo inteiro: Na madrugada do dia 3 de janeiro, Nicolás Maduro e sua mulher Cilia Flores foram capturados ‘em pijamas’, dentro de seu próprio território. Houve por toda parte manifestações comemorativas.

Nicolás Maduro na chegada a Nova York, na sede da DEA (agência de combate às drogas), após sua captura em Caracas. 


O ditador venezuelano temia uma invasão americana, e passava seu tempo mudando de lugar, de um esconderijo a outro. Militares americanos, sem enfrentar grandes dificuldades, retiraram o casal de seu aposento tido como ‘inexpugnável’, dentro do próprio Fuerte Tiuna — o maior complexo militar do país, no sul de Caracas, com túneis e bunkers, abrigando também o ministério da defesa, comandos militares e paiol de armas.

O casal foi levado facilmente para os Estados Unidos, a fim de ser julgado por crimes de narcoterrorismo, tráfico de cocaína e porte de armas de guerra. Graves delitos, evidentemente, mas seu principal crime foi “cubanizar” a Venezuela, transformando um dos países mais ricos em um dos mais pobres.

A capital venezuelana sendo bombardeada

Supremacia americana

O governo americano havia oferecido várias saídas para Maduro, desde que renunciasse à presidência. Inicialmente o ditador impôs condições, mas inaceitáveis. Depois, não aceitou renunciar.

Donald Trump ordenou o ataque à Venezuela, com membros de elite da Força Delta do Exército americano. Segundo uma fonte do jornal The New York Times, serviços de inteligência da CIA, infiltrados no governo venezuelano, monitoravam a localização de Maduro e conheciam todos seus esconderijos, passos e hábitos.

A ação militar foi precisa. Em apenas duas horas, foram bombardeados lugares estratégicos, de onde eventualmente poderiam partir contra-ataques. Depois ocorreu, em apenas alguns minutos, a investida de captura, não encontrando resistência significativa. A operação foi executada com derramamento mínimo de sangue, sem nenhuma baixa entre militares americanos.

Chegada na capital cubana dos restos mortais dos agentes cubanos que faziam a guarda de Nicolás Maduro. Eles morreram durante a incursão dos EUA para capturar o caudilho venezuelano.

Surpreendidos, os militares venezuelanos e cubanos foram neutralizados. De nada valeram para a proteção de Maduro os ‘fortes’ esquemas montados por técnicos chineses e russos, com sofisticados radares e baterias antiaéreas destinadas a interceptar qualquer ataque; nem a proteção por 32 agentes comunistas cubanos, cujos cadáveres foram remetidos para Cuba no dia 15 de janeiro.

O esquema de defesa foi inútil, fracassado e vergonhoso. Uma humilhação, sobretudo para a Rússia e China, cujos sistemas de defesa demonstraram ser “gigantes com pés de barro”, quase nada em comparação com o poderio militar americano.

Como informou O Estado de S. Paulo (12-01-26), “os avançados sistemas de defesa aérea da Venezuela, fabricados pela Rússia, nem sequer estavam conectados ao radar quando os helicópteros americanos chegaram para capturar o ditador Nicolás Maduro. Segundo autoridades americanas, isso deixou o espaço aéreo venezuelano surpreendentemente desprotegido muito antes de o Pentágono lançar sua ação militar de captura”.

Por esses “avançados sistemas de defesa”, a República Bolivariana da Venezuela — como o país foi rebatizado por Hugo Chávez, quando assumiu o governo em 1999 — pagou em petróleo, só para a Rússia, 4 bilhões de dólares.

 

Maduro caiu, mas seu governo continua de pé

Há muitas incoerências nas atitudes do presidente Trump em relação à Venezuela. Só compreenderemos de modo claro a realidade quando proximamente virmos as consequências dessa ação. Não basta ter retirado Maduro do poder, se seu governo despótico continua. Sua captura deveria ser apenas um começo, para se proceder depois a uma mudança dentro do governo bolivariano.

Tudo permanecerá na mesma se, após tê-lo apeado à força e levado vivo para a prisão em Nova York, a situação política continuar, uma vez que todos os membros de seu governo são chavistas: ministros, militares, juízes, políticos encastoados nos mais altos cargos.

O jornalista Leonardo Coutinho, especialista em ameaças transnacionais, informou em artigo para a Gazeta do Povo (10-1-26): “A mineração ilegal, os negócios de armas com o Irã, a proteção de grupos guerrilheiros colombianos como o ELN e dissidentes das FARC e até mesmo a aproximação diplomática com o Hezbollah são fios de uma teia que conecta a elite governante da Venezuela a redes criminosas e terroristas transnacionais que independem de Nicolás Maduro.”

 


Tudo como dantes no quartel bolivariano?

Pairam ainda dúvidas sobre o panorama político venezuelano.

Tudo permanecerá na mesma se, por exemplo, continuarem com seus poderes de repressão quase absolutos a temida Força Armada Nacional Bolivariana e a Dirección General de Contrainteligencia Militar. Esse sistema foi criado ao longo de duas décadas com a ajuda cubana, e tem um ‘currículo’ recheado de violações aos direitos humanos, tortura, perseguição política e cruel repressão aos manifestantes contrários ao governo.

Tudo permanecerá na mesma, se dezenas de milhares de civis chavistas armados continuarem controlando casa por casa; e se os milhares de milicianos cubanos e os chamados “coletivos” (uma espécie de ‘polícia popular’ ou quadrilha de terroristas urbanos) continuarem a intimidar, torturar e executar cruelmente aqueles que se opõem à implantação da ditadura comunista do proletariado, batizada pelo coronel Hugo Chávez com denominação ‘tranquilizante’: Socialismo do Século XXI.

Tudo permanecerá na mesma, se o governo formado por Maduro continuar dando guarida ao narcotráfico; aos responsáveis pela astronômica corrupção de chavistas que aparelharam o Estado; e aos responsáveis pelo sucateamento do setor energético e petrolífero, atualmente enferrujado, caindo aos pedaços por falta de manutenção. Alguns especialistas afirmam que, em alguns casos, é melhor começar do zero do que reformar essa sucata. A própria indústria do petróleo, que era a riqueza principal do país, encontra-se quebrada devido à estatização socialista, e o que sobrou foi adquirido por russos e chineses.

Pelo contrário, tudo melhorará se uma sábia ação americana conseguir ‘descubanizar’ a outrora próspera nação, nascida com o nome de ‘pequena Veneza’ (Venezuela). Tudo melhorará se conseguir livrá-la da ingerência russa, chinesa, iraquiana e cubana. Seria assim possível salvar a o país das garras do comuno-chavismo, e seu povo estaria livre para escolher novos dirigentes e reerguer a Venezuela que jaz na miséria.

Se isso acontecer, poder-se-á aplaudir a ação americana, que de fato terá valido a pena. Mas se limitar-se à prisão de Maduro, permanecendo seus sequazes na cúpula do governo, Trump terá falhado. E será talvez uma das maiores falhas de seu governo.

 

Presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, junto com a cúpula “chavista” que continua à cabeça do governo após a prisão de Maduro [Foto: @Miraflores]

Governo Maduro sem Maduro

Sobre o curto período pós-Maduro, uma das incoerências na política do governo Trump é estabelecer relações com a atual presidente interina, Delcy Rodríguez Gómez, que era vice do ditador venezuelano. Se Maduro era presidente ilegítimo, logicamente a vice-presidente também o é, pois ambos foram eleitos fraudulentamente.

Inicialmente a Sra. Rodríguez condenou a invasão americana: “Não seremos uma colônia, nem escravos dos EUA”. Depois afirmou querer aliança com os EUA, a fim de colaborar trabalhando juntos. Soa isso muito estranho, pois ela sempre foi uma fanática comuno-chavista ‘anti-imperialista’. Seria essa uma aliança apenas para conseguir sobreviver no poder, juntamente com seus companheiros sequazes de Maduro? Ou convocará novas eleições, conforme exige a lei venezuelana? Serão também estas fraudadas?

Soa ainda mais estranho que Trump tenha manifestado desejo de se aliar a ela. Seria isto uma continuação do ‘chavismo’, sem Chávez e sem Maduro. Trump advertiu que, se a Sra. Rodríguez “não fizer a coisa certa, vai pagar um preço muito alto, provavelmente maior do que Maduro”. Mas depois elogiou-a como “uma pessoa formidável”. A marca política de Trump tem sido a imprevisibilidade, podendo-se aplicar a ele o que jocosamente dizia Nelson Rodrigues sobre as incertezas do Brasil: “Até o passado é imprevisível”...



Em carta de 12 de janeiro à Casa Branca, a prefeita de Miami-Dade, Daniella Levine Cava [foto], manifestou-se contrária à aliança Trump/Rodríguez, pedindo ao presidente americano que formalize imediatamente a liderança de Edmundo González Urrutia e
María Corina Machado, pois González comprovadamente obteve 67% dos votos nas eleições presidenciais de julho/2024, mas Maduro ‘decretou’ sua ‘vitória esmagadora’ sobre o adversário. E negou-se a apresentar as atas, como é sabido.1 Com o atendimento do pedido de Levine Cava, a legitimidade de ambos se reforçaria para governar a Venezuela.2

Como conseguirão governar, se todo o staff comuno-chavista permanece no poder? Um deles é Diosdado Cabello, o todo poderoso ministro do Interior e mentor de Maduro, uma das figuras mais dominantes do chavismo. Acusado de tráfico de drogas, ele era procurado pela justiça americana mediante a recompensa de 25 milhões dólares por informações que levassem à sua prisão. Isso é apenas um exemplo para se temer que o ‘madurismo’ continue, mesmo sem Maduro, se persistirem no comando autoridades desse naipe, assim como toda a nomenclatura militar.

Apesar da extrema pobreza, o país conta com 2.000 generais e almirantes, que dominam as grandes instituições e empresas. Esse número é mais que o dobro do quadro militar dos EUA. No Brasil, com população sete vezes maior que a da Venezuela, eles são 396.

No dia seguinte ao encontro de María Corina com Trump na Casa Branca, em 15 de janeiro (quando ela o presenteou com a medalha do recebida como Prêmio Nobel da Paz 2025), em Washington ela teceu fortes críticas à nova mandatária da Venezuela, acusando-a de comunista (o que é público e notório) e de manter laços com Moscou e Teerã (o que parece de toda evidência).

 


Divisão do mundo em três zonas de influência

O mandatário americano disse também que vai administrar a Venezuela: “Vamos liderar o país até que possamos garantir uma transição segura, adequada e sensata.” Como isso se fará? Com envio de tropas? Ou fazendo alianças com o próprio governo comuno-bolivariano? Alguns analistas internacionais insinuam que, já antes da operação que capturou o caudilho marxista, membros do governo venezuelano, entre eles a Sra. Rodríguez, já estavam em conversações com membros do governo americano. O que eles tramaram?

Caracas nega tal diálogo. Mas, caso ele se confirme, revelaria uma nova estratégia de intervenção no estilo trumpismo. Estilo bem diverso da intervenção feita no Iraque, em 2003, no governo de George W. Bush. Ou seja, intervenção sem derrubar um governo, mas aliando-se com ele, sem se importar com a sua ideologia.

Dois dias após a captura de Maduro, o Departamento de Estado dos EUA publicou no X (antigo Twitter) a seguinte mensagem: “Este é o NOSSO hemisfério, e o Presidente Trump não permitirá que nossa segurança seja ameaçada.” A fim de manter a hegemonia regional, os EUA pretendem impedir a influência geopolítica de potências externas no bloco constituído pelas três Américas.

Vamos aguardar e observar os acontecimentos, pois ainda é cedo para se concluir algo preciso. Mas pode-se levantar outra pergunta importante, tendo em vista uma futura conclusão: Concordarão a Rússia e a China em os EUA fiquem se ocupando com a ‘administração da Venezuela’ e de outras nações do Hemisfério Ocidental, para que estas sejam ‘quintais dos EUA’? Enquanto isso, os russos e chineses vão se ocupar de outras partes do mundo.

Seria um ressurgimento da velha “Doutrina Monroe”. O republicano James Monroe (1758-1831), duas vezes presidente dos EUA, implementou essa política (que se pode resumir no lema “A América para os americanos”) para aumentar a influência americana nas Américas em detrimento da influência na Europa.

Nessa nova “Doutrina Monroe”, que está sendo divulgada como um “Trump Corollary” (Corolário Trump), os EUA marcariam fortemente sua presença nas Américas, ficando out (fora do seu ‘quintal’) todos os demais países, sobretudo Rússia e China. Atualmente é bem forte a presença chinesa, devido aos seus empreendimentos não só na Venezuela, mas também no Brasil e países vizinhos.

Com tal projeto estratégico, os EUA se despreocupariam da Europa e do resto do mundo, deixando os russos e os chineses livres para continuarem seus intentos de conquista de outros ‘quintais’. Estariam ‘costurando’ tal projeto para que não se intrometa um no ‘quintal’ do outro? Assim, Putin, o novo ‘czar’ da Rússia, poderia livremente continuar sua tentativa de tomar a Ucrânia, em seguida outros territórios que eram dominados pela antiga URSS. Quanto a Xi Jinping, uma espécie de novo Imperador da China comunista, estaria livre para empreender a conquista de Taiwan, e depois outras nações asiáticas.

Soa como combinação maquiavélica uma divisão do mundo em três zonas de influência: uma com os EUA, outra com a Rússia e outra com a China. Terão os três mandatários dessas nações combinado dividir assim o mundo? Desejam eles estabelecer um triunvirato global ditando os rumos da política internacional? Fiquemos muito atentos a essa hipotética manobra revolucionária.


Confirmando tal hipótese, e r
eafirmando a nova “Doutrina Monroe”, o governo americano publicou em dezembro último um documento oficial de 33 páginas, intitulado National Security Strategy (Estratégia Nacional de Segurança), disponível integralmente no site da Casa Branca (link abaixo)3, no qual afirma taxativamente: “Após anos de negligência, os Estados Unidos irão reafirmar e aplicar a Doutrina Monroe para restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental e para proteger nossa pátria e nosso acesso a localidades geograficamente estratégicas em toda a região.”

 

Encontro entre Maduro e Lula no Palácio do Planalto (Ricardo Stuckert/PR)

Qual a posição do Brasil?

Envergonhando o Brasil, e negando todas as evidências de que o povo venezuelano vive oprimido por uma ditadura, em 2023 Lula da Silva estendeu tapete vermelho para Maduro, recebendo-o em Brasília com todas as pompas, como se fosse um legítimo presidente de República.

No caso atual, Lula condenou a intervenção norte-americana como sendo uma interferência num “país soberano”. Ele, que sempre apoiou a ditadura chavista e trata Maduro como “companheiro”, disse que “os bombardeios em território venezuelano e a captura de seu presidente ultrapassam uma linha inaceitável”.4 No entanto, não condenou as referidas ingerências comunistas russa, chinesa, iraniana e cubana. A julgar por suas próprias palavras, a Venezuela não pode ser tutelada pelos EUA, mas pode sê-lo pela China, Rússia, Irã e Cuba.

O que era negado por Caracas e Havana, o próprio ditador cubano, Miguel Díaz-Canel — vendo a ilha castrista no “apagão”, e agora percebendo que ela está ficando até sem o petróleo venezuelano —, acabou admitindo a interferência do regime de Cuba na Venezuela, com a atuação de agentes comunistas, afirmando que em Caracas “perderam a vida em ações combativas 32 cubanos, que cumpriam missões de representação das Forças Armadas Revolucionárias e do Ministério do Interior”.5

Como vimos, de há muito a Venezuela não é mais um “país soberano”, ao contrário do que alegou Lula. Além da interferência da China, Rússia, Irã e Cuba, encontra-se invadido internamente pelas gangues chavistas que controlam tudo em todas as cidades, quarteirão por quarteirão.

Em artigo assinado por Luiz Inácio Lula da Silva no The New York Times, em 18-1-26, ele voltou a fazer algumas críticas à operação que capturou Maduro. Entretanto, percebendo que Trump estava mantendo diálogo com o governo chavista, atenuou um pouco seu discurso. Mas fingiu desconhecer que o povo venezuelano não é livre: “O futuro da Venezuela deve permanecer nas mãos do seu próprio povo”.6

O povo venezuelano não pode sequer se manifestar. Quem for visto, por exemplo, comemorando a prisão de Maduro, poderá ser denunciado e encarcerado, como se tivesse cometido um ato terrorista contra o Estado. Não é sem razão que, numa população de 28 milhões habitantes, mais de 8 milhões se exilaram contra a própria vontade, para fugir da repressão, do desemprego, do desabastecimento, da miséria e da fome. A maioria desses milhões de desditosos conheceu — como também conheci, quando vivi em Caracas — a impressionante prosperidade ‘saudita’ do país antes da tomada do poder pelo déspota Hugo Chávez, em 1999. A Venezuela produzia então, segundo fontes da OPEP, 3 milhões de barris de petróleo/dia. Atualmente, devido à falta de investimento e deterioração de suas estruturas, a média não chega a um milhão barris/dia.

Jovens da TFP venezuelana em campanha pública em Caracas


Tirania socialista da Venezuela perseguiu a TFP

Vem de longe essa tragédia que comunistizou a Venezuela. Em 1984, ascendeu ao governo o presidente esquerdista Jaime Lusinchi, cujas medidas socialo-comunistas prepararam a situação política para a tomada do poder por Hugo Chávez em 1999.

No ano em que Lusinchi se tornou presidente, a Asociación Civil Resistencia — entidade venezuelana coirmã das TFPs (Tradição, Família e Propriedade) — sofreu um espantoso ‘estrondo publicitário’, que bombardeava diariamente, de modo torrencial, por meio da mídia impressa e falada, as mais injuriantes e inverossímeis suspeitas e delirantes difamações. Todas elas eram refutadas em manifestos publicados por Resistencia. Os difamadores não replicavam. Pelo contrário voltavam a repetir as mesmas calúnias, sem apresentarem uma prova sequer.


Apesar de inverídicas as calúnias, elas serviram como pretexto para o governo socialista de Lusinchi fechar Resistencia, por meio de um tirânico decreto do Poder Executivo datado de 13-11-1984. Esse decreto foi lido em rede de televisão pelo ministro da Justiça, José Manzo González, que em março de 1988 foi obrigado a renunciar devido ao seu envolvimento com o tráfico de drogas. Decreto ilegal e sem fundamento jurídico, entretanto muito aplaudido por líderes e órgãos comunistas, como o Izvestia (edição de 20-11-1984) [foto ao lado], órgão oficial do governo da URSS, e a revista cubana Bohemia (de 7-12-1984), vinculada ao Comitê Central do Partido Comunista de Cuba.

         Devido ao fechamento da entidade coirmã da TFP, seus membros foram obrigados a deixar a Venezuela, a fim de não serem perseguidos e presos por ordem do governo socialista. Em 15-5-1986, o Judiciário emitiu sentença definitiva exarando como carentes de fundamento as acusações assacadas contra a TFP (vide no final deste artigo) comunicado que Catolicismo publicou em sua edição de dezembro de 1984).

         Encerrando esta parte do artigo, levanta-se uma pergunta: se as atividades anticomunistas da TFP na Venezuela não tivessem sido proibidas, e assim silenciada sua voz, teria o país sido tomado por líderes marxistas, que o arruinaram tão profundamente como estamos vendo hoje? Muitos afirmaram que, para se implantar ali um regime comunista, antes seria preciso ‘cancelar’ a TFP.

         A atual presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez (apelidada la czarina, devido ao seu imenso poder), manifestou-se contra a TFP, apesar de a entidade estar ausente do país desde seu injusto fechamento em 1984. Falando na Assembleia Nacional Venezuelana em 3 de abril de 2024, contra aqueles que ela considera “fascistas” — e que criticam o governo Maduro —, atacou sem nenhum fundamento a TFP da Venezuela: “Havia [referindo-se a 1984] a chamada seita Tradição, Família e Propriedade (TFP), composta por jovens membros de famílias anticomunistas ricas da Venezuela, de ascendência e sobrenomes, onde era realizado treinamento paramilitar, e que foi finalmente proibida pelo então presidente da República Luis Herrera Campíns”(sic).7

         Ela se enganou no que diz respeito à TFP, como também quanto ao presidente da República na época. Em novembro de 1984, quando a TFP na Venezuela foi proibida, o presidente não era Luis Herrera Campíns, mas sim o socialista Jaime Lusinchi.

A Sra. Rodríguez repetiu o mesmo que anos atrás também disseram contra a TFP os ditadores Hugo Chávez e Nicolás Maduro. Não vou reproduzi-las aqui, mas os que desejarem conhecer melhor esse ‘estrondo publicitário’ podem vê-lo nos links abaixo.8 e 9

La Virgen de Coromoto, la Reina y Patrona de Venezuela [Foto PRC]


Queira Nossa Senhora de Coromoto — que no terceiro centenário de sua aparição (celebrado em 1952) foi coroada Rainha e Padroeira da Venezuela — interceder pelos seus sofridos filhos venezuelanos, dando-lhes forças para resistir à narco-ditadura marxista, agora com nova face. Que o povo venezuelano consiga reconstruir a nação, salvando-a do regime de terror iniciado por Lusinchi, agravado por Chávez e Maduro. E que Ela também nos ajude a resistir aos “erros do comunismo espalhados pelo mundo”, a fim de a desgraça que arruinou a Venezuela não venha a se repetir no Brasil.

 

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Notas:

1.        https://catolicismo.com.br/acervo/num/0885/P01.html

2.        https://www.diariolasamericas.com/florida/levine-cava-insta-trump-oficializar-liderazgo-gonzalez-y-machado-y-reactivar-el-tps-venezolanos-n5388680

3.        https://whitehouse.gov/wp-content/uploads/2025/12/2025-National-Security-Strategy.pdf?utm_source=chatgpt.com

4.        https://www.reuters.com/business/aerospace-defense/brazil-says-us-crossed-unacceptable-line-over-military-strikes-venezuela-2026-01-03/

5.        https://veja.abril.com.br/coluna/mundialista/o-que-faziam-32-segurancas-cubanos-no-circulo-mais-intimo-de-maduro/

6.        https://g1.globo.com/economia/noticia/2026/01/18/lula-artigo-eua-venezuela-nyt.ghtml

7.        https://diariolajornada.com/?p=148335

8.        https://catolicismo.com.br/acervo/num/0408/P06-07.html

9.        https://www.pliniocorreadeoliveira.info/venezuela-coleccion-de-documentos-para-la-historia-en-espanol-y-en-portugues/#gsc.tab=0

 

Reprodução de fotos de jornais e reportagens de televisão da perseguição contra a Associação Civil Resistência na Venezuela. Nas duas últimas fotos, registra-se a invasão da sede pela turbamulta de agitadores esquerdistas


EM 1984, O FECHAMENTO DA ENTIDADE VENEZUELANA COIRMÃ DAS TFPs

Perseguição ideológico-religiosa na Venezuela.
Nuvem negra baixa sobre o país irmão

Fonte: Catolicismo, Nº 408, dezembro/1984

 

A DIREÇÃO nacional da Ação Democrática (AD) (partido governamental filiado à Internacional Socialista) deliberou ontem, por unanimidade, pedir ao Presidente da República da Venezuela que cancele o funcionamento da "Associação Civil Resistência".

Esta última é uma entidade conhecida em todo o país, pois há vários anos vem prestando, dentro da ordem e da lei, os mais insignes serviços para a preservação daquela nação contra o socialismo e o comunismo, por meio do estímulo aos valores da tradição, família e propriedade.

Com essa atitude, a AD tenta arrancar o caso da decisão do Judiciário e pôr ponto final arbitrariamente a uma longa perseguição ideológico-religiosa cujos numerosos lances abaixo se descreverão sumariamente.

Está, assim, prestes a baixar uma negra nuvem de tirania e de perseguição sobre a nação irmã, cujas liberdades começam a ser calcadas aos pés por motivos iniludivelmente ideológicos.

* * *

Com efeito, a partir de 6 de outubro [de 1984], uma torrencial campanha publicitária começou a se desenvolver simultaneamente contra "Resistência" pelas colunas de todos os jornais caraquenhos. Distorções, difamações, calúnias que procuravam envolver, com "Resistência", o conjunto das organizações TFP [Tradição, Família e Propriedade], passaram a ser veiculadas pela imprensa e pelas TVs. E com os mesmos modos sofisticados de certa propaganda difamatória moderna: imputações berrantes e todas elas carentes de provas, repetidas em meio a uma zoeira incessante, hipervalorização dos fatos insignificantes.

Se necessário, de tudo isto será informada mais pormenorizadamente, e em tempo oportuno, a nação brasileira.

Desta orquestração publicitária ensurdecedora se retirou logo de início o maior e mais conceituado quotidiano venezuelano, "El Universal", o qual vem mantendo atitude exemplar, imparcial no assunto.

Qual a origem dessa ação publicitária, em cuja dianteira figuram fogosamente, desde o início, os órgãos de informação das principais correntes socialistas, e o boletim oficial do PC do país?

A pergunta, que um número cada vez maior de venezuelanos vinha se pondo, começou a encontrar resposta quando, no dia 15 de outubro, os deputados José Antonio Martínez, do Movimento Eleitoral do Povo (socialista), e Henrique Ochoa Antich, do Movimento para o Socialismo, pediram que a Comissão de Política Interior da Câmara dos Deputados apurasse a realidade das versões veiculadas contra "Resistência" pela imprensa e pela televisão.

Certa de sua inteira inocência, a entidade assim visada declarou pela imprensa, logo depois de aprovada a investigação pela Comissão da Câmara, que colaboraria de bom grado com esta para a apuração da verdade.

Mas, logo desde a primeira — e até aqui única — reunião da referida comissão, ficou claro que "Resistência" não estava diante de um órgão voltado a investigar, mas sim a perseguir.

Com efeito, o deputado socialista David Moralles Bello, presidente da Comissão, abriu os trabalhos dela com a leitura de um violento libelo de acusação contra "Resistência". Os demais componentes da mesa da Comissão eram absolutamente solidários com a atitude do Sr. Moralles Bello. E quando o Sr. José Rodríguez Iturbe, deputado democrata-cristão, se levantou para pedir que fosse examinado antes de tudo se havia provas dos fatos alegados contra "Resistência", e quais deles eram ilegais, esta proposta proba e de bom senso elementar foi acolhida agressivamente pela mesa, do que se originou até um incidente.

Justamente receosa dos resultados a que pudesse chegar uma Comissão de Inquérito desse naipe, "Resistência" se valeu de um recurso que o Processo Penal do país lhe faculta. Isto é, "Resistência" requereu ao Poder Judiciário que abrisse uma completa investigação sobre suas atividades. Assim, um poder apolítico e imparcial, por definição, iria julgar das provas — ainda não mencionadas por ninguém — e da pretensa ilegalidade das ações de "Resistência". Mais límpida, mais honesta, mais pacífica a ação da entidade não poderia ser.

Pelo contrário, mais agressiva e mais arbitrária não poderia ser a atitude do socialismo reinante na Venezuela. É o momento de dizer uma palavra sobre este.

*

As eleições de dezembro de 1983 deram a maioria à Ação Democrática (AD), partido filiado à Internacional Socialista. Esta última tem, aliás, em Caracas, uma sede ativa.

Em consequência do voto socialista majoritário, a representação parlamentar da AD — acrescida de pequenas bancadas de outras correntes socialistas e de representantes do PC — ficou com a maioria no Legislativo. Foi eleito também o candidato da AD à presidência da República, Sr. Jaime Lusinchi. E o seu ministério também pertence à AD. A esquerda socialista domina o país. Não espanta, pois, que, mesmo antes de instalada a investigação parlamentar, já os ministros do Interior e da Justiça tivessem feito declarações (aliás espantosamente inconsistentes do ponto de vista legal) contra "Resistência".

Igualmente não espanta que, também anteriormente à investigação parlamentar, houvesse sido aberta, por iniciativa do Ministério Público, uma ação penal contra "Resistência" por acusações rocambolescas, como sequestro, lavagem cerebral, uso de drogas etc.

Esta ação, comportando longos interrogatórios de estilo nazicomunista, que constituíam clara tortura moral, evidentemente não deu em nada.

No dia 12 do corrente [novembro de 1984], a "Fiscalía", ou seja, o Ministério Público, iniciou, pois, outra ação análoga.

Como acaba de ser dito, havia duas ações judiciais em curso, uma de iniciativa de "Resistência" e outra do Ministério Público, quando, na manhã de hoje, os jornais caraquenhos deram uma notícia espantosa. Com o efeito evidente de arrancar a matéria ao Poder Judiciário, a direção nacional da Ação Democrática majoritária e socialista, reunida no dia 12 do corrente, deliberou por unanimidade de votos pedir ao Sr. Presidente da República que decretasse a "proscrição" de "Resistência". Medida que acarretaria o fechamento da sua sede, o sequestro de todos os bens que ali se encontrassem, e a dispersão da entidade.

É digno de nota que o pedido procedente dos arraiais políticos socialistas não consta que tenha sido apoiado por uma só entidade política com expressão na sociedade venezuelana. Com exceção de três sacerdotes aggiornati e de um grupo cerrado de 5 ou 6 casais com filhos maiores de idade inscritos em "Resistência". Este grupo, uma minoria de dez por cento do total dos pais com filhos na entidade, desde o começo agiu em exata sincronia com os líderes socialistas. E, ideologicamente opostos a "Resistência", faziam a esta críticas sem consistência jurídica nem científica do bem conhecido gênero "lavagem cerebral", "seita" etc.

Segundo as TVs e rádios estão anunciando com insistência na Capital venezuelana, de um momento para outro o chefe de Estado poderia tomar essa medida. E à margem do Judiciário.

Considerada em seu conjunto esta dramática sucessão de fatos, importa notar um aspecto, quer do estrondo [publicitário], quer dos debates da Comissão de Investigação. E o realce ímpar dado pelos adversários de "Resistência" às acusações de caráter religioso levantadas contra a entidade. Antes de tudo, esta imputação tipicamente novelesca: que membros da mais alta aristocracia europeia, entre os quais o príncipe alemão de Thurnund Taxis, o arquiduque Otto de Habsburgo e os príncipes da Casa de Bragança (ramo português e ramo brasileiro) haviam maquinado as tentativas de assassinato contra João Paulo II na Praça de São Pedro e em Fátima. "Resistência" era apontada como longa manus dessas personalidades, e tramava um atentado sacrílego contra João Paulo lI, proximamente em visita à Venezuela!

Ademais, "Resistência" era fortemente interrogada sobre sua posição perante o Concílio Vaticano II, as reformas litúrgicas estabelecidas por este, o movimento renovatório da Igreja pós-conciliar. Era evidente o propósito de perseguir com tudo isto elementos tradicionais da Igreja, dando, entretanto, livre curso aos elementos progressistas.

Ora, num Estado separado da Igreja, como o é o da Venezuela, tais perguntas extrapolam evidentemente do quadro legal, e conferem a toda esta perseguição contra "Resistência" o caráter de uma perseguição que, além de nitidamente ideológica (socialismo versus antissocialismo), é também religiosa.

No momento em que esta nota é redigida, o que se sabe pela imprensa é que a direção da AD foi, incorporada, ao chefe de Estado para pedir-lhe que consume a tenebrosa ação persecutória, silenciando o judiciário, e chamando a si a imolação arbitrária de "Resistência".

*

Diante deste fato, a TFP brasileira não vê meios senão denunciar que a tirania socialista vai baixando sobre a Venezuela como uma densa nuvem escura. Um ato persecutório atrai sempre outros: "Um abismo clama por outro abismo", diz a Escritura (Ps. 41, 8).

À maneira de seu malogrado e querido amigo Salvador Allende, é de temer que o Sr. Jaime Lusinchi aceda às instâncias do partido que o elegeu, e que seja levado pelo curso dos fatos a fazer cessar outras e depois mais outras oposições.

A experiência socialista mostra que, na América do Sul, ela é inseparável de um clima de suspeitas, de intolerância e de perseguição.



Protestando ante Deus e ante Nossa Senhora de Guadalupe, Patrona das três Américas, contra esta perseguição ideológico-religiosa de que "Resistência" está sendo objeto, a TFP brasileira alerta para tal a consciência de quantos costumam erguer-se indignados, sempre que consideram ter sido violado um direito humano em pessoas de esquerda. Homens os há, tanto na esquerda, quanto no centro ou na direita. É de esperar que a tutela dos direitos humanos não lhes seja menos cara quando são perseguidos os que são de direita, como os beneméritos jovens de "Resistência".

São Paulo, 13 de novembro de 1984

Paulo Corrêa de Brito Filho

Diretor de Imprensa da TFP

11 de fevereiro de 2026

CHOQUE DE CULTURAS


✅  Plinio Corrêa de Oliveira

A respeito de se realizar de fato uma “União Europeia”, o problema não é principalmente econômico. É fundamentalmente cultural. Isto devido à harmonia ou choque de culturas e de psicologias. 

Poderíamos falar dos vinhos, que países europeus os produzem de primeiríssima qualidade, ou dos sabonetes. 

Objetar-me-ão: “Mas que questões frívolas!” — Eu responderia: É próprio de uma grande civilização levar a um alto requinte coisas frívolas. A frivolidade de alta classe é um dos índices da substância de uma civilização. 

Em quase todos os países europeus se produzem sabonetes esmerados, mas o caráter do sabonete primoroso varia de acordo com o temperamento e a psicologia do povo que o fabrica. O produto de um determinado país é reputado o melhor porque tem certa mentalidade típica dele, outro país tendo uma mentalidade diferente pode não gostar. 

Vamos exemplificar com os deliciosos bombons europeus. Certa vez, assisti a uma discussão entre duas pessoas: uma se deliciava preferencialmente com os chocolates ingleses e holandeses (de variedade amarga), enquanto a outra gostava mais dos suíços e italianos. Os chocolates suíços eram mais doces, digamos mais bem humorados e tranquilos. Os chocolates ingleses têm seu indiscutível sabor, são excelentes, mas não têm aquela bonomia do chocolate suíço e aquele movimentado e aliciante dos chocolates italianos.

Assim, poderíamos multiplicar os exemplos para cada nação. Mas, no fundo, eu percebi que as pessoas, quando discutem a respeito, estão discutindo mais é uma questão filosófica, como que escondida por trás dos chocolates. Com isso, percebi que se discute mais sobre qual a visão que se deve ter da vida. 


Como estas questões não são discutidas em profundidade, a questão da unificação europeia vai por um ziguezague que não se sabe até onde chegará. 
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Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 22 de julho de 1990. Esta transcrição não passou pela revisão do autor.

7 de fevereiro de 2026

Prisão de Maduro e a Venezuela cubanizada, continua esmagada pela Revolução Bolivariana

Nicolás Maduro no meio de militares e milicianos da Fuerza Armada Nacional Bolivariana. Essa instituição militar tem como missão oficial a de constituir um corpo "essencialmente patriótico popular e anti-imperialista" para defender a independência e a soberania nacionais sob a doutrina militar da Revolução Bolivariana, como concebida por Hugo Chávez. Contando com a cooperação técnico-militar de Cuba, é um dos maiores e mais bem armados exércitos do continente, com aproximadamente 140 mil militares ativos e uma estimativa de 200 mil milicianos (Foto: RS via Fotos Públicas).


Fonte: Editorial da Revista Catolicismo, Nº 901, Fevereiro/2026

Quando Hugo Chávez morreu em 2013, depois de ter passado longo período em Cuba tratando de um câncer, a Venezuela continuou chavista. Substituiu-o Nicolás Maduro, sequaz tão incondicional do déspota, que chegou a blasfemar dizendo que Chávez era “o Cristo redentor da América”. 

Agora a nação vizinha ficou livre também de Maduro, preso no início do ano e levado para Nova York, a fim de ser julgado por seus crimes. Caiu o ditador, mas não o governo comunista. Este permanece de pé, tendo a radical vice-presidente Delcy Rodríguez Gómez assumido interinamente a presidência. 

Ademais, continua no governo a mesma ‘nomenclatura’ chavista, gozando de todas as regalias, com seus salários exorbitantes; continua o mesmo Judiciário, controlado por juízes escolhidos por Maduro. As expropriações e estatizações das grandes empresas permanecem inalteradas; o mesmo acontece com o narcoterrorismo e a corrupção, bem como com o Conselho Nacional Eleitoral (órgão totalmente subjugado pelo governo), que garantirá ‘vitória’ eleitoral só de candidato chavista e a perpetuação da narcoditadura bolivariana. 

Continuam os mesmos órgãos sanguinários de repressão, aterrorizando o sofrido povo, sem condições sequer de protestar. Um só exemplo: o governo ordenou a todos os chavistas espionar e denunciar qualquer um — vizinho, colega de trabalho, de faculdade, na rua, no ônibus, em qualquer lugar — que comemore a prisão de Maduro. O acusado poderá ser condenado, encarcerado como se tivesse praticado algum ato terrorista contra o Estado.

A imensa maioria dos venezuelanos continua oprimida, na miséria quase extrema, não encontrando nos hospitais sequer suprimentos básicos, e nos mercados o necessário para uma vida digna. 

Estas questões são desenvolvidas na matéria de capa da edição deste mês da revista Catolicismo [foto acima], que analisa também as incoerências do governo Trump, as ambições de Xi Jinping e Putin, e a hipótese do estabelecimento de uma espécie de triunvirato global ditando os rumos da política internacional. Também trata da posição do governo lulo-petista frente à atual situação da Venezuela. 

Ainda a propósito da situação de Venezuela, transcrevemos também alguns fatos referentes ao fechamento, em 1984, do pujante grupo venezuelano ligado à TFP. 

Oxalá os males próprios a um regime comunista, que assolam a nação vizinha, não venham a contaminar o Brasil. Devemos rezar e atuar neste sentindo, dileto leitor, especialmente pela “descubanização” da Venezuela.

27 de janeiro de 2026

Vibrante Marcha pela Vida em Paris Luta contra o Aborto e a Eutanásia


No domingo, 18 de janeiro de 2026, uma multidão entusiasmada e energizada de aproximadamente 10.000 pessoas compareceu à tradicional Marcha Francesa para a vida, em Paris. O evento, realizado na Place Vauban, diretamente em frente ao Hôtel des Invalides, foi um forte sinal para a França e o mundo de que, apesar das derrotas recentes, o movimento pró-vida pela primeira filha da Igreja não está apenas vivo, mas crescendo.

A marcha deste ano foi notável pelo grande número de jovens e pela presença católica muito visível. Grupos de estudantes do ensino médio e universitários vieram de toda a França cantando canções católicas, rezando o terço e entoando slogans pró-vida. O presidente da Marca para a Vida, Guilhaume de Théuilloy, lembrou aos participantes que "manifestações não são a única forma de lutar... A oração é verdadeiramente fundamental, assim como a vigília pela vida que ocorre na noite anterior [à marcha] na Igreja de Saint-Roch. A cultura da morte é o desencadeamento da obra do diabo, que luta ferozmente contra a humanidade." Monsenhor Dominique Rey, bispo emérito de Fréjus-Toulon e o único bispo presente, afirmou em seu discurso: "O respeito pela vida hoje é um chamado do Céu. Está no cerne da missão da Igreja."

Vibrante Marcha pela Vida em Paris Luta contra o Aborto e a Eutanásia

Diversas organizações pró-vida francesas participaram da marcha, incluindo Droit de Naître, SOS Tout-Petits, Les Éveilleurs e Renaissance Catholique. Pró-vida vieram de outros países europeus, assim como dos Estados Unidos. Tanto no conteúdo quanto no tom, a Marcha para a Vida se inspira muito na Marcha Americana pela Vida anual realizada em todos os meses de janeiro em Washington, D.C. Filiais francesas de organizações pró-vida nos EUA, como 40 Dias pela Vida e Rachel's Vinyard, estavam presentes. Assim como na marcha dos EUA, os pró-vida franceses expressam uma militância e confiança apesar dos retrocessos e batalhas perdidas. Em Paris deste ano, a Marca para a Vida prestou homenagem ao líder conservador americano Charlie Kirk, um ferrenho defensor dos não nascidos, que foi tragicamente assassinado em 10 de setembro de 2025.

A defesa dos não nascidos, idosos e doentes terminais na França não poderia ser mais urgente. Quando a Suprema Corte dos Estados Unidos em 2022 anulou a infame decisão Roe vs. Wade -- permitindo assim que estados isoladamente proibissem o aborto – os progressistas europeus ficaram chocados. O primeiro-ministro britânico Boris Johnson chamou isso de "um grande retrocesso", enquanto a primeira-ministra francesa Elisabeth Borne o chamou de "um dia sombrio para os direitos das mulheres." O presidente Emmanuel Macron prometeu tornar a França o primeiro país a consagrar a "liberdade garantida de acesso ao aborto" na constituição do país, e conseguiu isso em 4 de março de 2024 com maiorias esmagadoras tanto na Assembleia Nacional quanto no Senado francês.

O tema principal da marcha pela vida deste ano foi a luta contra o suicídio assistido.

Vibrante Marcha pela Vida em Paris Luta contra o Aborto e a Eutanásia

Cumprindo uma de suas promessas de campanha de 2017, em 27 de março de 2025, por 305 votos a 199, o governo do presidente Emmanuel Macron aprovou uma lei de eutanásia na Assembleia Nacional. Ainda está aguardando uma votação no Senado, mas se aprovada, a lei seria uma das mais permissivas do mundo sobre eutanásia, colocando a França na mesma categoria que Bélgica e Canadá.

Marie-Lys Pellissier, porta-voz da Marche pour la vie, disse ao Le Figaro: "Não queremos uma sociedade que mate, mas uma que proteja e apoie os mais vulneráveis em todas as fases de suas vidas, independentemente do seu nível de dependência e do custo de sua existência."

Embora o tema do suicídio assistido seja o mais urgente politicamente, a luta pelo aborto ainda não acabou. Por um lado, a taxa de abortos está subindo. Em 2023, 243.300 abortos foram realizados na França, o maior número desde 1990 e um dos maiores já registrados. Ao mesmo tempo, a taxa de natalidade está despencando. Em 2025, a taxa de natalidade na França caiu para 1,56 filhos por mulher, o nível mais baixo desde o fim da Primeira Guerra Mundial. Nesse mesmo ano, o menor número de nascimentos desde 1942 também registrou a primeira vez desde o fim da Segunda Guerra Mundial que o número de mortes (651.000) superou o número de nascimentos (645.000). A população da França, de 69,1 milhões, cresceu ligeiramente apenas devido à imigração. Até 2030, pessoas com 65 anos ou mais serão mais numerosas do que aquelas com menos de 20 anos.

Em janeiro de 2024, no mesmo ano em que aprovou a proteção constitucional do aborto, o presidente Macron reconheceu a crise demográfica na França e fez um discurso em que pediu um "rearmamento demográfico." Ele anunciou a criação de novos programas de assistência governamental para ajudar a aumentar a taxa de natalidade. Essas medidas hipócritas não farão nada para conter a maré do inevitável colapso demográfico graças a 51 anos de aborto legal.

Vibrante Marcha pela Vida em Paris Luta contra o Aborto e a Eutanásia

Progressistas europeus, de fato, estão profundamente preocupados com o fato de um movimento pró-vida crescente na Europa ameaçar o futuro do aborto legal. Em 2025, a Anistia Internacional publicou um estudo chamado Quando os direitos não são reais para todos: a luta pelo acesso ao aborto na Europa. O relatório, embora otimista quanto ao futuro, ainda assim revela um profundo receio de que o futuro dos direitos ao aborto esteja longe de ser certo. O relatório ataca a existência de "um movimento global anti-gênero bem financiado" que está forçando progressistas a defender "conquistas arduamente conquistadas contra a retrocesso prejudicial e retrógrado no acesso existente ao aborto."

Se os progressistas que promovem a cultura da morte estão preocupados, é porque são muito mais fracos do que parecem. Os movimentos de aborto e suicídio assistido dependem do falso "consenso" de apoio universal à sua causa. Como o exemplo americano demonstra, se até mesmo alguns europeus se levantarem e reagirem, podem quebrar esse consenso e forçar a cultura da morte do passo para trás, que não passa de um gigante com pés de argila.

24 de janeiro de 2026

SÃO PAULO DE OUTRORA

 

Vale do Anhangabaú

✅  Plinio Corrêa de Oliveira

No tempo antigo do bairro Campos Elíseos, onde morei na capital paulista, os jardins eram muito bonitos, com flores ornamentais. As casas eram ‘sossegadonas’, distintas e elegantes.

Campos Elíseos, nos anos 30

Quando eu era mocinho, gostava de dar um giro a pé pelas ruas (nas quais meus familiares habitualmente não transitavam) para flanar sozinho. Gostava de passar diante das casas e observar seus jardins, as flores particularmente bonitas, mais adiante ouvir a voz de alguma mulher cantando desafinada, com a janela aberta, eu a percebia costurando. 

Observava um caniche que passava, depois um lulu da Pomerânia, mais adiante um cachorro ‘de rua’. Às vezes aparecia um filhote mestiço (certamente uma cadela tinha escapado para a rua e encontrado um cachorro sem raça, daí o nascimento desse mestiço) com a saúde robusta, por um lado, e por outro um pouquinho de finura da cadela. Andava luzidio e exibicionista como um burguesinho, abanando o rabo e latindo para se fazer ver. 

Chá no Mappin
Mais adiante eu encontrava uma padaria de portugueses, exalando o cheiro bom de pão quente saindo do forno, convidando-me a entrar e comprar. 

Naqueles tempos as coisas tinham certo molejo, havia tempo para tudo, ninguém fazia as coisas depressa. Sabia-se que catástrofes podem acontecer, mas nada inopinadamente, e todo mundo levava vida tranquila. 

Inúmeras vezes, pessoas de minha família se queixavam desse ou daquele incômodo (em geral eram pequenos incômodos), e eles iam ao médico no centro da cidade, que era ao mesmo tempo lugar de negócios e de passeios. Havia cinemas, confeitarias, uma porção de atrações dessas, de boa qualidade, e essa ida ao médico se transformava também num passeio. 

Era comum uma senhora ir ao médico levando dois ou três filhos ou sobrinhos, para depois tomarem chá na casa Mappin, por exemplo. No centro da cidade a pessoa podia ir e se distrair. Como seria isso hoje?... 


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Excertos de comentários feitos pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 8 e 14 de setembro de 1991. Esta transcrição adaptada não passou pela revisão do autor.

5 de janeiro de 2026

Os três Reis Magos e o papel da representação simbólica



✅  Plinio Corrêa de Oliveira

Nenhum comentador da adoração prestada ao Menino Jesus pelos três Reis Magos –– Gaspar, Melchior e Baltasar –– nega que era conveniente eles irem adorá-lo, para representar os vários povos da gentilidade aproximando-se de seu berço desde o começo. 

Era conveniente também que fossem magos, para representar toda a sabedoria antiga prestando homenagem ao Menino-Deus. Sabemos que, naquela época, mago era adjetivo para o homem de uma sabedoria extraordinária. Eram sábios, os que foram adorar o Messias.

Os três Reis Magos, de várias raças, representaram todo o mundo e toda a sabedoria antiga homenageando Nosso Senhor Jesus Cristo, levando-lhe ouro, incenso e mirra. Era um gesto muito simbólico. Nosso Senhor quis ter representantes daqueles povos, e escolheu quem os representaria em caráter simbólico. Eram só três, mas eles significavam algo nos planos da Providência. 

🔔 🔔 🔔

Podemos pedir aos Reis Magos que orem por nós — porque certamente estão no Céu junto a Deus —, para que tenhamos a coragem que eles tiveram: isolados no mundo pagão, à espera da estrela, aguardando a hora de Deus para cumprir Sua vontade com toda a fidelidade. Devemos nos preparar para essa hora para sermos, também no isolamento, exemplos de fidelidade. 
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Trecho de conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, proferida em 1965, na véspera da festividade dos “Três Reis Magos”, que a Igreja celebra no dia 6 de janeiro.

2 de janeiro de 2026

2025

 


Retrospecto dos principais acontecimentos da Santa Igreja Católica e do mundo multipolar em realinhamentos num rumo caótico


Fonte: Editorial da Revista Catolicismo, Nº 901, Janeiro/2026 

A recente mudança de pontificado, na Santa Igreja, suscitou muitas esperanças; mas também, como se tem visto, inseguranças, desconfianças e desilusões. 

Um turbilhão de desordens catastróficas está encaminhando o mundo para a Terceira Guerra Mundial, mas reações conservadoras surpreendentes nos animam, provocando muitas esperanças. 

Na geopolítica mundial, 2025 foi um ano de surpreendentes rupturas e inesperadas alianças. Elas convulsionaram o panorama global, sobretudo após a volta de Trump à Casa Branca. 

No panorama católico, ao lado de calamidades inauditas, temos assistido a um verdadeiro renascimento da fé, sobretudo entre jovens, que estão retomando as práticas religiosas tradicionais no denominado Catholic Revival. 

O que dissemos acima sintetiza acontecimentos do ano que findou. A retrospectiva de 2025, apresentada em quatro partes por abalizados colaboradores da revista Catolicismo, desenvolve com segurança aspectos de magna importância para o prezado leitor avaliar o status quo de assuntos de especial interesse para a civilização cristã. 

* * * 
Na edição deste mês a revista inicia uma nova seção, intitulada Nobreza e Tradição numa Cristandade Vigorosa. Nela oferecemos aos leitores trechos extraídos do excelente livro A volta ao mundo da Nobreza, de Leon D. Beaugeste. Certamente será muito apreciada essa coletânea de episódios da História pouco divulgados, que nela são condensados, desfazendo conceitos errôneos sobre o valioso papel formativo da antiga nobreza católica, na coesão, harmonia e aperfeiçoamento da vida social. 
* * * 
Enquanto na edição anterior celebrou-se o número 900 de Catolicismo, na deste mês outra comemoração: jubileu de fundação! 75 anos de bom combate, destemido e incansável, sem falhar um mês sequer, desde 1951. Agradecemos a Nossa Senhora essa longa existência, a qual pouquíssimas revistas conseguem alcançar, e suplicamos a Ela especial proteção para as futuras edições, futuras polêmicas, futuras lutas pela maior glória de Deus. 

Desejamos aos nossos leitores especiais graças ao longo do novo ano que se inicia, para que juntos continuemos a guardar a fé e perseverar no combate em prol do pensamento autenticamente católico.

31 de dezembro de 2025

O amanhecer furioso de 2026

 


✅  Roberto de Mattei

O alvorecer de 2026 surge sobre uma Europa que está em guerra e não sabe que está. Mesmo aqueles que sabem, aqueles que começaram essa guerra, evitam cuidadosamente dizê-lo e continuam falando sobre paz. Além disso, como ensina Santo Agostinho, mesmo aqueles que promovem guerras não desejam nada mais do que garantir a paz por meio da vitória (De Civitate Dei, lib. XIX, c. VII). 

Assim, em sua conferência de fim de ano, Putin disse que queria paz, mas com base no respeito aos princípios que o levaram, não à guerra, mas a uma "operação especial" na Ucrânia. 

A guerra agora envolve não apenas a Ucrânia, mas também a Europa e o Ocidente. É uma guerra real não declarada, que na linguagem contemporânea é chamada de guerra híbrida. O que mudou não é a natureza do conflito, mas suas formas, seus instrumentos e, acima de tudo, o limiar de visibilidade política além do qual um Estado está disposto a admitir que está em guerra. É travada por meio de operações de inteligência, sabotagem da infra-estrutura inimiga, drones, navios sem bandeiras, submarinos invisíveis, enquanto, paralelamente, o rearmamento continua diante de uma guerra oficial que todos evocam e ninguém declara. 

As redes elétricas colapsam devido a falhas "técnicas" misteriosas, sistemas de computador colapsam sob ataques "anônimos", rotas aéreas e comerciais tornam-se inseguras, campanhas de desinformação confunde a opinião pública a ponto de torná-la impossível distinguir atacantes de defensores. No entanto, apesar de tudo isso, ninguém percebe que está em guerra. Lutamos em uma área cinzenta permanente onde a guerra existe, mas coexiste com sua própria negação. 

A guerra não declarada não é uma invenção do nosso tempo, mas uma constante na história internacional, mesmo que a forma como ela ocorre hoje seja nova. Um exemplo emblemático é o dos Estados Unidos entre 1940 e 1941. As armas trovejaram na Europa, e o presidente Franklin D. Roosevelt estava convencido de que uma vitória da Alemanha nazista representaria uma ameaça à segurança americana, mas a maior parte da opinião pública de seu país era contra a guerra. 

Determinado a intervir, mesmo sem o consentimento necessário para uma declaração de beligerância, Roosevelt decretou o que muitos historiadores chamaram de "guerra não declarada" contra a Alemanha. Foi uma guerra travada por meio de uma sequência de atos militares, logísticos e políticos que aproximaram cada vez mais os Estados Unidos de um confronto direto com o Terceiro Reich. 

O coração dessa guerra não declarada era o Atlântico. Navios americanos começaram a escoltar comboios britânicos carregados de suprimentos, mesmo sabendo que isso os exporia a ataques de submarinos alemães. Em setembro de 1941, após o incidente do USS Greer, um contratorpedeiro americano envolvido em uma colisão com um submarino alemão, Roosevelt anunciou a política de "atirar à vista": navios alemães avistados em zonas de segurança atlântica poderiam ser atacados sem aviso. Ao mesmo tempo, Washington apoiou o esforço de guerra britânico por meio do programa Lend-Lease Act, que permitiu fornecer armamentos e materiais a países em guerra contra o Eixo. Na verdade, a guerra já havia começado, mesmo que ninguém a chamasse assim. 

Essa estratégia recebeu duras críticas do Comitê América em Primeiro Lugar, o maior movimento isolacionista da história americana, que acusou Roosevelt de arrastar o país para o conflito ao contornar a vontade popular. As feridas da Primeira Guerra Mundial ainda estavam abertas, e milhões de americanos temiam que uma nova intervenção militar na Europa só produzisse morte, dívidas e instabilidade interna. O slogan "America First" condensava uma visão do mundo baseada nos princípios de defender o continente americano, fortalecer a economia nacional e rejeitar qualquer envolvimento com o Velho Continente. 

O movimento encontrou seu símbolo mais conhecido em Charles Lindbergh, o famoso supervisor do Atlântico de 1927. Em seus discursos, Lindbergh argumentou que a Alemanha era militarmente invencível e que uma intervenção americana seria inútil e desastrosa. Algumas de suas declarações, especialmente aquelas que atribuíam o impulso à guerra à administração Roosevelt e a judeus americanos e britânicos, geraram acusações de antissemitismo e minaram a credibilidade do movimento. 

Mas em 7 de dezembro de 1941, os japoneses atacaram os Estados Unidos em Pearl Harbor [foto ao lado]. Alguns dias depois, foi a Alemanha quem declarou guerra aos Estados Unidos, oficializando o que, na verdade, já estava em andamento há meses. O Comitê América em Primeiro foi abruptamente dissolvido. Diante de uma agressão direta contra o território americano, os próprios líderes do movimento reconheceram que, a partir daquele momento, a unidade nacional veio acima de qualquer divisão ideológica. 

Se o Comitê América Primeiro nasceu em um contexto marcado pelo trauma da Primeira Guerra Mundial e pelo medo de sacrifícios desnecessários, hoje o isolacionismo ressurge nos Estados Unidos na forma de críticas ao custo econômico e humano do compromisso global. No entanto, seria um erro ler o mais recente documento dos EUA sobre a Estratégia de Segurança Nacional (NSS) publicado em 2025 pela Casa Branca em uma chave isolacionista. O texto coloca o interesse dos Estados Unidos como prioridade nacional e define a Europa como um continente em declínio, mas Washington afirma estar pronto para colaborar com uma Europa forte, capaz de contribuir para a competição estratégica, inclusive do ponto de vista militar. A possibilidade de um apagamento da identidade europeia, que o documento aponta com preocupação, é um perigo real, que a Europa parece não perceber. 

A frase mais discutida no texto, "Queremos que a Europa permaneça europeia", significa que a Europa está deixando de ser ela mesma e precisa retornar às suas raízes. São as nações europeias que devem assumir a responsabilidade de recuperar o que o documento da Casa Branca chama de "autoestima civilizacional", ou seja, a consciência do patrimônio histórico e cultural do Velho Continente. Em uma perspectiva semelhante, em sua mensagem Urbi et Orbi no dia de Natal, o próprio Leão XIV recordou a necessidade de a Europa permanecer fiel às suas raízes cristãs e à sua história. 

A decadência europeia hoje se expressa na forma de um "neopacifismo" que intercepta um eleitorado cansado de guerras "distantes". Mas o pacifismo nasce de uma repressão histórica: a ilusão de que basta declarar-se "pela paz" para evitá-la. Essa atitude legitima a guerra híbrida, porque aceita sua narrativa. Uma das principais ferramentas da guerra híbrida é a manipulação da opinião pública. Isso acontece por meio de campanhas de desinformação e apelos pela paz que coincidem, de fato, com o pedido de rendição a um inimigo que não se declara como tal. 

O pacifismo, que não admite a existência de um conflito, assim se mostra incapaz de enfrentar uma guerra que não se apresente como uma guerra. A paz não é mais resultado de uma ordem defendida, mas a máscara de uma rendição progressiva. A guerra híbrida é trágica justamente porque nega a tragédia: não pede escolhas claras, mas as consome lentamente, até que a guerra, finalmente declarada, não aparece mais como uma decisão, mas como uma fatalidade inevitável. 

A história mostra que o pacifismo não é um espaço neutro: é o terreno em que aqueles dispostos a usar a força sem dizer isso prevalecem. E se a paz, como explica Santo Agostinho, é a tranquilidade da ordem, então ela não pode surgir da remoção do conflito, mas da coragem de reconhecê-lo. Porque a verdadeira alternativa, hoje, não é entre guerra e paz, mas entre uma paz defendida e uma paz simulada. E a Europa, diante dessa escolha, não poderá continuar adiando por muito tempo sem descobrir, um dia, que o adiamento foi uma decisão desastrosa.

27 de dezembro de 2025

No Natal em Londres, um hino português



✅  Paulo Henrique Américo de Araújo 

Durante as noites frias do Natal londrino no início do século XIX as pessoas que passavam em frente à Capela da Embaixada de Portugal costumavam ouvir os melodiosos acordes de uma encantadora canção. Por que apenas ali naquele edifício ela era ouvida? Uma simples pesquisa sobre uma das mais famosas músicas natalinas — que tanto agradava os ingleses — nos leva a narrações lendárias, conjecturas históricas e até profecias. Os moradores de Londres a chamavam de The Portuguese Hymn (o Hino Português). Nós a conhecemos melhor como Adeste Fidelis. 

Para entendermos o motivo das especulações sobre a peça musical, precisamos voltar os olhos para o século XVI, quando ocorreu a triste cisão entre a nação inglesa e a Igreja Católica. Após o Rei Henrique VIII ter declarado seu divórcio com a Rainha Catarina de Aragão, contrariando assim as leis divinas e eclesiásticas, acabou por ser excomungado pelo Papa Paulo III, em 1538. A partir daí, surgiu a Igreja Anglicana, de fundo protestante, violentamente anticatólica e tendo como chefe — ou “papa” — o próprio monarca britânico.
A Batalha de Culloden – David Morier (1705-1770). Royal Collection Trust, London. O levante dos “jacobitas” (à esquerda no quadro), buscou restabelecer no trono os príncipes católicos, herdeiros do Rei Jaime II


“Aproximai-vos, fiéis, alegres e triunfantes...” 

Durante séculos, os católicos ingleses viveram perseguições as mais terríveis no seu próprio país. Neste ínterim, vários movimentos se levantaram para a restauração católica na “Ilha dos Anjos”. Houve então o levante dos “jacobitas”, que buscou restabelecer no trono os príncipes católicos, herdeiros do Rei Jaime II. Este ocupara o trono durante poucos anos (1685-1688), mas por causa de sua fé católica, foi expulso pelos revoltosos protestantes. Apenas no ano de 1829, a Igreja Católica obteve liberdade no país, mas sem o restabelecimento dos príncipes católicos como soberanos. 

Retrato de Jaime II
Nicolas de Largillière (1656–1746)
Museu Marítimo Nacional, Londres
Curiosamente, o Adeste Fidelis carrega consigo uma mensagem desses eventos históricos. Uma das lendas sobre sua composição nos diz que a melodia fora escrita pelo Rei de Portugal, D. João IV . Porém, segundo os especialistas, o estilo musical que a caracteriza não tem relação com as obras musicais do rei compositor. 

A tese falsa sobre a autoria surgiu a partir da confusão entre a capela da embaixada portuguesa e a chamada “Capela da Rainha” no Palácio de São James, ambas situadas em Londres. Dona Catarina de Bragança, princesa portuguesa, casara-se com o rei protestante Carlos II da Inglaterra em 1662. A Rainha-consorte tinha direito a praticar a religião católica apenas privadamente. Como D. Catarina era filha do Rei D. João IV, a lenda se espalhou de que dele vinha a música. Sabemos, contudo, que a canção só começou a ser ouvida na Capela da Embaixada portuguesa, muitas décadas após D. Catarina ter estado em Londres e ter ouvido, provavelmente, outras músicas em outra capela, a “sua”! 

No duro período entre perseguições e tentativas de restauração católica na Inglaterra, aparece a figura de John Francis Wade . Com o fracasso do último levante “jacobita”, ocorrido em 1745, este piedoso leigo católico foi obrigado a se exilar em Douai, França. 

Nesta época, a cidade de Douai era um bastião formado para combater os erros do protestantismo, possuindo inclusive uma faculdade inglesa. Os católicos ingleses ali se refugiavam desde o reinado da ímpia Rainha Isabel I. O currículo da faculdade era voltado principalmente para preservação do catolicismo na Inglaterra. Um refúgio ideal para John Wade, já que ele ensinava música para crianças, copiava cantos gregorianos e hinos diversos. 

Neste ambiente de luta contra o protestantismo, Wade compôs o Adeste Fidelis. É interessante notar que ele teria composto essa música natalina com uma linguagem cifrada para a volta dos príncipes católicos ao trono inglês. Veja-se, por exemplo, a estrofe inicial da música: “Adeste fideles læti triumphantes, venite, venite in Bethlehem...”, que se traduz por “Aproximai-vos, fiéis, alegres e triunfantes, vinde, vinde a Belém...”. A palavra “fiéis” relaciona-se com os católicos ingleses. “Belém”, no uso comum dos jacobitas, significava Inglaterra! 
Partitura do “Portuguese Hymn” traduzida para o inglês.


Esperança da restauração católica 

E na sequência da música, temos: “Natum videte Regem angelorum...”, isto é, “Contemplai-o, aquele que nasceu, o Rei dos Anjos”. Obviamente, o verso se refere ao Menino Deus nascido. Mas “Rei dos Anjos” pode ser entendido também por “Rei dos Anglos”, o “Rei dos Ingleses”! Desta maneira tão bela, o autor convida a todos a virem receber dois Reis: o primeiro, Nosso Senhor Jesus Cristo; e o segundo, o legítimo rei católico inglês. 

Nos outros versos, há possíveis referências intencionalmente colocadas para trazer uma luz de esperança aos católicos ingleses. Nada mais adequado do que uma canção de Natal para reascender a confiança nos seus corações de que um dia a pátria voltará ao seio da Igreja verdadeira. Nesse sentido, São Domingos Sávio teve uma visão na qual profetizou a conversão da Inglaterra. 

Apesar das objeções de alguns estudiosos à linguagem cifrada contida na peça musical, nada há de conclusivo que nos obrigue a descartá-la de todo. Assim, podemos mantê-la, ao menos como bastante provável. 

A composição contendo a assinatura de Wade, com a letra em latim, foi publicada pela primeira vez em 1760. A mesma letra, junto com a famosa melodia, foi impressa em 1782. A partir daí, na Capela da Embaixada portuguesa — um dos poucos locais no país onde o culto católico era autorizado — o Adeste Fidelis passou a ser entoado nas noites do Natal londrino. De onde a música ser chamada inicialmente de “Hino Português”. Aliás, Wade, já no exílio, mantinha correspondência com músicos daquela embaixada. 

Em 1841, o sacerdote católico inglês Frederick Oakeley traduziu o hino para seu idioma como O Come All Ye Faithful (Ó vinde todos os fieis). Esta versão se propagou pelos países de língua inglesa, onde, curiosamente, os protestantes anglicanos, aqueles que provavelmente mais apreciam a música, não têm muita noção de sua origem e de suas referências à restauração dos reis católicos jacobitas. 

Há também versões do Adeste Fidelis em diversos outros idiomas. No Brasil, o frade franciscano Emílio Sheid compôs uma adaptação em português conhecida como Cristãos, vinde todos . 

O Adeste Fidelis, além de ser apreciado como um simples hino popular, também é executado por grandes orquestras e corais em todo o mundo. Ele ressoa como o próprio Natal: é a salvação que chega, é o Filho da Virgem que nasce, trazendo a esperança da restauração católica para a Inglaterra e para todas as nações. 
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Notas: 
Cfr.https://pontosj.pt/especial/o-adeste-fideles-nao-tem-passaporte-portugues/ Cfr.https://christmasclassics.com/christmasmusic/tag/the-portuguese-hymn 
Cfr. http://news.bbc.co.uk/2/hi/uk_news/england/wear/7789477.stm 
Uma boa execução da versão brasileira pode ser vista em: https://youtu.be/RI64P-pz9E4 Apresentação do coral de meninos no Vaticano: https://youtu.be/va_G2ith27g
Fonte: Revista Catolicismo, Nº 900, Dezembro/2025.