✅ Paulo Roberto
Campos
Há 455 anos, em 7 de outubro de 1571, as águas do
golfo de Lepanto, na costa ocidental da Grécia, tornaram-se cenário de uma das
batalhas navais mais célebres da História. De um lado, a poderosa armada do
Império Otomano; de outro, as forças da Liga Santa, reunidas sob o impulso do
Papa São Pio V.
O confronto ultrapassou desde o início os limites
de uma disputa militar. Para a Europa do século XVI, estava em jogo a contenção
do avanço otomano no Mediterrâneo. Para São Pio V, tratava-se também de uma
batalha espiritual: enquanto as galeras avançavam sobre o inimigo, a
Cristandade era convocada a rezar o Rosário.
Quatro séculos e meio depois, Lepanto continua
sendo evocada como símbolo de uma vitória alcançada quando tudo parecia
favorecer o adversário.
Neste 7 de outubro de 2026, a recordação adquire
para os brasileiros uma atualidade particular. O País acaba de atravessar o
primeiro turno de uma eleição decisiva e, no segundo turno, permanece diante de
escolhas que poderão marcar profundamente seu futuro político, moral e
cultural.
Para os católicos, Lepanto recorda sobretudo uma verdade: há batalhas nas quais os meios humanos são indispensáveis, mas não suficientes. Foi essa convicção que levou São Pio V a pedir à Cristandade que recorresse à Santíssima Virgem por meio do Rosário.
Perigo que ameaçava a Europa
Em meados do século XVI, o Império Otomano encontrava-se
no auge de sua expansão. Constantinopla havia caído em 1453 e, pouco mais de um
século depois, os turcos controlavam vastos territórios nos Bálcãs, no Oriente
Médio e no Mediterrâneo oriental.
Em 1570, a invasão otomana de Chipre tornou ainda mais
evidente o perigo. A ilha, então sob domínio veneziano, possuía enorme
importância estratégica. Sua conquista abriria novas possibilidades para a
expansão turca pelo Mediterrâneo.
Diante da ameaça, o Papa São Pio V empenhou-se em
conseguir aquilo que as rivalidades políticas europeias tornavam extremamente
difícil: uma aliança entre potências católicas.
Nasceu assim a Santa Liga, formada principalmente
pela Espanha, República de Veneza e Estados Pontifícios, com participação de
Gênova, dos Cavaleiros de Malta e de outros Estados italianos.
O comando da armada foi confiado a Dom João d’Áustria, filho natural do
imperador Carlos V e meio-irmão do rei Felipe II da Espanha. Tinha apenas 24
anos. São Pio V depositava nele grandes esperanças. Mais ainda, porém,
depositava sua confiança no auxílio de Nossa Senhora.
Na manhã de 7
de outubro de 1571, as duas esquadras finalmente se avistaram nas proximidades
do golfo de Patras, tradicionalmente associado ao nome de Lepanto.
Mais de 400 embarcações e dezenas de milhares de
homens participariam do combate. Nas galeras cristãs, sacerdotes haviam
celebrado Missa, confessado os combatentes e distribuído a Comunhão. Muitos
soldados levavam consigo o Rosário.
Dom João d’Áustria percorreu as linhas de sua
armada animando os homens para o combate. Sobre sua nau capitânia tremulava o
estandarte da Santa Liga. Começava uma batalha da qual poderia depender o
futuro do Mediterrâneo cristão. Durante horas, os navios se chocaram numa luta
feroz. Artilharia, arcabuzes, flechas e combates corpo a corpo transformaram o
mar num imenso campo de batalha.
Apesar da bravura dos soldados de Cristo, a numerosíssima frota do Islã, comandada por Ali-Pachá [pintura ao lado], parecia vencer. Após 10 horas de encarniçado embate, os batalhadores católicos receavam a derrota, que traria graves consequências para a Civilização Cristã europeia. Mas, óh prodígio! Ficaram surpresos ao perceberem que, inexplicavelmente e de repente, os muçulmanos, apavorados, bateram em retirada…
O momento decisivo ocorreu no centro das duas
formações, onde se enfrentaram a Real, capitânia de Dom João d’Áustria,
e a Sultana, de Ali Paxá, comandante da esquadra otomana. Depois de
sucessivas investidas, os cristãos conseguiram abordar a nau inimiga. Ali Paxá
morreu no combate. A bandeira otomana foi derrubada e o estandarte cristão
erguido sobre a embarcação.
Os católicos alcançaram a vitória, mas só mais
tarde obtiveram a explicação: aprisionados pelos católicos, alguns mouros
confessaram que uma brilhante e majestosa Senhora aparecera no céu,
ameaçando-os e incutindo-lhes tanto medo, que entraram em pânico e começaram a
fugir.
A notícia espalhou-se rapidamente entre as galeras.
A linha turca começou a desmoronar. Ao final daquela tarde, a poderosa frota
otomana estava destroçada. Mais de uma centena de suas embarcações caiu nas
mãos dos vencedores, dezenas foram afundadas ou incendiadas e milhares de
prisioneiros cristãos que serviam como escravos nas galeras foram libertados.
Era uma vitória que poucos, horas antes, ousariam
considerar certa.
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| Quadro representando a visão que São Pio V teve da vitória de Lepanto |
Os soldados combatiam, a Cristandade rezava
A centenas de quilômetros dali, outra batalha era
travada. O grande São Pio V havia conclamado os católicos a recorrerem ao
Rosário pela vitória da armada católica. Em Roma e em outras cidades,
confrarias organizavam orações e procissões.
A tradição relata que, no próprio dia 7 de outubro,
o Pontífice encontrava-se reunido com seus colaboradores quando interrompeu
subitamente os trabalhos, aproximou-se de uma janela e permaneceu alguns
instantes em silêncio.
Depois anunciou que a armada cristã acabava de
vencer e convidado os presentes a agradecerem a Deus. A notícia oficial somente
chegaria posteriormente a Roma...
O episódio tornou-se inseparável da memória
católica de Lepanto. O próprio magistério pontifício conservaria essa
associação entre o Rosário e a vitória. Séculos depois, Leão XIII recordaria
que São Pio V havia conclamado os fiéis a invocarem a Mãe de Deus e que, após a
vitória, determinou que o aniversário da batalha fosse celebrado em honra de
Nossa Senhora das Vitórias.
Mais tarde, sob Gregório XIII, a comemoração ficou
definitivamente ligada a Nossa Senhora
do Rosário. Por isso, 7 de outubro não é apenas aniversário de uma
batalha. É também o dia de Nossa Senhora do Rosário.
A lição de Lepanto
O que pode dizer Lepanto ao Brasil de 2026?
A resposta não está em estabelecer uma equivalência
simplista entre uma batalha naval do século XVI e uma eleição democrática do
século XXI. As circunstâncias são evidentemente diferentes. Existe, porém, uma
lição que atravessa os séculos.
Lepanto mostra uma Cristandade ameaçada, dividida
internamente e confrontada com um adversário poderoso, mas que soube reagir
quando encontrou unidade, determinação e confiança sobrenatural.
O Brasil também vive uma hora de profundas
divisões. O primeiro turno das eleições de 2026, realizado no último domingo,
mostrou novamente a polarização do eleitorado e a intensidade da disputa pelo
futuro político do País.
Nesse contexto, vale recordar um episódio que
provocou enorme controvérsia em 2018. Em entrevista ao jornal espanhol El
País, o ex-ministro José Dirceu declarou: “Dentro do país é uma questão de tempo pra gente tomar o poder. Aí nós
vamos tomar o poder, que é diferente de ganhar uma eleição.”
Em outra entrevista, concedida ao portal 180graus,
fez também uma declaração contundente sobre o Supremo Tribunal Federal: “Primeiro, deveria tirar todos os poderes do
Supremo e ser só Corte Constitucional.”
Passados oito anos, José Dirceu tentou retornar à
Câmara dos Deputados nas eleições deste ano. Candidato pelo PT em São Paulo,
recebeu cerca de 78 mil votos, ficou em 17º lugar entre os candidatos de seu
partido e não conseguiu eleger-se, terminando apenas como suplente...
Batalha sobretudo moral
Entretanto, reduzir a crise brasileira a uma
disputa entre partidos seria permanecer na superfície do problema. Para um
católico, existe uma batalha ainda mais profunda. É a batalha pela alma de um
povo.
Um país não se perde apenas quando adota
determinada política econômica ou elege determinado partido. Pode perder-se
lentamente quando abandona seus princípios, relativiza a família, enfraquece a
fé, aceita a corrupção dos costumes e deixa de reconhecer as raízes cristãs de
sua própria civilização.
É nesse sentido que Lepanto conserva extraordinária
atualidade. Os combatentes de 1571 fizeram aquilo que lhes competia:
organizaram navios, reuniram soldados, estabeleceram uma estratégia e foram ao
combate. Mas São Pio V compreendeu que era necessário fazer algo mais. Mandou
rezar. O Rosário tornou-se assim a arma inseparável de Lepanto.
455 anos depois
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| Na. Sra. do Rosário de Lepanto [Foto Michael Gorre] |
Para aqueles que veem com preocupação o avanço de
projetos políticos de inspiração socialista ou bolivariana na América Latina, o
exemplo da Venezuela permanece como grave advertência sobre os riscos da
deterioração de uma nação.
Mas a resposta cristã não pode limitar-se ao temor.
Lepanto ensina justamente o contrário. Ensina a confiança. Quando as
circunstâncias pareciam desfavoráveis, São Pio V não cruzou os braços.
Mobilizou os homens e, simultaneamente, colocou sua esperança na proteção da
Santíssima Virgem.
Quatrocentos e cinquenta e cinco anos depois, a
mesma confiança pode inspirar os brasileiros. Neste dia de Nossa Senhora do
Rosário, rezemos ao menos um Terço pela nossa Pátria tão deteriorada pelo
lulo-petismo. Peçamos a Maria Santíssima que proteja o Brasil, ilumine seus
eleitores e governantes, afaste dele os erros que possam conduzi-lo à ruína anda
mais profunda e, sobretudo, obtenha a restauração moral e religiosa deste grande
povo nascido na Terra de Santa Cruz.
Porque a importante lição de Lepanto permanece de
pé: quando os homens fazem tudo aquilo que lhes compete, mas reconhecem que
acima das forças humanas está a Divina Providência, até uma situação que parece
perdida pode transformar-se em vitória.





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