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12 de fevereiro de 2022
CORTESIA FRUTO DA CIVILIZAÇÃO CRISTÃ
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26 de julho de 2014
AZULZINHO ENVERGONHADO, ESSA DECADÊNCIA
Jacinto Flecha (*)
Surpreendeu-me agradavelmente a mensagem de um leitor sobre minha crônica “muito esclarecedora” (Brim cáqui – lona – blue jeans), onde qualifiquei jeans como azulzinho envergonhado. Mais agradável ainda, a indicação que ele me fez de um link do Youtube (veja abaixo).Agradeço ao leitor pela mensagem e pela indicação desse vídeo, onde retratos feitos por grandes pintores mostram belíssimos exemplares das roupas que as senhoras usavam antigamente, nos séculos XVIII e XIX. Um verdadeiro desfile de moda antiga e de bom gosto, tendo como fundo musical o Capricho italiano, de Tchaikovsky. Pareceu-me muito acertada a ideia dessa associação visual-auditiva, e recomendo aos leitores que apreciem esse belo conjunto.
Vendo a beleza das roupas de antigamente, lamentei ainda mais
a vulgaridade arrogante e ostensiva do jeans, uma decadência global que se renova e generaliza ao longo do tempo. Enquanto fazia essa comparação, tive o receio de alguns leitores avaliarem como idiossincrasia o meu repúdio ao azulzinho envergonhado. Se lhe ficou essa impressão, peço que releia minha crônica, pois o que lamentei e vergastei foi a indiscutível e lamentável decadência mundial nos trajes. Compare o jeans com as roupas que desfilam ao som do Capricho italiano, e encontrará muitos pontos em que a decadência não deixa margem a dúvidas.
Sintetizo a seguir alguns desses requintes de decadência.
Costuras — Em qualquer roupa, as costuras têm a função de prender umas partes de tecido nas outras. Só para isso elas serviam, tanto que boas costureiras e bons alfaiates procuravam ocultá-las. Neste item de perfeição se esmeravam os artífices, tornando-se tão mais conceituados quanto melhor fosse o resultado desse “disfarce” das costuras. Na indumentária jeans, é praticamente nula a possibilidade de obter belos contrastes por meio da costura, nada seria mais deprimente do que costurar ali tecidos de boa qualidade e ornamentos de belas cores. Qual a solução? Transformar costuras em ornatos. E as costuras sentiram-se tão à vontade, que resolveram destacar-se ainda mais, com linhas arrogantemente grossas, até de cores diferentes.
Rebites — Têm a finalidade de unir chapas ou outras
peças de metal, como também de couro, e são excelentes para isso. Como o tecido de jeans é quase tão grosseiro quanto couro, até compreendo que eles sirvam para a função, mas eu nunca os imaginaria como enfeites de roupas. Os fabricantes da decadência imaginaram, e logo os rebites adquiriram status de ornamentos.
Desbotamento — Quando uma roupa vai se desbotando pelo uso, quem não se considere mendigo trata logo de substituí-la. Em tempos idos, as tinturarias refaziam a cor original ou a substituíam por outra, adquirindo a roupa o aspecto de nova. Não sei se o azulzinho envergonhado (será que a cor índigo é uma fusão de indigente com mendigo?) admite o trabalho de tintureiros. Mas o mundo decadente está ávido por qualquer decadência, e a palavra de ordem foi fabricar jeans pré-desbotados; ou seja, a roupa já é velha no primeiro dia de uso. Todos acharam isso normal, bom, moderno, e o mundo decadente aderiu a mais essa decadência.
Manchas — Além do desbotamento, manchas indeléveis podem inutilizar uma roupa nova ou pouco usada. Os decadentes nem ligam se isso acontece com o jeans, e até admitem manchas em roupa nova, como se fossem enfeites desejáveis.
Rasgões — Cortes acidentais em roupas levaram os artífices a desenvolver o cerzido invisível. Era um item de economia doméstica, especialmente para o tecido precioso. Hoje os rasgões já vêm de fábrica, e nem é possível a devolução com base no Procon. Shorts, bermudas e saiotes parecem aproveitamento de roupa velha, mas muitos já saem das fábricas assim. Elas já cortam as peças sem a parte das pernas, nem se preocupam em costurar na extremidade uma bainha, para não desfiar. Quando mais desfiado, melhor. E assim o mundo decadente prosseguiu sua decadência.[fotos no topo do artigo].
Remendos — Não me lembro de ter visto jeans remendado, embora isso seja bem adequado para novo passo previsível da decadência. Roupa remendada era coisa exclusiva de trabalhadores rurais (caipiras), e remendos servem até para enfeitar fantasias de festas juninas. Mas um remendo bem visível e eloquente não seria de estranhar na roupa de um decadente de hoje.
Relutei em manter a referência aos remendos, pois não me espantaria se algum promotor da decadência, zombando deste retrógrado cronista de bom gosto, resolvesse criar o jeans remendado. Os decadentes do mundo inteiro estão ávidos por novidades como esta. Não me culpem, se aparecer mais essa novidade, pois tenho a esperança (ou talvez a ilusão) de estar escrevendo para quem não é decadente.
Se você comparar tudo isso com as roupas do Capricho italiano [vídeo], entenderá a extensão deplorável da decadência a que chegamos.
_________________________
Esta crônica semanal pode ser reproduzida e divulgada livremente.
Fonte: Agência Boa Imprensa
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11 de novembro de 2012
Século XIX — A dama, rainha na sociedade, e o cavalheiro
Continuação do post
abaixo (do dia 9-10-12: SéculoXIX — saudades da época de bom gosto anterior à Revolução Francesa, com trechos do livro “A
HISTÓRIA DA POLIDEZ — de 1789 aos nossos dias”, de autoria de Frédéric
Rouvillois.
“‘A imagem de um século XIX sombrio e triste, austero
e constrangedor para as mulheres, é uma representação espontânea’ (1) —
mas sumária, e particularmente inexata. Se o Código Civil adotado em 1804
coloca de fato as mulheres sob a dependência de seus maridos, considerando-as,
numa palavra, seres inferiores, debaixo de tutela, é preciso reconhecer que a
sociedade, a opinião e a literatura promovem uma imagem muito diferente.
Ao homem, a dominação
física e, portanto, a autoridade, o comando, a vontade. O homem, declara assim
a baronesa Staffe, é ‘aquele a quem a natureza
e a sociedade fizeram o mais forte’.(2). Mas à mulher cabe outro tipo de
superioridade moral.
Na década de 1830,
madame Celnart recomendava à mulher jamais esquecer que, se ‘ela pode ser superior em espírito, por sua força de
vontade [...], exteriormente ela deve ser mulher! Deve agir como esse ser feito
para agradar, para amar, buscar um apoio, esse ser tão diferente do homem e tão
semelhante ao anjo’.(3) E na mesma época Balzac estigmatizava, sob a
pose altiva de madame Rabourdin, o que ele chamava ironicamente ‘a mulher superior’, essa que pretende brilhar
por seu espírito ou por seus talentos, independentemente de seu marido e acima
dele.
No cômputo geral, a
mulher aparece como ao mesmo tempo superior e inferior — colocada num estado
que participa da perfeição angélica e da fragilidade pueril. Percebida como
essencial, essa diferença entre os sexos deve, a qualquer preço, ser preservada
e valorizada.
A rainha e o cavalheiro
Considerados
essencialmente diferentes, homens e mulheres obedecem, em suas relações mútuas,
a regras distintas, concebidas em função do que os caracteriza.
Do lado dos homens,
sua superioridade física e sua inferioridade implicam que eles deem proteção e
respeito às mulheres.
Quanto às mulheres,
seu estado lhes proporciona certamente múltiplos privilégios, mas também
acarreta constrangimentos e interdições sem conta. Para retomar um jargão
familiar aos juristas, pode-se dizer que a polidez lhes impõe sobretudo
obrigações do ‘não fazer’,
numa palavra, interdições, e isso se relaciona ao que, supostamente, é a sua
natureza, a meio caminho entre o anjo e a criança — ao passo que os homens,
seres ativos, voluntariosos, agentes, se veem submetidos às obrigações do ‘fazer’.
A natureza e a
sociedade, explica sem rir a baronesa Staffe, fizeram o homem mais forte, para
que ele fosse o protetor da mulher.(4) [...]
A devida proteção à dama
Assim, observa a
madame Celnart, ‘a decência exige que um
cavalheiro ofereça seu braço a uma dama que passeia a seu lado; a galanteria
exige que ele lhe solicite permissão para carregar o que ela traga nas mãos,
como uma sacola, um livro, uma sombrinha (com o sol já posto); em caso de recusa,
ele deve insistir. Acompanhado de duas damas, o homem não deve se dispensar de
dar o braço a cada uma delas’.(5) Com a
graça de Deus, é excepcional o caso do infeliz caminhante que se
defronte com o terrível drama de consciência advindo de a regra exigir, de
forma imperiosa, que se ofereça à dama o braço esquerdo — sendo incomensuravelmente raro que se tenha dois
deles...
Mas, então, por que o
braço esquerdo? Para que a dama acompanhada por ele se mantenha sob sua
proteção: enquanto ela se apoia em seu braço esquerdo, o homem deve manter
livre seu braço direito, de prontidão, para defende-la em caso de necessidade.
Defendê-la, explica a esse propósito a condessa de Gencé, deve ser tomado aqui ‘em sua acepção mais ampla. Defender quer dizer tanto
proteger materialmente contra os perigos quanto facilitar as travessias,
afastar os importunos, numa palavra: assegurar a passagem e dirigir a marcha’.
Ora, ‘caso o homem se veja na obrigação de proteger a dama
contra os malfeitores [...], o braço direito será seguramente o mais útil.
Assim, o hábito de oferecer o braço esquerdo resulta em ser lógico, pois é o
bom senso que, em matéria de savoir-vivre,
proporciona as mais sábias inspirações’.
No entanto, a regra
detalhada pela condessa de Gencé, no início do século XX, não parece muito
antiga — em 1838, madame Celnart não faz referência alguma a esse respeito —
nem muito estrita. Muitos homens, admitindo que o lado direito é o lugar de
honra, ‘persistem em oferecer, como se fazia
outrora, o braço direito à sua acompanhante’. De fato para dançar, é o
braço direito que os cavalheiros oferecem às damas, caso em que a ideia de
proteção não tem mais razão de ser, e é o que igualmente sempre fazem aqueles
que carregam uma espada, os militares, por exemplo, ‘não para desembainhá-la com facilidade, mas para não prejudicar a
passada da montaria’.(6) [...]
Do mesmo modo, na rua,
ele cede à mulher a parte alta da calçada, isto é, a parte do passeio mais
afastada da rua, fazendo um biombo entre ela e o bueiro — lembrança de um tempo
muito recuado em que este não era senão esgoto infecto — e, mais amplamente,
entre ela e o exterior. Trata-se, no mais, observa madame Celnart, de uma ‘marca de deferência igualmente devida àqueles que
têm direitos respeitantes a nós’(7) — o que demonstra que deferência e
proteção podem estar intimamente ligadas, desempenhando o homem, no caso, o
papel de um guarda-costas. [...]
A gestão do espaço é
aqui manifestação de proteção simbólica. Mas a polidez não exclui a
possibilidade de que esta se torne bem real. Assim, caso a mulher acompanhada
seja ofendida por outro homem, cabe ao acompanhante, ao cavalheiro, exigir
desculpas, e, no limite, reparação pelas armas, como se fosse efetivamente ele,
e não a mulher que ele acompanha, a ter sofrido a ofensa. É verdade que um
duelo opondo um homem e uma mulher seria não somente contrário a todos os usos,
mas propriamente inconcebível: em caso algum um homem bem-educado ergueria a
mão contra uma mulher, nem uma dama como deve ser se bateria com um homem. O
que não é sempre sem consequências: em junho de 1888, Alphonse Daudet esteve a
ponto de se bater em duelo com o jornalista Gabriel Astruc, que tinha escrito
um artigo em que insultava sua esposa — e esta chegou a ameaçar o marido com a
separação, caso ele não se dispusesse a lavar a afronta.
Em outro caso, madame
Caillaux, mulher do ministro das Finanças, pretendendo punir o editor do Figaro, Gaston Calmette, por haver deixado
publicar a correspondência adúltera de seu marido, escolherá — na
impossibilidade de um duelo — assassinar o jornalista a tiros de revólver.
Conta-se, na época, que, enquanto o policiais entravam em diligência para detê-la,
a homicida em potencial teria apostrofado: ‘Não
me toquem, eu sou uma dama’.(8)
Mas o homem, protetor
nato da mulher, lhe deve também o respeito, esse respeito devido à sua
superioridade moral. Um respeito marcado particularmente por meio da saudação,
em geral, considerada o mais elementar dos signos exteriores da polidez. ‘Um inferior, qualquer que seja a hierarquia, deverá
sempre saudar seu superior. Todavia, um idoso tomará a iniciativa de saudar um
homem jovem, caso este esteja acompanhado de uma dama. Mesmo no exército essa
regra será rigorosamente observada. Um general deverá saudar, antes, não
importa que lugar-tenente, se este estiver em companhia de uma dama. E deverá
fazer o mesmo para um ajudante de ordens’.(9) A mulher, qualquer que
seja — provado que ela demonstre, como detalha da mesma forma a baronesa
Staffe, decência no modo de trajar e um porte adequado(10) — terá direito à
deferência naturalmente devida aos superiores, ou aos idosos, qualquer que seja
o local do encontro: quando uma mulher entra em sua residência, o dono da casa
se inclina diante dela, em princípio tão reverentemente quanto se ele próprio
entrasse num salão.
No entanto, se o
princípio é estável, incontestado, a prática dessa deferência devida às damas —
em especial por meio da saudação — parece sujeita a modas muito flutuantes.
Seria então a mulher,
tal como pretende a baronesa Staffe, ‘rainha na
sociedade’, e reverenciada pelo homem ‘como
um ser mais delicado que ele, como uma pessoa preciosa’?(11) Digamos
antes que ela tem, quanto a isso, a ambição, ou a nostalgia. Nostalgia do tempo
mítico, em que ‘o príncipe de Ligne, presidente
do Senado belga, descobria seus cabelos brancos diante de todas as jovens de
baixa corte do castelo de Bel-Oeil’, do tempo em que ‘o orgulhoso Luis XIV [quadro ao lado] erguia seu chapéu diante de uma
lavadeira’.(12) Rainha? É o que ela foi outrora, suspira a condessa de
Genlis: antes da Revolução. Naquela época, em boa companhia, ‘as mulheres eram tratadas pelos homens com quase
todas as atitudes respeitosas prescritas pelos príncipes de sangue; eles não se
dirigiam a elas em geral senão em terceira pessoa; entre eles, e diante delas,
os homens jamais se tratavam por tu. Quando lhes dirigiam a palavra, era sempre
em um tom de voz menos elevado do que o usado entre eles. Essa nuança de
respeito’, conclui melancolicamente madame de Genlis, ‘tinha uma graça impossível de
descrever’.(13)
Se de fato não é mais
rainha, a mulher se mantém sagrada, intocável, o que constitui um considerável
privilégio, como afiança Maurice Barrès a Anna de Noailles, a propósito de uma
intriga espalhada pela baronesa Deslandes: ‘As mulheres têm verdadeiramente uma
irresponsabilidade e um poderio monstruosos. De homem para homem, minha posição
seria simples; eu diria: ‘Mas a quem foram mostradas essas cartas? Ao senhor X?
Eu vou entender-me com ele’. Seria tudo consensual. Mas, no caso, para além das
complicações de detalhe, o fato é que madame D., com seu privilégio de mulher,
poderia responder: ‘Eu sei o que sei, eu digo o que digo e me recuso a dar
qualquer explicação’.(14) [...]
E isso aconteceria sem
que o homem por ela colocado em situação embaraçosa, que ela encurrala até o
desespero, pudesse desmentir sem cair no ridículo, ou desafiá-la para um duelo,
última solução para resolver, entre homens, os atentados ao decoro e as questões
de honra. Em poucas palavras, a mulher, a certos respeitos, está em posição de
comando.
Não obstante, essa
rainha, essa intocável é também uma escrava, pois tal dignidade e tal
superioridade lhe são impostas em troca de obrigações não raro mais pesadas do
que as que recaem sobre o sexo oposto. Assim sendo, beneficiárias da proteção
dos homens, as mulheres renunciam, no mesmo ato, a toda vontade, a todo poder,
a toda autoridade, exceto a mundana e a doméstica.
Em primeiro lugar, sua
superioridade moral e mundana faz da mulher a guardiã natural da polidez e do savoir-vivre. Esse lugar comum foi largamente
e arrastadamente desenvolvido, em 1801, em um poema medíocre, que, no entanto,
gozará de prodigioso sucesso, O mérito das
mulheres, de Gabriel Legouvé. No preâmbulo, o autor explica que só as
mulheres poderão conduzir o povo francês ‘à
genuína urbanidade que quase se perdeu’ [com a Revolução Francesa].
Somente elas, com efeito, ‘aprimoram as
maneiras; promovem o sentimento do decoro; são as verdadeiras preceptoras do
bom-tom e do bom gosto; elas saberão nos devolver [...] a afabilidade, que era
um dos nossos traços distintivos’.(15) É o que continua a repetir, meio
século depois, a primeira edição de uma nova revista feminina, O conselheiro das damas [acima, foto da capa]. ‘As mulheres’, disse em algum lugar madame de
Staël, ‘conduzem a sociedade. É sobretudo na
França que esse axioma espiritual encontra sua justa aplicação. São as damas de
nossos salões que ensinam as regras da verdadeira elegância; somente elas,
nesse tempo de lassidão, têm defendido com sua influência civilizadora os
princípios do bom gosto, as tradições das belas maneiras e a polidez rara,
legada por nossos antepassados’.(16)
Mas exatamente por
essa razão, a mulher, e mais ainda a jovem, se submetem a constrangimentos
particularmente onerosos. Sobre elas pesam certas restrições, certos interditos
desconhecidos dos homens. Assim, o tabaco é geralmente proibido às mulheres,
sendo considerado, até o fim do século XIX, como especialmente masculino. Mais
constrangedor ainda: até uma idade relativamente mais avançada, uma senhorita
só deve sair acompanhada de um parente muito próximo, ou de uma senhora mais
idosa, que ganha o título de chaperon, e
deve cumprir com zelo seu papel de vigilante.
No início do século
seguinte, alguns continuam a ver aí uma interdição necessária, ao passo que
outros, a exemplo da condessa de Gencé, constatam, com uma pitada de
resignação, que esse ‘velho princípio da
polidez francesa, hoje, vem sendo abandonado’, já que daí por diante se
chega a autorizar que as jovens, a partir dos 20 ou 21 anos, saiam sozinhas,
para passeios na cidade, missas matinais ou visitas de caridade.(17)
Na realidade, aqui se entremostra uma segunda série de constrangimentos
que, na ordem do savoir-vivre, são a
contrapartida da proteção de que a mulher se beneficia: o corolário da fraqueza
que se lhe atribui e que o decoro a constrange a levar adiante. Supostamente
fraca e frágil, ela deve notadamente renunciar a tudo quanto se relacione ao
poder e à autoridade, à força e à violência, considerados atributos
especificamente masculinos.
Por essa razão, a
mulher deve evitar as discussões políticas, que a levariam a se envolver com
aquilo que não lhe diz respeito. Como já afirmava madame de Genlis, no início
do século XIX, lembrando-se sem dúvida das ambíguas heroínas da Revolução, ‘há de se convir em que, no geral, as mulheres não
são talhadas para governar, nem para se envolver nos graves interesses da
política’. A prova? ‘Não se encontraria
talvez uma só mulher de 20 anos que, dotada de deslumbrante beleza, consentisse
(se a troca fosse possível) em abrir mão dela para conquistar um trono’.(18)
Em consequência, e ainda que para isso seja preciso fingir, ela deverá ‘nessa conversação, insinuar sua ignorância e se
desculpar por não se dispor sequer a emitir uma opinião’. ‘A mulher, continua, a boronesa Staffe, ‘não impõe suas convicções pessoais [...]; um de seus
grandes encantos é não posar de superior ao homem, quaisquer que sejam sua
inteligência e sua força moral’.(19)
Tal é o leitmotiv do decoro feminino, até a guerra de
1914: reserva e discrição devem marcar cada gesto, cada atitude. O modo de
andar, por exemplo, deve ser ‘modesto e
compassado’, sem aquela precipitação que, segundo madame Celnart,
ensombrece a graciosa decência que caracteriza a mulher.(20) A mulher,
acrescenta a condessa Drohojowska, deve mostrar-se amável, cordata, graciosa,
mas deve, sobretudo, ‘unir às suas qualidades
uma imensa reserva’.(21) No início do século seguinte, a baronesa Staffe
ou a marquesa de Pompeillan não dizem outra coisa, ao afirmarem que ‘uma verdadeira mulher do mundo se mostrará reservada
em tudo e em toda parte, em casa, na casa de alguém e sobretudo em público’.(22)
Em consequência,
proíbe-se, principalmente às jovens, tudo o que poderia ir de encontro a esse
princípio, ‘Nada de apertos de mão vigorosos,
nada de cruzar as pernas, nada de interesses pelos negócios ou pelo turfe, nada
de opiniões categóricas sobre os homens ou as mulheres, nada de familiaridade
com os cavalheiros’, lembra a condessa de Gencé. A esse propósito, nem
seria preciso dizer que toda iniciativa amorosa é estritamente proibida pelos
costumes. Segundo o dito célebre, um homem cortejador é um galante, mas uma
mulher que faça o mesmo é apenas uma apreciadora vulgar de galanteios. O máximo
que se autoriza às jovens é prestar atenção cordial às galanterias delicadas, ‘desde que’, prossegue a condessa, ‘a galanteria seja uma forma um tanto refinada de
polidez’.(23)
Quanto a isso, o
século XIX, ‘o século da virgindade’,(24)
como por vezes foi qualificado, parece tão afastado do século precedente,
quanto do fim do século XX, com sua liberação sexual. É que entre a queda do
Antigo Regime e o século seguinte se interpõe a lembrança traumatizante da
Revolução — quando se veem, na França, relata madame de Genlis, ‘jovens mulheres de muito boa aparência
apresentando-se em público quase inteiramente nuas, como se estivessem na
Lacedemônia; tratando-se por tu; [...] dizendo em público, em seu próprio nome,
versos eróticos que não poderiam ser assinados nem por homens’.(25)
[...]
Dimensão prática da polidez: perenidade da família
Enquanto as opiniões
autorizadas por vezes divergem quanto ao sentido e ao alcance de certos
princípios de polidez, estes se revelam, quanto a isso, perfeitamente estáveis
e concordantes: ‘Um homem que só aplique as
regras do savoir-vivre nas suas relações
sociais e esqueça-as em família não é um homem de sociedade: tem só o verniz’.
Tal julgamento, emitido em 1898 pela marquesa de Pompeillan, ressurge ao longo
do século, amparado em justificações ao mesmo tempo utilitárias — é absurdo ser
polido no mundo, diante de desconhecidos, com os quais a pessoa talvez jamais
volte a se encontrar, e impolido em família, diante daqueles de quem se espera
toda a felicidade da vida — e morais.
Nesse quadro
privilegiado, a polidez permitirá, de início e efetivamente, evitar que as
discussões degenerem em conflito e daí em cenas de descompostura. A baronesa
Staffe lembra aos esposos que, em caso de discussão, ‘se souberem refrear qualquer expressão ofensiva ou simplesmente
impolida, o bom acordo não tardará a se restabelecer, e um dos cônjuges, o mais
dotado, não tardará a ceder. Ao contrário, um dito mordaz, uma palavra
injuriosa invocam a tempestade e, não raro, comprometem para sempre o
firmamento conjugal’.(27) Percebe-se aí, claramente, a dimensão prática
da polidez, fundamento da perenidade da família e da paz dos lares,
indispensáveis numa sociedade que proíbe o divórcio ou que o encara sob severa
suspeição.
Quanto à intimidade no
lar, esclarece madame Celnart, esta pode certamente dispensar certas etiquetas,
mas nunca o respeito. Só os abrutalhados imaginam que em família tudo é
permitido. Na presença da mulher ou do marido, a pessoa não deve jamais se permitir
satisfazer necessidades que introduzam, entre eles, qualquer sentimento de
aversão, nem se dedicar a cuidados pessoais que, diante de qualquer um que não
seja ela própria, comprometem a decência ou a propriedade — como lavar os pés,
cortar as unhas, sair do banho etc.(28)
*
* *
Em resumo, para o
século XIX, a vida conjugal, mesmo na intimidade, não poderia ser uma no man´s land [terra de ninguém] em matéria de
polidez — cuja importância aumenta na medida em que se tende a negligenciá-la,
já que a inter-relação é decisiva, pois dela depende o futuro da família, à
mercê das consequências por vezes incalculáveis de uma expressão fora do lugar,
um gesto mal interpretado, em poucas palavras, uma impolidez qualquer.
![]() |
| Uma das gravuras da revista acima mencionada |
Notas:
1. G. Fraisse, M. Perrot, in G. Duby, M.
Perrot, Histoires des femmes em Occident,
t. IV, p. 13.
2. Baronne Staffe, Indications pratiques pour obtenir um brevet de femme
chic, Flammarion, 1907, p. 230.
3. Mme Celnart, Nouveau Munuel complet de la bonne compagnie, op. cit., p. 134.
4. Baronne Staffe, Indications pratiques pour obtenir um brevet de femme
chic, op. cit., 1907, p. 230.
5. Mme Celnart, Nouveau Munuel complet de la bonne compagnie, op. cit., pp.
267-268.
6. Comtesse de Gencé, Savoir-vivre et usages mondains, Bibliothèque
des ouvrages pratiques, [s.d] (1097), pp. 11-12.
7. Mme Celnart, Nouveau Munuel complet de la bonne compagnie, op. cit., p. 270.
8. Citado por L. Daudet, Paris vécu, 1ª série, Rive droite, 1929, p.
109.
9. Comtesse de Gencé, Savoir-vivre et usages mondains, op. cit., p.
5.
10. Baronne Staffe, Usages du monde, Éditions 1900, 1989, p. 104.
11. Baronne Staffe, Indications pratiques pour obtenir um brevet de femme
chic, op. cit., p. 78.
12. Baronne Staffe, Usages du monde, op. cit., p. 103.
13. Dictionnaire de
l´étiquette, op. cit., t. II, p. 347.
14. M. Barrès a A. de Noailles, carta de
6 de agosto de 1903, em Correspondance,
L´Inventaire, 1994, p. 29.
15. G. Legouvé, Le Mérite des femmes, Camuzeaux, 1835, p. XLVII.
16. Le Conseiller des dames, jornal
d´économie domestique et de travaux d´aiguille, 1847-1848, t. I, p. 1.
17. Comtesse
de Gencé, Code mondain de la jeune fille, Bibliothéque des oeuvres
pratiques, 1909, p. 32.
18. Citado por Mme de Saint El..., Les Femmes au XIXe siècle, 1828, pp. 102-103.
19. Baronne Staffe, Usages du monde, op. cit., p. 226.
20. Mme Celnart, Nouveau Munuel complet de la bonne compagnie,
op. cit., p. 49.
21. Comtesse Drohojowska, Conseils à une fille sur les devoir à remplir dans le
monde, Lyon, Périsse, 1853, p. 98.
22. Marquise de Pompeillan, Usages du monde dans la societé moderne, le guide de
la femme du monde, Pontet-Brault, 1898, p. 228.
23. Comtesse de Gencé, Code mondain de la jeune fille, op. cit. Pp.
32, 228.
24. A. Corbin, em Ph. Ariès, G. Duby,
Histoire de l avie privée, Le Seuil, 1987, t. IV, p. 540.
25. Cf. A. Montandon,
“Civilités”, em Civilités extremes,
Clermont-Ferrand, Association publication faculté Clermont-Ferrand, 1997, pp.
115 sq.
26. Marquise de Pompeillan, Guide de la femme du monde, op. cit., p. 149.
27. Baronne Staffe, Usages du monde, 1989, p. 347.
28. Mme Celnart, Nouveau Munuel complet de la bonne compagnie,
op. cit., pp. 23-24.
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9 de outubro de 2012
Século XIX — saudades da época de bom gosto anterior à Revolução Francesa
Em continuação ao post abaixo (O refluxo da grosseria e o retorno da polidez) — a respeito do empenho revolucionário para a extinção da polidez e o esforço dos franceses, após a Revolução de 1789, para recuperar a antiga cortesia) —, transcrevo novos trechos da obra de Frédéric Rouvillois, “A HISTÓRIA DA POLIDEZ — de 1789 aos nossos dias”.
“Em seu Dicionário dos costumes do mundo, surgido durante a Restauração(*), a condessa de Genlis afirma que as boas maneiras ‘foram inteiramente abolidas em 1792 até 1800, quando algumas delas começaram a ser retomadas’.(1)
De fato, os manuais de polidez se multiplicam entre 1800 a 1814, como se fosse pretendida uma revanche contra a grosseria revolucionária e a corrupção do Diretório. No entanto, essa renovação se efetua segundo um espírito que a governanta do duque de Orleáns considera muito diferente daquele que regera os costumes antigos. [...]
Sob o Antigo Regime, de fato, o savoir-vivre se forma e se modifica a partir de um lugar único: a corte, centro de gravidade da alta sociedade, da vida mundana e dos bons costumes, na época de Luis XIV(2); uma corte que se estende pelos ‘salões’, sob o reinado de seus dois sucessores, Luis XV e Luis XVI. [...]
Mas para poder desempenhar o novo papel social que daí por diante lhe cabe, o savoir-vivre sofrerá uma mutação profunda. É certo que deverá ser codificado, a fim de poder ser conhecido, aplicado e difundido. Até a Revolução, as regras do savoir-vivre, transmitidas oralmente no seio das famílias, encontravam-se dispersas, nos escritos dos moralistas. Salvo raras exceções, não se fazia o esforço de reunir esses preceitos de forma ordenada e sistemática, a não ser para as crianças, às quais se destinavam a Civilidade dos costumes das crianças, de Erasmo (1526), e A civilidade pueril e honesta, de [São] Jean-Baptiste de La Salle (1713) [imagem ao lado], dois volumes tão sumários quanto frequentemente reeditados, com infinitas variantes. [...]
Nostalgia da cortesia que dava o tom antes da Revolução Francesa
No século XIX, ao contrário, é precisamente a mobilidade social, o surgimento e a rápida ascensão de uma classe média que vão tornar indispensável esse gênero literário. O mesmo fenômeno produz em outras partes, além da Mancha e do Atlântico, onde a criação de manuais de boas maneiras parecem ter sido, paradoxalmente, ainda mais prolífera, com uma média de cinco ou seis por ano, entre 1870 e 1914. Mas a França, a esse respeito, não está em repouso: no século XIX, publicam-se várias centenas de obras consagradas mais ou menos diretamente ao savoir-vivre, ‘códigos’, ‘manuais’, tratados completos ou abreviados, guias ou dicionários, obras inumeráveis, mas que são também muito lidas, mesmo nas camadas mais modestas da população, e reeditadas à exaustão. Uma das mais famosas, Costumes do mundo [ao lado, capa do livro], da baronesa de Stasse, publicada pela primeira vez em 1889, já estava na sua 131ª edição em 1899, dez anos após seu aparecimento, sem saturar o mercado. [...]
A partir da década de 1860 esses manuais são geralmente redigidos por senhoras portadoras de títulos de nobreza, sendo destinado principalmente ao público feminino, pois se trata de mostrar à pequena e à média burguesia como se deve comportar em alta sociedade e o que é preciso para ‘fazer parte’ dela. [...]
Os manuais de boas maneiras conferem ao decoro um caráter sistemático, minucioso, sofisticado, que contrasta com a flexibilidade e o tratamento da polidez pré-revolucionária. A crer nos observadores da época, essa rigidez remontaria à etiqueta constrangedora em uso na corte imperial, e ao tom ‘exagerado, enfático, empolado’(3) que, a partir daí, se disseminaria pelo conjunto da polidez francesa. Ou, contrariamente às esperanças dos nostálgicos do Antigo Regime, esta não reencontrará nem seu brilho nem sua simplicidade ingênua, aquilo que Balzac chamava de ‘a graciosa franqueza do século XVIII’. Pois a rigidez napoleônica será bem cedo substituída por um rigorismo de outro gênero, importado da Inglaterra, que marcará fundo os códigos de boas maneiras de 1830. [...]
É sob o reinado do rei burguês, Luis Felipe, que a França vai saturar-se da polidez à inglesa, que corresponde perfeitamente às expectativas, às necessidades e às estratégias da nova classe dominante. E essa influência inglesa será tão determinante que a Revolução de Julho vai acompanhar por muitos anos ‘o exílio interior’ da alta aristocracia legitimista do bairro de Saint-Germain, que depois da Restauração dava o tom, desempenhando o papel de mantenedor oficioso da antiga cortesia francesa. [...]
Funções sociais do decoro no vestuário
‘Dentre todos os hábitos do savoir-vivre, ignorar os que dizem respeito ao toucador e à indumentária denota a máxima vulgaridade’,(4) A etiqueta íntima declara gravemente madame d´Alq, no início da Terceira República.(5) Essa ideia, expressa ao longo de todo o século, brota praticamente da evidência: ‘As funções sociais do decoro no vestuário’, explica a esse propósito o historiador Philippe Perrot, ‘revestem uma importância particular por sua natureza imediatamente visível. Essas leis permitem, antes mesmo de qualquer palavra ou gesto, identificar de imediato o contraventor mais ou menos ignorante e remetê-lo ao lugar que merece’(6) — ou constatar, ao contrário, que a pessoa com quem cruzamos conhece os costumes do savoir-vivre e os pratica corretamente. ‘Assim como uma só palavra basta para trair uma origem, para revelar um passado ou um presente equivoco’, observa Éliane de Sérieul, sob o Segundo Império, ‘da mesma forma não é preciso senão uma renda desajustada, um babado, uma pena, um bracelete e, sobretudo, um par de brincos ou qualquer outro ornamento ambicioso para determinar uma condição social ou propiciar uma classificação aos olhos do homem ou da mulher providos de tato. Certas afetações na maneira de se vestir são falhas de elegância, assim como certas locuções são incompatíveis com a distinção de linguagem’.(7) [...]
‘Usar uma indumentária em harmonia não só consigo mesmo, com seu caráter, humor, idade, fisionomia, tez, cor de olhos e cabelos, mas também com suas posses e com o lugar que ocupa no mundo, com os eventos e as horas do dia, com as épocas do ano, com os espaços a percorrer, eis aí’, nota Philippe Perrot, ‘um dos primeiros arcanos do decoro no vestuário’.(8) [...]
Função do chapéu — ao mesmo tempo ornamento e escudo
Assim como as luvas, e pelas mesmas razões, claramente simbólicas, o chapéu é, no século XIX, um acessório essencial da indumentária feminina, e um dos mais reveladores. E ele de fato corresponde à imagem da mulher, tal como esta é representada pela burguesia dominante: um ser moralmente superior aos homens, mas fisicamente inferior, um bibelô precioso e frágil, que deve ser protegido contra as ameaças sem número que a cercam.
Daí a função do chapéu, ao mesmo tempo ornamento e escudo. A mulher deve conservar essa proteção, enquanto existir uma ‘ameaça’, por mais virtual ou teórica que seja.
Por isso, estima a baronesa Staffe, é sinal de incivilidade aparecer sem chapéu onde se corre o risco de encontrar, a qualquer momento, algum desconhecido, de quem se ignora o próprio nome.(9)
Luvas, bengala, gravata — no século XIX, epicentro do decoro masculino
No século XIX, o vestuário masculino interessa bem menos aos manuais de boas maneiras, às revistas ou às crônicas da moda do que o das mulheres. Depois da Restauração(*), concebido sobre o modelo inglês, o traje do homem tende cada vez mais à uniformidade e à austeridade, contrastando nesse aspecto com a diversidade, a profusão e a suntuosidade dos vestuários femininos. Para o homem de sociedade e o burguês, o século XIX é o século do traje preto e do chapéu alto.
No entanto, essa simplicidade não deixa de estar igualmente submetida a seus códigos — pois cada hora do dia se caracteriza por um vestuário particular, cada acessório é objeto de regulamentações minuciosas, quer se trate de luvas, bengala ou gravata — epicentro do decoro masculino no vestuário. [...]
Gravata — influência política, física e moral, suas formas, cores e espécies
A gravata, escreve Balzac, ‘esparge como que um perfume raro em toda a indumentária’, estando ‘para esta assim como a trufa está para o jantar’. Ela constitui o acessório decisivo, numa época em que estes adquirem uma importância inédita.
De casaca ou de casaco longo, só um olho de fato bem treinado distingue, ao primeiro golpe, o duque de um funcionário de cartório. São, pois, outros signos que vão indicar as diferenças: as bengalas (particularmente perto do fim do século), as luvas, certamente, mas antes de mais nada e acima de tudo as gravatas, como declara, ainda, Balzac, em um artigo publicado em junho de 1830: ‘Da gravata, considerada em si mesma e em suas relações com a sociedade e os indivíduos’. ‘Sob o Antigo Regime, cada classe da sociedade tinha sua vestimenta; reconhecia-se pela roupa o senhor, o burguês, o artesão. Então, a gravata [...] era só um complemento necessário, de forro mais ou menos rico, mas não merecedor de consideração, assim como sem importância pessoal. Enfim os franceses se tornaram todos iguais em seus direitos, bem como em sua indumentária, e a diferença no forro ou no corte dos trajes não distinguia mais as condições. Como então ser reconhecido em meio a essa uniformidade? Por qual signo exterior distinguir o nível de cada indivíduo? A partir daí, destinava-se à gravata um novo destino: desde então, ela nasceu para a vida pública, adquiriu importância social, pois foi chamada a restabelecer as nuanças, inteiramente apagadas, na indumentária; ela se tornou o critério que permite reconhecer o homem como deve ser e o homem sem educação’(10)
Acessório por excelência, a gravata, no entanto, esteve sujeita, da Revolução ao início do século XX, a variações muito rápidas.(11)
Vergonha dos revolucionários, que descobrem o pescoço ou substituem esse símbolo aristocrático por um pano qualquer, amarrado como um lenço; reaparecendo depois do Terror, particularmente entre os jovens extravagantes, que viram aí uma forma de manifesto contra-revolucionário; é sob a Restauração, na época em que Balzac publica sua Fisiologia da Indumentária, que a gravata conhece seu momento de glória. É então que se publica, para uso dos homens elegantes, um Tratado geral das gravatas consideradas em sua origem, sua influência política, física e moral, suas formas, suas cores e suas espécies (1823), Seguida, em 1927, por uma Arte de colocar a gravata de todas as maneiras conhecidas e usuais, ensinada e demonstrada, em dezesseis lições, pelo barão Émile de L´Empesé. [...]
Mas as coisas mudam depois de 1830 e do advento da Monarquia de Julho, dominada pelas elites burguesas mais ativas, que já não dispõem de tanto lazer nem das motivações necessárias, havia pouco, ao rito complexo da gravata. Eis a razão pela qual esta se simplifica, até mesmo em seu volume, assim como também seu papel social tende a se reduzir.
Nem precisaria ser dito, no entanto, que seu uso permanece obrigatório, desde a adolescência, praticamente em todos os momentos do dia.
_________________
Notas:
(*) Período transcorrido de 1814 a 1830, em que se pretendeu, após a queda de Napoleão, o restabelecimento dos princípios monárquicos que vigoraram no regime anterior à Revolução Francesa.
1. Dictionnaire des usages du monde, Mongie-Ainé, 1818, t. I, p. 75.
2. N. Élias, La Société de Cour, Flammarion, 1985, pp. 63-64.
3. La Politesse qui régnait à l´ancienne Cour de France comparée au ton de la Cour de Bonaparte, Renand, 1814, p. 7.
4. Mme d´Alq, Le Savoir-Vivre en toutes les circonstances de l´vie, librairie de la famille, François Ebhardt, 24ª ed., 1879, p. 209.
5. Governo republicano da França, de 1870 até a invasão dos nazistas, em 1840, quando passa a ser governo de Vichy. Foi a mais longa república deste a Revolução Francesa de 1789. (N.T.)
6. Ph. Perrot, Les Dessus et les Dessous de la burgeoisie, une histoire du vétement au XIXe siècle, Bruxelas, Complexe, 1984, p. 169.
7. Le Diable rose, nº 4, t. 3, 20 de julho de 1862.
8. Ph. Perrot, Les Dessus et les Dessous de la burgeoisie, une histoire du vétement au XIXe siècle, op. cit., pp. 172-173.
9. Agenda de la baronne Staffe, 1897, Havard, 1897, p. 51.
10. H. de Balzac, Physiologie de la toilette, Oeuvres diverses, p. 47.
11. Ph. Perrot, Les Dessus et les Dessous de la burgeoisie, une histoire du vétement au XIXe siècle, op. cit., pp. 208 e ss.
“Em seu Dicionário dos costumes do mundo, surgido durante a Restauração(*), a condessa de Genlis afirma que as boas maneiras ‘foram inteiramente abolidas em 1792 até 1800, quando algumas delas começaram a ser retomadas’.(1)
De fato, os manuais de polidez se multiplicam entre 1800 a 1814, como se fosse pretendida uma revanche contra a grosseria revolucionária e a corrupção do Diretório. No entanto, essa renovação se efetua segundo um espírito que a governanta do duque de Orleáns considera muito diferente daquele que regera os costumes antigos. [...]
Sob o Antigo Regime, de fato, o savoir-vivre se forma e se modifica a partir de um lugar único: a corte, centro de gravidade da alta sociedade, da vida mundana e dos bons costumes, na época de Luis XIV(2); uma corte que se estende pelos ‘salões’, sob o reinado de seus dois sucessores, Luis XV e Luis XVI. [...]
Mas para poder desempenhar o novo papel social que daí por diante lhe cabe, o savoir-vivre sofrerá uma mutação profunda. É certo que deverá ser codificado, a fim de poder ser conhecido, aplicado e difundido. Até a Revolução, as regras do savoir-vivre, transmitidas oralmente no seio das famílias, encontravam-se dispersas, nos escritos dos moralistas. Salvo raras exceções, não se fazia o esforço de reunir esses preceitos de forma ordenada e sistemática, a não ser para as crianças, às quais se destinavam a Civilidade dos costumes das crianças, de Erasmo (1526), e A civilidade pueril e honesta, de [São] Jean-Baptiste de La Salle (1713) [imagem ao lado], dois volumes tão sumários quanto frequentemente reeditados, com infinitas variantes. [...]
Nostalgia da cortesia que dava o tom antes da Revolução Francesa
No século XIX, ao contrário, é precisamente a mobilidade social, o surgimento e a rápida ascensão de uma classe média que vão tornar indispensável esse gênero literário. O mesmo fenômeno produz em outras partes, além da Mancha e do Atlântico, onde a criação de manuais de boas maneiras parecem ter sido, paradoxalmente, ainda mais prolífera, com uma média de cinco ou seis por ano, entre 1870 e 1914. Mas a França, a esse respeito, não está em repouso: no século XIX, publicam-se várias centenas de obras consagradas mais ou menos diretamente ao savoir-vivre, ‘códigos’, ‘manuais’, tratados completos ou abreviados, guias ou dicionários, obras inumeráveis, mas que são também muito lidas, mesmo nas camadas mais modestas da população, e reeditadas à exaustão. Uma das mais famosas, Costumes do mundo [ao lado, capa do livro], da baronesa de Stasse, publicada pela primeira vez em 1889, já estava na sua 131ª edição em 1899, dez anos após seu aparecimento, sem saturar o mercado. [...] A partir da década de 1860 esses manuais são geralmente redigidos por senhoras portadoras de títulos de nobreza, sendo destinado principalmente ao público feminino, pois se trata de mostrar à pequena e à média burguesia como se deve comportar em alta sociedade e o que é preciso para ‘fazer parte’ dela. [...]
Os manuais de boas maneiras conferem ao decoro um caráter sistemático, minucioso, sofisticado, que contrasta com a flexibilidade e o tratamento da polidez pré-revolucionária. A crer nos observadores da época, essa rigidez remontaria à etiqueta constrangedora em uso na corte imperial, e ao tom ‘exagerado, enfático, empolado’(3) que, a partir daí, se disseminaria pelo conjunto da polidez francesa. Ou, contrariamente às esperanças dos nostálgicos do Antigo Regime, esta não reencontrará nem seu brilho nem sua simplicidade ingênua, aquilo que Balzac chamava de ‘a graciosa franqueza do século XVIII’. Pois a rigidez napoleônica será bem cedo substituída por um rigorismo de outro gênero, importado da Inglaterra, que marcará fundo os códigos de boas maneiras de 1830. [...]
É sob o reinado do rei burguês, Luis Felipe, que a França vai saturar-se da polidez à inglesa, que corresponde perfeitamente às expectativas, às necessidades e às estratégias da nova classe dominante. E essa influência inglesa será tão determinante que a Revolução de Julho vai acompanhar por muitos anos ‘o exílio interior’ da alta aristocracia legitimista do bairro de Saint-Germain, que depois da Restauração dava o tom, desempenhando o papel de mantenedor oficioso da antiga cortesia francesa. [...]
Funções sociais do decoro no vestuário
‘Dentre todos os hábitos do savoir-vivre, ignorar os que dizem respeito ao toucador e à indumentária denota a máxima vulgaridade’,(4) A etiqueta íntima declara gravemente madame d´Alq, no início da Terceira República.(5) Essa ideia, expressa ao longo de todo o século, brota praticamente da evidência: ‘As funções sociais do decoro no vestuário’, explica a esse propósito o historiador Philippe Perrot, ‘revestem uma importância particular por sua natureza imediatamente visível. Essas leis permitem, antes mesmo de qualquer palavra ou gesto, identificar de imediato o contraventor mais ou menos ignorante e remetê-lo ao lugar que merece’(6) — ou constatar, ao contrário, que a pessoa com quem cruzamos conhece os costumes do savoir-vivre e os pratica corretamente. ‘Assim como uma só palavra basta para trair uma origem, para revelar um passado ou um presente equivoco’, observa Éliane de Sérieul, sob o Segundo Império, ‘da mesma forma não é preciso senão uma renda desajustada, um babado, uma pena, um bracelete e, sobretudo, um par de brincos ou qualquer outro ornamento ambicioso para determinar uma condição social ou propiciar uma classificação aos olhos do homem ou da mulher providos de tato. Certas afetações na maneira de se vestir são falhas de elegância, assim como certas locuções são incompatíveis com a distinção de linguagem’.(7) [...]
‘Usar uma indumentária em harmonia não só consigo mesmo, com seu caráter, humor, idade, fisionomia, tez, cor de olhos e cabelos, mas também com suas posses e com o lugar que ocupa no mundo, com os eventos e as horas do dia, com as épocas do ano, com os espaços a percorrer, eis aí’, nota Philippe Perrot, ‘um dos primeiros arcanos do decoro no vestuário’.(8) [...]
Função do chapéu — ao mesmo tempo ornamento e escudo
Assim como as luvas, e pelas mesmas razões, claramente simbólicas, o chapéu é, no século XIX, um acessório essencial da indumentária feminina, e um dos mais reveladores. E ele de fato corresponde à imagem da mulher, tal como esta é representada pela burguesia dominante: um ser moralmente superior aos homens, mas fisicamente inferior, um bibelô precioso e frágil, que deve ser protegido contra as ameaças sem número que a cercam.
Daí a função do chapéu, ao mesmo tempo ornamento e escudo. A mulher deve conservar essa proteção, enquanto existir uma ‘ameaça’, por mais virtual ou teórica que seja.
Por isso, estima a baronesa Staffe, é sinal de incivilidade aparecer sem chapéu onde se corre o risco de encontrar, a qualquer momento, algum desconhecido, de quem se ignora o próprio nome.(9)
Luvas, bengala, gravata — no século XIX, epicentro do decoro masculino
No século XIX, o vestuário masculino interessa bem menos aos manuais de boas maneiras, às revistas ou às crônicas da moda do que o das mulheres. Depois da Restauração(*), concebido sobre o modelo inglês, o traje do homem tende cada vez mais à uniformidade e à austeridade, contrastando nesse aspecto com a diversidade, a profusão e a suntuosidade dos vestuários femininos. Para o homem de sociedade e o burguês, o século XIX é o século do traje preto e do chapéu alto.
No entanto, essa simplicidade não deixa de estar igualmente submetida a seus códigos — pois cada hora do dia se caracteriza por um vestuário particular, cada acessório é objeto de regulamentações minuciosas, quer se trate de luvas, bengala ou gravata — epicentro do decoro masculino no vestuário. [...]
Gravata — influência política, física e moral, suas formas, cores e espécies
A gravata, escreve Balzac, ‘esparge como que um perfume raro em toda a indumentária’, estando ‘para esta assim como a trufa está para o jantar’. Ela constitui o acessório decisivo, numa época em que estes adquirem uma importância inédita.
De casaca ou de casaco longo, só um olho de fato bem treinado distingue, ao primeiro golpe, o duque de um funcionário de cartório. São, pois, outros signos que vão indicar as diferenças: as bengalas (particularmente perto do fim do século), as luvas, certamente, mas antes de mais nada e acima de tudo as gravatas, como declara, ainda, Balzac, em um artigo publicado em junho de 1830: ‘Da gravata, considerada em si mesma e em suas relações com a sociedade e os indivíduos’. ‘Sob o Antigo Regime, cada classe da sociedade tinha sua vestimenta; reconhecia-se pela roupa o senhor, o burguês, o artesão. Então, a gravata [...] era só um complemento necessário, de forro mais ou menos rico, mas não merecedor de consideração, assim como sem importância pessoal. Enfim os franceses se tornaram todos iguais em seus direitos, bem como em sua indumentária, e a diferença no forro ou no corte dos trajes não distinguia mais as condições. Como então ser reconhecido em meio a essa uniformidade? Por qual signo exterior distinguir o nível de cada indivíduo? A partir daí, destinava-se à gravata um novo destino: desde então, ela nasceu para a vida pública, adquiriu importância social, pois foi chamada a restabelecer as nuanças, inteiramente apagadas, na indumentária; ela se tornou o critério que permite reconhecer o homem como deve ser e o homem sem educação’(10)
Acessório por excelência, a gravata, no entanto, esteve sujeita, da Revolução ao início do século XX, a variações muito rápidas.(11)
Vergonha dos revolucionários, que descobrem o pescoço ou substituem esse símbolo aristocrático por um pano qualquer, amarrado como um lenço; reaparecendo depois do Terror, particularmente entre os jovens extravagantes, que viram aí uma forma de manifesto contra-revolucionário; é sob a Restauração, na época em que Balzac publica sua Fisiologia da Indumentária, que a gravata conhece seu momento de glória. É então que se publica, para uso dos homens elegantes, um Tratado geral das gravatas consideradas em sua origem, sua influência política, física e moral, suas formas, suas cores e suas espécies (1823), Seguida, em 1927, por uma Arte de colocar a gravata de todas as maneiras conhecidas e usuais, ensinada e demonstrada, em dezesseis lições, pelo barão Émile de L´Empesé. [...]
Mas as coisas mudam depois de 1830 e do advento da Monarquia de Julho, dominada pelas elites burguesas mais ativas, que já não dispõem de tanto lazer nem das motivações necessárias, havia pouco, ao rito complexo da gravata. Eis a razão pela qual esta se simplifica, até mesmo em seu volume, assim como também seu papel social tende a se reduzir.
Nem precisaria ser dito, no entanto, que seu uso permanece obrigatório, desde a adolescência, praticamente em todos os momentos do dia.
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Notas:
(*) Período transcorrido de 1814 a 1830, em que se pretendeu, após a queda de Napoleão, o restabelecimento dos princípios monárquicos que vigoraram no regime anterior à Revolução Francesa.
1. Dictionnaire des usages du monde, Mongie-Ainé, 1818, t. I, p. 75.
2. N. Élias, La Société de Cour, Flammarion, 1985, pp. 63-64.
3. La Politesse qui régnait à l´ancienne Cour de France comparée au ton de la Cour de Bonaparte, Renand, 1814, p. 7.
4. Mme d´Alq, Le Savoir-Vivre en toutes les circonstances de l´vie, librairie de la famille, François Ebhardt, 24ª ed., 1879, p. 209.
5. Governo republicano da França, de 1870 até a invasão dos nazistas, em 1840, quando passa a ser governo de Vichy. Foi a mais longa república deste a Revolução Francesa de 1789. (N.T.)
6. Ph. Perrot, Les Dessus et les Dessous de la burgeoisie, une histoire du vétement au XIXe siècle, Bruxelas, Complexe, 1984, p. 169.
7. Le Diable rose, nº 4, t. 3, 20 de julho de 1862.
8. Ph. Perrot, Les Dessus et les Dessous de la burgeoisie, une histoire du vétement au XIXe siècle, op. cit., pp. 172-173.
9. Agenda de la baronne Staffe, 1897, Havard, 1897, p. 51.
10. H. de Balzac, Physiologie de la toilette, Oeuvres diverses, p. 47.
11. Ph. Perrot, Les Dessus et les Dessous de la burgeoisie, une histoire du vétement au XIXe siècle, op. cit., pp. 208 e ss.
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30 de julho de 2012
A cortesia francesa
Paulo Roberto Campos
Numa recente viagem a Paris (a primeira em minha vida), preparei-me e fui “escudado” para receber todo tipo de “alfinetadas”, descortesias, indiretas, diretas, “patadas” etc., pois — era o que eu ouvia aqui no Brasil —, “na atualidade, em geral o francês é ranzinza e trata mal todo mundo”. Um engano! Fiquei muitíssimo surpreso, e encantado, ao encontrar o oposto do que ouvia. Encontrei os franceses extremamente amáveis, manifestando suprema cortesia em atender, em dar informações, até pormenorizadamente, a um estrangeiro como eu. Poderia dar vários exemplos do bom trato recebido e das boas maneiras que presenciei.
Se o francês foi ranzinza (ou ainda o é), ele não manifesta sua “ranzinzice”. A gentileza impera. Não sei se posso generalizar, e nem sei se a França inteira é assim. Nem estou seguro para dizer que a França foi ranzinza e que agora mudou. Mas o testemunho que eu dou é que, atualmente, o parisiense apresenta-se muito cortês. É a impressão que tive nos inúmeros contatos com a gentileza na “Cidade Luz”, não presenciando grosserias ou indelicadezas no trato. Na verdade, uma só, mas creio que foi a exceção que confirma a regra.
Mas, é claro, você também precisa tratar os franceses com toda cortesia. Por exemplo, usei aqui o pronome “você” (o que parece compreensível no Brasil, ao me dirigir aos diletos leitores deste blog). Lá o pronome correto no caso é “Vous”, tanto para a Madame como para o Monsieur.
Um exemplo comezinho, mas que me encantou, pois já no primeiro e breve diálogo que tive, logo ao entrar no avião da Air France:
— Bonjour Monsieur!
— Bonjour Madame!
— Bienvenu!
— Merci!
Na França o “Bonjour” e o “Merci” são expressões quase sagradas. Ao entrar em qualquer estabelecimento, por exemplo numa boulangerie (padaria), não se pode — EM HIPÓTESE ALGUMA — ir logo fazendo o pedido da sua apetitosa baguette (pão longo) ou de qualquer outro saboroso petisco. Os franceses não veem isso com bons olhos, julgam uma falta de educação muito grave. Em primeiríssimo lugar, você tem que usar a expressão “Bonjour Madame” ou “Bonjour Monsieur”. Após ouvir o “Bonjour” da outra parte é que se pode então fazer o seu pedido. Isso antes de iniciar qualquer diálogo e em qualquer lugar, mesmo na rua. Do contrário, os franceses, até por cortesia, poderão não dizer nada, mas pensarão: “Esse sujeito é deselegante”. Num português curto e grosso: “Esse sujeito é um “casca-grossa”...
O “Merci” também é indispensável nesse “cerimonial”. Sempre respondido com o “de rien” (de nada) ou “je vous en prie”. Não sei se exagero, mas acho que a expressão que mais ouvi em todos os lugares de Paris foi o “Merci”. Em segundo lugar, o “Bonjour” e em terceiro o “Pardon, Monsieur”, “Pardon, Madame”.
Aqui abro um parêntesis: Alguém poderia objetar que isso (o modo de cumprimentar) é uma coisa insignificante que não modifica uma sociedade.
— Responderia que APARENTEMENTE é uma coisa insignificante, mas que essa simples, pequena e fácil manifestação de cortesia, de respeito pelo próximo, pode mudar a história de uma pessoa, de uma família, de um país. Um exemplo: Se alguém, ao cruzar com um vizinho, não o saúda com o “Bom dia, senhor fulano”, poderá deixá-lo magoado. Ademais, seu filho seguirá o exemplo, imitando sua descortesia com os colegas. Você poderá ter contribuído assim para que o filho seja grosseiro. A família poderá viver em atitudes grosseiras e em conflitos uns dando “patadas” nos outros. Seu filho quando crescer, o que será para a sociedade e para o País?
* * *
Fechando o parêntesis e encerrando esse post: Ainda não encontrei resposta para uma questão: Será que tendo perdido o trato delicado a França ficou ranzinza, mas que atualmente está reencontrando a cortesia perdida? Com saudades da “douceur de vivre” (doçura de viver) quotidiana na França do “Ancien Régime”? Como vimos no post anterior ( Em busca da cortesia perdida! ), na “Belle Époque”, ocorreu esse “reencontro” com algo do estilo de vida elegante e cortês do “Ancien Régime”. De passagem, falando de “Ancien Régime”, não resisto em inserir aqui um comentário de Talleyrand sobre essa época anterior à Revolução Francesa: “Ceux qui n'ont pas vécu avant 1789, ne connaissent pas la douceur de vivre" (“Aqueles que não viveram antes de 1789, não sabem o que é a doçura de viver”).
* * *
A propósito da impressão (sobre o reencontro com a cortesia) que trouxe da “Cidade Luz” — que muito me marcou, mas para a qual não encontrei resposta — pesquisei em alguns textos que guardo e deparei-me com uma conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira — um grande admirador da “Douce et Belle France” — na qual ele tece interessante comentário sobre o país. Aqui ofereço um trechinho que selecionei para nossos leitores: | Quadro exposto no Musée Carnavalet, em Paris (Foto PRC) |
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Gentileza
26 de julho de 2012
Em busca da cortesia perdida!
| Quadro exposto no Musée Carnavalet (em Paris) representando o esplendor de vida da sociedade parisiense na Belle Époque (Foto PRC). |
O autor mostra como na Belle Époque reluzia o bom trato entre as pessoas, a cortesia era a agradável companheira da vida quotidiana, mas que, com as invenções modernas — como a eletricidade, telefone, rádio, cinema, bicicletas, automóveis etc. — entrou naquela bela época a mania da velocidade e com isso a mudança nas tradições de família, no bom trato social, nas boas maneiras. Em síntese: entra o progresso técnico e a cortesia se retira.
Belle Époque — esplendores e contradições
Transcorrida entre 1870 e 1914, foi uma época brilhante, na qual infelizmente o mito do progresso gerou novos estilos de vida, incompatíveis com a moral, o esplendor e a cortesia
Nelson R. Fragelli
Fonte: Revista Catolicismo, edição 729 (Setembro/2011)
Duas impressões vêm à mente da maior parte das pessoas quando pensam na Belle Époque. De um lado, as roupas femininas — saias longas, apertadas na cintura, chapéus largos, a sombrinha não podia faltar. E os trajes masculinos — fraque escuro e cartola. Ainda hoje, em ocasiões de gala, os homens usam esse traje como sendo o máximo da elegância.
Indissociavelmente ligadas a tal modo de vestir ficaram na lembrança as boas maneiras e a cortesia. Eram nas festas, recepções, concertos que essa distinção de trato encontrava o ambiente próprio a se desenvolver e encantar a sociedade. Não havia maior prazer do que a conversa.
A arte de conversar era então das mais cultivadas. No centro dessa arte estava a cortesia. Isto é, a consideração pela dignidade própria ao interlocutor, fosse ele sacerdote, nobre ou pessoa do povo. A escolha do assunto? — se é que se pode falar de escolha, pois ele surgia segundo a ocasião social, iluminando-se gradativamente, suavemente, como o acender das velas por lacaios em libré, lustre após lustre, naqueles salões. O desenvolvimento do assunto e a escolha das frases, isto sim, era circunstancial, fazendo da conversa uma obra de minuciosa composição temática. Uma obra que encantava.
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| Joaquim Nabuco / Foram a amenidade e a elegância da vida social que tornaram a Belle Époque bela / Cena do dia da Primeira Comunhão em Paris |
Que críticas não se deviam fazer em determinado ambiente? Ou em que medida fazer elogios? Em caso de uma discussão, como manter a elevação da conversa? Caso se tratasse de convite para um jantar, por exemplo, que flores oferecer e com que traje comparecer? Como se servir dos talheres, do guardanapo, dos vinhos? Terminada refeição, prescreviam os ritos sociais conhecer o momento oportuno de se retirar, a fim de nem sobrecarregar a hospitalidade dos anfitriões com uma conversa muito longa, nem dar a impressão de aborrecimento, retirando-se apressadamente.
Todos os atos da vida social eram organizados segundo regras — flexíveis de acordo com o bom senso, é claro, mas que constituíam uma verdadeira liturgia da vida civil — cuja finalidade era dar ao próximo respeito, reverência e honra. Havia então uma ordem de valores que unia a todos da sociedade e essa ordem era superior aos interesses ou aos prazeres individuais. Essa liturgia era um resto da antiga caridade cristã, ensinada pela Igreja, e cujo modelo tinham sido as interlocuções dos monges nos mosteiros e nas abadias. Havia um momento da vida monacal dedicado à conversa — e ela era obra de santificação — que ensinava a dominar as inclinações e controlar a vontade própria em favor do próximo. Primava a caridade.
Assim, na Belle Époque, foi a amenidade e a elegância da vida social que a tornaram bela. A vida de salão atraía irresistivelmente a todos, porque no contacto humano a cortesia dá um prazer durável. A cortesia é o melhor portador de respeito e amizade: dois sentimentos que confortam a alma. A distinção orienta o homem no sentido diáfano do anjo.
Um episódio muito ilustrativo da época
Talvez um exemplo faça luz sobre a cortesia de então. Nos primeiros anos do século XX, em plena Belle Époque, chefiava Joaquim Nabuco a Missão Diplomática do Brasil em Londres. Pertencente a uma família de políticos, intelectual de renome, tomado por abstrações filosóficas e políticas, Nabuco era conhecido por suas distrações.
Tendo recebido convite, belamente impresso, para jantar em casa de outro embaixador, esforçou-se por chegar à hora, pois embora a pontualidade não estivesse de modo algum em seus hábitos, na Inglaterra ela sempre foi rigorosamente exigida. Recebido pontualmente pelo mordomo, teve entretanto de esperar um tempo mais longo do que habitual até que aparecesse o embaixador, acompanhado de sua senhora. Amabilíssimos, contentes com a presença de Nabuco, mestres na arte de receber, incitaram-no a falar — desde sobre florestas exóticas do Brasil até os movimentos sociais da recente República — o que muito lhe agradou. Terminados o jantar e a animada conversa, o casal o acompanhou até a saída, e ao abrir-lhe a porta do cabriolé, disse então o diplomático anfitrião, com ligeira inclinação: “Prezado Doutor Nabuco, segundo o convite que tivemos a honra de lhe enviar, nós o aguardamos então, amanhã, para o jantar”. Nabuco tinha se enganado de data e comparecido um dia antes...
Salões e a nobre arte da conversa
Não surpreende que, em razão dessa amenidade de trato, nas grandes cidades européias os salões se multiplicavam em todas as classes sociais. A elite, em seus palácios, discutia arte e literatura, ambas em rápida transformação. Política era também um tema central. Monarquistas afeitos às belas e boas tradições enfrentavam os republicanos imbuídos de suas idéias de progresso e reformas sociais. Os salões burgueses se reuniam nos cafés. Escritores e poetas frequentavam cafés literários; professores e cientistas os cafés universitários. As novidades científicas empolgavam, pois as descobertas e invenções se multiplicavam. Na medicina surgiam novos remédios e métodos cirúrgicos. Em todos esses salões cintilavam inteligências. Quando o clima permitia, sobretudo na primavera e no verão, concertos e espetáculos ao ar livre reuniam nos grandes parques e jardins pessoas provenientes dos mais variados salões. Paris e Berlim ofereciam jardins cujo elevado bom gosto se refletia para os paulistanos no Parque da Luz e no Parque Antarctica, e para os cariocas na Praça Paris.
“Salões” nas pequenas cidades e aldeias
Havia também “salões” — talvez os mais autênticos — nas pequenas cidades e nas aldeias. À saída da Missa, pequenos grupos de pessoas se reuniam num café ou em casa de uma delas, quando não os recebia o chefe político local. A literatura, as artes, a ciência não constituíam os grandes temas das conversas. O centro das atenções era a vida do lugar. Uma cabra desaparecida, uma onça vista à noite ao lado do curral, o incêndio no paiol do vizinho, a chegada do novo pároco, rumores de que ladrões vindos de longe rondavam a região, narrativas de caçadas eram assuntos próprios a inflamar as conversas. Por vezes as reuniões se davam também durante a preparação das festas religiosas ou das procissões solenes. Desses encontros até crianças participavam, ouvindo silenciosamente, aprendendo com os mais velhos. Não havia rádio. A televisão estava ainda mais distante. Não havia, portanto, a excitação das novidades e a ânsia comercial despertada pela propaganda. As pessoas assim se preservavam, conservando o caráter autêntico de sua família e de sua região, sendo cada uma delas uma personalidade rica em particularidades. Precisamente esta riqueza tornava interessante o contacto, pois de que vale encontrar-se com pessoas padronizadas pela propaganda, tal como cada um dos outros? Se nesses “salões” a delicadeza cortês e as sutilezas de linguagem podiam não ser a nota dominante, como na capital, a autenticidade das almas oferecia uma variedade de caracteres também ela encantadora. Este esplendor das relações sociais conferiu à Belle Époque seu qualificativo de bela, tornando-a inesquecível.
Invenções modernas e mudanças sociais
Entretanto, havia o outro lado — realidade contraditória com o encanto social da Belle Époque. Ela representa a segunda impressão que logo vem à lembrança, ainda hoje, quando pensamos naquele período entre 1870-1914. Essa realidade se apresentou insidiosamente às pessoas de então, sob a máscara atraente do enorme progresso técnico. As cidades grandes foram as primeiras a adotar as invenções: eletricidade, telefone, rádio, cinema, bicicletas, automóveis. As conquistas da tecnologia entusiasmavam. Os olhos se enchiam de lágrimas ao verem os primeiros balões dirigíveis contornar as torres das catedrais ou ao se ter notícia, na Patagônia ou no Saara, da vitória japonesa em Port Arthur, no momento em que as armas ainda fumegavam: o telégrafo dava ao homem um novo senso de sua presença na Terra. Acreditava-se que a máquina a vapor e a eletricidade dariam ao mundo uma forma de felicidade nunca antes obtida.
Acontece que o progresso técnico trazia em seu bojo profundas mudanças sociais e morais, dele inseparáveis. Poucos viram esse perigo. Desejava-se juntar ao esplendor social os confortos trazidos pela técnica.
Mas a máquina, trazendo velocidades e a produção em massa, minava a sociedade. O trem — e logo depois o automóvel — trouxe o gosto pelas viagens — nascia o turismo, visitavam-se estações balneárias e montanhas desconhecidas da maioria. Consequentemente incrementava-se o esporte e com ele a modificação dos trajes, adaptados às novas maneiras e sempre tendentes a considerar como aceitável o que até pouco antes era visto como imoral. O esporte separava as gerações, pois os mais velhos ainda não os praticavam em razão das normas do decoro: como era ridículo ver alguém de fraque e cartola pedalando bicicletas! Com o esporte vieram as danças cujo ritmo parecia competir com a velocidade das máquinas, acelerando-se sempre, sempre mais sensuais. Do minueto passara-se à valsa, da valsa ao charleston e ao tango. A indústria empregava moças e elas, ainda então ligadas aos círculos da família paterna até o casamento, passaram a trabalhar como operárias ou secretárias, tornadas independes pelo salário. Aumentavam as uniões fora dos laços sagrados do matrimônio cristão, apareciam os primeiros casos de divórcio, caía a prática religiosa. Em vários países europeus aumentava a prostituição. A glorificação das velocidades intoxicou os espíritos que passaram a se distanciar de toda forma de recolhimento. Entre os balões dirigíveis e a torre da catedral, esta passou a representar o passado petrificado enquanto os dirigíveis simbolizavam o futuro, o movimento, pois eles permitiam o descortino de horizontes mais vastos.
Utopia socialista, desluzimento de uma bela época
Politicamente, os republicanos oriundos da Revolução Francesa viam com simpatia os novos costumes. Sabiam que a decadência moral dos anos precedentes à Revolução de 1789 tinha sido uma das principais causas da vitória revolucionária. Partidários do progresso e da técnica consideravam os restos de tradições cristãs como incompatíveis com os novos tempos. Essa mesma corrente evoluía, aos poucos, rumo à aceitação da utopia socialista.
Tanto os aficionados à elevação social daqueles anos, na qual viam um ideal a ser conservado, quanto os partidários do progresso tiveram enorme sobressalto com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, em meados de 1914. Os primeiros viam no terrível conflito a destruição de tradições tão preciosas e belas. Os outros, por reconhecer no progresso o criador de máquinas mortíferas nunca antes fabricadas. A brutalidade da Guerra sufocou na lama das trincheiras e nos gazes mortíferos a beleza daquela época. O mundo nunca mais voltou a ser o que era. O esplendor social empalideceu para em seguida entrar em obscuro ocaso. Hoje, em meio às frustrações de uma sociedade altamente tecnológica e vazia de conteúdo moral e religioso, um número crescente de pessoas admira o esplendor e lamenta o desaparecimento daquela doce liturgia que no convívio da Belle Époque regulava os atos de cortesia.
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