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19 de maio de 2026

Miguel, coroinha paulista com síndrome de Down

 

Plinio Maria Solimeo 

C
om o avanço da técnica hoje já se pode acompanhar pela ultrassonografia o desenvolvimento de um feto ao longo de uma gravidez. O que possibilita saber-se não só o sexo da criança por nascer, mas se ela apresenta alguma anomalia como a síndrome de Down. Se isso ocorre, os médicos normalmente (e criminosamente) aconselham à gestante a abortar. 

Por isso hoje, na Europa, cerca de 90% das gestações com diagnósticos de síndrome de Down são interrompidas. Ou seja, abortadas. Sendo que na Islândia, na Dinamarca e no Reino Unido essas taxas muitas vezes ultrapassam esses 90% dos casos diagnosticados. Nos Estados Unidos a taxa de interrupção após o diagnóstico é de cerca de 75%, mas varia de 61% a 93% dependendo da população pesquisada. 

Por que uma maioria de pais prefere o aborto do feto com Down? 

Alguém poderia perguntar: “Por que a maioria dos pais prefere assassinar a criança por nascer com síndrome de Down a ter um filho com essa síndrome?” 

Não é difícil responder: A criança nascida com essa síndrome, na maioria dos casos, apresenta deficiência intelectual, atrasos no desenvolvimento e características físicas específicas, atraso também no desenvolvimento cognitivo e da fala, e exige estimulação precoce e apoio pedagógico. Além do que sua aparência não é de todo agradável. 

Ora, perguntamos: se o aborto de um feto normal já é um pecado “que clama aos céus e pede a Deus por vingança” por ser um “homicídio voluntário”, o que não dizer desse homicídio perpetrado sobre um feto que, pela vontade divina, apresenta essa síndrome? 

Uma feliz exceção: um casal de Piracicaba 

Entretanto, há mães que se negam a matar o filho que está em suas entranhas com um aborto voluntário por ter síndrome de Down, aceitando todas as consequências que daí poderão advir.

Tal foi o caso do religioso casal Lopes, de Piracicaba, no interior do Estado de São Paulo. Quando a esposa, Tássia, pela ultrassonografia soube que seu bebê nasceria com síndrome de Down, apesar do conselho dos médicos para que abortasse, tanto ela quanto o esposo, confiando em Deus, se recusaram a isso e resolveram continuar a gestação até o fim prontos para o que desse e viesse. 

E assim, para alegria dos pais, há 11 anos nasceu Miguel portando como previsto a síndrome de Down. Apesar de que, desde o nascimento o menino enfrentasse severas complicações, isso não o impediu de viver e crescer até os 11 anos cheio de alegria. 

Coroinha com síndrome de Down 

Tássia começou a levar Miguel desde pequeno à igreja que frequentava, Santa Rosa de Lima em Piracicaba. Esta paróquia foi criada em janeiro de 2011 por Dom Fernando Mason, hoje bispo emérito, desmembrando-se da de Sant’Anna. Santa Rosa tornou-se então para muitos dos seus paroquianos, segundo o comentário de Roberta Bissolli, o “lugar onde sentimos a presença de Deus, minha casa [e o] melhor lugar [para se estar”]. 

Nessa tão acolhedora igreja Miguel foi muito bem recebido pelos paroquianos.

Acontece que, apesar de suas limitações por causa da síndrome, desde muito cedo ele manifestou o desejo de ser coroinha. 

Para atendê-lo foi preciso que a paróquia fizesse alguns ajustes, treinando seus catequistas de acordo com as necessidades de Miguel. Tássia acompanhou todo o processo, e a coordenadora da catequese, Jaci, também se esmerou em ampara-lo. 

Desse modo Miguel pôde realizar seu sonho, e hoje ajuda à Missa, ajoelhando-se, rezando e com a patena na hora da Comunhão. Sua presença se tornou uma parte familiar e cheia de alegria nas celebrações da paróquia. 

O valor do bom exemplo 

Da. Tássia diz que uma amiguinha de Miguel [cujo nome ela não dá por discrição] não ia habitualmente à igreja. Mas sabendo que ele era coroinha, suplicou à mãe que com ela passasse a frequentá-la. Diz Da. Tássia: “Agora ela [a menina] ajuda na hora da coleta, e sua mãe se tornou catequista”. 

O que prova como o bom exemplo sempre atrai. Pois, diz Da. Tássia, “com o tempo a presença de Miguel na paróquia encorajou outras famílias a retornar a ela. Algumas pessoas perguntam mesmo quando é que ele estará ajudando a Missa para assim também a assistirem”. 

Para as mães que esperam que seus filhos se engajem mais na vida paroquial, Da. Tássia aconselha: “Isso começa em casa. E quando você vai à igreja, esteja pronta a ajudar. A empatia deve vir dos dois lados: necessitamos acolher as pessoas, mas também ajudar a preparar o caminho”. 

Como parte desse esforço, ela criou um formulário intitulado "Quem Sou Eu?", que entrega aos catequistas. O formulário explica como seu filho aprende e se comunica, para ajudar a melhor o entender a fim de acompanhá-lo melhor na catequese .

13 de julho de 2024

O ENIGMA DA BASTILHA

 

A Queda da Bastilha, 14 de julho de 1789

O marco da sanguinária, e mesmo diabólica, Revolução Francesa foi a Queda da Bastilha, no dia 14 de julho de 1789, exatamente há 235 anos. Rememorando essa simbólica data, reproduzimos um artigo publicado na revista Catolicismo (edição de julho de 1951) de autoria de um saudoso diretor da revista (+1988) e brilhante advogado e jornalista, o Dr. José Carlos Castilho de Andrade.
 

Como se sabe, a Revolução Francesa marca o fim dos Tempos Modernos e o início da Época Contemporânea. Este acontecimento, que fica situado entre duas eras históricas inteiramente diversas, começou com a capitulação da velha fortaleza real ante o populacho amotinado, que nela via o símbolo da ordem de coisas que queria destruir.

Compreende-se pois que a Bastilha, em torno da qual pairavam lendas tão sinistras e emocionantes, tenha atraído a atenção dos historiadores e a curiosidade do público.

*   *   *

O 14 de Julho assinala o crepúsculo da verdadeira liberdade. Essa Bastilha Santo Antonio, que depois teve tão triste fama, começou a construir-se em 1370, no reinado de Carlos V, chamado o Sábio. Era então apenas uma fortificação para proteger contra os ataques inimigos a entrada de Paris pela Porta Santo Antonio.

Já no século seguinte recebia esporadicamente prisioneiros, pelo menos os de guerra, o que não impedia os Reis de nela realizar grandes festas e hospedar personagens ilustres de visita à cidade.

Prisão de Estado

Ao Cardeal de Richelieu, pontífice do absolutismo francês, é que se deve a transformação da Bastilha em prisão de Estado. Fernando Bournon definiu muito bem o que era uma prisão de Estado no Ancien Régime:

“Por prisão de Estado — e em especial tratando-se da Bastilha — deve-se entender a prisão dos que cometeram crime ou delito que não é de direito comum, daqueles que, com ou sem razão, são julgados perigosos à segurança do Estado, quer se trate da própria nação, de seu chefe, ou de um grupo mais ou menos importante de cidadãos, grupo por vezes restrito a uma, família. Se se juntar a essa espécie de prisioneiros as personagens muito em evidencia para serem punidas, por crime de direito comum, como qualquer malfeitor vulgar, e a quem parecia dever ser reservada uma prisão excepcional, teremos enumerado as diferentes espécies de delitos que, na Bastilha foram expiados desde Richelieu até a Revolução”
.

Uma "lettre de cachet" de 1703 (reinado de Luís XIV ), abrindo "De par le roy" (Em nome do Rei...)

Bastilha, garantia de liberdade

O Rei, no exercício das funções, que o Ancien Régime considerava inerentes à coroa, de chefe supremo das famílias de seu reino, também mandava para a Bastilha os membros da nobreza cujo comportamento não merecia a aprovação de suas famílias. Assim, o jovem Duque de Fronsac, futuro Duque de Richelieu, esteve na velha fortaleza "porque não amava sua mulher".

A princípio a prisão na Bastilha, bem como a libertação, dependiam exclusivamente de uma "ordem de Rei", ou seja, de uma "lettre de cachet", o que significava que não resultavam de processo judiciário regular.

Os contemporâneos não viam nisso a manifestação de uma tirania odiosa, como se poderia supor. Para não nos estendermos na explicação desse fato, limitamo-nos a transcrever a magistral "miseau-point" da questão das "lettres de cachet" feita por Funck-Brentano:

"A autoridade real, por sua existência mesma, era a condição essencial da liberdade na França, e a lettre de cachet era o único meio de que o Rei dispunha para fazer valer essa autoridade. Graças a esse poder latente, que existia em toda a parte, sem se manifestar por fatos tangíveis, as mil e uma autoridades locais eram mantidas em equilíbrio, e no temor de abusar de seu muitas vezes, seu emaranhamento. De onde se chega à conclusão, por certo bem inesperada, de que as lettres de cachet formavam na antiga França a ossatura da liberdade" (L'Ancien Régime, cap. XI).

De resto, a partir da segunda metade do século XVII a Bastilha foi posta sob a autoridade de um personagem de caráter nitidamente judiciário, a um verdadeiro magistrado, embora investido de funções também administrativas: o Lieutenant de Polícia. Ele entra na prisão quando lhe apraz, estabelece comunicação direta e constante com os presos, e inspeciona todos os quartos ao menos uma vez por ano.

Desde então, 24 horas após sua entrada na Bastilha os presos deviam ser interrogados por um Comissário do Châtelet, o tribunal do viscondado de Paris. Embora com algumas exceções, de presos que esperaram duas ou três semanas para comparecer perante o magistrado, essa ordem era conscienciosamente observada.

O Comissário do Châtelet depois de tomar conhecimento das notas que lhe enviava o Lieutenant e de interrogar o preso, remetia o processo verbal do interrogatório, juntamente com sua opinião fundamentada sobre os motivos da prisão, ao próprio Lieutenant, que resolvia se a prisão devia ou não ser mantida. Nos casos mais importantes uma comissão especial, composta de magistrados, é que interrogava os presos. Já não se podia dizer, portanto, que os detidos na Bastilha não eram sujeitos a julgamento.

Reconhecida a injustiça de uma prisão, nova "ordem do Rei" mandava pôr em liberdade o preso. E o melhor é que este era indenizado, quer com uma boa soma em dinheiro, quer com uma pensão vitalícia, quer ainda um emprego público.

No reinado de Luís XVI os conselheiros do Parlamento, juízes da mais alta Corte de justiça de França, inspecionavam a Bastilha com a mesma liberdade que as outras prisões. Por fim, o Ministro Breteuil determinou que nenhuma ordem de prisão fosse aceita pelo Lieutenant da Polícia se não indicasse a duração e os motivos da pena.

Em 1785 foram praticamente abolidas as "lettres de cachet".

Por outro lado, desde meados do século XVIII o Châtelet manda para a fortaleza da porta Santo Antonio, por sua própria autoridade, sem intervenção do Rei, acusados que estão sendo processados perante aquele tribunal, inclusive por crimes de direito comum.

Destarte a Bastilha foi perdendo progressivamente o caráter de prisão de Estado, de prisão do Rei, e muitos anos antes da Revolução já se tornara uma prisão igual às outras, embora muito mais suave, como se verá.

No interior da Bastilha, a câmara do conselho, esboçada em 1785 por Jean-Honoré Fragonard (1732-1806).


Número de detenções

Ao mesmo tempo que se dava essa evolução, o numero das detenções diminuía. A fortaleza só comportava 42 presos alojados separadamente. Sob Luís XIV, de 1660 a 1715, recebeu 2.228 prisioneiros, o que representa uma media de 40 por ano; no reinado seguinte, de 1715 a 1774, esse número elevou-se a 2567, numa media anual de 43; por fim, no reinado de Luís. XVI, baixou a 289, ou seja uma media anual de 19.

De 1783 a 1789, a Bastilha ficou quase deserta; na ocasião de sua queda continha apenas sete presos. Quatro deles estavam sendo julgados no Châtelet, por terem falsificado letras de cambio; outro, o Conde de Solages, cometera um crime monstruoso e fôra recolhido à Bastilha em consideração à sua família, para evitar o escândalo de um julgamento. Os dois últimos eram loucos.

Assim, a velha fortaleza agonizava. Por isso, e como ficasse muito cara a sua manutenção, o governo decidira demoli-la. Os revolucionários de 14 de julho apenas se anteciparam.

A vida na Bastilha

No interior da Bastilha,
esboçada em 1785
por Jean-Honoré Fragonard
(1732-1806).
A principal nota distintiva da Bastilha era não ter nenhum dos característicos de uma prisão no sentido próprio da palavra. “Meu desejo, rezam as ‘ordens do Rei’, é que vos façais conduzir ao meu castelo da Bastilha” mais do que prisão, era ela um castelo forte onde Sua Majestade recolhia súditos cujo comportamento lhe desagradava.

Daí uma primeira consequencia: a estadia na Bastilha não desonra ninguém, nem mesmo as mais altas personagens do reino. Antes pelo contrário, talvez fosse "distinto" ter lá estado, pois ela era reservada de preferência aos membros da aristocracia: O Lieutenant de Policia D'Argenson diz de alguém, que não merece bastante "consideração" para ser mandado para a prisão real.

Esse é um ponto interessante e que se tem procurado esquecer: a Bastilha era destinada principalmente à nobreza.

"A 14 de julho tomaram a Bastilha, escreve o Padre Rudemare; no dia 15 lá fui por curiosidade. Um maltrapilho disse-me então: ‘Não direis, Mr. le Chevalier, que foi para nós que trabalhamos destruindo a Bastilha, mas sim para vós, pois os miseráveis não tinham lá entrada. Para nós a Bicêtre... Não há por aí uns cobres para beber à vossa saúde?"
(Journal d'un Abbé Parisien).

Sebastião Locatelli, Padre bolonhês, que visitou Paris no tempo do Rei-Sol e dispôs de excelentes fontes de informações, escreve:

"É um favor especial do Rei ser-se condenado a uma tão bela prisão... Ali há; é certo, comodidades e prazeres que nem todos os grandes príncipes têm nos seus próprios palácios, e uma liberdade tão grande que os olhos podem ali gozar agradáveis paisagens".

O Castelo dispunha de algumas enxovias, úmidas e mal ventiladas, em parte subterrâneas. Sob Luís XIV só iam para lá os presos da mais baixa esfera e os assassinos. No reinado de Luís XV quase só serviam para os insubordinados que maltratavam os guardas ou os companheiros de prisão, bem como para os soldados da guarnição culpados de grave indisciplina. Muito antes do 14 de julho já não eram utilizadas: desde o primeiro Ministério Necker (1776-1778) era proibido deter nas enxovias fosse quem fosse, e nenhum dos guardas interrogados no dia 18 de julho de 1789 se recordava de nelas ter estado algum preso.

Os "hospedes" habitavam os andares superiores, onde dispunham de quartos amplos e arejados, dotados de grandes janelas (que só receberam grades no fim do reinado de Luís XIV), e aquecidos por lareiras.

Uma pintura de testemunha ocular do cerco da Bastilha por Claude Cholat


"Roteiro" de um prisioneiro

Como o ambiente da Bastilha não era propriamente o de um campo de concentração moderno, não havia necessidade de um grande aparato militar para convencer alguém de se recolher aos seus muros. Geralmente um oficial de polícia notificava ao interessado a "ordem do Rei" e o conduzia em um carro de passeio, tomando o cuidado de não deixar morrer a conversa durante o percurso, conhecedores que eram os policiais de então das usages du monde. É o que contam diversas memórias de antigos prisioneiros.

As pessoas "de qualidade", cientes da "lettre de cachet"; apresentavam-se à prisão sem outro acompanhamento que o de seus parentes ou criados. Entre diversos exemplos lê-se no diário de Du Junca, delegado do Rei na Bastilha, que

"Mr. de Villars tenente-coronel do regimento de infantaria dos Vosges, veio entregar-se à prisão, tendo estado detido na cidadela de Grenoble, de onde veio diretamente sem ser conduzido por ninguém", e que "Mr. de Jones, inglês", veio da Inglaterra, em absoluta liberdade, constituir-se prisioneiro da Bastilha.

Chegado à fortaleza, o novo preso era imediatamente conduzido à presença do governador, que o fazia sentar-se para conversarem um pouco. No tempo de Luís XIV, o governador costumava convidar seu novo jurisdicionado, bem como os amigos ou oficiais da policia que tinham acompanhado, a almoçarem ou jantarem em sua mesa.

Enquanto isso preparavam-se os aposentos do recém-chegado. (Com Mr. de Courlandon, coronel de cavalaria, que se apresentou à Bastilha em 26 de janeiro de 1695, aconteceu um fato muito desagradável: não havendo quarto em condições de o receber, teve que passar a noite numa hospedaria próxima e só pode ser preso no dia seguinte ...).

Depois de pedir ao prisioneiro que esvaziasse os bolsos (só as pessoas de baixa condição eram revistadas), e de fazer um pacote com seu dinheiro, jóias e armas, conduziam-no aos seus aposentos.

O "regime" penitenciário

Diário de Antoine-Jérôme de Losme,
o major da Bastilha,
descrevendo os dias antes da
queda da Bastilha em 1789
Até o interrogatório o preso era mantido incomunicável e só, a menos que lhe tivessem permitido levar consigo algum criado. A administração facilmente concedia licença para isso, chegando a pagar não só a alimentação como também o ordenado dos criados, inclusive para detidos de classe inferior.

Havia também o cuidado de reunir dois e três parentes no mesmo quarto, para evitar o tédio da solidão. Comovido com o isolamento de Mme. de Fontaine, que não tinha parentes entre os prisioneiros, o Lieutenant da Policia, prendeu também seu marido, o que decididamente era levar as coisas um pouco longe.

Terminado o interrogatório os prisioneiros podiam receber visitas de fora, mais comumente na presença de um oficial da guarnição. Em geral só lhes era permitido falar de questões de família ou de interesses, mas não é caso único o de Bussy-Rabutin que tratava livremente com qualquer de suas visitas e chegava a oferecer jantares a amigos da corte.

A raríssimos presos era recusada autorização para passear pelas torres e pátios do castelo. No pátio interior reuniam-se e em grande número para conversar e divertir-se com as visitas e oficiais da guarnição. Era uma verdadeira vida de corte, elegante, frívola e de grande brilho.

Manda a verdade que se diga que muito mais raro era a permissão de passear pela cidade, embora vários presos dela gozassem...

Tudo isso, bem entendido, quando não se tratava de alguém cuja prisão devesse permanecer secreta. Então, o preso era mantido em completo isolamento e podia ser obrigado a usar uma mascara de sêda para não ser reconhecido pelos guardas (daí a lenda do Mascara de Ferro). Esses casos geralmente de espiões e agentes secretos, são raros e deles não há exemplo no reinado de Luís XVI.

Em seus quartos os detidos faziam o que lhes aprouvesse: uns criavam aves e animais, alguns tocavam instrumentos de música, outros cantavam, bordavam, cosiam, jogavam cartas e xadrez. Não faltavam sequer as intrigas elegantes ou políticas, tão do gosto da corte.

O mobiliário

A princípio o mobiliário desses quartos não era dos melhores, pela simples razão de que não existia. Os presos mandavam buscar de suas casas os móveis que desejassem, ou alugavam-nos do tapeceiro do castelo. Aos que nada possuíam, o Rei mandava fornecer dinheiro, por vezes grandes quantias, que lhes permitia decorar os quartos a seu gosto. A partir do início do século XVIII foram sendo mobiliados definitivamente alguns aposentos, de modo que sob Luís XVI quase todos tinham mobiliário, aliás bem modesto. Mas os presos conservaram o direito de, após o interrogatório, mandar vir de fora os objetos que desejassem.

Por isso alguns quartos eram até luxuosas. O do conde de Belle-Isle, por exemplo, tinha um serviço de linho fino para mesa, uma baixela de prata, um leito guarnecido de damasco vermelho bordado a ouro, quatro tapeçarias, dois espelhos, um guarda-fogo com a mesma guarnição que o leito, dois biombos, poltronas, cadeiras estofadas, mesas, cômodas, sofás, castiçais de cobre prateado etc. E para ocupar os ócios, uma biblioteca de 343 volumes.

Parece que essa questão de livros tinha muita importância. Se um detido, mesmo de classe modesta, não encontrava na biblioteca do castelo alguma obra que lhe interessasse, a administração mandava adquiri-la, ainda que custasse bom dinheiro.

A pão e água...

Mas, "primum vivere ..." Antes de se entregarem ao estudo os súditos da Sua Majestade recolhidos ao seu castelo da Bastilha queriam alimentar o corpo (à custa da Real Fazenda, naturalmente). E como comiam! Constantin de Renneville, que esteve preso nos fins do século XVII, no libelo que escreveu contra a Bastilha conta que seu primeiro jantar na prisão constou de

"uma esplêndida sopa de ervilhas e alface, bem preparada e de bom aspecto, com um pedaço de frango; em uma travessa uma suculenta posta de carne, com um molho de salsa; em outra um pastel acompanhado de arroz com vitela; aspargos, cogumelos, trufas, e como último prato uma língua de carneiro guisada. Para sobremesa, biscoitos e maçãs. O carcereiro quis ter a amabilidade de me servir o vinho: era um excelente Borgonha"
.

As sextas-feiras e durante a quaresma os presos deviam jejuar: 

"Eu tinha, diz Renneville, seis pratos e uma sopa de marisco. Entre os pratos de peixe vinham sempre fresquíssimos linguados, percas etc". Passado algum tempo, Renneville começou a receber a pensão dos presos de baixa categoria: "uma boa sopa de pão, um regular pedaço de carne, uma língua de carneiro guisada e dois bolos para sobremesa. E assim se manteve durante todo o tempo em que fui obrigado a permanecer em tão aborrecido local; por vezes o cardápio era aumentado com uma asa ou coxa de frango e dois pequenos pasteis".

A Tavernier, homem de baixa extração e acusado de conspirar contra a vida do Rei, um dos loucos encontrados na fortaleza no dia 14 de julho, recebeu durante o mês de novembro de 1788, além de suas refeições habituais: quatro garrafas de aguardente, 60 de vinho, 30 de cerveja, duas libras de café, três de açúcar, uma perua, ostras, castanhas, maçãs e peras.

"O governador de Launey, conta Poultier d'Elmotte, vinha frequentemente conversar comigo; procurava saber que espécie de alimentação eu queria e ordenava que me fosse servido o que eu desejasse".

O Rei também vestia os presos pobres. Não, naturalmente, como hoje se usa, com uniformes de presidiário, mas com casacões almofadados com pele de coelho, casacos forrados de seda e trajes fantasia, tudo feito sob medida. A mulher do comissário Rochebrune procura por toda a cidade uma fazenda de seda branca com flores verdes, para atender o pedido de uma prisioneira, Mme. Sauvé.

"Snr. Major, escreve o preso Hugonnet, as camisas que trouxeram não são as que pedi, pois lembro-me de ter escrito que queria finas e com punhos bordados e as que me mandaram são grosseiras, de mau pano e com punhos próprios para um carcereiro; peço-vos, portanto, devolve-las ao sr. comissário: que as guarde, para mim não servem".

Bastilha, meio de enriquecimento

Até meados do século XVIII os presos podiam optar por um regime de vida mais modesto e guardar o que sobrasse da importância destinada à sua manutenção. Com isso alguns chegaram a amealhar pequenas fortunas. A partir daquela época, porém, esse dinheiro devia ser aplicado integralmente ao fim a que era reservado.

A liberdade

Por melhor que fosse a vida na Bastilha, os prisioneiros geralmente ansiavam pela liberdade. Esta, como a prisão, resultava de uma "lettre de cachet".


O governador da fortaleza vinha ao quarto do preso noticiar-lhe que estava livre. Cumpridas as formalidades, mandava servir ao que fôra seu hospede um magnífico jantar de despedida. Se se tratasse de pessoa de qualidade, convidava-o para sua mesa e, feitas as despedidas, mandava conduzi-lo em seu próprio carro acompanhando-o por veres até seu destino.

Naturalmente, a ordem de libertação nem sempre era tomada à risca. Se o preso lutava com dificuldades para se instalar lá fora, permitia-se-lhe que ficasse na Bastilha por mais tempo, até arranjar as coisas. E isso se deu muitas vezes. Muitos antigos prisioneiros — Le Maistre de Sacy, Mme. de Staal [quadro ao lado], Fontaine, o Padre Morellet, Dumouriez, o próprio Renneville, entre outros — referiam-se com saudades aos tempos felizes que passaram no castelo de Santo Antonio.



O enigma da Bastilha

Essa é a verdade sobre a Bastilha. Garantem-no a idoneidade e a autoridade do insigne Funck-Brentano, de cuja obra extraíram dados históricos. Garantem-no as fontes de que se serviu aquele historiador, a saber, os arquivos da famosa prisão de Estado, compostos de milhares de documentos, que foram reunidos na Biblioteca do Arsenal, em Paris, bem como as memórias de numerosos antigos prisioneiros. Como então a Bastilha se tornou símbolo da opressão, da tirania, e sinônimo de prisão aspérrima e desumana?

A explicação se encontra na propaganda revolucionaria, que aliás também conseguiu divulgar uma imagem adulterada de tantas outras instituições do Ancien Régime.

Já nos últimos decênios que antecederam a Revolução a lenda da Bastilha criara raízes na fantasia popular.

"A Bastilha, diz Restif de la Bretonne, era um terrível espantalho, para o qual não me atrevia a olhar quando, ao cair da tarde, passava pela rua Saint-Gilles".

Chevalier, major da Bastilha, dirigindo-se ao Lieutenant de Policia, fala das histórias que circulavam a respeito da prisão:

"Ainda que completamente falsas, dizia, julgo-as perigosas pela repetição que delas se faz há muitos anos".

De resto, o mistério de que a Bastilha se criava oferecia campo propicio ao desenvolvimento de toda a sorte de lendas. Quando um preso entrava na fortaleza, em uma carruagem com as cortinas descidas, os soldados da guarda deviam virar-se para a parede ou baixar as viseiras. Todo o pessoal da guarnição estava obrigado a guardar o mais absoluto segredo sobre a identidade dos prisioneiros e a vida que levavam. Ao ser posto em liberdade, o preso era convidado a assinar um compromisso de nada revelar do que tivesse visto no interior dos formidáveis muros do castelo (diga-se de passagem que muitos recusavam-se a assinar tal compromisso, sem que isso retardasse sua libertação, enquanto outros contavam a quem os quisesse ouvir tudo que sabiam e muito do que não sabiam, não constando que tenham sido incomodados por esse motivo).

Já ficou dito que a autoridade do Rei na França de antes da Revolução era a condição mesma da ordem. Seus fundamentos eram a tradição, e o amor e temor do povo. Amor aos filhos pelo pai, a autoridade real tendo se originado historicamente da autoridade paterna. E temor igualmente filial, resultante mais da grandeza, da majestade, do esplendor da realeza do que propriamente de sua força efetiva.

Apresentar a Bastilha como um temível instrumento de opressão e tirania foi um dos muitos meios de que se valeu a propaganda revolucionaria para resfriar o amor do povo pelo Rei.

Mas, por outro lado, isso aumentava o temor, que era justamente o freio daqueles que, constituindo a borra da população, eram os mais seguros cooperadores potenciais da obra revolucionaria. Levando essa mesma ralé a derrubar aquilo que lhe apresentavam como o símbolo do poder real, a Revolução conseguiu fazê-la sentir a fraqueza do Rei e sua própria força.

Perdido o respeito pela autoridade paternal do Rei, o povo entregar-se-á a todos os excessos e a anarquia estender-se-á pela França. Para reimplantar a ordem Napoleão usará um guante de ferro e criará a formidável máquina administrativa e policial do Estado moderno.

A verdadeira importância da jornada de 14 de julho de 1789 reside nisso; no enorme impulso que deu à transição da velha França tradicional e orgânica, com suas liberdades e franquias, para a França administrativa e policial dos tempos modernos. O enigma está em que ainda hoje ela seja comemorada como a aurora da liberdade.

27 de maio de 2024

INTREPIDEZ ANGÉLICA DE UM IMORTAL PONTÍFICE

Audiência de São Pio X no Pátio de São Dâmaso, em 1904 


“A sua palavra era trovão, era espada, era bálsamo [...]. Com seu olhar de águia, mais perspicaz e mais seguro do que a visão estreita de pensadores míopes, via o mundo tal qual era, via a missão da Igreja no mundo, via com olhos de santo Pastor, o dever que lhe incumbia no seio de uma sociedade descristianizada, de uma cristandade contaminada, ou ao menos infiltrada dos erros do tempo e perversão do século” (Palavras do Papa Pio XII a respeito de São Pio X).

✅ Paulo Roberto Campos

 

A Santa Igreja celebra neste ano três importantes efemérides relacionadas a um grande Papa, que foi também um grande defensor da Fé, um grande Santo. Falamos de São Pio X. 110 anos de seu falecimento, em 20 de agosto de 1914; 80 anos da exumação de seu corpo, encontrado incorrupto, em 19 de maio de 1944; 70 anos de sua canonização por Pio XII, em 29 de maio de 1954.

O governo pontifício de São Pio X (1903-1914) foi marcado pelo profundo combate que empreendeu com inteligência e destemor contra os erros que se infiltravam na Igreja, sobretudo os erros do modernismo, heresia dissimulada e perniciosíssima para a Cristandade e com muitos traços semelhantes ao progressismo impulsionado maximamente pelo Concílio Vaticano II (1962-1965), convocado por João XXIII e encerrado no Pontificado de Paulo VI.1

Eis que em nossos dias o progressismo (dito católico) atinge o clímax na tentativa de “modernizar” e deturpar os dogmas, o Magistério perene e as tradições católicas — tradições majestosas que tanto aborrecem os progressistas “teólogos da libertação”.

O Movimento Modernista pretendia uma reforma na Igreja sob o pretexto de uma suposta necessidade de renovações, de progresso e de seguir as leis da evolução nos costumes e até na Fé.

De uma bondade e afabilidade angelicais em relação aos filhos fiéis da Igreja, entretanto de uma firmeza e intrepidez igualmente angélicas, São Pio X primeiramente repreendeu e exortou os seguidores de tal movimento à conversão, acolheu os convertidos e depois — não obtendo o arrependimento — os condenou com vigor como um Anjo empunhando a espada de fogo da ortodoxia.

No Decreto Lamentabili sane exitu, de 3 de julho de 1907, São Pio X condenou formalmente 65 proposições modernistas relativas à natureza da Igreja, à revelação, aos sacramentos, à divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo, a erros na exegese da Sagrada Escritura e na interpretação de dogmas.

Medalha comemorando a Encíclica Pascendi Dominici Gregis com a qual São Pio X condenou o Movimento Modernista  


Inimigos ocultos no próprio seio da Igreja


Como nem com o Decreto nem com as medidas mais suaves os modernistas não se emendaram, mas continuaram arrogantes na conduta e obstinados no erro, dois meses depois o Romano Pontífice se viu obrigado a tomar medidas mais severas. Aprofundou a problemática, escrevendo sua magistral Encíclica sobre os erros do modernismo, a Pascendi Dominici Gregis, de 8 de setembro de 19072, que marcou profundamente os ambientes católicos e intelectuais do século XX.

Considerado como sendo um dos maiores lances na História da Igreja, o documento, redigido com ‘mão de ferro sob luvas de pelica’, fulminou a artimanha, uma verdadeira conspiração interna concebida pelo Movimento Modernista que visava debilitar a Religião Católica apresentando-a não tanto como obra divina, mas humana, ou de meras concepções filosóficas.

         A fim de contestar os erros do modernismo, afirma o santo autor:

“Exige que sem demora falemos, é antes de tudo que os fautores do erro já não devem ser procurados entre inimigos declarados; mas, o que é muito para sentir e recear, se ocultam no próprio seio da Igreja, tornando-se destarte tanto mais nocivos quanto menos percebidos.

“Aludimos, Veneráveis Irmãos, a muitos membros do laicato católico e também, coisa ainda mais para lastimar, a não poucos do clero que, fingindo amor à Igreja e sem nenhum sólido conhecimento de filosofia e teologia, mas, embebidos antes das teorias envenenadas dos inimigos da Igreja, blasonam, postergando todo o comedimento, de reformadores da mesma Igreja; e cerrando ousadamente fileiras se atiram sobre tudo o que há de mais santo na obra de Cristo, sem pouparem sequer a mesma pessoa do divino Redentor que, com audácia sacrílega, rebaixam à craveira de um puro e simples homem”.3

São Pio X estigmatizou tal heresia como sendo a “síntese de todas as heresias”:

“Não se trata de doutrinas vagas e desconexas, mas de um corpo uno e compacto de doutrinas em que, admitida uma, todas as demais também o deverão ser. Por isso, também quisemos servir-nos de uma forma quase didática, e nem recusamos os vocábulos bárbaros, que os modernistas adotam. Se, pois, de uma só vista de olhos atentarmos para todo o sistema, a ninguém causará pasmo ouvir-Nos defini-lo, afirmando ser ele a síntese de todas as heresias”.4

Erros do Modernismo serpeavam nos meios católicos

Carta Pastoral do Cardeal
Arcebispo do Rio de Janeiro
comunicando ao clero e aos
fiéis da arquidiocese 
a
Encíclica de São Pio X
(1908) 

Na citada encíclica resta evidenciado que aquele movimento articulava uma pérfida (e muito poderosa) conjuração anticatólica, organizada por pessoas muito labiosas que se apresentavam dissimuladas de católicas e davam aos “erros do Modernismo” uma aparência de verdade. Assim, iludiam mais facilmente muitos fiéis, redobrando o malefício às almas com a pregação de concepções contrárias à doutrina católica, teorias protestantizantes conformes à “reforma” revolucionária do heresiarca Matin Lutero.

“Já vimos essas ideias condenadas pelo Concílio Vaticano I [convocado pelo bem-aventurado Papa Pio IX em 1869]. Veremos ainda como, com semelhantes teorias, unidos a outros erros já mencionados, se abre caminho para o ateísmo”.5

Abrasado com o zelo que deve ter o Vigário de Cristo na Terra, o modernismo foi fulminado como sendo uma seita dos mais perigosos inimigos da Igreja, agindo dentro d’Ela. E por essas razões seus líderes foram desmascarados, alguns excomungados e interditadas suas publicações, jornais, livros etc.

Na época, eles galgavam postos-chaves junto à hierarquia eclesiástica, elevavam-se nos púlpitos e nas cátedras, agiam tanto nos confessionários quanto nas ruas, para introduzir na Igreja a mania das novidades, os erros do mundo moderno. Eram lobos vorazes disfarçados de dóceis ovelhas para enganar os fiéis (mas incautos) católicos, além de menosprezarem as belas e seculares tradições da Igreja, sugerindo-lhes “reformas” opostas às tradições da Cristandade e à doutrina de sempre ensinada no Evangelho.

Condenados aqueles que arrastam outros ao erro

O Pontífice afirmou que os modernistas infiltraram na Igreja para mais eficazmente destruí-la, relativizando e adulterando seu ensino perene e infalível:

“Não se afastará, portanto, da verdade quem os tiver como os mais perigosos inimigos da Igreja. Estes, em verdade, como dissemos, não já fora, mas dentro da Igreja, tramam seus perniciosos conselhos; e por isto, é por assim dizer nas próprias veias e entranhas d’Ela que se acha o perigo, tanto mais ruinoso quanto mais intimamente eles a conhecem. Além de que, não sobre as ramagens e os brotos, mas sobre as mesmas raízes que são a Fé e suas fibras mais vitais, é que meneiam eles o machado”.6

Assim deve proceder o Bom Pastor na defesa de suas ovelhas, usando seu cajado para expulsar os lobos do redil. Referindo-se aos modernistas, o Pastor dos Pastores, com palavras da Escritura, os increpa:

“Devido ao inimigo do gênero humano, nunca faltaram homens de perverso dizer (At 20,30), vaníloquos e sedutores (Tit 1,10), que caídos eles em erro arrastam os demais ao erro (2 Tim 3,13). Contudo, há mister confessar que nestes últimos tempos cresceu sobremaneira o número dos inimigos da Cruz de Cristo, os quais, com artifícios de todo ardilosos, se esforçam por baldar a virtude vivificante da Igreja e solapar pelos alicerces, se dado lhes fosse, o mesmo reino de Jesus Cristo. Por isto já não Nos é lícito calar para não parecer faltarmos ao Nosso santíssimo dever, e para que se Nos não acuse de descuido de nossa obrigação, a benignidade de que, na esperança de melhores disposições, até agora usamos.

“Cegos, na verdade, a conduzirem outros cegos, são esses homens que inchados de orgulhosa ciência, deliram a ponto de perverter o conceito de verdade e o genuíno conceito religioso, divulgando um novo sistema, com o qual, arrastados por desenfreada mania de novidades, não procuram a verdade onde certamente se acha; e, desprezando as santas e apostólicas tradições, apegam-se a doutrinas ocas, fúteis, incertas, reprovadas pela Igreja, com as quais homens estultíssimos julgam fortalecer e sustentar a verdade (Gregório XVI, Encíclica Singulari Nos 7 julho 1834)”7.

 


Semelhança dos modernistas com os progressistas atuais

         Logo na primeira parte deste artigo destacamos a luta do Santo Pontífice contra o Movimento Modernista. A razão se deve à grande semelhança com a luta que hoje travamos contra o progressismo. Os neomodernistas — também estes infiltrados nos ambientes (incredibile dictu, mesmo nos mais altos) da Santa Igreja — continuam a ação, e herdaram os mesmos erros daquele movimento condenado no início do século XX.

Mas o governo de São Pio X não se restringiu a esse combate para destruir os inimigos, foi também um frutuoso período de muitas construções de fortalezas espirituais visando “Restaurar o Reinado Social de Jesus Cristo”. [vide quadro no final].

         No mínimo, precisaríamos de um livro para elencar os grandes lances desse glorioso Pontificado, por exemplo, seus trabalhos dedicados à reorganização do Código de Direito Canônico — depois promulgado pelo sucessor, o Papa Bento XV. Um monumento inaugurado por Pio XI, em 28 de junho de 1923, sintetiza em títulos algo do período de São Pio X no Vaticano. Na base da imagem do santo há oito painéis em bronze representando atributos primordiais daquele curto período de 11 anos:

·        * Papa da Eucaristia;

·        * Defensor da Fé;

·        * Apoiador da França Católica;

·        * Patrono das Artes;

·        * Guardião dos Estudos Bíblicos;

·        * Reorganizador do Direito Canônico;

·        * Reformador da Música Sacra;

·        * Pai dos Órfãos e dos Abandonados.

 

O Papa por excelência do Santíssimo Sacramento

Pelo menos de passagem, poderíamos discorrer um pouco sobre o primeiro título, “O Papa da Eucaristia”. Um dos pilares de seu Pontificado foi seu desempenho incrementando enormemente a devoção ao Santíssimo Sacramento. Ele incentivou ao máximo essa devoção, aconselhou a comunhão quotidiana e a comunhão às crianças. A tal ponto que passou para a História com a honra de tal título.

         “A sagrada comunhão é o caminho mais curto e seguro para o Céu”, afirmava São Pio X. Declarou que “todos os fiéis têm liberdade de receber a sagrada comunhão com frequência e até diariamente, como é desejo de Jesus Cristo e de Sua Igreja; e que, portanto, não se deve negá-la a ninguém, que se aproxime da Sagrada Mesa em estado de graça e com reta e devota intenção”.

Certa vez uma senhora da alta sociedade perguntou ao Papa: “Que posso fazer pela Igreja de Deus?”. — “Ensinai o catecismo”, foi a sua resposta.8

O Santo Padre foi um apóstolo da Primeira Comunhão às crianças. Propagou em todos os países o ensino do catecismo a elas, a fim de que desde cedo conhecessem as noções elementares da doutrina católica e pudessem comungar a partir da “idade da discrição” (fase em que os pequenos alcançam a capacidade de discernir entre o certo e o errado). Para a Primeira Comunhão bastava que elas “soubessem distinguir entre o ‘Pão Eucarístico’ e o ‘pão material ordinário’”, e que se exigisse delas apenas que tivessem “certo conhecimento dos rudimentos da fé”.

O próprio Papa pessoalmente ensinava o catecismo às crianças, insistia na prática da confissão frequente e as preparava para a Primeira Comunhão. Numa dessas catequeses, recomendou-lhes que fossem “obedientes e desprendidos de vós mesmos, aplicados na oração e no estudo, diligentes para com Deus e seu santo serviço, mas principalmente assíduos na recepção dos sacramentos e na devoção à santa eucaristia, esse deverá ser o apostolado junto aos vossos companheiros”.9

Com seu apostolado da Sagrada Hóstia dificultou que as heresias modernistas e jansenistas se expandissem nos meios católicos. O jansenismo10 negava a infinita misericórdia de Deus, o que diminuía a confiança n’Ele e esfriava o fervor da devoção ao Santíssimo Sacramento.

Pelo contrário, São Pio X assegurou: “A devoção à Eucaristia é a mais nobre de todas as devoções, porque tem o próprio Deus por objeto; é a mais salutar porque nos dá o próprio autor da graça; é a mais suave, pois suave é o Senhor. Se os anjos pudessem sentir inveja, nos invejariam porque podemos comungar”.

 

Três décadas após sua morte, no dia 19 de maio de 1944, exatamente há 80 anos, abriram o sarcófago de São Pio X na presença dos prelados membros do Tribunal do Processo Apostólico. Para admiração de todos, seu corpo foi encontrado incorrupto, sem que tivesse sido embalsamado — como era costume — devido a um pedido expresso dele

O defensor da fé católica entrega sua alma a Deus

         Nos primórdios da Primeira Guerra Mundial, em 20 de agosto de 1914, os grandes sinos do Vaticano anunciaram que o Santo Papa havia morrido. Uma morte um tanto suspeita e misteriosa, pois aqueles que com ele conviviam, que conheciam seu estado de saúde, não esperavam esse trágico desfecho, apesar de sua saúde debilitada e de sua enorme preocupação com os rumos que poderiam tomar a Grande Guerra que acabava de eclodir.

Contudo, os líderes modernistas pareciam esperar tal desfecho. Eles se exultaram com a morte do santo, pois assim ficavam livres para agir sem aquele obstáculo quase intransponível. Alguns autores chegam a suspeitar de uma morte “encomendada”.

         O último gesto de São Pio X foi beijar um crucifixo que segurava muito devotamente. “Das mãos de seu amigo, Mons. Bressan, recebeu [São Pio X] devota e alegremente os últimos sacramentos. ‘Seja feita a vontade do Senhor, a Ele sem reservas me entrego’, foram as suas últimas palavras.

Respondia ainda às orações, que junto dele se faziam, mas a sua voz ia se enfraquecendo cada vez mais, até extinguir-se completamente. Na noite de 19 para 20 [de agosto] não lograva mais falar. Reconhecia, porém, os que o rodeavam, apertava-lhes a mão, abençoando-os. De quando em quando traçava um largo sinal da cruz. Logo depois de uma e um quarto da madrugada entregou sua nobre alma ao Criador. Era o dia 20 de agosto de 1914. Morreu como tinha vivido: tranquilo e resignado”.11

Corpo encontrado incorrupto e assim se mantém até hoje

O Papa João XXIII observa
o corpo incorrupto de São Pio X
Três décadas após sua morte, no dia 19 de maio de 1944, exatamente há 80 anos, abriram o sarcófago de São Pio X na presença dos prelados membros do Tribunal do Processo Apostólico. Para admiração de todos, seu corpo foi encontrado incorrupto, sem que tivesse sido embalsamado — como era costume — devido a um pedido expresso dele.

 




Um dos presentes documentou:

“Abrindo o caixão, encontraram o corpo intacto, vestido com as insígnias papais tal como foi enterrado 30 anos antes. Sob a firme pele que cobria a face, o contorno do crânio era claramente reconhecível. As cavidades dos olhos pareciam escuras, mas não vazias; estavam cobertas pelas pálpebras muito enrugadas e afundadas. O cabelo era branco e cobria o topo da cabeça completamente. A cruz peitoral e o anel pastoral brilhavam reluzentes. Em seu último testamento, Pio X pediu especialmente que seu corpo não fosse tocado e que o tradicional embalsamamento não fosse realizado. Apesar disso, seu corpo estava excelentemente preservado. Nenhuma parte do esqueleto estava descoberta, nenhum osso exposto. Enquanto o corpo estava rígido, os braços, cotovelos e ombros estavam totalmente flexíveis. As mãos eram belas e magras, e as unhas nos dedos estavam perfeitamente preservadas”.

 O fato prodigioso de seu corpo ter sido encontrado incorrupto na exumação, e assim permanecer até hoje, o que pode representar para nós? — Além de um evidente grande milagre, poder-se-ia dizer que se trata de símbolo de um Pontificado que combateu todo tipo de corrupção e um sinal de Deus de que o ensinamento desse seu Vigário na Terra foi sempre fundamentado na doutrina incorruptível da Santa Igreja de Deus.

Na lápide de seu sarcófago original, uma modesta inscrição foi gravada:

“Papa Pio X, pobre e contudo rico, manso e humilde de coração, defensor invicto da fé católica, desejoso de instaurar tudo em Cristo, falecido piedosamente aos 20 de agosto do ano do Senhor de 1914”.12

 


Beatificação e canonização do Paladino da Igreja

Por ocasião da beatificação do Santo Pontífice (3 de junho de 1951), o Papa Pio XII falou da virtude da fortaleza e da arguta percepção dos acontecimentos; grandes dons que a Providência Divina prodigalizou a seu santo predecessor:

“A sua palavra era trovão, era espada, era bálsamo: comunicava-se intensamente a Vida a Igreja e tinha eficácia para ser ouvida fora e ao longe; vinha cheia de irresistível vigor, graças não só à substância incontestável do conteúdo, como também ao seu profundo e penetrante calor. Sentia-se nela arder a alma de um Pastor que vivia em Deus e de Deus, sem outro fim senão conduzir a Ele os seus cordeiros e as suas ovelhas [...].

“Com seu olhar de águia, mais perspicaz e mais seguro do que a visão estreita de pensadores míopes, via o mundo tal qual era, via a missão da Igreja no mundo, via com olhos de santo Pastor, o dever que lhe incumbia no seio de uma sociedade descristianizada, de uma cristandade contaminada, ou ao menos infiltrada dos erros do tempo e perversão do século.

“Iluminado pela claridade da verdade eterna, guiado por uma consciência delicada, lúcida, de rígida firmeza, tinha ele, frequentemente acerca do dever do momento e das resoluções a tomar, intuições cuja exatidão perfeita desconcertava os que não eram dotados das mesmas luzes”.13

Três anos depois, o mesmo Papa Pio XII declarou à multidão na Praça de São Pedro, lotada para assistir a canonização de São Pio X, em 29 de maio de 1954:

“A santidade, que se revela inspiração e guia dos empreendimentos de Pio X, brilhou ainda mais fulgurantemente nas suas ações quotidianas. Foi primeiro em si mesmo que realizou, antes de realizá-lo nos outros. Seu programa: reunir tudo, reconduzir tudo à unidade em Cristo. Como humilde pároco, como bispo, como Sumo Pontífice, esteve sempre convencido de que a santidade à qual Deus o destinou era a santidade sacerdotal. Que santidade pode de fato agradar mais a Deus por parte de um sacerdote da nova Lei, senão aquela que convém a um representante do Supremo e Eterno Sacerdote, Jesus Cristo, Aquele que deixou à Igreja a memória contínua, a renovação perpétua do sacrifício da Cruz na Santa Missa, até que Ele venha para o julgamento final; Aquele que mediante o sacramento da Eucaristia se entregou como alimento para as almas: ‘Quem comer deste pão viverá para sempre’?” 14

Desde os primórdios, a Igreja tem assegurada a vitória

Neste ano em que se comemora o centésimo décimo aniversário do passamento de São Pio X da Terra para o Céu; o octogésimo de sua exumação e o septuagésimo de sua canonização, desejaríamos que inúmeras homenagens oficiais da Santa Igreja lhe fossem prestadas. Entretanto, com muita dor e tristeza, somos obrigados a reconhecer que nosso desejo certamente não será realizado. Por quê?

Infelizmente, como é de conhecimento de nossos leitores — e sobre isso nunca é suficiente insistir —, retomando o mesmo processo iniciado pelos modernistas, a Igreja passa por um misterioso processo de autodemolição “golpeada também pelos que d’Ela fazem parte”, e que Ela “atravessa hoje um momento de inquietação. Alguns praticam a autocrítica, dir-se-ia até a autodemolição”, como confessou Paulo VI em alocução aos alunos do Seminário Lombardo, em 7 de dezembro de 1968.15

Quatro anos depois, o mesmo Paulo VI confirmou, na Alocução Resistite fortes in fide, que “por alguma fissura tenha penetrado a fumaça de Satanás no templo de Deus”.16

Transcorridos 110 anos do final de um Pontificado que barrou a entrada da “fumaça de satanás” — a “autodemolição” em sua época —, vemos que os neomodernistas escancaram as janelas e as portas do Templo de Deus para a entrada da fumaça diabólica.

Eles parecem levar a Igreja ao paroxismo no processo de autodemolição com o estabelecimento de uma “nova-igreja”, na qual no próprio Vaticano se cultuou um ídolo pagão, a Pachamama, que nada tem a ver com a Santa Igreja Católica Apostólica Romana como instituída por Nosso Senhor Jesus Cristo.

Mas, apesar de tudo, d’Ele temos assegurada, desde os primórdios da Igreja, a vitória final, quando prometeu que “portae inferi non praevalebunt” — as portas do inferno não prevalecerão.

O atual e sinistro mar de demolições no qual navega a Barca de Pedro, parecendo naufragar de um momento para outro, não nos mete medo. Pelo contrário, nos dá mais coragem para continuar a navegação, para lutar ainda mais pela completa realização do lema de São Pio X no sentido da plena restauração da Igreja e do Mundo, o que se alcançará com o Reinado do Imaculado Coração de Maria, como profetizado em Fátima em 1917.

Que São Pio X, o grande Papa Defensor da Fé, interceda do Céu por nós, e obtenha que Deus envie seus Anjos para colocarem freio nesse processo revolucionário universal, antecipem o desmantelamento dos inimigos da Igreja, e realizem o quanto antes o nosso pedido, feito diariamente no Pai-Nosso: “Venha a nós o Vosso reino, seja feita a Vossa vontade assim na Terra como no Céu”.

 

Síntese biográfica


Nascido em Riese (Lombardia) no dia 2 de junho de 1835, Giuseppe Melchiorre Sarto — assim se chamava o futuro Papa São Pio X — foi sucessivamente Vigário em sua cidade natal, Cônego em Treviso, Bispo de Mântua e Patriarca de Veneza. Eleito Papa no dia 4 de agosto de 1903, foi o 257º Sumo Pontífice da Santa Igreja Católica. Exerceu seu glorioso Pontificado até seu último dia nesta terra de exílio, que deixou aos 79 anos, em 20 de agosto de 1914. Pio XII o beatificou em 3 de junho de 1951 e o canonizou exatamente há 70 anos, em 29 de maio de 1954.



 


Restaurar o Reinado Social de Jesus Cristo

“Instaurare omnia in Christo” (Restaurar todas as coisas em Cristo) era o dístico do seu pontificado e resumo de seu prodigioso empenho: restaurar o Reinado Social de Nosso Senhor Jesus Cristo. Era a principal solução que indicava o Santo Padre: “Se alguém pedir uma palavra de ordem, sempre daremos esta e não outra: Restaurar todas as coisas em Cristo”.

            Objetivo que definiu claramente com suas indefectíveis palavras expressas na Encíclica Notre Charge Apostolique*, de 25 de agosto de 1910:

“Devemos repetir com toda energia nestes tempos de anarquia social e intelectual, quando cada um se faz passar por mestre e legislador: a Cidade não pode ser edificada de outra forma senão como Deus a construiu; a sociedade não pode ser estabelecida a menos que a Igreja estabeleça as bases e supervisione o trabalho; não, a civilização não é algo a ser inventado, nem a Cidade Nova para ser construída nas nuvens; ela existiu e ainda existe: é a civilização cristã, é a cidade católica. Trata-se apenas de ser instaurada e restaurada continuamente contra os ataques incessantes de utópicos insanos, revoltados e malfeitores. OMNIA INSTAURARE IN CHRISTO”.

(*) https://www.papalencyclicals.net/pius10/p10notre.htm

 

Notas:

1. O Concílio Vaticano II foi classificado por Plinio Corrêa de Oliveira como “uma das maiores calamidades, se não a maior, da História da Igreja”. “O êxito dos êxitos alcançado pelo comunismo pós-staliniano sorridente foi o silêncio enigmático, desconcertante, espantoso e apocalipticamente trágico do Concílio Vaticano II a respeito do comunismo. […] Seu silêncio sobre o comunismo deixou aos lobos toda a liberdade. A obra desse Concílio não pode estar inscrita, enquanto efetivamente pastoral, nem na História, nem no Livro da Vida. É penoso dizê-lo. Mas a evidência dos fatos aponta, neste sentido, o Concílio Vaticano II como uma das maiores calamidades, se não a maior, da História da Igreja. A partir dele penetrou na Igreja, em proporções impensáveis, a “fumaça de Satanás”, que se vai dilatando dia a dia mais, com a terrível força de expansão dos gases. Para escândalo de incontáveis almas, o Corpo Místico de Cristo entrou no sinistro processo da como que autodemolição”. (Plinio Corrêa de Oliveira, Revolução e Contra-Revolução, Editora Artpress, São Paulo, Parte III, capítulo II, 4, A, pp. 166-168).

2. A respeito da monumental Encíclica Pascendi Dominici Gregis, Catolicismo publicou uma série de três artigos de seu principal colaborador, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira. Artigos que os leitores podem conferir na edição de setembro/2007.

3. Os trechos aqui transcritos (entre aspas) da Encílica Pascendi Dominici Gregis foram extraídos como publicados no site oficial do Vaticano, disponíveis no link: https://www.vatican.va/content/pius-x/pt/encyclicals/documents/hf_p-x_enc_19070908_pascendi-dominici-gregis.html

4. Ibid.

5. Ibid.

6. Ibid.

7. Ibid.

8. Constantino Kempf S.J., A Santidade da Igreja, oitava edição do original alemão, Edição da Livraria do Globo, Porto Alegre, 1936, p. 25.

9. Ibid. p. 26.

10. Heresia que constituiu uma corrente semiprotestante no interior da Igreja. Era de um rigorismo hirto e despropositado. Tal heresia, uma das mais perniciosas da História da Igreja, foi instituída pelo holandês Cornélio Jansênio, bispo de Ypres (1636). Este negava a infinita misericórdia de Deus e defendia a predestinação. Infectou grande parcela de bispos, sacerdotes e leigos na França e em outros países da Cristandade. A heresia jansenista foi condenada por diversos Papas, entre os quais Inocêncio X, na bula papal Cum occasione (1653). Mesmo assim, a heresia projetou-se nos séculos XVIII e XIX, e só foi debelada quando São Pio X publicou o decreto favorecendo a comunhão frequente.

11. Constantino Kempf S.J., op. cit. p. 27.

12. Ibid. p. 23.

13. Breve por ocasião da Beatificação de Pio X, Documentos Pontifícios, n° 83, Vozes, 1958, 2ª edição.

14. https://www.vatican.va/content/pius-xii/it/speeches/1954/documents/hf_p-xii_spe_19540529_pio-x.html

15. Em alocução aos alunos do Seminário Lombardo, no dia 7 de dezembro de 1968, Paulo VI afirmou que “a Igreja atravessa hoje um momento de inquietação. Alguns praticam a autocrítica, dir-se-ia até a autodemolição. É como uma perturbação interior, aguda e complexa, que ninguém teria esperado depois do Concílio. Pensava-se num florescimento, numa expansão serena dos conceitos amadurecidos na grande assembleia conciliar. Há ainda este aspecto na Igreja, o do florescimento. Mas, posto que bonum ex integra causa, malum ex quocumque defectu, fixa-se a atenção mais especialmente sobre o aspecto doloroso. A Igreja é golpeada também pelos que d´Ela fazem parte” (cfr. Insegnamenti di Paolo VI, Tipografia Poliglotta Vaticana, vol. VI, p. 1188).

16. Cfr. Alocução “Resistite fortes in fide” (29 de junho de 1972), Insegnamenti di Paolo VI, Tipografia Poliglotta Vaticana, vol. X, p. 707.