19 de maio de 2026
Miguel, coroinha paulista com síndrome de Down
13 de julho de 2024
O ENIGMA DA BASTILHA
![]() |
| A Queda da Bastilha, 14 de julho de 1789 |
O marco da
sanguinária, e mesmo diabólica, Revolução Francesa foi a Queda da Bastilha, no dia 14 de julho de 1789, exatamente há 235
anos. Rememorando essa simbólica data, reproduzimos um artigo publicado na
revista Catolicismo (edição de julho de 1951) de autoria de um saudoso
diretor da revista (+1988) e brilhante advogado e jornalista, o Dr. José Carlos
Castilho de Andrade.
Como se sabe, a
Revolução Francesa marca o fim dos Tempos Modernos e o início da Época
Contemporânea. Este acontecimento, que fica situado entre duas eras históricas
inteiramente diversas, começou com a capitulação da velha fortaleza real ante o
populacho amotinado, que nela via o símbolo da ordem de coisas que queria
destruir.
Compreende-se pois
que a Bastilha, em torno da qual pairavam lendas tão sinistras e emocionantes,
tenha atraído a atenção dos historiadores e a curiosidade do público.
* * *
O 14 de Julho
assinala o crepúsculo da verdadeira liberdade. Essa Bastilha Santo Antonio, que
depois teve tão triste fama, começou a construir-se em 1370, no reinado de
Carlos V, chamado o Sábio. Era então apenas uma fortificação para proteger
contra os ataques inimigos a entrada de Paris pela Porta Santo Antonio.
Já no século seguinte
recebia esporadicamente prisioneiros, pelo menos os de guerra, o que não
impedia os Reis de nela realizar grandes festas e hospedar personagens ilustres
de visita à cidade.
Prisão de Estado
Ao Cardeal de
Richelieu, pontífice do absolutismo francês, é que se deve a transformação da
Bastilha em prisão de Estado. Fernando Bournon definiu muito bem o que era uma
prisão de Estado no Ancien Régime:
“Por prisão de Estado — e em especial tratando-se da Bastilha — deve-se entender a prisão dos que cometeram crime ou delito que não é de direito comum, daqueles que, com ou sem razão, são julgados perigosos à segurança do Estado, quer se trate da própria nação, de seu chefe, ou de um grupo mais ou menos importante de cidadãos, grupo por vezes restrito a uma, família. Se se juntar a essa espécie de prisioneiros as personagens muito em evidencia para serem punidas, por crime de direito comum, como qualquer malfeitor vulgar, e a quem parecia dever ser reservada uma prisão excepcional, teremos enumerado as diferentes espécies de delitos que, na Bastilha foram expiados desde Richelieu até a Revolução”.
![]() |
| Uma "lettre de cachet" de 1703 (reinado de Luís XIV ), abrindo "De par le roy" (Em nome do Rei...) |
Bastilha, garantia de liberdade
A princípio a prisão
na Bastilha, bem como a libertação, dependiam exclusivamente de uma "ordem
de Rei", ou seja, de uma "lettre de cachet", o que significava
que não resultavam de processo judiciário regular.
Os contemporâneos não
viam nisso a manifestação de uma tirania odiosa, como se poderia supor. Para
não nos estendermos na explicação desse fato, limitamo-nos a transcrever a
magistral "miseau-point" da questão das "lettres de cachet"
feita por Funck-Brentano:
"A autoridade real, por sua existência mesma, era a condição essencial da liberdade na França, e a lettre de cachet era o único meio de que o Rei dispunha para fazer valer essa autoridade. Graças a esse poder latente, que existia em toda a parte, sem se manifestar por fatos tangíveis, as mil e uma autoridades locais eram mantidas em equilíbrio, e no temor de abusar de seu muitas vezes, seu emaranhamento. De onde se chega à conclusão, por certo bem inesperada, de que as lettres de cachet formavam na antiga França a ossatura da liberdade" (L'Ancien Régime, cap. XI).
De resto, a partir da
segunda metade do século XVII a Bastilha foi posta sob a autoridade de um
personagem de caráter nitidamente judiciário, a um verdadeiro magistrado,
embora investido de funções também administrativas: o Lieutenant de Polícia.
Ele entra na prisão quando lhe apraz, estabelece comunicação direta e constante
com os presos, e inspeciona todos os quartos ao menos uma vez por ano.
Desde então, 24 horas
após sua entrada na Bastilha os presos deviam ser interrogados por um Comissário
do Châtelet, o tribunal do viscondado de Paris. Embora com algumas exceções, de
presos que esperaram duas ou três semanas para comparecer perante o magistrado,
essa ordem era conscienciosamente observada.
O Comissário do
Châtelet depois de tomar conhecimento das notas que lhe enviava o Lieutenant e
de interrogar o preso, remetia o processo verbal do interrogatório, juntamente
com sua opinião fundamentada sobre os motivos da prisão, ao próprio Lieutenant,
que resolvia se a prisão devia ou não ser mantida. Nos casos mais importantes
uma comissão especial, composta de magistrados, é que interrogava os presos. Já
não se podia dizer, portanto, que os detidos na Bastilha não eram sujeitos a
julgamento.
Reconhecida a
injustiça de uma prisão, nova "ordem do Rei" mandava pôr em liberdade
o preso. E o melhor é que este era indenizado, quer com uma boa soma em
dinheiro, quer com uma pensão vitalícia, quer ainda um emprego público.
No reinado de Luís
XVI os conselheiros do Parlamento, juízes da mais alta Corte de justiça de França,
inspecionavam a Bastilha com a mesma liberdade que as outras prisões. Por fim,
o Ministro Breteuil determinou que nenhuma ordem de prisão fosse aceita pelo
Lieutenant da Polícia se não indicasse a duração e os motivos da pena.
Em 1785 foram
praticamente abolidas as "lettres de cachet".
Por outro lado, desde
meados do século XVIII o Châtelet manda para a fortaleza da porta Santo
Antonio, por sua própria autoridade, sem intervenção do Rei, acusados que estão
sendo processados perante aquele tribunal, inclusive por crimes de direito
comum.
Destarte a Bastilha
foi perdendo progressivamente o caráter de prisão de Estado, de prisão do Rei,
e muitos anos antes da Revolução já se tornara uma prisão igual às outras,
embora muito mais suave, como se verá.
![]() |
| No interior da Bastilha, a câmara do conselho, esboçada em 1785 por Jean-Honoré Fragonard (1732-1806). |
Número de detenções
Ao mesmo tempo que se
dava essa evolução, o numero das detenções diminuía. A fortaleza só comportava 42
presos alojados separadamente. Sob Luís XIV, de 1660 a 1715, recebeu 2.228
prisioneiros, o que representa uma media de 40 por ano; no reinado seguinte, de
1715 a 1774, esse número elevou-se a 2567, numa media anual de 43; por fim, no
reinado de Luís. XVI, baixou a 289, ou seja uma media anual de 19.
De 1783 a 1789, a
Bastilha ficou quase deserta; na ocasião de sua queda continha apenas sete
presos. Quatro deles estavam sendo julgados no Châtelet, por terem falsificado
letras de cambio; outro, o Conde de Solages, cometera um crime monstruoso e
fôra recolhido à Bastilha em consideração à sua família, para evitar o escândalo
de um julgamento. Os dois últimos eram loucos.
Assim, a velha
fortaleza agonizava. Por isso, e como ficasse muito cara a sua manutenção, o
governo decidira demoli-la. Os revolucionários de 14 de julho apenas se
anteciparam.
A vida na Bastilha
A principal nota distintiva
da Bastilha era não ter nenhum dos característicos de uma prisão no sentido próprio
da palavra. “Meu desejo, rezam as ‘ordens
do Rei’, é que vos façais conduzir ao meu castelo da Bastilha” mais do que
prisão, era ela um castelo forte onde Sua Majestade recolhia súditos cujo
comportamento lhe desagradava.
No interior da Bastilha,
esboçada em 1785
por Jean-Honoré Fragonard
(1732-1806).
Daí uma primeira
consequencia: a estadia na Bastilha não desonra ninguém, nem mesmo as mais
altas personagens do reino. Antes pelo contrário, talvez fosse
"distinto" ter lá estado, pois ela era reservada de preferência aos
membros da aristocracia: O Lieutenant de Policia D'Argenson diz de alguém, que
não merece bastante "consideração" para ser mandado para a prisão
real.
Esse é um ponto
interessante e que se tem procurado esquecer: a Bastilha era destinada
principalmente à nobreza.
"A 14 de julho tomaram a Bastilha, escreve o Padre Rudemare; no dia 15 lá fui por curiosidade. Um maltrapilho disse-me então: ‘Não direis, Mr. le Chevalier, que foi para nós que trabalhamos destruindo a Bastilha, mas sim para vós, pois os miseráveis não tinham lá entrada. Para nós a Bicêtre... Não há por aí uns cobres para beber à vossa saúde?"(Journal d'un Abbé Parisien).
Sebastião Locatelli,
Padre bolonhês, que visitou Paris no tempo do Rei-Sol e dispôs de excelentes fontes
de informações, escreve:
"É um favor especial do Rei ser-se condenado a uma tão bela prisão... Ali há; é certo, comodidades e prazeres que nem todos os grandes príncipes têm nos seus próprios palácios, e uma liberdade tão grande que os olhos podem ali gozar agradáveis paisagens".
O Castelo dispunha de
algumas enxovias, úmidas e mal ventiladas, em parte subterrâneas. Sob Luís XIV
só iam para lá os presos da mais baixa esfera e os assassinos. No reinado de
Luís XV quase só serviam para os insubordinados que maltratavam os guardas ou
os companheiros de prisão, bem como para os soldados da guarnição culpados de
grave indisciplina. Muito antes do 14 de julho já não eram utilizadas: desde o
primeiro Ministério Necker (1776-1778) era proibido deter nas enxovias fosse
quem fosse, e nenhum dos guardas interrogados no dia 18 de julho de 1789 se
recordava de nelas ter estado algum preso.
Os
"hospedes" habitavam os andares superiores, onde dispunham de quartos
amplos e arejados, dotados de grandes janelas (que só receberam grades no fim
do reinado de Luís XIV), e aquecidos por lareiras.
![]() |
| Uma pintura de testemunha ocular do cerco da Bastilha por Claude Cholat |
"Roteiro"
de um prisioneiro
Como o ambiente da
Bastilha não era propriamente o de um campo de concentração moderno, não havia
necessidade de um grande aparato militar para convencer alguém de se recolher
aos seus muros. Geralmente um oficial de polícia notificava ao interessado a
"ordem do Rei" e o conduzia em um carro de passeio, tomando o cuidado
de não deixar morrer a conversa durante o percurso, conhecedores que eram os
policiais de então das usages du monde.
É o que contam diversas memórias de antigos prisioneiros.
As pessoas "de
qualidade", cientes da "lettre de cachet"; apresentavam-se à
prisão sem outro acompanhamento que o de seus parentes ou criados. Entre
diversos exemplos lê-se no diário de Du Junca, delegado do Rei na Bastilha, que
"Mr. de Villars tenente-coronel do regimento de infantaria dos Vosges, veio entregar-se à prisão, tendo estado detido na cidadela de Grenoble, de onde veio diretamente sem ser conduzido por ninguém", e que "Mr. de Jones, inglês", veio da Inglaterra, em absoluta liberdade, constituir-se prisioneiro da Bastilha.
Chegado à fortaleza,
o novo preso era imediatamente conduzido à presença do governador, que o fazia
sentar-se para conversarem um pouco. No tempo de Luís XIV, o governador
costumava convidar seu novo jurisdicionado, bem como os amigos ou oficiais da
policia que tinham acompanhado, a almoçarem ou jantarem em sua mesa.
Enquanto isso
preparavam-se os aposentos do recém-chegado. (Com Mr. de Courlandon, coronel de
cavalaria, que se apresentou à Bastilha em 26 de janeiro de 1695, aconteceu um
fato muito desagradável: não havendo quarto em condições de o receber, teve que
passar a noite numa hospedaria próxima e só pode ser preso no dia seguinte ...).
Depois de pedir ao
prisioneiro que esvaziasse os bolsos (só as pessoas de baixa condição eram
revistadas), e de fazer um pacote com seu dinheiro, jóias e armas, conduziam-no
aos seus aposentos.
O "regime"
penitenciário
Até o interrogatório
o preso era mantido incomunicável e só, a menos que lhe tivessem permitido
levar consigo algum criado. A administração facilmente concedia licença para
isso, chegando a pagar não só a alimentação como também o ordenado dos criados,
inclusive para detidos de classe inferior.
Diário de Antoine-Jérôme de Losme,
o major da Bastilha,
descrevendo os dias antes da
queda da Bastilha em 1789
Havia também o
cuidado de reunir dois e três parentes no mesmo quarto, para evitar o tédio da
solidão. Comovido com o isolamento de Mme. de Fontaine, que não tinha parentes
entre os prisioneiros, o Lieutenant da Policia, prendeu também seu marido, o
que decididamente era levar as coisas um pouco longe.
Terminado o interrogatório
os prisioneiros podiam receber visitas de fora, mais comumente na presença de
um oficial da guarnição. Em geral só lhes era permitido falar de questões de família
ou de interesses, mas não é caso único o de Bussy-Rabutin que tratava
livremente com qualquer de suas visitas e chegava a oferecer jantares a amigos
da corte.
A raríssimos presos
era recusada autorização para passear pelas torres e pátios do castelo. No pátio
interior reuniam-se e em grande número para conversar e divertir-se com as
visitas e oficiais da guarnição. Era uma verdadeira vida de corte, elegante, frívola
e de grande brilho.
Manda a verdade que
se diga que muito mais raro era a permissão de passear pela cidade, embora vários
presos dela gozassem...
Tudo isso, bem
entendido, quando não se tratava de alguém cuja prisão devesse permanecer
secreta. Então, o preso era mantido em completo isolamento e podia ser obrigado
a usar uma mascara de sêda para não ser reconhecido pelos guardas (daí a lenda
do Mascara de Ferro). Esses casos geralmente de espiões e agentes secretos, são
raros e deles não há exemplo no reinado de Luís XVI.
Em seus quartos os
detidos faziam o que lhes aprouvesse: uns criavam aves e animais, alguns
tocavam instrumentos de música, outros cantavam, bordavam, cosiam, jogavam
cartas e xadrez. Não faltavam sequer as intrigas elegantes ou políticas, tão do
gosto da corte.
O mobiliário
A princípio o mobiliário
desses quartos não era dos melhores, pela simples razão de que não existia. Os
presos mandavam buscar de suas casas os móveis que desejassem, ou alugavam-nos
do tapeceiro do castelo. Aos que nada possuíam, o Rei mandava fornecer
dinheiro, por vezes grandes quantias, que lhes permitia decorar os quartos a
seu gosto. A partir do início do século XVIII foram sendo mobiliados
definitivamente alguns aposentos, de modo que sob Luís XVI quase todos tinham
mobiliário, aliás bem modesto. Mas os presos conservaram o direito de, após o
interrogatório, mandar vir de fora os objetos que desejassem.
Por isso alguns
quartos eram até luxuosas. O do conde de Belle-Isle, por exemplo, tinha um
serviço de linho fino para mesa, uma baixela de prata, um leito guarnecido de
damasco vermelho bordado a ouro, quatro tapeçarias, dois espelhos, um
guarda-fogo com a mesma guarnição que o leito, dois biombos, poltronas,
cadeiras estofadas, mesas, cômodas, sofás, castiçais de cobre prateado etc. E
para ocupar os ócios, uma biblioteca de 343 volumes.
Parece que essa
questão de livros tinha muita importância. Se um detido, mesmo de classe
modesta, não encontrava na biblioteca do castelo alguma obra que lhe
interessasse, a administração mandava adquiri-la, ainda que custasse bom
dinheiro.
A pão e água...
Mas, "primum
vivere ..." Antes de se entregarem ao estudo os súditos da Sua Majestade
recolhidos ao seu castelo da Bastilha queriam alimentar o corpo (à custa da
Real Fazenda, naturalmente). E como comiam! Constantin de Renneville, que
esteve preso nos fins do século XVII, no libelo que escreveu contra a Bastilha
conta que seu primeiro jantar na prisão constou de
"uma esplêndida sopa de ervilhas e alface, bem preparada e de bom aspecto, com um pedaço de frango; em uma travessa uma suculenta posta de carne, com um molho de salsa; em outra um pastel acompanhado de arroz com vitela; aspargos, cogumelos, trufas, e como último prato uma língua de carneiro guisada. Para sobremesa, biscoitos e maçãs. O carcereiro quis ter a amabilidade de me servir o vinho: era um excelente Borgonha".
As sextas-feiras e durante a quaresma os presos deviam jejuar:
"Eu tinha, diz Renneville, seis pratos e uma sopa de marisco. Entre os pratos de peixe vinham sempre fresquíssimos linguados, percas etc". Passado algum tempo, Renneville começou a receber a pensão dos presos de baixa categoria: "uma boa sopa de pão, um regular pedaço de carne, uma língua de carneiro guisada e dois bolos para sobremesa. E assim se manteve durante todo o tempo em que fui obrigado a permanecer em tão aborrecido local; por vezes o cardápio era aumentado com uma asa ou coxa de frango e dois pequenos pasteis".
A Tavernier, homem de
baixa extração e acusado de conspirar contra a vida do Rei, um dos loucos
encontrados na fortaleza no dia 14 de julho, recebeu durante o mês de novembro
de 1788, além de suas refeições habituais: quatro garrafas de aguardente, 60 de
vinho, 30 de cerveja, duas libras de café, três de açúcar, uma perua, ostras,
castanhas, maçãs e peras.
"O governador de Launey, conta Poultier d'Elmotte, vinha frequentemente conversar comigo; procurava saber que espécie de alimentação eu queria e ordenava que me fosse servido o que eu desejasse".
O Rei também vestia
os presos pobres. Não, naturalmente, como hoje se usa, com uniformes de presidiário,
mas com casacões almofadados com pele de coelho, casacos forrados de seda e
trajes fantasia, tudo feito sob medida. A mulher do comissário Rochebrune
procura por toda a cidade uma fazenda de seda branca com flores verdes, para
atender o pedido de uma prisioneira, Mme. Sauvé.
"Snr. Major, escreve o preso Hugonnet, as camisas que trouxeram não são as que pedi, pois lembro-me de ter escrito que queria finas e com punhos bordados e as que me mandaram são grosseiras, de mau pano e com punhos próprios para um carcereiro; peço-vos, portanto, devolve-las ao sr. comissário: que as guarde, para mim não servem".
Bastilha, meio de
enriquecimento
Até meados do século
XVIII os presos podiam optar por um regime de vida mais modesto e guardar o que
sobrasse da importância destinada à sua manutenção. Com isso alguns chegaram a
amealhar pequenas fortunas. A partir daquela época, porém, esse dinheiro devia
ser aplicado integralmente ao fim a que era reservado.
A liberdade
Por melhor que fosse
a vida na Bastilha, os prisioneiros geralmente ansiavam pela liberdade. Esta,
como a prisão, resultava de uma "lettre de cachet".
O governador da fortaleza vinha ao quarto do preso noticiar-lhe que estava livre. Cumpridas as formalidades, mandava servir ao que fôra seu hospede um magnífico jantar de despedida. Se se tratasse de pessoa de qualidade, convidava-o para sua mesa e, feitas as despedidas, mandava conduzi-lo em seu próprio carro acompanhando-o por veres até seu destino.
Naturalmente, a ordem
de libertação nem sempre era tomada à risca. Se o preso lutava com dificuldades
para se instalar lá fora, permitia-se-lhe que ficasse na Bastilha por mais
tempo, até arranjar as coisas. E isso se deu muitas vezes. Muitos antigos
prisioneiros — Le Maistre de Sacy, Mme. de Staal [quadro ao lado], Fontaine, o Padre Morellet,
Dumouriez, o próprio Renneville, entre outros — referiam-se com saudades aos
tempos felizes que passaram no castelo de Santo Antonio.
O enigma da Bastilha
Essa é a verdade
sobre a Bastilha. Garantem-no a idoneidade e a autoridade do insigne Funck-Brentano,
de cuja obra extraíram dados históricos. Garantem-no as fontes de que se serviu
aquele historiador, a saber, os arquivos da famosa prisão de Estado, compostos
de milhares de documentos, que foram reunidos na Biblioteca do Arsenal, em
Paris, bem como as memórias de numerosos antigos prisioneiros. Como então a
Bastilha se tornou símbolo da opressão, da tirania, e sinônimo de prisão aspérrima
e desumana?
A explicação se
encontra na propaganda revolucionaria, que aliás também conseguiu divulgar uma
imagem adulterada de tantas outras instituições do Ancien Régime.
Já nos últimos decênios
que antecederam a Revolução a lenda da Bastilha criara raízes na fantasia
popular.
"A Bastilha, diz Restif de la Bretonne, era um terrível espantalho, para o qual não me atrevia a olhar quando, ao cair da tarde, passava pela rua Saint-Gilles".
Chevalier, major da
Bastilha, dirigindo-se ao Lieutenant de Policia, fala das histórias que
circulavam a respeito da prisão:
"Ainda que completamente falsas, dizia, julgo-as perigosas pela repetição que delas se faz há muitos anos".
De resto, o mistério de que a Bastilha se criava oferecia campo propicio ao desenvolvimento de toda a sorte de lendas. Quando um preso entrava na fortaleza, em uma carruagem com as cortinas descidas, os soldados da guarda deviam virar-se para a parede ou baixar as viseiras. Todo o pessoal da guarnição estava obrigado a guardar o mais absoluto segredo sobre a identidade dos prisioneiros e a vida que levavam. Ao ser posto em liberdade, o preso era convidado a assinar um compromisso de nada revelar do que tivesse visto no interior dos formidáveis muros do castelo (diga-se de passagem que muitos recusavam-se a assinar tal compromisso, sem que isso retardasse sua libertação, enquanto outros contavam a quem os quisesse ouvir tudo que sabiam e muito do que não sabiam, não constando que tenham sido incomodados por esse motivo).
Já ficou dito que a
autoridade do Rei na França de antes da Revolução era a condição mesma da
ordem. Seus fundamentos eram a tradição, e o amor e temor do povo. Amor aos
filhos pelo pai, a autoridade real tendo se originado historicamente da
autoridade paterna. E temor igualmente filial, resultante mais da grandeza, da
majestade, do esplendor da realeza do que propriamente de sua força efetiva.
Apresentar a Bastilha
como um temível instrumento de opressão e tirania foi um dos muitos meios de
que se valeu a propaganda revolucionaria para resfriar o amor do povo pelo Rei.
Mas, por outro lado,
isso aumentava o temor, que era justamente o freio daqueles que, constituindo a
borra da população, eram os mais seguros cooperadores potenciais da obra
revolucionaria. Levando essa mesma ralé a derrubar aquilo que lhe apresentavam
como o símbolo do poder real, a Revolução conseguiu fazê-la sentir a fraqueza
do Rei e sua própria força.
Perdido o respeito
pela autoridade paternal do Rei, o povo entregar-se-á a todos os excessos e a
anarquia estender-se-á pela França. Para reimplantar a ordem Napoleão usará um
guante de ferro e criará a formidável máquina administrativa e policial do
Estado moderno.
A verdadeira importância
da jornada de 14 de julho de 1789 reside nisso; no enorme impulso que deu à
transição da velha França tradicional e orgânica, com suas liberdades e
franquias, para a França administrativa e policial dos tempos modernos. O
enigma está em que ainda hoje ela seja comemorada como a aurora da liberdade.
27 de maio de 2024
INTREPIDEZ ANGÉLICA DE UM IMORTAL PONTÍFICE

Audiência de São Pio X no Pátio de São Dâmaso, em 1904
“A sua palavra era
trovão, era espada, era bálsamo [...]. Com seu olhar de águia, mais perspicaz e mais seguro do que a visão
estreita de pensadores míopes, via o mundo tal qual era, via a missão da Igreja
no mundo, via com olhos de santo Pastor, o dever que lhe incumbia no seio de
uma sociedade descristianizada, de uma cristandade contaminada, ou ao menos
infiltrada dos erros do tempo e perversão do século” (Palavras do Papa Pio XII
a respeito de São Pio X).
✅ Paulo Roberto Campos
A
Santa Igreja celebra neste ano três importantes efemérides relacionadas a um
grande Papa, que foi também um grande defensor da Fé, um grande Santo. Falamos
de São Pio X. 110 anos de seu falecimento, em 20 de agosto de 1914; 80 anos da
exumação de seu corpo, encontrado incorrupto, em 19 de maio de 1944; 70 anos de
sua canonização por Pio XII, em 29 de maio de 1954.
O
governo pontifício de São Pio X (1903-1914) foi marcado pelo profundo combate
que empreendeu com inteligência e destemor contra os erros que se infiltravam na
Igreja, sobretudo os erros do modernismo,
heresia dissimulada e perniciosíssima para a Cristandade e com muitos traços
semelhantes ao progressismo impulsionado maximamente pelo Concílio
Vaticano II (1962-1965), convocado por João XXIII e encerrado no Pontificado de
Paulo VI.1
Eis
que em nossos dias o progressismo
(dito católico) atinge o clímax na tentativa de “modernizar” e deturpar os
dogmas, o Magistério perene e as tradições católicas — tradições majestosas que
tanto aborrecem os progressistas
“teólogos da libertação”.
O
Movimento Modernista pretendia uma
reforma na Igreja sob o pretexto de uma suposta necessidade de renovações, de
progresso e de seguir as leis da evolução nos costumes e até na Fé.
De
uma bondade e afabilidade angelicais em relação aos filhos fiéis da Igreja,
entretanto de uma firmeza e intrepidez igualmente angélicas, São Pio X primeiramente
repreendeu e exortou os seguidores de tal movimento à conversão, acolheu os
convertidos e depois — não obtendo o arrependimento — os condenou com vigor
como um Anjo empunhando a espada de fogo da ortodoxia.
No Decreto Lamentabili
sane exitu, de 3 de julho
de 1907, São Pio X condenou formalmente 65 proposições modernistas relativas à natureza da Igreja, à revelação, aos
sacramentos, à divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo, a erros na exegese da
Sagrada Escritura e na interpretação de dogmas.
![]() |
| Medalha comemorando a Encíclica Pascendi Dominici Gregis com a qual São Pio X condenou o Movimento Modernista |
Inimigos ocultos no próprio seio da Igreja
Como nem com o Decreto nem com as medidas mais suaves os modernistas não se emendaram, mas continuaram arrogantes na conduta e obstinados no erro, dois meses depois o Romano Pontífice se viu obrigado a tomar medidas mais severas. Aprofundou a problemática, escrevendo sua magistral Encíclica sobre os erros do modernismo, a Pascendi Dominici Gregis, de 8 de setembro de 19072, que marcou profundamente os ambientes católicos e intelectuais do século XX.
Considerado como sendo um dos maiores lances na
História da Igreja, o documento, redigido com ‘mão de ferro sob luvas de
pelica’, fulminou a artimanha, uma verdadeira conspiração interna concebida pelo
Movimento Modernista que visava debilitar a Religião Católica
apresentando-a não tanto como obra divina, mas humana, ou de meras concepções
filosóficas.
A fim de contestar os erros
do modernismo, afirma o santo autor:
“Exige que sem demora falemos, é antes de tudo que os fautores do erro
já não devem ser procurados entre inimigos declarados; mas, o que é muito para
sentir e recear, se ocultam no próprio seio da Igreja, tornando-se destarte
tanto mais nocivos quanto menos percebidos.
“Aludimos, Veneráveis Irmãos, a muitos membros do laicato católico e
também, coisa ainda mais para lastimar, a não poucos do clero que, fingindo
amor à Igreja e sem nenhum sólido conhecimento de filosofia e teologia, mas,
embebidos antes das teorias envenenadas dos inimigos da Igreja, blasonam,
postergando todo o comedimento, de reformadores da mesma Igreja; e cerrando
ousadamente fileiras se atiram sobre tudo o que há de mais santo na obra de
Cristo, sem pouparem sequer a mesma pessoa do divino Redentor que, com audácia
sacrílega, rebaixam à craveira de um puro e simples homem”.3
São
Pio X estigmatizou tal heresia como sendo a “síntese de todas as heresias”:
“Não se trata de doutrinas vagas e desconexas, mas
de um corpo uno e compacto de doutrinas em que, admitida uma, todas as demais
também o deverão ser. Por isso, também quisemos servir-nos de uma forma quase
didática, e nem recusamos os vocábulos bárbaros, que os modernistas adotam. Se, pois, de uma só vista de olhos atentarmos
para todo o sistema, a ninguém causará pasmo ouvir-Nos defini-lo, afirmando ser
ele a síntese de todas as heresias”.4
Erros do Modernismo serpeavam nos meios católicos
Na citada encíclica resta evidenciado que aquele
movimento articulava uma pérfida (e muito poderosa) conjuração anticatólica,
organizada por pessoas muito labiosas que se apresentavam dissimuladas de
católicas e davam aos “erros do Modernismo” uma aparência de verdade.
Assim, iludiam mais facilmente muitos fiéis, redobrando o malefício às almas com
a pregação de concepções contrárias à doutrina católica, teorias protestantizantes
conformes à “reforma” revolucionária do heresiarca Matin Lutero.
Carta Pastoral do Cardeal
Arcebispo do Rio de
Janeiro
comunicando ao clero e aos
fiéis da
arquidiocese a
Encíclica de São Pio X
(1908)
“Já vimos essas ideias condenadas pelo Concílio
Vaticano I [convocado pelo bem-aventurado Papa Pio IX em 1869]. Veremos ainda como, com semelhantes
teorias, unidos a outros erros já mencionados, se abre caminho para o ateísmo”.5
Abrasado com o zelo que deve ter o Vigário de
Cristo na Terra, o modernismo foi fulminado como sendo uma seita dos
mais perigosos inimigos da Igreja, agindo dentro d’Ela. E por essas razões seus
líderes foram desmascarados, alguns excomungados e interditadas suas
publicações, jornais, livros etc.
Na época, eles galgavam postos-chaves junto à
hierarquia eclesiástica, elevavam-se nos púlpitos e nas cátedras, agiam tanto
nos confessionários quanto nas ruas, para introduzir na Igreja a mania das
novidades, os erros do mundo moderno. Eram lobos vorazes disfarçados de dóceis ovelhas
para enganar os fiéis (mas incautos) católicos, além de menosprezarem as belas
e seculares tradições da Igreja, sugerindo-lhes “reformas” opostas às tradições
da Cristandade e à doutrina de sempre ensinada no Evangelho.
Condenados
aqueles que arrastam outros ao erro
O Pontífice afirmou que os modernistas infiltraram
na Igreja para mais eficazmente destruí-la, relativizando e adulterando seu
ensino perene e infalível:
“Não se afastará, portanto, da verdade quem os tiver como os
mais perigosos inimigos da Igreja. Estes, em verdade, como dissemos, não já
fora, mas dentro da Igreja, tramam seus perniciosos conselhos; e por isto, é
por assim dizer nas próprias veias e entranhas d’Ela que se acha o perigo,
tanto mais ruinoso quanto mais intimamente eles a conhecem. Além de que, não
sobre as ramagens e os brotos, mas sobre as mesmas raízes que são a Fé e suas
fibras mais vitais, é que meneiam eles o machado”.6
Assim
deve proceder o Bom Pastor na defesa de suas ovelhas, usando seu cajado para
expulsar os lobos do redil. Referindo-se aos modernistas, o Pastor dos Pastores, com palavras da Escritura, os increpa:
“Devido
ao inimigo do gênero humano, nunca faltaram homens de perverso dizer (At 20,30), vaníloquos e
sedutores (Tit 1,10), que
caídos eles em erro arrastam os demais ao erro (2 Tim 3,13). Contudo, há mister confessar que nestes
últimos tempos cresceu sobremaneira o número dos inimigos da Cruz de Cristo, os
quais, com artifícios de todo ardilosos, se esforçam por baldar a virtude
vivificante da Igreja e solapar pelos alicerces, se dado lhes fosse, o mesmo
reino de Jesus Cristo. Por isto já não Nos é lícito calar para não parecer
faltarmos ao Nosso santíssimo dever, e para que se Nos não acuse de descuido de
nossa obrigação, a benignidade de que, na esperança de melhores disposições,
até agora usamos.
“Cegos,
na verdade, a conduzirem outros cegos, são esses homens que inchados de
orgulhosa ciência, deliram a ponto de perverter o conceito de verdade e o
genuíno conceito religioso, divulgando um novo sistema, com o qual, arrastados
por desenfreada mania de novidades, não procuram a verdade onde certamente se
acha; e, desprezando as santas e apostólicas tradições, apegam-se a doutrinas
ocas, fúteis, incertas, reprovadas pela Igreja, com as quais homens
estultíssimos julgam fortalecer e sustentar a verdade (Gregório XVI, Encíclica Singulari Nos 7 julho 1834)”7.
Semelhança dos modernistas com os
progressistas atuais
Logo na primeira parte deste artigo destacamos a luta do
Santo Pontífice contra o Movimento
Modernista. A razão se deve à grande semelhança com a luta que hoje travamos
contra o progressismo. Os neomodernistas — também estes
infiltrados nos ambientes (incredibile
dictu, mesmo nos mais altos) da
Santa Igreja — continuam a ação, e herdaram os mesmos erros daquele movimento
condenado no início do século XX.
Mas
o governo de São Pio X não se restringiu a esse combate para destruir os
inimigos, foi também um frutuoso período de muitas construções de fortalezas
espirituais visando “Restaurar o Reinado
Social de Jesus Cristo”. [vide
quadro no final].
No mínimo, precisaríamos de um livro para elencar os grandes
lances desse glorioso Pontificado, por exemplo, seus trabalhos dedicados à
reorganização do Código de Direito
Canônico — depois promulgado pelo sucessor, o Papa Bento XV. Um monumento
inaugurado por Pio XI, em 28 de junho de 1923, sintetiza em títulos algo do
período de São Pio X no Vaticano. Na base da imagem do santo há oito painéis em
bronze representando atributos primordiais daquele curto período de 11 anos:
· * Papa da Eucaristia;
· * Defensor da Fé;
· * Apoiador da França Católica;
· * Patrono das Artes;
· * Guardião dos Estudos Bíblicos;
· * Reorganizador do Direito Canônico;
· * Reformador da Música Sacra;
· * Pai dos Órfãos e dos Abandonados.
O Papa por excelência
do Santíssimo Sacramento
Pelo menos de passagem, poderíamos discorrer um pouco sobre o primeiro título, “O Papa da Eucaristia”. Um dos pilares de seu Pontificado foi seu desempenho incrementando enormemente a devoção ao Santíssimo Sacramento. Ele incentivou ao máximo essa devoção, aconselhou a comunhão quotidiana e a comunhão às crianças. A tal ponto que passou para a História com a honra de tal título.
“A sagrada comunhão é
o caminho mais curto e seguro para o Céu”, afirmava São Pio X. Declarou que
“todos os fiéis têm liberdade de receber a sagrada comunhão com frequência e
até diariamente, como é desejo de Jesus Cristo e de Sua Igreja; e que,
portanto, não se deve negá-la a ninguém, que se aproxime da Sagrada Mesa em estado de graça e com reta e devota intenção”.
Certa
vez uma senhora da alta sociedade perguntou ao Papa: “Que posso fazer pela Igreja de Deus?”. — “Ensinai o catecismo”, foi a sua resposta.8
O
Santo Padre foi um apóstolo da Primeira Comunhão às crianças. Propagou em todos
os países o ensino do catecismo a elas, a fim de que desde cedo conhecessem as
noções elementares da doutrina católica e pudessem comungar a partir da “idade
da discrição” (fase em que os pequenos alcançam a capacidade de discernir entre
o certo e o errado). Para a Primeira Comunhão bastava que elas “soubessem
distinguir entre o ‘Pão Eucarístico’ e o ‘pão material ordinário’”, e que se exigisse delas apenas que tivessem
“certo conhecimento dos rudimentos da fé”.
O
próprio Papa pessoalmente ensinava o catecismo às crianças, insistia na prática
da confissão frequente e as preparava para a Primeira Comunhão. Numa dessas catequeses,
recomendou-lhes que fossem “obedientes e
desprendidos de vós mesmos, aplicados na oração e no estudo, diligentes para
com Deus e seu santo serviço, mas principalmente assíduos na recepção dos
sacramentos e na devoção à santa eucaristia, esse deverá ser o apostolado junto
aos vossos companheiros”.9
Com
seu apostolado da Sagrada Hóstia dificultou que as heresias modernistas e jansenistas se expandissem nos meios católicos. O jansenismo10 negava a
infinita misericórdia de Deus, o que diminuía a confiança n’Ele e esfriava o
fervor da devoção ao Santíssimo Sacramento.
Pelo
contrário, São Pio X assegurou: “A devoção à Eucaristia é a mais nobre de
todas as devoções, porque tem o próprio Deus por objeto; é a mais salutar
porque nos dá o próprio autor da graça; é a mais suave, pois suave é o Senhor. Se os anjos pudessem sentir inveja, nos
invejariam porque podemos comungar”.
O defensor da fé católica entrega sua alma a Deus
Nos
primórdios da Primeira Guerra Mundial, em 20 de agosto de 1914, os grandes
sinos do Vaticano anunciaram que o Santo Papa havia morrido. Uma morte um tanto
suspeita e misteriosa, pois aqueles que com ele conviviam, que conheciam seu
estado de saúde, não esperavam esse trágico desfecho, apesar de sua saúde
debilitada e de sua enorme preocupação com os rumos que poderiam tomar a Grande
Guerra que acabava de eclodir.
Contudo, os líderes modernistas pareciam esperar tal
desfecho. Eles se exultaram com a morte do santo, pois assim ficavam livres
para agir sem aquele obstáculo quase intransponível. Alguns autores chegam a suspeitar
de uma morte “encomendada”.
O
último gesto de São Pio X foi beijar um crucifixo que segurava muito
devotamente. “Das mãos de seu amigo, Mons. Bressan, recebeu [São Pio X] devota
e alegremente os últimos sacramentos. ‘Seja feita a vontade do Senhor, a Ele
sem reservas me entrego’, foram as suas últimas palavras.
Respondia ainda às orações,
que junto dele se faziam, mas a sua voz ia se enfraquecendo cada vez mais, até
extinguir-se completamente. Na noite de 19 para 20 [de agosto] não lograva mais
falar. Reconhecia, porém, os que o rodeavam, apertava-lhes a mão,
abençoando-os. De quando em quando traçava um largo sinal da cruz. Logo depois
de uma e um quarto da madrugada entregou sua nobre alma ao Criador. Era o dia
20 de agosto de 1914. Morreu como tinha vivido: tranquilo e resignado”.11
Corpo encontrado
incorrupto e assim se mantém até hoje
Três décadas após sua morte, no dia 19
de maio de 1944, exatamente há 80 anos, abriram o sarcófago de São Pio X na
presença dos prelados membros do Tribunal
do Processo Apostólico. Para admiração de todos, seu corpo foi encontrado
incorrupto, sem que tivesse sido embalsamado — como era costume — devido a um pedido
expresso dele. 
O Papa João XXIII observa
o
corpo incorrupto de São Pio X
Um
dos presentes documentou:
“Abrindo o caixão, encontraram o corpo
intacto, vestido com as insígnias papais tal como foi enterrado 30 anos antes.
Sob a firme pele que cobria a face, o contorno do crânio era claramente
reconhecível. As cavidades dos olhos pareciam escuras, mas não vazias; estavam
cobertas pelas pálpebras muito enrugadas e afundadas. O cabelo era branco e
cobria o topo da cabeça completamente. A cruz peitoral e o anel pastoral
brilhavam reluzentes. Em seu último testamento, Pio X pediu especialmente que
seu corpo não fosse tocado e que o tradicional embalsamamento não fosse
realizado. Apesar disso, seu corpo estava excelentemente preservado. Nenhuma
parte do esqueleto estava descoberta, nenhum osso exposto. Enquanto o corpo
estava rígido, os braços, cotovelos e ombros estavam totalmente flexíveis. As
mãos eram belas e magras, e as unhas nos dedos estavam perfeitamente
preservadas”.
O fato
prodigioso de seu corpo ter sido encontrado incorrupto na exumação, e assim
permanecer até hoje, o que pode representar para nós? — Além de um evidente grande
milagre, poder-se-ia dizer que se trata de símbolo de um Pontificado que
combateu todo tipo de corrupção e um sinal de Deus de que o ensinamento desse
seu Vigário na Terra foi sempre fundamentado na doutrina incorruptível
da Santa Igreja de Deus.
Na lápide de seu sarcófago original, uma modesta inscrição foi gravada:
“Papa Pio X,
pobre e contudo rico, manso e humilde de coração, defensor invicto da fé católica,
desejoso de instaurar tudo em Cristo, falecido piedosamente aos 20 de agosto do
ano do Senhor de 1914”.12
Beatificação e
canonização do Paladino da Igreja
Por
ocasião da beatificação do Santo Pontífice (3 de junho de 1951), o Papa Pio XII
falou da virtude da fortaleza e da arguta percepção dos acontecimentos; grandes
dons que a Providência Divina prodigalizou a seu santo predecessor:
“A
sua palavra era trovão, era espada, era bálsamo: comunicava-se intensamente a
Vida a Igreja e tinha eficácia para ser ouvida fora e ao longe; vinha cheia de
irresistível vigor, graças não só à substância incontestável do conteúdo, como
também ao seu profundo e penetrante calor. Sentia-se nela arder a alma de um
Pastor que vivia em Deus e de Deus, sem outro fim senão conduzir a Ele os seus
cordeiros e as suas ovelhas [...].
“Com seu olhar de águia, mais perspicaz e mais
seguro do que a visão estreita de pensadores míopes, via o mundo tal qual era,
via a missão da Igreja no mundo, via com olhos de santo Pastor, o dever que lhe
incumbia no seio de uma sociedade descristianizada, de uma cristandade
contaminada, ou ao menos infiltrada dos erros do tempo e perversão do século.
“Iluminado pela claridade da verdade eterna, guiado
por uma consciência delicada, lúcida, de rígida firmeza, tinha ele,
frequentemente acerca do dever do momento e das resoluções a tomar, intuições
cuja exatidão perfeita desconcertava os que não eram dotados das mesmas luzes”.13
Três anos
depois, o mesmo Papa Pio XII declarou à multidão na Praça de São Pedro, lotada
para assistir a canonização de São Pio X, em 29 de maio de 1954:
“A santidade, que se revela inspiração e guia dos empreendimentos de Pio X, brilhou ainda mais fulgurantemente nas suas ações quotidianas. Foi primeiro em si mesmo que realizou, antes de realizá-lo nos outros. Seu programa: reunir tudo, reconduzir tudo à unidade em Cristo. Como humilde pároco, como bispo, como Sumo Pontífice, esteve sempre convencido de que a santidade à qual Deus o destinou era a santidade sacerdotal. Que santidade pode de fato agradar mais a Deus por parte de um sacerdote da nova Lei, senão aquela que convém a um representante do Supremo e Eterno Sacerdote, Jesus Cristo, Aquele que deixou à Igreja a memória contínua, a renovação perpétua do sacrifício da Cruz na Santa Missa, até que Ele venha para o julgamento final; Aquele que mediante o sacramento da Eucaristia se entregou como alimento para as almas: ‘Quem comer deste pão viverá para sempre’?” 14
Desde os primórdios, a Igreja tem assegurada a
vitória
Neste ano em que se comemora o centésimo
décimo aniversário do passamento de São Pio X da Terra para o Céu; o octogésimo
de sua exumação e o septuagésimo de sua canonização, desejaríamos que inúmeras
homenagens oficiais da Santa Igreja lhe fossem prestadas. Entretanto, com muita
dor e tristeza, somos obrigados a reconhecer que nosso desejo certamente não
será realizado. Por quê?
Infelizmente, como é de conhecimento de
nossos leitores — e sobre isso nunca é suficiente insistir —, retomando o mesmo
processo iniciado pelos modernistas, a Igreja passa por um misterioso
processo de autodemolição “golpeada
também pelos que d’Ela fazem parte”, e que Ela “atravessa hoje
um momento de inquietação. Alguns praticam a autocrítica, dir-se-ia até a
autodemolição”, como confessou Paulo VI em alocução aos alunos do Seminário
Lombardo, em 7 de dezembro de 1968.15
Quatro anos depois, o mesmo Paulo VI confirmou,
na Alocução Resistite fortes in fide,
que “por alguma fissura tenha
penetrado a fumaça de Satanás no templo de Deus”.16
Transcorridos 110 anos do final de um
Pontificado que barrou a entrada da “fumaça de satanás” — a “autodemolição” em
sua época —, vemos que os neomodernistas
escancaram as janelas e as portas do Templo de Deus para a entrada da fumaça
diabólica.
Eles parecem levar a Igreja ao paroxismo
no processo de autodemolição com o estabelecimento de uma “nova-igreja”, na
qual no próprio Vaticano se cultuou um ídolo pagão, a Pachamama, que nada tem a ver com a Santa Igreja Católica
Apostólica Romana como instituída por Nosso Senhor Jesus Cristo.
Mas, apesar de tudo, d’Ele temos assegurada,
desde os primórdios da Igreja, a vitória final, quando prometeu que “portae inferi non praevalebunt” — as
portas do inferno não prevalecerão.
O atual e sinistro mar de demolições no
qual navega a Barca de Pedro,
parecendo naufragar de um momento para outro, não nos mete medo. Pelo
contrário, nos dá mais coragem para continuar a navegação, para lutar ainda
mais pela completa realização do lema de São Pio X no sentido da plena
restauração da Igreja e do Mundo, o que se alcançará com o Reinado do Imaculado
Coração de Maria, como profetizado em Fátima em 1917.
Que São Pio X, o grande Papa Defensor da
Fé, interceda do Céu por nós, e obtenha que Deus envie seus Anjos para colocarem
freio nesse processo revolucionário universal, antecipem o desmantelamento dos
inimigos da Igreja, e realizem o quanto antes o nosso pedido, feito diariamente
no Pai-Nosso: “Venha a nós o Vosso reino,
seja feita a Vossa vontade assim na Terra como no Céu”.
Síntese biográfica
Nascido em Riese (Lombardia) no dia 2 de junho de 1835, Giuseppe Melchiorre Sarto — assim se chamava o futuro Papa São Pio X — foi sucessivamente Vigário em sua cidade natal, Cônego em Treviso, Bispo de Mântua e Patriarca de Veneza. Eleito Papa no dia 4 de agosto de 1903, foi o 257º Sumo Pontífice da Santa Igreja Católica. Exerceu seu glorioso Pontificado até seu último dia nesta terra de exílio, que deixou aos 79 anos, em 20 de agosto de 1914. Pio XII o beatificou em 3 de junho de 1951 e o canonizou exatamente há 70 anos, em 29 de maio de 1954.
Restaurar o Reinado Social de Jesus Cristo
“Instaurare omnia in Christo” (Restaurar
todas as coisas em Cristo) era o dístico do seu pontificado e resumo
de seu prodigioso empenho: restaurar o Reinado Social de Nosso Senhor Jesus
Cristo. Era a principal solução que indicava o Santo Padre: “Se alguém pedir
uma palavra de ordem, sempre daremos esta e não outra: Restaurar todas as
coisas em Cristo”.
Objetivo que definiu claramente com suas
indefectíveis palavras expressas na Encíclica Notre Charge Apostolique*, de 25
de agosto de 1910:
“Devemos repetir com toda energia nestes tempos de anarquia social
e intelectual, quando cada um se faz passar por mestre e legislador: a Cidade
não pode ser edificada de outra forma senão como Deus a construiu; a sociedade
não pode ser estabelecida a menos que a Igreja estabeleça as bases e
supervisione o trabalho; não, a civilização não é algo a ser inventado, nem a
Cidade Nova para ser construída nas nuvens; ela existiu e ainda existe: é a
civilização cristã, é a cidade católica. Trata-se apenas de ser instaurada e
restaurada continuamente contra os ataques incessantes de utópicos insanos, revoltados
e malfeitores. OMNIA
INSTAURARE IN CHRISTO”.
(*) https://www.papalencyclicals.net/pius10/p10notre.htm
Notas:
1.
O Concílio Vaticano II foi classificado por Plinio Corrêa de Oliveira como “uma das maiores calamidades, se não a maior,
da História da Igreja”. “O êxito dos
êxitos alcançado pelo comunismo pós-staliniano sorridente foi o silêncio
enigmático, desconcertante, espantoso e apocalipticamente trágico do Concílio
Vaticano II a respeito do comunismo. […] Seu silêncio sobre o comunismo deixou
aos lobos toda a liberdade. A obra desse Concílio não pode estar inscrita,
enquanto efetivamente pastoral, nem na História, nem no Livro da Vida. É penoso
dizê-lo. Mas a evidência dos fatos aponta, neste sentido, o Concílio Vaticano
II como uma das maiores calamidades, se não a maior, da História da Igreja. A
partir dele penetrou na Igreja, em proporções impensáveis, a “fumaça de
Satanás”, que se vai dilatando dia a dia mais, com a terrível força de expansão
dos gases. Para escândalo de incontáveis almas, o Corpo Místico de Cristo
entrou no sinistro processo da como que autodemolição”. (Plinio Corrêa de
Oliveira, Revolução e Contra-Revolução, Editora Artpress, São Paulo, Parte III,
capítulo II, 4, A, pp. 166-168).
2. A respeito da monumental Encíclica Pascendi
Dominici Gregis, Catolicismo
publicou uma série de três artigos de seu principal colaborador, o Prof. Plinio
Corrêa de Oliveira. Artigos que os leitores podem conferir na edição de
setembro/2007.
3. Os trechos aqui transcritos (entre aspas) da Encílica Pascendi
Dominici Gregis foram extraídos
como publicados no site oficial do Vaticano, disponíveis no link: https://www.vatican.va/content/pius-x/pt/encyclicals/documents/hf_p-x_enc_19070908_pascendi-dominici-gregis.html
4. Ibid.
5. Ibid.
6. Ibid.
7. Ibid.
8. Constantino
Kempf S.J., A Santidade da Igreja,
oitava edição do original alemão, Edição da Livraria do Globo, Porto Alegre,
1936, p. 25.
9. Ibid. p. 26.
10. Heresia
que constituiu uma corrente semiprotestante no interior da Igreja. Era de um
rigorismo hirto e despropositado. Tal heresia, uma das mais perniciosas da
História da Igreja, foi instituída pelo holandês Cornélio Jansênio, bispo de
Ypres (1636). Este negava a infinita misericórdia de Deus e defendia a
predestinação. Infectou grande parcela de bispos, sacerdotes e leigos na França
e em outros países da Cristandade. A heresia jansenista foi condenada por
diversos Papas, entre os quais Inocêncio X, na bula papal Cum occasione (1653).
Mesmo assim, a heresia projetou-se nos séculos XVIII e XIX, e só foi debelada
quando São Pio X publicou o decreto favorecendo a comunhão frequente.
11. Constantino Kempf S.J.,
op. cit. p. 27.
12. Ibid. p. 23.
13. Breve por ocasião da
Beatificação de Pio X, Documentos Pontifícios, n° 83, Vozes, 1958, 2ª edição.
14.
https://www.vatican.va/content/pius-xii/it/speeches/1954/documents/hf_p-xii_spe_19540529_pio-x.html
15. Em alocução aos alunos do Seminário Lombardo, no dia 7 de dezembro
de 1968, Paulo VI afirmou que “a Igreja
atravessa hoje um momento de inquietação. Alguns praticam a autocrítica,
dir-se-ia até a autodemolição. É como uma perturbação interior, aguda e
complexa, que ninguém teria esperado depois do Concílio. Pensava-se num
florescimento, numa expansão serena dos conceitos amadurecidos na grande
assembleia conciliar. Há ainda este aspecto na Igreja, o do florescimento. Mas,
posto que bonum ex integra causa, malum ex quocumque defectu, fixa-se a atenção
mais especialmente sobre o aspecto doloroso. A Igreja é golpeada também pelos
que d´Ela fazem parte” (cfr. Insegnamenti di Paolo VI, Tipografia
Poliglotta Vaticana, vol. VI, p. 1188).
16. Cfr. Alocução “Resistite fortes in fide” (29 de junho de 1972), Insegnamenti di Paolo VI, Tipografia Poliglotta Vaticana, vol. X, p. 707.


.jpg)

.jpg)









