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1 de dezembro de 2025

ESBOÇO DE CONSTITUIÇÃO DOGMÁTICA SOBRE A BEM-AVENTURADA VIRGEM MARIA, MÃE DE DEUS E MÃE DOS HOMENS

 


1. Sobre a íntima união entre Cristo e Maria segundo o beneplácito divino

O Criador de todas as coisas, Deus sapientíssimo e de imensa bondade, que gozava de plena liberdade para determinar o modo e o meio pelos quais se realizaria, por Ele mesmo, a libertação do gênero humano, desde toda a eternidade estabeleceu, por um único e mesmo decreto, a Encarnação da Sabedoria divina e a predestinação da Bem-Aventurada Virgem, da qual o Verbo feito carne haveria de nascer, na plenitude dos tempos (cf. Gl 4,4).

Ora, como as Sagradas Escrituras, de modo explícito ou implícito, nos apresentam Maria unida a Jesus por um vínculo estreitíssimo e indissolúvel — desde o anúncio profético (cf. Gn 3,15; Is 7,14; Mt 1,23) e a concepção virginal (cf. Mt 1,18-25; Lc 1,26-38) — é plenamente coerente que a Igreja, assistida pelo Espírito Santo e guiada com segurança para compreender e perceber com clareza tudo quanto nas fontes sagradas se encontra velado ou apenas implicitamente contido (cf. Jo 14,26), e preservada do erro (cf. Mt 16,18; 28,18-20; Jo 14,16; 15,20), ao ilustrar os mistérios do divino Redentor, também traga à luz, de modo mais claro, o mistério da Mãe de Deus.

Esta Mãe amorosa, que “cooperou pela caridade para que na Igreja nascessem os fiéis”, é não só o membro “supereminente” e absolutamente singular da Igreja, mas também o seu modelo e, ainda mais, sua Mãe.

Por isso, o Santo Sínodo, depois de ter tratado do Corpo Místico de Cristo, permanecendo fiel aos documentos anteriores do Magistério vivo da Igreja, único intérprete autêntico do depósito revelado, julga oportuno expor sumariamente o lugar que a Mãe de Deus e dos homens ocupa na Igreja, os privilégios com que seu Filho a enriqueceu, e os deveres que nos cabem para com tão sublime criatura — a fim de que o saber e a piedade marianos floresçam reta e plenamente, e se afastem opiniões preconcebidas sobre este tema.

 

2. Sobre o papel da Bem-Aventurada Virgem Maria na economia da nossa salvação

Como, pois, o Verbo do eterno Pai quis assumir a natureza humana de uma mulher, para que, assim como por uma mulher veio a morte, também por uma mulher nos viesse a vida, e para que a libertação fosse obra de ambos os sexos, Ele não realizou tal desígnio antes que a aceitação livre da mãe designada, redimida de modo mais sublime em previsão dos méritos de Cristo, fosse obtida (cf. Lc 1,38); de modo que o Filho de Deus, pela Encarnação, se tornasse também Filho dela, novo Adão e Salvador do mundo.

Por este consentimento, Maria, filha de Adão, tornou-se não só mãe de Jesus, único Mediador e Redentor divino, mas também, com Ele e sob Ele, associou a sua ação à realização da redenção do gênero humano. Esse consentimento salvífico da Mãe de Deus — e, portanto, sua cooperação na obra redentora — perdurou desde a concepção virginal de Jesus Cristo até a sua morte; e brilhou de modo particular quando, junto à cruz, por desígnio divino, permaneceu de pé (cf. Jo 19,25), compadecendo-se profundamente com o seu Unigênito, oferecendo-O, com Ele e por Ele, com ânimo magnânimo, como preço da nossa redenção, e sendo, enfim, pelo mesmo Cristo Jesus moribundo, dada como mãe ao gênero humano (cf. Jo 19,26-27).

E, como o mistério da redenção humana não se completaria antes da vinda do Espírito Santo prometido por Cristo no dia de Pentecostes, contemplamos Maria perseverando em oração com os Apóstolos no Cenáculo (cf. At 1,14), implorando com suas preces a efusão do Espírito.

Assim, sendo a Bem-Aventurada Virgem predestinada desde a eternidade para ser Mãe de Deus e dos homens, e tendo sido disposta pela divina Providência a ser nesta terra a generosa companheira do Cristo sofredor na aquisição da graça para os homens, é com razão e justiça saudada como administradora e dispensadora das graças celestes.

Segue-se, pois, que Maria, que cooperou na formação do Corpo Místico de Cristo e que, assumida ao Céu e constituída Rainha pelo Senhor, manifesta para com todos os homens um coração maternal, obtém, por meio de seu Filho, uma primazia sobre todos; e por isso não está, como alguns dizem, “na periferia”, mas no próprio “centro” da Igreja, sob Cristo.

 
Virgem da Misericórdia – Jean Miraillet (por volta de 1444). Capela da Misericórdia, da Arquiconfradia dos Penitentes Negros de Nice

3. Sobre os títulos com que costuma exprimir-se a associação da Bem-Aventurada Virgem Maria com Cristo na economia da salvação

Como na cooperação da Mãe de Deus com Cristo — nova Eva com o novo Adão — na obra da redenção humana, os múltiplos e variados títulos com que o Magistério da Igreja, a venerável Tradição e o piedoso sentimento dos fiéis costumam saudar a Bem-Aventurada Virgem se apoiam em fundamento, raiz e princípio sólidos, seria impiedade afirmar que tais títulos, no sentido em que a Igreja os entende, são vãos ou contrários às Escrituras.

Assim, não sem motivo a Igreja chama a Bem-Aventurada Virgem “Medianeira de todas as graças”. Pois se, ainda nesta terra, o Apóstolo São Paulo se lembrava continuamente dos fiéis em suas orações e pedia com insistência o auxílio das preces deles, quanto mais convém e é proveitoso que nos recomendemos às preces e intercessão da Bem-Aventurada Virgem Maria.

Ela, com efeito, está unida a Deus e a Cristo, Filho de Deus e seu Filho, mais estreita e intimamente que qualquer outra criatura pura, de modo que lhe é absolutamente próprio; ama a Deus mais ardentemente do que qualquer criatura, e por Ele é amada de modo singular; como mãe do Salvador (cf. Lc 1,31), experimentou, ao ver sua alma transpassada (cf. Lc 2,35) sob a cruz do Filho moribundo pela salvação de todos (cf. Jo 19,25-27), o amor de Deus no amor pelos homens em seu ponto mais alto.

Sustentada por tantos e tão grandes títulos, intercede continuamente por nós diante de Deus e de Cristo com seu amor maternal; e, porque sua intercessão deriva toda a sua eficácia do sacrifício cruento de seu bendito Filho, esta mediação de Maria de modo algum faz com que cesse de haver um só Mediador entre Deus e os homens — o homem Cristo Jesus (cf. 1Tm 2,5) —, assim como da bondade de Deus não se segue que Ele deixe de ser o único e absoluto autor de todo bem (cf. Mt 19,17; Rm 2,4).

Embora, entre os mediadores subordinados de que o sapientíssimo Deus quis servir-se na economia da nossa salvação, não se possa conceber nenhum que tenha cooperado ou venha a cooperar com tanto poder para reconciliar os homens com Deus como a Mãe de Deus, é sempre verdade que também ela depende totalmente de Cristo e lhe está subordinada, tanto na sua predestinação e santidade quanto em todos os seus dons.

Portanto, sendo esta humilde “Serva do Senhor”, a quem “o Todo-Poderoso fez grandes coisas” (cf. Lc 1,49), chamada “Medianeira de todas as graças” por ter sido associada a Cristo na sua aquisição, e invocada pela Igreja como nossa Advogada e Mãe de misericórdia, pois, unida no Céu ao Cristo glorioso, intercede por todos, segue-se que, em toda comunicação de graça aos homens, está presente a caridade maternal da Bem-Aventurada Virgem; e de modo algum se obscurece nem se diminui a mediação única do nosso Mediador, segundo o sentido absoluto das palavras do Apóstolo (1Tm 2,5): “Um só é Deus, um só também o mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus”; pelo contrário, a mediação de Cristo é exaltada e honrada.

Maria, com efeito, é medianeira em Cristo; e sua mediação não provém de necessidade alguma, mas do beneplácito divino e da superabundância e eficácia dos méritos de Jesus: ela se apoia na mediação de Cristo, dela depende inteiramente e dela tira toda a sua força.

Por isso, o Santo Sínodo exorta com empenho os teólogos e pregadores da Palavra de Deus a que, cultivando diligentemente o estudo da Sagrada Escritura e dos Santos Padres segundo o sentido do Magistério da Igreja, procurem colocar na verdadeira luz os ofícios e funções da Bem-Aventurada Virgem, em conexão com os outros dogmas, sobretudo com os que se referem a Cristo, que é o centro de toda a verdade, santidade e piedade.

Neste trabalho, guarde-se sempre o que se chama “analogia”, ou seja, uma semelhança dissemelhante, toda vez que se predica de Cristo e da Virgem Maria um mesmo nome ou ofício; pois de modo algum a Mãe de Deus pode ser equiparada a Cristo.

 

4. Sobre os privilégios singulares da Mãe de Deus e dos homens

A Virgem Maria, amada de modo inefável por Deus, foi adornada de privilégios absolutamente singulares: admirável no seu nascimento, pela Imaculada Conceição; admirável na sua vida, por ter permanecido livre de toda culpa pessoal e ter sido ao mesmo tempo mãe e sempre virgem, de mente e corpo; admirável, enfim, no seu trânsito, pois — segundo antiga e venerável tradição — embora tenha sofrido a morte temporal para se assemelhar mais plenamente ao seu Filho, não pôde, contudo, ser retida pelos laços da morte, sendo assunta ao Céu em corpo e alma, gloriosamente.

Tais privilégios singulares e outras graças provenientes de Cristo Redentor redundam em sua honra, de modo que não podemos contemplar as excelsas dádivas da Mãe sem admirar e celebrar a divindade, a bondade, o amor e a onipotência do Filho.

Assim como a injúria feita à mãe atinge o filho, também a glória da mãe redunda em glória do filho. Portanto, dado que Maria teve uma união singular com seu Filho, convinha que, em previsão dos méritos do perfeitíssimo Redentor — autor de toda santidade, que veio ao mundo para destruir o pecado —, fosse preservada imune de toda mancha do pecado original desde o primeiro instante de sua concepção, e ornada de graças e dons muito acima de todos os espíritos angélicos e de todos os santos, para que, verdadeiramente, como Mãe de Deus, Filha do Pai e Santuário do Espírito Santo, superasse em dignidade todas as criaturas.

Convinha também plenamente que o Filho, que amou sua Mãe com particular afeto, e quis que a integridade corporal dela permanecesse incorrupta e inviolada no próprio parto, para que “permanecendo a glória da virgindade, derramasse sobre o mundo a luz eterna”, não permitisse que aquele santíssimo corpo virginal — augusto tabernáculo do Verbo divino, templo de Deus, todo santo e todo puro — fosse reduzido ao pó.

 

5. Sobre o culto à Bem-Aventurada Virgem Maria

Como à Bem-Aventurada Virgem compete uma excelência singular, sendo saudada pelo Arcanjo mensageiro de Deus como “cheia de graça” (Lc 1,28) e por Isabel, cheia do Espírito Santo, como “bendita entre as mulheres” (cf. Lc 1,42), nada admira que, como ela mesma profetizou — “todas as gerações me chamarão bem-aventurada” (Lc 1,48) —, seja proclamada, venerada, amada e invocada como “bem-aventurada” por todos os povos e em todos os ritos, com louvores que, através dos séculos, crescem continuamente; sendo proposta como exemplo para imitação.

E está muito longe de ser verdade que esse culto singular prestado a Maria diminua o culto divino de latria — a adoração devida ao Verbo encarnado, assim como ao Pai e ao Espírito Santo; pelo contrário, muito o favorece.

As várias formas de piedade mariana aprovadas pela Igreja — dentro dos limites da sã e ortodoxa doutrina, segundo as condições dos tempos, lugares e índole dos fiéis — têm por fim que, ao se honrar a Mãe, o Filho, em quem aprouve ao Pai que habitasse toda a plenitude (cf. Cl 1,19), seja conhecido, amado, glorificado, e que seus mandamentos sejam observados; e assim, por Cristo, que é “o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6), os homens sejam conduzidos ao pleno conhecimento e adoração do único e trino Deus.

Esta doutrina sã e católica o Santo Sínodo ensina deliberada e firmemente, advertindo ao mesmo tempo os Bispos que zelem diligentemente para que teólogos e pregadores da Palavra divina evitem tanto toda falsa exaltação quanto excessiva estreiteza de mente ao considerarem a dignidade singular da Mãe de Deus.

Lembrem-se também os fiéis de ambos os sexos de que a verdadeira devoção não consiste em um sentimento passageiro, e rejeitem toda vã credulidade; antes, mantenham firmemente que a devoção procede da verdadeira fé, pela qual somos levados à imitação das virtudes da Bem-Aventurada Virgem, que foi “a serva do Senhor” (Lc 1,38), humildíssima e obedientíssima, que guardou fielmente, “meditando em seu coração” (Lc 2,19), tudo o que dizia respeito ao Verbo encarnado (cf. Lc 2,51), e foi proclamada bem-aventurada “porque acreditou” (cf. Lc 1,45).

De nada teria aproveitado a Maria a proximidade física com Cristo, “se não o tivesse trazido mais felizmente no coração do que no seio”.

Com a devida honra e reverência com que os irmãos separados — especialmente os Orientais, movidos por um impulso fervoroso de venerar de modo peculiar a Mãe de Deus — tratam a Mãe do Senhor e Salvador nosso, alegra-se e consola-se grandemente o Santo Sínodo.

Por isso, é manifesto que se atribui injusta e falsamente à Igreja católica o culto à Mãe de Deus, como se daí se subtraísse algo da adoração devida somente a Deus e a Jesus Cristo.

 

As Bodas de Caná – Gerard David (1460-1523). Museu do Louvre, Paris

6. Maria Santíssima, protetora da unidade cristã

Maria, Mãe e Virgem Santíssima que no Calvário teve confiada ao seu coração materno toda a humanidade, deseja ardentemente que não só aqueles que receberam um só batismo e são conduzidos por um só Espírito, mas também os que ainda ignoram ter sido redimidos por Cristo Jesus, estejam unidos, tanto com o divino Salvador quanto entre si, pela mesma fé e caridade.

Por isso, o Santo Sínodo confia e espera firmemente que esta Mãe de Deus e dos homens — que intercedeu (cf. Jo 2,3) para que o Verbo encarnado realizasse em Caná da Galileia o seu primeiro sinal, pelo qual seus discípulos creram nele (cf. Jo 2,11), e que esteve presente ao lado da Igreja nascente — obtenha de Deus, com seu patrocínio, que finalmente todos se reúnam num só rebanho sob um só Pastor (cf. Jo 10,16).

Exorta, pois, a todos os fiéis de Cristo que dirijam insistentes preces e súplicas a esta Protetora da unidade e Auxiliadora dos cristãos, para que, por sua intercessão, seu divino Filho reúna todas as famílias das nações — e especialmente aqueles que se gloriam do nome cristão — num só povo de Deus, que reconheça com amor, como comum Pastor, o Vigário de Cristo na terra, Sucessor do bem-aventurado Pedro, aquele que, no Concílio de Éfeso — onde foi solenemente definido o dogma da maternidade divina —, os Padres, com aplauso unânime, justamente saudaram como “Guarda da fé”.

30 de novembro de 2025

Introdução histórica ao esquema preparatório sobre a Bem-aventurada Virgem Maria

 


Corredentora e Medianeira Universal de todas as graças. Dois títulos de glória da Virgem Maria. Dois dogmas que os fiéis aguardam!

Fonte: Revista Catolicismo, Nº 900, Dezembro/2025

O século XIX e o início do século XX assistiram a um extraordinário florescimento da devoção mariana e dos estudos teológicos sobre Nossa Senhora. Tal impulso foi estimulado pela proclamação do dogma da Imaculada Conceição (1854), pelas aparições de Lourdes (1858) e de Fátima (1917), e pela redescoberta do Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem de São Luís Maria Grignion de Montfort.

Esses acontecimentos reacenderam na Igreja o desejo ardente de que fosse proclamado um novo dogma, reconhecendo o papel eminente da Mãe de Deus na obra da Redenção.

Cardeal Désiré-Joseph Mercier,
arcebispo de Malines-Bruxelas
Já em 1913, o Cardeal Désiré-Joseph Mercier, arcebispo de Malines-Bruxelas, juntamente com todo o episcopado belga, dirigiu a São Pio X um pedido de definição dogmática sobre a Mediação Universal da Santíssima Virgem Maria na distribuição das graças.

A eclosão da Primeira Guerra Mundial e o falecimento do Pontífice interromperam, porém, essa iniciativa. Renovado o pedido sob o pontificado de Pio XI, este concedeu em 1922 à Igreja da Bélgica o privilégio de celebrar a Missa e o Ofício em honra de Maria Medianeira.

Mais tarde, Pio XII — que via na crescente devoção à Mãe de Deus “o mais encorajador sinal dos tempos” — proclamou o dogma da Assunção de Nossa Senhora (1950), o que suscitou novos e numerosos pedidos à Santa Sé para a definição dos dogmas da Corredenção e da Mediação Universal. Entretanto, a morte do Papa interrompeu o curso dessas esperanças.

Quando João XXIII convocou o Concílio Vaticano II, o então Secretário de Estado, Cardeal Domenico Tardini, enviou a todos os bispos, superiores religiosos e universidades católicas um questionário, pedindo-lhes que manifestassem seus vota (desejos) sobre os temas a tratar na futura assembleia. A maioria dos prelados expressou o anseio por uma reforma moderada da Igreja, fiel à tradição, pela condenação dos erros modernos — sobretudo o comunismo — e, de modo particular, por novas definições doutrinais relativas à Santíssima Virgem Maria.

Os bispos italianos, majoritários no episcopado mundial, solicitaram que o Concílio proclamasse o dogma da “Mediação Universal da Bem-aventurada Virgem Maria”, pedido que encontrou eco também em parte significativa do episcopado francês. No Brasil, segundo o Pe. José Oscar Beozzo, o pedido mais frequente nos vota dos bispos era justamente o de que o Concílio definisse a doutrina ou o dogma da Mediação Universal de Nossa Senhora.

Atendendo a essa expectativa, a Comissão Preparatória criou um grupo de trabalho encarregado de redigir um esquema conciliar sobre a Beatíssima Virgem Maria. O texto foi elaborado principalmente por dois eminentes mariólogos: o Pe. Carlo Balić, presidente da Pontifícia Academia Mariana Internacional, e o Pe. Gabriele Maria Roschini, fundador e reitor da Pontifícia Faculdade Teológica Marianum. O esquema, intitulado Schema Constitutionis Dogmaticae de Beata Maria Virgine Matre Ecclesiae, empregava explicitamente o termo “Corredentora”. Uma subcomissão, contudo, suprimiu a expressão na versão final, ainda que reconhecendo ser “em si mesma veríssima”, por temor de interpretações desfavoráveis por parte dos “irmãos separados”.

A possibilidade de aprovação do texto encontrou forte resistência nos meios teológicos progressistas. O dominicano Yves Congar registrou em seu diário que “o drama que acompanhou toda [sua] vida” era “a necessidade de lutar contra uma mariologia que não procede da Revelação, mas que tem o apoio de textos pontifícios”. O jovem Pe. René Laurentin, por sua vez, afirmava ser necessário “purificar” a exaltação mariana então predominante. Essa corrente “minimalista”, como a denominou o Pe. Roschini, tendia a reduzir o papel de Maria, identificando-a com a própria Igreja e considerando-a apenas prima inter pares, “a primeira entre iguais”, dentro do Corpo Místico de Cristo.

Nossa Senhora da Misericórdia
Bonanat Zaortiga, o Velho (1430)
 Museu Nacional de Arte
 da Catalunha, Espanha.
O Schema de Beata Maria Virgine Mater Ecclesiae foi enviado aos Padres conciliares em maio de 1963, entre a primeira e a segunda sessões conciliares. Em uma reunião de episcopados da Alemanha, Áustria, Bélgica, Holanda e Suíça, o jesuíta Karl Rahner criticou o documento, alegando que suas afirmações “não eram suficientemente desenvolvidas” e poderiam causar “um mal incalculável do ponto de vista ecumênico”. O “bispo” luterano Dibelius havia declarado pouco antes que a doutrina católica sobre Maria constituía um dos maiores obstáculos ao ecumenismo. Rahner, portanto, propôs que o esquema marial fosse reduzido e incorporado como um simples capítulo final da constituição dogmática sobre a Igreja.

Nos debates conciliares, o Cardeal Josef Frings, de Colônia, sustentou essa proposta. Ele foi apoiado pelo Cardeal Raúl Silva Henríquez, de Santiago do Chile, em nome de 44 bispos latino-americanos, alegando que a devoção mariana popular na região excedia os limites da fé cristã. Em sentido contrário, o Cardeal Benjamín de Arriba y Castro, arcebispo de Tarragona, falando por 60 bispos espanhóis, defendeu a manutenção de um esquema separado, dada a importância de Maria Santíssima na economia da Redenção.

Diante do grande número de Padres conciliares inscritos para se pronunciar, o Papa João XXIII ordenou que a Comissão Teológica escolhesse um único porta-voz de cada corrente de opinião, a fim de apresentar sinteticamente, diante da aula conciliar, os fundamentos de cada posição. O Cardeal Rufino Santos, de Manila, resumiu magistralmente o argumento favorável ao esquema separado, afirmando que a Virgem é o primeiro e principal membro da Igreja, mas, ao mesmo tempo, está acima dela, intra Christum et Ecclesiam, como ensinou São Bernardo. A fusão dos esquemas, advertiu, seria interpretada pelos fiéis como uma diminuição da devoção mariana. O Cardeal Franz König, de Viena, respondeu que a devoção a Maria necessitava de “purificação”, para evitar exageros e obstáculos ao ecumenismo.

Cinco dias depois, a assembleia votou: 1.114 bispos a favor da fusão, 1.074 contrários — uma diferença mínima, mas suficiente para que o texto marial fosse incorporado ao De Ecclesia.

Uma comissão revisora reformulou o escrito. Seu presidente, o belga Mons. Gérard Philips, propôs a Paulo VI manter o título “Medianeira” no texto, porém sem maior desenvolvimento doutrinal, como gesto conciliador para com os que haviam votado contra a fusão. Apesar dessa concessão, houve protestos: o bispo de Granada, em nome de 80 prelados espanhóis, lamentou que a comissão tivesse reescrito inteiramente o documento, em vez de apenas adaptá-lo. Os bispos poloneses, por outro lado, pediram que o capítulo sobre Nossa Senhora fosse colocado não ao final, mas em segundo lugar, para sublinhar sua posição singular junto a Cristo.

Apesar das resistências, prevaleceu a versão “minimalista”. Foram suprimidas as expressões “Corredentora” e “Medianeira de todas as graças”, restando apenasa frase: “a Beatíssima Virgem Maria é invocada na Igreja sob os títulos de Advogada, Auxiliadora e Medianeira”. Paulo VI, no entanto, corrigiu parcialmente essa omissão ao proclamar solenemente, no encerramento da terceira sessão conciliar, Maria Santíssima como Mãe da Igreja — gesto que provocou protestos irados dos Padres e expertos conciliares progressistas, que o acusaram de “voltar-se contra o Concílio”.

Cardeal Rufino Santos
O antigo Schema de Beata Maria Virgine Mater Ecclesiae foi arquivado, e o texto reduzido inserido no último capítulo da Lumen Gentium. Como previra o Cardeal Rufino Santos, essa solução teve o efeito de diminuir a centralidade da devoção mariana na vida da Igreja e de esfriar a piedade da maioria dos fiéis. Contudo, o amor dos verdadeiros devotos da Santíssima Virgem não se extinguiu. Nas décadas seguintes, cresceu o movimento em favor da proclamação de um quinto dogma mariano — o da Corredenção e Mediação Universal. A associação Vox Populi Mariae Mediatrici recolheu, nos últimos 30 anos, o apoio de cerca de 700 bispos e cardeais, além de oito milhões de fiéis, que pedem incansavelmente à Santa Sé a definição solene desse papel único de Nossa Senhora na economia da salvação.

A publicação da recente Nota doutrinal sobre alguns títulos marianos referidos à cooperação de Maria na obra da Salvação — que, em oposição explícita ao Magistério ordinário universal dos Papas e doutores da Igreja, julga “sempre inoportuno” o título de Corredentora e arriscado o de Medianeira de todas as graças — não será suficiente para esfriar o ardor nem abalar a firme resolução dos fiéis de continuar a manifestar aos Pastores da Igreja os próprios anseios (CIC, cân. 212 §2) e de exprimir, com filial liberdade, a própria opinião sobre tudo o que diz respeito ao bem da Igreja (§3).

É nesse mesmo espírito de fidelidade à Tradição e de amor à Santíssima Virgem que Catolicismo apresenta a seguir [publicaremos amanhã] aos seus leitores a íntegra do esquema preparatório que foi rejeitado pela maioria do Padres conciliares, testemunho luminoso da mais elevada e autêntica expressão da Mariologia imediatamente anterior ao Concílio Vaticano II.

31 de julho de 2025

Cerimonial grandioso e tradicional X Simplificação igualitária e modernista

 

Coroação do Papa Pio VI — Antonio Poggioli (1795–1830). Metropolitan Museum of Art, Nova York

“Nas fileiras católicas, não faltou infelizmente quem tivesse a audácia de propor à Santa Sé que, para conciliar melhor as simpatias das massas, o Papado se ‘democratizasse’ e o Pontífice Romano renunciasse às manifestações exteriores e solenes de seu supremo poder”


O artigo que segue foi publicado há 86 anos, mas agora vem à tona a propósito do novo pontificado que se iniciou em 8 de maio com o Papa Leão XIV.

O texto é de Plinio Corrêa de Oliveira (Legionário, 12-3-1939). Ele expõe duas questões que se tornaram candentes no noticiário sobre a morte de Francisco e a eleição de Leão XIV, sobretudo no que tange ao “espetáculo grandioso das cerimônias do Vaticano”.

O ósculo dos pés na Basílica de São Pedro, em Roma — Antoinette Cécile Hortense (1784-1845). Museu do Louvre, Paris.

REX PACIFICUS

 

   Plinio Corrêa de Oliveira



N
o dia em que se desenrolam em Roma as cerimônias faustosas da coroação do novo Pontífice, deve ser grato aos corações católicos meditar atentamente as circunstâncias dentro das quais essa solenidade se realiza. 

No século passado, em que o liberalismo político grassava pela Europa inteira, agravado por uma monomania democrática vizinha do delírio, as grandes solenidades pontifícias se desenrolavam não raramente sob o olhar hostil e a censura surda de grandes setores da opinião pública. Evidentemente, durante toda a vida da Igreja, nunca faltou a esta o amor de filhos dedicados e entusiastas. 

 

Entretanto, é incontestável que, no século passado, os fulgores dessas belas provas de amor alternavam sombriamente com o rancor igualitário daqueles que, na faina de destruir toda a ordem religiosa, política e social, não suportavam o espetáculo grandioso das cerimônias do Vaticano. 

 

Os argumentos não faltavam para servir de pretexto a tanto rancor. O primeiro deles, já antigo, era da autoria de Judas Iscariotes: por que gastar tanto dinheiro, em lugar de dar aos pobres? O outro, de sabor mais acentuadamente luterano: não haverá idolatria em se prestar a um homem tantas provas de sumo respeito? Finalmente, a blasfêmia anarquista não deixava de se fazer ouvir neste triste concerto: quando chegará o dia feliz em que enforcaremos o último Papa nas tripas do último rei? 

 

A Santa Sé nunca deu atenção a tais rancores. Com uma sublime e desassombrada energia, ela continuou a manter intacto seu magnífico e suntuoso cerimonial, que outra coisa não é senão a afirmação, através de cerimônias perceptíveis pelos sentidos, do princípio da autoridade, de que o Papa é o mais alto e mais sagrado representante na Terra. 

 

Nas fileiras católicas, não faltou infelizmente quem tivesse a audácia de propor à Santa Sé que, para conciliar melhor as simpatias das massas, e vencer mais facilmente a revolução social que se fazia prenunciar de modo sinistro, o Papado se "democratizasse" e o Pontífice Romano renunciasse às manifestações exteriores e solenes de seu supremo poder. 

 

A Igreja, entretanto, nunca deu ouvidos a essa falaciosa proposta. Não é de seu feitio transigir com o erro, ou procurar entabular com ele um duelo de subtilezas e astúcias.


Quando o princípio de autoridade periclitava no mundo inteiro, pondo em risco a autoridade de todos os monarcas e chefes de Estado, não era o Vigário de Cristo, do qual provém toda a autoridade, que tomaria ares de pactuar com a revolução. A missão da Igreja não consiste em se adaptar aos séculos, mas de adaptá-los a si própria. Ela nunca baixará até os erros dos homens, mas elevará a humanidade até si. 

 

Por isso, enquanto as monarquias ruíam fragorosamente, as repúblicas se dissolviam na anarquia das crises sociais, e as mais antigas dentre as cortes sobreviventes se democratizavam a olhos vistos, o Vaticano conservou intacto seu grandioso cerimonial.

Vem, agora, o outro aspecto da questão.

 

Comício nazista em Nuremberg, em 1934


Um verdadeiro vendaval político-social foi a consequência da pregação das doutrinas liberais. Esse vendaval suscitou a tendência geral para uma consolidação de autoridade. Todos os povos, outrora minados pela febre da liberdade, se sentem hoje trabalhados por uma intensa propaganda a favor da consolidação do Poder público, com preterição ou até supressão dos mais sagrados direitos da pessoa humana. 

 

Os novos césares, como o exige a natureza das doutrinas que pregam, sentem a necessidade de confirmar sua autoridade com os sinais exteriores do poder, desenvolvidos através de imponentes cerimônias cívicas. E, com isso, todo um cerimonial político renasce em nossos dias, que bem poderia ser chamado a liturgia faustosa dos novos ídolos que as massas levantam acima de si mesmas para lhes prestar adoração. 

 

Interessante é notar, a esse propósito, o ambiente que cerca essa nova e estranha liturgia política. Duas notas a caracterizam: força e domínio. Atente-se para uma cerimônia nazista. Em algum imenso estádio da Alemanha, comprime-se uma multidão incontável, que se torna cada vez mais densa porque os ônibus e os trens despejam ondas humanas sempre mais numerosas. Para encher o tempo, inúmeros alto-falantes transmitem a voz de um locutor. 

 

Do que fala ele? Da luta do partido nazista, de suas vitórias passadas, dos inimigos que esmagou, esmaga e esmagará. Quando, ao cabo de uma longa série de injúrias e de ameaças, o locutor se cala para tomar fôlego, a multidão entoa cânticos guerreiros. Refletores deslumbrantes erguem para o céu colunas verticais. Uma tribuna imensa, composta de blocos graníticos pesados e brutais, se ergue no centro de tudo isso. De repente, estrugem gritos e urros de entusiasmo. É o “Führer” que chega. 

 

As canções guerreiras redobram. Os canhões estrugem. A multidão ulula como um mar enfurecido. O “Führer” começa a falar: do outro lado das fronteiras, Chamberlain treme de medo, apoiado em seu guarda-chuva; Daladier prefere fingir que não ouve, para não ter de brigar (como os meninos bem educados, quando passam perto dos moleques na rua e ouve seus insultos, fingindo não notar nada). Mussolini presta atenção: é tão bonito; quem sabe se ele conseguirá fazer igual! Roosevelt não entende bem como é que, tendo ele tantos milhões de dólares, Hitler não é amigo dos Estados Unidos. E os povos fracos da Terra tremem. 

 

Exéquias do Papa Pio XI

Para completar o quadro, seria suficiente que uma legião de demônios aparecesse no céu, vociferando em gritos agrestes: glória ao novo messias, a opressão, na terra, para os povos que não têm canhões! E o mundo inteiro aplaude ou treme; mas, quer aplaudindo, quer tremendo, secretamente admira!

É sob o signo dessa dura liturgia do ódio e da guerra, do sangue e da luta, que o mundo curva a cabeça em atitude respeitosa e admirativa. Nessas grandes festas públicas, não há outro gáudio senão o do orgulho exacerbado e do ódio satisfeito. 

 

Não são propriamente festas, esses tremendos “sabbats” cívicos. São bacanais em que as multidões não se embriagam mais, como no tempo dos césares, com o vinho capitoso e subtil das plantações itálicas, mas com o licor espiritual grosseiro, de um patriotismo levado até à loucura. 

 

Enquanto isso, morre para o mundo e nasce placidamente para o Céu o Papa Pio XI. Sua morte não anunciada pelo troar dos canhões, mas pelo som paternal e suave dos sinos de São Pedro, que repercutem de campanário em campanário, até os extremos da China ou da Groenlândia. 

 


Nenhum Departamento de Propaganda engaiola as multidões para levá-las à força para Roma. Mas Roma se enche de uma multidão que faria babar de inveja o Ministério da Propaganda da Alemanha [do período nazista], e muitas repartições congêneres de outros países. Não há desfiles marciais de soldados, nem desenrolar de tropas agressivas. Apenas a gendarmerie pontifícia, que contém e policia paternalmente a multidão pacífica e enlutada. 

 

Anuncia-se, depois, o novo Papa. Uma multidão aguarda seu nome. Outras multidões afluem de todas as ruas e de todos os becos de Roma, para saber quem foi o eleito. Todo o mundo aplaude. Mas, ainda aí, não há outro eco senão o das sonoras e musicais trombetas de prata dos arautos, as harmonias graves dos sinos da Cidade Eterna, e os vivas da multidão. 

 

 Pio XII abençoa a multidão reunida na Praça de São Pedro. 

Não, o Vaticano não é a caserna em que o gado humano é arregimentado para a carnificina, mas a casa suntuosa, porém acolhedora, do Pai comum, que é o lar espiritual de todos os povos da Terra, que ali ombreiam uns com os outros, numa alegria despreocupada e pacífica, de que só o Vaticano, hoje em dia, é teatro. 

 

Pio XII sendo levado na
Sede Gestatória
no dia de sua coroação.

Finalmente, anuncia-se a coroação do Papa. Nenhuma cerimônia, no mundo inteiro, é mais majestosa. Nenhuma, porém, é ao mesmo tempo mais pacífica, mais serena, mais familiar. O povo não treme diante de um ídolo, mas delira de contentamento diante de um Pai. O povo não se ajoelha diante de um algoz, mas beija reverente os pés daquele que é uma branca e suave figura. E na majestade de seu porte, a Santidade e a Majestade suprema do Criador. 

 

E, no menor Estado do mundo, que é o Vaticano, uma das maiores multidões que a Itália — mesmo a fascista — tenha jamais contemplado, celebra, à sombra do Vigário de Cristo, ao mesmo tempo a mais pacífica e a mais jubilosa das cerimônias deste sinistro século de lutas e de guerras.


6 de julho de 2025

CARDEAL MINDSZENTY — (1975 – 2025)

O Cardeal József Mindszenty, Arcebispo-Príncipe de Esztergom-Budapeste, indômito herói anticomunista da Hungria, exemplo do destemido combate católico.


Fonte: Editorial da Revista Catolicismo, Nº 895, Julho/2025

“Derrotado, venceu” (em latim, Devictus, vincit). Lema episcopal escolhido pelo Cardeal József Mindszenty em 1944. 
O lema bem expressa sua vida de luta, pois, mesmo derrotado, venceu no sentido análogo ao de Nosso Senhor Jesus Cristo, que aparentemente “derrotado” — pois fora crucificado —, triunfou da morte, redimiu o gênero humano, ressuscitou, abriu as portas do Céu e estabeleceu a Santa Igreja Católica Apostólica Romana. 

O prelado húngaro, Arcebispo-Príncipe de Esztergom-Budapeste, apesar de morrer no exílio em Viena, em 1975, terminou seus dias vitorioso e carregado de honra, pois teve a coragem de enfrentar o tirânico governo comunista que havia subjugado sua pátria. 

Várias vezes preso e torturado cruelmente por agentes do comunismo, permaneceu inquebrantável. Ele teve a coragem de suportar as dores da perseguição, especialmente uma dor ainda mais cruel: a provação de ver as mais altas autoridades da própria Igreja Católica pedir-lhe para cessar sua luta anticomunista. 

Mas o Cardeal Mindszenty continuou a resistir destemidamente, atuando contra vários programas do governo comunista húngaro, como por exemplo a Reforma Agrária, o divórcio, o ensino marxista nas escolas, a estatização socialista etc. 

As autoridades eclesiásticas agiam para estabelecer um acordo entre a Igreja e o Estado comunista, com o qual Ela se submeteria aos projetos do Kremlin. Desse modo, haveria uma coexistência pacífica entre o Vaticano e Moscou. Esse embate levou o jornal londrino The Sunday Telegraph a descrever assim vida do Cardeal Mindszenty: “Crucificado pelo Kremlin e traído pelo Vaticano”. 

Queriam que o Cardeal ficasse em silêncio, mas, obviamente, isso ele considerava uma cumplicidade com o bolchevismo e até mesmo uma traição ao ensino perene da Igreja. 

Aquela atitude do alto clero progressista-colaboracionista — da época do Concílio Vaticano II nos pontificados de João XXIII e Paulo VI — foi bem oposta à do Papa anterior, Pio XII, ao comentar, em junho de 1956, que a resistência de Mindszenty “causava admiração aos Anjos de Deus”. 

Em 10 de dezembro de 1948,
manifestação católica em
apoio ao Cardeal Mindszenty
O Cardeal teria sido um derrotado aos olhos dos homens e de Deus se tivesse capitulado, mas se tornou um símbolo imortal da resistência ao comunismo e ao progressismo ecumenista; ele estimulou com seu exemplo os católicos do mundo inteiro a não cruzarem os braços no bom combate. 

Destacamos aqui um aspecto da admirável vida do invencível Cardeal József Mindszenty, mas com a leitura da matéria de capa da edição deste mês da revista Catolicismo, comemorativa do cinquentenário da morte do heroico prelado, o leitor se encantará com vários outros aspectos do seu bom e exemplar combate.

7 de maio de 2025

AO PAPA IGNOTO

Emblema da Santa Sé quando a sede está vacante, enquanto se espera o anúncio do novo Papa


✅  Paulo Roberto Campos

Dois dias antes do início do Conclave de 1978, que elegeu o Papa João Paulo II, Plinio Corrêa de Oliveira, em seu artigo para a “Folha de São Paulo” (14-10-1978) com o título em epígrafe, levantou a pergunta:

“Quantos dias durará a escolha do novo Papa? Quem será o novo Papa?” 

Continua o brilhante articulista: 

“Essa questão parece que se vai tornando mais enigmática, à medida que o tempo corre. Ora, antes mesmo que se saiba quem ele será, desejo dirigir-lhe aqui uma súplica. Pois a magnitude do que vou pedir excede às circunstâncias pessoais de quem venha a ser eleito. Escrevo, pois, ao Papa Ignoto”. 

Seu premente pedido foi: 

“Santo Padre, o Brasil é, no mundo de hoje, o País de maior população católica. A unidade civil desse enorme bloco religioso é fator fundamental para que ele possa dar inteiro cumprimento, entre as nações, à sua vocação cristã. Ora, essa unidade está ameaçada. Um só gesto vosso bastará para salvá-la. Fazei esse gesto logo nos primeiros dias após vossa eleição. Ela será o pórtico de glória com que se abrirá vosso Pontificado.

“Santo Padre, afastai o perigo com que se defronta a unidade do Brasil”.

“Como se vê, qualquer que seja a nacionalidade do futuro Pontífice, seja ele bispo diocesano ou cardeal de Cúria, pouco importa. Minha súplica é tal que, para ser bem acolhida, basta que ele seja simplesmente Papa”. 

O Prof. Plinio expõe um fato concreto daquele ano e uma questão específica “chefiada por sacerdotes e freiras progressistas e esquerdistas”, mas, no fundo, é a mesma questão que persiste em nossos dias: a nefasta atuação da “esquerda católica” — o clero dito católico, pouco católico e muito esquerdista. Ela, com o beneplácito da CNBB, colabora para a implantação de um regime socialo-marxista no Brasil, nos mesmos moldes dos regimes que arruinaram Cuba, Venezuela, Nicarágua etc. 

Plinio Corrêa de Oliveira assim fechou seu artigo: 

“O Papa ignoto poderá fazer cessar tudo isto de um momento para outro [...]. Para ele se voltam, pois, aflições, preces e esperanças que são minhas, porém não só minhas”.

Na perspectiva do Conclave que se iniciou neste dia 7 de maio, poder-se-ia levantar a mesma questão ao próximo Papa:

Tal “esquerda católica”, pregando uma nova moral “modernista”, na linha daquela condenada por São Pio X [foto ("colorizada") ao lado], utilizando-se do nome “católico” para enganar os fieis, está se transformando numa anti-igreja, como já o é a extrema-esquerda eclesiástica da Teologia da Libertação, que prega abertamente o igualitarismo comunista, a invasão de propriedades particulares, a luta de classes etc. 

Rezemos para que o novo Papa — hoje ignoto, mas que poderemos tomar conhecimento amanhã ou nos próximos dias — desmascare essa anti-igreja, arrancando-lhe o rótulo de “católica”, como o fez o Papa São Pio X, por meio da Encíclica Pascendi Dominici Gregis (8-9-1907), desmascarando a seita “modernista” — qualificada por ele como “síntese de todas as heresias” e “cúmulo infinito de sofismas, com os quais se racha e se destrói toda a religião” —, que também se apresentava como “católica”. 

Encerro repetindo o pedido expresso no mencionado artigo do Prof. Plinio:

“Um só gesto vosso [Santo Padre] bastará para salvar. Fazei esse gesto logo nos primeiros dias após vossa eleição. Ela será o pórtico de glória com que se abrirá vosso Pontificado [...]. O Papa ignoto poderá fazer cessar tudo isto de um momento para outro [...]. Para ele se voltam, pois, aflições, preces e esperanças que são minhas, porém não só minhas. Vejamos”.

3 de maio de 2025

ESTILO SUBLIME DA IGREJA NOS FUNERAIS DE UM PONTÍFICE

 Papa Leão XIII sendo velado

No cerimonial e na seriedade com que a Igreja Católica considera a morte de um Papa, poderemos perceber melhor sua grandeza, santidade e esplendor. É o que passaremos a ver no exemplo utilizado por Plinio Corrêa de Oliveira ao analisar os funerais de Leão XIII através de desenhos da época publicados pela revista francesa Illustration. Nascido Vincenzo Gioacchino Raffaele Luigi Pecci-Prosperi-Buzz, esse Papa reinou de 1878 a 1903.

Nos comentários e nas ilustrações — que o Prof. Plinio considerou mais representativas da realidade do que as fotografias modernas — observaremos costumes de um mundo muito diferente do atual. São hábitos, modos de pensar e viver da Belle Époque (expressão francesa que significa Bela Época).

Foi um período de euforia, otimismo e prosperidade, de muita produção artística e transformações culturais, iniciado especialmente na Europa entre 1871, final da guerra franco-prussiana, e 1914, ano da eclosão da Primeira Guerra Mundial.

Pela nobreza dos ambientes e a compostura dos personagens ilustrados, teremos uma boa noção de como a Igreja recomenda proceder em funerais e de como devemos encarar a morte. Devemos também contrastar seus tradicionais costumes com os estilos da vida quotidiana da Belle Époque e estes com a vida em nosso mundo impregnado de vulgaridade e influência hollywoodiana que levou a humanidade a viver sem compostura, numa decadência sem precedentes.

*   *   *

Os comentários das ilustrações foram feitos por Plinio Corrêa de Oliveira em conferência para sócios e cooperadores da TFP em 21 de novembro de 1980. De nossa parte, cingimo-nos a selecionar os principais trechos da conferência (feita de improviso), a transpô-la para a linguagem escrita, a fazer leves adaptações e inserir título e subtítulos. O texto que segue, extraído de uma gravação em fita magnética, não foi revisto pelo saudoso orador.

Da Redação de Catolicismo



 A venerabilidade, a glória e a beleza eterna da Igreja Católica

 

Por sua própria natureza a vida é um cenário grandioso e um panorama imenso, onde a pessoa contempla uma grande peça que se desenrola. E nesse teatro ou somos espectadores que procuram entender o enredo, ou somos atores que participam dele, mas tudo gira em torno da peça. Essa é a concepção da vida que notamos até o fim da Belle Époque.

 

Sr. e Sra. Galin
em frente ao Jockey Club
de Paris (detalhe)
Jean Béraud (1849 1936).
Coleção particular.
Vamos analisar desenhos de um número antigo da revista Illustracion com cenas da Belle Époque. Foi um período festivo, alegre, brilhante, da vida social, que terminou com a Primeira Guerra Mundial.

Antes, porém, parece haver necessidade de uma explicação. Aquela época ficou marcada, em comparação com a época atual, na diferença das atitudes dos personagens, dos trajes, da decoração, nos estilos de vida e, portanto, na mentalidade dos personagens. As atitudes, os trajes etc., valem em si mesmo, mas, sobretudo, enquanto expressão de uma mentalidade. Quando tudo isto muda é porque a mentalidade mudou.

Caracterizava a mentalidade anterior a persuasão de que a vida não existe só para o seu sentido prático, ela não existe só para que a pessoa se cuide e prolongue a própria existência, evite as doenças que podem tornar incômoda a existência e ganhe dinheiro para torná-la divertida. A vida não existe só para o prazer, mas ela é o universo, e o existir do homem dentro desse universo o coloca mais ou menos como se ele estivesse num teatro para assistir a um grande enredo.

 

Todos participam de um metafórico teatro universal

Imaginem uma cena de teatro fabulosamente grande em que a imensa maioria dos que estão presentes de vez em quando entra na cena, representa um papel, mais apagado ou menos, e sai de cena. Depois continua a assistir à peça do lado de fora do palco.

Quer dizer, todos são artistas da enorme cena que assistem, todos fazem parte do enredo. E mesmo os mais apagados dos homens, de vez em quando entram na cena para exercerem seu papel e depois saem de novo e ficam na plateia.

Eles representam algo, ainda que façam parte como atores anônimos de uma multidão que aplaude ou de uma multidão que vaia; de uma multidão que boceja ou de uma multidão indiferente. Qualquer que seja a situação, eles todos em algo condicionam a cena, em certos momentos eles entram na encenação e depois vão para a plateia.

Felizes aqueles a quem Nossa Senhora suscita para de vez em quando entrarem na cena para exercer um papel em defesa da civilização cristã, bradando “tradição, família, propriedade”.

O indivíduo posto nesta situação do hipotético teatro é levado a ter a preocupação com o papel que ele deve exercer, mas como esse papel é passageiro e ele só pode exercer bem esse papel se entender a peça de teatro que está sendo representada, ele é obrigado a prestar atenção na peça e fazer dela o seu principal foco de atenção.

A vida até o fim da Belle Époque — muito mais ainda até a Idade Média — foi assim desde que houve almas verdadeiramente cristãs sobre a face da Terra. Também foi assim para os que receberam a revelação do Antigo Testamento e eram os justos de acordo com a Lei de Deus, e será assim até que deixe de haver homens vivendo na Terra até o fim do mundo.

Por sua própria natureza a vida é um cenário grandioso e um panorama imenso, onde a pessoa contempla uma grande peça que se desenrola, em que a peça é de uma grande clareza quando se presta atenção e se quer entendê-la, mas confusa e com aspectos até de caos quando não se quer entendê-la.

 Entretanto, a peça sempre vai se desenvolvendo sob uma forma ou outra. E nesse teatro ou somos espectadores que procuram entender o enredo, ou somos atores que participam dele mas tudo gira em torno da peça. Essa é a concepção da vida que notamos até o fim da Belle Époque.

 

Cartaz de propaganda de viagem – Paris, “Théâtre de l’Opéra” de Cussetti, 1900.

O indivíduo passa a querer ser o centro de tudo

Terminada a Belle Époque, começa outra concepção da vida. É a do indivíduo que também está no teatro imaginado, que de vez em quando entra na peça para representar um papel, mas já não se preocupa com o conjunto da peça, ele só se preocupa consigo.

Perguntando-se: “Minha cadeira está bem cômoda? Eu não estou com fome? Eu não posso mandar vir um menino que está vendendo bala, bombom, chocolate, para comer alguma coisa? Esse vizinho não está pondo cotovelo no lado do braço da poltrona que é o meu? Eu não estou com sono? Quem sabe se eu me espicho agora e tiro uma soneca? Quem sabe se me levanto e dou um passeio? Como estou eu? O que estou sentindo, o que estou querendo, será que vou viver muito ou será que vou morrer logo? Ai-ai-ai, não quero morrer. Eu estou sentido uma dor, mande vir um remédio para mim...”.

O indivíduo passa a ser o centro do teatro e a peça para ele é uma coisa secundária. Os próprios momentos em que ele entra para participar da representação são momentos fugazes e sem importância para ele. O ponto importante é ele enquanto o centro da plateia onde ele está, e o resto passa para segundo plano.

Donde o surgimento do homo economicus, do homo medicalis; do homem financeiro — ou seja, da era de Bios, deus da vida e da saúde; do homem que só quer viver gostosamente, longamente, a serviço de Bios e Mamon, o deus do dinheiro. Seus “adoradores” só se interessam pela riqueza para fazerem o que desejam.

É um outro aspecto da vida que se inaugura de modo espalhafatoso, acentuado ainda mais depois da Segunda Guerra mundial. Estendeu-se pelo mundo inteiro o estilo American Way of Life — um modo de conceber a vida americana que se espalhou pelo mundo com Hollywood, como se tudo devesse girar em torno de coisas materiais e sensuais. Com a difusão dessa mentalidade, houve uma “americanização”, uma entrada torrencial da influência hollywoodiana na vida.

 

Depois da Segunda Guerra Mundial estendeu-se pelo mundo inteiro o estilo American Way of Life — um modo de conceber a vida americana que se espalhou pelo mundo com Hollywood, como se tudo devesse girar em torno de coisas materiais e sensuais

O Divino Autor, o Criador do enredo da História

A imaginada peça de teatro — pelo seu enredo, por todos seus figurantes e por todo o cenário — tem uma grandeza enorme que nos deveria levar a pensar no seu Autor, que é Deus. O próprio enredo nos fala d’Ele. O próprio cenário é à imagem e semelhança do Autor. Os próprios atores secundários têm todo o seu papel, e até todo o seu ser planejado, intencionado pelo Autor. A peça nos fala de Deus e em cada coisa que se vê no panorama, como se vê nos homens e se vê no desenrolar do enredo, ou seja, no desenrolar da história, algo bem interpretado que nos fala de Deus.

Deus enquanto vitorioso e resplandecente. Mas também Deus enquanto punindo e perseguido, como no caso do Filho de Deus bradando do alto da Cruz Eli, Eli, lamma sabactani [frase em aramaico que significa “Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?”. (Mt 27, 46)]; Também Deus enquanto puniente e as catástrofes estrepitosas por Ele permitidas. Deus enquanto reconstituinte e as auroras das grandes épocas históricas em que Ele foi vincando toda a História, e, em torno do eixo dela, a Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana.

Essa é a visão que a metáfora da peça de teatro nos proporciona. É evidente que fazer abstração da peça é, no fundo, fazer abstração de Deus. Seria um modo de ser de ateísmo prático. O indivíduo vive e sente à maneira de ateu ainda quando reze todas as noites. É um ateísmo efetivo, concreto, mais ou menos subconsciente, mas que vai corroendo o senso sobrenatural, vai corroendo a fé, até o momento em que o indivíduo fica de fato ateu.

A hollywoodização foi nesse sentido a preparação da comunistização nos países ocidentais. Em nossos países, os círculos mais dominados por esse estilo de vida são os círculos onde menos existe reação anticomunista. O anticomunismo é raro porque eles não têm vontade de intervir na peça, eles não são anti-nada, eles são pró eles mesmos. Enquanto nós transbordamos do desejo de intervir na peça para realizar os desígnios do Divino Autor, eles, pelo contrário, procuram tirar o corpo.

 

Decadência da humanidade pós Primeira Guerra Mundial

Na Belle Époque, como nas épocas anteriores, tomava-se diante dos fatos da História uma atitude que era proporcionada à essência do fato. E quando se passavam fatos muitos graves, as pessoas tomavam atitudes graves diante da respeitabilidade do fato que ocorria.

A sagração de um bispo, a ordenação de um sacerdote, a primeira comunhão de uma criança, a investidura e a coroação de um Papa etc., tudo isto era sumamente grave e requeria esplendor, nobreza, pompa, luxo. Requeria sobretudo compenetração da gravidade e do esplendor do que estava acontecendo. Donde especiais atitudes, posições etc.

A Primeira Guerra Mundial acaba e chega a onda da “americanização”. A grande nação vencedora são os Estados Unidos — na aparência a França e a Inglaterra venceram a Alemanha; no fundo, a América do Norte psy esmagou a Europa, econômica e politicamente.

Então, qual é o resultado? — Tudo decai. A pessoa só está na cena pensando em si. Por exemplo, numa missa de 7º dia, a pessoa é levada a não pensar no Santo Sacrifício da Missa, nem na alma do morto, nem no augusto e trágico da morte, mas é levada a pensar quanto tempo durará a Missa, se o padre não vai atrasar, se ele não vai perder o metrô, o ônibus ou o avião, se ele não vai perder a hora marcada em tal banco, onde ele tem de tratar de um negócio.

Fica pensando que não conseguiu uma cadeira para se sentar, que os pés estão doendo; inclina-se de um lado e de outro porque a Missa está demorando muito; depois dá um bote na fileira dos pêsames para conseguir sair mais depressa etc. Só fica pensando em coisinhas e não no alcance elevado da Missa.

 

O minguamento do luto e a falta de seriedade


Alguns exemplos. Antes da Primeira Guerra Mundial as viúvas usavam vestidos de luto com um véu preto meio transparente, muitos crepes chegavam até os joelhos.

Nas igrejas, os catafalcos eram altos, mas hoje é um mero pano preto jogado no chão. Nas solenidades da Missa de 7º dia, o padre incensava o catafalco e cantava o Requiem aeternan dona eis, Domine (Repouso eterno concedei-lhe, Senhor), lembrando que a alma do falecido poderia estar penando no purgatório; depois cantava Et lux perpetua luceat eis (E que a luz perpétua o ilumine); terminando com Requiescat in pace (que descanse em paz). Mais tarde, o que não era muito canônico, tocava-se uma marcha fúnebre, muitas vezes a de Chopin.

Tudo isso foi desaparecendo. Hoje quase ninguém usa luto. Leva-se o cadáver para a morgue do cemitério, ou para o crematório. Antigamente era um ponto de honra ter o cadáver velado em casa até a última despedida. À hora de fechar o caixão todos da família osculavam o morto, a viúva vinha soluçando, amparada pelos da família; se era um viúvo, ele vinha de modo solene, lágrimas caindo dos olhos.

Essa solenidade não existe mais. Atualmente embarca-se o cadáver numa espécie de caminhonete e o leva para o cemitério, onde tem coca-cola à venda etc. Por quê? Porque os fatos perderam o seu significado.

Diante da circunstância de que esses fatos perderam seu significado, há coisas que devemos considerar. É que para nós os fatos continuam a ter significado e devemos tomar muito cuidado ao participar dos fatos, como de um funeral, de maneira que se entenda que eles têm significado.

A nossa presença pública deve dar a entender sempre que estamos impregnados de uma fé muito forte e das virtudes cardeais [prudência, justiça, fortaleza e temperança]. Quando uma pessoa trata com um membro da TFP, deve ter essa sensação, de que ele pensa seriamente na vida post-mortem, tudo segundo as normas do bom senso e da razão. Ele deve ser firme, mas agradável no trato com os outros, que devem penar: deve ser ruim brigar com ele, pois tem não apenas força, mas também jeito, senso diplomático.

 

Ilustração da pompa da Santa Igreja Católica

Vamos passar à reportagem da revista Illustration a respeito da morte, em 1903, do Papa Leão XIII. No comecinho do século XX, quando restavam ainda alguns anos do período de Belle Époque.

As cenas que ilustram a revista francesa preludiam a fotografia. Como esta arte não estava inteiramente desenvolvida, as grandes revistas contratavam desenhistas que, sem estarem presentes nas cenas, conheciam o cenário ou o noticiário dos jornais a respeito. Assim, eles, em desenhos, recompunham as cenas.

As ilustrações produzidas pelos bons desenhistas são verdadeiras peças de sociologia. Eles compunham a cena de maneira a fazer vender a revista. Para isso, tinham que fazer com que o desenho fosse o mais próximo possível daquilo que o leitor imaginava, pois, do contrário, o desenho poderia ser recusado, a revista ou o jornal não seriam comprados.

Era um verdadeiro inquérito silencioso junto à opinião pública quando o desenhista procurava captar a cena como ela era imaginada e acrescentava mais alguma coisa que o indivíduo não tinha imaginado, mas na linha do que ele tinha imaginado.

A coroação de um Papa, sua morte, a visita de um rei a outro rei, a posse de um presidente, eram cenas imaginadas pelo grande público e o desenhista compunha a cena segundo tal público. Assim, a representação era autêntica. Sendo então um verdadeiro inquérito de qual era a mentalidade do público e da realidade como se transcorreu.

Assim sendo, as ilustrações da morte do Papa revelavam como o público considerava a morte e, no caso, como considerava um Papa que morreu.

Os mais jovens assistiram à morte de Papas mais recentes. E convido-os a fazerem comparações para se ver como o ambiente mudou em relação ao tempo de Leão XIII, quando era saliente a pompa da civilização cristã e, ainda muito mais, a pompa da Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana.

 

A majestade que paira no ambiente com a morte de um Papa

Quando foi constatada a morte de Leão XIII, estavam presentes alguns personagens — médicos, bem como um monsenhor assistente e o médico pessoal do Papa, que então era conhecido como “arquiatra pontifício”; arquiatra é uma palavra grega que quer dizer o arqui-médico, o médico por excelência do Papa. Ele tira o pulso do Pontífice a fim de constatar se ele estava morto [foto].



Analisando-se os personagens em torno do Papa, a ideia da morte surge como vivida pelo desenhista. Notamos um cobertor sobre um colchão razoavelmente suficiente, um tecido de categoria muito fina que chega até os joelhos do Papa e parte de uma poltrona confortável. No fundo da parede, um tecido damasquinado e parte de uma cortina. Tudo fala de abundância sem ser exagerada. Dentro da abundância, o fracasso: pela posição da cabeça do Papa percebe-se que ele não respira mais, fica-se com impressão de um navio que afundou.

O lívido da morte causa uma dupla impressão: a insensibilidade da morte e a dor do último instante. Os braços e o corpo do Vigário de Cristo na Terra estão completamente largados, sobre ele — como ocorre com todos os homens — desfechou-se o castigo efeito do pecado original: a morte.

Ele morreu e Deus acaba de exercer um ato de sua terrível e divina justiça. Deus é vida, mas a morte é imagem da cólera d’Aquele que é vida e sua presença augusta é a fonte desse castigo que, pairando no ambiente, causa temor.

Um médico segura o pulso do Papa. Então, de acordo com as leis do tempo, precisa declarar encerrada a sua missão. O corpo tem que ser embalsamado, colocado num caixão, segue-se o velório e o sepultamento. O médico se mostra frio na sua posição científica e profissional, mas algo no modo de ser dele é solene e sério. Ele se prepara para dizer palavras que encerram um capítulo de história da Igreja: O Papa Leão XIII morreu!

Os outros dois médicos têm atitudes diversas: um mais moço, de bigode preto, está numa atitude ereta, olhando longe, pensando em coisas graves, evidentemente pensa na morte e procura marcar presença de modo imponderável. Este é o bom gosto em todas as atitudes: o imponderável de uma certa tristeza pelo grave da cena, e quiçá, pela relação dele com o Papa.

O outro, de cabelos brancos, está encostado à cama. Usa um par de pince-nez — uns óculos antigos para leitura ou ver melhor alguma coisa. Ele está ao mesmo tempo pensativo e ligeiramente entristecido, como quem diz: “Que grande coisa é uma vida que cessa, um pontificado que cessa! O que é a morte! Seja um ateu ou não, a palavra Deus lhe vem ao espírito e fica pensativo.

O Monsenhor, certamente com traje de cor violeta; uma bonita batina com muitos botões revestidos e com uma capa de bela seda — uma capa nobre que parece ocultar o esplendor da batina mais própria aos dias de festa. É um homem mais ou menos da idade do personagem de bigode preto. Ele vai se retirando dos aposentos como alguém que estava assistindo o Papa e cuja função cessou. Vai levando numa salva de prata um copo presumivelmente de cristal; começando a dar uma pequena ordenação no quarto do Pontífice, para que se possam iniciar as cerimônias fúnebres.

Parece que o Monsenhor, percebendo que o médico iria emitir a palavra decisiva, parou para ouvi-lo confirmar que realmente não havia mais esperança de vida.

 

Martelinho usado nas exéquias do Papa Leão XIII

O anúncio solene da morte de um Pontífice


Nessa ilustração há muito pensamento do desenhista de uma importante revista. Ele como que desenhou a ideia de que a vida é efêmera e a morte é episódio frequente. Uma grande cena diante da qual se para, reflete-se nas grandes ocasiões.

Em última análise, ele desenha a como que a onipotência pontifícia, o supremo poder do Papa. Leão XIII era tido como um gênio, mas o fulgor da genialidade em certo momento se apaga, ele não é mais nada, é um cadáver. Em pouco tempo o corpo médico sairá dos aposentos e comunicará aos cardeais que esperavam o desfecho, o fim do Pontificado de Leão XIII.

Constatada a morte pela ciência, era o momento de a Igreja, seguindo as normas do Ordo Exsequiarum Romani Pontifici (“Ordo dos Sepultamentos Pontifícios Romanos”), constatar a morte do seu Chefe na Terra. Naquela época, o Cardeal camerlengo — aquele que substitui interinamente o Papa falecido até a eleição do sucessor — com um martelinho de prata se acercava da cama juntamente com os outros cardeais presentes e discretamente batia três vezes sobre a fronte do Pontífice e perguntava: Santíssimo Padre, vives? E repetia a pergunta por mais duas vezes. Diante da ausência da resposta, o camerlengo comunicava oficialmente que o Papa havia morrido — no caso, que Leão XIII morreu.

Então o camerlengo quebra o Anel do Pescador (que o Papa usa para lembrar o primeiro Papa, São Pedro, incumbido por Jesus para ser “pescador de almas”. Também destrói o selo papal (o lacre usado para selar os documentos papais); ordena os cerimoniais para o sepultamento e os nove dias de luto — os chamados “Novelandi”.

A notícia era imediatamente levada aos sineiros da Basílica de São Pedro, que já estavam a postos. Eles começavam a dobrar os toques de finados. Em poucos minutos, os sinos das mais de 800 igrejas de Roma começavam também a dobrar a finados.

O povo ouvia os sinos e nas ruas se reunia e começava a rezar pelo Pontífice; depois entrava em casa e pegava crepes, tecidos de luto para pôr nas roupas, e começava a encher a Basílica e a Praça de São Pedro e as igrejas romanas. Os funerais do Papa estavam iniciando.

Os cardeais começam a fazer orações oficiais pela alma do Papa morto, que vão se desdobrando pelo mundo inteiro; em todas as igrejas se rezarão missas e dobrarão sinos. Essas orações continuam até o sepultamento do Pontífice falecido.

Eram bonitos os costumes daqueles tempos; não têm nada a ver com hollywoodização de hoje. Quando a pessoa recebe a notícia da morte do Papa, não dá importância e pensa no programa que terá à noite, no cinema, na sessão de teatro, na praia do final de semana. Com a entrada dos modos Hollywood, esses aspectos belos e solenes que vemos nestas ilustrações foram sendo eliminados; neles Deus se manifestava mais presente.

 


Em cortejo solene, o Santíssimo é trasladado aos aposentos pontifícios

Esta outra ilustração é anterior à morte do Papa [foto acima]. Nela vemos que o Santíssimo Sacramento é levado para o Papa moribundo. Numa das galerias do Vaticano passa um cortejo, o sacerdote com a veste litúrgica própria para portar o Santíssimo sob uma umbrela — uma espécie de guarda-sol que antigamente se usava em todas as igrejas, por exemplo, quando havia bênção do Santíssimo Sacramento, para transladá-Lo da capela do Santíssimo até o altar-mor.

O sacerdote que conduz o Santíssimo até aos aposentos Pontifícios vai com o rosto próximo do Santíssimo e rezando; recolhido, ele não olha para os lados, pois está conduzindo Nosso Senhor Jesus Cristo verdadeiramente presente sob as espécies eucarísticas, com seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade! Por isso, um outro sacerdote segue o cortejo tocando um sino de mão.

Notamos alguns guardas de honra: os Guardas Suíços, com suas alabardas, com os trajes bem característicos que ainda hoje são usados. Um Guarda Nobre Pontifício — uma guarda composta por membros de famílias nobres da Itália — segue no cortejo levando seu bonito elmo na mão, descoberto porque o Santíssimo está presente.

No primeiro plano, à direita, dois frades franciscanos, com suas cabeças tonsuradas e hábitos bem característicos, inclinados rezam. É muito bonito o contraste entre o esplendor do local e a simplicidade dos trajes franciscanos, a humildade com que eles genuflectem, o espírito de prece que é expresso pelas mãos, pela atitude, a solenidade, o recolhimento perante o Santíssimo Sacramento. Esse contraste entre a riqueza e a pobreza, entre nobre altaneria da Fé e a suma humildade da Fé constitui uma harmonia especial.

Os demais presentes, atrás no cortejo, são lacaios, camareiros e senhores da Corte Pontifícia. Todos compenetrados na presença divina e de que, do alto do Céu, Nossa Senhora e todos os Anjos e Santos estão adorando Jesus sendo levado ao Papa que está morrendo; vai haver o último colóquio entre o Vigário de Cristo e Cristo Nosso Senhor!

Tudo muito bem representado pelo desenhista, até mesmo o piso muito lustroso, a tal ponto que se diria que os presentes estão andando sobre água. É o mármore super polido da Basílica de São Pedro, de uma qualidade esplêndida, tão frequente na Itália.

Uma cena verdadeiramente magnífica, sem comparação com as coisas como se passam hoje!

 


O venerável da Praça de São Pedro e o pulchrum eterno da Igreja

Vamos passar a outra ilustração, que apresenta a Basílica de São Pedro numa noite de luar [foto acima]. Ela se ergue na sua majestade, jatos de água correm das fontes, o obelisco se levanta tendo ao alto uma cruz e na base dele gravado o lema dos monges Cartuxos: Stat crux dum volvitur orbis (“A Cruz permanece estável, enquanto o mundo gira ao seu redor”), pois ela é o eixo do mundo!

Frente à Basílica, a Praça de São Pedro começa a encher-se de gente que vai e vem de um lado para outro. São pessoas à espera de notícias sobre a saúde do Papa, rezam por sua melhora ou estão à espera da notícia do desenlace final, que todo o mundo está temendo para qualquer momento. Elas têm personalidades diferentes, formam rodinhas comentando a situação do Vigário de Cristo, falam baixo em sinal do respeito que o momento exige.

Dos dois lados, vemos as colunatas de Bernini e, atrás delas, o Palácio Vaticano. É por detrás de uma de suas janelas que o desenlace está se desenrolando. Seriam os últimos momentos de um pontificado, de uma vida e de um capítulo da História? Todos estão se perguntando e confabulam a respeito.

Entre o povo, vemos várias batinas. Padres, como eram naquela época, compenetrados da missão sacerdotal. Um deles é um homem alto, corpulento, sério, com um grande chapéu, barba branca, que ajuda a notar a venerabilidade na sua longa vida, acompanhada de uma espécie de maturidade que se prolonga; alma provecta de antiguidade e o corpo decidido e forte. O sacerdote se retira imerso em seus pensamentos.

Esse desenho faz-nos compreender melhor, mais do que muitas fotografias, o que há de venerável na Praça de São Pedro. Compreendemos o pulchrum eterno da Igreja Católica, que o progressismo atual procura velar o quanto pode.

 


“Assim passa a glória do mundo”

Nesta cena [foto acima], o desenhista retrata que o Papa morreu. Mesmo colocado numa posição um pouco mais ereta, a cabeça está caída para trás, dá a impressão do fracasso, da morte, do castigo — Ex inanitio, sua alma saiu, só o corpo ficou…

Junto ao cadáver de Leão XIII estão cardeais que começam a se despedir. Um deles oscula a mão do Papa, outro — talvez seja o cardeal que, com o nome de Bento XV, sucedeu a São Pio X, Papa que foi o sucessor de Leão XIII.

Mais atrás, um cardeal mais velho fita o infinito. Outro olha o Pontífice morto com uma espécie de ansiedade, como quem diz: “É mesmo, então meu velho companheiro de episcopado, meu velho companheiro de colégio cardinalício, meu Papa durante tantos anos, tu te vais, é assim a morte? Ela não está longe de mim. Ó morte! Fito-a em ti o meu dia de amanhã. Fito em ti o umbral da eternidade, o passado que fica e o futuro que vem. Ó morte! Ó Deus!”

Outro cardeal sentou-se numa poltrona, ele está literalmente affaissé, desmoronado, muito pensativo. No quê ele pensa? — Talvez nas palavras clássicas: Sicut transit glória mundi (Assim passa a glória do mundo), como que dizendo “Tudo se foi, todo o passado se encerrou, todos os anseios, todas as realizações, todas as aflições, todas as decepções, tudo está encerrado, nada permanece, nada dura, tudo é efêmero, ó amargura, ó Deus, que afinal sereis a consolação dos justos”.

Certo desalinho intencional de seus cabelos como que indica o sismógrafo de sua aflição. Ele está em atitude própria a um homem da Belle Époque quando meditando sozinho em seu quarto, largado, à vontade, pensando.

Nas atitudes dignas desses cardeais e até no cadáver de Leão XIII, digno na sua posição de morto, notamos a compostura, tudo na linha da pompa que havia na Belle Époque. Nada comparável às atitudes do clero progressista de nossos tempos!



 Última homenagem
 do povo católico
 ao Papa Leão XIII

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Fonte: Editorial da Revista Catolicismo, Nº 887, novembro/2024

Insisto que estas ilustrações têm mais expressão do que fotografias e dão a essência da realidade, sem o clic-clic das máquinas fotográficas. Mas, na loucura do mundo atual, não há jornal que apresente desenhos desse gênero; o público parece preferir a fotografia que pega o fato, quente e instantâneo.

Com essas ilustrações, externando a compostura dos personagens, nós temos uma viva noção de como era a Igreja Católica, de como era considerada a morte, a vida e a eternidade; temos a noção de como é Deus. A Igreja sempre em sua essência foi assim, mas a crise e o infortúnio que se abateram sobre Ela causaram desfigurações.

Entretanto, devemos ter uma respeitosa pena, olhar a Igreja nos dias de hoje como os filhos de Noé viram o pai ébrio; eles não perderam o respeito.