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11 de dezembro de 2025

NOSSA SENHORA DE GUADALUPE



Neste dia 12 de dezembro a Santa Igreja celebra solenemente a festa de Nossa Senhora de Guadalupe, Padroeira das Américas. 

Ela apareceu no ano de 1531, no México, ao índio asteca Juan Diego, deixando impressa a sua imagem, com os símbolos da Imaculada Conceição, no avental do índio. 

Neste episódio, mostrou Nossa Senhora uma predileção particularmente maternal para com os indígenas. Predileção essa que bem se refletiu no zelo de tantos missionários tradicionais. 

As conversões de aborígenes operadas ante a Imagem de Nossa Senhora foram incontáveis. É que a misericórdia d´Ela consistia em converter os índios e não em os deixar jazendo nas trevas do paganismo, como pleiteiam os missionários “aggiornati”. 

*   *   *
Segue o original e a tradução de uma belíssima oração a Nossa Senhora de Guadalupe. Eu a copiei de um “santinho” (na frente com uma foto d´Ela e no verso com a oração em castelhano) que Plinio Corrêa de Oliveira osculava, rezava e guardava com muita piedade. 

Pintura colonial (séc. XVIII) representando uma procissão com clérigos, fiéis e indígenas devotos, com o estandarte da Virgem de Guadalupe sendo solenemente levado sob um belo andor. O quadro, atribuído a Miguel Cabrera (1695–1768), fica exposto no Museo Soumaya, na cidade do México.



Manojito de imposibles a la Ssma. Virgen de Guadalupe 


Oh Madre mía de Guadalupe, que para Tí no hay imposibles! A Tu Corazón todo magnanimidad y dulzura, he confiado un manojito de imposibles, que bien conoces y que realmente son superiores a mis fuerzas. Problemas insolubles, dificultades insuperables, penas sin humano remedio que me torturan espantosamente, aquí están Madre mia, para que Tu hagas el imposible de que se remedien... Muestra la grandeza de Tu amor y Tu poder superando estos imposibles. 

Los traigo a Tus plantas, en la confianza, con la plena seguridad de que los remediarás porque por Tu propia dignación y por el compromiso que Tu Corazón quiso contraer en favor nuestro, esos imposibles dejarán de serlo. Sí, dejarán de serlo al influjo irresistible de Tu Bondad. Es imposible que Tu no venzas los imposibles. 

Amén 
____________ 

Buquê de impossíveis à Santíssima Virgem de Guadalupe 


Ó minha Mãe de Guadalupe, para quem não existem impossíveis! Ao vosso Coração, pleno de magnanimidade e doçura, confio um buquê (um punhado) de impossíveis, que bem conheceis e que realmente superam as minhas forças. Problemas insolúveis, dificuldades intransponíveis, penas sem remédio humano que me torturam espantosamente: aqui estão, minha Mãe, para que realizeis o impossível de vê-los remediados... Mostrai a grandeza do vosso amor e do vosso poder, superando esses impossíveis. 

Eu os trago aos vossos pés, na confiança, com plena segurança de que os remediareis, porque, por vossa própria grandeza e pelo compromisso que Vosso Coração quis assumir em nosso favor, esses impossíveis deixarão de sê-lo. Sim, deixarão de sê-lo sob o influxo irresistível de vossa Bondade. É impossível que Vós não vençais os impossíveis.

Amém!

30 de outubro de 2019

Comunicado: O clamor do povo católico da Amazônia foi desprezado pelos Padres Sinodais

➤  Instituto Plinio Corrêa de Oliveira
Jornalista Nelson Ramos Barreto, 
colaborador do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira
entregando a petição aos Padres Sinodais em Roma.

No dia 4 de outubro, às vésperas da abertura da Assembléia Especial do Sínodo dos Bispos para a Região Amazônica, representantes do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira entregaram oficialmente à Secretaria do Sínodo um “Pedido aos Padres Sinodais: Por uma Amazônia cristã e próspera (não uma imensa ‘favela verde’ dividida em guetos tribais)”

O documento trazia assinaturas de mais de 20 mil moradores da Amazônia brasileira, equatoriana e peruana, coletadas em campanhas públicas nas ruas das principais cidades da Amazônia por jovens voluntários do Instituto durante as férias escolares. 

No entanto, o Documento Final da Assembleia Sinodal simplesmente ignorou as respeitosas solicitações da população amazônica, preferindo atender as demandas da mídia internacional, que promove a psicose ambiental, e a uma minoria de ativistas indígenas levados a Roma pela Rede Eclesial Panamazônica. 

O Documento Final reconhece a influência desse lobby ideológico-publicitário já em seu primeiro parágrafo, em que os Padres Sinodais se felicitam pela “presença notável de pessoas vindas do mundo amazônico, que organizaram ações de apoio em diferentes atividades” e pela “presença massiva dos meios de comunicação internacionais” (Documento Final, nº 1). 
Petição online promovida pelo IPCO 
em apoio aos mais de 20 mil moradores da Amazônia 
que assinaram o “Pedido aos Padres Sinodais: 
Por uma Amazônia cristã e próspera 
(não uma imensa ‘favela verde’ dividida em guetos tribais)”.

Os signatários da petição do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira pediam ao Sínodo que agradecesse a Deus “pela evangelização levada a cabo pelos missionários e pela ação civilizadora dos colonizadores, que trouxeram os benefícios do progresso” (Petição, nº 1). Pelo contrário, os Padres Sinodais denunciaram “a colonização militar, política e cultural” motivada pela “ganância e ambição dos conquistadores” (DF nº 15); consideraram negativa “a influência da civilização ocidental” (DF nº 14); pior ainda, declararam que “frequentemente o anúncio de Cristo foi feito em conluio com poderes que exploravam recursos e populações oprimidas” (DF n° 15), o que é absolutamente contrário à verdade histórica e um insulto aos heróicos missionários, que realizaram uma das maiores epopéias missionárias desde a fundação da Santa Igreja. 

Além disso, os Padres sinodais praticamente renunciaram a converter os nativos ainda pagãos, declarando que “o diálogo ecumênico, inter-religioso e intercultural deve ser assumido como um meio indispensável de evangelização” (DF nº 24) e que a Igreja deve praticar uma “conversão cultural”, limitando o anúncio da Boa Nova a “estar presente, respeitar e reconhecer seus valores, viver e praticar a inculturação e a interculturalidade” (DF n° 41). Os Padres Sinodais são categóricos ao declarar este abandono da missão tradicional: “Rejeitamos uma evangelização de estilo colonialista. Anunciar a Boa Nova de Jesus implica em reconhecer os germes da Palavra já presentes nas culturas. A evangelização que hoje propomos para a Amazônia é o anúncio inculturado que gera processos interculturais” (DF n° 55).

Em vez de ouvir o “grito de angústia diante do perigo de a Amazônia se transformar em uma imensa ‘favela verde’” (Petição IPCO, n. 5), os Padres Sinodais se intrometem indevidamente em assuntos de natureza científica para os quais não têm qualquer mandato divino nem competência técnica (o que representa uma clara manifestação de “clericalismo”). Eles declararam falsamente que o desmatamento “está em quase 17% da floresta amazônica e ameaça a sobrevivência de todo o ecossistema” (DF nº 11); que “a região amazônica é essencial para a distribuição das chuvas nas regiões da América do Sul” (DF nº 6); e que “é urgentemente necessário desenvolver políticas energéticas que reduzam drasticamente as emissões de dióxido de carbono (CO2) e outros gases relacionados às mudanças climáticas” (DF nº 77).


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Além disso, o Documento Final descreve uma suposta “situação dramática de destruição que afeta a Amazônia”, cuja selva estaria “em uma corrida desenfreada em direção à morte”, levando ao “desaparecimento do território e de seus habitantes, especialmente os povos indígenas” (DF nº 2). Isto resultaria da “apropriação e privatização de recursos naturais” e do que chamam de “megaprojetos não sustentáveis”, ou seja, “hidrelétricas, concessões florestais, monoculturas, estradas, hidrovias, ferrovias e projetos de mineração e petróleo” (DF nº 10), resultantes do atual “modelo econômico de desenvolvimento predatório e ecocida” (DF nº 46) e do “extrativismo predatório que responde à lógica da ganância, típica do paradigma tecnocrático dominante” (DF nº 67). 

Para os Padres Sinodais é necessário, pelo contrário, uma “conversão ecológica individual e comunitária que resguarde uma ecologia integral” (DF nº 73), assumindo “uma vida simples e sóbria” (DF nº 17) e “mudando nossos hábitos alimentares (consumo excessivo de carne e peixe / mariscos) com estilos de vida mais sóbrios” (DF n ° 84).

Ao invés de “repudiar energicamente as ideologias neopagãs” que difundem “um conceito distorcido de respeito à natureza” (Petição IPCO, nº 2), o Documento Final do Sínodo afirma a necessidade de preservar “rios e florestas, que são espaços sagrados, fonte de vida e sabedoria” (DF nº 80) e que a vida das comunidades amazônicas “se reflete em crenças e ritos sobre a ação dos espíritos da divindade, chamados de inúmeras maneiras, com e no território, com a natureza e em relação a ela” (DF n° 14). Da mesma forma, o “bem viver” dos povos indígenas (sic!) seria caracterizado por uma existência “em harmonia consigo mesma, com a natureza, com os seres humanos e com o ser supremo, uma vez que existe uma intercomunicação entre todo o cosmos, onde não há nem excludentes nem excluídos. [...] Esta compreensão da vida é caracterizada pela conectividade e harmonia das relações entre água, território e natureza, vida e cultura comunitária, Deus e as diversas forças espirituais” (DF n° 19). 

Ao invés de “repudiar a utopia comuno-tribalista” da Teologia da Libertação (Petição IPCO nº 3), os Padres Sinodais declaram que “a teologia indígena, a teologia de rosto amazônico e a piedade popular já são riquezas do mundo indígena, de sua cultura e espiritualidade” (DF n° 54) e que “eco-teologia, teologia da criação, teologias indígenas, espiritualidade ecológica” devem ser incluídas nos currículos acadêmicos de formação de um sacerdócio com rosto amazônico (DF n° 108). O Instituto Plinio Corrêa de Oliveira lamenta que, ao invés de abrirem suas almas ao pedido final à Santíssima Virgem no sentido de preservarem a unidade e vocação católica das nações amazônicas, os Padres Sinodais tenham sido mais sensíveis aos eflúvios preternaturais que emanam da figura de Pachamama, presente na sala de aula sinodal e nas cerimônias idólatras de adoração realizadas em sua homenagem nos jardins do Vaticano e na igreja de Santa Maria em Transpontina. E ao se omitirem de lamentar de maneira clara e inequívoca este episódio sem precedentes, eles simplesmente ignoraram o profundo choque que causou nos fiéis do mundo todo.

O Instituto Plinio Corrêa de Oliveira espera que, na anunciada Exortação Apostólica pós-sinodal, o Papa Francisco rejeite os erros acima denunciados, bem como a verdadeira revolução eclesiológica preconizada pelo Documento Final do Sínodo ao propor a concessão de extensos ministérios eclesiais oficiais e rotativos a leigos de ambos os sexos, abrir às mulheres os ministérios de Leitorado e Acolitado, e autorizar a ordenação sacerdotal de líderes comunitários casados. 




São Paulo, 30 de outubro de 2019 

Instituto Plinio Corrêa de Oliveira

8 de setembro de 2019

Apostolado e epopeia dos santos missionários

Em S. Vicente (SP), o Pe. Manuel da Nóbrega, abençoando as tropas que, sob o comando de Estácio de Sá, partiam para expulsar os invasores franceses do Rio de Janeiro. A seus pés, ajoelhado, vemos o Pe. Anchieta. Pintura de Benedito Calixto, Palácio S. Joaquim (RJ).

Representação nas selvas brasileiras dos milagres de São Francisco de Assis 


Nóbrega e Anchieta foram grandes heróis da fé católica. A esses santos missionários muitíssimo devemos pelo fato de terem impulsionado o processo civilizatório que resultou na grandeza do Brasil. 

Entretanto, eles foram, por assim dizer, “excomungados” pelos neo-missionários da eco-teologia progressista. A nova missiologia condena o fabuloso apostolado -- para catequizar, civilizar e salvar os indígenas da barbárie -- exercido por tantos santos missionários que sacrificaram suas vidas no interior de nossas selvas. 

Em homenagem à inestimável epopeia desses heróis nacionais, segue um comentário de Plinio Corrêa de Oliveira, publicado num artigo para “O Século”, do Rio de Janeiro, em 4 de setembro de 1932. 

"Anchieta, Evangelho nas Selvas", Benedito Calixto (1893)

Se pudéssemos recorrer a uma comparação profana, para dar ideia da importância de Anchieta em nossa história, diríamos que ele foi para o Brasil o que Licurgo foi para Esparta, e Rômulo para Roma. Isto é, um desses heróis fabulosos que se encontram nas origens de algumas grandes nacionalidades, a levantar os primeiros muros, edificar as primeiras construções e organizar as primeiras instituições.

Sua figura, de uma rutilante beleza moral, se ergue nas nascentes da Nação brasileira, construindo seu primeiro hospital e seu primeiro grupo escolar, redigindo nas praias do oceano os primeiros versos compostos em plagas brasileiras. Anchieta foi simultaneamente nosso primeiro mestre-escola, nosso primeiro fundador de obras pias e o patriarca de nossa literatura, “o mais antigo vulto da literatura brasileira”, como o chamava Silvio Romero.

Acima dessa tríplice coroa fulgura ainda o diadema de uma virtude que fez reproduzirem-se em selvas brasileiras os milagres do Poverello de Assis, cuja simples presença amansava feras e atraía os passarinhos, nas florestas densas da Úmbria.

17 de outubro de 2017

NÓBREGA, 500 ANOS DEPOIS

Em São Vicente (SP), o Pe. Manuel da Nóbrega, abençoando as tropas que, sob o comando de Estácio de Sá, partiam para expulsar os invasores franceses do Rio de Janeiro. A seus pés, ajoelhado, vemos o Pe. Anchieta. Pintura de Benedito Calixto, Palácio São Joaquim (RJ).

Paulo Roberto Campos

O Padre Manuel da Nóbrega, qualificado a muito justo título de “Primeiro Apóstolo do Brasil”, nasceu em 18 de outubro de 1517 — exatamente há cinco séculos — em Sanfins do Douro, Província de Trás-os-Montes (Portugal), e faleceu no Rio de Janeiro em 18 de outubro de 1570, dia em que completava 53 anos.

O Brasil, em seu processo civilizatório, muito deve ao monumental esforço do Padre Nóbrega, que juntamente com o Padre Anchieta e outros heroicos missionários catequizaram, civilizaram e salvaram nossos indígenas, libertando-os de seus costumes tribais que incluíam práticas de bruxaria, canibalismo etc.

Hoje, entretanto, uma nova corrente de missionários indigenistas procura relegar e silenciar a memória desses gigantes da fé, e até mesmo desprezar sua fantástica epopeia.

Ao mesmo tempo, desejosos de deitar por terra o nosso passado glorioso, esses neomissionários esquerdistas agitam o País com arengas favoráveis ao primitivismo dos indígenas, promovendo, por exemplo, a demarcação de suas terras para que nelas vivam como num zoológico, distantes e sem o bafejo da civilização, inflamando-os contra os brancos, provocando uma fratricida luta de raças e de classes.

Em memória do V centenário do nascimento do grande Padre Manuel da Nóbrega, segue uma análise de Plinio Corrêa de Oliveira, extraída de sua obra Tribalismo Indígena, ideal comuno-missionário para o Brasil no século XXI, publicada em 1977.
“Quomodo obscuratum est aurum! Como chegou a tornar-se escuro o ouro! — exclama o profeta Jeremias (Lm. 4, 1).  
Desde Nóbrega e Anchieta, a luminosa atuação dos missionários em nosso País consistiu em evangelizar, educar, civilizar nossos irmãos silvícolas.  
Mas o ouro inestimável, ao qual a ação missionária tradicional pode ser comparada, obscureceu-se.
Em nossos dias, uma poderosa corrente missionária, influenciada pelo progressismo cada vez mais difundido em nossos meios eclesiásticos, visa precisamente o contrário: proclama o estado dos silvícolas como a própria perfeição da vida humana, opõe-se à integração do silvícola na civilização, afirma o caráter secundário — quando não a inutilidade — da catequese, e não poupa críticas à ação dos grandes missionários de outrora, nem mesmo a de Nóbrega e Anchieta, os quais o Brasil todo venera.  
Do fundo de nossas selvas, esses neomissionários lançam apelos em prol da luta de classes, que desejam ver corroendo, até às entranhas, o Brasil civilizado. 
O estudo do pensamento dessa corrente neomissiológica é indispensável para quem queira conhecer a grande crise da Igreja no Brasil. E compreender de que maneira essa crise tende a contagiar o País, transformando-se, de crise da Igreja, em crise do Brasil”.

10 de maio de 2014

São José de Anchieta, Apóstolo do Brasil, rogai por nós!

A Fundação de São Paulo - Pintura de Oscar Pereira da Silva (1865-1939)
Desde a missão de evangelizar, civilizar e instruir os indígenas da Terra de Santa Cruz até a vocação de cruzado — colaborando heroicamente para a expulsão dos hereges que invadiram nossas terras —, Anchieta foi um dos principais forjadores da unidade nacional

Paulo Roberto Campos 
Matéria publicada na Revista "Catolicismo"
Nº 761, edição de Maio/2014.

Beatificado por João Paulo II em junho de 1980, Anchieta foi canonizado no dia 3 de abril último pelo Papa Francisco. Mas já nos idos de 1736 Clemente XII fizera a proclamação da heroicidade de suas virtudes, tornando-se desde então comum recorrer à intercessão desse Venerável filho espiritual de Santo Inácio de Loyola, que mereceu o cognome de Apóstolo do Brasil. A esse título ele será particularmente atento às preces que nós brasileiros lhe dirigirmos — tanto para as nossas necessidades individuais quanto para as da Terra de Santa Cruz. 


Anchieta - Autor anônimo. Museu Paulista
A respeito das delongas e dos obstáculos para se chegar à tão esperada canonização de Anchieta, escreve o Pe. Armando Cardoso, S.J: “Seu processo de beatificação, começado cinco anos apenas após sua morte, e interrompido várias vezes por diversas circunstâncias históricas, se estendeu até 1736, em que o Papa Clemente XII deu o ‘Decreto das Virtudes em Grau Heroico Praticadas pelo Venerável Servo de Deus o Padre José de Anchieta, Sacerdote Professo da Companhia de Jesus’. Retomado para exame dos milagres, foi largado por mais de 120 anos por ocasião da perseguição à Companhia de Jesus, sua supressão, restituição e volta ao Brasil (1757-1877)”.(1) 



Fundador da cidade de São Paulo, um “Bandeirante da Fé”

Ainda muito jovem,
Anchieta faz o voto de castidade
 
Também cognominado "Apóstolo do
Novo Mundo” e “São Francisco Xavier da América”, José de Anchieta nasceu há 480 anos, no dia 19 de março de 1534, em São Cristóvão de La Laguna, Tenerife (Arquipélago das Canárias). Descendente de nobres espanhóis, iniciou seus estudos universitários em Coimbra no ano de 1548, e três anos depois ingressou na Companhia de Jesus. Com apenas 19 anos, enquanto noviço jesuíta, embarcou como missionário para o Brasil, aportando na Bahia de Todos os Santos (Salvador) em 13 de julho de 1553, com o governador-geral Duarte da Costa. 

Pouco depois, partiu para seu principal destino: São Vicente, no litoral paulista, então sede da capitania de Martim Afonso de Sousa. 

Seu zelo pela salvação das almas levou o jovem Anchieta a galgar os 900 metros da escarpada Serra do Mar para chegar ao planalto de Piratininga. Acompanharam-no nesta empreitada 12 jesuítas, que se estabeleceram sobre uma colina entre os rios Tamanduateí e Anhangabaú. Também vinham junto 20 “curumins” — indiozinhos que haviam descido para São Vicente a fim de estudar na escola dos missionários.

Não se trata de narrar aqui toda a empolgante epopeia desse santo missionário, nem os numerosos milagres por ele operados em terras brasílicas. Mas dentre os abundantes fatos épicos de sua vida merece especial destaque um: em 25 de janeiro de 1554, o jovem jesuíta, juntamente com o Pe. Manoel da Nóbrega, fundou a Vila de Piratininga, tendo como ponto de partida o atual Pátio do Colégio, berço da capital paulista. Naquele dia, o ato de fundação da cidade foi a primeira Missa celebrada no rústico e provisório “Colégio São Paulo”. Tal foi o papel do Apóstolo do Brasil, como incansável “Bandeirante da Fé”, na fundação da cidade de São Paulo, que alguns autores afirmam que a atual megalópole bem poderia chamar-se “Cidade de Anchieta”. 


“Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura” 

O mestre de Piratiniga
Pela grandeza da obra do recém-canonizado santo, salta aos olhos o quanto é injusta e cruel a crítica que a nova missiologia indigenista — levada a cabo por sacerdotes progressistas alinhados à “Teologia da Libertação” — lança contra Anchieta devido à sua catequese dos índios. Sendo batizados e civilizados, estes só lucraram, tanto espiritual quanto materialmente, pois se viram livres de práticas pagãs, de contínuas batalhas entre tribos, e de muitos vícios, como a bebedeira, o infanticídio, a feitiçaria, o canibalismo etc.

Entretanto, os tais neomissionários pregam o retorno dos silvícolas aos seus antigos vícios, ao primitivismo tribal... Pregação bem oposta à gloriosa missão de Anchieta, que admiravelmente seguiu o divino mandado de Nosso Senhor: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado. Estes milagres acompanharão os que crerem: expulsarão os demônios em meu nome, falarão novas línguas” (Mc 16,15-17). 


“A pedra preciosa é o Padre Anchieta” 

O zelo apostólico de Anchieta, “Ad Majorem Dei Gloriam”
(fazer tudo para a maior glória de Deus — lema dos Jesuítas), não se restringiu ao planalto paulista. Seu ardor pela conquista das almas e estabelecimento da civilização cristã em nossas terras levou-o a percorrer enormes distâncias e boa parte do litoral brasileiro. Para esse infatigável apostolado junto aos silvícolas, Anchieta redigiu, em menos de dois anos, a Gramática da língua mais usada na costa do Brasil — “a melhor de todas as que se escreveram nos tempos coloniais e a que mais corresponde às exigências científicas modernas”, segundo o Pe. Hélio Abranches Viotti, S.J.(2)

Entre outras obras, Anchieta escreveu os Diálogos da Fé em língua tupi, que passou a ser usado em São Vicente desde 1557. Compôs diversos poemas, canções, sermões e peças teatrais para ensinamento dos índios; redigiu também algumas instruções catequéticas sobre o batismo, a assistência aos silvícolas em perigo de morte e o sacramento da confissão. 

Sinteticamente, para se ter uma certa noção do vulto grandioso desse gigante da fé, basta lembrar o que dele afirmou o segundo bispo do Brasil, Dom Pedro Leitão, o qual lhe havia conferido o sacramento da Ordem: “A Companhia de Jesus no Brasil é um anel de ouro e a pedra preciosa dele é o Padre Anchieta”.(3) 

Ou ainda o que escreveu o jesuíta Simão de Vasconcelos (1596-1671), um dos primeiros biógrafos de Anchieta: “Um José na castidade, um Abraão na obediência, um Moisés nos segredos do Céu, um Job na paciência, um Elias no zelo e um David na humildade. Um portento de maravilhas e um assombro do mundo”.(4) 


Cruzada brasileira contra os invasores do Rio de Janeiro 

O Pe. Nobrega abençoando Estácio de Sá
e suas tropas, que partiam para reconquistar
Guanabara e fundar a cidade do Rio de Janeiro.
Ajoelhado, o Pe. José de Anchieta.
 
Além do título de fundador de São Paulo, o Pe. Anchieta mereceu também, juntamente com o Pe. Manoel da Nóbrega, o de co-fundador do Rio de Janeiro. Vejamos.

Nicolas Durand de Villegaignon (1510-1571), e outros invasores franceses protestantes, chegaram à baía de Guanabara em 1555, construíram o Forte de Coligny na ilha de Seregipe (como a chamavam os Tamoios — hoje ilha de Villegaignon) e implantaram ali uma colônia que, muito jactanciosamente, denominaram “França Antártica”. Mas foram expulsos da ilha pela esquadra enviada pelo governador-geral Mem de Sá (1500-1572). Entretanto, os sectários de Lutero retiram-se para terra firme, instigaram os índios Tamoios contra os portugueses e retornaram mais tarde as antigas posições.

Os intrusos, amotinando os Tamoios, desejavam implantar a
Mem de Sá
heresia calvinista na Terra de Santa Cruz. Nóbrega e Anchieta logo perceberam a gravidade do perigo e insistiram junto à Corte de Lisboa para que enviasse novas forças. Ao mesmo tempo, multiplicaram os contatos com os chefes indígenas aliados e incentivaram a fabricação de armas e embarcações, somando esforços junto ao governador-geral, que — como registrou Anchieta em sua obra Feitos de Mem de Sá — “prepara uma esquadra para expulsá-los das terras mal havidas: equipa com armas luzentes muitas naus e as enche de escolhidos soldados”.(5) 


O grande missionário e taumaturgo tornou-se o esteio moral em
Chegada de Anchieta
no Rio de Janeiro
que se apoiavam as esperanças de todos. Foi Anchieta quem, durante o estratégico ano de 1565, soube manter inabalável o espírito combativo contra o herege invasor, sem o qual os intrusos não teriam saído do Rio de Janeiro, ameaçando, assim, dividir a nação brasileira. 


Vindo da Bahia em socorro de seu sobrinho Estácio de Sá, o governador-geral, Mem de Sá, derrotou definitivamente os invasores franceses em 20 de janeiro de 1567, dia de São Sebastião. A vitória, entretanto, custou a vida do jovem e bravo Estácio — que veio a falecer santamente um mês após a vitória, em consequência de uma flecha envenenada. 


Essa vitória contra os inimigos da fé católica foi marco da fundação de São Sebastião do Rio de Janeiro. Fundada pelo fidalgo Mem de Sá, mas para a qual Anchieta tanto havia colaborado, por exemplo, estimulando os indígenas à defesa da cidade, entre os quais se destacou o valente índio Ararigboia (da tribo dos termiminós), batizado com o nome de Martim Afonso. [Ao lado, estátua do índio Ararigboia diante da estação das barcas em Niterói].
A fundação da cidade do Rio de Janeiro - Palácio Pedro Ernesto

Essa heroica reação de portugueses e nativos contra os calvinistas franceses poderia ser designada como a primeira cruzada brasileira para a expulsão dos protestantes que pretenderam dominar o Rio de Janeiro e, a partir daí, apoderarem-se da nação. 
Poema à Virgem Maria - B. Calixto, 1901. Colégio São Luis, São Paulo

Cantor e poeta da Santíssima Virgem Maria 

A devoção do Pe. Anchieta a Nossa Senhora é dos traços que mais o distinguiam. Uma prova saliente disso se deu durante seu cativeiro entre os índios Tamoios, em Iperoig (Ubatuba), quando compôs o célebre Poema da Virgem (De Beata Virgine Matre Dei Maria), certamente a primeira grande obra literária em honra da Santíssima Virgem escrita em terras da América. Com seu bordão, o indômito missionário jesuíta escreveu sobre a areia da praia, em latim clássico, o poema de quase seis mil versos, no qual ele canta a história da Mãe de Deus desde sua Conceição Imaculada até sua gloriosa Coroação no Céu. Nesse fabuloso poema, além de sua robusta inteligência e cultura, o santo autor se revela um precursor dos dogmas da Imaculada Conceição e da Assunção. 


O cortejo fúnebre com o corpo
de Anchieta
Após 44 anos de contínuo labor apostólico, o agora canonizado Pe. José de Anchieta — que em vida já era considerado grande santo —, previu o dia de sua morte. Despediu-se na véspera de seus próximos, e no dia 9 de junho de 1597 entregou sua bela alma a Deus, aos 63 anos de idade, na aldeia do Reritiba, hoje cidade de Anchieta (ES). Entre os índios, foi geral a lamentação e tristeza pela morte daquele que lhes dedicara toda a sua existência. Hoje o Brasil inteiro venera esse fulgurante missionário que profeticamente, na acima citada obra, anunciara: “A nação que se ceva agora em carnes humanas, a terra em que sopra o Sul, conhecerá o Teu nome e ao mundo austral advirão os séculos de ouro, quando as gentes brasílicas observarem a Tua doutrina”(6) — a divina doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o Apóstolo do Brasil viveu e morreu heroicamente. 
Pátio do Colégio - Benedito Calixto

“Primeiro rebento de santidade de uma grande nação”

A seguir, algumas palavras do mesmo autor, publicadas em “O Século”, do Rio de Janeiro, em 4-9-1932:
“Se pudéssemos recorrer a uma comparação profana,
para dar a ideia da importância de Anchieta em nossa história, diríamos que ele foi para o Brasil o que Licurgo foi para Esparta e Rômulo para Roma. Isto é, um desses heróis fabulosos que se encontram nas origens de algumas grandes nacionalidades, a levantar os primeiros muros, edificar os primeiros edifícios e organizar as primeiras instituições.
Sua figura, de uma rutilante beleza moral, se ergue nas nascentes da nação brasileira, a construir seu primeiro hospital e seu primeiro grupo escolar, e a redigir, confiando-os às praias do oceano, os primeiros versos compostos em plagas brasileiras. 
“O fundador de São Paulo foi, portanto, simultaneamente, nosso primeiro mestre-escola, nosso primeiro fundador de obras pias e o patriarca de nossa literatura, o mais antigo vulto da literatura brasileira, como o chamava Silvio Romero.
“E sobre esta tríplice coroa fulgura ainda o diadema de uma virtude que fez reproduzirem-se em selvas brasileiras os milagres do Poverello de Assis, que, com sua simples presença, amansava feras e atraía os passarinhos, nas florestas densas da Úmbria.” 
Anchieta costumava rezar aos pés desta imagem de Na. Sra. da Conceição
Almejando ardentemente a elevação do Pe. Anchieta à honra dos altares, assim conclui Plinio Corrêa de Oliveira o referido artigo, naqueles idos de 1932:
“Seu processo de canonização está confiado ao juízo soberano da Santa Igreja. E todas as razões nos levam a crer que Deus ouvirá as orações que lhe forem dirigidas por intermédio de Anchieta, facilitando assim a causa de sua canonização, para erguer sobre seus altares um grande santo, primeiro rebento de santidade de uma grande nação.”  
Relíquia de São José de Anchieta
_______ 
Notas: 
1. Pe. Armando Cardoso, S.J., O Bem-aventurado Anchieta, Edições Loyola, São Paulo, 1991, p. 68. 
2. Cfr. Pe. Hélio Abranches Viotti, S.J., José de Anchieta, Tenenge, São Paulo, 1987, p. 24. 
3. Celso Viera, Anchieta, Pimenta e Mello & Cia, Rio de Janeiro, 1929, p. 175. 
4. Pe. Simão de Vasconcelos, A Vida do Venerável Pe. José de Anchieta, Lello & Irmãos, Editores, Porto, 1953, p. 90. 
5. Pe. Ioseph de Anchieta, De Gestis Mendi de Saa praesidis in Brasillia, Obras completas, 3ª ed., 1º vol. p. 195. 
6. Idem, ibidem, p. 229.