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20 de fevereiro de 2023

JACINTA E FRANCISCO, DUAS ESTRELAS DE PRIMEIRA GRANDEZA NO CÉU


 

✅  Paulo Roberto Campos

Hoje celebramos os santos videntes de Fátima, Jacinta e Francisco — os mais jovens santos não mártires já canonizados pela Santa Igreja. 

A pequena (grande aos olhos de Deus) Jacina faleceu em odor de santidade aos 10 anos e Francisco não tinha ainda completado 11 anos quando entregou sua bela alma a Deus. 

A Irmã Lúcia ao mencionar esses seus dois primos, como consta no excelente livro “Nossa Senhora da Fátima, Aparições, Culto, Milagres”, do Pe. Luiz Gonzaga Ayres da Fonseca, S.J., escreveu sobre a “mais íntima amiga da sua infância”, afirmando 
“Tenho esperança de que o Senhor, para glória da Santíssima Virgem, lhe concederá [à Jacinta, mas vale também para o Francisco] a auréola da santidade. Ela era criança só nos anos. No demais sabia já praticar a virtude e mostrar a Deus e à Santíssima Virgem o seu amor, pela prática do sacrifício... É admirável como ela compreendeu o espírito de oração e sacrifício, que a Santíssima Virgem nos recomendou... Por estes e outros [fatos] sem conta, conservo dela grande estima de santidade”.
Victor Hugo, numa frase lapidar disse que “só há uma fama verdadeiramente imortal: é a dos santos da Santa Igreja Católica”. Podemos dizer que Santa Jacinta e São Francisco de Fátima são as crianças com a maior fama em Portugal, talvez no mundo. Imortais no Céu, evidentemente, mas também na Terra!

Encerramos esse post com um comentário feito pelo Dr. Plinio Corrêa de Oliveira, no dia 13 de outubro de 1971: 

Francisco e Jacinta são os intercessores naturais para se obter de Nossa Senhora que venha logo o Reino de Maria. Que os meninos de Fátima comecem a nos transformar, dando-nos os dons que eles receberam, que eles velem especialmente sobre aqueles que têm a missão de pregar a Mensagem de Fátima”.

19 de fevereiro de 2020

Centenário do falecimento de Santa Jacinta de Fátima

No dia 20 de fevereiro comemoramos o primeiro centenário da ida para o Céu, com apenas 10 anos, de Jacinta, a mais jovem dos videntes das aparições de Nossa Senhora em Fátima no ano de 1917. 


➤  Plinio Maria Solimeo
Fonte: Revista Catolicismo, Nº 831, Março/2020

Tendo Catolicismo publicado em diversas ocasiões matérias sobre Fátima e os videntes, daremos aqui apenas alguns traços da santidade de Jacinta, de quem sua prima, a Irmã Lúcia, afirmou em tom profético: “Tenho esperança de que o Senhor, para glória da Santíssima Virgem, lhe concederá a auréola da santidade. Ela só era criança nos anos, no demais sabia já praticar a virtude e mostrar a Deus e à Santíssima Virgem o seu amor, pela prática do sacrifício [...]. É admirável como ela compreendeu o espírito de oração e sacrifício, que a Santíssima Virgem nos recomendou [...]. Por estes e outros [fatos] sem conta, conservo dela grande estima de santidade”.

A canonização de Francisco e Jacinta 

Francisco e Jacinta de Fátima se tornaram os mais novos santos não mártires da Igreja Triunfante. Qual foi, para a vida da Igreja, a importância dessa canonização? Respondemos com as palavras do Pe. Joaquin Maria Alonso, por ocasião da beatificação deles: “Fátima tem tido tais influências de santidade difundidas pelo mundo e pela Igreja, que seu caráter extraordinário não pode entrar nas leis ordinárias da sociologia em uso. Porque Fátima possui, como talvez nenhum outro carisma da Igreja, o que poderia chamar-se o carisma da atração religiosa. Desde o princípio, Fátima tem atraído os fiéis ao lugar de penitência e oração, sem outros apelos, motivos ou insinuações além dos que procedem de sua Mensagem austera de salvação [...]. Os frutos, na conversão dos corações, têm sido espetaculares. Por todas as partes os fiéis se sentem estranhamente comovidos e atraídos aos lugares por onde passa a imagem peregrina, a fazer oração e penitência, pela simples presença da imagem bendita. E este fenômeno não tem precedentes nem explicações sociológicas suficientes”. A canonização de dois dos três videntes da divina história de Fátima aumentou ainda mais esse interesse e fervor. 

Jacinta: piedade precoce 

Muito piedosa desde a mais tenra infância, Jacinta nasceu em 11 de março de 1910, há exatos 110 anos. Sua prima Lúcia, que sempre a conheceu, assim se exprime: “Ainda de cinco anos mais ou menos, ao ouvir narrar os sofrimentos do Nosso Divino Redentor, enternecia-se e chorava: ‘Coitadinho de Nosso Senhor. Eu não hei-de fazer nunca nenhum pecado, não quero que Jesus sofra mais’. Se as palavras feias eram pecado, e faziam sofrer o Menino Jesus, a Jacinta fugirá então delas e das companhias entre as quais há perigo de contrair hábito tão mau”. 

Crescendo ela um pouco mais, Lúcia registrou ainda: “A Jacinta tinha um porte sempre sério, modesto e amável, que parecia traduzir a presença de Deus em todos os seus atos, própria de pessoas já avançadas em idade e de grande virtude. Não lhe vi nunca aquela demasiada leviandade ou entusiasmo próprio das crianças pelos enfeites e brincadeiras (isto depois das aparições); não posso dizer que as outras crianças corressem para junto dela como faziam para junto de mim; e isto, talvez, porque ela não sabia tanta cantiga e historieta para lhes ensinar e as entreter, ou então porque a seriedade do seu porte era demasiado superior à sua idade”. 


O convite de Nossa Senhora à santidade 

Na primavera de 1916, a vida dos três — antes alegres e despreocupados pastorinhos de apenas nove, oito e seis anos de idade — iria sofrer brusca mudança: “Os corações de Jesus e Maria estão atentos à voz de vossas súplicas”, diz-lhes numa aparição o Anjo de Portugal, o Anjo da Paz. “Oferecei constantemente ao Altíssimo orações e sacrifícios. De tudo o que puderdes, oferecei um sacrifício ao Senhor em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido, e de súplica pela conversão dos pecadores [...]. Sobretudo aceitai e suportai com submissão o sofrimento que o Senhor vos enviar”. 

Este é um programa de santidade, só pedido aos verdadeiros íntimos de Deus. E os três hão de cumpri-lo à risca e com fervor, sem lamúrias, queixas nem pena de si mesmos, com verdadeira alegria e amorosa submissão. Inventavam até mesmo os mais variados meios de se sacrificar. Assim, aproximadamente um ano depois, estavam prontos para receber a visita da Rainha do Céu. E Ela veio. Não com agrados, não com mimos, mas com seriedade, repetindo logo no primeiro encontro o convite à oração e ao sofrimento, feito pelo Anjo. “Ides pois ter muito que sofrer. Mas a graça de Deus será o vosso conforto”. 

Oração e sofrimento em reparação ao Imaculado Coração de Maria e ao Sagrado Coração de Jesus, tão ofendidos pela terrível apostasia da Humanidade. A extensão desse pedido eles só a compreenderiam aos poucos, com o auxílio de uma graça especial. As três crianças levaram muito a sério o pedido da Mãe de Deus, de orarem e se sacrificarem para a conversão dos pecadores. 

Jacinta, por ser a menor e a mais sensível dos três pastorinhos, empenhou-se particularmente em atender ao pedido da Virgem. Como pôde ela, tão pequenina, assumir e compreender tão profundamente o espírito de mortificação e penitência? Lúcia responde: “Primeiro, por uma graça especial que Deus, por meio do Imaculado Coração de Maria, lhe quis conceder; segundo, vendo o inferno e a desgraça das almas que ali caem”. Comenta o já citado Pe. Alonso: “Diante de Jacinta, a própria Lúcia sentia o que de ordinário se sente junto a uma pessoa santa, que em tudo parece comunicar-se com Deus [...]. A vista do inferno a havia horrorizado a tal ponto, que todas as penitências e mortificações lhe pareciam nada, contanto que conseguisse livrar dali algumas almas”.

Fenômenos místicos, bilocação 

Não é de admirar que Jacinta fosse obsequiada por várias graças místicas. Teve visões proféticas, obteve curas e graças consideradas milagrosas, e conta-se dela também um fato de bilocação, em cujo relato seguimos o Pe. Ayres Ferreira:

 O filho de uma família aparentada com a dos os Martos fugiu de casa, sem que se soubesse seu paradeiro. A “tia Vitória”, como era conhecida a mãe desse do rapaz, pediu a Jacinta que rezasse por ele. Dias depois o jovem reapareceu e pediu perdão aos pais. Contou que, depois de ter gastado o que roubara, fora detido como vadio e metido na cadeia. Certa noite, durante um temporal, ele conseguiu evadir-se, mas se perdeu no meio de num pinheiral. Tomado de terror, caiu de joelhos e começou a rezar. Nesse momento Jacinta lhe apareceu, pegou-o pela mão e o deixou em uma estrada,fazendo sinal para que continuasse a percorrê-la. Ao amanhecer, encontrou-se num local que logo reconheceu, e assim foi ter à casa paterna. Interrogada sobre o fato, Jacinta respondeu que nem conhecia o tal pinheiral, e que só se limitara a rezar pelo infeliz. 

Jacinta e os Sagrados Corações de Jesus e Maria 

Certo dia Lúcia deu a Jacinta uma estampa do Sagrado Coração de Jesus, que julgava bastante bonita. Jacinta a pegou, olhou-a com atenção, e exclamou: “É tão feio!... Não se parece nada com Nosso Senhor, que é tão bonito. Mas quero; sempre é Ele”. E constantemente o trazia consigo; de noite e na doença, colocava-o debaixo do travesseiro; beijava-o frequentemente, e dizia: “Beijo o Coração, que é o de que mais gosto. Quem me dera [obter] também o Coração de Maria, para ter os dois juntos!”

Com efeito, a missão reparadora de Jacinta vai intimamente ligada ao Coração Imaculado de Maria. Quando Nossa Senhora mostrou o inferno aos três pastorinhos, disse-lhes: “Vistes o inferno, para onde vão as almas dos pobres pecadores; para salvá-las, Deus quer estabelecer no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração”. Jacinta foi uma missionária dessa devoção. 

Por isso, ao despedir-se de Lúcia antes de partir para Lisboa, e depois para o Céu, recomendou-lhe veementemente: “Tu permaneces aqui para dizer que Deus quer estabelecer no mundo a devoção ao Imaculado Coração de Maria. Quando tiveres que dizer isto, não te escondas”. E acrescentou: “Diz a todo o mundo que Deus nos concede as graças por meio do Coração Imaculado de Maria. Que se peça a Ela. O Coração de Jesus quer que, a Seu lado, se venere o Imaculado Coração de Maria. Que peçam a paz ao Imaculado Coração de Maria; Deus a entregou a Ela. Oh! Se eu pudesse meter no coração de todo mundo o fogo que tenho aqui dentro do peito, queimando-me e fazendo-me gostar tanto do Coração de Jesus e do Coração de Maria!” 

Pelo relatório oficial do Prior da freguesia de Leiria, acabado no mês de agosto de 1918 e entregue à Autoridade Eclesiástica em 28 de abril de 1919, sabemos que Nossa Senhora apareceu particularmente a Jacinta, pelo menos três vezes, no curto espaço de outubro de 1917 a agosto de 1918.


O impressionante calvário de Jacinta 

No dia 23 de dezembro de 1918, Francisco e Jacinta adoeceram gravemente, atacados pela terrível epidemia bronco-pneumônica [conhecida no Brasil como gripe espanhola] que tantas vítimas fazia então por toda a Europa. Pelo mesmo tempo caiu doente toda a família, exceto o pai que, assistido por pessoas caridosas, se tornou um desvelado enfermeiro.

Atingidos pela doença, os dois inocentes não perderam em nada seu fervor pelos sacrifícios, mas as ocasiões agora se multiplicavam, sem que as tivessem de procurar. Depois da piedosa morte de Francisco, começou o terrível calvário de Jacinta. Nossa Senhora perguntou a se queria ficar um pouco mais na Terra, para sofrer pela conversão dos pecadores. A generosa criança respondeu que sim. Com isso foi para dois hospitais em Lisboa, onde muito sofreu e acabou morrendo sozinha, afastada dos parentes. Mas Nossa Senhora não a deixou só. Aparecia-lhe frequentemente, instruindo-a, aconselhando-a, alertando-a sobre a situação do mundo e a iminência dos castigos.

A Madre Maria da Purificação Godinho, a quem Jacinta fazia suas confidências, anotou muitas das comunicações celestes e meditações da jovem pastorinha, as quais constam em vários livros e revelam o grau de maturidade espiritual a que chegara essa menina de menos de 10 anos.


Relíquias de Jacinta e Francisco
Jacinta já fora operada uma segunda vez em fevereiro de 1920. Devido a seu estado de fraqueza, só puderam utilizar clorofórmio e anestesia local. Chorou muito, ao ver que estava sendo tratada pelos médicos despida de suas roupas. Retiraram-lhe duas costelas, deixando um orifício tão grande que por ele se podia atravessar uma mão. Ela sofreu tudo caladinha, só gemendo às vezes: “Ai, minha Nossa Senhora!”. Mas, para consolar os que a viam sofrer, dizia: “Paciência! Todos temos que sofrer para chegar ao Céu”.

Comenta o Pe. Alonso: “O Senhor uniu Jacinta à sua Paixão dolorosa e às dores da Virgem do modo mais íntimo. E todas as graças de consolo que recebeu, das várias visitas de Nossa Senhora, não foram impedimento para que essa Paixão acerba tocasse os limites do martírio mais horrível. Diríamos que, para ser modelo de vítima reparadora, Jacinta teve que passar por todas as noites dos sentidos, e também do espírito, sofrendo aquela temível solidão que ela tanto temia”. 

Na Sexta-feira, 20 de fevereiro de 1920, Nossa Senhora veio buscar Jacinta. Apesar de não ter completado 10 anos, já estava plenamente madura para o Céu.
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[1] “Contribuição de memórias pessoais para a biografia da pequenina Jacinta”, Irmã Lúcia, apud Pe. Luís Gonzaga Ayres da Fonseca S.J., Editora Vozes Ltda., Petrópolis, quinta edição, 1954, Prólogo.
[2] Joaquin Maria Alonso, Doctrina y espiritualidad del mensaje de Fátima, Arias Montano Editores, S.L., Madrid, 1990, p. 333, 334.
[3] Pe. João De Marchi, I.M.C., Era uma Senhora mais brilhantes que o Sol..., Seminário das Missões de Nossa Senhora de Fátima, Cova da Iria, 4ª edição, 1954, p. 39.
[4] Id. p. 215.
[5] Pe. Alonso, pp. 133, 134.
[6] Apud Pe. Luís Gonzaga Ayres da Fonseca S.J., Editora Vozes Ltda., Petrópolis, 5ª edição, 1954, p. 141.
[7] Id. p. 145.
[8] Apud Pe. Alonso, 143.
[9] Cfr. Relatório oficial do Prior da freguesia de então, acabado no mês de agosto de 1918 e entregue à Autoridade Eclesiástica em 28 de abril de 1919, in Pe. Luís Gonzaga Ayres da Fonseca, op. cit.
[10] Op. cit., p. 144.

11 de maio de 2018

FÁTIMA — Algumas frases para reflexão

Aproximando-se a celebração do 101º aniversário da primeira aparição de Nossa Senhora aos três pastorinhos de Fátima, no dia 13 de maio de 1917, seguem algumas frases para refletirmos neste dia a respeito do tema do castigo providencial por Ela anunciado.

“Se os homens não se emendarem, Nossa Senhora enviará ao mundo um castigo como não se viu igual” 

(Santa Jacinta de Fátima) 

“O que podemos fazer para evitar o castigo anunciado em Fátima, na tênue medida em que ele é evitável? O que podemos fazer para obter a conversão dos homens, na fraca medida em que ela ainda possa ser obtida antes do castigo, dentro da economia comum da graça? O que podemos fazer para apressar a aurora bendita do Reino de Maria, e para nos ajudar a caminhar no meio das hecatombes que tão gravemente nos ameaçam? Nossa Senhora o indica: afervoramento na devoção a Ela, oração e penitência”

(Plinio Corrêa de Oliveira) 

“O Senhor castiga misericordiosamente os filhos que erram. Perseverai, pois, na sua disciplina. Se Deus vos poupa o castigo e a correção, temei que vos reserve para o suplício” 

(Bossuet) 

“Não haverá iniquidade que não tenha o seu castigo apropriado”

 (Tomás de Kempis) 

“O tempo que precede o castigo esperado é a pior parte desse castigo” 

(Sêneca)

12 de outubro de 2017

Há um século Nossa Senhora operou o “Milagre do Sol”

Foto original feita no momento do “Milagre do Sol”

Os céus de Portugal serviram de “púlpito” para a Providência Divina pregar ao mundo inteiro. O prêmio e o castigo! Promessas e advertências da Santa Mãe de Deus, por meio de portentosos sinais do Céu, para tocar os corações dos fiéis, mas também os corações endurecidos.


Paulo Roberto Campos

Não deixa de ser sintomático e simbólico que em Fátima, no dia 13 de outubro de 1917, Nossa Senhora tenha escolhido o “astro-rei” para realizar o “Milagre do Sol”.

Portentoso prodígio sobrenatural que Ela operou a fim de confirmar aos olhos de todos, até dos incrédulos, a grandeza e a veracidade de suas revelações, assim como a sinceridade dos três pequenos pastores de Fátima, Lúcia, Francisco e Jacinta.

Lúcia, ao descrever a Virgem Santíssima em suas Memórias, registrou de modo inspirado: “Era uma Senhora, vestida toda de branco, mais brilhante que o Sol, espargindo luz, mais clara e intensa que um copo de cristal, cheio d’água cristalina, atravessado pelos raios do sol mais ardente”.1

Há na Sagrada Escritura uma referência muito evocativa à Santa Mãe de Deus: “Quae est ista quae ascendit sicut aurora consurgens pulchra ut luna electa ut sol terribilis ut castrorum acies ordinata?” (Quem é esta que surge como a aurora, bela como a lua, brilhante como o sol, terrível como um exército em ordem de batalha? [Cant. 6,10]). A lua simboliza a sua misericórdia, enquanto o sol é o símbolo da justiça d’Aquela que é “terrível como um exército em ordem de batalha”. Veremos como no “Milagre do Sol” a justiça e a misericórdia se manifestaram em Nossa Senhora. 

“Em outubro farei um milagre para que todos acreditem”

Os três pastorezinhos de Fátima,
junto a um arco erguido pelo povo
para marcar o local das Aparições
O “Milagre do Sol”, ocorrido durante a sexta e última aparição da Virgem Fátima [vide quadro no final deste post], foi testemunhado por aproximadamente 60 mil pessoas na Cova da Iria — local onde hoje se encontra a célebre Capelinha das Aparições. O deslumbrante sinal do Céu não foi visto apenas pelos portugueses daquela região, mas também por pessoas provenientes de diversos pontos do país — pertencentes a todas as classes sociais, crentes e não crentes, e de todas as idades. A maioria chegou caminhando, muitos até descalços na lama, pois chovia constantemente; outros chegaram a cavalo, em charretes e automóveis, alguns até luxuosos. Nas vésperas do dia 13 de outubro, era tanta gente que se pôs em marcha rumo a Fátima, que alguns diretores de jornais portugueses, apesar de céticos, resolveram mandar correspondentes para noticiar o que de fato aconteceria.

    E aconteceu o grandioso milagre, que, além de ter sido assistido pela multidão presente na Cova da Iria, foi visto por incontáveis outros portugueses, pois a manifestação do fulgor solar alcançou um raio de mais de 30 quilômetros do local das aparições.

Fato que desmentiu irrefutavelmente tanto os ateus quanto a imprensa anticlerical da época, que, mesmo tomando conhecimento daquela extraordinária comprovação da existência de Deus, procuraram espalhar a ideia de que o “acidente” não passava de “sugestão coletiva” ou de algum “efeito hipnótico”, porquanto não havia sido registrado por nenhum observatório astronômico. Ora, justamente o fato de não ter sido registrado pelos astrônomos comprova o milagre, pois o que ocorrera não foi um mero fenômeno natural...

Naquele histórico dia, a Santa Mãe de Deus cumpriu o que havia prometido aos três pequenos pastores de Fátima na quinta aparição (13 de setembro de 1917), quando afirmara: “Em outubro farei um milagre para que todos acreditem”.2 

Incontáveis testemunhas fidedignas

Os portugueses que receberam a graça de presenciar o “Milagre do Sol” descreveram-no como algo apocalíptico. Muitos tiveram a impressão de que chegava o fim do mundo; rezavam o Ato de contrição ou o Credo; confessavam em voz alta pedindo perdão de seus pecados. Mesmo os ímpios que foram a Fátima apenas para desdenhar e fazer chacotas, “prostram-se por terra, entre soluços e orações patéticas”.3

O que os ateus quiseram qualificar como sendo um “fenômeno de sugestão coletiva” foi um verdadeiro e deslumbrante milagre presenciado por centenas de milhares de pessoas. Muitos testemunhos estão publicados em centenas de livros e periódicos. Como não é possível sequer sintetizá-los aqui, seguem apenas excertos de alguns depoimentos. Mesmo porque eles se repetem — uma comprovação a mais de sua veracidade, pois todos viram a mesma manifestação no sol.

Nesse sentido, iniciamos com um documento de grande valor, que constitui um dos primeiros reconhecimentos oficiais da Igreja às revelações feitas pela Santíssima Virgem aos pastorzinhos em Fátima. Ele foi redigido pela autoridade eclesiástica da região, o Bispo de Leiria, D. José Alves Correia da Silva [foto acima] u à página 11 de sua Carta Pastoral sobre o culto de Nossa Senhora de Fátima (1930):

“O fenômeno solar de 13 de outubro de 1917, descrito nos jornais da época, foi o mais maravilhoso e o que maior impressão causou aos que tiveram a felicidade de o presenciar.

“As três crianças fixaram com antecedência o dia e a hora em que se havia de dar. A notícia correu veloz por todo o Portugal e, apesar de o dia estar desabrido, chover copiosamente, juntaram-se milhares e milhares de pessoas que, à hora da última Aparição, presenciaram todas as manifestações do astro-rei, homenageando a Rainha do Céu e da Terra, mais brilhante que o sol no auge das suas luzes.”

“O sol bailou ao meio-dia em Fátima”

Na sua esplêndida obra Nossa Senhora de Fátima — Aparições, Culto, Milagres, o Pe. Luiz Gonzaga Ayres da Fonseca, professor no Pontifício Instituto Bíblico de Roma, após transcrever relatos de testemunhas, inclusive da “mídia” liberal e maçônica da época, consignou:

“Toda a imprensa periódica se ocupou largamente dos acontecimentos daquele dia, em particular do “Milagre do Sol”. Tiveram maior ressonância os artigos do ‘O Século’ (13 a 15 de outubro de 1917): ‘Em pleno sobrenatural: as Aparições de Fátima’ e ‘Coisas espantosas: como o sol bailou ao meio-dia em Fátima’, porque o autor, AVELINO DE ALMEIDA, principal redactor do jornal, apesar da sua ostentada incredulidade e sectarismo, prestou lealmente homenagem à verdade: o que depois lhe atraiu as iras do ‘Livre Pensamento’”.4

No livro, portador do inspirado título Era uma Senhora mais brilhante que o sol — um clássico para se conhecer bem a história de Fátima —, do Pe. João M. de Marchi, I.M.C. reproduz notícia do jornal “O Dia”, de 19 de outubro de 1917, do qual extraímos um trechinho sobre o momento da manifestação solar:
    
“[...] Tudo chorava, tudo rezava de chapéu na mão, na impressão grandiosa do Milagre esperado! Foram segundos, foram instantes que pareceram horas, tão vividos foram!”.5

       Também o Pe. De Marchi transcreve um belo relato do Dr. Almeida Garrett, então catedrático da célebre Universidade de Coimbra, redigido por solicitação do Cônego Doutor Manuel Nunes Formigão:

       “[...]       De repente ouve-se um clamor, como que um grito de angústia de todo aquele povo. O sol, conservando a celeridade da sua rotação, destaca-se do firmamento e sanguíneo avança sobre a terra ameaçando esmagar-nos com o peso de sua ígnea e ingente mó. São segundos de impressão terrífica”.6

“Meu filho, ainda duvidas da existência de Deus?”

Escreveu, no próprio dia 13 de outubro de 1917, o Pe. Manuel Pereira da Silva a seu colega da região da Guarda, o Cônego António Pereira de Almeida:

“[...] Numa carruagem de luxo, junto da qual se encontrava o Dr. Formigão, uma senhora de meia idade, elegantemente vestida, volta-se para um rapaz, tipo de estudante universitário, e pergunta-lhe, presa de indizível comoção: — ‘Meu filho, ainda duvidas da existência de Deus?’ — ‘Não, minha mãe’, — responde-lhe o jovem com os olhos marejados de lágrimas. ‘Não, agora é impossível!’”.7

“Caí de joelhos”. Parecia ter chegado o fim do mundo

Nossa Senhora de Fátima é outro imprescindível livro a respeito dos magnos acontecimentos na Cova da Iria, redigido pelo historiador e escritor norte-americano William Thomas Walsh, que viajou a Portugal com o objetivo de interrogar testemunhas oculares. Em seus interrogatórios, ele entrevistou pessoas que lhe disseram ter exclamado na ocasião do milagroso sinal celeste: “Ai Jesus, vamos todos morrer aqui”; “Nossa Senhora, salvai-nos!”; “Ó meu Deus, pesa-me de Vos ter ofendido”; “Ó meu Deus! Quão grande é o Vosso poder!”; “Milagre! Maravilha!”; “As crianças tinham razão!”. Muitas outras exclamações repercutiram por toda a região, de pessoas que rezaram o Confiteor imaginando que aquele seria seu último instante neste mundo. Todos desejavam beijar as mãos das três crianças, a quem chamavam de “santinhas”, ou pelo menos tocar nelas.

Após reproduzir depoimentos e entrevistas que colheu pessoalmente, narra Thomas Walsh: “Conversei com muitas, inclusive tio Marto e sua Olímpia [pais de Jacinta e Francisco], Maria Carreira, duas irmãs de Lúcia [Maria dos Anjos e Glória] e muitas outras pessoas da aldeia. Todos relataram-me a mesma história com evidente sinceridade. Ao mencionarem a queda do sol tinham na voz vestígios do terror que experimentaram. O Padre Manuel Pereira da Silva forneceu-me, substancialmente, os mesmos pormenores: ‘Ao ver o sol cair em ziguezague’, disse, ‘caí de joelhos. Pensei que o fim do mundo tivesse chegado’”.8 

O sol pareceu ameaçar cair sobre a terra

O renomado escritor norte-americano, além de colher depoimentos de pessoas que presenciaram in loco o “Milagre do Sol”, reproduz também declarações daquelas que testemunharam o prodígio estando bem distantes da Cova da Iria. Eis algumas: “O poeta Afonso Lopes Vieira pôde presenciar o fenômeno, em sua residência de S. Pedro de Moel, a uns quarenta quilômetros de Fátima. Padre Inácio Lourenço contou, mais tarde, como havia visto o fato de Alburita, a dezoito ou dezenove quilômetros de distância. Contava ele, por esse tempo, nove anos de idade. Ele e mais alguns alunos ouviram o povo gritando sobressaltado na rua, diante da escola. Em companhia da professora Dona Delfina Pereira Lopes, viram, com estupefação, a rotação e a queda do sol. [...] Repentinamente, pareceu que baixava, em ziguezague, ameaçando cair sobre a terra. Aterrado, corri a esconder-me no meio do povo. Todos choravam, aguardando, de um momento para outro, o fim do mundo’.

‘Junto de nós estava um incrédulo, sem religião, que tinha passado a manhã toda a caçoar dos simplórios que haviam feito a caminhada a Fátima para se pasmar diante de uma menina. Olhei para ele. Estava como paralisado, assombrado, olhos fitos no sol. Depois, vi-o tremer dos pés à cabeça, e, levantando as mãos para o céu, cair de joelhos gritando: ‘Nossa Senhora! Nossa Senhora!’”

Fátima: manifestação da justiça e da misericórdia

Algumas testemunhas que tiveram a dádiva de assistir ao milagre contaram que, depois do medo de serem castigadas pelo sol e de que seria o fim do mundo, uma vez encerrada aquela manifestação portentosa, viram-se de joelhos, mas sentindo uma indizível alegria por terem sobrevivido. Durante o fenômeno muitos choraram de medo; depois de alegria, e abraçavam seus próximos. O que podemos interpretar como símbolo de justiça e misericórdia, dos castigos e dos prêmios anunciados em Fátima. Castigo, por exemplo, quando Nossa Senhora revelou, na terceira aparição (13 de julho de 1917), que “várias nações serão aniquiladas”. Prêmio, quando profetizou “Por fim, o Meu Imaculado Coração triunfará”.

     O “Milagre do Sol” nos mostra um trailer da magnitude do anunciado castigo que cairá sobre o mundo, por ordem da justiça divina, uma vez que a humanidade não se converteu como pedira a Senhora de Fátima. Mas também manifestação da divina misericórdia, um trailer da alegria daqueles que se mantiverem fiéis a Ela, com a instauração na Terra do Reino de Maria.
       
Em nossos conturbados dias, prenhes de ameaças de todo tipo, até de bombas atômicas que como moderníssimas “espadas de Dâmocles” pairam sobre nossas cabeças, Fátima representa, além da justiça, a esperança e a solução para os graves problemas que afligem a humanidade. Na Aparição focalizada neste artigo, a de 13 de outubro de 1917, a Santa Mãe de Deus suplicou há exatos 100 anos: “Não ofendam mais a Deus Nosso Senhor, que já está muito ofendido”.

Com essas comoventes palavras, às quais nossos ouvidos não podem permanecer surdos, Nossa Senhora encerrou as maravilhosas e apocalípticas aparições em Fátima. Com elas encerramos também estas considerações, permitindo-nos apenas acrescentar: “Si vocem ejus hodie audieritis, nolite obdurare corda vestra” (Se hoje ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações [Ps 94,8]).

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Notas:
1.   Um caminho sob o olhar de Maria – Biografia da Irmã Lúcia Maria de Jesus e do Coração Imaculado, Carmelo de Coimbra, Edições Carmelo, Coimbra, 2013, p. 50.
2.   A respeito, assim como para se ter uma visão de conjunto dos acontecimentos de Fátima, recomendamos a matéria de capa desta revista em maio último.
3.   William Thomas Walsh, Nossa Senhora de Fátima, Melhoramentos, S. Paulo, 1947, p. 131.
4.   Pe. Luiz Gonzaga Ayres da Fonseca, S.J., Nossa Senhora de Fátima, Aparições, Culto, Milagres, Livraria Apostolado da Imprensa, Porto, 1947, 2ª edição, p. 125.
5.   Pe. João M. de Marchi, I.M.C., Era uma Senhora mais brilhante que o sol, Edição do Seminário das Missões de Nossa Senhora de Fátima, Cova da Iria, p. 168.
6.   Id., Ib. p. 169.
7.   Id., Ib. p. 171.
8.    William Thomas Walsh, Nossa Senhora de Fátima, Melhoramentos, S. Paulo, 1947, p. 134.
9.   Id., Ib. pp. 133-134.

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Sexta e última aparição: 13 de outubro de 1917*

Como das outras vezes, os videntes notaram o reflexo de uma luz e, em seguida, Nossa Senhora sobre a carrasqueira:

— LÚCIA: “Que é que Vossemecê me quer?”

— NOSSA SENHORA: “Quero dizer-te que façam aqui uma capela em minha honra, que sou a Senhora do Rosário, que continuem sempre a rezar o terço todos os dias. A guerra vai acabar e os militares voltarão em breve para suas casas".

— LÚCIA: “Eu tinha muitas coisas para Lhe pedir. Se curava uns doentes e se convertia uns pecadores...”

— NOSSA SENHORA: “Uns sim, outros não. É preciso que se emendem, que peçam perdão dos seus pecados”. E tomando um aspecto triste: “Não ofendam mais a Deus Nosso Senhor que já está muito ofendido”.

Em seguida, abrindo as mãos, Nossa Senhora fê-las refletir no sol, e enquanto se elevava, continuava o reflexo da sua própria luz a projetar-se no sol.

Lúcia, nesse momento, exclamou: “Olhem para o sol!”

Desaparecida Nossa Senhora na imensa distância do firmamento, desenrolaram-se, aos olhos dos videntes, três quadros, sucessivamente, simbolizando primeiro os mistérios gozosos do rosário, depois os dolorosos e por fim os gloriosos. [...]

Finalmente apareceu, numa visão gloriosa, Nossa Senhora do Carmo, coroada Rainha do Céu e da Terra, com o Menino Jesus ao colo.

Enquanto estas cenas se desenrolavam aos olhos dos videntes, a grande multidão de 50 a 70 mil espectadores assistia ao milagre do sol.

Chovera durante toda a aparição. Ao encerrar-se o colóquio de Lúcia com Nossa Senhora, no momento em que a Santíssima Virgem Se elevava e que Lúcia gritava “Olhem para o sol!”, as nuvens se entreabriram, deixando ver o sol como um imenso disco de prata. Brilhava com intensidade jamais vista, mas não cegava. Isto durou apenas um instante. A imensa bola começou a "bailar". Qual gigantesca roda de fogo, o sol girava rapidamente. Parou por certo tempo, para recomeçar, em seguida, a girar sobre si mesmo, vertiginosamente. Depois seus bordos tornaram-se escarlates e deslizou no céu, como um redemoinho, espargindo chamas vermelhas de fogo. Essa luz refletia-se no solo, nas árvores, nos arbustos, nas próprias faces das pessoas e nas roupas, tomando tonalidades brilhantes e diferentes cores. Animado três vezes de um movimento louco, o globo de fogo pareceu tremer, sacudir-se e precipitar-se em ziguezague sobre a multidão aterrorizada.

Durou tudo uns dez minutos. Finalmente o sol voltou em ziguezague para o ponto de onde se tinha precipitado, ficando novamente tranquilo e brilhante, com o mesmo fulgor de todos os dias.

O ciclo das aparições havia terminado.

Muitas pessoas notaram que suas roupas, ensopadas pela chuva, tinham secado subitamente.

O milagre do sol foi observado também por numerosas testemunhas situadas fora do local das aparições, até a 40 quilômetros de distância.

___________


(*) Antonio Augusto Borelli Machado, As aparições e a mensagem de Fátima conforme os manuscritos da Irmã Lúcia, Editora Vera Cruz Ltda., 46ª edição, São Paulo, 1997, p. 56-60. A obra desse fatimólogo de renome internacional — publicada em primeira mão por Catolicismo em maio de 1967 — tornou-se um best-seller, já ultrapassou os cinco milhões de exemplares em 20 línguas, em edições em 30 países.

9 de junho de 2017

SANTOS FRANCISCO E JACINTA DE FÁTIMA

Os pastorinhos, pequenos na idade e gigantes na santidade, são os mais jovens santos não mártires canonizados pela Igreja 


Paulo Roberto Campos

Coincidindo com a celebração do 100º aniversário da primeira aparição da Santíssima Virgem aos três pastorinhos de Fátima, dois deles — Jacinta (falecida em odor de santidade aos 10 anos incompletos) e Francisco (aos 11 anos, também incompletos) — foram canonizados pelo Papa Francisco no dia 13 de maio último. Eles são considerados as crianças não mártires da mais tenra idade elevadas à honra dos altares. Fato inédito em toda a História da Igreja!

A grande cerimônia de canonização transcorreu na Cova da Iria, no mesmo lugar onde Nossa Senhora apareceu em 1917. Neste centenário, aproximadamente 500 mil peregrinos acorreram àquele local sagrado [foto acima] para rezar, agradecer as graças recebidas, suplicar por novas graças, e também para assistir à canonização de Jacinta e Francisco, que, juntamente com Lúcia, foram os confidentes da Santa Mãe de Deus nas aparições ocorridas de maio a outubro daquele ano.1
Assim, nesse último dia 13 de maio realizou-se uma das grandes expectativas da Irmã Lúcia [foto ao lado], ao escrever sobre “a mais íntima amiga da sua infância”, daquela que “deve, em parte, ter conservado a inocência”. Ela afirmou: “Tenho esperança de que o Senhor, para glória da Santíssima Virgem, lhe concederá [à Jacinta, mas vale também para o Francisco] a auréola da santidade. Ela era criança só nos anos. No demais sabia já praticar a virtude e mostrar a Deus e à Santíssima Virgem o seu amor, pela prática do sacrifício... É admirável como ela compreendeu o espírito de oração e sacrifício, que a Santíssima Virgem nos recomendou... Por estes e outros [fatos] sem conta, conservo dela grande estima de santidade”.2
 
Os pequenos videntes de Fátima nos fundos da casa Marto, em Aljustrel, no dia 13-9-1917


Ainda pequeninos, elevaram-se aos cumes da santidade

Creio que se pode sem receio afirmar que Jacinta e Francisco são as crianças mais famosas do mundo. O que nos faz lembrar a frase lapidar de Victor Hugo, de que “só há uma fama verdadeiramente imortal: é a dos santos da Santa Igreja Católica”.
Como poderiam esses pequeninos praticar grandes virtudes a ponto de serem elevados à honra dos altares? Como se sabe, para que uma pessoa seja declarada santa, há um processo — no passado, ainda muito mais rigoroso do que o é hoje em dia —, no qual se estuda minuciosamente toda a sua vida, a fim de certificar-se, sem qualquer sombra de dúvida, de que ela praticou em grau heroico as virtudes teologais (Fé, Esperança e Caridade) e as virtudes cardeais (Prudência, Justiça, Temperança e Fortaleza).
No dia 13 de maio de 1999, após esse processo, ambos os videntes foram reconhecidos pela Santa Sé como tendo praticado heroicamente tais virtudes, permitindo a sua veneração privada como santos. Para que essa veneração se tornasse pública, faziam-se necessárias a beatificação e a comprovação científica de um milagre.
O Postulador das Causas de Beatificação de Jacinta e Francisco, Padre Luis Kondor, SVD [foto ao lado], garantiu: “Durante seis meses de estudo dos relatórios [do processo de beatificação de Francisco e Jacinta], dezoito peritos da matéria debruçaram-se sobre a vida dos dois pequeninos e, com grande admiração pelas suas virtudes, deram o seu voto positivo, por escrito, à Congregação para a Causa dos Santos [...]. Termino repetindo a profecia de São Pio X: ‘Haverá santos entre as crianças!’. Acrescentando: ‘Haverá sim, haverá em breve!’”.3


Francisco: contemplativo e eremita-orante        

        
Menos expansivo que sua irmã Jacinta, Francisco foi mais chamado à contemplação e a ser algo como um pequeno eremita-orante para desagravar e consolar Nosso Senhor Jesus Cristo. Para isso, com frequência, isolava-se pelos campos da Cova da Iria. Certa vez, imaginando como seria Deus, disse: “Mas que pena estar Ele tão triste! Se eu O pudesse consolar!”
         Conservando a grafia original, passemos à transcrição de alguns episódios extraídos do esplêndido livro sobre Fátima (abaixo citado) do Pe. Luiz Gonzaga Ayres da Fonseca, Professor no Pontifício Instituto Bíblico de Roma. São pequenos episódios, mas que revelam a grandeza da virtude que, ainda meninos, os confidentes da Senhora de Fátima praticavam.
Numa ocasião, enquanto Lúcia e Jacinta brincavam, correndo atrás de borboletas, Francisco se isolou para rezar. Depois as duas meninas foram chamá-lo:
         “— Francisco, não queres vir merendar?
         — Não! Comam vocês.
         — E a rezar o terço?
         — A rezar, depois, vou. Tornem-me a chamar.
         — Mas que estás a fazer tanto tempo?
         — Estou a pensar em Deus, que está tão triste por causa de tantos pecados... Se eu fosse capaz de lhe dar alegria! (E passou o dia em jejum e oração). [...]
         — Francisco, tu de que gostas mais? [Perguntou Lúcia].
         — Gostava mais de consolar a Nosso Senhor. Não reparaste como Nossa Senhora ainda no último mês se pôs tão triste, quando disse que não ofendessem a Deus Nosso Senhor, que está muito ofendido? Eu queria consolar a Nosso Senhor, e depois converter os pecadores, para que não o ofendam mais”.4
Numa ida à escola em Fátima, Francisco disse a Lúcia: “Olha, tu vais à escola, que eu fico aqui na Igreja, junto com Jesus escondido. Não me vale a pena aprender; daqui a pouco vou para o Céu. Quando voltares, vem por aqui a chamar-me”.5


A Divina Providência pede o sacrifício supremo

        
No dia 28 de dezembro de 1918, Francisco e Jacinta adoeceram gravemente, atacados pela terrível epidemia bronco-pneumônica, que tantas vítimas fazia então por toda a Europa.
         Jacinta disse a seu irmão: “Não te esqueças de oferecer pelos pecadores”. Ao que Francisco respondeu:
         “Sim; mas primeiro ofereço para consolar a Nosso Senhor e a Nossa Senhora e depois então é que ofereço pelos pecadores e pelo Santo Padre”.
Já nas vésperas de morrer, disse a Lúcia:
— “Olha, estou muito mal. Já me falta pouco para ir para o Céu.
— Então vê lá; não te esqueças de pedir lá muito pelos pecadores e pelo Santo Padre, por mim e pela Jacinta.
— Sim peço. Mas olha: essas coisas pede-as antes à Jacinta, que eu tenho medo de me esquecer, quando vir a Nosso Senhor; e depois antes o quero consolar”.6
         O processo canônico registra, segundo declaração do Pe. Manuel Marques Ferreira, que pouco antes do falecimento, Francisco recebeu a Sagrada Comunhão “com grande lucidez e piedade”.
         No dia 4 de abril de 1919, às 6 horas da manhã, ele disse à mãe: “Olhe, minha mãe, que luz tão bonita”. Instantes depois, o rosto de Francisco iluminou-se com um sorriso angélico, e ele, sem agonia, sem uma contração, sem um gemido, suavemente expirou em seu quarto.


Jacinta: inocência, firmeza de caráter e reparadora dos pecados

Pouco antes de ir para o hospital, Jacinta revelou a Lúcia:
“— A mim já me falta pouco para ir para o Céu. Tu ficas cá para dizeres que Deus quer estabelecer no mundo a devoção do Imaculado Coração de Maria. Quando fores para dizer isso, não te escondas! Dize a toda a gente que Deus nos concede as graças por meio do Coração Imaculado de Maria; que lhas peçam a Ela; que o Coração de Jesus quer que ao seu lado se venere o Coração Imaculado de Maria; que peçam a paz ao Coração Imaculado de Maria, que Deus lha entregou a Ela. [...] Se eu pudesse meter no coração de toda a gente o lume que tenho cá dentro do peito a queimar-me e a fazer-me gostar tanto do Coração de Jesus e do Coração de Maria! ... 7
         Por alguns ditos da pequena Jacinta podemos perceber a grandeza de sua alma, a magnificência de sua inocência, seu profundo amor a Deus. Ela confiou à sua prima Lúcia:
         “Penso em Nosso Senhor e em Nossa Senhora, ... nos pecadores e na guerra que há de vir... Há de morrer tanta gente e vai quase toda para o inferno! ... Hão de ser arrasadas muitas casas, e mortos muitos Padres... Que pena! Se deixassem de ofender a Nosso Senhor, a guerra não vinha, nem iam para o inferno! ... Olha: eu vou para o Céu, e tu quando vires de noite essa luz que a Senhora disse, foge para lá também”.
Como ocorre com pessoas que guardam a inocência, Jacinta gostava de meditar. E ela o confirmou: “Gosto muito de pensar”. Numa de suas meditações, a Virgem Santíssima apareceu-lhe, a fim de prepará-la para seu último Calvário. “Disse-me (Nossa Senhora) que vou para Lisboa, para outro hospital; que não te torno a ver nem a meus pais; que depois de sofrer muito, morro sozinha; mas que não tenha medo, porque me vai lá Ela buscar para o Céu”.8


Altíssimos pensamentos de uma criança inocente

Em seus últimos dias, Jacinta contou com o carinhoso acompanhamento da Madre Maria da Purificação Godinho — a quem chamava de “Madrinha”. Essa religiosa tomou notas de alguns ditos da pequena santa, cujos pensamentos eram superiores à sua idade de apenas 11 anos. Eis alguns deles:
         “Os pecados que levam mais almas para o inferno, são os pecados da carne”.
         “Hão de vir umas modas, que hão de ofender muito a Nosso Senhor. As pessoas que servem a Deus, não devem andar com a moda. A Igreja não tem modas. Nosso Senhor é sempre o mesmo”.
         “Os pecados do mundo são muito grandes. Nossa Senhora disse que no mundo há muitas guerras e discórdias. As guerras não são senão castigos pelos pecados do mundo”.
         “Se os homens soubessem o que é a eternidade, como haviam de fazer tudo para se emendarem!”.
         “Os médicos não têm luz para curar bem os doentes, porque não têm amor de Deus”.
         “Ai dos que perseguem a religião de Nosso Senhor! Se o Governo deixasse em paz a Igreja e desse liberdade à santa Religião, era abençoado por Deus. Minha Madrinha, peça muito pelos pecadores! Peça muito pelos Padres! Peça muito pelos Religiosos! Peça muito pelos Governos”.
         Sobre a frase que segue, a Madre Godinho afirmou que Jacinta refere-se a um “grande castigo de que em segredo me falou”:
         “É preciso fazer penitência. Se a gente se emendar, ainda Nosso Senhor valerá ao mundo; mas, se não se emendar, virá o castigo”.


“Mas quem foi que te ensinou tanta coisa?”

Certo dia, Jacinta disse à Madre Godinho [representação ao lado] “Eu ia com muito gosto para o convento; mas gosto mais ainda de ir para o Céu. Para ser religiosa é preciso ser muito pura na alma e no corpo”. Ao que a religiosa indagou-lhe: “E tu sabes o que é ser pura?”.
         “— Sei, sim. Ser pura no corpo é guardar castidade; e ser pura na alma é não fazer pecados: não olhar para o que não se deve ver, não roubar, não mentir nunca, dizer sempre a verdade ainda que nos custe”.
         A Madre, surpresa com o fato de uma simples criança dizer coisas tão sérias e profundas, perguntou:
         “— Mas quem foi que te ensinou tanta coisa?
         — Foi Nossa Senhora; mas algumas penso-as eu. Gosto muito de pensar”.9


Previsões próprias de quem alcançou elevada santidade

        
Pais de Jacinta e Francisco
Mas, além de pensamentos superiores à sua idade, Jacinta previu muitos acontecimentos. Eis algumas de suas previsões:
         Em certa ocasião, a mãe de Jacinta, Sra. Olímpia de Jesus, foi visitá-la no hospital e a Madre Godinho perguntou se não gostaria que as duas irmãs de Jacinta (Florinda e Teresa) se fizessem religiosas. Da. Olímpia [foto ao lado] respondeu: “Não! Deus a livrasse”.
Jacinta não ouvira a conversa; contudo, mais tarde, disse à Madrinha: “Nossa Senhora gostaria muito que minhas irmãs se fizessem freiras. Minha mãe não quer, mas por isso Nossa Senhora não tardará a levá-las para o Céu”. — De fato, as duas jovens morreram algum tempo depois.
Dois médicos que trataram de Jacinta com dedicação, receberam muitos sinais de agradecimento da pequenina. Um deles pediu-lhe que no Céu rogasse a Nossa Senhora por ele. Jacinta respondeu que sim, mas que o doutor pedisse também por ela. Depois, fitando-o, acrescentou: “Olhe que Vossemecê também vai, não tarda”.
A cena repetiu-se com outro médico, que se recomendava a si e a filha às orações da pequena enferma, que, fitando-o demoradamente, disse: “Vossemecê também vem; primeiro a sua filha, e depois o senhor doutor”.
De fato, ambas as profecias se realizaram.10
Noutra ocasião, Jacinta disse: “Olhe, Madrinha, eu já não me queixo [das terríveis dores]. Nossa Senhora apareceu-me, dizendo que em breve me viria buscar, e que me tirava já as dores”.
No dia 20 de fevereiro de 1920, pelas 6 horas da tarde, declarou que se sentia mal e pediu os últimos Sacramentos. Fez sua última confissão ao Pe. Pereira dos Reis. Às 10:30 da noite, a Mãe Santíssima cumpria a promessa feita 1917 e vinha buscá-la para o Céu: Jacinta expirava com suma paz. Tinha quase 10 anos.


Entusiasmo, graça e admiração ocasionados nos funerais

Escreve o Pe. Luiz Gonzaga Ayres da Fonseca: “O corpo, que tanto tinha penado ‘pela conversão dos pecadores’, foi amortalhado num vestido branco de primeira Comunhão, com cinto azul, como a Jacinta tinha desejado, e depositado nas dependências da sacristia da igreja dos Anjos, enquanto se tratava do transporte para a Fátima.
“Naqueles dias foi incrível o concurso de gente que o queria ver e beijar e tocar nele com seus objetos de devoção, apesar das diligências feitas pelo Revmº. Prior para o impedir. Muitos queriam levar relíquias, chegando umas estudantes a cortar-lhe parte do cabelo”.
Finalmente, foi incumbido de o guardar o Sr. Antonio Rebelo de Almeida, que escreve o seguinte em data de 11 de junho de 1934:
“Parece-me estar a ver o anjinho. Deitadinha no caixão, parecia viva, com os lábios e face cor-de-rosa, belíssima. Tenho visto muitos mortos, pequenos e grandes, mas uma coisa assim nunca me aconteceu. O cheiro agradável, que o corpo exalava, não se pode explicar naturalmente, diga-se o que se quiser. O maior incrédulo não poderia duvidar. Pense-se no cheiro que sai muitas vezes dos cadáveres, que só com grande repugnância se pode estar perto deles. Ora a pequena estava morta há três dias e meio e o seu cheiro era como de um ramalhete composto das mais variadas flores. O número dos visitantes, que desejavam ver a criança, era grandíssimo... Eu não deixava cortar relíquias; neste ponto fui irremovível. Quando a gente chegava diante do caixão, era um entusiasmo, uma admiração, uma loucura”.
O perfume foi perfeitamente sentido até o fechamento do caixão de chumbo. Coisa tanto mais notável visto o caráter da doença e o muito tempo que permaneceu insepulto. Registrou o Dr. Eurico Lisboa:
Transladação do corpo incorrupto
de Jacinta em 1935
“No dia 24 de fevereiro, às 11 da manhã, o caixão foi fechado, e à tarde, com grande acompanhamento, levado à estação do Rossio, a fim de ser trasladado para a Fátima. Para evitar possíveis profanações da parte dos anticlericais, ele foi provisoriamente depositado no sepulcro de família do Barão de Alvaiázere, em Vila Nova de Ourém. Desde aquele momento desapareceu daquela família a tuberculose, que já tinha vitimado quatro irmãos do Barão e ameaçava fazer mais vítimas. Mais ainda: a fortuna da casa, que estava perdida, pôde ser rapidamente recuperada em boa parte, de certo, como o Barão confessa, por especial proteção do seu ‘Anjo tutelar’.
“No dia 12 de setembro de 1935 fez-se a trasladação do corpo para o cemitério da Fátima [...]. Nesta ocasião, por um pequeno corte feito no caixão de zinco do lado correspondente à cabeça, pôde verificar-se que esta se conserva incorrupta [foto acima], e provavelmente no mesmo estado se encontra o corpo. Ter-lhe-á a Providência reservado o privilégio concedido aos restos mortais da santa vidente de Lourdes?
“No jazigo mandou o Sr. Bispo de Leiria gravar este epitáfio, tão expressivo na sua clássica singeleza:

AQUI REPOUSAM OS RESTOS MORTAIS
DE FRANCISCO E JACINTA
A QUEM NOSSA SENHORA APARECEU. 11




Portugal, palco do primeiro milagre inequívoco

         Para que alguém seja canonizado, há também necessidade da comprovação inequívoca de dois milagres operados por sua intercessão. O primeiro milagre possibilitou a beatificação de Jacinta e Francisco no ano de 2000. Assim, o processo de canonização seguiu seu curso. A Congregação para a Causa dos Santos reconheceu a cura miraculosa de uma senhora portuguesa, nascida em Leiria no ano de 1930, Da. Maria Emília dos Santos. Em 1989, pela intercessão de Jacinta e Francisco, ela se recuperou de uma grave deficiência física e voltou a andar, após permanecer paralítica durante 22 anos, sem conseguir sequer levantar-se da cama.
Da. Emília, após uma novena aos dois pastorinhos, de sua cama, indagou a Jacinta se seria curada e ouviu uma voz: “Senta-te, porque podes”. Começou então a sentir que o sangue começava a circular pelas veias das pernas. Sentiu-se curada e sentou-se na cama. No momento — altas horas da noite — houve um grande alvoroço em sua casa devido àquela cura repentina. Os médicos peritos do processo consideraram que o fato não apresentou explicação natural.


Brasil, palco do segundo extraordinário milagre

Por um especial desígnio da Providência Divina, o segundo milagre teve como palco o Brasil. Antes de narrá-lo, recordo de passagem outro desígnio providencial que também vincula o Brasil a Fátima: a imagem de Nossa Senhora que se venera na Cova da Iria, no mesmíssimo local em que Ela apareceu em 1917, foi esculpida em cedro brasileiro, assim como as outras quatro imagens peregrinas. Também de passagem, nunca é demais relembrar que Nossa Senhora falou em nossa língua...
        
E vamos ao segundo milagre. Por intercessão dos dois pastorinhos de Fátima, o menino Lucas de Oliveira [foto ao lado], da cidade paranaense de Juranda, foi salvo milagrosamente. Contando com apenas cinco anos — conforme documentam seus pais, João Batista Pereira de Oliveira e Lucila Yuri —, Lucas caiu de uma janela, de uma altura de quase sete metros, enquanto brincava com sua irmã no dia 3 de março de 2013. O menino “bateu com a cabeça no chão, o que provocou um traumatismo craniano grave, com perda de tecido cerebral no lóbulo frontal esquerdo”. Levado ao hospital de Campo Mourão, chegou “em estado de coma muito grave. Ele teve duas paradas cardíacas”.
Lucas foi submetido a uma cirurgia de emergência. Os médicos disseram que suas possiblidades de sobrevivência eram baixas e, se não morresse, ficaria em estado vegetativo. Muito devotos de Nossa Senhora de Fátima, os pais pediram a Ela, bem como a Francisco e Jacinta, que intercedessem pelo filho.
         Como os dias corriam e o menino piorava, o pai pediu a uma freira carmelita orações dela e do Carmelo de Campo Mourão. Após um contratempo inicial, uma das carmelitas foi rezar junto às relíquias de Francisco e Jacinta que estavam diante do tabernáculo. Ela lhes suplicou: “Pastores, salvai este menino, que é um menino como vós”. Depois, todas as freiras daquele Carmelo também rezaram para que os pastores intercedessem por Lucas.
Afirmou o Sr. João Batista: “Assim fizeram, da mesma forma como todos nós, na família, que começamos a rezar aos Pastorinhos. E, dois dias depois, no dia 9 de março, o Lucas foi desentubado e acordou bem, lúcido, e começou a falar, perguntando pela sua irmãzinha. No dia 11 de março saiu da UTI e, no dia 15, ele teve alta [...]. Está completamente bem, e não tem nenhum sintoma ou sequela [...] O que Lucas era antes do acidente, o é também agora: tem a mesma inteligência, o mesmo caráter, é todo o mesmo”. Os médicos comprovaram que não havia nenhuma explicação científica para tal recuperação.12
Ambos os milagres — as curas de Da. Emília e do Lucas — foram operados por orações dirigidas conjuntamente aos dois santos aljustrelenses videntes de Fátima, e não de modo separado a cada um deles. Fato de especial beleza, pois eles viveram muito unidos, eram inteiramente consagrados à Santíssima Virgem e fiéis aos pedidos feitos por Ela nas aparições.
 
Torre da Basílica de Fátima no dia da canonização (13-5-17) de São Francisco e Santa Jacinta Marto


No Céu, dois novos embaixadores junto a Nossa Senhora

Com a recente canonização, a Santa Igreja apresenta ao mundo inteiro dois grandes intercessores para nós. É momento muito apropriado para que todos os pais coloquem seus filhos sob a proteção de Francisco e Jacinta. Que os pais narrem a seus pequenos as admiráveis vidas desses novos santos, rezem o terço em família, suplicando a eles que protejam seus lares contra a desagregação da instituição familiar, atacada por tantos fatores de corrupção moral disseminados através da internet, da televisão, das modas imorais, da disseminação das drogas, das leis que favorecem o divórcio, o aborto, o pseudo-casamento homossexual, a ideologia de gênero. Enfim, de tantos outros erros da doutrina comunista espalhados por todo o universo.
Jacinta e Francisco são santos porque foram inteiramente fiéis às advertências e promessas feitas por Nossa Senhora em Fátima. O mundo atual está sendo fiel a Ela? — Muito pelo contrário, os homens não se converteram e têm desprezado aquelas advertências e promessas. Logo, é de se temer que esteja próximo o severo castigo anunciado há um século.
Os dois pequenos grandes santos de Fátima são modelos para nós, pois compreenderam a gravidade e a malícia do pecado, tiveram horror a qualquer forma de ofensa a Deus, entendendo, apesar de sua pouca idade, como a vida pecaminosa leva ao inferno. As vidas de Jacinta e Francisco são para nós um contínuo convite à conversão, a nos preparar para a justa punição divina. Esta será ao mesmo tempo misericordiosa — porque redentora do presente estado de abominação e de perdição das almas — e nos tornará sedentos da vinda o quanto antes, para todos os povos, do Reinado do Imaculado Coração de Maria previsto em 1917.
Neste sentido, encerro com palavras de Plinio Corrêa de Oliveira, numa conferência em 13 de outubro de 1971:
“Francisco e Jacinta são os intercessores naturais para se obter de Nossa Senhora que venha logo o Reino de Maria. [...] Que os meninos de Fátima comecem a nos transformar, dando-nos os dons que eles receberam, que eles velem especialmente sobre aqueles que têm a missão de pregar a Mensagem de Fátima”.

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Notas:
(*) Fonte: Matéria publicada na Revista Catolicismo, Nº 798, junho/2017.
1. Lúcia de Jesus, nascera em 22 de março de 1907, última de seis filhos de Antonio dos Santos e Maria Rosa dos Santos. Os dois primos dela, Francisco e Jacinta, nascidos o primeiro a 11 de junho de 1908 e a segunda a 11 de março de 1910, eram também os mais novinhos dos onze filhos que teve a Sra. Olímpia de Jesus: dois do primeiro matrimônio com José Fernandes Rosa, e nove do segundo com Manuel Pedro Marto. Quanta vez os últimos filhos de numerosa família cristã são para ela a melhor bênção! (Cfr. Pe. Luiz Gonzaga Ayres da Fonseca, S.J., Nossa Senhora da Fátima, Aparições, Culto, Milagres, Livraria Apostolado da Imprensa, Porto, 1947, 2ª edição, p. 144.
2. Pe. Luiz Gonzaga Ayres da Fonseca, p. 11.
3. Cfr. Pe. Luís Kondor, Vice-Postulador das Causas, Haverá santos entre as crianças... em breve, “L’Osservatore Romano”, edição em português, 6 de março de 1999.
4. Pe. Luiz Gonzaga Ayres da Fonseca, S.J., Nossa Senhora da Fátima, Aparições, Culto, Milagres, Livraria Apostolado da Imprensa, Porto, 1947, 2ª edição, p. 167-168.
5. Id., Ib. p. 181.
6. Id., Ib. p. 201.
7. Id., Ib. pp. 188-189.
8. Id., Ib. pp. 211-212.
9. Id., Ib. pp. 217-219.
10. Id., Ib. pp. 220-221.
11. Id., Ib. pp. 225-228.

12. http://www.carifilii.es/2017/05/11/los-medicos-decian-que-moriria-o-quedaria-vegetal-pero-poco-despues-corria-asi-fue-el-milagro-de-los-dos-pastorcitos/