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28 de abril de 2026

O Reino de Maria para que venha o Reino de Jesus Cristo



28 de abril é o dia fixado pela Santa Igreja para a festa litúrgica de São Luís Maria Grignion de Montfort, ardoroso missionário francês do século XVIII (o século de Luis XIV), doutor marial por excelência, nascido em 1673 e falecido no dia 28 de abril de 1716. 

Entre suas numerosas profecias, uma que atrai especialmente a atenção foi o anúncio de uma Cristandade restaurada em todo seu esplendor — o Reino de Maria, como também previsto em Fátima. 

Uma profecia feita há mais de 300 anos por  por São Luís Grignion e que está registrada no seu célebre Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem (1712): 

“Ah! quando virá este tempo feliz em que Maria será estabelecida Senhora e Soberana nos corações, para submetê-los plenamente ao império de seu grande e único Jesus? [...] Então, coisas maravilhosas acontecerão neste mundo [...]. Quando chegará esse tempo feliz, esse século de Maria, em que inúmeras almas escolhidas, perdendo-se no abismo de seu interior, se tornarão cópias vivas de Maria, para amar e glorificar Jesus Cristo? Esse tempo só chegará quando se conhecer e praticar a devoção que ensino, ‘Ut adveniat regnum tuum, adveniat regnum Mariae’”*. (Que venha o Reino de Maria, para que assim venha o vosso Reino - ou seja, o Reino de Jesus Cristo). [Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem, São Luís Maria Grignion de Montfort, Editora Vozes, Petrópolis, 1961, VI edição, tópico 217, pp. 210-211]. 



A seguir, para marcar este grande dia de São Luís Maria Grignion de Montfort, transcrevo um artigo de Plinio Corrêa de Oliveira, publicado no “Legionário” de 21 de outubro de 1945:


GRIGNION DE MONTFORT 

✅  Plinio Corrêa de Oliveira 

Como condição de vitória, sem se desprezar nem de leve as providências concretas, devemos contar essencialmente com os recursos sobrenaturais. A História demonstra que não há inimigos que vençam um país cristão que possua três devoções: ao Santíssimo Sacramento, a Nossa Senhora e ao Papa. Investigue-se bem a queda de nações aparentemente muito fervorosas em sua adesão à Igreja: alguma broca secreta as minava em uma dessas três virtudes-chave. 

A vitória, pois, depende de nós. Tenhamos em dia nossa consciência, estejamos tranquilos em Deus, e venceremos. 

*   *   * 

Isto explica o extraordinário relevo que damos a uma notícia apagada, que os jornais reproduziram há pouco: a canonização iminente do Bem-aventurado Luiz Maria Grignion de Montfort. 

A notícia nada significa para o comum das pessoas. Ela significa tudo, para os que conhecem o verdadeiro fundo das coisas. A Providência resolveu jogar sua bomba atômica contra os adversários da Igreja. Perto desta bomba, as convulsões de Hiroshima e Nagasaki não passam de inocentes tremedeiras. Há dois séculos que está pronta a bomba atômica do Catolicismo. Quando ela explodir de fato, compreender-se-á toda a plenitude de sentido da palavra da Escritura: "Non est qui se abscondat a calore ejus" [Não há quem possa subtrair-se a seu calor]. 

Esta bomba se chama com um nome muito doce. É que as bombas da Igreja são bombas de Mãe. Chama-se O Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem. Livrinho de pouco mais de 100 páginas. Nele, cada palavra, cada letra é um tesouro. Este o livro dos tempos novos que hão de vir. 

*   *   * 

Nosso artigo já está por demais longo, para que demos um resumo biográfico da extraordinária vida desse Bem-aventurado. Não sei de nenhuma, que seja mais empolgante e mais edificante. O que em nosso assunto é essencial, em poucas palavras se diz. 

O Beato Grignion de Montfort expõe em sua obra no que consiste a perfeita devoção dos fiéis a Nossa Senhora, a escravidão de amor dos verdadeiros católicos à Rainha do Céu. Ele nos mostra o papel fundamental da Mãe de Deus no Corpo Místico de Cristo e na vida espiritual de cada cristão. Ele nos ensina a viver nossa vida espiritual em consonância com essas verdades. E nos inicia em um processo tão sublime, tão doce, tão absolutamente maravilhoso e perfeito, de nos unirmos a Maria Santíssima, que nada há na literatura cristã de todos os séculos, que o exceda neste ponto. 

Esta devoção, diz Grignion de Montfort, unindo o mundo a Nossa Senhora, uni-lo-á a Deus. No dia em que os homens conhecerem, apreciarem, viverem essa devoção, nesse dia Nossa Senhora reinará em todos os corações, e a face da Terra será renovada. 

De que forma? Grignion de Montfort esclarece que seu livro suscitaria mil oposições, seria caluniado, escondido, negado; que sua doutrina seria difamada, ocultada, perseguida; que ela suscitaria automaticamente uma antipatia profunda nos que não têm o espírito da Igreja. Mas que um dia viria, em que os homens por fim compreenderiam sua obra. Nesse dia, escolhido por Deus, a restauração do Reino de Cristo estaria assegurada. 

Durante séculos, a canonização do Beato Grignion vem caminhando. Por fim, ela chegou a seu termo. É absolutamente impossível que esse fato não tenha um nexo profundo com a dilatação da Verdadeira Devoção no mundo. 

E, nós o repetimos, é essa Verdadeira Devoção a bomba atômica que, não para matar mas para ressuscitar, Deus pôs nas mãos da Igreja em previsão das amarguras deste século. 

Pois bem, nosso otimismo é este: confiamos imensamente mais na bomba atômica de Grignion de Montfort, e em seu poder, do que nós receamos da ação devastadora de todas as forças humanas.

27 de janeiro de 2026

Vibrante Marcha pela Vida em Paris Luta contra o Aborto e a Eutanásia


No domingo, 18 de janeiro de 2026, uma multidão entusiasmada e energizada de aproximadamente 10.000 pessoas compareceu à tradicional Marcha Francesa para a vida, em Paris. O evento, realizado na Place Vauban, diretamente em frente ao Hôtel des Invalides, foi um forte sinal para a França e o mundo de que, apesar das derrotas recentes, o movimento pró-vida pela primeira filha da Igreja não está apenas vivo, mas crescendo.

A marcha deste ano foi notável pelo grande número de jovens e pela presença católica muito visível. Grupos de estudantes do ensino médio e universitários vieram de toda a França cantando canções católicas, rezando o terço e entoando slogans pró-vida. O presidente da Marca para a Vida, Guilhaume de Théuilloy, lembrou aos participantes que "manifestações não são a única forma de lutar... A oração é verdadeiramente fundamental, assim como a vigília pela vida que ocorre na noite anterior [à marcha] na Igreja de Saint-Roch. A cultura da morte é o desencadeamento da obra do diabo, que luta ferozmente contra a humanidade." Monsenhor Dominique Rey, bispo emérito de Fréjus-Toulon e o único bispo presente, afirmou em seu discurso: "O respeito pela vida hoje é um chamado do Céu. Está no cerne da missão da Igreja."

Vibrante Marcha pela Vida em Paris Luta contra o Aborto e a Eutanásia

Diversas organizações pró-vida francesas participaram da marcha, incluindo Droit de Naître, SOS Tout-Petits, Les Éveilleurs e Renaissance Catholique. Pró-vida vieram de outros países europeus, assim como dos Estados Unidos. Tanto no conteúdo quanto no tom, a Marcha para a Vida se inspira muito na Marcha Americana pela Vida anual realizada em todos os meses de janeiro em Washington, D.C. Filiais francesas de organizações pró-vida nos EUA, como 40 Dias pela Vida e Rachel's Vinyard, estavam presentes. Assim como na marcha dos EUA, os pró-vida franceses expressam uma militância e confiança apesar dos retrocessos e batalhas perdidas. Em Paris deste ano, a Marca para a Vida prestou homenagem ao líder conservador americano Charlie Kirk, um ferrenho defensor dos não nascidos, que foi tragicamente assassinado em 10 de setembro de 2025.

A defesa dos não nascidos, idosos e doentes terminais na França não poderia ser mais urgente. Quando a Suprema Corte dos Estados Unidos em 2022 anulou a infame decisão Roe vs. Wade -- permitindo assim que estados isoladamente proibissem o aborto – os progressistas europeus ficaram chocados. O primeiro-ministro britânico Boris Johnson chamou isso de "um grande retrocesso", enquanto a primeira-ministra francesa Elisabeth Borne o chamou de "um dia sombrio para os direitos das mulheres." O presidente Emmanuel Macron prometeu tornar a França o primeiro país a consagrar a "liberdade garantida de acesso ao aborto" na constituição do país, e conseguiu isso em 4 de março de 2024 com maiorias esmagadoras tanto na Assembleia Nacional quanto no Senado francês.

O tema principal da marcha pela vida deste ano foi a luta contra o suicídio assistido.

Vibrante Marcha pela Vida em Paris Luta contra o Aborto e a Eutanásia

Cumprindo uma de suas promessas de campanha de 2017, em 27 de março de 2025, por 305 votos a 199, o governo do presidente Emmanuel Macron aprovou uma lei de eutanásia na Assembleia Nacional. Ainda está aguardando uma votação no Senado, mas se aprovada, a lei seria uma das mais permissivas do mundo sobre eutanásia, colocando a França na mesma categoria que Bélgica e Canadá.

Marie-Lys Pellissier, porta-voz da Marche pour la vie, disse ao Le Figaro: "Não queremos uma sociedade que mate, mas uma que proteja e apoie os mais vulneráveis em todas as fases de suas vidas, independentemente do seu nível de dependência e do custo de sua existência."

Embora o tema do suicídio assistido seja o mais urgente politicamente, a luta pelo aborto ainda não acabou. Por um lado, a taxa de abortos está subindo. Em 2023, 243.300 abortos foram realizados na França, o maior número desde 1990 e um dos maiores já registrados. Ao mesmo tempo, a taxa de natalidade está despencando. Em 2025, a taxa de natalidade na França caiu para 1,56 filhos por mulher, o nível mais baixo desde o fim da Primeira Guerra Mundial. Nesse mesmo ano, o menor número de nascimentos desde 1942 também registrou a primeira vez desde o fim da Segunda Guerra Mundial que o número de mortes (651.000) superou o número de nascimentos (645.000). A população da França, de 69,1 milhões, cresceu ligeiramente apenas devido à imigração. Até 2030, pessoas com 65 anos ou mais serão mais numerosas do que aquelas com menos de 20 anos.

Em janeiro de 2024, no mesmo ano em que aprovou a proteção constitucional do aborto, o presidente Macron reconheceu a crise demográfica na França e fez um discurso em que pediu um "rearmamento demográfico." Ele anunciou a criação de novos programas de assistência governamental para ajudar a aumentar a taxa de natalidade. Essas medidas hipócritas não farão nada para conter a maré do inevitável colapso demográfico graças a 51 anos de aborto legal.

Vibrante Marcha pela Vida em Paris Luta contra o Aborto e a Eutanásia

Progressistas europeus, de fato, estão profundamente preocupados com o fato de um movimento pró-vida crescente na Europa ameaçar o futuro do aborto legal. Em 2025, a Anistia Internacional publicou um estudo chamado Quando os direitos não são reais para todos: a luta pelo acesso ao aborto na Europa. O relatório, embora otimista quanto ao futuro, ainda assim revela um profundo receio de que o futuro dos direitos ao aborto esteja longe de ser certo. O relatório ataca a existência de "um movimento global anti-gênero bem financiado" que está forçando progressistas a defender "conquistas arduamente conquistadas contra a retrocesso prejudicial e retrógrado no acesso existente ao aborto."

Se os progressistas que promovem a cultura da morte estão preocupados, é porque são muito mais fracos do que parecem. Os movimentos de aborto e suicídio assistido dependem do falso "consenso" de apoio universal à sua causa. Como o exemplo americano demonstra, se até mesmo alguns europeus se levantarem e reagirem, podem quebrar esse consenso e forçar a cultura da morte do passo para trás, que não passa de um gigante com pés de argila.

12 de dezembro de 2025

FUNÇÃO DOS SÍMBOLOS PARA VENCER



A Batalha de Rocroi – François Joseph Heim (1834). Galeria de Batalhas, Palácio de Versalhes (França).



✅  Plinio Corrêa de Oliveira


N
este quadro da batalha de Rocroi — um dos principais combates da Guerra dos Trinta Anos travado em 19 de maio de 1643 —, vemos, de um lado, os franceses, e de outro os tércios espanhóis. Os soldados de ambos os lados estão firmes no campo de batalha e não há como abrir uma brecha no meio deles. 

Os franceses estão hesitantes, e nem toda fogosidade do Duque d’Enghien — então com apenas 21 anos, e mais tarde conhecido como o Grand Condé —, são suficientes para dar o arranco necessário para abrir essa brecha nas tropas dos tércios — então considerados invencíveis, eles estavam sob o comando do general Francisco de Melo, Conde de Assumar.

O Duque d’Enghien tem nas mãos o bastão de marechal da França [foto]. Era um símbolo muito sério! No mundo anterior à Revolução Francesa, sobretudo na Idade Média, o bastão era uma insígnia de mando frequente. E o bastão de marechal de França era forrado com veludo lilás sobre o qual se imprimiam, em ouro saliente, as flores de lis da Casa de França.

O Grand Condé comandava com esse bastão. Quando ele viu que não havia meio de abrir a brecha nos soldados tércios, ele lançou seu bastão no meio deles, dizendo ao exército francês: “Vamos pegá-lo!” 

Assim, seus soldados se lançaram e conseguiram abrir a brecha nas tropas adversárias.

Este quadro representa essa cena da batalha. O Grand Condé encontrou a solução para aquela situação difícil. 

Alguém talvez dissesse o seguinte: “Esse é um recurso que se usa até em brinquedos de criança; joga-se a bola no campo adversário e diz ‘vamos pegar a bola’. Portanto, trata-se de um método psicológico muito corrente e foi utilizado”. 

Mas no caso de Condé foi porque ele era um homem-símbolo e tinha na mão um bastão muito simbólico. E quem não for capaz de ir atrás do símbolo, não é capaz de vencer. Condé arriscou a vitória e lançou o bastão, talvez pensando: “Toda a minha glória militar está sendo arriscada neste gesto, mas a vaincre sans péril on triomphe sans gloire” (a vencer sem perigo, triunfa-se sem glória). 

Ele arriscou tudo na beleza do gesto, jogando o bastão de marechal de França, bradando, eventualmente com seu cavalo levantando as patas dianteiras de modo lindo.

Nessas horas, por uma disposição da Providência, até batem nas plumas do chapéu os ventos propícios para marcarem lindamente a história e o quadro ficar completo. No arriscado gesto de jogar seu bastão de mando, ele ganhou a batalha! 

____________ 
Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 15 de março de 1977. Esta transcrição não passou pela revisão do autor.

26 de junho de 2025

SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS, UM PARAÍSO



350 anos da histórica visão do adorável Sagrado Coração de Jesus a Santa Margarida Maria Alacoque, durante a qual revelou promessas extremamente valiosas a todos os católicos. 

✅  Paulo Roberto Campos 

Junho é por excelência o mês dedicado ao Sagrado Coração de Jesus. O deste ano o é ainda mais especialmente, pois se completam 350 anos da memorável visão sobrenatural, conhecida como a “Grande Aparição”, d’Ele a Santa Margarida Maria Alacoque (1647-1690), freira da Ordo Visitationis Beatissimae Mariae Virginis (no Brasil, mais conhecida como Ordem das Visitandinas), fundada por São Francisco de Sales e Santa Joana Francisca Frémyot de Chantal em 1610. 

No dia 16 de junho de 1675, estando Santa Margarida Maria em seu mosteiro de Paray-le-Monial (na região da Bourgogne, França), Jesus, apontando para o seu próprio Coração, apareceu-lhe e disse: 

“Eis aqui o Coração que tanto amou os homens, que não poupou nada até esgotar-se e consumir-se, para testemunhar-lhes seu amor; e, por reconhecimento, não recebe da maior parte deles senão ingratidões, por suas irreverências, sacrilégios e pelas indiferenças e desprezos que têm por mim no Sacramento do amor [a Sagrada Eucaristia]. Mas o que me é ainda mais penoso é que corações que me são consagrados agem assim. 
“Por isso, Eu te peço que a primeira sexta-feira depois da oitava do Santíssimo Sacramento seja dedicada a uma festa especial para honrar meu Coração, comungando-se neste dia e fazendo-lhe um ato de reparação, em satisfação das ofensas recebidas durante o tempo que estive exposto nos altares. Eu te prometo também que meu Coração se dilatará para distribuir com abundância as influências de seu divino amor sobre aqueles que lhe prestem culto e que procurem que este lhe seja prestado.”[1]

 

A Basílica e o Mosteiro do Sagrado Coração de Jesus em Paray-le-Monial.

Nosso Senhor prometeu a ela, “discípula”[2] de seu Coração Sagrado, que concederia a graça da penitência final, no último momento da vida, a todos aqueles que durante nove meses seguidos comungarem na primeira sexta-feira de cada mês. Ou seja, não morrerão em pecado mortal, recebendo a garantia da salvação eterna. Esta é a palavra dada por Ele como penhor de uma boa morte, conhecida como a “grande promessa”, que há três séculos e meio fez o Sagrado Coração de Jesus em Paray-le-Monial. É claro, nem precisaria dizer, mas nunca é demais recordar, que ninguém se salva automaticamente. Para se obter a salvação eterna há também a exigência de não se transgredir os 10 Mandamentos da Lei de Deus. Ou, tendo transgrido algum dos preceitos divinos, arrepender-se sinceramente dos pecados cometidos, fazendo uma boa confissão com o firme propósito de nunca mais voltar a cometê-los.

Santa Margarida Maria Alacoque


Celebração litúrgica do Sagrado Coração de Jesus

No mesmo ano da mencionada aparição de Nosso Senhor (1765) à santa freira Visitandina, o Papa Clemente XIII (pontificado de 1758 a 1769) aprovou a festa do Sagrado Coração de Jesus para algumas dioceses; depois foi estendida a toda a Igreja pelo Bem-aventurado Papa Pio IX (1846 - 1879) com o decreto da Congregação dos Ritos, de 23 de agosto de 1856. Em 11 de junho de 1899, Leão XIII consagrou todo o gênero humano ao Sacratíssimo Coração de Jesus. Pio XI, em 1928, definiu a festa do Sagrado Coração como a característica de nossos tempos.
A solene festividade litúrgica do Sagrado Coração de Jesus celebra-se sempre na sexta-feira que segue a Oitava de Corpus Christi (neste ano, no dia 27 de junho). Desse modo, a Igreja a estabeleceu como uma extensão da comemoração de Corpus Christi (celebrada neste ano em 19 de junho). No dia 28 do mesmo mês, celebramos o Imaculado Coração de Maria, comemorado no calendário católico tradicional no dia 22 de agosto.


 

O Sagrado Coração há de salvar o mundo

Atendendo ao pedido feito pela Irmã Maria do Divino Coração (1863-1899) — condessa de Drostezu Vischering, superiora da Congregação de Nossa Senhora da Caridade do Bom Pastor, que recebera revelações de Jesus —, o Papa Leão XIII (1878-1903) fez a solene Consagração do mundo ao Sagrado Coração de Jesus, acompanhado dos bispos de todo orbe, em 11 de junho de 1899, pouco depois da publicação da Encíclica Annum Sacrum (25 de maio de 1899). Ato de Consagração que o Papa classificou como sendo a maior obra de seu pontificado (vide no quadro da p. XX a fórmula da consagração escrita por Leão XIII).
No final da quinta parte do livro Em Defesa da Ação Católica (1943), de Plinio Corrêa de Oliveira, citando o Papa Pio XI, lemos:
“Nosso predecessor de feliz memória, Leão XIII, comprazia-se justamente, em sua Encíclica Annum Sacrum, com a admirável oportunidade do culto para com o Sagrado Coração de Jesus; por isto, não hesitava ele em dizer:
“‘Quando a Igreja, ainda próxima de suas origens, gemia sob o jugo dos Césares, uma cruz apareceu no céu a um jovem imperador [Constantino, 272 - 337]; ela era o presságio e a causa de um insigne e próximo triunfo. Hoje, um outro símbolo divino, presságio felicíssimo, aparece a nossos olhos: é o Coração Sacratíssimo de Jesus, encimado pela Cruz e resplandecendo com um brilho incomparável no meio das chamas. Devemos colocar nele todas as nossas esperanças; é a ele que devemos pedir a salvação dos homens, é dele que é preciso esperá-la’” (Encíclica Miserentissimus Redemptor, de 8 de maio de 1928).
E o Prof. Plinio comenta:
“Fala-se muito em ‘idade nova’ — ‘tempos novos’ — ‘ordem nova’. Queiram-no ou não o queiram nossos adversários, essa ‘idade nova’ será o reino do Sagrado Coração de Jesus, sob cuja suavíssima influência o mundo encontrará o único caminho de sua salvação. “Adoremos este Coração Sagrado, no qual a iconografia católica nos mostra a Cruz do sacrifício, da luta, do combate, da austeridade, assentando suas raízes no mais perfeito dos Corações, e iluminada pelas chamas purificadoras e deslumbrantes do amor.”[3]

Altar de Santa Margarita Maria Alacoque, com a urna com suas relíquias, na capela da Visitação de Paray-le-Monial 

 

“Sagrado Coração de Jesus e Maria”

Para melhor aquilatarmos a excelência dessa incomparável devoção ao adorável Coração de Jesus, recomendamos a leitura do artigo que segue. Nele, Plinio Corrêa de Oliveira expõe magistralmente a situação da sociedade decadente devido à crueldade, ao egoísmo e à dureza e frieza de coração do geral de nossos contemporâneos. E afirma que, para extirpar tais males, a salvação encontra-se na devoção ao Sagrado Coração de Jesus que arde de amor infinito pela humanidade, e que, apesar de nossas misérias, está sempre disposto a perdoar misericordiosamente, sobretudo se pedirmos a mediação do Imaculado Coração de Maria.
Concluímos afirmando com São João Eudes, fundador da Congregação de Jesus e Maria, que os Corações de Jesus e de Maria são um só, inseparáveis; de tal modo unidos pela fornalha ardente do Espírito Santo, que o santo fundador os invocava no singular: “Sagrado Coração de Jesus e Maria”.
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Notas: 1. Sainte Marguerite Marie, Sa vie écrite par elle-même, Edições Saint Paul, Paris, 1947, pp. 70-71. Imprimatur de M. P. Georgius Petit, Bispo de Verdun.
2. Essa confidente do Sagrado Coração de Jesus certa vez assinou com seu próprio sangue: “Irmã Margarida Maria, discípula do Divino Coração do Adorável Jesus”. A fim de melhor conhecer sua vida, vide Catolicismo, nº 498, junho/1992: https://catolicismo.com.br/Acervo/Num/0498/p01.html
3. Em Defesa da Ação Católica, Plinio Corrêa de Oliveira, 2ª edição, Artpress, São Paulo, 1983, pp. 335-336.

14 de junho de 2025

Há um século da beatificação de Santa Bernadette


✅  Paulo Roberto Campos

Neste dia 14 comemoramos a passagem dos 100 anos da beatificação da venerabilíssima vidente de Lourdes, Santa Bernadette Soubirous. Beatificada por Pio XI em 14 de junho 1925. Oito anos depois, pelo mesmo Papa, ela foi canonizada. 

Nascida em Lourdes, no Moulin de Boly, no dia 7 de janeiro de 1844, foi uma camponesa encantadora, puríssima, pobre, inteligente, discreta, de uma honestidade a toda prova. Falecida em 16 de abril de 1879 como freira no convento das “Irmãs da Caridade” da cidade de Nevers, onde alcançou o ápice da santidade. Tinha 35 anos, mas, apesar dos terríveis sofrimentos de corpo e de alma que padecera, continuava bela como na época de sua adolescência. 

Representação da aparição da Virgem Maria a Bernadette Soubirous (por Virgílio Tojetti, 1877)

Seu corpo foi exumado em 1908 e encontrado incorrupto. Milagre que pode ser interpretado como Deus selando o dogma da “Imaculada Conceição”, pois assim Nossa Senhora se apresentou. Numa de suas aparições à santa francesa, então com apenas 14 anos, esta perguntou quem era. “Eu sou a Imaculada Conceição” — foi a resposta! 

Após duas exumações, dois dias antes da beatificação (12 de Junho de 1925), foi feita uma terceira (e última) exumação do seu corpo a fim de se retirar algumas relíquias. E, como nas vezes anteriores, o corpo continuava incorrupto, muito preservado e sem o mínimo sinal de putrefação. Fato histórico e milagroso registrado no relatório do Dr. Comte:

“Eu queria abrir o lado esquerdo do tórax para retirar algumas costelas e então remover o coração, o qual eu tinha certeza que estaria intacto. Porém, como o tronco estava levemente apoiado no braço esquerdo, haveria dificuldade em ter acesso ao coração. Como a Madre Superiora expressou o desejo de que o coração de Santa Bernadette não fosse retirado, bem como também este era o desejo do Bispo, mudei de ideia de abrir o lado esquerdo do tórax, e apenas retirei duas costelas do lado direito, que estavam mais acessíveis. O que mais me impressionou durante esta exumação foi o perfeito estado de conservação do esqueleto, tecidos fibrosos, musculatura flexível e firme, ligamentos e pele após 46 anos de sua morte. Após tanto tempo, qualquer organismo morto tenderia a desintegrar-se, a se decompor e adquirir uma consistência calcária. Contudo, ao cortar, eu percebi uma consistência quase normal e macia. Naquele momento, eu fiz esta observação a todos os presentes de que eu não via aquilo como um fenômeno natural.” 
Na sepultura no convento de Nevers, corpo incorrupto de Santa Bernadette exposto à veneração pública 

De Santa Bernadette comentou o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira: 

“Nela vemos bem o espírito da verdadeira contra-revolucionária, católica e santa, que não se importa com as pompas deste mundo; que não dá importância a ser tida em grande ou pequena conta; e que, por causa disso, despreza as honras e louvores mundanos. Para se ter sobranceria, é preciso não ligar para o mundo". 

Neste centenário, peçamos a ela essa graça: sermos verdadeiramente contra-revolucionários, no sentido de não compactuarmos com a Revolução gnóstica e igualitária que se alastra em nossos dias destruindo aquelas virtudes sublimes que tanto caracterizaram Santa Bernadette de Lourdes!

16 de maio de 2025

Centenário da canonização de uma Doutora da Igreja que iluminou o pensamento contra-revolucionário

 

 Pintura da Basílica de São Pedro, no Vaticano, lotada para a cerimônia de canonização de Santa Teresinha. 

✅  Caio V. Xavier da Silveira

  Fonte: Revista Catolicismo, 893, maio/2025 

Este ano marca o centenário da canonização de Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face, uma das santas mais amadas da Igreja Católica. Em meio às comemorações, é oportuno refletir sobre o significado de sua espiritualidade e sua influência sobre a vida espiritual dos católicos no mundo inteiro. Um “furacão universal de glória”, segundo Pio XI, o Papa que a canonizou.

A fotografia retrata bem a verdadeira fisionomia de Sta. Teresinha


Essa reflexão torna-se ainda mais necessária depois que se difundiu, em certos ambientes religiosos, uma verdadeira caricatura de vida espiritual, resultante de um conceito sulpiciano1 e romântico da Santa de Lisieux e da sua Pequena Via, que deforma a profundidade de sua espiritualidade em uma visão excessivamente sentimental e ingênua da fé cristã.

Imagem deturpada de Sta. Teresinha 

Essa deturpação apresenta a santidade como algo acessível sem grandes desafios, sem a necessidade de verdadeira conversão ou renúncia, reduzindo a confiança radical em Deus e o abandono à Sua vontade a uma espécie de passividade doce e conformista. Em muitos ambientes eclesiásticos, essa versão adocicada se reflete em imagens de Santa Teresinha sempre sorridente, cercada de flores e nuvens cor-de-rosa, como se sua entrega a Deus fosse isenta de sofrimentos, hesitações ou batalhas espirituais.

Esse conceito simplificado ignora o heroísmo real da Pequena Via, que não é uma caminhada fácil ou sentimental, mas um abandono total na fé, mesmo em meio à noite escura da alma e às mais trágicas provações interiores. Santa Teresinha, em seus escritos, fala de sua profunda luta espiritual, de sua confiança em Deus apesar do vazio e da aridez, e de seu desejo de ser consumida pelo amor divino em um espírito de verdadeira humildade e sacrifício.

A caricatura sulpiciana, ao contrário, tende a esvaziar essa radicalidade, transformando a santidade em algo acessível sem esforço, confundindo a infância espiritual com infantilização da fé, e reduzindo o caminho da perfeição cristã a uma ternura superficial desprovida da cruz. Essa visão empobrece o chamado universal à santidade, pois desconsidera a seriedade da luta espiritual que Santa Teresinha viveu de maneira intensa até o fim de sua vida.

 

Sacrifício grande da pequena mortificação de todos os dias

Sta. Teresinha no claustro do convento

Por isso é conveniente estudar a verdadeira fisionomia espiritual de Santa Teresinha, como ela foi corretamente interpretada pelo grande pensador e mestre espiritual contra-revolucionário Plinio Corrêa de Oliveira, que via nela não apenas um modelo de virtude pessoal, mas um farol para a luta espiritual dos católicos na época moderna2.

Seu testemunho é tanto mais expressivo e valioso quanto ele não se sentia pessoalmente atraído por essa via dos pequenos sacrifícios:

“A mim me pareceria muito mais fácil a via de Santa Teresa a Grande, do que a de Santa Teresinha do Menino Jesus. Porque Santa Teresa a Grande tinha provações tremendas, mas também tinha deslumbramentos, visões, entusiasmos etc. Santa Teresinha, não: céu plúmbeo, igual, sem graça; estradinha estreitinha, banal, pequena. Tanta aridez que as ações mais comuns custavam a ela para fazer. Ela não fugia de nada, fazia tudo, enfrentava todas essas pequenas coisas o dia inteiro, fazendo o contrário do que ela queria fazer. A mim isso abafa muito mais do que as tremendas desolações da vida de Santa Teresa, mas acompanhadas daquelas lufadas de ar em que ela se via em presença da Santíssima Trindade, daquilo, daquilo outro. Cada um é feito de um jeito. Eu confesso que tenho menos medo dessas catástrofes trágicas seguidas de grandes sóis, do que dessa uniformidade plúmbea na pequena mortificação de todos os dias.”

Porém, Dr. Plinio compreendia bem que, para além da aparente oposição entre a via de Santa Teresa e a via de Santa Teresinha, há uma profunda sintonia de fundo nas suas espiritualidades respectivas:

“É o oposto no sentido de que a misericórdia é o oposto da justiça. Não é um contrário que se choca, mas são dois caminhos numa mesma linha que se reduzem numa síntese maravilhosa. E em que, exatamente, é inteiramente coerente e compreensível que na família espiritual da grande Santa Teresa apareça a Pequena Via de Santa Teresinha do Menino Jesus.”

Por que motivo a Providência suscitou duas vias espirituais tão diferentes, como a “grande via” de Santa Teresa ou de Santo Inácio de Loyola nos Exercícios Espirituais e a Pequena Via de Santa Teresinha? — É porque cada uma delas é adaptada ao feitio das almas da respectiva época e das almas com traços semelhantes nas épocas sucessivas:

“Quando Santa Teresa de Ávila morreu, o filósofo alemão luterano e racionalista Gottfried Leibnitz, numa carta a um amigo, disse: ‘Morreu um grande homem, a freira espanhola Teresa de Jesus’. Era a impressão que ela causava aos seus contemporâneos. Uma inteligência privilegiada, muito forte, de grandes rumos. Ao par disso, uma amplitude de personalidade extraordinária e sobre essa grandeza natural enorme um derramar de graças sobrenaturais mensuráveis pela amplitude dos fenômenos místicos com que ela foi favorecida. Era, em última análise, a grandeza da personalidade humana num de seus exemplares mais privilegiados na ordem da natureza, refulgindo com as grandezas da graça, e dando uma espécie de ideia plena do que seria o tipo perfeito da religiosa-matriarca, de maneira tal que a gente quase esquece das debilidades do sexo feminino, para ver nela uma espécie de querubim que tem todas as grandezas de um ser puramente espiritual. Santa Teresa de Jesus a Grande poderia ser considerada por excelência a santa do feitio de alma das gerações antigas, dotadas de todos os recursos psíquicos necessários.

“Pelo contrário, Santa Teresinha do Menino Jesus representa de algum modo a aurora da época das gerações mais recentes. Aquela família das almas pequenas que, por assim dizer, morrem de admiração pelas almas grandes, que não as invejam, que as compreendem, que as respeitam, que procuram segui-las, mas que, no plano natural, não têm aquela plenitude de personalidade das grandes almas do passado.

“Santa Teresinha, por exemplo, era muito amedrontável por natureza, tinha acessos de timidez e de inibição. Bem menina, quando a mãe a chamava ao pé da escada, ela descia aos poucos, esperando que a mãe lhe pedisse, de um modo risonho e acolhedor, para descer mais um degrau. Se a mãe a chamasse de um modo grave, severo, ela ficaria enregelada e não conseguiria descer. Então, ela dizia que esse era o modo pelo qual Deus a atraía; era a Pequena Via.

“Esta Pequena Via não poderia ter sido vivida com mais grandeza de alma, com mais largueza de horizonte, com mais plenitude de santidade do que Santa Teresinha do Menino Jesus viveu. Ela representa a mesma música grandiosa de Santa Teresa a Grande tocada num outro instrumento, em que tudo, em vez de ser grandeza, é mais delicadeza, mais suavidade. Mas, no fundo, uma grandeza, uma austeridade, uma generosidade e uma entrega a Deus tão grande que quando a gente acaba de ler a História de uma alma, a gente compreende bem que o colossal das coisas pequenas não fica abaixo do colossal das coisas grandes.”

 

Santa Teresa a Grande em êxtase

Santa Teresinha encarnava a essência do espírito contra-revolucionário

Dir-se-ia que Deus, prevendo o aparecimento de gerações sucessivamente mais frágeis — até a geração atual, que os sociólogos começam a chamar de “geração de cristal”, por causa de sua extrema fragilidade psicológica —, já foi preparando para elas uma via de santificação adaptada à sua personalidade e às circunstâncias adversas nas quais teriam que viver, por causa da destruição da família, do desaparecimento de balizas orientadoras para a existência, da erosão das relações sociais etc. fruto do avanço da Revolução anticristã. Nesse contexto psicológico e social, já emergente no início do século passado, Santa Teresinha propôs um caminho de santidade acessível a todos, que em vez das grandes mortificações valorizou os pequenos sacrifícios cotidianos, oferecendo-os a Deus com amor.

Para Plinio Corrêa de Oliveira, essa doutrina era especialmente relevante em um mundo marcado pela Revolução e pela desordem moral atual, enquanto antídoto contra o orgulho e a autossuficiência endeusados pela modernidade. Nesse aspecto, Santa Teresinha encarnava a essência do espírito contra-revolucionário: uma inocência admirativa de tudo aquilo que é superior e uma combatividade suave, mas inquebrantável.

Para Dr. Plinio, Santa Teresinha era “o protótipo da alma inocente”:

“Sente-se nela, desde pequena, admiração por tudo quanto é divino, por tudo quanto diz respeito a Deus, sumo respeito ao tratar com os superiores e com Deus, a par de suma intimidade com Deus, a ponto que mandava as noviças beijarem o crucifixo na face, algo que nunca tive a coragem de fazer. Ora, onde não entra admiração, veneração e respeito, não há verdadeiro amor. As almas incapazes de admirar são incapazes de amar.”

E, em outra oportunidade, explicou o porquê disso:

“A admiração é o elemento fundamental do amor. Admirar é considerarmos uma coisa cujo porte, cujo vulto, cuja qualidade é muito superior a nós. E nós, diante disso, termos dentro da alma um movimento que diz mais ou menos o seguinte: ‘Como tal coisa é excelente! Como ela é magnífica! Como ela é maravilhosa! Como ela é superior a mim!’”

 

 “Compreendi que, se todas as pequeninas flores quisessem ser rosas, a natureza perde ria o seu adorno primaveril, os campos não ficariam esmaltados de florzinhas”

Amor teresiano à desigualdade e à hierarquia na ordem do universo


Essa capacidade de admirar da inocência favoreceu o desabrochar em Santa Teresinha de um espírito profundamente contra-revolucionário, o qual transparece na passagem de seu primeiro manuscrito autobiográfico, onde ela conta que durante muito tempo se perguntou por que Deus tinha preferências, em vez de as almas receberem um igual grau de graças. Mas que, lendo o livro da natureza, ela compreendeu que o esplendor da rosa e a alvura do lírio nada tiram do perfume da pequena violeta. “Compreendi que, se todas as pequeninas flores quisessem ser rosas, a natureza perderia o seu adorno primaveril, os campos não ficariam esmaltados de florzinhas”. Dá-se a mesma coisa no mundo das almas, concluiu ela: Deus “quis os grandes Santos, que podem ser comparados aos lírios e às rosas; mas criou também outros menores, e estes devem contentar-se com serem margaridas ou violetas, destinadas a deleitar os olhares de Deus quando olha para o chão. A perfeição consiste em fazer a Sua vontade, em ser o que Ele quer que sejamos” (Manuscrito A, folha 2, verso).


Após destacar a beleza literária e o voo metafísico desse trecho, o autor de Revolução e Contra-Revolução comentou, para um grupo de jovens discípulos, seu caráter contra-revolucionário:

“Ela levanta o problema do igualitarismo na ordem espiritual, enquanto outros o levantam na ordem temporal, onde há a mesma desigualdade que Deus pôs na ordem espiritual: Ele criou, na ordem humana, uns com muitos talentos e outros com poucos. Um tem uma voz magnífica, outro foi criado com uma voz comum e até, em virtude do pecado original, um terceiro tem uma voz fanhosa. Essa variedade de talentos projeta naturalmente uma desigualdade de caráter social, porque é natural que aquele que é muito mais capaz tenha meios para ganhar mais dinheiro, para educar seus filhos melhor do que outro, de onde então decorre uma desigualdade no ponto de partida.

“Santa Teresinha vai procurar a solução em um campo mais poético e chega a esta conclusão: O mundo das flores, tomado no seu conjunto, seria muito menos bonito se Deus, por amor à igualdade, apenas tivesse feito rosas de uma beleza suprema, mas perfeitamente iguais. Poderia haver coisa mais monótona do que um jardim com um só tipo de flor e todas iguais umas às outras? A beleza da rosa só se nos torna compreensível porque há flores diferentes e porque há rosas desiguais umas das outras. É um modo de mostrar que as coisas pequenas têm também a sua função, e que, portanto, Deus é mais perfeito criando coisas grandes e pequenas, do que criando coisas iguais. E que a criação de todo igual estaria contra a sabedoria e a bondade d’Ele.”

Esse amor à desigualdade e à hierarquia — que é o cerne do espírito contra-revolucionário — levava Santa Teresinha a fazer aplicações práticas muito subtis, nas quais se percebe a finura de seu senso de observação. No relato de sua peregrinação a Roma, junto com a família e numerosos peregrinos da diocese de Bayeux, ela conta que gostou muito de Loreto, a cidade para a qual os anjos levaram a casa de Nazaré, porque “a paz, a alegria, a pobreza reinam ali como soberanas. Tudo é simples e primitivo”. E acrescenta: “As mulheres conservaram o gracioso traje italiano e não adotaram, como as de outras cidades, a moda de Paris” (Manuscrito A, folha 59 verso).

Comenta Dr. Plinio a esse propósito: “Ela faz sentir a adequação daquela paisagem às virtudes que a presença de uma tal relíquia como a Santa Casa deveria disseminar em torno de si. E faz um comentário de caráter essencialmente tradicionalista, mostrando como as mulheres do lugar fizeram bem em ter conservado os seus cândidos trajes de outrora, em vez de usarem a moda de Paris, que era a moda que a Revolução impunha a todos como processo para cosmopolizar o mundo e para acabar com todas as características regionais. Vocês podem calcular, através disso, quanto havia de contra-revolucionário na alma dela e quanto o espírito dela era sensível à observação das circunstâncias da vida temporal e ao princípio da correlação entre a vida temporal e a vida espiritual, de sorte que uma boa organização social favorece a prática da virtude e a santificação. A gente não pode deixar de sorrir pensando que ela mesma estava vestida do que ela chamava a moda de Paris que, naquele tempo, era uma moda decente, que respeitava o pudor, mas na qual ela via o mal muito grave do cosmopolitismo.”

 

Peregrinos chegando a Loreto para visitar a casa da Santíssima Virgem. Algumas das senhoras estão com seus trajes típicos (foto da época da viagem de Santa Teresinha)

“Santa Teresinha era a Joana d’Arc do século XIX”

Outro traço muito contra-revolucionário de sua alma era sua combatividade e espírito épico. Por trás da simplicidade estava uma alma profundamente heroica, que abraçava o sofrimento sem esmorecer. Para Santa Teresinha, a Pequena Via não era uma fuga da luta, mas uma forma sublime de travá-la.

Santa Teresinha no papel de Santa Joana d’Arc
 em uma obra de teatro no convento

Dr. Plinio comenta a esse propósito: “Ela era bem a mulher forte do Evangelho. Ela vivia da audácia como se fosse um guerreiro ou um pioneiro de todas as ousadias, mas inteiramente como mulher. Santa Teresinha era a Joana d’Arc do século XIX.”

A prova disso encontra-se nos seus escritos onde relata que ela sentia em si “a vocação de Guerreiro, de Sacerdote, de Apóstolo, de Doutor, de Mártir”, assim como sentia o desejo de realizar por Jesus todas as obras mais heroicas — “sinto na minha alma a coragem de um cruzado, de um zuavo pontifício, quereria morrer num campo de batalha pela defesa da Igreja” (Carta à Irmã Maria do Sagrado Coração, que forma parte do chamado Manuscrito B da História de uma alma).

Não menos expressiva é sua poesia “As minhas armas” — uma alegoria dos votos de pobreza, castidade e obediência, por ocasião da profissão religiosa de sua prima Soror Maria da Eucaristia —, que tem como epígrafe duas passagens bíblicas: “Revesti-vos da armadura de Deus, para que possais resistir às ciladas do demônio” (Ef6, 11) e “A Esposa do Rei é terrível como um exército em ordem de batalha, ela é semelhante a um coro de música em um acampamento militar” (adaptação do Cântico dos Cânticos, 6). A poesia termina com estes versos de fogo: “Se do Guerreiro eu tenho as armas poderosas, / se o imito e luto valentemente, / como a Virgem de graças encantadoras, / também quero cantar enquanto combato. [...] Sorrindo, enfrento a metralha, / e em teus braços, ó meu Esposo Divino, / cantando, morrerei no campo de batalha, / com as armas na mão!” (Poésies, p. 221).

E ainda há esta outra passagem onde afirma: “Oh! não, eu não temeria ir à guerra. Com que alegria, por exemplo, no tempo das cruzadas, teria partido para combater os hereges. Sim! Eu não temeria levar um tiro! E eu, que desejava morrer mártir, será possível que tenha de morrer numa cama?” (Derniers entretiens, p. 302).

 

Santa Joana d’Arc no cerco de Orleans
Jules Eugène Lenepveu, (1886-1890). O Panteão, Paris.

Vida espiritual concebida como uma guerra contra si mesma

 

Dr. Plinio comenta: “Os senhores vejam a fisionomia dela. Quem é que haveria de dizer que nessa fisionomia entrava o desejo de combater como cruzado? Que ela teria tido a alegria de se revestir de ferro, da cabeça aos pés, e tomar uma lança e investir a todo galope contra o adversário, contra os sarracenos, por exemplo? Uma pessoa, boa psicóloga, diria que sim; agora, a maior parte das pessoas diria que não. Mas a gente vê quanto ela gostaria de, em vez de morrer tuberculosa numa cama, morrer num campo de batalha epicamente, morrer matando os inimigos de Deus. Esta é a alma de uma santa.”

Essa atitude combativa diante da vida não era, porém, uma veleidade romântica de uma mocinha encerrada num claustro. Ela a adotava em relação a si mesma. Nos seus escritos, Santa Teresinha comenta que, ao contrário do bem-aventurado Henrique Suso, que foi armado cavalheiro por um anjo após grandes penitências corporais que abalaram sua saúde, “o bom Deus não quis saber de mim como simples soldado, eu fui imediatamente armada cavaleiro e parti em guerra contra mim mesma, no campo espiritual, pela abnegação, pelos pequenos sacrifícios escondidos; eu encontrei a paz e a humildade nesse combate obscuro, onde a natureza não tem nenhuma ingerência” (Dernières paroles, pp. 237 e 239).

Comenta Plinio Corrêa de Oliveira: “A doutrina da Pequena Via está enunciada aí. Não as mortificações físicas terríveis, não os atos extraordinários que poucos praticam, mas uma via interior toda de sacrifícios. Pois ela nada tem de comum com a moleza. Santa Teresinha nos ensina aí que nós devemos conceber a vida espiritual como uma guerra contra nós mesmos; uma guerra conduzida sob o olhar amoroso de Deus, fazendo sempre o que há de mais perfeito — é isso o que ela entende como abnegação —, pelos pequenos sacrifícios, pelas obras escondidas que ninguém vê. A gente vencer os próprios defeitos espirituais é muito mais duro do que praticar a penitência corporal.”

E acrescenta: “Muita gente interpreta a Pequena Via como sendo uma perpétua inércia, um perpétuo descer de um raio de luz sobre a gente, que nos ilumina e depois nós não temos mais nada que fazer. Isto é completamente errado. A pequena via supõe a atitude militante de nossa alma contra os nossos defeitos, contra as tentações que nós sofremos, e isso ainda que se trate de uma santa.”

 


“Chuva de rosas”: prenúncio de uma nova etapa da humanidade

Por esses traços marcantes de sua espiritualidade, Santa Teresinha pode ser considerada como uma santa para a era do Reino de Maria. Há um grande paralelo entre a pequena via e a escravidão a Nossa Senhora ensinada por São Luís Maria Grignion de Montfort, pois ambos os caminhos levam à mesma realidade: a entrega total a Deus por meio da humildade e do amor filial.

A contínua peregrinação das relíquias de
Santa Teresinha é causa de inúmeras graças,
que confirmam sua promessa de que
após sua morte faria cair
sobre o mundo uma chuva de rosas.

Nesse sentido, em suas reflexões, Dr. Plinio enxergava em Santa Teresinha uma santa profética, que anunciava um novo tempo para a Igreja, em que o mundo será restaurado segundo os desígnios divinos. A santa carmelita de Lisieux, com sua confiança absoluta na Providência e seu amor à Virgem Santíssima, prefigurava essa nova ordem espiritual. A sua “chuva de rosas” pode ser interpretada como um prenúncio de uma nova etapa da humanidade, onde o amor de Deus e a santidade serão, por obra da graça e a rogos de Maria, de maior quilate que nas eras anteriores. Os Apóstolos dos Últimos Tempos — que segundo São Luís Grignion serão, em relação aos santos do passado, como carvalhos ao lado de ervinhas — alcançarão esse grau altíssimo de virtude por serem, em grande parte, almas da Pequena Via, chegando ao extremo da dedicação através do amor e dos pequenos sacrifícios, com base no lema de Santa Teresinha: ‘Para o amor nada é impossível’.”

Essa dimensão profética de sua via espiritual transparece sobretudo no seu oferecimento como vítima do amor misericordioso. O seu fundamento encontra-se numa das passagens mais conhecidas da História de minha alma, no manuscrito B, redigido a pedido de sua irmã Maria, justamente após ela exprimir seu desejo de ser missionária, cruzado, mártir:

“A caridade deu-me a chave de minha vocação. Compreendi que, se a Igreja tinha um corpo composto de diferentes membros, não lhe faltava o mais necessário, o mais nobre de todos. Compreendi que a Igreja tinha um coração e que esse coração era ardente de amor. Compreendi que só o amor fazia agir os membros da Igreja, e que se o amor viesse a se extinguir, os apóstolos não anunciariam mais o Evangelho, os mártires recusariam derramar o sangue. Compreendi que o amor encerra todas as vocações, que o amor é tudo, abraça todos os tempos e todos os lugares. Numa palavra, ele é eterno. No excesso de minha alegria delirante, exclamei então: Ó Jesus, meu amor, encontrei enfim minha vocação. Minha vocação é o amor. Sim, encontrei [meu] lugar na Igreja. E esse lugar, ó meu Deus, fostes Vós que me destes. No coração da Igreja, minha mãe, eu serei o amor! Assim serei tudo, assim será realizado o meu sonho.”

Comenta Dr. Plinio: “Ela entendeu que, trabalhando, rezando, agindo para que aumentasse o grau de caridade na Igreja Católica, seria como que uma prodigiosa nascente de vida dentro da Igreja: os profetas seriam fiéis, os doutores seriam lúcidos, os apóstolos seriam infatigáveis, os guerreiros seriam indomáveis, e na Igreja tudo começaria a se mover com renovada intensidade. E, então, ela entendeu que deveria morrer vítima de amor. Vítima pelo amor misericordioso, para que os outros também amassem, de maneira tal que, por essa retonificação do amor dentro da Igreja, todas as vocações se realizassem.

“O holocausto ao amor misericordioso que Santa Teresinha fez tem muita relação com as graças de conversão de que fala São Luís Grignion de Montfort na sua Oração Abrasada. Porque ela mesma anunciou que ia espalhar pelo mundo uma chuva de rosas e vê-se que ela intuía que, em razão do holocausto que ela ia oferecer, haveria uma nova postura do espírito humano em relação ao amor de Deus. Na história do amor dos homens a Deus haveria uma modificação, haveria um capítulo novo que seria aberto pelo sacrifício dela, o qual abriria a Pequena Via e por esta forma mudaria a atitude tíbia da humanidade em relação a Deus.”

 

Santa Teresinha morta (1897)

“Santa Teresinha foi uma precursora do Reino de Maria”

No fim de sua curta vida, Santa Teresinha tinha muito claro qual seria seu papel futuro: “Eu sinto que vou entrar no descanso... Mas, acima de tudo, sinto que vai começar a minha missão, a minha missão de fazer com que o bom Deus seja amado como eu O amo, de dar às almas a minha pequena via. Quero passar meu céu fazendo bem na terra até o fim do mundo” (Dernières paroles, pp. 166-167).

“A marcha progressiva do amor misericordioso no mundo”, comentou Dr. Plinio, “é uma marcha que deverá ser feita a partir do caminho aberto por ela. A Pequena Via acaba sendo a via pela qual as almas pequenas de uma humanidade decadente serão colhidas pela misericórdia e levadas à santidade. Santa Teresinha foi uma precursora do Reino de Maria, porque exatamente o reino das pequenas almas é o Reino de Maria”.

A Basílica de São Pedro com sua fachada toda decorada e iluminada na noite da canonização de Santa Teresinha


Todos os comentários acima adquirem ainda maior relevo quando se toma em consideração que em 1997 Santa Teresinha do Menino Jesus foi proclamada Doutora da Igreja pelo Papa João Paulo II, o que representa o máximo reconhecimento da profundidade espiritual e teológica de sua Pequena Via. Embora tenha vivido uma vida breve e sem nenhuma produção acadêmica, sua doutrina sobre o amor, a humildade e a confiança total em Deus terá uma influência profunda na espiritualidade católica até o fim dos tempos. De outro lado, sua elevação a Doutora confirma que a santidade e a sabedoria não estão necessariamente vinculadas a grandes tratados teológicos, mas podem manifestar-se na simplicidade de uma vida entregue inteiramente ao amor divino.

No centenário de sua canonização, peçamos a Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face que, no meio das trevas contemporâneas, continue a iluminar os caminhos da Igreja e dos fiéis, para que sua Pequena Via, longe de ser considerada um chamado à passividade, seja verdadeiramente a estrada de uma batalha espiritual que exige coragem, confiança e entrega. Assim, sua mensagem será a resposta providencial para os desafios do mundo moderno.

Que neste jubileu de sua canonização possamos renovar nossa devoção a ela e seguir seus passos com o mesmo ardor e esperança que animaram Plinio Corrêa de Oliveira.

Santa Teresinha do Menino Jesus, rogai por nós!

Santuário construído para Sta. Teresinha em Lisieux
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Notas:

1.       Espiritualidade e estilo artístico associados ao Seminário de São Sulpício e às lojas de artigos religiosos que funcionavam em seu entorno, em Paris, caracterizados por um tom devocional sentimental, com ênfase na ternura e na afabilidade da vida cristã.

2.       Todos os textos citados neste artigo são extraídos da apostila “Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face”, compilada pelo Sr. Enrique Loaiza a partir de artigos de Plinio Corrêa de Oliveira nos jornais O Legionário e Catolicismo, assim como de palestras aos seus discípulos. Eles foram ligeiramente adaptados para a linguagem escrita.