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13 de setembro de 2026

EXALTAÇÃO DA SANTA CRUZ — O sinal de infâmia que se tornou símbolo da Redenção

 


✅  Paulo Roberto Campos

Celebrada pela Igreja neste dia 14 de setembro, a festa da Exaltação da Santa Cruz recorda um dos maiores paradoxos da História: o instrumento de suplício reservado aos criminosos tornou-se, depois do Calvário, o sinal por excelência da vitória. A suprema Vitória de Nosso Senhor Jesus Cristo e da Redenção.

Poucas transformações de significado na História foram tão profundas quanto a da Cruz.

No mundo romano, ela era instrumento de suplício e sinal de extrema infâmia. A crucifixão destinava-se sobretudo a escravos, rebeldes e criminosos. Depois da morte de Jesus Cristo no Calvário, porém, aquele madeiro destinado à vergonha tornou-se o mais universal, magno e reconhecível símbolo do cristianismo.

É esse extraordinário triunfo que a Igreja celebra em 14 de setembro, festa da Exaltação da Santa Cruz.

De instrumento de suplício a sinal de vitória

Fólio "Exaltação da Santa Cruz"
no Les très riches heures
du duc de Berry
(Musée Condé, Chantilly).
A origem histórica da celebração remonta ao século IV. Segundo antiga tradição, Santa Helena, mãe do imperador Constantino, encontrou em Jerusalém a verdadeira Cruz de Cristo durante as escavações realizadas nos lugares da Paixão.

Constantino mandou então erguer no local um grandioso complexo de basílicas destinado a perpetuar a memória da morte e da Ressurreição de Nosso Senhor. Os santuários foram solenemente dedicados em setembro do ano 335, e no dia 14 a relíquia da Santa Cruz foi apresentada à veneração dos fiéis.

A data permaneceria para sempre ligada à glorificação do instrumento da Paixão. A Cruz deixava de ser apenas recordação do sofrimento. Tornava-se um troféu de vitória.

Jesus havia anunciado esse paradoxo: “Quando eu for levantado da terra, atrairei todos a mim” (Jo 12,32). E, referindo-se à serpente de bronze erguida por Moisés no deserto, declarou: “Assim também tem de ser levantado o Filho do Homem, a fim de que todo aquele que nele crer tenha a vida eterna” (Jo 3,14-15).

No Calvário, portanto, aquilo que aos olhos humanos parecia uma derrota transformou-se na vitória sobre o pecado e a morte.

A Cruz roubada e reconquistada

Séculos depois, outro episódio histórico reforçaria o caráter triunfal da festa. Em 614, Jerusalém foi conquistada pelos persas do rei Cosroes II. Entre os tesouros levados da Cidade Santa encontrava-se a adorável relíquia da Cruz.

O imperador bizantino Heráclio iniciou então uma longa campanha militar contra os persas e, depois de sucessivas vitórias, conseguiu que a relíquia fosse restituída. A Santa Cruz retornou solenemente a Jerusalém no início do século VII, sendo novamente apresentada à veneração dos cristãos.

A antiga festa adquiriu, assim, um significado ainda mais eloquente: a Cruz fora ultrajada e levada pelos inimigos; retornava triunfalmente à Cidade Santa. Era como uma imagem histórica do próprio mistério que ela representa: humilhada, mas glorificada; abatida aos olhos do mundo, mas vitoriosa.

Sinal inseparável de Jesus Cristo

Depois da Paixão de Nosso Senhor, já não é possível separá-Lo de sua Cruz. Por isso, desde os primeiros séculos, os cristãos passaram a traçar sobre si o sinal da cruz. Colocaram-na em seus lugares de culto, levaram-na consigo e fizeram dela um sinal cotidiano de profissão da fé.

Essa prática chegou a provocar o sarcasmo do imperador Juliano, chamado “o Apóstata”, que reinou de 361 a 363 e procurou restaurar o paganismo no Império Romano. Ele censurava os cristãos precisamente por venerarem o madeiro da Cruz e reproduzirem por toda parte o seu sinal.

A censura, involuntariamente, testemunhava a força que o símbolo já adquirira. O que para os pagãos continuava sendo sinal de opróbrio era, para os cristãos, o sinal da Redenção.

São Paulo exprimiu essa inversão com palavras ecoam até nos presentes dias: “Quanto a mim, não pretendo jamais gloriar-me, a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo” (Gl 6,14).

A Cruz num mundo que procura afastá-la

A celebração deste dia 14 de setembro conserva uma atualidade particular. Em numerosas sociedades que nasceram sob influência cristã, assiste-se hoje a tentativas de relegar a Cruz exclusivamente ao âmbito privado, quando não de retirá-la de escolas, repartições e espaços públicos. Aquilo que durante séculos presidiu igrejas, hospitais, universidades, tribunais, praças e caminhos passa, em certos ambientes, a ser considerado um sinal incômodo.

É precisamente diante dessa tendência que a festa da Exaltação adquire toda a força de seu nome. A Santa Igreja não celebra simplesmente a Cruz, mas sua Exaltação.

Ela ergue solenemente aquilo que o mundo antigo desprezou e aquilo que, ainda hoje, certas correntes procuram ocultar. Proclama que a Cruz não representa a derrota, mas a vitória; não o desespero, mas a esperança; não o fim, mas a passagem para a Ressurreição.

A antiga liturgia da festa exprimia essa confiança numa breve e bela oração depois da Comunhão: “Protegei-nos, Senhor nosso Deus, e, tendo-nos dado a alegria de nos gloriarmos de vossa santa Cruz, fazei que sejamos sempre por ela defendidos.”

“Todo o Evangelho em um só sinal”

Triunfo de Cristo sobre o paganismo,
Gustave Doré (1832 - 1883).
The Joey and Tobey
Tanenbaum Collection.
Talvez poucas definições sintetizem tão bem o significado da Cruz quanto a atribuída ao grande orador sacro francês Jacques-Bénigne Bossuet, bispo de Meaux e uma das maiores vozes do púlpito católico do século XVII:

“O que é a cruz, senão o resumo do Evangelho, todo o Evangelho em um só signo, em uma só letra? Por que não a havemos de oscular? Por que não nos prostraremos diante dela?”

E prossegue, recordando São Paulo:

“Eu não sei mais pregar senão a Jesus, e a Jesus crucificado.”

A Cruz é, assim, um compêndio silencioso da fé cristã. Nela se encontram a gravidade do pecado, a justiça e a misericórdia de Deus, o sacrifício de nosso Divino Redentor, o preço da salvação e a promessa da Ressurreição.

Por isso, transcorridos quase dois milênios do holocausto no alto do Calvário, ela continua erguida sobre altares e torres, presente nas casas, carregada ao peito e traçada diariamente por milhões de fiéis.

Os impérios que a condenaram desapareceram. Os perseguidores que quiseram suprimi-la passaram. A Cruz permaneceu de pé.

E a cada 14 de setembro a Igreja volta a erguê-la diante do mundo, repetindo a grande proclamação cristã: o instrumento da morte tornou-se sinal da Vida; o símbolo da ignomínia tornou-se troféu de glória; o madeiro do Calvário tornou-se o estandarte da Redenção. 

28 de março de 2026

Nada mais eficaz para a salvação eterna do que meditar na Vida, Paixão e Morte de Jesus



No alto do Calvário, a Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo foi o altar no qual Ele consumou seu supremo sacrifício para a salvação do gênero humano; onde deu sua vida até mesmo por aqueles que O condenaram e crucificaram. 

Com os nossos pecados, todos participamos, em certo sentido, do deicídio; somos culpados quando infringimos os Mandamentos que Deus nos preceituou. 

Se Jesus voltasse à Terra, não seria novamente crucificado? Quem ousaria negá-lo? O “processo de autodemolição” que sofre hoje a Santa Igreja não é uma renovação do deicídio, da crucifixão? Certamente um modo de crucificar ainda mais lancinante, uma espécie de “eclesiocídio”, pois a Igreja é o “corpo místico de Cristo”. 

“Os pecadores foram os autores e os instrumentos de todos os sofrimentos que o Divino Redentor suportou”. Assim declara o Catecismo da Igreja Católica (§598).

Donde a necessidade de expiarmos nossos pecados e fazermos atos de reparação em desagravo a Nosso Senhor. Para isso, um dos meios mais eficazes é meditarmos com piedade e amor de Deus os passos da Via Crucis do Inocente que foi condenado e por caridade morreu em nosso lugar, dando sua vida para nos redimir. 

Um dos maiores moralistas da Igreja Católica, Santo Afonso Maria de Ligório, aconselha a frequente meditação da Paixão de Jesus, dizendo que é o meio mais eficaz para inflamar as almas no amor de Deus e a progredir no caminho da salvação. Ademais, ele acentua que nenhum meio é mais poderoso para conduzir uma alma à conversão e à santidade.

É com essa intenção que, para a Semana Santa deste ano, na matéria de capa deste mês [imagem acima] a revista Catolicismo reproduz as 15 meditações sugeridas por Santo Afonso em seu livro A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. 

Supliquemos à Mater Dolorosa, que acompanhou todos os passos da Paixão de seu Divino Filho, que nos acompanhe nessas meditações, nos conceda as graças de desagravá-Lo pelas ofensas cometidas no mundo inteiro, e, depois, as graças jubilosas próprias à Páscoa da Ressurreição — que logo venha uma ressurreição do mundo com a restauração da Santa Igreja e da Cristandade em todo o seu esplendor.

29 de julho de 2025

VIDA — HEROISMO OU INSIGNIFICÂNCIA



✅  Paulo Roberto Campos 

Dizer que a vida é uma luta é um chavão muito comum, mas uma verdade irretorquível. Assim como viver é lutar, lutar é viver, e viver só para viver não é vida, é mediocridade. Ninguém vive sem esforço. Não apenas os pobres precisam se esforçar para viver, mas todos e de qualquer classe; os bem abastados muitas vezes são obrigados a se esforçarem ainda mais do que aqueles de classes inferiores. 

As dificuldades diárias ao longo da vida são inerentes à nossa existência neste campo de batalha — neste “Vale de Lágrimas”, como rezamos na oração “Salve Rainha”. Inerentes a todos sem exceção, pois nascemos com a mancha original devido à desobediência a Deus cometida pelos nossos primeiros pais, motivo da expulsão deles do Paraíso terrestre. Por isso, somos, como consta na mesma oração, os “degredados filhos de Eva”. 

E a beleza da vida consiste justamente em vencer as dificuldades, tanto as externas como as internas. É a beleza que contempla e a alegria que tem um alpinista escalando uma montanha deparando-se com mil dificuldades, mas todas vencidas. Quando ele atinge o pico da montanha, é uma conquista realizada. Uma conquista sobre a montanha e sobre si. Ele do alto, mesmo muito esgotado pelo esforço, contempla a beleza do panorama e a vitória sobre si mesmo por não ter desistido no meio do caminho. É a alegria do heroísmo por ter chegado ao pico. Metáfora aplicável ao alpinismo na vida espiritual; vamos escalando a montanha — com o objetivo de contemplar Deus — vencendo as provações, as tentações, os desânimos, as cruzes ao longo de nossos caminhos. 

Esse aspecto da vida, como uma luta contínua, nos reporta ao Hino dos Tamoios, poema de Gonçalves Dias. Aqui a primeira estrofe, uma alusão ao pai exaltando a bravura que deve ter o filho a fim de ser verdadeiramente um índio tamoio: 
Não chores, meu filho; 
Não chores, que a vida 
É luta renhida: 
Viver é lutar. 
A vida é combate, 
Que os fracos abate, 
Que os fortes, os bravos 
Só pode exaltar. 

 

Para refletirmos sobre o valor da luta, à qual o homem medíocre tem horror, seguem alguns pensamentos: 

 

“A vitória no combate não depende do número, mas da força que desce do Céu.”  
(I Macabeus 3, 19) 

 

“Não há nada, por fácil que seja, que a nossa tibieza não apresente como difícil e pesado; como nada há tampouco tão difícil e penoso que o nosso fervor e determinação não torne fácil e leve.”  
(São João Crisóstomo) 

 

"Não há, caríssimos, obras de virtude sem experiência da tentação, fé sem provações, combate sem inimigo, vitória sem luta."  
(São Leão Magno) 

 

“Bom mesmo é ir à luta com determinação, abraçar a vida com paixão, perder com classe e vencer com ousadia, porque o mundo pertence a quem se atreve e a vida é muito para ser insignificante. Tentar de novo mostra como você está disposto a lutar por aquilo em que acredita.”
(Santo Agostinho) 

 

“Os grandes choques e as grandes lutas robustecem a alma e forjam o caráter. As almas que não têm às vezes sobressaltos não são comumente grandes almas.” 
(Padre J. Baeteman)

 

16 de abril de 2025

SANTO SUDÁRIO DE TURIM — Milagre permanente, Realeza de Jesus, Bandeira da Ressurreição

 


Uma fotografia que providencialmente revelou a face régia e divina de Nosso Senhor Jesus Cristo. Uma prova a mais de sua existência terrena, de sua flagelação, coroação de espinhos, crucifixão e ressurreição, tudo confirmando e reforçando as narrações do Evangelho. Estas e outras considerações foram feitas por Plinio Corrêa de Oliveira em conferência no dia 28 de abril de 1984, da qual seguem excertos, com leves adaptações da linguagem falada para a linguagem escrita.

 

Nos mistérios dolorosos do Rosário, contemplamos no terceiro a Coroação de Espinhos de Nosso Senhor Jesus Cristo. O que nos traz ao espírito uma série de recordações, que se tornam mais pungentes à vista do Santo Sudário — a sagrada relíquia que merece toda a nossa veneração.

Entre as relíquias trazidas da Terra Santa para o Ocidente, figura esse precioso tecido no qual o sacrossanto Corpo de Nosso Senhor foi envolvido para ser depositado na sepultura, na qual esteve até o momento glorioso entre todos em que Ele, por um ato de Sua própria vontade, ressuscitou-Se a Si próprio. Ele ordenou aos anjos afastarem aquela pedra que lacrava sua sepultura e voltou a entrar glorioso no convívio dos homens.

O Santo Sudário teria sido recolhido por pessoas piedosas e, certamente, levado a Nossa Senhora, talvez a São Pedro, chefe da Igreja. Depois, teria ido parar nas mãos dos imperadores do Oriente.

Posteriormente veio para o Ocidente, ficando na posse da pequena dinastia da Casa de Sabóia e, mais tarde, foi para a catedral de Turim, guardado num monumento de mármore, dentro de um magnífico escrínio. Todo o ouro e toda a prata da terra não seriam proporcionais para conter essa relíquia, mas era uma bonita caixa para guardá-la dignamente.

 

Um pasmo geral, uma imagem real de Jesus

Com o uso habitual da fotografia no século XIX, um fotógrafo amador, o advogado italiano Secondo Pia, resolveu tirar fotos do Santo Sudário em 1898. Quando ele estava revelando as imagens, observou que os negativos fotográficos mostravam uma imagem positiva de um homem no Sudário — o que não se nota vendo diretamente o tecido —, além de uma representação mais clara da imagem. Era a revelação da autenticidade do Sudário.

A marca do Sagrado Corpo de Nosso Senhor sobre o pano deu numa fotografia d’Ele! Foi um pasmo geral! Muito desapontamento a toda espécie de incrédulos. Estes não queriam acreditar na autenticidade daquele pano e levantavam objeções.

Vendo aquela imagem tão impressionante, poder-se-ia rezar: “Senhor, falai porque vosso servo Vos escuta. Falai Vós! O que tenho eu para Vos dizer? Olho para os vossos olhos divinos e vejo que está ali uma sabedoria infinita! Vós dizeis qualquer palavra e ela vale mais do que todo o ouro da terra! Vós dais um passo e eu vejo que sois Rei pelo semblante dominador com que avançais. Vós encontrais um pobre, Vós encontrais um ímpio e Vós vos dirigis a eles para lhes fazer bem ao corpo e à alma. Vejo em Vós tanta bondade, que eu me vejo a mim mesmo como azinhavre em comparação convosco. Senhor, diante de Vós, quem pode subsistir? Falai! Eu sou feito para Vos olhar e para Vos adorar. E isso, por misericórdia vossa, porque não sou digno disso!”.

Nosso Senhor Jesus Cristo era o Rei das nações, cujo semblante, atitude e irradiação sobre o povo de Israel revelavam sua genealogia régia, pois da estirpe David e Salomão, dois grandes reis de Israel. Entretanto, foi morto entre dois ladrões. Este Rei, todo ferido na Cruz, o que tinha como corte? A corte da dor: sua Mãe Santíssima, passando pelo sofrimento mais pungente que se possa imaginar e apenas um discípulo! Também algumas das santas mulheres; entre elas, Santa Maria Madalena, chorando copiosamente.

Depois de descido da Cruz, carregam o Corpo Sagrado, com ajuda de dois criptodiscípulos, Nicodemos e José de Arimatéia, envolvem-no no Sudário e o põem dentro da sepultura.

Fechada a sepultura com a pedra, era toda uma vida que ficava para trás. O túmulo e a morte tragaram aquela vida. Agora era voltar para suas casas e chorar. Dentro do sepulcro ficara também aquele Sudário, sobre o qual talvez tenha caído lágrimas de Nossa Senhora.

 

O Enterro de Cristo - Carl Heinrich Bloch (1834-1890). Museu Histórico Nacional de Frederiksborg, em Hillerød, Dinamarca. 

A ciência dobra os joelhos ao “Homem do Sudário”

Quando o século XIX estava no auge do seu orgulho e se preparava para transmitir ao século XX — ao lado de muitos frutos da Civilização — a impiedade triunfante, comprova-se o Santo Sudário como uma bandeira magnífica da Ressurreição!

O divino corpo ressuscitara dentre os mortos, mas ficou o lençol que o envolvera; guardaram com toda piedade aquele pano por vários séculos.

Vemos nisso algo de profundamente paradoxal e de misterioso nos planos da Providência. No tecido ficaram as marcas do Corpo de Jesus, mas só séculos depois, com o advento da fotografia, elas foram vistas! A ciência ímpia dobrava os joelhos e dizia: Cristo venceu!

No sagrado tecido é possível notar, sem qualquer dúvida, sinais da flagelação, da coroação de espinhos e da crucifixão. Diante disso, que atitude toma o homem do século XX? A impiedade do século XIX levou essa cajadada na cabeça e o século afundou no passado. E o nosso século? É tal maravilha o Santo Sudário, é tal prova da existência de Nosso Senhor Jesus Cristo, tal prova de que Ele ressuscitou, tal prova daquilo que cremos, que se deveria ficar verdadeiramente encantado e em todos os ambientes se deveria falar do Santo Sudário. Mas o geral dos homens contemporâneos dá as costas para esse milagre.

 

Recriação do corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo

Prova-se à evidência a autenticidade do Sudário

A 28 de maio de 1898,
o fotógrafo italiano Secondo Pia
tirou a primeira fotografia do Sudário.

Com o desenvolvimento das descobertas científicas, começaram a provar a autenticidade daquele precioso pano de linho. E os aparelhos modernos foram capazes de determinar a antiguidade do tecido. Verificaram até de que tipos de plantas extraíram as fibras com as quais teceram o Sudário, uma espécie de lençol, ou mortalha. Cientificamente demonstraram que elas eram da região onde se localiza a cidade de Jerusalém. Cientistas encontram até fragmentos mínimos de pólen de flores que, levados por ventos, impregnaram o pano; eram daquela mesma região, mas também da região da Turquia e d Europa, assim comprovando o itinerário percorrido pelo sacrossanto Sudário.

Pela análise científica da fotografia do milagroso linho ficou revelado inclusive que nos olhos de Nosso Senhor colocaram duas moedas — era costume da época colocá-las nos cadáveres a fim de manter os olhos fechados —, e elas são da época em que nosso Salvador veio ao mundo! [foto abaixo].

Há várias outras comprovações, cada uma mais brilhante que outra, certificando extraordinariamente até à evidência a autenticidade do tecido sagrado. Até mesmo os cientistas estudaram que há três dimensões na imagem do Sudário. Um mistério, um milagre, pois isso não ocorre nas fotografias normais.

Percebemos que o século XIX recebeu ao expirar uma grande manifestação da grandeza, do poder e da bondade de Deus: a verdadeira maravilha, que é a história do Santo Sudário! Mas o século XX portou-se diante desse milagre da seguinte maneira: olhar, não se converter e terminar numa tentativa de blasfêmia! É o curso da Revolução!

 


Realeza por natureza e por direito de conquista

Nosso Senhor Jesus Cristo é Rei. Interrogado durante a Paixão pelos que O julgavam — sem direito de julgá-Lo —, Pilatos perguntou: “És tu o Rei dos judeus?” E Jesus respondeu “Sim”, que verdadeiramente era Rei. Donde terem pregado no alto da Cruz a inscrição I.N.R.I. (Iesus Nazarenus Rex Iudaeorum — Jesus Nazareno Rei dos Judeus) [foto abaixo]. E também, para debicar d’Ele, mandaram coroá-Lo com uma coroa de espinhos; vesti-Lo com uma túnica e a vara dos bobos na mão (como se fossem a túnica e o cedro de rei).

Jesus Cristo é verdadeiramente Rei. Rei, antes de tudo, por ser Ele. O Verbo de Deus Encarnado; Deus feito homem. E Deus é Rei! Portanto, nosso Divino Redentor era Rei; plenamente Rei, porque Ele era Deus. Se há alguém sobre esta Terra que é Rei, era Ele e continua sendo e sê-lo-á para sempre.

Essa realeza d’Ele era de um reino que Ele possuía por natureza, mas tinha também por direito de conquista. Ele havia conquistado o mundo. Ele viera à Terra, fizera inúmeros milagres, convertera os homens e tinha o direito sobre o gênero humano que Ele vinha converter, era o Homem-Deus e, portanto, Rei do mundo inteiro. Mais ainda, Ele era Rei a um outro título: Ele morreria para resgatar os pecados dos homens e abrir para eles a porta do Céu. Ele se tornava Rei porque, pela sua morte, iria resgatar o mundo. Não Lhe faltavam títulos para realeza de toda ordem.

 

Tábua pregada no alto da Cruz com a inscrição I.N.R.I. (Iesus Nazarenus Rex Iudaeorum — Jesus Nazareno Rei dos Judeus)

Legitimamente Jesus Cristo foi e é Rei autêntico

Os judeus deveriam ter reconhecido isso, porque Nosso Senhor Jesus Cristo fez todos os milagres que provavam sua realeza. Além de descendente dos antigos reis, a santidade, a profundidade incomparável de sua doutrina, provavam isso. Não Lhe faltava nada para ser verdadeiramente Rei. Que outra coisa se pode fazer perante uma figura assim, senão ajoelhar-se?

O Antigo Testamento narra como seria o Messias. Bastava olhar para Jesus para ver que Ele era o Messias. Faltava-Lhe apenas ser crucificado e morto para que se completassem as profecias sobre Ele, mas qualquer um que de boa fé estudasse tudo isso, deveria reconhecê-Lo como Rei.

O Antigo Testamento fala do reino do Messias, o Salvador, que seria rei de Israel e que teria um reino que se estenderia sobre o universo inteiro, e que seria o reino de glória e o reino eterno que nunca mais se extinguiria. Eles esperavam que viesse um príncipe da Casa de David, mas um conquistador extraordinário, um político extraordinário, um militar extraordinário que brilhasse como um príncipe terreno e expulsasse para longe os romanos, que se tinham metido dentro de Israel e que eles consideravam conquistadores, e que tomasse conta de Jerusalém para fazer um reino de glória, perto do qual o de Salomão não tinha sido senão um tímido prefácio, uma pequena prefigura, mas iria brilhar o reino d’Ele por todos os séculos.

Ele vem e não conquista. Perguntam-Lhe se reconhece a autoridade de César, Ele diz que sim (os judeus queriam se livrar do governo de César). Perguntam a Jesus sobre seu reino, e Ele diz que era um reino que não era deste mundo. Por que isso? — Porque Ele, Homem-Deus, não só conhecia o futuro, mas era Aquele que dispõe do futuro. O futuro seria como era, porque Ele queria ou porque Ele consentia. O governo de todos os acontecimentos da História pertence a Ele. Ele sabia que seria Rei realmente. O reino d’Ele chamar-se-ia Igreja Católica Apostólica Romana. Não é um reino deste mundo, não é um reino feito para ter tropas e exércitos, fazer política etc. É o reino feito para difundir o nome d’Ele e a mensagem d’Ele a todos os homens e para que a Lei de Deus governasse a Terra inteira. Não tem nada de comum com política, é algo de incalculavelmente superior à política: é o Reino de Deus nesta Terra! E essa glória Ele a realizou!

 

Relicário com a Coroa de Espinhos, venerada na Catedral de Notre-Dame

Na Paixão do Redentor, um misto de dor e de triunfo

Um grande mistério que não se poderia compreender: Jesus Cristo reinaria de dentro de todos os sacrários do mundo. Quem poderia compreender uma coisa dessas!? Mas Ele tinha razão: o reino d’Ele não era deste mundo!

Ele era Rei dos judeus? Mais especialmente porque os judeus eram a nação eleita, era o povo predileto, havia uma promessa de que o Filho de Deus se encarnaria, que a Virgem seria judia e teria um Filho, portanto judeu de raça e seria ao mesmo tempo o Homem-Deus. Se os judeus tivessem correspondido à graça, ninguém pode imaginar a grandeza da glória que teria o povo de Israel. Mas aquele povo recusou, coroou de espinhos e crucificou o Rei de Israel.

Colocam uma coroa de espinhos sobre a cabeça de Jesus. A coroa da dor, da irrisão, da vergonha. Ele cheio de dores no Corpo, mas sobretudo cheio de dores na Alma. A nação eleita O tinha recusado e estava se transformando em infâmia.

Na Paixão de nosso Divino Salvador há o misto de dor lancinante e de triunfo, sobretudo quando Ele ressuscita!

 


Aplicação à Igreja Católica, humilhação e glória

Que lição tirar de tudo isto? — Assim é a vida do católico! Assim é a vida da Igreja, cheia de humilhações e de vitórias. Humilhações tão grandes que se poderia imaginar que Ela nunca se reergueria. Vitórias tão grandes que se diria que Ela nunca mais cairá. Como uma barca que vai por ondas vertiginosas, que a levantam ao alto, mas depois ao fundo da voragem. Assim a barca de São Pedro vai percorrendo a História, com todas as glórias e honras, mas também com todas as dores e humilhações de Cristo Coroado de espinhos.

Um magnífico símbolo dessa dor e glória é a Sainte Chapelle, em Paris [foto acima]. Três espinhos da Sagrada Coroa posta em Nosso Senhor foram obtidas por São Luís, rei de França. E para abrigar devidamente esses adoráveis espinhos, ele mandou construir um dos mais belos monumentos da arte medieval e, portanto, de toda a História: a Sainte Chapelle — verdadeira caixa de cristal com nervuras de granito, onde se celebrava o Santo Sacrifício.

Entrei na SainteChapelle e fiquei tão maravilhado que tive um suspiro: “Ahahah!!!”. Eu não pensava que fosse tão bonita!

Não tive palavras para reagir... Foi o único lugar no mundo que visitei e fiquei sem ter o que dizer! Notre-Dame me extasiou, mas a Sainte Chapelle com os seus vitrais causou-me tal impressão, tal maravilhamento que, literalmente, fiquei sem palavras. Encantadíssimo! Um edifício-relicário para os três espinhos dessa Coroa Sacrossanta que acabamos de considerar.

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Fonte: Revista Catolicismo, 892, abril/2025

15 de abril de 2025

Análise da situação interna de Jesus durante a Paixão

 


      Plinio Corrêa de Oliveira 

As imagens de Nosso Senhor Jesus Cristo flagelado e coroado de espinhos, que normalmente vemos nas igrejas aqui no Brasil, nem de longe se comparam com a esta. 

Nesta magnífica fotografia só do busto, Sua fisionomia traduz uma dor que chega até o limite da resistência. Quer dizer, um pouco mais de dor, a resistência quebraria, Ele morria. Mas ao mesmo tempo traduz uma firmeza e uma deliberação de ir até o fim. O que é impressionante!

Por outro lado, nota-se n’Ele uma tristeza meio perplexa frente à maldade que encontra diante de Si. Uma maldade que surpreende quase até ao desconcerto.

O escultor soube expressar bem o quanto Jesus era sensível à contradição e ao disparate da crueldade que sentiu diante de tanta bondade que manifestou. Não há n’Ele nenhuma cólera, mas há um reproche [uma censura] enorme. Imaculado! Justo! Reto! Naturalmente o Santo Sudário é superior, nada se lhe compara, mas imagens como esta eu conheço poucas. É a imagem de um rei padecente, mas que tem a coroa das dores, que vale mais do que a coroa de ouro. 

Lembra-me uma frase profética do Antigo Testamento a respeito de Nosso Senhor: “Ecce in pace amaritudo mea amarissima” [Eis na paz a minha amargura muito amarga (Isaías 38, 17)]. 

O artista-escultor parece ter entrado profundamente no papel de Nosso Senhor e soube compreender a posição d’Ele. É toda uma análise da situação interna de Jesus diante do que externamente Lhe ia sucedendo durante a Paixão. No meio de tudo isso, uma doçura inefável. 

O Aleijadinho é mais artista do que o escultor desta imagem, mas este expressou melhor a alma de Nosso Senhor. O Aleijadinho expressou muito bem os profetas, que considero obras-primas. São estupendos! Mas expressar a alma e o padecimento de Jesus Cristo como este escultor conseguiu, o Aleijadinho não conseguiu. 

Nosso Senhor é por excelência o Vir Dolorum, o Varão das Dores. Quem desejar compreendê-Lo inteiramente, compreenderá em função da cruz. Se fizer abstração da cruz não entendeu nada. 
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Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 8 de maio de 1993. Esta transcrição não passou pela revisão do autor.

12 de abril de 2025

Santo Sudário: Realeza de Jesus, por natureza e por direito de conquista. Um Rei legítimo.

Fonte: Editorial da revista Catolicismo, 892, abril/2025

José de Arimatéia, com ajuda de alguns outros, retirou o Corpo de Jesus da Cruz e “envolveu-o num pano de linho e colocou-o num sepulcro, escavado na rocha” (cfr. São Lucas 23 50-53). 

O referido “pano de linho” é o lençol — de aproximadamente 4,40 metros de comprimento por 1,10 metro de largura — que conhecemos como o Santo Sudário de Turim, a relíquia mais analisada, em toda a história da humanidade, por historiadores, teólogos e cientistas de vários países. 

Diversos e sérios estudos científicos e laboratoriais, inclusive da NASA, comprovam a veracidade do Sudário. Entretanto, a fim de contradizê-los, alguns cientistas fizeram em 1988 testes de datação por meio do Carbono-14, e disseram que o linho era do século XIII ou XIV. Portanto seria falso afirmar que o “Sudário” (ou mortalha) envolvera o Corpo de Jesus. Posteriormente reconheceram seus equívocos, pois tinham analisado apenas minúsculos fragmentos do tecido contaminados por materiais daquele período medieval. O que foi confirmado pela generalidade da comunidade científica internacional, conferindo ao Carbono-14 uma “certeza” de apenas 5%... 

Estudiosos comprovaram que a hipótese de uma falsificação é impossível e que as marcas no tecido são autenticamente de um homem do primeiro século, que media 1,83 metros e que sofrera torturas no corpo inteiro e fora crucificado. Outros ainda fizeram análises e mostraram que há no tecido restos de pólen originários da Palestina e do tempo de Nosso Senhor. 
O Sudário de Turim: foto da face; à esquerda o positivo, à direita o negativo.


Mencionamos apenas algumas das provas, mas ficou tudo comprovadíssimo, muito além do que qualquer cientista poderia imaginar, que o Santo Sudário é uma imagem de Jesus Cristo com os traços detalhados de seus sofrimentos durante a Paixão, como a flagelação, a coroação de espinhos e a crucifixão, e que com a Ressurreição sua sacrossanta figura ficou impressa no tecido. Tudo confirmando as narrações dos Evangelhos e a nossa Fé.

Pintura de Giulio Clovio mostrando o sudário e a forma como Jesus foi envolvido

Estas e outras considerações são desenvolvidas na matéria de capa [foto no topo] deste mês da revista Catolicismo, composta por três artigos de seus colaboradores. Com ela, nosso intento é auxiliar os leitores a meditarem melhor os passos da Paixão do nosso Divino Redentor nos dias da Semana Santa, especialmente considerando sua Realeza — por natureza e por direito de conquista —, como vemos na sua Sagrada Mortalha que é venerada em Turim.

13 de junho de 2024

AS CRUZES COMO PRESENTES DE DEUS

Vista aérea da cidade gaúcha de Cruzeiro do Sul, que fica(va) às margens do Rio Taquari



A propósito da terrível catástrofe que se abateu sobre o Rio Grande do Sul, flagelando milhões de pessoas, sobretudo nas cidades que ficaram praticamente arrasadas pelas devastadoras enchentes, seguem alguns extraordinários pensamentos para neles meditarmos e prepararmo-nos para eventuais tragédias que poderão futuramente também nos atingir: 

“Provados pela mesma desgraça, os maus odeiam a Deus e blasfemam, enquanto os bons rezam e louvam. A diferença não está na desgraça sofrida, mas na qualidade de quem sofre. Agitados o lodo e o perfume, o primeiro cheira mal e o segundo exala agradável fragrância.”
(Santo Agostinho) 

“Em tempos de tristeza e inquietação, não abandones nem as boas obras de oração, nem a penitência, a que estás habituado. Antes, intensifica-as. E verás com que prontidão o Senhor te sustentará.” 
(Santa Teresa D'Ávila) 

“Uma ação de graças no tempo da tribulação vale mais do que mil anos de agradecimento em tempos de prosperidade”. 
(São João D’Ávila) 

“Além da Cruz, não há outra escada pela qual possamos chegar ao Céu”. 
(Santa Rosa de Lima) 

“Não recusem as responsabilidades! Não peçam a Deus uma vida fácil, mas ombros mais largos”. 
(Louis Saillans) 

“O homem é como um tapete, às vezes precisa ser sacudido”. 
(Provérbio árabe)

30 de março de 2024

Verdadeiramente Nosso Divino Salvador Ressuscitou



Verdadeiramente Jesus ressuscitou, como haviam anunciado os profetas e também Ele próprio, em sua vida terrena. 

Em nossos dias, podemos venerar uma sagrada relíquia, na qual se comprova cabal e cientificamente que nosso Redentor ressuscitou. 

Essa relíquia, o Santo Sudário, é o lençol fúnebre que serviu de mortalha para o sepultamento do corpo do Filho de Deus. Desde o século XIV, ele é guardado com toda segurança na catedral de Turim, Itália. 

Sobre o Santo Sudário de Turim, Dr. Plinio Corrêa de Oliveira teceu vários comentários. Eis um deles: 

"Podemos meditar Maria Santíssima olhando para seu Filho dormindo. Meditar no próprio olhar que aparece no Santo Sudário, com os olhos baixos, quando Ele vê mesmo através das pálpebras. Com seus olhos fechados, sentimos o olhar d´Ele ali estampado".


 

29 de março de 2024

Valor do Preciocíssimo Sangue




Nosso Senhor Jesus Cristo morreu para nos redimir, portanto, em certo sentido, nosso valor está no sangue que Ele derramou por nós. Mas nós correspondemos ao supremo valor do holocausto d´Ele no Calvário? 

Supliquemos à Mãe Dolorosa aos pés da Cruz que nos faça corresponder. A incorrespondência seria deixar correr em vão o Preciocíssimo Sangue. 

Eis alguns pensamentos de santos para meditarmos nestes últimos dias da Semana Santa. 



“Acerca da Paixão do Senhor, procure não querer fazer a sua vontade e gosto em nada, pois ela foi a causa da Paixão e Morte”. 

(São João da Cruz) 


“Saboreia o livro da Paixão de Cristo e captarás a sua doçura; porém, quando o digerires, experimentarás a amargura grande que existe nele. Contempla essa Paixão. Avalia o preço da tua redenção”. 

(São Luís Beltrán) 


“Aconselho-te a oração mental e cordial, particularmente sobre a Vida e a Paixão de Nosso Salvador. Se frequentemente a contemplas na meditação, encherás a tua alma, aprenderás a sua modéstia e modelarás as tuas ações pelo modelo das d’Ele. Ele é a Luz do mundo e n’Ele, por Ele e para Ele devemos ser instruídos e iluminados”. 

(São Francisco de Sales) 


“Foi-lhe dada sepultura ao lado de facínoras e ao morrer achava-se entre malfeitores, se bem que não haja cometido injustiça alguma, e em sua boca nunca tenha havido mentira”. 

(Isaías 53, 9) 


“Se um só morreu por todos, logo todos morreram. Sim, Ele morreu por todos, a fim de que os que vivem já não vivam para si, mas para Aquele que por eles morreu e ressurgiu”. 

(São Paulo, Apóstolo - 2 Cor. 5 14-15).


28 de março de 2024

TRIUNFO DA CRUZ

 


Fonte: Revista Catolicismo, Nº 878, Março/2023

Na edição remissiva à Semana Santa do ano passado tratamos da graça de Pentecostes. A descida do Espírito Santo sobre a Virgem Santíssima e os Apóstolos enquanto rezavam no Cenáculo. Essa imensa graça os transformou extraordinariamente. Muito acanhados e amedrontados nos dias da Paixão de Jesus Cristo, converteram-se em entusiasmados e corajosos seguidores de Nosso Senhor, passaram a pregar sem nenhum temor o Evangelho a todos os povos, realizaram grandes e abundantes milagres, e milhares de conversões — não apenas em Jerusalém, mas em outras cidades e em outras nações.

Em continuação, a presente matéria transcreve os últimos e esplêndidos trechos do livro do padre redentorista francês Augustin Berthe, Jesus Cristo, Vida, Paixão e Triunfo,* como sugestão aos nossos leitores para neles meditar nos dias da Semana Santa deste ano.

Das brilhantes narrações feitas pelo autor, deduzimos claramente que foi do preciosíssimo sangue de nosso Divino Redentor que brotou a civilização cristã. Sem seu lancinante sacrifício no Calvário teria sido impossível a ruína do mundo pagão; impossível a dilatação da Santa Igreja; impossível que a beleza da Cristandade resplandecesse em todos os povos; impossível o triunfo da Cruz!

 

Da Redação de Catolicismo

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O TRIUNFO DE JESUS

A CONQUISTA DO MUNDO

 

Apesar das proibições reiteradas do Sinédrio, continuaram os apóstolos a pregar a Ressurreição de Jesus, o que trouxe consigo uma perseguição sangrenta que durou três anos.

O diácono Estêvão, poderoso em obras e palavras, tendo confundido todos os doutores da Lei, foi acusado de blasfemo e apedrejado pelos malfeitores. Mas, em vez de deter os progressos da Igreja, o sangue daquele primeiro mártir foi uma semente fecunda de cristãos. Enquanto os apóstolos defendiam em Jerusalém o rebanho de Cristo, muitos discípulos, espraiando-se pelas províncias, formaram novas comunidades na Judéia, na Samaria, na Galileia e até em Cesareia e Damasco.

 

Conversão de São Paulo – Vicente Carducho (1576 - 1638). Museu de Belas Artes de Valência, Espanha

Jesus desconcertava os fariseus

À vista de tal resultado, já não conheceu limites a cólera dos perseguidores. Um fariseu, de nome Saulo, homem de grande inteligência e indomável energia, tomou a peito destruir a Igreja de Deus. Dirigia-se um dia para Damasco a fim de algemar e levar para Jerusalém os discípulos do Crucificado. Mas eis que, ao avizinhar-se da cidade, se vê de repente envolvido por uma luz celeste e cai fulminado no chão. E logo ouve uma voz que lhe diz:

         — “Saulo, Saulo, por que Me persegues?”

— "Quem sois Vós, Senhor?”, perguntou ele.

— “Eu sou Jesus a Quem tu persegues”, continuou a voz.

         — “Senhor, que quereis que eu faça?” (Act 9, 3-6).

E Saulo tornou-se o apóstolo Paulo, o convertedor das nações. Jesus desconcertava assim os fariseus, tomando-lhes os melhores recrutas para deles fazer os seus mais valentes soldados.

 

Expansão dos primeiros cristãos

Após três anos de perseguição, respirou a Igreja um momento, devido a terem desaparecido os deicidas mais célebres. O sumo-sacerdote Caifás, despojado do pontificado e, cheio de desespero, suicidou-se. Anás, seu sogro, desembaraçou-se também dos seus remorsos e da sua desonra por meio de um covarde suicídio. Pilatos, destituído pelo Imperador e exilado para Viena de França, suicidou-se também. Estes três principais atores no drama do Calvário, morreram como o traidor, de quem disse o Senhor:

“Mais lhe valera não ter nascido”.

Pedro aproveitou-se dos dias de paz para visitar o seu rebanho. No livro dos Atos dos Apóstolos vemo-lo pregando e fazendo prodígios em Lyda, Saron, Jope e Cesárea, onde batiza o centurião Cornélio com toda a sua família. Depois, resolvido a levar o Evangelho às nações, deixa Jerusalém e dirige-se para Antioquia, metrópole do Oriente, onde fixou a sua sede durante sete anos. Esta cidade de 500 mil almas, torna-se o centro de uma Igreja florescente e foi em Antioquia que os discípulos de Cristo tomaram o nome de Cristãos (Act 9, 31-35).

O Reino de Jesus tinha feito, em dois anos, imensos progressos. Da Palestina tinha passado à Síria e da Síria, devido às pregações de Pedro, atingira o Ponto, a Bitínia, a Capadócia, a Galácia e outras províncias da Ásia Menor. Quiseram os chefes dos judeus, a todo o custo, deter a expansão do cristianismo. No ano 42 estalou uma nova perseguição. O sobrinho de Herodes, Agripa, logo que se viu rei da Judéia, perseguiu os cristãos. Muitos foram encarcerados.

 

A Libertação de São Pedro da Prisão – Mattia Preti, século XVII. Gemäldegalerie der Akademie der Bildenden Künste, Viena

Perseguições estenderam ainda mais o Evangelho

A Tiago Maior, irmão de João, cortaram a cabeça. Pedro, que voltou de Antioquia para fazer frente à tempestade, foi preso. O rei, tendo-o mandado prender no primeiro dia dos ázimos, anunciou que ele seria degolado diante de todo o povo, logo depois da festa da Páscoa. Jesus, porém, enviou do Céu um anjo que despertou Pedro na prisão e lhe abriu as portas e o conduziu para fora de Jerusalém. No dia seguinte, Agripa só encontrou as cadeias do apóstolo. Fugiu para Cesárea para lá ocultar a sua vergonha. Porém, Jesus seguiu-o. O perseguidor, ferido por uma horrível doença, expirou após alguns dias.

         Esta segunda perseguição teve por efeito estender o Reino de Deus pelo mundo inteiro. Naquele mesmo ano de 42, estando já a Igreja solidamente estabelecida em Jerusalém e na Palestina, em Antioquia e nas regiões adjacentes, resolveram os apóstolos dispersar-se e levar o Evangelho às diversas nações da Terra.

Pedro enviou Matias à Cólquida, Judas Tadeu à Mesopotâmia, Simão à Líbia, Mateus à Etiópia, Bartolomeu à Armênia, Tomé à Índia, Filipe à Frígia, João a Éfeso. Paulo, o apóstolo das nações, devia evangelizar a Ásia Menor, a Macedónia e a Grécia. Quanto a Pedro, tomou o caminho de Roma, a cidade dos Césares, da qual queria Jesus fazer a cidade dos Pontífices. Tiago Menor, chamado o Justo, por causa da sua grande santidade, governou, na qualidade de Bispo de Jerusalém, as cristandades da Palestina.

 

O Apóstolo São Pedro em Roma

Ao partirem para a conquista do mundo, levavam os apóstolos consigo o Credo, símbolo da sua fé, o Evangelho, resumo do seu Mestre, e a Cruz, emblema da Redenção. Isto bastava para ensinar: Jesus, que os acompanhava, encarregava-se da vitória.

Em todos os caminhos encontraram inimigos, especialmente entre os deicidas, desejosos de exterminá-los; todavia, conseguiram estabelecer por toda a parte, quase sempre à custa do próprio sangue, cristandades florescentes. Em Roma, Pedro foi fixar residência no Trastevere. Lá fez numerosos discípulos entre os seus compatriotas judeus e entre os romanos, apesar de os fariseus empregarem todos os meios para levantar o povo contra ele. Foi até obrigado, para não chamar a atenção dos romanos, a instalar-se na outra margem do Tibre, no palácio do senador Prudente, que era um dos primeiros convertidos. Ali é que sentado numa cadeira de carvalho, que ficou conhecida como a Cadeira de Pedro, falava de Jesus à assembleia dos cristãos que ia engrossando de dia para dia. Dali é que ele enviou o seu fiel discípulo Marcos a fundar o patriarcado de Alexandria, e outros bispos a evangelizar as Gálias.

 

Conquistas do Apóstolo São Paulo

 Com mais violência ainda se atiraram os ímpios contra o apóstolo Paulo. Na Ásia Menor, na Macedônia e na Grécia, onde durante longos anos difundiu, vitoriosamente, o cristianismo, teve sempre de defrontar-se com motins furiosos. Perseguiam-no de cidade em cidade, denunciavam-no às autoridades e expulsavam-no das sinagogas.

Foi por vezes açoitado, apedrejado e deixado por morto, estendido no chão. E quando, depois de ter feito assinaladas conquistas para o seu divino Mestre, voltou a Jerusalém, os chefes do povo que o chamavam traidor e trânsfuga, apoderaram-se dele, açoitaram-no de novo, esbofetearam-no em plena sessão do Sinédrio e, por certo, o teriam matado, se Paulo não tivesse feito valer o seu direito de cidadão romano e apelado a César. Levado para Roma a fim de se justificar dos crimes que os fariseus lhe imputavam, lá encontrou o apóstolo Pedro e continuaram ambos o curso das suas conquistas, à espera do martírio.

O Sinédrio, irritado em ver que as conversões se multiplicavam, condenou Tiago menor, bispo de Jerusalém, à morte, como sedutor do povo. Foi apedrejado pelos escribas e fariseus a quem predissera a ruína próxima. E, de fato, iam cumprir-se as profecias de Jesus. Desde há 30 anos não cessavam os apóstolos de chamar Israel à penitência. Em toda a parte, primeiro dirigiam-se ao povo da antiga aliança antes de evangelizar os gentios.

Paulo desejava ser anátema por amor dos seus irmãos segundo a natureza, e eles, salvas honrosas exceções, respondiam-lhe às exortações com blasfêmias e violências. “Mataram Jesus e os seus profetas”, lamentava-se o apóstolo; “não se cansam de nos perseguir; ofendem a Deus e constituem-se os inimigos da humanidade; impedem-nos de falar às nações, por medo de que elas se salvem, com o que enchem a medida dos seus pecados. A cólera de Deus contra eles chega ao seu auge”.

 

No ano 79 as primeiras erupções do Vesúvio destruíram em parte Herculano e Pompéia e lançaram o pânico entre os romanos.  

Novas conquistas e novas perseguições

Com efeito, Jesus tinha já o braço levantado contra a ingrata e cruel Jerusalém. Os fiéis iam verificando, não sem horror, a aparição dos sinais que, segundo a profecia do Salvador, deviam preceder o grande cataclismo. “Antes de tudo — dissera Ele aos Apóstolos — sabei que os fariseus vos hão de perseguir e açoitar e condenar à morte. Haverá falsos profetas e falsos Messias que se hão de esforçar por vos seduzir”; os Simões, os Menandros, os Ebiões e os Serintos, não cessavam de espalhar os seus erros. “O Evangelho será pregado em toda a Terra”; e, coisa incrível, Paulo podia escrever aos habitantes de Colossos: “O Evangelho foi pregado a todas as criaturas que há debaixo do Céu”.

Ora, desde alguns anos, na Palestina, na Itália e no Oriente, a fome e a peste estavam a dizimar as populações. Tremores de terra convulsionavam a Ásia, a Acaia e a Macedônia; as primeiras erupções do Vesúvio destruíram em parte Herculano e Pompéia e lançaram o pânico entre os romanos. O mundo romano entrava em convulsão em consequência das guerras civis, suscitadas pelos pretendentes ao Império.

 

A Jerusalém que flagelou Cristo foi terrivelmente flagelada

De resto, o próprio Deus multiplicou os avisos à ingrata Jerusalém. Durante um ano inteiro, conforme referem os historiadores Flávio Josefo e Tácito”1, um cometa em forma de espada ficou suspenso sobre a cidade. Outros sinais foram vistos pelo povo.

A maioria dos habitantes nada compreendeu daqueles avisos celestes. No ano 66, os judeus insurgiram-se contra os romanos, derrotaram as cortes acampadas em Jerusalém e deitaram o fogo à Torre Antônia que servia de cidadela à guarnição. Animando-se com aquele sucesso feliz, não tardaram os patriotas das províncias a levantar-se e declarar-se livres. Ao ver que a Judéia entrava em luta com o Império, que hordas de fanáticos se instalavam no recinto do Templo e que as orgias e crimes manchavam a cidade de Deus, os cristãos recordaram-se dos avisos do Mestre: “Quando virdes a abominação da desolação no lugar santo, fugi quanto antes”. Sem perda de tempo, deixaram Jerusalém e a Judéia, e refugiaram-se nos montes além-jordânicos e encontraram um abrigo na cidade de Pela e lugares adjacentes. Assim, de Sodoma fugiu Lot e a sua família, antes da chuva de fogo que a havia de incendiar.

E era tempo, pois no começo de 67, Vespasiano, à frente das suas legiões, apoderou-se das fortalezas da Galileia e passou os revoltosos ao fio da espada. Assenhoreando-se em alguns meses de todo o país, foi acampar diante de Jerusalém onde se tinham concentrado os patriotas que escaparam das províncias. Mercê das guerras civis em que ardeu o Império Romano durante dois anos, Vespasiano foi obrigado a adiar o cerco da cidade, mas em vez de se aproveitar desta dilação, os revoltosos que lá dentro mandavam, disputaram, à mão armada, a supremacia do poder. Como urgissem com Vespasiano para que saísse da inação, este respondeu: “Deixai-os lá, que se despedacem entre si. Deus é maior general do que eu: há de no-los entregar sem combate”.2

No ano 70, Vespasiano, proclamado Imperador, dirigiu-se para Roma e deixou ao seu filho Tito o prosseguimento das operações contra Jerusalém.

 

Castigo divino: o cerco e a destruição de Jerusalém

Aqueles dois anos de calma relativa quase tinham feito esquecer o perigo exterior. Pela Páscoa afluíram os peregrinos à cidade, de modo que um milhão e duzentos mil judeus ali se encontravam encerrados, quando, de repente, Tito instado a acabar com a revolta deles, apareceu no alto do Monte das Oliveiras com as suas legiões e máquinas de guerra. Os cercados defenderam-se como leões, mas não puderam impedir que os romanos penetrassem dentro de Bezeta e Acra e que depois, em três dias, levantassem trincheiras que encerravam os judeus nos bairros elevados do Templo e do Monte Sião. Realizava-se a profecia de Jesus: “Dias virão em que os teus inimigos te hão de cercar com trincheiras e te hão de encerrar e apertar de todos os lados”.

 Aos horrores da guerra foram juntar-se os horrores da fome. Apesar das imensas provisões da cidade, faltaram, por fim, os víveres. Uma pequena medida de trigo vendia-se por preços fabulosos. Os chefes, insensíveis à miséria do povo, visitavam todas as casas para se apoderar dos víveres e distribuí-los aos seus soldados. Por isso, ninguém preparava refeição alguma. Quando, a peso de ouro, conseguia um homem alguns grãos de trigo, devorava-os logo, escondido nalgum canto. Aos pobres, arrancavam-lhes das mãos alguns cachos que, durante a noite, tinham saído a colher com perigo da própria vida.

Frequentes vezes, agarrados pelos romanos, aqueles pobres esfomeados eram crucificados como espiões, de modo que, à volta de todo o campamento, se elevava uma floresta de cruzes que lembravam aos deicidas a cruz do Filho de Deus.3

Os homens arrancavam uns aos outros, furiosos, qualquer coisa que se parecesse com alimento. Certa mulher, por nome Maria, que se refugiara em Jerusalém com o seu filhinho, viu arrebatarem-lhe os soldados o dinheiro, as joias e até umas poucas ervas ou palhas que juntara para enganar a fome. Enlouquecida pela ira e pelo desespero, degolou o filho, assou-o, comeu uma parte e ocultou a outra. Atraídos pelo cheiro de carne queimada, os bandidos ameaçaram-na de morte se lhes não entregasse as sobras da sua refeição. “Ei-las aqui — disse ela — olhai que são os restos do meu filho”. Apesar da sua fome e raiva, aqueles monstros fugiram espantados.4

 

Destruição de Jerusalém por Tito, no ano 70 – David Roberts (1796–1864). Coleção Particular. 

“Do teu Templo não ficará pedra sobre pedra”

A mortandade foi espantosa durante toda a duração do cerco. O historiador Josefo soube por um fugitivo que foram pagos, à custa do erário da cidade, até 700 mil funerais. Em dois meses e meio, só por uma porta, tiraram 116 mil cadáveres. Por fim, atiravam-nos das alturas de Sião e dos pórticos do Templo pelas encostas do vale abaixo. Ao ver aqueles montes de mortos em putrefação, Tito levantou as mãos ao Céu, tomando a Deus por testemunha de que não era responsável por tais desgraças.

Contudo, cessou, pela primeira vez, o sacrifício da manhã e da tarde. É que não se encontrava já um cordeiro para sacrificar. E, desaparecendo o holocausto figurativo, já o Templo não tinha razão de ser. O exército romano conseguiu penetrar no vasto recinto do edifício sagrado, que os zelotas, acurralados de átrio em átrio, defenderam com a energia de desesperados. Os romanos, furiosos com aquela resistência que lhes custava milhares de homens, avançaram por cima dos cadáveres, resolutos a incendiar o Templo; mas a esse projeto opôs-se Tito, a quem a destruição daquele monumento incomparável parecia um ato de barbárie sacrílega.

De repente, apesar das ordens do general, um legionário, de pé sobre os ombros dos camaradas, arremessa um facho inflamado para o interior dos aposentos que rodeavam o santuário. O fogo comunicou-se em breve ao teto de cedro, os judeus gritavam com desespero e Tito manda apagar o fogo; os soldados, porém, já não lhe obedecem. Amontoam, à porta principal, enxofre, betume e todas as outras matérias inflamáveis que podem achar à mão. E, enquanto desaba o Templo, degolam eles, sem piedade, os milhares de refugiados nos átrios.5

Assenhoreando-se em breve do Monte Sião, onde se tinham refugiado os últimos rebeldes, mandou Tito arrasar o que restava do Templo e da cidade, exceto as três torres de Herodes, que ficaram de pé, isoladas no meio daquele deserto, como para atestar que houvera ali uma cidade que se chamava Jerusalém. "Parecia — diz o historiador Josefo — que aquela terra nunca fora habitada". E estava cumprida a profecia de Jesus: “Tu não serás mais que um deserto e do teu Templo não ficará pedra sobre pedra”.6

 

Deus vinga o Preciosíssimo Sangue de seu Filho

Durante o cerco pereceram um milhão e cem mil homens. Caíram cem mil prisioneiros nas mãos do vencedor. A maior parte foi vendida como escravos. Tinham vendido Jesus por trinta dinheiros. Os romanos venderam trinta judeus por um dinheiro. Tito escolheu 700 dos mais jovens e vigorosos, entre os quais, João e Simão, chefes da revolta, para lhe ornarem o cortejo na sua entrada triunfal em Roma. Lá os viram, naquele cortejo, levarem numa charola os restos do Templo, a mesa dos pães da proposição, o candelabro de sete braços, o livro da Lei, atrás da estátua da Vitória. Tito subiu ao Capitólio, enquanto os carrascos estrangulavam João no cárcere Mamertino e crucificavam Simão depois de o terem açoitado.

O Imperador mandou cunhar medalhas comemorativas daquele grande acontecimento. No verso, vê-se uma mulher desfeita em pranto e com manto de luto, sentada à sombra de uma palmeira com a cabeça apoiada na mão: é a Judeia cativa, diz a inscrição. E a triste Jerusalém, doravante sem rei, sem sacerdote, sem sacrifício, sem altar.

         Tal foi a pavorosa sorte de Jerusalém. "Caia o seu sangue sobre nós e sobre os nossos filhos!" clamava o povo durante a Paixão. Deus ouviu-os e vingou o Sangue do seu Filho. Não se enganava Tito, quando, ao contemplar as muralhas e torres de Jerusalém vencida, exclamou: “Lutamos com a ajuda particular de Deus, e Deus foi Quem arrancou destas fortalezas os judeus: por que máquinas e que mãos de homens, por fortes que fossem, bastariam para tanto?”7

Confirmava-se assim a profecia de Daniel: “Depois de sessenta e nove semanas, será morto o Cristo, e o povo que O tiver renegado já não será o seu povo. Virá uma nação com o seu príncipe destruir a cidade e o santuário e sucederá a desolação, desolação sem fim. A abominação da desolação habitará no Templo, faltarão as vítimas, cessará o sacrifício e a desolação há de durar até à consumação dos séculos.

 

Última oração dos mártires cristãos – Jean-Léon Gérôme (1824–1904). Walters Art Museum, Baltimore, EEUU

JESUS, REI DOS REIS

E SENHOR DOS SENHORES

 

Roma reinava então no universo, mas o paganismo reinava em Roma. Júpiter, Mercúrio, Apolo, Vênus e uma infinidade de deuses e deusas tinham ali os seus templos, altares, sacrifícios e festas. Nos jogos solenes, eram degolados, por vezes, dez mil gladiadores perante os aplausos frenéticos de enormes plateias sedentas de sangue.

E, para defender aquela religião cruenta e opressora, ostentava Roma orgulhosa os seus legisladores, filósofos, poetas, sacerdotes, mágicos, arúspices e as suas invencíveis legiões, tendo à frente o imperador, senhor do mundo, pontífice e deus. E foi este o Império que Jesus teve de vencer para reinar no universo.

 

Perseguição e martírio dos primeiros cristãos em Roma

 Não podiam os pagãos ver penetrar Jesus naquele Império sem Lhe declarar guerra. Os idólatras julgavam que se devia tolerar todos os deuses, menos o Deus dos cristãos que pretendia só para si o direito exclusivo à adoração dos mortais. Diziam que aquele Cristo, crucificado sob Pôncio Pilatos, era inimigo dos deuses e dos homens e merecia todas as perseguições; que os seus adeptos, verdadeiros ateus, fugiam dos templos para se reunir em antros misteriosos, onde se entregavam a espantosas orgias e práticas execrandas, chegando a degolar crianças para comer a sua carne e beber o seu sangue.

Estas infames acusações, e, sobretudo, esta monstruosa interpretação da comunhão eucarística, espalharam-se pelo povo. Os cristãos foram considerados como a escória do gênero humano e disto se aproveitou o demônio para desencadear contra eles uma perseguição que havia de durar três séculos.

 

Nero: O édito de extermínio

 Naquele mundo escravizado reinava então o imperador Nero. Depois de ter manchado as mãos no sangue do pai, da mãe, da esposa e dos seus dois preceptores, Séneca e Burrus, certo dia decidiu deitar fogo à cidade de Roma, para assistir a um espetáculo grandioso. E, enquanto as chamas devoravam a capital do Império e o povo gritava em desespero, Nero, vestido de ator de teatro, contemplava do alto de uma torre aquele oceano de fogo e cantava versos sobre o incêndio da cidade de Tróia.

Este crime inaudito esteve a ponto de perdê-lo, pois foi acusado de ser o autor do incêndio. A fim de acalmar a revolta popular, fingiu estar à procura dos culpados.

Consultou adivinhos, ofereceu sacrifícios aos deuses e, finalmente, notificou ao povo que os incendiários eram os cristãos que, sendo inimigos dos deuses e dos homens, tinham posto fogo à cidade para se vingar do desprezo com que eram tratados. Nero, porém, tomava a seu cargo infligir-lhes o castigo que mereciam.

Foram todos os cristãos condenados à morte, em Roma e nas províncias: “Prenderam — diz Tácito — os primeiros que se declararam discípulos de Cristo. O inquérito deu a conhecer uma imensa multidão. A sua morte tornou-se um divertimento público. Vestiam-nos com peles de animais e atiravam-lhes cães furiosos para que os esquartejassem. Crucificavam-nos e cobriam-lhes os corpos com pez e resina ou cera para os transformar em candeeiros que alumiassem a noite. Nero deu espetáculos deste gênero nos jardins do Vaticano. E, ao clarão daquelas tochas vivas, organizava corridas de circo”.

Em todo o Império receberam os governadores ordem para matar os cristãos e proibir a religião de Cristo. O magistrado lia o decreto de extermínio: “Não é permitido aos cristãos existirem”. Se o intimado respondia: “Sou cristão”, o magistrado entregava-o aos carrascos, que o submetiam a cruéis suplícios.

Durante quatro anos, correu o sangue dos mártires, sangue de plebeus, sangue de patrícios, sangue de apóstolos. No ano 67, Pedro, Vigário de Cristo, foi crucificado como o seu Mestre. E Paulo, apóstolo das nações, foi decapitado. Mas, um ano depois, Nero, condenado pelos seus súbditos em revolta a ser açoitado com varas até à morte, fugiu de Roma como um covarde e tentou suicidar-se com um punhal. Como hesitasse, um escravo enterrou-lhe o ferro no peito. Assim desapareceu o primeiro perseguidor da Igreja. A lei de extermínio subsistiu como lei do Império, mas os sucessores de Nero, Vespasiano e Tito, só por exceção a aplicaram.

Esperavam, pois, os discípulos de Jesus, ver o fim dos seus males, quando no ano 81, a morte prematura de Tito entregou o poder ao seu irmão Domiciano, êmulo de Nero. Recomeçou a perseguição dos cristãos. Pereceram então os mártires de Lutécia (hoje Paris), Dionísio, Rústico e Eleutério com milhares de vítimas. O apóstolo João, levado de Éfeso a Roma, foi metido numa caldeira de azeite a ferver, de onde saiu são e salvo. André, irmão de Simão Pedro, compareceu diante do procônsul da Acaia, que o intimou a sacrificar aos deuses, sob pena de ser crucificado. André avançou para a cruz com passo firme. “Salve — exclamou ele — ó doce cruz, que o Corpo de Jesus revestiu de glória! Ó boa cruz, por tanto tempo desejada, tão ardentemente amada, por ti Jesus me resgatou, por ti receba Jesus o seu servo!”

 

Do sangue dos mártires brota triunfante a Igreja

Esta perseguição durou 15 anos, até ao dia em que os súbditos se desembaraçaram do tirano. Alguns oficiais do palácio, vendo-se ameaçados de morte, lançaram-se a ele todos à uma e crivaram-no de punhaladas. Corria o ano de 96 do primeiro século da era cristã.

E a Igreja? A Igreja, afogada no próprio sangue, apareceu então — ó milagre de Cristo! — mais numerosa e mais forte que antes de Nero e Domiciano. Para responder à lei do extermínio, tinha Jesus criado uma raça inexterminável que se multiplicava sob os golpes dos carrascos. A fé, o amor e a invencível constância das vítimas despertaram um entusiasmo novo, o entusiasmo do martírio. Crianças, anciãos e soldados, imploravam o batismo antes de oferecer o seu sangue a Jesus Cristo. Milhares de sacerdotes e bispos pregavam o Evangelho por toda a Terra, produzindo dez vezes mais cristãos do que os procônsules podiam destruir. De tal modo que, no princípio do século II, forçados a reconhecer a vitória de Cristo, perguntavam perplexos como se poderia aplicar a lei que proibia os cristãos de existirem.

Com efeito, no ano 112, Plínio o Jovem, nomeado por Trajano, governador da Bitínia, ao ver o cristianismo firmemente implantado na Ásia Menor e os templos dos deuses quase desertos, informou o imperador daquele estado de coisas e perguntou-lhe se devia aplicar àquela multidão de cristãos de todas as idades, sexo e condição, a lei do extermínio sempre em vigor. Trajano, receando por uma parte despovoar o Império e querendo por outra exercer absoluto poder sobre os discípulos de Cristo, respondeu “que se não devia andar a inquirir quem era cristão, mas que, se fossem denunciados e recusassem sacrificar aos deuses, se lhes devia aplicar a lei”. Este édito imperial, que esteve em vigor durante todo o século II, fez mais mártires do que os éditos de Nero e Domiciano.

 

“Tende confiança, Eu venci o mundo”

Os cristãos, dali em diante à mercê de delatores, viram-se perseguidos pelos sacerdotes pagãos, filósofos e fariseus que, por ocasião da menor calamidade, não cessavam de denunciar os adeptos de Cristo como causa de todos os males. Ainda mais, o perdão concedido aos renegados constituía um prêmio à apostasia, o que podia trazer consigo muitas deserções.

Mas Jesus vigiava o seu rebanho. “O mundo há de meter-vos numa prensa — dissera Ele — mas tende confiança, Eu venci o mundo”.

 

Crescem as perseguições, triunfa o cristianismo

Durante o governo de Trajano, o terceiro perseguidor dos cristãos (98-117), foram martirizados, entre milhares de desconhecidos, o Papa São Clemente, o Bispo de Jerusalém São Simeão, os Santos Nereu e Aquileu e até membros da Família Imperial, como Flávia Domitila, que foi queimada com as suas duas damas. Nem sequer foi poupado o patriarca do Episcopado, Inácio, o santo bispo de Antioquia. Carregado de cadeias, foi Inácio conduzido a Roma para ser atirado às feras. Os bispos e fiéis tentaram tudo para o livrar do suplício. Ele, porém, suplicava que não lhe tirassem a coroa. “Nem as chamas, nem a cruz, nem os dentes do leão me metem medo — dizia — contanto que eu chegue até Jesus Cristo”. Do meio do anfiteatro, ao ouvir rugir as feras que o iam devorar, exclamava: “Eu sou trigo de Cristo, quero ser moído pelos dentes dos leões, a fim de me tornar um pão agradável a Nosso Senhor”. E, à semelhança daquele santo velho, legiões de heróis enfrentavam todos os suplícios por amor de Jesus Cristo.

 

“Tende confiança, Eu venci o mundo” – Cristo Pantocrator na abside da Catedral da cidade siciliana de Cefalù (Itália). Mosaico em estilo bizantino, 1170

Aumento dos mártires aumenta a expansão da Igreja

A Trajano sucedeu o imperador Adriano (117-136), grande amigo dos deuses e grande construtor de templos. Foi um dos mais cruéis perseguidores dos cristãos. Uma revolta dos judeus ofereceu-lhe ocasião para assolar, por segunda vez, a Judéia e profanar todos os lugares santificados pelo Divino Salvador. Uma estátua de Vênus foi colocada no Calvário e o ídolo de Júpiter foi levantado no Santo Sepulcro. Certo dia, ao consultar os deuses, responderam eles que os oráculos permaneceriam mudos enquanto a cristã Sinforosa com os seus sete filhos, recusasse sacrificar aos deuses do Império. Logo mandou o tirano que degolassem aqueles novos macabeus.

Adriano morreu pouco depois. O seu sucessor Antonino (136-161) tinha bom senso para não acreditar nos deuses e humanidade bastante para poupar o sangue dos seus súbditos. Mas a lei continuava sempre lei e as execuções, provocadas pelos delatores, prosseguiam. O cético Marco Aurélio (161-180) só acreditava nos mágicos e nos arúspices. Este homem, que blasonava de filósofo, consultou os oráculos no momento de uma invasão de bárbaros. Responderam-lhe que devia, para tornar propícios os deuses, matar todos os discípulos de Cristo. Logo deu ordem aos procônsules para matar todos os cristãos que recusassem oferecer incenso aos ídolos.

Nessa ocasião, caíram grande número deles em todas as províncias. Pereceram então Santa Felicidade com os seus sete filhos; São Justino, o Apologista; São Policarpo, ilustre bispo de Esmirna; e os mártires de Lyon (França), Potino, Atalo, Blandina e milhares de outros.

Mas o Reino de Cristo continuava sempre a se estender. Durante aquele século II, quatro imperadores, armados com todas as forças humanas, tinham empregado cada qual 20 anos em afogar os cristãos em sangue e a Igreja crescia em proporções incríveis na Europa, na Ásia e na África. Na Ásia Menor, os discípulos de Cristo formavam a maioria e por vezes a quase totalidade da população. A Igreja tinha os seus concílios, as suas propriedades, as suas escolas e os seus missionários que levavam o Evangelho muito para além das fronteiras do Império Romano.

Tertuliano podia, sem receio de ser desmentido, lançar aos perseguidores esta apóstrofe: “Somos de ontem e enchemos as vossas cidades, as vossas casas, as vossas fortalezas, os vossos municípios, os vossos conselhos, os campos, os palácios, o Senado, o Fórum. Só vos deixamos livres os vossos templos. Se nos separássemos de vós, ficaríeis sós e sobre o vosso império pairaria um silêncio de morte”.

 

Tentativa de afogar no sangue os cristãos

Esta multiplicação miraculosa dos cristãos pôs os imperadores do século III na alternativa de os deixar em liberdade ou despovoar o Império. Uns cessaram de os perseguir, mas seis dentre eles, Severo, Maximino, Décio, Valeriano, Aureliano e Diocleciano, juraram fazer triunfar os deuses, ainda que, para isso, tivessem de levantar ao pé dos altares montanhas de cadáveres.

Em 202, Severo fez tantas vítimas e inventou tão horríveis suplícios que os cristãos julgaram ter chegado aos dias do anticristo. Em Lyon (França), pereceram com o bispo São Irineu 19 mil cristãos. Em 225, o pastor Maximino, feito imperador, atirou-se aos discípulos de Cristo com tanto ódio, diz um historiador, como se fosse uma fera enjaulada. Atacou em especial os guardas do rebanho. Durante os três anos do seu reinado, mandou matar dois Papas e muitos bispos. Só Deus sabe o número de mártires que, por então, ensanguentaram Roma e as províncias. Em 240, o imperador Décio obrigou os cristãos, sem distinção de dignidade, idade ou sexo, a sacrificarem nos templos, sob pena de serem torturados até morrer. Expunham-se diante do padecente cadeiras em brasa e unhas de ferro. Ameaçavam-no com fogueiras e feras e davam-lhe a escolher entre a apostasia ou aqueles três diferentes gêneros de suplícios.

Na segunda metade do século III, Valeriano (253-262) continuou com as mortandades. Contam-se entre as suas vítimas dois Papas, o diácono Lourenço e o ilustre bispo Cipriano. Em África, punham os cristãos em filas e passavam logo os soldados a cortar-lhes a cabeça. Aureliano, filho de uma sacerdotisa do sol (270-275), julgou-se obrigado a afogar em sangue os que adoravam não o seu deus-sol, mas Aquele que alumia todos os homens que vêm a este mundo.

 

No Império Romano, 100 milhões de cristãos

Dez anos depois, quando Diocleciano subiu ao Império, poder-se-ia crer que aquelas carnificinas, cinco vezes repetidas, só teriam deixado na terra alguns raros discípulos de Cristo, que por acaso houvessem escapado à espada dos carrascos. Ora, por aquela época, o palácio do imperador, a guarda pretoriana, as legiões, a administração, a magistratura e o Senado, regurgitavam de cristãos. A imperatriz Prisca e a sua filha Valéria tinham recebido o batismo. Os historiadores avaliam em 100 milhões o número de fiéis disseminados por todo o Império quando chegou Diocleciano ao poder.

O Imperador tolerou-os durante os primeiros 18 anos do seu governo e é provável que os tivesse tolerado sempre, se Maximiano, seu sócio no poder, não lhe tivesse arrancado o édito que devia fazer desaparecer não só os cristãos, mas até os últimos vestígios do cristianismo. O édito de 302 prescrevia a todos os procônsules que demolissem as igrejas, queimassem os livros de religião e supliciassem todos os cristãos que recusassem adorar os ídolos.

A execução começou em Nicomédia, à vista do próprio imperador. Os pretorianos arrasaram a catedral; os oficiais e servos de Diocleciano foram degolados no palácio.

Os juízes, com tribunal nos templos, entregaram aos carrascos o bispo, os sacerdotes e os seus parentes e servos. Decapitaram os nobres e afogaram ou queimaram em massa a gente do povo. Mas os discípulos de Jesus, longe de sacrificar aos deuses, preferiam o martírio. Assim continuaram a degolar, durante dez anos, os que não conseguiam ocultar-se ou fugir. Os dois tiranos nem sequer poupavam os seus soldados em tempo de guerra. Como a legião tebana recusasse tomar parte num sacrifício pagão, Maximiano fê-la dizimar. E já, no seu louco orgulho, levantavam os imperadores duas colunas de mármore a Diocleciano-Júpiter e a Maximiano-Hércules, “por ter destruído o nome cristão”, quando o verdadeiro Deus deitou por terra aquele Júpiter e aquele Hércules. Diocleciano, ferido no cérebro, abdicou e deixou-se morrer à fome. Maximiano suicidou-se na forca. O seu filho Maxêncio continuou a perseguição, mas por pouco tempo.

 

Constantino tem a visão da Santa Cruz que lhe promete a vitória – Raphael Sanzio (1483–1520). Sala de Constantino, Palácio Pontifício, Vaticano.  

Constantino: Lutas e triunfo da Igreja

 Um homem providencial, Constantino, proclamado imperador pelas legiões da Gália, passou os Alpes para ir combater o tirano. Ao chegar junto do Tibre, rogou ao Deus verdadeiro (que ele ainda não conhecia), que lhe desse a vitória. E um prodígio deslumbrante, cujos pormenores ele próprio contou, respondeu à sua oração.

Inclinava-se já o sol para o poente, quando avistou por cima do astro rei, uma cruz luminosa e sobre ela esta inscrição: “In hoc Signo vinces — esta Cruz dar-te-á a vitória”. Os seus soldados foram, como ele, testemunhas da aparição. Na seguinte noite, estando ele a pensar neste estranho acontecimento, apareceu-lhe Jesus com o mesmo sinal e mandou-lhe que o gravasse nas bandeiras das legiões como um penhor certo de vitória. Constantino obedeceu. O lábaro — estandarte da cruz — dominou as águias romanas e os soldados, confiando no Deus que visivelmente os protegia, derrotaram Maxêncio e o seu exército no primeiro encontro. Encurralado contra o Tibre, o tirano afogou-se nele com os seus batalhões. E Constantino entrou em Roma e consigo fez entrar Cristo, no meio das aclamações do povo e do exército.

Feito cristão, o imperador proclamou, em solene édito, a liberdade da Igreja, levantou os templos destruídos, restituiu aos cristãos os bens confiscados pelos perseguidores e cobriu Roma com magníficas basílicas em honra de Cristo Salvador, dos seus apóstolos e dos seus mártires. Além disso, a fim de deixar a realeza suprema ao Deus da Cruz, cedeu-lhe a capital do mundo e foi levantar, para sede do Império, uma nova capital à qual chamou Constantinopla. A Roma dos falsos deuses tornou-se, assim, a Roma de Cristo. O trono de Simão Pedro substituiu o trono dos Césares; o estandarte da Cruz flutuou no alto do Capitólio e 100 milhões de cristãos nascidos no sangue de 11 milhões de mártires, repetiram, para glória de Jesus, vencedor do mundo, aquela profecia da Cesareia: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do Inferno não prevalecerão contra Ela” (Mt 16, 18).

 

“Venceste, Galileu!”

Mas o Inferno ainda não se dera por vencido. Um sobrinho de Constantino, Juliano, renegou publicamente a fé cristã. Exaltou os deuses e enriqueceu-lhes os templos, enquanto perseguia “o galileu, o filho do carpinteiro”. Os cristãos viram-se novamente excluídos de todos os cargos, excluídos das escolas e despojados dos seus bens. Começavam já as execuções sanguinárias, quando Juliano aprendeu à sua custa como é terrível pelejar contra o Deus vivo.

Depois de ter escrito contra a divindade de Jesus Cristo, Juliano anunciou um dia que ia provar a sua tese com um fato retumbante: a reconstrução do Templo de Jerusalém. O mundo verá assim claramente, dizia ele, que ao anunciar a ruína do Sinédrio e do seu Templo, Jesus não passava de um falso profeta. Milhares de operários preparam blocos de pedra e mármore e desfazem-se os alicerces do antigo edifício para assentar os fundamentos do novo.

No ano 363, reuniu-se no Moriá uma multidão para assistir ao lançamento da primeira pedra. E já os operários punham mãos à obra, quando, de repente, treme a terra, estilhaços de pedra voam pelos ares e caem sobre os assistentes. As casas vizinhas desabam com fragor e os espectadores fogem por entre mortos e feridos. Os operários voltam no dia seguinte, mas uns estranhos globos de fogo reduzem a cinzas homens e instrumentos. Na noite seguinte, desenhou-se nos ares uma grande cruz de fogo.

Após esta formidável derrota, foi Juliano à guerra contra os persas, prometendo que, depois da vitória, havia de exterminar os cristãos. No mais forte da refrega, uma flecha lançada por mão desconhecida atravessou o coração de Juliano. Atirando contra o céu o sangue que lhe saía da ferida, gritou com ódio insensato: “Venceste, Galileu!”.

 

A perseguição dos hereges arianos

Furioso com aquela nova derrota; o demônio suscitou contra Jesus a perseguição dos arianos. Ário, sacerdote de uma das igrejas de Alexandria, exaltava Cristo como a primeira e mais perfeita das criaturas, mas negava-lhe a natureza divina. Esta doutrina, que destruía o cristianismo pela base, era apresentada com tanta subtileza, que seduziu grande número de espíritos.

Deus fez surgir então uma plêiade de grandes santos: Atanásio, Hilário, Ambrósio, Jerônimo, Agostinho, Crisóstomo, Basílio e outros levantaram-se para defender a fé cristã. Contudo, não puderam impedir que o arianismo seduzisse imperadores, bispos e fiéis. De tal modo que no século IV o Império pareceu, por um momento, mais ariano do que cristão.

 

Encontro de São Leão X e Átila quando este quis invadir Roma – Raphael Sanzio (1483–1520). Sala de Eliodoro, Palácio Pontifício, Vaticano.

Invasão do Império Romano pelos bárbaros

Deus tinha, porém, outros desígnios. Para além das fronteiras romanas, nos vastos planaltos que se estendem do Reno ao Volga, e do Volga aos planaltos da Ásia, viviam inumeráveis tribos conhecidas pelo nome de bárbaros. Aquelas hordas primitivas e ferozes deitavam olhos invejosos para os belos países do Ocidente, delícias dos romanos. De repente, pelos fins do século IV esses povos agitam-se como se o próprio Deus os pusesse em movimento. E milhões de homens avançam, como torrente saída do leito, por todos os caminhos do Ocidente. Os hunos impeliam os godos, os godos impeliam os germanos e todos juntos inundaram o Império, cobrindo-o, durante um século, de sangue e ruínas.

Deus conduzia para Roma aqueles executores da sua justiça. Depois de ter devastado a Itália, Alarico, rei dos godos, avança para a Cidade Eterna. Um santo solitário roga-lhe que a poupe. “Eu não vou por minha vontade — respondeu o bárbaro — mas é que ouço continuamente aos meus ouvidos uma voz a bradar: Avança, avança, vai saquear Roma”. No ano 410 entrou na cidade dos Césares e entregou-a às chamas e à pilhagem. Templos dos deuses, estátuas dos imperadores e palácios faustosos desapareceram no incêndio.

Alarico só poupou as basílicas cristãs e os fiéis que nelas se refugiaram. E, assim, se cumpria a profecia do Apocalipse: “Caiu a grande Babilônia, ébria com o sangue dos santos e dos mártires!”

 

Deus usa dos bárbaros para flagelar o Império Romano

E a invasão continuou durante um século, a assolar todo o Império. Átila, rei dos hunos, lançou sobre a Gália 700 mil bárbaros. O furacão de ferro e fogo semeou ruínas na sua passagem. Depois de destruir 70 cidades, Átila encontrou-se às portas de Troyes, com o bispo São Lopo.

— “Quem és tu?”, perguntou o bispo.

— “Eu sou o flagelo de Deus!”, respondeu o bárbaro.

— “Flagelo de Deus, enviado para nos castigar — prosseguiu o bispo — faz só o que Deus te permitir”.

Átila recuou diante de São Lopo. No ano seguinte, avançava sobre Roma para a saquear de novo, quando o Papa São Leão, revestido dos paramentos pontifícios se apresentou diante dele e o obrigou a mudar de caminho. E como os hunos perguntassem ao feroz monarca por que razão cedera diante do Pontífice, disse:

— “Não foi ele quem me fez renunciar ao saque de Roma; mas, enquanto ele me falava, uma figura de dignidade sobre-humana estava em pé ao seu lado. Dos seus olhos saíam raios e tinha na mão uma espada nua. O seu olhar terrível e o seu gesto ameaçador forçaram-me a ceder às súplicas do Pontífice”.

O Império Romano desabava de todos os lados perante as investidas dos bárbaros. Impotentes para defender as suas províncias, os imperadores tinham visto os invasores estabelecerem-se na Gália, em Espanha e até em África. Em 476, outro chefe de tribo, Odoacro, apoderou-se de Ravena, depôs o último imperador, tomou o título de rei da Itália e acabou assim com o Império dos Augustos e dos Neros.

 

O esplendor da Cristandade medieval

Sobre as ruínas do mundo pagão, vai agora Jesus edificar o seu próprio Império. De todos aqueles elementos em fusão, vencidos e vencedores, romanos e bárbaros, nascerá a sociedade cristã, a mais bela de todas depois da sociedade do Céu. A Igreja ficara de pé no meio de tantas ruínas e, pela voz dos seus Papas, bispos, missionários e monges, fará daqueles pobres bárbaros verdadeiros filhos de Deus.

A primeira a cair aos pés de Jesus, será a nação dos francos. O seu rei Clóvis hesitava em reconhecer o Deus que a sua esposa Clotilde adorava. Mas um milagre acabou por lhe tocar o coração. No combate de Tolbiac iam as suas tropas ser esmagadas pelos batalhões inimigos: “Deus de Clotilde — bradou o rei — dai-me a vitória e eu juro fazer-me cristão”. No mesmo instante, os seus soldados tomavam a ofensiva e derrotavam os inimigos. Clóvis guardou a sua palavra. No dia de Natal do ano 496, recebeu o batismo juntamente com três mil dos seus guerreiros. A França foi assim a filha primogênita da Igreja.

Durante os três séculos que se seguiram, estendeu Jesus o seu Reino à Irlanda, à Inglaterra, à Península Ibérica, à Alemanha e à Itália. No ano 800, Carlos Magno, o bárbaro cristianizado, tinha sob o seu cetro uma grande parte da Europa, que ele governava, dizia, não como soberano, mas como simples delegado do Rei Jesus, o único Rei e Senhor.

 

Os Cruzados tomam Jerusalém – Émil Signol, séc. XIX. Palácio de Versalhes, França. 

“Assim na Terra como no Céu!”

No dia de Natal do ano 800, Carlos Magno, rodeado da sua corte e de muitos bispos, orava em Roma na Basílica de Latrão. De repente, apresenta-se o Papa Leão III diante do grande chefe da Cristandade e coloca-lhe na cabeça a coroa imperial. Uma longa aclamação ressoou pela enorme basílica: “Viva Carlos Augusto, pacífico imperador dos romanos, coroado pelo próprio Deus!” O império cristão tomava o lugar do império pagão. Jesus, Rei dos reis e Senhor dos senhores, reinava sobre o mundo por Ele vencido.

Na véspera da Crucifixão, antes de entrar no Jardim das Oliveiras, dissera Jesus aos apóstolos: “Tende confiança, Eu venci o mundo” (Jo 17, 33). Decorridos oito séculos — oito séculos de perseguições atrozes — tinha realmente vencido o mundo.

Reinava num imenso império que se chamava Cristandade. Os reis prostravam-se diante do Monarca supremo. As suas leis baseavam-se no Evangelho. Os povos viviam da sua vida, esforçando-se por lhe reproduzir as divinas virtudes. A partir de Constantino, durante 1000 anos, a Europa cobriu-se de igrejas e de mosteiros onde ecoavam perpetuamente os louvores de Cristo Salvador.

Sob a inspiração de São Bento, Santa Escolástica, São Bruno, São Domingos, São Francisco e Santa Clara, multiplicam-se as ordens religiosas, verdadeiros viveiros de santos e de mártires, votados de corpo e alma à glória de Deus. E todos os vassalos de Cristo, reis, cavaleiros, sacerdotes, religiosos e simples fiéis, sábios ou ignorantes, cheios de fé e de amor, apesar das suas paixões, recitavam a mesma prece e trabalhavam para o mesmo fim. “Venha a nós o vosso Reino! — diziam eles — seja glorificado o vosso Nome no mundo inteiro e faça-se a vossa vontade, ó Mestre divino, assim na Terra como no Céu!”

Quando os muçulmanos se lançaram contra os fiéis de Cristo, ameaçando destruir os Santos Lugares, a cidade de Roma e a própria Igreja de Deus, encontraram por toda a parte, em França, em Espanha, em Portugal, em África e no Oriente, os cavaleiros da Cruz que, durante longos anos, ao grito de “Deus o quer!”, derramaram o seu sangue para defender o rebanho de Cristo e acabaram por derrotar em Lepanto o crescente maometano.

Ao mesmo tempo, seguindo o rumo traçado pelo heroico Infante de Sagres, legiões de zelosos missionários, atravessavam oceanos desconhecidos para juntar ao Reino de Cristo os novos continentes descobertos. E já saudavam a aurora do grande dia em que, segundo a profecia do Salvador, haverá um só rebanho e um só pastor.

 

A “apostasia das nações”

Porém, esqueciam-se os cristãos daquela outra profecia do Salvador que, antes do seu completo triunfo sobre os seus inimigos e da sua segunda vinda à Terra, as nações cristãs, também haviam de passar por uma crise mais terrível que a perseguição dos imperadores romanos.

Com efeito, sucessivas revoluções a partir do Renascimento e da Reforma [a Revolução Protestante], prosseguiram com incrível tenacidade a descristianização da sociedade e dos indivíduos.

Com a Revolução Francesa e a Revolução Comunista houve quem quisesse destruir até os próprios fundamentos da civilização cristã e implantar na Terra um regime completamente igualitário, amoral e ateu.

Não tinha dito o Mestre na antevéspera da sua morte? “O mundo passará por uma tribulação tal, qual jamais se viu nem verá nunca outra semelhante. Deus lhe abreviará a duração por amor dos seus eleitos, porque naquele tempo se levantarão falsos cristos e falsos profetas, os quais se hão de assinalar com tais prestígios, que, se fora possível, induziriam a erro até os próprios eleitos” (Mt 24, 21).

E comentando São Paulo aos primeiros cristãos aquela palavra do Salvador, anunciava “que um mistério de iniquidade se formava na Igreja de Deus” (II Tess 2,7), isto é, heresias, cismas e seitas que conspirariam contra o Evangelho e a Cruz de Jesus.

Ele vê “surgirem, pelos fins dos tempos, inovadores, inimigos da doutrina sã, que voltariam as costas à verdade para aderir a todo tipo de erros” (II Tess 2, 3-4).

E então, dizia o apóstolo, viria a apostasia das nações, então aparecerá o homem de pecado, “o filho de perdição, o grande adversário que se levantará sobre tudo o que se chama Deus, até se sentar no Templo para se fazer adorar como único Deus” (II Tess 2, 3-4).

 

Juízo Final – Leandro dal Ponte, chamado Leandro Bassano (1557-1622). Museu de Arte de Birmingham, Alabama (EEUU)

O triunfo final de Cristo

Será esta a desforra do demônio e o último combate contra o seu vencedor, mas também a sua derrota suprema. “Com um sopro da sua boca, Jesus exterminará o anticristo” (II Tess 2, 7) e todos os sequazes daquele ímpio, testemunhas da sua queda, reconhecerão, enfim, o Homem-Deus e o proclamarão Rei dos reis e Senhor dos senhores.

São João assistiu, numa visão, à vitória do Triunfador. “Vi o Céu aberto — diz ele — e logo apareceu o Fiel, o Verídico, Aquele que julga e combate com justiça. Dos olhos dardejavam-lhe chamas; tinha na cabeça grande número de diademas e o seu vestido tinto no próprio Sangue. Chamava-se Verbo de Deus. Da boca saía-lhe uma espada de dois gumes com que fere as nações. E na orla dos seus vestidos liam-se estas palavras: 'Rei dos reis e Senhor dos senhores'. E vi então a besta, o anticristo e os reis da terra com os seus exércitos concentrados para combater o Verbo de Deus. E foi apanhada a besta e com ela o falso profeta que na sua presença tinha feito prodígios de sedução que levaram os apóstatas a receberem a besta e a adorá-la. Ambos foram precipitados vivos no tanque de enxofre e fogo; os seus exércitos cairão sob a espada do vencedor" (Apoc 19, 11-21), enquanto os exércitos angélicos entoavam este hino de triunfo: "O reino do mundo tornou-se o Reino de nosso Senhor e do seu Cristo” (Apoc 11, 15).

Era a proclamação solene da Realeza de Cristo sobre todos os povos da Terra. Despertados com tais trovões e alumiados pelo Espírito Santo, reconhecerão os povos o poder soberano do Filho único de Deus. Ao ver como Jesus, com um sopro da sua boca, aniquilou aquele anticristo, aquele rei das nações, ao qual tinham tomado por seu messias, os judeus estremecerão ao lembrar-se do seu deicídio, entregar-se-ão de alma e coração ao Deus que crucificaram e tornar-se-ão os mais ardorosos propagadores do seu Reino. “Se a sua queda — diz São Paulo — foi ocasião de se converterem os gentios, que não fará o seu chamamento? Será como uma nova vida, uma ressurreição dentre os mortos” (Rom 11, 11-12).

Judeus e gentios, unidos na mesma fé e no mesmo amor, levarão o Evangelho a todos os povos que o Sol alumia. E todos cairão de joelhos ao pé da Cruz, adorarão Aquele que deu o seu Sangue pela salvação do mundo e, conforme a profecia do Mestre, haverá um só rebanho e um só pastor.

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Notas:

1.        Cfr. Histórias: livro I-IIl, Instituto Antonio de Lebrija, Madrid, 1948.

2.        Cfr. op. cit., vol. II, pág. 48.

3.        Cfr. op. cit., vol. II, pág. 136.

4.        Cfr. op. cit., vol. II, pág. 176-177.

5.        Cfr. op. cit., vol. II, págs. 182 e ss.

6.        Cfr. op. cit., vol. II, pág. 218.

7.        Cfr. op. cit., vol. II, pág. 202.

* Texto extraído do livro Jesus Cristo, Vida, Paixão e Triunfo, Augustin Berthe, Livraria Civilização Editora, Porto, 2000, pp. 358-380. [Os subtítulos foram inseridos pela redação].