Blog da Família
2 de maio de 2026
Ambiente familiar na velha Europa
28 de abril de 2026
O Reino de Maria para que venha o Reino de Jesus Cristo
28 de abril é o dia fixado pela Santa Igreja para a festa litúrgica de São Luís Maria Grignion de Montfort, ardoroso missionário francês do século XVIII (o século de Luis XIV), doutor marial por excelência, nascido em 1673 e falecido no dia 28 de abril de 1716.
Entre suas numerosas profecias, uma que atrai especialmente a atenção foi o anúncio de uma Cristandade restaurada em todo seu esplendor — o Reino de Maria, como também previsto em Fátima.
Uma profecia feita há mais de 300 anos por por São Luís Grignion e que está registrada no seu célebre Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem (1712):
“Ah! quando virá este tempo feliz em que Maria será estabelecida Senhora e Soberana nos corações, para submetê-los plenamente ao império de seu grande e único Jesus? [...] Então, coisas maravilhosas acontecerão neste mundo [...]. Quando chegará esse tempo feliz, esse século de Maria, em que inúmeras almas escolhidas, perdendo-se no abismo de seu interior, se tornarão cópias vivas de Maria, para amar e glorificar Jesus Cristo? Esse tempo só chegará quando se conhecer e praticar a devoção que ensino, ‘Ut adveniat regnum tuum, adveniat regnum Mariae’”*. (Que venha o Reino de Maria, para que assim venha o vosso Reino - ou seja, o Reino de Jesus Cristo). [Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem, São Luís Maria Grignion de Montfort, Editora Vozes, Petrópolis, 1961, VI edição, tópico 217, pp. 210-211].
A seguir, para marcar este grande dia de São Luís Maria Grignion de Montfort, transcrevo um artigo de Plinio Corrêa de Oliveira, publicado no “Legionário” de 21 de outubro de 1945:
GRIGNION DE MONTFORT
✅ Plinio Corrêa de Oliveira
Como condição de vitória, sem se desprezar nem de leve as providências concretas, devemos contar essencialmente com os recursos sobrenaturais. A História demonstra que não há inimigos que vençam um país cristão que possua três devoções: ao Santíssimo Sacramento, a Nossa Senhora e ao Papa. Investigue-se bem a queda de nações aparentemente muito fervorosas em sua adesão à Igreja: alguma broca secreta as minava em uma dessas três virtudes-chave.
A vitória, pois, depende de nós. Tenhamos em dia nossa consciência, estejamos tranquilos em Deus, e venceremos.
* * *
Isto explica o extraordinário relevo que damos a uma notícia apagada, que os jornais reproduziram há pouco: a canonização iminente do Bem-aventurado Luiz Maria Grignion de Montfort.
A notícia nada significa para o comum das pessoas. Ela significa tudo, para os que conhecem o verdadeiro fundo das coisas. A Providência resolveu jogar sua bomba atômica contra os adversários da Igreja. Perto desta bomba, as convulsões de Hiroshima e Nagasaki não passam de inocentes tremedeiras. Há dois séculos que está pronta a bomba atômica do Catolicismo. Quando ela explodir de fato, compreender-se-á toda a plenitude de sentido da palavra da Escritura: "Non est qui se abscondat a calore ejus" [Não há quem possa subtrair-se a seu calor].
Esta bomba se chama com um nome muito doce. É que as bombas da Igreja são bombas de Mãe. Chama-se O Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem. Livrinho de pouco mais de 100 páginas. Nele, cada palavra, cada letra é um tesouro. Este o livro dos tempos novos que hão de vir.
* * *
Nosso artigo já está por demais longo, para que demos um resumo biográfico da extraordinária vida desse Bem-aventurado. Não sei de nenhuma, que seja mais empolgante e mais edificante. O que em nosso assunto é essencial, em poucas palavras se diz.
O Beato Grignion de Montfort expõe em sua obra no que consiste a perfeita devoção dos fiéis a Nossa Senhora, a escravidão de amor dos verdadeiros católicos à Rainha do Céu. Ele nos mostra o papel fundamental da Mãe de Deus no Corpo Místico de Cristo e na vida espiritual de cada cristão. Ele nos ensina a viver nossa vida espiritual em consonância com essas verdades. E nos inicia em um processo tão sublime, tão doce, tão absolutamente maravilhoso e perfeito, de nos unirmos a Maria Santíssima, que nada há na literatura cristã de todos os séculos, que o exceda neste ponto.
Esta devoção, diz Grignion de Montfort, unindo o mundo a Nossa Senhora, uni-lo-á a Deus. No dia em que os homens conhecerem, apreciarem, viverem essa devoção, nesse dia Nossa Senhora reinará em todos os corações, e a face da Terra será renovada.
De que forma? Grignion de Montfort esclarece que seu livro suscitaria mil oposições, seria caluniado, escondido, negado; que sua doutrina seria difamada, ocultada, perseguida; que ela suscitaria automaticamente uma antipatia profunda nos que não têm o espírito da Igreja. Mas que um dia viria, em que os homens por fim compreenderiam sua obra. Nesse dia, escolhido por Deus, a restauração do Reino de Cristo estaria assegurada.
Durante séculos, a canonização do Beato Grignion vem caminhando. Por fim, ela chegou a seu termo. É absolutamente impossível que esse fato não tenha um nexo profundo com a dilatação da Verdadeira Devoção no mundo.
E, nós o repetimos, é essa Verdadeira Devoção a bomba atômica que, não para matar mas para ressuscitar, Deus pôs nas mãos da Igreja em previsão das amarguras deste século.
Pois bem, nosso otimismo é este: confiamos imensamente mais na bomba atômica de Grignion de Montfort, e em seu poder, do que nós receamos da ação devastadora de todas as forças humanas.
25 de abril de 2026
Uma peculiaridade da devoção a Na. Sra. de Genazzano
A fim de assinalar a bela data que celebramos neste dia 26 de abril, a festividade de Na. Sra. do Bom Conselho de Genazzano, segue um trechinho de artigo de Plinio Corrêa de Oliveira, publicado na revista Catolicismo (Nº 212, abril/maio de 1968).
“Não é possível tratar de Nossa Senhora de Genazzano sem pôr em realce uma de suas peculiaridades mais importantes. Muitas das pessoas que recorrem à Virgem diante da Imagem de Genazzano ou de réplicas desta, têm afirmado que o semblante da Senhora lhos ‘responde’ às orações.Não que o faça falando ou movendo-se, o que constituiria manifesto milagre. Mas, sem nenhuma alteração propriamente miraculosa, algo do olhar e da expressão da Divina Mãe toma caráter particularmente vivo e impregnado de maternal alegria quando o fiel é atendido. E é à multiplicação deste favor que em boa parte se deve a expansão universal da devoção a Nossa Senhora do Bom Conselho de Genazzano”.
21 de abril de 2026
“Viver é estar juntos, olhar-se e querer-se bem”

Pintura representando
Dona Lucilia aos 92 anos
Fonte: Revista Catolicismo, Nº 903, abril/2026
O Dr. Adolpho Lindenberg, falecido aos 99 anos em 2024, foi um eminente colaborador de Catolicismo desde a sua fundação em 1951. Além de sempre se recordar, falar e escrever sobre a vida de luta de seu primo-irmão, Plinio Corrêa de Oliveira, reportava-se com saudades de sua “tia Lucilia”. Assim, em razão do sesquicentenário do nascimento dela, reproduzimos a seguir uma entrevista que o seu sobrinho nos concedeu em abril de 2018.
Nosso saudoso entrevistado, além de ter sido um constante colaborador desta revista, foi um dos fundadores da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP) e do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira. Engenheiro pela Universidade Mackenzie, sua atividade profissional sempre esteve relacionada com a Construtora Adolpho Lindenberg, uma das mais conceituadas do País, que se notabilizou pela reintrodução do estilo colonial e o lançamento do estilo neoclássico na construção de edifícios.
Catolicismo — Em
que época o senhor mais conviveu com sua tia Lucilia e com seu primo Plinio
Corrêa de Oliveira?
Dr. Adolpho — Na época em que éramos
crianças, e convivíamos na casa de nossa avó, Gabriela Ribeiro dos Santos, mãe
de Dona Lucilia. Vovó era uma senhora muito aristocrática, que marcou época na
sociedade paulista do início do século passado.
Catolicismo — Antes
de passarmos às perguntas sobre Dona Lucilia, desejaríamos conhecer algo mais
da personalidade de Dona Gabriela. Alguma lembrança que o senhor pudesse narrar
a respeito?
Dr. Adolpho —
Na
sala de visitas do apartamento onde morou tia Lucilia há uma bonita pintura de
minha avó Gabriela, num quadro muito elogiado por Dr. Plinio. Retrata uma bela
senhora matriarcal, que teve relações de amizade com a Princesa Isabel. Tia
Lucilia recordava-se do vovô Antonio (esposo de Dona Gabriela) como tendo sido
um homem boníssimo, pleno de qualidades, enquanto vovó Gabriela tinha deixado a
recordação de uma senhora bonita, imponente e inteligente. Quando eu era
menino, ela aparentemente me ignorava, mas só anos depois vim a compreender que
nessa atitude anti-igualitária ela demonstrava apenas uma segurança, uma nota
aristocrática e dominadora, uma superioridade diante da qual um menino
hesitava.
Catolicismo — Poderia
descrever como era o convívio no ambiente da casa de Dona Gabriela?
Dona Gabriela
Dr. Adolpho —
A família Ribeiro dos Santos se destacava pela loquacidade, e o convívio
naquele ambiente era animadíssimo. Conservo muitas lembranças e saudades desse
convívio com toda a parentela. Nem preciso dizer o quanto Plinio, com sua
vitalidade, colaborava nessa animação, por exemplo, formando rodas de conversas
agradabilíssimas. Ele proseava com muito bom humor sobre qualquer coisa, desde
grandes fatos históricos, passando por episódios ocorridos com nossos tios, até
as cores das pedras. Costumo lembrar o dito de Talleyrand: “Quem não viveu na França no período anterior à Revolução Francesa
[1789], não conheceu a doçura de viver”. Posso afirmar que algo dessa
“doçura de viver” existia em nossa família, na então pequena cidade de São
Paulo. Recordo-me de que, alguns meses antes da morte de Dr. Plinio, eu mantive
com ele uma conversa durante a qual ele se lembrou daqueles antigos tempos, no
convívio com sua irmã Rosée, seus primos e amigos na casa de vovó. Ele, muito
mais do que eu, sentia saudades do bem-estar desse pequeno microcosmo que era o
nosso ambiente familiar.

Dona Zili, em pé, a Fräulein Mathilde, à direita, com
as crianças da família. Sentado na frente está Plinio
Catolicismo — E
como era a presença de Dona Lucilia nesse “microcosmo” na casa dos Ribeiro dos
Santos?
Dr. Adolpho — Tia Lucilia dispensava
um trato muito cerimonioso às pessoas — com os filhos e sobrinhos, com seu
esposo, meu tio João Paulo, até com seus pais, pelos quais ela nutria uma
verdadeira veneração. Muito diferente de certas pessoas modernas, que usam um
trato excessivamente íntimo. Ela não apreciava esse tipo de comportamento
“sem-cerimônias”, por assim dizer, sem certa solenidade de atitudes. Ela era
solene por natureza, o que tornava o ambiente da casa de vovó muito agradável e
elevado.
Catolicismo — Quais
suas impressões sobre a figura de sua tia, e o que mais o impressionava nela?
Dr. Adolpho — Eu quase não comento
sobre o modo de ser de tia Lucilia, mas quando aparece uma boa oportunidade,
causa-me alegria poder falar dela. Não é fácil, para aqueles que não a
conheceram pessoalmente, compreender inteiramente sua figura. Impressionava-me
muito, além de sua amabilidade e paz de alma, a força de seu olhar. Olhar de
uma pessoa reta, honesta, e de uma superioridade ímpar. Quem não é reto e
honesto poderia até ficar envergonhado na sua presença. Olhar muito meigo,
muito bondoso, mas quem não estivesse com a consciência em paz não gostava
muito. Era o encontro de olhares entre uma pessoa virtuosa e outra sem virtude.
Muito me impressionava o olhar dela, que incentivava as pessoas a enfrentar as
dificuldades da vida.
Ela
foi muito emblemática do ideal perfeito de mãe, esposa, filha e tia. Católica
ao máximo, monarquista e tradicionalista, não pactuava com o relaxamento dos
costumes, com as modas extravagantes. Lembro-me dela visitando-me quando eu
ficava doente. Ela lia para mim livros interessantes que exaltavam o heroísmo,
como o livro dos Três Mosqueteiros. E
aplicava a leitura dando bons conselhos, advertindo-me dos perigos que poderia
enfrentar em minha vida. Ela me causava a impressão de ser uma senhora muito
cerimoniosa e de uma geração anterior. Nesse sentido, nunca tingiu nem cortou
curtos os cabelos, não se pintava, usava vestidos muito discretos.
Catolicismo — Dona
Lucilia era enérgica em exigir dos filhos o cumprimento dos deveres diários?
Dona Lucilia pouco antes
de seu casamento
Dr. Adolpho —
No
período anterior à Primeira Grande Guerra, notava-se a rivalidade entre a
França e a Alemanha. Muitos no Brasil pareciam divididos: os francófilos e os
germanófilos. Tia Lucilia amava a França, e meu pai amava a Alemanha. Assim,
apesar de tia Lucilia demonstrar equilíbrio, ele se queixava de sua cunhada.
Ela era de uma cortesia admirável, manifestava muito afeto às pessoas de bom
coração, mas era intransigente em relação às pessoas más, e não cedia ao erro.
Até no relacionamento com os filhos, mesmo sendo extremamente afetuosa, exigia
deles o cumprimento integral do dever, das obrigações diárias, etc.
Por
isso, elogiava para os filhos o modo de ser do alemão, disciplinado no
cumprimento do dever. E foi certamente por isso que ela escolheu para os filhos
uma governante alemã, a Fräulein Mathilde Heldman, fato que deixou papai muito
satisfeito... Dr. Plinio admirava muito essa Fräulein bávara, pois ela o ajudou
a apreciar o estilo de vida europeu, as tradições e a nobreza europeia, as
grandes famílias e figuras do Velho Continente. Com sua cultura, essa
governante colaborou na formação de Rosée e de Plinio e no aprendizado da
língua alemã, mas também do francês e do inglês.
Em
1912, num período em que Dona Lucilia sofria de cálculos biliares, ela viajou
de navio à Alemanha com vários membros da família — Plinio tinha apenas quatro
anos, e eu nem tinha nascido —, para submeter-se a uma cirurgia com um
especialista que era médico do Kaiser, o Dr. Bier. Certamente essa viagem
colaborou para aumentar nela e nos filhos a admiração pelo modo de ser alemão,
o amor à ordem, à disciplina etc.
Tia
Lucilia e a Fräulein Mathilde colaboraram para formar a Weltanschauung (visão de mundo) do Dr. Plinio. Podemos notar isso
em sua vida e em seus escritos, por exemplo, no livro Revolução e Contra-Revolução e em sua última obra, Nobreza e Elites Tradicionais Análogas.
Alguns de meus tios ficavam meio perplexos com essa Weltanschauung adquirida por Plinio, com seu modo de ser
categórico, e pareciam pensar: “Como é
que Lucilia, tão cordata, foi ter um filho tão afirmativo como esse? É
realmente inconcebível”.
Catolicismo — Como
explicar esse modo de ser categórico de Dr. Plinio, sendo sua mãe tão serena?
Dr. Adolpho — O que levou Plinio a
tomar posições categóricas foi sua luta contra-revolucionária em defesa da
Igreja e da Cristandade, embora temperamentalmente ele se assemelhasse à sua
mãe. Ele foi um menino muito plácido, pacífico, até fleumático, gostava de
ficar contemplando as coisas da natureza. Já contei que numa fotografia de
família aparece minha prima Rosée, menina de sete anos, andando por uma
calçada, muito atenta a tudo, levando pela mão o irmão, dois anos mais novo que
ela. Plinio parece distraído, tranquilamente contemplando alguma coisa.
Mas foi devido à sua luta que ele se viu obrigado a
tornar-se um polemista, um cruzado, a discutir para defender a glória de Deus.
Quando jovem, vivendo ainda em casa de vovó, ele analisava muito as ideologias
modernas enquanto penetravam nos modos e no pensamento de seus primos. E
procurava alertá-los, para rejeitarem o que aparecia de ruim no mundo moderno
com suas extravagâncias. Tia Lucilia também ficava assustada com as
extravagâncias que iam surgindo, as modas em geral.
Catolicismo — Portanto, ela
não foi uma mulher considerada “moderna”.
Dona Lucilia
em 1929
Dr. Adolpho — Tia Lucilia, com seu
temperamento calmo e modos aristocráticos, criava em torno de si uma atmosfera
tranquila, oposta às agitações do mundo dito moderno. Ela morreu no século XX,
mas, por assim dizer, contagiava as pessoas ao seu redor com aquela atmosfera
suave e tranquila do século XIX. Poder-se-ia mesmo falar em “atmosfera
luciliana”, usando uma espécie de neologismo. As pessoas podiam chegar aflitas
e agitadas à sua casa, mas ela as “serenava” com sua calma e carinho, e aos
poucos elas se livravam da agitação. O próprio Dr. Plinio disse que ela era
excelente consoladora das pessoas: “Quando
dela me aproximava, devido a alguma aflição ou numa situação sem saída, bastava
ouvi-la dizer 'meu filho, o que é?', e metade do problema já se desfazia”.
Ela resolvia com muita benevolência as dificuldades das pessoas, e elas saíam
contentes.
Catolicismo — O que o senhor diria sobre as devoções de
Dona Lucilia?
Dr. Adolpho — Muitíssimo devota do
Sagrado Coração de Jesus, tia Lucilia tinha especial predileção pela Igreja do
Sagrado Coração de Jesus, no bairro Campos Elíseos no qual ela residia, e lá
assistia às missas dominicais junto com seus filhos. Como se pode ver ainda
hoje, essa Igreja foi decorada com muito bom gosto, belos vitrais, pinturas e
imagens. Seu ambiente, com aspectos sobrenaturais, convida verdadeiramente à
piedade. Pode-se dizer que o bom temperamento dela e seu modo de ser
misericordioso tinham como motivação sua devoção ao Sagrado Coração, do qual
possuía duas imagens: uma num pequeno oratório em seu quarto; e outra talhada
em alabastro, sobre uma coluna no salão, diante da qual passava um bom tempo
rezando.
Tia
Lucilia enviou muitas cartas ao Dr. Plinio, quando ele viajava para alguma
cidade do Brasil ou do exterior. Eis o que escreveu numa delas: “Agradou-me imenso saber que, quando tens
saudades minhas, rezas diante do meu oratório. Eu também rezo tanto por ti. O
Sagrado Coração de Jesus, nosso amor, será tua salvaguarda e protetor, filho
querido do meu coração!”.
De
outra carta, escrita por Dona Lucilia quando meus primos eram adolescentes,
destaco estas linhas: “Você [Plinio] e Rosée são confiados a Deus antes de
nascer. Portanto, com fé e amor a Deus, vocês não poderão deixar de ser
felizes, tanto mais que por vocês eu rezo noite e dia, e é natural que as
preces de uma mãe católica, mesmo de tão pouco mérito, sejam atendidas por
Nossa Senhora, que também é mãe, e por Nosso Senhor Jesus Cristo”.
Para
pessoas de fora de seu círculo mais restrito de amizades, Dr. Plinio não falava
muito de sua mãe, mas para nós, quando indagado sobre o seu relacionamento com
ela, deixava claro o papel que ela exerceu a fim incrementar nele a fé católica
e aumentar sua devoção aos Corações de Jesus e Maria.
Catolicismo — Dr. Plinio deixava transparecer a sua gratidão a Dona Lucilia?
Dr. Adolpho —
Dr.
Plinio, certa vez, comentou o seguinte sobre sua mãe: “Era verdadeiramente uma senhora católica. Ninguém pode imaginar o bem
que ela me fez. Estudei sua bela alma com uma atenção contínua, e era por isso
mesmo que eu gostava dela. A tal ponto que, se ela não fosse minha mãe, mas a
mãe de outro, eu gostaria dela da mesma maneira, e daria um jeito de ir morar
junto a ela. Mamãe me ensinou a amar Nosso Senhor Jesus Cristo, ensinou-me a
amar a Santa Igreja Católica”. Difícil encontrar louvor maior de um filho
em relação à sua mãe.
Ela foi mãe modelar, tanto no incentivo ao bem quanto na
censura ao mal. Por exemplo, na correção de alguma travessura dos filhos e
sobrinhos, procurava fazê-los compreender no que estavam errados e como aquilo
não era do agrado de Deus, ao mesmo tempo em que incutia nos pequenos como era
belo agir com retidão. Mas também, quando alguma criança praticava algo
louvável, era a primeira a elogiar e incrementar nela o quanto a vida virtuosa
era deleitável.
Procurava
mostrar que, mesmo se tornando mais dura a vida de quem praticasse as virtudes,
a criança seria mais feliz cumprindo o dever, ficando assim com a consciência
tranquila. Às vezes tia Lucilia ilustrava sua repreensão ou seu elogio narrando
algum episódio da vida de antepassados, ou da história de pessoas que ela
conheceu. Com suas recordações do passado, ela exemplificava com pessoas que
fracassaram na vida por seguirem o mau caminho, ou pessoas que foram felizes
seguindo o bom caminho, apesar de ser mais difícil. Desse modo estimulava os
lados bons das crianças e incutia horror aos aspectos maus. Era admirável o
senso do bem e do mal, que ela possuiu de modo extraordinário.
Catolicismo — Certa
vez Dr. Plinio fez referência a uma provação à qual Dona Lucilia foi submetida
pouco antes do nascimento dele. Poderia contar para nossos leitores?
Dr. Adolpho — Neste caso, acho que
Plinio se referia a um fato que se passou em 1908. Quando ele estava por
nascer, o médico preveniu Dona Lucilia de que ela seria submetida a um parto de
risco, e tanto ela quanto o filho poderiam não resistir à intervenção
cirúrgica. Perguntou se ela concordaria em fazer um aborto, e desse modo
garantiria a sua vida. Ela ficou chocada com a pergunta, e respondeu: “Esta é uma pergunta que não se faz a uma
mãe. O doutor não deveria sequer cogitar em tal hipótese”. Ela confiou o
filho a Deus, o parto se deu com alguma antecedência em relação ao período
normal de nove meses, e Plinio nasceu com o peso abaixo do normal, mas logo
recuperou plena saúde e peso.
Catolicismo — Sobre
a formação que ela deu aos filhos, o senhor se lembra de algo especial?
Dr. Adolpho — A vida de Dona Lucilia
foi um exemplo de uma mãe caracteristicamente brasileira e católica.
Extremamente bondosa, serena e acolhedora, ela se dedicou afetuosamente, de
todo o coração, aos dois filhos Rosée e Plinio, assim como aos sobrinhos,
procurando incutir nos pequenos a catolicidade que a caracterizava,
proporcionando-lhes ótima formação religiosa.
Dr.
Plinio se lembrava de que, ao entrar em casa após alguma atividade externa,
sentia o ambiente muito acolhedor de sua residência — os ares “lucilianos”, por
assim dizer. Ele se recordava perfeitamente do modo como ela definiu o relacionamento
virtuoso e perfeito numa família: “Viver
é estar juntos, olhar-se e querer-se bem”.
Catolicismo — Esses
episódios são tão interessantes, que nos agradaria conhecer outros que o senhor
possa recordar.
Dr. Adolpho — Dr. Plinio também se
lembrava de que, ainda menino, com seus sete anos mais ou menos, lia livros
para crianças e fazia considerações sobre a pessoa de Nosso Senhor Jesus
Cristo. Com aquela idade, e contemplando as imagens d’Ele, chegou à certeza de
que Jesus Cristo era o Homem-Deus. Nisso muito lhe auxiliavam as narrações da
História Sagrada que tia Lucilia apresentava para os filhos. Essa formação
religiosa foi tão marcante, que aproximadamente naquela idade Plinio dava aulas
de catecismo aos empregados da casa, com base no que ouvira de sua mãe.

Quarto de Da. Lucilia, onde ela faleceu
Catolicismo — Dos
últimos momentos de Dona Lucilia, o que o senhor poderia nos dizer?
Dr. Adolpho — Numa reunião com Dr.
Plinio, alguém mostrou a ele uma fotografia de tia Lucilia bem idosa, na qual
transluzia muito a esperança do Céu e a confiança na misericórdia divina.
Mencionando o dito latino “Talis vita
finis ita” (tal vida, tal fim), ele comentou que toda a vida dela fora
assim, e assim ela caminhava para o final da vida. Nessa foto se percebia a
afabilidade, mas também a seriedade de uma pessoa que sofreu e estava
tranquila, pronta para se apresentar diante de Deus.
Plinio não assistiu ao desenlace final. Ele estava em casa,
mas em outro cômodo. Entretanto, um médico amigo a assistiu e fez uma narração
daquele último instante. Disse ele que naquele momento final, apesar da crise
cardíaca, tia Lucilia estava muito tranquila, e fez solenemente um grande Sinal
da Cruz. Com este sinal, despediu-se da vida e entregou sua alma a Deus aos 92
anos de idade.
20 de abril de 2026
150 ANOS DE UMA TRADICIONAL DAMA PAULISTA
![]() |
| Dona Lucilia em Paris (1912) |
Nossas homenagens no
sesquicentenário do nascimento de Da. Lucilia Ribeiro dos Santos Corrêa de
Oliveira, extremosa mãe do idealizador e principal colaborador de Catolicismo, o Prof. Plinio Corrêa de
Oliveira
Fonte: Revista Catolicismo, Nº 903, abril/2026
Nossos
leitores bem conhecem Plinio Corrêa de Oliveira. Pouco conhecem, entretanto, a
respeito de quem lhe deu a vida e o formou no amor de Deus, inculcando-lhe
desde a mais tenra idade a devoção aos Sagrados Corações de Jesus e de Maria e
o amor à Santa Igreja Católica Apostólica Romana, à qual ele dedicou toda a sua
vida, lutando incansavelmente em sua defesa e da civilização cristã dela
nascida e combatendo seus adversários.
Lucilia
Ribeiro dos Santos Corrêa de Oliveira pertencia à tradicional linhagem dos
paulistas denominados quatrocentões —
provenientes dos fundadores ou dos primeiros povoadores da cidade de São Paulo,
inclusive alguns bandeirantes. Dentre seus antepassados maternos, destacou-se,
durante o reinado do Imperador D. Pedro II, o Prof. Gabriel José Rodrigues dos
Santos (1816-1858), catedrático da renomada Faculdade de Direito de São Paulo,
advogado, orador brilhante, deputado provincial e mais tarde nacional.
O
Prof. Plinio sempre manifestou suma gratidão a Dona Lucilia pela formação
religiosa, moral e psicológica que ela lhe imprimiu. De uma esmerada educação e
modo de ser bem característico das famílias aristocráticas da São Paulo de outrora, ela possuía
uma cordialidade exemplar no trato com as pessoas. Era também de uma piedade
exemplar no trato com as coisas sagradas. Virtudes que tão bem transmitiu ao
filho, como que por osmose permeadas de alma a alma.
Certa vez, ele comentou que sua devoção ao Sagrado Coração de Jesus remontava à mais tenra infância, e que — conta-se entre seus familiares —, antes mesmo de aprender a pronunciar as palavras mamãe e papai, ela lhe ensinara a apontar para a imagem do Sagrado Coração quando lhe perguntavam onde estava Jesus, e as primeiras palavras que dela aprendeu a pronunciar foram Jesus e Maria.
A devoção ao Sagrado Coração de Jesus marcou profundamente a vida de Dona Lucilia, que soube bem comunicá-la ao filho, como se verá no texto que segue — assim como na entrevista que reproduziremos proximamente —, mas muitos outros aspectos podem-se destacar em seu caráter e em sua alma.
Assim, para homenageá-la neste mês em que recordamos os seus 150 anos, escolhemos para nossos leitores alguns comentários do Prof. Plinio que ressaltam primordiais aspectos dela.
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| Lucilia com 23 anos |
Inflexibilidade, suavidade,
gentileza, coerência
Durante um almoço, conversando com
discípulos, todos membros da TFP, que se encontravam na fazenda Morro Alto de
Nossa Senhora do Amparo (na cidade de Amparo, no interior paulista), em 12 de
agosto de 1988, pediram ao Prof. Plinio que explanasse sobre os principais
traços que mais admirava em sua mãe.
Não era de seu costume tomar a iniciativa de falar a respeito dela, mas
o fazia quando insistiam para que tratasse do assunto. Foi o que se passou nesse
almoço, cujo texto, extraído de fita magnética (K-7), reproduzimos a seguir.
Apenas o transpomos para a linguagem escrita o que fora dito de modo informal
numa conversa durante uma refeição.
* * *
“Constituía traço dominante da alma dela [Dona Lucilia] uma seriedade
grave, mas paradoxalmente muito suave;
uma pessoa muito certa e segura no julgar as coisas; um espírito muito ‘pão-pão,
queijo-queijo’, pouco sujeito a dúvidas.
Ela podia
hesitar no tocante a coisas pequenas e secundárias, mas nas grandes linhas
gerais da vida, nas convicções, no modo de tocar os seus afazeres, ela não
tinha um pingo de hesitação. Era feita de certezas — certezas calmas, lúcidas, de
quem via logo à primeira vista e
com muita nitidez o que era verdade e o que era o erro, o que era o bem e o que
era o mal, o que era o feio e o que era bonito. Ela aderia inteiramente
ao ‘Verum, Bonum, Pulchrum’
[Verdadeiro, Bom e Belo — três dos transcendentais do ser, como ensina a
filosofia escolástica. O Verum aponta
para a inteligência, o Bonum para a
vontade, e o Pulchrum para a
contemplação].
Uma alma com uma
honestidade, com uma limpidez, que faziam uma espécie de um só com ela. Uma
sinceridade que a levava a não querer senão o ‘Verum, Bonum, Pulchrum’. Aquilo que ela queria, queria mesmo,
fortemente, e o que não fosse isso ela rejeitava. A aceitação era aceitação
forte, a rejeição era a rejeição, a convicção era convicção, a negação era a negação
e a inflexibilidade verdadeiramente inflexível, mas suave e gentil.
![]() |
| Família Ribeiro dos Santos, da esq. para dir.: Antônio (Toni), Gabriel, Dr. Antônio, Da. Gabriela, Eponina (Yayá), Lucilia e a pequena Brazilina (Zili). [Foto de 1899] |
Acrescente-se a
isso uma tendência de espírito a ver as coisas sempre pelo lado maravilhoso e
pelo seu mais alto aspecto. Ela tinha um espírito muito
elevado. Quando se conversava com ela sobre determinado tema, tendia logo
a colocá-lo no mais alto, conforme seu feitio intelectual, como uma senhora e
mãe de família.
Junto com esses
aspectos, ela era uma pessoa que tinha ao mesmo tempo muita alegria de viver e
muita tristeza acumulada. Ela tinha ideia de como deveria ser a vida, e tinha
ideia de que a vida era um Vale de Lágrimas,
e que, portanto, normalmente as pessoas deveriam passar pelo sofrimento.
Ela nasceu em
Pirassununga [no dia 22 de abril de 1876], no interior de São Paulo, onde seu
pai advogava no começo de sua carreira. Depois, ele mudou-se para a capital [em
1893], onde fundou um escritório de advocacia e prosperou.
Ela, já idosa,
se referia a Pirassununga como se fosse o dia de ontem. Contava coisas de sua
cidade natal com verdadeiro encanto, por exemplo, dos colibris da cidade. Falava
que havia tantos que — numa sala da casa onde ficavam expostos dois
óleo-gravuras representando buquês de diversas flores — eles se iludiam e
batiam com o bico no vidro do quadro. Certa vez um deles bateu com tanto ímpeto
que caiu no chão, e que uma tia molhou o bico do beija-flor para ele se
recompor e voltar a voar. Mamãe contava isso, e um mundo de outros episódios,
mas tudo com pormenores, vendo o alcance simbólico das coisas, como, no caso, a
delicadeza e a beleza dos colibris.
Ela possuía um
espírito elevado, mas capaz de descer aos últimos pormenores e se entreter com
uma simples pétala de flor e outras coisas pequenas, mas também com recordações
dela em Paris, na Alemanha, no Rio de Janeiro ou com episódios da sociedade.
Ela gostava também
de contar muitos casos da vida quotidiana. Em todas as suas narrativas ela
revelava a variedade de sua alma, considerando os aspectos simbólicos e morais
com certo fundo religioso.
Lembro-me dela
falando das festas de seu tempo. Por exemplo, de um baile que houve no palacete
do Conde Álvares Penteado. Ela descrevia com pormenores a casa toda
ornamentada; que sua mãe, Dona Gabriela Ribeiro dos Santos (1852-1934), uma
senhora realmente muito bonita e de grande distinção, fora escolhida para
dançar com o Conde.
Sobre todas as
coisas mamãe gostava de comentar, desde o Conde até uma velha senhora de
Pirassununga; da visita que tinha feito a Neuilly-sur-Seine até a visita à
Princesa Isabel, mas tudo sob o ângulo de análises dos ambientes e costumes,
marcando os comentários com o aroma de uma boa formação moral.
Na família se
conversava muito sobre política, mas nisso ela não entrava, não tomava partido.
Entretanto, quando eclodiu a I Guerra Mundial, ela não aceitou que a Alemanha
invadisse a França. Quando foi atingida a Catedral de Reims, por um
bombardeio alemão, ela tomou aquilo como se tivessem atingido a própria casa
dela. Ela acordava cedo e ia ver nos jornais as notícias da guerra. Comentava
com meu pai, pois eu, muito menino ainda, não entendia.
![]() |
| Imagem do
Sagrado Coração que pertenceu a Dona Lucilia |
Entretanto, mamãe melhor se manifestava ela mesma nos momentos em que estava rezando. Nesses momentos, eu tinha impressão de que todas as qualidades dela cresciam e se estabelecia uma espécie de vínculo entre o Sagrado Coração de Jesus e ela — mas sem visões nem milagres ou revelações. Era uma espécie de relacionamento por onde toda a bondade dela, todo seu modo de ser era em parte produto da tradição brasileira, mas era muito mais fruto da devoção dela ao Sagrado Coração, que lhe comunicava a bondade d’Ele, as qualidades d’Ele. Tudo isso se realizava de modo inefável, mas enchia a alma dela e estabelecia uma consonância entre ela e todas as coisas da Igreja.
Quando [em 1919]
entrei no Colégio São Luís, dos padres jesuítas em São Paulo, compreendi
perfeitamente, pelo natural desenvolvimento do espírito de todo menino,
que mamãe podia significar algo
muito alto na minha vida, mas que não
era o paradigma de minha vida. Meu paradigma era a Santa Igreja Católica Apostólica Romana, como
meus professores jesuítas ensinavam.
Naquele tempo, eles ensinavam muito bem, ao menos para o meu intelecto de
criança. Falavam muito bem do Papa, da devoção que se deve ter a ele; promoviam
a devoção a Nossa Senhora; impulsionava a Congregação Mariana; falavam e
combatiam duramente os adversários da Igreja. Por exemplo, eles repugnavam o
movimento de insurreição dos liberais italianos contra os Estados Pontifícios
no século XIX, falavam mal da invasão de Roma, de Garibaldi etc. Ensinavam bem
tudo isso — o que, desde cedo, me fazia ir compreendendo a Revolução que visava
destruir a ordem cristã no mundo.
Naquela época de
menino, eu via dois valores diferentes: primeiro a Igreja, fonte da verdade; depois a Revolução, da qual, em
última análise, a ignomínia essencial era de se atirar contra a Igreja. Por
outro lado, eu olhava minha mãe e, como criança, me perguntava: o que valia
mais?
E a resposta que
me veio ao espírito foi: essas coisas não se dissociam, pois tudo quanto há em mamãe ela recebeu da Igreja.
E ainda me perguntava: nela, tudo é conforme a Igreja? Porque se algo nela não for conforme a Igreja,
eu prefiro a Igreja a ela, porque a Igreja foi fundada por Deus. Quero muito
bem à minha mãe, mas ela é uma criatura humana que pode errar como eu, como
qualquer um. E eu a reexaminava ponto por ponto. Inclusive fazia
perguntas a ela para saber o que pensava de certos temas. Ela passou comigo por
um ‘Santo Ofício’, por uma inquisição. Eu fui o ‘inquisidor’ dela. ‘Inquisidor’
afetuoso, respeitoso, meticuloso, inflexível. Nem preciso dizer que ela passou
nesse exame com nota 100...
A resposta a todas as perguntas — na cabeça de uma criança — era
invariavelmente a seguinte: ‘Isso é bom porque é conforme à Igreja, e não
porque é conforme a mamãe, senão enquanto ela representa — como uma boa
mãe de família deve representar — a Igreja. Mas o bem é a Igreja!’.
Um exemplo: eu
tinha um tio, irmão dela, que fazia parte do governo de São Paulo, era
Secretário de Estado. Na época arrebentou uma Revolução e o governo começou a
convocar os jovens para irem combater por essa Revolução.
Um dia, meu tio
estava se despedindo dela em casa e ela foi acompanhá-lo até à porta, e fui
junto. Quando chegou à porta da rua, ele — brincando, mas ela não percebendo
que era uma brincadeira — disse que ela precisava ‘dispor de tudo para que o
Plinio pegasse em armas e seguisse para o combate.’
Ela respondeu: ‘Não,
não vai não! Meu filho não vai combater nessa Revolução!’. Ele fingiu-se de
zangado: ‘Mas como não! É um dever da Pátria!’. Ela, com firmeza, disse: ‘Gabriel!
Fique bem sabendo, o Plinio não vai entrar nesse negócio!’. Meu tio sabia
que eu não iria, mas continuou a gracejar: ‘É, vocês são assim, hein? Mas se
fosse para defender a religião iria!’ E ela retrucou imediatamente: ‘Aí
naturalmente, Plinio seria o primeiro a ir…’
Fatos assim,
muito coerentes, aconteceram durante toda a vida dela até o fim. O último eu
não tive a alegria de assistir, por estar convalescente de uma grave crise de
diabetes. Mas o médico, Dr. Duncan, me contou.
Ele estava
amavelmente prestando assistência médica a ela e havia passado a noite em claro
junto à sua cama. Pela manhã, ele mandou a empregada me avisar no meu quarto
que mamãe estava com uma crise cardíaca fortíssima, e que estava prestes a
falecer. Eu então me levantei e fui para o quarto dela.
Quando cheguei,
ela tinha acabado de entregar sua alma a Deus, mas o Dr. Duncan me contou o
último gesto dela. Que quando chegou o último instante, mamãe fez o Sinal da Cruz
bem grande e imergiu na morte rumo à eternidade, mas com toda serenidade, decisão e força”.
* * *
Era o
amanhecer de 21 de abril de 1968. Naquele momento de dolorosa separação, o
filho osculou sua querida mãe e disse entre lágrimas: “Mamãe me ensinou a amar Nosso Senhor Jesus Cristo, ensinou-me a amar a
Santa Igreja Católica”. Haveria um obituário mais elogioso do que este?
No dia
seguinte, essa tradicional dama paulista, da qual Plinio Corrêa de Oliveira se
honrava de ter nascido, completaria 92 anos.
Numa carta a
Júlio de Mesquita Neto — ex-diretor de um famoso jornal que ecoou ofensas
caluniosas contra Dona Lucilia — o Prof. Plinio escreveu, em 15 de agosto de
1979, encerrando a missiva: “Beati mortui qui in domino moriuntur –
bem-aventurados os mortos que morrem em paz com Deus. Da paz do Senhor onde se
encontra, bem sei que minha querida mãe reza por mim. Segundo a ilimitada
bondade de seu coração, sei que ela também está rezando pelo autor da ofensa. E
pede que a este ninguém faça o mal feito a ela e a mim”.
A Dona Lucilia
nosso preito de homenagem e agradecimento pelo varão que gerou e formou com
caráter tão magnânimo e entregou como filho fidelíssimo da Santa Igreja
Católica.
É de origem
latina o nome Lucilia, cuja raiz é lux,
lucis. Etimologicamente, significa luminosa
ou iluminação, que pertence à luz, e
está também associado a clareza e a pureza (Cfr. Oxford Dictionary of First Names, 2ª edição, 2006, p. 186).
Que desde o
Céu, por tantos méritos de mãe autenticamente católica, ela ilumine ‘lucilianamente’ nossos caminhos, obtendo-nos
dos Sagrados Corações de Jesus e Maria a graça de continuar no rumo do bom
combate iluminado e empreendido por seu querido filho neste Vale de Lágrimas.
Da Redação de
Catolicismo
13 de abril de 2026
Pesquisas revelam o que os americanos pensam sobre questões morais
✅ Plinio
Maria Solimeo
Com uma população
estimada em 2025 entre 341,7 e 347,2 milhões de habitantes — crescimento esse impulsionado
principalmente pela imigração, apesar da baixa taxa de natalidade e das mortes —,
a sociedade americana está bastante dividida entre conservadores, liberais e
moderados. Os primeiros geralmente se concentram no Partido Republicano e têm
obtido aproximadamente 38% da intenção de votos contra 24% dos representantes
do Partido Democrata. Os moderados oscilam entre um e outro.
Nos últimos 30 anos a
polarização nos Estados Unidos atingiu níveis críticos, com os Democratas movendo-se
cada vez mais para a esquerda e os Republicanos mais para a direita. Por isso a
oposição entre os dois partidos cresceu também, indo além da compreensível incompatibilidade
entre inimigos existenciais e opositores, para muitas vezes chegar a afetar até
a governabilidade do país. Isso se torna manifesto, por exemplo, quando se
trata da aprovação da lei orçamentária do governo pelas duas casas do Congresso.
Por causa da constante
desavença entre republicanos e democratas, isso pode gerar uma paralisação ou shutdown
na aprovação do orçamento. Foi o que ocorreu concretamente no ano passado
quando, devido a um impasse político entre o Congresso e o Poder Executivo, o shutdown
forçou o governo a paralisar suas atividades não essenciais pelos 43 dias
que durou o impasse.
Essa polarização entre os
americanos é mostrada pelo Pew Research Center[i]
em interessante reportagem com o título “Republicanos e Democratas diferem
profundamente em questões sobre o aborto, a homossexualidade e a pena de morte
são moralmente errados”, baseado em duas pesquisas feitas por
experientes membros desse instituto, respectivamente de 24 a 30 de março do ano
passado com 3.605 americanos adultos, e de 5 a 11 de maio do mesmo ano com
8.937, sobre o que pensam sobre problemas morais.
Essas entrevistas foram
feitas com diferentes grupos de americanos divididos por idade, sexo etc. das
quais só apresentaremos algumas por questão de espaço.
O que pensa a
generalidade dos americanos sobre os problemas morais
O Pew Research, falando
dos americanos em geral, afirma: “Em uma ampla gama de questões, os americanos
expressam visões moralmente permissivas.” Dá como exemplo que 91% deles
afirmam que usar contraceptivos para evitar a gravidez não é moralmente errado,
40% acham que é moralmente aceitável, 51% pensam que não é uma questão moral,
enquanto só 8% julgam que é moralmente errado.
Já com relação ao
adultério eles são em geral mais conservadores, pois 90% julgam-no moralmente
errado, contra 9% para os quais não o é, enquanto apenas 7% afirmam que é
aceitável.
À pergunta sobre se é
moralmente errado ver pornografia, o número dos que concordam com essa
afirmação é de apenas 52%, contra 47% que afirmam que não é moralmente errado, 31%
julgam que não se trata de uma questão moral, e 15% que afirmam que é
moralmente aceitável.
Sobre o aborto, apenas 47%
dos entrevistados julgam-no moralmente errado. Somando-se os 52% dos que julgam
que não o é aos 21% que lhe são favoráveis e aos 31% que afirmam que não é uma
questão moral, temos que, no fundo, a grossa maioria dos americanos é favorável
ao aborto.
Com relação à
homossexualidade, apenas 39% dos entrevistados mostraram-se contrários. Uma
maioria de 60% julga que não é moralmente errado, ou seja, não são contra, 23% são
declaradamente a favor e 37% que isso não é uma questão moral.
Também sobre a
eutanásia, uma grossa maioria de 63% julga que não é moralmente errada, 34% julgam-na
moralmente aceitável, 29% dizem que ela não implica em questão moral e apenas
35% lhe são contrários.
Quanto à pena de morte,
64% dos entrevistados julgam-na moralmente certa, 38% moralmente aceitável e
26% que não se trata de uma questão moral. Apenas 34% julgam-namoralmente condenável.
A outra estatística que
nos interessa é a sobre o divórcio. Como era de se esperar num mundo tão
corrompido como o nosso, uma maioria de 76% considera que não é moralmente
errado, 31% que é moralmente aceitável, 45% que não implica uma questão moral,
e apenas 23% afirmam que ele é moralmente errado.
O que pensam os
jovens entre 18 e 29 anos
Em vários pontos, os
jovens entre 18 e 29 anos se mostram mais conservadores do que os mais velhos.
Por exemplo, na questão do divórcio, da fertilização in vitro e dos
anticonceptivos lideram os que julgam que isso é moralmente errado.
Já com relação ao
aborto, ao adultério, à eutanásia e à homossexualidade, eles são mais
complacentes que seus maiores.
Por outro lado, na
questão da pena de morte eles a rejeitam mais que os mais velhos, influenciados
pela propaganda da esquerda e de certos púlpitos.
É interessante notar que,
segundo o levantamento do Cooperative Election Study (CES) — uma das
mais abrangentes pesquisas eleitorais e populacionais do país —, 21% dos
integrantes da Geração Z declaram-se católicos, superando os 19% que se
identificam como protestantes. Essa inversão quebra uma hegemonia protestante
que vigorava há séculos.
Como vota cada
sexo
É curioso verificar que
em várias questões os homens se mostram mais conservadores que as mulheres. Por
exemplo, 28% deles julga que o divórcio é moralmente errado, o que ocorre
apenas com 19% das mulheres. Do mesmo modo, 51% deles julgam que o aborto
também é moralmente errado, enquanto o número de mulheres que compartem essa
opinião perfaz 44%. No tocante à homossexualidade, 43% dos homens consideram-na
moralmente errada, contra 37% das mulheres.
Essa tendência se
manifesta em outros pontos morais, como a fertilização in vitro, uso de
anticoncepcionais, eutanásia, adultério etc. nos quais os homens são sempre
mais conservadores que as mulheres.
O que pensam
Republicanos e Democratas
A respeito do aborto é
que há mais radicalização entre os dois partidos. Enquanto somente 24% dos
Democratas o consideram errado, 71% dos Republicanos são contrários ao
assassinato de inocentes.
Para 59% dos
Republicanos o homossexualismo é condenável, apenas 20% dos Democratas têm a
mesma opinião. 65% dos Republicanos julgam errado ver pornografia, número que
cai para 39% entre os Democratas.
O uso de contraceptivos
é apoiado ou visto com indiferença tanto por democratas — dos quais só 7% o
julgam moralmente errado — quanto por republicanos (9%).
Há menor rejeição por
parte dos dois partidos com relação à eutanásia, sendo que só a acham
moralmente errada 48% dos republicanos e 23% dos democratas.
Já com relação ao
adultério, a diferença entre os dois partidos na sua condenação é pequena: 93% dos
republicanos, e 88% dos democratas.
O divórcio, como se
podia esperar nesta época de quase amor livre, é rejeitado apenas por 33% dos
republicanos, que o acham moralmente errado, e por 13% dos democratas.
O que surpreende é que
48% dos republicanos achem a pena de morte moralmente errada, enquanto só 20% dos
democratas a condenem.
O fator
religioso que deveria orientar os votos
Não sabemos até que
ponto o fator religioso influenciou a votação das pessoas nessas pesquisas.
Pois, tanto para os católicos quanto para protestantes conservadores, esse fator
deveria ter pesado.
Segundo dados recentes
do Pew Research Center, as igrejas evangélicas históricas e pentecostais
têm apresentado uma queda contínua, especialmente entre jovens e adultos até 40
anos, sobretudo pela desfiliação religiosa e rejeição à politização das
igrejas. Enquanto o catolicismo apresenta uma estabilidade relativa, sustentada
principalmente pela imigração latina, que mantém o número absoluto de
católicos.
Somando-se as inúmeras
seitas protestantes, estas representam ainda 40% da população americana,
enquanto os católicos representam somente 20%. Contudo, os Estados Unidos têm
a quarta maior população de católicos do mundo, com 53 milhões de fiéis.
Se as pesquisas
tivessem sido feitas exclusivamente com estes, o resultado teria sido muito
diferente? Tememos que não. Pois hoje em dia, com a decadência religiosa e o
esquecimento dos princípios morais mais comezinhos, o casamento em declínio
sendo substituído por uniões ilícitas mais em uso, é cada vez menor o número de
católicos que ainda pautam sua vida segundo os princípios da Santa Igreja.
Para ilustrar nossos
leitores, vamos lembrar o que diz a Doutrina Católica sobre os vários pontos
abordados, seguindo o Terceiro Catecismo da Doutrina Cristã, ou Catecismo Maior
de São Pio X.
Aborto
– Pílulas abortivas
Está condenado no 5º.
Mandamento da Lei de Deus, não matar, porque o aborto espontâneo é um
verdadeiro assassinato de inocentes perpetrado pela própria mãe. E, sendo um
homicídio voluntário, classifica-se como um dos “pecados que bradam ao Céu e pedem à Deus por vingança”, pois sua
malícia é tão grave e manifesta, que provoca o mesmo Deus a puni-lo com os mais
severos castigos
Homossexualismo
Por ser um ser um ato
sensual contra a natureza, também é um dos pecados que bradam ao Céu e pedem a
Deus por vingança.
Adultério
– relações extramatrimoniais
A infidelidade
matrimonial está condenada pelo 6º. Mandamento da Lei de Deus “não pecar contra a castidade”, e pelo
9º. “Não desejar a mulher do próximo”
que, segundo o Catecismo de São Pio X, “proíbe
expressamente todo o desejo contrário à fidelidade que os cônjuges se juraram
ao contrair o matrimônio; e proíbe também todo o pensamento culpável e todo
desejo de ação proibido pelo sexto Mandamento”.
Eutanásia
Esta prática está
condenada pelo 5º Mandamento da Lei de Deus, “Não matar”. Diz o Catecismo: “Neste
Mandamento Deus proíbe ainda ao homem dar a morte a si mesmo, isto é, o
suicídio [...] porque o homem não é senhor de sua vida, como o não é da dos
outros”.
Divórcio
“O
Matrimônio é um Sacramento instituído por Nosso Senhor Jesus Cristo que
estabelece uma união santa e indissolúvel entre o homem e a mulher, e lhes dá a
graça de se amarem um ao outro santamente, e de educarem cristãmente seus
filhos [...] e não se pode quebrar senão pela morte de um dos cônjuges, porque
assim estabeleceu Deus desde o começo, e assim o proclamou solenemente Jesus
Cristo, Senhor Nosso”. [...] “O vínculo do matrimônio cristão não pode ser
dissolvido pela autoridade civil, porque esta não pode ingerir-se em matéria de
Sacramentos, nem separar o que Deus uniu”.
Pena
de Morte
A doutrina tradicional
da Igreja, baseada em São Tomás de Aquino, defendia a licitude da pena capital
em casos específicos, argumentando que retirar a vida de um grande malfeitor
que ameaça a sociedade é um ato justo e salutar para preservar o bem comum. Ele
comparava o criminoso a um membro gangrenado que deve ser amputado para salvar
o corpo social. A sentença deve ser proferida por uma autoridade pública
legítima, após julgamento justo, e não por vingança pessoal.
Entretanto, teólogos
modernos argumentam que, se o sistema carcerário for capaz de neutralizar o
criminoso sem a sua morte, isso diminui a necessidade da pena capital.
O que, com sobejas evidências, duvidamos
O Catecismo de São Pio
X está de acordo com a doutrina de São Tomás, a qual foi até há pouco pregada
pela Igreja: “É lícito tirar a vida do
próximo: durante o combate em guerra justa; quando se executa por ordem da
autoridade suprema a condenação à morte em castigo de algum crime; quando se
trata de necessária e legítima defesa da vida, no momento de uma injusta
agressão.”
Fertilização
in vitro
A Doutrina Católica
considera a fertilização in vitro (FIV) moralmente inaceitável, pois
separa a procriação do ato sexual conjugal e frequentemente envolve a
destruição de embriões. A Igreja ensina que os filhos devem ser concebidos
através de um ato de amor entre os cônjuges, não como um produto laboratorial,
respeitando a dignidade humana desde a concepção.
Esperemos que, pela intercessão de Nossa Senhora e de São José, Padroeira da Igreja Universal, tempos venham em que a sã doutrina católica e ortodoxa readquira seu lugar na Igreja como na época do Concílio de Trento, em que, ao lado das Sagradas Escrituras, estava a Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino, na qual os ensinamentos perenes da Santa Igreja orientaram e orientam até hoje os católicos amantes da tradição.
[i] O Pew Research Center é um think tank (laboratório de ideias)
apartidário com sede em Washington, D.C., que fornece informações baseadas em
dados sobre questões sociais, opinião pública, tendências demográficas e
hábitos de mídia nos EUA e no mundo. Ele é conhecido por ser uma fonte neutra
que não toma posições políticas ou de políticas.











