23 de junho de 2019

As cruzes e a felicidade


“Beau-Dieu” na fachada central da catedral
de Nossa Senhora de Amiens, França
Guilherme Félix de Sousa Martins

“Perseverai no meu amor. Se guardardes os meus mandamentos, sereis constantes no meu amor, como também eu guardei os mandamentos de meu Pai e persisto no seu amor. Disse-vos essas coisas para que a minha alegria esteja em vós, e a vossa alegria seja completa” (Jo 15, 9-11).

Com essas consoladoras palavras aos Apóstolos, nosso Divino Redentor, na véspera de sua Paixão, nos mostra o quanto deseja a nossa felicidade; e para torná-la possível, Ele morreu na cruz por nós. Não nos prometeu, evidentemente, a felicidade que o mundo promete. Nossas amargas experiências cotidianas provam com abundância que o mundo não cumpre suas falaciosas promessas, portanto não precisaríamos de comprovação científica para ter esta certeza.

A novidade, no entanto, é que instituições universitárias de renome começam a oferecer cursos especiais dedicados a ensinar aos universitários como conseguir a felicidade.1 Já se pode desde logo prever o insucesso dessa empreitada, pois a “alegria completa” mencionada no Evangelho de São João apresenta esta condição: “se guardardes os meus mandamentos”. E o que se conhece sobre a generalidade desses profissionais do ensino universitário leva-nos a prever que tal condição será sistematicamente ignorada, quando não ridiculizada.

Com efeito, as regras que Deus nos impõe, sob a forma de Mandamentos, são garantias para atingirmos o grau de felicidade possível nesta Terra. São como o corrimão de uma escada: servem de apoio no caminho ascendente para o Céu, e ao mesmo tempo preservam-nos das quedas a que estamos sujeitos pela fraqueza e concupiscência. Se a obediência a essas regras exige sacrifício — portanto, certo sofrimento —, maior sofrimento traz a desobediência a elas. 

O divórcio arruína a família


“Não me casei contigo porque te quisesse,
casei-me contigo para querer-te”.
Palavras do Chanceler alemão Otto von Bismarck
em resposta a uma carta de sua esposa
Johanna (ambos no quadro).
Um exemplo frisante nos foi oferecido em 12 de agosto último pelo insuspeito diário madrileno “El País”, versão on-line,2 com o título A economia do desamor. O autor analisa, a partir de dados estatísticos da Europa e dos Estados Unidos, as consequências do divórcio na vida financeira dos cônjuges. O cabeçalho já contém um significativo resumo: “Romper o vínculo familiar supõe, para as classes médias, uma viagem rumo ao empobrecimento”. Se bem que os aspectos econômicos não sejam os mais importantes no matrimônio e no divórcio, não se pode negar-lhes a importância. Afinal, a propriedade é o esteio da família; e a comunhão de bens, associada ao caráter indissolúvel do matrimônio como Nosso Salvador o instituiu, visa exatamente garantir a estabilidade da célula mater da sociedade.

A busca da felicidade fora das sendas iluminadas pelo amor de Deus não poderia conduzir a precipício maior que o divórcio. Do ponto de vista estritamente econômico, o divórcio “é um pedágio caro, pois quem passa por essa experiência perde, em média, 77% de seu patrimônio”. O autor o compara ao fenômeno astronômico do buraco negro: “O divórcio atrai e arruína o patrimônio com a mesma determinação com que essa geografia do espaço encarcera a luz e a matéria”.

Após uma análise toda ela voltada para as estatísticas — preocupada com os números, mas esquecida dos aspectos principais do matrimônio — o leitor é surpreendido por uma insólita conclusão: “Longe da geografia dos números, o estado ideal de todo casal […] é conviver como consta em uma carta que há mais de cem anos Otto von Bismarck escreveu a sua mulher. Naqueles dias, [as cartas] demoravam a chegar, ou não chegavam nunca. ‘Tenho medo de que te esqueças de mim’, anotou sua esposa. O chanceler alemão respondeu: ‘Não me casei contigo porque te quisesse, casei-me contigo para querer-te’. Oxalá a vida de casal transcorresse sempre como neste tempo do verbo”.

Ao que tudo indica, Bismarck compreendeu melhor que os liberais modernos o modo de encontrar a felicidade no matrimônio. No fundo, sua resposta — “casei-me contigo para querer-te” — pressupunha a determinação de vencer os obstáculos que ele desde o início divisara. Em linguagem católica, esses obstáculos chamam-se “cruzes”. São os sacrifícios que a obediência aos mandamentos supõe — aos casados, não menos que aos solteiros — sobretudo em um mundo paganizado, que rejeitou o jugo suave de Nosso Senhor.

Para atingir a “alegria perfeita”, a fórmula é clara: “perseverar no amor de Deus, guardando seus mandamentos”. Obviamente, com a assistência benfazeja da graça divina, inesgotável para aqueles que a procuram.
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Notas:
 Fonte: Revista Catolicismo, Nº 814, Outubro/2018

22 de junho de 2019

Cresce o círculo de influência da Contra-Revolução


   
Lançamento da Frente Parlamentar do Ensino Domiciliar, ocorrido no Congresso Nacional em 2 de abril de 2019 [Fotos: Cleia Viana / Câmara dos Deputados]

 ➤  Paulo Henrique Américo de Araújo

O auditório encontrava-se lotado. Todos os presentes pareciam muito à vontade, quase como se estivessem em casa. Homens, mulheres, casais jovens; e para completar, muitas crianças corriam e brincavam entre as poltronas, através dos corredores, deixando-se filmar e fotografar. Mas o leitor se enganaria, julgando tratar-se de festa de aniversário ou reunião de pouca importância. Não! Lá estavam vários deputados federais, jornalistas aglomerados; e na tribuna, uma Ministra de Estado.

Um menino mais ousado subiu correndo até a área das autoridades, e se escondeu sob a mesa junto da qual se achava a Ministra. A mãe, em estado avançado de gravidez, rapidamente alcançou o pequeno atrevido, e após pequena luta conseguiu retirá-lo daquele lugar inapropriado. Todos os que presenciaram a cena, inclusive a Ministra, sorriam e achavam graça.

A descrição que acabo de fazer é fidedigna. Eu mesmo a acompanhei, e seria facilmente confirmada por todos os presentes no lançamento da Frente Parlamentar do Ensino Domiciliar, ocorrido no Congresso Nacional em 2 de abril de 2019.1 A alegria distendida da cena pode surpreender o leitor, e foi certamente sentida pelos frequentadores dos carrancudos ambientes parlamentares de Brasília, assim amenizado pela presença incomum de tantas crianças em evento que dizia respeito a elas. 
As crianças amenizaram com sua presença o importante evento

Defender os filhos da corrupção moral

Por cima do debate sobre o ensino domiciliar (home schooling), durante aquela sessão as atitudes, o convívio, as maneiras de ser revelavam algo de profundamente distendido, gentil, suave, algo autenticamente brasileiro. Bem o oposto do que se costuma ver no Congresso: carrancas, manifestações furiosas, gestos histéricos, violentos até.

Como argumento mais recorrente a favor do ensino domiciliar, os deputados integrantes da Frente Parlamentar apontavam sobretudo a defesa da família, sob os aplausos entusiasmados da audiência. A Ministra Damares Alves foi especialmente ovacionada quando afirmou: “O Estado é laico, mas nós somos cristãos”.

Poderia haver nos presentes algumas discrepâncias de métodos, mas um princípio era compartilhado por todos: a educação das crianças cabe primeiro aos pais. Ao Estado cabe apenas a função supletiva, acessória. Os pais têm o direito e o dever de defender seus filhos, especialmente quando se sabe que o ambiente escolar está impregnado de doutrinação marxista e degradação moral. Assim, a bandeira do home schooling adquire, em linhas gerais, um inegável caráter contra-revolucionário.

Algumas ponderações e distinções se impõem. Em seu depoimento aos participantes, uma mãe de dois filhos com problemas mentais indicou que o home schooling não é para todos, mas sim para os pais que desejarem e tiverem condições para tanto. Para os militantes da esquerda, contrários à educação dos filhos em casa, deixou este recado, sob aplausos do auditório: “Nós não somos extra-terrestres!”. 
Foto: Cleia Viana/Câmara dos Deputados

Fracos argumentos contra o ensino em casa


A argumentação contrária ao home schooling alega que a educação cabe primeiro ao Estado, e secundariamente à família. Num evidente embaralhamento de conceitos, exemplifica com crianças hipotéticas, que fora das escolas públicas não teriam oportunidade de interação, convívio com pessoas diferentes (na verdade, recorrem a termos tendenciosamente manipulados, como “diversidade”, “socialização”, “preconceitos”, etc). Os pais que negam isso aos filhos são pejorativamente tachados de retrógrados, conservadores obtusos, religiosos fanáticos.

Nesse sentido, é reveladora a declaração de Telma Vinha, professora de Psicologia Educacional da Unicamp: “Se a família tem visões racistas ou preconceituosas, a escola tem que transformar esses valores em socialmente desejáveis. Cada família vai estar centrada nos seus valores e achar que são únicos, só que a gente tem que pensar que educa as pessoas para uma sociedade democrática, plural”.2

A mensagem da professora não poderia ser mais tendenciosa: deve-se corrigir as famílias de seus “racismos” e “preconceitos”, quer dizer, de seu posicionamento contra o homossexualismo ou contra a ideologia de gênero, por exemplo. E a escola se apresenta como o lugar ideal para libertar as crianças de tais ideias religiosas “radicais” e “discriminatórias” vindas dos pais...

Ainda mais ostensivamente contrária é a opinião da jornalista Renata Cafardo, num pequeno artigo para “O Estado de S. Paulo”: “Com 45 milhões de estudantes nas escolas brasileiras, o governo de Jair Bolsonaro escolheu priorizar em seus primeiros cem dias o ensino em casa, praticado por cerca de 7 mil famílias”.3 Note-se que o vozerio altissonante da esquerda em favor das minorias (sobretudo a autointitulada LGBT) aplaude qualquer iniciativa governamental que as favoreça, mas isso não vale para as minorias do home schooling, nas quais não reconhece o direito de existir.

Com esta comparação se percebe como a iniciativa da educação em casa tem causado dores de cabeça aos revolucionários de nossos dias. 

A reação anticomunista se fortalece


Após a referida reunião no Congresso Nacional, em 12 de abril o Governo Federal apresentou projeto de lei para regulamentação do ensino domiciliar.4 É claro que os contrários esperam barrar essa iniciativa, para manterem como obrigatória para todas as crianças a escola que no entanto qualificam como “plural”, “diversa” e “cidadã”. Os campos estão bem delimitados, nessa batalha que não deve terminar tão cedo.

O ambiente distendido e alegre no Congresso Nacional, por ocasião do lançamento da Frente Parlamentar do Ensino Domiciliar, em nada diferia das multidões pacíficas, tipicamente brasileiras, que se aglomeraram nas principais cidades do País a partir de 2013. Pois os pais que se preocupam com os perigos da doutrinação esquerdista e a degradação moral nas escolas acompanham e apoiam também as incontáveis outras reações sadias da opinião pública nos últimos anos — manifestações firmes, serenas, contra o socialismo e a imoralidade, sem nada de agressões nem agitações.

Esse panorama trouxe-me a recordação de uma entrevista concedida por Plinio Corrêa de Oliveira ao Prof. Marcelo Lúcio Ottoni de Castro, na ocasião em que este preparava sua dissertação de mestrado em História.5 Quando o diálogo tratava do desequilíbrio de forças da Revolução e da Contra-Revolução, especificamente entre as décadas de 60 e 90 do século XX, o entrevistado deixou claro o que pensava:

“No desequilíbrio de forças, a da Contra-Revolução aumentou mais. Por quê? Porque a Revolução se tornou mais radical. E tornando-se mais radical, muita gente que era da chamada ‘terra de ninguém’, entre Revolução e Contra-Revolução, se assustou e voltou para trás. São os ‘agredidos pela realidade’. Esses voltaram e acrescentaram em algo o círculo de influência da Contra-Revolução. Não ficaram propriamente contra-revolucionários, mas ampliou-se o círculo de influência da Contra-Revolução”.

A constatação acima se apresenta ainda mais verdadeira ao analisar os fenômenos de opinião pública ocorridos no Brasil recente. Nos 13 anos dos governos Lula-Dilma, aguçou-se uma reação veemente de grande parte dos brasileiros contra a cavalgata esquerdista. E aí está o fenômeno do “ensino domiciliar”, a comprovar o fato. Assim cresce o círculo de influência da Contra-Revolução.

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Notas

21 de junho de 2019

Mães corajosas defendem seus filhos face à investida de “Drag Queen”

➤  Marcos Machado 

Uma excelente notícia nos vem do EUA: mães fortes e corajosas se unem para fazer frente à misoginia[1] e sexualização de crianças levada a cabo por "Drag Queen History Hour"

O site do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira [2] publicou, em março deste ano, um artigo esclarecedor sobre o protesto da TFP americana contra o “Drag Queen”: “As reuniões (Drag Queen) geralmente acontecem em bibliotecas públicas, além de locais privados”. Durante esses eventos (dragqueen), homens vestidos de mulher lêem livros para crianças, geralmente sobre homossexualidade ou transgenderismo”.[3] 

Afirma a notícia, publicado por LifeSiteNews, SPOKANE, Washington, 19 de junho de 2019, que “Um grupo de mães e seus simpatizantes tomaram as ruas para mostrar sua oposição à Drag Queen Story Hour". [foto acima]


Nasce uma reação corajosa de mães em defesa de seus filhos 

“Um grupo 500 ‘Mom Strong’ (Mães fortes) e aderentes homens se reuniram do lado de fora da Biblioteca Pública de Spokane South Hill (Washington) no sábado, 15 de junho. O evento da tarde, que atraiu mais de 200 apoiadores, ocorreu no lado oposto da rua da biblioteca. Apresentava vários grupos de igrejas. 
“500 ‘Mom Strong’ é um grupo fundado no Facebook por Anna Bohach [foto], uma mulher que acredita que os eventos de ‘dragqueen’ da biblioteca são tanto misóginos quanto tentativas de sexualizar crianças. 
“Bohach começou o grupo quando descobriu que a Biblioteca Spokane South Hill Branch ia sediar uma "Hora da História de Drag Queen" em 15 de junho. Um anúncio oficial do evento prometia "uma edição especial brilhante do storytime". "Vamos compartilhar histórias de identidade e inclusão e celebrar a criatividade com um ofício", continuou o anúncio. 
“Bohach, que tem quatro filhos, está casada há 13 anos. Ela disse à LifeSiteNews que sempre dissera a si mesma que faria alguma coisa se a Hora das Histórias de Drag Queen chegasse a Spokane. O pedido de ação chegou quando sua mãe telefonou para ela com a notícia da hora da biblioteca de Spokane. ‘Acho que veio de Deus’, disse Bohach. Veio à minha cabeça que eu e um grande número de mães deveria fazer algo sobre isso." 

Drag Queen é ofensivo às mães e aos filhos 

“500 Mom Strong é um grupo de mulheres que se cansaram da sexualização de seus nossos filhos e da zombaria de nossa feminilidade", escreveu ela. “Isso é misoginia; dragqueens são muito ofensivos para as mulheres. São caricaturas grotescas hiper-sexualizadas das mulheres. Eles zombam das mulheres e degradam nossa feminilidade. Uma dragqueen não é diferente de um racista vestindo uma cara preta. 

“A biblioteca que hospeda um evento como esse ensina aos nossos filhos que as mulheres são apenas objetos sexuais e ensina às nossas filhas que elas devem ser excessivamente sexualizadas para serem desejadas. 

"Basta! Dizemos NÃO a uma agenda política voltada para a degradação de mulheres e a sexualização de crianças. Nós dizemos não à ideologia de gênero!” 

“Implacável, a mãe forte espera que outras mães se inspirem em sua luta contra a misoginia de dragqueens e Drag Queen Story Hour. ‘Meu objetivo é de 500 mães’, disse ela à LifeSiteNews. ‘Eu quero somar 500 mães em cada estado que trabalhem juntas para pará-lo em seu estado’. Este não é um sonho impossível”. 
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Um belo exemplo de como a reação conservadora está viva nos EUA. Iniciativas de verdadeiras mães de família preocupadas com a formação moral de seus filhos, que se unem e protestam (pacificamente) nas vias públicas. 

Uma iniciativa a ser tomada como exemplo para mães brasileiras quando a Ideologia de Gênero quer conspurcar as crianças e adolescentes, inclusive nas Escolas brasileiras. 

Diz a Sagrada Escritura: Ai daquele que escandalizar a um desses pequeninos: “Melhor lhe seria que se lhe atasse em volta do pescoço uma pedra de moinho e que fosse lançado ao mar, do que levar para o mal a um só destes pequeninos. Tomai cuidado de vós mesmos” (Lc 17, 2).

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O vídeo mostra, durante uma atuação pública contra atividade “Drag Queen” em escolas, uma transgênero que tenta destruir uma Imagem de Nossa Senhora de Fátima.
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1. Misoginia é a repulsa, desprezo, ódio ou aversão às as mulheres. Essa sim, seria uma iniciativa digna de louvor em defesa da mulher se as feministas fossem sinceramente femininas.
2. https://ipco.org.br/ativista-pro-transgenero-ataca-a-estatua-da-virgem-maria-durante-vigilia-de-oracoes-contra-o-drag-queen/#.XQuJtIhKiUk 
3. https://www.lifesitenews.com/news/500-mom-strong-group-leads-rally-against-drag-queen-story-hour

21 de maio de 2019

Um dia internacional da mulher, mas diferente

Grã-duquesa Maria Pavlovna da Rússia
Paulo Henrique Américo de Araújo 

Todos anos, no dia 8 de março, uma enxurrada de reportagens nas diversas mídias comemora o chamado “Dia Internacional da Mulher”. O ano de 2019 não deixaria de trazer a cantilena de sempre, e o sentido de revolta contra as normas católicas de comportamento se repete na leitura de qualquer publicação sobre o tema.

Bem significativa, neste sentido, é a informação do “Correio Brasiliense” sobre uma manifestação feminista no centro de Brasília,[1] na data mencionada. Jolúsia Batista, uma das organizadoras, ressaltou os objetivos do ato: “É dia de expressar uma luta organizada. Mas a luta é diária. Somos contra o conservadorismo do governo atual e contra o fundamentalismo cristão. Somos pró-legalização do aborto e contra a reforma [da previdência] como está, pois agrava o cenário, principalmente para as mulheres. Somos contra qualquer tipo de retrocesso”.

Não é meu intento analisar aqui o conteúdo da declaração (ou a ausência dele), nem fazer comentários sobre a agenda das manifestantes. Deixemos de lado esses aspectos, pois todos estamos saturados desse feminismo tacanho, distorcido e anticatólico. Em face dos devaneios feministas, parece-me a melhor iniciativa opor a eles exemplos de atitudes que ressaltam o real valor das mulheres. Lembrar modelos contrários ao do feminismo tem o efeito salutar de desintoxicar as pessoas do veneno que ele vem disseminando. E se as pessoas se deixarem desintoxicar, é bem possível que no futuro as comemorações do dia internacional da mulher realmente enalteçam as virtudes femininas características.

Alta nobreza na atitude de uma mulher

Um desses exemplos me caiu recentemente nas mãos, com a leitura das memórias da grã-duquesa Maria Pavlovna da Rússia,[2] prima-irmã do último czar Nicolau II. Nascida em 1890, ela viveu durante o auge da crise do Império Russo, passando pela Primeira Guerra Mundial, e finalmente pelas trágicas convulsões da revolução comunista. Com muita dificuldade ela conseguiu escapar da Rússia, ao mesmo tempo que os bolcheviques massacravam os membros da nobreza, inclusive seu próprio pai.

O período que nos interessa compreende a grande guerra de 1914-18. Como muitas mulheres da mais alta nobreza, a grã-duquesa Maria se engajou como voluntária para o serviço de enfermaria das tropas russas. Exerceu essa função com máximo empenho, durante quase todos os quatro anos do terrível conflito. No início, como simples auxiliar de enfermagem, e depois como enfermeira, procurando ocultar sua identidade para poder trabalhar em qualquer tarefa que lhe fosse requisitada, além de evitar lisonjas ou louvores. Depois, como seu prestígio e experiência aumentassem, assumiu o comando de um importante hospital de campanha.

Um pequeno episódio revela como, apesar de ser prima do imperador, Maria não procurava ostentar sua posição diante das tropas. No início da guerra, em uma aldeia perto do front de batalha, acabara de chegar um oficial com a mão ferida. Ao ver o grupo de enfermeiras, das quais uma era a princesa, ele perguntou:

— Irmãzinhas, não tereis por acaso uma atadura limpa para trocar o meu curativo?

O oficial não distinguia a grã-duquesa entre as enfermeiras. O tratamento que ele usou (irmãzinhas) para se dirigir a elas se explica pelo fato de as enfermeiras se trajarem à maneira de freiras. Maria se ofereceu de imediato para trocar o curativo. Enquanto o fazia, outro militar se aproximou sem que ela percebesse, e perguntou:

— Vossa Alteza Imperial permite que eu a fotografe?

Confusa, a princesa-enfermeira voltou-se, reconheceu o militar, e suplicou:

— Não, não faça isso, pelo amor de Deus!

Logo ela notou que a mão ferida da qual cuidava começou a tremer. O oficial ferido examinava-lhe atentamente o rosto, abaixando o olhar mais de uma vez, antes que o curativo estivesse concluído. A princesa permanecia em silêncio.

— Permite-me agora que lhe pergunte quem é? Indagou o oficial.

Maria não via mais motivos para ocultar seu nome, e após a revelação, o ferido outra vez lhe perscrutou o rosto em silêncio, e repentinamente ajoelhou-se na calçada, diante de todos, tomou nas mãos a barra do vestido da princesa e o osculou. Ela mesma conta que ficou perturbadíssima; e sem olhar para o oficial, sem despedir-se, fugiu em direção à farmácia.

Este belo fato revela muito mais do que a manifestação do respeito e admiração dos russos pelos membros da nobreza. Também não se trata apenas de um episódio no qual a força militar — a força física, diríamos — reconhece a superioridade de uma frágil enfermeira. Há no episódio algo mais revelador da mentalidade do russo, que a própria grã-duquesa explicita em suas memórias:

“A atitude dos soldados em relação a nós [enfermeiras] era profundamente tocante. Dir-se-ia que personificávamos para eles tudo o que lhes era caro, tudo o que lhes tocava o coração. Com nossas toucas brancas, representávamos de certo modo esse ente feminino superior, no qual se reúnem as qualidades de mãe e de esposa completadas pelas de religiosa, concepção especialmente apreciada pelo povo russo”. 

Aí está! A superioridade feminina se expressa justamente naquilo que ela tem de autêntico. Superioridade essa invariavelmente rejeitada pelas feministas radicais de hoje. Pergunto-me qual seria a reação daquelas manifestantes do dia 8 de março, se alguém lhes propusesse realçar esse tipo de elevação feminina...
Thomas Bruce o assassino de Jamie Schmidt (foto abaixo). No fundo, o lugar do crime.

Ato heróico de uma mulher não feminista 

Cito outro exemplo, agora dos dias atuais.[3] Em novembro de 2018, Jamie Schmidt entrou numa loja de artigos religiosos católicos na cidade de Saint Louis, Estados Unidos. Duas funcionárias ali trabalhavam na ocasião. Momentos depois, Thomas Bruce chegou ao estabelecimento, trocou algumas palavras com as mulheres e saiu da loja. Depois tornou a entrar, mas desta vez armado com uma pistola.

Diante da ameaça, as duas funcionárias foram obrigadas a se despir, e em seguida foram abusadas sexualmente pelo canalha. Jamie – católica praticante, casada e mãe de três filhos – forçada a permanecer num canto da loja, testemunhou a horrível cena. Thomas então se aproximou, e apontando-lhe a arma, ordenou que ela também se despisse. Tudo que havia ocorrido com as outras duas mulheres se repetiria, mas...

Em momentos drásticos como esses surgem demonstrações de força de alma e personalidade que impressionam. O mais fácil para Jamie seria, talvez, tentar convencer o malfeitor com palavras meigas ou lágrimas desesperadas, numa chance de apaziguar seu ímpeto tresloucado; ou simplesmente ceder diante do perigo, e se deixar agredir sexualmente.

Não! Essa autêntica católica escolheu enfrentar a situação com uma dignidade cheia de fé – uma nova mártir da pureza, a exemplo de Santa Maria Goretti. A resposta à ordem do agressor foi pronta e irredutível:

— Em nome de Deus, eu não vou tirar minhas roupas!

Jamie Schmidt
O abusador deve ter percebido que ali não haveria meio termo nem acordo. Só lhe restava um único recurso: a violência. Disparou à queima-roupa contra o peito da mulher. Por mais paradoxal que possa parecer, essa atitude covarde revela quem só tinha mais força física: Jamie, obviamente! Ela morreu minutos depois, numa ambulância a caminho do hospital. Nos últimos suspiros, testemunhas ouviram Jamie recitar o Padre-nosso. O monstro-agressor foi preso após fugir, e responde pelo crime bárbaro diante dos tribunais. Espera-se que seja condenado à pena de morte.

Algum movimento feminista se lembrou da atitude honrada de Jamie Schmidt? Por que não exaltar o ato heroico daquela mulher, no dia internacional da mulher? Não espere nada disso, pois há muita coisa distorcida no movimento feminista...

Em razão de tudo isso, o site Returntoorder, impulsionado pela TFP norte-americana, está ajudando a promover uma campanha de substituição do dia internacional da mulher por outro muito diferente: o Lady Day. “A alternativa católica é chamada de Lady Day [Dia da Senhora ou da Dama]. O tema de 2019: ‘Comemorando a pureza e a coragem das mães’. [...] Uma resposta positiva, jubilosa e esperançosa no sentido de celebrar e honrar o plano de Deus para as mulheres, enquanto mães puras e corajosas”.[4]

Nada melhor do que o atualíssimo exemplo de Jamie Schmidt para contrapor à revolução feminista e ao seu fraudulento e midiático dia internacional da mulher.

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Notas 
1.https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2019/03/08/interna_cidadesdf,741838/didia-internacional-da-mulher-leva-2-mil-pessoas-a-area-central-de-bra.shtml 
2. Memórias, Maria, grã-duquesa da Rússia, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, sem data de publicação. 
3. http://www.returntoorder.org/2018/12/how-to-die-a-glorious-death-and-gain-honor/ 
4. http://www.returntoorder.org/2019/02/lady-day-2019-celebrates-purity-and-courageous-motherhood/

10 de maio de 2019

Notre Dame de Paris, a luz e as chamas

➤  Nelson R. Fragelli 

No tempo longínquo em que a reforma litúrgica imposta pelo Concílio Vaticano II encontrava adeptos ardentes, a celebração da Missa foi adquirindo um tom festivo, com canções novas e sermões otimistas exibidos em meio a representações cênicas deploráveis. Tudo sob medida para a Missa perder seu conteúdo de mistério. 

Com um grupo de amigos da TFP francesa, íamos à Missa dominical em Notre Dame de Paris. Um velho cônego da Catedral, hostil à reforma pós-conciliar, celebrava a Missa de acordo com Ordo tradicio0al, que São Pio V estabelecera durante o Concílio de Trento, como forma de combate ao laicismo protestante. Disposições pós-conciliares relegaram o Ordo de São Pio V à categoria de cerimônia apenas tolerada, e a nossa Missa em Notre Dame tinha que ser celebrada às oito horas da manhã, “escondida” num altar lateral. Nessa hora quase não havia frequentadores ou visitantes da catedral, mas o que certos hierarcas temiam era a força da tradição. 


Ambiente de grandeza e mistério 

Durante o inverno, a catedral fechada, ainda envolvida nas últimas sombras do alvorecer, parecia repousar. Tão imponente e majestosa, que preferíamos manter-nos em silêncio, mesmo estando do lado de fora, enquanto junto a ela aguardávamos que se abrissem as portas. Pontualmente às oito horas, dentro do santuário velhas aldravas e fechaduras rangiam, e o grande portal estremecia ao abrir-se apenas uma passagem de pequenas dimensões, existente na sua parte inferior.

Ao entrar, nossa primeira impressão agradável era sermos recebidos por uma espécie de “hálito da catedral”. Era o alento dos séculos, no qual se juntam o odor do incenso, a umidade das pedras, a fragrância de flores ressequidas, emanações enigmáticas de idades imemoriais. Odores da continuidade numa possante tradição, característicos dos edifícios seculares. 

Ainda na obscuridade, a catedral nos apresentava então as suas vastidões e o seu silêncio. Uma floresta bem ordenada de colunas, traves e nervuras, onde nada se movia. Na imensidão do templo imerso em denso silêncio, presenças invisíveis se impunham aos sentidos, como a de anjos que habitam espaços sagrados. A amplitude das naves e a altura dos arcos góticos se dilatavam aos nossos olhos, pasmados ao perscrutarem as altas ogivas de um extremo a outro de sua extensão. A sacralidade daqueles espaços benditos nos atraía, tornando lento nosso caminhar para o altar distante onde nosso venerável Cônego celebraria. Grandeza e mistério envolviam os sentidos, criando um instante passageiro no qual a eternidade se fazia sentir. 


Guerras e a inclemência dos tempos tinham destruído os vitrais junto à entrada. Substituídos por outros — monocromáticos, de tom esverdeado, inexpressivos — não tinham o esplendor dos painéis originais, cujas imagens narravam histórias santas em cores feéricas. Mas durante a Missa eu podia contemplar minúcias de grandezas: figuras da Natividade de Cristo, cujas faces de comoventes canduras se apresentavam como recém-saídas da mão do Criador; simples traços fisionômicos de personalidades acessíveis, revelando intenções firmes e fortes; figuras artísticas próprias à elevação e contemplação do mistério. A criatividade dos artistas e artesãos pôs naquelas feições disposições sobrenaturais, nas quais transluz a alma medieval. A penumbra da manhã encobria detalhes das imagens, mas nada tirava da beleza. A imaginação completava o que os olhos não discerniam, acrescentando-lhe traços sugeridos pela cândida inocência dos tempos idos e passados.

Ao fim da Missa, já o sol começava a acender os vitrais. Primeiramente os da abside voltada para o Levante, de onde veio a Luz do mundo, nosso Salvador. As cores são particularmente puras, pois vêm da Idade Média. No interior do templo, sobre quem os contempla, eles vertem luz, cores e prodígios. Mas na saída, ao contemplar a luz esverdeada dos vitrais monocromáticos, pensávamos numa “catedral submersa”, repousando no fundo de um oceano, à espera da fé de um povo que a resgatasse e a trouxesse à tona. E assim deixávamos Notre Dame e sua ternura materna, após a Missa tradicional dos domingos. 


Fisionomias humanizadas 

Do lado de fora, dávamos um último olhar à terna grandeza da catedral.

Olhando-a de longe, ela parece dominadora, a ponto de a cidade em torno desaparecer da atenção, obnubilada por sua grandeza. A fachada evoca uma fortaleza, onde as torres sobressaem como maciços torreões acastelados por contrafortes. São torres vigiando o mundo que se move a seus pés, e exprimem os olhos de Deus que tudo vê. Nelas se juntam à sua seriedade a Lei e os Profetas, evocando o Antigo e o Novo Testamento, ambos representados em esculturas da fachada.

 Outras vezes, contemplando-a de longe, suas pedras adquirem cor mais clara, em alguns períodos do dia ficam mais rosadas. Sua acolhedora fisionomia ilude então nosso senso de observador, fazendo-a parecer pequena como a catedral de uma aldeia em miniatura, e a fachada parece procurar seus amigos com terno olhar, a todos ela parece ver. Mostrando-se meiga, a catedral desperta nos filhos de Deus a vontade de aproximar-se. Sua majestade nada tem de esmagador. 

Entre as duas torres, a Mãe de Misericórdia tem seu Filho nos braços, abrandando todo rigor que os portentosos campanários tão oportunamente inspiram. Se a inflexibilidade das torres propõe um exame de consciência, junto a elas a rosácea central emoldura a imagem de Nossa Senhora, como um sorriso de perdão dado ao arrependimento. Maria nos diz que a severidade das torres se relaciona com os inimigos da Igreja, com os impenitentes e com o que pode haver de impenitência na alma de cada um. Mas Ela socorre os que a procuram com coração contrito. 

Notre Dame nos observa e nos convida, exprime-se como uma fisionomia humana. Suavemente penetra nas almas, chamando-as à Religião. Esse chamado é como um sopro divino que abala o materialismo infiltrado nas almas, restaurando partes arruinadas pelos erros deste século. Quem a visita, nunca mais a esquece, fica na memória como o lugar deste mundo no qual as almas encontram refrigério. E retorna à lembrança, da mesma forma que a luz volta a iluminar seus vitrais, passada a escuridão da noite. Seu consolo se aloja na recordação indelevelmente. Não será esta sutil impressão um dos dons de Notre Dame, que atrai tantos visitantes? 

O afeto filial torna mesmo imaginável tomá-la nos braços. Nisso ela se parece com a imagem central de sua fachada, representando Nossa Senhora com seu Divino Filho no colo. Transparece através de suas linhas e de seus adornos arquitetônicos o semblante da filha de São Joaquim e Sant’Ana — Notre Dame, ou Nossa Senhora — sendo apresentada no Templo de Jerusalém.


Um fogo que ilumina 

O fogo acaba de consumir uma parte significativa de Notre Dame. Estarrecidos, vimos a catástrofe que absolutamente não podia ocorrer: chamas vorazes, como que vindas do inferno, calcinavam aquele lugar celestial, trazendo à memória Santa Joana d’Arc, inocente e virginal, condenada ao suplício do fogo. Naquele instante — Joana d’Arc em sua agonia atroz, e a catedral em meio às chamas — davam de si uma figura mais santa do que nunca. Cresceram ambas na consideração de todos os homens. Sua beleza adquiriu assim um novo esplendor, iluminado pelas chamas do sacrifício. Assim é a beleza do martírio. 

Cessado o fogo, as imagens de seu interior impiedosamente calcinado causam profunda dor. As cinzas do santuário baixam sobre nossos corações em luto. Mas se ela devesse um dia desaparecer, formaria na mente dos que a veneram uma figura mais bela ainda do que ela tem sido durante os quase nove séculos de sua esplendorosa existência. Notre Dame não desaparecerá, mas também não é admissível restaurá-la com outra fisionomia. 


Um povo em luto 

No dia seguinte ao incêndio, acerquei-me da catedral. Temeroso de vê-la em meio à desolação das cinzas, assim mesmo fui. Grande número de pessoas em torno dela, tanto quanto era possível, pois um cinturão de segurança a rodeava. Em pequenos e silenciosos agrupamentos, falava-se pouco e em voz baixa, nas mais diversas línguas. Católicos ou não, todas as faces mostravam consternação, olhares pesarosos como se tivessem perdido um familiar querido. O sentimento de orfandade vagueava entre todos, mesmo nos que não tinham explicitamente tomado Nossa Senhora por mãe. Grupos de jovens rezavam o Rosário, ajoelhados e contritos. 

Esbarrei casualmente com a proprietária da lavanderia que me atende. Preocupada sempre com o esmero de seus trajes, a ostentação de seus enfeites e sua inserção no mundo, nunca pensei encontrá-la ali, onde não havia ambiente para futilidades. Cumprimentei-a passageiramente, quase sem fixá-la, mas ela me reteve. Notei então, pela primeira vez, traços de seriedade sob sua densa maquiagem: “Não pude conter as lágrimas, ao ver a transmissão ao vivo de Notre Dame em chamas”. Nunca imaginei que, sobre tantas camadas de cosméticos, algum dia pudessem correr lágrimas. 

Havia nas pessoas, em particular nos jovens, um sentimento raro nos dias de hoje: a dor causada por uma razão elevada. Não era o sentimento pela perda do emprego ou pela derrota de seu time. Notre Dame sofrera essa tragédia no primeiro dia da Semana Santa, cujas cerimônias recordam o Sacrifício de Nosso Senhor Jesus Cristo na Cruz. Numa dessas cerimônias recitam-se as Lamentações de Jeremias, sobre a desolação de Jerusalém castigada por Deus. Substituindo mentalmente a cidade de Jerusalém pela catedral de Notre Dame, podemos sentir ali “como está abandonada a cidade antes tão povoada! Aquela que foi grande entre todas as nações assemelha-se a uma viúva. [...] Estão de luto os caminhos de Sião, e ninguém mais vem às suas festas”. 

Aqueles jovens que rezam e o público lacrimoso encontrariam em Jeremias os termos consonantes com esta hora de dor. 



Notre Dame de Paris em chamas 

Comunicado da Sociedade Francesa de Defesa da Tradição, Família e Propriedade 


Foi com horror e uma tristeza indizível que o mundo inteiro viu a Catedral de Notre Dame de Paris, joia da Cristandade, devorada pelas chamas, num momento em que uma vaga de profanações vandaliza os santuários franceses. No dia exato em que começava a Semana Santa, Notre Dame de Paris transformou-se em Nossa Senhora das Dores. 

A coragem dos bombeiros permitiu salvar as torres e paredes, mas a flecha que apontava para o céu desabou dramaticamente. Como não ver nessa tragédia o símbolo do mal que corrói a França, outrora a pérola do mundo cristão? Um incêndio de impiedade devora o país, alimentado pela obsessão igualitária destruidora de tudo o que, por sua verticalidade, lembra o rumo do Céu. 

Esse fogo propriamente infernal ergue-se por vezes, infelizmente, no próprio interior da Igreja, criando a ilusão de que ela vai desabar. Fluctuat nec mergitur (fustigada pelas ondas, ela não soçobra). Esta divisa da cidade de Paris aplica-se também com acerto à Roma eterna.

Por isso mesmo as ruínas de Notre-Dame não devem levar os católicos ao desespero. Ao contrário, assim como elas atraíram os fiéis, durante o incêndio, a se reunirem em massa para rezar nas margens do Sena, devem ser ocasião para nos voltarmos para Nossa Senhora e pedir forças para extinguir o mal que consome a França. 
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O original deste comunicado da TFP francesa encontra-se disponível no site da entidade: http://tfp-france.org/notre-dame-de-paris-en-flammes/

28 de abril de 2019

Fogo na casa de Deus!

 
➤ Paulo Roberto Campos 

Neste dia 28 de abril, festividade de São Luís Maria Grignion de Montfort (1673-1716) — grande missionário francês, o doutor marial por excelência que explicitou magnificamente a doutrina sobre a Sagrada Escravidão a Nossa Senhora —, rezando a “Oração Abrasada” de repente fui assaltado pela lembrança do fogo devorador de Notre Dame de Paris.

E, na mesma oração composta por São Luís Grignion (no trecho que abaixo transcrevo) é impossível não nos recordarmos de um outro “incêndio”, denominado “auto-demolição”, que vem se alastrando dentro da Santa Igreja: “a fumaça de Satanás no templo de Deus”... E, novamente, ser assaltado pela imagem do incêndio que atingiu o coração da Cristandade. 

Ainda não se tem certeza se o incêndio em Notre Dame foi acidental ou criminoso, mas alguns líderes muçulmanos comemoram a desfiguração de Notre Dame. Por exemplo, os jihadistas do “Estado Islâmico” celebraram o incêndio da Catedral. O portal Site (que monitora atividades extremistas na internet) publicou que eles “se divertiram” com a tragédia e a classificaram como sendo “um golpe no coração dos líderes cruzados”. (Cfr. “VEJA”, 24-4-19). 

Aqui seguem os trechos da parte final da “Oração abrasada”, que se encontra nas últimas páginas do célebre e extraordinário “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem”: 


E nós, grande Deus! embora haja tanta glória e tanto lucro, tanta doçura e vantagem em servir-vos, quase ninguém tomará vosso partido? Quase nenhum soldado se alistará em vossas fileiras? Quase nenhum São Miguel clamará, no meio de seus irmãos, cheio de zelo pela vossa glória: Quis ut Deus? 
Ah! permiti que brade por toda parte: Fogo! fogo! fogo! socorro! socorro! socorro! Fogo na casa de Deus! fogo nas almas! fogo até no santuário! Socorro, que assassinam nosso irmão! socorro, que degolam nossos filhos! socorro, que apunhalam nosso bom Pai! 
Si quis est Domini, iungatur mihi. Venham todos os bons sacerdotes que estão espalhados pelo mundo cristão, os que estão atualmente na peleja, e os que se retiraram do combate para se embrenharem pelos desertos e ermos, venham todos esses bons sacerdotes e se unam a nós. Vis unita fit fortior, para que formemos, sob o estandarte da cruz, um exército em boa ordem de batalha e bem disciplinado, para de concerto atacar os inimigos de Deus que já tocaram a rebate: Sonuerunt, frenduerunt, fremuerunt, multiplicati sunt. Dirumpamus vincula eorum et projiciamus a nobis jugum ipsorum. Qui habitat in caelis irridebit eos. Exsurgat Deus, et dissipentur inimici ejus. Exsurge, Domine, quare abdormis? Exsurge.
Erguei-vos, Senhor: por que pareceis dormir? Erguei-vos em todo o vosso poder, em toda a vossa misericórdia e justiça, para formar-vos uma companhia seleta de guardas que velem a vossa casa, defendam vossa glória e salvem tantas almas que custam todo o vosso sangue, para que só haja um aprisco e um pastor, e que todos vos rendam glória em vosso santo templo: Et in templo ejus omnes dicent gloriam. Amém.

18 de abril de 2019

Um incêndio simbólico e apocalíptico!

As chamas quase destruíram um dos mais belos e esplendorosos reflexos da Cristandade. Notre Dame está de luto. 



Paulo Roberto Campos

“Igreja de uma beleza perfeita, alegria do mundo inteiro”. Assim Plinio Corrêa de Oliveira se referiu à catedral das catedrais que é a de Paris [vide vide trecho no final]. 


Considerada o monumento mais representativo da Cristandade, a “alegria do mundo inteiro” ardeu em chamas logo no primeiro dia da Semana Santa. Nossas almas entristecidas ficam duplamente revestidas de luto nestes dias nos quais consideramos especialmente a Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Cabe recordar que a Catedral de Notre Dame é também um monumental escrínio que contém adoráveis relíquias do Filho de Deus: a coroa de espinhos [foto ao lado: o relicário que guarda a sagrada coroa], um cravo da Santa Cruz e um fragmento deste madeiro no qual Ele foi crucificado. Escrínio também de numerosas outras preciosíssimas e seculares relíquias. 

O incêndio devorou parte da mais célebre e gloriosa catedral, é verdade, mas, para além dessa tragédia indescritível, devorou parte de mais de oito séculos de História. Devorou parcialmente uma catedral que resistiu altaneira a guerras e revoluções. 

Impávida, esta “Igreja de uma beleza perfeita” — memorizada por Víctor Hugo como o paradigma das catedrais francesas — atravessou a Guerra dos Cem Anos, a Comuna de Paris (1871), as duas guerras mundiais, a sanha destrutiva dos nazistas. Mais ainda. Atravessou a crudelíssima Revolução Francesa que, após ter feito correr um rio de sangue com sua diabólica guilhotina, destruiu muitas de suas imagens, fundiu seus sinos para a fabricação de canhões, tentou transformar a Catedral de Notre Dame no “Templo da deusa razão” — onde uma atriz foi “adorada” como “deusa”, no lugar de Nossa Senhora de Paris. 


Até o momento ainda não se tem certeza se o início do incêndio foi provocado de modo criminoso ou acidentalmente — apesar de se ter notícias de que alguns líderes maometanos comemoram a ruína de Notre Dame... Em qualquer das hipóteses, foi um incêndio que atingiu o fundo de todos os corações autenticamente católicos. Muitos destes, estarrecidos e desolados assistindo o vídeo da catástrofe, sentiram-se como se estivessem tendo um pesadelo! E, in loco, muitos daqueles que presenciaram a tragédia, sobretudo o momento pungente em que La Flèche — como os franceses denominam a celestial flecha da catedral — desmoronou tragada pelas chamas [na foto acima, durante e antes do incêndio], em prantos caíram de joelhos e puseram-se a rezar o Rosário [foto abaixo]. Salve Rainha Mãe de misericórdia, interceda junto a Seu Divino Filho para que Ele tenha compaixão da França e de todos nós!

A “fumaça de Satanás” que penetrou no Templo de Deus 

De um incêndio em qualquer outra catedral poder-se-ia dizer que é simbólico. Mas de um incêndio em Notre Dame — a jóia da arte gótica e obra prima da arquitetura da Idade Média, a “doce primavera da fé”, segundo feliz expressão de Montalembert — podemos afirmar que se trata de um acontecimento apocalíptico, altissimamente simbólico e no mais alto grau carregado de significados. 

Que significado? — Um psy-incêndio vem arruinando a Igreja Católica desde o Concílio Vaticano II. Um incêndio símbolo da auto-demolição da Igreja perpetrada por eclesiásticos vinculados à “esquerda católica”, ao progressismo e à “Teologia da Liberação”. Símbolo da “fumaça de Satanás no templo de Deus”[1], introduzida por aqueles que agem para enxovalhar e conspurcar a única e verdadeira Igreja fundada diretamente por Nosso Senhor Jesus Cristo. Portanto, um incêndio símbolo da atual, e também apocalíptica, crise que atingiu a Religião Católica; símbolo da nefasta atuação que vêm incendiando o ensinamento de seu magistério tradicional. 


Incêndio simbólico da apostasia das nações 

De ambos os parágrafos que seguem em itálico, poder-se-ia afirmar que foram escritos nesses dias, nos quais o mundo inteiro chocado acompanhava o alastramento das chamas devoradoras de Notre Dame. Não, eles foram redigidos em 1942 por Plinio Corrêa de Oliveira. Assim, pode-se constatar que a crise que flagela a nação francesa, assim como todos os demais países, começou há muito tempo. 
“A França apostatou da Igreja e repudiou o seu passado histórico. É esse o mal que ela expia, e‚ só no corretivo desse mal que ela encontrará remédio [...]. Se fazemos esta observação não é porque desejamos agravar a justíssima dor de nossos irmãos franceses, mas porque uma grande lição desprende destes fatos para o mundo inteiro. 
“Não é com paliativos, com meias medidas que se pode resolver o mal. Os paliativos só podem retardar a cura. Não foi pintando com novas tintas seus velhos ídolos que a França de Clóvis se converteu: ela teve que queimar o que adorara, e adorar o que queimara. Para a França, e para todos os povos contemporâneos, não pode ser outro o caminho. [Não basta] a destruição dos ídolos do século passado. [Não basta] apenas uma mudança em suas roupagens. É preciso que os ídolos caiam, e não basta que se transformem”.[2]
Dentre alguns artigos que poderíamos citar, um recente, com o título “Cai Nossa Senhora”, publicado no ABC de 16-4-19, confirma especialmente a declaração acima. Para esse periódico madrileno escreveu o jornalista Salvador Sostres: “É um sinal do nosso tempo que Nossa Senhora de Paris tenha caído. Este incêndio não é pior do que o laicismo que assola a Civilização, negando-lhe a profundidade e o significado. É o fogo de Deus, que escreve severamente em incêndios, ante tanta apostasia. Cai Notre Dame como antes caiu a França na vulgaridade ateia e jacobina”.


A bela imagem medieval de Notre Dame de Paris, ficou intacta rodeada de escombros do incêndio

Rezemos especialmente nestes dias da Semana Santa pedindo a Nossa Senhora, Padroeira da Catedral de Paris [foto acima], pela completa restauração desse seu belo e majestoso Templo. 

Rezemos pela restauração espiritual da França — denominada “Fille aînee de l´Église” (“filha primogênita da Igreja”), em razão da conversão e batismo de Clóvis, o primeiro rei francês, em 25 de dezembro de 496. A respeito da conversão da França — sua passagem, como o Apóstolo São Paulo, pelo “caminho de Damasco” — veja no final texto com as proféticas palavras do Papa São Pio X. 

Rezemos também pela restauração da Civilização Cristã em todo seu esplendor, grandeza e glória, para a alegria do mundo inteiro. 
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Notas: 
1. Insegnamenti di Paolo VI, Tipografia Poliglotta Vaticana, vol. X, p. 707.
2. Plinio Corrêa de Oliveira, 7 Dias em Revista, “Legionário”, Nº 496, 15 de março de 1942, p. 2.




“Eis a igreja de uma beleza perfeita, a alegria do mundo inteiro"
➤ Plinio Corrêa de Oliveira

“Eu não posso me esquecer que uma das viagens que eu fiz a Paris. Cheguei à noitinha, jantei e fui imediatamente ver a Catedral de Notre Dame. Era uma noite de verão, não extraordinariamente bonita. A catedral estava iluminada.

Ela me pareceu desde logo, num determinado ângulo tomado ao acaso, tão bela que eu fiquei com vontade de dizer ao motorista do taxi no qual eu estava: ‘Pára, que eu quero ficar aqui!’ Eu sei que o resto é muito belo, mas eu creio que poucos olharam a catedral naquele ângulo e pararam. E eu quero ser dos poucos, para dar a Nossa Senhora o louvor daquele ponto de vista, que contemplou aquilo que outros talvez não tenham louvado suficientemente. Ao menos se dirá que uma vez que um peregrino vindo de longe amou o que muitos outros — por pressa ou por não terem recebido uma graça especial naquele momento — não amaram.

Em todos os grandes monumentos da Cristandade, depois de admirar as maravilhas, eu tenho a tendência de ir admirando os pormenores. Isto num ato de reparação, porque esses pormenores talvez não tenham sido amados como eles deveriam ser. Então fazer ao menos isto: amar o que deveria ter sido amado e que foi esquecido. É sempre a nossa vocação de levar à tona as verdades esquecidas que os homens põem de lado.

Eu fiquei encantado com a catedral vista naquele ângulo. Depois dei a volta e retornei para o hotel com a alma cheia. Se alguém naquele momento me lembrasse da palavra da Escritura: ‘Eis a igreja de uma beleza perfeita, a alegria do mundo inteiro’, eu teria dito: ‘Oh! como está bem expresso! É bem o que eu sinto a respeito da Catedral’”. 
(Trecho da conferência de Plinio Corrêa de Oliveira, em 13-10-79, para sócios e cooperadores da TFP. Esta transcrição não passou pela revisão do autor).


França — “Filha primogênita da Igreja”


“Nação predestinada, vaso de eleição, vai levar, como no passado, meu nome diante de todos os povos e de todos os reis da Terra”

Da Alocução de São Pio X (29-11-1911)*

            “Que vos diremos agora, filhos da França, que gemeis sob o peso da perseguição? O povo que fez aliança com Deus nas fontes batismais de Reims se arrependerá e retornará à sua vocação primitiva.

            Os méritos de tantos filhos seus que pregam a verdade do Evangelho quase em todo o mundo, tendo-a selado muitos com o próprio sangue, as orações de tantos Santos que desejam ardentemente ter em sua companhia na glória celeste os irmãos, muito amados, de sua Pátria, a piedade generosa de tantos filhos seus que, sem recusar nenhum sacrifício, provêm à dignidade do Clero e ao esplendor do culto católico, e, acima de tudo, os gemidos de tantas crianças que, diante dos tabernáculos, expandem a alma com as expressões que o próprio Deus lhes coloca nos lábios, atrairão certamente sobre esta nação as misericórdias divinas. As faltas não ficarão impunes, mas não perecerá nunca a filha de tantos méritos, de tantos suspiros e de tantas lágrimas.

            Dia virá, e esperamos que não esteja muito afastado, em que a França, como Saulo no caminho de Damasco, será envolvida por uma luz celeste e escutará uma voz que lhe repetirá: 'Minha filha, por que Me persegues?` E à resposta: 'Quem és tu, Senhor?` a voz replicará: 'Sou Jesus, a Quem persegues. Duro te é recalcitrar contra o aguilhão, porque em tua obstinação te arruinas a ti mesma`. E ela, trêmula e admirada, dirá: 'Senhor, que quereis que eu faça?` E Ele: 'Levanta-te, lava as manchas que te desfiguraram, desperta em teu seio os sentimentos adormecidos e o pacto da nossa aliança, e vai, filha primogênita da Igreja, nação predestinada, vaso de eleição, vai levar, como no passado, meu nome diante de todos os povos e de todos os reis da Terra’”.
(*) Alocução consistorial Vi ringrazio de 29 de novembro de 1911, Acta Apostolicae Sedis, Typis Polyglottis Vaticanis, Roma, 1911, p. 657).