✅ Plinio
Maria Solimeo
Com uma população
estimada em 2025 entre 341,7 e 347,2 milhões de habitantes — crescimento esse impulsionado
principalmente pela imigração, apesar da baixa taxa de natalidade e das mortes —,
a sociedade americana está bastante dividida entre conservadores, liberais e
moderados. Os primeiros geralmente se concentram no Partido Republicano e têm
obtido aproximadamente 38% da intenção de votos contra 24% dos representantes
do Partido Democrata. Os moderados oscilam entre um e outro.
Nos últimos 30 anos a
polarização nos Estados Unidos atingiu níveis críticos, com os Democratas movendo-se
cada vez mais para a esquerda e os Republicanos mais para a direita. Por isso a
oposição entre os dois partidos cresceu também, indo além da compreensível incompatibilidade
entre inimigos existenciais e opositores, para muitas vezes chegar a afetar até
a governabilidade do país. Isso se torna manifesto, por exemplo, quando se
trata da aprovação da lei orçamentária do governo pelas duas casas do Congresso.
Por causa da constante
desavença entre republicanos e democratas, isso pode gerar uma paralisação ou shutdown
na aprovação do orçamento. Foi o que ocorreu concretamente no ano passado
quando, devido a um impasse político entre o Congresso e o Poder Executivo, o shutdown
forçou o governo a paralisar suas atividades não essenciais pelos 43 dias
que durou o impasse.
Essa polarização entre os
americanos é mostrada pelo Pew Research Center[i]
em interessante reportagem com o título “Republicanos e Democratas diferem
profundamente em questões sobre o aborto, a homossexualidade e a pena de morte
são moralmente errados”, baseado em duas pesquisas feitas por
experientes membros desse instituto, respectivamente de 24 a 30 de março do ano
passado com 3.605 americanos adultos, e de 5 a 11 de maio do mesmo ano com
8.937, sobre o que pensam sobre problemas morais.
Essas entrevistas foram
feitas com diferentes grupos de americanos divididos por idade, sexo etc. das
quais só apresentaremos algumas por questão de espaço.
O que pensa a
generalidade dos americanos sobre os problemas morais
O Pew Research, falando
dos americanos em geral, afirma: “Em uma ampla gama de questões, os americanos
expressam visões moralmente permissivas.” Dá como exemplo que 91% deles
afirmam que usar contraceptivos para evitar a gravidez não é moralmente errado,
40% acham que é moralmente aceitável, 51% pensam que não é uma questão moral,
enquanto só 8% julgam que é moralmente errado.
Já com relação ao
adultério eles são em geral mais conservadores, pois 90% julgam-no moralmente
errado, contra 9% para os quais não o é, enquanto apenas 7% afirmam que é
aceitável.
À pergunta sobre se é
moralmente errado ver pornografia, o número dos que concordam com essa
afirmação é de apenas 52%, contra 47% que afirmam que não é moralmente errado, 31%
julgam que não se trata de uma questão moral, e 15% que afirmam que é
moralmente aceitável.
Sobre o aborto, apenas 47%
dos entrevistados julgam-no moralmente errado. Somando-se os 52% dos que julgam
que não o é aos 21% que lhe são favoráveis e aos 31% que afirmam que não é uma
questão moral, temos que, no fundo, a grossa maioria dos americanos é favorável
ao aborto.
Com relação à
homossexualidade, apenas 39% dos entrevistados mostraram-se contrários. Uma
maioria de 60% julga que não é moralmente errado, ou seja, não são contra, 23% são
declaradamente a favor e 37% que isso não é uma questão moral.
Também sobre a
eutanásia, uma grossa maioria de 63% julga que não é moralmente errada, 34% julgam-na
moralmente aceitável, 29% dizem que ela não implica em questão moral e apenas
35% lhe são contrários.
Quanto à pena de morte,
64% dos entrevistados julgam-na moralmente certa, 38% moralmente aceitável e
26% que não se trata de uma questão moral. Apenas 34% julgam-namoralmente condenável.
A outra estatística que
nos interessa é a sobre o divórcio. Como era de se esperar num mundo tão
corrompido como o nosso, uma maioria de 76% considera que não é moralmente
errado, 31% que é moralmente aceitável, 45% que não implica uma questão moral,
e apenas 23% afirmam que ele é moralmente errado.
O que pensam os
jovens entre 18 e 29 anos
Em vários pontos, os
jovens entre 18 e 29 anos se mostram mais conservadores do que os mais velhos.
Por exemplo, na questão do divórcio, da fertilização in vitro e dos
anticonceptivos lideram os que julgam que isso é moralmente errado.
Já com relação ao
aborto, ao adultério, à eutanásia e à homossexualidade, eles são mais
complacentes que seus maiores.
Por outro lado, na
questão da pena de morte eles a rejeitam mais que os mais velhos, influenciados
pela propaganda da esquerda e de certos púlpitos.
É interessante notar que,
segundo o levantamento do Cooperative Election Study (CES) — uma das
mais abrangentes pesquisas eleitorais e populacionais do país —, 21% dos
integrantes da Geração Z declaram-se católicos, superando os 19% que se
identificam como protestantes. Essa inversão quebra uma hegemonia protestante
que vigorava há séculos.
Como vota cada
sexo
É curioso verificar que
em várias questões os homens se mostram mais conservadores que as mulheres. Por
exemplo, 28% deles julga que o divórcio é moralmente errado, o que ocorre
apenas com 19% das mulheres. Do mesmo modo, 51% deles julgam que o aborto
também é moralmente errado, enquanto o número de mulheres que compartem essa
opinião perfaz 44%. No tocante à homossexualidade, 43% dos homens consideram-na
moralmente errada, contra 37% das mulheres.
Essa tendência se
manifesta em outros pontos morais, como a fertilização in vitro, uso de
anticoncepcionais, eutanásia, adultério etc. nos quais os homens são sempre
mais conservadores que as mulheres.
O que pensam
Republicanos e Democratas
A respeito do aborto é
que há mais radicalização entre os dois partidos. Enquanto somente 24% dos
Democratas o consideram errado, 71% dos Republicanos são contrários ao
assassinato de inocentes.
Para 59% dos
Republicanos o homossexualismo é condenável, apenas 20% dos Democratas têm a
mesma opinião. 65% dos Republicanos julgam errado ver pornografia, número que
cai para 39% entre os Democratas.
O uso de contraceptivos
é apoiado ou visto com indiferença tanto por democratas — dos quais só 7% o
julgam moralmente errado — quanto por republicanos (9%).
Há menor rejeição por
parte dos dois partidos com relação à eutanásia, sendo que só a acham
moralmente errada 48% dos republicanos e 23% dos democratas.
Já com relação ao
adultério, a diferença entre os dois partidos na sua condenação é pequena: 93% dos
republicanos, e 88% dos democratas.
O divórcio, como se
podia esperar nesta época de quase amor livre, é rejeitado apenas por 33% dos
republicanos, que o acham moralmente errado, e por 13% dos democratas.
O que surpreende é que
48% dos republicanos achem a pena de morte moralmente errada, enquanto só 20% dos
democratas a condenem.
O fator
religioso que deveria orientar os votos
Não sabemos até que
ponto o fator religioso influenciou a votação das pessoas nessas pesquisas.
Pois, tanto para os católicos quanto para protestantes conservadores, esse fator
deveria ter pesado.
Segundo dados recentes
do Pew Research Center, as igrejas evangélicas históricas e pentecostais
têm apresentado uma queda contínua, especialmente entre jovens e adultos até 40
anos, sobretudo pela desfiliação religiosa e rejeição à politização das
igrejas. Enquanto o catolicismo apresenta uma estabilidade relativa, sustentada
principalmente pela imigração latina, que mantém o número absoluto de
católicos.
Somando-se as inúmeras
seitas protestantes, estas representam ainda 40% da população americana,
enquanto os católicos representam somente 20%. Contudo, os Estados Unidos têm
a quarta maior população de católicos do mundo, com 53 milhões de fiéis.
Se as pesquisas
tivessem sido feitas exclusivamente com estes, o resultado teria sido muito
diferente? Tememos que não. Pois hoje em dia, com a decadência religiosa e o
esquecimento dos princípios morais mais comezinhos, o casamento em declínio
sendo substituído por uniões ilícitas mais em uso, é cada vez menor o número de
católicos que ainda pautam sua vida segundo os princípios da Santa Igreja.
Para ilustrar nossos
leitores, vamos lembrar o que diz a Doutrina Católica sobre os vários pontos
abordados, seguindo o Terceiro Catecismo da Doutrina Cristã, ou Catecismo Maior
de São Pio X.
Aborto
– Pílulas abortivas
Está condenado no 5º.
Mandamento da Lei de Deus, não matar, porque o aborto espontâneo é um
verdadeiro assassinato de inocentes perpetrado pela própria mãe. E, sendo um
homicídio voluntário, classifica-se como um dos “pecados que bradam ao Céu e pedem à Deus por vingança”, pois sua
malícia é tão grave e manifesta, que provoca o mesmo Deus a puni-lo com os mais
severos castigos
Homossexualismo
Por ser um ser um ato
sensual contra a natureza, também é um dos pecados que bradam ao Céu e pedem a
Deus por vingança.
Adultério
– relações extramatrimoniais
A infidelidade
matrimonial está condenada pelo 6º. Mandamento da Lei de Deus “não pecar contra a castidade”, e pelo
9º. “Não desejar a mulher do próximo”
que, segundo o Catecismo de São Pio X, “proíbe
expressamente todo o desejo contrário à fidelidade que os cônjuges se juraram
ao contrair o matrimônio; e proíbe também todo o pensamento culpável e todo
desejo de ação proibido pelo sexto Mandamento”.
Eutanásia
Esta prática está
condenada pelo 5º Mandamento da Lei de Deus, “Não matar”. Diz o Catecismo: “Neste
Mandamento Deus proíbe ainda ao homem dar a morte a si mesmo, isto é, o
suicídio [...] porque o homem não é senhor de sua vida, como o não é da dos
outros”.
Divórcio
“O
Matrimônio é um Sacramento instituído por Nosso Senhor Jesus Cristo que
estabelece uma união santa e indissolúvel entre o homem e a mulher, e lhes dá a
graça de se amarem um ao outro santamente, e de educarem cristãmente seus
filhos [...] e não se pode quebrar senão pela morte de um dos cônjuges, porque
assim estabeleceu Deus desde o começo, e assim o proclamou solenemente Jesus
Cristo, Senhor Nosso”. [...] “O vínculo do matrimônio cristão não pode ser
dissolvido pela autoridade civil, porque esta não pode ingerir-se em matéria de
Sacramentos, nem separar o que Deus uniu”.
Pena
de Morte
A doutrina tradicional
da Igreja, baseada em São Tomás de Aquino, defendia a licitude da pena capital
em casos específicos, argumentando que retirar a vida de um grande malfeitor
que ameaça a sociedade é um ato justo e salutar para preservar o bem comum. Ele
comparava o criminoso a um membro gangrenado que deve ser amputado para salvar
o corpo social. A sentença deve ser proferida por uma autoridade pública
legítima, após julgamento justo, e não por vingança pessoal.
Entretanto, teólogos
modernos argumentam que, se o sistema carcerário for capaz de neutralizar o
criminoso sem a sua morte, isso diminui a necessidade da pena capital.
O que, com sobejas evidências, duvidamos
O Catecismo de São Pio
X está de acordo com a doutrina de São Tomás, a qual foi até há pouco pregada
pela Igreja: “É lícito tirar a vida do
próximo: durante o combate em guerra justa; quando se executa por ordem da
autoridade suprema a condenação à morte em castigo de algum crime; quando se
trata de necessária e legítima defesa da vida, no momento de uma injusta
agressão.”
Fertilização
in vitro
A Doutrina Católica
considera a fertilização in vitro (FIV) moralmente inaceitável, pois
separa a procriação do ato sexual conjugal e frequentemente envolve a
destruição de embriões. A Igreja ensina que os filhos devem ser concebidos
através de um ato de amor entre os cônjuges, não como um produto laboratorial,
respeitando a dignidade humana desde a concepção.
Esperemos que, pela intercessão de Nossa Senhora e de São José, Padroeira da Igreja Universal, tempos venham em que a sã doutrina católica e ortodoxa readquira seu lugar na Igreja como na época do Concílio de Trento, em que, ao lado das Sagradas Escrituras, estava a Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino, na qual os ensinamentos perenes da Santa Igreja orientaram e orientam até hoje os católicos amantes da tradição.
[i] O Pew Research Center é um think tank (laboratório de ideias)
apartidário com sede em Washington, D.C., que fornece informações baseadas em
dados sobre questões sociais, opinião pública, tendências demográficas e
hábitos de mídia nos EUA e no mundo. Ele é conhecido por ser uma fonte neutra
que não toma posições políticas ou de políticas.












