21 de abril de 2026

“Viver é estar juntos, olhar-se e querer-se bem”

Pintura representando Dona Lucilia aos 92 anos


Fonte: Revista Catolicismo, Nº 903, abril/2026

O Dr. Adolpho Lindenberg, falecido aos 99 anos em 2024, foi um eminente colaborador de Catolicismo desde a sua fundação em 1951. Além de sempre se recordar, falar e escrever sobre a vida de luta de seu primo-irmão, Plinio Corrêa de Oliveira, reportava-se com saudades de sua “tia Lucilia”. Assim, em razão do sesquicentenário do nascimento dela, reproduzimos a seguir uma entrevista que o seu sobrinho nos concedeu em abril de 2018.

Nosso saudoso entrevistado, além de ter sido um constante colaborador desta revista, foi um dos fundadores da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP) e do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira. Engenheiro pela Universidade Mackenzie, sua atividade profissional sempre esteve relacionada com a Construtora Adolpho Lindenberg, uma das mais conceituadas do País, que se notabilizou pela reintrodução do estilo colonial e o lançamento do estilo neoclássico na construção de edifícios.

Catolicismo Em que época o senhor mais conviveu com sua tia Lucilia e com seu primo Plinio Corrêa de Oliveira?

Dr. Adolpho Na época em que éramos crianças, e convivíamos na casa de nossa avó, Gabriela Ribeiro dos Santos, mãe de Dona Lucilia. Vovó era uma senhora muito aristocrática, que marcou época na sociedade paulista do início do século passado.

 

Catolicismo Antes de passarmos às perguntas sobre Dona Lucilia, desejaríamos conhecer algo mais da personalidade de Dona Gabriela. Alguma lembrança que o senhor pudesse narrar a respeito?

Dr. Adolpho Na sala de visitas do apartamento onde morou tia Lucilia há uma bonita pintura de minha avó Gabriela, num quadro muito elogiado por Dr. Plinio. Retrata uma bela senhora matriarcal, que teve relações de amizade com a Princesa Isabel. Tia Lucilia recordava-se do vovô Antonio (esposo de Dona Gabriela) como tendo sido um homem boníssimo, pleno de qualidades, enquanto vovó Gabriela tinha deixado a recordação de uma senhora bonita, imponente e inteligente. Quando eu era menino, ela aparentemente me ignorava, mas só anos depois vim a compreender que nessa atitude anti-igualitária ela demonstrava apenas uma segurança, uma nota aristocrática e dominadora, uma superioridade diante da qual um menino hesitava.

 

Dona Gabriela
Catolicismo Poderia descrever como era o convívio no ambiente da casa de Dona Gabriela?

Dr. Adolpho A família Ribeiro dos Santos se destacava pela loquacidade, e o convívio naquele ambiente era animadíssimo. Conservo muitas lembranças e saudades desse convívio com toda a parentela. Nem preciso dizer o quanto Plinio, com sua vitalidade, colaborava nessa animação, por exemplo, formando rodas de conversas agradabilíssimas. Ele proseava com muito bom humor sobre qualquer coisa, desde grandes fatos históricos, passando por episódios ocorridos com nossos tios, até as cores das pedras. Costumo lembrar o dito de Talleyrand: “Quem não viveu na França no período anterior à Revolução Francesa [1789], não conheceu a doçura de viver”. Posso afirmar que algo dessa “doçura de viver” existia em nossa família, na então pequena cidade de São Paulo. Recordo-me de que, alguns meses antes da morte de Dr. Plinio, eu mantive com ele uma conversa durante a qual ele se lembrou daqueles antigos tempos, no convívio com sua irmã Rosée, seus primos e amigos na casa de vovó. Ele, muito mais do que eu, sentia saudades do bem-estar desse pequeno microcosmo que era o nosso ambiente familiar.

 

Dona Zili, em pé, a Fräulein Mathilde, à direita, com as crianças da família. Sentado na frente está Plinio

Catolicismo E como era a presença de Dona Lucilia nesse “microcosmo” na casa dos Ribeiro dos Santos?

Dr. Adolpho Tia Lucilia dispensava um trato muito cerimonioso às pessoas — com os filhos e sobrinhos, com seu esposo, meu tio João Paulo, até com seus pais, pelos quais ela nutria uma verdadeira veneração. Muito diferente de certas pessoas modernas, que usam um trato excessivamente íntimo. Ela não apreciava esse tipo de comportamento “sem-cerimônias”, por assim dizer, sem certa solenidade de atitudes. Ela era solene por natureza, o que tornava o ambiente da casa de vovó muito agradável e elevado.

 

Catolicismo Quais suas impressões sobre a figura de sua tia, e o que mais o impressionava nela?

Dr. Adolpho Eu quase não comento sobre o modo de ser de tia Lucilia, mas quando aparece uma boa oportunidade, causa-me alegria poder falar dela. Não é fácil, para aqueles que não a conheceram pessoalmente, compreender inteiramente sua figura. Impressionava-me muito, além de sua amabilidade e paz de alma, a força de seu olhar. Olhar de uma pessoa reta, honesta, e de uma superioridade ímpar. Quem não é reto e honesto poderia até ficar envergonhado na sua presença. Olhar muito meigo, muito bondoso, mas quem não estivesse com a consciência em paz não gostava muito. Era o encontro de olhares entre uma pessoa virtuosa e outra sem virtude. Muito me impressionava o olhar dela, que incentivava as pessoas a enfrentar as dificuldades da vida.

Ela foi muito emblemática do ideal perfeito de mãe, esposa, filha e tia. Católica ao máximo, monarquista e tradicionalista, não pactuava com o relaxamento dos costumes, com as modas extravagantes. Lembro-me dela visitando-me quando eu ficava doente. Ela lia para mim livros interessantes que exaltavam o heroísmo, como o livro dos Três Mosqueteiros. E aplicava a leitura dando bons conselhos, advertindo-me dos perigos que poderia enfrentar em minha vida. Ela me causava a impressão de ser uma senhora muito cerimoniosa e de uma geração anterior. Nesse sentido, nunca tingiu nem cortou curtos os cabelos, não se pintava, usava vestidos muito discretos.

 

Dona Lucilia pouco antes
de seu casamento
Catolicismo Dona Lucilia era enérgica em exigir dos filhos o cumprimento dos deveres diários?

Dr. Adolpho No período anterior à Primeira Grande Guerra, notava-se a rivalidade entre a França e a Alemanha. Muitos no Brasil pareciam divididos: os francófilos e os germanófilos. Tia Lucilia amava a França, e meu pai amava a Alemanha. Assim, apesar de tia Lucilia demonstrar equilíbrio, ele se queixava de sua cunhada. Ela era de uma cortesia admirável, manifestava muito afeto às pessoas de bom coração, mas era intransigente em relação às pessoas más, e não cedia ao erro. Até no relacionamento com os filhos, mesmo sendo extremamente afetuosa, exigia deles o cumprimento integral do dever, das obrigações diárias, etc.

Por isso, elogiava para os filhos o modo de ser do alemão, disciplinado no cumprimento do dever. E foi certamente por isso que ela escolheu para os filhos uma governante alemã, a Fräulein Mathilde Heldman, fato que deixou papai muito satisfeito... Dr. Plinio admirava muito essa Fräulein bávara, pois ela o ajudou a apreciar o estilo de vida europeu, as tradições e a nobreza europeia, as grandes famílias e figuras do Velho Continente. Com sua cultura, essa governante colaborou na formação de Rosée e de Plinio e no aprendizado da língua alemã, mas também do francês e do inglês.

Em 1912, num período em que Dona Lucilia sofria de cálculos biliares, ela viajou de navio à Alemanha com vários membros da família — Plinio tinha apenas quatro anos, e eu nem tinha nascido —, para submeter-se a uma cirurgia com um especialista que era médico do Kaiser, o Dr. Bier. Certamente essa viagem colaborou para aumentar nela e nos filhos a admiração pelo modo de ser alemão, o amor à ordem, à disciplina etc.

Tia Lucilia e a Fräulein Mathilde colaboraram para formar a Weltanschauung (visão de mundo) do Dr. Plinio. Podemos notar isso em sua vida e em seus escritos, por exemplo, no livro Revolução e Contra-Revolução e em sua última obra, Nobreza e Elites Tradicionais Análogas. Alguns de meus tios ficavam meio perplexos com essa Weltanschauung adquirida por Plinio, com seu modo de ser categórico, e pareciam pensar: “Como é que Lucilia, tão cordata, foi ter um filho tão afirmativo como esse? É realmente inconcebível”.

 

Catolicismo Como explicar esse modo de ser categórico de Dr. Plinio, sendo sua mãe tão serena?

Dr. Adolpho O que levou Plinio a tomar posições categóricas foi sua luta contra-revolucionária em defesa da Igreja e da Cristandade, embora temperamentalmente ele se assemelhasse à sua mãe. Ele foi um menino muito plácido, pacífico, até fleumático, gostava de ficar contemplando as coisas da natureza. Já contei que numa fotografia de família aparece minha prima Rosée, menina de sete anos, andando por uma calçada, muito atenta a tudo, levando pela mão o irmão, dois anos mais novo que ela. Plinio parece distraído, tranquilamente contemplando alguma coisa.

Mas foi devido à sua luta que ele se viu obrigado a tornar-se um polemista, um cruzado, a discutir para defender a glória de Deus. Quando jovem, vivendo ainda em casa de vovó, ele analisava muito as ideologias modernas enquanto penetravam nos modos e no pensamento de seus primos. E procurava alertá-los, para rejeitarem o que aparecia de ruim no mundo moderno com suas extravagâncias. Tia Lucilia também ficava assustada com as extravagâncias que iam surgindo, as modas em geral.

 

Dona Lucilia em 1929
Catolicismo — Portanto, ela não foi uma mulher considerada “moderna”.

Dr. Adolpho Tia Lucilia, com seu temperamento calmo e modos aristocráticos, criava em torno de si uma atmosfera tranquila, oposta às agitações do mundo dito moderno. Ela morreu no século XX, mas, por assim dizer, contagiava as pessoas ao seu redor com aquela atmosfera suave e tranquila do século XIX. Poder-se-ia mesmo falar em “atmosfera luciliana”, usando uma espécie de neologismo. As pessoas podiam chegar aflitas e agitadas à sua casa, mas ela as “serenava” com sua calma e carinho, e aos poucos elas se livravam da agitação. O próprio Dr. Plinio disse que ela era excelente consoladora das pessoas: “Quando dela me aproximava, devido a alguma aflição ou numa situação sem saída, bastava ouvi-la dizer 'meu filho, o que é?', e metade do problema já se desfazia”. Ela resolvia com muita benevolência as dificuldades das pessoas, e elas saíam contentes.

 

 Catolicismo O que o senhor diria sobre as devoções de Dona Lucilia?

Dr. Adolpho Muitíssimo devota do Sagrado Coração de Jesus, tia Lucilia tinha especial predileção pela Igreja do Sagrado Coração de Jesus, no bairro Campos Elíseos no qual ela residia, e lá assistia às missas dominicais junto com seus filhos. Como se pode ver ainda hoje, essa Igreja foi decorada com muito bom gosto, belos vitrais, pinturas e imagens. Seu ambiente, com aspectos sobrenaturais, convida verdadeiramente à piedade. Pode-se dizer que o bom temperamento dela e seu modo de ser misericordioso tinham como motivação sua devoção ao Sagrado Coração, do qual possuía duas imagens: uma num pequeno oratório em seu quarto; e outra talhada em alabastro, sobre uma coluna no salão, diante da qual passava um bom tempo rezando.

Tia Lucilia enviou muitas cartas ao Dr. Plinio, quando ele viajava para alguma cidade do Brasil ou do exterior. Eis o que escreveu numa delas: “Agradou-me imenso saber que, quando tens saudades minhas, rezas diante do meu oratório. Eu também rezo tanto por ti. O Sagrado Coração de Jesus, nosso amor, será tua salvaguarda e protetor, filho querido do meu coração!”.

De outra carta, escrita por Dona Lucilia quando meus primos eram adolescentes, destaco estas linhas: “Você [Plinio] e Rosée são confiados a Deus antes de nascer. Portanto, com fé e amor a Deus, vocês não poderão deixar de ser felizes, tanto mais que por vocês eu rezo noite e dia, e é natural que as preces de uma mãe católica, mesmo de tão pouco mérito, sejam atendidas por Nossa Senhora, que também é mãe, e por Nosso Senhor Jesus Cristo”.

Para pessoas de fora de seu círculo mais restrito de amizades, Dr. Plinio não falava muito de sua mãe, mas para nós, quando indagado sobre o seu relacionamento com ela, deixava claro o papel que ela exerceu a fim incrementar nele a fé católica e aumentar sua devoção aos Corações de Jesus e Maria.

 

Catolicismo Dr. Plinio deixava transparecer a sua gratidão a Dona Lucilia?

Dr. Adolpho Dr. Plinio, certa vez, comentou o seguinte sobre sua mãe: “Era verdadeiramente uma senhora católica. Ninguém pode imaginar o bem que ela me fez. Estudei sua bela alma com uma atenção contínua, e era por isso mesmo que eu gostava dela. A tal ponto que, se ela não fosse minha mãe, mas a mãe de outro, eu gostaria dela da mesma maneira, e daria um jeito de ir morar junto a ela. Mamãe me ensinou a amar Nosso Senhor Jesus Cristo, ensinou-me a amar a Santa Igreja Católica”. Difícil encontrar louvor maior de um filho em relação à sua mãe.

         Ela foi mãe modelar, tanto no incentivo ao bem quanto na censura ao mal. Por exemplo, na correção de alguma travessura dos filhos e sobrinhos, procurava fazê-los compreender no que estavam errados e como aquilo não era do agrado de Deus, ao mesmo tempo em que incutia nos pequenos como era belo agir com retidão. Mas também, quando alguma criança praticava algo louvável, era a primeira a elogiar e incrementar nela o quanto a vida virtuosa era deleitável.

Procurava mostrar que, mesmo se tornando mais dura a vida de quem praticasse as virtudes, a criança seria mais feliz cumprindo o dever, ficando assim com a consciência tranquila. Às vezes tia Lucilia ilustrava sua repreensão ou seu elogio narrando algum episódio da vida de antepassados, ou da história de pessoas que ela conheceu. Com suas recordações do passado, ela exemplificava com pessoas que fracassaram na vida por seguirem o mau caminho, ou pessoas que foram felizes seguindo o bom caminho, apesar de ser mais difícil. Desse modo estimulava os lados bons das crianças e incutia horror aos aspectos maus. Era admirável o senso do bem e do mal, que ela possuiu de modo extraordinário.

 

Catolicismo Certa vez Dr. Plinio fez referência a uma provação à qual Dona Lucilia foi submetida pouco antes do nascimento dele. Poderia contar para nossos leitores?

Dr. Adolpho Neste caso, acho que Plinio se referia a um fato que se passou em 1908. Quando ele estava por nascer, o médico preveniu Dona Lucilia de que ela seria submetida a um parto de risco, e tanto ela quanto o filho poderiam não resistir à intervenção cirúrgica. Perguntou se ela concordaria em fazer um aborto, e desse modo garantiria a sua vida. Ela ficou chocada com a pergunta, e respondeu: “Esta é uma pergunta que não se faz a uma mãe. O doutor não deveria sequer cogitar em tal hipótese”. Ela confiou o filho a Deus, o parto se deu com alguma antecedência em relação ao período normal de nove meses, e Plinio nasceu com o peso abaixo do normal, mas logo recuperou plena saúde e peso.

 

Catolicismo Sobre a formação que ela deu aos filhos, o senhor se lembra de algo especial?

Dr. Adolpho A vida de Dona Lucilia foi um exemplo de uma mãe caracteristicamente brasileira e católica. Extremamente bondosa, serena e acolhedora, ela se dedicou afetuosamente, de todo o coração, aos dois filhos Rosée e Plinio, assim como aos sobrinhos, procurando incutir nos pequenos a catolicidade que a caracterizava, proporcionando-lhes ótima formação religiosa.

Dr. Plinio se lembrava de que, ao entrar em casa após alguma atividade externa, sentia o ambiente muito acolhedor de sua residência — os ares “lucilianos”, por assim dizer. Ele se recordava perfeitamente do modo como ela definiu o relacionamento virtuoso e perfeito numa família: “Viver é estar juntos, olhar-se e querer-se bem”.

 

Catolicismo Esses episódios são tão interessantes, que nos agradaria conhecer outros que o senhor possa recordar.

Dr. Adolpho Dr. Plinio também se lembrava de que, ainda menino, com seus sete anos mais ou menos, lia livros para crianças e fazia considerações sobre a pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo. Com aquela idade, e contemplando as imagens d’Ele, chegou à certeza de que Jesus Cristo era o Homem-Deus. Nisso muito lhe auxiliavam as narrações da História Sagrada que tia Lucilia apresentava para os filhos. Essa formação religiosa foi tão marcante, que aproximadamente naquela idade Plinio dava aulas de catecismo aos empregados da casa, com base no que ouvira de sua mãe.

 

Quarto de Da. Lucilia, onde ela faleceu

Catolicismo Dos últimos momentos de Dona Lucilia, o que o senhor poderia nos dizer?

Dr. Adolpho Numa reunião com Dr. Plinio, alguém mostrou a ele uma fotografia de tia Lucilia bem idosa, na qual transluzia muito a esperança do Céu e a confiança na misericórdia divina. Mencionando o dito latino “Talis vita finis ita” (tal vida, tal fim), ele comentou que toda a vida dela fora assim, e assim ela caminhava para o final da vida. Nessa foto se percebia a afabilidade, mas também a seriedade de uma pessoa que sofreu e estava tranquila, pronta para se apresentar diante de Deus.

         Plinio não assistiu ao desenlace final. Ele estava em casa, mas em outro cômodo. Entretanto, um médico amigo a assistiu e fez uma narração daquele último instante. Disse ele que naquele momento final, apesar da crise cardíaca, tia Lucilia estava muito tranquila, e fez solenemente um grande Sinal da Cruz. Com este sinal, despediu-se da vida e entregou sua alma a Deus aos 92 anos de idade.

20 de abril de 2026

150 ANOS DE UMA TRADICIONAL DAMA PAULISTA

 

Dona Lucilia em Paris (1912) 

Nossas homenagens no sesquicentenário do nascimento de Da. Lucilia Ribeiro dos Santos Corrêa de Oliveira, extremosa mãe do idealizador e principal colaborador de Catolicismo, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira

Fonte: Revista Catolicismo, Nº 903, abril/2026

Nossos leitores bem conhecem Plinio Corrêa de Oliveira. Pouco conhecem, entretanto, a respeito de quem lhe deu a vida e o formou no amor de Deus, inculcando-lhe desde a mais tenra idade a devoção aos Sagrados Corações de Jesus e de Maria e o amor à Santa Igreja Católica Apostólica Romana, à qual ele dedicou toda a sua vida, lutando incansavelmente em sua defesa e da civilização cristã dela nascida e combatendo seus adversários.

Lucilia Ribeiro dos Santos Corrêa de Oliveira pertencia à tradicional linhagem dos paulistas denominados quatrocentões — provenientes dos fundadores ou dos primeiros povoadores da cidade de São Paulo, inclusive alguns bandeirantes. Dentre seus antepassados maternos, destacou-se, durante o reinado do Imperador D. Pedro II, o Prof. Gabriel José Rodrigues dos Santos (1816-1858), catedrático da renomada Faculdade de Direito de São Paulo, advogado, orador brilhante, deputado provincial e mais tarde nacional.

O Prof. Plinio sempre manifestou suma gratidão a Dona Lucilia pela formação religiosa, moral e psicológica que ela lhe imprimiu. De uma esmerada educação e modo de ser bem característico das famílias aristocráticas da São Paulo de outrora, ela possuía uma cordialidade exemplar no trato com as pessoas. Era também de uma piedade exemplar no trato com as coisas sagradas. Virtudes que tão bem transmitiu ao filho, como que por osmose permeadas de alma a alma.

Certa vez, ele comentou que sua devoção ao Sagrado Coração de Jesus remontava à mais tenra infância, e que — conta-se entre seus familiares —, antes mesmo de aprender a pronunciar as palavras mamãe e papai, ela lhe ensinara a apontar para a imagem do Sagrado Coração quando lhe perguntavam onde estava Jesus, e as primeiras palavras que dela aprendeu a pronunciar foram Jesus e Maria.

A devoção ao Sagrado Coração de Jesus marcou profundamente a vida de Dona Lucilia, que soube bem comunicá-la ao filho, como se verá no texto que segue — assim como na entrevista que reproduziremos proximamente —, mas muitos outros aspectos podem-se destacar em seu caráter e em sua alma. 

Assim, para homenageá-la neste mês em que recordamos os seus 150 anos, escolhemos para nossos leitores alguns comentários do Prof. Plinio que ressaltam primordiais aspectos dela.

 

Lucilia com 23 anos

Inflexibilidade, suavidade,

gentileza, coerência

         Durante um almoço, conversando com discípulos, todos membros da TFP, que se encontravam na fazenda Morro Alto de Nossa Senhora do Amparo (na cidade de Amparo, no interior paulista), em 12 de agosto de 1988, pediram ao Prof. Plinio que explanasse sobre os principais traços que mais admirava em sua mãe.

Não era de seu costume tomar a iniciativa de falar a respeito dela, mas o fazia quando insistiam para que tratasse do assunto. Foi o que se passou nesse almoço, cujo texto, extraído de fita magnética (K-7), reproduzimos a seguir. Apenas o transpomos para a linguagem escrita o que fora dito de modo informal numa conversa durante uma refeição.

*   *   *

“Constituía traço dominante da alma dela [Dona Lucilia] uma seriedade grave, mas paradoxalmente muito suave; uma pessoa muito certa e segura no julgar as coisas; um espírito muito ‘pão-pão, queijo-queijo’, pouco sujeito a dúvidas.

Ela podia hesitar no tocante a coisas pequenas e secundárias, mas nas grandes linhas gerais da vida, nas convicções, no modo de tocar os seus afazeres, ela não tinha um pingo de hesitação. Era feita de certezas — certezas calmas, lúcidas, de quem via logo à primeira vista e com muita nitidez o que era verdade e o que era o erro, o que era o bem e o que era o mal, o que era o feio e o que era bonito. Ela aderia inteiramente ao ‘Verum, Bonum, Pulchrum’ [Verdadeiro, Bom e Belo — três dos transcendentais do ser, como ensina a filosofia escolástica. O Verum aponta para a inteligência, o Bonum para a vontade, e o Pulchrum para a contemplação].

Uma alma com uma honestidade, com uma limpidez, que faziam uma espécie de um só com ela. Uma sinceridade que a levava a não querer senão o ‘Verum, Bonum, Pulchrum’. Aquilo que ela queria, queria mesmo, fortemente, e o que não fosse isso ela rejeitava. A aceitação era aceitação forte, a rejeição era a rejeição, a convicção era convicção, a negação era a negação e a inflexibilidade verdadeiramente inflexível, mas suave e gentil.

Família Ribeiro dos Santos, da esq. para dir.: Antônio (Toni), Gabriel, Dr. Antônio, Da. Gabriela, Eponina (Yayá), Lucilia e a pequena Brazilina (Zili). [Foto de 1899]


Acrescente-se a isso uma tendência de espírito a ver as coisas sempre pelo lado maravilhoso e pelo seu mais alto aspecto. Ela tinha um espírito muito elevado. Quando se conversava com ela sobre determinado tema, tendia logo a colocá-lo no mais alto, conforme seu feitio intelectual, como uma senhora e mãe de família.

Junto com esses aspectos, ela era uma pessoa que tinha ao mesmo tempo muita alegria de viver e muita tristeza acumulada. Ela tinha ideia de como deveria ser a vida, e tinha ideia de que a vida era um Vale de Lágrimas, e que, portanto, normalmente as pessoas deveriam passar pelo sofrimento.

Ela nasceu em Pirassununga [no dia 22 de abril de 1876], no interior de São Paulo, onde seu pai advogava no começo de sua carreira. Depois, ele mudou-se para a capital [em 1893], onde fundou um escritório de advocacia e prosperou.

Ela, já idosa, se referia a Pirassununga como se fosse o dia de ontem. Contava coisas de sua cidade natal com verdadeiro encanto, por exemplo, dos colibris da cidade. Falava que havia tantos que — numa sala da casa onde ficavam expostos dois óleo-gravuras representando buquês de diversas flores — eles se iludiam e batiam com o bico no vidro do quadro. Certa vez um deles bateu com tanto ímpeto que caiu no chão, e que uma tia molhou o bico do beija-flor para ele se recompor e voltar a voar. Mamãe contava isso, e um mundo de outros episódios, mas tudo com pormenores, vendo o alcance simbólico das coisas, como, no caso, a delicadeza e a beleza dos colibris.

Ela possuía um espírito elevado, mas capaz de descer aos últimos pormenores e se entreter com uma simples pétala de flor e outras coisas pequenas, mas também com recordações dela em Paris, na Alemanha, no Rio de Janeiro ou com episódios da sociedade.

Ela gostava também de contar muitos casos da vida quotidiana. Em todas as suas narrativas ela revelava a variedade de sua alma, considerando os aspectos simbólicos e morais com certo fundo religioso.

Lembro-me dela falando das festas de seu tempo. Por exemplo, de um baile que houve no palacete do Conde Álvares Penteado. Ela descrevia com pormenores a casa toda ornamentada; que sua mãe, Dona Gabriela Ribeiro dos Santos (1852-1934), uma senhora realmente muito bonita e de grande distinção, fora escolhida para dançar com o Conde.

Sobre todas as coisas mamãe gostava de comentar, desde o Conde até uma velha senhora de Pirassununga; da visita que tinha feito a Neuilly-sur-Seine até a visita à Princesa Isabel, mas tudo sob o ângulo de análises dos ambientes e costumes, marcando os comentários com o aroma de uma boa formação moral.

Na família se conversava muito sobre política, mas nisso ela não entrava, não tomava partido. Entretanto, quando eclodiu a I Guerra Mundial, ela não aceitou que a Alemanha invadisse a França. Quando foi atingida a Catedral de Reims, por um bombardeio alemão, ela tomou aquilo como se tivessem atingido a própria casa dela. Ela acordava cedo e ia ver nos jornais as notícias da guerra. Comentava com meu pai, pois eu, muito menino ainda, não entendia.

Imagem do Sagrado Coração
 que pertenceu a Dona Lucilia

Entretanto, mamãe melhor se manifestava ela mesma nos momentos em que estava rezando.
Nesses momentos, eu tinha impressão de que todas as qualidades dela cresciam e se estabelecia uma espécie de vínculo entre o Sagrado Coração de Jesus e ela — mas sem visões nem milagres ou revelações. Era uma espécie de relacionamento por onde toda a bondade dela, todo seu modo de ser era em parte produto da tradição brasileira, mas era muito mais fruto da devoção dela ao Sagrado Coração, que lhe comunicava a bondade d’Ele, as qualidades d’Ele. Tudo isso se realizava de modo inefável, mas enchia a alma dela e estabelecia uma consonância entre ela e todas as coisas da Igreja.

Quando [em 1919] entrei no Colégio São Luís, dos padres jesuítas em São Paulo, compreendi perfeitamente, pelo natural desenvolvimento do espírito de todo menino, que mamãe podia significar algo muito alto na minha vida, mas que não era o paradigma de minha vida. Meu paradigma era a Santa Igreja Católica Apostólica Romana, como meus professores jesuítas ensinavam.

Naquele tempo, eles ensinavam muito bem, ao menos para o meu intelecto de criança. Falavam muito bem do Papa, da devoção que se deve ter a ele; promoviam a devoção a Nossa Senhora; impulsionava a Congregação Mariana; falavam e combatiam duramente os adversários da Igreja. Por exemplo, eles repugnavam o movimento de insurreição dos liberais italianos contra os Estados Pontifícios no século XIX, falavam mal da invasão de Roma, de Garibaldi etc. Ensinavam bem tudo isso — o que, desde cedo, me fazia ir compreendendo a Revolução que visava destruir a ordem cristã no mundo.

Naquela época de menino, eu via dois valores diferentes: primeiro a Igreja, fonte da verdade; depois a Revolução, da qual, em última análise, a ignomínia essencial era de se atirar contra a Igreja. Por outro lado, eu olhava minha mãe e, como criança, me perguntava: o que valia mais?

E a resposta que me veio ao espírito foi: essas coisas não se dissociam, pois tudo quanto há em mamãe ela recebeu da Igreja. E ainda me perguntava: nela, tudo é conforme a Igreja? Porque se algo nela não for conforme a Igreja, eu prefiro a Igreja a ela, porque a Igreja foi fundada por Deus. Quero muito bem à minha mãe, mas ela é uma criatura humana que pode errar como eu, como qualquer um. E eu a reexaminava ponto por ponto. Inclusive fazia perguntas a ela para saber o que pensava de certos temas. Ela passou comigo por um ‘Santo Ofício’, por uma inquisição. Eu fui o ‘inquisidor’ dela. ‘Inquisidor’ afetuoso, respeitoso, meticuloso, inflexível. Nem preciso dizer que ela passou nesse exame com nota 100...

A resposta a todas as perguntas — na cabeça de uma criança — era invariavelmente a seguinte: ‘Isso é bom porque é conforme à Igreja, e não porque é conforme a mamãe, senão enquanto ela representa — como uma boa mãe de família deve representar — a Igreja. Mas o bem é a Igreja!’.

Um exemplo: eu tinha um tio, irmão dela, que fazia parte do governo de São Paulo, era Secretário de Estado. Na época arrebentou uma Revolução e o governo começou a convocar os jovens para irem combater por essa Revolução.

Um dia, meu tio estava se despedindo dela em casa e ela foi acompanhá-lo até à porta, e fui junto. Quando chegou à porta da rua, ele — brincando, mas ela não percebendo que era uma brincadeira — disse que ela precisava ‘dispor de tudo para que o Plinio pegasse em armas e seguisse para o combate.’

Ela respondeu: ‘Não, não vai não! Meu filho não vai combater nessa Revolução!’. Ele fingiu-se de zangado: ‘Mas como não! É um dever da Pátria!’. Ela, com firmeza, disse: ‘Gabriel! Fique bem sabendo, o Plinio não vai entrar nesse negócio!’. Meu tio sabia que eu não iria, mas continuou a gracejar: ‘É, vocês são assim, hein? Mas se fosse para defender a religião iria!’ E ela retrucou imediatamente: ‘Aí naturalmente, Plinio seria o primeiro a ir…’

Fatos assim, muito coerentes, aconteceram durante toda a vida dela até o fim. O último eu não tive a alegria de assistir, por estar convalescente de uma grave crise de diabetes. Mas o médico, Dr. Duncan, me contou.

Ele estava amavelmente prestando assistência médica a ela e havia passado a noite em claro junto à sua cama. Pela manhã, ele mandou a empregada me avisar no meu quarto que mamãe estava com uma crise cardíaca fortíssima, e que estava prestes a falecer. Eu então me levantei e fui para o quarto dela.

Quando cheguei, ela tinha acabado de entregar sua alma a Deus, mas o Dr. Duncan me contou o último gesto dela. Que quando chegou o último instante, mamãe fez o Sinal da Cruz bem grande e imergiu na morte rumo à eternidade, mas com toda serenidade, decisão e força”.

*   *   * 

Era o amanhecer de 21 de abril de 1968. Naquele momento de dolorosa separação, o filho osculou sua querida mãe e disse entre lágrimas: “Mamãe me ensinou a amar Nosso Senhor Jesus Cristo, ensinou-me a amar a Santa Igreja Católica”. Haveria um obituário mais elogioso do que este?

No dia seguinte, essa tradicional dama paulista, da qual Plinio Corrêa de Oliveira se honrava de ter nascido, completaria 92 anos.

Numa carta a Júlio de Mesquita Neto — ex-diretor de um famoso jornal que ecoou ofensas caluniosas contra Dona Lucilia — o Prof. Plinio escreveu, em 15 de agosto de 1979, encerrando a missiva: “Beati mortui qui in domino moriuntur – bem-aventurados os mortos que morrem em paz com Deus. Da paz do Senhor onde se encontra, bem sei que minha querida mãe reza por mim. Segundo a ilimitada bondade de seu coração, sei que ela também está rezando pelo autor da ofensa. E pede que a este ninguém faça o mal feito a ela e a mim”.

A Dona Lucilia nosso preito de homenagem e agradecimento pelo varão que gerou e formou com caráter tão magnânimo e entregou como filho fidelíssimo da Santa Igreja Católica.

É de origem latina o nome Lucilia, cuja raiz é lux, lucis. Etimologicamente, significa luminosa ou iluminação, que pertence à luz, e está também associado a clareza e a pureza (Cfr. Oxford Dictionary of First Names, 2ª edição, 2006, p. 186).

Que desde o Céu, por tantos méritos de mãe autenticamente católica, ela ilumine ‘lucilianamente’ nossos caminhos, obtendo-nos dos Sagrados Corações de Jesus e Maria a graça de continuar no rumo do bom combate iluminado e empreendido por seu querido filho neste Vale de Lágrimas.

Da Redação de Catolicismo

13 de abril de 2026

Pesquisas revelam o que os americanos pensam sobre questões morais

 


✅  Plinio Maria Solimeo

Com uma população estimada em 2025 entre 341,7 e 347,2 milhões de habitantes — crescimento esse impulsionado principalmente pela imigração, apesar da baixa taxa de natalidade e das mortes —, a sociedade americana está bastante dividida entre conservadores, liberais e moderados. Os primeiros geralmente se concentram no Partido Republicano e têm obtido aproximadamente 38% da intenção de votos contra 24% dos representantes do Partido Democrata. Os moderados oscilam entre um e outro.

Nos últimos 30 anos a polarização nos Estados Unidos atingiu níveis críticos, com os Democratas movendo-se cada vez mais para a esquerda e os Republicanos mais para a direita. Por isso a oposição entre os dois partidos cresceu também, indo além da compreensível incompatibilidade entre inimigos existenciais e opositores, para muitas vezes chegar a afetar até a governabilidade do país. Isso se torna manifesto, por exemplo, quando se trata da aprovação da lei orçamentária do governo pelas duas casas do Congresso.

Por causa da constante desavença entre republicanos e democratas, isso pode gerar uma paralisação ou shutdown na aprovação do orçamento. Foi o que ocorreu concretamente no ano passado quando, devido a um impasse político entre o Congresso e o Poder Executivo, o shutdown forçou o governo a paralisar suas atividades não essenciais pelos 43 dias que durou o impasse. 

Essa polarização entre os americanos é mostrada pelo Pew Research Center[i] em interessante reportagem com o título Republicanos e Democratas diferem profundamente em questões sobre o aborto, a homossexualidade e a pena de morte são moralmente errados”, baseado em duas pesquisas feitas por experientes membros desse instituto, respectivamente de 24 a 30 de março do ano passado com 3.605 americanos adultos, e de 5 a 11 de maio do mesmo ano com 8.937, sobre o que pensam sobre problemas morais.

Essas entrevistas foram feitas com diferentes grupos de americanos divididos por idade, sexo etc. das quais só apresentaremos algumas por questão de espaço.

 

O que pensa a generalidade dos americanos sobre os problemas morais

O Pew Research, falando dos americanos em geral, afirma: Em uma ampla gama de questões, os americanos expressam visões moralmente permissivas. Dá como exemplo que 91% deles afirmam que usar contraceptivos para evitar a gravidez não é moralmente errado, 40% acham que é moralmente aceitável, 51% pensam que não é uma questão moral, enquanto só 8% julgam que é moralmente errado.

Já com relação ao adultério eles são em geral mais conservadores, pois 90% julgam-no moralmente errado, contra 9% para os quais não o é, enquanto apenas 7% afirmam que é aceitável.

À pergunta sobre se é moralmente errado ver pornografia, o número dos que concordam com essa afirmação é de apenas 52%, contra 47% que afirmam que não é moralmente errado, 31% julgam que não se trata de uma questão moral, e 15% que afirmam que é moralmente aceitável.

Sobre o aborto, apenas 47% dos entrevistados julgam-no moralmente errado. Somando-se os 52% dos que julgam que não o é aos 21% que lhe são favoráveis e aos 31% que afirmam que não é uma questão moral, temos que, no fundo, a grossa maioria dos americanos é favorável ao aborto.

Com relação à homossexualidade, apenas 39% dos entrevistados mostraram-se contrários. Uma maioria de 60% julga que não é moralmente errado, ou seja, não são contra, 23% são declaradamente a favor e 37% que isso não é uma questão moral.

Também sobre a eutanásia, uma grossa maioria de 63% julga que não é moralmente errada, 34% julgam-na moralmente aceitável, 29% dizem que ela não implica em questão moral e apenas 35% lhe são contrários.

Quanto à pena de morte, 64% dos entrevistados julgam-na moralmente certa, 38% moralmente aceitável e 26% que não se trata de uma questão moral. Apenas 34% julgam-namoralmente condenável.

A outra estatística que nos interessa é a sobre o divórcio. Como era de se esperar num mundo tão corrompido como o nosso, uma maioria de 76% considera que não é moralmente errado, 31% que é moralmente aceitável, 45% que não implica uma questão moral, e apenas 23% afirmam que ele é moralmente errado.

 

O que pensam os jovens entre 18 e 29 anos

Em vários pontos, os jovens entre 18 e 29 anos se mostram mais conservadores do que os mais velhos. Por exemplo, na questão do divórcio, da fertilização in vitro e dos anticonceptivos lideram os que julgam que isso é moralmente errado.

Já com relação ao aborto, ao adultério, à eutanásia e à homossexualidade, eles são mais complacentes que seus maiores.

Por outro lado, na questão da pena de morte eles a rejeitam mais que os mais velhos, influenciados pela propaganda da esquerda e de certos púlpitos.

É interessante notar que, segundo o levantamento do Cooperative Election Study (CES) — uma das mais abrangentes pesquisas eleitorais e populacionais do país —, 21% dos integrantes da Geração Z declaram-se católicos, superando os 19% que se identificam como protestantes. Essa inversão quebra uma hegemonia protestante que vigorava há séculos.

 

Como vota cada sexo

É curioso verificar que em várias questões os homens se mostram mais conservadores que as mulheres. Por exemplo, 28% deles julga que o divórcio é moralmente errado, o que ocorre apenas com 19% das mulheres. Do mesmo modo, 51% deles julgam que o aborto também é moralmente errado, enquanto o número de mulheres que compartem essa opinião perfaz 44%. No tocante à homossexualidade, 43% dos homens consideram-na moralmente errada, contra 37% das mulheres.

Essa tendência se manifesta em outros pontos morais, como a fertilização in vitro, uso de anticoncepcionais, eutanásia, adultério etc. nos quais os homens são sempre mais conservadores que as mulheres.

 

O que pensam Republicanos e Democratas

A respeito do aborto é que há mais radicalização entre os dois partidos. Enquanto somente 24% dos Democratas o consideram errado, 71% dos Republicanos são contrários ao assassinato de inocentes.

Para 59% dos Republicanos o homossexualismo é condenável, apenas 20% dos Democratas têm a mesma opinião. 65% dos Republicanos julgam errado ver pornografia, número que cai para 39% entre os Democratas.

O uso de contraceptivos é apoiado ou visto com indiferença tanto por democratas — dos quais só 7% o julgam moralmente errado — quanto por republicanos (9%).

Há menor rejeição por parte dos dois partidos com relação à eutanásia, sendo que só a acham moralmente errada 48% dos republicanos e 23% dos democratas.

Já com relação ao adultério, a diferença entre os dois partidos na sua condenação é pequena: 93% dos republicanos, e 88% dos democratas.

O divórcio, como se podia esperar nesta época de quase amor livre, é rejeitado apenas por 33% dos republicanos, que o acham moralmente errado, e por 13% dos democratas.

O que surpreende é que 48% dos republicanos achem a pena de morte moralmente errada, enquanto só 20% dos democratas a condenem.

 

O fator religioso que deveria orientar os votos

Não sabemos até que ponto o fator religioso influenciou a votação das pessoas nessas pesquisas. Pois, tanto para os católicos quanto para protestantes conservadores, esse fator deveria ter pesado.

Segundo dados recentes do Pew Research Center, as igrejas evangélicas históricas e pentecostais têm apresentado uma queda contínua, especialmente entre jovens e adultos até 40 anos, sobretudo pela desfiliação religiosa e rejeição à politização das igrejas. Enquanto o catolicismo apresenta uma estabilidade relativa, sustentada principalmente pela imigração latina, que mantém o número absoluto de católicos.

Somando-se as inúmeras seitas protestantes, estas representam ainda 40% da população americana, enquanto os católicos representam somente 20%. Contudo, os Estados Unidos têm a quarta maior população de católicos do mundo, com 53 milhões de fiéis.

Se as pesquisas tivessem sido feitas exclusivamente com estes, o resultado teria sido muito diferente? Tememos que não. Pois hoje em dia, com a decadência religiosa e o esquecimento dos princípios morais mais comezinhos, o casamento em declínio sendo substituído por uniões ilícitas mais em uso, é cada vez menor o número de católicos que ainda pautam sua vida segundo os princípios da Santa Igreja.

Para ilustrar nossos leitores, vamos lembrar o que diz a Doutrina Católica sobre os vários pontos abordados, seguindo o Terceiro Catecismo da Doutrina Cristã, ou Catecismo Maior de São Pio X.

Aborto – Pílulas abortivas

Está condenado no 5º. Mandamento da Lei de Deus, não matar, porque o aborto espontâneo é um verdadeiro assassinato de inocentes perpetrado pela própria mãe. E, sendo um homicídio voluntário, classifica-se como um dos “pecados que bradam ao Céu e pedem à Deus por vingança”, pois sua malícia é tão grave e manifesta, que provoca o mesmo Deus a puni-lo com os mais severos castigos

Homossexualismo

Por ser um ser um ato sensual contra a natureza, também é um dos pecados que bradam ao Céu e pedem a Deus por vingança.

Adultério – relações extramatrimoniais

A infidelidade matrimonial está condenada pelo 6º. Mandamento da Lei de Deus “não pecar contra a castidade”, e pelo 9º. “Não desejar a mulher do próximo” que, segundo o Catecismo de São Pio X, “proíbe expressamente todo o desejo contrário à fidelidade que os cônjuges se juraram ao contrair o matrimônio; e proíbe também todo o pensamento culpável e todo desejo de ação proibido pelo sexto Mandamento”.

Eutanásia

Esta prática está condenada pelo 5º Mandamento da Lei de Deus, “Não matar”. Diz o Catecismo: “Neste Mandamento Deus proíbe ainda ao homem dar a morte a si mesmo, isto é, o suicídio [...] porque o homem não é senhor de sua vida, como o não é da dos outros”.

Divórcio

“O Matrimônio é um Sacramento instituído por Nosso Senhor Jesus Cristo que estabelece uma união santa e indissolúvel entre o homem e a mulher, e lhes dá a graça de se amarem um ao outro santamente, e de educarem cristãmente seus filhos [...] e não se pode quebrar senão pela morte de um dos cônjuges, porque assim estabeleceu Deus desde o começo, e assim o proclamou solenemente Jesus Cristo, Senhor Nosso”. [...] “O vínculo do matrimônio cristão não pode ser dissolvido pela autoridade civil, porque esta não pode ingerir-se em matéria de Sacramentos, nem separar o que Deus uniu”.

Pena de Morte

A doutrina tradicional da Igreja, baseada em São Tomás de Aquino, defendia a licitude da pena capital em casos específicos, argumentando que retirar a vida de um grande malfeitor que ameaça a sociedade é um ato justo e salutar para preservar o bem comum. Ele comparava o criminoso a um membro gangrenado que deve ser amputado para salvar o corpo social. A sentença deve ser proferida por uma autoridade pública legítima, após julgamento justo, e não por vingança pessoal.

Entretanto, teólogos modernos argumentam que, se o sistema carcerário for capaz de neutralizar o criminoso sem a sua morte, isso diminui a necessidade da pena capital.

O que, com sobejas evidências, duvidamos

O Catecismo de São Pio X está de acordo com a doutrina de São Tomás, a qual foi até há pouco pregada pela Igreja: “É lícito tirar a vida do próximo: durante o combate em guerra justa; quando se executa por ordem da autoridade suprema a condenação à morte em castigo de algum crime; quando se trata de necessária e legítima defesa da vida, no momento de uma injusta agressão.”

Fertilização in vitro

A Doutrina Católica considera a fertilização in vitro (FIV) moralmente inaceitável, pois separa a procriação do ato sexual conjugal e frequentemente envolve a destruição de embriões. A Igreja ensina que os filhos devem ser concebidos através de um ato de amor entre os cônjuges, não como um produto laboratorial, respeitando a dignidade humana desde a concepção.

Esperemos que, pela intercessão de Nossa Senhora e de São José, Padroeira da Igreja Universal, tempos venham em que a sã doutrina católica e ortodoxa readquira seu lugar na Igreja como na época do Concílio de Trento, em que, ao lado das Sagradas Escrituras, estava a Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino, na qual os ensinamentos perenes da Santa Igreja orientaram e orientam até hoje os católicos amantes da tradição.



[i] O Pew Research Center é um think tank (laboratório de ideias) apartidário com sede em Washington, D.C., que fornece informações baseadas em dados sobre questões sociais, opinião pública, tendências demográficas e hábitos de mídia nos EUA e no mundo. Ele é conhecido por ser uma fonte neutra que não toma posições políticas ou de políticas.