6 de novembro de 2026

Estilos funerários, nobre lição de vida


✅  Plinio Corrêa de Oliveira

 

Catolicismo habitualmente publica, nesta seção, belas ilustrações. Por isto, não faltará quem se estarreça com a matéria de hoje, tão estranha para olhos modernos. Encontrar textos em lugar de gravuras já é uma decepção para espíritos mais afeitos a impressões e “vivências” do que a pensamento.

Que esses textos contenham matéria funerária, eis o cúmulo. Não tanto porque a certo gosto moderno repugnem temas fúnebres: o êxito dos noticiários policiais prova o contrário. Mas é que a morte, vista por seu lado novelesco, é fonte de emoções, e a tal título constitui tema para literatura sensacionalista. Mas, vista com olhos cristãos, ela é fonte de reflexões austeras. E é do que muita gente não gosta: pensar... e pensar austeramente.

Em 1559, a gráfica de Christophe Plantin, em Antuérpia, publicou “La magnifique et somptueuse pompe funèbre faite… aux obsèques de l’empereur Charles V de très digne mémoire”. Consistia numa série de gravuras desdobráveis desenhadas por Hieronymus Cock e gravadas por Joannes e Lucas van Doetechum, que, em conjunto, reconstituíam o cortejo fúnebre de Carlos V em Bruxelas. Esta publicação de grande difusão — existiram também edições em neerlandês, espanhol, italiano e alemão — foi uma resposta ao  fascínio generalizado pelo esplendor fúnebre das elites governantes.


Entretanto, poucas ocasiões revelam, tanto quanto a morte, o sentido de uma civilização, com os ambientes e os costumes que ela comporta.

Pela atitude do homem perante a morte, conhecem-se os valores supremos segundo os quais ele modelou sua vida. E uma sociologia dos temas fúnebres é um dos melhores meios para se analisar a alma dos vários povos.

*   *   *

No caso concreto, o país em foco é a gloriosa e catolicíssima Espanha. Em um jornal madrilenho, encontramos algumas comunicações de aniversários de falecimento, acompanhadas de pedidos de oração. Lendo-as, íamos ao mesmo passo fazendo um paralelo entre elas e as praxes congêneres do Brasil. E uma caudal de reflexões nos ia ocorrendo à mente, a propósito desses textos. Procuraremos comunicá-las aos leitores.



O espírito de família manifesta-se por vários indícios. Ele mantém viva a ligação entre as sucessivas gerações, e por isto no lar arde sempre a chama da tradição. Tradição modesta de honradez, trabalho e carinho em lares humildes. Tradição de grandes feitos, virtude insigne e glória nas estirpes ilustres. Em um e outro caso, boa e legítima tradição, patrimônio moral que grandes e pequenos podem deixar a seus pósteros, incomparavelmente mais precioso do que o patrimônio material.

Quem ama a família, ama, pois, a tradição, e não é portanto sem vivo comprazimento que se leem as longas enumerações de sobrenomes dessas notícias fúnebres. Cada um deles evoca uma das estirpes antigas que entraram na composição delicadíssima das influências biológicas e ambientais que caracterizam cada família. É como um tocante e ufano desfilar de ancestrais já mortos, que constituem uma longa cadeia da qual os vivos também são elos. E na consciência desta ligação a família afirma a consciência que tem de sua continuidade e de sua força, maior que a da própria morte.

Essa ligação, tão forte em relação à ancestralidade morta, estende-se também aos vivos. Os parentes (e não apenas a esposa, os filhos e os netos) tomam parte no comunicado fúnebre e se associam aos sufrágios. É o tronco familiar bastante pujante para alimentar de sua unidade os galhos mais longínquos.

E esta solidariedade atravessa os anos. O décimo sétimo aniversário da morte do Marquês de Santa Cruz ou o décimo primeiro do falecimento de Doña Monserrat de la Vega se comemoram com uma multiplicidade de sufrágios e manifestações de pesar maior que as do primeiro aniversário de morte entre nós. Sinal de que em terras profundamente cristãs não corresponde à verdade afirmar que “les morts vont vite”.



Além do senso de família, há que notar nessas participações seu tom solene. Os nomes vêm por extenso, os títulos de nobreza e as dignidades estatais também. É que a morte é terrivelmente majestosa, e tudo quanto dela se aproxima participa da sua magnitude. Mais do que a inegável grandeza e a ainda mais inegável pequenez do homem, deixa-nos ela ver a infinita e tremenda grandeza de Deus. Nada há que destoe mais da morte do que uma atitude “coca-cola”! E toda a pompa humana cabe bem para fazer sentir a gravidade deste “fim de mundo”, que é para cada homem o momento em que deixa esta vida.

*   *   *

Outrora era mais frequente entre nós dizer, nos necrológios, que o morto havia expirado cristãmente. Infelizmente, o laicismo crescente, a mania de dar a tudo que se publica e que não tenha caráter esportivo ou sensual, uma concisão telegráfica, vão eliminando sempre mais a menção desta circunstância. E que circunstância! Num jornal que registra as menores ninharias referentes a uma partida de futebol, não há espaço para informar se foi na paz do Senhor que esta ou aquela pessoa morreu.

Nestes noticiários espanhóis, pelo contrário, se diz de um que morreu cristãmente, de outro que recebeu o sacramento e a augusta bênção do Vigário de Cristo, e da outra, finalmente, que expirou com essa bênção e sob o manto de Nossa Senhora dos Perigos.

No caso de Doña Monserrat, a ideia da importância da direção de consciência é levada a um extremo tocante. O diretor espiritual é mencionado em primeiro lugar na lista das pessoas que convidam para as exéquias. Profunda afirmação do papel da Confissão e da direção espiritual na vida do fiel.



Junto a tanta ufania de família, nota-se uma grande humildade: é bem viva a noção de que pela miséria humana precisamos, todos, de muitos sufrágios, não só missas em várias igrejas, como rosários públicos, bênçãos do Santíssimo Sacramento, indulgências etc.

*   *   *

Por fim, já que nos ocupamos com os sufrágios por essas três almas, rezemos uma Ave-Maria por intenção de cada uma. De sorte que a edificação que suas famílias nos deram redunde em fator de eterno repouso dos três mortos.

____________

Fonte: Catolicismo, Nº 91 – Julho/1958


5 de novembro de 2026

MISSAS GREGORIANAS

 


“Eficácia especial para obter libertação rápida de uma alma sofredora”

 

Consiste em fazer celebrar 30 Missas em outros tantos dias consecutivos sem interrupção, às quais está anexa a indulgência gregoriana.

A origem das Missas gregorianas procede de um fato acontecido no mosteiro de Santo André, em Roma, do qual o Papa São Gregório Magno fora abade.

Esse fato é narrado pelo próprio santo, em seu Livro Quarto dos Diálogos.

Um dos monges, chamado Justo, havia ajuntado três moedas de ouro e as guardara cuidadosamente escondidas. Mas revelou sua falta quando se viu no leito de morte. O santo, a essa altura já Papa, para puni-lo de maneira exemplar — já que o monge havia cometido uma infração muito grave contra a regra, que prescrevia o espírito de pobreza — proibiu a comunidade de visitá-lo e de ir rezar ao redor dele, como ordinariamente se faz. E ordenou que Justo fosse enterrado com as três peças de ouro sob um monte de esterco. Mas como ele morrera arrependido, não quis privá-lo das orações da Igreja. Por isso ordenou que lhe oferecessem o Santo Sacrifício da Missa 30 dias consecutivos. Após a trigésima Missa, Justo apareceu a um irmão no convento, declarando que acabara de entrar no Paraíso.

Algumas normas para as Missas Gregorianas

Sobre essa prática, a Sagrada Congregação das Indulgências declarou: “A oferta de Missas Gregorianas tem uma eficácia especial para obter de Deus a libertação rápida de uma alma sofredora, e que esta é uma crença piedosa e razoável dos fiéis.”

Segundo a Lei da Igreja, as Missas Gregorianas só podem ser oferecidas por um falecido, e não por vivos; não podem ser oferecidas por vários falecidos ao mesmo tempo, nem pelas almas do Purgatório em geral. Por isso, tem-se que informar o nome do falecido pelo qual se está rezando. Entretanto, é permitido e até salutar, encomendar-se mais de uma Missa Gregoriana pelo mesmo falecido.

De acordo com as normas anteriores a 1967, as Missas Gregorianas deveriam ser ditas por 30 dias sem interrupção. Se o sacerdote que a celebrava quebrasse por qualquer motivo a sequência, deveria recomeçar a série desde o início.

Na atual disciplina sobre as indulgências, a Missa Gregoriana continua sendo uma série de 30 celebrações consecutivas, mas não é obrigatório que o mesmo sacerdote celebre todas, mas parte delas, contanto que outro sacerdote celebre as restantes. Por isso elas não precisam ser todas na mesma igreja ou no mesmo altar. Entretanto, segundo as novas normas, se o sacerdote a cargo das Missas não encontrar um substituto e a série for interrompida por causa razoável, dispõe a Igreja que os frutos do sufrágio sejam mantidos, continuando o sacerdote obrigado a completar as 30 missas o mais rapidamente possível. Mas não mais precisa recomeçá-las desde o início, mas do ponto em que as tenha interrompido.

Como as Missas Gregorianas não podem ser rezadas pelos vivos, os fiéis são aconselhados a providenciar desde já que as mesmas sejam celebradas para si, o mais rapidamente possível, após a morte.


3 de novembro de 2026

Impressionante história do Papa Inocêncio III

Papa Inocêncio III – Afresco do séc. XIII. Mosteiro do Sacro Speco de São Bento, em Subiaco, na província de Roma, Itália.

[Continuação do post do dia 1º de novembro 

Inocêncio III foi um dos maiores Papas a sentar-se no trono de São Pedro. Foi muito zeloso da glória de Deus, devoto da Santíssima Virgem e combateu com vigor as heresias de seu tempo. Sua vida era ilibada. Teve, porém, algumas fraquezas como certa vaidade e apego exagerado à família...

Mesmo assim, ficamos desconcertados ao lermos que ele foi condenado a passar séculos no Purgatório. Sua história nos mostra o rigor com que são julgados aqueles que exercem autoridade, seja na Igreja ou no Estado. Pois, como diz a Escritura: “Será duríssimo o juízo dos que governam” (Sb 6, 6). Ao mesmo tempo, revela a misericórdia divina, o poder da intercessão de Nossa Senhora e a eficácia dos sufrágios pelas almas dos falecidos.

O relato que segue baseia-se na obra já mencionada do Pe. François Xavier Schouppe S.J.

O Papa Inocêncio III morreu no dia 16 de julho de 1216. No mesmo dia, ele apareceu a Santa Lutgarda no monastério de Aywières, região central da Bélgica. Surpresa por ver um espectro envolto em chamas, ela perguntou de quem se tratava e o que desejava.

— “Sou o Papa Inocêncio”, respondeu ele.

— “Mas seria possível que Vós, nosso pai comum, vos encontrásseis em um estado assim?”, perguntou a santa.

— “Sim, eu de fato me encontro neste lugar. Estou expiando três faltas que teriam causado minha perdição eterna se não fosse a intercessão da bem-aventurada Virgem Maria: obtive o perdão delas, mas tenho de fazer reparação. Ai de mim! Aqui é terrível e este castigo terrível durará por séculos se tu não vieres em meu auxílio… Em nome de Maria, que obteve para mim o favor de recorrer a ti, peço-te, ajuda-me”.

Depois de dizer estas palavras, ele desapareceu.

Lutgarda anunciou a morte do Papa às suas irmãs, e juntas elas se dedicaram à oração e a obras penitenciais em favor do augusto e venerável Pontífice, cujo falecimento lhes foi comunicado algumas semanas depois.

Passados alguns anos, Inocêncio apareceu de novo à santa, desta vez resplendente de glória, e lhe disse que graças às Missas, orações e sacrifícios oferecidos em sufrágio de sua alma, seu tempo de Purgatório fora abreviado.

Quais teriam sido os pecados que esse grande Papa estava expiando?

Conhecemos apenas um deles: uma falta de humildade ao não se ajoelhar nem inclinar a cabeça durante a recitação do Credo na Missa, no momento em que se recordava o mistério da Encarnação de Cristo.



 


2 de novembro de 2026

PURGATÓRIO

 

Cristo ressuscitado desce ao Purgatório – Philippe de Champaigne (1652). Museu dos Agostinianos, Toulouse (França).

[Continuação do post de ontem]

A palavra “Purgatório” vem do latim “purgare”, “limpar”, “purificar”, “isentar de culpa” ou “livrar de impurezas” que é o que acontece com as almas que nele estão, para que possam entrar no Céu.

O Purgatório é um estado intermediário de punição e purificação antes do Céu, e está implícito na prática judaica de oração pelos mortos (2 Macabeus 12,39-46).

Os primeiros cristãos adotaram e continuaram essa prática, como mencionado pelos primeiros Padres da Igreja. São Paulo se refere a uma prova de fogo das obras de nossa vida em 1 Coríntios 3,13-15. O próprio Jesus mencionou o perdão de certos pecados após a morte e a uma prisão da qual os impiedosos não serão libertados “até que se pague o último centavo” (Cf. São Mateus 5,26; São Lucas 12,59).

Embora o conceito da necessidade de purificação já aparecesse antes de Cristo no Judaísmo, a formulação oficial da doutrina foi desenvolvida pela Igreja Católica ao longo dos séculos, sendo confirmada em concílios como o de Florença (entre 1438 e 1445) e, sobretudo, o de Trento (1545–1563), face às heresias protestantes.

 

Concílio de Trento

No Catecismo de Trento (também conhecido como Catecismo Romano, promulgado pelo Papa São Pio V em 1566), o Purgatório é definido como o estado de purificação final para as almas que morrem na graça de Deus, mas ainda carregam o peso de pecados veniais ou penas temporais devidas a pecados já perdoados.

A doutrina definida pelo Concílio de Trento foi sistematizada no Catecismo nos seguintes pontos:

* Estado de Purificação: As almas que partem desta vida arrependidas e no amor divino, mas com imperfeições, passam por um “fogo purificador” para alcançar a santidade absoluta antes de entrar no Céu.

 

* Distinção Clara: É um estado temporário e absolutamente distinto do Inferno, pois a salvação da alma já está garantida.

 

* Eficácia da oração: O Catecismo de Trento sublinha fortemente a Comunhão dos Santos. Ele declara que os vivos podem aliviar e acelerar o processo de purificação das almas no Purgatório por meio de orações, esmolas, boas obras e, principalmente, pelo Santo Sacrifício da Missa.



Brevíssimo Catecismo sobre o Purgatório

Ø O que é exatamente o Purgatório?

— A palavra Purgatório é entendida por vezes como um lugar, e outras vezes como um estado intermediário entre o Inferno e o Céu.

É, propriamente falando, a condição das almas que, no momento da morte, estão em estado de graça, mas que não expiaram completamente as suas faltas nem alcançaram o grau de pureza necessário para desfrutar da visão de Deus — isto é, para entrar no Céu.

Isso ocorre porque no Paraíso não pode entrar nenhum vestígio de pecado ou mancha. Portanto, aqueles que ainda não pagaram completamente pelos seus pecados precisam passar pelo Purgatório.

Ø Por que o Purgatório é necessário?

Deus é a própria Santidade — muito mais do que o sol é a luz —, e nem sequer uma sombra de pecado pode subsistir diante da Sua face.

Quando a iniquidade se manifesta nas criaturas, a Santidade de Deus exige expiação; e, quando essa expiação se realiza em todo o rigor da justiça, ela é terrível.

É por isso que a Escritura diz: “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria” (Pv 9,10), como se dissesse: “A sua justiça é terrível porque a sua santidade é infinita”.

Em outras palavras, é preciso que haja um meio de purificarmos a nossa alma antes de entrarmos no Céu. Apenas os santos — que não tenham pecados a expiar — vão diretamente para o Céu.

Ø O Purgatório é eterno ou transitório?

— O Purgatório não é eterno. Um dos primeiros efeitos da ressurreição geral e do juízo final será pôr fim ao Purgatório. Após o juízo final, as almas do Purgatório serão conduzidas ao Céu por São Miguel.

O Purgatório é, portanto, para a alma que morreu em estado de graça, um estado transitório que culmina numa vida de felicidade sem fim.

Não é uma prova na qual se possa ganhar ou perder mérito, mas um estado de reparação e expiação: as almas no Purgatório não podem mais ir para o Inferno, apenas para o Céu.

Ø Que dogmas de fé a Igreja propõe a respeito do Purgatório?

— A Igreja propõe duas verdades claramente definidas como dogmas de fé:

1. Existe um Purgatório;

2. As almas que nele se encontram podem ser auxiliadas pelos sufrágios dos fiéis, especialmente pelo Santo Sacrifício da Missa.

Ø Os protestantes aceitam o Purgatório?

— A doutrina do Purgatório foi negada pelos albigenses, pelos hussitas e pelos protestantes. Lutero começou, em 1517, negando o valor das indulgências, afirmando que elas não tinham valor diante de Deus para a remissão da pena devida aos nossos pecados. Passou depois a sustentar que o Purgatório não pode ser comprovado pelas Sagradas Escrituras; que as almas no Purgatório não têm certeza de sua salvação; e que as almas no Purgatório podem pecar ao tentar escapar dos sofrimentos pelos quais passam.

Calvino e Zwinglio seguiram Lutero ao negar as indulgências, o sacrifício da Missa e o Purgatório.

Sem propriamente aceitar a doutrina católica, alguns protestantes da atualidade distanciaram-se um tanto de seus mestres nesse assunto e admitem um estado intermediário entre o Inferno e o Céu. Eles não o chamam de Purgatório, e afirmam que as almas ali presentes ainda podem adquirir méritos e satisfazer a justiça divina. Alguns sustentam que os sofrimentos do Inferno não são eternos. Ora, esse “inferno temporário” em nada se assemelha ao Purgatório ensinado pela Igreja Católica, segundo o qual todas as almas no Purgatório estão em estado de graça e não podem mais pecar.

Ø O Purgatório está na Bíblia?

— É verdade que a palavra “Purgatório” não aparece no texto sagrado, mas a ideia de uma purificação após a morte está presente, sem a menor dúvida.

Há inúmeras passagens, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, que mostram claramente que as pessoas piedosas acreditavam que os pecados dos mortos podiam ser expiados pelos vivos. Ora, esse é um elemento constitutivo daquilo que os católicos chamam de “Purgatório”.

Os Padres da Igreja, desde o início, atestaram que essas passagens se referiam ao Purgatório.

Apenas alguns exemplos:

No Antigo Testamento

Após uma batalha contra um exército pagão, quando os soldados de Judas Macabeu foram sepultar seus companheiros caídos, descobriram que vários deles haviam usado, durante o combate, amuletos que invocavam os ídolos da cidade de Jânia (também chamada de Jabneel ou Yabnel). Judas organizou uma coleta para pagar por sacrifícios expiatórios a serem oferecidos no Templo de Jerusalém.

Sua ação é louvada no Livro Sagrado: “Ao fazer isso, agiu de maneira muito excelente e nobre, visto que tinha em mente a ressurreição; pois, se não esperasse que os caídos ressuscitassem, teria sido supérfluo e insensato rezar pelos mortos. Mas, se o fez tendo em vista a recompensa esplêndida que aguarda aqueles que adormeceram na piedade, foi um pensamento santo e piedoso. Assim, ele ofereceu expiação pelos mortos para que fossem absolvidos de seus pecados” (2 Macabeus 12,38-46).

Novo Testamento

* São Paulo, 1 Cr 3,13-15: “A obra de cada um aparecerá. O dia (do julgamento) demonstrá-lo-á. Será descoberto pelo fogo; o fogo provará o que vale o trabalho de cada um. Se a construção resistir, o construtor receberá a recompensa. Se pegar fogo, arcará com os danos. Ele será salvo, porém passando de alguma maneira através do fogo.”

* São Mateus 5,25-26: “Entra em acordo sem demora com o teu adversário, enquanto estás a caminho com ele para o tribunal, para que o adversário não te entregue ao juiz, e o juiz ao guarda, e sejas lançado na prisão; em verdade te digo: não sairás de lá enquanto não pagares o último centavo.”

As provas da posição católica, tanto nas Escrituras quanto na Tradição, estão também ligadas à prática de rezar pelos mortos. Por que rezar por eles, se não se acredita no poder da oração de proporcionar alívio àqueles que ainda estão privados da visão de Deus?

Ø Qual é a importância do Purgatório no “Corpo Místico de Cristo”?

— O Purgatório ocupa um lugar de destaque em nossa santa Religião. Ele constitui uma das partes principais da obra de Jesus Cristo e desempenha um papel essencial na economia da salvação do homem.

Lembremo-nos de que a Santa Igreja, considerada em sua totalidade, é composta por três partes: a Igreja Militante, a Igreja Triunfante e a Igreja Padecente, ou Purgatório.

Essa Igreja tríplice constitui o Corpo Místico de Jesus Cristo, e as almas no Purgatório são membros dele tanto quanto os fiéis na Terra e os eleitos no Céu.

No Evangelho, a Igreja é frequentemente chamada de Reino dos Céus. Assim, o Purgatório, tal como as Igrejas celeste e terrena, é uma província desse vasto reino.

Ø O que é a “Comunhão dos Santos”?

— As três Igrejas irmãs mantêm relações incessantes entre si e uma comunicação contínua, a que chamamos de Comunhão dos Santos.

Essas relações não têm outro objetivo senão conduzir as almas à glória eterna, a meta final para a qual todos os eleitos se dirigem.

As três Igrejas auxiliam-se mutuamente no povoamento do Céu, que é a cidade permanente das almas, a Jerusalém gloriosa.

Ø Com que espírito devemos ter devoção pelas almas do Purgatório?

— As orações, sacrifícios e sufrágios que oferecemos pelos falecidos fazem parte do culto católico, e o Espírito Santo infunde nos corações dos fiéis, com a caridade, a devoção pelas almas do Purgatório.

A Sagrada Escritura diz: “É, pois, um pensamento santo e salutar rezar pelos mortos, para que sejam purificados dos pecados” (2 Macabeus 12,46).

Para ser perfeita, a devoção pelas almas do Purgatório deve ser animada por um espírito que combine temor e confiança.

Por um lado, a santidade de Deus e a sua justiça inspiram-nos um temor salutar. Por outro, a sua infinita misericórdia concede-nos uma confiança ilimitada.

Ø Por que o temor do Purgatório é salutar?

— De fato, o temor do Purgatório é salutar. Seu efeito é despertar em nós não apenas uma compaixão caridosa pelas almas que sofrem no Purgatório, mas também um zelo vigilante pelo nosso próprio bem espiritual.

Pensemos no fogo do Purgatório e assim nos esforçaremos para evitar as menores faltas; pensemos no fogo do Purgatório e faremos penitência para satisfazer a Justiça Divina neste mundo, e não no outro.

Ø Como manter o equilíbrio entre o temor e a confiança?

— Guardemo-nos, porém, do temor excessivo e não percamos a confiança. Não esqueçamos a misericórdia de Deus, que não é menos infinita do que a sua justiça.

Se estivermos animados por esse duplo sentimento, se a nossa confiança na misericórdia de Deus for igual ao temor que a sua justiça nos inspira, teremos o verdadeiro espírito de devoção às almas do Purgatório. 

1 de novembro de 2026

PURGATÓRIO — A grande misericórdia de Deus que nos permitirá vê-Lo face a face

 


Plinio Maria Solimeo

✅ Fonte: Revista Catolicismo, Nº 911, novembro/2026 

         Os acontecimentos da vida moderna se sucedem numa tal celeridade, que sem nos darmos bem conta chegamos novamente às celebrações de Todos os Santos e Finados.

A festa de Todos os Santos comemora aqueles que, tendo falecido na graça de Deus, gozam já da felicidade eterna e veem a Deus face a face. Por isso, independentemente de terem sido beatificados ou canonizados, são chamados “santos”.

A Igreja, essa Mãe e Mestra que no decurso do ano celebra a festa de cada santo em particular, os reúne todos neste dia numa solenidade comum, na qual, numa visão grandiosa, engloba a multidão inumerável daqueles outros falecidos na graça de Deus, não beatificados ou canonizados, cujo nome só Ele conhece. Eles procedem “de todas as nações, tribos, povos e línguas, [os quais] de pé diante do trono e diante do Cordeiro, vestidos com túnicas brancas e de palmas na mão” (Ap 7, 9), aclamam Aquele que os resgatou com seu Sangue preciosíssimo.

No dia seguinte, Finados, a Igreja comemora todos aqueles “que nos precederam com o sinal da fé e dormem o sono da paz” (Cânon Romano, Memento dos mortos) e por isso se salvaram, mas que, não tendo saldado em vida o débito de todas as suas faltas, permanecem no Purgatório (ver quadro que postaremos amanhã, dia 2 de novembro).

 

Necessidade de se meditar nos “Novíssimos”

As solenidades litúrgicas de Todo os Santos e Finados nos convidam a meditar, como aconselha o livro do Eclesiástico (7,40), naquilo que nos acontecerá depois da morte: “Em todas as tuas obras, lembra-te dos teus novíssimos, e jamais pecarás.”

“Novíssimos” (do latim “novus”, último, que vem em último lugar) é como a Igreja designa os últimos e definitivos eventos a que todo ser humano deve passar ao fim da vida terrena: a morte, o juízo particular, a desgraça eterna ou a eterna bem-aventurança. A tradição popular os reduziu a uma rima, para facilitar a memorização: “morte, juízo, inferno, paraíso”.

Deles ninguém escapa, seja Papa, Imperador ou carvoeiro, como nos lembra a liturgia da Quarta Feira de Cinzas, quando as recebemos das mãos do sacerdote: “Memento homo quia pulvis es et in pulverem reverteris” (“Lembra-te, homem, de que és pó, e ao pó voltarás” (Gn 3,19).

 

Finados: comemoração das almas do Purgatório

A Santa Madre Igreja, Esposa Mística do Cordeiro, não podia se esquecer daqueles que, tendo morrido na graça de Deus, ainda precisam remir-se de faltas ou imperfeições no Purgatório.

Essa celebração litúrgica surgiu na Idade Média — “a doce primavera da fé”, como a definiu o historiador francês Montalembert — com Santo Odilon, Abade de Cluny, ao determinar que em todos os mosteiros dependentes de sua Ordem o dia seguinte ao da festa de Todos os Santos fosse dedicado ao sufrágio das almas dos falecidos pertencentes a ela. Seguindo seu exemplo, a Igreja estendeu essa comemoração à Igreja Universal.

A expressão “finados” se refere somente àqueles que se encontram no Purgatório; não inclui os que já estão no Céu nem, menos ainda, os falecidos que não se salvaram. Pois a Santa Igreja, por mais que seja Mãe compassiva, não poderia comemorar as almas daqueles a quem Deus, em sua Justiça, rejeitou.

Nesse sentido, São Tomás de Aquino afirma que é desnecessário rezar pelas almas que estão no Céu (pois já estão salvas) e é inútil implorar pelas que estão no inferno (pois já estão condenadas); umas e outras atingiram seu destino eterno, definitivo, imutável.

 

Purgatório, dogma do qual muitos se esquecem

O teólogo belga Pe. François Xavier Schouppe S.J. escreveu um excelente e detalhado livro sobre o Purgatório,1 objeto principal da celebração do Dia de Finados.

Na introdução, ele lamenta: “O Dogma do Purgatório está muito esquecido pela maioria dos fiéis católicos. A Igreja Padecente, na qual temos tantos parentes para socorrer e para onde prevemos que um dia iremos, parece-nos uma terra estranha. As principais causas disso são a ignorância e a falta de fé; porque hoje em dia as nossas noções concretas sobre o Purgatório são muito vagas, e nossa fé muito fraca.”

Esse esquecimento daqueles que se foram é resumido pelo gênio francês em uma só frase: “Les morts vont vite”... (Os mortos vão rápido...).

 

Pecado – o maior mal que há no mundo

         Não se pode tratar do Purgatório nem do Inferno sem falar do pecado. Pois o Inferno foi criado para punir o pecado dos anjos que se revoltaram, como disse o Divino Mestre (Mt 25, 41): “Apartai-vos de mim, malditos. Ide ao fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos.”

         Quanto ao Purgatório, se a Igreja sempre rezou pelas almas dos mortos que nele estão, é porque sempre creu que essas almas deveriam purgar, nesse lugar de expiação, os pecados e imperfeições que não expiaram estando na Terra.

 

Santo Agostinho (Irmanda de do Cachorro [Filhote] de Triana, Sevilha, Espanha).

O que é o pecado?

De acordo com os ensinamentos de Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, pecado é qualquer “ato, palavra ou desejo contrário à lei eterna”, ou seja, à lei divina,2 que é a primeira e suprema regra moral, fundamento das demais.

A definição clássica da teologia moral católica para descrever a essência do pecado está contida na célebre fórmula cunhada pelo Santo bispo de Hipona: “Aversio a Deo et conversio ad creaturas” (afastar-se de Deus e voltar-se para as criaturas).

 

Condições para que haja pecado, mortal ou venial

Recordemos brevemente o que nos ensina a Igreja: Para que haja pecado mortal, segundo a doutrina católica, três condições devem ocorrer simultaneamente:

·        Matéria grave: O ato deve ser uma violação séria da lei natural ou dos Mandamentos (exemplo: aborto, assassinato, furto, adultério).

·        Pleno conhecimento: A pessoa deve ter total consciência de que o ato é pecaminoso e grave no momento em que o comete.

·        Consentimento deliberado: A ação deve ser escolhida e praticada com total liberdade, sem coação externa ou medo insuperável.

Se faltar alguma dessas três condições em um ato que é objetivamente grave, o pecado é considerado venial.

         Apesar de o pecado venial ser uma ofensa mais leve, que não rompe a comunhão com Deus, ele não é sem consequências.

O Catecismo da Doutrina Católica, também chamado Catecismo de São Pio X, enumera os prejuízos para a alma causado pelo pecado venial: “Enfraquece e esfria em nós a caridade; dispõe-nos para o pecado mortal; faz-nos merecedores de grandes penas temporais neste mundo e no outro.” Ou seja, teremos que expiá-lo no Purgatório.

 

O pecado é a raiz de todos os outros males

Para os filósofos ateus, os pagãos e, infelizmente, até para certos eclesiásticos, o maior mal do mundo seria o sofrimento humano (sem referência a Deus) em suas diversas formas, como a ignorância, a injustiça, a violência, a fome e a desigualdade. E não só a dor humana: também o sofrimento dos animais e insetos, das plantas e até das pedras. Sobretudo o sofrimento da “Mãe Terra” (Pachamama...).

O pecado é o maior mal que há no mundo, porque é a raiz de todos os outros males, por representar um rompimento do homem com Deus e com o próximo. Em última análise, na frase lapidar de Santo Agostinho, é “o amor de si próprio levado até ao desprezo de Deus”.3

O Papa Pio XII (1939-1958) se lamentava: “Hoje o maior pecado do mundo é talvez o de terem os homens começado a perder o sentido do pecado.” (Discorsi, VIII, p. 288). Isso naquela época. O que diria ele de nossos dias?

        

Catecismo da Doutrina Católica de São Pio X, publicado em 1913 por Fratelli Lanzani Tipografi.

Horror ao pecado, mesmo venial

Não era assim nos tempos de maior fé.

A grande Santa Teresa dizia às suas filhas do Convento São José, de Ávila, no seu livro Caminho da Perfeição, escrito especialmente para elas: “Deus nos livre de qualquer pecado, por menor que seja, cometido com pleno conhecimento, uma vez que estamos pecando contra tão grande Soberano mesmo realizando que Ele nos está olhando. Isso me parece ser um pecado de malícia premeditado. É como se se dissesse: ‘Senhor, embora Vos desagrade, eu o farei. Eu sei, Senhor... mas prefiro seguir meu próprio capricho e desejo que vossa vontade.”

Era tão grande o horror que o pecado causava aos santos, que uma vez São Luís Gonzaga desmaiou aos pés de seu confessor ao ter que confessar dois pequenos pecados veniais.

Infelizmente, incontáveis pessoas vivem no mundo habitualmente em pecado mortal. O que lhes acontecerá se, não se arrependendo e se confessando antes da morte, forem chamadas por Deus para prestarem contas?

Santa Teresa comenta também que se o pecador pudesse compreender o que sucede à alma que está em pecado mortal, “não seria possível a ninguém pecar, mesmo que tivesse que empreender os maiores esforços que se possa imaginar para evitar pecar”.4

 

Resposta a uma objeção

Se as almas que estão no Purgatório se salvaram e não podem mais pecar, por que têm que continuar a sofrer tanto no lugar de expiação?

Essa objeção poderia ser formulada de outro modo: “Por que castigar com uma pena eterna um pecado que dura apenas um momento?” É como a formula em uma de suas obras Santo Afonso Maria de Ligório, Doutor da Igreja e um de seus maiores moralistas, fundador e missionário. Como resposta, ele interpela o suposto objetante: “E como pode o pecador ter a audácia de ofender, por um prazer momentâneo, uma Majestade infinita?”.

Muito didático, ele explica que “até a justiça humana, como diz São Tomás, mede a pena não pela duração, mas pela qualidade do crime. Por isso, uma ofensa feita a um Deus infinito merece um castigo infinito. Como a criatura humana, por ser finita, não é capaz de sofrer uma pena infinita em intensidade, é com justiça que Deus torna a pena infinita em sua duração”.5

 

Nosso dever para com as almas do Purgatório

As almas que estão no Purgatório podem rezar por nós, mas não por si mesmas, porque o tempo de merecimento para elas terminou no momento da morte. Já estão salvas, mas como não acumularam méritos suficientes em vida, dependem inteiramente da intercessão dos que fazem parte da Igreja Militante na Terra para o alívio de suas penas.

A Santa Missa é a maior dádiva que se pode oferecer a uma alma do Purgatório, pois é o sacrifício do próprio Corpo, Sangue e Alma de nosso Divino Salvador. Por isto, um dos meios mais eficazes para socorrermos os nossos falecidos é rezar por eles, principalmente mandar celebrar Missas na intenção de suas almas: de sétimo dia, de mês, de ano, atitude tão comum até pouco tempo atrás, mas que está desaparecendo devido à paganização crescente do mundo. Nesse sentido, há uma antiga tradição, a das chamadas Missas Gregorianas. (ver quadro que postaremos no dia 3 de novembro).

Outro grande meio de auxiliar a alma de um parente, amigo ou mesmo às almas em geral, é oferecendo por elas as indulgências por nós merecidas.

Indulgência é a remissão, perante Deus, da pena temporal devida aos pecados cuja culpa já foi apagada; remissão que o fiel, devidamente disposto, obtém em certas e determinadas condições, pela ação da Igreja, a qual, enquanto dispensadora da Redenção, distribui e aplica por sua autoridade o tesouro das satisfações de Cristo e dos santos.

A indulgência é chamada parcial ou plenária conforme liberta parcialmente ou na totalidade da pena temporal devida ao pecado. O fiel pode lucrar indulgências para si mesmo, ou aplicá-las aos defuntos. Não pode, porém, aplicá-las às pessoas vivas, porque elas têm a possibilidade de fazê-lo por si mesmas.

 

Valor das boas obras

Sobre o valor das boas obras, o Concílio de Trento (1545–1563) definiu que, para os católicos, as boas obras realizadas em estado de graça têm um valor meritório autêntico. Segundo esse Concílio, as boas obras não são apenas um reflexo da fé, mas merecem da parte de Deus o aumento da graça santificante nesta vida e o aumento da glória no Céu.

As obras de misericórdia são ações de caridade essenciais no catolicismo. A Igreja ensina que socorrer o próximo em suas necessidades materiais (corporais) e espirituais é um meio de obter a vida eterna, um caminho de santificação e uma condição para o perdão final.

Ora, uma das obras de caridade mais eminentes é a obtenção de indulgências, aplicáveis aos entes queridos falecidos que sofrem no Purgatório e às pobres almas em geral.

Ditosos seremos se, com São Paulo, pudermos dizer no fim da vida: “Combati o bom combate, terminei minha carreira, guardei a fé. Já me está preparada a coroa da justiça, que naquele dia me outorgará o Senhor, justo juiz, e não só a mim, porém a todos os que amam a sua vinda” (2 Tm 4, 7).

____________

Notas:

1. O Dogma do Purgatório, Ilustrado pelas Vidas e Lendas dos Santos [Purgatory Illustrated by the Lives and Legends of the Saints] Disponível em https://archive.org/stream/purgatory00scho/purgatory00scho_djvu.txt

2. Santo Agostinho, Contra Faustum manichoeum, 22, 27: PL 42, 418

3. Santo Agostinho, De civitate Dei, 14, 28.

4. Castelo Interior, n. 2.

5. Meditações para todos os dias do ano, edição Magnificat, 2019, p. 138.