26 de outubro de 2026

AMÉRICA LATINA — Rejeição continental aos candidatos de esquerda

 


*      Juan Antonio Montes

 

O presidente do Partido Comunista do Chile, Lautaro Carmona, durante uma recente visita à infeliz ilha de Cuba, fez os mais absurdos elogios ao ex-ditador das Antilhas: “Nós, comunistas chilenos, temos a honra de participar deste colóquio centenário do camarada Fidel [...] um traço essencial de sua ética, seu humanismo, sua humanidade, que não conhecia limites”.*

Para o líder comunista chileno, entretanto, nem tudo são flores. O avanço da direita é considerado, nessas mesmas declarações, como “o perigo mais significativo que a humanidade enfrenta. A expressão recalcitrante da extrema-direita fascista está se consolidando em nossos países”.

As apreensões do comunista chileno sobre a expansão de governos de direita no continente fazem mais sentido do que sua ladainha em favor do falecido ditador das Antilhas.

De fato, em nenhum período histórico recente se observou uma sequência tão grande de resultados eleitorais favoráveis ​​a candidatos de direita e fracassos tão retumbantes da esquerda.

 

Guinada à direita na Argentina

Tudo começou com o fracasso do kirchnerismo na Argentina e a ascensão do candidato Javier Milei, o mais opositor ao projeto socialista peronista, com 55,65% dos votos. Milei foi eleito em 10 de dezembro de 2023 e, posteriormente, em outubro do mesmo ano, seu partido, “La Libertad Avanza (LLA)”, obteve aproximadamente 40,7% dos votos em âmbito nacional, confirmando assim a guinada à direita nas preferências da opinião pública argentina.

Enquanto isso, a ex-presidente Cristina Kirchner enfrenta um processo judicial particularmente desfavorável.

A partir da Argentina, a sucessão de resultados eleitorais que favorecem as posições mais à direita nos respectivos países justifica a visão alarmante com que esses resultados são encarados pelo comunismo internacional.

 

O ditador cubano, Fidel Castro, junto ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no Palácio da Revolução, em Havana (26-09-2003)

Fracasso do retorno da esquerda equatoriana

Em 13 de abril de 2025, no Equador, Daniel Noboa foi reeleito presidente com 55,63% dos votos, derrotando a candidata Luisa González, que tinha o apoio dos partidários do ex-presidente Rafael Correa, que aspirava retornar ao Equador por meio de sua candidatura.

Seus planos, porém, fracassaram. O mentor da candidata González foi forçado a permanecer na Bélgica, fora do alcance da justiça equatoriana, enquanto uma condenação e outros processos judiciais pendentes pairam sobre ele.

 

Bolívia e Honduras derrotam a esquerda

Apenas quatro meses depois, em 17 de agosto do mesmo ano, a Bolívia teve a oportunidade de se juntar a essa onda de vitórias anticomunistas.

No primeiro turno, Rodrigo Paz venceu com aproximadamente 32,1% dos votos, enquanto Jorge Quiroga obteve cerca de 27,3%. No total, os dois candidatos de centro-direita obtiveram a maioria absoluta dos votos.

O resultado do segundo turno, que concedeu a vitória ao candidato de centro-direita, Rodrigo Paz, marcou o fim de quase duas décadas de domínio do Movimento para o Socialismo (MAS-IPSP), liderado por Evo Morales.

Assim como os ex-presidentes da Argentina e do Equador, Evo Morales permanece foragido da justiça boliviana, refugiando-se em seu reduto político e evitando comparecer ao tribunal para se defender das graves acusações que lhe são imputadas.

Em novembro, Honduras aderiu a essa onda de rejeição à esquerda. No dia 30 de novembro, o candidato de direita, Nasry Asfura, venceu uma disputa acirrada e prolongada com 40,26% dos votos.

 


Chile e Costa Rica confirmam tendência à direita

Menos de um mês depois, em 14 de dezembro, o Chile vivenciou uma das mudanças políticas mais significativas da região. José Antonio Kast, posicionado bem à direita do espectro político, obteve expressivos 58,2% dos votos, derrotando a candidata comunista Jeannette Jara.

O resultado reafirmou a tendência que varre a América Latina: o avanço inexorável das opções de direita e a rejeição eleitoral dos candidatos de esquerda.

Mas não parou por aí. Em 1º de fevereiro deste ano, a Costa Rica também aderiu a essa tendência. Laura Fernández, candidata de direita e sucessora do projeto político do presidente Rodrigo Chávez, obteve quase 50% dos votos e venceu no primeiro turno. Seu partido também alcançou um resultado histórico no Parlamento, aumentando sua representação de 8 para 30 das 57 cadeiras, garantindo uma ampla maioria legislativa.

O resultado na Costa Rica confirmou que a guinada política à direita não foi um fenômeno isolado, mas sim uma tendência que continua a se propagar por toda a região.

 

Colômbia, Peru e também rumaram à direita

Mas a reação em cadeia não se deteve aí. Recentemente, Colômbia e Peru também entraram no novo mapa político latino-americano. Na Colômbia, a derrota de Iván Cepeda significou o fim do governo de Gustavo Petro e a ascensão de Abelardo de la Espriella, um candidato considerado por comentaristas políticos muito à direita e com um discurso católico tradicional. Entre suas promessas, de la Espriella espera consagrar novamente a Colômbia ao Sagrado Coração de Jesus.

No Peru, Keiko Fujimori derrotou o esquerdista Roberto Sánchez e trouxe o fujimorismo de volta ao Palácio Presidencial.

Assim, o que inicialmente poderia ter parecido uma série de episódios isolados adquiriu as características de uma clara tendência continental.

         Argentina, Equador, Bolívia, Honduras, Chile, Costa Rica, Colômbia e Peru: oito países nos quais, com diferentes graus de intensidade e sob diferentes lideranças, o eleitorado se deslocou para a direita ou centro-direita.

A essa lista de nações que escolheram candidatos de direita, poderíamos acrescentar o presidente Bukele, que, desde sua eleição como presidente de El Salvador em 2019, tem adotado posições cada vez mais caracterizadas por sua ênfase em segurança, ordem e combate frontal ao crime, e que tem sido uma referência para os candidatos mencionados nessas questões.

 

Os novos governos corresponderão às esperanças anticomunistas?

Essa sequência de fracassos das opções de esquerda explica as já citadas declarações do comunista chileno Lautaro Carmona, que afirmou estarmos diante do “perigo mais significativo que a humanidade enfrenta. A expressão recalcitrante da extrema-direita fascista está se consolidando em nossos países”.

Aqueles que veem esses resultados com bons olhos não podem deixar de se perguntar se eles serão duradouros ou se representam apenas um breve alívio. Parece cedo demais para responder a essa importante questão; contudo, algumas conjecturas podem ser feitas.

É evidente que a guinada à direita na América Latina não é resultado de uma conversão ideológica repentina. É, antes de tudo, resultado de um voto de protesto: um protesto contra a insegurança, contra o declínio econômico, contra a corrupção, contra a imigração descontrolada e contra governos de esquerda caracterizados por um populismo demagógico na esfera cultural e por uma tendência estatista fracassada na área econômica.

Portanto, cabe aos novos governos corresponder às expectativas que criaram e não abandonar os princípios que os levaram ao poder. Se atenderem a essas expectativas, garantirem o crescimento de suas respectivas economias e restaurarem o Estado de Direito, certamente conseguirão transferir o poder para novos candidatos de seu setor.

Rogamos à Divina Providência que conceda orientação especial a esses governantes e os conduza pelo caminho de uma verdadeira civilização cristã.


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Fonte: Revista Catolicismo, Nº 910, outubro/2026

*Cfr. "Carmona (PC) alaba a Fidel y dice que avance de la derecha es el principal 'peligro' para la 'humanidad'", “EL Mercurio”, 12 de agosto, 2026.


24 de outubro de 2026

25 de outubro -- Dia do "Bandeirante de Cristo”. Dia crucial para o Brasil.


Mosteiro da Luz, na capital paulista [Foto PRC]

Neste dia decisivo para o Brasil rezemos empenhadamente a Santo Antônio de Sant’Anna Galvão, o primeiro brasileiro a ser canonizado, para que proteja nossa Pátria de um governo cripto-comunista.

✅  Paulo Roberto Campos 

Santo Antônio de Sant’Anna Galvão, OFM, popularmente conhecido como Frei Galvão, foi o primeiro brasileiro canonizado, embora já em vida fosse considerado santo. Era também conhecido, por sua heroica ousadia, como “Bandeirante de Cristo” — conforme expressão consagrada da Irmã Beatriz do Espírito Santo, freira do Mosteiro da Luz, em seu livro assinado com o pseudônimo Maristela.[1] 

Descendia dos primeiros povoadores da Capitania de São Paulo, correndo em suas veias o sangue de bandeirantes, pois sua muito virtuosa mãe, Da. Isabel Leite de Barros, era bisneta do célebre Fernão Dias Paes Leme, “O caçador de esmeradas”. 

Nascido em 1739 na cidade paulista de Guaratinguetá, Frei Galvão pertencia a uma família de fazendeiros distintos e abastados, mas renunciou a tudo — brilhante situação social, prazeres e glórias do mundo — para servir inteiramente a Deus. Ingressou na Ordem Franciscana, na qual fez seus votos solenes em 16 de abril de 1761. No ano seguinte foi ordenado sacerdote. Consagrou-se como “filho e perpétuo escravo da Virgem Santíssima Minha Senhora” em 9 de novembro de 1766, consagração assinada com seu próprio sangue. 

Como ele empreendia viagens em missões apostólicas por outras cidades — algumas vezes em dois lugares ao mesmo tempo, devido ao dom de bilocação que recebera de Deus —, o Senado da Câmara de São Paulo, desejando “segurá-lo” na capital, escreveu em 1798 ao Superior dos Franciscanos rogando-lhe que Frei Galvão não fosse mais designado para atividades em outras povoações: “Todos os moradores desta Cidade não poderão suportar um só momento a ausência do dito religioso. […] Este homem tão necessário às religiosas da Luz, é preciosíssimo a toda esta Cidade e Vilas da Capitania de São Paulo, é homem religiosíssimo e de prudente conselho; todos acorrem a pedir-lho; é homem da paz e da caridade”. 

Patrono dos engenheiros e arquitetos 

Sua obra mais conhecida é o Mosteiro da Luz, das Irmãs Concepcionistas da Imaculada Conceição. Fundado em São Paulo no dia 2 de fevereiro de 1774 com o nome de “Recolhimento de Nossa Senhora da Conceição da Divina Providência”. Fundação cujo estímulo partiu da Irmã Helena Maria do Espírito Santo (1736 - 1775), religiosa privilegiada com revelações de Nosso Senhor Jesus Cristo que lhe pediu um novo convento na “São Paulinho” de então. 

Se hoje o belíssimo e extremamente aconchegante Mosteiro da Luz é considerado “Patrimônio Cultural da Humanidade” pela UNESCO, devemo-lo a Frei Galvão, que ao longo de quase 50 anos foi seu projetista, engenheiro e mestre de obra. Por isso, ele é considerado o patrono dos engenheiros e arquitetos. 

O edifício abriga, além do convento das concepcionistas, a igreja (inaugurada no dia da Imaculada Conceição de 1802) e o esplêndido e concorrido Museu de Arte Sacra de São Paulo. Há 200 anos que o local é visitado por muitos peregrinos e fiéis que ali vão rezar, pedir ou agradecer graças alcançadas, como também para obter das freiras as muito conhecidas (e milagrosas) “Pílulas do Frei Galvão”, distribuídas por elas. 

O que são as “Pílulas do Frei Galvão”? 

Azulejo de Frei Galvão no Mosteiro da Luz [Foto PRC] 

Essas “pílulas”, em papeizinhos brancos, têm operado verdadeiros milagres — curas inexplicáveis pelas ciências, inclusive de câncer, e até mesmo curas espirituais de pecadores. São particularmente benfazejas às mães com dificuldades na gravidez ou em momentos antes do parto; tomando-as com fé, seus filhos nascem normalmente e saudáveis. Sobre a origem das “pílulas” milagrosas, ver texto abaixo extraído de um folheto disponível no Mosteiro da Luz. 

No Mosteiro estão guardados milhares de relatos de pessoas beneficiadas com graças do primeiro santo brasileiro, de suas “pílulas”, ou mesmo de milagres confirmados, como curas de graves enfermidades. 

Em entrevista exclusiva para Catolicismo (edição de setembro/1998), a Irmã Célia B. Cadorin[2] (1927-2017) explicou-nos o seguinte: 
“Remédios e consultas médicas hoje são caros. Nosso povo tem fé e, por isso, as ‘pílulas’ de Frei Galvão são cada vez mais procuradas no Mosteiro da Luz. Há um boletim que as irmãs concepcionistas dessa casa religiosa publicam mensalmente denominado Celeste Orvalho. Nele, são relatadas as graças recebidas mediante a intercessão do novo Beato, as quais são comunicadas pelos beneficiários, por escrito, ao Mosteiro da Luz. 

Chama a atenção, neste último mês, o fato de que muitas pessoas apresentavam câncer num primeiro exame. Submetidas a um segundo, não denotavam mais nenhum sintoma da doença. 

Eu levei para o Vaticano um registro de tais graças, obtidas desde 1930 até 15 de setembro de 1990: o total era 23.920 graças!” 

 

A milagrosa cura de Daniela Cristina 

Caso Daniela Cristina 
Nessa mesma entrevista a Catolicismo, a religiosa narra um dos milagres comprovados, necessário para a beatificação de Frei Galvão: 

“Trata-se da cura de uma criança de quatro anos, Daniela Cristina da Silva, filha de Valdecir da Silva e Jacira Francisco da Silva, residentes em Vila Brasilândia, à rua Padre José Materni, 598, na capital paulista. 

Em maio de 1990, devido a complicações bronco-pulmonares, a criança foi internada e tratada com antibióticos e metoclorpramida. 

Obtida a alta hospitalar, Daniela voltou para casa, mas logo depois começou a apresentar sonolência e crises convulsivas, sendo encaminhada por seu pediatra, na noite de 24 de maio de 1990, ao Hospital Emílio Ribas (hoje Instituto de Infectologia Emílio Ribas), em São Paulo. Havia suspeita de que a moléstia fosse meningite ou hepatite. 

Levada para a UTI do hospital, o diagnóstico inicial foi: coma por encefalopatia hepática, causada por hepatite do vírus A, insuficiência hepática grave, insuficiência renal aguda e intoxicação por causa da metoclorpramida. Havia ainda hipertonia intensa nos membros inferiores e superiores. 

Com o diagnóstico posterior de ‘insuficiência hepática fulminante’, a criança sofreu ainda parada cardiorrespiratória. O quadro clínico evoluiu com a ocorrência de epistaxe, sangramento gengival, hematúria, ascite, progressivo aumento da circunferência abdominal, broncopneumonia, parotidite bilateral, faringite, além de dois episódios de infecção hospitalar. A menina permaneceu 13 dias (de 25 de maio a 7 de junho de 1990) na UTI.

A intervenção divina para salvar a criança foi pedida por pais, parentes, amigos, vizinhos e religiosas do Mosteiro da Luz, que, unidos numa só prece, invocaram com muita fé a intercessão de Frei Galvão. 

Da UTI, a criança passou para a Seção de Pediatria do mesmo hospital. A 13 de junho, foi efetuada uma biópsia hepática, cujo resultado foi: ‘Hepatite aguda colestática’.

Em 21 de junho de 1990, Daniela recebeu alta hospitalar, sendo ‘considerada curada’. Acompanhada ambulatorialmente, a menina não apresentou depois mais recaída.

Em 1995, o pediatra, que cuida da saúde de Daniela desde seu nascimento, atestou: ‘A menor foi examinada por mim nesta data (4-8-95), estando a mesma em perfeitas condições de saúde física e mental’. 

O mesmo médico, perante o Tribunal Eclesiástico, afirmou o seguinte a respeito da cura da criança: ‘Eu atribuo à intervenção divina não só a cura da doença, mas a recuperação total dela’. 

Após Daniela receber alta do hospital, seus pais, parentes e amigos levaram-na diretamente ao túmulo de Frei Galvão, na capela do Mosteiro da Luz. E, algum tempo depois, realizaram uma comemoração para agradecer a Deus a cura miraculosa. 

Vários médicos depuseram no processo. Conseguimos todas as provas científicas da cura, tendo sido esta comprovada de maneira límpida. 

Hoje, Daniela, com 12 anos, é uma menina saudável e alegre, cursa a 6ª série e continua a residir com seus familiares em Brasilândia”. 

Santa morte e sepultura no Mosteiro 

Capela do Mosteiro da Luz [Foto PRC]
O grande santo brasileiro entregou sua alma a Deus aos 83 anos, no mesmo mosteiro que havia construído. Sua sepultura, muito visitada por devotos de todo o Brasil, encontra-se hoje diante do altar-mor da igreja do Mosteiro da Luz, sob uma grande lápide com os seguintes dizeres: 
“Hic jacet Fr. Antonius a Sant’Anna Galvão, hujus almae domus inclytus fundator et director qui animam suam in manibus suis semper tenens placide obdormivit in Domino die 23 decembris anno 1822”. (Aqui jaz Frei Antônio de Sant’Ana Galvão, ínclito fundador e diretor desta casa, que tendo sua alma sempre em suas mãos, placidamente faleceu no Senhor no dia 23 de dezembro de 1822).[3]

 

Canonização — “honrado entre os santos” 

Depois de meticulosa análise, iniciada em 1938, de toda a vida de Frei Galvão, a Igreja concedeu-lhe a honra e a glória dos altares. É o reconhecimento oficial de que ele praticou em grau heroico as virtudes cristãs, bem como da autenticidade dos milagres por ele operados. Isso foi solenemente confirmado no dia 11 de maio de 2007, na capital paulista, quando — perante mais de um milhão de pessoas reunidas no Campo de Marte (capital paulista) — o Papa Bento XVI proclamou: “Declaramos e definimos como santo o beato Antônio de Sant’Anna Galvão, e o inscrevemos na Lista dos Santos, e estabelecemos que, em toda a Igreja, ele seja devotamente honrado entre os santos”. 

Temos, portanto, um “Bandeirante de Cristo” como excepcional embaixador no Céu. Que ele nos obtenha do Divino Redentor o discernimento e a força de alma necessária para, a exemplo dos francos e de sua gesta por Deus, empreendermos uma “gesta Dei per brasiliensis”; a graça de lutar denodadamente, dentro das leis de Deus e dos homens, a fim de impedir que o regime comunista se instale no Brasil; e de contribuir para que esse regime opressor e seus “companheiros de viagem” sejam definitivamente afastados da América Latina e do mundo. 
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Notas: 
1. Maristela, “Frei Galvão – Bandeirante de Cristo”, Editora Vozes, São Paulo, 1998. A primeira edição é de 1954. 
2. Nascida em Nova Trento (SC), a Irmã Célia B. Cadorin pertencente à Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição, fundada em 1890, em Santa Catarina, pela Santa Madre Paulina do Coração Agonizante de Jesus. Entre algumas outras causas, ela foi a postuladora da causa de beatificação de Frei Galvão (o que ocorreu em 1998) e depois da canonização (2007). 

3. A fim de melhor conhecer a vida de Frei Galvão, recomendamos o livro de Armando Alexandre dos Santos, “Frei Galvão, o primeiro Santo brasileiro”, Editora Petrus, São Paulo. 2007. https://livrariapetrus.com.br/  



“PILULAS DE FREI GALVÃO” 

“Certo dia Frei Galvão foi procurado por um senhor muito aflito, porque sua mulher estava em trabalho de parto e em perigo de perder a vida. Frei Galvão escreveu em três papelinhos o versículo do Ofício da Santíssima Virgem: Post partum Virgo Inviolata permansisti: Dei Genitrix intercede pro nobis (Depois do parto, ó Virgem, permanecestes intacta: Mãe de Deus, intercedei por nós). Deu-os ao homem, que por sua vez levou-os à esposa. Apenas a mulher ingeriu os papelinhos, que Frei Galvão enrolara como uma pílula, a criança nasceu normalmente. 

Caso idêntico deu-se com um jovem que se estorcia com dores provocadas por cálculos visicais. Frei Galvão fez outras pílulas semelhantes e deu-as ao moço. Após ingerir os papelinhos, o jovem expeliu os cálculos e ficou curado. 

Esta foi a origem dos milagrosos papelinhos, que, desde então, foram muito procurados pelos devotos de Frei Galvão, e até hoje o Mosteiro fornece para as pessoas que têm fé na intercessão do Servo de Deus” (transcrito de folheto distribuído no Mosteiro da Luz). 

*   *   * 
Tornando-se muito conhecidas as curas milagrosas, aumentaram enormemente os pedidos pelas “Pílulas do Frei Galvão”. Assim, até os presentes dias, as freiras concepcionistas do Mosteiro da Luz repetem a “fórmula” ensinada por suas irmãs que viveram nos tempos de Frei Galvão e que com ele aprenderam diretamente. 

Para obter essas prodigiosas “pílulas”, basta se apresentar à portaria do Mosteiro, que fica na Av. Tiradentes, 676 – Luz – São Paulo – SP.

22 de outubro de 2026

O Homem da Cruz que deteve a marcha do neopaganismo renascentista

 

Artigo baseado sobretudo em seis conferências de Plinio Corrêa de Oliveira, proferi das para sócios e cooperadores da TFP em 04-10-1965, 04-10-1966, 29-06-1970, 04-10-1971, 16-11-1972 e 06-07-1985.

Oito séculos depois de sua morte, a figura de São Francisco de Assis continua a interpelar um mundo que, mais do que nunca, precisa reaprender a amar a Cruz, a verdade, a pureza, e a se livrar do orgulho e da sensualidade. Este artigo é um convite a considerar o fundador da Ordem dos Franciscanos à luz de alguns aspectos extraídos de seis conferências de Plinio Corrêa de Oliveira.*

✅ Paulo Roberto Campos


N
o dia 3 de outubro de 1226, há exatamente 800 anos, expirava aos 44 anos o grande santo, também conhecido como o Poverello de Assis, batizado como Giovanni di Pietro di Bernardone. Morria aquele que a Igreja haveria de venerar como um dos seus maiores santos e uma de suas maiores glórias em todos os tempos, cuja figura atravessaria os séculos com uma força impressionante.

É difícil imaginar personalidade mais facilmente deformável. Para alguns, São Francisco é apenas o santo dos passarinhos, da natureza — como se fosse um “ecologista” ou “ambientalita” — e de uma vaga fraternidade universal. Para outros, é o apóstolo de uma pobreza meramente social. Não faltam ainda os que o apresentam como uma figura doce, sentimental, quase ingênua, desprovida daquela energia sobrenatural que caracteriza o seráfico santo fundador da Ordem dos Frades Menores (os Franciscanos).

A visão de São Francisco exposta por Plinio Corrêa de Oliveira em suas conferências é profundamente diversa.

Nela aparece um homem de extraordinária firmeza, contemplativo e sereno, mas sem qualquer moleza; puro, temperante e vigoroso; uma alma de grande força de vontade, capaz de contemplar um ideal e entregar-se a ele resolutamente.



O verdadeiro segredo da grandeza do Poverello

Em 1223, São Francisco visitou o Mosteiro de Subiaco, na Itália, berço da Ordem Beneditina. Nele um artista anônimo pintou um afresco do visitante [foto]. A célebre obra é uma das mais antigas representações de São Francisco, pintada ainda durante sua vida, é um verdadeiro retrato. O Prof. Plinio observa no afresco precisamente essa combinação de calma e decisão, de contemplação e energia, “fisionomia de uma pureza impressionante! Um homem casto por excelência, temperante e vigoroso. Compreende-se que ele gostasse de ler para os seus noviços as histórias de Cavalaria. Antes de ser franciscano ele pensou em ser cavaleiro”.

Essa observação nos ajuda a corrigir a caricatura sentimental, que apresenta São Francisco como um homem hesitante ou adocicado. Mas de alguém que contempla, raciocina, deseja e decide firmemente. A pureza aparece associada à temperança e à intransigência. Há aí uma verdadeira lição do modo de ser católico. A santidade não amolece o homem; torna-o mais plenamente homem. A graça não destrói a natureza: aperfeiçoa-a.

Por que este comentário é importante? — Porque São Francisco não foi um homem fraco que abandonou o mundo por incapacidade de enfrentá-lo. Foi o contrário: uma alma forte que, tendo compreendido uma vocação, teve a coragem de romper com tudo quanto pudesse constituir obstáculo à sua realização. E é justamente aí que começa o verdadeiro segredo de sua grandeza.

Altar principal da Igreja de S. Francisco de Assim de Salvador (BA) [Foto PRC]


Livro no qual São Francisco aprendeu a viver

Há um comentário de Dom Guéranger — citado por Plinio Corrêa de Oliveira em uma de suas conferências para sócios e cooperadores da TFP — que talvez contenha uma das mais importantes chaves para se compreender o santo franciscano: “A Cruz é o grande livro no qual se formou a alma de Francisco. Desde a hora em que o Cristo da Igreja do Damião lhe falou, ele não quis pensar a não ser na Paixão de Jesus.”

Jesus, por meio do crucifixo daquela igreja, disse a São Francisco: “Vai restaurar minha Igreja, que está em ruínas.” Desde aquele momento, ele teria compreendido que sua vida deveria ser orientada inteiramente pela Paixão de Nosso Redentor. A Cruz não foi para ele um símbolo entre muitos outros. Foi o centro em torno do qual se organizou toda a sua existência. De tal modo desejou servir exclusivamente o Divino Crucificado que ficou marcado com os estigmas d’Ele, e até mesmo adquiriu certa semelhança física com Ele.

São Boaventura, o grande filho da Ordem Franciscana, vê nesse mistério da Cruz um tesouro no qual estão encerrados os tesouros da sabedoria e da ciência. E o Prof. Plinio comenta, recordando a observação de Dom Guéranger segundo a qual toda a vida de Francisco foi uma espécie de seguimento das pegadas da Cruz: ele contemplou a Cruz, amou o sofrimento da Cruz e pregou as glórias da Cruz. Isso ajuda a compreender também o verdadeiro sentido da pobreza franciscana.

Não se tratava simplesmente de possuir pouco. A pobreza era consequência de um amor a Nosso Senhor enquanto humilhado e crucificado. São Francisco queria conformar-se a Ele e estabelecer um vínculo integral. Por isso a Cruz e a pobreza estão intimamente relacionadas.

Quem contempla seriamente a Cruz percebe a relatividade de todas as coisas terrenas. O dinheiro, o conforto, o prestígio, o prazer, o êxito. Tudo isso deixa de ocupar o primeiro lugar; a alma passa a desejar aquilo que não é transitório.

Foi assim que Francisco se tornou, conforme comentou o Prof. Plinio, aquele que afervorou a Cristandade pelo espírito sobrenatural, pelo amor à Cruz e pelo menosprezo do dinheiro.

São Francisco renuncia aos bens materiais — Giotto di Bondone (1266–1337). Afresco na Basílica Superior de São Francisco de Assis


O drama diante de Pedro Bernardone

Um dos episódios mais impressionantes da vida de Francisco é a ruptura com o pai.

O Poverello pertencia a uma família de comerciantes abastados de Assis. Seu pai, Pedro di Bernardone dei Moriconi, era homem próspero, e a sociedade na qual o filho crescera valorizava intensamente a riqueza, o conforto e o sucesso.

O Prof. Plinio chama a atenção para esse contexto ao analisar o famoso quadro de Giotto [foto acima], representando o momento em que Francisco renuncia a tudo, até mesmo às roupas e aos bens paternos. A cena é carregada de significado: de um lado, o bispo e o clero; de outro, Pedro Bernardone e os homens ligados ao mundo do comércio e do dinheiro. No centro, Francisco, já decidido a abandonar tudo para seguir sua vocação, segundo o ensinamento de Jesus Cristo: “Se alguém quer vir após mim, renegue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me” (Lc 9,23).

Na pintura, Giotto revelou algo mais profundo que um simples conflito familiar. De um lado está a Igreja; de outro, o espírito do dinheiro. De um lado, a entrega; de outro, a posse. De um lado, a procura de Deus; de outro, a tendência a fazer dos bens terrenos a finalidade da existência. Gesto de quem rompe com uma determinada concepção da vida.

Ele não despreza simplesmente seu pai. Não despreza a riqueza enquanto tal. O que rejeita é a escravidão da alma aos bens terrenos. A verdadeira questão é: quem é o senhor do homem? O dinheiro ou Deus? — Francisco responde com sua própria vida.

E é precisamente por isso que sua mensagem conserva uma atualidade extraordinária. O mundo contemporâneo multiplicou os bens materiais em proporções inimagináveis para o século XIII, mas nem por isso se tornou mais feliz. Ao contrário: a obsessão pelo possuir, pelo consumir e pelo aparecer tornou-se uma das grandes escravidões do homem.

Então reaparece São Francisco como uma figura de oposição. Ele não pregava a miséria, mas recordava uma verdade elementar: nenhum bem criado pode ocupar o lugar de Deus.

Santo que não era sentimental

Para não haver nenhuma desfiguração de São Francisco, talvez seja necessário insistir nesse ponto. Ele era doce porque era forte; era afável porque era puro; era humilde porque possuía uma grandeza interior extraordinária; era capaz de falar com os animais, contemplar uma flor e louvar a Deus pela criação; mas era igualmente capaz de atravessar as linhas de um exército inimigo para falar pessoalmente com o sultão aiúbida do Egito, Al-Kamil — que comentaremos mais abaixo.

Essa conjunção de suavidade e fortaleza é uma das características mais fascinantes de sua personalidade; a energia natural colocada inteiramente a serviço de uma vocação sobrenatural.

Imagens de S. Francisco de Assim e S. Domingos de Gusmão no Mosteiro da Batalha (ou de Santa Maria da Vitória) na cidade de Batalha, Portugal [Foto PRC]


Francisco e Domingos: duas chamas que se completam

A Providência não suscitou São Francisco isoladamente. Na mesma época surgiu São Domingos de Gusmão. E o Prof. Plinio dá grande importância à relação entre os dois santos.

Ambos receberam sinais sobrenaturais relativos à missão um do outro e, finalmente, se encontraram. Frei Ângelo, um grande pregador, teria visto nos dois santos “duas poderosas colunas da Igreja”.

O interessante para o conferencista, fundador da TFP brasileira, é que os dois santos eram profundamente semelhantes e profundamente diferentes. Semelhantes porque ambos eram homens de Deus, profundamente mariais, chamados a lutar pela salvação das almas. Diferentes porque suas vocações tinham aspectos diversos. São Francisco era especialmente associado à pobreza, à Paixão de Nosso Senhor, à humildade, à pureza e à devoção à Imaculada Conceição. São Domingos, por sua vez, aparece ligado de modo especial à pregação, ao estudo, à teologia e ao Santo Rosário. Assim, duas vocações diferentes não se contradiziam, mas completavam-se.

É uma concepção extremamente rica da ação da Igreja. A unidade católica não exige uniformidade. Duas almas podem ser santas precisamente porque são diferentes, desde que suas diferenças se ordenem para a mesma verdade e para a mesma finalidade.

Francisco incendeia a vontade; Domingos ilumina a inteligência. Um conduz especialmente pelo amor à Cruz e pela transformação das tendências; o outro pela doutrina, pela pregação e pelo esclarecimento da inteligência. Ambos combatendo pela mesma Igreja.

“Ação contra-revolucionária preventiva”

Aqui encontramos talvez o aspecto mais característico da interpretação de Plinio Corrêa de Oliveira, para quem Francisco não foi apenas um santo que santificou indivíduos. Sua ação teve uma dimensão histórica muito mais ampla.

O conferencista fala de uma “ação contra-revolucionária preventiva”. Segundo essa interpretação, a Cristandade do século XIII começava a apresentar sinais de deterioração. O orgulho e a sensualidade começavam a dominar. A riqueza ameaçava transformar-se de instrumento em finalidade. Preparava-se, lentamente, uma mudança de mentalidade que mais tarde encontraria expressões no Humanismo e na Renascença. Foi precisamente nesse momento que a Providência suscitou São Francisco de Assis.

A ação de Francisco teria incidido especialmente sobre as tendências: contra o orgulho, a humildade; contra a sensualidade, a pureza; contra o apego aos bens terrenos, a austeridade; contra o esquecimento da Paixão, a devoção à Cruz, à Via-Sacra e às Sagradas Chagas de Nosso Senhor.

É nesse sentido que o Prof. Plinio emprega a expressão “ação contra-revolucionária preventiva”: uma santidade que, antes mesmo de combater frontalmente todos os erros doutrinários que apareceriam mais tarde, procura impedir que eles encontrem terreno psicológico favorável.

A Revolução, nessa perspectiva, começa nas almas antes de aparecer nas instituições. Começa quando o homem passa a amar desordenadamente aquilo que deveria usar apenas como meio. Começa quando o prazer se torna mais importante que a pureza; quando o orgulho substitui a humildade; quando o homem deixa de olhar para Deus e passa a olhar exclusivamente para si.

Por isso, a resposta de São Francisco é tão profunda: ele reforma interiormente o homem.

São Francisco diante do sultão Al-Kamil na prova do fogo — Domenico Ghirlandaio (1448–1494). Afresco na Capela Sassetti (Igreja da Santa Trindade, Florença, Itália).


Encontro com o poderoso sultão

Há o episódio, mencionado acima e já narrado no artigo precedente, que mostra de maneira magnífica a conjugação entre doçura e fortaleza: o encontro de São Francisco com o sultão do Egito durante a Quinta Cruzada.

O Prof. Plinio descreve a cena como uma das grandes antíteses da História: de um lado, o soberano cercado de luxo, poder, riquezas e prazeres; de outro, um homem que havia renunciado a tudo e cuja felicidade estava precisamente naquilo que o sultão não possuía. Um encontro entre dois mundos.

O sultão tem tudo e não possui a verdadeira felicidade. Francisco quase nada possui e irradia paz. O primeiro está cercado de riquezas; o segundo, aparentemente pobre, está riquíssimo interiormente. É aqui que se compreende a força do diálogo quando verdadeiramente católico.

Francisco não vai ao sultão para adulá-lo, nem para esconder a verdade, nem para ceder, transformando o Evangelho numa mensagem indistinta de fraternidade humana. Vai para convertê-lo. E, ao mesmo tempo, vai com uma bondade tão desinteressada que essa bondade se torna um argumento.

Segundo o relato utilizado pelo conferencista, o sultão ficou profundamente impressionado com Francisco e chegou a pedir-lhe que rezasse para que Deus lhe revelasse a verdadeira fé. Francisco possuía a força da verdade e da santidade.

Coragem de realizar uma vocação

Em outra conferência, o Prof. Plinio apresenta uma passagem particularmente adequada para este oitavo centenário de São Francisco. Este, vendo seus primeiros companheiros ainda poucos e talvez desanimados, teria lhes dito para não temerem. Ele havia contemplado uma grande multidão de homens de diversas nações que haveriam de seguir o mesmo caminho. A Ordem Franciscana se expandiu pelo mundo inteiro.

Mas o conferencista chama atenção para algo ainda mais importante do que a própria visão: o raciocínio que a acompanha. Se Deus chama uma pessoa ou uma pequena comunidade para determinada missão, não a chama inutilmente. A vocação traz consigo as graças necessárias para sua realização. Lição extraordinária para todas as épocas!

A eficácia da obra de Deus não se mede pelo número de seus servidores. A Igreja começou com apenas 12 Apóstolos… São Francisco começou com poucos companheiros. O que importa não é a aparência humana da força, mas a correspondência à graça. Por isso, a verdadeira coragem do católico não consiste em acreditar que tudo será fácil. Consiste em permanecer fiel mesmo quando tudo parece difícil.

São Francisco não prometeu aos seus irmãos que seriam admirados por todos. Pelo contrário, advertiu-os de que seriam ridicularizados, desprezados e combatidos. A confiança não estava na aprovação do mundo, mas na certeza de que Deus não abandona uma vocação que Ele próprio suscitou.

Morte de São Francisco de Assis — Bartolomeo Carducci (1560–1608). Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa


O que São Francisco nos diz oito séculos depois

O mundo mudou profundamente desde 1226. Mas algumas tentações humanas não mudaram. O orgulho e a sensualidade dominam. O orgulho continua sendo orgulho. A sensualidade continua sendo sensualidade. O apego ao dinheiro continua escravizando. A busca desenfreada do prazer continua deixando a alma vazia. E a tendência de colocar o homem no lugar de Deus continua sendo a raiz de muitas crises que hoje presenciamos.

Por isso São Francisco de Assis continua atual. Não porque devamos simplesmente reproduzir exteriormente a vida do século XIII, mas porque precisamos reencontrar o espírito que o movia. Ele nos ensina que é possível possuir bens sem ser possuído por eles. Que é possível ser doce sem ser fraco; ser humilde sem ser servil.

O Fundador franciscano ensina também que é possível ser contemplativo sem ser inerte; que é possível amar a criação precisamente porque se ama mais o Criador. Sobretudo nos ensina que não há santidade verdadeira sem a Cruz.

O legado de São Francisco de Assis

Oitocentos anos após sua morte, talvez seja necessário retirar São Francisco das imagens sentimentais nas quais tantas vezes foi desfiguradamente encerrado em tantas igrejas progressistas.

Ele não foi apenas o homem que conversava com os pássaros. Foi o homem que conversava com o próprio Deus. Não foi apenas o santo da natureza. Foi o santo que, contemplando a natureza, se elevava fazendo transcendências das criaturas ao Criador.

Não foi simplesmente o santo que “desposou a dama pobreza". Foi o santo que, pela pobreza, proclamou a soberania de Cristo Rei sobre todas as coisas. Não foi simplesmente o santo da bondade. Foi o santo que amou os homens a ponto de desejar para eles o maior dos bens: a posse da verdade e a salvação eterna. Ele não foi apenas um homem da época medieval. Foi uma dessas figuras providenciais cuja influência ultrapassa largamente o seu tempo.

Na interpretação de Plinio Corrêa de Oliveira, sua missão consistiu precisamente em reacender na Cristandade aquilo que começava a se apagar: o espírito sobrenatural, o amor à Cruz, a pureza, a humildade, a austeridade, a devoção à Imaculada Conceição e o desapego dos bens terrenos. Por essa ação, ele teria contribuído para retardar o avanço de tendências que posteriormente desembocariam no neopaganismo renascentista.

Talvez seja essa a grande mensagem deste oitavo centenário: em épocas de crise, Deus não abandona a humanidade, mas suscita santos. Assim, suscitou São Francisco quando a Cristandade precisava reaprender a amar a pobreza. Suscitou São Domingos quando era necessário reacender o amor à doutrina católica.

E São Francisco mostrou que uma alma inteiramente entregue a Deus pode exercer uma influência incomparavelmente maior do que faria supor sua fragilidade humana. Por isso, ao recordar sua morte em 3 de outubro de 1226 — aliás, no mesmo dia e mês em que, em 1995, faleceu o autor das conferências aqui comentadas —, não devemos olhar apenas para o passado. Devemos pedir-lhe que nos ensine a mesma lição que ensinou aos seus primeiros companheiros: não temer quando somos poucos, não desanimar quando somos desprezados, não negociar a verdade por vantagens secundárias e, sobretudo, confiar na graça quando Deus nos chama a uma missão.

A grandeza de São Francisco consiste em mostrar que um homem que é plenamente de Deus pode transformar uma época inteira. O Poverello de Assis morreu há oito séculos, mas o livro no qual aprendeu a viver — a Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo — continua aberto. E talvez seja justamente hoje, quando tantas almas precisam novamente aprender a lê-lo, que São Francisco tenha ainda uma palavra decisiva a dizer a toda a Cristandade.

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* Artigo baseado sobretudo em seis conferências de Plinio Corrêa de Oliveira, proferidas para sócios e cooperadores da TFP em 04-10-65, 04-10-66, 29-06-70, 04-10-71, 16-11-72 e em 06-07-85.