30 de março de 2026

Amor Àquele que por amor aos filhos morreu na cruz para salvá-los



Fonte: Revista Catolicismo, Nº 903, março/2026

Santo Afonso Maria de Ligório (1696-1787) recomenda com muito empenho a frequente meditação na Vida, Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo ao longo da Quaresma, especialmente nos dias da Semana Santa. Um sacrossanto exercício para incrementar nosso amor incondicional a Deus.

Assim, em seu precioso livro A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo*, ele coloca o leitor seguindo os pungentes passos da Paixão e, para cada um deles, sugere uma meditação, cada uma mais comovente que a outra.

Ele propõe 15 meditações a serem feitas preferencialmente na Semana Santa. Neste ano, ela inicia-se no dia 29 de março (no Domingo de Ramos – celebração da entrada de Nosso Senhor em Jerusalém) e se encerra no dia 5 de abril (no Domingo de Páscoa – celebração da Ressurreição de Jesus).

Quando contemplamos nosso Salvador caminhando resignadamente na sua Via Crucis, somos estimulados a reparar a suprema ofensa feita contra Ele — o deicídio —; move-nos também a desagravá-Lo pelos nossos pecados e a aceitar os sofrimentos que padecemos para nos unirmos a Ele. Nesta contemplação, Nosso Senhor conquista nossos corações e nos ajuda a conquistar o Céu por toda a eternidade.

Com essas meditações — diz o santo autor, fundador dos Redentoristas, Bispo de Sant'Agata de'Goti, Doutor da Igreja e um dos maiores moralistas —,desapegamo-nos das coisas terrenas que podem nos levar à perdição; pois quem poderá amar mais um bem terreno acima do amor a Jesus? Contemplando-O na Via Crucis e vendo-O morrer entre tantas dores para salvar as almas de suas criaturas, Ele nos abre caminho para entrarmos um dia na glória celestial.

Neste mesmo raciocínio, Orígenes (185-253) escreveu que o pecado não poderia imperar na alma de quem meditasse continuamente na morte de seu Salvador.

Santo Afonso recomenda que façamos todas as meditações pedindo a intercessão da nossa Corredentora. Com sua pungente participação na Paixão de seu Divino Filho, pelos merecimentos que alcançou com suas dores, Nossa Senhora poderá nos alcançar uma abrasada compaixão por Jesus e nos dará uma centelha do divino amor que Ela possui na plenitude.

Antes de passarmos às meditações, todas extraídas do mencionado livro, uma breve oração composta pelo mesmo santo:

“Suplico-vos, Senhor Jesus Cristo, que a força de vosso amor, mais ardente do que o fogo e mais doce do que o mel, absorva a minha alma, a fim de que eu morra por amor de vosso amor, ó Vós que vos dignastes morrer por amor a mim.”

Da Redação de Catolicismo

 

Agonia no Horto das Oliveiras – Baltasar de Echave (1558–1623). Museu Nacional de Arte, Cidade do México.


PRIMEIRA MEDITAÇÃO
No sábado da Paixão
Jesus entra triunfante em Jerusalém

 

1. Aproximando-se já o tempo da sua paixão, partiu nosso Redentor de Betânia para ir a Jerusalém. Quando chegou perto daquela ingrata cidade, olhou-a de longe e chorou: “ao ver a cidade, chorou sobre ela” (Lc 19, 14). Chorou prevendo-lhe a ruína, por causa do grande excesso que aquele povo dentro em pouco cometeria, tirando a vida ao Filho de Deus. Ah! meu Jesus, chorando então sobre aquela cidade, choráveis também sobre a minha alma, vendo a ruína que eu mesmo me causei com os meus pecados, forçando-vos a me condenardes ao inferno, depois de haverdes morrido para me salvar. Ah! deixai-me chorar o grande mal que fiz, desprezando-vos, a vós sumo bem, e tende compaixão de mim.

2. Jesus Cristo entra na cidade, o povo vai ao seu encontro, recebe-o com aplauso e festa; e, para lhe fazerem honra, uns espalham pelo caminho ramos de palmeira, outros estendem as vestes por onde ele passa. Oh! quem então diria que aquele Senhor, já reconhecido como Messias e acolhido com tantas provas de respeito, havia, depois, de aparecer pelas mesmas ruas condenado à morte, com uma cruz às costas! Ah! meu caro Jesus, antes aquela gente vos aclama dizendo: “Hosana ao Filho de Davi: bendito o que vem em nome do Senhor” (Mt 21, 9). Glória ao filho de Davi, bendito aquele que vem em nome de Deus para a nossa salvação. E depois levantará a voz, insuflando Pilatos, para que vos tire do mundo, fazendo-vos morrer crucificado: “Fora, fora, crucifica-o!” Vai, minha alma, e dize-lhe também tu com afeto: “Bendito o que vem em nome do Senhor”. Sede sempre bendito por terdes vindo, ó Salvador do mundo, do contrário estávamos todos perdidos. Ó meu Salvador, salvai-me.

3. Chegada, porém, a noite, depois de tantas aclamações não se achou ninguém que o convidasse a alojar-se em sua casa; pelo que, teve Ele de se retirar para Betânia. Meu amado Redentor, se outros não vos querem acolher, eu quero acolher-vos no meu pobre coração. Por um tempo eu, infeliz, vos expulsei da minha alma, mas agora estimo mais o ter-vos comigo do que possuir todos os tesouros da Terra. Amo-vos, meu Salvador, quem poderá jamais separar-me do vosso amor? Só o pecado, mas deste pecado me haveis de livrar com o vosso auxílio, ó meu Jesus, e vós com a vossa intercessão, ó Maria minha mãe!

 

SEGUNDA MEDITAÇÃO
No domingo da Paixão
Jesus faz oração no horto

 

1. Sabendo Jesus Cristo já ser chegada a hora da sua Paixão, depois de lavar os pés aos seus discípulos, e depois de instituir o SS. Sacramento do altar, no qual nos deixou todo a si mesmo, vai ao horto de Getsêmani, onde sabia deverem em breve vir os inimigos para o prenderem. Ali põe-se a orar, e eis que se vê assaltado por um grande temor, por um grande tédio e por uma grande tristeza. “Começou a dar sinais de espanto, de tédio, e a ficar triste” (Mc 14, 33, Mt 26, 5). Assaltou-o primeiramente um grande temor da morte amarga que devia sofrer no Calvário, e de todas as angústias e desolações que deviam acompanhá-la. No processo da sua Paixão, os flagelos, os espinhos, os pregos e os outros tormentos afligiram-no um a um; mas, no horto, vieram afligi-lo todos juntos, com a lembrança. Ele os abraça todos por nosso amor, mas, ao abraçá-los, treme e agoniza. “E, caindo em agonia, orava mais intensamente” (Lc 22, 43).

2. Além disso, assalta-o um grande tédio daquilo que Ele devia padecer, pelo que roga ao Pai que o livre disso. “Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice” (Mt 26, 39). Ele assim rogou para nos ensinar que nas tribulações bem podemos pedir a Deus que nos livre delas; mas ao mesmo tempo devemos remeter-nos à sua vontade, e dizer como então disse Jesus: “Mas não como eu quero, e sim como o queres tu” (Mt 26, 39). Sim, meu Jesus, não se faça a minha vontade, senão a vossa. Abraço todas as cruzes que quiserdes mandar-me. Vós inocente, tanto padecestes por meu amor; justo é que eu, pecador, réu do inferno, padeça por vosso amor tudo quanto dispuserdes.

3. Assaltou-o ainda uma tristeza tão grande, que bastava para fazê-lo morrer, se Ele mesmo não houvesse contido a morte, a fim de morrer por nós crucificado depois de padecer. “Minha alma está triste até à morte” (Mc 14, 34). Esta grande tristeza foi causada por ver Ele a ingratidão futura dos homens, que, em vez de corresponderem a tanto amor de sua parte, haviam de ofendê-lo com tantos pecados, cuja vista o fez suar sangue vivo. “E começou a suar como gotas de sangue que escorriam em terra” (Lc 22, 44). De modo, meu Jesus, que já não foram cruéis os algozes, os flagelos, os espinhos, a cruz; cruéis foram os meus pecados, que tanto vos afligiram no horto. Dai-me, pois, parte daquela dor e aborrecimento que deles experimentastes no horto, de modo que eu chore amargamente, até à morte, os desgostos que vos tenho dado. Amo-vos, ó meu Jesus; recebei um pecador que quer amar-vos. Ó Maria, recomendai-me a esse filho aflito e triste por meu amor.

 

TERCEIRA MEDITAÇÃO
Na segunda-feira da Paixão
Jesus é preso e conduzido a Caifás

 

         1. Sabendo o Senhor já estarem perto os judeus que vinham prendê-lo, levanta-se da oração e lhes vai ao encontro; pelo que, sem repugnar, faz-se prender e atar por eles. “Agarraram Jesus e ataram-no” (Jo 18, 12). Ó pasmo! Um Deus atado como um celerado pelas suas criaturas! Minha alma, olha como um lhe agarra as mãos, outro o amarra, outro o bate; e o inocente cordeiro deixa-se atar e bater à vontade deles, e se cala. “Foi crucificado porque quis; não abriu a boca. Como uma ovelha será conduzido para ser morto” (Is 53, 7). Não fala nem se lamenta, visto como Ele próprio já se oferecera para morrer por nós, e por isto deixa-se atar como uma ovelha e conduzir à morte sem abrir a boca.

         2. Entra Jesus atado em Jerusalém. Aqueles que dormiam, ao tumulto daquela gente que passa, acordam e perguntam quem é aquele prisioneiro que era levado; e lhes é respondido: É Jesus Nazareno, que foi descoberto como impostor e sedutor. Apresentam-no a Caifás, que, vendo-o, se alegra, e o interroga sobre seus discípulos e sobre a sua doutrina. Jesus responde que falou em público; pelo que, chama em testemunho do que disse aqueles mesmos judeus que lhe estavam em volta: Eis que estes sabem o que eu disse. Mas, depois desta resposta, um dos ministros bate-o com uma bofetada, dizendo-lhe Assim respondes ao pontífice? Mas, ó Deus, como pode uma resposta tão humilde e mansa merecer uma afronta tão grande? Ah! meu Jesus, vós tudo sofreis para pagar as afrontas feitas ao vosso divino Pai.

3. Depois o pontífice conjurou-o em nome de Deus a dizer se verdadeiramente Ele era o Filho de Deus. Jesus disse que o era; e, ao ouvir isto, Caifás, em vez de se prostrar em terra para adorar o seu Deus, rasga as vestes e, voltando-se para os outros sacerdotes, diz: Que necessidade temos mais de testemunhas? Eis que agora ouvistes a blasfêmia; que vos parece?E eles unanimemte responderam: É réu de morte. Então, conforme narram os Evangelistas, começam todos a cuspir-lhe no rosto e a maltratá-lo com bofetadas e socos, e depois, cobrindo-lhe o rosto com um pano, diziam-lhe por escárnio: “Adivinha, Cristo, quem te bateu” (Mt 26, 68). Assim escreveu São Mateus. E São Marcos escreveu: “E alguns começaram a cuspir-lhe em cima e a lhe velar a face e a dar-lhe socos, dizendo-lhe: Adivinha. E os servos lhe davam bofetadas” (Mc 14, 65). Ei-vos, meu Jesus, que nessa noite vos tornastes o joguete da gentalha! Mas como podem os homens ver-vos tão humilhado por seu amor e não vos amar? E como pude eu chegar a ultrajar-vos com tantos pecados meus, depois de tanto haverdes padecido por mim? Amor meu, perdoai-me, que não mais quero vos dar desgosto. Amo-vos, meu sumo bem, e arrependo-me mais do que de qualquer mal, de vos haver desprezado. Ó minha mãe Maria, rogai ao vosso filho maltratado que me perdoe.

 

QUARTA MEDITAÇÃO
Na terça-feira da Paixão
Jesus é conduzido a Pilatos e a Herodes e depois é posposto a Barrabás

 

1. Vinda a manhã, levam Jesus a Pilatos, a fim de que o condene à morte. Mas Pilatos percebe que Jesus é inocente, pelo que diz aos judeus que não achava razão para condená-lo. Vendo, porém, aqueles homens obstinados em querê-lo morto, remeteu-o ao juízo de Herodes. Tendo diante de si Jesus, Herodes desejava ver algum dos tantos prodígios operados pelo Senhor e que lhe haviam sido referidos. O Senhor, entretanto, nem sequer quis responder às interrogações daquele temerário. Pobre da alma a que Deus não fala mais! Meu Redentor, assim merecia também eu, por não haver obedecido a tantos apelos vossos; merecia que não me falásseis mais e que me abandonásseis: mas não, meu Jesus, vós ainda não me abandonastes; falai-me, pois. Fala, ó Senhor, que o teu servo te escuta; dizei-me o que quereis de mim, e eu tudo quero fazer para vos agradar.

2. Vendo que Jesus não lhe dava resposta, Herodes, indignado, enxotou-o da sua casa, escarnecendo-o com toda a gente da sua corte, e para maior desprezo mandou vesti-lo com uma veste branca para tratá-lo como louco, e assim o remeteu a Pilatos. “Escarneceu-o, e, depois de vesti-lo de branco, reenviou-o a Pilatos” (Lc 23, 11). Eis que Jesus, vestido com aquela sobreveste de ludíbrio, é levado pelas ruas de Jerusalém. Ó meu desprezado Salvador, faltava-vos esta outra injúria, de serdes tratado como louco! Portanto, se assim a sabedoria eterna é tratada pelo mundo, feliz de quem não faz nenhum caso dos aplausos do mundo, e não quer saber de outra coisa senão de Jesus Crucificado, amando as dores e os desprezos, e dizendo com o Apóstolo: “Pois não julguei saber outra coisa entre vós senão Jesus Cristo, e Este crucificado” (I Cor. 2, 2).

3. Tinham os Hebreus o direito de pedir ao presidente romano, na festa de Páscoa, a libertação de um réu. Por isso, Pilatos perguntou ao povo a quem queria libertado, se Barrabás ou Jesus. “Quem quereis que eu vos liberte, Barrabás ou Jesus?” (Mt 27, 17). Barrabás era um celerado, homicida, ladrão, abominado por todos; Jesus era inocente; mas os judeus gritam que viva Barrabás e morra Jesus. Ah! meu Jesus, assim também disse eu quando deliberei ofender-vos por alguma satisfação minha, ou quando preferi a vós aquele meu miserável gosto e, para não perder este, não me importei de perder a vós, bem infinito. Mas agora amo-vos sobre qualquer outro bem, mais do que a minha vida. E vós, Maria, sede a minha advogada.

 

QUINTA MEDITAÇÃO
Na quarta-feira da Paixão
Jesus é flagelado na coluna

 

1. “Então Pilatos tomou Jesus e mandou flagelá-lo” (Jo 19, 1). Ó injusto juiz, declaraste-o inocente, e depois o condenas a uma pena tão cruel e tão vergonhosa? Olha agora, ó minha alma como, depois dessa ordem iníqua, os algozes agarram o Cordeiro divino, levam-no ao pretório e o amarram com cordas à coluna. Ó cordas, vós que ligastes àquela coluna as mãos do meu doce Redentor, ligai também ao seu coração divino o meu miserável coração, de modo que de hoje em diante eu não procure, não queira senão aquilo que Ele quer.

2. Eis que eles já tomam na mão os flagelos e, dado o sinal, começam a bater por toda parte aquelas carnes sacrossantas: as quais primeiramente aparecem lívidas, vendo-se depois por toda parte brotar o sangue. Ai de mim, que os flagelos e as mãos dos algozes já estão todas tintas de sangue, e a terra já está toda banhada de sangue. Oh! Deus, ante a violência dos golpes vai pelos ares não só o sangue, mas também em pedaços, a carne de Jesus Cristo! Aquele corpo divino já está todo dilacerado, mas, sem embargo, aqueles bárbaros continuam a ajuntar feridas e feridas, dores e dores. E, enquanto isso, que faz Jesus? Não fala, não se lamenta, mas paciente, sofre esse grande tormento para aplacar a divina justiça indignada conosco. “Como cordeiro mudo diante de quem o tosa, assim ele não abriu a boca” (Act. 8, 32). Vai depressa, ó minha alma, vai e lava-te naquele sangue divino. Meu amado Senhor, contemplo-vos todo dilacerado por mim: já não posso, pois, duvidar de que me amais, e de que me amais bastante. Cada chaga vossa é uma prova sobejamente certa do vosso amor, o qual, com sobeja razão, pede o meu amor. Vós, meu Jesus, sem reserva me dais o vosso sangue, justo é que sem reserva eu vos dê todo o meu coração. Recebei-o, pois, e fazei que ele vos seja sempre fiel.

3. Ó Deus! Se Jesus Cristo não houvesse sofrido mais que uma simples pancada por meu amor, ainda assim eu deveria arder de amor a Ele, dizendo: Um Deus quis ser batido por mim! Mas não: Ele não se contentou com uma só pancada, porém para pagar os meus pecados, quis que lhe fossem dilacerados todos os membros, como já predissera Isaías: “Foi traspassado pelos nossos crimes” (Is 53, 5), até aparecer como um leproso coberto de chagas da cabeça aos pés: “E consideramo-lo como um leproso” (Is 53, 4). Portanto, minha alma, enquanto era flagelado, Jesus pensava em ti, e oferecia a Deus aqueles seus acerbos martírios para te livrar dos flagelos eternos do inferno. Ó Deus de amor, como pude eu viver tantos anos no passado sem vos amar? Ó chagas de Jesus, chagai-me de amor por um Deus que tanto me amou. Ó Maria, ó mãe de graças, impetrai-me para mim este amor.

 

Coroação de Espinhos de Nosso Senhor– Martin Schongauer (1440–1491). Unterlinden Museum, Colmar, França.

SEXTA MEDITAÇÃO
Na quinta-feira da Paixão
Jesus é coroado de espinhos e tratado como rei de brinquedo

 

1. Depois que aqueles soldados flagelaram Jesus Cristo, uniram-se todos no pretório e, despojando-o de novo das suas vestes para escarnecê-lo e torná-lo um rei de cena, puseram-lhe em cima um trapo velho de cor vermelha em sinal de púrpura real, na mão uma cana em sinal de cetro, e na cabeça um feixe de espinhos em sinal de coroa, mas feito a modo de capacete, que tomava toda a sagrada cabeça. “E despindo-o, puseram-lhe em cima um manto vermelho; e, entretecendo uma coroa de espinhos, puseram-lha na cabeça, e puseram-lhe uma cana na mão direita” (Mt 27, 28-29). E como só com as mãos os espinhos não entravam mais a dentro para perfurarem aquela divina cabeça, com a própria cana eles lhe calcam com toda força aquela bárbara coroa. “E cuspiram-lhe em cima, tomavam a cana e lhe batiam a cabeça” (Mt 27, 30). Ó espinhos ingratos, assim atormentais o vosso Criador? Mas quais espinhos! Vós, meus maus pensamentos, vós é que traspassastes a cabeça do meu Redentor. Detesto, ó meu Jesus, e aborreço mais do que a morte aqueles perversos consentimentos com que tantas vezes vos amargurei, a vós meu Deus tão bom. Mas, já que me fazeis conhecer o quanto me amastes, só a vós quero amar, só a vós.

2. Ó Deus, eis que daquela cabeça traspassada o sangue já escorre em rios sobre a face e sobre o peito de Jesus, e vós, meu Salvador, nem sequer vos queixais de tantas e tão injustas crueldades! Sois o rei do Céu e da Terra, mas agora, meu Jesus, estais reduzido a aparecer como rei de escárnios e de dores feito de ludíbrio de toda Jerusalém. Mas devia cumprir-se a predição de Jeremias, de que um dia devíeis ser saturado de dores e de ignomínias: “Oferecerá a face a quem o bate, e será saturado de opróbrios” (Thren. 3, 30). Jesus, meu amor, no passado desprezei-vos, mas agora vos estimo e vos amo de todo o meu coração, e desejo morrer por vosso amor.

3. Mas não, ainda não estão fartos de atormentar-vos e de escarnecer-vos esses homens pelos quais padeceis; depois de vos haverem assim atormentado e feito rei de comédia, ajoelham-se diante de vós, e com irrisões vos dizem: Saudamos-te, ó rei dos judeus. E depois, com risos e gargalhadas vos dão mais bofetadas que redobram a dor da cabeça já perfurada pelos espinhos. “E, dobrando o joelho diante dele, escarneciam-no dizendo: salve, o rei dos judeus. E davam-lhe bofetadas” (Mt 27, 29; Jo. 19, 3). Vai tu ao menos, ó minha alma, e reconhece Jesus pelo que Ele é, como Rei dos reis e Senhor dos senhores; e agradece-lhe e ama-o, agora que o vês por teu amor, feito rei de dor. Ah! meu Senhor, esquecei-vos das amarguras que vos proporcionei. Agora vos amo mais do que a mim mesmo. Só vós mereceis todo o meu amor, e por isto só a vós quero amar. Receio pela minha fraqueza, mas vós haveis de me dar a força de executá-lo. E vós, ó Maria, haveis de me ajudar com as vossas preces.

 

SÉTIMA MEDITAÇÃO
Na sexta-feira da Paixão
Pilatos mostra Jesus ao povo dizendo: “Ecce Homo”

 

1. Tendo sido Jesus levado novamente à sua presença, Pilatos viu-o tão dilacerado e deformado pelos flagelos e pelos espinhos, que acreditou mover à compaixão o povo com fazer-lho olhar; pelo que saiu ao balcão, trazendo consigo o aflito Senhor, e disse “Ecce Homo”.Como se dissesse: Vamos, contentai-vos com o que até agora padeceu este pobre inocente. Ei-lo reduzido a um estado de não mais poder viver. Deixai-o ir embora, pois pouco lhe resta de vida. Contempla também tu, minha alma, naquele balcão, o teu Senhor atado e seminu, coberto somente de chagas e sangue; e considera a que se reduziu o teu pastor para salvar a ti, ovelha pedida.

2. Ao mesmo tempo que Pilatos mostra aos judeus Jesus chagado, lá do Céu o Eterno Pai nos convida a olharmos Jesus Cristo em tal estado, e semelhantemente nos diz: “Ecce Homo”. Homens, esse homem que vós contemplais tão chagado e vilipendiado, esse é meu Filho dileto, que, para pagar os vossos pecados tanto padece, olha-o e ama-o. Meu Deus e meu Pai, olho para vosso Filho, e vos agradeço, e o amo, e espero amá-lo sempre; mas, rogo-vos, olhai-o também vós, e por amor desse Filho tende piedade de mim; perdoai-me, dai-me a graça de não amar a outro senão a vós.

3. Mas que respondem os judeus à vista daquele rei das dores? Levantam gritos e dizem: Crucifige, crucifige eum. E, vendo que, não obstante os insultos deles, Pilatos procurava libertá-lo, aterrorizam-no dizendo-lhe: “Se o libertas, não és amigo de César” (Jo 19, 12). Pilatos ainda resiste e replica: “Hei de então crucificar o vosso rei?” (Jo, 19, 15). E eles responderam: “Não temos outro rei senão César” (Jo 9, 15). Ah! meu adorado Jesus, estes não querem reconhecer-vos por seu rei, e vos dizem que não querem outro rei senão César. Confesso-vos por meu rei e meu Deus, e protesto não querer outro rei para o meu coração senão vós, meu amor e meu único bem. Miserável eu! Por um tempo também vos recusei por meu rei, e neguei-me a vos servir; mas agora quero que só vós domineis a minha vontade. Fazei que ela obedeça a tudo quanto lhe ordenardes. Ó vontade de Deus, sois o meu amor. Ó Maria, rogai por mim, as vossas preces não encontram repulsa.

 

OITAVA MEDITAÇÃO
No sábado da Paixão
Jesus é condenado por Pilatos

 

1. Pilatos, depois de haver tantas vezes declarado a inocência de Jesus, mais uma vez a proclama, protestando ser ele inocente do sangue daquele justo (Mt 27, 24), e, contudo, pronunciou a sentença e o condenou à morte. Oh! injustiça nunca vista no mundo! Ao mesmo tempo que o juiz declara inocente o acusado, ele o condena. Ah! meu Jesus, vós não mereceis a morte, mas eu a mereço. Visto, porém, que quereis satisfazer por mim, não é Pilatos, mas é o vosso próprio Pai que vos condena a pagar a pena a mim devida. Eu vos amo, ó Padre eterno, que condenais vosso Filho inocente para livrar-me a mim que sou réu. Eu vos amo, ó Filho eterno, que aceitais a morte devida a um pecador.

2. Pilatos, tendo condenado a Jesus, o entrega às mãos dos judeus, para que façam com ele o que desejavam: “Entregou Jesus ao arbítrio deles” (Lc 23, 25). É de fato o que acontece: quando se condena um inocente, não se limita a pena, mas é ele abandonado às mãos dos inimigos, para que o façam padecer e morrer como lhes aprouver. Pobres judeus, vós então pedistes o castigo, dizendo: “Seu sangue caia sobre nós e nossos filhos” (Mt 27, 25). E o castigo já veio! Desgraçados, sofreis e haveis de sofrer até ao fim do mundo o castigo desse sangue inocente. Ó meu Jesus, tende piedade de mim, que com minhas culpas também motivei a vossa morte. Não quero ficar obstinado como os judeus, quero chorar os maus tratos que vos dei e amar-vos sempre, sempre, sempre.

3. Eis que se lê diante do Senhor a injusta sentença, condenando-o à morte da cruz. Ele a ouve, e, inteiramente submisso à vontade do Pai, obediente a aceita com toda a humildade: “Humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até à morte e morte de cruz” (Fl 2, 8). Pilatos na Terra diz: Morra Jesus! E o eterno Pai no Céu diz também: Morra o meu Filho. E o Filho responde por sua vez: Eis-me aqui; eu obedeço e aceito a morte e a morte da cruz. Meu amado Redentor, vós aceitais a morte que me é devida. Seja bendita a vossa misericórdia para sempre: eu vos agradeço sumamente. Mas visto que vós, inocente, aceitais a morte da cruz por mim, eu, pecador, aceito a morte que me destinardes com todos os sofrimentos que a acompanharem e desde já a uno à vossa morte e a ofereço a vosso eterno Pai. Vós morrestes por meu amor e eu quero morrer por amor de vós. Pelos merecimentos de vossa santa morte, fazei-me morrer na vossa graça e abrasado no vosso santo amor. Maria, minha esperança, recordai-vos de mim.

 

NONA MEDITAÇÃO
No Domingo de Ramos
Jesus leva a cruz ao Calvário

 

1. Publicada a sentença contra nosso Salvador, apoderam-se imediatamente dele com fúria. Arrancam-lhe novamente aquele trapo de púrpura e o revestem com suas vestes, para ser crucificado sobre o Calvário, lugar destinado para a morte dos malfeitores. “Despiram lhe a clâmide e o revestiram com suas vestes e o conduziram para ser crucificado” (Mt 27, 31). Arranjam duas rudes traves, fazem com elas às pressas uma cruz e obrigam-no a carregá-la sobre os ombros até ao lugar de seu suplício. Que barbaridade impor nos ombros do réu o patíbulo sobre o qual deve morrer. Mas assim deve ser, ó meu Jesus, pois que vós tomastes sobre vós todos os meus pecados.

2. Jesus não recusa a cruz, abraça-a até com amor, sendo ela o altar destinado para a consumação do sacrifício de sua vida pela salvação dos homens. “E levando sua cruz às costas, saiu para aquele lugar que se chama Calvário” (Jo 19, 17). Os condenados saem da casa de Pilatos e entre eles se acha também nosso divino Salvador. Ó espetáculo que causou admiração ao Céu e à Terra: ver o Filho de Deus que segue para morrer por esses mesmos homens que a ela o condenam. Eis realizada a profecia: “E eu sou como um cordeiro que é levado para ser sacrificado” (Lm 11, 19). Jesus oferecia um aspecto tão lastimoso, que as mulheres judias, ao vê-lo, não puderam deixar de chorar: “E o choravam e lamentavam” (Lc 23, 27). Meu caro Redentor, pelos merecimentos dessa via dolorosa, dai-me a força de levar com paciência a minha cruz. Eu aceito todas as dores e desprezos que me destinais a sofrer; vós os tornastes amáveis e doces, abraçando-os por vosso amor. Dai-me força de suportá-los com paciência.

3. Contempla, minha alma, o que se passa com teu Salvador; vê como de suas chagas ainda frescas escorre o sangue, como está coroado de espinhos e carregado com a cruz. A cada movimento renovam-se as dores de todas as suas chagas. A cruz começa a atormentá-lo já antes do tempo, pisando seus ombros chagados e martelando-lhes os espinhos da coroa. Ó Deus, quantas dores a cada passo. Consideremos também os sentimentos de amor com que Jesus vai subindo o Calvário, onde o espera a morte. Ó meu Jesus, vós ides morrer por nós. Eu vos voltei as costas no passado e quereria morrer de dor: mas no futuro não sou capaz de abandonar-vos mais, meu Redentor, meu Deus, meu amor, meu tudo. Ó Maria, minha Mãe, alcançai-me a graça de levar a minha cruz com toda a paz.

 

Crucifixão – Giuliano Amadei (1492) - Missal de Inocêncio VIII. The J. Paul Getty Museum, Los Angeles, Califórnia.

DÉCIMA MEDITAÇÃO
Na Segunda-Feira Santa
Jesus é pregado na cruz

 

1. Apenas chegou o Redentor ao Calvário, triturado de dores e fatigado, arrancam-lhe as vestes já pegadas às suas carnes dilaceradas e arremessam-no sobre a cruz. Jesus estende seus sagrados braços e oferece ao mesmo tempo ao eterno Pai o sacrifício de sua vida, rogando-lhe que o aceite pela salvação dos homens. Os carrascos tomam então com fúria os cravos e os martelos e, atravessando-lhe os pés e as mãos, pregam-no na cruz. Ó mãos sagradas, que só com o vosso contato curastes tantos enfermos, por que vos pregam nessa cruz? Ó pés santos, que tanto vos cansastes para nos buscar a nós, ovelhas desgarradas, por que vos atravessam com tanta crueldade? Quando se fere um nervo do corpo humano, é tão aguda a dor, que ocasiona espasmos e delíquios. Ora, quão grande terá sido a dor de Jesus, quando lhe foram atravessados os pés e as mãos, cheios de nervos e músculos, pelos duros cravos! Ó meu doce Salvador, tanto vos custou o desejo de ver-me salvo e de conquistar o meu amor e eu, ingrato, tantas vezes desprezei o vosso amor por um nada; agora, porém, o estimo acima de todos os bens.

2. Levantam a cruz com o crucificado e fazem-na cair com violência no buraco feito no rochedo. Esse buraco é em seguida entupido com pedras e madeira e Jesus fica pendente na cruz, para aí consumar sua vida. Estando Jesus já agonizando naquele leito de dores e achando-se tão abandonado e triste, procura quem o console, mas não encontra. Ao menos terão compaixão de vós, ó meu Senhor, os homens que vos veem morrer? Pelo contrário; vejo que uns o injuriam, outros zombam dele; estes blasfemam, aqueles o escarnecem, dizendo: “Desça da cruz, se é o Filho de Deus. Salvou os outros e agora não pode salvar-se a si mesmo” (Mt 27, 40). Ah! bárbaros, ele já está expirando, como é que assim gritais; ao menos não o atormenteis com as vossas zombarias.

3. Vê quanto padece naquele patíbulo o teu Redentor. Cada membro sofre o seu tormento e um não pode aliviar o outro. A cada momento ele experimenta penas mortais. Pode-se dizer que durante aquelas três horas que Jesus agonizou na cruz, ele sofreu tantas mortes quantos foram os momentos que aí passou. Não encontra na cruz o mínimo alívio ou repouso. Se se apoia nas mãos ou nos pés, aumenta a dor, já que seu corpo sacrossanto está pendente dessas mesmas chagas. Corre, minha alma, e chega-te enternecida a essa cruz, beija esse altar sobre o qual morre como vítima de amor por ti o teu Senhor. Coloca-te debaixo de seus pés e deixa que caia sobre ti aquele sangue divino. Sim, meu caro Jesus, que esse sangue me lave de todos os meus pecados e me inflame todo em amor para convosco, meu Deus, que quisestes morrer por meu amor. Ó Mãe das dores, que estais ao pé da cruz, rogai a Jesus por mim.

 

DÉCIMA PRIMEIRA MEDITAÇÃO
Na Terça-Feira Santa
Jesus na cruz

 

1. Jesus na cruz. Eis a prova do amor de um Deus. Eis a última aparição que o Verbo encarnado fez sobre a Terra; aparição de dor, mais ainda de amor. S. Francisco de Paula, contemplando um dia o amor divino na pessoa de Jesus crucificado e entrando em êxtase, exclamou três vezes: “Ó Deus caridade! Ó Deus caridade! Ó Deus caridade!” Querendo com isso significar que não podemos compreender quão grande foi o amor de Deus para conosco, para morrer por nosso amor.

2. Ó meu querido Jesus, se vos contemplo exteriormente nessa cruz, nada mais vejo senão chagas e sangue. Se, porém, observo o vosso coração, encontro-o todo aflito e triste. Leio nessa cruz que vós sois rei, mas qual a insígnia de rei que ainda tendes? Eu não vejo outro sólio real senão esse madeiro de opróbrio; não vejo outra púrpura, senão a vossa carne dilacerada e ensanguentada; outra coroa, senão esse feixe de espinhos que vos atormenta. Ah! tudo isso, porém, vos consagra como rei de amor, sim, porque essa cruz, esses cravos, essa coroa e essas chagas são insígnias de amor.

3. Jesus do alto da cruz não nos pede tanto compaixão como nossos afetos, e se procura compaixão, busca-a unicamente para que ela nos mova a amá-lo. Ele, por ser a bondade infinita, já merece todo o nosso amor, mas, posto na cruz, procura que o amemos ao menos por compaixão. Ah! meu Jesus, quem não vos há de amar, se vos reconhece pelo Deus que sois e vos contempla na cruz? Oh! que setas de fogo vós disparais sobre as almas desse trono de amor. Oh! quantos corações atraístes a vós dessa mesma cruz. Ó chagas de meu Jesus, ó belas fornalhas de amor, recebei-me no meio de vós, para que me abrase, não já no fogo do inferno por mim merecido, mas nas santas chamas de amor por aquele Deus que consumido de tormentos quis morrer por mim. Meu caro Redentor, recebei um pecador, que, arrependido de vos ter ofendido, vos deseja amar sinceramente. Eu vos amo, bondade infinita; eu vos amo, amor infinito. Ouvi-me, ó meu Jesus, eu vos amo, eu vos amo, eu vos amo. Ó Maria, ó Mãe do belo amor, impetrai-me mais amor para que me consuma de amor por esse Deus que morreu consumido de amor por mim.

 

DÉCIMA SEGUNDA MEDITAÇÃO
Na Quarta-Feira Santa
Palavras ditas por Jesus na cruz

 

1. Enquanto Jesus é ultrajado na cruz por aquela gente bárbara, ele suplica por eles e diz: “Meu Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23, 34). Ó Padre eterno, ouvi vosso Filho bem amado, que, morrendo, vos roga que me perdoeis também a mim, que tantas vezes vos ofendi. Depois Jesus, voltando-se para o bom ladrão que lhe pede perdão, diz: “Hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23, 46). Oh! como é verdade o que diz o Senhor por Ezequiel que, quando um pecador se arrepende de suas culpas, ele se esquece, por assim dizer, de todas as ofensas que lhe foram feitas: “Se, porém, o ímpio fizer penitência... não me recordarei mais de todas as suas iniquidades” (Ez 18, 21). Oh! se eu nunca vos tivesse ofendido, ó meu Jesus; mas, visto que o mal está feito, esquecei-vos, eu vos suplico, dos desgostos que vos dei e, por aquela morte tão cruel que sofrestes por mim, levai-me ao vosso reino depois de minha morte e, enquanto eu vivo, fazei que o vosso amor reine sempre em minha alma.

2. Jesus agonizando na cruz, com seus ombros dilacerados e sua alma sumamente aflita, procura quem o console. Olha para Maria; mas essa mãe dolorosa mais o aflige com suas dores. Busca conforto junto de seu Pai; mas este, vendo-o coberto com todos os pecados dos homens, também o abandona. Foi então que Jesus deu um grande brado: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonais?” (Mt 27, 46). Este abandono do Padre eterno fez com que a morte de Jesus fosse a mais amarga que jamais sofreu algum penitente ou algum mártir, pois foi uma morte toda desolada e privada de qualquer alívio. Ó meu Jesus, como pude viver tanto tempo esquecido de vós? Agradeço-vos o não vos terdes esquecido de mim. Eu vos suplico que me façais recordar sempre da morte cruel que suportastes por meu amor, para que eu nunca mais me esqueça do amor que tendes testemunhado.

3. Afinal, sabendo Jesus que seu sacrifício já estava consumado, disse: “Tenho sede” (Jo 12, 28). E aqueles carrascos lhe puseram nos lábios uma esponja toda embebida no vinagre e fel. Mas, Senhor, vós não vos queixais de tantas dores que vos roubam a vida e agora vos queixais de sede? Ah, eu vos compreendo, meu Jesus, a vossa sede é sede de amor; porque vós nos amais, desejais ser amado por nós. Ajudai-me, pois, a expelir do meu coração todos os afetos que não são para vós: fazei que eu não ame outra coisa senão a vós e nada mais deseje senão cumprir a vossa vontade. Ó vontade de Deus, vós sois o meu amor. Ó Maria, minha Mãe, impetrai-me a graça de não querer outra coisa senão o que Deus quer.

 

DÉCIMA TERCEIRA MEDITAÇÃO
Na Quinta-Feira Santa
Jesus morre na cruz

 

1. Eis que o Salvador está prestes a morrer. Contempla, minha alma, aqueles belos olhos que se obscurecem, aquela face já pálida, aquele coração que palpita lentamente, aquele sagrado corpo que já se entrega à morte. Tendo Jesus experimentado o vinagre disse: “Tudo está consumado” (Jo 19, 30). Põe ainda uma vez diante dos olhos todos os padecimentos sofridos durante sua vida, pobreza, desprezos, dores e, oferecendo então tudo a seu eterno Pai, disse: Tudo está consumado. Meu Pai, eis já completa a redenção do mundo com o sacrifício de minha vida. E voltando-se para nós, como para que respondamos, repete: Tudo está consumado, como se dissesse: Ó homens, amai-me, porque eu fiz tudo e nada mais tenho a fazer para conquistar o vosso amor.

2. Chega afinal a hora, e Jesus falece. Vinde, ó anjos do Céu, vinde assistir à morte de vosso rei. E vós, Mãe dolorosa, chegai-vos mais à cruz e contemplai atentamente vosso Filho, pois está prestes a expirar. E ele, depois de ter recomendado seu espírito ao Pai, invoca a morte, dando-lhe a permissão de tirar-lhe a vida. Vem, ó morte, lhe diz, depressa exerce o teu ofício, mata-me e salva as minhas ovelhas. A terra treme, abrem-se os sepulcros, rasga-se o véu do templo. Pela violência da dor, eis que ao Senhor moribundo já faltam as forças, falta o calor, fica inerte seu corpo, abaixa a cabeça, abre a boca e morre. “E tendo inclinado a cabeça, entregou o seu espírito” (Jo 19, 30). O povo o vê expirar e, notando que não faz mais movimento, diz: Está morto, está morto. E a estes se alia também a voz de Maria, que diz por sua vez: Ah! meu Filho, já estás morto.

3. Está morto! Quem, ó Deus, está morto? Está morto o autor da vida, o Unigênito de Deus, o Senhor do mundo. Ó morte, tu foste o assombro do Céu e da Terra. Ó amor infinito! Um Deus sacrificar sua vida e seu sangue por quem? Por suas criaturas ingratas, morrendo num mar de dores e de desprezos para pagar as suas culpas! Ó bondade infinita! Ó amor infinito! Ó meu Jesus, vós morrestes, pois, pelo amor que me consagrastes. Não permitais, portanto, que eu viva um instante sequer sem vos amar. Eu vos amo, meu sumo bem, eu vos amo, meu Jesus, morto por mim. Ó Mãe das dores, Maria, ajudai a um servo vosso que deseja amar Jesus.

 

DÉCIMA QUARTA MEDITAÇÃO
Na Sexta-Feira Santa
Jesus morto pendente da cruz

 

1. Minha alma, levanta os olhos e contempla aquele crucificado. Contempla o Cordeiro divino já sacrificado sobre o altar da dor. Reflete que ele é o Filho dileto do eterno Pai e que morreu pelo amor que te consagrou. Vê como tem os braços estendidos para abraçar-te, a cabeça inclinada para dar-te o ósculo da paz, o lado aberto para receber-te no seu coração. Que dizes? Merece ou não ser amado um Deus tão amoroso? Ouve o que ele te diz daquela cruz: Vê, filho, se existe no mundo quem tenha te amado mais do que eu. Não, meu Deus, não há no mundo quem tenha te amado mais do que eu. Não, meu Deus, não há no mundo quem me tenha amado mais do que vós. Mas que poderei dar em retorno a um Deus que quis morrer por mim? Que amor de uma criatura poderá jamais compensar o amor de seu criador morto para conquistar o seu amor?

2. Ó Deus, se o mais vil dos homens tivesse sofrido por mim o que sofreu Jesus Cristo, poderia deixar de amá-lo? Se eu visse um homem dilacerado pelos açoites, pregado numa cruz para salvar-me a vida, poderia lembrar-me disso sem me abrasar em amor? E se me fosse apresentado o seu retrato expirando na cruz poderia contemplá-lo com indiferentismo, pensando: Este homem morreu assim atormentado por meu amor e, se não me houvesse amado tanto, não teria morrido dessa maneira. Ah! meu Redentor, ó amor de minha alma, como poderei esquecer-me de vós? Como poderei pensar que os meus pecados vos reduziram a um tal estado e não chorar sempre as injúrias feitas à vossa bondade? Como poderei vos ver morto de dor sobre essa cruz por amor a mim e não vos amar com todas as minhas forças?

3. Meu caro Redentor, bem reconheço nessas vossas chagas e membros dilacerados outras tantas provas do terno amor que me consagrais. Já, pois, que para me perdoar não perdoastes a vós, olhai-me com aquele mesmo amor com que me olhastes uma vez na cruz, na qual morríeis por meu amor; iluminai-me e atraí para vós todo o meu coração, para que de hoje em diante eu nada mais ame fora de vós. Não permitais que eu me esqueça de vossa morte. Vós prometestes que, levantado na cruz, haveríeis de atrair os nossos corações. Eis aqui o meu coração, que, enternecido com a vossa morte e enamorado de vós, não quer resistir mais ao vosso chamamento: ah! atraí-o todo e tornai-o todo vosso! Vós morrestes por mim e eu desejo morrer por vós e, continuando a viver, só para vós quero viver. Ó dores de Jesus, ó ignomínias de Jesus, ó morte de Jesus, ó amor de Jesus, fixai-vos no meu coração e aí fique sempre a vossa memória a ferir-me continuamente e a inflamar-me em amor. Eu vos amo, bondade infinita, eu vos amo, amor infinito, vós sois e sereis sempre o meu único amor. Ó Maria, Mãe do amor, obtende-me o santo amor.

 

A Virgem aos pés da cruz – Paul Delaroche (1797-1856). Coleção Particular.

DÉCIMA QUINTA MEDITAÇÃO
No Sábado Santo
Maria assiste à morte de Jesus na cruz

1. “Estava, porém, junto à cruz de Jesus sua Mãe” (Jo 19, 25). Consideremos nesta rainha dos mártires uma espécie de martírio mais cruel que todo outro martírio, uma mãe vendo morrer um filho inocente, justiçado num patíbulo infame: “Estava em pé”. Desde a hora em que Jesus foi preso no horto, os discípulos o abandonaram; não, porém, sua Mãe: ela o assiste até vê-lo expirar diante de seus olhos. “Estava junto dele”. As mães fogem quando veem seus filhos padecendo e não os podem socorrer: estariam prontas a sofrer as dores em lugar dos filhos, mas quando os veem padecer sem poder auxiliá-los, não suportam tal pena e por isso fogem e vão para longe. Maria, não; ela vê o Filho no meio dos tormentos, vê que as dores lhe roubam a vida, mas não foge, nem se afasta, antes se aproxima da cruz na qual o Filho está morrendo. Ó Mãe das dores, não me desdenheis e permiti que vos faça companhia na morte do vosso e do meu Jesus.

2. “Estava junto à cruz”. A cruz é, pois, o leito em que Jesus deixa de viver: leito de dores, em que a aflita Mãe vê Jesus todo ferido pelos açoites e pelos espinhos. Maria observa que seu pobre Filho, pendente daqueles três cravos de ferro, não encontra repouso nem alívio: desejaria procurar-lhe algum alívio; desejaria, já que ele tem de morrer, que ao menos expirasse em seus braços; nada disso, porém, lhe é permitido. Ah! cruz, diz, restitui-me o meu Filho: és o patíbulo dos malfeitores; meu Filho, porém, é inocente. Não vos aflijais, ó Mãe: é vontade do eterno Pai que a cruz não vos restitua Jesus senão depois de morto. Ó rainha das dores, alcançai-me a dor de meus pecados.

3. “Estava junto da cruz sua Mãe”. Considera, minha alma, como ao pé da cruz Maria está olhando para o Filho! E que Filho, meu Deus! Filho que era ao mesmo tempo seu Filho e seu Deus; Filho que desde a eternidade tinha escolhido para sua Mãe, e a havia preferido no seu amor a todos os homens e a todos os anjos; Filho tão belo, tão santo, tão amável como nenhum outro; Filho, que lhe fora sempre obediente; Filho, que era seu único amor, pois que era Filho de Deus. E esta Mãe teve de ver morrer de dores, diante de seus olhos, um tal Filho! Ó Maria, ó Mãe, a mais aflita entre todas as mães, compadeço-me de vosso coração, especialmente quando vistes vosso Jesus inclinar a cabeça, abrir a boca e expirar. Por amor deste vosso Filho, morto para minha salvação, recomendai-lhe a minha alma. E vós, meu Jesus, pelos merecimentos das dores de Maria, tende piedade de mim e concedei-me a graça de morrer por vós, como morrestes por mim. Com S. Francisco de Assis vos direi: Morra eu, Senhor, por amor de vós, que por amor de meu amor vos dignastes morrer.

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*Santo Afonso Maria de Ligório, A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, Edições Paulinas, São Paulo, 1950, pp. 239-275.

28 de março de 2026

Nada mais eficaz para a salvação eterna do que meditar na Vida, Paixão e Morte de Jesus



No alto do Calvário, a Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo foi o altar no qual Ele consumou seu supremo sacrifício para a salvação do gênero humano; onde deu sua vida até mesmo por aqueles que O condenaram e crucificaram. 

Com os nossos pecados, todos participamos, em certo sentido, do deicídio; somos culpados quando infringimos os Mandamentos que Deus nos preceituou. 

Se Jesus voltasse à Terra, não seria novamente crucificado? Quem ousaria negá-lo? O “processo de autodemolição” que sofre hoje a Santa Igreja não é uma renovação do deicídio, da crucifixão? Certamente um modo de crucificar ainda mais lancinante, uma espécie de “eclesiocídio”, pois a Igreja é o “corpo místico de Cristo”. 

“Os pecadores foram os autores e os instrumentos de todos os sofrimentos que o Divino Redentor suportou”. Assim declara o Catecismo da Igreja Católica (§598).

Donde a necessidade de expiarmos nossos pecados e fazermos atos de reparação em desagravo a Nosso Senhor. Para isso, um dos meios mais eficazes é meditarmos com piedade e amor de Deus os passos da Via Crucis do Inocente que foi condenado e por caridade morreu em nosso lugar, dando sua vida para nos redimir. 

Um dos maiores moralistas da Igreja Católica, Santo Afonso Maria de Ligório, aconselha a frequente meditação da Paixão de Jesus, dizendo que é o meio mais eficaz para inflamar as almas no amor de Deus e a progredir no caminho da salvação. Ademais, ele acentua que nenhum meio é mais poderoso para conduzir uma alma à conversão e à santidade.

É com essa intenção que, para a Semana Santa deste ano, na matéria de capa deste mês [imagem acima] a revista Catolicismo reproduz as 15 meditações sugeridas por Santo Afonso em seu livro A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. 

Supliquemos à Mater Dolorosa, que acompanhou todos os passos da Paixão de seu Divino Filho, que nos acompanhe nessas meditações, nos conceda as graças de desagravá-Lo pelas ofensas cometidas no mundo inteiro, e, depois, as graças jubilosas próprias à Páscoa da Ressurreição — que logo venha uma ressurreição do mundo com a restauração da Santa Igreja e da Cristandade em todo o seu esplendor.

24 de março de 2026

“O Anjo do Senhor Anunciou a Maria e Ela concebeu do Espírito Santo”

Anunciação – Joos van Cleve (1485–1541). Metropolitan Museum of Art, Nova York.


A Igreja Católica fixou no dia 25 de março a festividade para se comemorar a Anunciação e a Encarnação do Verbo de Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo, no seio virginal da Santíssima Mãe. “O Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1, 14).

Acontecimento anunciado — sete séculos antes do Nascimento de Jesus — pelo Profeta Isaías: “Uma virgem conceberá e dará à luz um filho, e o chamará Deus Conosco” (Is, 7, 14).

A respeito desta magna celebração, seguem excertos de uma conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira para sócios e cooperadores da TFP na véspera do dia da Anunciação em 1984.

No texto, inserimos subtítulos e adaptamos a linguagem falada à escrita, sem passar pela revisão do autor.

“Eis aqui a escrava do Senhor. 

Faça-se em mim segundo a vossa palavra”

A respeito da festa da Encarnação, celebrada nos dias 25 de março de cada ano, muitos aspectos poderiam ser expostos. Eu começaria por abordar o seguinte.

Se considerarmos o universo, veremos que ele é constituído de incontáveis maravilhas criadas por Deus. Qualquer coisa do universo é uma maravilha: uma gota d´água é uma maravilha, um passarinho, uma pedra; até mesmo coisas não bonitas como as formigas, por exemplo. Vendo-as por meio de um microscópio parecem monstros, entretanto elas são maravilhas de organização e de sabedoria.

Concepção de um plano maravilhoso

Como essas maravilhas do universo seriam no Paraíso terrestre? Haveria formigas? Seriam belas ou feias? Como seria uma gota d´água no Paraíso? Como lá seria uma taça de água? Haveria taças ou haveria flores magníficas, à maneira de copos de leite, nos quais os homens beberiam?

Uma coisa é positiva: é que Deus, fazendo tantas maravilhas no universo, dificilmente se poderia compreender que Ele não coroasse todas elas com uma maravilha complementar e acima de todas.

Imaginem um joalheiro que tenha um cofre cheio de joias e um escrínio cheio de pedras preciosas. Mas essas pedras preciosas ainda não engastadas como joias. Ele as esparrama sobre a mesa, acende sobre elas uma lâmpada as fica olhando, encantado com todas elas.

Se ele for um joalheiro inteligente, mais cedo ou mais tarde lhe virá a ideia seguinte: como constituir com essas pedras um conjunto? São tão belas que merecem ser integradas num todo ainda mais belo! E a joia na qual se encaixariam essas pedras seria ainda mais bonita, porque o conjunto das coisas ordenadas é mais bonito do que o puro amontoamento  desarticulado delas. A ordem é um degrau a mais para o esplendor; a beleza propriamente dita decorre não só da beleza de cada parte, mas da ordenação com que todas as partes estão dispostas. Esta é a beleza das belezas.

E o joalheiro não poderia deixar de classificar as pedras e dizer: “Vou constituir com elas uma joia”. Ele estuda as pedras e diz: “No centro irá aquele brilhante magnífico. Mas para que a beleza irradie mais, vou pôr daquele lado rubis, mais adiante safiras, depois esmeraldas.” Ele idealiza toda a sua joia e por fim a contempla dizendo: “Que bela joia eu concebi!”.

Um homem no ápice da Criação

Menino Jesus do Sagrário 
– Juan Martí nez Montañés, 
madeira de cedro da Havana (1606), 
com policromia de Gaspar 
 de Ragis (Sevilha, Espanha).

Deus, tendo feito todas as maravilhas que vemos no universo visível, era impossível que não procurasse pôr uma ordem nelas. Como centro dessa ordem, Ele colocou o homem. Criou Adão e Eva. Mas era intenção d’Ele que houvesse governo em todas essas maravilhas. Então estabeleceu o gênero humano para governar. Estabeleceu que houvesse homens gradativamente mais perfeitos, mais santos, mais admiráveis, e, no ápice, um homem tão perfeito, tão inteligente, tão sábio, tão poderoso, que excedesse em beleza, em sabedoria, em virtude, em poder todos os demais homens criados. Em torno desse homem se disporiam todas as perfeições do universo criado.

Veio então o anuncio do Homem-Deus que algum dia deveria nascer. Filho dos homens e Filho de Deus, que seria o hífen de ouro ligando magnificamente o Céu e a Terra.

Considerem todas as grandezas que a História apresenta: todos os sábios, os santos, os potentados, os reis, os magnatas, os oradores etc. Somem todos eles e nada é comparável nem de longe ao Homem-Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo.

Ele, de carne e osso como nós, é um homem que está ligado à natureza divina. Nele há duas naturezas. Uma humana e outra divina, formando uma só pessoa.

Todas as belezas do mar, do céu, aquelas que estão nas entranhas da Terra, toda a variedade dos animais, das plantas, todas as grandezas e belezas que tiveram os homens de todos os tempos, tudo isso são sinais precursores do ápice da História: Jesus Cristo.

Claudica qualquer comparação com Jesus

No Santo Sudário de Turim — o precioso tecido que envolveu o cadáver sagrado nos três dias trágicos em que Nosso Senhor esteve jazendo na sepultura — se vê a face d’Ele como realmente era.

No corpo do homem, o mais expressivo é a face, e, nesta, o mais expressivo é o olhar. No Santo Sudário os olhos estão fechados, mas o olhar transparece através dessas pálpebras fechadas! Que grandeza! Que magnificência! Que verdadeira maravilha!

Quando se olha o Sudário, não passa pela cabeça comparar com nenhum outro homem. Não há nenhuma comparação possível! Ele é único, é supremo, é divino! Entretanto, Ele é também humano.

Imaginemos o que aconteceu com a Verônica. Ela enxugou o rosto divino num pano e nele ficou estampada a face de Jesus. Ela guardou essa relíquia preciosíssima com a fisionomia d’Ele e fez disso a sua felicidade.

Certamente, no momento daquele ato de Verônica, Jesus, levando a Cruz às costas, olhou para ela agradecendo. Assim, mais do que no pano, ficou marcado no fundo da retina, do coração e da alma dela aquele olhar divino, aflito e carregado do sinal da dor, mas comprazido, que dizia numa linguagem muda, e de uma eloquência que nenhum orador alcançou: “Minha filha, obrigado!”

Única solução: a vinda à Terra do Redentor

Toda beleza, maravilha, santidade, sabedoria etc., havia de um modo inimaginável na natureza humana de Nosso Senhor, que foi a gota de orvalho nascida dentro da concha de uma flor perfeita, que foi Maria.

Num quadro da Anunciação pintado por Fra Angélico [foto acima], a Virgem Maria encontra-se numa casinha pequena, modesta, limpíssima e em inteira ordem, num claustro composto de umas arcadazinhas. Ela está sentada com um livrinho de meditação no colo. Uma atmosfera de paz impregna todo o ambiente, quando o arcanjo São Gabriel aparece e se ajoelha diante d’Ela. E Maria, um pouco inclinada, ouve o anjo falar.

É o fato extraordinário que se deu naquela ocasião. Ela não pensava na possibilidade de um anjo visitá-La, nem na mensagem que ele vinha trazendo.

Havia milênios que a humanidade esperava Aquele que deveria vir ao mundo — Aquela criatura perfeita que seria o centro de todas as coisas.

Em virtude do pecado original, os homens estavam imersos num caos. Na pior das formas da desordem encontravam-se os povos pagãos, e também o povo eleito. O povo judaico, que tinha sido escolhido para ser depositário da promessa, estava na maior decadência e no maior afastamento de Deus. Na Terra, nada mais se salvava.

Entretanto, uma Virgem concebida sem pecado original — nascida de Santa Ana e de São Joaquim, e que depois se casaria virginalmente com São José —, meditava. Ela percebia que a única solução para a salvação dos homens era a vinda do Messias, a fim de redimir o gênero humano. Ela meditava, lia a Sagrada Escritura com uma inteligência maior do que jamais ninguém teve e pensava a respeito do Messias.

“Eis aqui a escrava do Senhor”

Assim meditando, Ela foi levada pelo desejo de que nascesse o Messias e pedia por essa vinda. Ela foi compondo a figura d’Ele, com base nas Escrituras e em conjecturas, até imaginar como Ele seria. Sua sabedoria, virtude e amor de Deus auxiliaram-na nessa composição.

Na paz da sua meditação, quando Ela acabou de pôr o último traço na imaginação de como Nosso Senhor Jesus Cristo seria, uma iluminação dentro do jardim! Aparece o anjo e lhe diz: “Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco. Bendita sois Vós entre todas as mulheres”.

Ela se perturbou, pois não sabia qual era a finalidade dessa saudação. O anjo, então, explicou-Lhe que Ela seria Mãe do Filho de Deus e que o Verbo de Deus, o Messias, nasceria d’Ela.

Pode-se imaginar a surpresa, pois Ela se julgava indigna de ser a escrava da Mãe do Messias e pedia a graça de poder conhecer a Mãe do Messias e de servi-la. Era o que aspirava. Entretanto, mesmo considerando esse favor arrojado, o anjo anuncia que Ela própria seria a Mãe do Messias!

O Espírito Santo engendrou n’Ela, de modo divino, espiritualmente, o Filho que nasceria. Tal foi o cúmulo de graças e favores, que é difícil calcular como Nossa Senhora se sentiu confundida naquele momento, mas ao mesmo tempo elevada, porque era perfeita e, vendo tais obras de Deus, Ela não podia deixar de se alegrar enormemente. Vendo que Deus A escolhera para tais obras, a gratidão d’Ela não tinha limite e a alegria de se sentir unida a Deus devia ser maior na alma d’Ela do que todos os oceanos.

Entretanto, sua resposta humílima: “Eis aqui a escrava do Senhor. Faça-se em mim segundo a vossa palavra”. Quer dizer, com Deus não se discute. Ele manda e Ela aceita, não vai analisar.

Mistérios e primícias incomparáveis na Encarnação

Na Encarnação do Verbo de Deus no seio puríssimo de Maria paira um mistério divino do qual não temos noção. Mistério sublime, que eu gostaria de estudar profundamente pelo que sobre ele escreveu Cornélio a Lápide (1567-1637), o grande exegeta jesuíta belga. Esse estudo seria um modo de me preparar para chegar ao Céu, se até lá me levar Nossa Senhora.

Desejaria saber tudo a respeito da Encarnação e dos desponsórios do Espírito Santo com Maria Santíssima; gostaria de estudar tudo o que nos diz a doutrina da Igreja a esse respeito; e como foram, desde aquele momento sublime, as relações d’Ela com o Divino Espírito Santo. Isso é algo admirável, que eu desejaria enormemente conhecer.

O Espírito Santo gerou Jesus Cristo no claustro de Maria, e a partir da carne e do sangue d’Ela começou a gerar a carne e o sangue d’Ele. Santo Agostinho escreveu: “Caro Christi, caro Mariæ” (a carne de Cristo, de algum modo, é a própria carne de Maria).

Todos os homens são formados da carne de seu pai e de sua mãe, mas Jesus Cristo foi formado exclusivamente da carne de Maria, sem participação do esposo, o castíssimo São José, que foi apenas o pai legal, o pai adotivo de Jesus.

O Divino Espírito Santo engendrou Nosso Senhor, e desde o primeiro instante Ele começou a existir no claustro de Maria, de modo perfeitíssimo.

Pode-se imaginar qual foi a primeira palavra de amor d’Ele para sua Santa Mãe, e qual foi a resposta d’Ela sentindo o carinho do Filho de Deus. Teria Ela dito ‘Meu Deus e meu Filho?’ Ou teria dito ‘Filhinho?’. Que riqueza de alma era preciso ter, para responder adequadamente a esse primeiro carinho! Que noção dos matizes e das situações Ela tinha! Que perfeita disponibilidade de alma para corresponder a tudo perfeitamente, e oferecer ao Divino Filho primícias incomparáveis: o primeiro ato de amor que o gênero humano oferecia a Deus feito homem!

Virgem como ninguém e Mãe como ninguém!

Virgem e o Menino – Enric Monserday 
Vidal (1850-1926). Coleção Particular.

É muito bonito na vida de Nossa Senhora fazer a correlação entre o primeiro ato de amor que Ele manifestou a Ela na Encarnação, e o último ato de amor d’Ele para com Ela quando morria crucificado. Não tenho dúvida de que Ele, instantes antes de morrer, disse a Ela, ao menos numa comunicação de alma a alma, alguma coisa que Ela entendeu e que era o ato de amor último que fechava o circuito desta vida, por onde o amor que Ele tinha à Mãe Santíssima durante a vida inteira se condensasse numa veneração e numa carícia suprema.

Como foi o primeiro ato de amor d’Ela? E o último ato, vendo seu Filho morrer naquela situação tão trágica? Quanto mais Ele sofria, mais Ela O amava!

Fazer essas correlações emite uma beleza toda especial que, pelo menos a mim me encanta e me entusiasma.

Entretanto, essa correlação, por mais magnífica que seja, abre apenas o pórtico para uma série de maravilhas de que não temos ideia. Por exemplo, o corpo Sacratíssimo de Nosso Senhor Jesus Cristo no claustro de Maria nutriu-se de todo o elemento necessário para crescer, tomar o tamanho normal para poder nascer. Houve, portanto, durante esse tempo todo, uma entrega de substância, se assim posso me exprimir, do corpo d’Ela para o d’Ele, e de assimilação, que é a própria gestação.

Pode-se imaginar que esse processo não se deu apenas no terreno orgânico, na formação do Corpo de Jesus pela natureza da Mãe, mas também por uma união de alma cada vez maior entre Eles.

De maneira que, quando Ele esteve pronto para nascer, a alma de Nossa Senhora se encontrava adornada com todos os adornos inexprimíveis que lhe vinham de uma união tão íntima com o Filho.

Ele, o esperado havia milhares de anos por todos os homens retos, cantado pelos Profetas, glorificado pelos Anjos, nasceu após passar nove meses exclusivamente na companhia de Maria, em confidências que não fez a ninguém, num convívio que não teve com ninguém mais.

Pode-se imaginar o que isto representa de união. Enquanto o Corpo Sacratíssimo ia crescendo em formosura e santidade, n’Ela aumentava todo o esplendor de uma Virgem e a majestade de uma Mãe! Virgem como ninguém — antes, durante e depois do parto — e Mãe como ninguém! De maneira que, olhando para esta Mãe Virginal, fica-se sem saber o dizer. Ó Virgem! Ó Mãe! O que exclamar?

Assim se foi adornando a pessoa d’Ela. E quando nasceu o Menino Jesus, Ela O apresentou a São José. Significava a apresentação do Salvador ao gênero humano! Era o inefável e glorioso termo dos nove meses de gestação de Nossa Senhora. Quanto mistério! Quanta maravilha!