27 de maio de 2026

NOSSA SENHORA — “AQUELA QUE APAGA...”

 


·         ✅  Paulo Henrique Américo de Araújo

 

Convido o leitor a acompanhar-me numa visita ao chamado relicário da América: o pequeno e magnífico Equador. Percorramos juntos as ruas estreitas e pitorescas do centro histórico da capital, Quito. A algumas quadras atrás da imponente igreja de São Francisco, deparamo-nos com a singela igreja de São Roque, quase esquecida em meio a tantos outros santuários famosos da cidade. Mas não a ignoremos, entremos... Ali, num altar à esquerda da nave central há uma pintura da Mãe de Deus, ao mesmo tempo tão pequena e magnífica como o próprio país que a abriga. Nossos olhos se erguem com encanto ao contemplarmos Nossa Senhora “La Borradora”, isto é, “aquela que apaga”.

Ajoelhamos e rezamos a Ave-Maria diante da belíssima figura da Virgem que nos sorri. Ela mostra o braço direito estendido com o rosário na mão e traz no esquerdo seu Filho Divino que curiosamente inclina-se para o lado, segurando um cordão. Mais abaixo, São Domingos e São Francisco em atitude de oração, completam a cena. Uma exclamação quase instintiva nos vêm aos lábios: “Não é ela muito parecida com a milagrosa pintura de Nossa Senhora de Las Lajas, na Colômbia?* Será uma cópia dela?” Um simpático equatoriano que se encontrava ali, ao pé do altar, ouve nossas interrogações e nos conta a seguinte história.

Dizem que Frei Pedro Bedón, dominicano, nascido no final do século XVI, é o autor do quadro da “Borradora” de Quito. Se é verdadeira a autoria, temos um problema: o frade teria pintado a imagem equatoriana por volta de 1610, porém a aparição de Nossa Senhora de Las Lajas se deu em 1754, mais de um século depois! Sabemos que a imagem colombiana é milagrosa, cravada na rocha [vide Catolicismo, fevereiro/2001, p. 48]. Será que Nossa Senhora quis “pintar” sua imagem de Las Lajas na Colômbia “copiando” os mesmos traços da já existente Virgem “Borradora” de Quito? Ou simplesmente há um equívoco sobre a autoria atribuída a Frei Bedón? E “La Borradora” é uma pintura posterior, copiada de “Las Lajas”?

Igreja de São Roque, em Quito,
 onde se encontra o altar
da Virgem “Borradora”
Ficamos perplexos ao ouvir nosso gentil narrador chegar a esse impasse. Ele não podia, nem tinha a intenção de dar solução para o caso. Mas convidou-nos a deixar de lado o problema histórico e voltarmos a atenção aos fatos que tornarama pintura de Nossa Senhora La Borradora” tão venerada ali.

A mudançada Virgem do Rosário (título original) para “aquela que apaga” ocorreu ainda nos tempos da América colonial. Em 1628, um indígena foi acusado de assassinato. O pobre homem negou insistentemente a responsabilidade pelo crime, mas os juízes o condenaram à morte. Na capela da prisão em Quito encontrava-se uma pintura da Virgem do Rosário, a quem o índio pediu intercessão para livrá-lo daquela aflição.

Na manhã da execução, ele foi escoltado por guardas à praça onde o cadafalso já tinha sido erguido. Mas a Boníssima Senhora atendeu-lhe o pedido de socorro de forma inesperada e engenhosa: quando o notário estava prestes a ler a sentença e prosseguir para sua execução, descobriu que os documentos que deveriam ter as assinaturas dos juízes estavam em branco. A pena de morte foi suspensa e o juiz marcou uma nova data para a conclusão do processo.


Mais uma vez os magistrados assinaram os papéis, novamente o suposto criminoso foi amarrado e — ah! surpresa — novamente as assinaturas tinham se apagado. Atônitos, os espectadores atribuíram o fenômeno a uma demonstração do poder daquela Virgem do Rosário, que passou a ser chamada de “La Borradora”, “aquela que apaga”. Tais eventos estão pintados numa cena localizada abaixo do quadro da “Borradora” [foto].

O índio foi libertado e em agradecimento, pediu para cuidar da capela de Nossa Senhora localizada na prisão. Após sua morte, ele foi enterrado aos pés “d’Aquela que apaga”. Histórias populares mencionam que, até o final do século XIX, o crânio do índio devoto ainda podia ser visto em frente à imagem da Virgem.

Em 1895 o quadro foi trasladado para a igreja de São Roque, no centro de Quito. Para lá acorrem todos os dias os devotos necessitados a implorar para que se “apaguem” certos documentos judiciais pelos quais poderiam acabar na prisão! Existem inúmeros testemunhos de como Ela tem ajudado os que lhe pedem soluções em julgamentos ou processos judiciais. Segundo os devotos, não há dúvida, Nossa Senhora é a melhor advogada do mundo!

Ouvimos atentos e admirados o fim da história contada pelo equatoriano. Ajoelhamos mais uma vez diante da bela imagem da Mãe de Deus e pedimos que Ela nos perdoe e “apague” os nossos pecados diante de seu Divino Filho. Sim! Mesmo que não tenhamos sentenças judiciais contra nós, ainda temos que pedir a Ela que nos salve, pois é por Ela que nos chegam todas as graças de Deus, sobretudo aquelas que nos livram da condenação eterna, e que, por fim, nos conduzem ao Paraíso.

Deixamos a igreja de São Roque encantados com esta magnífica manifestação da bondade maternal de Maria. Então nos despedimos, caro leitor. Prometo rezar por ti à Virgem “que apaga nossos pecados” e peço que faça o mesmo por mim.

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Referências:

https://www.lahora.com.ec/archivo/La-Borradora-una-Virgen-de-nombre-singular-20190602-0008.html

https://cambiocolombia.com/los-danieles/articulo/2024/9/la-virgen-borradora/

https://revistamundodiners.com/virgen-san-roque-borra-pecados/

* Referimo-nos a Nossa Senhora de Las Lajas como estando hoje no território da Colômbia. Mas no século XVIII, a região onde se deu a aparição fazia parte do atual território equatoriano.

Fonte: Revista Catolicismo, Nº 903, abril/2026

19 de maio de 2026

Miguel, coroinha paulista com síndrome de Down

 

Plinio Maria Solimeo 

C
om o avanço da técnica hoje já se pode acompanhar pela ultrassonografia o desenvolvimento de um feto ao longo de uma gravidez. O que possibilita saber-se não só o sexo da criança por nascer, mas se ela apresenta alguma anomalia como a síndrome de Down. Se isso ocorre, os médicos normalmente (e criminosamente) aconselham à gestante a abortar. 

Por isso hoje, na Europa, cerca de 90% das gestações com diagnósticos de síndrome de Down são interrompidas. Ou seja, abortadas. Sendo que na Islândia, na Dinamarca e no Reino Unido essas taxas muitas vezes ultrapassam esses 90% dos casos diagnosticados. Nos Estados Unidos a taxa de interrupção após o diagnóstico é de cerca de 75%, mas varia de 61% a 93% dependendo da população pesquisada. 

Por que uma maioria de pais prefere o aborto do feto com Down? 

Alguém poderia perguntar: “Por que a maioria dos pais prefere assassinar a criança por nascer com síndrome de Down a ter um filho com essa síndrome?” 

Não é difícil responder: A criança nascida com essa síndrome, na maioria dos casos, apresenta deficiência intelectual, atrasos no desenvolvimento e características físicas específicas, atraso também no desenvolvimento cognitivo e da fala, e exige estimulação precoce e apoio pedagógico. Além do que sua aparência não é de todo agradável. 

Ora, perguntamos: se o aborto de um feto normal já é um pecado “que clama aos céus e pede a Deus por vingança” por ser um “homicídio voluntário”, o que não dizer desse homicídio perpetrado sobre um feto que, pela vontade divina, apresenta essa síndrome? 

Uma feliz exceção: um casal de Piracicaba 

Entretanto, há mães que se negam a matar o filho que está em suas entranhas com um aborto voluntário por ter síndrome de Down, aceitando todas as consequências que daí poderão advir.

Tal foi o caso do religioso casal Lopes, de Piracicaba, no interior do Estado de São Paulo. Quando a esposa, Tássia, pela ultrassonografia soube que seu bebê nasceria com síndrome de Down, apesar do conselho dos médicos para que abortasse, tanto ela quanto o esposo, confiando em Deus, se recusaram a isso e resolveram continuar a gestação até o fim prontos para o que desse e viesse. 

E assim, para alegria dos pais, há 11 anos nasceu Miguel portando como previsto a síndrome de Down. Apesar de que, desde o nascimento o menino enfrentasse severas complicações, isso não o impediu de viver e crescer até os 11 anos cheio de alegria. 

Coroinha com síndrome de Down 

Tássia começou a levar Miguel desde pequeno à igreja que frequentava, Santa Rosa de Lima em Piracicaba. Esta paróquia foi criada em janeiro de 2011 por Dom Fernando Mason, hoje bispo emérito, desmembrando-se da de Sant’Anna. Santa Rosa tornou-se então para muitos dos seus paroquianos, segundo o comentário de Roberta Bissolli, o “lugar onde sentimos a presença de Deus, minha casa [e o] melhor lugar [para se estar”]. 

Nessa tão acolhedora igreja Miguel foi muito bem recebido pelos paroquianos.

Acontece que, apesar de suas limitações por causa da síndrome, desde muito cedo ele manifestou o desejo de ser coroinha. 

Para atendê-lo foi preciso que a paróquia fizesse alguns ajustes, treinando seus catequistas de acordo com as necessidades de Miguel. Tássia acompanhou todo o processo, e a coordenadora da catequese, Jaci, também se esmerou em ampara-lo. 

Desse modo Miguel pôde realizar seu sonho, e hoje ajuda à Missa, ajoelhando-se, rezando e com a patena na hora da Comunhão. Sua presença se tornou uma parte familiar e cheia de alegria nas celebrações da paróquia. 

O valor do bom exemplo 

Da. Tássia diz que uma amiguinha de Miguel [cujo nome ela não dá por discrição] não ia habitualmente à igreja. Mas sabendo que ele era coroinha, suplicou à mãe que com ela passasse a frequentá-la. Diz Da. Tássia: “Agora ela [a menina] ajuda na hora da coleta, e sua mãe se tornou catequista”. 

O que prova como o bom exemplo sempre atrai. Pois, diz Da. Tássia, “com o tempo a presença de Miguel na paróquia encorajou outras famílias a retornar a ela. Algumas pessoas perguntam mesmo quando é que ele estará ajudando a Missa para assim também a assistirem”. 

Para as mães que esperam que seus filhos se engajem mais na vida paroquial, Da. Tássia aconselha: “Isso começa em casa. E quando você vai à igreja, esteja pronta a ajudar. A empatia deve vir dos dois lados: necessitamos acolher as pessoas, mas também ajudar a preparar o caminho”. 

Como parte desse esforço, ela criou um formulário intitulado "Quem Sou Eu?", que entrega aos catequistas. O formulário explica como seu filho aprende e se comunica, para ajudar a melhor o entender a fim de acompanhá-lo melhor na catequese .

16 de maio de 2026

Qualquer semelhança, não é mera coincidência


Ironicamente costuma-se dizer que “qualquer semelhança é mera coincidência”, mas se aplicarmos o trecho que segue — excertos de um artigo do Prof. Plinio, publicado na Folha de S. Paulo em 9-11-1969 —, perceberemos que “não é mera coincidência”. 

O que hoje está ocorrendo na Cuba fidelcastrista é um velhaco plano já denunciado pelo autor do artigo abaixo há mais de meio século. Basta trocar o nome “Fidel Castro” por “Miguel Díaz-Canel” (atual ditador da ilha) que as peças se encaixam. A semelhança é real, como também é real o que aconteceu na Venezuela recentemente... 

Tiraram da velha gaveta o mesmo plano para tentar salvar Cuba da miséria total e completa causada pelo regime comunista. Fidel morreu, mas o plano não. 


Uma sobrevida para Cuba


Plinio Corrêa de Oliveira 

Fidel Castro, premido por insucessos econômicos e diplomáticos de várias ordens, estaria cogitando — para continuar no poder — de mudar sua política em relação à América Latina, propondo a esta um regime de coexistência pacífica. 


Segundo aviso dado pela irmã de Fidel, Juanita Castro, o comunismo cubano, apoiado em “manobras de alguns setores norte-americanos e latino-americanos” empenhados em impedir ou pelo menos retardar a libertação do povo cubano do marxismo, pensaria até mesmo, para aliviar a situação, em derrubar o periclitante ditador, substituindo-o por algum outro líder vermelho. 

Como é fácil ver, essa mudança propiciaria, fora de Cuba, a impressão de que o comunismo já não é tão feroz na Ilha. Essa impressão, por sua vez, criaria um clima favorável à coexistência. E a coexistência, afrouxando as tensões que estrangulam o comunismo cubano, proporcionaria a este uma sobrevida. 

Assim, com Castro ou sem Castro, é para a coexistência, forçosamente velhaca e dolosa, que caminharia a Cuba vermelha.

13 de maio de 2026


 

A grande promessa fatimista vinculada à Comunhão em reparação pelos pecados cometidos no mundo inteiro contra o Imaculado Coração de Maria

  Paulo Roberto Campos

Da grandiosa e bela perspectiva de Fátima, com as promessas proferidas por Nossa Senhora — carregadas de muitas esperanças, mas também de sérias advertências à humanidade pecadora —, esta revista tem- se ocupado com certa frequência. Tratando, por exemplo, do castigo previsto, da consagração e conversão do mundo, e do Reino de Maria preanunciado por Ela.

Mas para a edição deste mês, e em memória da sua primeira aparição aos três pastorinhos em 13 de maio de 1917, pediram-nos para expor outro ponto também central nas revelações de Fátima: A prática da Comunhão Reparadora dos cinco primeiros sábados seguidos.

100 anos se passaram da maternal recomendação dessa prática. Entretanto, ainda hoje, ela é pouco conhecida. Grande parte dessa ignorância é de responsabilidade do clero progressista, vinculado à teologia da libertação, que não prega a respeito, fazendo ouvidos moucos aos pedidos implorados em Fátima pela Santíssima Virgem. Quantos já ouviram algum sermão tratando dessa tão importante prática? É de se contar nos dedos...

No que consiste essa devoção? Quais as condições para cumpri-la? Que graças recebem os devotos? Trata-se de um pedido expresso da Santa Mãe de Deus?

Jacinta, Lúcia e Francisco, em 13 de outubro de 1917


Pedidos não inteiramente atendidos

Na terceira aparição de Nossa Senhora aos pequenos pastores — Lúcia (então com 10 anos) e seus primos Francisco (9 anos) e Jacinta (7 anos) —, em 13 de julho de 1917 na Cova da Iria (aldeia portuguesa de Aljustrel, na região de Fátima), após proporcionar-lhes uma terrificante visão da Geena de tormentos eternos1, Ela disse: “Vistes o inferno, para onde vão as almas dos pobres pecadores. Para as salvar, Deus quer estabelecer no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração. Se fizerem o que Eu vos disser, salvar-se-ão muitas almas e terão paz.”2

Na mesma aparição, Ela afirmou que a guerra (o primeiro conflito mundial, de 1914 a 1918) iria acabar, mas “se não deixarem de ofender a Deus, no reinado de Pio XI começará outra pior”.3 E ainda profetizou que Deus “vai punir o mundo de seus crimes, por meio da guerra, da fome e de perseguições à Igreja e ao Santo Padre”.

Em seguida, Nossa Senhora sublinhou: 

“Para a impedir, virei pedir a consagração da Rússia a Meu Imaculado Coração e a Comunhão reparadora nos primeiros sábados. Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja. Os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas. Por fim, o Meu Imaculado Coração triunfará.4

Dom José Alves Correia da Silva, bispo de Leiria-Fátima, junto a Lúcia postulante no convento da Congregação das Irmãs de Santa Doroteia, em Pontevedra, Espanha. 


Perseguições aos bons católicos

         O primeiro pedido da Santa Mãe de Deus (a consagração da Rússia, que deveria ter sido feita de modo solene e em união com todos os bispos do mundo) não foi adequadamente atendido — nem quanto às condições, nem quanto ao prazo. Como já se tratou desta questão em edições anteriores, aqui apenas recomendamos o best-seller As aparições e a mensagem de Fátima conforme os manuscritos da Irmã Lúcia — publicado em primeira mão por Catolicismo em maio de 1967 — de autoria do célebre fatimólogo Antonio Augusto Borelli Machado (link abaixo).5

E, por isso, a Rússia ainda não se converteu e continua espalhando os erros da doutrina comunista pelos quatro cantos da Terra. Em poucas palavras, os erros que mais saltam aos olhos são o materialismo e o ateísmo; o igualitarismo e a revolta nas relações sociais; as blasfêmias, profanações e sacrilégios; o desprezo e/ou ultraje ao catolicismo; a imoralidade, a prática do aborto e da eutanásia, do divórcio, até mesmo a abolição do sacramento do matrimônio e relações antinaturais. A impiedade avassaladora grassa por toda parte.

Impõe-se aqui uma palavra sobre o seguinte prognóstico de Nossa Senhora: “Os bons serão martirizados.” A respeito, basta ler o noticiário para perceber o quanto os bons são perseguidos, por exemplo, se eles desejam levar uma vida de acordo com a moral católica ou manifestem desacordo com as leis imorais. Isto a tal ponto que, em certos países, leis revolucionárias e sumamente iníquas, tacham de crime quem defende algumas verdades católicas, o que pode levar o defensor à prisão.

Também no noticiário percebemos o martírio de católicos em países islâmicos, o que aumenta ainda mais com as atuais guerras no Oriente Médio; sem falar do que já temos aqui tratado no tocante às “perseguições à Igreja” e ao seu “processo de autodemolição”, que tanto penaliza os bons católicos devido à “fumaça de Satanás que entrou no templo de Deus”, como afirmou Paulo VI em 1972.

Representação da aparição de Nossa Senhora e do Menino Jesus a Lúcia, em Pontevedra, Espanha.


Transcorreu-se um século do pedido de reparação

         Quanto ao segundo pedido (comunhão reparadora nos primeiros sábados), quem ousaria garantir que essa santa prática é uma devoção generalizada pelo mundo inteiro? E quem garantiria que grande parte dos católicos já a cumpriram? Tudo leva a crer que ambas as respostas seriam negativas...

         É a respeito desse segundo pedido que passaremos a expor mais pormenorizadamente. Antes, porém, é bom que se diga que essa devoção de extrema importância foi aprovada oficialmente em 13 de setembro de 1939, por Dom José Alves Correia da Silva, bispo de Leiria-Fátima, de 1920 até sua morte em 1957.

Além do pedido feito em 1917 por Nossa Senhora em Fátima, como acima referido, essa magnífica devoção cordimariana está documentada sobretudo nos escritos da própria Irmã Lúcia, especialmente nas suas memórias e em cartas, nas quais nos baseamos.

Maria Santíssima voltou a insistir nessa devoção oito anos após as aparições na Cova da Iria. No dia 10 de dezembro de 1925 (portanto, há 100 anos), Ela apareceu à Irmã Lúcia — então com 18 anos de idade e única sobrevivente dos confidentes de Fátima —, enquanto religiosa postulante no convento da Congregação das Irmãs de Santa Doroteia, em Pontevedra, Espanha. Hoje esse convento é conhecido como Santuário das Aparições.

Quando a Irmã Lúcia estava em sua cela no convento, deu-se a aparição. Em seus braços, Nossa Senhora portava o Menino Jesus envolto numa nuvem luminosa, que dirigindo-se a Lúcia e “pondo-lhe uma das mãos ao ombro, mostrou-lhe um Coração rodeado de espinhos, que tinha na outra mão. O Menino Jesus, apontando para ele, exortou a vidente com as seguintes palavras: ‘Tem pena do Coração de tua Santíssima Mãe, que está coberto de espinhos que os homens ingratos a todos os momentos Lhe cravam, sem haver quem faça um ato de reparação para os tirar’.”

Em seguida, a Santíssima Virgem tomou a palavra, acrescentando: 

“Olha, minha filha, o meu Coração cercado de espinhos que os homens ingratos a todos os momentos me cravam com blasfêmias e ingratidões. Tu, ao menos, vê de me consolar, e dize que todos aqueles que durante cinco meses, no primeiro sábado, se confessarem, recebendo a Sagrada Comunhão, rezarem um terço e me fizerem 15 minutos de companhia meditando nos 15 mistérios do Rosário com o fim de me desagravar, Eu prometo assisti-los na hora da morte com todas as graças necessárias para a salvação dessas almas”
(cf. Memórias e Cartas da Irmã Lúcia, p. 400; Ayres da Fonseca, pp. 350-351; Thomas Walsh, p. 196; Pe. de Marchi, ed. em inglês, pp. 152-153; Pe. Antonio de Almeida Fazenda S.J., pp. X-XI).6

Aplainando certas dificuldades

         No ano seguinte, nova e maternal insistência nessa devoção de capital importância. No dia 15 de fevereiro de 1926, o Menino Jesus volta a aparecer à Irmã Lúcia, no mesmo convento das Irmãs Doroteias. Quando estava no jardim, fazendo um trabalho de limpeza, ela viu uma criança, com a qual conversou. Esta, repentinamente, ficou resplandecente e perguntou “Você revelou ao mundo o que a Mãe Celestial lhe pediu?”.

Neste momento, Lúcia reconheceu que era o Menino Jesus, que a repreendia por não fazer mais a fim de divulgar a devoção dos Primeiros Sábados. 

“A vidente dá conta de dificuldades apresentadas pelo confessor, e explica que a Superiora estava pronta a propagá-la, mas que aquele Sacerdote havia dito que sozinha a Madre nada podia. Jesus respondeu: — ‘É verdade que a tua Superiora só nada pode, mas com a minha graça pode tudo’. A Irmã Lúcia expôs a dificuldade de algumas pessoas de se confessarem no sábado, e pediu para ser válida a confissão de oito dias. Jesus respondeu: — ‘Sim, pode ser de muitos mais dias ainda, contanto que, quando Me receberem, estejam em graça e tenham a intenção de desagravar o Imaculado Coração de Maria’. A Irmã Lúcia ainda levantou a hipótese de alguém se esquecer de formar a intenção ao confessar-se, ao que Nosso Senhor respondeu: — ‘Podem formá-la na outra confissão seguinte, aproveitando a primeira ocasião que tiverem de se confessar’”
(cf. Memórias e Cartas da Irmã Lúcia, p. 400; Fazenda, pp. XI XII; Ayres da Fonseca, p. 351; De Marchi, ed. em inglês, p. 153).7



Providencial insistência no pedido

         Estando a Irmã Lúcia em Tuy (cidade espanhola na fronteira com Portugal), em outro convento das Irmãs Doroteias, em 1929, a Santíssima Virgem favoreceu-lhe com outra aparição persistindo na difusão da devoção das Comunhões Reparadoras dos pecados que se cometem contra Ela, como pedido em Pontevedra: “Tantas são as almas que a justiça de Deus condena pelos pecados cometidos contra mim, que venho pedir reparação. Sacrifiquem-se por esta intenção e rezem.”

         Com nossos sacrifícios e orações, podemos repará-La e podemos ajudar na salvação de muitas outras almas pecadoras. É o que a Igreja ensina e que consta no 9º artigo do Credo “Creio na comunhão dos santos”, não apenas no sentido daqueles santos que foram canonizados, mas de todos os fiéis unidos a Nosso Senhor. Entre todos nós — como fazendo parte de uma ‘congregação’ de todos os batizados — há uma como que ‘circulação’ de bens espirituais que pelos méritos d´Ele, as orações de uns podem favorecer outros de nossos irmãos na Fé. Donde o referido pedido de reparação: comungando e rezando reparamos os pecados cometidos por outros que ultrajam Nossa Senhora. Assim nos beneficiamos todos mutuamente.

A guerra poderia ter sido evitada

         De tal modo Nosso Senhor Jesus Cristo deseja que se difunda essa devoção em desagravo à Sua Mãe Santíssima, que facilitou ainda mais os meios para cumpri-la. Na vigília de 29 para 30 de maio de 1930, Ele, falando interiormente à Irmã Lúcia, resolveu ainda outra dificuldade: “Será igualmente aceita a prática desta devoção no domingo seguinte ao primeiro sábado, quando os meus Sacerdotes, por justos motivos, assim o concederem às almas” (Cf. Memórias e Cartas da Irmã Lúcia, Composição e impressão de Simão Guimarães, Filhos, Ltda. — Depositária: L. E. — Porto, 1973, p. 410).

The United Kingdom Government / Domínio Públic
Alguns meses antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial, a Irmã Lúcia, em outras cartas, escreveu que a guerra poderia ser evitada difundindo-se largamente a devoção dos Primeiros Sábados.



Em carta, naquele mesmo dia, ao seu confessor, então o Pe. José Bernardo Gonçalves S.J., a Irmã Lúcia relata que Nosso Senhor, tendo-lhe feito sentir no fundo do coração a sua Divina Presença, instou-lhe a pedir ao Santo Padre a aprovação da devoção reparadora dos Primeiros Sábados. São palavras da vidente: 


“Se me não engano, o bom Deus promete terminar a perseguição na Rússia se o Santo Padre se dignar fazer, e mandar que o façam igualmente os Bispos do mundo católico, um solene e público ato de reparação e consagração da Rússia aos Santíssimos Corações de Jesus e Maria, prometendo, Sua Santidade, mediante o fim desta perseguição, aprovar e recomendar a prática da já indicada devoção reparadora”
(cf. Memórias e Cartas da Irmã Lúcia, p. 404).

Em outra carta ao mesmo confessor, a Irmã Lúcia reafirmou “A confissão pode ser feita dentro de oito dias, com tal que se esteja em graça no primeiro sábado, e se tenha a intenção de reparar.”

Alguns meses antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial, a Irmã Lúcia, em outras cartas, escreveu que a guerra poderia ser evitada difundindo-se largamente a devoção dos Primeiros Sábados. Numa delas, datada de 19 de março de 1939, ela escreveu: “Guerra ou paz no mundo depende da prática dessa devoção, juntamente com a consagração ao Imaculado Coração de Maria.”


A certeza da graça da boa morte

Já em 1940, a Irmã Lúcia, em sua primeira carta dirigida ao Papa Pio XII, escrevera: “Pediu [Nossa Senhora] que se propagasse no mundo a Comunhão Reparadora nos primeiros Sábados de cinco meses seguidos, fazendo com o mesmo fim uma confissão, um quarto de hora de meditação sobre os mistérios do Rosário e rezando um terço com o fim de reparar os ultrajes, sacrilégios e indiferenças cometidos contra o seu Imaculado Coração. Às pessoas que praticarem esta devoção, promete a Nossa boa Mãe do Céu, assistir na hora da morte com todas as graças necessárias para se salvarem”.8

         É interessante notar que ninguém, nem mesmo as almas mais santas, tem a certeza de que irão para o Céu; entretanto, cumprindo-se perfeitamente os mencionados atos de piedade, como pedido por Nossa Senhora, a pessoa pode ter a certeza da assistência espiritual para uma boa morte. Isto se deve ao enorme poder de intercessão d’Elajunto a Deus, como Medianeira Universal de todas as graças.

Fátima e devoção ao Imaculado Coração de Maria

         Como vimos até aqui, são uma constante as referências e vinculações entre a prática das Comunhões Reparadoras com a devoção de desagravo ao Imaculado Coração de Maria. Fátima e essa sublime devoção são inseparáveis.

Não desenvolveremos aqui este binômio inseparável, pois em artigos já publicados, sobretudo de Plinio Corrêa de Oliveira, a temática já foi largamente exposta. Entretanto, apenas para rememorar, eis alguns pontos defendidos em tais artigos: evidenciam que as revelações de Fátima não podem ser compreendidas senão à luz da devoção ao Imaculado Coração de Maria. Tentar separar esses temas tão intimamente ligados seria desfigurar o plano de Deus relacionado a Fátima e mutilar seu plano quanto à salvação do mundo, pois ambos os temas se completam e se explicam reciprocamente. Fátima conduz ao Imaculado Coração, e o Imaculado Coração explica Fátima.

Confirmando esta tese, que nos é muito cara, eis um só exemplo:

         Na segunda aparição de Nossa Senhora, em 13 de junho de 1917, depois de algum diálogo com as três crianças, às quais confiou alguns segredos, Ela ouviu um pedido expresso por Lúcia:

“Queria pedir-lhe para nos levar para o Céu”.

         “Sim — responde a Virgem Santíssima — à Jacinta e ao Francisco levo-os em breve. Mas tu ficas cá mais algum tempo. Jesus quer servir-se de ti para me fazer conhecer e amar. Ele quer estabelecer no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração. A quem a abraçar, prometo a salvação; e serão queridas de Deus estas almas, como flores postas por mim a adornar o seu trono”.

         — “Fico cá sozinha?” — perguntou, um pouco assustada.

— “Não, filha. E tu sofres muito com isso? Eu nunca te deixarei. O meu Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho que te conduzirá até Deus”.

Após estas últimas palavras, nessa terceira aparição, Lúcia narrou o que viu:

“A Virgem abriu as mãos e nos comunicou, pela segunda vez, o reflexo da luz imensa que nos envolvia. Nela nos vimos como que submergidos em Deus. A Jacinta e o Francisco pareciam estar na parte dessa luz que se elevava para o Céu e eu na que se espargia sobre a terra. À frente da palma da mão direita de Nossa Senhora estava um Coração cercado de espinhos que nele se cravavam. Compreendemos que era o Imaculado Coração de Maria, ultrajado pelos pecados da humanidade, que queria reparação”.9

Síntese dos pontos essenciais

         Resumindo, convém acentuar que a todos aqueles que praticarem essa devoção das Comunhões Reparadoras, Nossa Senhora garante a graça da perseverança final, ou seja, uma boa morte e a salvação eterna. É bom recordar que a CONFISSÃO pode ser feita no mesmo dia ou até oito dias antes ou depois10; a COMUNHÃO deve ser feita no próprio primeiro sábado e em estado de graça [vide quadro abaixo]; o TERÇO deve ser rezado no mesmo dia (podem ser tanto os mistérios gozosos quanto os dolorosos ou gloriosos [vide quadro no final]; a MEDITAÇÃO de 15 minutos, também no mesmo dia, pode ser sobre um dos 15 mistérios, sobre alguns deles ou a respeito de todos — o que seria difícil, pois sobraria apenas um minuto para cada mistério. Quando se fala de “Mistérios do Rosário” é no sentido de acontecimentos revelados e narrados nas Sagradas Escrituras relacionados à vida de Jesus. Tudo deve ser feito com a explícita intenção de desagravar o Imaculado Coração de Maria, devido às ofensas que O atingem — desagravar os pecados cometidos, não apenas os próprios, mas também aqueles praticados por todo o gênero humano. Esta deve ser a principal motivação, e não apenas a de receber graças.

         Importante ressaltar: só se cumpre a promessa caso seja repetida por cinco meses consecutivos. Se, por esquecimento ou alguma outra razão, for interrompida, é necessário recomeçar do início, até completar os cinco meses. Esse santo costume não se limita a ser feito apenas uma vez na vida. Muito pelo contrário, quanto mais vezes o fizerem, melhor.

         A Irmã Lúcia disse que numa das aparições Jesus lamentou o fato de que muitos começam a cumprir a promessa, mas a interrompem. Em 15 de fevereiro de 1926, Lúcia ouviu a seguinte lamentação d’Ele:        

“É verdade, minha filha, que muitas almas começam os Primeiros Sábados, mas poucas os terminam, e aqueles que os completam o fazem para receber as graças prometidas. Agradar-me-ia mais se fizessem cinco com fervor e com a intenção de fazer reparações ao Coração de vossa Mãe celestial, do que se fizessem quinze de forma morna e indiferente.”

Para servir de lembrete aos leitores que desejarem mensalmente consultar sobre as condições necessárias para se cumprir a promessa dos Primeiros Sábados, vide quadro mais abaixo.

“É durante a noite que é belo acreditar na luz”

        


Por que o sábado é o dia especialmente dedicado à Santa Mãe de Deus? Seria uma pergunta a ser levantada, uma vez que Nossa Senhora escolheu o “primeiro sábado”, e não o domingo ou qualquer outro dia da semana.

         É uma tradição da Igreja, desde os primeiros séculos, consagrar a Ela o sábado. Isto porque sua fé foi integral quando seu Divino Filho estava “morto e sepultado”. Todos duvidaram, até mesmo os Apóstolos, de que Ele ressuscitaria três dias após a Crucifixão (numa sexta-feira). Como profetizado, esse acontecimento impressionante e “impossível” ocorreria no Domingo de Páscoa.

10 de maio de 2026

A prática da comunhão de cinco primeiros sábados em reparação ao Imaculado Coração de Maria


Essa devoção pedida por Nossa Senhora em Fátima (1917), e reiterada em Pontevedra (1925), é um ato de piedade extremamente eficaz para salvação não apenas particular, mas também do mundo inteiro imerso no caos 


Fonte: Editorial da Revista Catolicismo, Nº 904, maio/2026

Um pedido acompanhado de uma grande promessa foi feito pela própria Virgem Santíssima e por seu Divino Filho. Quem o atender receberá a promessa da salvação eterna. Quem não o atenderia? Impossível melhor! 

Virei pedir a Comunhão reparadora nos primeiros sábados”, afirmou Nossa Senhora, no dia 13 de julho de 1917, em Fátima, numa das aparições aos três pastorinhos portugueses. 

Em 10 de dezembro de 1925 a Santa Mãe de Deus voltou para reiterar o mesmo pedido. Aparecendo à Irmã Lúcia, então no Convento de Santa Dorotéia, lhe disse: 
“Olha, minha filha, o meu Coração cercado de espinhos que os homens ingratos a todos os momentos me cravam com blasfêmias e ingratidões. Tu, ao menos, vês de me consolar, e dize que todos aqueles que durante cinco meses, no primeiro sábado, se confessarem, recebendo a Sagrada Comunhão, rezarem um terço e me fizerem 15 minutos de companhia meditando nos 15 mistérios do Rosário com o fim de me desagravar, Eu prometo assisti-los na hora da morte com todas as graças necessárias para a salvação dessas almas.” 
Posteriormente, Ela e Jesus voltaram a insistir na divulgação da Comunhão reparadora em algumas outras aparições à Irmã Lúcia. Mesmo assim, essa santa devoção não se propagou como se desejava. 

No plano individual, há alguma promessa melhor do que essa? Entretanto, hoje — transcorrido um século do pedido feito maternalmente — pode-se afirmar que tão importante devoção está generalizada entre os católicos? 

No que consiste a prática da Comunhão Reparadora dos cinco primeiros sábados? Por que “sábado” e não outro dia da semana? Por que cinco meses seguidos e não mais nem menos? Quais as condições para se cumprir a promessa? Que graças recebem os devotos? 

É o que o dileto leitor encontrará respondido, e desenvolvido com pormenores, na matéria de capa da edição da revista Catolicismo deste mês. 

Podemos manifestar nossa gratidão à nossa Boníssima e Santíssima Mãe reparando as ofensas que atingem seu Imaculado Coração. Nós oferecemos a Ela um simples ato de piedade, consolando-A dos ultrajes perpetrados pela humanidade pecadora, mas somos nós que recebemos o maior benefício — Ela nos oferece a salvação eterna. 
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Mais magnífico do que uma Catedral para o filho: uma Mãe

 


“A pessoa mais importante na Terra é uma mãe. 

Ela não pode reivindicar para si a honra de ter construído uma Catedral como Notre Dame. 

Ela não precisa. 

Ela construiu algo muito mais magnífico que qualquer catedral — a morada para uma alma imortal, a pequena perfeição que é o corpo de seu filho. 

Nem sequer os anjos foram dotados de tamanha graça. 

Eles não podem partilhar do milagre criador de Deus, nem levar novos santos ao Paraíso. 

Só uma mãe humana pode. 

As mães estão mais perto de Deus Criador do que qualquer outra criatura. 

Deus une esforços com as mães para executar esse ato da criação. 

O que nesta boa Terra de Deus é mais glorioso do que isso: ser uma mãe? 

(Cardeal Mindszenty)

6 de maio de 2026

Católico, médico e desportista, pai de doze filhos

 

Dr. José Maria Villalón, grande especialista em medicina desportiva e notável católico, pai de doze filhos, que é presidente da Federação Madrilenha de Famílias Numerosas.

Plinio Maria Solimeo 

É difícil nos dias que correm ver, nos meios médicos ou desportivos, homens que pratiquem com destemor a religião católica, e sejam ufanos dela. Por isso, chama-nos a atenção uma exceção a essa regra num médico da Espanha ligado a um grande clube de futebol, que estadeia a quatro cantos sua fé e seus valores tradicionais. 


O Atlético de Madrid é um dos clubes mais importantes da Espanha, detentor de muitos títulos tanto nacionais quanto internacionais. Seus dirigentes sempre se notabilizaram por sua fé católica. Assim, em seu estádio, o vestiário central do clube é presidido pela Virgen de la Almudena, e ele tem uma capela no túnel que leva do vestiário ao campo de futebol. Tem também capelão que preside aos funerais dos familiares dos jogadores, seus casamentos, e atende as confissões dos dirigentes e jogadores do clube. 

Para se ver até onde vai a religiosidade desses dirigentes, sempre que o Atlético conquista algum título, eles vão a Roma oferece-lo ao Papa. Assim fizeram em 1995 quando conquistaram duplamente o campeonato da Liga e a Copa do Rei, e foram oferecer os dois troféus ao Papa João Paulo II. E assim fizeram depois com os outros títulos que conquistaram oferecendo-os aos Papas Bento XVI e Francisco.

Entre os dirigentes que vão a Roma nessas ocasiões, está sempre presente o chefe dos serviços médicos do clube, o Dr. José Maria Villalón, grande especialista em medicina desportiva e notável católico, pai de doze filhos, que é presidente da Federação Madrilenha de Famílias Numerosas. Nesta defende com vigor o matrimônio e a família tradicionais, porque: 

“A família está sendo muito atacada na sociedade atual. A Espanha vai caminhando para um ‘suicídio demográfico’. Há poucas ajudas diretas e indiretas à família e à maternidade, o melhor capital que tem uma sociedade. Chama muito a atenção que os responsáveis sócio-políticos não se dão conta disto”. 

O Dr. Villalón, nascido em 1958, na qualidade de membro do Comitê Olímpico Espanhol participou das Olimpíadas de Seul em 88 e na de Barcelona em 1992. Como seu avô e seu pai faziam parte do Atlético de Madrid, ele foi convidado pelo clube para seu departamento médico, o que já faz quase 30 anos. 

Em entrevista concedida a Javier Lozano na revista Misión (a subscrição gratuita mais lida pelas famílias católicas da Espanha), ele declara: 

“Nasci numa família católica na qual me inculcaram a fé, e fui a colégios nos quais se viviam os valores cristãos. Esta foi uma grande bênção pela qual estou muito agradecido”.

Na mesma entrevista, da qual tiramos muitos dados para este artigo, ele afirma: 

Minhas prioridades são claras, e ademais, nesta ordem: Deus, família e o Atlético. É fundamental esta visão sobrenatural que nós, cristãos, temos. É um caminho para a santificação, neste caso na vida ordinária, na labuta quotidiana. Intento ser bom cristão fazendo bem meu trabalho, e oferecendo-o a Deus. Toda minha vida está orientada a Ele neste caminho de santidade”. 

Ele é casado com Da. Mariola que, segundo ele, é: 
“uma mulher íntegra e cristã, que sabe inculcar nos filhos a fé, e me renovou ainda mais. Com o matrimônio nasceu esta família com a qual nos embarcamos para chegar a bom porto [...] e que é um regalo do Céu”. 
Sobre sua numerosa prole diz o Dr. Villalón:
“os filhos vão chegando pouco a pouco. Primeiro tens um, e te parece um mundo. Mas aprendes coisas que te ajudam com o seguinte, e com o outro [...]. Pouco a pouco vais vendo o desígnio divino. Tenhas um filho ou doze, tens que abrir-lhes as portas quando Deus os envia. Ele é quem me abençoou com uma família numerosa. Sempre estivemos abertos à vida. Para mim, não há outra opção. Seja um filho ou doze, todos são bem-vindos”. 
Há vantagens em ter muitos filhos. 
“Em casa, todos se ajudam. Há um momento em que teu filho mais velho se converte no padrinho do sexto: ajuda-o no estudo etc. Há muita contribuição dos filhos para que a dinâmica familiar funcione”. 
O Dr. José Maria Villallón vê os jogadores do Atlético que procuram sua ajuda, como outros membros de sua numerosa família: 
“Quando um jogador entra pela porta com um problema, o primeiro que faço é encomendá-lo ao seu Anjo da Guarda” para que o inspire. Assim, “quando chegam à equipe, os acolhe e os ajuda em tudo o que podes. É um trabalho de estar ali que eles percebem e te agradecem, porque muitos não têm referentes na Espanha. [Por isso] os assessoras sobre que tipo de colégios podem enviar seus filhos, ou quando surge um problema médico também em sua família. De alguma maneira influencias em sua vida ao dar-lhes um conselho quando enfrentam alguma dificuldade”. 
Homem de fé, esse autêntico médico católico diz que 
“é simples ver a Cristo nos enfermos. Muitos médicos muitas vezes vemos, no próximo, a essa pessoa que vais ajudar, ao necessitado de quem Jesus Cristo já dizia para dar de comer ao faminto, de beber ao sedento [...]. O que nós médicos tratamos de fazer diariamente é ajudar à pessoa que necessita”. 
Sobre sua freqüência à Missa e a comunhão diária diz o Dr. José Maria que ###“é meu alimento diário, a fonte de graça que me serve de motor. E, junto à Missa, a oração diária”. Pois “o levar uma forma de vida, o praticar uma série de normas diárias, te fazem perseverar na fé”. Para isso concorre 
“Também a leitura de cada dia de algum texto espiritual ou dos santos Evangelhos”. 
Essa vida metódica baseada na fidelidade à religião, faz com que o Dr. José Maria tenha muito estabilidade. Ele assim se expressa:
“Dou graças a Deus porque em minha vida de fé não tive grandes altos e baixos. Sempre há pessoas como os pacientes que te pedem ajuda, e com isso te impulsionam a perseverar na fé. Também a família, os filhos. A pessoa mesmo se vai formando quando trata de ser educador dos próprios filhos. Eu creio que não tenho tido altos e baixos porque meus pais me inculcaram a fé, a trabalharam todos os educadores que tive nos colégios e as pessoas que na minha vida me têm ajudado a que me fortaleça nesse caminho. Dou prioridade no caminho da fé à família, à minha mulher e filhos. Com uma atitude voluntariosa trato de perseverar na fé porque me dá energia para seguir vivendo com alegria”. 
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Fontes: 
- https://www.religionenlibertad.com/personajes/876584761/doctor-jose-maria-villalon-dios-familia-atleti.html##STAT_CONTROL_CODE_3_876584761## 
- https://www.revistamision.com/prioridades-claras-orden-dios-familia-atleti-jose-maria-villalon/ - https://omnesmag.com/pt/recursos/jose-maria-villalon-samaritano-atletico-madrid/ 
- https://www.parroquiatorrelodones.com/2016/05/29/jose-maria-villalon-medico-del-atletico-de-madrid/

2 de maio de 2026

Ambiente familiar na velha Europa

 


  Plinio Corrêa de Oliveira

Quando eu tinha uns 14 anos, lia livros franceses de contos. Num deles, lembro-me da narração de um domingo numa propriedade agrícola europeia, anterior à Primeira Guerra Mundial. 

A cena se passava num pequeno castelo de um barão viúvo com vários filhos — crianças, moços e moças. Todos sentados, muito saudáveis, conversando alegremente durante um almoço servido por lacaios, numa sala de jantar com uma mesa grande. 

As comedorias representavam um papel importante, sobretudo as deliciosas carnes assadas, em baixela de prata; sem grande luxo, mas comidas opulentas. O barão sentado à cabeceira da mesa, gorducho, com um apetite devastador. 

À medida que os pratos entravam, a criançada fazia festa. Os lacaios serviam contentes, o barão se divertia em ver tudo isso, e todos se divertiam em ver o divertimento dele. Era uma circulação geral de alegria, mas alegria muito casta, o problema da pureza nem entrava em cena. 

O que entrava em cena era o que minha mãe dizia: “viver é estar juntos, olhar-se e querer-se bem”. Era o ‘banquete espiritual’ de todos se quererem bem, terem a mesma mentalidade, sentirem todas as coisas do mesmo modo. 

O ambiente interno era iluminado por discretos abajures, e externamente uma chuvinha fina insuportável — o que tornava ainda mais agradável estar dentro de casa. 

Ainda adolescente, eu ia pensando nisso e achando que assim valia a pena viver. Daí eu ter tirado uma consequência que não se realizou: quando eu ficar maduro, vou morar na Europa.
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Excertos de comentários feitos pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 25 de julho de 1993. Esta transcrição não passou pela revisão do autor.

28 de abril de 2026

O Reino de Maria para que venha o Reino de Jesus Cristo



28 de abril é o dia fixado pela Santa Igreja para a festa litúrgica de São Luís Maria Grignion de Montfort, ardoroso missionário francês do século XVIII (o século de Luis XIV), doutor marial por excelência, nascido em 1673 e falecido no dia 28 de abril de 1716. 

Entre suas numerosas profecias, uma que atrai especialmente a atenção foi o anúncio de uma Cristandade restaurada em todo seu esplendor — o Reino de Maria, como também previsto em Fátima. 

Uma profecia feita há mais de 300 anos por  por São Luís Grignion e que está registrada no seu célebre Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem (1712): 

“Ah! quando virá este tempo feliz em que Maria será estabelecida Senhora e Soberana nos corações, para submetê-los plenamente ao império de seu grande e único Jesus? [...] Então, coisas maravilhosas acontecerão neste mundo [...]. Quando chegará esse tempo feliz, esse século de Maria, em que inúmeras almas escolhidas, perdendo-se no abismo de seu interior, se tornarão cópias vivas de Maria, para amar e glorificar Jesus Cristo? Esse tempo só chegará quando se conhecer e praticar a devoção que ensino, ‘Ut adveniat regnum tuum, adveniat regnum Mariae’”*. (Que venha o Reino de Maria, para que assim venha o vosso Reino - ou seja, o Reino de Jesus Cristo). [Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem, São Luís Maria Grignion de Montfort, Editora Vozes, Petrópolis, 1961, VI edição, tópico 217, pp. 210-211]. 



A seguir, para marcar este grande dia de São Luís Maria Grignion de Montfort, transcrevo um artigo de Plinio Corrêa de Oliveira, publicado no “Legionário” de 21 de outubro de 1945:


GRIGNION DE MONTFORT 

  Plinio Corrêa de Oliveira 

Como condição de vitória, sem se desprezar nem de leve as providências concretas, devemos contar essencialmente com os recursos sobrenaturais. A História demonstra que não há inimigos que vençam um país cristão que possua três devoções: ao Santíssimo Sacramento, a Nossa Senhora e ao Papa. Investigue-se bem a queda de nações aparentemente muito fervorosas em sua adesão à Igreja: alguma broca secreta as minava em uma dessas três virtudes-chave. 

A vitória, pois, depende de nós. Tenhamos em dia nossa consciência, estejamos tranquilos em Deus, e venceremos. 

*   *   * 

Isto explica o extraordinário relevo que damos a uma notícia apagada, que os jornais reproduziram há pouco: a canonização iminente do Bem-aventurado Luiz Maria Grignion de Montfort. 

A notícia nada significa para o comum das pessoas. Ela significa tudo, para os que conhecem o verdadeiro fundo das coisas. A Providência resolveu jogar sua bomba atômica contra os adversários da Igreja. Perto desta bomba, as convulsões de Hiroshima e Nagasaki não passam de inocentes tremedeiras. Há dois séculos que está pronta a bomba atômica do Catolicismo. Quando ela explodir de fato, compreender-se-á toda a plenitude de sentido da palavra da Escritura: "Non est qui se abscondat a calore ejus" [Não há quem possa subtrair-se a seu calor]. 

Esta bomba se chama com um nome muito doce. É que as bombas da Igreja são bombas de Mãe. Chama-se O Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem. Livrinho de pouco mais de 100 páginas. Nele, cada palavra, cada letra é um tesouro. Este o livro dos tempos novos que hão de vir. 

*   *   * 

Nosso artigo já está por demais longo, para que demos um resumo biográfico da extraordinária vida desse Bem-aventurado. Não sei de nenhuma, que seja mais empolgante e mais edificante. O que em nosso assunto é essencial, em poucas palavras se diz. 

O Beato Grignion de Montfort expõe em sua obra no que consiste a perfeita devoção dos fiéis a Nossa Senhora, a escravidão de amor dos verdadeiros católicos à Rainha do Céu. Ele nos mostra o papel fundamental da Mãe de Deus no Corpo Místico de Cristo e na vida espiritual de cada cristão. Ele nos ensina a viver nossa vida espiritual em consonância com essas verdades. E nos inicia em um processo tão sublime, tão doce, tão absolutamente maravilhoso e perfeito, de nos unirmos a Maria Santíssima, que nada há na literatura cristã de todos os séculos, que o exceda neste ponto. 

Esta devoção, diz Grignion de Montfort, unindo o mundo a Nossa Senhora, uni-lo-á a Deus. No dia em que os homens conhecerem, apreciarem, viverem essa devoção, nesse dia Nossa Senhora reinará em todos os corações, e a face da Terra será renovada. 

De que forma? Grignion de Montfort esclarece que seu livro suscitaria mil oposições, seria caluniado, escondido, negado; que sua doutrina seria difamada, ocultada, perseguida; que ela suscitaria automaticamente uma antipatia profunda nos que não têm o espírito da Igreja. Mas que um dia viria, em que os homens por fim compreenderiam sua obra. Nesse dia, escolhido por Deus, a restauração do Reino de Cristo estaria assegurada. 

Durante séculos, a canonização do Beato Grignion vem caminhando. Por fim, ela chegou a seu termo. É absolutamente impossível que esse fato não tenha um nexo profundo com a dilatação da Verdadeira Devoção no mundo. 

E, nós o repetimos, é essa Verdadeira Devoção a bomba atômica que, não para matar mas para ressuscitar, Deus pôs nas mãos da Igreja em previsão das amarguras deste século. 

Pois bem, nosso otimismo é este: confiamos imensamente mais na bomba atômica de Grignion de Montfort, e em seu poder, do que nós receamos da ação devastadora de todas as forças humanas.