6 de maio de 2026

Católico, médico e desportista, pai de doze filhos

 

Dr. José Maria Villalón, grande especialista em medicina desportiva e notável católico, pai de doze filhos, que é presidente da Federação Madrilenha de Famílias Numerosas.

Plinio Maria Solimeo 

É difícil nos dias que correm ver, nos meios médicos ou desportivos, homens que pratiquem com destemor a religião católica, e sejam ufanos dela. Por isso, chama-nos a atenção uma exceção a essa regra num médico da Espanha ligado a um grande clube de futebol, que estadeia a quatro cantos sua fé e seus valores tradicionais. 


O Atlético de Madrid é um dos clubes mais importantes da Espanha, detentor de muitos títulos tanto nacionais quanto internacionais. Seus dirigentes sempre se notabilizaram por sua fé católica. Assim, em seu estádio, o vestiário central do clube é presidido pela Virgen de la Almudena, e ele tem uma capela no túnel que leva do vestiário ao campo de futebol. Tem também capelão que preside aos funerais dos familiares dos jogadores, seus casamentos, e atende as confissões dos dirigentes e jogadores do clube. 

Para se ver até onde vai a religiosidade desses dirigentes, sempre que o Atlético conquista algum título, eles vão a Roma oferece-lo ao Papa. Assim fizeram em 1995 quando conquistaram duplamente o campeonato da Liga e a Copa do Rei, e foram oferecer os dois troféus ao Papa João Paulo II. E assim fizeram depois com os outros títulos que conquistaram oferecendo-os aos Papas Bento XVI e Francisco.

Entre os dirigentes que vão a Roma nessas ocasiões, está sempre presente o chefe dos serviços médicos do clube, o Dr. José Maria Villalón, grande especialista em medicina desportiva e notável católico, pai de doze filhos, que é presidente da Federação Madrilenha de Famílias Numerosas. Nesta defende com vigor o matrimônio e a família tradicionais, porque: 

“A família está sendo muito atacada na sociedade atual. A Espanha vai caminhando para um ‘suicídio demográfico’. Há poucas ajudas diretas e indiretas à família e à maternidade, o melhor capital que tem uma sociedade. Chama muito a atenção que os responsáveis sócio-políticos não se dão conta disto”. 

O Dr. Villalón, nascido em 1958, na qualidade de membro do Comitê Olímpico Espanhol participou das Olimpíadas de Seul em 88 e na de Barcelona em 1992. Como seu avô e seu pai faziam parte do Atlético de Madrid, ele foi convidado pelo clube para seu departamento médico, o que já faz quase 30 anos. 

Em entrevista concedida a Javier Lozano na revista Misión (a subscrição gratuita mais lida pelas famílias católicas da Espanha), ele declara: 

“Nasci numa família católica na qual me inculcaram a fé, e fui a colégios nos quais se viviam os valores cristãos. Esta foi uma grande bênção pela qual estou muito agradecido”.

Na mesma entrevista, da qual tiramos muitos dados para este artigo, ele afirma: 

Minhas prioridades são claras, e ademais, nesta ordem: Deus, família e o Atlético. É fundamental esta visão sobrenatural que nós, cristãos, temos. É um caminho para a santificação, neste caso na vida ordinária, na labuta quotidiana. Intento ser bom cristão fazendo bem meu trabalho, e oferecendo-o a Deus. Toda minha vida está orientada a Ele neste caminho de santidade”. 

Ele é casado com Da. Mariola que, segundo ele, é: 
“uma mulher íntegra e cristã, que sabe inculcar nos filhos a fé, e me renovou ainda mais. Com o matrimônio nasceu esta família com a qual nos embarcamos para chegar a bom porto [...] e que é um regalo do Céu”. 
Sobre sua numerosa prole diz o Dr. Villalón:
“os filhos vão chegando pouco a pouco. Primeiro tens um, e te parece um mundo. Mas aprendes coisas que te ajudam com o seguinte, e com o outro [...]. Pouco a pouco vais vendo o desígnio divino. Tenhas um filho ou doze, tens que abrir-lhes as portas quando Deus os envia. Ele é quem me abençoou com uma família numerosa. Sempre estivemos abertos à vida. Para mim, não há outra opção. Seja um filho ou doze, todos são bem-vindos”. 
Há vantagens em ter muitos filhos. 
“Em casa, todos se ajudam. Há um momento em que teu filho mais velho se converte no padrinho do sexto: ajuda-o no estudo etc. Há muita contribuição dos filhos para que a dinâmica familiar funcione”. 
O Dr. José Maria Villallón vê os jogadores do Atlético que procuram sua ajuda, como outros membros de sua numerosa família: 
“Quando um jogador entra pela porta com um problema, o primeiro que faço é encomendá-lo ao seu Anjo da Guarda” para que o inspire. Assim, “quando chegam à equipe, os acolhe e os ajuda em tudo o que podes. É um trabalho de estar ali que eles percebem e te agradecem, porque muitos não têm referentes na Espanha. [Por isso] os assessoras sobre que tipo de colégios podem enviar seus filhos, ou quando surge um problema médico também em sua família. De alguma maneira influencias em sua vida ao dar-lhes um conselho quando enfrentam alguma dificuldade”. 
Homem de fé, esse autêntico médico católico diz que 
“é simples ver a Cristo nos enfermos. Muitos médicos muitas vezes vemos, no próximo, a essa pessoa que vais ajudar, ao necessitado de quem Jesus Cristo já dizia para dar de comer ao faminto, de beber ao sedento [...]. O que nós médicos tratamos de fazer diariamente é ajudar à pessoa que necessita”. 
Sobre sua freqüência à Missa e a comunhão diária diz o Dr. José Maria que ###“é meu alimento diário, a fonte de graça que me serve de motor. E, junto à Missa, a oração diária”. Pois “o levar uma forma de vida, o praticar uma série de normas diárias, te fazem perseverar na fé”. Para isso concorre 
“Também a leitura de cada dia de algum texto espiritual ou dos santos Evangelhos”. 
Essa vida metódica baseada na fidelidade à religião, faz com que o Dr. José Maria tenha muito estabilidade. Ele assim se expressa:
“Dou graças a Deus porque em minha vida de fé não tive grandes altos e baixos. Sempre há pessoas como os pacientes que te pedem ajuda, e com isso te impulsionam a perseverar na fé. Também a família, os filhos. A pessoa mesmo se vai formando quando trata de ser educador dos próprios filhos. Eu creio que não tenho tido altos e baixos porque meus pais me inculcaram a fé, a trabalharam todos os educadores que tive nos colégios e as pessoas que na minha vida me têm ajudado a que me fortaleça nesse caminho. Dou prioridade no caminho da fé à família, à minha mulher e filhos. Com uma atitude voluntariosa trato de perseverar na fé porque me dá energia para seguir vivendo com alegria”. 
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Fontes: 
- https://www.religionenlibertad.com/personajes/876584761/doctor-jose-maria-villalon-dios-familia-atleti.html##STAT_CONTROL_CODE_3_876584761## 
- https://www.revistamision.com/prioridades-claras-orden-dios-familia-atleti-jose-maria-villalon/ - https://omnesmag.com/pt/recursos/jose-maria-villalon-samaritano-atletico-madrid/ 
- https://www.parroquiatorrelodones.com/2016/05/29/jose-maria-villalon-medico-del-atletico-de-madrid/

2 de maio de 2026

Ambiente familiar na velha Europa

 


  Plinio Corrêa de Oliveira

Quando eu tinha uns 14 anos, lia livros franceses de contos. Num deles, lembro-me da narração de um domingo numa propriedade agrícola europeia, anterior à Primeira Guerra Mundial. 

A cena se passava num pequeno castelo de um barão viúvo com vários filhos — crianças, moços e moças. Todos sentados, muito saudáveis, conversando alegremente durante um almoço servido por lacaios, numa sala de jantar com uma mesa grande. 

As comedorias representavam um papel importante, sobretudo as deliciosas carnes assadas, em baixela de prata; sem grande luxo, mas comidas opulentas. O barão sentado à cabeceira da mesa, gorducho, com um apetite devastador. 

À medida que os pratos entravam, a criançada fazia festa. Os lacaios serviam contentes, o barão se divertia em ver tudo isso, e todos se divertiam em ver o divertimento dele. Era uma circulação geral de alegria, mas alegria muito casta, o problema da pureza nem entrava em cena. 

O que entrava em cena era o que minha mãe dizia: “viver é estar juntos, olhar-se e querer-se bem”. Era o ‘banquete espiritual’ de todos se quererem bem, terem a mesma mentalidade, sentirem todas as coisas do mesmo modo. 

O ambiente interno era iluminado por discretos abajures, e externamente uma chuvinha fina insuportável — o que tornava ainda mais agradável estar dentro de casa. 

Ainda adolescente, eu ia pensando nisso e achando que assim valia a pena viver. Daí eu ter tirado uma consequência que não se realizou: quando eu ficar maduro, vou morar na Europa.
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Excertos de comentários feitos pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 25 de julho de 1993. Esta transcrição não passou pela revisão do autor.

28 de abril de 2026

O Reino de Maria para que venha o Reino de Jesus Cristo



28 de abril é o dia fixado pela Santa Igreja para a festa litúrgica de São Luís Maria Grignion de Montfort, ardoroso missionário francês do século XVIII (o século de Luis XIV), doutor marial por excelência, nascido em 1673 e falecido no dia 28 de abril de 1716. 

Entre suas numerosas profecias, uma que atrai especialmente a atenção foi o anúncio de uma Cristandade restaurada em todo seu esplendor — o Reino de Maria, como também previsto em Fátima. 

Uma profecia feita há mais de 300 anos por  por São Luís Grignion e que está registrada no seu célebre Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem (1712): 

“Ah! quando virá este tempo feliz em que Maria será estabelecida Senhora e Soberana nos corações, para submetê-los plenamente ao império de seu grande e único Jesus? [...] Então, coisas maravilhosas acontecerão neste mundo [...]. Quando chegará esse tempo feliz, esse século de Maria, em que inúmeras almas escolhidas, perdendo-se no abismo de seu interior, se tornarão cópias vivas de Maria, para amar e glorificar Jesus Cristo? Esse tempo só chegará quando se conhecer e praticar a devoção que ensino, ‘Ut adveniat regnum tuum, adveniat regnum Mariae’”*. (Que venha o Reino de Maria, para que assim venha o vosso Reino - ou seja, o Reino de Jesus Cristo). [Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem, São Luís Maria Grignion de Montfort, Editora Vozes, Petrópolis, 1961, VI edição, tópico 217, pp. 210-211]. 



A seguir, para marcar este grande dia de São Luís Maria Grignion de Montfort, transcrevo um artigo de Plinio Corrêa de Oliveira, publicado no “Legionário” de 21 de outubro de 1945:


GRIGNION DE MONTFORT 

  Plinio Corrêa de Oliveira 

Como condição de vitória, sem se desprezar nem de leve as providências concretas, devemos contar essencialmente com os recursos sobrenaturais. A História demonstra que não há inimigos que vençam um país cristão que possua três devoções: ao Santíssimo Sacramento, a Nossa Senhora e ao Papa. Investigue-se bem a queda de nações aparentemente muito fervorosas em sua adesão à Igreja: alguma broca secreta as minava em uma dessas três virtudes-chave. 

A vitória, pois, depende de nós. Tenhamos em dia nossa consciência, estejamos tranquilos em Deus, e venceremos. 

*   *   * 

Isto explica o extraordinário relevo que damos a uma notícia apagada, que os jornais reproduziram há pouco: a canonização iminente do Bem-aventurado Luiz Maria Grignion de Montfort. 

A notícia nada significa para o comum das pessoas. Ela significa tudo, para os que conhecem o verdadeiro fundo das coisas. A Providência resolveu jogar sua bomba atômica contra os adversários da Igreja. Perto desta bomba, as convulsões de Hiroshima e Nagasaki não passam de inocentes tremedeiras. Há dois séculos que está pronta a bomba atômica do Catolicismo. Quando ela explodir de fato, compreender-se-á toda a plenitude de sentido da palavra da Escritura: "Non est qui se abscondat a calore ejus" [Não há quem possa subtrair-se a seu calor]. 

Esta bomba se chama com um nome muito doce. É que as bombas da Igreja são bombas de Mãe. Chama-se O Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem. Livrinho de pouco mais de 100 páginas. Nele, cada palavra, cada letra é um tesouro. Este o livro dos tempos novos que hão de vir. 

*   *   * 

Nosso artigo já está por demais longo, para que demos um resumo biográfico da extraordinária vida desse Bem-aventurado. Não sei de nenhuma, que seja mais empolgante e mais edificante. O que em nosso assunto é essencial, em poucas palavras se diz. 

O Beato Grignion de Montfort expõe em sua obra no que consiste a perfeita devoção dos fiéis a Nossa Senhora, a escravidão de amor dos verdadeiros católicos à Rainha do Céu. Ele nos mostra o papel fundamental da Mãe de Deus no Corpo Místico de Cristo e na vida espiritual de cada cristão. Ele nos ensina a viver nossa vida espiritual em consonância com essas verdades. E nos inicia em um processo tão sublime, tão doce, tão absolutamente maravilhoso e perfeito, de nos unirmos a Maria Santíssima, que nada há na literatura cristã de todos os séculos, que o exceda neste ponto. 

Esta devoção, diz Grignion de Montfort, unindo o mundo a Nossa Senhora, uni-lo-á a Deus. No dia em que os homens conhecerem, apreciarem, viverem essa devoção, nesse dia Nossa Senhora reinará em todos os corações, e a face da Terra será renovada. 

De que forma? Grignion de Montfort esclarece que seu livro suscitaria mil oposições, seria caluniado, escondido, negado; que sua doutrina seria difamada, ocultada, perseguida; que ela suscitaria automaticamente uma antipatia profunda nos que não têm o espírito da Igreja. Mas que um dia viria, em que os homens por fim compreenderiam sua obra. Nesse dia, escolhido por Deus, a restauração do Reino de Cristo estaria assegurada. 

Durante séculos, a canonização do Beato Grignion vem caminhando. Por fim, ela chegou a seu termo. É absolutamente impossível que esse fato não tenha um nexo profundo com a dilatação da Verdadeira Devoção no mundo. 

E, nós o repetimos, é essa Verdadeira Devoção a bomba atômica que, não para matar mas para ressuscitar, Deus pôs nas mãos da Igreja em previsão das amarguras deste século. 

Pois bem, nosso otimismo é este: confiamos imensamente mais na bomba atômica de Grignion de Montfort, e em seu poder, do que nós receamos da ação devastadora de todas as forças humanas.

25 de abril de 2026

Uma peculiaridade da devoção a Na. Sra. de Genazzano

 


A fim de assinalar a bela data que celebramos neste dia 26 de abril, a festividade de Na. Sra. do Bom Conselho de Genazzano, segue um trechinho de artigo de Plinio Corrêa de Oliveira, publicado na revista Catolicismo (Nº 212, abril/maio de 1968). 

No século XV, o quadro d´Ela [foto] foi trasladado miraculosamente pelos anjos, da Albânia invadida pelos muçulmanos para cidade de Genazzano, nas proximidades de Roma. Seu quadro operou numerosos milagres, favorecendo pessoas que rezavam diante dele, e incontáveis pessoas alcançaram receberam grandes graças. 


“Não é possível tratar de Nossa Senhora de Genazzano sem pôr em realce uma de suas peculiaridades mais importantes. Muitas das pessoas que recorrem à Virgem diante da Imagem de Genazzano ou de réplicas desta, têm afirmado que o semblante da Senhora lhos ‘responde’ às orações. 

Não que o faça falando ou movendo-se, o que constituiria manifesto milagre. Mas, sem nenhuma alteração propriamente miraculosa, algo do olhar e da expressão da Divina Mãe toma caráter particularmente vivo e impregnado de maternal alegria quando o fiel é atendido. E é à multiplicação deste favor que em boa parte se deve a expansão universal da devoção a Nossa Senhora do Bom Conselho de Genazzano”.

21 de abril de 2026

“Viver é estar juntos, olhar-se e querer-se bem”

Pintura representando Dona Lucilia aos 92 anos


Fonte: Revista Catolicismo, Nº 903, abril/2026

O Dr. Adolpho Lindenberg, falecido aos 99 anos em 2024, foi um eminente colaborador de Catolicismo desde a sua fundação em 1951. Além de sempre se recordar, falar e escrever sobre a vida de luta de seu primo-irmão, Plinio Corrêa de Oliveira, reportava-se com saudades de sua “tia Lucilia”. Assim, em razão do sesquicentenário do nascimento dela, reproduzimos a seguir uma entrevista que o seu sobrinho nos concedeu em abril de 2018.

Nosso saudoso entrevistado, além de ter sido um constante colaborador desta revista, foi um dos fundadores da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP) e do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira. Engenheiro pela Universidade Mackenzie, sua atividade profissional sempre esteve relacionada com a Construtora Adolpho Lindenberg, uma das mais conceituadas do País, que se notabilizou pela reintrodução do estilo colonial e o lançamento do estilo neoclássico na construção de edifícios.

Catolicismo Em que época o senhor mais conviveu com sua tia Lucilia e com seu primo Plinio Corrêa de Oliveira?

Dr. Adolpho Na época em que éramos crianças, e convivíamos na casa de nossa avó, Gabriela Ribeiro dos Santos, mãe de Dona Lucilia. Vovó era uma senhora muito aristocrática, que marcou época na sociedade paulista do início do século passado.

 

Catolicismo Antes de passarmos às perguntas sobre Dona Lucilia, desejaríamos conhecer algo mais da personalidade de Dona Gabriela. Alguma lembrança que o senhor pudesse narrar a respeito?

Dr. Adolpho Na sala de visitas do apartamento onde morou tia Lucilia há uma bonita pintura de minha avó Gabriela, num quadro muito elogiado por Dr. Plinio. Retrata uma bela senhora matriarcal, que teve relações de amizade com a Princesa Isabel. Tia Lucilia recordava-se do vovô Antonio (esposo de Dona Gabriela) como tendo sido um homem boníssimo, pleno de qualidades, enquanto vovó Gabriela tinha deixado a recordação de uma senhora bonita, imponente e inteligente. Quando eu era menino, ela aparentemente me ignorava, mas só anos depois vim a compreender que nessa atitude anti-igualitária ela demonstrava apenas uma segurança, uma nota aristocrática e dominadora, uma superioridade diante da qual um menino hesitava.

 

Dona Gabriela
Catolicismo Poderia descrever como era o convívio no ambiente da casa de Dona Gabriela?

Dr. Adolpho A família Ribeiro dos Santos se destacava pela loquacidade, e o convívio naquele ambiente era animadíssimo. Conservo muitas lembranças e saudades desse convívio com toda a parentela. Nem preciso dizer o quanto Plinio, com sua vitalidade, colaborava nessa animação, por exemplo, formando rodas de conversas agradabilíssimas. Ele proseava com muito bom humor sobre qualquer coisa, desde grandes fatos históricos, passando por episódios ocorridos com nossos tios, até as cores das pedras. Costumo lembrar o dito de Talleyrand: “Quem não viveu na França no período anterior à Revolução Francesa [1789], não conheceu a doçura de viver”. Posso afirmar que algo dessa “doçura de viver” existia em nossa família, na então pequena cidade de São Paulo. Recordo-me de que, alguns meses antes da morte de Dr. Plinio, eu mantive com ele uma conversa durante a qual ele se lembrou daqueles antigos tempos, no convívio com sua irmã Rosée, seus primos e amigos na casa de vovó. Ele, muito mais do que eu, sentia saudades do bem-estar desse pequeno microcosmo que era o nosso ambiente familiar.

 

Dona Zili, em pé, a Fräulein Mathilde, à direita, com as crianças da família. Sentado na frente está Plinio

Catolicismo E como era a presença de Dona Lucilia nesse “microcosmo” na casa dos Ribeiro dos Santos?

Dr. Adolpho Tia Lucilia dispensava um trato muito cerimonioso às pessoas — com os filhos e sobrinhos, com seu esposo, meu tio João Paulo, até com seus pais, pelos quais ela nutria uma verdadeira veneração. Muito diferente de certas pessoas modernas, que usam um trato excessivamente íntimo. Ela não apreciava esse tipo de comportamento “sem-cerimônias”, por assim dizer, sem certa solenidade de atitudes. Ela era solene por natureza, o que tornava o ambiente da casa de vovó muito agradável e elevado.

 

Catolicismo Quais suas impressões sobre a figura de sua tia, e o que mais o impressionava nela?

Dr. Adolpho Eu quase não comento sobre o modo de ser de tia Lucilia, mas quando aparece uma boa oportunidade, causa-me alegria poder falar dela. Não é fácil, para aqueles que não a conheceram pessoalmente, compreender inteiramente sua figura. Impressionava-me muito, além de sua amabilidade e paz de alma, a força de seu olhar. Olhar de uma pessoa reta, honesta, e de uma superioridade ímpar. Quem não é reto e honesto poderia até ficar envergonhado na sua presença. Olhar muito meigo, muito bondoso, mas quem não estivesse com a consciência em paz não gostava muito. Era o encontro de olhares entre uma pessoa virtuosa e outra sem virtude. Muito me impressionava o olhar dela, que incentivava as pessoas a enfrentar as dificuldades da vida.

Ela foi muito emblemática do ideal perfeito de mãe, esposa, filha e tia. Católica ao máximo, monarquista e tradicionalista, não pactuava com o relaxamento dos costumes, com as modas extravagantes. Lembro-me dela visitando-me quando eu ficava doente. Ela lia para mim livros interessantes que exaltavam o heroísmo, como o livro dos Três Mosqueteiros. E aplicava a leitura dando bons conselhos, advertindo-me dos perigos que poderia enfrentar em minha vida. Ela me causava a impressão de ser uma senhora muito cerimoniosa e de uma geração anterior. Nesse sentido, nunca tingiu nem cortou curtos os cabelos, não se pintava, usava vestidos muito discretos.

 

Dona Lucilia pouco antes
de seu casamento
Catolicismo Dona Lucilia era enérgica em exigir dos filhos o cumprimento dos deveres diários?

Dr. Adolpho No período anterior à Primeira Grande Guerra, notava-se a rivalidade entre a França e a Alemanha. Muitos no Brasil pareciam divididos: os francófilos e os germanófilos. Tia Lucilia amava a França, e meu pai amava a Alemanha. Assim, apesar de tia Lucilia demonstrar equilíbrio, ele se queixava de sua cunhada. Ela era de uma cortesia admirável, manifestava muito afeto às pessoas de bom coração, mas era intransigente em relação às pessoas más, e não cedia ao erro. Até no relacionamento com os filhos, mesmo sendo extremamente afetuosa, exigia deles o cumprimento integral do dever, das obrigações diárias, etc.

Por isso, elogiava para os filhos o modo de ser do alemão, disciplinado no cumprimento do dever. E foi certamente por isso que ela escolheu para os filhos uma governante alemã, a Fräulein Mathilde Heldman, fato que deixou papai muito satisfeito... Dr. Plinio admirava muito essa Fräulein bávara, pois ela o ajudou a apreciar o estilo de vida europeu, as tradições e a nobreza europeia, as grandes famílias e figuras do Velho Continente. Com sua cultura, essa governante colaborou na formação de Rosée e de Plinio e no aprendizado da língua alemã, mas também do francês e do inglês.

Em 1912, num período em que Dona Lucilia sofria de cálculos biliares, ela viajou de navio à Alemanha com vários membros da família — Plinio tinha apenas quatro anos, e eu nem tinha nascido —, para submeter-se a uma cirurgia com um especialista que era médico do Kaiser, o Dr. Bier. Certamente essa viagem colaborou para aumentar nela e nos filhos a admiração pelo modo de ser alemão, o amor à ordem, à disciplina etc.

Tia Lucilia e a Fräulein Mathilde colaboraram para formar a Weltanschauung (visão de mundo) do Dr. Plinio. Podemos notar isso em sua vida e em seus escritos, por exemplo, no livro Revolução e Contra-Revolução e em sua última obra, Nobreza e Elites Tradicionais Análogas. Alguns de meus tios ficavam meio perplexos com essa Weltanschauung adquirida por Plinio, com seu modo de ser categórico, e pareciam pensar: “Como é que Lucilia, tão cordata, foi ter um filho tão afirmativo como esse? É realmente inconcebível”.

 

Catolicismo Como explicar esse modo de ser categórico de Dr. Plinio, sendo sua mãe tão serena?

Dr. Adolpho O que levou Plinio a tomar posições categóricas foi sua luta contra-revolucionária em defesa da Igreja e da Cristandade, embora temperamentalmente ele se assemelhasse à sua mãe. Ele foi um menino muito plácido, pacífico, até fleumático, gostava de ficar contemplando as coisas da natureza. Já contei que numa fotografia de família aparece minha prima Rosée, menina de sete anos, andando por uma calçada, muito atenta a tudo, levando pela mão o irmão, dois anos mais novo que ela. Plinio parece distraído, tranquilamente contemplando alguma coisa.

Mas foi devido à sua luta que ele se viu obrigado a tornar-se um polemista, um cruzado, a discutir para defender a glória de Deus. Quando jovem, vivendo ainda em casa de vovó, ele analisava muito as ideologias modernas enquanto penetravam nos modos e no pensamento de seus primos. E procurava alertá-los, para rejeitarem o que aparecia de ruim no mundo moderno com suas extravagâncias. Tia Lucilia também ficava assustada com as extravagâncias que iam surgindo, as modas em geral.

 

Dona Lucilia em 1929
Catolicismo — Portanto, ela não foi uma mulher considerada “moderna”.

Dr. Adolpho Tia Lucilia, com seu temperamento calmo e modos aristocráticos, criava em torno de si uma atmosfera tranquila, oposta às agitações do mundo dito moderno. Ela morreu no século XX, mas, por assim dizer, contagiava as pessoas ao seu redor com aquela atmosfera suave e tranquila do século XIX. Poder-se-ia mesmo falar em “atmosfera luciliana”, usando uma espécie de neologismo. As pessoas podiam chegar aflitas e agitadas à sua casa, mas ela as “serenava” com sua calma e carinho, e aos poucos elas se livravam da agitação. O próprio Dr. Plinio disse que ela era excelente consoladora das pessoas: “Quando dela me aproximava, devido a alguma aflição ou numa situação sem saída, bastava ouvi-la dizer 'meu filho, o que é?', e metade do problema já se desfazia”. Ela resolvia com muita benevolência as dificuldades das pessoas, e elas saíam contentes.

 

 Catolicismo O que o senhor diria sobre as devoções de Dona Lucilia?

Dr. Adolpho Muitíssimo devota do Sagrado Coração de Jesus, tia Lucilia tinha especial predileção pela Igreja do Sagrado Coração de Jesus, no bairro Campos Elíseos no qual ela residia, e lá assistia às missas dominicais junto com seus filhos. Como se pode ver ainda hoje, essa Igreja foi decorada com muito bom gosto, belos vitrais, pinturas e imagens. Seu ambiente, com aspectos sobrenaturais, convida verdadeiramente à piedade. Pode-se dizer que o bom temperamento dela e seu modo de ser misericordioso tinham como motivação sua devoção ao Sagrado Coração, do qual possuía duas imagens: uma num pequeno oratório em seu quarto; e outra talhada em alabastro, sobre uma coluna no salão, diante da qual passava um bom tempo rezando.

Tia Lucilia enviou muitas cartas ao Dr. Plinio, quando ele viajava para alguma cidade do Brasil ou do exterior. Eis o que escreveu numa delas: “Agradou-me imenso saber que, quando tens saudades minhas, rezas diante do meu oratório. Eu também rezo tanto por ti. O Sagrado Coração de Jesus, nosso amor, será tua salvaguarda e protetor, filho querido do meu coração!”.

De outra carta, escrita por Dona Lucilia quando meus primos eram adolescentes, destaco estas linhas: “Você [Plinio] e Rosée são confiados a Deus antes de nascer. Portanto, com fé e amor a Deus, vocês não poderão deixar de ser felizes, tanto mais que por vocês eu rezo noite e dia, e é natural que as preces de uma mãe católica, mesmo de tão pouco mérito, sejam atendidas por Nossa Senhora, que também é mãe, e por Nosso Senhor Jesus Cristo”.

Para pessoas de fora de seu círculo mais restrito de amizades, Dr. Plinio não falava muito de sua mãe, mas para nós, quando indagado sobre o seu relacionamento com ela, deixava claro o papel que ela exerceu a fim incrementar nele a fé católica e aumentar sua devoção aos Corações de Jesus e Maria.

 

Catolicismo Dr. Plinio deixava transparecer a sua gratidão a Dona Lucilia?

Dr. Adolpho Dr. Plinio, certa vez, comentou o seguinte sobre sua mãe: “Era verdadeiramente uma senhora católica. Ninguém pode imaginar o bem que ela me fez. Estudei sua bela alma com uma atenção contínua, e era por isso mesmo que eu gostava dela. A tal ponto que, se ela não fosse minha mãe, mas a mãe de outro, eu gostaria dela da mesma maneira, e daria um jeito de ir morar junto a ela. Mamãe me ensinou a amar Nosso Senhor Jesus Cristo, ensinou-me a amar a Santa Igreja Católica”. Difícil encontrar louvor maior de um filho em relação à sua mãe.

         Ela foi mãe modelar, tanto no incentivo ao bem quanto na censura ao mal. Por exemplo, na correção de alguma travessura dos filhos e sobrinhos, procurava fazê-los compreender no que estavam errados e como aquilo não era do agrado de Deus, ao mesmo tempo em que incutia nos pequenos como era belo agir com retidão. Mas também, quando alguma criança praticava algo louvável, era a primeira a elogiar e incrementar nela o quanto a vida virtuosa era deleitável.

Procurava mostrar que, mesmo se tornando mais dura a vida de quem praticasse as virtudes, a criança seria mais feliz cumprindo o dever, ficando assim com a consciência tranquila. Às vezes tia Lucilia ilustrava sua repreensão ou seu elogio narrando algum episódio da vida de antepassados, ou da história de pessoas que ela conheceu. Com suas recordações do passado, ela exemplificava com pessoas que fracassaram na vida por seguirem o mau caminho, ou pessoas que foram felizes seguindo o bom caminho, apesar de ser mais difícil. Desse modo estimulava os lados bons das crianças e incutia horror aos aspectos maus. Era admirável o senso do bem e do mal, que ela possuiu de modo extraordinário.

 

Catolicismo Certa vez Dr. Plinio fez referência a uma provação à qual Dona Lucilia foi submetida pouco antes do nascimento dele. Poderia contar para nossos leitores?

Dr. Adolpho Neste caso, acho que Plinio se referia a um fato que se passou em 1908. Quando ele estava por nascer, o médico preveniu Dona Lucilia de que ela seria submetida a um parto de risco, e tanto ela quanto o filho poderiam não resistir à intervenção cirúrgica. Perguntou se ela concordaria em fazer um aborto, e desse modo garantiria a sua vida. Ela ficou chocada com a pergunta, e respondeu: “Esta é uma pergunta que não se faz a uma mãe. O doutor não deveria sequer cogitar em tal hipótese”. Ela confiou o filho a Deus, o parto se deu com alguma antecedência em relação ao período normal de nove meses, e Plinio nasceu com o peso abaixo do normal, mas logo recuperou plena saúde e peso.

 

Catolicismo Sobre a formação que ela deu aos filhos, o senhor se lembra de algo especial?

Dr. Adolpho A vida de Dona Lucilia foi um exemplo de uma mãe caracteristicamente brasileira e católica. Extremamente bondosa, serena e acolhedora, ela se dedicou afetuosamente, de todo o coração, aos dois filhos Rosée e Plinio, assim como aos sobrinhos, procurando incutir nos pequenos a catolicidade que a caracterizava, proporcionando-lhes ótima formação religiosa.

Dr. Plinio se lembrava de que, ao entrar em casa após alguma atividade externa, sentia o ambiente muito acolhedor de sua residência — os ares “lucilianos”, por assim dizer. Ele se recordava perfeitamente do modo como ela definiu o relacionamento virtuoso e perfeito numa família: “Viver é estar juntos, olhar-se e querer-se bem”.

 

Catolicismo Esses episódios são tão interessantes, que nos agradaria conhecer outros que o senhor possa recordar.

Dr. Adolpho Dr. Plinio também se lembrava de que, ainda menino, com seus sete anos mais ou menos, lia livros para crianças e fazia considerações sobre a pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo. Com aquela idade, e contemplando as imagens d’Ele, chegou à certeza de que Jesus Cristo era o Homem-Deus. Nisso muito lhe auxiliavam as narrações da História Sagrada que tia Lucilia apresentava para os filhos. Essa formação religiosa foi tão marcante, que aproximadamente naquela idade Plinio dava aulas de catecismo aos empregados da casa, com base no que ouvira de sua mãe.

 

Quarto de Da. Lucilia, onde ela faleceu

Catolicismo Dos últimos momentos de Dona Lucilia, o que o senhor poderia nos dizer?

Dr. Adolpho Numa reunião com Dr. Plinio, alguém mostrou a ele uma fotografia de tia Lucilia bem idosa, na qual transluzia muito a esperança do Céu e a confiança na misericórdia divina. Mencionando o dito latino “Talis vita finis ita” (tal vida, tal fim), ele comentou que toda a vida dela fora assim, e assim ela caminhava para o final da vida. Nessa foto se percebia a afabilidade, mas também a seriedade de uma pessoa que sofreu e estava tranquila, pronta para se apresentar diante de Deus.

         Plinio não assistiu ao desenlace final. Ele estava em casa, mas em outro cômodo. Entretanto, um médico amigo a assistiu e fez uma narração daquele último instante. Disse ele que naquele momento final, apesar da crise cardíaca, tia Lucilia estava muito tranquila, e fez solenemente um grande Sinal da Cruz. Com este sinal, despediu-se da vida e entregou sua alma a Deus aos 92 anos de idade.

20 de abril de 2026

150 ANOS DE UMA TRADICIONAL DAMA PAULISTA

 

Dona Lucilia em Paris (1912) 

Nossas homenagens no sesquicentenário do nascimento de Da. Lucilia Ribeiro dos Santos Corrêa de Oliveira, extremosa mãe do idealizador e principal colaborador de Catolicismo, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira

Fonte: Revista Catolicismo, Nº 903, abril/2026

Nossos leitores bem conhecem Plinio Corrêa de Oliveira. Pouco conhecem, entretanto, a respeito de quem lhe deu a vida e o formou no amor de Deus, inculcando-lhe desde a mais tenra idade a devoção aos Sagrados Corações de Jesus e de Maria e o amor à Santa Igreja Católica Apostólica Romana, à qual ele dedicou toda a sua vida, lutando incansavelmente em sua defesa e da civilização cristã dela nascida e combatendo seus adversários.

Lucilia Ribeiro dos Santos Corrêa de Oliveira pertencia à tradicional linhagem dos paulistas denominados quatrocentões — provenientes dos fundadores ou dos primeiros povoadores da cidade de São Paulo, inclusive alguns bandeirantes. Dentre seus antepassados maternos, destacou-se, durante o reinado do Imperador D. Pedro II, o Prof. Gabriel José Rodrigues dos Santos (1816-1858), catedrático da renomada Faculdade de Direito de São Paulo, advogado, orador brilhante, deputado provincial e mais tarde nacional.

O Prof. Plinio sempre manifestou suma gratidão a Dona Lucilia pela formação religiosa, moral e psicológica que ela lhe imprimiu. De uma esmerada educação e modo de ser bem característico das famílias aristocráticas da São Paulo de outrora, ela possuía uma cordialidade exemplar no trato com as pessoas. Era também de uma piedade exemplar no trato com as coisas sagradas. Virtudes que tão bem transmitiu ao filho, como que por osmose permeadas de alma a alma.

Certa vez, ele comentou que sua devoção ao Sagrado Coração de Jesus remontava à mais tenra infância, e que — conta-se entre seus familiares —, antes mesmo de aprender a pronunciar as palavras mamãe e papai, ela lhe ensinara a apontar para a imagem do Sagrado Coração quando lhe perguntavam onde estava Jesus, e as primeiras palavras que dela aprendeu a pronunciar foram Jesus e Maria.

A devoção ao Sagrado Coração de Jesus marcou profundamente a vida de Dona Lucilia, que soube bem comunicá-la ao filho, como se verá no texto que segue — assim como na entrevista que reproduziremos proximamente —, mas muitos outros aspectos podem-se destacar em seu caráter e em sua alma. 

Assim, para homenageá-la neste mês em que recordamos os seus 150 anos, escolhemos para nossos leitores alguns comentários do Prof. Plinio que ressaltam primordiais aspectos dela.

 

Lucilia com 23 anos

Inflexibilidade, suavidade,

gentileza, coerência

         Durante um almoço, conversando com discípulos, todos membros da TFP, que se encontravam na fazenda Morro Alto de Nossa Senhora do Amparo (na cidade de Amparo, no interior paulista), em 12 de agosto de 1988, pediram ao Prof. Plinio que explanasse sobre os principais traços que mais admirava em sua mãe.

Não era de seu costume tomar a iniciativa de falar a respeito dela, mas o fazia quando insistiam para que tratasse do assunto. Foi o que se passou nesse almoço, cujo texto, extraído de fita magnética (K-7), reproduzimos a seguir. Apenas o transpomos para a linguagem escrita o que fora dito de modo informal numa conversa durante uma refeição.

*   *   *

“Constituía traço dominante da alma dela [Dona Lucilia] uma seriedade grave, mas paradoxalmente muito suave; uma pessoa muito certa e segura no julgar as coisas; um espírito muito ‘pão-pão, queijo-queijo’, pouco sujeito a dúvidas.

Ela podia hesitar no tocante a coisas pequenas e secundárias, mas nas grandes linhas gerais da vida, nas convicções, no modo de tocar os seus afazeres, ela não tinha um pingo de hesitação. Era feita de certezas — certezas calmas, lúcidas, de quem via logo à primeira vista e com muita nitidez o que era verdade e o que era o erro, o que era o bem e o que era o mal, o que era o feio e o que era bonito. Ela aderia inteiramente ao ‘Verum, Bonum, Pulchrum’ [Verdadeiro, Bom e Belo — três dos transcendentais do ser, como ensina a filosofia escolástica. O Verum aponta para a inteligência, o Bonum para a vontade, e o Pulchrum para a contemplação].

Uma alma com uma honestidade, com uma limpidez, que faziam uma espécie de um só com ela. Uma sinceridade que a levava a não querer senão o ‘Verum, Bonum, Pulchrum’. Aquilo que ela queria, queria mesmo, fortemente, e o que não fosse isso ela rejeitava. A aceitação era aceitação forte, a rejeição era a rejeição, a convicção era convicção, a negação era a negação e a inflexibilidade verdadeiramente inflexível, mas suave e gentil.

Família Ribeiro dos Santos, da esq. para dir.: Antônio (Toni), Gabriel, Dr. Antônio, Da. Gabriela, Eponina (Yayá), Lucilia e a pequena Brazilina (Zili). [Foto de 1899]


Acrescente-se a isso uma tendência de espírito a ver as coisas sempre pelo lado maravilhoso e pelo seu mais alto aspecto. Ela tinha um espírito muito elevado. Quando se conversava com ela sobre determinado tema, tendia logo a colocá-lo no mais alto, conforme seu feitio intelectual, como uma senhora e mãe de família.

Junto com esses aspectos, ela era uma pessoa que tinha ao mesmo tempo muita alegria de viver e muita tristeza acumulada. Ela tinha ideia de como deveria ser a vida, e tinha ideia de que a vida era um Vale de Lágrimas, e que, portanto, normalmente as pessoas deveriam passar pelo sofrimento.

Ela nasceu em Pirassununga [no dia 22 de abril de 1876], no interior de São Paulo, onde seu pai advogava no começo de sua carreira. Depois, ele mudou-se para a capital [em 1893], onde fundou um escritório de advocacia e prosperou.

Ela, já idosa, se referia a Pirassununga como se fosse o dia de ontem. Contava coisas de sua cidade natal com verdadeiro encanto, por exemplo, dos colibris da cidade. Falava que havia tantos que — numa sala da casa onde ficavam expostos dois óleo-gravuras representando buquês de diversas flores — eles se iludiam e batiam com o bico no vidro do quadro. Certa vez um deles bateu com tanto ímpeto que caiu no chão, e que uma tia molhou o bico do beija-flor para ele se recompor e voltar a voar. Mamãe contava isso, e um mundo de outros episódios, mas tudo com pormenores, vendo o alcance simbólico das coisas, como, no caso, a delicadeza e a beleza dos colibris.

Ela possuía um espírito elevado, mas capaz de descer aos últimos pormenores e se entreter com uma simples pétala de flor e outras coisas pequenas, mas também com recordações dela em Paris, na Alemanha, no Rio de Janeiro ou com episódios da sociedade.

Ela gostava também de contar muitos casos da vida quotidiana. Em todas as suas narrativas ela revelava a variedade de sua alma, considerando os aspectos simbólicos e morais com certo fundo religioso.

Lembro-me dela falando das festas de seu tempo. Por exemplo, de um baile que houve no palacete do Conde Álvares Penteado. Ela descrevia com pormenores a casa toda ornamentada; que sua mãe, Dona Gabriela Ribeiro dos Santos (1852-1934), uma senhora realmente muito bonita e de grande distinção, fora escolhida para dançar com o Conde.

Sobre todas as coisas mamãe gostava de comentar, desde o Conde até uma velha senhora de Pirassununga; da visita que tinha feito a Neuilly-sur-Seine até a visita à Princesa Isabel, mas tudo sob o ângulo de análises dos ambientes e costumes, marcando os comentários com o aroma de uma boa formação moral.

Na família se conversava muito sobre política, mas nisso ela não entrava, não tomava partido. Entretanto, quando eclodiu a I Guerra Mundial, ela não aceitou que a Alemanha invadisse a França. Quando foi atingida a Catedral de Reims, por um bombardeio alemão, ela tomou aquilo como se tivessem atingido a própria casa dela. Ela acordava cedo e ia ver nos jornais as notícias da guerra. Comentava com meu pai, pois eu, muito menino ainda, não entendia.

Imagem do Sagrado Coração
 que pertenceu a Dona Lucilia

Entretanto, mamãe melhor se manifestava ela mesma nos momentos em que estava rezando.
Nesses momentos, eu tinha impressão de que todas as qualidades dela cresciam e se estabelecia uma espécie de vínculo entre o Sagrado Coração de Jesus e ela — mas sem visões nem milagres ou revelações. Era uma espécie de relacionamento por onde toda a bondade dela, todo seu modo de ser era em parte produto da tradição brasileira, mas era muito mais fruto da devoção dela ao Sagrado Coração, que lhe comunicava a bondade d’Ele, as qualidades d’Ele. Tudo isso se realizava de modo inefável, mas enchia a alma dela e estabelecia uma consonância entre ela e todas as coisas da Igreja.

Quando [em 1919] entrei no Colégio São Luís, dos padres jesuítas em São Paulo, compreendi perfeitamente, pelo natural desenvolvimento do espírito de todo menino, que mamãe podia significar algo muito alto na minha vida, mas que não era o paradigma de minha vida. Meu paradigma era a Santa Igreja Católica Apostólica Romana, como meus professores jesuítas ensinavam.

Naquele tempo, eles ensinavam muito bem, ao menos para o meu intelecto de criança. Falavam muito bem do Papa, da devoção que se deve ter a ele; promoviam a devoção a Nossa Senhora; impulsionava a Congregação Mariana; falavam e combatiam duramente os adversários da Igreja. Por exemplo, eles repugnavam o movimento de insurreição dos liberais italianos contra os Estados Pontifícios no século XIX, falavam mal da invasão de Roma, de Garibaldi etc. Ensinavam bem tudo isso — o que, desde cedo, me fazia ir compreendendo a Revolução que visava destruir a ordem cristã no mundo.

Naquela época de menino, eu via dois valores diferentes: primeiro a Igreja, fonte da verdade; depois a Revolução, da qual, em última análise, a ignomínia essencial era de se atirar contra a Igreja. Por outro lado, eu olhava minha mãe e, como criança, me perguntava: o que valia mais?

E a resposta que me veio ao espírito foi: essas coisas não se dissociam, pois tudo quanto há em mamãe ela recebeu da Igreja. E ainda me perguntava: nela, tudo é conforme a Igreja? Porque se algo nela não for conforme a Igreja, eu prefiro a Igreja a ela, porque a Igreja foi fundada por Deus. Quero muito bem à minha mãe, mas ela é uma criatura humana que pode errar como eu, como qualquer um. E eu a reexaminava ponto por ponto. Inclusive fazia perguntas a ela para saber o que pensava de certos temas. Ela passou comigo por um ‘Santo Ofício’, por uma inquisição. Eu fui o ‘inquisidor’ dela. ‘Inquisidor’ afetuoso, respeitoso, meticuloso, inflexível. Nem preciso dizer que ela passou nesse exame com nota 100...

A resposta a todas as perguntas — na cabeça de uma criança — era invariavelmente a seguinte: ‘Isso é bom porque é conforme à Igreja, e não porque é conforme a mamãe, senão enquanto ela representa — como uma boa mãe de família deve representar — a Igreja. Mas o bem é a Igreja!’.

Um exemplo: eu tinha um tio, irmão dela, que fazia parte do governo de São Paulo, era Secretário de Estado. Na época arrebentou uma Revolução e o governo começou a convocar os jovens para irem combater por essa Revolução.

Um dia, meu tio estava se despedindo dela em casa e ela foi acompanhá-lo até à porta, e fui junto. Quando chegou à porta da rua, ele — brincando, mas ela não percebendo que era uma brincadeira — disse que ela precisava ‘dispor de tudo para que o Plinio pegasse em armas e seguisse para o combate.’

Ela respondeu: ‘Não, não vai não! Meu filho não vai combater nessa Revolução!’. Ele fingiu-se de zangado: ‘Mas como não! É um dever da Pátria!’. Ela, com firmeza, disse: ‘Gabriel! Fique bem sabendo, o Plinio não vai entrar nesse negócio!’. Meu tio sabia que eu não iria, mas continuou a gracejar: ‘É, vocês são assim, hein? Mas se fosse para defender a religião iria!’ E ela retrucou imediatamente: ‘Aí naturalmente, Plinio seria o primeiro a ir…’

Fatos assim, muito coerentes, aconteceram durante toda a vida dela até o fim. O último eu não tive a alegria de assistir, por estar convalescente de uma grave crise de diabetes. Mas o médico, Dr. Duncan, me contou.

Ele estava amavelmente prestando assistência médica a ela e havia passado a noite em claro junto à sua cama. Pela manhã, ele mandou a empregada me avisar no meu quarto que mamãe estava com uma crise cardíaca fortíssima, e que estava prestes a falecer. Eu então me levantei e fui para o quarto dela.

Quando cheguei, ela tinha acabado de entregar sua alma a Deus, mas o Dr. Duncan me contou o último gesto dela. Que quando chegou o último instante, mamãe fez o Sinal da Cruz bem grande e imergiu na morte rumo à eternidade, mas com toda serenidade, decisão e força”.

*   *   * 

Era o amanhecer de 21 de abril de 1968. Naquele momento de dolorosa separação, o filho osculou sua querida mãe e disse entre lágrimas: “Mamãe me ensinou a amar Nosso Senhor Jesus Cristo, ensinou-me a amar a Santa Igreja Católica”. Haveria um obituário mais elogioso do que este?

No dia seguinte, essa tradicional dama paulista, da qual Plinio Corrêa de Oliveira se honrava de ter nascido, completaria 92 anos.

Numa carta a Júlio de Mesquita Neto — ex-diretor de um famoso jornal que ecoou ofensas caluniosas contra Dona Lucilia — o Prof. Plinio escreveu, em 15 de agosto de 1979, encerrando a missiva: “Beati mortui qui in domino moriuntur – bem-aventurados os mortos que morrem em paz com Deus. Da paz do Senhor onde se encontra, bem sei que minha querida mãe reza por mim. Segundo a ilimitada bondade de seu coração, sei que ela também está rezando pelo autor da ofensa. E pede que a este ninguém faça o mal feito a ela e a mim”.

A Dona Lucilia nosso preito de homenagem e agradecimento pelo varão que gerou e formou com caráter tão magnânimo e entregou como filho fidelíssimo da Santa Igreja Católica.

É de origem latina o nome Lucilia, cuja raiz é lux, lucis. Etimologicamente, significa luminosa ou iluminação, que pertence à luz, e está também associado a clareza e a pureza (Cfr. Oxford Dictionary of First Names, 2ª edição, 2006, p. 186).

Que desde o Céu, por tantos méritos de mãe autenticamente católica, ela ilumine ‘lucilianamente’ nossos caminhos, obtendo-nos dos Sagrados Corações de Jesus e Maria a graça de continuar no rumo do bom combate iluminado e empreendido por seu querido filho neste Vale de Lágrimas.

Da Redação de Catolicismo