2 de novembro de 2026

PURGATÓRIO

 

Cristo ressuscitado desce ao Purgatório – Philippe de Champaigne (1652). Museu dos Agostinianos, Toulouse (França).

[Continuação do post de ontem]

A palavra “Purgatório” vem do latim “purgare”, “limpar”, “purificar”, “isentar de culpa” ou “livrar de impurezas” que é o que acontece com as almas que nele estão, para que possam entrar no Céu.

O Purgatório é um estado intermediário de punição e purificação antes do Céu, e está implícito na prática judaica de oração pelos mortos (2 Macabeus 12,39-46).

Os primeiros cristãos adotaram e continuaram essa prática, como mencionado pelos primeiros Padres da Igreja. São Paulo se refere a uma prova de fogo das obras de nossa vida em 1 Coríntios 3,13-15. O próprio Jesus mencionou o perdão de certos pecados após a morte e a uma prisão da qual os impiedosos não serão libertados “até que se pague o último centavo” (Cf. São Mateus 5,26; São Lucas 12,59).

Embora o conceito da necessidade de purificação já aparecesse antes de Cristo no Judaísmo, a formulação oficial da doutrina foi desenvolvida pela Igreja Católica ao longo dos séculos, sendo confirmada em concílios como o de Florença (entre 1438 e 1445) e, sobretudo, o de Trento (1545–1563), face às heresias protestantes.

 

Concílio de Trento

No Catecismo de Trento (também conhecido como Catecismo Romano, promulgado pelo Papa São Pio V em 1566), o Purgatório é definido como o estado de purificação final para as almas que morrem na graça de Deus, mas ainda carregam o peso de pecados veniais ou penas temporais devidas a pecados já perdoados.

A doutrina definida pelo Concílio de Trento foi sistematizada no Catecismo nos seguintes pontos:

* Estado de Purificação: As almas que partem desta vida arrependidas e no amor divino, mas com imperfeições, passam por um “fogo purificador” para alcançar a santidade absoluta antes de entrar no Céu.

 

* Distinção Clara: É um estado temporário e absolutamente distinto do Inferno, pois a salvação da alma já está garantida.

 

* Eficácia da oração: O Catecismo de Trento sublinha fortemente a Comunhão dos Santos. Ele declara que os vivos podem aliviar e acelerar o processo de purificação das almas no Purgatório por meio de orações, esmolas, boas obras e, principalmente, pelo Santo Sacrifício da Missa.



Brevíssimo Catecismo sobre o Purgatório

Ø O que é exatamente o Purgatório?

— A palavra Purgatório é entendida por vezes como um lugar, e outras vezes como um estado intermediário entre o Inferno e o Céu.

É, propriamente falando, a condição das almas que, no momento da morte, estão em estado de graça, mas que não expiaram completamente as suas faltas nem alcançaram o grau de pureza necessário para desfrutar da visão de Deus — isto é, para entrar no Céu.

Isso ocorre porque no Paraíso não pode entrar nenhum vestígio de pecado ou mancha. Portanto, aqueles que ainda não pagaram completamente pelos seus pecados precisam passar pelo Purgatório.

Ø Por que o Purgatório é necessário?

Deus é a própria Santidade — muito mais do que o sol é a luz —, e nem sequer uma sombra de pecado pode subsistir diante da Sua face.

Quando a iniquidade se manifesta nas criaturas, a Santidade de Deus exige expiação; e, quando essa expiação se realiza em todo o rigor da justiça, ela é terrível.

É por isso que a Escritura diz: “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria” (Pv 9,10), como se dissesse: “A sua justiça é terrível porque a sua santidade é infinita”.

Em outras palavras, é preciso que haja um meio de purificarmos a nossa alma antes de entrarmos no Céu. Apenas os santos — que não tenham pecados a expiar — vão diretamente para o Céu.

Ø O Purgatório é eterno ou transitório?

— O Purgatório não é eterno. Um dos primeiros efeitos da ressurreição geral e do juízo final será pôr fim ao Purgatório. Após o juízo final, as almas do Purgatório serão conduzidas ao Céu por São Miguel.

O Purgatório é, portanto, para a alma que morreu em estado de graça, um estado transitório que culmina numa vida de felicidade sem fim.

Não é uma prova na qual se possa ganhar ou perder mérito, mas um estado de reparação e expiação: as almas no Purgatório não podem mais ir para o Inferno, apenas para o Céu.

Ø Que dogmas de fé a Igreja propõe a respeito do Purgatório?

— A Igreja propõe duas verdades claramente definidas como dogmas de fé:

1. Existe um Purgatório;

2. As almas que nele se encontram podem ser auxiliadas pelos sufrágios dos fiéis, especialmente pelo Santo Sacrifício da Missa.

Ø Os protestantes aceitam o Purgatório?

— A doutrina do Purgatório foi negada pelos albigenses, pelos hussitas e pelos protestantes. Lutero começou, em 1517, negando o valor das indulgências, afirmando que elas não tinham valor diante de Deus para a remissão da pena devida aos nossos pecados. Passou depois a sustentar que o Purgatório não pode ser comprovado pelas Sagradas Escrituras; que as almas no Purgatório não têm certeza de sua salvação; e que as almas no Purgatório podem pecar ao tentar escapar dos sofrimentos pelos quais passam.

Calvino e Zwinglio seguiram Lutero ao negar as indulgências, o sacrifício da Missa e o Purgatório.

Sem propriamente aceitar a doutrina católica, alguns protestantes da atualidade distanciaram-se um tanto de seus mestres nesse assunto e admitem um estado intermediário entre o Inferno e o Céu. Eles não o chamam de Purgatório, e afirmam que as almas ali presentes ainda podem adquirir méritos e satisfazer a justiça divina. Alguns sustentam que os sofrimentos do Inferno não são eternos. Ora, esse “inferno temporário” em nada se assemelha ao Purgatório ensinado pela Igreja Católica, segundo o qual todas as almas no Purgatório estão em estado de graça e não podem mais pecar.

Ø O Purgatório está na Bíblia?

— É verdade que a palavra “Purgatório” não aparece no texto sagrado, mas a ideia de uma purificação após a morte está presente, sem a menor dúvida.

Há inúmeras passagens, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, que mostram claramente que as pessoas piedosas acreditavam que os pecados dos mortos podiam ser expiados pelos vivos. Ora, esse é um elemento constitutivo daquilo que os católicos chamam de “Purgatório”.

Os Padres da Igreja, desde o início, atestaram que essas passagens se referiam ao Purgatório.

Apenas alguns exemplos:

No Antigo Testamento

Após uma batalha contra um exército pagão, quando os soldados de Judas Macabeu foram sepultar seus companheiros caídos, descobriram que vários deles haviam usado, durante o combate, amuletos que invocavam os ídolos da cidade de Jânia (também chamada de Jabneel ou Yabnel). Judas organizou uma coleta para pagar por sacrifícios expiatórios a serem oferecidos no Templo de Jerusalém.

Sua ação é louvada no Livro Sagrado: “Ao fazer isso, agiu de maneira muito excelente e nobre, visto que tinha em mente a ressurreição; pois, se não esperasse que os caídos ressuscitassem, teria sido supérfluo e insensato rezar pelos mortos. Mas, se o fez tendo em vista a recompensa esplêndida que aguarda aqueles que adormeceram na piedade, foi um pensamento santo e piedoso. Assim, ele ofereceu expiação pelos mortos para que fossem absolvidos de seus pecados” (2 Macabeus 12,38-46).

Novo Testamento

* São Paulo, 1 Cr 3,13-15: “A obra de cada um aparecerá. O dia (do julgamento) demonstrá-lo-á. Será descoberto pelo fogo; o fogo provará o que vale o trabalho de cada um. Se a construção resistir, o construtor receberá a recompensa. Se pegar fogo, arcará com os danos. Ele será salvo, porém passando de alguma maneira através do fogo.”

* São Mateus 5,25-26: “Entra em acordo sem demora com o teu adversário, enquanto estás a caminho com ele para o tribunal, para que o adversário não te entregue ao juiz, e o juiz ao guarda, e sejas lançado na prisão; em verdade te digo: não sairás de lá enquanto não pagares o último centavo.”

As provas da posição católica, tanto nas Escrituras quanto na Tradição, estão também ligadas à prática de rezar pelos mortos. Por que rezar por eles, se não se acredita no poder da oração de proporcionar alívio àqueles que ainda estão privados da visão de Deus?

Ø Qual é a importância do Purgatório no “Corpo Místico de Cristo”?

— O Purgatório ocupa um lugar de destaque em nossa santa Religião. Ele constitui uma das partes principais da obra de Jesus Cristo e desempenha um papel essencial na economia da salvação do homem.

Lembremo-nos de que a Santa Igreja, considerada em sua totalidade, é composta por três partes: a Igreja Militante, a Igreja Triunfante e a Igreja Padecente, ou Purgatório.

Essa Igreja tríplice constitui o Corpo Místico de Jesus Cristo, e as almas no Purgatório são membros dele tanto quanto os fiéis na Terra e os eleitos no Céu.

No Evangelho, a Igreja é frequentemente chamada de Reino dos Céus. Assim, o Purgatório, tal como as Igrejas celeste e terrena, é uma província desse vasto reino.

Ø O que é a “Comunhão dos Santos”?

— As três Igrejas irmãs mantêm relações incessantes entre si e uma comunicação contínua, a que chamamos de Comunhão dos Santos.

Essas relações não têm outro objetivo senão conduzir as almas à glória eterna, a meta final para a qual todos os eleitos se dirigem.

As três Igrejas auxiliam-se mutuamente no povoamento do Céu, que é a cidade permanente das almas, a Jerusalém gloriosa.

Ø Com que espírito devemos ter devoção pelas almas do Purgatório?

— As orações, sacrifícios e sufrágios que oferecemos pelos falecidos fazem parte do culto católico, e o Espírito Santo infunde nos corações dos fiéis, com a caridade, a devoção pelas almas do Purgatório.

A Sagrada Escritura diz: “É, pois, um pensamento santo e salutar rezar pelos mortos, para que sejam purificados dos pecados” (2 Macabeus 12,46).

Para ser perfeita, a devoção pelas almas do Purgatório deve ser animada por um espírito que combine temor e confiança.

Por um lado, a santidade de Deus e a sua justiça inspiram-nos um temor salutar. Por outro, a sua infinita misericórdia concede-nos uma confiança ilimitada.

Ø Por que o temor do Purgatório é salutar?

— De fato, o temor do Purgatório é salutar. Seu efeito é despertar em nós não apenas uma compaixão caridosa pelas almas que sofrem no Purgatório, mas também um zelo vigilante pelo nosso próprio bem espiritual.

Pensemos no fogo do Purgatório e assim nos esforçaremos para evitar as menores faltas; pensemos no fogo do Purgatório e faremos penitência para satisfazer a Justiça Divina neste mundo, e não no outro.

Ø Como manter o equilíbrio entre o temor e a confiança?

— Guardemo-nos, porém, do temor excessivo e não percamos a confiança. Não esqueçamos a misericórdia de Deus, que não é menos infinita do que a sua justiça.

Se estivermos animados por esse duplo sentimento, se a nossa confiança na misericórdia de Deus for igual ao temor que a sua justiça nos inspira, teremos o verdadeiro espírito de devoção às almas do Purgatório. 

1 de novembro de 2026

PURGATÓRIO — A grande misericórdia de Deus que nos permitirá vê-Lo face a face

 


Plinio Maria Solimeo

✅ Fonte: Revista Catolicismo, Nº 911, novembro/2026 

         Os acontecimentos da vida moderna se sucedem numa tal celeridade, que sem nos darmos bem conta chegamos novamente às celebrações de Todos os Santos e Finados.

A festa de Todos os Santos comemora aqueles que, tendo falecido na graça de Deus, gozam já da felicidade eterna e veem a Deus face a face. Por isso, independentemente de terem sido beatificados ou canonizados, são chamados “santos”.

A Igreja, essa Mãe e Mestra que no decurso do ano celebra a festa de cada santo em particular, os reúne todos neste dia numa solenidade comum, na qual, numa visão grandiosa, engloba a multidão inumerável daqueles outros falecidos na graça de Deus, não beatificados ou canonizados, cujo nome só Ele conhece. Eles procedem “de todas as nações, tribos, povos e línguas, [os quais] de pé diante do trono e diante do Cordeiro, vestidos com túnicas brancas e de palmas na mão” (Ap 7, 9), aclamam Aquele que os resgatou com seu Sangue preciosíssimo.

No dia seguinte, Finados, a Igreja comemora todos aqueles “que nos precederam com o sinal da fé e dormem o sono da paz” (Cânon Romano, Memento dos mortos) e por isso se salvaram, mas que, não tendo saldado em vida o débito de todas as suas faltas, permanecem no Purgatório (ver quadro que postaremos amanhã, dia 2 de novembro).

 

Necessidade de se meditar nos “Novíssimos”

As solenidades litúrgicas de Todo os Santos e Finados nos convidam a meditar, como aconselha o livro do Eclesiástico (7,40), naquilo que nos acontecerá depois da morte: “Em todas as tuas obras, lembra-te dos teus novíssimos, e jamais pecarás.”

“Novíssimos” (do latim “novus”, último, que vem em último lugar) é como a Igreja designa os últimos e definitivos eventos a que todo ser humano deve passar ao fim da vida terrena: a morte, o juízo particular, a desgraça eterna ou a eterna bem-aventurança. A tradição popular os reduziu a uma rima, para facilitar a memorização: “morte, juízo, inferno, paraíso”.

Deles ninguém escapa, seja Papa, Imperador ou carvoeiro, como nos lembra a liturgia da Quarta Feira de Cinzas, quando as recebemos das mãos do sacerdote: “Memento homo quia pulvis es et in pulverem reverteris” (“Lembra-te, homem, de que és pó, e ao pó voltarás” (Gn 3,19).

 

Finados: comemoração das almas do Purgatório

A Santa Madre Igreja, Esposa Mística do Cordeiro, não podia se esquecer daqueles que, tendo morrido na graça de Deus, ainda precisam remir-se de faltas ou imperfeições no Purgatório.

Essa celebração litúrgica surgiu na Idade Média — “a doce primavera da fé”, como a definiu o historiador francês Montalembert — com Santo Odilon, Abade de Cluny, ao determinar que em todos os mosteiros dependentes de sua Ordem o dia seguinte ao da festa de Todos os Santos fosse dedicado ao sufrágio das almas dos falecidos pertencentes a ela. Seguindo seu exemplo, a Igreja estendeu essa comemoração à Igreja Universal.

A expressão “finados” se refere somente àqueles que se encontram no Purgatório; não inclui os que já estão no Céu nem, menos ainda, os falecidos que não se salvaram. Pois a Santa Igreja, por mais que seja Mãe compassiva, não poderia comemorar as almas daqueles a quem Deus, em sua Justiça, rejeitou.

Nesse sentido, São Tomás de Aquino afirma que é desnecessário rezar pelas almas que estão no Céu (pois já estão salvas) e é inútil implorar pelas que estão no inferno (pois já estão condenadas); umas e outras atingiram seu destino eterno, definitivo, imutável.

 

Purgatório, dogma do qual muitos se esquecem

O teólogo belga Pe. François Xavier Schouppe S.J. escreveu um excelente e detalhado livro sobre o Purgatório,1 objeto principal da celebração do Dia de Finados.

Na introdução, ele lamenta: “O Dogma do Purgatório está muito esquecido pela maioria dos fiéis católicos. A Igreja Padecente, na qual temos tantos parentes para socorrer e para onde prevemos que um dia iremos, parece-nos uma terra estranha. As principais causas disso são a ignorância e a falta de fé; porque hoje em dia as nossas noções concretas sobre o Purgatório são muito vagas, e nossa fé muito fraca.”

Esse esquecimento daqueles que se foram é resumido pelo gênio francês em uma só frase: “Les morts vont vite”... (Os mortos vão rápido...).

 

Pecado – o maior mal que há no mundo

         Não se pode tratar do Purgatório nem do Inferno sem falar do pecado. Pois o Inferno foi criado para punir o pecado dos anjos que se revoltaram, como disse o Divino Mestre (Mt 25, 41): “Apartai-vos de mim, malditos. Ide ao fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos.”

         Quanto ao Purgatório, se a Igreja sempre rezou pelas almas dos mortos que nele estão, é porque sempre creu que essas almas deveriam purgar, nesse lugar de expiação, os pecados e imperfeições que não expiaram estando na Terra.

 

Santo Agostinho (Irmanda de do Cachorro [Filhote] de Triana, Sevilha, Espanha).

O que é o pecado?

De acordo com os ensinamentos de Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, pecado é qualquer “ato, palavra ou desejo contrário à lei eterna”, ou seja, à lei divina,2 que é a primeira e suprema regra moral, fundamento das demais.

A definição clássica da teologia moral católica para descrever a essência do pecado está contida na célebre fórmula cunhada pelo Santo bispo de Hipona: “Aversio a Deo et conversio ad creaturas” (afastar-se de Deus e voltar-se para as criaturas).

 

Condições para que haja pecado, mortal ou venial

Recordemos brevemente o que nos ensina a Igreja: Para que haja pecado mortal, segundo a doutrina católica, três condições devem ocorrer simultaneamente:

·        Matéria grave: O ato deve ser uma violação séria da lei natural ou dos Mandamentos (exemplo: aborto, assassinato, furto, adultério).

·        Pleno conhecimento: A pessoa deve ter total consciência de que o ato é pecaminoso e grave no momento em que o comete.

·        Consentimento deliberado: A ação deve ser escolhida e praticada com total liberdade, sem coação externa ou medo insuperável.

Se faltar alguma dessas três condições em um ato que é objetivamente grave, o pecado é considerado venial.

         Apesar de o pecado venial ser uma ofensa mais leve, que não rompe a comunhão com Deus, ele não é sem consequências.

O Catecismo da Doutrina Católica, também chamado Catecismo de São Pio X, enumera os prejuízos para a alma causado pelo pecado venial: “Enfraquece e esfria em nós a caridade; dispõe-nos para o pecado mortal; faz-nos merecedores de grandes penas temporais neste mundo e no outro.” Ou seja, teremos que expiá-lo no Purgatório.

 

O pecado é a raiz de todos os outros males

Para os filósofos ateus, os pagãos e, infelizmente, até para certos eclesiásticos, o maior mal do mundo seria o sofrimento humano (sem referência a Deus) em suas diversas formas, como a ignorância, a injustiça, a violência, a fome e a desigualdade. E não só a dor humana: também o sofrimento dos animais e insetos, das plantas e até das pedras. Sobretudo o sofrimento da “Mãe Terra” (Pachamama...).

O pecado é o maior mal que há no mundo, porque é a raiz de todos os outros males, por representar um rompimento do homem com Deus e com o próximo. Em última análise, na frase lapidar de Santo Agostinho, é “o amor de si próprio levado até ao desprezo de Deus”.3

O Papa Pio XII (1939-1958) se lamentava: “Hoje o maior pecado do mundo é talvez o de terem os homens começado a perder o sentido do pecado.” (Discorsi, VIII, p. 288). Isso naquela época. O que diria ele de nossos dias?

        

Catecismo da Doutrina Católica de São Pio X, publicado em 1913 por Fratelli Lanzani Tipografi.

Horror ao pecado, mesmo venial

Não era assim nos tempos de maior fé.

A grande Santa Teresa dizia às suas filhas do Convento São José, de Ávila, no seu livro Caminho da Perfeição, escrito especialmente para elas: “Deus nos livre de qualquer pecado, por menor que seja, cometido com pleno conhecimento, uma vez que estamos pecando contra tão grande Soberano mesmo realizando que Ele nos está olhando. Isso me parece ser um pecado de malícia premeditado. É como se se dissesse: ‘Senhor, embora Vos desagrade, eu o farei. Eu sei, Senhor... mas prefiro seguir meu próprio capricho e desejo que vossa vontade.”

Era tão grande o horror que o pecado causava aos santos, que uma vez São Luís Gonzaga desmaiou aos pés de seu confessor ao ter que confessar dois pequenos pecados veniais.

Infelizmente, incontáveis pessoas vivem no mundo habitualmente em pecado mortal. O que lhes acontecerá se, não se arrependendo e se confessando antes da morte, forem chamadas por Deus para prestarem contas?

Santa Teresa comenta também que se o pecador pudesse compreender o que sucede à alma que está em pecado mortal, “não seria possível a ninguém pecar, mesmo que tivesse que empreender os maiores esforços que se possa imaginar para evitar pecar”.4

 

Resposta a uma objeção

Se as almas que estão no Purgatório se salvaram e não podem mais pecar, por que têm que continuar a sofrer tanto no lugar de expiação?

Essa objeção poderia ser formulada de outro modo: “Por que castigar com uma pena eterna um pecado que dura apenas um momento?” É como a formula em uma de suas obras Santo Afonso Maria de Ligório, Doutor da Igreja e um de seus maiores moralistas, fundador e missionário. Como resposta, ele interpela o suposto objetante: “E como pode o pecador ter a audácia de ofender, por um prazer momentâneo, uma Majestade infinita?”.

Muito didático, ele explica que “até a justiça humana, como diz São Tomás, mede a pena não pela duração, mas pela qualidade do crime. Por isso, uma ofensa feita a um Deus infinito merece um castigo infinito. Como a criatura humana, por ser finita, não é capaz de sofrer uma pena infinita em intensidade, é com justiça que Deus torna a pena infinita em sua duração”.5

 

Nosso dever para com as almas do Purgatório

As almas que estão no Purgatório podem rezar por nós, mas não por si mesmas, porque o tempo de merecimento para elas terminou no momento da morte. Já estão salvas, mas como não acumularam méritos suficientes em vida, dependem inteiramente da intercessão dos que fazem parte da Igreja Militante na Terra para o alívio de suas penas.

A Santa Missa é a maior dádiva que se pode oferecer a uma alma do Purgatório, pois é o sacrifício do próprio Corpo, Sangue e Alma de nosso Divino Salvador. Por isto, um dos meios mais eficazes para socorrermos os nossos falecidos é rezar por eles, principalmente mandar celebrar Missas na intenção de suas almas: de sétimo dia, de mês, de ano, atitude tão comum até pouco tempo atrás, mas que está desaparecendo devido à paganização crescente do mundo. Nesse sentido, há uma antiga tradição, a das chamadas Missas Gregorianas. (ver quadro que postaremos no dia 3 de novembro).

Outro grande meio de auxiliar a alma de um parente, amigo ou mesmo às almas em geral, é oferecendo por elas as indulgências por nós merecidas.

Indulgência é a remissão, perante Deus, da pena temporal devida aos pecados cuja culpa já foi apagada; remissão que o fiel, devidamente disposto, obtém em certas e determinadas condições, pela ação da Igreja, a qual, enquanto dispensadora da Redenção, distribui e aplica por sua autoridade o tesouro das satisfações de Cristo e dos santos.

A indulgência é chamada parcial ou plenária conforme liberta parcialmente ou na totalidade da pena temporal devida ao pecado. O fiel pode lucrar indulgências para si mesmo, ou aplicá-las aos defuntos. Não pode, porém, aplicá-las às pessoas vivas, porque elas têm a possibilidade de fazê-lo por si mesmas.

 

Valor das boas obras

Sobre o valor das boas obras, o Concílio de Trento (1545–1563) definiu que, para os católicos, as boas obras realizadas em estado de graça têm um valor meritório autêntico. Segundo esse Concílio, as boas obras não são apenas um reflexo da fé, mas merecem da parte de Deus o aumento da graça santificante nesta vida e o aumento da glória no Céu.

As obras de misericórdia são ações de caridade essenciais no catolicismo. A Igreja ensina que socorrer o próximo em suas necessidades materiais (corporais) e espirituais é um meio de obter a vida eterna, um caminho de santificação e uma condição para o perdão final.

Ora, uma das obras de caridade mais eminentes é a obtenção de indulgências, aplicáveis aos entes queridos falecidos que sofrem no Purgatório e às pobres almas em geral.

Ditosos seremos se, com São Paulo, pudermos dizer no fim da vida: “Combati o bom combate, terminei minha carreira, guardei a fé. Já me está preparada a coroa da justiça, que naquele dia me outorgará o Senhor, justo juiz, e não só a mim, porém a todos os que amam a sua vinda” (2 Tm 4, 7).

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Notas:

1. O Dogma do Purgatório, Ilustrado pelas Vidas e Lendas dos Santos [Purgatory Illustrated by the Lives and Legends of the Saints] Disponível em https://archive.org/stream/purgatory00scho/purgatory00scho_djvu.txt

2. Santo Agostinho, Contra Faustum manichoeum, 22, 27: PL 42, 418

3. Santo Agostinho, De civitate Dei, 14, 28.

4. Castelo Interior, n. 2.

5. Meditações para todos os dias do ano, edição Magnificat, 2019, p. 138.

31 de outubro de 2026

Deturpação do luto ao longo das épocas



✅  Plinio Corrêa de Oliveira 

Em uma das extraordinárias visões com que foi favorecida por Nosso Senhor, Santa Gertrudes conta em seu livro que Deus é tão ávido do amor das criaturas, que lança mão de todos os artifícios para conservá-las unidas a Ele. 

Assim é que, para desapegá-las das coisas criadas, envia às vezes certas provações, que têm por efeito mostrar-lhes como são ilusórias todas as coisas terrenas, quanto às felicidades que proporcionam. Efetivamente, até os mais legítimos afetos humanos não são isentos da dor e da instabilidade! 

É curioso como nossa época perdeu completamente a noção cristã da dor. A evolução é fácil de se descrever. A resignação cristã, ao mesmo tempo que faz conservar, entre os vivos, a memória constante dos mortos, lembrados aos sufrágios da Igreja militante por inúmeras orações, proporciona, no entanto, aos vivos aquela força de espírito necessária para não sucumbir ao sofrimento constantemente reavivado, das saudades dos mortos por quem continuamente rezamos. 

Veio o surto pagão. Começou por hipertrofiar um dos sentimentos que compunham a resignação. Exaltou a dor, as saudades, os desgostos irremediáveis. Todo mundo passou a entender que, para ser “decente”, a dor precisaria ser acompanhada de gritos lancinantes, de desmaios, às vezes de suicídios. 

O convencionalismo, o caráter exageradamente dramático, e às vezes ridículo de tais encenações, provocou uma reação em sentido absolutamente contrário. Passou-se a pregar a indiferença. 

Os lutos se encurtam cada vez mais. Tendem a ser inteiramente abolidos, não somente nas roupagens (o que constitui um simbolismo muito bonito, e uma homenagem tocante ao morto), mas também no prazo em que se devem as pessoas afastar de festas e cinemas. Não é mais nas preces que se vai buscar a resignação. Afogam-se simplesmente as saudades no jazz e no champagne. 

Quanto ao morto, é imediatamente incinerado, e guardado prudentemente em uma pequena urna inexpressiva, onde seus restos mortais deverão ocupar o menor espaço material possível... do mesmo modo porque sua lembrança deve também ser reduzida ao mínimo na memória dos viventes! É pagão, brutal e duro a mais não poder. 
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Excertos de uma carta de Plinio Corrêa de Oliveira a Alceu Amoroso Lima (pseudônimo: Tristão de Athayde), datada de 30 de novembro de 1931.

30 de outubro de 2026

PURGATÓRIO: a misericórdia de Deus abre às almas purificadas as portas da felicidade eterna

Em primeiro plano, uma estátua representando numa sepultura as saudades dos entes queridos que partiram. Entretanto, aqueles cujas almas estão no Purgatório necessitam mesmo é de nossas orações.


 

A morte não extingue os vínculos da caridade cristã. Rezemos pelos nossos entes queridos que muito precisam ser socorridas pelas nossas orações — uma verdade de Fé muito esquecida — como por Missas e indulgências que podemos obter. O Dia de Finados recorda esse dever de caridade e a esperança da vida eterna. 


✅ Fonte: Revista Catolicismo, Nº 911, novembro/2026 

Em nossa época, marcada pelo esquecimento da morte e das realidades eternas, a celebração de Finados, em 2 de novembro, traz aos católicos uma advertência e um convite: recordar nossos entes queridos que faleceram e, sobretudo, rezar por suas almas que padecem no Purgatório. Como esses temas são verdades muito esquecidas, eles correspondem à parte central da edição de novembro da revista Catolicismo.

Muito além das visitas aos cemitérios, das flores e das homenagens aos falecidos, a data possui um profundo significado religioso. Segundo a doutrina católica, as almas que morreram na graça de Deus, mas ainda necessitam de purificação, encontram-se no Purgatório, onde se preparam para entrar na glória eterna do Céu. 

As almas que se encontram no Purgatório já estão seguras de um dia irem para o Céu. Entretanto, precisam expiar as penas temporais devidas aos pecados e purificar-se de suas imperfeições antes da felicidade de contemplar Deus face a face. 

Essa verdade de fé, frequentemente esquecida, foi reafirmada pelos Concílios de Florença e de Trento e encontra fundamento na Sagrada Escritura e na Tradição da Igreja. O Segundo Livro dos Macabeus recorda que é um pensamento santo rezar pelos mortos, para que sejam libertados de seus pecados e imperfeições (2 Mc 12,46). 

A comemoração litúrgica de Finados difundiu-se a partir da Idade Média por iniciativa de Santo Odilon, Abade de Cluny, que estabeleceu o dia seguinte à festa de Todos os Santos como ocasião especial de sufrágios pelos falecidos. Posteriormente, essa prática se estendeu aos católicos do mundo inteiro. 

O costume expressa uma das mais belas manifestações da Comunhão dos Santos: a união espiritual entre os fiéis que se encontram na Terra, os bem-aventurados do Céu e as almas que se purificam no Purgatório. 

Em sua obra sobre o tema, o jesuíta François Xavier Schouppe (1823-1904) lamentava que o dogma do Purgatório estivesse sendo esquecido, mas em nosso século tal esquecimento não fez senão aumentar, até mesmo entre os próprios católicos. 

Como meio mais eficaz de socorrer as almas do Purgatório a Igreja destaca o Santo Sacrifício da Missa, além das orações, penitências, esmolas e indulgências aplicadas aos defuntos. 

Antiga tradição são as chamadas Missas Gregorianas — uma série de 30 Missas celebradas em sufrágio da alma de um falecido —, prática associada a São Gregório Magno e particularmente estimada pela piedade católica. 

O Dia de Finados constitui também ocasião para meditarmos nos chamados Novíssimos: Morte, Juízo, Inferno e Paraíso. Como ensina o Livro do Eclesiástico: “Em todas as tuas obras, lembra-te dos teus novíssimos, e jamais pecarás” (Ecl. 7,40). 

A mensagem central dessa comemoração é, portanto, de caridade e esperança. Os mortos não precisam apenas de nossa saudade: precisam, sobretudo, de nossas orações. E nós, que hoje rezamos pelos falecidos, poderemos um dia necessitar da mesma caridade...


26 de outubro de 2026

AMÉRICA LATINA — Rejeição continental aos candidatos de esquerda

 


*      Juan Antonio Montes

 

O presidente do Partido Comunista do Chile, Lautaro Carmona, durante uma recente visita à infeliz ilha de Cuba, fez os mais absurdos elogios ao ex-ditador das Antilhas: “Nós, comunistas chilenos, temos a honra de participar deste colóquio centenário do camarada Fidel [...] um traço essencial de sua ética, seu humanismo, sua humanidade, que não conhecia limites”.*

Para o líder comunista chileno, entretanto, nem tudo são flores. O avanço da direita é considerado, nessas mesmas declarações, como “o perigo mais significativo que a humanidade enfrenta. A expressão recalcitrante da extrema-direita fascista está se consolidando em nossos países”.

As apreensões do comunista chileno sobre a expansão de governos de direita no continente fazem mais sentido do que sua ladainha em favor do falecido ditador das Antilhas.

De fato, em nenhum período histórico recente se observou uma sequência tão grande de resultados eleitorais favoráveis ​​a candidatos de direita e fracassos tão retumbantes da esquerda.

 

Guinada à direita na Argentina

Tudo começou com o fracasso do kirchnerismo na Argentina e a ascensão do candidato Javier Milei, o mais opositor ao projeto socialista peronista, com 55,65% dos votos. Milei foi eleito em 10 de dezembro de 2023 e, posteriormente, em outubro do mesmo ano, seu partido, “La Libertad Avanza (LLA)”, obteve aproximadamente 40,7% dos votos em âmbito nacional, confirmando assim a guinada à direita nas preferências da opinião pública argentina.

Enquanto isso, a ex-presidente Cristina Kirchner enfrenta um processo judicial particularmente desfavorável.

A partir da Argentina, a sucessão de resultados eleitorais que favorecem as posições mais à direita nos respectivos países justifica a visão alarmante com que esses resultados são encarados pelo comunismo internacional.

 

O ditador cubano, Fidel Castro, junto ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no Palácio da Revolução, em Havana (26-09-2003)

Fracasso do retorno da esquerda equatoriana

Em 13 de abril de 2025, no Equador, Daniel Noboa foi reeleito presidente com 55,63% dos votos, derrotando a candidata Luisa González, que tinha o apoio dos partidários do ex-presidente Rafael Correa, que aspirava retornar ao Equador por meio de sua candidatura.

Seus planos, porém, fracassaram. O mentor da candidata González foi forçado a permanecer na Bélgica, fora do alcance da justiça equatoriana, enquanto uma condenação e outros processos judiciais pendentes pairam sobre ele.

 

Bolívia e Honduras derrotam a esquerda

Apenas quatro meses depois, em 17 de agosto do mesmo ano, a Bolívia teve a oportunidade de se juntar a essa onda de vitórias anticomunistas.

No primeiro turno, Rodrigo Paz venceu com aproximadamente 32,1% dos votos, enquanto Jorge Quiroga obteve cerca de 27,3%. No total, os dois candidatos de centro-direita obtiveram a maioria absoluta dos votos.

O resultado do segundo turno, que concedeu a vitória ao candidato de centro-direita, Rodrigo Paz, marcou o fim de quase duas décadas de domínio do Movimento para o Socialismo (MAS-IPSP), liderado por Evo Morales.

Assim como os ex-presidentes da Argentina e do Equador, Evo Morales permanece foragido da justiça boliviana, refugiando-se em seu reduto político e evitando comparecer ao tribunal para se defender das graves acusações que lhe são imputadas.

Em novembro, Honduras aderiu a essa onda de rejeição à esquerda. No dia 30 de novembro, o candidato de direita, Nasry Asfura, venceu uma disputa acirrada e prolongada com 40,26% dos votos.

 


Chile e Costa Rica confirmam tendência à direita

Menos de um mês depois, em 14 de dezembro, o Chile vivenciou uma das mudanças políticas mais significativas da região. José Antonio Kast, posicionado bem à direita do espectro político, obteve expressivos 58,2% dos votos, derrotando a candidata comunista Jeannette Jara.

O resultado reafirmou a tendência que varre a América Latina: o avanço inexorável das opções de direita e a rejeição eleitoral dos candidatos de esquerda.

Mas não parou por aí. Em 1º de fevereiro deste ano, a Costa Rica também aderiu a essa tendência. Laura Fernández, candidata de direita e sucessora do projeto político do presidente Rodrigo Chávez, obteve quase 50% dos votos e venceu no primeiro turno. Seu partido também alcançou um resultado histórico no Parlamento, aumentando sua representação de 8 para 30 das 57 cadeiras, garantindo uma ampla maioria legislativa.

O resultado na Costa Rica confirmou que a guinada política à direita não foi um fenômeno isolado, mas sim uma tendência que continua a se propagar por toda a região.

 

Colômbia, Peru e também rumaram à direita

Mas a reação em cadeia não se deteve aí. Recentemente, Colômbia e Peru também entraram no novo mapa político latino-americano. Na Colômbia, a derrota de Iván Cepeda significou o fim do governo de Gustavo Petro e a ascensão de Abelardo de la Espriella, um candidato considerado por comentaristas políticos muito à direita e com um discurso católico tradicional. Entre suas promessas, de la Espriella espera consagrar novamente a Colômbia ao Sagrado Coração de Jesus.

No Peru, Keiko Fujimori derrotou o esquerdista Roberto Sánchez e trouxe o fujimorismo de volta ao Palácio Presidencial.

Assim, o que inicialmente poderia ter parecido uma série de episódios isolados adquiriu as características de uma clara tendência continental.

         Argentina, Equador, Bolívia, Honduras, Chile, Costa Rica, Colômbia e Peru: oito países nos quais, com diferentes graus de intensidade e sob diferentes lideranças, o eleitorado se deslocou para a direita ou centro-direita.

A essa lista de nações que escolheram candidatos de direita, poderíamos acrescentar o presidente Bukele, que, desde sua eleição como presidente de El Salvador em 2019, tem adotado posições cada vez mais caracterizadas por sua ênfase em segurança, ordem e combate frontal ao crime, e que tem sido uma referência para os candidatos mencionados nessas questões.

 

Os novos governos corresponderão às esperanças anticomunistas?

Essa sequência de fracassos das opções de esquerda explica as já citadas declarações do comunista chileno Lautaro Carmona, que afirmou estarmos diante do “perigo mais significativo que a humanidade enfrenta. A expressão recalcitrante da extrema-direita fascista está se consolidando em nossos países”.

Aqueles que veem esses resultados com bons olhos não podem deixar de se perguntar se eles serão duradouros ou se representam apenas um breve alívio. Parece cedo demais para responder a essa importante questão; contudo, algumas conjecturas podem ser feitas.

É evidente que a guinada à direita na América Latina não é resultado de uma conversão ideológica repentina. É, antes de tudo, resultado de um voto de protesto: um protesto contra a insegurança, contra o declínio econômico, contra a corrupção, contra a imigração descontrolada e contra governos de esquerda caracterizados por um populismo demagógico na esfera cultural e por uma tendência estatista fracassada na área econômica.

Portanto, cabe aos novos governos corresponder às expectativas que criaram e não abandonar os princípios que os levaram ao poder. Se atenderem a essas expectativas, garantirem o crescimento de suas respectivas economias e restaurarem o Estado de Direito, certamente conseguirão transferir o poder para novos candidatos de seu setor.

Rogamos à Divina Providência que conceda orientação especial a esses governantes e os conduza pelo caminho de uma verdadeira civilização cristã.


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Fonte: Revista Catolicismo, Nº 910, outubro/2026

*Cfr. "Carmona (PC) alaba a Fidel y dice que avance de la derecha es el principal 'peligro' para la 'humanidad'", “EL Mercurio”, 12 de agosto, 2026.