20 de abril de 2026

150 ANOS DE UMA TRADICIONAL DAMA PAULISTA

 

Dona Lucilia em Paris (1912) 

Nossas homenagens no sesquicentenário do nascimento de Da. Lucilia Ribeiro dos Santos Corrêa de Oliveira, extremosa mãe do idealizador e principal colaborador de Catolicismo, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira

Fonte: Revista Catolicismo, Nº 903, abril/2026

Nossos leitores bem conhecem Plinio Corrêa de Oliveira. Pouco conhecem, entretanto, a respeito de quem lhe deu a vida e o formou no amor de Deus, inculcando-lhe desde a mais tenra idade a devoção aos Sagrados Corações de Jesus e de Maria e o amor à Santa Igreja Católica Apostólica Romana, à qual ele dedicou toda a sua vida, lutando incansavelmente em sua defesa e da civilização cristã dela nascida e combatendo seus adversários.

Lucilia Ribeiro dos Santos Corrêa de Oliveira pertencia à tradicional linhagem dos paulistas denominados quatrocentões — provenientes dos fundadores ou dos primeiros povoadores da cidade de São Paulo, inclusive alguns bandeirantes. Dentre seus antepassados maternos, destacou-se, durante o reinado do Imperador D. Pedro II, o Prof. Gabriel José Rodrigues dos Santos (1816-1858), catedrático da renomada Faculdade de Direito de São Paulo, advogado, orador brilhante, deputado provincial e mais tarde nacional.

O Prof. Plinio sempre manifestou suma gratidão a Dona Lucilia pela formação religiosa, moral e psicológica que ela lhe imprimiu. De uma esmerada educação e modo de ser bem característico das famílias aristocráticas da São Paulo de outrora, ela possuía uma cordialidade exemplar no trato com as pessoas. Era também de uma piedade exemplar no trato com as coisas sagradas. Virtudes que tão bem transmitiu ao filho, como que por osmose permeadas de alma a alma.

Certa vez, ele comentou que sua devoção ao Sagrado Coração de Jesus remontava à mais tenra infância, e que — conta-se entre seus familiares —, antes mesmo de aprender a pronunciar as palavras mamãe e papai, ela lhe ensinara a apontar para a imagem do Sagrado Coração quando lhe perguntavam onde estava Jesus, e as primeiras palavras que dela aprendeu a pronunciar foram Jesus e Maria.

A devoção ao Sagrado Coração de Jesus marcou profundamente a vida de Dona Lucilia, que soube bem comunicá-la ao filho, como se verá no texto que segue — assim como na entrevista que reproduziremos proximamente —, mas muitos outros aspectos podem-se destacar em seu caráter e em sua alma. 

Assim, para homenageá-la neste mês em que recordamos os seus 150 anos, escolhemos para nossos leitores alguns comentários do Prof. Plinio que ressaltam primordiais aspectos dela.

 

Lucilia com 23 anos

Inflexibilidade, suavidade,

gentileza, coerência

         Durante um almoço, conversando com discípulos, todos membros da TFP, que se encontravam na fazenda Morro Alto de Nossa Senhora do Amparo (na cidade de Amparo, no interior paulista), em 12 de agosto de 1988, pediram ao Prof. Plinio que explanasse sobre os principais traços que mais admirava em sua mãe.

Não era de seu costume tomar a iniciativa de falar a respeito dela, mas o fazia quando insistiam para que tratasse do assunto. Foi o que se passou nesse almoço, cujo texto, extraído de fita magnética (K-7), reproduzimos a seguir. Apenas o transpomos para a linguagem escrita o que fora dito de modo informal numa conversa durante uma refeição.

*   *   *

“Constituía traço dominante da alma dela [Dona Lucilia] uma seriedade grave, mas paradoxalmente muito suave; uma pessoa muito certa e segura no julgar as coisas; um espírito muito ‘pão-pão, queijo-queijo’, pouco sujeito a dúvidas.

Ela podia hesitar no tocante a coisas pequenas e secundárias, mas nas grandes linhas gerais da vida, nas convicções, no modo de tocar os seus afazeres, ela não tinha um pingo de hesitação. Era feita de certezas — certezas calmas, lúcidas, de quem via logo à primeira vista e com muita nitidez o que era verdade e o que era o erro, o que era o bem e o que era o mal, o que era o feio e o que era bonito. Ela aderia inteiramente ao ‘Verum, Bonum, Pulchrum’ [Verdadeiro, Bom e Belo — três dos transcendentais do ser, como ensina a filosofia escolástica. O Verum aponta para a inteligência, o Bonum para a vontade, e o Pulchrum para a contemplação].

Uma alma com uma honestidade, com uma limpidez, que faziam uma espécie de um só com ela. Uma sinceridade que a levava a não querer senão o ‘Verum, Bonum, Pulchrum’. Aquilo que ela queria, queria mesmo, fortemente, e o que não fosse isso ela rejeitava. A aceitação era aceitação forte, a rejeição era a rejeição, a convicção era convicção, a negação era a negação e a inflexibilidade verdadeiramente inflexível, mas suave e gentil.

Família Ribeiro dos Santos, da esq. para dir.: Antônio (Toni), Gabriel, Dr. Antônio, Da. Gabriela, Eponina (Yayá), Lucilia e a pequena Brazilina (Zili). [Foto de 1899]


Acrescente-se a isso uma tendência de espírito a ver as coisas sempre pelo lado maravilhoso e pelo seu mais alto aspecto. Ela tinha um espírito muito elevado. Quando se conversava com ela sobre determinado tema, tendia logo a colocá-lo no mais alto, conforme seu feitio intelectual, como uma senhora e mãe de família.

Junto com esses aspectos, ela era uma pessoa que tinha ao mesmo tempo muita alegria de viver e muita tristeza acumulada. Ela tinha ideia de como deveria ser a vida, e tinha ideia de que a vida era um Vale de Lágrimas, e que, portanto, normalmente as pessoas deveriam passar pelo sofrimento.

Ela nasceu em Pirassununga [no dia 21 de abril de 1876], no interior de São Paulo, onde seu pai advogava no começo de sua carreira. Depois, ele mudou-se para a capital [em 1893], onde fundou um escritório de advocacia e prosperou.

Ela, já idosa, se referia a Pirassununga como se fosse o dia de ontem. Contava coisas de sua cidade natal com verdadeiro encanto, por exemplo, dos colibris da cidade. Falava que havia tantos que — numa sala da casa onde ficavam expostos dois óleo-gravuras representando buquês de diversas flores — eles se iludiam e batiam com o bico no vidro do quadro. Certa vez um deles bateu com tanto ímpeto que caiu no chão, e que uma tia molhou o bico do beija-flor para ele se recompor e voltar a voar. Mamãe contava isso, e um mundo de outros episódios, mas tudo com pormenores, vendo o alcance simbólico das coisas, como, no caso, a delicadeza e a beleza dos colibris.

Ela possuía um espírito elevado, mas capaz de descer aos últimos pormenores e se entreter com uma simples pétala de flor e outras coisas pequenas, mas também com recordações dela em Paris, na Alemanha, no Rio de Janeiro ou com episódios da sociedade.

Ela gostava também de contar muitos casos da vida quotidiana. Em todas as suas narrativas ela revelava a variedade de sua alma, considerando os aspectos simbólicos e morais com certo fundo religioso.

Lembro-me dela falando das festas de seu tempo. Por exemplo, de um baile que houve no palacete do Conde Álvares Penteado. Ela descrevia com pormenores a casa toda ornamentada; que sua mãe, Dona Gabriela Ribeiro dos Santos (1852-1934), uma senhora realmente muito bonita e de grande distinção, fora escolhida para dançar com o Conde.

Sobre todas as coisas mamãe gostava de comentar, desde o Conde até uma velha senhora de Pirassununga; da visita que tinha feito a Neuilly-sur-Seine até a visita à Princesa Isabel, mas tudo sob o ângulo de análises dos ambientes e costumes, marcando os comentários com o aroma de uma boa formação moral.

Na família se conversava muito sobre política, mas nisso ela não entrava, não tomava partido. Entretanto, quando eclodiu a I Guerra Mundial, ela não aceitou que a Alemanha invadisse a França. Quando foi atingida a Catedral de Reims, por um bombardeio alemão, ela tomou aquilo como se tivessem atingido a própria casa dela. Ela acordava cedo e ia ver nos jornais as notícias da guerra. Comentava com meu pai, pois eu, muito menino ainda, não entendia.

Imagem do Sagrado Coração
 que pertenceu a Dona Lucilia

Entretanto, mamãe melhor se manifestava ela mesma nos momentos em que estava rezando. Nesses momentos, eu tinha impressão de que todas as qualidades dela cresciam e se estabelecia uma espécie de vínculo entre o Sagrado Coração de Jesus e ela — mas sem visões nem milagres ou revelações. Era uma espécie de relacionamento por onde toda a bondade dela, todo seu modo de ser era em parte produto da tradição brasileira, mas era muito mais fruto da devoção dela ao Sagrado Coração, que lhe comunicava a bondade d’Ele, as qualidades d’Ele. Tudo isso se realizava de modo inefável, mas enchia a alma dela e estabelecia uma consonância entre ela e todas as coisas da Igreja.

Quando [em 1919] entrei no Colégio São Luís, dos padres jesuítas em São Paulo, compreendi perfeitamente, pelo natural desenvolvimento do espírito de todo menino, que mamãe podia significar algo muito alto na minha vida, mas que não era o paradigma de minha vida. Meu paradigma era a Santa Igreja Católica Apostólica Romana, como meus professores jesuítas ensinavam.

Naquele tempo, eles ensinavam muito bem, ao menos para o meu intelecto de criança. Falavam muito bem do Papa, da devoção que se deve ter a ele; promoviam a devoção a Nossa Senhora; impulsionava a Congregação Mariana; falavam e combatiam duramente os adversários da Igreja. Por exemplo, eles repugnavam o movimento de insurreição dos liberais italianos contra os Estados Pontifícios no século XIX, falavam mal da invasão de Roma, de Garibaldi etc. Ensinavam bem tudo isso — o que, desde cedo, me fazia ir compreendendo a Revolução que visava destruir a ordem cristã no mundo.

Naquela época de menino, eu via dois valores diferentes: primeiro a Igreja, fonte da verdade; depois a Revolução, da qual, em última análise, a ignomínia essencial era de se atirar contra a Igreja. Por outro lado, eu olhava minha mãe e, como criança, me perguntava: o que valia mais?

E a resposta que me veio ao espírito foi: essas coisas não se dissociam, pois tudo quanto há em mamãe ela recebeu da Igreja. E ainda me perguntava: nela, tudo é conforme a Igreja? Porque se algo nela não for conforme a Igreja, eu prefiro a Igreja a ela, porque a Igreja foi fundada por Deus. Quero muito bem à minha mãe, mas ela é uma criatura humana que pode errar como eu, como qualquer um. E eu a reexaminava ponto por ponto. Inclusive fazia perguntas a ela para saber o que pensava de certos temas. Ela passou comigo por um ‘Santo Ofício’, por uma inquisição. Eu fui o ‘inquisidor’ dela. ‘Inquisidor’ afetuoso, respeitoso, meticuloso, inflexível. Nem preciso dizer que ela passou nesse exame com nota 100...

A resposta a todas as perguntas — na cabeça de uma criança — era invariavelmente a seguinte: ‘Isso é bom porque é conforme à Igreja, e não porque é conforme a mamãe, senão enquanto ela representa — como uma boa mãe de família deve representar — a Igreja. Mas o bem é a Igreja!’.

Um exemplo: eu tinha um tio, irmão dela, que fazia parte do governo de São Paulo, era Secretário de Estado. Na época arrebentou uma Revolução e o governo começou a convocar os jovens para irem combater por essa Revolução.

Um dia, meu tio estava se despedindo dela em casa e ela foi acompanhá-lo até à porta, e fui junto. Quando chegou à porta da rua, ele — brincando, mas ela não percebendo que era uma brincadeira — disse que ela precisava ‘dispor de tudo para que o Plinio pegasse em armas e seguisse para o combate.’

Ela respondeu: ‘Não, não vai não! Meu filho não vai combater nessa Revolução!’. Ele fingiu-se de zangado: ‘Mas como não! É um dever da Pátria!’. Ela, com firmeza, disse: ‘Gabriel! Fique bem sabendo, o Plinio não vai entrar nesse negócio!’. Meu tio sabia que eu não iria, mas continuou a gracejar: ‘É, vocês são assim, hein? Mas se fosse para defender a religião iria!’ E ela retrucou imediatamente: ‘Aí naturalmente, Plinio seria o primeiro a ir…’

Fatos assim, muito coerentes, aconteceram durante toda a vida dela até o fim. O último eu não tive a alegria de assistir, por estar convalescente de uma grave crise de diabetes. Mas o médico, Dr. Duncan, me contou.

Ele estava amavelmente prestando assistência médica a ela e havia passado a noite em claro junto à sua cama. Pela manhã, ele mandou a empregada me avisar no meu quarto que mamãe estava com uma crise cardíaca fortíssima, e que estava prestes a falecer. Eu então me levantei e fui para o quarto dela.

Quando cheguei, ela tinha acabado de entregar sua alma a Deus, mas o Dr. Duncan me contou o último gesto dela. Que quando chegou o último instante, mamãe fez o Sinal da Cruz bem grande e imergiu na morte rumo à eternidade, mas com toda serenidade, decisão e força”.

*   *   * 

Era o amanhecer de 21 de abril de 1968. Naquele momento de dolorosa separação, o filho osculou sua querida mãe e disse entre lágrimas: “Mamãe me ensinou a amar Nosso Senhor Jesus Cristo, ensinou-me a amar a Santa Igreja Católica”. Haveria um obituário mais elogioso do que este?

No dia seguinte, essa tradicional dama paulista, da qual Plinio Corrêa de Oliveira se honrava de ter nascido, completaria 92 anos.

Numa carta a Júlio de Mesquita Neto — ex-diretor de um famoso jornal que ecoou ofensas caluniosas contra Dona Lucilia — o Prof. Plinio escreveu, em 15 de agosto de 1979, encerrando a missiva: “Beati mortui qui in domino moriuntur – bem-aventurados os mortos que morrem em paz com Deus. Da paz do Senhor onde se encontra, bem sei que minha querida mãe reza por mim. Segundo a ilimitada bondade de seu coração, sei que ela também está rezando pelo autor da ofensa. E pede que a este ninguém faça o mal feito a ela e a mim”.

A Dona Lucilia nosso preito de homenagem e agradecimento pelo varão que gerou e formou com caráter tão magnânimo e entregou como filho fidelíssimo da Santa Igreja Católica.

É de origem latina o nome Lucilia, cuja raiz é lux, lucis. Etimologicamente, significa luminosa ou iluminação, que pertence à luz, e está também associado a clareza e a pureza (Cfr. Oxford Dictionary of First Names, 2ª edição, 2006, p. 186).

Que desde o Céu, por tantos méritos de mãe autenticamente católica, ela ilumine ‘lucilianamente’ nossos caminhos, obtendo-nos dos Sagrados Corações de Jesus e Maria a graça de continuar no rumo do bom combate iluminado e empreendido por seu querido filho neste Vale de Lágrimas.

Da Redação de Catolicismo

13 de abril de 2026

Pesquisas revelam o que os americanos pensam sobre questões morais

 


✅  Plinio Maria Solimeo

Com uma população estimada em 2025 entre 341,7 e 347,2 milhões de habitantes — crescimento esse impulsionado principalmente pela imigração, apesar da baixa taxa de natalidade e das mortes —, a sociedade americana está bastante dividida entre conservadores, liberais e moderados. Os primeiros geralmente se concentram no Partido Republicano e têm obtido aproximadamente 38% da intenção de votos contra 24% dos representantes do Partido Democrata. Os moderados oscilam entre um e outro.

Nos últimos 30 anos a polarização nos Estados Unidos atingiu níveis críticos, com os Democratas movendo-se cada vez mais para a esquerda e os Republicanos mais para a direita. Por isso a oposição entre os dois partidos cresceu também, indo além da compreensível incompatibilidade entre inimigos existenciais e opositores, para muitas vezes chegar a afetar até a governabilidade do país. Isso se torna manifesto, por exemplo, quando se trata da aprovação da lei orçamentária do governo pelas duas casas do Congresso.

Por causa da constante desavença entre republicanos e democratas, isso pode gerar uma paralisação ou shutdown na aprovação do orçamento. Foi o que ocorreu concretamente no ano passado quando, devido a um impasse político entre o Congresso e o Poder Executivo, o shutdown forçou o governo a paralisar suas atividades não essenciais pelos 43 dias que durou o impasse. 

Essa polarização entre os americanos é mostrada pelo Pew Research Center[i] em interessante reportagem com o título Republicanos e Democratas diferem profundamente em questões sobre o aborto, a homossexualidade e a pena de morte são moralmente errados”, baseado em duas pesquisas feitas por experientes membros desse instituto, respectivamente de 24 a 30 de março do ano passado com 3.605 americanos adultos, e de 5 a 11 de maio do mesmo ano com 8.937, sobre o que pensam sobre problemas morais.

Essas entrevistas foram feitas com diferentes grupos de americanos divididos por idade, sexo etc. das quais só apresentaremos algumas por questão de espaço.

 

O que pensa a generalidade dos americanos sobre os problemas morais

O Pew Research, falando dos americanos em geral, afirma: Em uma ampla gama de questões, os americanos expressam visões moralmente permissivas. Dá como exemplo que 91% deles afirmam que usar contraceptivos para evitar a gravidez não é moralmente errado, 40% acham que é moralmente aceitável, 51% pensam que não é uma questão moral, enquanto só 8% julgam que é moralmente errado.

Já com relação ao adultério eles são em geral mais conservadores, pois 90% julgam-no moralmente errado, contra 9% para os quais não o é, enquanto apenas 7% afirmam que é aceitável.

À pergunta sobre se é moralmente errado ver pornografia, o número dos que concordam com essa afirmação é de apenas 52%, contra 47% que afirmam que não é moralmente errado, 31% julgam que não se trata de uma questão moral, e 15% que afirmam que é moralmente aceitável.

Sobre o aborto, apenas 47% dos entrevistados julgam-no moralmente errado. Somando-se os 52% dos que julgam que não o é aos 21% que lhe são favoráveis e aos 31% que afirmam que não é uma questão moral, temos que, no fundo, a grossa maioria dos americanos é favorável ao aborto.

Com relação à homossexualidade, apenas 39% dos entrevistados mostraram-se contrários. Uma maioria de 60% julga que não é moralmente errado, ou seja, não são contra, 23% são declaradamente a favor e 37% que isso não é uma questão moral.

Também sobre a eutanásia, uma grossa maioria de 63% julga que não é moralmente errada, 34% julgam-na moralmente aceitável, 29% dizem que ela não implica em questão moral e apenas 35% lhe são contrários.

Quanto à pena de morte, 64% dos entrevistados julgam-na moralmente certa, 38% moralmente aceitável e 26% que não se trata de uma questão moral. Apenas 34% julgam-namoralmente condenável.

A outra estatística que nos interessa é a sobre o divórcio. Como era de se esperar num mundo tão corrompido como o nosso, uma maioria de 76% considera que não é moralmente errado, 31% que é moralmente aceitável, 45% que não implica uma questão moral, e apenas 23% afirmam que ele é moralmente errado.

 

O que pensam os jovens entre 18 e 29 anos

Em vários pontos, os jovens entre 18 e 29 anos se mostram mais conservadores do que os mais velhos. Por exemplo, na questão do divórcio, da fertilização in vitro e dos anticonceptivos lideram os que julgam que isso é moralmente errado.

Já com relação ao aborto, ao adultério, à eutanásia e à homossexualidade, eles são mais complacentes que seus maiores.

Por outro lado, na questão da pena de morte eles a rejeitam mais que os mais velhos, influenciados pela propaganda da esquerda e de certos púlpitos.

É interessante notar que, segundo o levantamento do Cooperative Election Study (CES) — uma das mais abrangentes pesquisas eleitorais e populacionais do país —, 21% dos integrantes da Geração Z declaram-se católicos, superando os 19% que se identificam como protestantes. Essa inversão quebra uma hegemonia protestante que vigorava há séculos.

 

Como vota cada sexo

É curioso verificar que em várias questões os homens se mostram mais conservadores que as mulheres. Por exemplo, 28% deles julga que o divórcio é moralmente errado, o que ocorre apenas com 19% das mulheres. Do mesmo modo, 51% deles julgam que o aborto também é moralmente errado, enquanto o número de mulheres que compartem essa opinião perfaz 44%. No tocante à homossexualidade, 43% dos homens consideram-na moralmente errada, contra 37% das mulheres.

Essa tendência se manifesta em outros pontos morais, como a fertilização in vitro, uso de anticoncepcionais, eutanásia, adultério etc. nos quais os homens são sempre mais conservadores que as mulheres.

 

O que pensam Republicanos e Democratas

A respeito do aborto é que há mais radicalização entre os dois partidos. Enquanto somente 24% dos Democratas o consideram errado, 71% dos Republicanos são contrários ao assassinato de inocentes.

Para 59% dos Republicanos o homossexualismo é condenável, apenas 20% dos Democratas têm a mesma opinião. 65% dos Republicanos julgam errado ver pornografia, número que cai para 39% entre os Democratas.

O uso de contraceptivos é apoiado ou visto com indiferença tanto por democratas — dos quais só 7% o julgam moralmente errado — quanto por republicanos (9%).

Há menor rejeição por parte dos dois partidos com relação à eutanásia, sendo que só a acham moralmente errada 48% dos republicanos e 23% dos democratas.

Já com relação ao adultério, a diferença entre os dois partidos na sua condenação é pequena: 93% dos republicanos, e 88% dos democratas.

O divórcio, como se podia esperar nesta época de quase amor livre, é rejeitado apenas por 33% dos republicanos, que o acham moralmente errado, e por 13% dos democratas.

O que surpreende é que 48% dos republicanos achem a pena de morte moralmente errada, enquanto só 20% dos democratas a condenem.

 

O fator religioso que deveria orientar os votos

Não sabemos até que ponto o fator religioso influenciou a votação das pessoas nessas pesquisas. Pois, tanto para os católicos quanto para protestantes conservadores, esse fator deveria ter pesado.

Segundo dados recentes do Pew Research Center, as igrejas evangélicas históricas e pentecostais têm apresentado uma queda contínua, especialmente entre jovens e adultos até 40 anos, sobretudo pela desfiliação religiosa e rejeição à politização das igrejas. Enquanto o catolicismo apresenta uma estabilidade relativa, sustentada principalmente pela imigração latina, que mantém o número absoluto de católicos.

Somando-se as inúmeras seitas protestantes, estas representam ainda 40% da população americana, enquanto os católicos representam somente 20%. Contudo, os Estados Unidos têm a quarta maior população de católicos do mundo, com 53 milhões de fiéis.

Se as pesquisas tivessem sido feitas exclusivamente com estes, o resultado teria sido muito diferente? Tememos que não. Pois hoje em dia, com a decadência religiosa e o esquecimento dos princípios morais mais comezinhos, o casamento em declínio sendo substituído por uniões ilícitas mais em uso, é cada vez menor o número de católicos que ainda pautam sua vida segundo os princípios da Santa Igreja.

Para ilustrar nossos leitores, vamos lembrar o que diz a Doutrina Católica sobre os vários pontos abordados, seguindo o Terceiro Catecismo da Doutrina Cristã, ou Catecismo Maior de São Pio X.

Aborto – Pílulas abortivas

Está condenado no 5º. Mandamento da Lei de Deus, não matar, porque o aborto espontâneo é um verdadeiro assassinato de inocentes perpetrado pela própria mãe. E, sendo um homicídio voluntário, classifica-se como um dos “pecados que bradam ao Céu e pedem à Deus por vingança”, pois sua malícia é tão grave e manifesta, que provoca o mesmo Deus a puni-lo com os mais severos castigos

Homossexualismo

Por ser um ser um ato sensual contra a natureza, também é um dos pecados que bradam ao Céu e pedem a Deus por vingança.

Adultério – relações extramatrimoniais

A infidelidade matrimonial está condenada pelo 6º. Mandamento da Lei de Deus “não pecar contra a castidade”, e pelo 9º. “Não desejar a mulher do próximo” que, segundo o Catecismo de São Pio X, “proíbe expressamente todo o desejo contrário à fidelidade que os cônjuges se juraram ao contrair o matrimônio; e proíbe também todo o pensamento culpável e todo desejo de ação proibido pelo sexto Mandamento”.

Eutanásia

Esta prática está condenada pelo 5º Mandamento da Lei de Deus, “Não matar”. Diz o Catecismo: “Neste Mandamento Deus proíbe ainda ao homem dar a morte a si mesmo, isto é, o suicídio [...] porque o homem não é senhor de sua vida, como o não é da dos outros”.

Divórcio

“O Matrimônio é um Sacramento instituído por Nosso Senhor Jesus Cristo que estabelece uma união santa e indissolúvel entre o homem e a mulher, e lhes dá a graça de se amarem um ao outro santamente, e de educarem cristãmente seus filhos [...] e não se pode quebrar senão pela morte de um dos cônjuges, porque assim estabeleceu Deus desde o começo, e assim o proclamou solenemente Jesus Cristo, Senhor Nosso”. [...] “O vínculo do matrimônio cristão não pode ser dissolvido pela autoridade civil, porque esta não pode ingerir-se em matéria de Sacramentos, nem separar o que Deus uniu”.

Pena de Morte

A doutrina tradicional da Igreja, baseada em São Tomás de Aquino, defendia a licitude da pena capital em casos específicos, argumentando que retirar a vida de um grande malfeitor que ameaça a sociedade é um ato justo e salutar para preservar o bem comum. Ele comparava o criminoso a um membro gangrenado que deve ser amputado para salvar o corpo social. A sentença deve ser proferida por uma autoridade pública legítima, após julgamento justo, e não por vingança pessoal.

Entretanto, teólogos modernos argumentam que, se o sistema carcerário for capaz de neutralizar o criminoso sem a sua morte, isso diminui a necessidade da pena capital.

O que, com sobejas evidências, duvidamos

O Catecismo de São Pio X está de acordo com a doutrina de São Tomás, a qual foi até há pouco pregada pela Igreja: “É lícito tirar a vida do próximo: durante o combate em guerra justa; quando se executa por ordem da autoridade suprema a condenação à morte em castigo de algum crime; quando se trata de necessária e legítima defesa da vida, no momento de uma injusta agressão.”

Fertilização in vitro

A Doutrina Católica considera a fertilização in vitro (FIV) moralmente inaceitável, pois separa a procriação do ato sexual conjugal e frequentemente envolve a destruição de embriões. A Igreja ensina que os filhos devem ser concebidos através de um ato de amor entre os cônjuges, não como um produto laboratorial, respeitando a dignidade humana desde a concepção.

Esperemos que, pela intercessão de Nossa Senhora e de São José, Padroeira da Igreja Universal, tempos venham em que a sã doutrina católica e ortodoxa readquira seu lugar na Igreja como na época do Concílio de Trento, em que, ao lado das Sagradas Escrituras, estava a Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino, na qual os ensinamentos perenes da Santa Igreja orientaram e orientam até hoje os católicos amantes da tradição.



[i] O Pew Research Center é um think tank (laboratório de ideias) apartidário com sede em Washington, D.C., que fornece informações baseadas em dados sobre questões sociais, opinião pública, tendências demográficas e hábitos de mídia nos EUA e no mundo. Ele é conhecido por ser uma fonte neutra que não toma posições políticas ou de políticas.

 

 

4 de abril de 2026

“RESSUSCITOU AO TERCEIRO DIA”


Na edição anterior publicamos as 15 meditações, especialmente apropriadas para a Semana Santa, sugeridas por Santo Afonso Maria de Ligório (1696-1787), extraídas de sua obra A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo

Esse grande Doutor da Igreja, fundador dos missionários Redentoristas, aconselhava refletirmos com fervor nas estações da Via Crucis d´Aquele que sofreu e morreu por cada um de nós, para a Redenção do gênero humano. 

Segundo o santo autor, o que mais favorece a salvação eterna das almas, levando-as à conversão e à santidade, são essas meditações quando feitas frequentemente.

Continuando nesse sacrossanto tema, segue um extraordinário sermão de Mons. Tihamer Toth, pronunciado na capela da Universidade de Budapeste, na qual foi professor de eloquência sacra. Foi também superior do Seminário Central da Hungria e Bispo-coadjutor de Veszprém, sagrado em 1938 pelo Papa Pio XI. 

Como se sabe, a vida de Nosso Senhor não termina com o 4º artigo do Credo “padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado”. Nele, também rezamos que Ele “ressuscitou ao terceiro dia” — verdade fundamental que é o pilar de nossa Fé, como afirmou taxativamente o Apóstolo São Paulo: “Se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa pregação, vã também é a vossa fé” (I Coríntios, XV, 14). 

É o que explicita com muita verve e unção o célebre orador e escritor húngaro, demonstrando por que a Páscoa é a festividade magna da Cristandade e a Ressurreição um dos fatos mais comprovados da História Antiga. 

Da Redação de Catolicismo

Cristo Triufador – Maerten de Vos (1532–1603). Museu Real de Belas Artes de Antuérpia, Flandres, (Bélgica).


ELE RESSUSCITOU!

MEUS IRMÃOS,

Se o nosso Símbolo [o Credo, conhecido também como “Símbolo dos Apóstolos”] terminasse no ponto a que chegamos no comentário que dele fizemos nos sermões que ouvistes, então a fé cristã — apesar de sua incomparável beleza — permaneceria um sistema filosófico inacabado, incompleto e impotente.

Se o “Credo” terminasse onde parei na minha última instrução — “padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e foi sepultado” —, a carreira terrestre de Nosso Senhor Jesus Cristo terminaria numa nota trágica, então todo o Cristianismo desabaria como um saco vazio, como um edifício sem estrutura, como uma casa sem fundamentos.

Certamente, mesmo assim o Cristianismo ainda seria um magnífico sistema filosófico, a doutrina de Cristo permaneceria ainda um conjunto de sublimes verdades morais; mas quem poderia ainda observar, ao preço de numerosos sacrifícios, os difíceis mandamentos de Cristo, quem poderia amar sem vacilar até o último suspiro a fé cristã, se o seu Fundador não fosse senão um homem — um homem virtuoso, um sábio, um santo, mas apenas um homem que seus inimigos insultaram, pisaram aos pés e mataram?

Sim, se o nosso Símbolo ficasse por aí!

Mas não fica. Há uma continuação. E essa continuação proclama algo particularmente impressionante, inaudito, incrível, que jamais aconteceu: “Ressuscitou dos mortos ao terceiro dia”. São Paulo já o havia compreendido e diz expressamente que toda a fé cristã gira em torno desta questão: Cristo ressuscitou ou não? Com efeito, “se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa pregação, vã também é a vossa fé” (I Coríntios, XV, 14).

É verdade! Se Cristo não ressuscitou, que me importa a mim, homem do século XX, que tenha vivido outrora, há 2000 anos, sobre a terra, um homem extremamente bom, extremamente sábio, extremamente amável, cheio de amor pelos homens, que curava os doentes, que perdoava os pecadores… que me importa, se ele também morreu, se também foi sepultado e se também virou em pó?… Talvez eu o admirasse como se admira um grande homem, talvez o honrasse como se honra um homem de bem — mas amá-lo, adorá-lo, observar seus mandamentos por uma vida de sacrifícios, permanecer-lhe fiel durante toda a vida? Quem sacrificaria a própria vida por um cadáver reduzido a pó? Quem? Se Cristo não ressuscitou…

Mas se Ele ressuscitou?… Sim, se Ele ressuscitou? Se Ele me impõe respeito não somente por uma vida de virtude, por palavras de bênção, pelo idealismo de seu caráter, por seus milagres, mas se Ele ainda marcou finalmente sua vida incomparável e suas palavras que proclamam sua consciência divina com o selo mais grandioso, mais extraordinário, mais inaudito: se Ele saiu por seu próprio poder do túmulo?

E se eu vejo que milhares e milhões aceitaram o martírio por esta fé no Ressuscitado; se vejo que, sobre as pegadas do Ressuscitado, floresceram as virtudes mais heroicas e mais belas? Então?

Então? Então não resta senão reconhecê-lo: Cristo não pode ter sido um homem como eu, como vós, como qualquer outro. Cristo era Deus. Inclinar-se diante d’Ele é prova de sabedoria; insurgir-se contra Ele é pura loucura.

Sim, é exatamente isso, se Cristo ressuscitou.

Também é compreensível que, há 19 séculos [hoje, 20 séculos], os inimigos do Cristianismo tenham tentado tudo para aniquilar esta fé na ressurreição. Com efeito, eles sabem muito bem: se Cristo realmente ressuscitou, isso é um sinal tão inaudito, tão impressionante de sua divindade, que seria loucura fazer algo contra Ele e continuar ainda a combater o Cristianismo.

Importa, portanto, a nós, cristãos fiéis, aprender a conhecer de modo nítido e claro este dogma fundamental da nossa fé.

I. Como sabemos que Cristo realmente ressuscitou? — perguntar-nos-emos na primeira parte do sermão de hoje. Depois,

II. Vamos encarar claramente os expedientes pelos quais os inimigos de Cristo querem negar a sua ressurreição.

As santas mulheres encontram o túmulo vazio — Fra Angelico (1395–1455). Museu de São Marcos, Florença, Itália.


I
COMO SABEMOS QUE CRISTO RESSUSCITOU?

A ressurreição de Cristo no dia de Páscoa não é uma lenda, mas um fato histórico. Ao menos um fato tão certo e garantido por tantos testemunhos oculares e auriculares quanto qualquer outro acontecimento da história do mundo. É um fato histórico que Nosso Senhor realmente morreu e foi sepultado. É um fato histórico que, no dia de Páscoa, os amigos e os inimigos de Cristo foram ao seu túmulo e o encontraram vazio. Enfim, é um fato histórico que Nosso Senhor, depois da Páscoa, apareceu com bastante frequência a numerosas pessoas e falou com elas; portanto, Ele vivia.

É verdade, já faz muito tempo que Cristo ressuscitou, já se passaram 19 séculos. Mas A) os testemunhos da Sagrada Escritura e B) as mudanças ocorridas na alma dos discípulos tornam este acontecimento pelo menos tão crível — e até muito mais crível — do que qualquer outro episódio da história antiga.

A) A Sagrada Escritura é, em primeiro lugar, testemunha da ressurreição de Cristo.

a) Basta, meus irmãos, tomar os Evangelhos e ler atentamente o capítulo XXVIII de São Mateus, o capítulo XVI de São Marcos, o capítulo XXIV de São Lucas e o capítulo XX de São João.

Todos afirmam unanimemente: Cristo morreu na cruz, depois foi sepultado, uma grande pedra foi rolada diante do túmulo... e esse Cristo bem morto ressuscitou na manhã de Páscoa.

b) Mas não são apenas os evangelistas que afirmam e proclamam a ressurreição de Cristo; são também os outros apóstolos.

São Pedro, o primeiro, afirma-o em seu sermão de Pentecostes, portanto já 50 dias após a ressurreição. Pedro começa assim a pregar diante do povo reunido na praça.

Vistes Jesus na cruz? — pergunta ele.

Nós O vimos — respondem.

Vistes que Ele estava morto? — Nós O vimos.

Vistes como o sangue e a água correram do seu coração aberto pela lança? — Nós o vimos.

Pois bem! Eu, e comigo seus apóstolos e discípulos, nós O vimos vivo depois de sua morte, nós O vimos ressuscitado. “A este Jesus, Deus o ressuscitou: do que todos nós somos testemunhas” (Atos, II, 32).

Que Cristo tenha ressuscitado, São Pedro apresenta a coisa como um fato conhecido que não necessita de prova.

Ele fala disso com tanta naturalidade e serenidade como alguém que sabe que todos em Jerusalém estão cientes, e que ninguém pode levantar objeção contra esse fato bem conhecido. E daquele gigantesco auditório, 3000 homens se converteram naquele dia (Atos, II, 41).

São Pedro fala igualmente da ressurreição de Cristo à porta do Templo de Jerusalém, após a cura do paralítico (Atos, III, 15). Ele não prova a ressurreição de Cristo, mas simplesmente a invoca como um fato bem conhecido em toda Jerusalém.

Mas fora de Jerusalém foi necessário prová-la, pois nem todos sabiam o que havia acontecido na capital. Assim, na casa de Cornélio, em Cesareia, São Pedro falou assim: “Quanto a nós, somos testemunhas de tudo o que Ele fez na região da Judeia e em Jerusalém. Depois O mataram, suspendendo-O no madeiro. Mas Deus O ressuscitou ao terceiro dia e permitiu que Ele se manifestasse... a nós, que comemos e bebemos com Ele depois de sua ressurreição dentre os mortos” (Atos, X, 39-41).

Ao lado de São Pedro, também São Paulo prega a ressurreição de Nosso Senhor. Em Antioquia, ele fala assim aos judeus: “Depois de cumprirem tudo o que estava escrito a respeito d’Ele, tiraram-nO da cruz e O colocaram num sepulcro. Mas Deus O ressuscitou dentre os mortos. Durante muitos dias Ele se manifestou àqueles que com Ele haviam subido da Galileia para Jerusalém, e que agora são suas testemunhas diante do povo” (Atos, XIII, 29-31).

Outra vez ainda ele dá testemunho com estas palavras: “Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras; e apareceu a Cefas, depois aos Doze. Em seguida apareceu de uma só vez a mais de quinhentos irmãos… Depois apareceu a Tiago, depois a todos os apóstolos. E, por último de todos, apareceu também a mim” (I Coríntios, XV, 3-8).

B) Mas, além desse testemunho patente da Sagrada Escritura, a transformação espiritual dos apóstolos é também um testemunho eloquente da realidade da ressurreição.

Todos conhecemos o desmoronamento moral que a morte de Nosso Senhor produziu nos apóstolos. Nenhuma tempestade de granizo pode devastar a colheita como o fim lamentável do Salvador quebrou a alma dos apóstolos. Ouvi apenas com que desolada desesperança falam os discípulos de Emaús: “Nós esperávamos que fosse Ele quem libertaria Israel” (S. Lucas, XXIV, 21). Mesmo quando, na manhã de Páscoa, as santas mulheres vieram apressadamente e com alegria anunciar que o túmulo de Cristo estava vazio, eles permaneceram sem compreender (S. Lucas, XXIV, 22), e ainda na tarde de Páscoa trancaram cuidadosamente as portas por medo dos judeus.

E é nessas almas covardes, trêmulas e abatidas que de repente se acende a chama da coragem dos mártires. Aqueles que haviam acabado de trancar as portas atrás de si vêm agora pregar em plena praça pública e desafiam intrepidamente a proibição dos sumos sacerdotes.

Quem poderia compreender tal atitude, se Cristo não tivesse ressuscitado? Acaso um morto seria capaz de produzi-la? Não há efeito sem causa. Ora, é um fato incontestável que os apóstolos, esses simples pescadores, introduziram no mundo, no terreno religioso, moral, social e intelectual, uma mudança — poder-se-ia dizer uma proeza — tal que a História não pode apresentar fenômeno semelhante.

Quem pode dar sua explicação, se Cristo não ressuscitou? Em verdade, podemos dizer que, se se põe em dúvida a realidade da ressurreição de Cristo, então não há absolutamente mais nenhum fato histórico no mundo.

Quando o Salvador apareceu a Maria Madalena, ela O tomou por um jardineiro.


II
EXPEDIENTES CONTRA O FATO DA RESSURREIÇÃO DE CRISTO

Se examinarmos a fundo essas provas que fortalecem a nossa fé na ressurreição de Cristo, as tentativas pelas quais os inimigos de Cristo procuram esquivar-se da força peremptória do fato da ressurreição nos parecerão esforços bem miseráveis.

A) Antes de tudo, eles não sabem o que fazer com o túmulo vazio de Cristo

As santas mulheres que, na manhã de Páscoa, queriam prestar as últimas honras ao corpo de Jesus, encontraram o túmulo vazio. Aterrorizadas, informaram os apóstolos. São Pedro e São João foram imediatamente ao sepulcro e também o encontraram vazio (S. João, XX, 8). Que realmente o corpo de Jesus já não estava no túmulo é demonstrado também pelo espanto e desorientação dos sumos sacerdotes judeus; pois eles poderiam ter desmentido imediatamente a notícia que se disseminava sobre a ressurreição, se tivessem podido apresentar o cadáver de Cristo.

O túmulo estava, portanto, incontestavelmente vazio. Mas como se tornou vazio? Para onde foi o corpo?

a) Foi roubado — esta era a ideia que podia surgir primeiro no espírito. Os sumos sacerdotes judeus recorreram imediatamente a esse expediente e ofereceram dinheiro aos soldados que guardavam o túmulo para que anunciassem por toda parte: Enquanto dormíamos, os discípulos de Jesus vieram e roubaram o corpo.

Que contradição e que impossibilidade psicológica há nessa afirmação! Os discípulos medrosos e dispersos teriam de repente se tornado suficientemente corajosos para ousar aproximar-se do túmulo guardado por soldados! Os soldados afirmam ter dormido — mas, então, como viram que os apóstolos roubavam o corpo? E, se não dormiam, por que assistiram ao roubo sem agir? E se os soldados romanos, pertencentes ao exército mais disciplinado do mundo, dormiram durante a guarda, teriam permanecido sem castigo? Ora, em vez de punição, lemos que receberam dinheiro — muito dinheiro.

b) Os negadores da ressurreição compreenderam a gravidade dessas dificuldades e tentaram outra explicação: Cristo estava morto apenas em aparência; voltou a si graças ao frescor do túmulo e saiu dele.

Essa tentativa de explicação talvez seja ainda mais lamentável que a anterior.

Com efeito, é um fato certo que Cristo estava realmente morto, e não apenas em letargia.

Cristo estava morto? Poderia quase responder: jamais a morte de um homem foi mais profundamente certa do que a de Cristo. Já no caminho da cruz, Ele não era mais que uma sombra vacilante, um homem meio morto, derramando seu sangue por mil feridas. E depois: na cruz, fizeram-lhe quatro grandes feridas nas mãos e nos pés… a lança de um soldado fez-lhe uma quinta no coração… Finalmente: o túmulo selado é guardado por soldados.… Em verdade, naquela hora os homens fizeram tudo para afastar de seu caminho o profeta importuno.

Imaginemos, aliás, que Cristo, meio morto, tivesse saído do túmulo e ido até seus discípulos, que O tratassem e cuidassem, e que finalmente tivesse sucumbido aos seus ferimentos — pode-se imaginar psicologicamente que esse fim miserável tivesse produzido em almas abatidas aquele efeito sem precedentes de que falei anteriormente?

B) Mas toda essa fé dos apóstolos na ressurreição não seria pura fantasia, um produto da imaginação, uma visão, uma alucinação? Aqueles que querem escapar a todo custo à imensa força probante da ressurreição também tentaram esse expediente.

a) Mas quem poderia levar a sério essa explicação? O túmulo de Jerusalém não teria destruído toda visão e alucinação com a mão brutal da dura realidade? Se esse túmulo não está vazio, se uma grande pedra o cobre e se sob ela está Cristo morto, então toda visão é impossível.

b) Além disso, nos apóstolos faltam as condições mais elementares para uma alucinação.

Quem tem visões e está sujeito a alucinações? Não é aquele que espera algo com impaciência, febrilmente? Quando um hóspede anunciado deve chegar, já se ouvem seus passos, e, no entanto, ele não vem. Mas os apóstolos não esperavam de modo algum a ressurreição de Cristo. E mesmo quando as santas mulheres lhes trazem a notícia pela primeira vez, eles não acreditam. Os discípulos de Emaús dizem ainda à tarde que “as mulheres os assustaram”. E São Tomé não acredita, embora os outros apóstolos já tenham visto o Ressuscitado.

Eles estavam tão pouco predispostos a visões, que nem sequer reconheceram o Salvador quando Ele apareceu. Maria Madalena tomou-O por um jardineiro; os discípulos de Emaús, por um estrangeiro.

Além disso, são os homens nervosos que estão sujeitos a alucinações, e não pescadores endurecidos pela vida ao ar livre.

c) Se Cristo ressuscitado tivesse aparecido apenas uma ou duas vezes, talvez ainda se pudesse admitir que fosse apenas imaginação, uma visão, um fantasma. Mas Ele apareceu frequentemente durante quarenta dias. São Pedro encontrou-O, Maria Madalena encontrou-O. As santas mulheres encontraram-nO. Os dez apóstolos — com exceção de São Tomé — encontraram-nO. Depois, todos os apóstolos — inclusive São Tomé — encontraram-nO... e assim por diante. E quando São Paulo escreve aos Coríntios, invoca o fato de que ainda vivia entre eles um grande número de homens que tinham visto com seus próprios olhos o Salvador ressuscitado (I Coríntios, XV, 6). Pode um acontecimento histórico ser mais bem provado? Um homem isolado pode às vezes ser vítima de uma visão enganosa, mas 500 homens juntos viram Cristo — teriam todos esses 500 visto um fantasma? E, por outro lado, no quadragésimo dia, dia da ascensão de Cristo, as aparições cessaram de repente. Por quê? No entanto, as bases psicológicas permaneceram as mesmas depois.

A ressurreição de Cristo é, portanto, um fato histórico. Temos como testemunhas as santas mulheres que, ao se dirigirem ao túmulo, esperavam tudo, menos a ressurreição de Cristo. Temos como testemunhas os apóstolos que, a princípio, acolheram a notícia com hesitação; mas, quando foram convencidos por seus olhos, seus ouvidos e suas mãos da sua realidade, deram a vida por ela. Temos como testemunha a multidão dos primeiros cristãos aos quais o Salvador apareceu depois de sua ressurreição. Temos como testemunha toda a vida da Igreja, vinte vezes centenária.

Com efeito, diante da coragem dos mártires, da elevação moral e da intrepidez que resultam da fé na ressurreição, podemos com razão perguntar: se Cristo não ressuscitou, mas permaneceu no pó do túmulo, quem pode compreender tudo isso? Quem pode crer que um morto tenha podido realizar tudo isso?

A ressurreição de Cristo é a coroação de sua obra, a prova suprema de que Ele é realmente o Filho de Deus. Quando Cristo estava pregado na cruz, seus inimigos O insultavam com estas palavras: “Salvou os outros e não pode salvar-se a si mesmo; se é rei de Israel, desça agora da cruz e creremos n’Ele” (S. Mateus, XXVII, 42). Agora, porém, Cristo deu uma prova ainda maior de sua divindade. Não foi da cruz que Ele desceu, mas foi do túmulo selado que Ele saiu vivo.

Compreendemos agora por que a Páscoa é a maior festa do Cristianismo. É porque a ressurreição de Cristo é o fundamento da nossa fé, o triunfo da verdade, um encorajamento em nossa vida cheia de lutas e o sinal da nossa própria ressurreição.

A incredulidade de Tomé – Maerten de Vos (1532–1603). Museu Real de Belas Artes de Antuérpia, Flandres, (Bélgica)


Meus irmãos, é a tarde de Páscoa. Os apóstolos estão reunidos; faltam apenas dois: Judas, o traidor, e Tomé. Onde estava Tomé, não o sabemos. Os espíritos estão abatidos, cheios de angústia. O corpo de Cristo desapareceu; os sumos sacerdotes mandaram divulgar pela cidade que os discípulos o haviam roubado. Desde então não é prudente sair pelas ruas. Estão tão inquietos que trancaram cuidadosamente a porta. O que vai acontecer? O que será dos desígnios de Cristo? Como esses pescadores medrosos empreenderão a conquista do mundo?

E então… então… de repente Cristo está no meio deles. As portas ainda estão fechadas, mas Cristo está no meio deles. “Sou eu, não temais!” É como se tivesse dito: Agora é preciso acabar com esse pessimismo medroso. Vede, cumpri a minha palavra. Sou eu, eu vivo. Mas agora preciso de soldados, preciso de mártires que me deem testemunho diante do mundo.

E “os discípulos alegraram-se ao ver o Senhor”, diz a Sagrada Escritura, e uma força nova encheu suas almas abatidas. E desde então a figura sublime de Cristo ressuscitado tornou-se para eles uma fonte de energia sempre nova. Cada dia ela passa jubilosa por milhões de lábios: “Ressuscitou dos mortos ao terceiro dia”.

Sim, Cristo vive. Cristo é uma realidade viva. Não é uma lenda, nem um mito, nem um símbolo. Cristo que percorria os caminhos da Palestina percorre hoje os caminhos do mundo. Cristo que falava há 19 [hoje 20] séculos aos habitantes da Terra Santa hoje ainda nos acena como vencedor da morte com a palma da vitória; hoje ainda Ele nos fala, nos consola, nos fortalece, nos ilumina, nos ajuda e nos espera… nos espera na pátria eterna.

Meus irmãos, vivamos, pois, com a graça de Deus, de tal maneira que onde está a cabeça estejam também os membros. Vivamos de modo que, onde nosso Irmão glorioso nos precedeu, cheguemos também nós; e que, por sua paixão e sua cruz, alcancemos também a glória da ressurreição, por Jesus Cristo, Nosso Senhor. Amém.

____________

(*) Le symbole des Apôtres (Quarta Parte). La Résurrection - l´Ascension - La Virge Marie. Sermões traduzidos do húngaro para o francês pelo Pe. Marcel Grandclaudon. Éditions Salvator, Mulhouse (Haut-Rhin), 2ª edição, 1938, pp. 5-18.

 Fonte: Revista Catolicismo, Nº 903, abril/2026



3 de abril de 2026

Nossa Senhora nos ensina a perseverança na fé intrépida

 


✅  Plinio Corrêa de Oliveira

Ao mesmo tempo que as pesadas lajes do sepulcro velam o Corpo do Salvador aos olhares de todos, a fé vacila nos poucos que haviam permanecido fiéis a Nosso Senhor. 

Mas há uma lâmpada que não se apaga, nem bruxuleia, e que arde só ela plenamente, nesta escuridão universal. É Nossa Senhora, em cuja alma a fé brilha tão intensamente como sempre. Ela crê. Crê inteiramente, sem reservas nem restrições. Tudo parece ter fracassado. Mas Ela sabe que nada fracassou. Em paz, aguarda Ela a Ressurreição. Nossa Senhora resumiu e compendiou em si a Santa Igreja nesses dias de tão extensa deserção. 

Nossa Senhora, protetora da fé. É este o tema da presente meditação. Da fé e do espírito de fé, ou seja, do senso católico. 

Hoje, a muitos olhos, as possibilidades de restauração plena de todas as coisas segundo a lei e doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo parecem tão irremediavelmente sepultadas quanto aos Apóstolos parecia irremediavelmente sepultado Nosso Senhor em seu sepulcro. 

Os que têm devoção a Nossa Senhora recebem d’Ela, entretanto, o inestimável dom do senso católico. E, por isto, eles sabem que tudo é possível, e que a aparente inviabilidade dos mais ousados e extremados sonhos apostólicos não impedirá uma verdadeira ressurreição se Deus tiver pena do mundo, e o mundo corresponder à graça de Deus.

Nossa Senhora nos ensina a perseverança na fé, no senso católico e na virtude do apostolado destemido — “Fides intrépida” — mesmo quando parece tudo perdido. A Ressurreição virá logo. Felizes dos que souberem perseverar como Ela, e com Ela. Deles serão as alegrias, em certa medida as glórias do dia da Ressurreição. (Fonte: O Legionário, Nº 558, 18 de abril de 1943).