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11 de fevereiro de 2026

CHOQUE DE CULTURAS


  Plinio Corrêa de Oliveira

A respeito de se realizar de fato uma “União Europeia”, o problema não é principalmente econômico. É fundamentalmente cultural. Isto devido à harmonia ou choque de culturas e de psicologias. 

Poderíamos falar dos vinhos, que países europeus os produzem de primeiríssima qualidade, ou dos sabonetes. 

Objetar-me-ão: “Mas que questões frívolas!” — Eu responderia: É próprio de uma grande civilização levar a um alto requinte coisas frívolas. A frivolidade de alta classe é um dos índices da substância de uma civilização. 

Em quase todos os países europeus se produzem sabonetes esmerados, mas o caráter do sabonete primoroso varia de acordo com o temperamento e a psicologia do povo que o fabrica. O produto de um determinado país é reputado o melhor porque tem certa mentalidade típica dele, outro país tendo uma mentalidade diferente pode não gostar. 

Vamos exemplificar com os deliciosos bombons europeus. Certa vez, assisti a uma discussão entre duas pessoas: uma se deliciava preferencialmente com os chocolates ingleses e holandeses (de variedade amarga), enquanto a outra gostava mais dos suíços e italianos. Os chocolates suíços eram mais doces, digamos mais bem humorados e tranquilos. Os chocolates ingleses têm seu indiscutível sabor, são excelentes, mas não têm aquela bonomia do chocolate suíço e aquele movimentado e aliciante dos chocolates italianos.

Assim, poderíamos multiplicar os exemplos para cada nação. Mas, no fundo, eu percebi que as pessoas, quando discutem a respeito, estão discutindo mais é uma questão filosófica, como que escondida por trás dos chocolates. Com isso, percebi que se discute mais sobre qual a visão que se deve ter da vida. 


Como estas questões não são discutidas em profundidade, a questão da unificação europeia vai por um ziguezague que não se sabe até onde chegará. 
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Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 22 de julho de 1990. Esta transcrição não passou pela revisão do autor.

31 de março de 2025

Na França, apesar dos imigrantes, o número de nascimentos continua em declínio


·      ✅   Plinio Maria Solimeo

 

Com a decadência religiosa e a perda do espírito sobrenatural, hoje em dia a quase totalidade das pessoas vive só para seu conforto e prazeres. Por isso evita tudo que possa supor um sacrifício ou dedicação integral. O que leva a que elas não pensem mais em ter filhos, ou em ter apenas um. Para isso recorrem à pílula abortiva para evita-los e, quando não conseguem, fazem o aborto.

                Isso, que ocorre em todo o mundo, faz com que em vários países, principalmente da Europa, o número de nascimentos seja tão pequeno, que não satisfaz a taxa de reposição necessária que corresponda um ao pai, outro à mãe, e outro para recompensar o número de mortes.

                Nesse sentido, vamos analisar essa situação como ocorre na França de hoje, outrora a “Filha Primogênita de Igreja”, segundo o relatório demográfico do Instituto Nacional de Estatística do país, publicado no dia 14 de janeiro. Seus dados e estatísticas foram analisados pelo jornalista Yann Thompson em artigo na France Télévisions[i], no qual nos baseamos.

                O relatório daquele Instituto mostra que, no dia 1º. de janeiro, a França tinha cerca de 68,6 milhões de habitantes, incluindo Córsega e departamentos ultramarinos. O que mostra que houve um aumento de 0,25% de pessoas no país. Ou seja, de 169 mil pessoas, que no entanto é o menor aumento dos últimos anos. Mesmo assim, a França continua sendo o segundo país mais populoso da União Europeia logo atrás da Alemanha. Deve-se dizer que esse aumento da população se deve em boa parte à imigração.

As mortes são quase tão numerosas quanto os nascimentos

Sublinha o relatório que há 60 anos a França, em meio a um boom demográfico, registrava quase o dobro de nascimentos do que de mortes a cada ano. Eram os bons tempos em que as famílias eram muito numerosas e tinham muitos filhos.

Isso mudou. Em 2024 o número de bebês nascidos foi de 663 mil, para 646 mil mortes. Houve então uma queda de 2,2% nos nascimentos em um ano.   O que, para o Instituto significa que, a pequena diferença de 17 mil entre nascimentos e mortes revela que a França atingiu “o seu nível mais baixo [de nascimentos] desde o fim da Segunda Guerra Mundial".

Por outro lado, a taxa de mortalidade aumentou um pouco de 1,1%, em 2024, de acordo com estimativas do Instituto. Esse aumento, que era perfeitamente previsível, pode ser explicado pelo envelhecimento da população, com a chegada “a idades de alta mortalidade” das gerações nascidas entre 1946 e 1974.

Contudo, houve uma mudança na expectativa de vida da população. A taxa de envelhecimento das mulheres passou para 85,6 anos, enquanto que a dos homens começa pela primeira vez a atingir a idade dos 80 anos de expectativa de vida.              

Assim, a "esperança de vida das mulheres é uma das mais elevadas da UE", atrás de Espanha, enquanto "a dos homens está na 11.ª posição", muito atrás do campeão, Malta, mas acima da média europeia, como nota o Instituto Nacional de Estatística com base em dados comparativos de 2023.

Cada vez menos filhos

                Uma coisa a se lamentar tendo-se o espírito católico, é que as mulheres francesas entre 20 e 40 anos, estão cada vez tendo menos filhos. Em 2024, com um índice de 1,62 filhos por mulher, a taxa de fertilidade total continuou a diminuir para um nível não visto desde 1919 e o fim da Primeira Guerra Mundial.

                Com a preocupação crescente das jovens com seus estudos e carreira profissional mais os atrativos da vida moderna, ocorre que as mulheres entre 30 e 34 anos têm taxa maior de fertilidade que as jovens entre 25 e 29 anos. Mesmo assim, essa taxa de fecundidade também registrou o nível mais baixo em um século, sendo de 1,59, bem abaixo do necessário para ocorrer a renovação da população. Para se ter uma ideia, essa taxa ainda em 2010, era de 2,02 filhos por mulher.

                Entretanto, apesar dessa taxa baixíssima, para se ver a decadência da moralidade na Europa, as mulheres francesas ainda têm mais filhos que as de muitas outras nações da União Europeia, como a Espanha e Itália. Esta situação permite à França manter uma das maiores percentagens de menores de 15 anos na Europa (17,3 % em 2023), atrás da Irlanda e da Suécia.

Cresce o número de “casamentos”

                O articulista que seguimos, para ser politicamente correto, tem em seu artigo um subtítulo que diz “Os casamentos estão em ascensão, as uniões PACS estão em declínio”.

                Ele afirma com toda naturalidade que o número de casamentos celebrados na França aumentou em 2% em 2024, atingindo um total de 247 mil. Ora, por liberalismo, ele inclui nesse total os 7 mil “casamentos” entre pessoas do mesmo sexo. Mesmo as PACS – “parceria contratual  entre duas pessoas maiores, independente do sexo, tendo como objetivo organizar a vida em comum” – caiu 3% em 2023, sendo de 204 mil uniões “incluindo 10.600 pessoas do mesmo sexo”.

                Curioso que não encontramos dados sobre as uniões fora do casamento, tão comum nos nossos infelizes dias.

                Por causa dessa triste realidade, muitas nações da Europa, principalmente Itália e Espanha, com sua população cada vez mais envelhecendo e diminuído, têm que recorrer à mão de obra estrangeira para poder sobreviver.

                Rezemos para que isso não ocorra em nosso Brasil, a Terra de Santa Cruz.



[i] (https://www.francetvinfo.fr/societe/naissances-mariages-deces-decouvrez-le-portrait-demographique-de-la-france-en-cinq-graphiques_7011737.html#at_medium=5&at_campaign_group=1&at_campaign=alerte_info&at_offre=3&at_variant=V3&at_send_date=20250114&at_recipient_id=726375-1492290919-f7c26739&at_adid=DM1054776)

 

22 de janeiro de 2025

O presidente dos EUA, Donald Trump, e “a força do destino”



Roberto de Mattei

O tom do discurso inaugural de Donald Trump na Casa Branca em 20 de janeiro de 2025 é de vingança e desafio. Vingança contra os oponentes, mesmo dentro de seu partido, que o declararam morto após o ataque ao Capitólio em 6 de fevereiro de 2020. Não é por acaso que um dos primeiros atos de governo que ele assinou foi o perdão para os manifestantes há quatro anos. Mas seu discurso também é um desafio para todos aqueles, no Ocidente e no Oriente, que anunciaram o “declínio do Império Americano“.

Na Itália, por exemplo, a crise histórica nos Estados Unidos foi recentemente descrita pelo sociólogo francês Emmanuel Todd em seu livro A Derrota do Ocidente (Fazi Editore, 2024) e pelo jornalista americano Alan Friedmann em O Fim do Império Americano (La Nave di Teseo, 2024), cujo capítulo é dedicado a “Trump e outros” (pp. 169-194); mas a convicção do declínio americano irreversível é acima de tudo a base das ambições geopolíticas de Vladimir Putin e Xi Jinping, que em 21 de janeiro se mostraram ao mundo por meio de um link de vídeo para confirmar sua aliança antiamericana.

O fio condutor do discurso do novo presidente foi o da era de ouro, a “era de ouro” que se abre para os Estados Unidos a partir de 20 de janeiro. Seu discurso inaugural começou com esta declaração: “A era de ouro da América começa agora. De agora em diante, nosso país florescerá novamente e será respeitado em todo o mundo novamente.” Palavras semelhantes encerraram seu discurso após 20 minutos: “O futuro é nosso e nossa era de ouro está apenas começando. Deus abençoe a América.”

“Fui salvo por Deus para tornar a América grande novamente“, exclamou o presidente Trump, renovando sua confiança em sua missão e no “destino manifesto da América“. O termo “destino manifesto” usado por Trump foi cunhado em 1845 pelo jornalista John L. O’Sullivan para justificar a anexação da República do Texas, argumentando que era “o destino manifesto da América se espalhar pelo continente“. Com isso, os partidários da democracia jacksoniana motivaram, em meados do século XIX, a expansão dos Estados Unidos em direção às Grandes Planícies e à Costa Oeste.

Trump adotou a ideia de uma “missão” americana.

Os americanos“, disse ele, “percorreram milhares de quilômetros por uma terra dura e selvagem. Eles cruzaram desertos, escalaram montanhas, enfrentaram perigos indescritíveis, conquistaram o Velho Oeste, acabaram com a escravidão, salvaram milhões da tirania, tiraram bilhões da pobreza, aproveitaram a eletricidade, dividiram o átomo, lançaram a humanidade nos céus e colocaram o universo do conhecimento humano na palma das mãos humanas. Se trabalharmos juntos, não há nada que não possamos fazer e nenhum sonho que não possamos realizar. Muitos pensaram que era impossível para mim encenar um retorno político tão histórico. Mas, como você vê hoje, aqui estou eu, o povo americano falou. Minha presença diante de vocês é a prova de que nunca se deve acreditar que algo é impossível de fazer. Na América, o impossível é o que fazemos de melhor.” Ele acrescentou: “Vamos perseguir nosso destino manifesto para as estrelas, lançando astronautas americanos para plantar as estrelas e listras no planeta Marte“.

Quando Trump pronunciou essas palavras, Elon Musk não conteve seu júbilo ao ver seu projeto visionário de povoar as estrelas do universo proclamado diante de todo o mundo. Poucos percebem os perigos inerentes à utopia transumanista de Musk, à qual Trump confiou o departamento para a eficiência do governo. A imprensa progressista em todo o mundo tem sido feroz ao criticar as palavras de Trump e os primeiros gestos de absoluto bom senso: a luta contra a imigração descontrolada, a rejeição do Green New Deal e da ideologia acordada. Em uma palavra, o que Trump chamou de “a revolução do bom senso“. O auge do bom senso de Trump ressoou com clareza clara quando ele afirmou: “A partir de hoje, a política oficial do governo dos EUA é que existem apenas dois gêneros, masculino e feminino”.

Sobre política interna, Trump apresentou um programa detalhado, seguido no dia seguinte por uma enxurrada de ordens executivas. Quanto à política externa, o novo presidente não nomeou amigos ou inimigos de seu país, mas se limitou a afirmar que “durante todos os dias de sua administração“, ele “simplesmente colocará a América em primeiro lugar“. “A América“, disse Trump, “em breve será maior, mais forte e muito mais excepcional do que nunca“. Essa estratégia não é extravagante, mas coloca Trump dentro de uma tradição política e cultural, chamada “excepcionalismo”, baseada na visão idealizada da América como um país “excepcional”, graças à sua evolução histórica e às suas instituições políticas e religiosas particulares (Seymour Martin Lipset. Excepcionalismo americano: a faca de dois gumes, W.W. Norton & Co., Inc. 1996). Entre os precursores declarados da posição trumpiana, que entrelaça “excepcionalismo” e “destino manifesto”, estão Andrew Jackson, o sétimo presidente americano (1729-1837) e William McKinley (1843-1901), o 25º presidente, no cargo de 4 de março de 1897 até seu assassinato em 14 de setembro de 1901. Trump, não surpreendentemente, anunciou que reatribuirá o nome de McKinley à montanha mais alta da América do Norte, renomeada em 2015 por Barack Obama com o nome indígena de Denali.

McKinley deu o golpe de misericórdia no que restava do antigo império espanhol ao conquistar Cuba e as Filipinas. Seu sucessor republicano Theodore Roosevelt (1901-1909) seguiu o exemplo, intervindo em Porto Rico e Panamá, onde reivindicou a soberania sobre o canal que Jimmy Carter cedeu à República do Panamá e agora é operado em grande parte por empresas chinesas. Trump afirma que é americano, sem que isso signifique o uso da força militar. “Como em 2017″, explicou ele, “construiremos novamente o exército mais forte que o mundo já viu. Mediremos nosso sucesso não apenas pelas batalhas que vencemos, mas também pelas guerras que terminamos e, talvez mais importante, pelas guerras em que nunca entramos. Meu legado de maior orgulho será o de um pacificador e unificador, é isso que eu quero ser, um pacificador e um unificador.”

O discurso de Trump expressa o mesmo sentimento de vigor, raiva e orgulho com que o então candidato presidencial se levantou do chão, após ser roçado em 14 de julho de 2024, mas acima de tudo intercepta o desejo de retorno à ordem e ao bom senso da maioria dos americanos. Hoje, a euforia de quem votou em Trump é compreensível após sua vitória. Mas há outra América que odeia os valores propostos pelo novo presidente. A este respeito, uma nova guerra interna dentro dos Estados Unidos começou e pode até explodir violentamente. Por outro lado, o “eixo do mal” composto por China, Rússia e Irã não está dissolvido: ele apenas encontrou, à sua frente, um inimigo mais formidável. O que fará a Europa fraca, representada em Washington apenas por Giorgia Meloni, diante de um duelo inevitável?

Os Estados Unidos podem não precisar da Europa, mas a Europa certamente precisa da América, junto com a qual forma o tão detestado Ocidente, que hoje enfrenta um destino incerto e não “manifesto”. Os quatro anos à frente serão acompanhados pela melodia doce e reconfortante de America the Beautiful ou pelas notas sombrias de La forza del destino? Não estaremos errados em nos confiar àquela “Virgem dos Anjos” que na famosa ópera de Verdi é invocada como a protetora infalível dos homens, a única que pode mudar seu destino. 

10 de julho de 2024

SÃO BENTO

São Bento, detalhe do afresco de Fra Angelico, Museu Nacional de São Marcos, Florença.



Neste dia 11 de julho celebramos o grande Patriarca dos monges do Ocidente, o Abade São Bento. Patrono da Europa, seus monges reconstruíram, por meio do cristianismo, aquele Continente arrasado pelos bárbaros. 

São Gregório Magno afirma que ele “estava cheio do espírito de todos os justos”, e Bossuet o chama de “síntese perfeita do cristianismo”. 

Lutou por uma Europa católica, diametralmente oposta à que hoje se quer construir.

Em sua homenagem reproduzo aqui um belo e evocativo trecho que extrai do livro Em Defesa da Ação Católica (1943), de Plinio Corrêa de Oliveira, à p. 114. 

Abadia de Monte Cassino, a primeira casa da Ordem Beneditina, tendo sido instituída pelo próprio São Bento por volta de 529. 



“Amando filialmente a Igreja e todas as Ordens que nela existem, não poderíamos deixar de nesta veneração afetuosa atribuir lugar particularmente sensível à Ordem de São Bento. 

Pela admirável sabedoria de sua Regra, pelos extraordinários frutos espirituais que produziu, produz e produzirá sempre na Igreja, pela sua primazia histórica em relação a todas as Ordens do Ocidente, pelo papel que desempenharam na formação da sociedade e da cultura medievais os filhos de São Bento, ocupam eles em nosso coração um lugar de escol, tanto mais firmemente acentuado quanto em suas fileiras contamos alguns dos melhores amigos que tenhamos tido em nossa vida. 

Enche-nos de indignação o rumor de que tais erros se possam identificar, ou de qualquer maneira filiar ao espírito de São Bento, sob o pretexto de Liturgia. 

Não amar a Liturgia, que é a voz da Igreja orante, é ser, quando nada, suspeito de heresia. Entender que o esforço desenvolvido pela Ordem Beneditina em prol de uma mais profunda compreensão da Liturgia e de sua exata localização na vida espiritual dos fiéis possa trazer inconvenientes, e um absurdo. 

E, por tudo isto, reputamos caluniosa qualquer identificação que circunstancias fortuitas, quiçá inexistentes, possam sugerir, entre espírito beneditino e espírito litúrgico autêntico, de um lado, e de outro lado, a estratégia modernista que vimos combatendo e os exageros do ‘hiper-liturgismo’”.

6 de novembro de 2023

OCIDENTE EM GUERRA

 


✅  Roberto de Mattei 

“Allah Akbar!” – “Alá é grande!” Este grito ressoou em todo o mundo por meio de vídeos documentando a violência de terroristas islâmicos contra mulheres, crianças, jovens de todas as nacionalidades, massacrados ou raptados [fotos abaixo] no dia 7 de outubro de 2023, enquanto uma avalanche de mísseis atingia Israel. A mesma invocação “Allah Akbar!” ressoou nos dias seguintes nas praças árabes e nas redes sociais ocidentais pró-islâmicas, para celebrar a agressão do Hamas contra Israel. Pouco importa que isto tenha ocorrido em território israelita e não em território europeu. O importante é que uma nova guerra foi declarada. 

O ataque ocorreu no alvorecer de um dia simbólico para o Ocidente — o aniversário da vitória de Lepanto em 7 de outubro de 1571 —, tal como o ataque às Torres Gémeas em 11 de setembro coincidiu com o aniversário da libertação de Viena dos turcos, ocorrida entre 11 e 12 de setembro de 1683. Dois acontecimentos emblemáticos que para o Islã devem ser vingados mediante a Jihad ou “guerra santa”, a doutrina que obriga cada muçulmano a estender ao mundo a sharia, lei religiosa e política de Alá. 

O Islã não é uma religião monolítica, mas todas as tendências dentro dele concordam com a necessidade de lutar contra o Ocidente corrupto. Nesta luta o Islã não distingue entre cristãos e judeus. A Declaração da Frente Islâmica Mundial para a jihad contra Judeus e Cruzados data de 23 de fevereiro de 1998, inspirada e assinada por Osama Bin Laden e Ayman al-Zawahiri. O primeiro objetivo da Frente Islâmica, tal como do Movimento de Resistência Islâmica (Hamas), é a reconquista de Jerusalém, cidade de onde o profeta Maomé fugiu num carro de fogo e onde se ergue a Mesquita de Al-Aqsa, construída sobre as ruínas do Templo. O segundo objetivo é a conquista de Roma, também definida como a “Maçã Vermelha” (Kizil-Elma), em analogia ao globo de ouro que encimava a estátua do imperador Constantino na capital bizantina. Depois de Constantinopla, Roma tornou-se a “Maçã Vermelha”, ou seja, o destino do triunfo do Islã sobre o Cristianismo. 

A estratégia de expansão do Islã envolve a invasão migratória da Europa e a destruição do Estado de Israel. Nos dias do ataque a Israel, nasceu em Paris a “Aliança das Mesquitas”, a nova associação de muçulmanos de toda a Europa, inspirada na ala da Irmandade Muçulmana, que teoriza a “soft-jihad”, a jihad de islamização “suave” da Europa. O ataque do Hamas em 7 de outubro é antes uma expressão sensacional da “jihad dura”, que passa pelo terrorismo e pela guerra. Por trás da primeira linha estratégica está a Turquia, que controla os fluxos migratórios na Europa e que durante anos tentou aderir à União Europeia para miná-la. Atrás da segunda linha está o Irã, por meio dos seus agentes Hamas e Hezbollah, que sitiam o Estado de Israel ao sul e ao norte. 

No dia 5 de outubro, na Universidade Luiss de Roma foi apresentado um relatório, elaborado pela Fundação Med-Or, sobre o tema: Inimigo Silencioso. Presença e evolução da ameaça jihadista no Mediterrâneo mais amplo. O relatório descreve detalhadamente o desenvolvimento do fenômeno jihadista, operando em muitas áreas do Mediterrâneo mais amplo, com particular atenção para a África, principal área de incubação desse fenômeno. O conflito ucraniano monopolizou a atenção internacional, mas o jihadismo, alerta o relatório, faz parte de uma ampla operação para desestabilizar o Ocidente, num contexto geopolítico em que o Islã não é o único ator. 

Em 5 de outubro, na XX assembleia do think tank russo Valdaj Club, Vladimir Putin fez um discurso sobre A multipolaridade justa. Ele falou da existência de uma “guerra de civilizações em curso” e apelou para os laços que a Rússia mantém com o mundo árabe, a China e a Índia para combater o papel hegemônico do Ocidente. Por outro lado, o conflito russo-ucraniano revelou a existência de uma frente interna na Europa e nos Estados Unidos, que olha com simpatia para Putin e critica o apoio ocidental à Ucrânia. A ideia de “inimigos do Ocidente” parece estar se evaporando na consciência de parte da opinião pública europeia. Esta atitude de benevolência para com os agressores é um dos fatores psicológicos que explicam a debacle do sistema de inteligência israelita, considerado o mais eficiente do mundo, mas que se revelou incapaz de prever o ataque de 7 de outubro, também por se ter iludido sobre a possibilidade de diálogo entre Israel e o Hamas. 

Mesquita de Al-Aqsa, construída sobre as ruínas do Templo, em Jerusalém

Entrementes aproxima-se a abertura de uma terceira frente de guerra, a de Taiwan, que a China se prepara para invadir. Não será fácil aos Estados Unidos apoiar simultaneamente seus aliados em múltiplos campos de batalha, na Europa Oriental, no Médio Oriente e no Extremo Oriente. Isto acontece um ano depois das eleições americanas, em que se anuncia a luta entre dois candidatos, Joe Biden e Donald Trump, desgastados e mutilados por vários motivos, enquanto nas eleições europeias se perfila a vitória de um “terceiro partido”, na linha do novo presidente eslovaco, Robert Fico, e da possível presidente francesa, Marine Le Pen, determinados a aprofundar o fosso entre a Europa e os Estados Unidos. 


É com a fraqueza do Ocidente que seus inimigos contam, especialmente depois do vergonhoso abandono do Afeganistão em 2021, que marcou uma dura derrota moral para os Estados Unidos e a Europa. Essa fraqueza, antes de ser política, é moral e tem sua raiz na perda de identidade do Ocidente. 

Um sintoma tragicamente eloquente desta confusão é-nos oferecido pela situação em que a Igreja Católica se encontra hoje. Na meditação proferida no dia 1º de outubro aos participantes da assembleia geral do Sínodo dos Bispos, o Padre Timothy Radcliffe, ex-mestre geral dos Dominicanos, começou afirmando: “Quando o Santo Padre me pediu para pregar este retiro, senti-me muito honrado, mas também nervoso. Tenho plena consciência das minhas limitações pessoais. Sou velho – branco – ocidental – e homem! Não sei o que é pior! Todos esses aspectos da minha identidade limitam minha compreensão. Peço, portanto, perdão pela inadequação de minhas palavras.” 

A rejeição da identidade de branco, de ocidental, de homem — e por que não também de padre? — revela o abismo em que caem os líderes da Igreja, confrontados com um ataque muito pior que o das invasões bárbaras dos séculos V e VI. Com efeito, então a Igreja, guiada pelos grandes pontífices, não abandonou o seu lugar, mas hoje renuncia ao cumprimento da sua missão. 

Existe uma profunda diferença teológica entre católicos e judeus, que na sua negação da Santíssima Trindade são mais parecidos com o Islã do que com a Igreja de Roma, mas o que resta da Europa cristã luta contra o mesmo inimigo que Israel. Da mesma forma, a Rússia quer recolher o legado de Constantinopla, enquanto o Islã é o herdeiro dos turcos que o destruíram, mas hoje têm um inimigo comum. Este inimigo é o Ocidente, alvo econômico, político e militar da China comunista, que se autoproclama herdeira dos erros de Marx e Lenine, espalhados pela Rússia pelo mundo.

A confusão é dramática e a guerra, tal como as catástrofes naturais, parece comprimir a Europa num círculo inexorável. É uma “guerra do caos” da qual não se pode escapar, escreve Vittorio Macioce no Il Giornale de 9 de outubro: “É um destino que nos persegue de casa em casa e toca a Europa e a Itália”. A Itália é o coração do mundo, porque acolhe a sede da Cátedra de Pedro, que é o único fundamento de um possível renascimento da civilização cristã. E é preciso lembrar que tudo é possível com Deus, quando tudo parece perdido. Devemos acreditar nisso com profunda confiança na Providência Divina, numa das horas mais sombrias da História. 
___________ 
Fonte: Corrispondenza romana, 11-10-2023. Tradução Hélio Viana.

9 de março de 2022

RÚSSIA x UCRÂNIA — Movimentações nos ventos da guerra (Parte III)

Neste dia 9 de março, a maternidade da cidade de Mariupol foi bombardeada…

 


Aseguir reproduzimos um texto, publicado como um quadro ilustrativo da matéria de capa da revista Catolicismo deste mês — artigo redigido às vésperas da efetiva invasão da Ucrânia por ordem do déspota Vladimir Putin.

A revista elenca episódios que antecederam o início da guerra, que se pode dizer que oficialmente foi iniciada no dia 21 de fevereiro com o decreto de Putin, o covarde stalinista russo, declarando a independência de duas regiões da Ucrânia (Donetsk e Luhansk). Decreto que foi estopim para a explosão da guerra com o oficial envio de tropas russas, com o objetivo de excluir para sempre a identidade do povo ucraniano, mas que o cínico Putin denominou de “missão de paz”!

Mariupol ficou arrasada com o bombardeio russo em 9-3-22.

A ESCALADA DAS MOVIMENTAÇÕES RUMO À GUERRA

Segue um breve elenco de alguns dos episódios transcorridos apenas em fevereiro último, todos baseados em informações de agências de notícias sérias, que reforçam a ideia de que a tensão aumentou muito na região fronteiriça Rússia/Ucrânia. E isso apesar dos esforços diplomáticos de líderes mundiais para obter a pacificação e dos reiterados desmentidos de Vladimir Putin de que não desejava o conflito — nos quais poucos acreditaram.

Residencias de Mariupol arrasadas com o bombardeio russo de hoje (9-3-22)
  1. Vladimir Putin, ex-oficial da KGB, há 22 anos como mandatário absoluto da Rússia, ordena a expulsão do vice-embaixador americano em Moscou, Bartle Gorman;
  2. A Rússia no início de fevereiro contava com aproximadamente 100 mil soldados mobilizados na fronteira com a Ucrânia. Putin declarou que eles estavam sendo retirados. Entretanto, em meados daquele mês o contrário aconteceu, o número de soldados dobrou;
  3. Alguns países, como Brasil, Estados Unidos, Japão, Reino Unido, Coreia do Sul, Holanda, Letônia, Noruega, expedem ordens de retirada de seus cidadãos da Ucrânia. Somente dos EUA são 30 mil americanos;
  4. Joe Biden reforça o pedido de retirada dos cidadãos americanos dizendo que a situação é muito grave, que não estavam lidando apenas com uma organização terrorista, mas sim com um dos maiores exércitos do mundo e que “as coisas podem perder o controle e se tornarem apaixonadas rapidamente”;
  5. Tropas russas participam de manobras na Bielorrússia em meio ao aumento da tensão na Ucrânia, e testam inclusive lançamento de mísseis intercontinentais. Manobras que foram supervisionadas diretamente por Putin;
  6. Imagens de satélite revelam um substancial aumento de tropas, veículos e aviões russos na Bielorrússia e na Península da Criméia (anexada pela Rússia há sete anos, na região de Kursk, a 100 quilômetros da fronteira com a Ucrânia);
  7. Aumento do número de navios de guerra russos, abarrotados de equipamento militar, no Mar Negro;
  8. Antony Blinken, secretário de Estado americano, afirma que “estamos em uma janela em que uma invasão pode começar a qualquer momento […] Continuamos a ver sinais muito preocupantes da escalada russa, incluindo novas forças chegando à fronteira”;
  9. Jake Sullivan, conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, afirmou que “a maneira como Putin mobilizou suas forças e as colocou no terreno, juntamente com os outros indicadores que coletamos por meio de inteligência, deixa claro que existe uma possibilidade muito alta de que a Rússia deva lançar uma operação militar, e há razões para acreditar que isso pode acontecer em um prazo razoavelmente curto”;
  10. Por sua vez, o presidente alemão, Frank-Walter Steinmeier, declarou: “Há um perigo de conflito militar, uma guerra no leste da Europa, e a Rússia tem responsabilidade por isso”;
  11. Boris Johnson, primeiro-ministro inglês, disse que a Rússia está planejando a “maior guerra na Europa desde 1945. […] Que poderá ocorrer uma geração de derramamento de sangue e miséria”;
  12. Governos ocidentais emitem novos alertas sobre o risco de uma iminente invasão russa à Ucrânia;
  13.  O secretário-geral da OTAN, Jens Stoltenberg, também fala em “risco real” de conflagração armada envolvendo a Europa, inclusive com a utilização de armas russas “cibernéticas”;
  14. Como tentativa de enfraquecer ou mesmo derrubar o governo ucraniano, ciber-ataques são operados por russos contra instituições e bancos;
  15. Linda Thomas-Greenfield, embaixadora dos EUA nas Nações Unidas, declarou que Rússia se dirige para uma “invasão iminente” da Ucrânia, apesar dos anúncios de Putin sobre a falaciosa retirada de tropas;
  16. Declaração do secretário de Defesa dos EUA, Lloyd Austin, dizendo que, como atestam documentos de Inteligência americana, a Rússia não diminuiu a presença militar e que novas tropas russas vão se aproximando da Ucrânia;
  17. Elevando o tom ainda mais, Biden — durante coletiva de imprensa na Casa Branca e após uma ligação com líderes ocidentais — declarou estar convencido de que Vladimir Putin tomou a decisão de invadir a Ucrânia, incluindo um ataque à capital, Kiev. E que sua convicção se fundava em relatórios da inteligência americana;
  18. No dia em que fechamos esta matéria (21 de fevereiro), Putin deu o passo que todo o mundo ocidental temia: numa violação flagrante da legislação internacional, da integridade e da soberania territorial da Ucrânia, decretou a independência de duas regiões claramente ucranianas (Donetsk e Luhansk), conforme os acordos de Minsk (2014 e 2015) e, algumas horas após a assinatura do decreto, ordenou o envio de tropas para ocupar essas regiões. Durante tal declaração, Putin — não escondendo seu anseio de restaurar a antiga URSS — novamente lamentou as perdas que a Rússia teve quando a União Soviética se desfez em 1991.
A cidade de Mariupol arrasada com o bombardeio russo de hoje (9-3-22)

7 de março de 2022

RÚSSIA x UCRÂNIA — Movimentações nos ventos da guerra (Parte I)

Coluna de tanques russos

 “A Rússia espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja”

 

Fonte: Revista Catolicismo, Nº 855, Março/2022

Tendo como fundo de quadro o grave conflito que vem se acentuando ao longo das fronteiras entre Rússia e Ucrânia — sobretudo depois da assinatura do pacto entre Rússia e China de “aliança sem limites”, acordado em Pequim no dia 4 de fevereiro último —, muitos analistas internacionais passaram a sentir “cheiro de pólvora” se espalhando pelos ares de várias nações.

Alguns deles vislumbraram a possibilidade da realização de velho sonho do autocrata Vladimir Putin de restabelecer a antiga URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), para o que a invasão da Ucrânia seria apenas o primeiro passo. Outros levantam inclusive a hipótese de que tal conflito possa se degenerar numa III Guerra Mundial, até mesmo com o emprego de arsenal atômico.

Temendo o perigo de que esse sonho de Putin se transforme em realidade, alguns países outrora subjugados pela falida União Soviética — como Polônia, Hungria, Romênia, Bulgária, Lituânia, Letônia e Estônia — mobilizaram tropas para defender suas fronteiras.

No quadro [aqui o reproduziremos amanhã] elencamos algumas informações que mostram como os ventos da guerra avançaram rapidamente até chegar ao decreto do dia 21 de fevereiro, com o qual Putin deixou cair a máscara, mostrando sua sinistra face stalinista. Com efeito, com esse decreto ele violou a integridade e a soberania territorial da Ucrânia ao declarar a independência de duas regiões claramente ucranianas (Donetsk e Luhansk), conforme os acordos de Minsk (2014 e 2015); tendo ordenado logo em seguida o envio de tropas para essas regiões — o que o governante absoluto da Rússia, hipocritamente, chamou de “missão de paz”...

Análise sob o ponto de vista católico

Nós, enquanto católicos que procuram analisar meticulosamente o panorama político internacional, não podemos deixar de relacionar esse conflito com as proféticas palavras de Nossa Senhora de Fátima. Com efeito, no dia 13 de julho de 1917, na terceira aparição aos três pastorinhos, Lúcia, Jacinta e Francisco, Ela profetizou:

“Quando virdes uma noite alumiada por uma luz desconhecida, sabei que é o grande sinal que Deus vos dá de que vai punir o mundo de seus crimes, por meio da guerra, da fome e de perseguições à Igreja e ao Santo Padre. Para a impedir, virei pedir a consagração da Rússia ao meu Imaculado Coração e a comunhão reparadora dos primeiros sábados. Se atenderem aos meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja; os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas; por fim, o meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-Me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz”. 1

Em carta do dia 12 de maio de 1982, dirigida ao Papa João Paulo II, a Irmã Lúcia escreveu : “Porque não temos atendido a este apelo da Mensagem, verificamos que ela se tem cumprido, a Rússia foi invadindo o mundo com seus erros. E se não vemos ainda, como fato consumado, o final desta profecia, vemos que para aí caminhamos a passos largos”. 2

Guerra de civilizações, de culturas, de ideologias

Enquanto católicos não podemos deixar de apontar os efeitos que uma nova guerra poderá causar à Igreja e influenciar todos os aspectos da sociedade temporal. É o que o nosso principal colaborador, o muito saudoso Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, comenta em seu prenunciativo texto publicado em nossa edição de abril de 1951 [aqui o reproduziremos no dia 9 próximo].

Com a invasão da Ucrânia pela Rússia, a situação de guerra poderá levar o mundo a um novo e brutal “choque de civilizações” e a uma “guerra cultural”, gerando revoluções sociais e/ou guerras civis, provocando destruições incalculáveis, não apenas materiais, mas culturais, no sentido da expansão da IV Revolução. 3 Ou seja, será uma guerra ideológica entre “duas civilizações, duas culturas, dois mundos ideológicos inteiramente distintos e antagônicos, em presença um do outro. E a sobrevivência da hegemonia mundial da cultura ocidental será impossível se a vitória couber ao bloco liderado pelos bolchevistas”, escreveu o Prof. Plinio no referido artigo.

Uma vez iniciada a invasão da Ucrânia pela Rússia, a situação de guerra poderá levar o mundo a um novo e brutal “choque de civilizações” e a uma “guerra cultural”. 

“Morto o comunismo? E o anticomunismo também?”

Uma objeção poderia ser levantada: a URSS não existe mais; a União Soviética era uma coisa e a Rússia de hoje, outra. Sem dúvida, o objetor fictício tem razão. Mas também tem razão quem vê o perigo do retorno do regime próprio da “União Soviética” — que subjugou povos por sete longas e negras décadas —, prenunciado na pretensão de dominar a vizinha Ucrânia. Tudo isso se agrava exponencialmente com o recente pacto sino-russo.

Ademais, constitui grave equívoco julgar que o “comunismo morreu” e que a Rússia pós URSS já não é mais dominada pela antiga nomenklatura do regime comunista. A respeito, aconselhamos a leitura do manifesto “Morto o comunismo? E o anticomunismo também?”, de autoria de Plinio Corrêa de Oliveira, publicado em nossa revista (edição de outubro de 1989 — link indicado no final desta matéria).4

Nesse documento, o autor demonstra que no desmoronamento da União Soviética o comunismo não morreu, mas apenas se metamorfoseou por meio de duas políticas cosméticas denominadas Glasnost (transparência), em 1985, e depois Perestroika (reestruturação), em 1986, ambas levadas a cabo pelo velhaco político Michail Gorbachev.

Como a carranca marxista-leninista do comunismo assustava a opinião pública ocidental, os dirigentes russos resolveram dar a impressão de que “o velho comunismo morreu”, desmobilizando desse modo as reações anticomunistas, ao mesmo tempo que conservavam os países satélites da Rússia. Tudo não passou de mera cirurgia cosmética — como agora estamos vendo com o projeto de Putin, antigo coronel da KGB da ex-URSS.

Ele próprio já afirmou que a maior tragédia geopolítica do século XX foi o fim da União Soviética, tendo aliás renovado essa afirmação no dia 21 de fevereiro último, ao lamentar as perdas causadas à Rússia pelo desfazimento da União Soviética em 1991. Não é, pois, de estranhar que Putin queira restabelecer o antigo sistema de domínio soviético ao subjugar o próprio país e os vizinhos, entre os quais a Ucrânia, a fim de restabelecer aquela espúria união de países comunistas para fazer face ao mundo ocidental.

“Espada de Dâmocles” pairando sobre o Ocidente

Nestes dias em que redigimos esta matéria, a tensão nos ventos da guerra é altíssima — sobretudo porque poderá ocorrer uma conflagração armada envolvendo Rússia, China, Estados Unidos, Ucrânia e nações vizinhas. Bem vislumbramos que esses ventos poderão mudar de direção de um dia para outro, e quando esta edição estiver em mãos de nossos leitores, a tensão poderá ter aumentado, diminuído ou mesmo cessado. Quem viver, verá!

         Mesmo que o clima de guerra venha aparentemente arrefecer, enquanto Vladimir Putin e Xi Jinping — o qual pretende fazer com Taiwan o mesmo que o mandatário russo quer fazer com a Ucrânia — estiverem aboletados no poder de suas imensas nações, tal clima persistirá ainda que seja como “espada de Dâmocles” pairando sobre a civilização ocidental e cristã.

Chamberlain, no retorno a Londres, exibe o “acordo de Munique” após encontro com Hitler

“Escolhestes a vergonha, agora tereis a guerra”

        

Não somos partidários do “ceder para não perder”, mas sim de lutar para vencer! Imaginamos que também nossos leitores sejam admiradores desse princípio católico, em oposição a certos líderes mundiais entreguistas, partidários do princípio “ceder para não perder”. Conforme se desenrolarem os acontecimentos, a eles poderemos aplicar a histórica censura proferida por Churchill [foto ao lado] ao entreguista Chamberlain (Primeiro-Ministro do Reino Unido entre 1937 e 1940) quando este retornou a Londres celebrando o “acordo de Munique” após um encontro com Hitler — às vésperas da eclosão da Segunda Guerra Mundial —, na vã tentativa de apaziguar a agressividade nazista: “Tínheis a escolher entre a vergonha e a guerra. Escolhestes a vergonha, agora tereis a guerra”.

Assim sendo, não “baixemos a guarda”, estejamos com os olhos bem abertos, pois não podemos ver de modo otimista o perigo que nos ameaça, nem com olhos “chamberlainescos”... Pelas mesmas razões, consideramos que o artigo a seguir seja mais atual do que no próprio ano em que foi redigido, décadas atrás, por Plinio Corrêa de Oliveira. Dele eliminamos apenas algumas frases concernentes especificamente à geopolítica naquele remoto ano.

Da Redação de Catolicismo

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Notas:

1.        1. Um caminho sob o olhar de Maria – Biografia da Irmã Lúcia Maria de Jesus e do Coração Imaculado, Carmelo de Coimbra, Edições Carmelo, Coimbra, 2013, pp. 63-64.

2.        2. Antonio Augusto Borelli Machado, Catolicismo, Nº 597, Setembro/2000.

3.        3. Plinio Corrêa de Oliveira, Revolução e Contra-Revolução, Artpress, S. Paulo, 4a. edição em português, 1998, Parte III. (na qual o autor descreve o nascimento da IV Revolução - a Revolução Cultural, que procura implantar uma sociedade tribal e anárquica).

4.        4. http://catolicismo.com.br/Acervo/Num/0466/P04-05.html

27 de julho de 2016

FRANÇA — Sacrílego e bárbaro atentado do terrorismo islâmico: sacerdote católico é degolado


Paulo Roberto Campos

Na manhã de ontem, 26 de julho, dois muçulmanos degolaram o Padre Jacques Hamel, de 84 anos [foto ao lado].


Armados com facas, os sequazes de Maomé, enquanto o sacerdote celebrava a Missa, invadiram a Igreja em Saint-Etienne-du-Rouvray (no Norte da França), gritando “Allah Akbar” (Alá é Grande) e louvores ao “Estado Islâmico”. Eles tomaram como reféns alguns assistentes da missa matinal, entre os quais duas freiras, e com suma crueldade e covardia, obrigando o sacerdote ajoelhar-se diante deles, e ali mesmo o degolaram. Ademais, feriram gravemente um dos paroquianos. Uma religiosa, irmã Danielle, conseguiu fugir e chamou a polícia, que cercou a Igreja e abateu os dois terroristas. 

O “Estado Islâmico” já assumiu a autoria de mais este cruel atentado na França, confirmando que os terroristas eram “dois de nossos soldados”. 

O sacerdote degolado mantinha relações cordiais com os muçulmanos da cidade, a ponto de há 16 anos ter oferecido um terreno para a construção da mesquita local... É bem o caso de recordar o dito espanhol: “Cria cuervos que te sacarán los ojos” (“Criem corvos, e eles te arrancarão os olhos”...). 

Enquanto alguns chefes de Estado europeus abrem indiscriminadamente suas fronteiras para a entrada de “imigrantes” maometanos, estes vão se estabelecendo e sendo aliciados e preparados por seus chefes religiosos para perpetrarem atentados terroristas visando colocar a Europa de joelhos e dominá-la. Sempre alentando o projeto de aniquilação da Cristandade europeia, por meio de uma espécie de gigantesca contra-cruzada pela destruição da Cruz Cristo e a implantação do Crescente de Maomé! 
Ao fundo, a Igreja em Saint-Etienne-du-Rouvray, onde o idoso sacerdote francês foi degolado pelos muçulmanos

Segundo a Agência de Notícias “Zenit”, o Pe. Federico Lombardi, porta-voz da Santa Sé, difundiu uma nota à imprensa na qual lamenta o fato. Sem denunciar o islamismo, escreve: “Sigamos a situação e esperemos mais informações para compreender melhor o que aconteceu”

A fim de se “compreender melhor o que aconteceu”, seria bem o momento de relembrar ao porta-voz da Santa Sé a ameaça a Roma proferida em 1962 por Gamal Abdel Nasser (presidente do Egito entre 1954 a 1970): “O Crescente arrastou a Cruz na lama... Só uma cavalgada muçulmana é que nos poderá restituir a glória de outrora. Essa glória não será reconquistada senão quando os cavaleiros de Alá tiverem pisoteado São Pedro de Roma e Notre Dame de Paris”. (“Nouvelles de Chrétienté”, Nº. 362, de 13-9-62). 

Conviria também relembrar que, quando no século XVI a Europa esteve prestes a ser invadida por mar pelos maometanos, o Papa São Pio V conclamou os príncipes europeus a se unirem numa frente comum contra o invasor. Reuniu uma pequena esquadra, que entregou ao comando de Dom João d’Áustria, pedindo-lhe que partisse logo ao encontro do inimigo. No dia 7 de outubro de 1571 deu-se a célebre Batalha de Lepanto, travada no golfo do mesmo nome. Dom João d’Áustria mandou hastear o estandarte oferecido pelo Papa e bradou: “Aqui venceremos ou morremos”, e deu a ordem de batalha contra os seguidores de Maomé. 
Quadro "A Batalha de Lepanto", travada no dia 7 de outubro de 1571. A vitória da esquadra católica impediu a invasão maometana na Europa

Os primeiros embates marítimos foram favoráveis aos muçulmanos, que, formados em meia-lua, desfecharam violenta carga. Os católicos, com o terço ao pescoço, prontos a dar a vida por Deus e tirar a dos infiéis, respondiam aos ataques com o maior vigor possível. Por fim, através de um surpreendente auxílio da Santíssima Virgem aos cristãos, a esquadra muçulmana bateu-se em retirada. Os infiéis perderam 224 navios (130 capturados e mais de 90 afundados ou incendiados), quase 9.000 maometanos foram capturados e 25.000 morreram, enquanto as perdas católicas foram bem menores: 8.000 homens e apenas 17 galeras perdidas. 

Com essa memorável vitória católica em Lepanto, a Europa viu-se livre da dominação islâmica naqueles idos. (Cfr. William Thomas Walsh, Felipe II, Espasa-Calpe, Madrid, 1951, p. 575).


E em nossos dias? Os europeus assistirão de braços cruzados a nova tentativa de domínio do glorioso Velho Mundo? Permitirão que o perigo maometano se agigante em tais proporções que depois não adiantará fazer mais nada? 

No ano passado, após um dos atentados do terrorismo islâmico em Paris, Aboubakar Shekau, líder do grupo muçulmano Boko Haram, declarou “Estamos muito felizes com o que aconteceu no centro da França. Oh, franceses, vocês que seguem a religião da democracia, entre vocês e nós a inimizade é eterna”.

Um ano antes dessa patética declaração, Dom Amel Nona, Arcebispo de Mosul  — terceira maior cidade do Iraque , após de relatar as atrocidades praticadas pelos maometanos em sua região, como abuso de meninas, incêndios de igrejas e casas, escravidão de mulheres que viram seus maridos serem degolados etc., afirmou: “Nossos sofrimentos de hoje são um prelúdio daqueles que também vós, europeus e cristãos ocidentais, padecereis no futuro próximo, se não reagirdes a tempo”. 

Quantas cabeças ainda precisarão rolar na Europa para que as autoridades tomem providências sérias e não fiquem mais nesse blábláblá “politicamente correto”, como a repetição do "mantra" de que o “islamismo é uma religião de paz”? Ou ainda disparates como este do primeiro ministro francês Manuel Valls, que em 15 de julho último — no dia seguinte ao terrível atentado terrorista islâmico em Nice, que atropelou centenas de pessoas e matou quase 100 — declarou: “Entramos em uma nova era. E a França terá que conviver com o terrorismo.” 

Ou seja, “conviver com o terrorismo”, significa que deveremos continuar nos levantando da cama todos os dias nos perguntando: “Onde foi hoje o atentado do terrorismo islâmico?”. “Quantos morreram?” — Isto até que acordemos banhados em sangue ou voando pelos ares num dos atentados?!