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19 de maio de 2026

Miguel, coroinha paulista com síndrome de Down

 

Plinio Maria Solimeo 

C
om o avanço da técnica hoje já se pode acompanhar pela ultrassonografia o desenvolvimento de um feto ao longo de uma gravidez. O que possibilita saber-se não só o sexo da criança por nascer, mas se ela apresenta alguma anomalia como a síndrome de Down. Se isso ocorre, os médicos normalmente (e criminosamente) aconselham à gestante a abortar. 

Por isso hoje, na Europa, cerca de 90% das gestações com diagnósticos de síndrome de Down são interrompidas. Ou seja, abortadas. Sendo que na Islândia, na Dinamarca e no Reino Unido essas taxas muitas vezes ultrapassam esses 90% dos casos diagnosticados. Nos Estados Unidos a taxa de interrupção após o diagnóstico é de cerca de 75%, mas varia de 61% a 93% dependendo da população pesquisada. 

Por que uma maioria de pais prefere o aborto do feto com Down? 

Alguém poderia perguntar: “Por que a maioria dos pais prefere assassinar a criança por nascer com síndrome de Down a ter um filho com essa síndrome?” 

Não é difícil responder: A criança nascida com essa síndrome, na maioria dos casos, apresenta deficiência intelectual, atrasos no desenvolvimento e características físicas específicas, atraso também no desenvolvimento cognitivo e da fala, e exige estimulação precoce e apoio pedagógico. Além do que sua aparência não é de todo agradável. 

Ora, perguntamos: se o aborto de um feto normal já é um pecado “que clama aos céus e pede a Deus por vingança” por ser um “homicídio voluntário”, o que não dizer desse homicídio perpetrado sobre um feto que, pela vontade divina, apresenta essa síndrome? 

Uma feliz exceção: um casal de Piracicaba 

Entretanto, há mães que se negam a matar o filho que está em suas entranhas com um aborto voluntário por ter síndrome de Down, aceitando todas as consequências que daí poderão advir.

Tal foi o caso do religioso casal Lopes, de Piracicaba, no interior do Estado de São Paulo. Quando a esposa, Tássia, pela ultrassonografia soube que seu bebê nasceria com síndrome de Down, apesar do conselho dos médicos para que abortasse, tanto ela quanto o esposo, confiando em Deus, se recusaram a isso e resolveram continuar a gestação até o fim prontos para o que desse e viesse. 

E assim, para alegria dos pais, há 11 anos nasceu Miguel portando como previsto a síndrome de Down. Apesar de que, desde o nascimento o menino enfrentasse severas complicações, isso não o impediu de viver e crescer até os 11 anos cheio de alegria. 

Coroinha com síndrome de Down 

Tássia começou a levar Miguel desde pequeno à igreja que frequentava, Santa Rosa de Lima em Piracicaba. Esta paróquia foi criada em janeiro de 2011 por Dom Fernando Mason, hoje bispo emérito, desmembrando-se da de Sant’Anna. Santa Rosa tornou-se então para muitos dos seus paroquianos, segundo o comentário de Roberta Bissolli, o “lugar onde sentimos a presença de Deus, minha casa [e o] melhor lugar [para se estar”]. 

Nessa tão acolhedora igreja Miguel foi muito bem recebido pelos paroquianos.

Acontece que, apesar de suas limitações por causa da síndrome, desde muito cedo ele manifestou o desejo de ser coroinha. 

Para atendê-lo foi preciso que a paróquia fizesse alguns ajustes, treinando seus catequistas de acordo com as necessidades de Miguel. Tássia acompanhou todo o processo, e a coordenadora da catequese, Jaci, também se esmerou em ampara-lo. 

Desse modo Miguel pôde realizar seu sonho, e hoje ajuda à Missa, ajoelhando-se, rezando e com a patena na hora da Comunhão. Sua presença se tornou uma parte familiar e cheia de alegria nas celebrações da paróquia. 

O valor do bom exemplo 

Da. Tássia diz que uma amiguinha de Miguel [cujo nome ela não dá por discrição] não ia habitualmente à igreja. Mas sabendo que ele era coroinha, suplicou à mãe que com ela passasse a frequentá-la. Diz Da. Tássia: “Agora ela [a menina] ajuda na hora da coleta, e sua mãe se tornou catequista”. 

O que prova como o bom exemplo sempre atrai. Pois, diz Da. Tássia, “com o tempo a presença de Miguel na paróquia encorajou outras famílias a retornar a ela. Algumas pessoas perguntam mesmo quando é que ele estará ajudando a Missa para assim também a assistirem”. 

Para as mães que esperam que seus filhos se engajem mais na vida paroquial, Da. Tássia aconselha: “Isso começa em casa. E quando você vai à igreja, esteja pronta a ajudar. A empatia deve vir dos dois lados: necessitamos acolher as pessoas, mas também ajudar a preparar o caminho”. 

Como parte desse esforço, ela criou um formulário intitulado "Quem Sou Eu?", que entrega aos catequistas. O formulário explica como seu filho aprende e se comunica, para ajudar a melhor o entender a fim de acompanhá-lo melhor na catequese .

10 de maio de 2026

Mais magnífico do que uma Catedral para o filho: uma Mãe

 


“A pessoa mais importante na Terra é uma mãe. 

Ela não pode reivindicar para si a honra de ter construído uma Catedral como Notre Dame. 

Ela não precisa. 

Ela construiu algo muito mais magnífico que qualquer catedral — a morada para uma alma imortal, a pequena perfeição que é o corpo de seu filho. 

Nem sequer os anjos foram dotados de tamanha graça. 

Eles não podem partilhar do milagre criador de Deus, nem levar novos santos ao Paraíso. 

Só uma mãe humana pode. 

As mães estão mais perto de Deus Criador do que qualquer outra criatura. 

Deus une esforços com as mães para executar esse ato da criação. 

O que nesta boa Terra de Deus é mais glorioso do que isso: ser uma mãe? 

(Cardeal Mindszenty)

20 de abril de 2026

150 ANOS DE UMA TRADICIONAL DAMA PAULISTA

 

Dona Lucilia em Paris (1912) 

Nossas homenagens no sesquicentenário do nascimento de Da. Lucilia Ribeiro dos Santos Corrêa de Oliveira, extremosa mãe do idealizador e principal colaborador de Catolicismo, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira

Fonte: Revista Catolicismo, Nº 903, abril/2026

Nossos leitores bem conhecem Plinio Corrêa de Oliveira. Pouco conhecem, entretanto, a respeito de quem lhe deu a vida e o formou no amor de Deus, inculcando-lhe desde a mais tenra idade a devoção aos Sagrados Corações de Jesus e de Maria e o amor à Santa Igreja Católica Apostólica Romana, à qual ele dedicou toda a sua vida, lutando incansavelmente em sua defesa e da civilização cristã dela nascida e combatendo seus adversários.

Lucilia Ribeiro dos Santos Corrêa de Oliveira pertencia à tradicional linhagem dos paulistas denominados quatrocentões — provenientes dos fundadores ou dos primeiros povoadores da cidade de São Paulo, inclusive alguns bandeirantes. Dentre seus antepassados maternos, destacou-se, durante o reinado do Imperador D. Pedro II, o Prof. Gabriel José Rodrigues dos Santos (1816-1858), catedrático da renomada Faculdade de Direito de São Paulo, advogado, orador brilhante, deputado provincial e mais tarde nacional.

O Prof. Plinio sempre manifestou suma gratidão a Dona Lucilia pela formação religiosa, moral e psicológica que ela lhe imprimiu. De uma esmerada educação e modo de ser bem característico das famílias aristocráticas da São Paulo de outrora, ela possuía uma cordialidade exemplar no trato com as pessoas. Era também de uma piedade exemplar no trato com as coisas sagradas. Virtudes que tão bem transmitiu ao filho, como que por osmose permeadas de alma a alma.

Certa vez, ele comentou que sua devoção ao Sagrado Coração de Jesus remontava à mais tenra infância, e que — conta-se entre seus familiares —, antes mesmo de aprender a pronunciar as palavras mamãe e papai, ela lhe ensinara a apontar para a imagem do Sagrado Coração quando lhe perguntavam onde estava Jesus, e as primeiras palavras que dela aprendeu a pronunciar foram Jesus e Maria.

A devoção ao Sagrado Coração de Jesus marcou profundamente a vida de Dona Lucilia, que soube bem comunicá-la ao filho, como se verá no texto que segue — assim como na entrevista que reproduziremos proximamente —, mas muitos outros aspectos podem-se destacar em seu caráter e em sua alma. 

Assim, para homenageá-la neste mês em que recordamos os seus 150 anos, escolhemos para nossos leitores alguns comentários do Prof. Plinio que ressaltam primordiais aspectos dela.

 

Lucilia com 23 anos

Inflexibilidade, suavidade,

gentileza, coerência

         Durante um almoço, conversando com discípulos, todos membros da TFP, que se encontravam na fazenda Morro Alto de Nossa Senhora do Amparo (na cidade de Amparo, no interior paulista), em 12 de agosto de 1988, pediram ao Prof. Plinio que explanasse sobre os principais traços que mais admirava em sua mãe.

Não era de seu costume tomar a iniciativa de falar a respeito dela, mas o fazia quando insistiam para que tratasse do assunto. Foi o que se passou nesse almoço, cujo texto, extraído de fita magnética (K-7), reproduzimos a seguir. Apenas o transpomos para a linguagem escrita o que fora dito de modo informal numa conversa durante uma refeição.

*   *   *

“Constituía traço dominante da alma dela [Dona Lucilia] uma seriedade grave, mas paradoxalmente muito suave; uma pessoa muito certa e segura no julgar as coisas; um espírito muito ‘pão-pão, queijo-queijo’, pouco sujeito a dúvidas.

Ela podia hesitar no tocante a coisas pequenas e secundárias, mas nas grandes linhas gerais da vida, nas convicções, no modo de tocar os seus afazeres, ela não tinha um pingo de hesitação. Era feita de certezas — certezas calmas, lúcidas, de quem via logo à primeira vista e com muita nitidez o que era verdade e o que era o erro, o que era o bem e o que era o mal, o que era o feio e o que era bonito. Ela aderia inteiramente ao ‘Verum, Bonum, Pulchrum’ [Verdadeiro, Bom e Belo — três dos transcendentais do ser, como ensina a filosofia escolástica. O Verum aponta para a inteligência, o Bonum para a vontade, e o Pulchrum para a contemplação].

Uma alma com uma honestidade, com uma limpidez, que faziam uma espécie de um só com ela. Uma sinceridade que a levava a não querer senão o ‘Verum, Bonum, Pulchrum’. Aquilo que ela queria, queria mesmo, fortemente, e o que não fosse isso ela rejeitava. A aceitação era aceitação forte, a rejeição era a rejeição, a convicção era convicção, a negação era a negação e a inflexibilidade verdadeiramente inflexível, mas suave e gentil.

Família Ribeiro dos Santos, da esq. para dir.: Antônio (Toni), Gabriel, Dr. Antônio, Da. Gabriela, Eponina (Yayá), Lucilia e a pequena Brazilina (Zili). [Foto de 1899]


Acrescente-se a isso uma tendência de espírito a ver as coisas sempre pelo lado maravilhoso e pelo seu mais alto aspecto. Ela tinha um espírito muito elevado. Quando se conversava com ela sobre determinado tema, tendia logo a colocá-lo no mais alto, conforme seu feitio intelectual, como uma senhora e mãe de família.

Junto com esses aspectos, ela era uma pessoa que tinha ao mesmo tempo muita alegria de viver e muita tristeza acumulada. Ela tinha ideia de como deveria ser a vida, e tinha ideia de que a vida era um Vale de Lágrimas, e que, portanto, normalmente as pessoas deveriam passar pelo sofrimento.

Ela nasceu em Pirassununga [no dia 22 de abril de 1876], no interior de São Paulo, onde seu pai advogava no começo de sua carreira. Depois, ele mudou-se para a capital [em 1893], onde fundou um escritório de advocacia e prosperou.

Ela, já idosa, se referia a Pirassununga como se fosse o dia de ontem. Contava coisas de sua cidade natal com verdadeiro encanto, por exemplo, dos colibris da cidade. Falava que havia tantos que — numa sala da casa onde ficavam expostos dois óleo-gravuras representando buquês de diversas flores — eles se iludiam e batiam com o bico no vidro do quadro. Certa vez um deles bateu com tanto ímpeto que caiu no chão, e que uma tia molhou o bico do beija-flor para ele se recompor e voltar a voar. Mamãe contava isso, e um mundo de outros episódios, mas tudo com pormenores, vendo o alcance simbólico das coisas, como, no caso, a delicadeza e a beleza dos colibris.

Ela possuía um espírito elevado, mas capaz de descer aos últimos pormenores e se entreter com uma simples pétala de flor e outras coisas pequenas, mas também com recordações dela em Paris, na Alemanha, no Rio de Janeiro ou com episódios da sociedade.

Ela gostava também de contar muitos casos da vida quotidiana. Em todas as suas narrativas ela revelava a variedade de sua alma, considerando os aspectos simbólicos e morais com certo fundo religioso.

Lembro-me dela falando das festas de seu tempo. Por exemplo, de um baile que houve no palacete do Conde Álvares Penteado. Ela descrevia com pormenores a casa toda ornamentada; que sua mãe, Dona Gabriela Ribeiro dos Santos (1852-1934), uma senhora realmente muito bonita e de grande distinção, fora escolhida para dançar com o Conde.

Sobre todas as coisas mamãe gostava de comentar, desde o Conde até uma velha senhora de Pirassununga; da visita que tinha feito a Neuilly-sur-Seine até a visita à Princesa Isabel, mas tudo sob o ângulo de análises dos ambientes e costumes, marcando os comentários com o aroma de uma boa formação moral.

Na família se conversava muito sobre política, mas nisso ela não entrava, não tomava partido. Entretanto, quando eclodiu a I Guerra Mundial, ela não aceitou que a Alemanha invadisse a França. Quando foi atingida a Catedral de Reims, por um bombardeio alemão, ela tomou aquilo como se tivessem atingido a própria casa dela. Ela acordava cedo e ia ver nos jornais as notícias da guerra. Comentava com meu pai, pois eu, muito menino ainda, não entendia.

Imagem do Sagrado Coração
 que pertenceu a Dona Lucilia

Entretanto, mamãe melhor se manifestava ela mesma nos momentos em que estava rezando.
Nesses momentos, eu tinha impressão de que todas as qualidades dela cresciam e se estabelecia uma espécie de vínculo entre o Sagrado Coração de Jesus e ela — mas sem visões nem milagres ou revelações. Era uma espécie de relacionamento por onde toda a bondade dela, todo seu modo de ser era em parte produto da tradição brasileira, mas era muito mais fruto da devoção dela ao Sagrado Coração, que lhe comunicava a bondade d’Ele, as qualidades d’Ele. Tudo isso se realizava de modo inefável, mas enchia a alma dela e estabelecia uma consonância entre ela e todas as coisas da Igreja.

Quando [em 1919] entrei no Colégio São Luís, dos padres jesuítas em São Paulo, compreendi perfeitamente, pelo natural desenvolvimento do espírito de todo menino, que mamãe podia significar algo muito alto na minha vida, mas que não era o paradigma de minha vida. Meu paradigma era a Santa Igreja Católica Apostólica Romana, como meus professores jesuítas ensinavam.

Naquele tempo, eles ensinavam muito bem, ao menos para o meu intelecto de criança. Falavam muito bem do Papa, da devoção que se deve ter a ele; promoviam a devoção a Nossa Senhora; impulsionava a Congregação Mariana; falavam e combatiam duramente os adversários da Igreja. Por exemplo, eles repugnavam o movimento de insurreição dos liberais italianos contra os Estados Pontifícios no século XIX, falavam mal da invasão de Roma, de Garibaldi etc. Ensinavam bem tudo isso — o que, desde cedo, me fazia ir compreendendo a Revolução que visava destruir a ordem cristã no mundo.

Naquela época de menino, eu via dois valores diferentes: primeiro a Igreja, fonte da verdade; depois a Revolução, da qual, em última análise, a ignomínia essencial era de se atirar contra a Igreja. Por outro lado, eu olhava minha mãe e, como criança, me perguntava: o que valia mais?

E a resposta que me veio ao espírito foi: essas coisas não se dissociam, pois tudo quanto há em mamãe ela recebeu da Igreja. E ainda me perguntava: nela, tudo é conforme a Igreja? Porque se algo nela não for conforme a Igreja, eu prefiro a Igreja a ela, porque a Igreja foi fundada por Deus. Quero muito bem à minha mãe, mas ela é uma criatura humana que pode errar como eu, como qualquer um. E eu a reexaminava ponto por ponto. Inclusive fazia perguntas a ela para saber o que pensava de certos temas. Ela passou comigo por um ‘Santo Ofício’, por uma inquisição. Eu fui o ‘inquisidor’ dela. ‘Inquisidor’ afetuoso, respeitoso, meticuloso, inflexível. Nem preciso dizer que ela passou nesse exame com nota 100...

A resposta a todas as perguntas — na cabeça de uma criança — era invariavelmente a seguinte: ‘Isso é bom porque é conforme à Igreja, e não porque é conforme a mamãe, senão enquanto ela representa — como uma boa mãe de família deve representar — a Igreja. Mas o bem é a Igreja!’.

Um exemplo: eu tinha um tio, irmão dela, que fazia parte do governo de São Paulo, era Secretário de Estado. Na época arrebentou uma Revolução e o governo começou a convocar os jovens para irem combater por essa Revolução.

Um dia, meu tio estava se despedindo dela em casa e ela foi acompanhá-lo até à porta, e fui junto. Quando chegou à porta da rua, ele — brincando, mas ela não percebendo que era uma brincadeira — disse que ela precisava ‘dispor de tudo para que o Plinio pegasse em armas e seguisse para o combate.’

Ela respondeu: ‘Não, não vai não! Meu filho não vai combater nessa Revolução!’. Ele fingiu-se de zangado: ‘Mas como não! É um dever da Pátria!’. Ela, com firmeza, disse: ‘Gabriel! Fique bem sabendo, o Plinio não vai entrar nesse negócio!’. Meu tio sabia que eu não iria, mas continuou a gracejar: ‘É, vocês são assim, hein? Mas se fosse para defender a religião iria!’ E ela retrucou imediatamente: ‘Aí naturalmente, Plinio seria o primeiro a ir…’

Fatos assim, muito coerentes, aconteceram durante toda a vida dela até o fim. O último eu não tive a alegria de assistir, por estar convalescente de uma grave crise de diabetes. Mas o médico, Dr. Duncan, me contou.

Ele estava amavelmente prestando assistência médica a ela e havia passado a noite em claro junto à sua cama. Pela manhã, ele mandou a empregada me avisar no meu quarto que mamãe estava com uma crise cardíaca fortíssima, e que estava prestes a falecer. Eu então me levantei e fui para o quarto dela.

Quando cheguei, ela tinha acabado de entregar sua alma a Deus, mas o Dr. Duncan me contou o último gesto dela. Que quando chegou o último instante, mamãe fez o Sinal da Cruz bem grande e imergiu na morte rumo à eternidade, mas com toda serenidade, decisão e força”.

*   *   * 

Era o amanhecer de 21 de abril de 1968. Naquele momento de dolorosa separação, o filho osculou sua querida mãe e disse entre lágrimas: “Mamãe me ensinou a amar Nosso Senhor Jesus Cristo, ensinou-me a amar a Santa Igreja Católica”. Haveria um obituário mais elogioso do que este?

No dia seguinte, essa tradicional dama paulista, da qual Plinio Corrêa de Oliveira se honrava de ter nascido, completaria 92 anos.

Numa carta a Júlio de Mesquita Neto — ex-diretor de um famoso jornal que ecoou ofensas caluniosas contra Dona Lucilia — o Prof. Plinio escreveu, em 15 de agosto de 1979, encerrando a missiva: “Beati mortui qui in domino moriuntur – bem-aventurados os mortos que morrem em paz com Deus. Da paz do Senhor onde se encontra, bem sei que minha querida mãe reza por mim. Segundo a ilimitada bondade de seu coração, sei que ela também está rezando pelo autor da ofensa. E pede que a este ninguém faça o mal feito a ela e a mim”.

A Dona Lucilia nosso preito de homenagem e agradecimento pelo varão que gerou e formou com caráter tão magnânimo e entregou como filho fidelíssimo da Santa Igreja Católica.

É de origem latina o nome Lucilia, cuja raiz é lux, lucis. Etimologicamente, significa luminosa ou iluminação, que pertence à luz, e está também associado a clareza e a pureza (Cfr. Oxford Dictionary of First Names, 2ª edição, 2006, p. 186).

Que desde o Céu, por tantos méritos de mãe autenticamente católica, ela ilumine ‘lucilianamente’ nossos caminhos, obtendo-nos dos Sagrados Corações de Jesus e Maria a graça de continuar no rumo do bom combate iluminado e empreendido por seu querido filho neste Vale de Lágrimas.

Da Redação de Catolicismo

23 de maio de 2024

O que Nossa Senhora Auxiliadora representa para nós


 

Neste dia 24 de maio celebramos a invocação Auxiliadora dos Cristãos, instituída por Pio VII em 1814. 


➤  Plinio Corrêa de Oliveira

A palavra família indica uma pluralidade de pessoas. Mas há outra palavra, de especial significado, que indica uma só pessoa: mãe.

Mãe é a quintessência da família, porque é a quintessência do amor, a quintessência do afeto; e, nessas condições, a quintessência da bondade e da misericórdia. 

Assim, a alma da criança em contato com a mãe começa a compreender o que é a bondade que não se cansa, o que é a graça, o favor, o amor que não se exaure. E também aquela forma de afeto que inclina a mãe a jamais achar tedioso estar com o filho. Carregar seu filho nos braços, brincar com ele, soltá-lo no chão, vê-lo correr de um lado para outro, ser importunada por ele incontáveis vezes durante o dia com perguntinhas, com brinquedinhos. Para a boa mãe, nisto consiste a alegria da vida. 

Se alguém, no começo de sua existência, percebe o que é a alegria de ter uma boa mãe, compreende que a vida na Terra pode ser muito difícil; mas, enquanto conservar a recordação de sua mãe, guardará a lembrança paradisíaca da sua infância.

Retendo essa recordação, a pessoa mantém a esperança do Paraíso Celeste, onde a boa Mãe vai nos receber. E assim compreendemos tudo quanto representa Nossa Senhora Auxiliadora para nós.
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Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira para sócios e cooperadores da TFP em 24 de maio de 1995. 
Esta transcrição não passou pela revisão do autor.

11 de maio de 2024

SUBLIMIDADE DO INSTINTO MATERNO



“Dai-me mães verdadeiramente cristãs e eu salvarei o mundo que está afundando”. 

(São Pio X) 


“Para medir a sublimidade do instinto materno, basta dizer que o mais terno, o mais puro, o mais soberano e excelso, o mais sagrado e sacrificado dos amores que já tenha existido na Terra — o amor do Filho de Deus pelos homens — foi por Jesus comparado ao instinto animal. Pouco antes de padecer e morrer, Ele chorou sobre Jerusalém, dizendo: ‘Jerusalém, Jerusalém! Quantas vezes eu quis reunir teus filhos, como a galinha reúne seus pintinhos debaixo de suas asas... e tu não quiseste!’”

(Plinio Corrêa de Oliveira) 


“Esse triângulo de verdades evidentes, de pai, mãe e filhos, não pode ser destruído; ele destrói apenas aquelas civilizações que o desprezam”.

(Gilbert Keith Chesterton) 


“Ser mãe quer dizer receber um filho das mãos de Deus; quer dizer entregar a vida inteira, aniquilar-se até à fraqueza e à humildade”. 

(Lovich Ilona) 


“Os homens são o que suas mães os fizeram”. 

 (Ralph Waldo Emerson) 


“Qual é a mãe, seja ela mulher, ave ou fera, que não enfrenta todas as contingências, todos os perigos, inclusive a própria morte, para dar vida aos seus filhos?” 

(Antonio Pousada) 

14 de setembro de 2023

NOSSA SENHORA DAS DORES


15 de setembro
. Celebração instituída pelo Papa Pio VII em 1814, em substituição a duas outras muito antigas, para rememorar as dores da Corredentora do gênero humano. Neste dia os católicos lembramos a Mater Dolorosa e reparamos as suas Sete Dores. 

Mãe das Dores, sim, pois Deus, cujo nascimento vindouro era a razão do próprio nascimento da Virgem, deverá ser neste mundo o homem das dores e do sofrimento, conforme o Profeta Isaias: “Era desprezado, era a escória da humanidade, homem das dores, experimentado nos sofrimentos; como aqueles, diante dos quais se cobre o rosto, era amaldiçoado e não fazíamos caso dele. Em verdade, ele tomou sobre si nossas enfermidades, e carregou os nossos sofrimentos: e nós o reputávamos como um castigado, ferido por Deus e humilhado” (Is 53, 3). 

A quem comparar-Vos? Jeremias, o profeta das lamentações, fala que a aflição de Maria era grande e profunda como o mar: “A quem te comparar, filha de Jerusalém? Quem irá salvar-te e consolar-te, ó virgem, filha de Sião? É imensa como o mar tua ruína: quem poderá curar-te?” (Jer., Lamentações 2, 13). 

No Calvário, a montanha do Sacrifício, como Mãe, Ela ofereceu o Filho; como esposa do Espírito Santo, ofereceu-se com Jesus; por seus sofrimentos de esposa e de mãe, ela foi a co-redentora do gênero humano. 

A profecia do velho Simeão, a fuga para o Egito, a perda do Menino Jesus em Jerusalém, o carregamento da Cruz, a Crucifixão, a descida da Cruz, o sepultamento de Jesus, são os sete mistérios em torno dos quais Nossa Senhora se agrada de ver agrupados os aspectos quase infinitos dos sofrimentos, que dela fizeram a Rainha dos Mártires, a primeira rosa e a mais bela do campo de Deus. (Cfr. Dom Prosper Guéranger, L'Année Liturgique –– Le temps apres la Pentecôte, Maison Alfred Mame et Fils, Tours, 1922, Tome V).

22 de agosto de 2023

Quando o bebê retribui à mãe por seu sacrifício


✅  John Horvat II*

A relação mãe-filho é um maravilhoso vínculo espiritual e físico mais profundo do que se imagina... É uma relação íntima e emocional. A mãe dá tudo ao bebê que se desenvolve em seu ventre em um ato de amor. Tal solicitude e sacrifício tocantes explicam a apreciação universal da maternidade. Também pode explicar a antipatia da esquerda, que odeia todos os elos de dependência e vê a gravidez como uma restrição à liberdade da mulher.

No entanto, o vínculo não é apenas sobre sacrifício. Enquanto a ciência explora o mistério da maternidade, pesquisadores estão fazendo algumas descobertas extraordinárias. Por exemplo, a relação mãe/filho não é uma doação unidirecional da mãe. O vínculo não termina no nascimento. Há momentos em que a criança retribui maravilhosamente à mãe por seu sacrifício. 

Cada descoberta torna cada vez mais evidente que a criança é um ser único e individual, independente da mãe, mas fabulosamente conectado. Incrivelmente, essa relação altamente emocional e espiritual se reflete no funcionamento biológico do vínculo. 

O bebê e a mãe trocam células 

De fato, as células do bebê são diferentes das da mãe desde a concepção. No entanto, como a mãe está constantemente nutrindo e ajudando o desenvolvimento do bebê, suas células encontram seu caminho para o corpo da criança. 

Os cientistas agora dizem que as células do bebê encontram seu caminho para o corpo da mãe e permanecem lá. Até 6% do DNA flutuante na mãe grávida pode ir do bebê, que diminui com o tempo. 

O processo de troca e circulação das células é chamado de microquimerismo. Assim, a presença física da criança na mãe continua bem após o nascimento. As células do bebê deixam uma marca permanente nos tecidos, sangue, ossos, cérebro e pele da mãe — onde podem permanecer por décadas. Essa presença inclui todos os filhos da mãe, mesmo em casos de aborto espontâneo ou aborto de segundo termo. 

Estas células são muitas vezes células-estaminais com incríveis poderes regenerativos e reprodutivos. Um artigo fascinante na Scientific American afirma que uma "conversa constante" acontece entre as células. Após o nascimento, os cientistas acreditam cada vez mais que essa questão genética pode influenciar a saúde da mãe por muitos anos. 

Bebê para o resgate 

Os estudos dessas conversas microquiméricas ainda estão em fase inicial de análise. No entanto, evidências crescentes mostram uma consideração tocante por parte dessas células fetais. Durante a gravidez, algumas doenças maternas desaparecerão porque essas células-tronco fetais correrão para o local da lesão e vão curar o órgão ou o coração danificados da mãe. 

Assim, a mãe protege o bebê do perigo externo, enquanto as células-tronco do bebê detectam riscos internos e reconstroem a mãe para um parto seguro. 

Cuidados naturais de saúde materna 

Após o nascimento, as células do bebê continuam seu trabalho, que diminui com o tempo. Alguns pesquisadores acreditam que as células-tronco fetais reduzem o risco de câncer de mama e outros. As células parecem lutar contra doenças, como a artrite reumatoide. Eles foram encontrados para ajudar as mães com danos na tireoide e fígado, transformando-se em células do órgão. O coração da mãe pode ser o objeto das missões de reparo das células. 

O número de filhos parece não afetar o poder regenerativo das células fetais. O fator importante foi a data do último nascimento. A duração da gravidez deve ser de pelo menos 20 semanas para ter um efeito. O poder regenerativo das células diminui com o tempo e elas se reproduzem menos. 

Uma conclusão antifeminista 

As descobertas são maravilhosas, mas não surpreendentes. Essa assistência mútua é consistente com a forma como Deus criou as coisas com propósito. O sacrifício amoroso e vivificador da maternidade teria de encontrar reciprocidade na natureza. Seria natural que um vínculo físico complementasse o vínculo moral e até mesmo que ele diminuísse à medida que a criança avança em direção a menos dependência na vida adulta. 

Essa relação aponta para a tragédia do aborto, que pode destruir o bem-estar moral e mental da mãe e privá-la também de benefícios físicos. 

Feministas afirmam que a gravidez coloca em risco a saúde da mãe. Pelo contrário, a maternidade contribui para a saúde da mãe. Tanto a mãe quanto o filho se beneficiam física, psicológica e espiritualmente. Os filhos são uma bênção para o bem-estar da mãe em todos os aspectos, não uma maldição para sua liberdade. As feministas fariam bem em seguir a ciência e abraçar a maternidade. 

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Fonte: https://www.tfp.org/when-the-baby-marvelously-repays-the-mother-for-her-sacrifice/

4 de maio de 2023

SANTA MÃE IMACULADA DE DEUS



Para estes dias de maio, o Mês de Maria”, durante o qual especialmente celebramos e invocamos a Santíssima Mãe de Deus, seguem algumas frases de santos que A honraram com belos comentários.


“Na devoção a Nosso Senhor nasce a de sua Mãe. Ninguém pode amar a um sem amar o outro.” 
(São Francisco de Sales) 

 “Tudo quanto pudermos dizer em louvor de Maria Santíssima é pouco em relação ao que merece por sua dignidade de Mãe de Deus.” 
(Santo Agostinho) 

 “A menor oração à Mãe de Deus não fica sem resposta.” 
(Santo André Corsino) 

 “Jamais se ouviu dizer no mundo que alguém tenha recorrido com confiança a essa Mãe Celeste e não tenha sido prontamente socorrido.” 
(São João Bosco) 

 “Redunda em honra do Filho tudo quanto se oferece à Mãe Santíssima.” 
(Santo Idelfonso) 

 “Depois de Deus tudo podes, e teu Filho, Deus e Senhor de todos nós, Te concede tudo como à Mãe, pois com toda a justiça se rende a tuas entranhas maternais.” 
(Santo Eutímio)

23 de maio de 2020

O que Nossa Senhora Auxiliadora representa para nós


Neste dia 24 de maio celebramos a invocação Auxiliadora dos Cristãos, instituída por Pio VII em 1814. 

➤  Plinio Corrêa de Oliveira

A palavra família indica uma pluralidade de pessoas. Mas há outra palavra, de especial significado, que indica uma só pessoa: mãe.

Mãe é a quintessência da família, porque é a quintessência do amor, a quintessência do afeto; e, nessas condições, a quintessência da bondade e da misericórdia. 

Assim, a alma da criança em contato com a mãe começa a compreender o que é a bondade que não se cansa, o que é a graça, o favor, o amor que não se exaure. E também aquela forma de afeto que inclina a mãe a jamais achar tedioso estar com o filho. Carregar seu filho nos braços, brincar com ele, soltá-lo no chão, vê-lo correr de um lado para outro, ser importunada por ele incontáveis vezes durante o dia com perguntinhas, com brinquedinhos. Para a boa mãe, nisto consiste a alegria da vida. 

Se alguém, no começo de sua existência, percebe o que é a alegria de ter uma boa mãe, compreende que a vida na Terra pode ser muito difícil; mas, enquanto conservar a recordação de sua mãe, guardará a lembrança paradisíaca da sua infância.

Retendo essa recordação, a pessoa mantém a esperança do Paraíso Celeste, onde a boa Mãe vai nos receber. E assim compreendemos tudo quanto representa Nossa Senhora Auxiliadora para nós.
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Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira para sócios e cooperadores da TFP em 24 de maio de 1995. 
Esta transcrição não passou pela revisão do autor.

9 de maio de 2020

“Tu te machucaste, meu filho?”

"O amor materno tem de mais sublime e tocante: seu desinteresse completo, sua inteira gratuidade, sua ilimitada capacidade de perdoar. A mãe ama seu filho quando é bom. Não o ama, porém, só por ser bom. Ama-o ainda quando mau. Ama-o simplesmente por ser seu filho" 


Em homenagem ao Dia das Mães, de coração ofereço a todas elas o precioso texto abaixo. Trata-se de um artigo, que considero antológico, de autoria do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira (publicado na “Folha de S. Paulo” de 18-12-1968), no qual faz um enaltecimento ímpar do sublime papel de uma mãe. 


O amor materno no que tem de mais sublime e tocante 


➤  Plinio Corrêa de Oliveira 

É de Emile Faguet, se não me engano, o seguinte apólogo: Havia certa vez um jovem dilacerado por uma situação afetiva crítica. Queria ele com toda a alma sua graciosa esposa. E tributava afeto e respeito profundos à sua própria mãe. 

Ora, as relações entre nora e sogra eram tensas e, por ciumeiras, a jovem encantadora mas má, concebera um ódio infundado contra a idosa e veneranda matrona. 

Em certo momento, a jovem colocou o marido entre a espada e a parede: ou ele iria à casa da mãe, a mataria, e lhe traria o coração da vítima, ou a esposa abandonaria o lar. Depois de mil hesitações, o jovem cedeu. Matou aquela que lhe dera a vida. Arrancou-lhe do peito o coração, embrulhou-o em um pano, e se dirigiu de volta para casa. No caminho, aconteceu ao moço tropeçar e cair. Ouviu ele então uma voz que, partida do coração materno, lhe perguntou cheia de desvelo e carinho: “Tu te machucaste, meu filho?” 

Com este apólogo, quis o autor destacar o que o amor materno tem de mais sublime e tocante: seu desinteresse completo, sua inteira gratuidade, sua ilimitada capacidade de perdoar. A mãe ama seu filho quando é bom. Não o ama, porém, só por ser bom. Ama-o ainda quando mau. Ama-o simplesmente por ser seu filho, carne de sua carne e sangue de seu sangue. Ama-o generosamente, e até sem nenhuma retribuição. Ama-o no berço, quando ainda não tem capacidade de merecer o amor que lhe é dado. Ama-o ao longo da existência, ainda que ele suba ao fastígio da felicidade ou da glória, ou role pelos abismos do infortúnio e até do crime. É seu filho e está tudo dito. 


Este amor, altamente conforme a razão, tem nos pais, também, algo de instintivo. E, enquanto instintivo, é análogo ao amor que a Providência pôs até nos animais por suas crias. Para se medir a sublimidade deste instinto, basta dizer que o mais terno, o mais puro, o mais soberano e excelso, o mais sacral e sacrificado dos amores que tenha existido na Terra, o amor do Filho de Deus pelos homens, foi por Este comparado ao instinto animal. Pouco antes de padecer e morrer, chorou Jesus sobre Jerusalém, dizendo: “Jerusalém, Jerusalém, quantas vezes quis eu reunir os teus filhos como a galinha recolhe os seus pintainhos debaixo das asas, e tu não o quiseste!” 

Sem este amor, não há paternidade ou maternidade digna deste nome. Quem nega este amor em sua excelsa gratuidade nega, portanto, a família. 

É este amor que leva os pais a amarem seus filhos mais do que os outros — de acordo com a lei de Deus — e a desejar para eles, com afã, uma educação melhor, uma instrução maior, uma vida mais estável, uma ascensão verdadeira na escala de todos os valores, inclusive os de índole social. Para isto, os pais trabalham, lutam e economizam. Seu instinto, sua razão, os ditames da própria fé os levam a tal. Acumular uma herança para ser transmitida aos filhos é desejo natural dos pais. Negar a legitimidade desse desejo é afirmar que o pai está para seu filho como para um estranho. É arrasar a família. 



E não só a família e a propriedade, como também a tradição. Com efeito, das múltiplas formas de herança, a mais preciosa não é a do dinheiro. A hereditariedade — o fato é de observação corrente — fixa muitas vezes em uma mesma estirpe, seja ela nobre ou plebeia certos traços fisionômicos e psicológicos que constituem um elo entre as gerações, a atestar que de algum modo os ancestrais sobrevivem e se continuam em seus descendentes. 

Cabe à família, cônscia de suas peculiaridades, destilar ao longo das gerações o estilo de educação e de vida doméstica, bem como de atuação privada e pública, em que a riqueza originária de suas características atinja a sua mais justa e autêntica expressão. Este intuito, realizado no decurso dos decênios e das centúrias, é a tradição. Ou uma família elabora sua própria tradição como uma escola de ser, de agir, de progredir e de servir, para o bem da pátria e da cristandade, ou ela corre o risco de gerar, não raras vezes, desajustados, sem definição do seu próprio eu e sem possibilidade de encaixe estável e lógico em nenhum grupo social. 

Do que vale receber dos país um rico patrimônio, se deles não se recebe — pelo menos um estado germinativo, quando se trata de famílias novas — uma tradição, isto é, um patrimônio moral e cultural? Tradição, bem entendido, que não é um passado estagnado, mas é a vida que a semente recebe do fruto que a contém. Ou seja, uma capacidade de, por sua vez, germinar, de produzir algo de novo que não seja o contrário do antigo, mas o harmônico desenvolvimento e enriquecimento dele. Assim vista, a tradição se amalgama harmonicamente com a família e a propriedade, na formação da herança e da continuidade familiar. 

Este princípio está no bom senso universal. E por isto vemos casos em que mesmo os países mais democráticos o acolhem. É que a gratidão tem algo de hereditário. Ela nos leva a fazer pelos descendentes de nossos benfeitores, mesmo quando já falecidos, o que eles nos pediriam que fizéssemos. A essa lei estão sujeitos não só os indivíduos como os Estados. 

Haveria uma flagrante contradição em que um país guardasse em um museu, por gratidão, uma caneta, os óculos, ou até os chinelos de um grande benfeitor da pátria, mas relegasse à indiferença e ao desamparo aquilo que ele deixou de muitíssimo mais seu que os chinelos, isto é, a descendência. 

Daí a consideração que o bom senso vota aos descendentes dos grandes homens ainda que sejam pessoas comuns. Por isto é que, por exemplo, nos Estados Unidos, todos os descendentes de Lafayette, o militar francês que lutou pela independência, gozam das honras da cidadania americana, tenham eles nascido em qualquer outro país. Daí também a pensão que governos brasileiros têm dado muito justamente a descendentes de grandes figuras, caídos em um honrado estado de necessidade: filhos ou netos de Campos Sales, Rui, etc. Daí também um lance histórico dos mais belos, ocorridos durante a mais recente guerra civil espanhola. 


Brasão de armas 
do Duque de Veraguas
Os comunistas se haviam apoderado do duque de Veraguas, último descendente de Cristóvão Colombo, e iam fuzilá-lo. Todas as repúblicas da América se uniram para pedir clemência para ele. É que não podiam elas ver, com indiferença, extinguir-se sobre a terra a descendência do heroico descobridor. 

*   *   * 

Estas as consequências lógicas da existência da família e dos reflexos dela na tradição e na propriedade. 

Privilégios injustos e odiosos? Não. Desde que se salve o princípio de que a hereditariedade não pode acobertar o crime, nem tolher a ascensão de valores novos, trata-se simplesmente de justiça. E da melhor... 

2 de dezembro de 2018

Feminismo, o defensor das mulheres. – Será mesmo?

➤  Ítalo Nóbrega

O feminismo, enquanto corrente ideológica, tem suas raízes no Iluminismo, com a proclamação dos ideais revolucionários de liberdade, igualdade e fraternidade. Entretanto, somente após a Revolução Francesa é que o vemos sair do campo meramente teórico para abarcar também o campo político. 

Baseado em uma errônea interpretação dos significados de igualdade e liberdade, ele se empenha na luta contra os valores chamados de patriarcais, fundamentados nas diferenças entre os sexos. 

A luta contra tais valores implica, de um lado, a destruição de costumes, tradições e instituições seculares fundamentais para a sociedade, muitas delas remanescentes da Cristandade medieval. De outro lado, essa luta consiste na proclamação de pérfidos ideais cujo estandarte tem como lema “empoderamento feminino”. 

Entre as reivindicações do referido movimento, sempre a pretexto de advogar pelas mulheres, estão o tratamento equânime para ambos os sexos em todas as esferas da sociedade, a emancipação das mulheres em todos os campos em que predominam os chamados preconceitos patriarcais, uma maior participação da mulher em cargos de mando ou poder, direitos reprodutivos (leia-se: “direito” de assassinar um ente inocente que ainda não nasceu), entre outros. 

Entretanto, ao confrontarmos as ideias feministas com algumas de suas atitudes, encontramos uma gritante contradição: enquanto se auto proclamam defensoras das mulheres e valorizadoras do sexo feminino, vemos concomitantemente suas atitudes caminharem em sentido radicalmente contrário. 

Provemos.


Nas últimas décadas, as manifestações feministas de grande porte ora reivindicavam direitos sociais equânimes, ora pediam o fim da violência contra as mulheres ou a descriminalização do aborto. Entretanto, denominadores comuns entre todas elas — as manifestações — inclusive as mais recentes, põem em xeque a legitimidade das mesmas: a omissão de um combate direto e explícito contra a sharia, por exemplo. 

A sharia poderia ser considerada a lei anti-feminina por excelência. Além de tratar as mulheres como impuras, incapacitadas mentais, escravas sexuais de seus maridos, entre outras abominações, ainda torna meninas pré-púberes objeto de espancamentos e de pedofilia. 

Por que as feministas se omitem ante tão crítica situação da mulher nos países islâmicos? 

As contradições são se limitam apenas aos casos negativos; elas estão por toda parte, até mesmo onde se faz mister elogiar. 


Os elogios do movimento feminista se restringem àquelas figuras femininas que servem de cavalo-de-batalha para suas militantes. Algumas de suas principais expoentes servem-nos de ilustração: Mary Wollstonecraft, escritora e “educadora” inglesa, considerada “avó” do feminismo, e Simone Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de Beauvoir [foto à direita], uma francesa filha de aristocratas,mais conhecida como Simone de Beauvoir, que além da bandeira feminista defendia a pedofilia. 

Porém, quantas mulheres honradas que fizeram história e deixaram sua marca são ignoradas pelas feministas? 


Branca de Castela [sua estátua na foto abaixo], mãe de São Luís IX de França, foi uma rainha medieval que assumiu a regência do reino enquanto seu filho ainda não podia fazê-lo. Além de ter sido uma excelente governante, é cultuada como santa. 

Isabel de Castela, esposa de Fernando de Castela — os dois passaram para a História como os Reis Católicos — tinha autoridade política maior que a do seu marido e a usou para o bem de Castela e do catolicismo ali reinante. 

Querem exemplos ignorados mais recentes? 


Santa Gianna Beretta Molla [foto ao lado] preferiu morrer a ter que abortar seu filho. Realizou um gesto heróico. 

Kátia Sastre, policial paulista, neutralizou definitivamente um bandido que ameaçava mães e crianças na porta de uma escola. 

Bem, por que limitar tanto nossa lista? Façamos menção às mães de família que com tanto esforço e em meio às ameaças do mundo moderno — como a ideologia de gênero, por exemplo — lutam para criar e bem educar seus filhos, manter seus lares e servir de apoio a seus maridos. 

Por que tamanha omissão em relação a essas grandes mulheres do passado e do presente? Existe um motivo?

Sim, ele existe. Ei-lo: uma personagem só serve ao feminismo na medida em que é possível usar ou distorcer sua personalidade ou seus atos para desfigurar a imagem da mulher. E este, aliás, é o verdadeiro objetivo do feminismo. 

Vemos que o denominador comum, implícito ou explícito, nos atos ou reivindicações do feminismo, é essa deformação da figura feminina. Desfiguração feita seja pelo aviltamento das qualidades da mulher, seja por uma falsa atribuição de características masculinas a ela. 

Se o feminismo se preocupasse de fato com as mulheres, ele defenderia a verdadeira imagem destas. Imagem que não só completa e adorna a imagem do homem, como tem um papel fundamental na vida da família e da sociedade. 


É a imagem da mãe, da companheira, da conselheira, da protetora, da educadora; é a imagem daquela que sabe combinar esplendidamente a força e a delicadeza, a bondade e a firmeza; é a imagem daquela que, em uma palavra, sabe ser mulher. 

Vemos essa verdadeira imagem nos exemplos históricos que citei. Vemo-la diariamente nas mães de família, nas senhoras da sociedade, em moças respeitáveis, em meninas que transbordam de inocência e graça. Vemo-la resplandecer ao longo da História nas santas canonizadas pela Igreja. 

Vemo-la, por fim, de modo perfeitíssimo em Nossa Senhora, que soube ser Filha e Mãe, Virgem e Esposa, e que possui em altíssimo grau todas as qualidades femininas. Para Ela devemos olhar e contemplar o ideal da mulher. Ela, sim, é um exemplo a ser seguido.