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22 de outubro de 2026

O Homem da Cruz que deteve a marcha do neopaganismo renascentista

 

Artigo baseado sobretudo em seis conferências de Plinio Corrêa de Oliveira, proferi das para sócios e cooperadores da TFP em 04-10-1965, 04-10-1966, 29-06-1970, 04-10-1971, 16-11-1972 e 06-07-1985.

Oito séculos depois de sua morte, a figura de São Francisco de Assis continua a interpelar um mundo que, mais do que nunca, precisa reaprender a amar a Cruz, a verdade, a pureza, e a se livrar do orgulho e da sensualidade. Este artigo é um convite a considerar o fundador da Ordem dos Franciscanos à luz de alguns aspectos extraídos de seis conferências de Plinio Corrêa de Oliveira.*

✅ Paulo Roberto Campos


N
o dia 3 de outubro de 1226, há exatamente 800 anos, expirava aos 44 anos o grande santo, também conhecido como o Poverello de Assis, batizado como Giovanni di Pietro di Bernardone. Morria aquele que a Igreja haveria de venerar como um dos seus maiores santos e uma de suas maiores glórias em todos os tempos, cuja figura atravessaria os séculos com uma força impressionante.

É difícil imaginar personalidade mais facilmente deformável. Para alguns, São Francisco é apenas o santo dos passarinhos, da natureza — como se fosse um “ecologista” ou “ambientalita” — e de uma vaga fraternidade universal. Para outros, é o apóstolo de uma pobreza meramente social. Não faltam ainda os que o apresentam como uma figura doce, sentimental, quase ingênua, desprovida daquela energia sobrenatural que caracteriza o seráfico santo fundador da Ordem dos Frades Menores (os Franciscanos).

A visão de São Francisco exposta por Plinio Corrêa de Oliveira em suas conferências é profundamente diversa.

Nela aparece um homem de extraordinária firmeza, contemplativo e sereno, mas sem qualquer moleza; puro, temperante e vigoroso; uma alma de grande força de vontade, capaz de contemplar um ideal e entregar-se a ele resolutamente.



O verdadeiro segredo da grandeza do Poverello

Em 1223, São Francisco visitou o Mosteiro de Subiaco, na Itália, berço da Ordem Beneditina. Nele um artista anônimo pintou um afresco do visitante [foto]. A célebre obra é uma das mais antigas representações de São Francisco, pintada ainda durante sua vida, é um verdadeiro retrato. O Prof. Plinio observa no afresco precisamente essa combinação de calma e decisão, de contemplação e energia, “fisionomia de uma pureza impressionante! Um homem casto por excelência, temperante e vigoroso. Compreende-se que ele gostasse de ler para os seus noviços as histórias de Cavalaria. Antes de ser franciscano ele pensou em ser cavaleiro”.

Essa observação nos ajuda a corrigir a caricatura sentimental, que apresenta São Francisco como um homem hesitante ou adocicado. Mas de alguém que contempla, raciocina, deseja e decide firmemente. A pureza aparece associada à temperança e à intransigência. Há aí uma verdadeira lição do modo de ser católico. A santidade não amolece o homem; torna-o mais plenamente homem. A graça não destrói a natureza: aperfeiçoa-a.

Por que este comentário é importante? — Porque São Francisco não foi um homem fraco que abandonou o mundo por incapacidade de enfrentá-lo. Foi o contrário: uma alma forte que, tendo compreendido uma vocação, teve a coragem de romper com tudo quanto pudesse constituir obstáculo à sua realização. E é justamente aí que começa o verdadeiro segredo de sua grandeza.

Altar principal da Igreja de S. Francisco de Assim de Salvador (BA) [Foto PRC]


Livro no qual São Francisco aprendeu a viver

Há um comentário de Dom Guéranger — citado por Plinio Corrêa de Oliveira em uma de suas conferências para sócios e cooperadores da TFP — que talvez contenha uma das mais importantes chaves para se compreender o santo franciscano: “A Cruz é o grande livro no qual se formou a alma de Francisco. Desde a hora em que o Cristo da Igreja do Damião lhe falou, ele não quis pensar a não ser na Paixão de Jesus.”

Jesus, por meio do crucifixo daquela igreja, disse a São Francisco: “Vai restaurar minha Igreja, que está em ruínas.” Desde aquele momento, ele teria compreendido que sua vida deveria ser orientada inteiramente pela Paixão de Nosso Redentor. A Cruz não foi para ele um símbolo entre muitos outros. Foi o centro em torno do qual se organizou toda a sua existência. De tal modo desejou servir exclusivamente o Divino Crucificado que ficou marcado com os estigmas d’Ele, e até mesmo adquiriu certa semelhança física com Ele.

São Boaventura, o grande filho da Ordem Franciscana, vê nesse mistério da Cruz um tesouro no qual estão encerrados os tesouros da sabedoria e da ciência. E o Prof. Plinio comenta, recordando a observação de Dom Guéranger segundo a qual toda a vida de Francisco foi uma espécie de seguimento das pegadas da Cruz: ele contemplou a Cruz, amou o sofrimento da Cruz e pregou as glórias da Cruz. Isso ajuda a compreender também o verdadeiro sentido da pobreza franciscana.

Não se tratava simplesmente de possuir pouco. A pobreza era consequência de um amor a Nosso Senhor enquanto humilhado e crucificado. São Francisco queria conformar-se a Ele e estabelecer um vínculo integral. Por isso a Cruz e a pobreza estão intimamente relacionadas.

Quem contempla seriamente a Cruz percebe a relatividade de todas as coisas terrenas. O dinheiro, o conforto, o prestígio, o prazer, o êxito. Tudo isso deixa de ocupar o primeiro lugar; a alma passa a desejar aquilo que não é transitório.

Foi assim que Francisco se tornou, conforme comentou o Prof. Plinio, aquele que afervorou a Cristandade pelo espírito sobrenatural, pelo amor à Cruz e pelo menosprezo do dinheiro.

São Francisco renuncia aos bens materiais — Giotto di Bondone (1266–1337). Afresco na Basílica Superior de São Francisco de Assis


O drama diante de Pedro Bernardone

Um dos episódios mais impressionantes da vida de Francisco é a ruptura com o pai.

O Poverello pertencia a uma família de comerciantes abastados de Assis. Seu pai, Pedro di Bernardone dei Moriconi, era homem próspero, e a sociedade na qual o filho crescera valorizava intensamente a riqueza, o conforto e o sucesso.

O Prof. Plinio chama a atenção para esse contexto ao analisar o famoso quadro de Giotto [foto acima], representando o momento em que Francisco renuncia a tudo, até mesmo às roupas e aos bens paternos. A cena é carregada de significado: de um lado, o bispo e o clero; de outro, Pedro Bernardone e os homens ligados ao mundo do comércio e do dinheiro. No centro, Francisco, já decidido a abandonar tudo para seguir sua vocação, segundo o ensinamento de Jesus Cristo: “Se alguém quer vir após mim, renegue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me” (Lc 9,23).

Na pintura, Giotto revelou algo mais profundo que um simples conflito familiar. De um lado está a Igreja; de outro, o espírito do dinheiro. De um lado, a entrega; de outro, a posse. De um lado, a procura de Deus; de outro, a tendência a fazer dos bens terrenos a finalidade da existência. Gesto de quem rompe com uma determinada concepção da vida.

Ele não despreza simplesmente seu pai. Não despreza a riqueza enquanto tal. O que rejeita é a escravidão da alma aos bens terrenos. A verdadeira questão é: quem é o senhor do homem? O dinheiro ou Deus? — Francisco responde com sua própria vida.

E é precisamente por isso que sua mensagem conserva uma atualidade extraordinária. O mundo contemporâneo multiplicou os bens materiais em proporções inimagináveis para o século XIII, mas nem por isso se tornou mais feliz. Ao contrário: a obsessão pelo possuir, pelo consumir e pelo aparecer tornou-se uma das grandes escravidões do homem.

Então reaparece São Francisco como uma figura de oposição. Ele não pregava a miséria, mas recordava uma verdade elementar: nenhum bem criado pode ocupar o lugar de Deus.

Santo que não era sentimental

Para não haver nenhuma desfiguração de São Francisco, talvez seja necessário insistir nesse ponto. Ele era doce porque era forte; era afável porque era puro; era humilde porque possuía uma grandeza interior extraordinária; era capaz de falar com os animais, contemplar uma flor e louvar a Deus pela criação; mas era igualmente capaz de atravessar as linhas de um exército inimigo para falar pessoalmente com o sultão aiúbida do Egito, Al-Kamil — que comentaremos mais abaixo.

Essa conjunção de suavidade e fortaleza é uma das características mais fascinantes de sua personalidade; a energia natural colocada inteiramente a serviço de uma vocação sobrenatural.

Imagens de S. Francisco de Assim e S. Domingos de Gusmão no Mosteiro da Batalha (ou de Santa Maria da Vitória) na cidade de Batalha, Portugal [Foto PRC]


Francisco e Domingos: duas chamas que se completam

A Providência não suscitou São Francisco isoladamente. Na mesma época surgiu São Domingos de Gusmão. E o Prof. Plinio dá grande importância à relação entre os dois santos.

Ambos receberam sinais sobrenaturais relativos à missão um do outro e, finalmente, se encontraram. Frei Ângelo, um grande pregador, teria visto nos dois santos “duas poderosas colunas da Igreja”.

O interessante para o conferencista, fundador da TFP brasileira, é que os dois santos eram profundamente semelhantes e profundamente diferentes. Semelhantes porque ambos eram homens de Deus, profundamente mariais, chamados a lutar pela salvação das almas. Diferentes porque suas vocações tinham aspectos diversos. São Francisco era especialmente associado à pobreza, à Paixão de Nosso Senhor, à humildade, à pureza e à devoção à Imaculada Conceição. São Domingos, por sua vez, aparece ligado de modo especial à pregação, ao estudo, à teologia e ao Santo Rosário. Assim, duas vocações diferentes não se contradiziam, mas completavam-se.

É uma concepção extremamente rica da ação da Igreja. A unidade católica não exige uniformidade. Duas almas podem ser santas precisamente porque são diferentes, desde que suas diferenças se ordenem para a mesma verdade e para a mesma finalidade.

Francisco incendeia a vontade; Domingos ilumina a inteligência. Um conduz especialmente pelo amor à Cruz e pela transformação das tendências; o outro pela doutrina, pela pregação e pelo esclarecimento da inteligência. Ambos combatendo pela mesma Igreja.

“Ação contra-revolucionária preventiva”

Aqui encontramos talvez o aspecto mais característico da interpretação de Plinio Corrêa de Oliveira, para quem Francisco não foi apenas um santo que santificou indivíduos. Sua ação teve uma dimensão histórica muito mais ampla.

O conferencista fala de uma “ação contra-revolucionária preventiva”. Segundo essa interpretação, a Cristandade do século XIII começava a apresentar sinais de deterioração. O orgulho e a sensualidade começavam a dominar. A riqueza ameaçava transformar-se de instrumento em finalidade. Preparava-se, lentamente, uma mudança de mentalidade que mais tarde encontraria expressões no Humanismo e na Renascença. Foi precisamente nesse momento que a Providência suscitou São Francisco de Assis.

A ação de Francisco teria incidido especialmente sobre as tendências: contra o orgulho, a humildade; contra a sensualidade, a pureza; contra o apego aos bens terrenos, a austeridade; contra o esquecimento da Paixão, a devoção à Cruz, à Via-Sacra e às Sagradas Chagas de Nosso Senhor.

É nesse sentido que o Prof. Plinio emprega a expressão “ação contra-revolucionária preventiva”: uma santidade que, antes mesmo de combater frontalmente todos os erros doutrinários que apareceriam mais tarde, procura impedir que eles encontrem terreno psicológico favorável.

A Revolução, nessa perspectiva, começa nas almas antes de aparecer nas instituições. Começa quando o homem passa a amar desordenadamente aquilo que deveria usar apenas como meio. Começa quando o prazer se torna mais importante que a pureza; quando o orgulho substitui a humildade; quando o homem deixa de olhar para Deus e passa a olhar exclusivamente para si.

Por isso, a resposta de São Francisco é tão profunda: ele reforma interiormente o homem.

São Francisco diante do sultão Al-Kamil na prova do fogo — Domenico Ghirlandaio (1448–1494). Afresco na Capela Sassetti (Igreja da Santa Trindade, Florença, Itália).


Encontro com o poderoso sultão

Há o episódio, mencionado acima e já narrado no artigo precedente, que mostra de maneira magnífica a conjugação entre doçura e fortaleza: o encontro de São Francisco com o sultão do Egito durante a Quinta Cruzada.

O Prof. Plinio descreve a cena como uma das grandes antíteses da História: de um lado, o soberano cercado de luxo, poder, riquezas e prazeres; de outro, um homem que havia renunciado a tudo e cuja felicidade estava precisamente naquilo que o sultão não possuía. Um encontro entre dois mundos.

O sultão tem tudo e não possui a verdadeira felicidade. Francisco quase nada possui e irradia paz. O primeiro está cercado de riquezas; o segundo, aparentemente pobre, está riquíssimo interiormente. É aqui que se compreende a força do diálogo quando verdadeiramente católico.

Francisco não vai ao sultão para adulá-lo, nem para esconder a verdade, nem para ceder, transformando o Evangelho numa mensagem indistinta de fraternidade humana. Vai para convertê-lo. E, ao mesmo tempo, vai com uma bondade tão desinteressada que essa bondade se torna um argumento.

Segundo o relato utilizado pelo conferencista, o sultão ficou profundamente impressionado com Francisco e chegou a pedir-lhe que rezasse para que Deus lhe revelasse a verdadeira fé. Francisco possuía a força da verdade e da santidade.

Coragem de realizar uma vocação

Em outra conferência, o Prof. Plinio apresenta uma passagem particularmente adequada para este oitavo centenário de São Francisco. Este, vendo seus primeiros companheiros ainda poucos e talvez desanimados, teria lhes dito para não temerem. Ele havia contemplado uma grande multidão de homens de diversas nações que haveriam de seguir o mesmo caminho. A Ordem Franciscana se expandiu pelo mundo inteiro.

Mas o conferencista chama atenção para algo ainda mais importante do que a própria visão: o raciocínio que a acompanha. Se Deus chama uma pessoa ou uma pequena comunidade para determinada missão, não a chama inutilmente. A vocação traz consigo as graças necessárias para sua realização. Lição extraordinária para todas as épocas!

A eficácia da obra de Deus não se mede pelo número de seus servidores. A Igreja começou com apenas 12 Apóstolos… São Francisco começou com poucos companheiros. O que importa não é a aparência humana da força, mas a correspondência à graça. Por isso, a verdadeira coragem do católico não consiste em acreditar que tudo será fácil. Consiste em permanecer fiel mesmo quando tudo parece difícil.

São Francisco não prometeu aos seus irmãos que seriam admirados por todos. Pelo contrário, advertiu-os de que seriam ridicularizados, desprezados e combatidos. A confiança não estava na aprovação do mundo, mas na certeza de que Deus não abandona uma vocação que Ele próprio suscitou.

Morte de São Francisco de Assis — Bartolomeo Carducci (1560–1608). Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa


O que São Francisco nos diz oito séculos depois

O mundo mudou profundamente desde 1226. Mas algumas tentações humanas não mudaram. O orgulho e a sensualidade dominam. O orgulho continua sendo orgulho. A sensualidade continua sendo sensualidade. O apego ao dinheiro continua escravizando. A busca desenfreada do prazer continua deixando a alma vazia. E a tendência de colocar o homem no lugar de Deus continua sendo a raiz de muitas crises que hoje presenciamos.

Por isso São Francisco de Assis continua atual. Não porque devamos simplesmente reproduzir exteriormente a vida do século XIII, mas porque precisamos reencontrar o espírito que o movia. Ele nos ensina que é possível possuir bens sem ser possuído por eles. Que é possível ser doce sem ser fraco; ser humilde sem ser servil.

O Fundador franciscano ensina também que é possível ser contemplativo sem ser inerte; que é possível amar a criação precisamente porque se ama mais o Criador. Sobretudo nos ensina que não há santidade verdadeira sem a Cruz.

O legado de São Francisco de Assis

Oitocentos anos após sua morte, talvez seja necessário retirar São Francisco das imagens sentimentais nas quais tantas vezes foi desfiguradamente encerrado em tantas igrejas progressistas.

Ele não foi apenas o homem que conversava com os pássaros. Foi o homem que conversava com o próprio Deus. Não foi apenas o santo da natureza. Foi o santo que, contemplando a natureza, se elevava fazendo transcendências das criaturas ao Criador.

Não foi simplesmente o santo que “desposou a dama pobreza". Foi o santo que, pela pobreza, proclamou a soberania de Cristo Rei sobre todas as coisas. Não foi simplesmente o santo da bondade. Foi o santo que amou os homens a ponto de desejar para eles o maior dos bens: a posse da verdade e a salvação eterna. Ele não foi apenas um homem da época medieval. Foi uma dessas figuras providenciais cuja influência ultrapassa largamente o seu tempo.

Na interpretação de Plinio Corrêa de Oliveira, sua missão consistiu precisamente em reacender na Cristandade aquilo que começava a se apagar: o espírito sobrenatural, o amor à Cruz, a pureza, a humildade, a austeridade, a devoção à Imaculada Conceição e o desapego dos bens terrenos. Por essa ação, ele teria contribuído para retardar o avanço de tendências que posteriormente desembocariam no neopaganismo renascentista.

Talvez seja essa a grande mensagem deste oitavo centenário: em épocas de crise, Deus não abandona a humanidade, mas suscita santos. Assim, suscitou São Francisco quando a Cristandade precisava reaprender a amar a pobreza. Suscitou São Domingos quando era necessário reacender o amor à doutrina católica.

E São Francisco mostrou que uma alma inteiramente entregue a Deus pode exercer uma influência incomparavelmente maior do que faria supor sua fragilidade humana. Por isso, ao recordar sua morte em 3 de outubro de 1226 — aliás, no mesmo dia e mês em que, em 1995, faleceu o autor das conferências aqui comentadas —, não devemos olhar apenas para o passado. Devemos pedir-lhe que nos ensine a mesma lição que ensinou aos seus primeiros companheiros: não temer quando somos poucos, não desanimar quando somos desprezados, não negociar a verdade por vantagens secundárias e, sobretudo, confiar na graça quando Deus nos chama a uma missão.

A grandeza de São Francisco consiste em mostrar que um homem que é plenamente de Deus pode transformar uma época inteira. O Poverello de Assis morreu há oito séculos, mas o livro no qual aprendeu a viver — a Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo — continua aberto. E talvez seja justamente hoje, quando tantas almas precisam novamente aprender a lê-lo, que São Francisco tenha ainda uma palavra decisiva a dizer a toda a Cristandade.

__________

* Artigo baseado sobretudo em seis conferências de Plinio Corrêa de Oliveira, proferidas para sócios e cooperadores da TFP em 04-10-65, 04-10-66, 29-06-70, 04-10-71, 16-11-72 e em 06-07-85.

5 de outubro de 2026

SÃO FRANCISCO DE ASSIS (1226 – 2026). Suscitado por Deus para defender e restaurar a Cristandade

Retábulo de São Francisco de Assis na Igreja do Real Monastério de Santa Clara, Sevilha. Entalhado em madeira policromada e dourada pelo escultor espanhol Juan Martínez Montañés (1625-1626). Creative Commons: Jl FilpoC.

 

Fisionomia bem diferente dos habituais ‘santinhos’ que conhecemos — normalmente distribuídos em igrejas e pintados segundo uma iconografia progressista — em que o santo parece sentimental, adocicado, hesitante e mole. O oposto das grandes virtudes de São Francisco de Assis, considerado uma das maiores glórias da Igreja em todos os tempos, um varão de extrema determinação e força de vontade, sem nenhuma moleza como é apresentado por tal iconografia. Oito séculos depois sua mensagem permanece atual e increpando o mundo.


✅  Fonte: Revista Catolicismo, Nº 910, outubro/2026

No dia 3 de outubro completam-se 800 anos da morte de São Francisco de Assis, ocorrida em 1226. Para ressaltar esta importante efeméride, a matéria de capa da edição deste mês contempla a riquíssima grandeza do Poverello de Assis. 

Muito mais do que o santo sentimental, mole e adocicado, amigo bonzinho dos animais e da natureza, como tantas vezes o apresentam de modo desfigurado os progressistas — que de católicos só têm o nome —, apresentamos São Francisco como ele de fato foi: um homem de extraordinária firmeza, pureza, serenidade, espírito de contemplação e força de vontade; em suma, um cruzado! 

O centro de sua espiritualidade encontra-se na Cruz. Neste sentido, dele afirmou o restaurador da Ordem de São Bento na França, Dom Prosper Guéranger, O.S.B.: “A Cruz é o grande livro no qual se formou a alma de Francisco. Desde a hora em que o Cristo da Igreja do Damião lhe falou, ele não quis pensar a não ser na Paixão de Jesus.” 

Daí toda a sua existência trilhada nos passos de Nosso Senhor Jesus Cristo, dando origem à radical pobreza do santo franciscano. Ao renunciar aos bens — e até mesmo às suas roupas diante de seu pai, Pedro Bernardone —, ele não realizou simplesmente uma ruptura familiar, mas, por uma razão mais alta, proclamou, com sua própria vida, que Deus deve ocupar o primeiro lugar e que nenhum bem terreno pode escravizar a alma. 

Como poderemos ver em tal edição, Plinio Corrêa de Oliveira revela o segredo da santidade e grandeza de São Francisco, e o considera portador de uma efetiva “ação contra-revolucionária preventiva”. Pois sua humildade, pureza e austeridade contribuíram para deter tendências de orgulho, sensualidade e apego aos bens terrenos que começavam a corroer no século XIII a Cristandade medieval. 

A missão de São Francisco foi profundamente marial, aparecendo como uma das grandes figuras suscitadas pela Providência Divina para defender e restaurar a Cristandade. Sua devoção à Imaculada Conceição ocupou lugar central na espiritualidade franciscana muito antes da definição dogmática desse privilégio de Nossa Senhora.

Oito séculos depois, sua mensagem permanece atual e increpando o mundo: amar a Cruz; vencer o orgulho pela humildade; a sensualidade pela pureza; o apego pelo desapego, e colocar toda a vida a serviço de Deus e da Santíssima Virgem. 

Para todos os católicos — especialmente para os inúmeros devotos de São Francisco —, este oitavo centenário constitui, portanto, uma ocasião privilegiada para renovar o autêntico espírito franciscano e pedir a ele que nos alcance a graça de sermos, em nosso tempo, de modo íntegro, plenamente de Nosso Senhor e de Sua Mãe Santíssima.

29 de setembro de 2026

Eleições, Ideal Católico ou a Sovietização do Brasil

Embora de outros tempos, a tese da presente matéria continua muito atual. Publicada em “O Legionário”, no longínquo 15 de janeiro de 1933, ela tratou da Liga Eleitoral Católica (LEC) constituída por Plinio Corrêa de Oliveira e alguns amigos em 1932, quando ele tinha apenas 24 anos.

A LEC exerceu enorme influência na opinião pública brasileira daquela década. Apesar de ela não mais existir, continua de pé nossa obrigação de lutar pela causa autenticamente católica. Para se compreender melhor essa luta — sobretudo agora, às vésperas das eleições nacionais —, convidamos o leitor a apenas substituir “LEC” por “ideal católico” no artigo que segue.


Bafejada pela simpatia e aprovação das autoridades eclesiásticas e desenvolvendo uma atividade rigorosamente conforme às diretrizes da Santa Sé, constitui a Liga Eleitoral Católica a expressão mais eloquente do desejo dos católicos de que o Brasil não seja mais um país em que se adore Deus apenas no segredo do íntimo dos corações ou no recesso dos lares, mas em todos os campos da atividade humana.

Os acontecimentos que se desenrolaram, e que todos nós conhecemos, colocaram o Catolicismo em tal situação que, do futuro pleito eleitoral, apenas um resultado não podemos esperar: a manutenção do atual estado de coisas.

Ou o catolicismo conseguirá vencer nas urnas e fazer progredir resolutamente o País no caminho de sua restauração religiosa, ou o socialismo extremado se apoderará do Brasil, para fazer dele a vítima dos numerosos Calles e Lenines que pululam nos bastidores de nossa política, sequiosos de “sovietizar” a Terra de Santa Cruz.

Ou o espiritualismo se afirma nas eleições, na sua expressão mais elevada e mais genuína, que é o catolicismo, ou vencerá o materialismo na sua forma mais violenta e mais nefasta, que é o comunismo.

Ora, de que depende o resultado do pleito? Depende dos votos do eleitorado brasileiro.

O eleitorado brasileiro, portanto — e tanto vale dizer os católicos brasileiros — tem em suas mãos os destinos espirituais do Brasil, e talvez os do mundo.

Dormir enquanto uma tal batalha se prepara, viver sua vida de todos os dias indiferente a tudo quanto não seja a banalidade das ocupações de sempre, construir egoisticamente sua felicidade individual, enquanto se esboroa a felicidade do Brasil e corre risco a prosperidade da Igreja, eis aí atitudes próprias certamente de um Pilatos, nunca porém de um católico brasileiro.

No momento presente, a ninguém é lícito repousar com a consciência tranquila enquanto não tiver empregado todas as suas horas vagas, todos os seus momentos de lazer, todos os seus recursos intelectuais e morais a serviço da LEC.

E este serviço não é somente próprio aos eleitores. Podem prestá-lo todos os católicos realmente ciosos da maior glória de Deus.

Na foto, visita de congregados marianos
do interior de São Paulo
à sede da Congregação Mariana
 de Santa Cecília e redação
do “Legionário”, em 1935.
No centro, Plinio Corrêa de Oliveira.


Uma discussão em favor da LEC no escritório onde se trabalha, ou no clube em que se faz esporte; uma palestra a respeito do programa da LEC com um companheiro que encontramos na rua ou um parente que nos visita em casa, uma oração feita em rápida visita ao Santíssimo Sacramento pelo triunfo da LEC, quem não o poderá fazer?

Ora, é destas dedicações perseverantes e ardorosas, deste proselitismo combativo e prudente que a LEC precisa para seu triunfo, pois que é principalmente dele que depende o sucesso do pleito.

Vemos, pois, que todos podem trabalhar pela LEC e que, portanto, todos devem trabalhar pela LEC.

Reflitam todos os católicos sobre a grande responsabilidade que atualmente pesa sobre seus ombros. Decidam-se a sair a campo pelos ideais da Igreja. Porque, se algum dia se ensopar o solo brasileiro com o sangue das perseguições religiosas, ou se encher de luto a Igreja pela crescente descristianização do Brasil, é sobre os inertes, sobre os indiferentes, sobre os Pilatos que cairá toda a culpa deste sangue e pesará todo o horror deste luto.

Como na narrativa evangélica, aproximam-se os asseclas do farisaísmo para crucificar novamente a Jesus. Entregá-lo-emos como Judas? Dormiremos como os Apóstolos? Negaremos como São Pedro?

14 de agosto de 2026

O perfume da Assunção de Nossa Senhora ao Céu permanece em todos os povos da Terra

 



15 de agosto — Solenidade da Assunção da Santíssima Virgem, levada por Anjos em corpo e alma ao Céu 


✅ Paulo Roberto Campos 

Há festas da Igreja que nos falam sobretudo de um acontecimento. A Assunção de Nossa Senhora, porém, nos fala de um acontecimento e, ao mesmo tempo, de uma presença.

Maria Santíssima foi elevada ao Céu em corpo e alma. A Igreja ensina que, terminado o curso de sua vida terrestre, Ela foi glorificada por Deus e introduzida na bem-aventurança celeste. Plinio Corrêa de Oliveira, em uma conferência pronunciada precisamente no dia 15 de agosto de 1975, convida-nos a contemplar esse mistério sob um aspecto particularmente tocante: Nossa Senhora partiu, mas deixou na Igreja um perfume que atravessaria os séculos.

Uma primeira consideração dessa sua conferência é a diferença entre a Ascensão de Nosso Senhor e a Assunção de Maria. Nosso Senhor Jesus Cristo sobe ao Céu por seu próprio poder; Ela, criatura perfeitíssima, é elevada pelo poder de Deus. Daí a própria diferença dos termos: Ascensão para Nosso Senhor, Assunção para Nossa Senhora. 

Mas há algo ainda mais profundo: Nossa Senhora, concebida sem pecado original e Mãe de Deus, poderia ter sido preservada da morte. Entretanto, quis assemelhar-se inteiramente ao seu Divino Filho. Se Ele desejou passar pela morte, Ela também desejou passar por esse misterioso limiar. E sua morte foi inteiramente incomum. 

É por isso que a tradição fala da “Dormitio Beatae Mariae Virginis” (Dormição da Virgem Maria). Não se trata de negar a realidade da morte, mas de indicar sua particular suavidade e a proximidade imediata de sua glorificação. Maria morreu; sua alma separou-se de seu corpo. Mas essa morte foi como uma dormição, seguida pela ressurreição e pela gloriosa Assunção.




Há aqui uma lição extraordinária para nós. 

A morte, consequência do pecado original, é naturalmente uma ruptura dolorosa. Mas Nosso Senhor transformou a própria morte em porta de entrada para a vida eterna. E Nossa Senhora, associando-se ao sacrifício de Cristo, quis também passar por essa porta. 

Talvez seja este um dos pontos mais originais e mais consoladores da meditação do Prof. Plinio na referida conferência. 

Ele sugere que, quando chegar para nós a hora da morte, procuremos unir nossa morte à morte de Nossa Senhora e, por meio d´Ela, à morte infinitamente preciosa de Nosso Senhor Jesus Cristo. Assim como o verdadeiro devoto de Maria procura chegar a Jesus por meio d'Ela durante toda a vida, também na hora suprema pode pedir que sua morte seja oferecida em união com a morte de sua Mãe Santíssima. 

É uma perspectiva profundamente católica. Não se trata de amar a morte por si mesma. A morte é um terrível efeito do pecado. Mas, em Cristo, ela pode adquirir outro significado: pode tornar-se sacrifício, entrega, reparação e passagem para a glória. 

Por isso, diante da morte, o católico não perde a esperança e pode dizer interiormente a Nossa Senhora: “Assim como Vós quisestes entregar-Vos inteiramente a Deus, ajudai-me a entregar-me também. Uni a minha morte à vossa e, por meio da vossa morte, à morte infinitamente preciosa de Nosso Senhor”. 

A morte deixa então de ser simplesmente o momento em que tudo termina. Torna-se o momento em que começa a verdadeira vida. 

Mas é na contemplação da Assunção propriamente dita que surge a nota mais delicada aparece na conferência. 

Nossa Senhora sobe ao Céu. Os Apóstolos e os discípulos maravilhados contemplam sua partida [notem no quadro no início do artigo]. Aquele contato terrestre com Ela termina. Seus olhos já não poderão vê-La como antes. A Mãe que os acompanhara, que os consolara, que lhes comunicara sua presença, desaparece de seus horizontes terrenos. 

Poderia parecer que, a partir desse momento, tudo seria apenas saudade. Mas não. É justamente aqui que o Prof. Plinio coloca uma de suas ideias mais belas: uma alma verdadeiramente católica pode continuar presente depois de sua partida através do “perfume” que deixa atrás de si. E isso se realizou de modo incomparável em Nossa Senhora.

Ela já não estava diante dos olhos dos Apóstolos. Mas estava, de certo modo, ainda mais presente em suas almas. 

A lembrança de seu olhar, de sua pureza, de sua bondade, de sua dignidade, de sua serenidade e de sua incomparável união com Deus deveria permanecer para sempre na Igreja. 

E assim aconteceu. Ao longo dos séculos, povos inteiros aprenderam a pronunciar seu nome com ternura. Reis e camponeses, sábios e simples, religiosos e mães de família, mártires e contemplativos encontraram em Maria uma luz, uma consolação e um modelo.

E esse perfume não se extinguiu. É Nossa Senhora! Há algo de profundamente expressivo na observação do Prof. Plinio de que, quando se fala verdadeiramente d´Ela, muitas vezes as palavras parecem insuficientes. Há realidades que podem ser explicadas; outras precisam ser contempladas. 

Falar de Maria é tocar numa realidade que ultrapassa nossas fórmulas. Ela é a Imaculada Conceição! É a Mãe de Deus! É a Virgem Santíssima! É a Rainha dos Anjos e dos Santos! É a Mãe espiritual de todos nós! É Aquela que esteve junto à Cruz e que agora reina junto ao Filho no Céu! 

Por isso, depois de tudo quanto se possa dizer, permanece uma espécie de silêncio cheio de significado: é Nossa Senhora! Essa expressão, aparentemente tão simples, contém algo como um universo. 

Na parte final de sua conferência, o Prof. Plinio faz uma consideração particularmente apropriada para nossa época: já que não podemos contemplar com nossos olhos terrenos a fisionomia de Nossa Senhora, as suas imagens podem ser, de certo modo, uma ponte entre Ela e nós. Não adoramos a imagem. A imagem nos conduz à Pessoa representada. 

Quando olhamos uma boa imagem de Nossa Senhora, procuramos algo mais do que uma bela obra de arte. Procuramos imaginar sua alma, sua pureza, sua bondade, sua majestade, sua maternidade. 

É como se aquela representação nos dissesse: “Ela existiu; Ela vive; Ela está no Céu; e é para Ela que voltamos o nosso olhar.” 

A imagem torna-se, assim, uma lembrança visível daquela presença que a Assunção tornou invisível aos nossos olhos. 

A Assunção não é, portanto, simplesmente a despedida de Nossa Senhora da Terra. É a inauguração de uma forma nova e ainda mais profunda de presença. Antes, Maria estava fisicamente junto dos Apóstolos. Agora, está espiritualmente junto a todos nós. 

Antes, poucos podiam aproximar-se d'Ela. Depois da Assunção, todos os homens podemos recorrer à sua maternidade. Antes, sua presença estava limitada a um lugar. Agora, seu “perfume” se espalhou pelo mundo inteiro. E esse perfume continua chegando até nós.

Talvez seja esta a graça mais apropriada a pedir nesta grandiosa festa do dia 15 de agosto: que Nossa Senhora impregne em nossas almas algo de seu perfume. Que depois de convivermos com Ela pela oração, pelo Rosário, pela meditação e pela frequência aos Sacramentos, alguma coisa d´Ela permaneça em nosso modo de pensar, de falar, de agir e de enfrentar as dificuldades. 

Que aqueles que convivem conosco possam encontrar, não nossa própria personalidade, mas alguma coisa que lhes recorde Nossa Senhora. Que sejamos, por assim dizer, portadores de seu perfume. 

E quando chegar a hora de nossa partida, possamos também deixar atrás de nós — embora de modo infinitamente menor — alguma lembrança de fidelidade, de pureza, de coragem e de amor a Deus. Porque a verdadeira morte católica não é simplesmente desaparecer. É partir deixando para trás uma lembrança que conduz a Deus. 

Nossa Senhora partiu há tantos séculos. Entretanto, sua presença nunca foi tão grande. Ela está no Céu em corpo e alma, gloriosa junto de seu Divino Filho. E, ao mesmo tempo, continua maternalmente próxima daqueles que invocam a Medianeira Universal de Todas as Graças. 

A Igreja inteira está impregnada desse perfume. Um perfume que não se dissipa. Um perfume que atravessa os séculos. O perfume de Nossa Senhora! 
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Obs: A conferência original é bem mais longa e interessante. Para este breve artigo, selecionei apenas alguns pontos. A íntegra pode ser lida por meio do seguinte link: O perfume da Assunção de Nossa Senhora

28 de abril de 2026

O Reino de Maria para que venha o Reino de Jesus Cristo



28 de abril é o dia fixado pela Santa Igreja para a festa litúrgica de São Luís Maria Grignion de Montfort, ardoroso missionário francês do século XVIII (o século de Luis XIV), doutor marial por excelência, nascido em 1673 e falecido no dia 28 de abril de 1716. 

Entre suas numerosas profecias, uma que atrai especialmente a atenção foi o anúncio de uma Cristandade restaurada em todo seu esplendor — o Reino de Maria, como também previsto em Fátima. 

Uma profecia feita há mais de 300 anos por  por São Luís Grignion e que está registrada no seu célebre Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem (1712): 

“Ah! quando virá este tempo feliz em que Maria será estabelecida Senhora e Soberana nos corações, para submetê-los plenamente ao império de seu grande e único Jesus? [...] Então, coisas maravilhosas acontecerão neste mundo [...]. Quando chegará esse tempo feliz, esse século de Maria, em que inúmeras almas escolhidas, perdendo-se no abismo de seu interior, se tornarão cópias vivas de Maria, para amar e glorificar Jesus Cristo? Esse tempo só chegará quando se conhecer e praticar a devoção que ensino, ‘Ut adveniat regnum tuum, adveniat regnum Mariae’”*. (Que venha o Reino de Maria, para que assim venha o vosso Reino - ou seja, o Reino de Jesus Cristo). [Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem, São Luís Maria Grignion de Montfort, Editora Vozes, Petrópolis, 1961, VI edição, tópico 217, pp. 210-211]. 



A seguir, para marcar este grande dia de São Luís Maria Grignion de Montfort, transcrevo um artigo de Plinio Corrêa de Oliveira, publicado no “Legionário” de 21 de outubro de 1945:


GRIGNION DE MONTFORT 

✅  Plinio Corrêa de Oliveira 

Como condição de vitória, sem se desprezar nem de leve as providências concretas, devemos contar essencialmente com os recursos sobrenaturais. A História demonstra que não há inimigos que vençam um país cristão que possua três devoções: ao Santíssimo Sacramento, a Nossa Senhora e ao Papa. Investigue-se bem a queda de nações aparentemente muito fervorosas em sua adesão à Igreja: alguma broca secreta as minava em uma dessas três virtudes-chave. 

A vitória, pois, depende de nós. Tenhamos em dia nossa consciência, estejamos tranquilos em Deus, e venceremos. 

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Isto explica o extraordinário relevo que damos a uma notícia apagada, que os jornais reproduziram há pouco: a canonização iminente do Bem-aventurado Luiz Maria Grignion de Montfort. 

A notícia nada significa para o comum das pessoas. Ela significa tudo, para os que conhecem o verdadeiro fundo das coisas. A Providência resolveu jogar sua bomba atômica contra os adversários da Igreja. Perto desta bomba, as convulsões de Hiroshima e Nagasaki não passam de inocentes tremedeiras. Há dois séculos que está pronta a bomba atômica do Catolicismo. Quando ela explodir de fato, compreender-se-á toda a plenitude de sentido da palavra da Escritura: "Non est qui se abscondat a calore ejus" [Não há quem possa subtrair-se a seu calor]. 

Esta bomba se chama com um nome muito doce. É que as bombas da Igreja são bombas de Mãe. Chama-se O Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem. Livrinho de pouco mais de 100 páginas. Nele, cada palavra, cada letra é um tesouro. Este o livro dos tempos novos que hão de vir. 

*   *   * 

Nosso artigo já está por demais longo, para que demos um resumo biográfico da extraordinária vida desse Bem-aventurado. Não sei de nenhuma, que seja mais empolgante e mais edificante. O que em nosso assunto é essencial, em poucas palavras se diz. 

O Beato Grignion de Montfort expõe em sua obra no que consiste a perfeita devoção dos fiéis a Nossa Senhora, a escravidão de amor dos verdadeiros católicos à Rainha do Céu. Ele nos mostra o papel fundamental da Mãe de Deus no Corpo Místico de Cristo e na vida espiritual de cada cristão. Ele nos ensina a viver nossa vida espiritual em consonância com essas verdades. E nos inicia em um processo tão sublime, tão doce, tão absolutamente maravilhoso e perfeito, de nos unirmos a Maria Santíssima, que nada há na literatura cristã de todos os séculos, que o exceda neste ponto. 

Esta devoção, diz Grignion de Montfort, unindo o mundo a Nossa Senhora, uni-lo-á a Deus. No dia em que os homens conhecerem, apreciarem, viverem essa devoção, nesse dia Nossa Senhora reinará em todos os corações, e a face da Terra será renovada. 

De que forma? Grignion de Montfort esclarece que seu livro suscitaria mil oposições, seria caluniado, escondido, negado; que sua doutrina seria difamada, ocultada, perseguida; que ela suscitaria automaticamente uma antipatia profunda nos que não têm o espírito da Igreja. Mas que um dia viria, em que os homens por fim compreenderiam sua obra. Nesse dia, escolhido por Deus, a restauração do Reino de Cristo estaria assegurada. 

Durante séculos, a canonização do Beato Grignion vem caminhando. Por fim, ela chegou a seu termo. É absolutamente impossível que esse fato não tenha um nexo profundo com a dilatação da Verdadeira Devoção no mundo. 

E, nós o repetimos, é essa Verdadeira Devoção a bomba atômica que, não para matar mas para ressuscitar, Deus pôs nas mãos da Igreja em previsão das amarguras deste século. 

Pois bem, nosso otimismo é este: confiamos imensamente mais na bomba atômica de Grignion de Montfort, e em seu poder, do que nós receamos da ação devastadora de todas as forças humanas.

25 de abril de 2026

Uma peculiaridade da devoção a Na. Sra. de Genazzano

 


A fim de assinalar a bela data que celebramos neste dia 26 de abril, a festividade de Na. Sra. do Bom Conselho de Genazzano, segue um trechinho de artigo de Plinio Corrêa de Oliveira, publicado na revista Catolicismo (Nº 212, abril/maio de 1968). 

No século XV, o quadro d´Ela [foto] foi trasladado miraculosamente pelos anjos, da Albânia invadida pelos muçulmanos para cidade de Genazzano, nas proximidades de Roma. Seu quadro operou numerosos milagres, favorecendo pessoas que rezavam diante dele, e incontáveis pessoas alcançaram receberam grandes graças. 


“Não é possível tratar de Nossa Senhora de Genazzano sem pôr em realce uma de suas peculiaridades mais importantes. Muitas das pessoas que recorrem à Virgem diante da Imagem de Genazzano ou de réplicas desta, têm afirmado que o semblante da Senhora lhos ‘responde’ às orações. 

Não que o faça falando ou movendo-se, o que constituiria manifesto milagre. Mas, sem nenhuma alteração propriamente miraculosa, algo do olhar e da expressão da Divina Mãe toma caráter particularmente vivo e impregnado de maternal alegria quando o fiel é atendido. E é à multiplicação deste favor que em boa parte se deve a expansão universal da devoção a Nossa Senhora do Bom Conselho de Genazzano”.