1 de agosto de 2026
NOSSO AMOR A DEUS DEVE SER EXAGERADO
15 de julho de 2026
ELIAS, PRÍNCIPE DOS PROFETAS
| Profeta Elias – Igreja dos Carmelitas do Porto. Escultura em madeira policromada e dourada, dourada, século XVIII (c. 1750-1775) [Foto PRC]. |
Celebrado liturgicamente no dia 20 de julho, Santo Elias é considerado o Fundador da Ordem do Carmo, apesar de ter vivido muitos séculos antes da constituição oficial dos Carmelitas. Em memória, segue trecho de uma palestra de Plinio Corrêa de Oliveira em 20 de julho de 1967.
✅ Plinio
Corrêa de Oliveira
Santo Elias constituiu a primeira Ordem religiosa que houve na História! Aproximadamente 900 anos antes do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, ele reuniu discípulos no Monte Carmelo (situado na região noroeste de Israel), desejando formar suas almas segundo a pureza da Fé da Antiga Lei. O que deu origem à Ordem do Carmo.
8 de junho de 2026
ANCHIETA, O APÓSTOLO DO BRASIL
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Estátua representando Anchieta escrevendo o “Poema à Virgem” numa das praias de Ubatuba
“Por Ti, Mãe, o pecador está firme na esperança, Caminhar para o Céu, lar da bem-aventurança!""Ó Morada de Paz! Canal de água sempre vivo, Jorrando água para a vida eterna!""Em Ti todos se refugiam dos inimigos que ameaçam.""Dá-me acalentar neste peito aberto pela lança, Para que possa viver no Coração do meu Senhor!"[...]"Quem poderá louvar dignamente a Mãe daquele que tudo criou?"[...]"Brilhas acima dos astros, mais bela que a aurora nascente."[...]"Olha como os espinhos rasgam a cabeça sagrada do teu Filho."[...]"Que me consumam as saudades do Senhor, enquanto vivo longe da Pátria celeste."[...]"Guia-me, Virgem Santa, pelo mar revolto desta vida."[...]"Depois de Cristo, minha esperança, és Tu, ó dulcíssima Mãe."
28 de abril de 2026
O Reino de Maria para que venha o Reino de Jesus Cristo
28 de abril é o dia fixado pela Santa Igreja para a festa litúrgica de São Luís Maria Grignion de Montfort, ardoroso missionário francês do século XVIII (o século de Luis XIV), doutor marial por excelência, nascido em 1673 e falecido no dia 28 de abril de 1716.
Entre suas numerosas profecias, uma que atrai especialmente a atenção foi o anúncio de uma Cristandade restaurada em todo seu esplendor — o Reino de Maria, como também previsto em Fátima.
Uma profecia feita há mais de 300 anos por por São Luís Grignion e que está registrada no seu célebre Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem (1712):
“Ah! quando virá este tempo feliz em que Maria será estabelecida Senhora e Soberana nos corações, para submetê-los plenamente ao império de seu grande e único Jesus? [...] Então, coisas maravilhosas acontecerão neste mundo [...]. Quando chegará esse tempo feliz, esse século de Maria, em que inúmeras almas escolhidas, perdendo-se no abismo de seu interior, se tornarão cópias vivas de Maria, para amar e glorificar Jesus Cristo? Esse tempo só chegará quando se conhecer e praticar a devoção que ensino, ‘Ut adveniat regnum tuum, adveniat regnum Mariae’”*. (Que venha o Reino de Maria, para que assim venha o vosso Reino - ou seja, o Reino de Jesus Cristo). [Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem, São Luís Maria Grignion de Montfort, Editora Vozes, Petrópolis, 1961, VI edição, tópico 217, pp. 210-211].
A seguir, para marcar este grande dia de São Luís Maria Grignion de Montfort, transcrevo um artigo de Plinio Corrêa de Oliveira, publicado no “Legionário” de 21 de outubro de 1945:
GRIGNION DE MONTFORT
✅ Plinio Corrêa de Oliveira
Como condição de vitória, sem se desprezar nem de leve as providências concretas, devemos contar essencialmente com os recursos sobrenaturais. A História demonstra que não há inimigos que vençam um país cristão que possua três devoções: ao Santíssimo Sacramento, a Nossa Senhora e ao Papa. Investigue-se bem a queda de nações aparentemente muito fervorosas em sua adesão à Igreja: alguma broca secreta as minava em uma dessas três virtudes-chave.
A vitória, pois, depende de nós. Tenhamos em dia nossa consciência, estejamos tranquilos em Deus, e venceremos.
* * *
Isto explica o extraordinário relevo que damos a uma notícia apagada, que os jornais reproduziram há pouco: a canonização iminente do Bem-aventurado Luiz Maria Grignion de Montfort.
A notícia nada significa para o comum das pessoas. Ela significa tudo, para os que conhecem o verdadeiro fundo das coisas. A Providência resolveu jogar sua bomba atômica contra os adversários da Igreja. Perto desta bomba, as convulsões de Hiroshima e Nagasaki não passam de inocentes tremedeiras. Há dois séculos que está pronta a bomba atômica do Catolicismo. Quando ela explodir de fato, compreender-se-á toda a plenitude de sentido da palavra da Escritura: "Non est qui se abscondat a calore ejus" [Não há quem possa subtrair-se a seu calor].
Esta bomba se chama com um nome muito doce. É que as bombas da Igreja são bombas de Mãe. Chama-se O Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem. Livrinho de pouco mais de 100 páginas. Nele, cada palavra, cada letra é um tesouro. Este o livro dos tempos novos que hão de vir.
* * *
Nosso artigo já está por demais longo, para que demos um resumo biográfico da extraordinária vida desse Bem-aventurado. Não sei de nenhuma, que seja mais empolgante e mais edificante. O que em nosso assunto é essencial, em poucas palavras se diz.
O Beato Grignion de Montfort expõe em sua obra no que consiste a perfeita devoção dos fiéis a Nossa Senhora, a escravidão de amor dos verdadeiros católicos à Rainha do Céu. Ele nos mostra o papel fundamental da Mãe de Deus no Corpo Místico de Cristo e na vida espiritual de cada cristão. Ele nos ensina a viver nossa vida espiritual em consonância com essas verdades. E nos inicia em um processo tão sublime, tão doce, tão absolutamente maravilhoso e perfeito, de nos unirmos a Maria Santíssima, que nada há na literatura cristã de todos os séculos, que o exceda neste ponto.
Esta devoção, diz Grignion de Montfort, unindo o mundo a Nossa Senhora, uni-lo-á a Deus. No dia em que os homens conhecerem, apreciarem, viverem essa devoção, nesse dia Nossa Senhora reinará em todos os corações, e a face da Terra será renovada.
De que forma? Grignion de Montfort esclarece que seu livro suscitaria mil oposições, seria caluniado, escondido, negado; que sua doutrina seria difamada, ocultada, perseguida; que ela suscitaria automaticamente uma antipatia profunda nos que não têm o espírito da Igreja. Mas que um dia viria, em que os homens por fim compreenderiam sua obra. Nesse dia, escolhido por Deus, a restauração do Reino de Cristo estaria assegurada.
Durante séculos, a canonização do Beato Grignion vem caminhando. Por fim, ela chegou a seu termo. É absolutamente impossível que esse fato não tenha um nexo profundo com a dilatação da Verdadeira Devoção no mundo.
E, nós o repetimos, é essa Verdadeira Devoção a bomba atômica que, não para matar mas para ressuscitar, Deus pôs nas mãos da Igreja em previsão das amarguras deste século.
Pois bem, nosso otimismo é este: confiamos imensamente mais na bomba atômica de Grignion de Montfort, e em seu poder, do que nós receamos da ação devastadora de todas as forças humanas.
4 de abril de 2026
“RESSUSCITOU AO TERCEIRO DIA”
Na edição anterior publicamos as 15 meditações, especialmente apropriadas para a Semana Santa, sugeridas por Santo Afonso Maria de Ligório (1696-1787), extraídas de sua obra A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo.
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| Cristo Triufador – Maerten de Vos (1532–1603). Museu Real de Belas Artes de Antuérpia, Flandres, (Bélgica). |
ELE RESSUSCITOU!
MEUS IRMÃOS,
Se o nosso Símbolo
[o Credo, conhecido também como “Símbolo dos Apóstolos”] terminasse no ponto a
que chegamos no comentário que dele fizemos nos sermões que ouvistes, então a
fé cristã — apesar de sua incomparável beleza — permaneceria um sistema
filosófico inacabado, incompleto e impotente.
Se
o “Credo” terminasse onde parei na minha última instrução — “padeceu sob Pôncio Pilatos, foi
crucificado, morto e foi sepultado” —, a carreira terrestre de Nosso Senhor
Jesus Cristo terminaria numa nota trágica, então todo o Cristianismo desabaria
como um saco vazio, como um edifício sem estrutura, como uma casa sem
fundamentos.
Certamente,
mesmo assim o Cristianismo ainda seria um magnífico sistema filosófico, a
doutrina de Cristo permaneceria ainda um conjunto de sublimes verdades morais;
mas quem poderia ainda observar, ao preço de numerosos sacrifícios, os difíceis
mandamentos de Cristo, quem poderia amar sem vacilar até o último suspiro a fé
cristã, se o seu Fundador não fosse senão um homem — um homem virtuoso, um
sábio, um santo, mas apenas um homem que seus inimigos insultaram, pisaram aos
pés e mataram?
Sim, se o nosso Símbolo
ficasse por aí!
Mas não fica. Há
uma continuação. E essa continuação proclama algo particularmente
impressionante, inaudito, incrível, que jamais aconteceu: “Ressuscitou dos mortos ao terceiro dia”. São Paulo já o havia
compreendido e diz expressamente que toda a fé cristã gira em torno desta
questão: Cristo ressuscitou ou não? Com efeito, “se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa pregação, vã também é a vossa
fé” (I Coríntios, XV, 14).
É verdade! Se
Cristo não ressuscitou, que me importa a mim, homem do século XX, que tenha
vivido outrora, há 2000 anos, sobre a terra, um homem extremamente bom,
extremamente sábio, extremamente amável, cheio de amor pelos homens, que curava
os doentes, que perdoava os pecadores… que me importa, se ele também morreu, se
também foi sepultado e se também virou em pó?… Talvez eu o admirasse como se
admira um grande homem, talvez o honrasse como se honra um homem de bem — mas
amá-lo, adorá-lo, observar seus mandamentos por uma vida de sacrifícios,
permanecer-lhe fiel durante toda a vida? Quem sacrificaria a própria vida por
um cadáver reduzido a pó? Quem? Se Cristo não ressuscitou…
Mas se Ele ressuscitou?… Sim, se Ele ressuscitou? Se Ele me impõe respeito não somente por uma vida de
virtude, por palavras de bênção, pelo idealismo de seu caráter, por seus
milagres, mas se Ele ainda marcou finalmente sua vida incomparável e suas
palavras que proclamam sua consciência divina com o selo mais grandioso, mais
extraordinário, mais inaudito: se Ele saiu por seu próprio poder do túmulo?
E se eu vejo que
milhares e milhões aceitaram o martírio por esta fé no Ressuscitado; se vejo
que, sobre as pegadas do Ressuscitado, floresceram as virtudes mais heroicas e
mais belas? Então?
Então? Então não
resta senão reconhecê-lo: Cristo não pode ter sido um homem como eu, como vós,
como qualquer outro. Cristo era Deus. Inclinar-se diante d’Ele é prova de
sabedoria; insurgir-se contra Ele é pura loucura.
Sim, é exatamente
isso, se Cristo ressuscitou.
Também é
compreensível que, há 19 séculos [hoje, 20 séculos], os inimigos do Cristianismo
tenham tentado tudo para aniquilar esta fé na ressurreição. Com efeito, eles
sabem muito bem: se Cristo realmente ressuscitou, isso é um sinal tão inaudito,
tão impressionante de sua divindade, que seria loucura fazer algo contra Ele e
continuar ainda a combater o Cristianismo.
Importa, portanto,
a nós, cristãos fiéis, aprender a conhecer de modo nítido e claro este dogma
fundamental da nossa fé.
I. Como sabemos
que Cristo realmente ressuscitou? —
perguntar-nos-emos na primeira parte do sermão de hoje. Depois,
II. Vamos encarar
claramente os expedientes pelos quais
os inimigos de Cristo querem negar a sua ressurreição.
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| As santas mulheres encontram o túmulo vazio — Fra Angelico (1395–1455). Museu de São Marcos, Florença, Itália. |
I
COMO SABEMOS QUE CRISTO RESSUSCITOU?
A
ressurreição de Cristo no dia de Páscoa não é uma lenda, mas um fato histórico.
Ao menos um fato tão certo e garantido por tantos testemunhos oculares e
auriculares quanto qualquer outro acontecimento da história do mundo. É um fato
histórico que Nosso Senhor realmente morreu e foi sepultado. É um fato
histórico que, no dia de Páscoa, os amigos e os inimigos de Cristo foram ao seu
túmulo e o encontraram vazio. Enfim, é um fato histórico que Nosso Senhor,
depois da Páscoa, apareceu com bastante frequência a numerosas pessoas e falou
com elas; portanto, Ele vivia.
É
verdade, já faz muito tempo que Cristo ressuscitou, já se passaram 19 séculos.
Mas A) os testemunhos da Sagrada
Escritura e B) as mudanças ocorridas
na alma dos discípulos tornam este acontecimento pelo menos tão crível — e
até muito mais crível — do que qualquer outro episódio da história antiga.
A) A Sagrada
Escritura é, em primeiro lugar, testemunha da ressurreição de Cristo.
a) Basta, meus irmãos, tomar os Evangelhos e ler
atentamente o capítulo XXVIII de São Mateus, o capítulo XVI de São Marcos, o
capítulo XXIV de São Lucas e o capítulo XX de São João.
Todos
afirmam unanimemente: Cristo morreu na cruz, depois foi sepultado, uma grande
pedra foi rolada diante do túmulo... e esse Cristo bem morto ressuscitou na
manhã de Páscoa.
b) Mas não são apenas os evangelistas que afirmam e
proclamam a ressurreição de Cristo; são também os outros apóstolos.
São Pedro, o primeiro, afirma-o em seu sermão de Pentecostes,
portanto já 50 dias após a ressurreição. Pedro começa assim a pregar diante do
povo reunido na praça.
Vistes
Jesus na cruz? — pergunta ele.
Nós O vimos —
respondem.
Vistes que Ele
estava morto? — Nós O vimos.
Vistes como o
sangue e a água correram do seu coração aberto pela lança? — Nós o vimos.
Pois bem! Eu, e
comigo seus apóstolos e discípulos, nós O vimos vivo depois de sua morte, nós O
vimos ressuscitado. “A este Jesus, Deus o
ressuscitou: do que todos nós somos testemunhas” (Atos, II, 32).
Que Cristo tenha
ressuscitado, São Pedro apresenta a coisa como um fato conhecido que não
necessita de prova.
Ele fala disso com
tanta naturalidade e serenidade como alguém que sabe que todos em Jerusalém
estão cientes, e que ninguém pode levantar objeção contra esse fato bem
conhecido. E daquele gigantesco auditório, 3000 homens se converteram naquele
dia (Atos, II, 41).
São Pedro fala
igualmente da ressurreição de Cristo à porta do Templo de Jerusalém, após a
cura do paralítico (Atos, III, 15). Ele não prova a ressurreição de Cristo, mas
simplesmente a invoca como um fato bem conhecido em toda Jerusalém.
Mas fora de
Jerusalém foi necessário prová-la, pois nem todos sabiam o que havia acontecido
na capital. Assim, na casa de Cornélio, em Cesareia, São Pedro falou assim: “Quanto a nós, somos testemunhas de tudo o
que Ele fez na região da Judeia e em Jerusalém. Depois O mataram, suspendendo-O
no madeiro. Mas Deus O ressuscitou ao terceiro dia e permitiu que Ele se
manifestasse... a nós, que comemos e bebemos com Ele depois de sua ressurreição
dentre os mortos” (Atos, X, 39-41).
Ao lado de São
Pedro, também São Paulo prega a ressurreição de Nosso Senhor. Em Antioquia, ele
fala assim aos judeus: “Depois de
cumprirem tudo o que estava escrito a respeito d’Ele, tiraram-nO da cruz e O
colocaram num sepulcro. Mas Deus O ressuscitou dentre os mortos. Durante muitos
dias Ele se manifestou àqueles que com Ele haviam subido da Galileia para
Jerusalém, e que agora são suas testemunhas diante do povo” (Atos, XIII,
29-31).
Outra
vez ainda ele dá testemunho com estas palavras: “Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; foi sepultado
e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras; e apareceu a Cefas,
depois aos Doze. Em seguida apareceu de uma só vez a mais de quinhentos irmãos…
Depois apareceu a Tiago, depois a todos os apóstolos. E, por último de todos,
apareceu também a mim” (I Coríntios, XV, 3-8).
B) Mas, além
desse testemunho patente da Sagrada Escritura, a transformação espiritual dos
apóstolos é também um testemunho eloquente da realidade da ressurreição.
Todos
conhecemos o desmoronamento moral que a morte de Nosso Senhor produziu nos
apóstolos. Nenhuma tempestade de granizo pode devastar a colheita como o fim
lamentável do Salvador quebrou a alma dos apóstolos. Ouvi apenas com que
desolada desesperança falam os discípulos de Emaús: “Nós esperávamos que fosse Ele quem libertaria Israel” (S. Lucas,
XXIV, 21). Mesmo quando, na manhã de Páscoa, as santas mulheres vieram
apressadamente e com alegria anunciar que o túmulo de Cristo estava vazio, eles
permaneceram sem compreender (S. Lucas, XXIV, 22), e ainda na tarde de Páscoa
trancaram cuidadosamente as portas por medo dos judeus.
E
é nessas almas covardes, trêmulas e abatidas que de repente se acende a chama
da coragem dos mártires. Aqueles que haviam acabado de trancar as portas atrás
de si vêm agora pregar em plena praça pública e desafiam intrepidamente a
proibição dos sumos sacerdotes.
Quem
poderia compreender tal atitude, se Cristo não tivesse ressuscitado? Acaso um
morto seria capaz de produzi-la? Não há efeito sem causa. Ora, é um fato
incontestável que os apóstolos, esses simples pescadores, introduziram no
mundo, no terreno religioso, moral, social e intelectual, uma mudança —
poder-se-ia dizer uma proeza — tal que a História não pode apresentar fenômeno
semelhante.
Quem
pode dar sua explicação, se Cristo não ressuscitou? Em verdade, podemos dizer
que, se se põe em dúvida a realidade da ressurreição de Cristo, então não há
absolutamente mais nenhum fato histórico no mundo.
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| Quando o Salvador apareceu a Maria Madalena, ela O tomou por um jardineiro. |
II
EXPEDIENTES CONTRA O FATO DA RESSURREIÇÃO DE CRISTO
Se
examinarmos a fundo essas provas que fortalecem a nossa fé na ressurreição de
Cristo, as tentativas pelas quais os inimigos de Cristo procuram esquivar-se da
força peremptória do fato da ressurreição nos parecerão esforços bem
miseráveis.
A) Antes de
tudo, eles não sabem o que fazer com o túmulo vazio de Cristo
As
santas mulheres que, na manhã de Páscoa, queriam prestar as últimas honras ao
corpo de Jesus, encontraram o túmulo vazio. Aterrorizadas, informaram os
apóstolos. São Pedro e São João foram imediatamente ao sepulcro e também o
encontraram vazio (S. João, XX, 8). Que realmente o corpo de Jesus já não
estava no túmulo é demonstrado também pelo espanto e desorientação dos sumos
sacerdotes judeus; pois eles poderiam ter desmentido imediatamente a notícia
que se disseminava sobre a ressurreição, se tivessem podido apresentar o
cadáver de Cristo.
O
túmulo estava, portanto, incontestavelmente vazio. Mas como se tornou vazio?
Para onde foi o corpo?
a) Foi roubado — esta era a ideia que podia surgir primeiro no
espírito. Os sumos sacerdotes judeus recorreram imediatamente a esse expediente
e ofereceram dinheiro aos soldados que guardavam o túmulo para que anunciassem
por toda parte: Enquanto dormíamos, os discípulos de Jesus vieram e roubaram o
corpo.
Que
contradição e que impossibilidade psicológica há nessa afirmação! Os discípulos
medrosos e dispersos teriam de repente se tornado suficientemente corajosos
para ousar aproximar-se do túmulo guardado por soldados! Os soldados afirmam ter
dormido — mas, então, como viram que os apóstolos roubavam o corpo? E, se não
dormiam, por que assistiram ao roubo sem agir? E se os soldados romanos,
pertencentes ao exército mais disciplinado do mundo, dormiram durante a guarda,
teriam permanecido sem castigo? Ora, em vez de punição, lemos que receberam
dinheiro — muito dinheiro.
b) Os negadores da ressurreição compreenderam a
gravidade dessas dificuldades e tentaram outra explicação: Cristo estava morto apenas em aparência; voltou a si graças ao frescor
do túmulo e saiu dele.
Essa
tentativa de explicação talvez seja ainda mais lamentável que a anterior.
Com
efeito, é um fato certo que Cristo estava realmente morto, e não apenas em
letargia.
Cristo
estava morto? Poderia quase responder: jamais a morte de um homem foi mais
profundamente certa do que a de Cristo. Já no caminho da cruz, Ele não era mais
que uma sombra vacilante, um homem meio morto, derramando seu sangue por mil
feridas. E depois: na cruz, fizeram-lhe quatro grandes feridas nas mãos e nos pés…
a lança de um soldado fez-lhe uma quinta no coração… Finalmente: o túmulo
selado é guardado por soldados.… Em verdade, naquela hora os homens fizeram
tudo para afastar de seu caminho o profeta importuno.
Imaginemos,
aliás, que Cristo, meio morto, tivesse saído do túmulo e ido até seus
discípulos, que O tratassem e cuidassem, e que finalmente tivesse sucumbido aos
seus ferimentos — pode-se imaginar psicologicamente que esse fim miserável
tivesse produzido em almas abatidas aquele efeito sem precedentes de que falei
anteriormente?
B) Mas toda
essa fé dos apóstolos na ressurreição não seria pura fantasia, um produto da
imaginação, uma visão, uma alucinação? Aqueles que querem escapar a todo custo
à imensa força probante da ressurreição também tentaram esse expediente.
a) Mas quem poderia levar a sério essa explicação? O
túmulo de Jerusalém não teria destruído toda visão e alucinação com a mão
brutal da dura realidade? Se esse túmulo
não está vazio, se uma grande pedra o cobre e se sob ela está Cristo morto,
então toda visão é impossível.
b) Além disso, nos apóstolos faltam as condições mais elementares para uma alucinação.
Quem
tem visões e está sujeito a alucinações? Não é aquele que espera algo com
impaciência, febrilmente? Quando um hóspede anunciado deve chegar, já se ouvem
seus passos, e, no entanto, ele não vem. Mas os apóstolos não esperavam de modo
algum a ressurreição de Cristo. E mesmo quando as santas mulheres lhes trazem a
notícia pela primeira vez, eles não acreditam. Os discípulos de Emaús dizem
ainda à tarde que “as mulheres os
assustaram”. E São Tomé não acredita, embora os outros apóstolos já tenham
visto o Ressuscitado.
Eles
estavam tão pouco predispostos a visões, que nem sequer reconheceram o Salvador
quando Ele apareceu. Maria Madalena tomou-O por um jardineiro; os discípulos de
Emaús, por um estrangeiro.
Além
disso, são os homens nervosos que estão sujeitos a alucinações, e não
pescadores endurecidos pela vida ao ar livre.
c) Se Cristo ressuscitado tivesse aparecido apenas uma
ou duas vezes, talvez ainda se pudesse admitir que fosse apenas imaginação, uma
visão, um fantasma. Mas Ele apareceu
frequentemente durante quarenta dias. São Pedro encontrou-O, Maria Madalena
encontrou-O. As santas mulheres encontraram-nO. Os dez apóstolos — com exceção
de São Tomé — encontraram-nO. Depois, todos os apóstolos — inclusive São Tomé —
encontraram-nO... e assim por diante. E quando São Paulo escreve aos Coríntios,
invoca o fato de que ainda vivia entre eles um grande número de homens que
tinham visto com seus próprios olhos o Salvador ressuscitado (I Coríntios, XV,
6). Pode um acontecimento histórico ser mais bem provado? Um homem isolado pode
às vezes ser vítima de uma visão enganosa, mas 500 homens juntos viram Cristo —
teriam todos esses 500 visto um fantasma? E, por outro lado, no quadragésimo
dia, dia da ascensão de Cristo, as aparições cessaram de repente. Por quê? No
entanto, as bases psicológicas permaneceram as mesmas depois.
A
ressurreição de Cristo é, portanto, um fato histórico. Temos como testemunhas
as santas mulheres que, ao se dirigirem ao túmulo, esperavam tudo, menos a
ressurreição de Cristo. Temos como testemunhas os apóstolos que, a princípio,
acolheram a notícia com hesitação; mas, quando foram convencidos por seus
olhos, seus ouvidos e suas mãos da sua realidade, deram a vida por ela. Temos
como testemunha a multidão dos primeiros cristãos aos quais o Salvador apareceu
depois de sua ressurreição. Temos como testemunha toda a vida da Igreja, vinte
vezes centenária.
Com
efeito, diante da coragem dos mártires, da elevação moral e da intrepidez que
resultam da fé na ressurreição, podemos com razão perguntar: se Cristo não
ressuscitou, mas permaneceu no pó do túmulo, quem pode compreender tudo isso?
Quem pode crer que um morto tenha podido
realizar tudo isso?
A
ressurreição de Cristo é a coroação de sua obra, a prova suprema de que Ele é
realmente o Filho de Deus. Quando Cristo estava pregado na cruz, seus inimigos
O insultavam com estas palavras: “Salvou
os outros e não pode salvar-se a si mesmo; se é rei de Israel, desça agora da
cruz e creremos n’Ele” (S. Mateus, XXVII, 42). Agora, porém, Cristo deu uma
prova ainda maior de sua divindade. Não foi da cruz que Ele desceu, mas foi do
túmulo selado que Ele saiu vivo.
Compreendemos
agora por que a Páscoa é a maior festa do Cristianismo. É porque a ressurreição
de Cristo é o fundamento da nossa fé, o triunfo da verdade, um encorajamento em
nossa vida cheia de lutas e o sinal da nossa própria ressurreição.
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| A incredulidade de Tomé – Maerten de Vos (1532–1603). Museu Real de Belas Artes de Antuérpia, Flandres, (Bélgica) |
Meus irmãos, é a tarde de Páscoa.
Os apóstolos estão reunidos; faltam apenas dois: Judas, o traidor, e Tomé. Onde
estava Tomé, não o sabemos. Os espíritos estão abatidos, cheios de angústia. O
corpo de Cristo desapareceu; os sumos sacerdotes mandaram divulgar pela cidade
que os discípulos o haviam roubado. Desde então não é prudente sair pelas ruas.
Estão tão inquietos que trancaram cuidadosamente a porta. O que vai acontecer? O
que será dos desígnios de Cristo? Como esses pescadores medrosos empreenderão a
conquista do mundo?
E então… então… de repente Cristo
está no meio deles. As portas ainda estão fechadas, mas Cristo está no meio
deles. “Sou eu, não temais!” É como
se tivesse dito: Agora é preciso acabar com esse pessimismo medroso. Vede,
cumpri a minha palavra. Sou eu, eu vivo. Mas agora preciso de soldados, preciso
de mártires que me deem testemunho diante do mundo.
E “os discípulos alegraram-se ao ver o Senhor”, diz a Sagrada
Escritura, e uma força nova encheu suas almas abatidas. E desde então a figura
sublime de Cristo ressuscitado tornou-se para eles uma fonte de energia sempre
nova. Cada dia ela passa jubilosa por milhões de lábios: “Ressuscitou dos mortos ao terceiro dia”.
Sim,
Cristo vive. Cristo é uma realidade viva. Não é uma lenda, nem um mito, nem um
símbolo. Cristo
que percorria os caminhos da Palestina percorre hoje os caminhos do mundo.
Cristo que falava há 19 [hoje 20] séculos aos habitantes da Terra Santa hoje
ainda nos acena como vencedor da morte com a palma da vitória; hoje ainda Ele
nos fala, nos consola, nos fortalece, nos ilumina, nos ajuda e nos espera… nos
espera na pátria eterna.
Meus
irmãos, vivamos, pois, com a graça de Deus, de tal maneira que onde está a
cabeça estejam também os membros. Vivamos de modo que, onde nosso Irmão
glorioso nos precedeu, cheguemos também nós; e que, por sua paixão e sua cruz,
alcancemos também a glória da ressurreição, por Jesus Cristo, Nosso Senhor. Amém.
____________
(*) Le
symbole des Apôtres (Quarta Parte). La
Résurrection - l´Ascension - La Virge Marie. Sermões traduzidos do húngaro
para o francês pelo Pe. Marcel Grandclaudon. Éditions Salvator, Mulhouse
(Haut-Rhin), 2ª edição, 1938, pp. 5-18.
Fonte: Revista Catolicismo, Nº 903, abril/2026
1 de abril de 2026
AS HORAS DA PAIXÃO DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO
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Santo Afonso Maria de Ligório sugere meditar nos pontos elencados abaixo. Antes, porém, recomenda recitar esta oração:
INVOCAÇÃO A JESUS E MARIA
Ó Salvador do mundo, ó amante das almas, ó Senhor, o mais digno objeto de nosso amor, vós, por meio de vossa Paixão, viestes a conquistar os nossos corações, testemunhando-lhes o imenso afeto que lhes tendes, consumando uma redenção que a nós trouxe um mar de bênçãos e a vós um mar de penas e ignomínias. Foi por este motivo principalmente que instituístes o SS. Sacramento do altar, para que nos lembrássemos continuamente de vossa Paixão.
Como diz S. Tomás: Ut autem tanti beneficii jugis in nobis maneret memoria, corpus suum in cibum fidelibus dereliquit (Opusc. 57). [“Para que a memória de tão grande benefício permanecesse continuamente em nós, deixou o seu corpo como alimento aos fiéis” — NdR: Opusculum 57 — Officium de festo Corporis Christi (também conhecido como o Ofício do Corpo de Cristo), composta por São Tomás de Aquino por volta de 1264, a pedido do Papa Urbano IV.].
E já antes dele disse S. Paulo: Quotiescumque enim manducabitis panem hunc et calicem bibetis, mortem Domini annunciabitis, donec veniat. [“Pois todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciareis a morte do Senhor, até que Ele venha.” - (1Cor 11,26).
Como tais prodígios de amor já tendes conseguido que inúmeras almas santas, abrasadas nas chamas de vosso amor, renunciassem a todos os bens da Terra, para se dedicarem exclusivamente a amar tão somente a vós, amabilíssimo Senhor. Fazei, pois, ó meu Jesus, que eu me recorde sempre de vossa Paixão e que, apesar de miserável pecador, vencido finalmente por tantas finezas de vosso amor, me resolva a amar-vos e a dar-vos com o meu pobre amor algumas provas de gratidão pelo excessivo amor que vós, meu Deus e meu Salvador, me tendes demonstrado.
Recordai-vos, ó Jesus meu, que eu sou uma daquelas vossas ovelhinhas, por cuja salvação viestes à Terra sacrificar vossa vida divina. Eu sei que vós, depois de me terdes remido com vossa morte, não deixastes de me amar e ainda me consagrais o mesmo amor que tínheis ao morrer por mim na cruz.
Não permitais que eu continue a viver ingrato para convosco, ó meu Deus, que tanto mereceis ser amado e tanto fizestes para ser de mim amado.
E vós, ó SS. Virgem Maria, que tivestes tão grande parte na Paixão de vosso Filho, impetrai-me pelos merecimentos de vossas dores a graça de experimentar um pouco daquela compaixão que sentistes na morte de Jesus e obtende-me uma centelha daquele amor, que constituiu o martírio de vosso coração tão compassivo.
Suplico-vos, Senhor Jesus Cristo, que a força de vosso amor, mais ardente que o fogo, e mais doce que o mel, absorva a minha alma, a fim de que eu morra por amor de vosso amor, ó vós que vos dignastes morrer por amor de meu amor. Amém.
Hora 1: Despede-se de Maria e celebra a ceia
Hora 2: Lava os pés aos apóstolos e institui o SS. Sacramento.
Hora 3: Faz suas últimas recomendações e vai ao horto.
Hora 4: Faz oração no horto.
Hora 5: Põe-se em agonia.
Hora 6: Sua sangue.
Hora 7: É traído por Judas e é preso.
Hora 8: É conduzido a Anás.
Hora 9: É levado a Caifás e recebe a bofetada.
Hora 10: Vendam-lhe os olhos, é espancado e escarnecido.
Hora 11: É levado ao conselho e declarado réu de morte.
Hora 12: É conduzido a Pilatos e acusado.
Hora 13: É escarnecido por Herodes.
Hora 14: É reconduzido a Pilatos e posposto a Barrabás.
Hora 15: É flagelado na coluna.
Hora 16: É coroado de espinhos e mostrado ao povo.
Hora 17: É condenado à morte e sobe ao Calvário.
Hora 18: É despojado de suas vestes e crucificado.
Hora 19: Ora pelos que o crucificaram.
Hora 20: Entrega seu espírito ao Pai.
Hora 21: Morre.
Hora 22: É traspassado com a lança.
Hora 23. É despregado e entregue a sua Mãe.
Hora 24. É sepultado e deixado no sepulcro.
30 de março de 2026
Amor Àquele que por amor aos filhos morreu na cruz para salvá-los
Fonte: Revista Catolicismo, Nº 903, março/2026
Santo
Afonso Maria de Ligório (1696-1787) recomenda com muito empenho a frequente
meditação na Vida, Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo ao longo da
Quaresma, especialmente nos dias da Semana Santa. Um sacrossanto exercício para
incrementar nosso amor incondicional a Deus.
Assim,
em seu precioso livro A Paixão de Nosso
Senhor Jesus Cristo*, ele coloca o leitor seguindo os pungentes passos da
Paixão e, para cada um deles, sugere uma meditação, cada uma mais comovente que
a outra.
Ele
propõe 15 meditações a serem feitas preferencialmente na Semana Santa. Neste
ano, ela inicia-se no dia 29 de março (no Domingo de Ramos – celebração da
entrada de Nosso Senhor em Jerusalém) e se encerra no dia 5 de abril (no
Domingo de Páscoa – celebração da Ressurreição de Jesus).
Quando
contemplamos nosso Salvador caminhando resignadamente na sua Via Crucis, somos estimulados a reparar
a suprema ofensa feita contra Ele — o deicídio —; move-nos também a desagravá-Lo
pelos nossos pecados e a aceitar os sofrimentos que padecemos para nos unirmos
a Ele. Nesta contemplação, Nosso Senhor conquista nossos corações e nos ajuda a
conquistar o Céu por toda a eternidade.
Com
essas meditações — diz o santo autor, fundador dos Redentoristas, Bispo de
Sant'Agata de'Goti, Doutor da Igreja e um dos maiores moralistas —,desapegamo-nos
das coisas terrenas que podem nos levar à perdição; pois quem poderá amar mais
um bem terreno acima do amor a Jesus? Contemplando-O na Via Crucis e vendo-O morrer entre tantas dores para salvar as almas
de suas criaturas, Ele nos abre caminho para entrarmos um dia na glória
celestial.
Neste
mesmo raciocínio, Orígenes (185-253) escreveu que o pecado não poderia imperar
na alma de quem meditasse continuamente na morte de seu Salvador.
Santo
Afonso recomenda que façamos todas as meditações pedindo a intercessão da nossa
Corredentora. Com sua pungente participação na Paixão de seu Divino Filho, pelos
merecimentos que alcançou com suas dores, Nossa Senhora poderá nos alcançar uma
abrasada compaixão por Jesus e nos dará uma centelha do divino amor que Ela possui
na plenitude.
Antes
de passarmos às meditações, todas extraídas do mencionado livro, uma breve
oração composta pelo mesmo santo:
“Suplico-vos, Senhor Jesus Cristo,
que a força de vosso amor, mais ardente do que o fogo e mais doce do que o
mel, absorva a minha alma, a fim de que eu morra por amor de vosso amor, ó
Vós que vos dignastes morrer por amor a mim.”
Da Redação de
Catolicismo

Agonia no Horto das Oliveiras – Baltasar de Echave (1558–1623).
Museu Nacional de Arte, Cidade do México.

PRIMEIRA
MEDITAÇÃO
No
sábado da Paixão
Jesus
entra triunfante em Jerusalém
1.
Aproximando-se já o tempo da sua paixão, partiu nosso Redentor de Betânia para
ir a Jerusalém. Quando chegou perto daquela ingrata cidade, olhou-a de longe e
chorou: “ao ver a cidade, chorou sobre
ela” (Lc 19, 14). Chorou prevendo-lhe a ruína, por causa do grande excesso
que aquele povo dentro em pouco cometeria, tirando a vida ao Filho de Deus. Ah!
meu Jesus, chorando então sobre aquela cidade, choráveis também sobre a minha
alma, vendo a ruína que eu mesmo me causei com os meus pecados, forçando-vos a
me condenardes ao inferno, depois de haverdes morrido para me salvar. Ah!
deixai-me chorar o grande mal que fiz, desprezando-vos, a vós sumo bem, e tende
compaixão de mim.
2.
Jesus Cristo entra na cidade, o povo vai ao seu encontro, recebe-o com aplauso
e festa; e, para lhe fazerem honra, uns espalham pelo caminho ramos de
palmeira, outros estendem as vestes por onde ele passa. Oh! quem então diria
que aquele Senhor, já reconhecido como Messias e acolhido com tantas provas de
respeito, havia, depois, de aparecer pelas mesmas ruas condenado à morte, com
uma cruz às costas! Ah! meu caro Jesus, antes aquela gente vos aclama dizendo: “Hosana ao Filho de Davi: bendito o que vem
em nome do Senhor” (Mt 21, 9). Glória ao filho de Davi, bendito aquele que
vem em nome de Deus para a nossa salvação. E depois levantará a voz, insuflando
Pilatos, para que vos tire do mundo, fazendo-vos morrer crucificado: “Fora, fora, crucifica-o!” Vai, minha
alma, e dize-lhe também tu com afeto: “Bendito
o que vem em nome do Senhor”. Sede sempre bendito por terdes vindo, ó
Salvador do mundo, do contrário estávamos todos perdidos. Ó meu Salvador,
salvai-me.
3.
Chegada, porém, a noite, depois de tantas aclamações não se achou ninguém que o
convidasse a alojar-se em sua casa; pelo que, teve Ele de se retirar para
Betânia. Meu amado Redentor, se outros não vos querem acolher, eu quero
acolher-vos no meu pobre coração. Por um tempo eu, infeliz, vos expulsei da
minha alma, mas agora estimo mais o ter-vos comigo do que possuir todos os
tesouros da Terra. Amo-vos, meu Salvador, quem poderá jamais separar-me do
vosso amor? Só o pecado, mas deste pecado me haveis de livrar com o vosso
auxílio, ó meu Jesus, e vós com a vossa intercessão, ó Maria minha mãe!
SEGUNDA
MEDITAÇÃO
No
domingo da Paixão
Jesus
faz oração no horto
1. Sabendo
Jesus Cristo já ser chegada a hora da sua Paixão, depois de lavar os pés aos
seus discípulos, e depois de instituir o SS. Sacramento do altar, no qual nos
deixou todo a si mesmo, vai ao horto de Getsêmani, onde sabia deverem em breve
vir os inimigos para o prenderem. Ali põe-se a orar, e eis que se vê assaltado
por um grande temor, por um grande tédio e por uma grande tristeza. “Começou a dar sinais de espanto, de tédio,
e a ficar triste” (Mc 14, 33, Mt 26, 5). Assaltou-o primeiramente um grande
temor da morte amarga que devia sofrer no Calvário, e de todas as angústias e
desolações que deviam acompanhá-la. No processo da sua Paixão, os flagelos, os
espinhos, os pregos e os outros tormentos afligiram-no um a um; mas, no horto,
vieram afligi-lo todos juntos, com a lembrança. Ele os abraça todos por nosso
amor, mas, ao abraçá-los, treme e agoniza. “E,
caindo em agonia, orava mais intensamente” (Lc 22, 43).
2. Além
disso, assalta-o um grande tédio daquilo que Ele devia padecer, pelo que roga
ao Pai que o livre disso. “Meu Pai, se é
possível, passe de mim este cálice” (Mt 26, 39). Ele assim rogou para nos
ensinar que nas tribulações bem podemos pedir a Deus que nos livre delas; mas
ao mesmo tempo devemos remeter-nos à sua vontade, e dizer como então disse Jesus:
“Mas não como eu quero, e sim como o
queres tu” (Mt 26, 39). Sim, meu Jesus, não se faça a minha vontade, senão
a vossa. Abraço todas as cruzes que quiserdes mandar-me. Vós inocente, tanto
padecestes por meu amor; justo é que eu, pecador, réu do inferno, padeça por
vosso amor tudo quanto dispuserdes.
3. Assaltou-o
ainda uma tristeza tão grande, que bastava para fazê-lo morrer, se Ele mesmo
não houvesse contido a morte, a fim de morrer por nós crucificado depois de
padecer. “Minha alma está triste até à
morte” (Mc 14, 34). Esta grande tristeza foi causada por ver Ele a
ingratidão futura dos homens, que, em vez de corresponderem a tanto amor de sua
parte, haviam de ofendê-lo com tantos pecados, cuja vista o fez suar sangue
vivo. “E começou a suar como gotas de
sangue que escorriam em terra” (Lc 22, 44). De modo, meu Jesus, que já não
foram cruéis os algozes, os flagelos, os espinhos, a cruz; cruéis foram os meus
pecados, que tanto vos afligiram no horto. Dai-me, pois, parte daquela dor e
aborrecimento que deles experimentastes no horto, de modo que eu chore
amargamente, até à morte, os desgostos que vos tenho dado. Amo-vos, ó meu
Jesus; recebei um pecador que quer amar-vos. Ó Maria, recomendai-me a esse
filho aflito e triste por meu amor.
TERCEIRA
MEDITAÇÃO
Na
segunda-feira da Paixão
Jesus
é preso e conduzido a Caifás
1. Sabendo o Senhor
já estarem perto os judeus que vinham prendê-lo, levanta-se da oração e lhes
vai ao encontro; pelo que, sem repugnar, faz-se prender e atar por eles. “Agarraram Jesus e ataram-no” (Jo 18,
12). Ó pasmo! Um Deus atado como um celerado pelas suas criaturas! Minha alma,
olha como um lhe agarra as mãos, outro o amarra, outro o bate; e o inocente
cordeiro deixa-se atar e bater à vontade deles, e se cala. “Foi crucificado porque quis; não abriu a boca. Como uma ovelha será
conduzido para ser morto” (Is 53, 7). Não fala nem se lamenta, visto como
Ele próprio já se oferecera para morrer por nós, e por isto deixa-se atar como
uma ovelha e conduzir à morte sem abrir a boca.
2. Entra Jesus atado
em Jerusalém. Aqueles que dormiam, ao tumulto daquela gente que passa, acordam
e perguntam quem é aquele prisioneiro que era levado; e lhes é respondido: É Jesus Nazareno, que foi descoberto como
impostor e sedutor. Apresentam-no a Caifás, que, vendo-o, se alegra, e o
interroga sobre seus discípulos e sobre a sua doutrina. Jesus responde que
falou em público; pelo que, chama em testemunho do que disse aqueles mesmos judeus
que lhe estavam em volta: Eis que estes
sabem o que eu disse. Mas, depois desta resposta, um dos ministros bate-o
com uma bofetada, dizendo-lhe Assim
respondes ao pontífice? Mas, ó Deus, como pode uma resposta tão humilde e
mansa merecer uma afronta tão grande? Ah! meu Jesus, vós tudo sofreis para
pagar as afrontas feitas ao vosso divino Pai.
3.
Depois
o pontífice conjurou-o em nome de Deus a dizer se verdadeiramente Ele era o
Filho de Deus. Jesus disse que o era; e, ao ouvir isto, Caifás, em vez de se
prostrar em terra para adorar o seu Deus, rasga as vestes e, voltando-se para
os outros sacerdotes, diz: Que
necessidade temos mais de testemunhas? Eis que agora ouvistes a blasfêmia; que
vos parece?E eles unanimemte responderam: É réu de morte. Então, conforme narram os Evangelistas, começam
todos a cuspir-lhe no rosto e a maltratá-lo com bofetadas e socos, e depois,
cobrindo-lhe o rosto com um pano, diziam-lhe por escárnio: “Adivinha, Cristo, quem te bateu” (Mt 26, 68). Assim escreveu São
Mateus. E São Marcos escreveu: “E alguns
começaram a cuspir-lhe em cima e a lhe velar a face e a dar-lhe socos, dizendo-lhe:
Adivinha. E os servos lhe davam bofetadas” (Mc 14, 65). Ei-vos, meu Jesus,
que nessa noite vos tornastes o joguete da gentalha! Mas como podem os homens
ver-vos tão humilhado por seu amor e não vos amar? E como pude eu chegar a
ultrajar-vos com tantos pecados meus, depois de tanto haverdes padecido por
mim? Amor meu, perdoai-me, que não mais quero vos dar desgosto. Amo-vos, meu
sumo bem, e arrependo-me mais do que de qualquer mal, de vos haver desprezado.
Ó minha mãe Maria, rogai ao vosso filho maltratado que me perdoe.
QUARTA
MEDITAÇÃO
Na
terça-feira da Paixão
Jesus
é conduzido a Pilatos e a Herodes e depois é posposto a Barrabás
1.
Vinda a manhã, levam Jesus a Pilatos, a fim de que o condene à morte. Mas
Pilatos percebe que Jesus é inocente, pelo que diz aos judeus que não achava
razão para condená-lo. Vendo, porém, aqueles homens obstinados em querê-lo
morto, remeteu-o ao juízo de Herodes. Tendo diante de si Jesus, Herodes
desejava ver algum dos tantos prodígios operados pelo Senhor e que lhe haviam
sido referidos. O Senhor, entretanto, nem sequer quis responder às
interrogações daquele temerário. Pobre da alma a que Deus não fala mais! Meu
Redentor, assim merecia também eu, por não haver obedecido a tantos apelos
vossos; merecia que não me falásseis mais e que me abandonásseis: mas não, meu
Jesus, vós ainda não me abandonastes; falai-me, pois. Fala, ó Senhor, que o teu servo te escuta; dizei-me o que quereis
de mim, e eu tudo quero fazer para vos agradar.
2.
Vendo que Jesus não lhe dava resposta, Herodes, indignado, enxotou-o da sua
casa, escarnecendo-o com toda a gente da sua corte, e para maior desprezo
mandou vesti-lo com uma veste branca para tratá-lo como louco, e assim o
remeteu a Pilatos. “Escarneceu-o, e,
depois de vesti-lo de branco, reenviou-o a Pilatos” (Lc 23, 11). Eis que
Jesus, vestido com aquela sobreveste de ludíbrio, é levado pelas ruas de
Jerusalém. Ó meu desprezado Salvador, faltava-vos esta outra injúria, de serdes
tratado como louco! Portanto, se assim a sabedoria eterna é tratada pelo mundo,
feliz de quem não faz nenhum caso dos aplausos do mundo, e não quer saber de
outra coisa senão de Jesus Crucificado, amando as dores e os desprezos, e
dizendo com o Apóstolo: “Pois não julguei
saber outra coisa entre vós senão Jesus Cristo, e Este crucificado” (I Cor.
2, 2).
3.
Tinham
os Hebreus o direito de pedir ao presidente romano, na festa de Páscoa, a
libertação de um réu. Por isso, Pilatos perguntou ao povo a quem queria
libertado, se Barrabás ou Jesus. “Quem
quereis que eu vos liberte, Barrabás ou Jesus?” (Mt 27, 17). Barrabás era
um celerado, homicida, ladrão, abominado por todos; Jesus era inocente; mas os judeus
gritam que viva Barrabás e morra Jesus. Ah! meu Jesus, assim também disse eu
quando deliberei ofender-vos por alguma satisfação minha, ou quando preferi a
vós aquele meu miserável gosto e, para não perder este, não me importei de
perder a vós, bem infinito. Mas agora amo-vos sobre qualquer outro bem, mais do
que a minha vida. E vós, Maria, sede a minha advogada.
QUINTA
MEDITAÇÃO
Na
quarta-feira da Paixão
Jesus
é flagelado na coluna
1.
“Então Pilatos tomou
Jesus e mandou flagelá-lo” (Jo 19, 1). Ó injusto juiz,
declaraste-o inocente, e depois o condenas a uma pena tão cruel e tão
vergonhosa? Olha agora, ó minha alma como, depois dessa ordem iníqua, os
algozes agarram o Cordeiro divino, levam-no ao pretório e o amarram com cordas
à coluna. Ó cordas, vós que ligastes àquela coluna as mãos do meu doce
Redentor, ligai também ao seu coração divino o meu miserável coração, de modo
que de hoje em diante eu não procure, não queira senão aquilo que Ele quer.
2.
Eis que eles já tomam na mão os flagelos e, dado o sinal, começam a bater por
toda parte aquelas carnes sacrossantas: as quais primeiramente aparecem
lívidas, vendo-se depois por toda parte brotar o sangue. Ai de mim, que os
flagelos e as mãos dos algozes já estão todas tintas de sangue, e a terra já
está toda banhada de sangue. Oh! Deus, ante a violência dos golpes vai pelos
ares não só o sangue, mas também em pedaços, a carne de Jesus Cristo! Aquele
corpo divino já está todo dilacerado, mas, sem embargo, aqueles bárbaros
continuam a ajuntar feridas e feridas, dores e dores. E, enquanto isso, que faz
Jesus? Não fala, não se lamenta, mas paciente, sofre esse grande tormento para
aplacar a divina justiça indignada conosco. “Como
cordeiro mudo diante de quem o tosa, assim ele não abriu a boca” (Act. 8,
32). Vai depressa, ó minha alma, vai e lava-te naquele sangue divino. Meu amado
Senhor, contemplo-vos todo dilacerado por mim: já não posso, pois, duvidar de
que me amais, e de que me amais bastante. Cada chaga vossa é uma prova
sobejamente certa do vosso amor, o qual, com sobeja razão, pede o meu amor.
Vós, meu Jesus, sem reserva me dais o vosso sangue, justo é que sem reserva eu
vos dê todo o meu coração. Recebei-o, pois, e fazei que ele vos seja sempre
fiel.
3.
Ó Deus! Se Jesus Cristo não houvesse sofrido mais que uma simples pancada por
meu amor, ainda assim eu deveria arder de amor a Ele, dizendo: Um Deus quis ser batido por mim! Mas
não: Ele não se contentou com uma só pancada, porém para pagar os meus pecados,
quis que lhe fossem dilacerados todos os membros, como já predissera Isaías: “Foi traspassado pelos nossos crimes”
(Is 53, 5), até aparecer como um leproso coberto de chagas da cabeça aos pés: “E consideramo-lo como um leproso” (Is
53, 4). Portanto, minha alma, enquanto era flagelado, Jesus pensava em ti, e
oferecia a Deus aqueles seus acerbos martírios para te livrar dos flagelos
eternos do inferno. Ó Deus de amor, como pude eu viver tantos anos no passado
sem vos amar? Ó chagas de Jesus, chagai-me de amor por um Deus que tanto me
amou. Ó Maria, ó mãe de graças, impetrai-me para mim este amor.
![]() |
| Coroação de Espinhos de Nosso Senhor– Martin Schongauer (1440–1491). Unterlinden Museum, Colmar, França. |
SEXTA
MEDITAÇÃO
Na
quinta-feira da Paixão
Jesus
é coroado de espinhos e tratado como rei de brinquedo
1. Depois
que aqueles soldados flagelaram Jesus Cristo, uniram-se todos no pretório e,
despojando-o de novo das suas vestes para escarnecê-lo e torná-lo um rei de
cena, puseram-lhe em cima um trapo velho de cor vermelha em sinal de púrpura
real, na mão uma cana em sinal de cetro, e na cabeça um feixe de espinhos em
sinal de coroa, mas feito a modo de capacete, que tomava toda a sagrada cabeça.
“E despindo-o, puseram-lhe em cima um
manto vermelho; e, entretecendo uma coroa de espinhos, puseram-lha na cabeça, e
puseram-lhe uma cana na mão direita” (Mt 27, 28-29). E como só com as mãos
os espinhos não entravam mais a dentro para perfurarem aquela divina cabeça,
com a própria cana eles lhe calcam com toda força aquela bárbara coroa. “E cuspiram-lhe em cima, tomavam a cana e
lhe batiam a cabeça” (Mt 27, 30). Ó espinhos ingratos, assim atormentais o
vosso Criador? Mas quais espinhos! Vós, meus maus pensamentos, vós é que
traspassastes a cabeça do meu Redentor. Detesto, ó meu Jesus, e aborreço mais
do que a morte aqueles perversos consentimentos com que tantas vezes vos
amargurei, a vós meu Deus tão bom. Mas, já que me fazeis conhecer o quanto me
amastes, só a vós quero amar, só a vós.
2.
Ó Deus, eis que daquela cabeça traspassada o sangue já escorre em rios sobre a
face e sobre o peito de Jesus, e vós, meu Salvador, nem sequer vos queixais de
tantas e tão injustas crueldades! Sois o rei do Céu e da Terra, mas agora, meu
Jesus, estais reduzido a aparecer como rei de escárnios e de dores feito de ludíbrio
de toda Jerusalém. Mas devia cumprir-se a predição de Jeremias, de que um dia devíeis
ser saturado de dores e de ignomínias: “Oferecerá
a face a quem o bate, e será saturado de opróbrios” (Thren. 3, 30). Jesus,
meu amor, no passado desprezei-vos, mas agora vos estimo e vos amo de todo o
meu coração, e desejo morrer por vosso amor.
3.
Mas não, ainda não estão fartos de atormentar-vos e de escarnecer-vos esses
homens pelos quais padeceis; depois de vos haverem assim atormentado e feito
rei de comédia, ajoelham-se diante de vós, e com irrisões vos dizem: Saudamos-te, ó rei dos judeus. E depois,
com risos e gargalhadas vos dão mais bofetadas que redobram a dor da cabeça já
perfurada pelos espinhos. “E, dobrando o
joelho diante dele, escarneciam-no dizendo: salve, o rei dos judeus. E
davam-lhe bofetadas” (Mt 27, 29; Jo. 19, 3). Vai tu ao menos, ó minha alma,
e reconhece Jesus pelo que Ele é, como Rei dos reis e Senhor dos senhores; e
agradece-lhe e ama-o, agora que o vês por teu amor, feito rei de dor. Ah! meu
Senhor, esquecei-vos das amarguras que vos proporcionei. Agora vos amo mais do
que a mim mesmo. Só vós mereceis todo o meu amor, e por isto só a vós quero
amar. Receio pela minha fraqueza, mas vós haveis de me dar a força de
executá-lo. E vós, ó Maria, haveis de me ajudar com as vossas preces.
SÉTIMA
MEDITAÇÃO
Na
sexta-feira da Paixão
Pilatos
mostra Jesus ao povo dizendo: “Ecce Homo”
1.
Tendo sido Jesus levado novamente à sua presença, Pilatos viu-o tão dilacerado
e deformado pelos flagelos e pelos espinhos, que acreditou mover à compaixão o
povo com fazer-lho olhar; pelo que saiu ao balcão, trazendo consigo o aflito
Senhor, e disse “Ecce Homo”.Como se
dissesse: Vamos, contentai-vos com o que até agora padeceu este pobre inocente.
Ei-lo reduzido a um estado de não mais poder viver. Deixai-o ir embora, pois
pouco lhe resta de vida. Contempla também tu, minha alma, naquele balcão, o teu
Senhor atado e seminu, coberto somente de chagas e sangue; e considera a que se
reduziu o teu pastor para salvar a ti, ovelha pedida.
2.
Ao mesmo tempo que Pilatos mostra aos judeus Jesus chagado, lá do Céu o Eterno
Pai nos convida a olharmos Jesus Cristo em tal estado, e semelhantemente nos
diz: “Ecce Homo”. Homens, esse homem
que vós contemplais tão chagado e vilipendiado, esse é meu Filho dileto, que,
para pagar os vossos pecados tanto padece, olha-o e ama-o. Meu Deus e meu Pai,
olho para vosso Filho, e vos agradeço, e o amo, e espero amá-lo sempre; mas,
rogo-vos, olhai-o também vós, e por amor desse Filho tende piedade de mim;
perdoai-me, dai-me a graça de não amar a outro senão a vós.
3. Mas
que respondem os judeus à vista daquele rei das dores? Levantam gritos e dizem:
Crucifige, crucifige eum. E, vendo
que, não obstante os insultos deles, Pilatos procurava libertá-lo,
aterrorizam-no dizendo-lhe: “Se o
libertas, não és amigo de César” (Jo 19, 12). Pilatos ainda resiste e
replica: “Hei de então crucificar o vosso
rei?” (Jo, 19, 15). E eles responderam: “Não
temos outro rei senão César” (Jo 9, 15). Ah! meu adorado Jesus, estes não
querem reconhecer-vos por seu rei, e vos dizem que não querem outro rei senão
César. Confesso-vos por meu rei e meu Deus, e protesto não querer outro rei
para o meu coração senão vós, meu amor e meu único bem. Miserável eu! Por um
tempo também vos recusei por meu rei, e neguei-me a vos servir; mas agora quero
que só vós domineis a minha vontade. Fazei que ela obedeça a tudo quanto lhe
ordenardes. Ó vontade de Deus, sois o meu amor. Ó Maria, rogai por mim, as
vossas preces não encontram repulsa.
OITAVA
MEDITAÇÃO
No
sábado da Paixão
Jesus
é condenado por Pilatos
1.
Pilatos, depois de haver tantas vezes declarado a inocência de Jesus, mais uma
vez a proclama, protestando ser ele inocente do sangue daquele justo (Mt 27,
24), e, contudo, pronunciou a sentença e o condenou à morte. Oh! injustiça
nunca vista no mundo! Ao mesmo tempo que o juiz declara inocente o acusado, ele
o condena. Ah! meu Jesus, vós não mereceis a morte, mas eu a mereço. Visto,
porém, que quereis satisfazer por mim, não é Pilatos, mas é o vosso próprio Pai
que vos condena a pagar a pena a mim devida. Eu vos amo, ó Padre eterno, que
condenais vosso Filho inocente para livrar-me a mim que sou réu. Eu vos amo, ó
Filho eterno, que aceitais a morte devida a um pecador.
2.
Pilatos, tendo condenado a Jesus, o entrega às mãos dos judeus, para que façam
com ele o que desejavam: “Entregou Jesus
ao arbítrio deles” (Lc 23, 25). É de fato o que acontece: quando se condena
um inocente, não se limita a pena, mas é ele abandonado às mãos dos inimigos,
para que o façam padecer e morrer como lhes aprouver. Pobres judeus, vós então
pedistes o castigo, dizendo: “Seu sangue
caia sobre nós e nossos filhos” (Mt 27, 25). E o castigo já veio!
Desgraçados, sofreis e haveis de sofrer até ao fim do mundo o castigo desse
sangue inocente. Ó meu Jesus, tende piedade de mim, que com minhas culpas
também motivei a vossa morte. Não quero ficar obstinado como os judeus, quero
chorar os maus tratos que vos dei e amar-vos sempre, sempre, sempre.
3.
Eis que se lê diante do Senhor a injusta sentença, condenando-o à morte da
cruz. Ele a ouve, e, inteiramente submisso à vontade do Pai, obediente a aceita
com toda a humildade: “Humilhou-se a si
mesmo, fazendo-se obediente até à morte e morte de cruz” (Fl 2, 8). Pilatos
na Terra diz: Morra Jesus! E o eterno Pai no Céu diz também: Morra o meu Filho.
E o Filho responde por sua vez: Eis-me aqui; eu obedeço e aceito a morte e a
morte da cruz. Meu amado Redentor, vós aceitais a morte que me é devida. Seja
bendita a vossa misericórdia para sempre: eu vos agradeço sumamente. Mas visto
que vós, inocente, aceitais a morte da cruz por mim, eu, pecador, aceito a
morte que me destinardes com todos os sofrimentos que a acompanharem e desde já
a uno à vossa morte e a ofereço a vosso eterno Pai. Vós morrestes por meu amor
e eu quero morrer por amor de vós. Pelos merecimentos de vossa santa morte,
fazei-me morrer na vossa graça e abrasado no vosso santo amor. Maria, minha
esperança, recordai-vos de mim.
NONA MEDITAÇÃO
No Domingo de
Ramos
Jesus leva a
cruz ao Calvário
1.
Publicada a sentença contra nosso Salvador, apoderam-se imediatamente dele com
fúria. Arrancam-lhe novamente aquele trapo de púrpura e o revestem com suas
vestes, para ser crucificado sobre o Calvário, lugar destinado para a morte dos
malfeitores. “Despiram lhe a clâmide e o
revestiram com suas vestes e o conduziram para ser crucificado” (Mt 27,
31). Arranjam duas rudes traves, fazem com elas às pressas uma cruz e
obrigam-no a carregá-la sobre os ombros até ao lugar de seu suplício. Que
barbaridade impor nos ombros do réu o patíbulo sobre o qual deve morrer. Mas
assim deve ser, ó meu Jesus, pois que vós tomastes sobre vós todos os meus
pecados.
2.
Jesus não recusa a cruz, abraça-a até com amor, sendo ela o altar destinado
para a consumação do sacrifício de sua vida pela salvação dos homens. “E levando sua cruz às costas, saiu para
aquele lugar que se chama Calvário” (Jo 19, 17). Os condenados saem da casa
de Pilatos e entre eles se acha também nosso divino Salvador. Ó espetáculo que
causou admiração ao Céu e à Terra: ver o Filho de Deus que segue para morrer
por esses mesmos homens que a ela o condenam. Eis realizada a profecia: “E eu sou como um cordeiro que é levado para
ser sacrificado” (Lm 11, 19). Jesus oferecia um aspecto tão lastimoso, que
as mulheres judias, ao vê-lo, não puderam deixar de chorar: “E o choravam e lamentavam” (Lc 23, 27).
Meu caro Redentor, pelos merecimentos dessa via dolorosa, dai-me a força de
levar com paciência a minha cruz. Eu aceito todas as dores e desprezos que me
destinais a sofrer; vós os tornastes amáveis e doces, abraçando-os por vosso
amor. Dai-me força de suportá-los com paciência.
3.
Contempla, minha alma, o que se passa com teu Salvador; vê como de suas chagas
ainda frescas escorre o sangue, como está coroado de espinhos e carregado com a
cruz. A cada movimento renovam-se as dores de todas as suas chagas. A cruz
começa a atormentá-lo já antes do tempo, pisando seus ombros chagados e
martelando-lhes os espinhos da coroa. Ó Deus, quantas dores a cada passo.
Consideremos também os sentimentos de amor com que Jesus vai subindo o
Calvário, onde o espera a morte. Ó meu Jesus, vós ides morrer por nós. Eu vos
voltei as costas no passado e quereria morrer de dor: mas no futuro não sou
capaz de abandonar-vos mais, meu Redentor, meu Deus, meu amor, meu tudo. Ó
Maria, minha Mãe, alcançai-me a graça de levar a minha cruz com toda a paz.
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| Crucifixão – Giuliano Amadei (1492) - Missal de Inocêncio VIII. The J. Paul Getty Museum, Los Angeles, Califórnia. |
DÉCIMA
MEDITAÇÃO
Na
Segunda-Feira Santa
Jesus
é pregado na cruz
1.
Apenas chegou o Redentor ao Calvário, triturado de dores e fatigado,
arrancam-lhe as vestes já pegadas às suas carnes dilaceradas e arremessam-no
sobre a cruz. Jesus estende seus sagrados braços e oferece ao mesmo tempo ao
eterno Pai o sacrifício de sua vida, rogando-lhe que o aceite pela salvação dos
homens. Os carrascos tomam então com fúria os cravos e os martelos e,
atravessando-lhe os pés e as mãos, pregam-no na cruz. Ó mãos sagradas, que só
com o vosso contato curastes tantos enfermos, por que vos pregam nessa cruz? Ó
pés santos, que tanto vos cansastes para nos buscar a nós, ovelhas desgarradas,
por que vos atravessam com tanta crueldade? Quando se fere um nervo do corpo
humano, é tão aguda a dor, que ocasiona espasmos e delíquios. Ora, quão grande
terá sido a dor de Jesus, quando lhe foram atravessados os pés e as mãos,
cheios de nervos e músculos, pelos duros cravos! Ó meu doce Salvador, tanto vos
custou o desejo de ver-me salvo e de conquistar o meu amor e eu, ingrato,
tantas vezes desprezei o vosso amor por um nada; agora, porém, o estimo acima
de todos os bens.
2.
Levantam a cruz com o crucificado e fazem-na cair com violência no buraco feito
no rochedo. Esse buraco é em seguida entupido com pedras e madeira e Jesus fica
pendente na cruz, para aí consumar sua vida. Estando Jesus já agonizando
naquele leito de dores e achando-se tão abandonado e triste, procura quem o
console, mas não encontra. Ao menos terão compaixão de vós, ó meu Senhor, os
homens que vos veem morrer? Pelo contrário; vejo que uns o injuriam, outros
zombam dele; estes blasfemam, aqueles o escarnecem, dizendo: “Desça da cruz, se é o Filho de Deus. Salvou
os outros e agora não pode salvar-se a si mesmo” (Mt 27, 40). Ah! bárbaros,
ele já está expirando, como é que assim gritais; ao menos não o atormenteis com
as vossas zombarias.
3.
Vê quanto padece naquele patíbulo o teu Redentor. Cada membro sofre o seu
tormento e um não pode aliviar o outro. A cada momento ele experimenta penas
mortais. Pode-se dizer que durante aquelas três horas que Jesus agonizou na
cruz, ele sofreu tantas mortes quantos foram os momentos que aí passou. Não
encontra na cruz o mínimo alívio ou repouso. Se se apoia nas mãos ou nos pés,
aumenta a dor, já que seu corpo sacrossanto está pendente dessas mesmas chagas.
Corre, minha alma, e chega-te enternecida a essa cruz, beija esse altar sobre o
qual morre como vítima de amor por ti o teu Senhor. Coloca-te debaixo de seus
pés e deixa que caia sobre ti aquele sangue divino. Sim, meu caro Jesus, que
esse sangue me lave de todos os meus pecados e me inflame todo em amor para
convosco, meu Deus, que quisestes morrer por meu amor. Ó Mãe das dores, que
estais ao pé da cruz, rogai a Jesus por mim.
DÉCIMA
PRIMEIRA MEDITAÇÃO
Na
Terça-Feira Santa
Jesus
na cruz
1.
Jesus na cruz. Eis a prova do amor de um Deus. Eis a última aparição que o
Verbo encarnado fez sobre a Terra; aparição de dor, mais ainda de amor. S.
Francisco de Paula, contemplando um dia o amor divino na pessoa de Jesus crucificado
e entrando em êxtase, exclamou três vezes: “Ó
Deus caridade! Ó Deus caridade! Ó Deus caridade!” Querendo com isso
significar que não podemos compreender quão grande foi o amor de Deus para
conosco, para morrer por nosso amor.
2. Ó
meu querido Jesus, se vos contemplo exteriormente nessa cruz, nada mais vejo
senão chagas e sangue. Se, porém, observo o vosso coração, encontro-o todo
aflito e triste. Leio nessa cruz que vós sois rei, mas qual a insígnia de rei
que ainda tendes? Eu não vejo outro sólio real senão esse madeiro de opróbrio;
não vejo outra púrpura, senão a vossa carne dilacerada e ensanguentada; outra
coroa, senão esse feixe de espinhos que vos atormenta. Ah! tudo isso, porém,
vos consagra como rei de amor, sim, porque essa cruz, esses cravos, essa coroa
e essas chagas são insígnias de amor.
3.
Jesus do alto da cruz não nos pede tanto compaixão como nossos afetos, e se
procura compaixão, busca-a unicamente para que ela nos mova a amá-lo. Ele, por
ser a bondade infinita, já merece todo o nosso amor, mas, posto na cruz,
procura que o amemos ao menos por compaixão. Ah! meu Jesus, quem não vos há de
amar, se vos reconhece pelo Deus que sois e vos contempla na cruz? Oh! que
setas de fogo vós disparais sobre as almas desse trono de amor. Oh! quantos
corações atraístes a vós dessa mesma cruz. Ó chagas de meu Jesus, ó belas
fornalhas de amor, recebei-me no meio de vós, para que me abrase, não já no
fogo do inferno por mim merecido, mas nas santas chamas de amor por aquele Deus
que consumido de tormentos quis morrer por mim. Meu caro Redentor, recebei um
pecador, que, arrependido de vos ter ofendido, vos deseja amar sinceramente. Eu
vos amo, bondade infinita; eu vos amo, amor infinito. Ouvi-me, ó meu Jesus, eu
vos amo, eu vos amo, eu vos amo. Ó Maria, ó Mãe do belo amor, impetrai-me mais
amor para que me consuma de amor por esse Deus que morreu consumido de amor por
mim.
DÉCIMA
SEGUNDA MEDITAÇÃO
Na
Quarta-Feira Santa
Palavras
ditas por Jesus na cruz
1.
Enquanto Jesus é ultrajado na cruz por aquela gente bárbara, ele suplica por
eles e diz: “Meu Pai, perdoai-lhes,
porque não sabem o que fazem” (Lc 23, 34). Ó Padre eterno, ouvi vosso Filho
bem amado, que, morrendo, vos roga que me perdoeis também a mim, que tantas
vezes vos ofendi. Depois Jesus, voltando-se para o bom ladrão que lhe pede
perdão, diz: “Hoje estarás comigo no
paraíso” (Lc 23, 46). Oh! como é verdade o que diz o Senhor por Ezequiel
que, quando um pecador se arrepende de suas culpas, ele se esquece, por assim
dizer, de todas as ofensas que lhe foram feitas: “Se, porém, o ímpio fizer penitência... não me recordarei mais de todas
as suas iniquidades” (Ez 18, 21). Oh! se eu nunca vos tivesse ofendido, ó
meu Jesus; mas, visto que o mal está feito, esquecei-vos, eu vos suplico, dos
desgostos que vos dei e, por aquela morte tão cruel que sofrestes por mim,
levai-me ao vosso reino depois de minha morte e, enquanto eu vivo, fazei que o
vosso amor reine sempre em minha alma.
2.
Jesus agonizando na cruz, com seus ombros dilacerados e sua alma sumamente
aflita, procura quem o console. Olha para Maria; mas essa mãe dolorosa mais o
aflige com suas dores. Busca conforto junto de seu Pai; mas este, vendo-o
coberto com todos os pecados dos homens, também o abandona. Foi então que Jesus
deu um grande brado: “Meu Deus, meu Deus,
por que me abandonais?” (Mt 27, 46). Este abandono do Padre eterno fez com que
a morte de Jesus fosse a mais amarga que jamais sofreu algum penitente ou algum
mártir, pois foi uma morte toda desolada e privada de qualquer alívio. Ó meu
Jesus, como pude viver tanto tempo esquecido de vós? Agradeço-vos o não vos
terdes esquecido de mim. Eu vos suplico que me façais recordar sempre da morte
cruel que suportastes por meu amor, para que eu nunca mais me esqueça do amor
que tendes testemunhado.
3.
Afinal, sabendo Jesus que seu sacrifício já estava consumado, disse: “Tenho sede” (Jo 12, 28). E aqueles
carrascos lhe puseram nos lábios uma esponja toda embebida no vinagre e fel.
Mas, Senhor, vós não vos queixais de tantas dores que vos roubam a vida e agora
vos queixais de sede? Ah, eu vos compreendo, meu Jesus, a vossa sede é sede de
amor; porque vós nos amais, desejais ser amado por nós. Ajudai-me, pois, a
expelir do meu coração todos os afetos que não são para vós: fazei que eu não
ame outra coisa senão a vós e nada mais deseje senão cumprir a vossa vontade. Ó
vontade de Deus, vós sois o meu amor. Ó Maria, minha Mãe, impetrai-me a graça
de não querer outra coisa senão o que Deus quer.
DÉCIMA
TERCEIRA MEDITAÇÃO
Na
Quinta-Feira Santa
Jesus
morre na cruz
1.
Eis que o Salvador está prestes a morrer. Contempla, minha alma, aqueles belos
olhos que se obscurecem, aquela face já pálida, aquele coração que palpita
lentamente, aquele sagrado corpo que já se entrega à morte. Tendo Jesus
experimentado o vinagre disse: “Tudo está
consumado” (Jo 19, 30). Põe ainda uma vez diante dos olhos todos os
padecimentos sofridos durante sua vida, pobreza, desprezos, dores e, oferecendo
então tudo a seu eterno Pai, disse: Tudo está consumado. Meu Pai, eis já
completa a redenção do mundo com o sacrifício de minha vida. E voltando-se para
nós, como para que respondamos, repete: Tudo está consumado, como se dissesse:
Ó homens, amai-me, porque eu fiz tudo e nada mais tenho a fazer para conquistar
o vosso amor.
2.
Chega afinal a hora, e Jesus falece. Vinde, ó anjos do Céu, vinde assistir à
morte de vosso rei. E vós, Mãe dolorosa, chegai-vos mais à cruz e contemplai
atentamente vosso Filho, pois está prestes a expirar. E ele, depois de ter
recomendado seu espírito ao Pai, invoca a morte, dando-lhe a permissão de
tirar-lhe a vida. Vem, ó morte, lhe diz, depressa exerce o teu ofício, mata-me
e salva as minhas ovelhas. A terra treme, abrem-se os sepulcros, rasga-se o véu
do templo. Pela violência da dor, eis que ao Senhor moribundo já faltam as
forças, falta o calor, fica inerte seu corpo, abaixa a cabeça, abre a boca e
morre. “E tendo inclinado a cabeça,
entregou o seu espírito” (Jo 19, 30). O povo o vê expirar e, notando que
não faz mais movimento, diz: Está morto, está morto. E a estes se alia também a
voz de Maria, que diz por sua vez: Ah! meu Filho, já estás morto.
3.
Está morto! Quem, ó Deus, está morto? Está morto o autor da vida, o Unigênito
de Deus, o Senhor do mundo. Ó morte, tu foste o assombro do Céu e da Terra. Ó
amor infinito! Um Deus sacrificar sua vida e seu sangue por quem? Por suas
criaturas ingratas, morrendo num mar de dores e de desprezos para pagar as suas
culpas! Ó bondade infinita! Ó amor infinito! Ó meu Jesus, vós morrestes, pois,
pelo amor que me consagrastes. Não permitais, portanto, que eu viva um instante
sequer sem vos amar. Eu vos amo, meu sumo bem, eu vos amo, meu Jesus, morto por
mim. Ó Mãe das dores, Maria, ajudai a um servo vosso que deseja amar Jesus.
DÉCIMA
QUARTA MEDITAÇÃO
Na
Sexta-Feira Santa
Jesus
morto pendente da cruz
1.
Minha alma, levanta os olhos e contempla aquele crucificado. Contempla o
Cordeiro divino já sacrificado sobre o altar da dor. Reflete que ele é o Filho
dileto do eterno Pai e que morreu pelo amor que te consagrou. Vê como tem os
braços estendidos para abraçar-te, a cabeça inclinada para dar-te o ósculo da
paz, o lado aberto para receber-te no seu coração. Que dizes? Merece ou não ser
amado um Deus tão amoroso? Ouve o que ele te diz daquela cruz: Vê, filho, se
existe no mundo quem tenha te amado mais do que eu. Não, meu Deus, não há no
mundo quem tenha te amado mais do que eu. Não, meu Deus, não há no mundo quem
me tenha amado mais do que vós. Mas que poderei dar em retorno a um Deus que
quis morrer por mim? Que amor de uma criatura poderá jamais compensar o amor de
seu criador morto para conquistar o seu amor?
2.
Ó Deus, se o mais vil dos homens tivesse sofrido por mim o que sofreu Jesus
Cristo, poderia deixar de amá-lo? Se eu visse um homem dilacerado pelos
açoites, pregado numa cruz para salvar-me a vida, poderia lembrar-me disso sem
me abrasar em amor? E se me fosse apresentado o seu retrato expirando na cruz
poderia contemplá-lo com indiferentismo, pensando: Este homem morreu assim
atormentado por meu amor e, se não me houvesse amado tanto, não teria morrido
dessa maneira. Ah! meu Redentor, ó amor de minha alma, como poderei esquecer-me
de vós? Como poderei pensar que os meus pecados vos reduziram a um tal estado e
não chorar sempre as injúrias feitas à vossa bondade? Como poderei vos ver
morto de dor sobre essa cruz por amor a mim e não vos amar com todas as minhas
forças?
3.
Meu caro Redentor, bem reconheço nessas vossas chagas e membros dilacerados
outras tantas provas do terno amor que me consagrais. Já, pois, que para me
perdoar não perdoastes a vós, olhai-me com aquele mesmo amor com que me
olhastes uma vez na cruz, na qual morríeis por meu amor; iluminai-me e atraí
para vós todo o meu coração, para que de hoje em diante eu nada mais ame fora
de vós. Não permitais que eu me esqueça de vossa morte. Vós prometestes que,
levantado na cruz, haveríeis de atrair os nossos corações. Eis aqui o meu
coração, que, enternecido com a vossa morte e enamorado de vós, não quer
resistir mais ao vosso chamamento: ah! atraí-o todo e tornai-o todo vosso! Vós
morrestes por mim e eu desejo morrer por vós e, continuando a viver, só para
vós quero viver. Ó dores de Jesus, ó ignomínias de Jesus, ó morte de Jesus, ó
amor de Jesus, fixai-vos no meu coração e aí fique sempre a vossa memória a
ferir-me continuamente e a inflamar-me em amor. Eu vos amo, bondade infinita,
eu vos amo, amor infinito, vós sois e sereis sempre o meu único amor. Ó Maria,
Mãe do amor, obtende-me o santo amor.
![]() |
| A Virgem aos pés da cruz – Paul Delaroche (1797-1856). Coleção Particular. |
DÉCIMA
QUINTA MEDITAÇÃO
No
Sábado Santo
Maria
assiste à morte de Jesus na cruz
1. “Estava,
porém, junto à cruz de Jesus sua Mãe” (Jo 19, 25).
Consideremos nesta rainha dos mártires uma espécie de martírio mais cruel que
todo outro martírio, uma mãe vendo morrer um filho inocente, justiçado num
patíbulo infame: “Estava em pé”. Desde a hora em que Jesus foi preso no horto,
os discípulos o abandonaram; não, porém, sua Mãe: ela o assiste até vê-lo
expirar diante de seus olhos. “Estava
junto dele”. As mães fogem quando veem seus filhos padecendo e não os podem
socorrer: estariam prontas a sofrer as dores em lugar dos filhos, mas quando os
veem padecer sem poder auxiliá-los, não suportam tal pena e por isso fogem e
vão para longe. Maria, não; ela vê o Filho no meio dos tormentos, vê que as
dores lhe roubam a vida, mas não foge, nem se afasta, antes se aproxima da cruz
na qual o Filho está morrendo. Ó Mãe das dores, não me desdenheis e permiti que
vos faça companhia na morte do vosso e do meu Jesus.
2.
“Estava junto à cruz”. A cruz é, pois, o leito em que Jesus deixa de viver:
leito de dores, em que a aflita Mãe vê Jesus todo ferido pelos açoites e pelos
espinhos. Maria observa que seu pobre Filho, pendente daqueles três cravos de
ferro, não encontra repouso nem alívio: desejaria procurar-lhe algum alívio;
desejaria, já que ele tem de morrer, que ao menos expirasse em seus braços;
nada disso, porém, lhe é permitido. Ah! cruz, diz, restitui-me o meu Filho: és
o patíbulo dos malfeitores; meu Filho, porém, é inocente. Não vos aflijais, ó
Mãe: é vontade do eterno Pai que a cruz não vos restitua Jesus senão depois de
morto. Ó rainha das dores, alcançai-me a dor de meus pecados.
3.
“Estava junto da cruz sua Mãe”.
Considera, minha alma, como ao pé da cruz Maria está olhando para o Filho! E
que Filho, meu Deus! Filho que era ao mesmo tempo seu Filho e seu Deus; Filho
que desde a eternidade tinha escolhido para sua Mãe, e a havia preferido no seu
amor a todos os homens e a todos os anjos; Filho tão belo, tão santo, tão
amável como nenhum outro; Filho, que lhe fora sempre obediente; Filho, que era seu
único amor, pois que era Filho de Deus. E esta Mãe teve de ver morrer de dores,
diante de seus olhos, um tal Filho! Ó Maria, ó Mãe, a mais aflita entre todas
as mães, compadeço-me de vosso coração, especialmente quando vistes vosso Jesus
inclinar a cabeça, abrir a boca e expirar. Por amor deste vosso Filho, morto
para minha salvação, recomendai-lhe a minha alma. E vós, meu Jesus, pelos
merecimentos das dores de Maria, tende piedade de mim e concedei-me a graça de
morrer por vós, como morrestes por mim. Com S. Francisco de Assis vos direi:
Morra eu, Senhor, por amor de vós, que por amor de meu amor vos dignastes
morrer.
____________
*Santo
Afonso Maria de Ligório, A Paixão de
Nosso Senhor Jesus Cristo, Edições Paulinas, São Paulo, 1950, pp. 239-275.

















