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12 de agosto de 2024

A arte da conversa está voltando a ser cultivada



Segundo a revista econômica “The Economist”, as distrações da tecnologia digital provocam forte queda na habilidade de conduzir os negócios. 

As gerações formadas num ambiente de mensagens instantâneas, simplificadas e mal redigidas acabam caindo na confusão. 

Livrarias de Nova York hoje têm prateleiras de manuais sobre como falar melhor, destinados a pessoas que desejam ser mais convincentes na hora de fazer amigos e influenciar, ainda que seja com interesse lucrativo. 

“The Economist” mostra que encontros sociais de conversa ou debates intelectuais profundos, propiciam grandes negócios.

5 de junho de 2017

Quem são as crianças luminescentes?



James Donlon (*) 

Um leitor poderia franzir estupefato o semblante ao ler o título desse livro e perguntar: “Que espécie de criança ‘luminescente’ é essa?”. Não se assuste, pois quem escreve este pequeno artigo fez-se a mesma pergunta quando um amigo lhe recomendou o livro Crianças luminescentes: como a tela vicia e sequestra nossas crianças — e como romper o transe [capa abaixo]. Após a leitura das primeiras páginas, o leitor percebe que o termo "menino luminescente" é habilidoso, embora inquietante.

O Dr. Nicolas Kardaras cunhou o termo para se referir à cena que vemos por toda parte: crianças fascinadas pela luminescência de pequenas telas azuladas. Seus dedinhos agarram aparelhos luminescentes que monopolizam sua atenção. O problema, onde está? 

O livro trata do efeito causado nas crianças pelo uso descontrolado do smartphone. O desenvolvimento das funções cerebrais, o convívio social e da própria personalidade são afetados. Exemplos e provas mostram que a tecnologia visual moderna não é uma panaceia. Videogames em excesso têm efeito destrutivo na mente e causam dependência à semelhança das drogas, dificultam a atenção e a concentração da mente. A moda escolar crescente de adotar essa tecnologia nas aulas também contribui para esse efeito nocivo. 

O Dr. Kardaras aduz exemplos pessoais, tirados de sua vida profissional, ao fazer tratamento de viciados em drogas. O problema das tecnologias visuais modernas é inteiramente semelhante. Certa vez o Dr. Kardaras teve de convencer um menino de que ele não era um dos personagens de seus videogames preferidos. Esse paciente perdia o sono, caía em estado de psicose tecnológica, de tal modo estava viciado. Seu caso foi decisivo para levar o Dr. Kardaras a enfrentar o problema com maior afinco. 


Ele não apresenta apenas casos diagnosticados, mas também tratamentos diversos para superar o vício tecnológico, com soluções que vão desde a "abstenção" até o uso moderado das tecnologias modernas. O Dr. Kardaras utiliza bom senso e lógica para resolver os problemas. Seus métodos são confirmados: ele trabalha num centro de recuperação de viciados em drogas, em Nova York. Muitos de seus métodos para curar o vício tecnológico são os mesmos utilizados para recuperar drogados. Suas soluções são sérias e efetivas.  

O leitor que conhece o problema, hoje tão sério e crescente, do vício tecnológico, deveria ler Crianças luminescentes. O assunto abrirá seus olhos. Esse livro é mais importante ainda para os pais e professores, que verão mais claramente o perigo, e também como utilizar corretamente essas tecnologias modernas no lar e na escola.

(*) James Donlon is a graduate of the St. Louis de Montfort Academy and a full-time volunteer for the American Society for the Defense of Tradition, Family, and Property (TFP).
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Senhores pais: para se evitar tão grave problema mental em seus pequeninos (o mencionado "vício tecnológico" -- uma espécie de droga cibernética que poderá tornar seus filhos dependentes), este Blog da Família aconselha acostumá-los desde a mais tenra infância ao gosto pela leitura e pela conversa em família. Creio que a foto abaixo bem expressa nosso conselho. 

O bebê parece encantadíssimo com o que sua mãe fala e mostra nos desenhos do livro infantil. Ela poderá repetir a mesma historinha 100 vezes e ele continuará maravilhado com a voz de sua mãe, e pouco-a-pouco vai compreendendo, formando sua mentalidade e desenvolvendo sua inteligência. 

Imaginem o contrário: a mãe, em vez de estar contando historinhas para seu filhinho, estivesse conferindo seu smartphone, postando coisas no seu facebook e, para que o pequenino não a incomodasse, colocasse em suas mãozinhas um tablet... As consequências em sua formação espiritual, psicológica e intelectual poderiam ser bem desastrosas...

9 de fevereiro de 2017

Perversão infantil: chocante banalidade!


Paulo Henrique Américo 

Chegamos a tal ponto da decadência moral, que afirmações as mais graves parecem banais. Convido o leitor a comprovar essa minha impressão fazendo um teste com a seguinte frase: a inocência das crianças está sendo destruída.

De um lado, tal afirmação apresenta-se chocante. Basta lembrar as palavras do Divino Salvador: “Melhor lhe seria que se lhe atasse em volta do pescoço uma pedra de moinho e que fosse lançado ao mar, do que escandalizar a um só destes pequeninos” (S. Lucas 17,2). 

Por outro lado, mencionar a destruição da inocência infantil já nos soa normal, banal! Isto porque ela se tornou cada vez mais recorrente. Algo como uma canção macabra cantada em todas as esquinas. Já nos acostumamos com sua trágica melodia e a repetimos quase sem atenção, sem levar em conta a sua gravidade. 

De fato, vivemos num triste século. Mesmo os católicos, aqueles que deveriam reagir contra a indiferença, vão caindo inexoravelmente nas suas garras. Não se podem estranhar as lágrimas de Maria Santíssima, Mãe de Deus.

Nossas crianças são aliciadas e atacadas de todos os lados pelo vendaval da imoralidade. A televisão era sua grande promotora até há pouco. Mas também ela acabou por tomar aspecto um tanto antiquado! A internet surgiu como a máquina mais eficiente da perversão infantil. Com alguns cliques no mouse — ou alguns toques no smartphone — qualquer criança pode acessar as mais cruas cenas de pornografia online. 

Mas o tufão da imoralidade possui outras frentes de ataque. E aqui vem mais um teste de banalização do que antes se afigurava chocante. Curiosamente, o tema “educação sexual para crianças” não causa mais sobressaltos como algumas décadas atrás. Hoje, algo mais malicioso entrou em todos os ambientes: a Ideologia de Gênero. 

Agora, as crianças não são apenas submetidas ao aprendizado do sexo desde a mais tenra idade, como também são induzidas na escolha de outra orientação e identidade sexual.

Cena da série The Mick, na qual um menino
aparece vestido de menina
Um exemplo para ilustrar essa alarmante realidade. O “Life Site News” publicou,(1) no início de janeiro último, reportagem sobre a nova série da “TV Fox”, nos Estados Unidos, intitulada The Mick [foto]. Além da promoção do aborto, da linguagem vulgar e do conteúdo sexual explícito, a série impulsiona a Ideologia de Gênero, visando sobretudo as crianças. Um dos personagens — menino de apenas sete anos — é apresentado trajando um vestido para menina. Na cena, o menino faz comentários sobre o vestido e sobre as partes femininas de seu corpo.

Chocante, dizemos! E o leitor concordará. Mas quanto tempo transcorrerá até que tais insinuações e atitudes ressoem também como banais ou normais aos nossos ouvidos?
Imagem de Nossa Senhora do Bom Sucesso venerada no Convento
das Freiras Concepcionistas de Quito (Equador).
A Rainha dos Céus tem sempre diante de si a gravidade da destruição da inocência infantil. Ela já havia previsto a atual onda de degradação das crianças quando de suas aparições à Madre Mariana de Jesus Torres [pintura abaixo], em Quito (Equador), no século XVII. As palavras Nossa Senhora do Bom Sucesso [foto acima]— profecias a respeito dos nossos tempos — são impressionantes pela sua atualidade. Eis alguns trechos aplicáveis ao tema do qual tratamos: 

Madre Mariana de Jesus Torres
“Quase não se encontrará inocência nas crianças, nem pudor nas mulheres, e, nessa suprema necessidade da Igreja, calar-se-á aquele a quem competia a tempo falar. 
“Extravasarão as paixões e haverá total corrupção dos costumes por quase reinar satanás..., o qual visará principalmente à infância a fim de manter com isto a corrupção geral. Ai dos meninos desse tempo! Dificilmente receberão o Sacramento do Batismo e o da Confirmação. 
“Possuirá [o mal] sutileza para introduzir-se nos ambientes domésticos, que perderão as crianças. Nesse tempo infausto, quase não se encontrará a inocência infantil. Desta forma perder-se-ão as vocações para o sacerdócio e será uma verdadeira calamidade.” 

Diante da avalanche contra a inocência infantil não devemos permanecer de braços cruzados. É por isso que a TFP norte-americana proveu abaixo-assinado(2) [imagem acima] no mês passado com o objetivo de coibir a exibição da citada série da “TV Fox”. 

Não fiquemos indiferentes na consideração da gravidade da decadência atual. Oração, sacrifício e emenda de vida foi o que Nossa Senhora nos pediu em Fátima. Assim, seremos daqueles que de algum modo enxugam suas tão dolorosas lágrimas.

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Notas: 
(*) Fonte: Revista Catolicismo, 794, Fevereiro/2017. Para se fazer uma assinatura dessa revista envie um e-mail para: catolicismo@terra.com.br 
1. http://www.lifesitenews.com/news/new-fox-comedy-breaks-moral-compass-includes-children-in-sexual-gender-conf 
2. http://www.tfp.org/act/petition/tell-fox-stop-promoting-transgenderism-cancel-mick-now/

16 de agosto de 2016

ALERTA AOS PAIS: Seus filhos transformados em zumbis atrás de Pokémon?

No Brasil, o vício de “caçar” Pokémon levou milhões de pessoas às ruas e praças atrás dos “monstrinhos” logo nos primeiros dias do lançamento desse jogo para celulares. Na foto, o Jardim Botânico de Jundiaí foi “invadido” por 5 mil visitantes num só dia, causando muitos prejuízos, como gramados e plantas destruídos. 

William Gossett 
(Traduzido do blog “Return to Order”, 
por José Aloisio Aranha Schelini) 

Já nas primeiras semanas de seu lançamento, Pokémon Go, o novo jogo para smartphones, se tornou a última moda em todo o mundo. Parece ser um jogo inocente, grande meio de comunicação social, e um jeitinho fantástico de tirar todo mundo do sofá. Porém, chega-se a uma conclusão diferente quando se analisa o efeito negativo deste jogo sobre as pessoas e a sociedade. 


Trata-se de um jogo para celular, com realidade aumentada baseada em localização. Ele usa a câmera do smartphone para projetar no jogo a imagem de um Pokémon, criatura virtual. O objetivo é capturar o maior número dessas criaturas quanto possível e combater os monstros Pokémon de outras pessoas. O campo de jogo é a própria localização dos jogadores e seus arredores. 

Que mal poderia fazer as pessoas viajarem pela cidade grudados a um celular, procurando criaturas fictícias? Problemas começaram a surgir já nos primeiros dias do lançamento.

Muitas pessoas têm relatado que torceram seus tornozelos, arrebentaram canelas, cortaram as mãos e sofreram outras lesões por estarem mais preocupados em achar os Pokémons do que olhar onde pisavam.(1) 

Mas o problema não fica só em tornozelos torcidos e pernas machucadas: criminosos passaram a usar o jogo para atrair e roubar novas vítimas. No condado de Saint Louis, no Missouri (Estados Unidos) por exemplo, três criminosos adolescentes enviaram alerta aos jogadores da área indicando a possível presença um monstro para caçar. Em vez de achar monstros, os jogadores encontraram assaltantes armados...(2)

Todos esses casos são motivo de preocupação. No entanto, o fenômeno está produzindo problemas ainda mais graves.

O Pokémon Go está causando distúrbios ao mobilizar multidões de jogadores que se lançam por aí buscando os assim chamados raros monstros virtuais. Casos já foram registrados em DeKalb, Illinois, e em Nova York.

Em Illinois, multidões se reuniram à uma hora da manhã procurando freneticamente o monstro “Snorlax”.(3) No Central Park, em Nova York, centenas de jogadores foram vistos em debandada pelas ruas grudados aos seus aparelhos procurando outro Pokémon raro. Isso causou engarrafamentos porque as pessoas deixavam seus carros no meio da rua e seguiam a multidão com seus celulares.[4] Tudo por um monstro virtual!

O fato de que tal jogo esteja ganhando tanta atenção no mundo todo é desconcertante. Acontecimentos de importância global não produzem nem de longe a emoção despertada por este joguinho. O que dizer dos vários tiroteios contra policiais em Dallas e em Baton Rouge? E sobre o recente ataque terrorista do “Estado Islâmico” em Nice (França), ainda os numerosos e constantes ataques em solo americano? Por que é que este jogo está absorvendo a atenção e as atividades de tantos jovens e velhos, mais do que estes eventos históricos e devastadores? Pokémon Go parece anestesiar as pessoas e impedi-las de pensar sobre a gravidade de tais acontecimentos. 

Poderia alguém imaginar centenas de pessoas correndo pelas ruas a todo momento para protestar contra os milhares de cristãos sendo mortos por sua fé? Ou ainda para defender e proteger inocentes nascituros contra o aborto?

Ao invés de um jogo inocente com pequenos monstros “engraçadinhos”, o Pokémon Go é um problema muito sério e profundo que afeta nossa sociedade atual. O jogo está levando a sociedade a uma espécie de tribalismo cibernético em que o jogo/smartphone é o xamã, e os jogadores são súditos voluntários e obcecados, prontos a obedecer qualquer palavra de ordem.

Referências: 
1.       Associated Pressartigo publicado pelo New York Post, “Playing Pokemon Go is becoming dangerous” athttp://nypost.com/2016/07/09/pokemon-go-is-afflicting-players-with-real-world-injuries/, acessado 18 de julho de 2016.
2.       Ryan W. Miller,USA Today, “Teens used Pokémon Go app to lure robbery victims, police say” athttp://www.usatoday.com/story/tech/2016/07/10/four-suspects-arrested-string-pokemon-go-related-armed-robberies/86922474/, acessado 18 de julho de 2016.
3.       Newsflare.com, “Pokemon Go – Snorlax hunt at 1 am”http://newsvideo.su/video/4707716, acessado 18 de julho de 2016.
4.       “Pokemon Go – Vaporeon stampede Central Park, NYC,” YouTube video, 0:41, posted by “Dennis450D,” July 15, 2016 athttps://www.youtube.com/watch?v=MLdWbwQJWI0.

2 de maio de 2015

RADICALIZANDO OS RADICALISMOS

Escrever à mão é mais benéfico para crianças, é necessário ao processo de aprender a ler e escrever

Jacinto Flecha

Se o prezado leitor teve a louvável iniciativa de desfrutar o que escrevo, provavelmente considera-me radical. Não me ofende nem um pouco. De acordo com a etimologia (radix = raiz, em latim), radical é quem tem convicções firmes, solidamente enraizadas em bom terreno. Só não é radical quem não tem raízes, portanto mantenho altaneiramente meus radicalismos, com olímpico desprezo pelos radicais que me acusam de radical: Odeio videogames; nunca vejo televisão; não batuco em tabletes; detesto jeans de qualquer tipo; abomino rock, punk, funk, rap e outros; fujo das modernidades decadentes deste nosso mundo encharcado de modernidades e decadências. Minhas convicções são firmes como o Corcovado. Especialmente quando o vejo como sustentáculo de Cristo Redentor. 

Talvez alguns acreditem que posições como essas levam ao isolamento. Pelo contrário, eu as assumi conscientemente, e posso afirmar que nunca me senti solitário, anti-social, marginalizado. Não espero nem desejo aplausos de decadentes, escravos da moda, títeres a serviço da difusão dos maus costumes. Se fogem de mim, também eu fujo deles. Bendito isolamento, se me põe longe de gente assim. 

Mas hoje eu tive um susto, deixando-me bastante decepcionado com os meus radicalismos. Não, não me julgue apressadamente, permaneço muito confortável nas minhas posições radicais, e mais seguro ainda. O meu susto foi em sentido contrário, isto é, encontrei gente mais radical do que eu. E até com um acréscimo muito valioso para os escravos da tecnologia: São cientistas (ohhh!), neurocientistas (nossa!!), usaram aparelhos de última geração (beleza!), ressonância magnética (que barato!!). 

Quais as conclusões desses luminares? As mesmas que venho desenvolvendo com base exclusivamente nas minhas experiências e observações pessoais. Ótimo que eles tenham chegado a essas conclusões, mas eu não mudaria uma vírgula das minhas, se divergissem do que afirmei. Veja algumas conclusões interessantes:
• Ninguém deve usar o computador antes dos vinte anos. Depois disso, só quando estritamente necessário para o trabalho.  
• Nunca se deve ver televisão, em nenhuma idade ou época da vida.  
• Os videogames prejudicam a capacidade de raciocínio e o controle mental das crianças. Já se conhecia este efeito, mas pesquisas recentes o estendem aos adultos que passam a usar videogames. E os cientistas concluem que não se deve usá-los nunca.  
• Escrever à mão é mais benéfico para crianças, é necessário ao processo de aprender a ler e escrever.
Esta última conclusão leva-me a uma crônica recente (Entre lousa e tablete), onde mostrei com palavras e exemplos simples que o aprendizado pelos métodos tradicionais – com lousa, quadro negro, papel, lápis, caneta – gera conhecimentos muito mais duráveis e efetivos. Apontei as deficiências de quem usa tablete, celular inteligente e outros brinquedinhos cheios de tecnologia. E suponho ter deixado claro que o grau cada vez maior de analfabetismo funcional deriva em grande parte disso.

Você já deve ter notado, caro leitor, que raramente incluo referências completas, transcrições de estudos científicos, dados estatísticos complexos. Sei que isso é necessário e indispensável no âmbito técnico-científico, mas estaria deslocado numa crônica que pretende ser leve, uma espécie de conversa com o leitor. De modo geral, vinculo a fatos do quotidiano minhas afirmações e conclusões, e um leitor atento pode entendê-las facilmente nos momentos de lazer, mesmo não sendo cientista. 

Vou abrir hoje uma exceção, incluindo algumas frases colhidas em reportagem sobre pesquisa científica de equipe altamente qualificada. Chegou-me às mãos pela gentileza de um leitor, impressionado com o que leu naquela crônica:


“Os dados do exame do cérebro sugerem que, ao escrever, prepara-se um sistema que facilita a leitura quando as crianças começam a passar por este processo. Quando as crianças aprendem a escrever as letras à mão, o cérebro parece ficar ligado e responder de forma diferente às letras, estabelecendo uma ligação entre o processo de aprender a escrever e o de aprender a ler. Desenvolver as habilidades motoras mais sofisticadas, necessárias para escrever à mão, pode ser benéfico em muitas outras áreas do desenvolvimento cognitivo. Pelo que concluiu a pesquisa, nada parece substituir o aprendizado com a escrita à mão”. Veja mais detalhes neste link: 
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2015/02/150212_gch_criancas_teclados_fn

Meu radicalismo pode parecer sem base, exagerado, mas veja que estou em boa companhia. Não falta nem a indiscutível ressonância magnética. Já que gastaram tanta ciência e tecnologia para chegar às mesmas conclusões deste cronista, não tenha receio em radicalizar como eles mandam. Não lhe parece lógica esta decisão? E não me sentirei ofendido se firmar sua decisão baseado nas conclusões deles.


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(Para receber novas crônicas, inscreva-se no blog: www.jacintoflecha.blog.br) 
Esta crônica semanal pode ser reproduzida e divulgada livremente

26 de setembro de 2011

INTERNET: “Em vez de ficarmos bem nutridos, estamos ficando obesos de informação”

A cara (muito cara...) Dona Internet tem nos oferecido coisas muito proveitosas e interessantes (mais informação, por ex.); entretanto, os malefícios que ela nos ocasiona também são enormes (menos reflexão, por ex.). Como afirmou a psicanalista Anna Verônica Mautner: “Ler e aprender sempre foi tido como algo bom, algo que deveríamos fazer cada vez mais. Não sabíamos que haveria um limite para isso. Está acontecendo com a informação o que já aconteceu com o hábito alimentar. Em vez de ficarmos bem nutridos, estamos ficando obesos de informação”. 


A fim de não ficarmos “obesos” — devido ao excesso de informação — há necessidade de um "regime", ou seja, de nos impor limites. Senão, poderemos ficar viciados em internet, o que poderá provocar em nós crises de ansiedade e até desordens neuróticas.


Mas, somando e subtraindo, os benefícios que a Web nos oferece são maiores que os malefícios? Especialistas no assunto afirmam que no final das contas os malefícios são maiores. Por exemplo, quanto à dependência à tecnologia digital e aos danos psíquicos e morais causados nos usuários (de qualquer idade), sobretudo nas crianças. 


Assim sendo, atenção senhores “internautas”! Atenção senhores pais e mães de família! Toda vigilância é pouca! Como auxílio para melhor entender o problema, recomendo a leitura do artigo abaixo — publicado na revista de cultura e atualidades Catolicismo deste mês — e tirar as devidas conclusões. A matéria é de especial importância para as famílias com crianças que começam a entrar no mundo cibernético e adolescentes já “narcotizados” pelo mundo virtual — mas superficial, como se poderá ver —, que vem provocando angustias, alterações no modo de pensar, ler e recordar e até mesmo prejudicando a saúde.
 Comprovação científica de males psíquicos produzidos pela Internet

Tomando boa parte do tempo e da atenção, inibindo o pensamento profundo e o recolhimento, a internet pode representar risco incomensurável para o equilíbrio psíquico de um número assustadoramente crescente de usuários
§     Daniel Félix de Sousa Martins

Catolicismo publicou, em abril de 2010, o artigo A Quarta Revolução e o Tribalismo Cibernético, no qual o pesquisador José Antonio Ureta descreve a mudança de mentalidade que os autores da revolução digital pretendem realizar em nível global, levando à tribalização do homem por meio de transformações psicológicas, sociais e religiosas. No presente artigo desejamos aprofundar a questão da cibernética sob outro prisma: os males psíquicos e psicológicos que a internet pode trazer, com influência profunda na personalidade de seus usuários.

Observação prévia: sites pornográficos e satanistas
Muitos criticam a internet pela facilidade com que, através de seus bilhões de páginas, pode-se penetrar nos sinistros mundos da pornografia mais baixa ou mesmo do ocultismo satânico. Tais críticas procedem. Pessoas que normalmente ficariam alheias a essas aberrações, acabam nelas caindo pela facilidade de acesso que a internet lhes proporciona. Em outros termos, a internet se transforma, para milhões de seus usuários, em uma verdadeira ocasião próxima de pecado.
A doutrina católica define a ocasião de pecado como: “pessoa ou coisa externa que constitui um perigo de pecado para o homem”. Consta, portanto, de dois fatores: um objeto externo que alicia o homem para o pecado e uma propensão interna para pecar. Esta ocasião pode ser próxima ou remota: a próxima é aquela em que há um grave ou provável perigo de pecar. A remota é aquela que cria apenas um perigo leve.(1)
Assim, um jovem em plena adolescência – fase em que as tentações se avolumam, sobretudo em matéria de castidade –, que ‘navegue’ desprevenido pela internet, transforma-se em presa fácil do demônio, tantas são as ocasiões que se lhe apresentam: um vídeo no YouTube, um contato pouco edificante pelo Facebook ou Orkut, uma página que achou pelo sistema de busca de imagens da Google. Típicos casos de ocasião próxima de pecado, as quais um católico deve de todos os modos evitar.
Outra ocasião típica são os sites esotéricos e ocultistas. Renomados exorcistas chamam a atenção para o fato de que grande parte das possessões diabólicas nos dias de hoje se dão por causa de sites desse gênero, facilmente encontrados na web.
Portanto, toda cautela neste terreno é pouca. Acertam os pais e educadores que tomam o devido cuidado para que seus filhos e educandos evitem tais ocasiões.

Uma revolução tendencial
Entretanto, há um aspecto sobre o qual pouco se tem chamado a atenção dos católicos. Serão perniciosos somente certos conteúdos disponíveis na internet? Especialistas de diversas áreas pensam que não. Segundo eles, a internet possui características que podem influenciar a fundo a mentalidade de seus usuários. Ainda que não houvesse pornografia, ocultismo e outros riscos, é uma verdadeira revolução nas tendências(2) que ela está operando. Cumpre, pois, estudá-la sob este ângulo.
Para esse efeito, consultamos diversos livros e artigos a respeito da temática, bem como conferências do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira sobre a cibernética, assunto sobre o qual ele tratou nas décadas de 80 e 90.
Nosso objetivo aqui não é negar benefícios práticos que a tecnologia da informação possa ter oferecido em muitas áreas: pesquisa, rapidez de comunicação, praticidade de redação etc. O que pretendemos é alertar os leitores para aspectos geralmente silenciados do problema, o que lhes facilitará inclusive um uso mais consciencioso da internet e demais mídias eletrônicas.

Três casos ilustrativos
Consideremos três casos bastante significativos da influência dos eletrônicos e da internet na vida.
a) O primeiro é a experiência que Susan Maushart [FOTO], mãe australiana, resolveu realizar juntamente com seus três filhos adolescentes: eles passaram seis meses sem televisão, vídeo games, iPods, nem computadores. O resultado foi impressionante, e está documentado no livro The Winter of Our Disconnect(3) (O Inverno de Nossa Desconexão) [FOTO, abaixo, à direita]. A filha mais velha foi a que mais rapidamente se adaptou, pois já havia adquirido o bom hábito da leitura. O rapaz, que passava horas em video game, aprendeu um instrumento musical e percebeu que tinha talento para música. A filha mais nova foi a que mais dificilmente se adaptou à inusitada situação, mas depois se acostumou. O resultado foi um acréscimo considerável no rendimento escolar de todos os filhos (inclusive a mais nova, que obtinha péssimas notas). O rapaz desistiu de jogos virtuais, vendeu seu video game e hoje estuda música na universidade. Todos os filhos, afirma Susan Maushart, saíram da experiência de um estado de cognitus interruptus (pensamento interrompido) e passaram a pensar e refletir melhor.
Mas a principal vantagem foi uma união maior da família, a qual passou a conviver mais entre si, com animados jantares e boas conversas. Além disso, descobriram prazeres simples e agradáveis como ouvir música em conjunto (não só cada um com seu fone de ouvido), jogos de tabuleiro, rever antigas fotografias de família etc.(4)
Sobre o fenômeno, comenta o jornal “La Republica”, de Montevidéu (16-6-11): “A necessidade dos meios técnicos de comunicação e trabalho parece nos absorver e até nos escravizar. Susan demonstrou que é uma escravização voluntária, da qual se pode escapar e com muitos benefícios”.
b) Outro caso exposto na edição de Catolicismo de dezembro de 2010 foi o de cinco neurocientistas americanos que passaram um mês em uma região dos Estados Unidos, sem celulares nem internet, para investigar se o uso intensivo de artefatos digitais pode mudar o modo de pensar e a conduta dos homens. David Strayer, professor da Universidade de Utah, concluiu que a atenção, a memória e o aprendizado dos cidadãos modernos ficam afetados. Para Paul Atchley, professor da Universidade de Kansas, o uso continuado da informática inibe o pensamento profundo, causa ansiedade, dependência e prejudica a saúde. O Prof. Art Kramer, da Universidade de Illinois, notou que no isolamento o grupo ficou muito mais refletido, tranquilo e voltado para a realidade.
c) Um caso semelhante se deu com Nicholas Carr, um intelectual norte-americano, diplomado em literatura pela Universidade de Harvard e pela Dartmouth College. Imerso após alguns anos no mundo das mídias eletrônicas a ponto de se tornar um especialista em tecnologia da informação, começou a perceber que seu cérebro não funcionava como antes. As longas leituras tornaram-se mais raras, a concentração ficou enfraquecida e difícil, a memória constantemente o traía.
Decidiu então fazer uma experiência radical: foi com sua esposa morar nas montanhas do Colorado (EUA), sem celulares nem internet. Durante dois anos, fez profundas e abundantes pesquisas em neuroplasticidade, história da comunicação e informática. Em 2009, lançou um livro que logo se tornou best-seller: Os Superficiais – Como a internet está mudando nosso modo de pensar, ler e recordar(5). [FOTO, à esquerda]
A obra contém inúmeras pesquisas e dados científicos, alguns dos quais mencionamos neste artigo, para ajudar a responder à pergunta: quais são as causas dessa influência da internet na psicologia e na vida?

Tudo através da internet
O primeiro fator decisivo para a influência que a internet exerce é sua universalidade, não só no sentido de se estender ao mundo inteiro, mas a quase todas as áreas da atividade cotidiana. Como explica Nicholas Carr, a internet tornou-se “uma máquina de poder incomensurável, e está ao pé da letra subjugando a maior parte das outras tecnologias intelectuais. Está se tornando nosso processador de texto e nossa imprensa, nosso mapa e nosso relógio, nossa calculadora e nosso telefone, nosso correio e nossa biblioteca, nosso rádio e nossa TV” (pp. 83-82).
Ou seja, atividades que antes realizávamos em diferentes lugares vão gradualmente se restringindo à tela do computador. A cada ano que passa ficamos mais tempo na rede, e isso com nosso consentimento: “A internet tem demonstrado ser tão útil de tantas formas, que nós acabamos por dar as boas-vindas a qualquer expansão de seu uso” (p. 88).
A internet substitui o papel das outras mídias, mas difere destas em ponto muito importante: é bidirecional. Ao contrário de uma revista, por exemplo, ou de um programa de rádio, em que as pessoas somente recebem a informação, a internet nos permite interagir e responder a quase todas suas solicitações e estímulos, em tempo real.
Com poucos cliques, podemos comprar os objetos da propaganda. O anúncio de um relógio de pulso, por exemplo, em uma revista, pode nos dar um grande desejo de obter o objeto (já tão ‘retrógrado’, aliás...). Mas para isso precisamos parar a leitura, deixar a revista e ir até a loja. Com a internet, não: vemos a propaganda, ‘clicamos’ na imagem, fazemos o pedido e rastreamos o frete. Um artigo de jornal apenas nos dá informações. Na internet, o mesmo artigo permite-nos fazer comentários e relacionar com outros artigos do mesmo ou de outros autores.
“A interatividade da internet – comenta Carr – transformou-a também em uma ‘casa de encontro global’, onde as pessoas se reúnem para chats, fofocas e discussões, através do Facebook, Twitter, MySpace, e todo tipo de redes socias (e às vezes antissociais)” (p.85).
Muitos veem a universalidade e interatividade da internet como um avanço, e de fato o é sob alguns aspectos. Mas “raramente nós paramos para ponderar, e muito menos questionar, a revolução midiática que tem se dado em torno de nós, em nossos lares, nossos locais de trabalho, nossas escolas” (p. 88).
Uma verdadeira patologia
De tal maneira a internet convida ao uso desmesurado, que ao estudarem desde 1995 os efeitos dessa mídia nos pacientes, psicólogos e psiquiatras começaram a classificar um novo tipo de dependência patológica: o transtorno de dependência à internet – TDI.(6)
Segundo a psicóloga-criminologista suíça Martine Courvoisier, “os relatórios de psicoterapeutas indicam que os usuários compulsivos e patológicos da internet se tornam dependentes da mesma forma que um toxicômano ou um alcoólatra se tornam dependentes da droga ou da bebida, e que os efeitos dessa dependência são igualmente devastadores na vida da pessoa”.(7)



Sintomas do Transtorno de Dependência à Internet 


O TDI pode se manifestar por três ou mais dos sinais seguintes, durante um período de 12 meses.(8)
I. Necessidade de aumentar o tempo passado na internet para atingir a saciedade; ou sentimento de saciedade diminuído se o tempo passado na internet permanece o mesmo.
II. Síndrome de Falta (manifestando-se por A ou B)
(A) Características da síndrome de falta: 1,2 e 3:
1. Se há a redução ou cessação da utilização intensa e prolongada da internet
2. Se dois ou mais dos seguintes sinais, desenvolvidos durante vários dias do mesmo mês após a redução ou cessação da utilização da internet:
a. agitação psicomotora
b. ansiedade
c. pensamentos obsessivos a propósito da internet
d. imaginações ou sonhos a propósito da internet
e. movimentos dos dedos mexendo no teclado, voluntários ou involuntários
3. Se os sintomas acima mencionados causam entrave ou lesam o funcionamento social e ocupacional, ou qualquer outro domínio importante.
(B) Utilização da internet para aliviar ou evitar os sintomas de falta.
III. A internet é frequentemente desejada por uma duração mais longa do que a que se tinha previsto.
IV. O desejo é persistente, mas os esforços em parar ou controlar a utilização da internet mostram-se vãos.
V. Uma grande parte do tempo é consagrada a atividades ligadas à utilização da internet.
VI. As discussões a propósito da internet na vida cotidiana são muito frequentes.
VII. As atividades familiares, sociais, ocupacionais importantes são abandonadas ou diminuídas em sua duração ou frequência por causa da utilização da internet.
VIII. Manter a utilização da internet apesar do conhecimento da existência de um problema físico ou familiar, social ou ocupacional, recorrente ou persistente, com tendência a exacerbar-se devido a essa utilização.

Dissipação do pensamento: o papel dos links
Mesmo quando não chega às raias da dependência patológica, a internet exerce forte influência sobre nosso modo de raciocinar. Aos poucos ela nos afasta do pensamento profundo, da reflexão e do recolhimento. Isso se dá por três elementos, sobretudo: os hiperlinks, a acessibilidade e a multitarefa.
Hiperlinks — ou links, por simplificação — são palavras ou figuras que se posicionam dentro ou ao redor do texto principal e que, ao serem acionadas pelo cursor (a “seta do mouse”), remetem para páginas diferentes da que estamos considerando naquele momento.
Na década de 80 houve muito entusiasmo a respeito do uso de computador, e os educadores estavam convencidos de que a introdução de links nos textos seria um “salto qualitativo” em matéria didática. No fim da década, o otimismo começou a diminuir, pois as pesquisas de então já mostravam que “avaliar os links e navegar por eles envolve tarefas mentalmente difíceis de solução de problemas que são alheios ao próprio ato de ler. Decifrar os links aumenta substancialmente a ‘sobrecarga cognocitiva’ dos leitores e enfraquece assim sua capacidade de compreender e de reter o que leem” (p. 126).
Um experimento de 1990 revelou que os leitores de textos com links geralmente não podiam lembrar o que eles leram ou não leram. Em um outro estudo, naquele mesmo ano, os pesquisadores apresentaram uma série de perguntas sobre um texto. As pessoas que leram o texto em papel tiveram um resultado bem melhor do que as que o fizeram em texto eletrônico recheado de links.
Outra experiência, de 1999, realizado por Erping Zhu, revelou que quanto maior o número de links em um texto, menor a compreensão. Segundo ele, “há uma forte correlação entre o número de links e a desorientação ou ‘sobrecarga cognoscitiva’. Ler e compreender pressupõe estabelecer relações entre conceitos, tirar conclusões, ativar o conhecimento prévio e sintetizar as idéias principais. A desorientação ou sobrecarga cognoscitiva pode assim interferir nas atividades cognoscitivas de leitura e compreensão” (p. 129).
Em 2005, Diana De Stefano e Joanne Lefèvre, psicólogas da Universidade de Carleton (Canadá), fizeram um estudo comparativo com 38 experimentos envolvendo o uso de links. Sua conclusão foi análoga à das pesquisas anteriores.
Segundo Carr, “as recentes pesquisas continuam a mostrar que aqueles que leem um texto linear compreendem mais, recordam mais e aprendem mais do que aqueles que leem um texto salpicado de links” (p. 127).

Rapidez de acesso à informação
O segundo elemento dispersivo é a acessibilidade, isto é, a facilidade com que na internet se pode ‘pular’ de um documento a outro, de uma página a outra, de uma informação a outra: “Assim como os links, a facilidade e rápido acesso às buscas tornam muito mais simples pular entre documentos digitais do que pular entre os impressos. Nossa ligação com qualquer texto se torna mais tênue, mais efêmera” (p. 90).
A facilidade de busca traz consigo a fragmentação dos documentos virtuais. O mecanismo de busca — como Google ou Bing — desperta a atenção do internauta para um fragmento de texto, algumas palavras ou frases com forte relevância no assunto procurado. Mas os mesmos mecanismos proporcionam pouco incentivo para se considerar o trabalho em seu conjunto: “Nós não vemos a floresta quando buscamos na Web. Nós não vemos sequer as árvores. Nós vemos galhos e folhas” (p. 90).

O malabarismo mental
Os links e a acessibilidade produzem um terceiro elemento dispersivo: a multitarefa, a qual consiste em realizar várias atividades diferentes ao mesmo tempo.
Ligamos o computador de nosso escritório para redigir um ofício. Após algumas linhas lembramos que há um e-mail “urgente”. Lemos a mensagem: conta a pagar..., ‘entramos’ no site do banco. Enquanto pagamos a conta e a página ‘carrega’, distraímo-nos com uma vídeo-propaganda na mesma página do banco, do novo iPad, que pode ser pago em 12 vezes sem juros no cartão de crédito! Fazemos a compra, pois afinal é preciso não descolar da moda... Voltamos ao e-mail e nos deparamos com outra mensagem com o título “Imperdível — Esculturas na melancia”. Abrimos a apresentação de slides (o famoso ‘PPS’), na faina de descobrir o aspecto fantástico. De fato, é preciso ser artista para esculpir em uma melancia! Terminada a sensacional sucessão de fotos, voltamos aos e-mails e abrimos o recado do gerente, furioso porque ainda não entregamos o ofício...
A experiência mostra que este é o modo de proceder de boa parte dos usuários de computador, sobretudo os mais jovens. Vê-se facilmente como a multitarefa, transformada em hábito, é um outro elemento de dispersão. Mas tal hábito tem-se tornado tão comum que “muitos de nós acharia intolerável se tivéssemos que voltar aos computadores que podiam executar só um programa ou abrir só um arquivo por vez” ( p. 113).
A internet multimídia – que combina muitos tipos diferentes de informação em uma só tela – “fragmenta ainda mais o conteúdo e dispersa nossa concentração. Uma só página da web pode conter blocos de texto, um vídeo ou áudio, uma série de instrumentos de navegação, várias propagandas, e muitos aplicativos, os chamados ‘widgets’. Todos nós sabemos como essa cacofonia de estímulos é dispersiva” (p.90).
Alguém pode objetar que, se bem utilizada, a multitarefa pode ser um bom instrumento didático, pois treina a rapidez de pensamento. Gary Small [FOTO], neurocientista especializado em Alzheimer e diretor do Centro de Pesquisa em Memória e Envelhecimento da Universidade da Califórnia (Ucla), afirma que “o uso da internet pode exercitar o cérebro da mesma maneira que palavras-cruzadas. Mas tal exercício intenso, quando se transforma em nosso modo primário de pensar, pode impedir o aprendizado e o raciocínio. Tente ler um livro enquanto resolve uma palavra-cruzada; este é o ambiente intelectual da internet” (p. 125).

Mudanças no próprio cérebro
Essa febre de multitarefa pode ter efeitos físicos, alterando até o funcionamento do cérebro. Em entrevista para a revista “Veja”(9), o mesmo professor Gary Small declara que “ao passarem horas em frente ao computador, seja para pesquisar, mandar e-mails ou fazer compras, as pessoas estão expondo o cérebro a uma enxurrada de estímulos. É por isso que o uso da tecnologia digital altera nossos circuitos cerebrais”.
Pior do que a multitarefa em si é o estado de contínua atenção parcial em que a internet nos mergulha, aliada aos aparelhos eletrônicos da moda. Segundo o Dr. Small, “estamos permanentemente ocupados, acompanhando tudo. Não nos focamos em nada. A atenção parcial contínua é diferente da multitarefa, na qual temos um propósito para cada uma das ações paralelas e tentamos melhorar nossa eficiência e produtividade. Quando prestamos atenção parcial continuamente, colocamos nosso cérebro num estágio mais elevado de stress. Ficamos sem tempo para refletir, contemplar ou tomar decisões ponderadas. As pessoas passam a existir num ritmo de crise constante, em alerta permanente, sedentas de um novo contato ou um novo bit de informação”.
Os jovens são os mais afetados por essa exposição excessiva à informação digital. “Muitas vezes, eles passam mais tempo na internet do que cultivando contatos sociais diretos. E o jovem, em pleno desenvolvimento, é mais vulnerável. Seu cérebro não desenvolveu completamente o lobo frontal, a seção que nos diferencia dos animais e controla pensamentos mais complexos e a nossa capacidade de planejamento”.

O arcabouço mental próprio a cada homem
John Sweller, psicólogo educacional australiano, estudou por três décadas o modo como nossas mentes processam a informação e, em particular, como aprendemos as coisas. Seu trabalho científico deita luz sobre como a internet e demais mídias eletrônicas influenciam o estilo e a profundidade de nosso pensamento.
Ele explica que nosso cérebro incorpora dois tipos bem diferentes de memória: a de curto-prazo e a de longo-prazo. A de curto-prazo contém nossas impressões, sensações e pensamentos imediatos, que tendem a durar somente alguns segundos. Tudo o que aprendemos sobre o mundo, conscientemente ou não, fica armazenado como memória de longo-prazo, que pode permanecer em nosso cérebro por alguns dias, alguns anos, ou mesmo a vida inteira.
Um terceiro tipo é a memória de trabalho (working memory). É tudo aquilo que temos de modo consciente no momento. Por exemplo, quando lemos uma notícia sobre a crise da União Europeia, aquela informação nos ocupa a atenção por alguns segundos. O papel da memória de trabalho é obter a informação, captá-la e transferir o que é relevante para a memória de longo-prazo, o que contribuirá para a criação de nosso arcabouço pessoal de conhecimento.
O conteúdo de nossa memória de longo-prazo fica armazenado em algum lugar do cérebro, sem que venha à consciência a todo o momento. Para pensar em algo que previamente aprendemos ou experimentamos, nosso cérebro deve transferir a informação da memória de longo-prazo para a memória de trabalho. A profundidade de nossa inteligência reside na habilidade de transferir as informações da memória de trabalho para a memória de longo-prazo e transformá-las em esquemas conceituais.
Tais esquemas, que o homem possui no fundo da cabeça, vão construindo a personalidade. É o processo mental humano iluminado, que Plinio Corrêa de Oliveira chamava de “luz primordial”, ou seja, aquele aspecto peculiar de Deus e do universo que cada homem é chamado a entender e contemplar. Esse arcabouço mental é diferente em cada um e produz uma admirável e rica desigualdade harmônica entre os homens.
Pois bem, ao contrário da memória de longo-prazo, que pode conter uma quantidade quase ilimitada de informação, a memória de trabalho pode conter pouquíssimos dados. De acordo com Sweller, as evidências sugerem que “nós não podemos processar mais de dois ou quatro elementos por vez”. Esses elementos que podemos conter na memória de trabalho irão, ademais, rapidamente desaparecer, “a menos que o possamos refrescá-los” por atividades repetidas.
Comenta Nicholas Carr: “Imagine se fôssemos encher uma banheira com um dedal; esse é o desafio envolvido em transferir informação da memória de trabalho para a memória de longo-prazo. Ao regular a velocidade e a intensidade do fluxo de informação, as mídias exercem forte influência nesse processo. Quando lemos um livro, a torneira da informação proporciona um filete de água contínuo, que podemos controlar pela velocidade da leitura. Pela concentração exclusiva no texto, podemos transferir toda ou boa parte da informação, dedal por dedal, para nossa memória de longo-prazo, e forjar as ricas correlações, indispensáveis para a criação dos esquemas mentais. Com a internet, ficamos diante de várias torneiras de informação, todas elas a todo vapor. Nosso pequeno dedal transborda enquanto passamos de uma torneira a outra. Só conseguimos transferir para a memória de longo-prazo uma pequena porção de informação, e o que de fato transferimos é uma confusão de gotas de diferentes torneiras, e não um fluxo contínuo e coerente vindo de uma só fonte” (p. 125).
Ou seja, embora abundante, a informação não é digerida pela inteligência, restando na memória apenas cacos desconexos. É o que tem sido chamado de geração dos informatissimi idioti(10) (idiotas informadíssimos): pessoas sobrecarregadas de dados, descobertas e novidades, mas que não conseguem passá-los para seu esquema mental, pois “quando a carga de informação excede a capacidade de nossa mente armazenar e processar a informação – quando a água transborda do dedal – ficamos incapazes de reter a informação ou de fazer correlações com a informação já armazenada na memória de longo-prazo. [...] Não conseguimos incorporar a nova informação a nosso esquema mental. Nossa capacidade de aprender sai prejudicada, e nosso entendimento fica superficial. Os recentes experimentos indicam que, quando atingimos os limites de nossa memória de trabalho, torna-se mais difícil distinguir as informações relevantes das irrelevantes. Nós nos tornamos meros consumidores irrefletidos de dados” (p. 125).
Segundo Sweller, os dois fatores que mais contribuem para essa sobrecarga mental são “resolução de problemas alheios ao assunto” e “atenção dividida”. Essas são exatamente duas características centrais da internet.
Quando estamos on-line, “ingressamos em um ambiente que promove a leitura descuidada, pensamento apressado e distraído, aprendizado superficial. É possível pensar de maneira profunda enquanto se navega pela Rede, assim como é possível pensar de maneira superficial durante a leitura de um livro, mas esse não é o gênero de pensamento que o tipo de tecnologia encoraja e estimula” (p. 116).

A humanização da máquina e a ‘maquinização do homem’
Há ainda um outro problema, consequência de todos os até aqui considerados: o homem começa a tratar a máquina como um ser racional, dotado de inteligência, vontade e sensibilidade, e, ao mesmo tempo, tende a ‘computadorizar’ seu temperamento.
Continuamente exposto a vibrações e energias físicas, controladas e decodificadas por circuitos de integração (os chips), o homem começa a ter a ilusão de que a máquina possui inteligência própria, quase que mágica, com a qual ele pode interagir e conviver.
Em 1962, o famoso cientista Joseph Weizenbaum acabava de criar ELIZA, um programa de computador que simulava um ser humano, respondendo às perguntas como se fosse um psicoterapeuta. Em 1976, mais de uma década depois de sua invenção, o mesmo Weizenbaum publicou o livro O poder do computador e a razão humana, no qual criticava os efeitos danosos de sua própria invenção. O seguinte fenômeno começou a ocorrer: “as pessoas que ‘conversavam’ com o programa tinham pouco interesse em fazer julgamentos racionais e objetivos sobre a identidade de ELIZA. Elas queriam acreditar que ELIZA era uma máquina pensante. Ao simular um ser humano, embora toscamente, ELIZA encorajava os próprios seres humanos a simularem computadores”.(p. 206)
A humanização da máquina traz como seu corolário a ‘maquinização’ do homem e das relações sociais, como afirma o Dr. Gary Small: “Tecnicamente, a superexposição a estímulos constantes na internet afeta a maioria dos circuitos corticais e a camada externa da área cinzenta do cérebro, o que inclui os lobos frontal, parietal e temporal. O resultado disso é que ocorre um reforço nos circuitos cerebrais que controlam as habilidades tecnológicas. Mas os circuitos relacionados a habilidades sociais são negligenciados”.
Por exemplo, “a alta exposição à tecnologia parece diminuir a nossa capacidade de captar certos detalhes durante uma conversa. Deixamos de ‘ler’ as informações não verbais existentes em um bate-papo, como a postura corporal, os gestos e eventuais nuances no olhar”.
Vários analistas e escritores chegam à mesma conclusão. Em sua sinopse do livro Os Superficiais, o propalado escritor Mario Vargas Llosa conclui: “dá-me a impressão [...] que a robotização de uma humanidade organizada em função da ‘inteligência artificial’ é incontrolável”.(11)

A simbiose do homem com a máquina
A ‘robotização’ ou ‘maquinização’ chega a tal grau, que há quem já pretenda realizar, num futuro próximo, a simbiose física entre o homem e a máquina. Atente-se, por exemplo, ao que afirma o Dr. Gary Small, quando perguntado pela revista “Veja” sobre qual é o futuro do cérebro humano(12): “Num futuro não muito distante, teremos a capacidade de monitorar e estimular a atividade de células cerebrais individuais. Cientistas já contam com aparelhos que fazem isso, por meio de uma proteína fotossensível, controlada por laser. [...]. Em breve, também vamos checar e corrigir nosso circuito neural por meio de controles remotos, semelhantes aos usados nas TVs. Teremos também mínimos implantes na cabeça. Eles permitirão que nossa mente se conecte aos computadores. Farão com que as máquinas entendam os comandos do cérebro. À medida que nossos computadores ficarem mais rápidos e mais eficientes, e esses implantes se tornarem a norma, em vez de discutirmos a lacuna cerebral entre gerações, vamos debater as lacunas entre o computador e o cérebro humano. Esse é um tema que dominou a ficção científica por anos. Como se vê, o futuro pode ser a ficção atual”.
Esse prognóstico faz lembrar um salmo que trata dos ídolos pagãos:
“Nosso Deus está nos Céus; Ele faz tudo o que lhe apraz. Quanto a seus ídolos de ouro e prata, são eles simples obras da mão dos homens. Têm boca, mas não falam, olhos e não podem ver, têm ouvidos, mas não ouvem, nariz, e não podem cheirar, têm mãos, mas não apalpam, pés e não podem andar, sua garganta não emite som algum.
“Semelhantes a eles sejam os que os fabricam e quantos neles põem sua confiança. Mas Israel, ao contrário, confia no Senhor: ele é o seu amparo e o seu escudo” (Salmo 113, 11-17).

> Conclusão e sugestões práticas <
De quanto foi aqui analisado, podemos concluir que, além dos perigos morais da internet, há graves prejuízos para a psicologia humana. Enganar-se-ia quem pensasse que estes últimos são secundários. Pois o pensamento profundo e concatenado, a estabilidade psíquica e o recolhimento são pressupostos indispensáveis para alcançarmos a virtude da sabedoria,(13) enquanto “com a internet, a mente calma, concentrada e recolhida está sendo substituída por um novo tipo de mente” (p. 10).
O homem foi criado para conhecer, amar e servir a Deus, e sem a contemplação da ordem do universo e das verdades da fé, componentes da virtude da sabedoria, o homem não pode atingir sua finalidade.
Segundo D. Chautard, famoso frade cisterciense francês, mestre da espiritualidade católica, para que a vida da graça permaneça e aumente em nossa alma, é primordial o recolhimento para, “no decurso das ocupações, conservar o coração numa pureza e generosidade suficientemente grandes para não ser abafada a voz de Jesus”.(14) Para ele, “os ventos da dispersão impedem a alma de viver unida a Deus”.(15)
Ora, ao dificultar o recolhimento e a meditação do espírito humano, e roubar o tempo e a atenção que deveriam ser empregados na contemplação e no convívio, a internet pode nos privar das condições psicológicas de uma sadia vida espiritual.
Alguém dirá: há atividades na internet que se tornaram hoje em dia indispensáveis para muitos. Como, então, resolver esse problema na prática?
Respondo dizendo primeiramente que nunca uma dificuldade é maior do que a proteção que Deus sempre nos concede. Assim sendo, a primeira sugestão é a oração. Pedirmos a Nossa Senhora que nos obtenha o Bom Conselho, para sabermos utilizar a internet sem nos deixarmos levar por esses males.
Em segundo lugar, ter bem presentes os riscos; conhecer inteiramente o problema já representa 50% da solução. A prece, o conhecimento dos perigos e o bom senso serão bons guias em cada caso particular.
Por fim, é indispensável exercer o domínio sobre si mesmo. Uma das formas de atingir tal objetivo consiste em planejar as atividades que serão realizadas na internet, e fazer somente aquilo que for previsto. Não usar a internet como fonte principal de lazer. Retomar boas leituras e conversas. Criar em si o hábito de analisar o mundo exterior, as obras de Deus e as boas realizações dos homens, como as belas construções e verdadeiras produções artísticas, além do apreço por um sadio convívio familiar e social.
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Notas:
1. Aertnys-Damen C.SS.R., Theologia Moralis secundum doctrinam S. Alfonsi de Ligorio, Doct. Ecclesiae (Teologia Moral Segundo a Doutrina de Santo Afonso de Ligório, Doutor da Igreja), Tomo II, itens 468, 469, Editora Marietti, Milão, 1950, 16ª edição.
2. A Revolução nas Tendências é estudada no ensaio Revolução e Contra-Revolução, obra mestra de Plinio Corrêa de Oliveira, capítulos V e VI, Artpress Indústria Gráfica e Editora LTDA., São Paulo, 1998.
3. The Winter of our Disconnect, Profile Books Ltd., Londres, 2011.
5. Nicholas Carr, The Shallows – How the internet is changing the way we think, read and remember, Atlantic Books, Londres, 2010. As citações do artigo proveem deste livro, salvo indicação em contrário.
6. Em inglês, IAD - Internet Addiction Disorder. No Brasil, o conceito de dependência à internet começou a ser divulgado desde o ano 2000, pela psicóloga Luciana Nunes, que trouxe o conceito já estudado nos Estados Unidos desde 1995 por Dr. Ivan Goldberg e Dra. Kinmberly Young.
7. Trouble de Dependance à Internet – IAD - Notions générales, disponível em http://www.actioninnocence.org/suisse/Fichiers/ModeleContenu/214/Fichiers/D%C3%A9pendance%20Internet.pdf. Acesso em 11 Ago. 2011.
8. Idem
9. A internet transforma seu cérebro - entrevista à revista “Veja”, repórter Lia Luz, edição nº 2125, 29-8-2009.
10. Esta expressão é já consagrada na Europa, sobretudo na Itália, e foi primeiramente utilizada por Ferrarroti Franco, em seu livro Le strage degli innocenti (O Massacre dos Inocentes).
11. “O Estado de S. Paulo”, Caderno 2, D11, 14-8-11.
12. A internet transforma seu cérebro - entrevista citada à revista “Veja”.
13. Cfr. conferência de Plinio Corrêa de Oliveira sobre a sacralidade e a sabedoria em 8-4-67.
14. D. Jean-Baptiste Chautard, A Alma de todo Apostolado, Editora Civilização, Braga, 2001, p. 19.
15. Idem, op. cit., p. 174.

 O “dilúvio energético” em curso, previsto décadas atrás
No início da década de 80, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira [FOTO] já alertava para uma revolução digital, que poderia desfechar em verdadeiro “dilúvio energético”. Transcrevemos abaixo suas palavras, proferidas numa palestra para jovens em 28-2-82 (sem revisão do autor). Impressiona a antecipação com que o insigne pensador católico previu o que hoje presenciamos:
*    *    *
“A história do trabalho humano compreende uma fase na qual o homem preparou os instrumentos para que ele, com sua própria energia, pudesse acionar; instrumentos cuja finalidade era, por assim dizer, economizar, condensar num determinado instrumento a energia humana e assim, poupando energias, com esforço relativamente pequeno, conseguir um efeito maior.
      Todo instrumento tem, desde a idade da pedra lascada – até a espada, a lança, ou sei lá o quê – por finalidade que o golpe humano atinja com mais acerto: como cortar, matar, colher, abrir, aproveitando as energias do homem.
      Haveria uma segunda etapa, na qual nos encontramos, que teria começado pelo aproveitamento pelo homem de energias que não são humanas e que ele sujeita a si. Seriam, por exemplo, o fogo, a roda d’água, o moinho de vento, a tração animal, coisas que permitem ao homem captar energias de origem animal ou de origem natural comum sem vida, para seu serviço. É, pois, um passo muito maior, porque representa um esforço em que ele não gasta nada e, mediante o qual, ele se beneficia de vários modos.
      Neste sentido a humanidade foi progredindo até o momento (portanto, nos séculos XVIII e XIX) em que o homem inventou a máquina a vapor e descobriu a eletricidade. A partir de então, energias muito maiores do que as humanas, sobretudo a eletricidade, acentuaram o raio de ação do homem enormemente. Tais energias se desenvolveram em cascatas. Assim, cada progresso efetuado facilitou uma catarata de outros progressos sempre maiores, até se atingir a situação em que atualmente nos encontramos.

Cibernética e transpsicologia
      Há quem já fale também de captar a energia dos astros. Sabe-se, por exemplo, que a maré é causada por influência da lua sobre a Terra; é uma energia que a lua lança sobre nosso planeta e que o influencia em certo sentido. Há, portanto, energias desse tipo que podem ser captadas de algum modo. É um gênero de energia que, em certo momento, procura realizar o trabalho do cérebro e penetrar na vida do cérebro. Já não é mais o homem governando a energia, mas é esta usada para governar o homem; a matéria procurando governar e modelar a alma humana.
Assim, por exemplo, a tendência de implantar chips nos homens. É, ao lado disso, uma tentativa embrionária para manipular as energias mentais mediante a transpsicologia.
      Assim, a cibernética e a transpsicologia se estabelecem – mas já então a transpsicologia num grau completamente diferente: são energias de caráter espiritual, de qualidade muito superior ao raio laser, sendo impossível prever a que pontos poderiam atingir tais energias e que alterações poderiam produzir na vida humana. São realizações inimagináveis que despontam em nosso horizonte.
      Resumindo: eletricidade, cibernética e transpsicologia. Haveria ainda outras coisas, e à medida que formos revolvendo esses assuntos, poderão surgir novos dados de outra natureza.
      Deus, ao que parece, permitiu que o homem fosse puxando para fora aquilo que poderíamos chamar as chaves que governam o universo; e que, até pouco tempo atrás, até há um ou dois séculos, eram conhecidas só pelos anjos e agora participam do conhecimento humano. Isso é uma parte da exposição.
      Eu não estou, com esta exposição, rumando para qualificar esse desenvolvimento como intrinsecamente mau. Estou caminhando para dizer que, ou o homem é guiado por uma sabedoria — no sentido católico da palavra — cada vez maior, para que o nível de sua fé, de suas intenções e de sua virtude seja ainda maior do que as energias que ele vai mobilizando; ou, se isto não ocorrer, ele caminha para o desastre. E será um desastre tanto maior quanto maior for o desnível entre o fator religioso-moral, de um lado, e o fator energético, de outro.

Imagem dos reis bom e mau
      Para usar uma comparação que nos produza a sensação tangível da problemática, imaginemos um rei que, na ponta de seu cetro, possua esse poder que detém o homem de hoje. Que seja uma espécie de mago, o qual mexendo o cetro pode ordenar e desordenar todo o universo, inclusive as mentes. Se tal soberano for um santo, pode-se esperar muito bem — por exemplo, se ele for um São Luiz IX. Mas se ele for como o neto de São Luiz, Filipe o Belo, não há desastre que não se possa temer.
      Assim, a bifurcação entre a verdade e erro, bem e mal, posta essa situação, apresenta-se de um modo muito mais lancinante. Qualquer ação boa caminha enormemente para resultados magníficos; qualquer infidelidade na linha da sabedoria equivale a um precipício para o mal, para resultados vertiginosos, pelo próprio poder que o homem adquiriu.

“Dilúvio energético”
      Se isto é assim, em que situação nós estamos? Encontramo-nos num “dilúvio energético”. Expressão que é concisa e ao mesmo tempo muito precisa. Quer dizer, assim como houve um dilúvio de água, há um dilúvio de energias soltas, e que podem esmagar o homem e afogá-lo. Se é que ele já não está meio esmagado e afogado, pergunta que se pode fazer. Em outros termos, o próprio homem está se escravizando a esses aparelhos e se tornando escravo deles. E colocando-se nessa escravidão, ele está se esmagando a si próprio de modo mais terrível do que se fosse liquidado. Se a humanidade chegar à metodização generalizada de chips dentro da cabeça, será a consumação de um processo escravizador.
      Tal dilúvio é mais terrível do que o dilúvio da época de Noé. Alguém poderia dizer: “Não, porque ambos matam”. Todavia, o “dilúvio energético” degrada muito mais, pois o dilúvio de Noé foi ocasião para muitos se salvarem. São Pedro, numa de suas epístolas, afirma que muitos salvaram suas almas porque caíram em si, pediram perdão; esse dilúvio, não, estamos vendo claramente que ninguém está pedindo perdão. No “dilúvio energético” em curso, não se observa alguém suplicando perdão ou se salvando...”