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26 de julho de 2026

QUAL O PODER DOS AVÓS?

Quadro do pintor austríaco Franz von Defregger (1912)

 

A misericórdia de Deus se estende sobre os filhos dos seus filhos.
Salmos 102, 17

✅  Evaristo de Miranda

Perguntaram a Sofia, uma menina de nove anos, com síndrome de Down, o que ela gostaria de ser quando crescesse. Ela respondeu: - Eu gostaria de ser avó! Perguntaram-lhe por quê. Ela completou: - Porque as avós escutam, compreendem. E além do mais, a família se reúne inteirinha na casa dos avós. Nem sempre os avós recebem a devida atenção. Nem lhes são dadas as oportunidades para manifestar seus dons.


Ao desejar ser avó, Sofia resumiu perfeitamente três das principais capacidades dos avós: escutar, compreender e reunir. Avós escutam. Eles têm tempo. Se aposentados, seu ritmo de vida diminui. Enquanto o pai e a mãe trabalham até o esgotamento, os avós têm tempo. Os pais levam os filhos à escola correndo. Avisam: estão atrasados, apressam os filhos... Com os avós, eles caminham tranquilamente. Basta observá-los na entrada das escolas. Seus passos estão harmonizados. Uma das graças dos avós consiste em dedicar às crianças, sobretudo às mais frágeis, tempo de admiração e maravilhamento. Eles saboreiam as perguntas das crianças. Compartilham suas pequenas alegrias. Ouvem suas queixas, mágoas e tristezas. Sua disponibilidade parece infinita. Sua paciência ultrapassa gerações.


Quadro do pintor americano
Morgan Weistling
Além de ouvir, os avós compreendem. A discrição dos avós é capaz de guardar os segredos dos adolescentes, as aventuras dos jovens e suas confidências dolorosas... muitas vezes negadas aos ouvidos dos pais. Os pais são a lei. Os avós são o sonho. São espaço de tolerância e aceitação. Erros e equívocos, escondidos dos pais, são relatados em toda confiança aos avós.


Finalmente, os avós reúnem a família. Suas casas são locais encantados onde ocorrem as celebrações natalinas, a Páscoa, as passagens de ano... lugares onde se saboreiam pratos especiais. Hoje em dia, essas reuniões se tornam mais raras e difíceis, com as famílias nucleares e seus infinitos afazeres. A família extensa ainda é um dom. Permite à criança tomar consciência das próprias raízes. Permite participar de uma memória comum, de uma herança transmitida entre gerações. Essa experiência convida a ampliar a vida comunitária, a solidariedade nas dificuldades e passagens difíceis. Os avós têm a graça de manter - até onde é possível - os laços familiares. Só se percebe isso, quando eles não estão mais aqui. O vivido na infância, na casa dos avós, é marca indelével para o resto da vida.


Diversos estudos em psicologia do desenvolvimento, neurociência e sociologia mostram o impacto positivo da convivência entre avós e netos: maior segurança emocional, fortalecimento da identidade familiar, transmissão de memória, desenvolvimento da linguagem, redução da solidão dos idosos e até benefícios cognitivos para ambos.


A ciência apenas confirmou aquilo conhecido havia séculos pelas famílias: a convivência entre avós e netos faz bem às duas gerações.


Claro, nenhuma generalização é possível. Existem avós abandonados em clínicas e casas de geriatria. Existem avós sem condições físicas ou psicológicas de participar da vida dos filhos e netos. Existem avós isolados e segregados. Existem avós cuidando e criando os netos, normais e deficientes, em favelas e bairros pobres. Para a maioria deles, escutar, compreender e ser traço de união familiar parece uma agradável missão. Avós não podem, nem devem, ser marginalizados das informações e da convivência com os netos. Os avós entregam aos netos tesouros muitas vezes desconhecidos dos próprios pais. A força do amor e do desejo possui um poder quase infinito. Sofia tinha razão. Os avós podem muito.

11 de março de 2025

Hungria: solução para o problema da imigração desordenada e da baixa taxa de natalidade



  Plinio Maria Solimeo 

O mundo todo — mas principalmente a Europa — está enfrentando crise após crise, originadas por políticas suicidas. Além do envelhecimento da população, entre outras coisas ela tem que arcar com uma muito baixa taxa de nascimentos, e a uma imigração descontrolada. 

O problema mais grave é a baixa taxa de nascimentos, pois ela tende só a piorar porque a maioria das mulheres hoje em dia querem se dedicar somente às suas ocupações profissionais e seus lazeres, sem ter preocupação com filhos.

A solução que a maior parte dos países da União Europeia encontrou para enfrentar a falta de mão de obra que a situação acima configura, é a de abrir suas fronteiras para a imigração sem controle, apesar dos protestos contínuos de muitos de seus habitantes. 

Haverá outra solução para o problema? 

Ao que parece, a Hungria encontrou a fórmula. 

Viktor Orbán, seu primeiro-ministro, alegando que os imigrantes que entram no país tiram vagas de trabalho que deveriam ser de cidadãos húngaros, é contra uma imigração desordenada. Por isso afirma que, enquanto ele for primeiro-ministro, a “Hungria não se transformará em um destino para os imigrantes [...] Não queremos uma minoria numerosa com diferentes tradições e cenário culturais; queremos conservar a Hungria como Hungria”, afirmou. 

Em um discurso citado pelo diário britânico Guardian, o primeiro-ministro húngaro afirmou que: “Em toda a Europa existem cada vez menos crianças, e a resposta do Ocidente para isso é a imigração [...]. Eles [os europeus] querem que entrem [nos seus países] tantos imigrantes quanto as crianças que estão em falta, para que os números equilibrem. Nós, húngaros, temos uma maneira diferente de pensar. Em vez de apenas números, queremos crianças húngaras. A imigração para nós é uma [forma de] rendição", conclui Orbán . 

Por isso, para ele, a única forma de resolver o problema do envelhecimento e do encolhimento da população, é a de incentivar o nascimento de novos cidadãos. E a fórmula para isso é investir na família. 

Foi isso que disse em seu discurso sobre o estado da Nação quando definiu as diretrizes gerais de seu governo para 2025: “Fortalecer políticas pró-natalidade, e incentivar as famílias húngaras a terem mais filhos, contando com vantagens fiscais sem precedentes na Europa” . 

Numa entrevista, Viktor Orbán  falou sobre os “ataques à família tradicional [...]. Queremos proteger a família tradicional. Que a mãe é uma mulher, e o pai é um homem. Isso tem a ver com a tradição e nós gostaríamos de manter isso”, disse o primeiro-ministro . 

Entre as reformas que ele promoveu com relação à família, está a de estender a isenção fiscal vitalícia concedida às outras mães húngaras, antes reservada para mulheres com quatro filhos. Gradualmente essa mesma medida será estendida, a partir de outubro de 2025, às mães de três filhos e, a partir de janeiro de 2026, às com dois filhos. 

Essa reforma “afetará aproximadamente 250.000 famílias com três filhos, e 600.000 famílias com dois filhos. Orbán justificou essa política explicando que a estabilidade financeira é um fator fundamental para incentivar a natalidade. Segundo ele, sem as medidas pró-família postas em prática pelo seu governo desde 2010, a Hungria teria visto pelo menos 200.000 nascimentos a menos”. 

Contudo, além da isenção total do imposto de renda, “o governo húngaro também está dobrando o valor das deduções fiscais para os pais, num esquema semelhante aos existentes em outros países europeus. 

Concretamente, as novas medidas permitirão às famílias deduzir 50 euros por mês para um filho, 200 euros para dois filhos, e 500 euros para três filhos”. Também estarão isentos de impostos todos os auxílios vinculados à licença parental e aos abonos de família. 

Ora, para isso é necessário que a Hungria esteja gozando de boa situação financeira, pois representa um investimento orçamentário significativo. “Viktor Orbán garantiu que a situação econômica húngara permite que elas sejam financiadas. A Hungria espera crescimento estável e redução contínua da dívida pública, apesar dos novos gastos”. 

Entre as medidas já em vigor, estão: 

• Empréstimos sem juros para recém-casados, conversíveis em subsídios dependendo do número de filhos.
• Assistência na compra de veículos familiares, incluindo minivans para famílias numerosas. 
• Benefícios parentais vantajosos, combinados com isenções fiscais. 

É necessário ressaltar que essas medidas já atraíram os conservadores europeus, que citam a Hungria como exemplo a seguir contra a "caixa de ferramentas demográficas" da Comissão Europeia, que está focada principalmente no aumento da imigração extra-europeia para responder ao envelhecimento da população. Essa medida foi fortemente criticada pelos “grupos conservadores da Itália, Polônia, e até mesmo na França, que estão defendendo políticas semelhantes [às da Hungria] diante de populações cada vez mais hostis à imigração em massa”.

11 de setembro de 2017

Marido e Esposa: autoridade idêntica na Família?

A instituição primitiva do casamento, deturpado pelo pecado dos homens, Nosso Senhor Jesus Cristo veio restaurá-lo na sua plenitude, elevando-o, além do mais, à condição de sacramento, que transmite a graça e simboliza a união entre Cristo e a Igreja. (Pintura: Casamento da Virgem – detalhe do tríptico do pintor Goswin van der Weyden, que se encontra na Igreja Sint-Gummaruskerk, em Lier (Bélgica).
Um leitor da revista Catolicismo enviou uma pergunta, para ser respondida pelo Monsenhor José Luiz Villac, que muito interessa àqueles que costumam acompanhar os temas deste espaço especialmente apropriado às famílias. Segue a muito instrutiva resposta, publicada na edição deste mês da revista (Edição Nº 801, Setembro/2017).
Pergunta Conversando recentemente com um canonista, ele me disse que, no casal, o marido e a mulher mandam em igualdade de condições. Que nas últimas décadas houve uma evolução no modo de a Igreja considerar a autoridade na família, pelo que a versão mais tradicional, segundo a qual prevalece a autoridade do marido, deu lugar a um conceito mais igualitário. Creio que a última encíclica do Papa Francisco “Amoris Laetitia” trata de algo sobre isto. Será que o Sr. poderia me esclarecer e, se for o caso, inclusive me dizer se existe algum ensino infalível da Igreja sobre esta matéria?
Resposta Para responder com profundidade a essa “polêmica” pergunta do nosso caro missivista — que se situa na contracorrente da escalada feminista na sociedade —, é preciso relembrar, ainda que de modo sucinto, a teologia do matrimônio cristão e da família. 

O casamento foi divinamente instituído para três finalidades elevadas: propagação do gênero humano, educação dos filhos, auxílio mútuo dos esposos. Para assegurar essas altíssimas finalidades, o casamento possui duas características essenciais: a indissolubilidade e a unicidade ou monogamia. 

Assim, através do pacto matrimonial pelo qual os esposos se dão inteiramente um ao outro para formar “uma só carne” (Gn 2, 24), eles são constituídos num estado que pode ser definido como uma união perpétua e exclusiva entre um homem e uma mulher com a finalidade principal de gerar filhos e educá-los, e, secundariamente, para se prestarem mútuo apoio. 

Essa foi a instituição primitiva do casamento. Deturpado pelo pecado dos homens, Nosso Senhor Jesus Cristo veio restaurá-lo na sua plenitude, elevando-o, além do mais, à condição de sacramento, que transmite a graça e simboliza a união entre Cristo e a Igreja. 

Na pequena comunidade que é a sociedade doméstica, Deus estabeleceu, no IV Mandamento da sua Lei, as regras que devem governar as relações entre os pais e os filhos e que Leão XIII assim descreve: “Pelo que respeita aos filhos, devem submeter-se e obedecer a seus pais, honrá-los e venerá-los por dever de consciência, e, por outro lado, os pais devem aplicar todos os seus pensamentos e cuidados em proteger seus filhos e, sobretudo, em educá-los na virtude: ‘Pais [...] educai os vossos filhos na disciplina e nos mandamentos do Senhor' (Ef. 6, 4)” (Enc. Arcanum divinae sapientiae, n° 8). 
O Apóstolo São Paulo na sua Epístola aos Efésios: “Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela [...] Assim os maridos devem amar as suas mulheres, como a seu próprio corpo” (Pintura: Carícia materna – Mary Cassatt, 1896. The Philadelphia Museaum of Art, EUA).

Duas existências numa só 

Mas Deus também estabeleceu as regras que devem governar as relações dos esposos entre si. Quanto à finalidade principal de procriar e educar os filhos, pelo pacto matrimonial os esposos são obrigados ao débito conjugal, conforme ensina São Paulo: “O marido cumpra o seu dever para com a sua esposa e da mesma forma também a esposa o cumpra para com o marido. A mulher não pode dispor de seu corpo: ele pertence ao seu marido. E da mesma forma o marido não pode dispor do seu corpo: ele pertence à sua esposa” (1 Cor 7, 3-4).

As obrigações decorrentes da finalidade secundária, ou seja, o fundir-se de duas existências numa só e o apoio mútuo que marido e mulher devem prestar-se, o mesmo São Paulo as formulou na sua Epístola aos Efésios.

Aos maridos, o Apóstolo diz que eles devem se sacrificar por suas respectivas esposas: “Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela [...] Assim os maridos devem amar as suas mulheres, como a seu próprio corpo. Quem ama a sua mulher, ama-se a si mesmo. Certamente, ninguém jamais aborreceu a sua própria carne; ao contrário, cada qual a alimenta e a trata, como Cristo faz à sua Igreja porque somos membros de seu corpo. Por isso, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois constituirão uma só carne” (5, 25-31). 

E às esposas, São Paulo ensina que devem obedecer aos seus maridos: “As mulheres sejam submissas a seus maridos, como ao Senhor, pois o marido é o chefe da mulher, como Cristo é o chefe da Igreja, seu corpo, da qual ele é o Salvador. Ora, assim como a Igreja é submissa a Cristo, assim também o sejam em tudo as mulheres a seus maridos” (5, 22-24). 

“Toda a família é uma sociedade” 

Nesse santo consórcio, ao marido cabe a autoridade, porque a força física e de caráter com que Deus dotou o sexo masculino serve de apoio à delicadeza de sua mulher e à fraqueza de seus filhos. À mulher cabe principalmente educar os filhos e influenciar toda a família pela sua delicada sensibilidade de coração, sua dedicação, sua benignidade, seu carinho. 

Em uma das suas alocuções aos recém-casados, de 10 de setembro de 1949, afirma o Papa Pio XII: 
“Toda a família é uma sociedade, e toda a sociedade bem ordenada reclama um chefe, todo o poder de chefe vem de Deus. Portanto, a família que vós fundastes tem também seu chefe, um chefe que Deus investiu de autoridade sobre aquela que se deu a ele para ser sua companheira, e sobre os filhos que virão, pela bênção de Deus, crescer e alegrar a família, tais como os rebentos verdes em torno do tronco de oliveira. Sim, a autoridade do chefe de família vem de Deus, assim como de Deus que Adão recebeu a dignidade e a autoridade de primeiro chefe do gênero humano e todos os dons que ele transmitiu à sua posteridade”

Ele não fazia senão repetir a doutrina salutar reiterada pelo Papa Pio XI na sua famosa encíclica Casti connubii, na qual especifica a “ordem do amor” que deve revestir a hierarquia doméstica: 
“Essa ordem implica de um lado a superioridade do marido sobre a mulher e os filhos, e de outro a pronta sujeição e obediência da mulher, não pela violência, mas como a recomenda o Apóstolo [...] Tal sujeição não nega nem tira à mulher a liberdade a que tem pleno direito, quer pela nobreza da personalidade humana, quer pela missão nobilíssima de esposa, mãe e companheira, nem a obriga a condescender com todos os caprichos do homem, quando não conformes à própria razão ou à dignidade da esposa [...] Se efetivamente o homem é a cabeça, a mulher é o coração; e, se ele tem o primado do governo, também a ela pode e deve atribuir-se como coisa sua o primado do amor. O grau e o modo desta sujeição da mulher ao marido podem variar segundo a variedade das pessoas, dos lugares a dos tempos; e até, se o homem menosprezar o seu dever, compete à mulher supri-lo na direção da família. Mas em nenhum tempo e lugar é lícito subverter ou prejudicar a estrutura essencial da própria família e a sua lei firmemente estabelecida por Deus” (n° 26-27). 
Família na Alemanha do séc. XIX – Ludwig Knaus (1829 – 1910). Märkisches Museum, Berlim.

A família não é uma sociedade igualitária 

A exortação pós-sinodal Amoris laetitia, pelo contrário, saúda a “superação de velhas formas de discriminação e o desenvolvimento de um estilo de reciprocidade” no casamento, afirmando ver nessa superação “a obra do Espírito no reconhecimento mais claro da dignidade da mulher e dos seus direitos”, embora nessa evolução tenham aparecido “formas de feminismo que não podemos considerar adequadas” (n° 54). E acrescenta: “No lar, as decisões não se tomam unilateralmente, e ambos [marido e mulher] compartilham a responsabilidade pela família”. Assim, “em cada nova etapa da vida matrimonial, é preciso sentar-se e negociar novamente os acordos, de modo que não haja vencedores nem vencidos, mas ganhem ambos” (n° 220).

A Exortação apostólica não hesita em “reinterpretar” a epístola do Apóstolo dos Gentios aos Efésios, acima citada. O preceito paulino de que “as mulheres sejam submissas a seus maridos” não significa “submissão sexual”, diz o Papa Francisco. “São Paulo exprime-se em categorias culturais próprias daquela época”; trata-se, segundo ele, apenas de uma “roupagem cultural” que “nós não devemos assumir” (n° 156). 

E para tentar justificar teologicamente esse novo modelo de casamento igualitário, o Papa Francisco se apoia num ensinamento de S.S. João Paulo II, na audiência geral de 11 de agosto de 1982, no qual ele afirma que a comunidade constituída pelos cônjuges “realiza-se por meio de uma recíproca doação, que é também submissão mútua”, porquanto o Apóstolo aconselha: “Submetei-vos uns aos outros” (Ef. 5,21). Seis anos mais tarde, na carta apostólica Mulieris dignitatem, o mesmo Papa afirmou que “enquanto na relação Cristo-Igreja a submissão é só da parte da Igreja, na relação marido-mulher a ’submissão’ não é unilateral, mas recíproca!” (n° 24). 

O grande problema dessa interpretação é que ela não se baseia em nenhum texto escriturário, patrístico ou magisterial, tratando-se, portanto, de uma interpretação puramente pessoal e gratuita, que contradiz o que a Igreja Católica sempre ensinou durante quase dois mil anos. 

O modelo ideal é a família patriarcal 

Em segundo lugar, a expressão “submissão mútua” é um contrassenso, uma contradição nos termos, porque é impossível alguém mandar em outrem e ao mesmo tempo lhe estar submetido a respeito de uma mesma esfera de assuntos. Mesmo imaginando um marido que fosse empregado de sua mulher na vida profissional, não se poderia falar de “submissão mútua”, porque enquanto ele mandaria na casa, a mulher mandaria no escritório, e um seria súdito do outro, mas em momentos e áreas diferentes. 

Além de o versículo 21 (“submetei-vos uns aos outros no temor de Cristo”) constituir uma advertência a toda a comunidade, nele a expressão “uns aos outros” não pode ser entendida como uma reciprocidade de relações pela qual todos se submetem a todos (coisa impossível, como visto), mas antes no sentido de que alguns da comunidade devem se submeter a outros da mesma comunidade (os jovens aos idosos, os discípulos aos mestres, as mulheres aos maridos, os filhos aos pais, etc. todos eles membros da mesma comunidade).

Algo semelhante ocorre na Epístola aos Colossenses, na qual São Paulo exorta: “A palavra de Cristo permaneça entre vós em toda a sua riqueza, de sorte que com toda a sabedoria vos possais instruir e exortar uns aos outros” (3,16). Ora, é sabido que no Novo Testamento o ensino e a exortação são atividades claramente restritas aos detentores dessa missão eclesial. 

Se essas considerações não fossem suficientes, bastaria relembrar a analogia que São Paulo estabelece entre marido e mulher, e Cristo e a Igreja: é inimaginável supor que Nosso Senhor e sua Esposa mística estejam “submetidos um ao outro”! Pelo contrário, ele diz que a mulher deve submeter-se ao marido “em tudo”, como a Igreja é submissa a Cristo. Aliás, se a mulher deve se submeter ao marido em tudo, no que poderia ele ser submisso a ela?

É exercendo sua autoridade que o marido imita Nosso Senhor, o qual, como os Papas João Paulo II e Francisco ressaltaram, “não veio para ser servido, mas para servir, e dar a sua vida em redenção por muitos”, e que, assim fazendo, introduziu um modelo cristão de exercício do poder, radicalmente diferente do pagão. 

Após cinco décadas de igualitarismo no exercício do hoje chamado “poder familiar”, substituto do “pátrio poder” do antigo Código Civil, nunca a família brasileira padeceu semelhante crise, nem o número de divórcios foi tão elevado, com indizível custo psicológico e moral para suas principais vítimas: os filhos.

Somente retornando ao modelo austero e hierárquico da família patriarcal, fundada no matrimônio indissolúvel e na prole numerosa, é que a família brasileira poderá recuperar seu vigor de outrora. 

Que São José, modelo do exercício virtuoso da autoridade paterna na Sagrada Família — onde era menor a outros títulos —, nos ajude nessa obra fundamental de restauração!

3 de setembro de 2016

A FELICIDADE DAS FAMÍLIAS NUMEROSAS

Família de José Maria Postigo e Rosa Pich, de Barcelona (Espanha)

Plinio Maria Solimeo 

Hoje em dia, quando se diz que uma família é numerosa, é porque tem de três a quatro filhos. E mesmo isso está cada vez mais raro. Pois em geral os casais não querem ter mais que um filho, ou mesmo nenhum, pois “dão trabalho”, e “queremos gozar a vida”. Infelizmente, boa parte dos casais está substituindo os filhos por animais de estimação, que tratam com mimos que não dariam a filhos.

Desse modo, a finalidade primordial do casamento, que é a procriação da espécie humana, segundo mandado de Nosso Senhor Jesus Cristo, não é mais observada, ou o é muito pouco. Além de constituir grave pecado, isso traz como consequência secundária o envelhecimento e declínio da população.

Felizes os tempos em que se via por toda parte a buliçosa e feliz algazarra de incontáveis crianças, cheias de graça, vitalidade e alegria.

Por isso trazemos hoje à consideração de nossos leitores o exemplo de duas famílias excepcionais, uma espanhola e outra americana, que receberam como verdadeira bênção do Céu os numerosos filhos que Deus lhes mandou. A primeira teve 18, e a segunda, 13. 

“Família Numerosa Europeia de 2015” 

A família de José Maria Postigo e Rosa Pich [foto acima, ao lado e abaixo], de Barcelona, foi eleita pela European Large Families Confederation como a Família Numerosa Europeia de 2015, “não tanto pelo número de seus membros, quanto pelo seu modo de encarar os reveses” da vida. A imprensa espanhola trouxe na ocasião extensas reportagens, nas quais nos baseamos, sobre essa família modelo.(1) 

Os dois esposos excepcionais que a constituíram vêm também de famílias numerosas. José Maria teve 16 irmãos e Rosa, 14. Por isso sempre sonharam em ter muitos filhos. 

Mas isso parecia quase impossível, pois a primeira filha, Carmina, nasceu com severa cardiopatia(2), tendo os médicos lhe dado poucos anos de vida. Entretanto, ela viveu até os 22 anos, falecendo depois graduar-se e acabar um mestrado. Os dois filhos seguintes nasceram com o mesmo problema e não sobreviveram. Por isso os médicos recomendaram ao casal que não tivesse mais filhos. 

José Maria e Rosa não seguiram esse conselho. Diz ela: “Ninguém sabe o número de vidas nos espera na Terra ou no Céu. [...] Se os filhos nascem e os tenho de enterrar, terão tido a oportunidade de salvar-se [pelo batismo], e sempre serão meus filhos. Pois a vida não acaba aqui na Terra”. E conclui, com muita propriedade: “Estamos voltando ao nazismo quando decidimos matar nossos próprios filhos. Há algo no mundo que não está funcionando bem quando consideramos que o aborto é um direito”


Essa mulher exemplar encontra na religião católica as forças para enfrentar as vicissitudes da vida: “Somos graças a Deus uma família com fé, porque com tudo o que temos passado, não teríamos podido superar de outra maneira. Depois de enterrar dois filhos em quatro meses, logo morreu a maior, já com 22 anos, e nos teríamos desfeito de todo se não fosse pela fé que temos”.

Com o falecimento de três filhos, restam-lhes ainda 15, o que a torna a família com mais filhos em idade escolar de toda a Espanha. Desses 15 filhos, 8 nasceram com a mesma doença de coração. Alguns se curaram, outros estão em tratamento. Essa razão levou o casal a promover uma fundação destinada à investigação da cardiopatia, cujo nome é “Menudos Corazones” (Pequenos Corações). 

Muito ativo, o casal não se limita a cuidar de sua imensa prole, mas já participou de numerosas reportagens e documentário sobre famílias numerosas. José Maria e Rosa também dão palestras de orientação familiar para ajudar outros pais.


Apesar do trabalho insano com uma família de 17 pessoas, Rosa ainda encontrou tempo para escrever um livro sobre sua experiência e os segredos da felicidade de sua família “Como ser feliz com 1, 2, 3... filhos” [capa ao lado], que já foi traduzido em seis idiomas europeus. Orgulhosa de seus inúmeros filhos, ela afirma: “Temos um tesouro que queremos compartir com a sociedade”.

Como educar tantos filhos? Diz Rosa: “Os sacerdotes devem proporcionar uma direção espiritual, mas creio que os pais de famílias numerosas temos uma graça especial para educar nossos filhos e somos responsáveis pela sua educação. Creio que o fato de ter uma família tão numerosa tornou meu coração maior, porque não só quero a todos os meus filhos, como também a seus amigos”.

Para ela, “não importa o que dizem os que não querem [ter muitos filhos] para não sofrer. As alegrias sempre superam os sofrimentos, e vale a pena lutar por cada segundo de vida. Uns lutam para ter um automóvel, por uma viagem, e eu luto por ter uma família. Se passamos de dois a três, tanto melhor. O que os meus filhos querem é ter muitos irmãos”. 

É preciso notar que o casal não é rico e vive apenas de seu salário. Por isso cria os filhos com muita austeridade. Rosa, além de todo o trabalho com uma família de 17 pessoas, trabalha meio período em uma empresa de organização de eventos. José Maria é consultor de indústrias relacionadas com o comércio de carnes, que produzem, processam e distribuem carne aos centros consumidores. Por isso passa quase o dia inteiro trabalhando. 


Os filhos dormem em dois quartos, em cada um dos quais foram adaptados dois conjuntos com quatro camas superpostas, um para os meninos, outro para as meninas. Não dá para mais. Em cada quarto, um dos irmãos fica como responsável, velando pela boa ordem e os bons modos. Os filhos são educados para agir como uma equipe. Cada um se encarrega de um irmão menor.

As roupas e os livros escolares passam de filho a filho. A comida é muito frugal, não havendo na geladeira coisas consideradas supérfluas como chocolates e refrigerantes. Também não há presentes de aniversário. Apesar disso, diz a mãe: “Meus filhos valorizam muito cada coisa, como se fosse algo único”


Todos devem observar algumas normas. Na cozinha há um quadro com a função de cada um, como montar, servir e recolher a mesa, pôr o lixo para fora, apagar as luzes etc. E também uma lista de sugestões para se melhorar no dia-a-dia como, aos muito chorões, de “chorar uma só vez por dia”, “não ficar amuado”, “sorrir mais”, “tratar bem o pai” etc. 

Algumas coisas estão formalmente proibidas, como fumar ou adquirir uma moto ou celular antes dos 18 anos. Todos se contentam com o que têm e não se sentem inferiorizados pelo que não têm. “Nós pomos alguns limites, diz a mãe, pois não esperamos para dizer-lhes ‘não’ só quando forem adolescentes; mas desde o primeiro momento, ano por ano. E sabem? Os meninos agradecem e os amigos querem ser seus amigos, porque veem que são generosos e serviçais”.

Com tudo isso, todos formam uma família muito feliz. E é uma alegria quando se encontram na hora do jantar. Os 15 irmãos estudam, praticam esportes e almoçam no colégio ou fora. Mas, haja o que houver, a hora do jantar é sagrada. “É quando nos juntamos e comentamos como foi o dia, o que sucedeu a cada um, nos ajudamos, nos escutamos e rimos”, explica a mãe. Para ela, “cada um é um indivíduo, tem seu caráter diferenciado e suas preocupações próprias. Entretanto, ainda que custe crer, conheço muito bem todos os meus filhos”.

Muito poucas famílias com menos filhos podem ter semelhante felicidade de situação e a satisfação que tal convívio produz! 
*       *      *

Os Fatzingers: família numerosa, um dom de Deus 

Rob, 51 anos, e Sam Fatzinger, 48, residentes em Bowie, Maryland, Estados unidos, têm nada menos que 13 filhos [foto acima]. A esposa cuida só da casa, de maneira que eles têm de viver apenas do salário do marido para sustentar uma família de 15 pessoas. Apesar de tudo, foram recebendo os filhos como uma dádiva do Céu.


Seu caso é tão excepcional, que “The Washington Post” dedicou-lhes extensa reportagem com o título: “Como uma família está enviando 13 filhos à escola, vivendo sem débitos — e ainda planeja aposentar-se cedo” .(3) Entretanto, a vida dessa família modelo não é assim tão fácil. Seus chefes não nasceram ricos, e vivem somente do salário e de estrita economia. Desde que se casaram, há 27 anos, começaram a fazer um pecúlio para comprar uma casa. Seu único luxo é comemorar anualmente o aniversário de casamento em um restaurante econômico. 

Católicos ao estilo antigo, quiseram ter todos os filhos que Deus lhes mandasse, confiando em que, como diz um velho dito popular, “cada filhinho já nascia trazendo debaixo do braço o seu pãozinho”. Ou ainda, “Deus manda o frio conforme o cobertor”. Por isso, por mais que a família crescesse, nunca passaram necessidade. 

Católicos praticantes, seu primeiro negócio foi uma livraria católica. Como não tiveram muito sucesso, fecharam-na em 2000, quando já tinham sete filhos. Rob conseguiu então trabalho testando softwares e, muito aplicado e consciencioso, teve várias promoções, até receber um salário bem razoável. Entretanto, para sustentar a numerosa família, eles economizam no que podem. A esposa procura comprar sempre o que está em oferta, e adapta seu cardápio de acordo com o que encontra. Nas horas vagas, Rob procura ganhar alguma coisa extra, cortando grama ou fazendo pequenos reparos para os vizinhos. Qualquer tostão é importante para eles. 

Com suas economias puderam dar entrada para a compra de uma casa grande, velha, de cinco quartos. Compraram-na barato, pois estava em tão mal estado, que parecia uma casa mal assombrada. O que levou o sacerdote que foi chamado para benzê-la a perguntar jocosamente: “Devemos fazer nela um exorcismo?”

Como a Providência Divina vela pelas grandes famílias, com a ajuda de parentes e amigos, aos poucos a reformaram e tornaram a casa habitável. Com o tempo foi até possível acrescentar mais dois dormitórios e aumentar a cozinha. E os donativos foram chegando: um fogão a lenha, um sofá velho, um automóvel usado... Assim, foi possível ter coisas indispensáveis para tanta gente, como duas geladeiras, dois fogões, duas máquinas de lavar pratos, uma van e uma máquina de lavar roupa. E os únicos que estão livres de cuidar da lavagem da enorme quantidade de roupa suja são os dois caçulas, de seis e quatro anos de idade. Evidentemente, como católicos exemplares, fica proibido fazer esse trabalho no domingo, para observar o preceito. 

A mãe ensina aos filhos as primeiras letras em casa, seguindo o bom costume americano do home-schooling. Depois eles frequentam os ginásios e universidades. “Meus filhos arrumam empregos tão logo têm idade, e aprendem a discernir entre necessidades e desejos. Eles pagam seus celulares, seus colégios, e até mesmo a gasolina que gastam”. Eles aprendem a economizar para atender às suas necessidades, pois não têm mesadas. 


Entretanto, o admirável êxito dessa família não seria possível se não fosse sua profunda fé: “Sem dúvida, a Missa diária é o mais importante [para a família], e também o rosário à tarde, quando é possível, bem como viver o ano litúrgico”, diz a mãe. “É difícil responder a isto [hábitos religiosos] em nível familiar, porque quase todos nossos filhos já são maiores de idade e portanto responsáveis pela sua própria formação na fé. Eles vão aos retiros no instituto [católico] sempre que lhes é possível. [...] Aqueles de nossos filhos que vão, participam das aulas sobre a Bíblia e dos grupos de jovens. E os menores são coroinhas”. [...] Eu gosto de fazer uma Hora Santa durante a semana, mas foi difícil encontrar tempo por causa da numerosa família, e de minha personalidade. Sou muito madrugadora. Finalmente julguei que a melhor hora para mim [para fazer a Hora Santa] era ao sábado, às cinco horas da manhã”

Rob e Sam são orgulhosos de sua família. E dão às outras alguns conselhos que as ajudaram a ser felizes: “Sê amável, e aja do modo que convenha à situação de tua família na vida. Ajuda as outras famílias, dá-lhes uma mão com os filhos ou a comida, apoiando-os na oração. [...] Ama o pecador e aborrece o pecado. Encontra formas para que as pessoas se voltem para Deus, e sê um exemplo em um mundo conturbado para ajudar os demais” .(4) 

É certo que as famílias numerosas são mais unidas. Os filhos se aproximam mais dos pais e os ajudam a enfrentar as vicissitudes da vida. Por isso é muito difícil ouvir falar de separação entre eles, o que é muito mais frequente nas famílias menos numerosas, e mesmo sem filhos. 

Que o belo exemplo de religiosidade e confiança na Providência dessas duas notáveis famílias sirva de inspiração a muitos casais brasileiros. 
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1. http://www.religionenlibertad.com/los-postigopich-18-hijos-en-la-cama-de-papa-y-mama-40617.htm 
https://www.facebook.com/pages/C%C3%B3mo-ser-feliz-con-123-hijos/1384298871817535 
http://www.europapress.es/sociedad/noticia-familia-espanola-18-hijos-premio-familia-numerosa-europea-ano-20151209175448.html 
http://www.elmundo.es/sociedad/2015/12/26/56731bbaca47410d658b4590.html 
http://www.abc.es/familia/padres-hijos/abci-familia-espanola-18-hijos-premio-familia-numerosa-europea-201512100153_noticia.html 
http://www.lavanguardia.com/gente/20160227/4035882214/familia-numerosa-postigo-pich.html 
http://www.actuall.com/entrevista/familia/rosa-pich-madre-de-18-hijos-no-se-puede-vivir-con-miedo-las-alegrias-superan-a-los-sufrimientos/

2. “alteração na estrutura do coração presente antes mesmo do nascimento. Essas alterações ocorrem enquanto o feto está se desenvolvendo no útero e pode afetar cerca de 1 em cada 100 crianças, segundo dados da American Heart Association. É a alteração congênita mais comum e uma das principais causas de óbito relacionados a malformações congênitas” http://www.minhavida.com.br/saude/temas/cardiopatia-congenita. 3. 

4. https://www.washingtonpost.com/lifestyle/magazine/13-kids-13-college-educations-not-rich-retiring-early/2016/08/08/3abe7cec-38b4-11e6-a254-2b336e293a3c_story.html 

5. http://www.religionenlibertad.com/los-postigopich-18-hijos-en-la-cama-de-papa-y-mama-40617.htm

30 de janeiro de 2015

Mães católicas, coelhas?!

“Uma das obras-primas de Deus é o coração de uma mãe” (Provérbio francês)
Após a publicação da carta da Sra. Mónica C. Ars (vide post anterior) segue outra missiva (esta da Sra. Patricia Medina, que foi publicada em diversos sites e blogs) também a respeito da crítica às famílias com proles numerosas — uma especial benção de Deus. 


Carta ao Papa — "aquele que deveria nos confirmar na fé e nos apoiar" 

Patricia Medina

Fui abençoada com seis filhos. Filhos que tive por seis partos cesáreas. Meus partos cesáreas nunca foram por comodidade ou por medo da dor do parto natural. Pelo contrário. Sempre desejei dar à luz naturalmente, mas meu primeiro filho entrou em sofrimento fetal após 13 horas de trabalho de parto. Mecônio e sangue fizeram com que o nascimento dele fosse uma emergência médica e a cesariana, inevitável para salvar a vida dele. Graças a Deus dei à luz num tempo onde a cirurgia cesariana foi uma opção. Apenas algumas décadas antes, estaríamos mortos, eu e meu filho. Apesar de um APGAR inicial bastante baixo, meu primogênito se recuperou e hoje é um rapaz inteligente, caseiro, bom filho.

Infelizmente, no Brasil, a prática médica do VBAC ainda é desencorajada. Nestas terras tupiniquins ainda reza o refrão: “Uma vez cesárea, sempre cesárea”. E assim, sem qualquer culpa da minha parte, tive seis partos cesáreas. Apesar de não ter tido a dor natural do parto, ofereci a Deus o sofrimento do pós-parto, que pode ser bastante longo e doloroso. 

Tive médicos bons e responsáveis. Médicos que me asseguraram que eu poderia continuar a ter filhos, apesar do número de cesáreas. Conheço mesmo mães que tem mais de uma dezena de filhos por esta via. Enfim, fui abençoada seis vezes. Sete, se contar uma gestação que não foi adiante. Enfrento, diariamente, a curiosidade, o desrespeito, as gozações, os cochichos e os comentários de tanta gente que, só pelo fato de eu ter seis filhos, acham que tem o direito adquirido de dar a sua opinião a respeito daquilo que é tão sagrado para mim! Coleciono anedotas de sobra! Já fui parada na rua e perguntada se eu “não me importava com o meio ambiente”. Já riram de mim, dezenas de vezes, ao perguntar se eu não tinha televisão em casa (a propósito, não! Não temos! Graças a Deus!), se eu sabia o que causava a gravidez, se eu não tinha algum hobbie. E tudo isso, falado inconvenientemente, sem pudor, na frente dos meus filhos pequenos! Já ouvi que sou ignorante, que sou irresponsável, já tive que dar explicações financeiras a estranhos, nossa família é frequentemente olhada com desdém. Já tive um médico que sugeriu, discretamente, que eu abortasse minha terceira filha por ser “perigoso”. Perguntam sempre ao meu marido se os seis filhos dele são “da mesma mulher”

Certa vez, quando estávamos debaixo de chuva com bebê de colo e precisando de um táxi, muitos taxistas passavam com seus carros vazios e nos faziam sinal com as mãos, gesticulando que éramos gente demais. Gente demais…. Pode o céu ser povoado demais? 

Enfim, sempre aguentamos as críticas, eventualmente intercaladas com algum elogio aqui e ali. Os elogios que exaltam a minha suposta coragem nunca foram o nosso apoio para o sacrifício de ter muitos filhos. A opinião das pessoas, sejam elogiosas ou desabonadoras, são irrelevantes. Nosso foco, meu e do meu marido, sempre foi Nosso Senhor. Sempre foi fazer a vontade de Deus. E fazer a vontade de Deus na finalidade própria do matrimônio: a procriação dos filhos. Apesar da sociedade anticristã. Apesar do custo. Apesar do mundo! E agora, temo dizer: apesar do Papa! 

Nesses anos todos, e lá se vão 17 anos de casamento, nunca tinha escutado a pérola que o Bispo de Roma dirigiu às mães de famílias numerosas: coelhas! Sua Santidade foi, e digo isso com dor no coração, vulgar! Sim, vulgar! Jamais ousaria comparar uma senhora, esposa e mãe católica, a um animal irracional. E a um coelho! Pense na reação de pais de família se por ventura fossem comparados a asnos, por trabalharem demais. Ou se pobres, moradores de rua, fossem chamados de ratos por viverem maltrapilhos. Ou se se comparassem pacientes em coma a bichos preguiça? Preciso continuar? A comparação é vulgar e denigre o alvo das críticas. É um desrespeito. É, pura e simplesmente, falta de caridade! 

Além disso, o Papa, aquele que deveria nos confirmar na fé, aquele que deveria nos apoiar, nos defender, acabou de jogar as mães e pais de famílias numerosas aos leões! Meu marido acaba de me falar que amanhã, no trabalho, vão lhe questionar sobre as palavras do Papa. Evidentemente, os neoconservadores, aquele tipo de católico aparentemente esclarecidíssimo, obedientíssimo, fidelíssimo, porém covarde e cheio de respeito humano, vão defender as palavras de Sua Santidade com alguma ginástica mental afirmando que a mídia distorceu suas palavras, que tiraram de contexto o que ele disse, que ele disse “coelhas” no melhor sentido possível. Talvez digam que sim, são irresponsáveis as mulheres que tem muitos filhos. E se sentirão obedientíssimos, fidelíssimos, esclarecidíssimos! 

No entanto, eu, meu marido, meus seis filhos, não vamos defendê-lo. Vamos defender aquilo que a Igreja sempre ensinou. Jamais darei piruetas intelectuais para desculpar publicamente Pedro quando ele agredir aquilo que sempre foi verdadeiro e santo! Prefiro olhar pro céu a enfiar a minha cabeça num buraco! 

Num dos comentários, ele ainda citou a cifra duvidosa de especialistas que afirmaria que o ideal é “três por família”. Disse ainda que a Igreja dá muitos “meios lícitos para limitar a procriação”. Usou o exemplo de uma mãe que está grávida do 8º filho, tendo tido sete cesáreas. Ela seria irresponsável. “Ela quer deixar os sete filhos órfãos?”, perguntou o Papa. O que ele sugere agora que o filho já está na barriga? Só eu vejo as implicações dessa fala perigosa do Bispo de Roma? Sua Santidade não sabe o que fez. Nos jogou aos leões da ONU, na NOM, da maçonaria. Aqueles, sabem?!, que nos rodeiam procurando nos devorar… 

Mas tenho algo a dizer às tantas mães de famílias numerosas (muitas amigas minhas, companheiras da Capela, cujos abençoados bancos mal comportam tantas famílias com 3, 4, 5, 6, 7, 10 filhos!), às mães discriminadas por terem tido partos cesáreas múltiplos, às mães que têm filhos apesar da contestação da família, da sociedade e, lamentavelmente, de setores liberais da Igreja: “Corramos ao abraço da cruz! Tantas mulheres cristãs foram entregues aos leões. Não sejamos nós a fugir da cruz! Adiante! Povoemos esta Terra com santos sacerdotes, pais e mães de família cristãs, e o céu com santos”. O céu é o prêmio, já dizia Santa Teresinha. 

E rezemos pelo Papa. Ele não sabe o que fez. 
Em Cristo, 
Patricia Medina

27 de janeiro de 2015

Família numerosa — uma bênção de Deus


As famílias abençoadas por uma prole numerosa robustecem os laços matrimonias e cada filho é uma alegria a mais para os pais, irmãos e parentes, sobretudo um sorriso e um presente de Deus para a Família 

Paulo Roberto Campos

A crítica às famílias que procriam “como coelhos” foi difundida largamente pela mídia do mundo inteiro e causou enorme perplexidade, até mesmo consternação, nas famílias católicas que procuram manter fidelidade ao ensinamento tradicional da Igreja. Tal critica doeu mais profundamente por ser pronunciada por uma pessoa a quem se deve todo respeito, mas da qual as famílias esperavam apoio, e não censura. Apoio por não serem do tipo de família moderna que deposita no prazer egoístico da vida o bem supremo e acham que os filhos constituem obstáculo para o gozo da vida. 


A esse propósito convém recordar que em nossos dias a revolução antinatalista — levada a cabo por muitos governos e atuando sobretudo através dos grandes meios de comunicação — promove a constituição da “família nuclear” (com apenas 1 ou 2 filhos, ou nenhum) e procura denegrir a família tradicional, que se poderia denominar “patriarcal”, com numerosa prole, num intenso convívio com a parentela. 

Contrária à prole numerosa, a propaganda revolucionária antifamília incentiva o planejamento familiar, a limitação da natalidade, a utilização de contraceptivos, pílulas abortivas, esterilização cirúrgica, aborto etc. E tem obtido o desastroso resultado revelado por pesquisas em numerosos países, inclusive no Brasil: o rápido envelhecimento da população, devido à baixa taxa de natalidade. 

Com o objetivo de auxiliar as abençoadas famílias numerosas a se manterem firmes na Fé e sempre devotadas aos valores morais, ofereço a elas as considerações abaixo, concernentes à maravilhosa bênção que elas representam para as famílias, para a sociedade em geral e para as nações e o quanto elas são especialmente amadas e protegidas por Deus. 

O primeiro texto (que segue) foi extraído do livro Nobreza e
elites tradicionais análogas [foto], publicado em 1993, de autoria de Plinio Corrêa de Oliveira. 

Mas, desenvolvendo o mesmo assunto, em próximos posts publicarei mais três textos: uma carta da Sra. Patrícia Medina e outra da Sra. Mónica C. Ars  ambas são mães de famílias justamente indignadas com a crítica acima mencionada — e, encerrando esta série, um magnífico discurso do Papa Pio XII sobre como as famílias numerosas são dignas de muita admiração. Aguardem! 



No indivíduo e na família, os fatores mais essenciais do bem comum dos grupos intermediários, da região e do Estado — a família fecunda, um pequeno mundo 

“A experiência demonstra que habitualmente a vitalidade e a unidade de uma família estão em relação natural com a sua fecundidade. 
Quando a prole é numerosa, ela vê o pai e a mãe como dirigentes de uma coletividade humana ponderável pelo número dos que a compõem como — normalmente — pelos apreciáveis valores religiosos, morais, culturais e materiais inerentes à célula familiar. O que nimba de prestígio a autoridade paterna e materna. E, sendo os pais de algum modo um bem comum de todos os filhos, é normal que nenhum destes pretenda absorver todas as atenções e todo o afeto dos pais, instrumentalizando-os para o seu mero bem individual. O ciúme entre irmãos encontra terreno pouco propício nas famílias numerosas. O que, pelo contrário, facilmente pode surgir nas famílias com poucos filhos. 
Também nestas últimas se estabelece não raras vezes uma tensão pais-filhos, em resultado da qual um dos dois lados tende a vencer o outro e a tiranizá-lo. 
Os pais por exemplo podem abusar da autoridade, subtraindo-se ao convívio do lar para utilizar todo o tempo disponível nas distrações da vida mundana, deixando os filhos relegados aos cuidados mercenários de baby-sitters ou dispersos no caos de tantos internatos turbulentos e vazios de legítima sensibilidade afetiva. 
E podem tiranizá-los também — é impossível não mencionar — por meio das diversas formas de violência familiar, tão cruéis e tão frequentes na nossa sociedade descristianizada. 
Na medida em que a família é mais numerosa, vai-se tornando mais difícil o estabelecimento de qualquer dessas tiranias domésticas. Os filhos percebem melhor quanto pesam aos pais, tendem a ser-lhes por isso gratos, e a ajudá-los com reverência — quando chegado o momento — na condução dos assuntos familiares.  
Por sua vez, o número considerável de filhos dá ao ambiente doméstico uma animação, uma jovialidade efervescente, uma originalidade incessantemente criativa no tocante aos modos de ser, de agir, de sentir e de analisar a realidade quotidiana de dentro e de fora de casa, que tornam o convívio familiar uma escola de sabedoria e de experiência, toda feita da tradição comunicada solicitamente pelos pais, e da prudente e gradual renovação acrescentada respeitosa e cautamente a esta tradição pelos filhos. A família constitui-se assim num pequeno mundo, ao mesmo tempo aberto e fechado à influência do mundo externo.  
A coesão desse pequeno mundo resulta de todos os fatores acima mencionados, e esteia-se principalmente na formação religiosa e moral dada pelos pais em consonância com o pároco, como também na convergência harmônica das várias hereditariedades físicas e morais que, através dos pais, tenham concorrido para modelar as personalidades dos filhos". 

Famílias, pequenos mundos que convivem entre si de modo análogo às nações e aos Estados 

"Esse pequeno mundo diferencia-se de outros pequenos mundos congêneres, isto é, das outras famílias, por notas características que lembram em modelo pequeno as diferenciações entre as regiões de um mesmo País, ou os diversos países de uma mesma área de civilização.  
A família assim constituída tem habitualmente como que um temperamento comum, apetências, tendências e aversões comuns, modos comuns de conviver, de repousar, de trabalhar, de resolver problemas, de enfrentar adversidades e de tirar proveito de circunstâncias favoráveis. Em todos estes campos, as famílias numerosas possuem máximas de pensamento e de procedimento corroboradas pelo exemplo do que fizeram os seus antepassados, não raras vezes mitificados pelas saudades e pelo recuo do tempo”. 
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(Plinio Corrêa de Oliveira, Nobreza e elites tradicionais análogas nas alocuções de Pio XII ao Patriciado e à Nobreza romana, Editora Civilização, 1993, Porto, págs. 108-109).