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1 de fevereiro de 2024

NON LICET

“Non Licet”, obra de Antoine Ansiaux, St. John Rebuking Herod (1822), Palais des Beaux-Arts of Lille, França. São João Batista severamente increpou Herodes Antipas. Devido ao seu pecado de adultério (por viver com Herodias, mulher de seu irmão), São João repreendeu Herodes dizendo-lhe que não era lícita aquela relação adulterina (Não te é permitido tomá-la por mulher – Mt 14,4).

“A Igreja não dispõe, nem pode dispor, do poder de abençoar uniões de pessoas do mesmo sexo”  [Cardeal Luis Ladaria]


Fonte: Editorial da e Revista Catolicismo, Nº 878, Fevereiro/2023

Causou imensa perplexidade no mundo católico a Declaração Fiducia Supplicans, de 18 de dezembro de 2023, da lavra do Cardeal Victor Manuel Fernandez, prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, e que conta com a assinatura do Papa Francisco. 

Muitos bispos e sacerdotes, e até mesmo Conferências Episcopais, afirmaram que não vão acatar as disposições da Declaração, ou seja, não vão conceder a bênção da Igreja a duplas homossexuais e a casais em situações irregulares, pois, além de confundir e escandalizar os fiéis católicos, ela equivale objetivamente a abençoar relações baseadas em pecados contra o Sexto Mandamento, usando o nome de Deus em vão. 

De fato, a Declaração contradiz outro documento emitido pela então chamada Congregação para a Doutrina da Fé, em 2021. O prefeito-emérito dessa Congregação, o Cardeal Gerhard Ludwig Müller, chegou a declarar que a recomendação de tal bênção “é uma blasfêmia”! 

Prédio do "Dicasterium pro Doctrina Fidei",
sediado no "Palazzo del Sant'Uffizio",
na Piazza del Sant'Uffizio, em Roma.

O mencionado Dicastério — um dos órgãos mais antigos da Cúria Romana — tem a missão de preservar o depósito da Fé e da moral, defendendo a Igreja das heresias e, para isso, deve vigiar os escritos de autores católicos, principalmente daqueles cujas obras são usadas nos seminários. Deve também pronunciar-se, à luz da Revelação, sobre novos temas de debate, resultantes das novidades científicas ou das evoluções sociais. 

Ora, a própria Declaração do Cardeal Fernandez é o oposto dessa grandiosa missão, pois suas disposições práticas contrariam a Fé Católica e o ensinamento perene da Igreja, e conduzem à aceitação de uma imoralidade — a legitimidade de uma “homo-heresia”.

Os prelados opositores lamentam que a Declaração submete-se às exigências de movimentos homossexuais. Estes contam com “companheiros de viagem” infiltrados na própria hierarquia católica e, é claro, não pouparam elogios à nova posição do Vaticano. Tudo isso, preparando o terreno para ousarem ainda mais: a retirada do trecho do Catecismo Católico que condena o homossexualismo; o reconhecimento conjugal das relações homossexuais; a autorização para se realizarem “casamentos” entre pessoas do mesmo sexo e, no futuro, outras depravações... 

Tudo, dentro da agenda LGBT, para levar a sociedade em geral a acabar aceitando o pecado de sodomia como uma forma natural da sexualidade humana, merecedora das bênçãos da Igreja. Deus não abençoa o pecado, mas, pelo contrário, o abomina e castiga, como o fez destruindo as cidades de Sodoma e Gomorra, justamente devido à perversão sexual, aos pecados contra a Lei de Deus e à Lei Natural. 

Como o leitor percebe, este assunto é extremamente delicado e gravíssimo. Por isso Catolicismo pediu ao seu colaborador José Antonio Ureta — especialista no tema que vem acompanhando há algumas décadas a evolução da questão dentro do Vaticano —, um artigo que constitui a matéria de capa da edição deste mês.

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5 de outubro de 2023

Uma insurreição na Igreja Católica?

O início dos trabalhos da assembleia continental europeia para o Sínodo 2021-2024 sobre a sinodalidade, realizada em Praga em fevereiro último. No centro, o Cardeal Mario Grech, secretário do Sínodo dos Bispos, e na extrema esquerda o Cardeal Jean-Claude Hollerich, arcebispo de Luxemburgo, escolhido pelo Papa Francisco como relator geral da fase mundial do sínodo, que está sendo realizado em Roma.


Livro esclarecedor a respeito do “Sínodo Mundial sobre a Sinodalidade” — evento que poderá acelerar o “processo de autodemolição” da Igreja 

Fonte: Editorial da e Revista Catolicismo, Nº 874, Outubro/2023* 

Na sua célebre Alocução aos alunos do Seminário Lombardo, no dia 7 de dezembro de 1968, Paulo VI afirmou que “a Igreja atravessa hoje um momento de inquietação. Alguns praticam a autocrítica, dir-se-ia até a autodemolição”

Meio século depois, esse misterioso processo de autodemolição parece estar chegando ao seu paroxismo. De fato, uma nova Revolução vem eclodindo dentro da própria Igreja Católica desde que, em 2021, foi convocado pelo Papa Francisco o chamado “Sínodo sobre a Sinodalidade”. 

Tudo parece caminhar rumo à constituição de uma “igreja sinodal”, como se fosse uma aspiração do “Povo de Deus”, e não a articulação de uma minoria progressista ardida e bem organizada. 

A “sinodalidade” seria um artifício para revolucionar a Igreja, relativizando sua doutrina moral, democratizando-a e atribuindo aos fiéis prerrogativas exclusivas do clero católico. 

A Santa Igreja deixaria de ser a Mãe e Mestra que transmite os ensinamentos de Nosso Senhor Jesus Cristo pela voz de seus pastores, para ser dirigida pelo povo — pela voz dos simples leigos, dos marginalizados, dos oprimidos, dos “excluídos”, tais como a comunidade LGBT ou as mulheres que reivindicam a ordenação sacerdotal. Seria, em suma, uma nova seita fundada pela chamada “esquerda católica”, uma recauchutagem de velhas heresias já condenadas pelo Magistério infalível. 

Neste quadro tenebroso, veio a lume um livro esclarecendo essas e outras questões controversas desse Sínodo: O caminho sinodal, uma caixa de Pandora — 100 perguntas e 100 respostas

De autoria de dois colaboradores da revista Catolicismo, os jornalistas Julio Loredo e José Antonio Ureta, o livro vem sendo largamente divulgado em diversos países, com grande repercussão na mídia e nas redes sociais, a ponto de ter sido objeto de uma pergunta durante a coletiva de imprensa que o Papa concedeu no avião em seu retorno da Mongólia. 

Como matéria de capa de Catolicismo, a revista deste mês [foto no topo] oferece aos seus leitores o prefácio do Cardeal Raymond Burke ao livro, excertos dessa oportuna obra, uma entrevista com um de seus autores e um artigo sobre algumas das numerosas repercussões obtidas até o momento. 

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11 de julho de 2023

Com a autodemolição da Igreja, a confiança para perseverar na fé

Enfrentando as tormentas atuais, a virtude da confiança necessária para mantermos a fidelidade católica. Um manifesto do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira orienta os fiéis a acrisolar nossa certeza na vitória da Igreja, mesmo atravessando as mais duras investidas anti-católicas, ela triunfará, temos a promessa indefectível de que “as portas do inferno não prevalecerão”. 

Fonte: Editorial da e Revista Catolicismo, Nº 871, Julho/2023

Em meio ao caos e às loucuras do mundo atual, assim como da crise apocalíptica pela qual atravessa a Santa Igreja, corroída por um processo de autodemolição, os fiéis católicos — abatidos, aflitos, temerosos, como náufragos numa noite escura durante uma tempestade, sem um farol que lhes indicasse o porto seguro —, poderiam ficar tentados a perder a fé.

Na recente assembleia Caminho Sinodal Alemão, qualificada pelo Cardeal Gerhard Müller como pior do que um cisma, pretendeu-se adulterar o ensinamento perene da Igreja, por exemplo em matéria moral. E agora, com a trágica perspectiva do Sínodo sobre a sinodalidade — que reunirá no Vaticano em outubro deste ano e do próximo bispos do mundo inteiro com a pretensão de dar continuidade ao “sínodo alemão” —, o desânimo poderia nos abater, se não resistirmos. 

Nessa perspectiva, peçamos a Nossa Senhora da Confiança a graça da perseverança na fé, para nos mantermos firmes na resolução de enfrentar o presente tsunami autodemolidor com o ânimo de verdadeiros cruzados em defesa da Igreja. 

Agindo assim, poderemos atribuir à Santa Igreja e fazê-las nossas as memoráveis palavras de Cícero: “Alios ego vidi ventos; alias prospexi animo procellas” — “Eu já vi outros ventos e lutei com mesmo ânimo em outras tempestades” (Familiares, 12, 25, 5). Ao longo de sua história bimilenar, a Igreja atravessou terríveis tormentas e saiu incólume, por ser imortal e ter a promessa de Nosso Senhor Jesus Cristo “portae inferi non praevalebunt adversum eam” (Mt 16, 18). 

Sim, as portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja. Mesmo arrostando atualmente as mais ignóbeis investidas de seus adversários, ela triunfará desta crise sem precedentes e sairá ainda mais esplendorosa do que no passado. 

Nesse panorama tenebroso, como um farol a iluminar durante as borrascas, o Instituto Plinio Corrêa de Oliveira publicou no dia 19 de junho um oportuno manifesto que constitui a matéria de capa da edição da revista Catolicismo deste mês [capa acima]. Ele é um apelo ao clero silencioso, estendido também aos fiéis, para que não permaneçam calados, mas bradem, alertem, denunciem os responsáveis pela crise na Igreja, a fim de que não mais se permita que as ovelhas sejam dispersas por falsos pastores e devoradas por lobos transvestidos de ovelhas. 

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1 de janeiro de 2022

Colapso das instituições e revigoramento da onda conservadora, enquanto a velha esquerda definha

 


Em muitos países uma esquerda exausta confronta uma direita florescente, como em nossa Pátria, onde um Brasil de superfície confronta um Brasil profundo. 

Fonte: Editorial da Revista Catolicismo, Nº 853, Janeiro/2022 

La Cumbre Vieja, o vulcão da ilha espanhola La Palma (Arquipélago das Canárias), que entrou em erupção no dia 19 setembro de 2021, transformou-se em 22 de dezembro na mais longeva erupção vulcânica em 373 anos. Com seu poder de fogo, devorou casas e lavouras, forçando a retirada de moradores e turistas. Um fenômeno que bem pode representar a situação catastrófica da Santa Igreja e das nações neste último ano. 

Com efeito, fomos assistindo ao longo dele a um espetáculo de horror em 365 capítulos, acompanhando assim os diversos acontecimentos, quer religiosos, quer temporais. 

Uma assombrosa Revolução Cultural foi demolindo dia a dia os vestígios da civilização. Nesse processo revolucionário anticivilizatório — rumo a uma sociedade tribalista regida por um governo mundial —, um verdadeiro pandemônio foi dominando o cenário político, nacional e internacional, cultural e religioso. 

Entretanto, vendo apenas um dos capítulos da série de horror, não se tem ideia de como a ‘pandemia’ do non sense contagiou as instituições e as mentes das pessoas em todos os cantos do mundo. 

Para que se possa ter uma visão geral do avanço desse processo, o qual poderá provocar grandes catástrofes, sobretudo morais, impõe-se uma análise séria do conjunto dos acontecimentos, que certos setores da mídia são hábeis em abafar os importantes e divulgar com o maior estardalhaço os medíocres. Hábeis também em criar “cortinas de fumaça” para que o público em geral não veja com clareza, por exemplo, o grande incremento das reações conservadores que em 2021 notamos em muitos setores da opinião pública. 

Para não nos deixarmos embair por esses inescrupulosos interesses midiáticos, cumpre não somente dizer a verdade, mas apontar os erros nua e cruamente, doa a quem doer. 

É o que faz a matéria de capa da edição da revista Catolicismo deste mês [capa acima], comentando e analisando o ano velho, a fim de nos prepararmos para os imprevistos do novo ano. Como jornalistas católicos, seguimos a orientação dada pelo Papa Leão XIII: “Não diga nada falso, não cale nada verdadeiro”

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28 de julho de 2021

Os fiéis têm pleno direito de se defenderem de uma agressão litúrgica – mesmo quando esta provém do Papa


José Antonio Ureta 

Fonte: Revista Catolicismo, Nº 848, Agosto/2021 

Com um golpe de caneta, no dia 16 de julho (festa de Nossa Senhora do Carmo), o Papa Francisco tomou medidas concretas para abolir na prática o rito latino da Santa Missa, que vigorou substancialmente desde São Dâmaso, no fim do século IV — com acréscimos de São Gregório Magno no fim do século VI —, até o missal de 1962, promulgado por João XXIII. 

A intenção de restringir gradualmente, até a sua extinção, o uso desse rito imemorial, patenteia-se na carta que acompanha o ‘motu próprio’ Traditionis Custodes, na qual o pontífice reinante insta os bispos do mundo inteiro a “atuar para que se regresse a uma forma celebrativa unitária” com os missais de Paulo VI e João Paulo II, que passam a ser “a única expressão da lex orandi do Rito Romano”. Sua consequência prática é que os sacerdotes de rito latino não têm mais o direito de celebrar a missa tradicional, só podendo fazê-lo com permissão do bispo — e da Santa Sé, para os que doravante forem ordenados!

A pergunta óbvia que surge diante dessa drástica medida é a seguinte: um tem um Papa poder para derrogar um rito que vigorou na Igreja por 1400 anos e cujos elementos essenciais provêm dos tempos apostólicos? Porque, se de um lado o Vigário de Cristo tem a plena et suprema potestas nas matérias atinentes “à disciplina e ao governo da Igreja difundida pelo orbe”,[1] conforme ensina o Concilio Vaticano I , de outro lado ele deve respeitar os costumes universais da Igreja em matéria litúrgica. 

A resposta é dada de maneira peremptória no parágrafo n° 1125 do Catecismo da Igreja Católica promulgado por João Paulo II: “Nenhum rito sacramental pode ser modificado ou manipulado ao arbítrio do ministro ou da comunidade. Nem mesmo a autoridade suprema da Igreja pode mudar a liturgia a seu bel-prazer, mas somente na obediência da fé e no respeito religioso do mistério da liturgia”. 

Comentando esse texto, o então Cardeal Joseph Ratzinger escreveu: “Parece-me muito importante que o Catecismo, ao mencionar os limites do poder da suprema autoridade da Igreja com relação à reforma, chame a atenção para aquela que é a essência do primado, tal como é sublinhado pelos Concílios Vaticanos I e II: o papa não é um monarca absoluto cuja vontade é lei, mas o guardião da autêntica Tradição e, por isso, o primeiro a garantir a obediência. Ele não pode fazer o que quiser, e justamente por isso pode se opor àqueles que pretendem fazer tudo o que querem. 

 A lei a que deve se ater não é a ação ad libitum, mas a obediência à fé. Por isso, diante da liturgia, tem a função de um jardineiro e não a de um técnico que constrói máquinas novas e joga as velhas fora. O ‘rito’, ou seja, a forma de celebração e de oração que amadurece na fé e na vida da Igreja, é forma condensada da Tradição viva, na qual a esfera do rito expressa o conjunto de sua fé e de sua oração, tornando assim experimentáveis, ao mesmo tempo, a comunhão entre as gerações e a comunhão com aqueles que rezam antes de nós e depois de nós. Assim, o rito é como um dom concedido à Igreja, uma forma viva de parádosis.”[2]  [Termo grego usado 13 vezes na Bíblia, o qual pode ser traduzido por tradição, instrução, transmissão.] 

Na sua excelente obra A Reforma da Liturgia Romana, Mons. Klaus Gamber — considerado pelo Cardeal Joseph Ratzinger como um dos maiores liturgistas do século XX — desenvolve esse pensamento. Parte ele da constatação de que os ritos da Igreja Católica, tomada a expressão no sentido de formas obrigatórias de culto, remontam em definitivo a Nosso Senhor Jesus Cristo, mas foram se desenvolvendo e se diferenciando gradualmente a partir do costume geral, sendo depois corroborados pela autoridade eclesiástica.

Dessa realidade, o ilustre liturgista alemão tira as seguintes conclusões: 

1. “Se o rito nasceu do costume geral — e sobre isto não há dúvida para o conhecedor da história da liturgia —, não pode ser recriado na sua totalidade”. Nem no começo da Igreja isso aconteceu, pois “as formas litúrgicas das jovens comunidades cristãs também se separaram progressivamente do ritual judaico”. 

2. “Como o rito foi se desenvolvendo no transcurso dos tempos, poderá continuar fazendo o mesmo no futuro. Mas este desenvolvimento deverá ter em conta a atemporalidade de cada rito e efetuá-lo de maneira orgânica [...] sem ruptura com a tradição e sem uma intervenção dirigista das autoridades eclesiásticas. Estas não tinham outra preocupação nos concílios plenários ou provinciais senão de evitar irregularidades no exercício do rito”. 

3. “Existem na Igreja vários ritos independentes. No Ocidente, além do rito romano, existem os ritos galicano (já desaparecido), ambrosiano e moçárabe; no Oriente, entre outros, os ritos bizantinos, armênio, siríaco e copta. Cada um desses ritos percorreu uma evolução autônoma, no transcurso da qual suas particularidades específicas foram formadas. Este é o motivo pelo qual não se pode simplesmente intercambiar entre eles elementos desses ritos diferentes”. 

4. “Cada rito constitui uma unidade homogênea. Portanto, a modificação de qualquer de seus componentes essenciais significa a destruição de todo o rito. Exatamente isto é o que ocorreu pela primeira vez nos tempos da Reforma, quando Martinho Lutero fez desaparecer o cânon da missa e uniu o relato da Instituição diretamente com a distribuição da comunhão”. 

5. “O regresso a formas primitivas não significa, em casos isolados, que se modificou o rito, e de fato este regresso é possível dentro de certos limites. Desta forma, não houve ruptura com o rito romano tradicional quando o Papa São Pio X voltou a estabelecer o canto gregoriano em sua primitiva forma”.[3]

O ilustre fundador do Instituto Teológico de Regensburg prossegue comentando que “enquanto a revisão de 1965 havia deixado intacto o rito tradicional [...], com o ‘ordo’ de 1969 se criava um novo rito”, que ele chama de ritus modernus, já que “não basta, para falar de uma continuidade do rito romano, que no novo missal tenham sido conservadas certas partes do anterior”. 

Para comprová-lo do ponto de vista estritamente litúrgico — dado que os graves erros teológicos, como o rebaixamento do caráter sacrificial e propiciatório da missa, mereceriam artigo à parte —, basta citar o que disse sucintamente o Prof. Roberto de Mattei a respeito dessa verdadeira devastação litúrgica: 

“Durante a Reforma, introduziu-se gradualmente toda uma série de novidades e variantes, algumas delas não previstas nem pelo Concílio nem pela constituição Missale Romanum de Paulo VI. O quid novum não pode se limitar à substituição do latim pelas línguas vulgares. 

Consiste também no desejo de conceber o altar como uma ‘mesa’, para enfatizar o aspecto do banquete em vez do sacrifício; na celebratio versus populum, em substituição daquela versus Deum, tendo como consequência o abandono da celebração para o Oriente, isto é, para Cristo simbolizado pelo sol nascente; na ausência de silêncio e meditação durante a cerimônia e na teatralidade da celebração, muitas vezes acompanhada de cantos que tendem a profanar uma Missa na qual o sacerdote é frequentemente reduzido ao papel de ‘presidente da assembleia’; na hipertrofia da Liturgia da Palavra em relação à Liturgia Eucarística; no ‘sinal’ da paz, que substitui as genuflexões do sacerdote e dos fiéis, como ação simbólica da passagem da dimensão vertical à horizontal da ação litúrgica; na Sagrada Comunhão, recebida pelos fiéis em pé e na mão; no acesso das mulheres ao altar; na concelebração, tendendo à ‘coletivização’ do rito. 

Consiste, sobretudo e finalmente, na mudança e substituição das orações do Ofertório e do Cânon. A eliminação em particular das palavras mysterium fidei da fórmula eucarística pode ser considerada, como o Cardeal Stickler observa, como o símbolo da desmistificação e, portanto, da humanização do núcleo central da Santa Missa”.[4]

A maior revolução litúrgica ocorreu de fato no Ofertório e no Cânon. O Ofertório tradicional, que preparava e prefigurava a imolação incruenta da Consagração, foi substituído pelas Beràkhôth do Kiddush, ou seja, pelas bênçãos da ceia pascal dos judeus. 

O Pe. Pierre Jounel, do Centro de Pastoral Litúrgica e do Instituto Superior de Liturgia de Paris, um dos especialistas do Consilium que preparou a reforma litúrgica, descreveu no jornal La Croix o elemento fundamental da reforma da Liturgia da Eucaristia: “A criação de três Orações Eucarísticas novas quando até então não existia senão uma, a Oração Eucarística I, fixada no Canon Romano desde o século IV. 

A Segunda foi retomada da Oração Eucarística de [Santo] Hipólito (século III) tal como foi descoberta numa versão etíope no fim do século XIX. A Terceira se inspirou do esquema das liturgias orientais. A Quarta foi elaborada numa noite, por uma pequena equipe em torno do Pe. Gelineau”.[5]

O referido Pe. Joseph Gelineau S.J. [foto] não estava enganado quando saudava entusiasmado a reforma, declarando: “Na verdade, é uma outra liturgia da Missa. É preciso dizê-lo sem rodeios: o rito romano tal como nós o conhecíamos não existe mais, ele foi destruído”.[6]

Como, então, pretende o Papa Francisco afirmar, em sua recente carta aos bispos, que “quem queira celebrar com devoção segundo a anterior forma litúrgica não terá dificuldade em encontrar no Missal Romano reformado segundo a mente do II Concílio do Vaticano todos os elementos do Rito Romano, em particular o cânone romano, que constitui um dos seus elementos mais caracterizantes”? Parece uma ironia tão amarga quanto o título do ‘motu próprio’ Custódios da Tradição... 

Se o Novus Ordo Missae não é uma mera reforma e implica uma tal ruptura com o rito tradicional, a celebração deste último não pode ser proibida, pois, como reitera Mons. Klaus Gamber, “não existe um só documento, nem sequer o Codex Iuris canonici, que diga expressamente que o Papa, enquanto Pastor supremo da Igreja, tenha o direito de abolir o rito tradicional. Tampouco se fala em alguma parte que tenha o direito de modificar os costumes litúrgicos particulares. No caso presente, este silêncio é de grande significado. 

Os limites da plena et suprema potestas do Papa têm sido claramente determinados. É indiscutível que, para as questões dogmáticas, o Papa deve se ater à tradição da Igreja universal e, por conseguinte, segundo São Vicente de Lérins, ao que se tem crido sempre, em todas as partes e por todos (quod semper, quod ubique, quod ab omnibus). Vários autores expressamente adiantam que, em consequência, não compete ao poder discricionário do Papa abolir o rito tradicional”. 

Mais ainda, caso o fizesse, incorreria no risco de separar-se da Igreja. Mons. Gamber escreve, de fato, que “o célebre teólogo Suárez (+ l6l7), referindo-se a autores mais antigos como Caetano (+ 1534), pensa que o Papa seria cismático se não quisesse, como é seu dever, manter a unidade e o laço com o corpo completo da Igreja, como por exemplo, se excomungasse toda a Igreja ou se quisesse modificar todos os ritos confirmados pela tradição apostólica”. 


Foi provavelmente para evitar esse risco que oito dos nove cardeais — da Comissão nomeada por João Paulo II em 1986 para estudar a aplicação do Indulto de 1984 — declararam que Paulo VI não tinha realmente proibido a Missa antiga. Mais ainda, à pergunta: “- Pode um bispo proibir hoje a um sacerdote em situação regular de celebrar uma missa tridentina?”, o Cardeal Stickler [foto] afirmou que “os nove cardeais foram unânimes em dizer que nenhum bispo tinha o direito de proibir um padre católico de celebrar a missa tridentina. Não há nenhuma proibição oficial, e eu penso que o Papa não decretará nenhuma proibição oficial”.[7] 

O Papa Francisco, porém, no ‘motu próprio’ Traditionis Custodes, autorizou de fato aos bispos a proibir dita celebração. Tanto é assim que a Conferência Episcopal da Costa Rica se apressou em decretar coletivamente que “não se autoriza o uso do ide 1962 nem de nenhuma das expressões da liturgia anterior a 1970”, pelo que “nenhum presbítero tem autorização para continuar celebrando segundo a liturgia antiga”.[8]

Por todo o anterior, subscrevemos plenamente as conclusões tiradas pelo Presb.º Francisco José Delgado: “Acho que a coisa mais inteligente a fazer agora é defender com muita calma a verdade sobre as leis perversas. O Papa não pode mudar a Tradição por decreto ou dizer que a liturgia pós-Vaticano II é a única expressão da lex orandi no Rito Romano. Como isso é falso, a legislação que brota desse princípio é inválida e, segundo a moral católica, não deve ser observada, o que não implica em desobediência.” 

Não é preciso possuir um conhecimento especializado de eclesiologia para compreender que a autoridade e a infalibilidade papais têm limites e que o dever de obediência não é absoluto. São numerosos os tratadistas do melhor quilate que reconhecem explicitamente a legitimidade da resistência pública às decisões ou ensinamentos errados dos pastores, inclusive do Soberano Pontífice. Eles foram amplamente citados no estudo de Arnaldo Xavier da Silveira intitulado “Resistência pública a decisões da autoridade eclesiástica”, publicado pela revista Catolicismo em agosto de 1969.[9]

No caso atual, é lícito não apenas “não observar” o ‘motu próprio’ do Papa Francisco, mas até resistir à sua aplicação, segundo o modelo ensinado por São Paulo (Gal. 2, 11). Não se trata de pôr em discussão a autoridade pontifícia, pela qual devem sempre crescer nosso amor e nossa veneração. É o próprio amor ao Papado que nos deve levar a denunciar Traditionis Custodes, por pretender eliminar ditatorialmente o rito mais antigo e venerável do culto católico, no qual todos os fiéis têm o direito de abeberar-se. 

Observa o ilustre teólogo Francisco de Vitoria (1483-1486): “Por direito natural é lícito repelir a violência pela violência. Ora, com tais ordens e dispensas, o Papa exerce violência, porque age contra o Direito, conforme ficou acima provado. Logo, é lícito resistir-lhe. Como observa Caetano, não afirmamos tudo isto no sentido de que cabe a alguém ser juiz do Papa ou ter autoridade sobre ele, mas no sentido de que é lícito defender-se. A qualquer um, com efeito, assiste o direito de resistir a um ato injusto, de procurar impedi-lo e de se defender”[10]

O modelo de resistência firme, mas impregnada de veneração e respeito pelo Sumo Pontífice, através da qual os católicos podem hoje pautar a sua própria reação, é a Declaração de Resistência à Ostpolitik do Papa Paulo VI, redigida pelo saudoso Prof. Plinio Corrêa de Oliveira e intitulada “A política de distensão do Vaticano com os governos comunistas - Para a TFP: omitir-se? ou resistir?”. Dizia ela, no seu parágrafo crucial: 

“O vínculo da obediência ao Sucessor de Pedro, que jamais romperemos, que amamos com o mais profundo de nossa alma, ao qual tributamos o melhor de nosso amor, esse vínculo nós o osculamos no momento mesmo em que, triturados pela dor, afirmamos a nossa posição. E de joelhos, fitando com veneração a figura de S.S. o Papa Paulo VI, nós lhe manifestamos toda a nossa fidelidade. 

“Neste ato filial, dizemos ao Pastor dos Pastores: Nossa alma é Vossa, nossa vida é Vossa. Mandai-nos o que quiserdes. Só não nos mandeis que cruzemos os braços diante do lobo vermelho que investe. A isto nossa consciência se opõe.”[11]

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Notas: 

1. Cfr. Denz.-Rahner 1827. 

2. “O desenvolvimento orgânico da liturgia”, 30 Giorni, http:// www.30giorni.it/articoli_id_7298_l6.htm

3. http://www.obrascatolicas.com/livros/Liturgia/A_reforma_ da_liturgia_romana__.pdf. As demais citações de Mons. Gamber ao longo do artigo, provém dessa obra. 

4. “Considérations sur la reforme liturgique”, texto lido com ocasião do Congresso Litúrgico de Fontgombault, 22- 24 de julho de 2001, en presença do Cardeal Joseph Ratzinger. 

5. Cfr. La Croix, 28 de abril de 1999, p. 19. 

6. Demain la liturgie – Essai sur l’évolution des assemblées chrétiennes, Cerf, 1979, in Cristophe Geoffroy et Philippe Maxence, Enquête sur la mese traditionnelle, La Nef hors série n° 6, pp. 51-52. 

7. Essas declarações do Cardeal Stickler apareceram pela primeira vez na revista americana The Latin Mass e foram reproduzidas pela revista francesa La Nef, no número 53 de setembro de 1995. 

8. https://www.facebook.com/169949476400642/ posts/4383320898396791/ 

9. https://catolicismo.com.br/Acervo/Num/0280/P01.html 

10. Obras de Francisco de Vitoria, p. 487. 

11. https://catolicismo.com.br/Acervo/Num/0280/P01.html

19 de maio de 2021

AUTODEMOLIÇÃO DA IGREJA

 

Dom Pedro Casaldáliga,
na foto ainda Bispo de São Félix do Araguaia (MT).
 Durante décadas foi um dos principais expoentes
 da esquerda católica no Brasil.
Tão radical nas suas posições igualitárias,
que até chinelo ele considerava causa de sujeição

✅ Plinio Corrêa de Oliveira


Atingir os objetivos do modo mais completo, rápido e direto possível, eis a preocupação de todo homem sério e sensato. Assim convencidos, os comunistas visaram extirpar a Religião pelos métodos mais violentos e diretos, pondo sua seriedade e sensatez operacionais ao inteiro serviço de seus objetivos errôneos e iníquos.

Alguns passos dados nessa direção, no entanto, os convenceram rapidamente de que desta forma chegariam a um resultado oposto, pois as convicções religiosas da esmagadora maioria dos russos, traumatizados pela violência dos sem-Deus, se transformaram desde logo num formidável potencial de descontentamento. Para os soviéticos, importava no mais alto grau evitar que tal acontecesse, e assim o objetivo da política por eles seguida tomou um matiz peculiar, que se acentuaria cada vez mais no curso dos acontecimentos.







Para arrancar a fé da alma popular, a mão brutal e estúpida do sem-Deus é incomparavelmente menos eficiente do que a mão ungida, macia e jeitosa do mau bispo, do mau padre, da freira degradada. Paralelamente, ninguém é mais eficiente para a propaganda do comunismo do que as pessoas consagradas a Cristo, quando se entregam à prevaricação. Se a Passionária e Ana Pauker [fotos ao lado] tivessem tido a esperteza de se fazerem freiras, por exemplo, teriam sido incomparavelmente mais úteis ao comunismo do que no papel de viragos vermelhas. 

Uma vez assentado que o futuro do ateísmo estaria na autodemolição da Igreja, os supremos senhores do comunismo só tinham diante de si um problema: como detectar ou ‘fabricar’ os bispos, os padres, os monges e as freiras que se incumbissem do sinistro mister de matar a Jesus Cristo nas almas. Daí as investigações policiais jeitosas e contatos discretos com poltrões ou ambiciosos, com que detectaram e prepararam logo os agentes da autodemolição. 
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Excertos do artigo de Plinio Corrêa de Oliveira publicado na “Folha de S. Paulo” em 26-9-1971.

11 de janeiro de 2021

RETROSPECTO — Pânico do contágio, perseguição à Igreja, República Universal


O vírus chinês espalhou pânico, caos no mundo e perseguição à Igreja. A grande ameaça à Civilização pela implantação de um tirânico governo mundial visando o domínio das mentes e das nações, assim como subjugar a Religião Católica aproveitando da infidelidade de certas autoridades eclesiásticas que colaboram com a autodemolição da Igreja. 


✅  Fonte: Revista Catolicismo, Nº 841, Janeiro/2021 

2020 poderá ser estigmatizado como o ano pandêmico. O novo coronavírus oriundo da China comunista se disseminou pelo mundo inteiro, causando enfermidades e mortes em todos os países.

Por meio da mídia com suas notícias poluidoras, muitas delas distorcidas, espalhou-se por todos os continentes o pânico em relação ao vírus. Muitos especialistas consideram que o pânico coletivo foi pior que a própria doença, pois provocou incontáveis traumas psicológicos. Portadores de outras doenças, com receio de serem contaminadas pelo vírus, deixaram de fazer seus exames médicos rotineiros e de procurar clínicas e hospitais para tratar de suas enfermidades (cânceres, problemas pulmonares, cardíacos etc.). Poderiam ser curadas, se dedicassem aos seus males a atenção habitual, contudo muitas acabaram morrendo... por medo de morrer. 

Drásticas medidas de distanciamento social geraram desemprego e muita pobreza em numerosas regiões. Houve também os que se enriqueceram, e muitos outros que continuarão a enriquecer em decorrência de todo esse processo. 

Enquanto a atenção mundial era focada principalmente nos aspectos práticos para debelar a pandemia, em certos setores dirigentes mundiais estudava-se como aplicar o pânico da pandemia para conseguir o domínio das mentes e das nações, com a implantação de um governo mundial despótico — ‘República Universal’, ou ‘Nova Ordem Mundial’, que poderia ser a meta final. No Fórum Econômico Mundial falou-se claramente no ‘Great Reset’. Seria um grande reinício do mundo após a covid-19, onde uma “nova humanidade” viveria de modo subconsumista, ecológico, em novo ‘formato’ globalizado de regime comunista.


Subindo a um patamar espiritual, malefícios atingiram não só os corpos, mas também as almas. Os ditatoriais decretos de lockdown (com o mantra ‘fique em casa’), resultaram em igrejas fechadas com a anuência, e mesmo complacência, de autoridades eclesiásticas. Assim foi negada a assistência religiosa aos fiéis católicos, abandonados num momento em que mais necessitavam — mais um triste exemplo do processo de autodemolição da Igreja.

Essa pandemia de pânico — que certamente será lembrada por muitas décadas como um verdadeiro pandemônio — é um dos temas principais da matéria de capa da revista Catolicismo deste mês [capa acima], que, como de costume, publica como retrospectiva do ano findo. 

Neste novo ano, quando parece estar próximo também o final desse pesadelo de pânico, devemos voltar nossas almas a Deus e curvar-nos aos seus Mandamentos, com o que obteremos dias melhores, mesmo que sejam mais árduos. Desejamos a todos os leitores, e às suas respectivas famílias, um novo ano com muitas graças de Deus e da Virgem Santíssima.

31 de maio de 2020

31 de Maio — Dia de Nossa Senhora Rainha

➤  Paulo Roberto Campos

Rainha dos Homens, Rainha dos Anjos, Rainha da Terra, Rainha do Céu, Rainha da Igreja, Rainha do Brasil, Rainha dos Corações etc. São títulos que homenageiam Nossa Senhora uma vez que Ela é Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo e Rei dos Reis. 

Entretanto, em nossos tristes dias, poder-se-ia afirmar que Ela é uma Rainha Destronada. — Por quê?

Respondo com uma pergunta: A atual situação nacional e mundial não entristece a Santíssima Virgem? Certamente, nenhum católico ousaria dizer que não A entristece. Pior ainda: A catastrófica situação da Santa Igreja... Para dar apenas um exemplo: a crise verdadeiramente apocalíptica na Igreja, devido à autodemolição promovida pelo progressismo, dito católico, à cargo de altas figuras do clero esquerdista. 

Quase tudo no mundo moderno colabora para destronar a melhor de todas as Rainhas. Ela é ultrajada por seus inimigos e até abandonada por seus filhos. E por isso Nossa Senhora chora! 

Neste dia em que celebramos, segundo o calendário tradicional, Nossa Senhora Rainha, é uma boa ocasião para pedirmos a graça da total fidelidade a Ela e de não permanecermos indiferentes às Suas lágrimas. Ocasião também para fazermos um compromisso de atuar ainda mais para restabelecê-La no Trono de glória, para que Ela volte a ser coroada, e efetivamente seja Rainha de todas as nações ainda em nossos dias. 

Nesse sentido, transcrevo trecho de uma conferência de Plinio Corrêa de Oliveira (em 26-2-1966), durante a qual ele concebeu uma antológica e inesquecível metáfora: 


“Nossa Senhora é como uma Rainha que está sentada no seu trono. A sala está cheia de inimigos. Os inimigos já arrancaram-lhe o dossel; já tiraram da sua fronte veneranda a coroa de glória a que Ela tem direito; já lhe arrancaram das mãos o cetro. Ela está amarrada para ser morta. 

Dentro dessa sala cheia de gente poderosa, armada, influente — todos diante da Rainha que não faz outra coisa senão chorar —, há também um pugilo de fiéis, e Ela evidentemente olha para tais fiéis. Assim, ou este olhar faz em nós o que o olhar de Jesus fez em São Pedro, ou não há mais nada para dizer…  

A Rainha vai ser arrancada do trono. Pergunta-se o que nós vamos fazer? Nesta hora deste olhar, isso não me interessa? Este olhar não me sensibiliza?  

Poder-se-ia então perguntar: quem sou eu? Eu sou o homem para quem Nossa Senhora olhou!  

Mas serei o homem a quem Ela terá olhado em vão?”

29 de outubro de 2019

“Todos os deuses dos pagãos são demônios”


Em Roma, durante o Sínodo Pan-Amazônico, Deus e a Santíssima Virgem Maria foram substituídos por ídolos pagãos em algumas celebrações 


➤  Paulo Roberto Campos
Fonte: Revista Catolicismo, Nº 827, Novembro/2019. 

O mundo católico se estarreceu com a “cerimônia” realizada nos jardins do Vaticano, na véspera da abertura do Sínodo Pan-Amazônico, pois se tratou de um ritual indígena de magias para obter curas e outros favores, invocando poderes preternaturais. Muitos a classificaram de “pajelança”, com algumas agravantes: 

Foi realizada na presença do Papa Francisco e de Dom Claudio Hummes, relator-geral do Sínodo e presidente da Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM), além de alguns cardeais, bispos e eclesiásticos. 

Em vez de uma cerimônia religiosa, que poderia ser uma procissão conduzindo uma reprodução da imagem de Nossa Senhora de Guadalupe, tão ligada à conversão dos indígenas, levaram sobre uma canoa, à maneira de um andor utilizado em procissões, uma “adaptação amazônica com traços afros” da imagem que foi denominada pachamama (a “mãe terra”) — divindade cultuada por certas tribos indígenas, sobretudo da região dos Andes, e que mais recentemente está sendo cultuada também por ecologistas radicais; num ato de idolatria, alguns se prosternaram diante da efígie pagã. 



Idolatria na Cidade Eterna 

Antes inimaginável, tal afronta à Santíssima Virgem, destronada e preterida por uma estátua imoral e demoníaca, foi praticada nos jardins do Vaticano. Em seguida ela foi levada sobre os ombros, “em procissão”, à Basílica de São Pedro e a outras igrejas de Roma, enquanto idólatras dançavam e entoavam cânticos fetichistas intercalados com hinos religiosos. Como se essa abominação não bastasse, uma estampa desse ídolo pagão foi colocada no auditório onde se reúnem os padres sinodais. 

No contexto do Sínodo, as ruas próximas ao Vaticano presenciaram também uma paródia da Via Sacra, na manhã do dia 18 de outubro, denominada Via Crucis Amazônica [foto acima]. Exaltou em suas 14 estações equivocados “direitos humanos”, incitou à luta de classes e de raças, e criticou os “abusos da colonização”. Seu encerramento se deu na Praça de São Pedro, com pessoas prosternadas diante da pachamama. Desse evento, sempre com a presença da escultura idolátrica, participaram índios, bispos, sacerdotes e religiosos. Também estiveram presentes Dom Pedro Ricardo Barreto Jimeno, SJ, arcebispo de Huancayo (Peru) e vice-presidente da REPAM. De uma dança dos aborígines, chegou a participar Dom Roque Paloschi, Arcebispo de Porto Velho, presidente do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), enquanto os índios cantavam, tocavam seus instrumentos musicais primitivos e incensavam os presentes (com a “fumaça de Satanás”). 

À vista dessas irreverências e profanações, nunca é demais relembrar o que está contido na Sagrada Escritura (Salmos 95, 5): “Omnes dii gentium dæmonia” – todos os deuses dos pagãos são demônios. 

Reações justas e necessárias 

Nos jardins do Vaticano, prosternados cultuando a Pachamama 
As “pajelanças” nos jardins do Vaticano, e também diante do Santíssimo Sacramento em igrejas romanas, provocaram viva indignação e justa reação de movimentos e fiéis católicos do mundo inteiro. 

O site LifeSiteNews organizou um abaixo-assinado pedindo ao Vaticano que a Igreja impeça tais atos e faça respeitar o Primeiro Mandamento da Lei Divina: “Eu sou o Senhor, teu Deus [...]. Não terás outros deuses diante de minha face” (Êxodo 20, 2-3). A petição exigia a remoção das imagens da pachamama e outros objetos sincréticos que foram introduzidos em templos católicos de Roma, pois isso confunde os fiéis e os induz ao erro. 

O cacique da etnia Macuxi, Jonas Marcolino, disse ter tomado conhecimento da referida “pajelança”, e observou que, sem dúvida alguma, tratou-se de um ato pagão com todas as características de rituais indígenas da região amazônica. 

Do clero brasileiro, uma reação enérgica foi do bispo emérito de Marajó (PA), Dom José Luiz Azcona, que se manifestou indignado com as “figuras nuas esculpidas de mulheres indígenas grávidas, que aparecem repetidamente no Sínodo da Amazônia e em eventos organizados pela ‘Amazônia Casa Comum’ e pela REPAM”. Classificou as liturgias sincretistas de “motivo de escândalo para toda a Igreja” (cf. LifeSiteNews, 21-10-19).


As três imagens sendo jogadas no rio Tibre
Refletindo a mesma indignação, nas primeiras horas da manhã de 21 de outubro alguns católicos entraram na igreja de Santa Maria em Traspontina, nas proximidades do Vaticano, e retiraram as três estátuas da pachamama que lá estavam expostas num altar. Caminharam em seguida até a histórica Ponte Sant’Angelo, de onde as lançaram no rio Tibre. Os autores se declararam agredidos em sua fé por aqueles objetos anticatólicos, por isso não poderiam ficar indiferentes. 

Foram inúmeros nas redes sociais os comentários elogiosos a esse gesto, corajoso e sumamente simbólico. Muitos comparam a bela atitude de seus autores com a cólera de Nosso Senhor Jesus Cristo, expulsando com um chicote os vendilhões que conspurcavam o lugar santo que era o Templo: “Está escrito: A minha casa é casa de oração! Mas vós a fizestes um covil de ladrões” (Lc 19, 45-46). Um jovem católico comentou: “Eu sou da Amazônia (Belém, PA), e digo com toda autoridade: católicos da Amazônia estão comemorando a destruição do ídolo pagão de ‘pachamama’. Na Amazônia, temos apenas uma rainha: Nossa Senhora de Nazaré, o horror dos pagãos”

Indispensável reparação 

Os ídolos expostos num altar a igreja de Sta. Maria em Traspontina
A fim de se abafar as incontáveis reações, alguns prelados tentaram impingir reinterpretações contraditórias para a imagem da pachamama, como sendo apenas um “símbolo da vida, da fertilidade e da mãe terra”. Por exemplo, Paolo Ruffini, Prefeito do Dicastério para a Comunicação do Vaticano, disse numa conferência de imprensa que a imagem poderia, entre outras coisas, ser da Virgem Maria. Ninguém acreditou nem aceitou, pois não se sabe o que é pior: a exaltação de uma imagem nua representando Nossa Senhora (um grave ultraje blasfemo contra Ela) ou a idolatria ao ídolo! O próprio Vaticano desmentiu essa reinterpretação de Paolo Ruffini, mas não conseguiu apresentar outra.

Agindo de modo oposto ao dos grandes missionários Nóbrega e Anchieta, a quem o Brasil católico deve seu glorioso passado, os missionários progressistas adeptos da eco-teologia pleiteiam o abandono da ideia de conversão religiosa dos índios, para que se mantenham no paganismo, com seus costumes primitivos, idolatrando ídolos diabólicos, acreditando em superstições e magias dos espíritos malignos, praticando rituais de feitiçarias, canibalismo, infanticídio etc. 


Devemos nos empenhar para oferecer a Deus e à Virgem Santíssima reparação pelos ultrajes desses rituais pagãos. Melhor ainda, empreender todos os esforços para reduzir ao mais completo fracasso o projeto de manter os indígenas em seus costumes primitivos e nos cultos pagãos. Não podemos também admitir a introdução de práticas e rituais do paganismo aborígine mesclados na liturgia católica.

Diante dessa terrível apostasia de uma igreja nova “com o rosto amazônico”, vem a propósito a indagação contida em artigo de Plinio Corrêa de Oliveira na “Folha de S. Paulo”, em 5 de janeiro de 1975, sob o título Quem ainda é católico na Igreja Católica?: “Uma pergunta que, também a propósito da conduta face ao comunismo e de diversos outros assuntos, pode ser feita: quem ainda é católico apostólico romano dentro desse imenso magma de 600 milhões de pessoas — cardeais, bispos, sacerdotes, religiosos e leigos — habitualmente tidos como membros da única e imperecível Igreja de Deus?”.

Conciliábulo da Pachamama e da Eco-Teologia da Tribalização

Paulo Roberto Campos

Ontem se encerrou o Sínodo Pan-Amazônico, que poderia ser denominado como CONCILIÁBULO da Pachamama e da Eco-Teologia da Tribalização. Haverá hoje em Roma atos de reparação nas igrejas que foram profanadas pelos blasfemos cultos de ídolos? E amanhã tais igrejas serão purificadas? E depois elas serão reconsagradas ao culto do verdadeiro Deus?

Se a idolatrada escultura de madeira era ou não da Pachamama pouco importa, o que importa é que tal escultura foi reverenciada como um ídolo dentro de igrejas católicas, carregada como em procissão religiosa e presente num arremedo de Via Sacra por ruas próximas da Praça de São Pedro. Se alguém tem alguma dúvida, os vídeos e as fotos abundam pela internet. 


Na missa de encerramento de tal Conciliábulo, para não espantar ainda mais os autênticos católicos — já por demais chocados com os cultos idolátricos nas igrejas romanas — os organizadores não levaram as esculturas pagãs da Pachamama. Estas, depois de terem sido jogadas no rio Tibre, recuperadas e levadas para serem adoradas na Igreja de Santa Maria em Traspontina [foto ao lado], foram colocadas no auditório onde se reuniam os padres sinodais. Entretanto, esses organizadores fizeram com que o Papa Francisco levasse em seu báculo, encimado por um Cruz, uma outra imagem pagã [foto abaixo - clik para ampliá-la]. 


Ainda que não se realizem naquelas igrejas romanas os indispensáveis atos de desagravo, particularmente façamos nós, dirigindo nossas súplicas a Deus e à Sua Santa Mãe, gravemente ofendidos por aqueles rituais. Peçamos-Lhes que reduzam ao mais completo fracasso o nefasto projeto de não mais se converter os indígenas, e, pior ainda, de se introduzir nos hábitos da Igreja Católica tais rituais pagãos.

5 de outubro de 2019

Neopaganismo comuno-tribal na nova prática missionária

Foto: Ricardo Stuckert / ABr
A denúncia feita há 42 anos no livro "Tribalismo Indígena – Ideal comuno-missionário para o Brasil no século XXI",[1] de Plinio Corrêa de Oliveira, está claramente confirmada pela ecologia indigenista projetada pelo Sínodo Pan-Amazônico. Esse livro constituiu uma barreira à propagação das ideias de missionários progressistas que desfiguram o ideal de civilização cristã.

  ➤  Paulo Roberto Campos 
Fonte: Revista Catolicismo, Nº 826, Outubro/2019

Autodemolição da Igreja! Expressão forte, mas muito apropriada para qualificar os objetivos do Sínodo Pan-Amazônico que se realiza neste mês em Roma. 

Em edições anteriores, Catolicismo publicou importantes comentários sobre as ideias incluídas como temas da assembleia de bispos da região amazônica. São as mesmas ideias impregnadas pelos gases pestíferos da “Teologia da Libertação” com que já trabalhavam muitos missionários, adquiridas durante a formação comuno-estruturalista em seminários, propugnadas hoje pelos eclesiásticos progressistas que defendem uma igreja místico-tribal-ecológica com rosto amazônico e indígena. 

Em artigo intitulado Amazônia, o rosto ecológico de Deus (“O Globo”, 31-8-19), Frei Betto mostra os objetivos: 
“A Igreja tem consciência de que, se agora defende a causa indígena, pela qual há tantos mártires, por outro lado ainda não se libertou da influência do projeto colonizador que vigorou no passado. O Sínodo [da Amazônia] busca justamente implantar uma Igreja pós-colonial e solidária, com rosto amazônico e indígena. Para a Igreja, a região é muito mais do que um lugar geográfico; é também um lugar teológico, no qual transparece a face de Deus criador [...]. Os povos indígenas guardam ainda uma sintonia holística com o Cosmo. Seus sentidos aguçados estabelecem um diálogo permanente com a natureza”. 

Criar uma nova forma de igreja 

Engolfando-se nessas mesmas ideias delirantes, outro “teólogo da libertação”, o ex-frade franciscano Leonardo Boff — coautor da encíclica Laudato Si, do Papa Francisco, a respeito de questões ecológicas — afirma em entrevista publicada no site da “Unisinos” (6-9-19):[2] 
“Eles [os indígenas] conhecem o ritmo da floresta, sabem como preservá-la. Eles são nossos mestres e doutores, não os cientistas que têm uma visão de fora [...]. Existe o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), que há 30 a 40 anos realiza um trabalho sistemático para a proteção dos povos indígenas. O documento do Sínodo Pan-Amazônico faz outro discurso. Não se trata de converter as culturas, mas de fazer a evangelização nas culturas, para que possa surgir uma igreja com rosto indígena. Nesse sentido, pensa-se na ordenação de padres indígenas para criar essa nova forma de igreja que não seja simplesmente a adaptação das igrejas europeias [...]. O Papa Francisco tem uma imensa liberdade interior e coragem para abrir novos caminhos. Eu acredito que serão consagrados verdadeiros presbíteros indígenas. Apoio o Bispo Erwin Kräutler, amigo do Papa, que também defende ordenar as mulheres”. 
Em ambas as declarações, vemos a contestação à ação missionária da Igreja, que tudo fazia para salvar os índios, proporcionando-lhes bens espirituais e materiais e levando-lhes a boa-nova do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. Nessas declarações, nota-se também a diferença em relação à ação colonizadora europeia para estabelecer a Cristandade, pois visavam à civilização e conversão de nossos irmãos indígenas. Catequizando-os, iam pouco a pouco, entre outros benefícios, extirpando a barbárie, o canibalismo, as superstições, o paganismo e o infanticídio, prática comum em várias tribos. 

Esses dois expoentes da “esquerda católica” promovem o contrário do que buscavam os missionários tradicionais, pois “não se trata de converter”, nem de transmitir aos silvícolas o ensinamento católico. Pelo contrário, nós é que devemos assimilar o que eles, “nossos mestres e doutores”, têm a nos ensinar. Para os missionários “atualizados”, o homem civilizado não é modelo para os selvagens, estes é que devem ser modelos para todo o mundo ocidental e cristão. Ambos apresentam uma visão panteísta da vida selvagem, como que identificando Deus com a própria natureza ecológica. Em suma, os novos missionários não devem mais catequizar os aborígines, mas assumir seus costumes tribais e seus cultos fetichistas.

Não se esboça nisso a criação de uma nova religião? Outro conceito que indica a tendência neste sentido é a proposta de ordenação sacerdotal de índios casados e de mulheres. 

Não menos importantes que essas declarações são as de um dos principais organizadores do Sínodo da Amazônia, D. Pedro Ricardo Barreto Jimeno, SJ, arcebispo de Huancayo (Peru), cuja recente ascensão ao cardinalato e ao cargo de vice-presidente da REPAM (Rede Eclesial Pan-Amazônica) revela a extensão dos objetivos do atual Sínodo e o açodamento em realizá-los: 
“Os índios vivem o dia e não fazem planos nem para a próxima semana. Outro ponto é o seu tratamento igualitário. Não há diferenças. Eu aprendo muito com eles e continuo a aprender. Sua cultura, sua sabedoria mostrou uma transcendência que para mim era Deus.” Invertendo a condição dos missionários, sustenta que a Igreja não deveria evangelizar os índios, mas sim aprender com eles: “São os índios que devem nos ensinar tantas coisas.” As lições aprendidas com os indígenas da Amazônia representarão um impulso para uma profunda reforma na Igreja: “Devemos definitivamente apoiar a reforma da Igreja. Agora ou nunca!”. 
Dom Tomás Balduíno, falecido Bispo de Goiás Velho, ostentando
um cocar, prega os “valores evangélicos” que, segundo ele, inspiram
a cultura dos índios.

O pseudo-evangelho de D. Balduíno

“Só temos a aprender com os índios” – diz o Pe. Egydio Schwade,
assessor do CIMI. Os Jíbaros eram temidos porque matavam todos aqueles
que ousassem entrar em seus domínios. E depois, com uma técnica especial,
reduziam a proporções diminutas as cabeças de suas vítimas.
Os neomissionários progressistas, como vemos, estão requentando os erros doutrinários defendidos há décadas por alguns próceres da “esquerda católica” e do indigenismo tribalista, como o antigo bispo de Goiás, D. Tomás Balduíno (1922-2014), um dos fundadores do CIMI (Conselho Indigenista Missionário) e da CPT (Comissão Pastoral da Terra). Entre numerosas apologias da vida tribal e de críticas aos missionários tradicionais, ele declarou:


“Hoje a atividade missionária descobre na cultura indígena valores evangélicos, de tal forma que o índio não só é evangelizado, mas também é capaz de nos evangelizar [...]. A evangelização é capaz de descobrir a presença de Cristo no grupo tribal, o qual vive de maneira mais cristã do que nós, com o nosso batismo e com a nossa prática religiosa. Sem professar o nome de Cristo, os aborígines vivem muito mais na plenitude de vivência anunciada pelo Cristo”.[3] 

A descoberta da América – um crime 

D. Pedro Casaldáliga, Bispo de São Félix do Araguaia,
em trajes episcopais “aggiornati”: por “báculo”, um remo;
por “mitra”, um chapéu de palha; e “estola”.
Para ele, “Anchieta foi até certo ponto transmissor
de um evangelho colonizador. A lgreja deve se penitenciar”.
Ideias extravagantes como essas, renegando o Evangelho, também foram defendidas pelo hoje nonagenário D. Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix do Araguaia (MT), um dos criadores das CEBs (Comunidades Eclesiais de Base) e propulsor do MST. Ele ficou conhecido por não usar os trajes próprios de prelado: em vez da mitra, chapéu de palha; no lugar do báculo, um remo. Não usa anel de ouro, mas de tucum. Assim se chama uma árvore nativa da Amazônia, com cuja semente se faz o “anel de tucum” — símbolo dos propagadores do Sínodo da Amazônia. Em sua autobiografia, D. Casaldáliga escreveu: 
“Acabei, por fim, de entender, e até de sentir, toda a ganga de superioridade racista, de domínio endeusado e de exploração inumana com que foram descobertos, colonizados, e, muitas vezes, evangelizados os novos mundos. ‘Colonizar’ e ‘civilizar’ já deixaram de ser para mim verbos humanos. Como não o são, aqui onde vivo e sofro, as novas fórmulas colonizadoras de ‘pacificar’ e ‘integrar’ os índios. Imperialismo, colonialismo e capitalismo merecem, no meu ‘credo’, o mesmo anátema. Repugnam-me os monumentos aos descobridores e aos bandeirantes”.[4] 
Na declaração acima, D. Casaldáliga deixa entender que no seu “credo” não há anátema ao comunismo. Além da crítica aos heróicos descobridores e bandeirantes, ele censura severamente a admirável obra evangelizadora de santos e missionários; como, por exemplo, a de São José de Anchieta, Apóstolo do Brasil: 
“Anchieta foi até certo ponto um transmissor de um evangelho colonizador. A Igreja deve se penitenciar [...]. É evidente que a descoberta da América foi em muitos aspectos um crime colonialista. E que a evangelização tem sido excessivamente vinculada a uma cultura e, por isto mesmo, a um domínio”.[5] 

Sínodo Pan-Amazônico: recauchutagem de ideias retrógadas 

D. Balduíno já faleceu; D. Casaldáliga está muito idoso e doente; mas em pleno século XXI outros adeptos da “Teologia da Libertação” continuam com os mesmos delírios da missiologia comunista. Hoje alguns dos motivadores do Sínodo Pan-Amazônico estão recauchutando o velho projeto de imobilizar o índio na vida tribal, panteísta, comunistoide, igualitária e sem propriedade privada, como o faz o arcebispo peruano D. Pedro Barreto. E apresentam tal “estilo de vida” como modelo para a sociedade, e também para macular o glorioso passado missionário da Igreja. 

Esse projeto foi denunciado por Plinio Corrêa de Oliveira [foto ao lado] há quatro décadas. O Sínodo ora em andamento pretende reanimá-lo, não somente com vistas a manter os silvícolas estagnados no tribalismo primitivista e pagão, mas também para apresentar tal estilo de vida como ideal para a sociedade dita “civilizada”. Exatamente o que o Prof. Plinio refutou cabalmente em 1977, em seu livro Tribalismo Indígena – Ideal comuno-missionário para o Brasil no século XXI. O documento de trabalho (Instrumentum laboris) do Sínodo Pan-Amazônico confirma tais objetivos.

Esse livro foi classificado por alguns como profético e irrefutável. Profético, pois há 42 anos prognosticou precisamente o que hoje está acontecendo; irrefutável porque, seriamente documentado, não deixa margem para réplica. A íntegra dessa obra encontra-se disponível no seguinte link: https://www.pliniocorreadeoliveira.info/Tribalismo_last_corre%C3%A7%C3%A3o.pdf 

Sínodo Pan-Amazônico – os “Estados Gerais” de uma revolução 

No livro Tribalismo Indígena, os novos missionários progressistas são classificados por Plinio Corrêa de Oliveira como “missionários aggiornati” (do italiano giorno, dia), no sentido do missionário modernista da Igreja-Nova, pós-conciliar. Os textos das próximas páginas podem ser aplicados inteiramente aos atuais propugnadores do Sínodo da Amazônia, que se utilizam da questão indígena como pretexto para contestar uma sociedade “austera e hierárquica, fundamentalmente sacral, anti-igualitária e antiliberal”,[6] solidamente fundamentada no magistério tradicional da Santa Igreja Católica. 

Na França de 1789, a convocação da Assembleia dos Estados Gerais (clero, nobreza e povo) pelo Rei Luís XVI precedeu a Revolução Francesa, que derrubou a monarquia e deu início a um estado de coisas caótico, o qual foi se acentuando até os nossos dias. Da mesma forma, deve-se temer que a atual Assembleia Pan-Amazônica — devido às suas gravíssimas consequências para todo o mundo católico — se transforme nos Estados Gerais da Igreja, com vistas a derrubar a sua estrutura monárquica. É o que se poderia deduzir das seguintes palavras do Papa Francisco: “O Vaticano como forma de governo, a Cúria, o que seja, é a última corte europeia de uma monarquia absoluta. A última. As demais já são monarquias constitucionais, a corte se dilui, mas aqui há estruturas de corte que têm que cair”.[7]

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Notas: 
1. Em janeiro de 1978, sócios e cooperadores da TFP saíram em caravanas de propaganda do livro Tribalismo Indígena – Ideal Comuno-Missionário para o Brasil no Século XXI. Percorreram 2.963 cidades em todos os quadrantes do Brasil. Em nove edições sucessivas, a tiragem alcançou 82 mil exemplares, sem incluir a publicação em Catolicismo (edição de novembro/dezembro de 1977). A mais recente reedição da obra, em 2008, contém o acréscimo de uma segunda parte, na qual os jornalistas Paulo Henrique Chaves e Nelson Ramos Barretto narram visita que fizeram à reserva Raposa-Serra do Sol (Roraima), e o que pesquisaram em Mato Grosso e em Santa Catarina sobre a questão indígena no Brasil. Este acréscimo comemorativo tem por título: 30 anos depois – Ofensiva radical para levar à fragmentação social e política da nação. Confirma inteiramente as teses sustentadas pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 1977. 
2. http://www.ihu.unisinos.br/592363-o-futuro-da-humanidade-e-da-terra-esta-ligado-ao-futuro-da-amazonia-entrevista-com-leonardo-boff 
3. Índio ensina ao branco os valores cristãos – entrevista de D. Tomás Balduíno ao semanário “Opinião”, apud “CIC – Centro Informativo Católico”, Vozes, Petrópolis, ano XXV, nº 1279, 22 de fevereiro de 1977. 
4. Yo creo en la justicia y en la esperanza! – Desclée de Brouwer, Bilbao, Espanha, 1976, p. 176. 
5. “De Fato”, Belo Horizonte, ano I, nº 6, setembro de 1976. 
6. Revolução e Contra-Revolução, Artpress, S. Paulo, 4ª edição em português, 1998, Parte II, Cap. II, 1. 
7.https://www.vaticannews.va/es/papa/news/2019-05/papa-francisco-entrevista-televisa-mexico-migrantes-feminicidio.html