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8 de setembro de 2025

BRASIL SOB ESPECIAL PROTEÇÃO DE SÃO MIGUEL ARCANJO

 


    ✅ Oscar Vidal

Em sessão solene no Congresso Nacional, um fato simbólico, transcendental e surpreendente: consagração do Brasil a São Miguel Arcanjo. 

No dia 12 de agosto, no plenário da Câmara dos Deputados, na presença de autoridades civis, militares e eclesiásticas, a imagem peregrina oficial do Arcanjo — proveniente do santuário do Monte Gargano, na Itália — foi coroada e aclamada como máximo “Comandante Espiritual da Nação Brasileira”. A coroa foi levada pelo Pe. Reni Nogueira dos Santos, capelão do Comando Militar do Sudeste. 

Dom Devair Araújo Fonseca, Bispo de Piracicaba, dirigiu a consagração e a súplica pedindo a São Miguel que assumisse a defesa do Brasil. 

A deputada Simone Marquetto (MDB-SP), promotora da cerimônia, recordou que o País teve como início a celebração de uma Missa e que precisamos de uma restauração da fé católica nos espaços públicos. Ela ofereceu uma espada à imagem de São Miguel, como símbolo de sua defesa aos brasileiros, afirmando: “Com essa espada, símbolo da autoridade e da justiça, confiamos a vós a guarda do Brasil, para que se erga contra as forças do mal e seja luz entre as nações.” 

A Irmã Maria Raquel, uma das fundadoras do Instituto Hesed, comovida, disse: “Isto não é teatro, mas um gesto concreto que marcará a história do Brasil. É o socorro do Céu que vem em nosso auxílio.” 

Na mesma sessão houve a entrada, com honras militares, de uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, como “Rainha, Padroeira e Generalíssima do Brasil”, como também com honras militares foi a entrada triunfal da imagem do Arcanjo. 

Foto: Kayo Magalhães / Câmara dos Deputados



Para aqueles que desejarem se consagrar ao Arcanjo São Miguel, individualmente ou em família, segue uma breve fórmula de consagração escrita pelo seu grande devoto São Francisco de Sales, Doutor da Igreja. 

Esse Arcanjo é o Príncipe da Milícia Celeste. Ele pode nos proteger contra as ações dos espíritos malignos que continuamente agem para perder as almas, sobretudo se rezarmos pedindo a intercessão da Santíssima Virgem, Rainha da Corte Celeste, que recebeu de Deus o poder e a missão de esmagar a cabeça da serpente infernal. 



CONSAGRAÇÃO A SÃO MIGUEL ARCANJO 


Ó grande Príncipe do Céu, fidelíssimo guardião da Igreja, São Miguel Arcanjo, eu, embora muito indigno de aparecer diante de vós, cheio de confiança em vossa bondade e em vossa poderosa proteção, apresento-me e me consagro a vós. 

Coloco-me a mim mesmo, a minha família e tudo o que me pertence sob a vossa proteção poderosa. É pequena a oferta que vos faço, sendo eu miserável pecador, mas vós enalteceis o afeto do meu coração. Lembrai-vos que, doravante, estou debaixo do vosso patrocínio; deveis assistir-me em toda a minha vida e obter-me o perdão dos meus muitos e graves pecados, a graça de amar de todo o coração o meu Deus, o meu dulcíssimo Salvador Jesus Cristo, e a minha Mãe Maria Santíssima. 

Obtende-me aqueles auxílios que me são necessários para alcançar a coroa da eterna glória. Defendei-me dos inimigos da alma, especialmente na hora da morte. Vinde então, ó príncipe gloriosíssimo, assisti-me na última luta, e com a vossa arma poderosa, lançai para longe, precipitando nos abismos do inferno, aquele anjo quebrador de promessas e soberbo que um dia prostrastes no combate no Céu. 

São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate, para que não pereçamos no dia do juízo. 

Amém!

8 de março de 2025

Símbolo da vitória de Nossa Senhora contra o demônio

✅  Plinio Corrêa de Oliveira 

Neste confuso e dramático século, o comunismo internacional ameaça desferir contra toda a humanidade o seu assalto supremo. 

Expressão requintada do orgulho e da sensualidade do homem, o comunismo é uma versão terrena da revolta de Satanás e de seus anjos. 

Com uma habilidade diabólica, procura a propaganda comunista iludir e atrair os ingênuos e os incautos, a fim de os engajar na imensa revolução vermelha, cujo espírito se resume no non serviam de Lúcifer. 

Mesmo que todos os recursos faltem aos que se opõem ao comunismo, a Mãe de Deus não os abandonará. E por Ela serão conduzidos à vitória. Pois contra Ela nada consegue o Poder das Trevas. 
O clérigo Teófilo — conta o Miracle de Théophile — fora embaído pelo demônio, a quem se entregou por meio de um pacto escrito. Porém, caindo em si, recorreu à Mãe de Deus, que impôs ao Maligno restituísse o documento e renunciasse ao poder que adquirira sobre o infeliz. 

No grupo em relevo (tímpano da Catedral de Notre-Dame de Paris) se vê a Virgem Santíssima que, empunhando um gládio, defende Teófilo contra o demônio. Símbolo expressivo da vitória incontrastável de Nossa Senhora sobre toda forma de mal.


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Texto da contra-capa do livro de Plinio Corrêa de Oliveira, Baldeação ideológica inadvertida e Diálogo (1966), Editora Vera Cruz Ltda, 5ª edição, São Paulo, julho de 1974.

28 de setembro de 2024

ANJOS ARCABUZEIROS



✅  Plinio Corrêa de Oliveira

Na sua expressão mais exata, esse anjo arcabuzeiro assemelha-se a um gentil-homem segundo o estilo dos guerreiros em partes dos séculos XVII e XVIII, sobretudo na época de Luís XIV. 

Esse anjo aparece como um guerreiro vestido com muito donaire, mas que deixa transparecer a sua natureza angélica e qualquer coisa de luminoso que há dentro dele. Sua leveza provoca a impressão de que a ação da gravidade não pesa sobre ele, e que, quando marcha, vai de um lugar para outro com o passo tão leve como o de um passarinho andando no chão entre dois voos. 

Nas pinturas de anjos bélicos, o “anjo arcabuzeiro” é representado com um arcabuz, em vez da espada tradicional, trajando vestes inspiradas nas dos nobres e aristocratas andinos. O estilo surgiu no Peru, na segunda metade do século XVII, e prevaleceu especialmente na Escola de Cusco, destinada a ensinar a pintura colonial.


Não se tem a impressão de que o arcabuz esteja pesando para ele. Está olhando para longe a fim de atirar, mas sem que precise forçar a vista. 

Ele está numa atitude muito aguerrida, entretanto não dá a ideia de que o adversário esteja oferecendo um obstáculo válido. Ele é perfeitamente um anjo que não encontra obstáculos diante de si porque o adversário já está liquidado, jogado no chão. É um anjo do triunfo, que destrói quem ele desejar. 

Mais ainda. É um anjo que tem rei. E esse rei é Deus. Ele está na presença de Deus. Isto faz com que não seja um anjo diretamente orante, nem musicante — como são os lindos anjos de Fra Angélico. 

Ele pertence ao número daqueles anjos lutadores que brilham na presença do Senhor Deus dos Exércitos, cuja luta eles sabem que é uma música aos ouvidos do Deus de Todas as Vinganças. 

Eles travam uma luta sem ódio, mas, com uma decisão única, executam os decretos de Deus. 
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Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 23 de fevereiro de 1982. Esta transcrição não passou pela revisão do autor. Fonte: Revista Catolicismo, Nº 885, setembro/2024.

22 de setembro de 2024

DUAS CONCEPÇÕES OPOSTAS NA ARTE

Sublimidade numa pintura de Jean Fouquet e a concepção progressista e blasfema de uma pintura moderna 

✅  Plinio Corrêa de Oliveira 

O quadro A Santíssima Trindade, pintado por Jean Fouquet,* aparece com o céu azul repleto de anjos dourados. Céu tão diferente daqueles que vemos em algumas figuras, com nuvens molengas parecendo feitas de isopor, onde as pessoas se sentam para passar o tempo. 

Já o céu imaginado por Fouquet é como se fosse uma verdadeira catedral. 

Vemos anjos e santos sentados em tronos dos dois lados. No centro uma espécie de plateia de bem-aventurados. Todos áureos pela glória de Deus. 

No mais alto, os três tronos perfeitamente iguais para as pessoas da Santíssima Trindade — um só Deus em Três Pessoas distintas, que possuem a mesma natureza divina, o Pai, o Filho e o Espírito Santo —, que reinam numa glória perfeitamente igual, desde sempre e para sempre. 

Ao lado, um trono menor e em outro alinhamento, entretanto tão próximo apesar de distante. Nele vemos sentada uma figura nívea, superior a todo o dourado e a todo o azul do céu: Nossa Senhora. As três pessoas da Santíssima Trindade voltam-se para Ela em sinal de louvor, porque é a obra-prima de toda a criação. 

Nossa Senhora reza recolhida, remetendo a Deus em forma de adoração, o amor que Ele lhe concede tão generosamente. É a imagem do Céu, repleto de ordem, de sublimidade, de hierarquia, de sacralidade. 



O contrário dessa imagem do Céu é esse outro quadro. É a figura de como o progressismo concebe as coisas da religião. É uma pintura moderna representando a Última Ceia de Nosso Senhor Jesus Cristo com os Apóstolos. É a caricatura da religião. Nosso Senhor representado pela arte moderna é em tudo blasfêmia! 

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*Jean Fouquet (1420–1481, anos aproximativos) é considerado o maior pintor francês de seu tempo. Suas obras são classificadas entre o final do Gótico e o início da Renascença. Entre suas numerosas obras, uma das mais célebres são as miniaturas do Livro de Horas de Etienne Chevalier, do qual faz parte o quadro que ilustra esta página: A Santíssima Trindade, o Sufrágio da Miniatura dos Santos (Museu Condé, Chantilly, França). 


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Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 28 de julho de 1974. Esta transcrição não passou pela revisão do autor.

18 de agosto de 2024

“Mais esplêndida glória que a Tua: Tem só Deus do Universo Senhor”


✅  Plinio Maria Solimeo 

O espanhol Jesus Ignacio Falgueras Salinas [foto abaixo], bacharel em teologia pela Pontifícia Universidade Lateranense de Roma, licenciado na mesma matéria ‘magna cum laude’ pela Universidade Pontifícia de Salamanca, e atual catedrático de História da Filosofia Moderna e Contemporânea na Universidade de Málaga, escreveu na revista Burgense (número 38 de 1997), longo e interessante estudo para demonstrar a tese de que Nossa Senhora não era, como muito se propala, uma “simples mulher do povo, com a mesma escassa cultura e formação e com a estreiteza de horizontes” no restrito âmbito doméstico em que viveria.

Não podendo no espaço disponível acompanhar todos os muitíssimos e interessantes argumentos que ele dá ao longo do seu estudo, nos restringiremos a pegar somente alguns que nos chamaram mais a atenção.

Comenta ele por exemplo que, quando o Arcanjo São Gabriel apareceu a Nossa Senhora e anunciou que Ela seria a Mãe de Deus [quadro acima], Ela lhe fez a pergunta: “como se daria isso, pois tinha resolvido permanecer virgem?”. Por outro lado, o sacerdote Zacarias, pai do futuro São João Batista, quando o mesmo arcanjo lhe anunciou que teria um filho, também lhe fez uma pergunta semelhante: “como se daria isso, pois tanto ele quanto sua mulher já eram avançados em anos?”

Nota Dom Ignacio que as perguntas são parecidas, mas o sentido de ambas muito diferente: Zacarias pede um sinal porque parece duvidar que lhe fosse possível, à sua idade e à de sua mulher, procriar. O que supõe duvidar do poder de Deus de fazer o que lhe fora anunciado. Por isso lhe foi infligido um castigo.

“Já a pergunta de Maria Santíssima mereceu outro tratamento, pois Ela não duvida de que o que se lhe anuncia seja possível para Deus, mas quer se certificar da procedência divina da mensagem e pede um esclarecimento. Antes de crer, é necessário examinar diligentemente a ‘quem’ e no ‘que’ se crê. Assim, a fé de Maria não é uma fé cega, mais é inteiramente inteligente, pois Ela pensa tudo isto sem nenhuma demora assim que ouve e entende a primeira mensagem do anjo, sem que a presença angélica perturbe em nada a nitidez de sua inteligência iluminada pela fé. Maria demonstra assim ter o altíssimo dom do discernimento de espíritos, ao mesmo tempo que uma portentosa claridade, rapidez e penetração no mais alto e difícil: averiguar qual é a vontade de Deus”
. Isso não ocorreria se Ela fosse uma simples e ignorante mulher do povo.

O erudito teólogo vai ainda mais longe em suas elucubrações:

“A colaboração que Maria sabe que lhe é pedida é total, afeta a integridade de seu ser. É-lhe pedido entrar em um plano divino que supera toda compreensão humana, e que afeta toda a Humanidade. Não há, nem nunca houve, alguém a quem haja sido comunicado um mistério mais difícil de entender, pois para nós é mais difícil entender que Deus se faça homem, que inclusive [o dogma da] Trindade de Pessoas em Deus. Com efeito, é natural e crível que a divindade seja em si mesma superior a toda compreensão; mas que a divindade se abaixe até se fazer homem é algo em princípio não crível, já que a distância entre Deus e a criatura é maior do que a que existe entre o ser e o não-ser. A máxima dificuldade de intelecção estriba, para nós, em que Deus se faça criatura, ao que se acrescenta que, entre as criaturas, ele já fazer-se homem [no seio de uma Virgem]. Sem embargo Maria, uma vez ouvida a resposta do anjo, compreende a intrínseca vinculação de sua isenção do Pecado Original e da maternidade que se lhe propõe, e não tarda nem um instante em se decidir: ‘Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo tua palavra’”.

 

Voltamos a insistir: isso tudo é de um nível tão elevado e sublime, que ultrapassaria as cogitações de uma mera dona de casa, ainda que muito dotada intelectualmente.


O teólogo Falgueras analisa outra objeção: no episódio da Perda e do Encontro do Menino Jesus no Templo, às palavras do Divino Infante, Maria e José “ficaram surpresos”. Explica ele que a Vulgata usa aqui o verbo admirar. E pondera que:

“Admirar é atender concentradamente à verdade; quer dizer, abrir a mente à verdade, acolhê-la e dirigir a ela toda a atenção para se deixar penetrar por ela. Essa pureza de atenção à palavra de Deus é o que mereceu à Virgem o ser eleita como Mãe da Palavra encarnada. Sua abertura, acolhimento e concentração em fazê-la própria, a tornou digna de ser não só habitada corporalmente pelo Verbo encarnado, mas de ser Mãe e receptora ativa e livre da mesma. Como soube dizer magistralmente Santo Agostinho, Maria foi mãe antes com seu espírito do que com seu corpo; frente ao louvor de sua maternidade corporal, Ela deve ser considerada feliz porque guardou a Palavra. Pois Maria amava a seu Filho já antes de que se encarnasse e durante toda sua vida porque, ‘se alguém me ama, guardará minhas palavras’ (Jo 14,15,21,23; 15, 7-10). E isso é o que Ela sempre fez. A admiração de Maria, longe de ser pois sintoma de ignorância, é o que a converteu por graça divina em Sapientiae incarnatae Genitrix, Mãe da Sabedoria encarnada”

Acrescenta Dom Ignacio que, nesse episódio da perda no Templo, “Temos a primeira dor que conhecemos que perfurará o coração de Maria, e que a profecia que Simeão lhe tinha anunciado, e que começa a se cumprir. E que Maria vê com surpresa como, a razão de toda sua felicidade, seu Filho, se torna para Si uma causa de dor. Esta dor está associada à busca de Jesus, mas não é a simples dor angustiante dos pais que temem pela vida ou pela liberdade do filho, mas sobretudo a dor de ter sido afastada livre e conscientemente da vida e presença de seu Filho. Isto é o que Maria não entende e que pergunta. A sua pergunta contém assim um pedido de luz, mas também a detecção de algo incrível: não foram outros, mas o próprio Jesus quem, livre e conscientemente, causou a dor de seus pais, por algo que eles não fizeram, algo que eles nunca teriam evitado, mas que teriam compartilhado com Ele com alegria”.

         Concluímos este rápido apanhado do suculento estudo com o episódio das Bodas de Caná.

As Bodas de Caná. 1562-63. Por Paolo Veronese, atualmente no Museu do Louvre (Paris).

         A cena é muito conhecida. Nossa Senhora, seu Filho e alguns dos Apóstolos participavam de umas bodas na cidadezinha de Caná da Galiléia. Maria Santíssima, vendo que o vinho estava acabando, para poupar um vexame aos noivos, alerta seu divino Filho. 

“Diante da aparente indiferença da resposta de Cristo ‘o que nos importa isso a ti e a mim?, e antes de tudo e mais além do ‘ainda não chegou minha hora’ Maria sabe descobrir o apaixonado desejo de pôr fogo ao mundo com suas obras e palavras que arde no coração de seu Filho, e também no amor redentor do Pai: ambos estão dispostos a adiantar os passos para o começo da vida pública de Jesus. Maria, que conhece os segredos de Deus e a oportunidade do momento, toma a iniciativa, se adianta a seu Filho, e O incita à sua terceira epifania: a vida pública. Por que Ela se adianta à decisão de seu Filho? Porque quer ser Ela quem o lance à vida pública. Não só quer ser condutora, quer positivamente pôr fim à vida doméstica de seu Filho. Ela renuncia de modo voluntário ao privilégio de convivência de que havia desfrutado durante tantos anos, a fim de que seu Filho se dedique aos assuntos de seu Pai e seja conhecido por todos. Trata-se da primeira manifestação da maternidade universal de Maria: Ela nos entrega a seu Filho para que O possamos conhecer e amar a todos os homens como Ela conhece e ama. Não se reserva para si seu próprio Filho: ama-nos mais que a si mesma. Assim esta iniciativa de Maria não é mais do que um adiantamento da entrega que Ela fez de seu Filho ao pé da cruz”

*   *   *

         Diante de tanta grandeza, só nos resta exclamar como o fazia um hino muito popular na Igreja antes do Vaticano II:

“Salve ó Mãe, Salve ó Virgem Santíssima, do universo portento e primor: mais esplêndida glória que a tua, tem só Deus do universo Senhor!”.
 

24 de março de 2024

ANUNCIAÇÃO — Uma presença angélica num ambiente paradisíaco

Anunciação – Fra Angélico (1442-43). Convento de São Marcos, Florência, Itália.


✅  Plinio Corrêa de Oliveira 

Observem esse quadro de Fra Angelico representando a Anunciação do Anjo a Nossa Senhora, festividade celebrada pela Igreja no dia 25 de março. 

Um claustrozinho com dois átrios, umas pequenas abóbodas, nele se esparge uma luz maravilhosamente difusa. Fazendo uma análise desse jardim, que parece de brinquedo, dir-se-ia que cada graminha foi penteada, que cada coisinha foi posta em ordem. É um jardinzinho comum, mas tudo está arranjadinho e ajeitado. 

Nossa Senhora rezando e o Arcanjo São Gabriel reverente diante d’Ela. Ele proclama a saudação angélica e anuncia que Ela vai ser a Mãe do Verbo Encarnado. 

Olhando-se para a pintura, vemos que na imagem de Nossa Senhora resplandece uma luz. A figura d’Ela é tão santa que fica-se sem saber o que dizer. O Anjo é tão transparente e diáfano que nos arrebata. Numa palavra, angélico! 

A Virgem Santíssima e o Anjo são o foco de luz do quadro, mas essa luz se esparge de modo meio difuso por todos os lados. Tem-se a impressão de que a própria vegetação tem um verde e um viço recebidos pela presença d’Ela e do Anjo descido do Céu. 

Se eu imagino Nossa Senhora andando sobre a relva, parece que onde Ela punha os pés a relva ganhava vida e se tornava mais bela e mais esplendorosa, mais parecida com as relvas do Paraíso. Com o contato d’Ela, tudo ficava meio paradisíaco. Há como que presença angélica naquele ar que as pessoas notam sem perceber, elas veem sem ver e se encantam sem saber por quê. 

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Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 6 de abril de 1972. Esta transcrição não passou pela revisão do autor.

26 de dezembro de 2023

A VIDA DOS PASTORES DE BELÉM

 

Adoração dos Pastores – Guido Reni (1575–1642). National Gallery, Londres

Quantos eram? Como se chamavam? O que foi feito deles? Quando morreram? Onde estariam enterrados? Eis como transcorreu sua maravilhosa vida após o grande prodígio de Belém.

 ✅  Luis Dufaur

São Lucas descreve uma das notas particularmente suaves e doces da abençoada noite em que nasceu o Salvador. Ela provém dos pastores que moravam nas proximidades da Gruta de Belém e foram adorá-Lo, embebidos de admiração, humildade e nobre encanto [quadro no final].

São Lucas registra onde estavam, o que faziam, a aparição inicial do Anjo, a incorporação dos coros angélicos, seu cântico, a reação dos pastores, a adoração e, depois, seu retorno narrando a todos a maravilha que tinham contemplado, glorificando e louvando a Deus.

O anunciador não foi outro senão o Arcanjo São Gabriel. O embaixador divino para a Encarnação sem dúvida era o mais indicado para dar a conhecer o nascimento do Verbo de Deus Encarnado. Ao embaixador celeste se uniram coros de anjos que entoaram a primeira e mais maravilhosa canção de Natal.

Os santos pastores de Belém

Porém, depois desse comovedor relato, o silêncio caiu sobre os santos pastores. Quantos eram? Como se chamavam? O que foi feito deles? Quando morreram? Onde estariam enterrados?

Nós os reencontramos em todo presépio natalino, representados segundo a imaginação dos fiéis, mas muito pouco ou nada nos é ensinado a seu respeito. Entretanto, após o grande prodígio de Belém, eles tiveram uma vida maravilhosa, da qual pouco se fala.

O historiador M. Ghattas Jahshan, em seu livro Estrada de Natal,[i] conta que a um quilômetro e meio a leste de Belém, há uma colina com grutas naturais rodeadas de pinheiros, oliveiras e ciprestes. Ali, Santa Paula, fundadora de dois mosteiros em Belém, e São Jerônimo, Doutor da Igreja, que morou e morreu nas proximidades da mesma cidade, onde traduziu a Bíblia Vulgata em latim, no século IV, viram os restos da Torre do Rebanho (Turris Ader, em latim), levantada sobre a moradia dos pastores, segundo recolheu o site ArtePesebre.[ii]

Hoje, no mesmo local há outra igreja, erigida em 1954 sob o patrocínio dos religiosos franciscanos, custódios da Terra Santa, conhecida como Campo dos Pastores [foto ao lado]. Essa foi construída sobre os restos de um antigo mosteiro, feito, por sua vez, sobre una primitiva igreja ampliada pelo imperador Justiniano no século VI.

Abaixo da igreja do Campo dos Pastores está a gruta que servia também de moradia aos pobres guardiães de ovelhas, que ali refugiavam seus rebanhos durante a noite, para protegê-los das intempéries. Ela hoje pode ser visitada pelos peregrinos na Terra Santa.

Por volta do ano 670, o bispo Frances Arculfus deixou registrada a existência de uma igreja dos tempos de Constantino, junto à Torre do Rebanho, que continha os três túmulos dos pastores.

Torna-se assim historicamente incontestável que os pastores foram três, que seus jazigos eram tidos como local santo já nos primeiros séculos, e que lhes foram atribuídos, como veremos, muitos milagres.

Nas pinturas e esculturas mais tradicionais nas igrejas, eles costumam ser representados nesse número, como nos afrescos da igreja do Campo dos Pastores. Um é adolescente, outro é idoso e, por fim, o terceiro é um adulto de meia idade que toca uma flauta.

Igreja do Campo dos Pastores está a gruta que servia também de moradia aos pobres guardiães de ovelhas.


Como chegaram à Espanha?

Por volta do ano 960, cavaleiros que participaram na tentativa de defender Jerusalém levaram os corpos dos três santos pastores a Ledesma, província de Salamanca, na Espanha. Eles previam que a invasão islâmica os punha em perigo, pois a fúria anticristã estava tomando conta de toda a Terra Santa.

A urna trazida da Torre do Rebanho passou por Fuenterrabia (ou Hondarribia em basco), em Guipúzcoa, onde ficou uma arca pequena de mármore branco vazia, com três compartimentos que teriam sido sepulcro provisório dos três pastores de Belém. Ela teria sido trazida do local no Oriente onde eles foram enterrados originalmente.

O arqueólogo C. Guarmani localizou-a em Belém e doou-a, no final do século XIX, a Antonio Bernal de O’Reilly, cônsul-geral de Síria e Palestina. Este, por sua vez, a doou à igreja de Hondarribia. O erudito historiador Remigio Hernández Morán assegura que ela guardou inicialmente os restos dos pastores, segundo noticiou La Gaceta de Salamanca.[iii]

Casa dos pastores, em Belém
Segundo Hernández Morán, “nos quatro ou cinco séculos seguintes houve silêncio a respeito dos restos dos pastores após a chegada a Ledesma, por causa da Reconquista”. O perigo mouro com sua onda de crimes e profanações rondava essa região central de Espanha.

“Como medida de precaução ante um possível furto ou profanação por parte dos árabes, decidiram ocultá-los”, explicou.


Anos mais tarde, uma vez afastados os invasores islâmicos, decidiu-se recuperar os restos e erigir uma nova igreja, que seria dedicada a São Pedro e Santiago, para nela venerá-los. Porém, perdera-se a lembrança do local exato onde estavam. Mas a construção continuou, e eis que, trabalhando a terra para estabelecer os fundamentos, apareceram intactas as preciosas relíquias dos pastores.

Reconhecimentos oficiais

A partir desse dia, a história das relíquias dos santos pastores registra inúmeros milagres, sobretudo um, muito grande, concedido à região de Ledesma. Esta padecia de uma grande seca, até que, em 25 de maio de 1164, foi aberta a arca das relíquias dos santos pastores. Após serem feitas as rogativas prescritas, em poucas horas caiu uma chuva que durou cinco dias.

O professor Hernández Morán descobriu, nos arquivos vaticanos, um Breve do Papa Inocêncio XI, de julho de 1677, concedendo Indulgencia Plenária, cumpridas as condições de piedade, “à Confraria reunida sob a invocação dos Santos Jacob, Isacio e Josefo, canonicamente erigida e fundada na igreja paroquial de São Pedro da vila de Ledesma, diocese de Salamanca” em vários dias do ano, especialmente no primeiro domingo depois da Epifania de Nosso Senhor Jesus Cristo e nas festas de Natal. O Breve pontifício foi emitido na basílica de Santa Maria Maggiore, em Roma, informou o jornal local Heraldo – Diario de Soria.[iv]

Por fim, as relíquias foram depositadas na igreja dedicada a São Pedro e São Fernando, e o bispo salmantino Andrés Josef del Barco, no mês de julho de 1786, lavrou a ata de “Reconhecimento dos ossos que dizem ser dos pastores que adoraram o Menino Deus em Belém”.

A ata descreve o conteúdo com estas palavras: “Uma cabeça inteira; metade dividida em três partes; quatro ossos grandes de pernas; dez pedaços de caveira; vinte e quatro costelas, e uma mandíbula; quatorze ossos medianos; quinze da coluna; sete pedaços pequenos de costelas; três pedaços pequenos de couro; dois pedaços pequenos que parecem de cortiça de árvore; três pedaços de lenço; uma colher de pau pequena quebrada pelo cabo; um pedacinho de osso envolto num papel pequeno; outro menor envolto noutro papel sem rótulo; um olho, ao que parece, envolto num papelzinho; em outro papel maior, vários pedaços de osso sem rótulo; um pedaço de pau desconhecido; umas tesouras grandes, um papelzinho com a inscrição seguinte ‘Dos gloriosos Josefo, Ysacio e Jacob Pastores de Belém, que mereceram ver e adorar os primeiros a Cristo Deus e homem recém-nascido no Portal’”. Este papel acompanha atualmente os restos contidos na arca.

O historiador Méndez Silva, no século XVII, confirma o número, os nomes deles, e acrescenta que os três morreram virgens num dia 25 de dezembro, 40 anos depois daquela divina noite de Natal.

Em 1864, seus restos foram trasladados para a atual igreja de São Pedro e São Fernando, no bairro de Los Mesones. Porém, a poeira do esquecimento foi caindo sobre ela e seu tesouro, devido à perda generalizada de interesse da religiosidade popular e o menosprezo racionalista pelas relíquias, contra as quais alega falta de autenticidade.

A arca ficou bem guardada, mas sua lembrança voltou a se perder até 1965, quando durante a restauração da igreja se achou, sob o altar-mor dedicado a São Pedro, o tesouro esquecido, todo de madeira forrado de pele de ovelha e carneiro e primorosamente adornado.

Quando foi aberta, apareceram restos humanos com a ‘autêntica’ que dizia: “Os gloriosos Josefo, Isacio e Jacob, pastores de Belém que mereceram ser os primeiros que viram e adoraram a Cristo, Deus e Homem recém-nascido no Portal”, a qual ainda pode ser lida pelos devotos nos dias de exposição.

Nenhuma outra localidade reivindica a posse de restos relacionados com os Pastores de Belém, caso frequente com algumas outras relíquias. Fato que reforça a certeza de que elas são incontestáveis.

O Pe. Casimiro Muñoz, que foi pároco da localidade, atendeu com amabilidade os jornalistas de ArtePesebre, satisfez toda a sua curiosidade, e respondeu a tudo o que se referia aos Pastores de Belém, fornecendo-lhes toda a informação verbal e escrita solicitada.

Na vigília da Santa Noite de Natal os sinos da basílica romana de Santa Maria Maggiore reboam com intervalos de 10 minutos, em memória do remotíssimo costume dos pastores de comunicar aos colegas mais afastados de toda a região o anúncio angélico, avisando com qualquer instrumento ruidoso que tinham ao seu alcance.

Os fiéis de Ledesma veneram a urna aberta dos Santos Josefo, Isacio e Jacob, e em toda a Terra os católicos seguem seu santo exemplo em todos os presépios de igrejas e casas de família.

As relíquias dos três pastores estão depositadas na igreja dedicada a São Pedro e São Fernando, na cidade de Ledesma, Espanha.


Pastores e Reis

A este respeito, comenta Plinio Corrêa de Oliveira: “O anúncio aos pastores foi diferente ao feito aos Reis Magos, que o receberam de um modo místico e silencioso.

“Dom Guéranger, grande teólogo, observa que a dignidade dos Reis era maior que a dos pastores, mas estes foram os primeiros a chegar com anúncio angélico. Eles pertenciam ao povo eleito, enquanto os Reis que chegaram depois representavam os povos gentios.

“O anúncio foi feito aos pastores pelos anjos e aos Magos por uma estrela e comunicações místicas silenciosas. Dom Guéranger defende que vale muito mais a pena crer assim do que por um milagre externo pela palavra de Nosso Senhor. Tomé, tu creste porque viste, bem aventurados os que não viram mas creram.”

A paz prometida aos pastores em 2023

Os fiéis de Ledesma veneram a urna aberta dos Santos Josefo, Isacio e Jacob

Encerramos fazendo uma adaptação de comentários do Prof. Plinio:

O ano se extingue num caos generalizado, como o ano passado, mas com uma potencialidade de confusão e de risco ainda maior em todos os países do Ocidente e do Oriente e na própria Igreja Católica.

É a ocasião de implorarmos a efetivação do cântico angélico que os pastores ouviram no primeiro Natal: Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens de boa vontade.


Mas não uma paz e tranquilidade qualquer. Há a paz dos cemitérios, na sua imobilidade, tristeza e silêncio: não é essa. Só há paz genuína nas igrejas onde se professa na sua integridade a doutrina católica, apostólica, romana, onde o rito se faz em inteira harmonia com o culto e o dogma católico. Mas quantas são?

Onde encontraremos na Terra a paz que Nosso Senhor Jesus Cristo quis trazer ao mundo? Infelizmente, em poucos lugares. Encontramo-la no celestial Presépio em que, na manjedoura, o Rei da paz recebe com amor criaturas humildes, não só os pastores, mas até seus animais.

Os santos pastores foram soldados da paz e da ordem, enquanto a Terra gemia na revolta e na desgraça da desordem suprema, fingindo festa e alegria, espalhando o falso anúncio de que se vai para um ano melhor.

A paz de Cristo no Reino de Cristo implica a luta pela ordem contra a desordem, como quando no Céu São Miguel Arcanjo e os Anjos da fidelidade enxotaram Satanás e os anjos da infidelidade, indignos de permanecerem nas mansões celestiais e de continuarem hoje a enfumaçar a Igreja Católica.[v]

 

Ledesma na atualidade

26 de setembro de 2023

MIL ANOS DA ABADIA DO MONT-SAINT-MICHEL



Erguido em uma pequena ilha em frente à costa da Normandia, suspenso entre a terra e o mar, o Mont-Saint-Michel, com sua abadia beneditina, incorporou a tensão religiosa do início da Idade Média. Suas profundas raízes espirituais foram preservadas até hoje, passando altaneiro pelo turbilhão de dez séculos de história.

 

✅  Samuele Maniscalco

Mont-Saint-Michel, Normandia: há inegavelmente algo de prodigioso nesse lugar. Uma montanha que se transformou em uma ilha, mantendo o mistério de sua singularidade em um cenário fascinante, onde a terra e a água parecem interagir, alterando a conformação de um território em mutação, mas que resistiu aos desafios do homem e das forças da natureza por milênios.

Essa ilha-santuário é um dos lugares mais visitados de toda a Europa. Com um perímetro de 960 metros e uma extensão de sete hectares, a ilha se eleva 92 metros acima do mar. O ponto mais alto é a estátua de São Miguel, visível à distância do mar.

A origem desse extraordinário lugar sagrado remonta à visão que o Bispo de Avranches, Saint Aubert, teve do Arcanjo Miguel em 706.1 Nesse canto da Normandia, o prelado foi convidado pelo mensageiro celestial a construir uma igreja no Monte Tombe.

Terceira aparição de São Miguel Arcanjo
 a Saint Aubert
A vida cotidiana de Saint Aubert era cheia de dificuldades, pois grande parte de sua diocese estava coberta pela vasta e densa floresta de Scissy, que só terminava no litoral, onde uma série de pequenos vilarejos se desenvolvia. Essa floresta impenetrável e perigosa era refúgio de um povo não muito devoto.

Saint Aubert suspeitava que os povos selvagens que viviam lá não abandonariam suas antigas práticas idólatras. Os cultos pagãos sobreviviam, concentrados principalmente em duas curiosas colinas que se elevavam acima das árvores — o Monte Dol e o Monte Tombe —, onde às vezes ainda eram acesas fogueiras em homenagem aos antigos deuses solares. Saint Aubert tentou remediar essa situação. Até encontrou alguns eremitas e monges dispostos a viver na floresta e nas encostas do Monte Tombe. Mas isso não foi suficiente para expulsar o demônio do paganismo.

 

Crânio do santo com o furo feito pela ação do Arcanjo

Aparição do Arcanjo Sao Miguel a Saint Aubert

Numa noite, Saint Aubert sonhou com o Arcanjo Miguel lhe dizendo: “Aubert, consagra-me o Monte Tombe. Quero que construas um santuário para mim como o da minha montanha em Gargano. Farei dele a minha morada”. Saint Aubert acordou profundamente perturbado, mas acima de tudo relutante. Ele era um homem de ação, não de sonhos místicos. Além disso, estava tão preocupado com a questão da floresta de Scissy e do Monte Tombe que atribuía ao seu sonho uma explicação natural: a impossível erradicação do paganismo que o assombrava mesmo durante o sono. Em nenhum momento considerava que seus pensamentos sobre a consagração da montanha a São Miguel poderiam ter vindo do Céu....

Os dias se passaram e o bispo tentava não pensar duas vezes no sonho. Já estava quase esquecido dele quando, em uma noite, o mesmo sonho reapareceu; só que dessa vez São Miguel encontrava-se visivelmente descontente e o repreendeu pela falta de zelo em atendê-lo.

Ao acordar, o prelado, ainda mais perturbado do que da primeira vez, convenceu-se de que era vítima tanto de orgulho doentio quanto de obsessão diabólica. Assim, continuou sem agir. Dias e semanas se passaram. Quando achou, por fim, que havia recuperado a serenidade, São Miguel lhe apareceu uma terceira vez. Desta feita muito carrancudo, repreendeu-o por sua incredulidade e anunciou que deixararia um sinal de sua visita. Em seguida, colocou seu dedo indicador na têmpora do prelado incrédulo. Este acordou de repente e, embora sem ferimentos visíveis, teve a sensação de que algo perfurara seu crânio.2

A demonstração foi suficiente: o bispo Aubert agora estava determinado a dar plena satisfação ao grande Arcanjo. Começou imediatamente a trabalhar na limpeza e nas fundações da igreja, que pretendia construir da mesma forma que a basílica de Gargano, o primeiro santuário ocidental dedicado ao culto do Arcanjo. E para provar que uma construção dependia da outra, antes que a obra principal fosse concluída, enviou dois jovens monges a Siponto, na Itália, para pedirem ao bispo de lá uma parte das relíquias sagradas deixadas por São Miguel, a saber, uma pequena placa de mármore na qual o espírito celestial havia deixado suas pegadas, e um fragmento de um belo tecido roxo, muito semelhante ao manto de um oficial da cavalaria romana.

 

Saint Aubert começa a construção da Abadia (iluminura medieval)

A fúria diabólica e a intervenção de São Miguel

Os monges iniciaram sua peregrinação, que levaria mais de dois anos para ser concluída. O bispo de Siponto demonstrou compreensão e honra, aquiescendo na entrega de algumas relíquias. Se os frades tinham dúvidas sobre a origem delas, os milagres realizados ao longo da rota de retorno os tranquilizaram. Doentes eram curados milagrosamente! Eles não viam a hora de chegar ao Monte Tombe para informar Saint Aubert de seu sucesso. Já estavam perto, mas pararam de repente, atônitos, petrificados: não reconheciam mais nada. Apesar da certeza de que voltaram para casa, não conseguiam encontrar a paisagem que lhes era familiar.

Capela de Saint Aubert no Mont-Saint-Michel
A imensa floresta de Scissy desaparecera; os pequenos vilarejos costeiros deram lugar a um penhasco íngreme e nu e a uma vasta extensão de areia branca, exposta pela maré baixa e atravessada por riachos que a faziam brilhar ao sol. Ao longe, no mar, numa pequena ilha exposta ao ataque das ondas, erguia-se o Monte Tombe, sobrevivente de um desastre que os dois monges peregrinos, atônitos, não ousavam imaginar.

Interior da capela
Quando os religiosos se juntaram aos dois monges que retornavam de sua missão, lhes contaram sobre o cataclismo que havia ocorrido seis meses antes, responsável por essas mudanças extraordinárias. Era março de 709.3 Numa noite escura e tempestuosa, a chuva caía torrencialmente e nada podia ser visto a um passo de distância. De repente ouviu-se, emergido das profundezas da terra, o rugido de um terremoto, e o Monte Tombe balançou sobre os seus alicerces.

Parecia o fim do mundo. Os monges e o bispo agarraram-se ao altar, certos de que sua última hora havia chegado. E, horrorizados, contemplaram centenas de animais selvagens — lobos, cobras, gaviões-pardais — invadirem a montanha, buscando refúgio. A costa se afundara no mar, a linha costeira descera abaixo do nível do oceano, e a maré, a grande maré do equinócio da primavera, inundara o que havia sido o continente. A floresta de Scissy ficara submersa, e os monges viram árvores arrancadas sendo carregadas como galhos pela correnteza.

Toda essa demonstração de poder dos elementos parecia ter apenas um alvo: o Monte Tombe. Chuva, mar, raios e terremotos convergiram para a ilhota poupada, determinados a engoli-la. Saint Aubert entendeu. Ao dedicar o monte a São Miguel, ele desencadeara a ira implacável de Lúcifer. Invocou, então, a ajuda do Arcanjo. Ela veio imediatamente. A tempestade se acalmou, o mar recuou; a montanha flutuou como a Arca de Noé, em uma paisagem apocalíptica.

O Monte Tombe começou então a ser chamado de Mont-Saint-Michel — Monte São Miguel. Sua notoriedade foi imediata. Em 710, o rei Gildebert III, da dinastia merovíngia, consagrou seu reino a ele.

 

Vista de conjunto da Abadia

O Mont Saint-Michel resiste a diversos ataques

Interior da abadia 
Quando Saint Aubert morreu, as relíquias de São Miguel permaneceram com os cônegos incumbidos pelo santo bispo de zelar pelo local, os quais tinham por missão rezar o Ofício Divino e receber os peregrinos. Mas, alheios à austeridade da época da fundação, eles foram motivo de escândalo. O duque da Normandia, Ricardo I, pôs fim a esses abusos trazendo para o santuário monges beneditinos da abadia de Saint-Bedrille. Sob o comando do abade Maynard, foi iniciada a construção da igreja românica de duas naves de Notre-Dame-sous-Terre. Parcialmente destruída por um incêndio em 992, sobre ela se ergueu a atual abadia românica, iniciada em 1017 sob a direção do arquiteto Ranulphe de Bayeux e concluída, exatamente há mil anos, em 1023.

Incêndios e reconstruções subsequentes deram à igreja da abadia um estilo original, que combina harmoniosamente elementos arquitetônicos de diferentes períodos: a base data do século XI, os corredores são cobertos por uma abóbada construída um século depois, enquanto o coro e a torre pertencem ao período gótico tardio.


Entre 1154 e 1186 a abadia viveu uma época de ouro, sob a liderança do abade Robert de Torigny. Sábio e erudito, ele foi capaz de despertar entre seus irmãos o amor pelas letras e, em particular, pela arte da iluminação. Também realizou extensas reformas arquitetônicas, modificando a entrada da igreja a fim de obter maior isolamento entre os monges e os já numerosos peregrinos. Com vistas a dotar sua obra de certa grandiosidade, construiu duas torres em frente à fachada da igreja, unidas por um amplo pórtico.

Em uma nova reconstrução, dirigida pelo abade Jourdain entre 1203 e 1228, foi erguida a chamada “Maravilha”, a parte gótica da abadia. Ela consiste em duas alas, uma oriental e outra ocidental, ambas sustentadas por poderosos contrafortes fundados na rocha, atingindo uma altura de 32 metros. A distribuição dos espaços internos é diferente: a ala oeste contém um dos mais belos claustros da França [quadro acima], a partir do qual se tem acesso à ala leste por uma galeria que conecta o claustro ao refeitório. A “Maravilha” é dividida em três andares sobrepostos: no inferior estão a capelania e os celeiros; no intermediário o quarto de hóspedes e o dos cavaleiros da Ordem de Saint-Michel — a antiga sala de trabalho dos monges —; e, finalmente, no superior, ao nível da igreja, o refeitório. Como em outros edifícios góticos do mesmo período, a luz é tratada como um elemento vivo, suscetível a mudanças.

Livro que relata a heroica defesa de
 Louis d’Estouteville contra os ingleses
que tentaram tomar o Mont-Saint-Michel, em 1427.
Em 1316, durante a Guerra dos Cem Anos, os exércitos ingleses ocuparam Tombelaine, criando uma fortaleza que ameaçava a integridade do Mont-Saint-Michel, fiel à Coroa francesa. Após uma trégua de quase setenta anos, as hostilidades recomeçaram. Robert Jolivet se esforçou então em preparar a cidade para um estado de sítio, aumentando suas defesas e construindo uma imensa cisterna de água potável.

Acreditando que a causa francesa estava perdida, Jolivet aliou-se aos ingleses e se tornou amigo e conselheiro do rei da Inglaterra para a Normandia. Louis d’Estouteville tomou então as rédeas da situação, e por sete longos anos monges e cavaleiros resistiram ao cerco inglês. Em 10 de novembro, o coro da igreja desmoronou sob o fogo da artilharia inimiga. No entanto, em 1427, em uma operação bem-sucedida, d’Estouteville infligiu uma pesada derrota ao exército inglês. Duas bombas foram capturadas e ainda estão preservadas na abadia sob o nome de michelettes. Mas o intrépido defensor não se deixou embriagar pelo sucesso e acrescentou um novo elemento ao complexo de Châtelet: uma estrutura retangular com ameias que forçou os ingleses a se submeterem a seu fogo nas proximidades da cidadela. O ano de 1450 marcou o fim da Guerra dos Cem Anos e a libertação definitiva do Mont Saint-Michel.

 

Escudo da família Estouteville

A Revolução Francesa não poupa o Mont Saint-Michel

Altar de São Miguel que se encontra
 na igreja de São Pedro, dentro das muralhas
No início do século XVII, o Cardeal de Béville decidiu introduzir uma reforma de São Maurício na abadia. Os novos monges abandonaram o dormitório e mudaram suas celas para o refeitório, dividindo o salão em dois e introduzindo alterações estruturais infelizes. Além disso, em 1780, a fachada românica, que ameaçava cair, foi demolida e substituída pelo modesto portal neoclássico que pode ser visto na plataforma oeste.

A Revolução Francesa pegou Saint-Michel em pleno declínio, fazendo-o objeto de saques durante os quais suas relíquias sagradas foram profanadas. Em 1791, os últimos monges foram expulsos da abadia, que se tornou uma prisão: mais de 300 padres que rejeitaram a constituição civil do clero foram presos lá a partir de 1793. Setenta anos depois, em 1863, a prisão foi fechada por decreto imperial, e a abadia finalmente devolvida ao culto, sendo ocupada pelos monges de Saint-Edme de Pontigny. Em seguida, começaram os trabalhos de reconstrução do Mont-Saint-Michel, que duraram até boa parte do século XX. A “cereja no chantilly” desses ingentes trabalhos foi a colocação, na agulha do Mont-Saint-Michel, de uma estátua dourada do Arcanjo, de quatro metros de altura. Aquela agulha é obra de Eugène Viollet-le-Duc (1814-1879) — o genial arquiteto que projetou também a flecha da Catedral de Notre-Dame de Paris. Em 1966, uma pequena comunidade monástica beneditina se estabeleceu na abadia, substituída em 2001 pela Fraternidade Monástica de Jerusalém.4

 

Estátua dourada do Arcanjo São Miguel, de quatro metros de altura, na agulha do Mont-Saint-Michel. Agulha desenhada por Eugène Viollet-le Duc, o genial arquiteto que projetou também a flecha da Catedral de Notre-Dame de Paris. 

Milagres e a incrível peregrinação de meninos

O Mont-Saint-Michel é um local privilegiado de milagres. Desde 709, sob a orientação do Arcanjo, Saint Aubert fez jorrar da ponta de sua cruz uma fonte de água pura, essencial para a sobrevivência dos cônegos da ilhota. A fonte tem o poder de curar febres.

Em 1050 e 1263 os religiosos ouviram os serafins cantarem o Kyrie eleison, enquanto figuras de fogo giravam em torno do altar. Na sexta-feira, 3 de novembro de 1452, por volta das 21 horas, um raio explodiu, iniciou-se uma intensa tempestade de granizo e uma chama ardente se difundiu em faíscas ao redor do sino. O mosteiro inteiro foi iluminado. O fenômeno culminou meia hora depois com um raio ainda mais poderoso do que os outros.

O Monte também foi testemunha de um fenômeno surpreendente e misterioso, sem precedentes nos grandes santuários cristãos: grupos de crianças em procissões intermináveis cruzando a baía para venerar o Arcanjo. Eles apareceram pela primeira vez em 1333, pouco antes do início da Guerra dos Cem Anos. Por que trinta mil crianças, algumas delas com apenas nove anos de idade, faziam essa jornada? Alguns afirmaram que era a vontade de Deus, outros disseram que vozes os haviam ordenado a fazer a peregrinação. Elas partiram para lá de repente, às vezes sem avisar os pais, formando grupos que cresciam de vilarejo em vilarejo.

A gravura representa a chegada de peregrinos alemães ao Mont-Saint-Michel.

O frade dominicano Pierre Herp relatou a partida de 1.100 crianças alemãs em julho de 1450. As Memórias de Colônia narram que, em 1455, “houve uma impressionante procissão para o Monte de São Miguel, na Normandia, uma peregrinação que durou cerca de dois anos e consistiu em crianças de oito, nove, dez e doze anos de idade, de vilas, cidades e aldeias da Alemanha, Bélgica e outras regiões. Elas se reuniam em grandes grupos, deixando os pais e as famílias para trás; a procissão era conduzida por faixas representando São Miguel... Esses pequenos peregrinos se comportaram dignamente e receberam comida e bebida ao longo do caminho. Quando chegaram ao Monte de São Miguel, apresentaram seus estandartes ao Arcanjo”.

A única coisa que posso dizer: incrível e magnífico!



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Notas:

Fonte: Editorial da e Revista Catolicismo, Nº 873, Setembro/2023

1.        Para falar sobre ele, baseamo-nos principalmente no que o Pe. Marcello Stanzione escreveu sobre esse santuário em seu livro Pellegrino tra i santuari dell'Arcangelo Michele - La linea angelica (Peregrino entre os santuários do Arcanjo Miguel - A linha angelical).

2.        Salvo da profanação revolucionária em 1793, o crânio de Saint Aubert tem, na verdade, um buraco muito semelhante a uma cicatriz de furadeira. Quando a relíquia foi examinada por um médico, este afirmou não encontrar nenhuma explicação natural ou científica para o fenômeno.

3.        O mesmo ano em que a primeira igreja foi provavelmente consagrada.

4.        Fraternidades Monásticas de Jerusalém é o nome de dois institutos religiosos de direito diocesano, um masculino e outro feminino, fundados em 1975 pelo padre francês Pierre-Marie Delfieux e reconhecidos em 1996 pelo cardeal Jean-Marie Lustiger, Arcebispo de Paris.