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| Adoração dos Pastores – Guido Reni (1575–1642). National Gallery, Londres |
Quantos eram? Como se chamavam? O que foi feito deles? Quando morreram?
Onde estariam enterrados? Eis como transcorreu sua maravilhosa vida após o
grande prodígio de Belém.
✅ Luis Dufaur
São Lucas descreve uma das notas particularmente suaves e doces
da abençoada noite em que nasceu o Salvador. Ela provém dos pastores que
moravam nas proximidades da Gruta de Belém e foram adorá-Lo, embebidos de admiração,
humildade e nobre encanto [quadro
no final].
São Lucas registra onde estavam, o que faziam, a aparição
inicial do Anjo, a incorporação dos coros angélicos, seu cântico, a reação dos
pastores, a adoração e, depois, seu retorno narrando a todos a maravilha que
tinham contemplado, glorificando e louvando a Deus.
O anunciador não foi outro senão o Arcanjo São Gabriel. O
embaixador divino para a Encarnação sem dúvida era o mais indicado para dar a
conhecer o nascimento do Verbo de Deus Encarnado. Ao embaixador celeste se
uniram coros de anjos que entoaram a primeira e mais maravilhosa canção de
Natal.
Os santos pastores de Belém
Porém, depois desse comovedor relato, o silêncio caiu sobre os
santos pastores. Quantos eram? Como se chamavam? O que foi feito deles? Quando
morreram? Onde estariam enterrados?
Nós os reencontramos em todo presépio natalino, representados
segundo a imaginação dos fiéis, mas muito pouco ou nada nos é ensinado a seu
respeito. Entretanto, após o grande prodígio de Belém, eles tiveram uma vida
maravilhosa, da qual pouco se fala.
O historiador M. Ghattas Jahshan, em seu livro Estrada de Natal,[i] conta que a um quilômetro
e meio a leste de Belém, há uma colina com grutas naturais rodeadas de
pinheiros, oliveiras e ciprestes. Ali, Santa Paula, fundadora de dois mosteiros
em Belém, e São Jerônimo, Doutor da Igreja, que morou e morreu nas proximidades
da mesma cidade, onde traduziu a Bíblia Vulgata em latim, no século IV, viram
os restos da Torre do Rebanho (Turris
Ader, em latim), levantada sobre a moradia dos pastores, segundo recolheu o
site ArtePesebre.[ii]
Hoje, no mesmo local há outra igreja, erigida em 1954 sob o patrocínio
dos religiosos franciscanos, custódios da Terra Santa, conhecida como Campo dos
Pastores [
foto ao lado]. Essa foi construída sobre os restos de um antigo mosteiro, feito, por
sua vez, sobre una primitiva igreja ampliada pelo imperador Justiniano no
século VI.
Abaixo da igreja do Campo dos Pastores está a gruta que servia
também de moradia aos pobres guardiães de ovelhas, que ali refugiavam seus
rebanhos durante a noite, para protegê-los das intempéries. Ela hoje pode ser
visitada pelos peregrinos na Terra Santa.
Por volta do ano 670, o bispo Frances Arculfus deixou registrada
a existência de uma igreja dos tempos de Constantino, junto à Torre do Rebanho,
que continha os três túmulos dos pastores.
Torna-se assim historicamente incontestável que os pastores
foram três, que seus jazigos eram tidos como local santo já nos primeiros
séculos, e que lhes foram atribuídos, como veremos, muitos milagres.
Nas pinturas e esculturas mais tradicionais nas igrejas, eles costumam
ser representados nesse número, como nos afrescos da igreja do Campo dos
Pastores. Um é adolescente, outro é idoso e, por fim, o terceiro é um adulto de
meia idade que toca uma flauta.
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| Igreja do Campo dos Pastores está a gruta que
servia também de moradia aos pobres guardiães de ovelhas. |
Como chegaram à Espanha?
Por volta do ano 960,
cavaleiros que participaram na tentativa de defender Jerusalém levaram os
corpos dos três santos pastores a Ledesma, província de Salamanca, na Espanha.
Eles previam que a invasão islâmica os punha em perigo, pois a fúria anticristã
estava tomando conta de toda a Terra Santa.
A urna trazida da Torre do Rebanho passou por Fuenterrabia (ou
Hondarribia em basco), em Guipúzcoa, onde ficou uma arca pequena de mármore branco
vazia, com três compartimentos que teriam sido sepulcro provisório dos três
pastores de Belém. Ela teria sido trazida do local no Oriente onde eles foram
enterrados originalmente.
O arqueólogo C. Guarmani localizou-a em Belém e doou-a, no
final do século XIX, a Antonio Bernal de O’Reilly, cônsul-geral de Síria e
Palestina. Este, por sua vez, a doou à igreja de Hondarribia. O erudito
historiador Remigio Hernández Morán assegura que ela guardou inicialmente os
restos dos pastores, segundo noticiou La Gaceta de Salamanca.[iii]
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| Casa dos pastores, em Belém |
Segundo Hernández Morán, “nos quatro ou cinco séculos
seguintes houve silêncio a respeito dos restos dos pastores após a chegada a
Ledesma, por causa da Reconquista”. O perigo mouro com sua onda de crimes e
profanações rondava essa região central de Espanha.
“Como medida de precaução ante um possível furto ou profanação
por parte dos árabes, decidiram ocultá-los”, explicou.
Anos mais tarde, uma
vez afastados os invasores islâmicos, decidiu-se recuperar os restos e erigir
uma nova igreja, que seria dedicada a São Pedro e Santiago, para nela
venerá-los. Porém, perdera-se a lembrança do local exato onde estavam. Mas a
construção continuou, e eis que, trabalhando a terra para estabelecer os
fundamentos, apareceram intactas as preciosas relíquias dos pastores.
Reconhecimentos oficiais
A partir desse dia, a
história das relíquias dos santos pastores registra inúmeros milagres, sobretudo
um, muito grande, concedido à região de Ledesma. Esta padecia de uma grande seca,
até que, em 25 de maio de 1164, foi aberta a arca das relíquias dos santos
pastores. Após serem feitas as rogativas prescritas, em poucas horas caiu uma
chuva que durou cinco dias.
O professor Hernández Morán descobriu, nos arquivos vaticanos,
um Breve do Papa Inocêncio XI, de julho de 1677, concedendo Indulgencia
Plenária, cumpridas as condições de piedade, “à Confraria reunida sob a invocação dos Santos Jacob, Isacio e Josefo,
canonicamente erigida e fundada na igreja paroquial de São Pedro da vila de
Ledesma, diocese de Salamanca” em vários
dias do ano, especialmente no primeiro domingo depois da Epifania de Nosso
Senhor Jesus Cristo e nas festas de Natal. O Breve pontifício foi emitido na
basílica de Santa Maria Maggiore, em Roma, informou o jornal local Heraldo
– Diario de Soria.[iv]
Por fim, as relíquias foram depositadas na igreja dedicada a São
Pedro e São Fernando, e o bispo salmantino Andrés Josef del Barco, no mês de
julho de 1786, lavrou a ata de “Reconhecimento
dos ossos que dizem ser dos pastores que adoraram o Menino Deus em Belém”.
A ata descreve o conteúdo com estas palavras: “Uma cabeça
inteira; metade dividida em três partes; quatro ossos grandes de pernas; dez
pedaços de caveira; vinte e quatro costelas, e uma mandíbula; quatorze ossos
medianos; quinze da coluna; sete pedaços pequenos de costelas; três pedaços
pequenos de couro; dois pedaços pequenos que parecem de cortiça de árvore; três
pedaços de lenço; uma colher de pau pequena quebrada pelo cabo; um pedacinho de
osso envolto num papel pequeno; outro menor envolto noutro papel sem rótulo; um
olho, ao que parece, envolto num papelzinho; em outro papel maior, vários
pedaços de osso sem rótulo; um pedaço de pau desconhecido; umas tesouras
grandes, um papelzinho com a inscrição seguinte ‘Dos gloriosos Josefo, Ysacio e
Jacob Pastores de Belém, que mereceram ver e adorar os primeiros a Cristo Deus
e homem recém-nascido no Portal’”. Este papel acompanha atualmente os restos
contidos na arca.
O historiador Méndez Silva, no século XVII, confirma o número,
os nomes deles, e acrescenta que os três morreram virgens num dia 25 de
dezembro, 40 anos depois daquela divina noite de Natal.
Em 1864, seus restos
foram trasladados para a atual igreja de São Pedro e São Fernando, no bairro de
Los Mesones. Porém, a poeira do esquecimento foi caindo sobre ela e seu tesouro,
devido à perda generalizada de interesse da religiosidade popular e o
menosprezo racionalista pelas relíquias, contra as quais alega falta de autenticidade.
A arca ficou bem
guardada, mas sua lembrança voltou a se perder até 1965, quando durante a
restauração da igreja se achou, sob o altar-mor dedicado a São Pedro, o tesouro
esquecido, todo de madeira forrado de pele de ovelha e carneiro e primorosamente adornado.
Quando foi aberta,
apareceram restos humanos com a ‘autêntica’ que dizia: “Os gloriosos Josefo,
Isacio e Jacob, pastores de Belém que mereceram ser os primeiros que viram e
adoraram a Cristo, Deus e Homem recém-nascido no Portal”, a qual ainda pode ser lida pelos devotos nos dias de exposição.
Nenhuma outra localidade reivindica a posse de restos
relacionados com os Pastores de Belém, caso frequente com algumas outras relíquias.
Fato que reforça a certeza de que elas são incontestáveis.
O Pe. Casimiro Muñoz, que foi pároco da localidade, atendeu com
amabilidade os jornalistas de ArtePesebre,
satisfez toda a sua curiosidade, e respondeu a tudo o que se referia aos
Pastores de Belém, fornecendo-lhes toda a informação verbal e escrita
solicitada.
Na vigília da Santa Noite de Natal os sinos da basílica romana
de Santa Maria Maggiore reboam com intervalos de 10 minutos, em memória do remotíssimo
costume dos pastores de comunicar aos colegas mais afastados de toda a região o
anúncio angélico, avisando com qualquer instrumento ruidoso que tinham ao seu
alcance.
Os fiéis de Ledesma veneram a urna aberta dos Santos Josefo, Isacio e Jacob, e em toda a Terra os
católicos seguem seu santo exemplo em todos os presépios de igrejas e casas
de família.
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| As relíquias dos três pastores estão depositadas na igreja dedicada a São Pedro e São
Fernando, na cidade de Ledesma, Espanha. |
Pastores e Reis
A este respeito, comenta
Plinio Corrêa de Oliveira: “O anúncio aos pastores foi diferente ao feito aos
Reis Magos, que o receberam de um modo místico e silencioso.
“Dom Guéranger,
grande teólogo, observa que a dignidade dos Reis era maior que a dos pastores,
mas estes foram os primeiros a chegar com anúncio angélico. Eles pertenciam ao
povo eleito, enquanto os Reis que chegaram depois representavam os povos
gentios.
“O anúncio foi feito aos
pastores pelos anjos e aos Magos por uma estrela e comunicações místicas
silenciosas. Dom Guéranger defende que vale muito mais a pena crer assim do que
por um milagre externo pela palavra de Nosso Senhor. Tomé, tu creste porque viste, bem aventurados os que não viram mas
creram.”
A paz prometida aos pastores em 2023
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Os fiéis de Ledesma veneram a urna aberta
dos Santos Josefo, Isacio e Jacob
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Encerramos fazendo
uma adaptação de comentários do Prof. Plinio:
O ano se extingue num caos generalizado, como o ano passado, mas com uma
potencialidade de confusão e de risco ainda maior em todos os países do
Ocidente e do Oriente e na própria Igreja Católica.
É a ocasião de implorarmos a efetivação do cântico angélico que os pastores
ouviram no primeiro Natal: Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra
aos homens de boa vontade.
Mas não uma paz e tranquilidade qualquer. Há a paz dos cemitérios, na
sua imobilidade, tristeza e silêncio: não é essa. Só há paz genuína nas igrejas
onde se professa na sua integridade a doutrina católica, apostólica, romana,
onde o rito se faz em inteira harmonia com o culto e o dogma católico. Mas
quantas são?
Onde encontraremos na Terra a paz que Nosso Senhor Jesus Cristo quis
trazer ao mundo? Infelizmente, em poucos lugares. Encontramo-la no celestial
Presépio em que, na manjedoura, o Rei da paz recebe com amor criaturas
humildes, não só os pastores, mas até seus animais.
Os santos pastores foram soldados da paz e da ordem, enquanto a Terra
gemia na revolta e na desgraça da desordem suprema, fingindo festa e alegria,
espalhando o falso anúncio de que se vai para um ano melhor.
A paz de Cristo no Reino de Cristo implica a luta pela ordem contra a
desordem, como quando no Céu São Miguel Arcanjo e os Anjos da fidelidade
enxotaram Satanás e os anjos da infidelidade, indignos de permanecerem nas
mansões celestiais e de continuarem hoje a enfumaçar a Igreja Católica.[v]
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| Ledesma na atualidade |