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13 de setembro de 2026

EXALTAÇÃO DA SANTA CRUZ — O sinal de infâmia que se tornou símbolo da Redenção

 


✅  Paulo Roberto Campos

Celebrada pela Igreja neste dia 14 de setembro, a festa da Exaltação da Santa Cruz recorda um dos maiores paradoxos da História: o instrumento de suplício reservado aos criminosos tornou-se, depois do Calvário, o sinal por excelência da vitória. A suprema Vitória de Nosso Senhor Jesus Cristo e da Redenção.

Poucas transformações de significado na História foram tão profundas quanto a da Cruz.

No mundo romano, ela era instrumento de suplício e sinal de extrema infâmia. A crucifixão destinava-se sobretudo a escravos, rebeldes e criminosos. Depois da morte de Jesus Cristo no Calvário, porém, aquele madeiro destinado à vergonha tornou-se o mais universal, magno e reconhecível símbolo do cristianismo.

É esse extraordinário triunfo que a Igreja celebra em 14 de setembro, festa da Exaltação da Santa Cruz.

De instrumento de suplício a sinal de vitória

Fólio "Exaltação da Santa Cruz"
no Les très riches heures
du duc de Berry
(Musée Condé, Chantilly).
A origem histórica da celebração remonta ao século IV. Segundo antiga tradição, Santa Helena, mãe do imperador Constantino, encontrou em Jerusalém a verdadeira Cruz de Cristo durante as escavações realizadas nos lugares da Paixão.

Constantino mandou então erguer no local um grandioso complexo de basílicas destinado a perpetuar a memória da morte e da Ressurreição de Nosso Senhor. Os santuários foram solenemente dedicados em setembro do ano 335, e no dia 14 a relíquia da Santa Cruz foi apresentada à veneração dos fiéis.

A data permaneceria para sempre ligada à glorificação do instrumento da Paixão. A Cruz deixava de ser apenas recordação do sofrimento. Tornava-se um troféu de vitória.

Jesus havia anunciado esse paradoxo: “Quando eu for levantado da terra, atrairei todos a mim” (Jo 12,32). E, referindo-se à serpente de bronze erguida por Moisés no deserto, declarou: “Assim também tem de ser levantado o Filho do Homem, a fim de que todo aquele que nele crer tenha a vida eterna” (Jo 3,14-15).

No Calvário, portanto, aquilo que aos olhos humanos parecia uma derrota transformou-se na vitória sobre o pecado e a morte.

A Cruz roubada e reconquistada

Séculos depois, outro episódio histórico reforçaria o caráter triunfal da festa. Em 614, Jerusalém foi conquistada pelos persas do rei Cosroes II. Entre os tesouros levados da Cidade Santa encontrava-se a adorável relíquia da Cruz.

O imperador bizantino Heráclio iniciou então uma longa campanha militar contra os persas e, depois de sucessivas vitórias, conseguiu que a relíquia fosse restituída. A Santa Cruz retornou solenemente a Jerusalém no início do século VII, sendo novamente apresentada à veneração dos cristãos.

A antiga festa adquiriu, assim, um significado ainda mais eloquente: a Cruz fora ultrajada e levada pelos inimigos; retornava triunfalmente à Cidade Santa. Era como uma imagem histórica do próprio mistério que ela representa: humilhada, mas glorificada; abatida aos olhos do mundo, mas vitoriosa.

Sinal inseparável de Jesus Cristo

Depois da Paixão de Nosso Senhor, já não é possível separá-Lo de sua Cruz. Por isso, desde os primeiros séculos, os cristãos passaram a traçar sobre si o sinal da cruz. Colocaram-na em seus lugares de culto, levaram-na consigo e fizeram dela um sinal cotidiano de profissão da fé.

Essa prática chegou a provocar o sarcasmo do imperador Juliano, chamado “o Apóstata”, que reinou de 361 a 363 e procurou restaurar o paganismo no Império Romano. Ele censurava os cristãos precisamente por venerarem o madeiro da Cruz e reproduzirem por toda parte o seu sinal.

A censura, involuntariamente, testemunhava a força que o símbolo já adquirira. O que para os pagãos continuava sendo sinal de opróbrio era, para os cristãos, o sinal da Redenção.

São Paulo exprimiu essa inversão com palavras ecoam até nos presentes dias: “Quanto a mim, não pretendo jamais gloriar-me, a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo” (Gl 6,14).

A Cruz num mundo que procura afastá-la

A celebração deste dia 14 de setembro conserva uma atualidade particular. Em numerosas sociedades que nasceram sob influência cristã, assiste-se hoje a tentativas de relegar a Cruz exclusivamente ao âmbito privado, quando não de retirá-la de escolas, repartições e espaços públicos. Aquilo que durante séculos presidiu igrejas, hospitais, universidades, tribunais, praças e caminhos passa, em certos ambientes, a ser considerado um sinal incômodo.

É precisamente diante dessa tendência que a festa da Exaltação adquire toda a força de seu nome. A Santa Igreja não celebra simplesmente a Cruz, mas sua Exaltação.

Ela ergue solenemente aquilo que o mundo antigo desprezou e aquilo que, ainda hoje, certas correntes procuram ocultar. Proclama que a Cruz não representa a derrota, mas a vitória; não o desespero, mas a esperança; não o fim, mas a passagem para a Ressurreição.

A antiga liturgia da festa exprimia essa confiança numa breve e bela oração depois da Comunhão: “Protegei-nos, Senhor nosso Deus, e, tendo-nos dado a alegria de nos gloriarmos de vossa santa Cruz, fazei que sejamos sempre por ela defendidos.”

“Todo o Evangelho em um só sinal”

Triunfo de Cristo sobre o paganismo,
Gustave Doré (1832 - 1883).
The Joey and Tobey
Tanenbaum Collection.
Talvez poucas definições sintetizem tão bem o significado da Cruz quanto a atribuída ao grande orador sacro francês Jacques-Bénigne Bossuet, bispo de Meaux e uma das maiores vozes do púlpito católico do século XVII:

“O que é a cruz, senão o resumo do Evangelho, todo o Evangelho em um só signo, em uma só letra? Por que não a havemos de oscular? Por que não nos prostraremos diante dela?”

E prossegue, recordando São Paulo:

“Eu não sei mais pregar senão a Jesus, e a Jesus crucificado.”

A Cruz é, assim, um compêndio silencioso da fé cristã. Nela se encontram a gravidade do pecado, a justiça e a misericórdia de Deus, o sacrifício de nosso Divino Redentor, o preço da salvação e a promessa da Ressurreição.

Por isso, transcorridos quase dois milênios do holocausto no alto do Calvário, ela continua erguida sobre altares e torres, presente nas casas, carregada ao peito e traçada diariamente por milhões de fiéis.

Os impérios que a condenaram desapareceram. Os perseguidores que quiseram suprimi-la passaram. A Cruz permaneceu de pé.

E a cada 14 de setembro a Igreja volta a erguê-la diante do mundo, repetindo a grande proclamação cristã: o instrumento da morte tornou-se sinal da Vida; o símbolo da ignomínia tornou-se troféu de glória; o madeiro do Calvário tornou-se o estandarte da Redenção. 

14 de agosto de 2026

O perfume da Assunção de Nossa Senhora ao Céu permanece em todos os povos da Terra

 



15 de agosto — Solenidade da Assunção da Santíssima Virgem, levada por Anjos em corpo e alma ao Céu 


✅ Paulo Roberto Campos 

Há festas da Igreja que nos falam sobretudo de um acontecimento. A Assunção de Nossa Senhora, porém, nos fala de um acontecimento e, ao mesmo tempo, de uma presença.

Maria Santíssima foi elevada ao Céu em corpo e alma. A Igreja ensina que, terminado o curso de sua vida terrestre, Ela foi glorificada por Deus e introduzida na bem-aventurança celeste. Plinio Corrêa de Oliveira, em uma conferência pronunciada precisamente no dia 15 de agosto de 1975, convida-nos a contemplar esse mistério sob um aspecto particularmente tocante: Nossa Senhora partiu, mas deixou na Igreja um perfume que atravessaria os séculos.

Uma primeira consideração dessa sua conferência é a diferença entre a Ascensão de Nosso Senhor e a Assunção de Maria. Nosso Senhor Jesus Cristo sobe ao Céu por seu próprio poder; Ela, criatura perfeitíssima, é elevada pelo poder de Deus. Daí a própria diferença dos termos: Ascensão para Nosso Senhor, Assunção para Nossa Senhora. 

Mas há algo ainda mais profundo: Nossa Senhora, concebida sem pecado original e Mãe de Deus, poderia ter sido preservada da morte. Entretanto, quis assemelhar-se inteiramente ao seu Divino Filho. Se Ele desejou passar pela morte, Ela também desejou passar por esse misterioso limiar. E sua morte foi inteiramente incomum. 

É por isso que a tradição fala da “Dormitio Beatae Mariae Virginis” (Dormição da Virgem Maria). Não se trata de negar a realidade da morte, mas de indicar sua particular suavidade e a proximidade imediata de sua glorificação. Maria morreu; sua alma separou-se de seu corpo. Mas essa morte foi como uma dormição, seguida pela ressurreição e pela gloriosa Assunção.




Há aqui uma lição extraordinária para nós. 

A morte, consequência do pecado original, é naturalmente uma ruptura dolorosa. Mas Nosso Senhor transformou a própria morte em porta de entrada para a vida eterna. E Nossa Senhora, associando-se ao sacrifício de Cristo, quis também passar por essa porta. 

Talvez seja este um dos pontos mais originais e mais consoladores da meditação do Prof. Plinio na referida conferência. 

Ele sugere que, quando chegar para nós a hora da morte, procuremos unir nossa morte à morte de Nossa Senhora e, por meio d´Ela, à morte infinitamente preciosa de Nosso Senhor Jesus Cristo. Assim como o verdadeiro devoto de Maria procura chegar a Jesus por meio d'Ela durante toda a vida, também na hora suprema pode pedir que sua morte seja oferecida em união com a morte de sua Mãe Santíssima. 

É uma perspectiva profundamente católica. Não se trata de amar a morte por si mesma. A morte é um terrível efeito do pecado. Mas, em Cristo, ela pode adquirir outro significado: pode tornar-se sacrifício, entrega, reparação e passagem para a glória. 

Por isso, diante da morte, o católico não perde a esperança e pode dizer interiormente a Nossa Senhora: “Assim como Vós quisestes entregar-Vos inteiramente a Deus, ajudai-me a entregar-me também. Uni a minha morte à vossa e, por meio da vossa morte, à morte infinitamente preciosa de Nosso Senhor”. 

A morte deixa então de ser simplesmente o momento em que tudo termina. Torna-se o momento em que começa a verdadeira vida. 

Mas é na contemplação da Assunção propriamente dita que surge a nota mais delicada aparece na conferência. 

Nossa Senhora sobe ao Céu. Os Apóstolos e os discípulos maravilhados contemplam sua partida [notem no quadro no início do artigo]. Aquele contato terrestre com Ela termina. Seus olhos já não poderão vê-La como antes. A Mãe que os acompanhara, que os consolara, que lhes comunicara sua presença, desaparece de seus horizontes terrenos. 

Poderia parecer que, a partir desse momento, tudo seria apenas saudade. Mas não. É justamente aqui que o Prof. Plinio coloca uma de suas ideias mais belas: uma alma verdadeiramente católica pode continuar presente depois de sua partida através do “perfume” que deixa atrás de si. E isso se realizou de modo incomparável em Nossa Senhora.

Ela já não estava diante dos olhos dos Apóstolos. Mas estava, de certo modo, ainda mais presente em suas almas. 

A lembrança de seu olhar, de sua pureza, de sua bondade, de sua dignidade, de sua serenidade e de sua incomparável união com Deus deveria permanecer para sempre na Igreja. 

E assim aconteceu. Ao longo dos séculos, povos inteiros aprenderam a pronunciar seu nome com ternura. Reis e camponeses, sábios e simples, religiosos e mães de família, mártires e contemplativos encontraram em Maria uma luz, uma consolação e um modelo.

E esse perfume não se extinguiu. É Nossa Senhora! Há algo de profundamente expressivo na observação do Prof. Plinio de que, quando se fala verdadeiramente d´Ela, muitas vezes as palavras parecem insuficientes. Há realidades que podem ser explicadas; outras precisam ser contempladas. 

Falar de Maria é tocar numa realidade que ultrapassa nossas fórmulas. Ela é a Imaculada Conceição! É a Mãe de Deus! É a Virgem Santíssima! É a Rainha dos Anjos e dos Santos! É a Mãe espiritual de todos nós! É Aquela que esteve junto à Cruz e que agora reina junto ao Filho no Céu! 

Por isso, depois de tudo quanto se possa dizer, permanece uma espécie de silêncio cheio de significado: é Nossa Senhora! Essa expressão, aparentemente tão simples, contém algo como um universo. 

Na parte final de sua conferência, o Prof. Plinio faz uma consideração particularmente apropriada para nossa época: já que não podemos contemplar com nossos olhos terrenos a fisionomia de Nossa Senhora, as suas imagens podem ser, de certo modo, uma ponte entre Ela e nós. Não adoramos a imagem. A imagem nos conduz à Pessoa representada. 

Quando olhamos uma boa imagem de Nossa Senhora, procuramos algo mais do que uma bela obra de arte. Procuramos imaginar sua alma, sua pureza, sua bondade, sua majestade, sua maternidade. 

É como se aquela representação nos dissesse: “Ela existiu; Ela vive; Ela está no Céu; e é para Ela que voltamos o nosso olhar.” 

A imagem torna-se, assim, uma lembrança visível daquela presença que a Assunção tornou invisível aos nossos olhos. 

A Assunção não é, portanto, simplesmente a despedida de Nossa Senhora da Terra. É a inauguração de uma forma nova e ainda mais profunda de presença. Antes, Maria estava fisicamente junto dos Apóstolos. Agora, está espiritualmente junto a todos nós. 

Antes, poucos podiam aproximar-se d'Ela. Depois da Assunção, todos os homens podemos recorrer à sua maternidade. Antes, sua presença estava limitada a um lugar. Agora, seu “perfume” se espalhou pelo mundo inteiro. E esse perfume continua chegando até nós.

Talvez seja esta a graça mais apropriada a pedir nesta grandiosa festa do dia 15 de agosto: que Nossa Senhora impregne em nossas almas algo de seu perfume. Que depois de convivermos com Ela pela oração, pelo Rosário, pela meditação e pela frequência aos Sacramentos, alguma coisa d´Ela permaneça em nosso modo de pensar, de falar, de agir e de enfrentar as dificuldades. 

Que aqueles que convivem conosco possam encontrar, não nossa própria personalidade, mas alguma coisa que lhes recorde Nossa Senhora. Que sejamos, por assim dizer, portadores de seu perfume. 

E quando chegar a hora de nossa partida, possamos também deixar atrás de nós — embora de modo infinitamente menor — alguma lembrança de fidelidade, de pureza, de coragem e de amor a Deus. Porque a verdadeira morte católica não é simplesmente desaparecer. É partir deixando para trás uma lembrança que conduz a Deus. 

Nossa Senhora partiu há tantos séculos. Entretanto, sua presença nunca foi tão grande. Ela está no Céu em corpo e alma, gloriosa junto de seu Divino Filho. E, ao mesmo tempo, continua maternalmente próxima daqueles que invocam a Medianeira Universal de Todas as Graças. 

A Igreja inteira está impregnada desse perfume. Um perfume que não se dissipa. Um perfume que atravessa os séculos. O perfume de Nossa Senhora! 
____________ 
Obs: A conferência original é bem mais longa e interessante. Para este breve artigo, selecionei apenas alguns pontos. A íntegra pode ser lida por meio do seguinte link: O perfume da Assunção de Nossa Senhora

5 de agosto de 2026

570 anos da Festa da Transfiguração: a luz do Tabor para enfrentar o Calvário, as horas de provação

 

A Transfiguração. Giovanni Bellini (1487-1495). Atualmente no Museo Nazionale di Capodimonte, em Nápoles.


Instituída há mais de cinco séculos pelo Papa Calisto III, após a memorável vitória de Belgrado, a festa da Transfiguração recorda-nos que Deus revela Sua glória para nos fortalecer antes das grandes provações.

✅  Paulo Roberto Campos

No calendário litúrgico da Igreja Católica, poucas festas encerram um simbolismo tão profundo quanto a da Transfiguração de Nosso Senhor Jesus Cristo, celebrada em 6 de agosto. Para a maioria dos fiéis, ela evoca apenas uma das mais belas passagens do Evangelho: Jesus resplandecendo de glória no alto do Monte Tabor (na Galileia, em Israel), diante dos Apóstolos Pedro, Tiago e João.

Entretanto, poucos sabem que esta data guarda também uma extraordinária página da história da Cristandade.

Neste 6 de agosto de 2026, completam-se 570 anos desde que o Papa Calisto III [quadro ao lado], em ação de graças pela surpreendente vitória cristã sobre os turcos em Belgrado, estendeu a toda a Igreja latina a celebração da festa da Transfiguração. O gesto do Pontífice não foi apenas uma homenagem a um triunfo militar. Constituiu uma profissão pública de fé na Providência Divina, que jamais abandona Sua Igreja quando as circunstâncias parecem mais sombrias.

Mais de cinco séculos depois, a mensagem permanece surpreendentemente atual.

Em uma época marcada por guerras, crises culturais, perseguições religiosas e profundas incertezas sobre o futuro da civilização cristã, a Transfiguração continua proclamando que, antes das horas mais difíceis, Deus costuma conceder aos Seus filhos uma visão antecipada da vitória.

O episódio é narrado por três Evangelistas (Mt 17, 1-9; Mc 9, 2-10; Lc 9, 28-36).

Seis dias após anunciar Sua Paixão, Jesus sobe a um alto monte, levando consigo apenas Pedro, Tiago e João, onde acontece algo absolutamente extraordinário.

“Lá se transfigurou na presença deles: seu rosto brilhou como o sol, suas vestes tornaram-se resplandecentes de brancura” (Mt 17, 2).

Não se trata de um milagre realizado por Nosso Senhor Jesus Cristo sobre outra criatura, mas de uma manifestação da própria glória divina que sempre existira em Sua natureza humana, embora normalmente permanecesse velada.

Ao lado do Divino Salvador aparecem duas figuras venerandas do Antigo Testamento: Moisés, representante da Lei, e Elias, o maior dos profetas. Ambos conversam com Jesus sobre a Paixão que se aproximava.

Enquanto isso, Pedro, arrebatado pela beleza da cena, exclama: "Senhor, é bom estarmos aqui!" Logo uma nuvem luminosa envolve o monte, e dela ressoa a voz do Pai Eterno: "Este é o meu Filho amado, em quem pus toda a minha complacência; ouvi-O."

É uma das poucas ocasiões em que as três Pessoas da Santíssima Trindade se manifestam conjuntamente: o Filho transfigurado, o Pai falando do alto dos céus e o Espírito Santo simbolizado pela nuvem luminosa.

A Igreja sempre contemplou essa cena como uma das mais sublimes revelações da divindade de Jesus Cristo.

Preparando os Apóstolos para o Calvário

Igreja da Transfiguração,
no Monte Tabor.
Mas por que Jesus quis manifestar Sua glória justamente naquele momento? — A resposta foi dada de maneira admirável por São Leão Magno (+461), em um sermão clássico sobre a Transfiguração: 

"O principal objetivo da Transfiguração foi remover do coração dos discípulos o escândalo da Cruz, para que a humilhação da Paixão voluntariamente aceita não abalasse a fé daqueles a quem fora revelada a excelência da dignidade escondida."

Poucas semanas separavam o Tabor do Calvário. Os mesmos Apóstolos que contemplavam Jesus revestido de esplendor logo O veriam coberto de sangue, coroado de espinhos, abandonado pela multidão, pregado numa cruz. Sem a recordação daquela visão extraordinária, a provação poderia parecer insuportável.

São João Crisóstomo desenvolve a mesma ideia. Segundo ele, Jesus mostrou Sua glória "para que, quando O vissem crucificado, compreendessem que Sua Paixão era voluntária e não fruto de impotência".

A Transfiguração, portanto, não foi um prêmio concedido aos discípulos, mas uma preparação para o sofrimento.

A exclamação espontânea de São Pedro atravessou 20 séculos de cristianismo: "Senhor, é bom estarmos aqui!"

Quem nunca experimentou, ainda que por breves momentos, algo semelhante? — São aqueles instantes em que a alma sente com particular intensidade a presença de Deus: graças especiais que Ele nos concede por intercessão de Sua Mãe Santíssima.

O homem gostaria de permanecer para sempre nesse "Tabor". Pedro chegou a propor a edificação de três tendas para prolongar naquela montanha aquela felicidade. Mas Jesus desce imediatamente da montanha. Era preciso caminhar rumo a Jerusalém. Era preciso enfrentar o Calvário.

Lição para todos os tempos

Essa alternância entre o Tabor e o Calvário acompanha toda a história da Igreja. Também a vida espiritual de cada cristão conhece momentos luminosos e períodos de prova.

Comentando esse episódio evangélico, Plinio Corrêa de Oliveira [foto] observava que Deus, em Sua misericórdia, costuma conceder aos homens certos "Tabor" ao longo da vida. São recordações destinadas a sustentar a alma quando chegam inevitavelmente as cruzes. Donde sua conhecida síntese espiritual: "Nas piores horas, lembremo-nos das melhores, para podermos confiar no dia de amanhã." Não se trata de um simples exercício psicológico de memória afetiva. É um ato de fé na Divina Providência.

Recordar as graças já recebidas fortalece a certeza de que Aquele que conduziu ontem continuará conduzindo amanhã. É precisamente essa perspectiva que ajuda a compreender por que a Igreja resolveu ligar a festa da Transfiguração a um dos momentos mais dramáticos da história da Cristandade.

Quando a Europa parecia caminhar para uma derrota irreversível diante do avanço maometano, um Papa enxergou, na vitória inesperada de Belgrado, um verdadeiro reflexo da luz do Tabor projetando-se sobre a história.

Foi então que nasceu a celebração universal do dia 6 de agosto — uma data que, neste ano, completa 570 anos de existência.

Quando a Cristandade parecia condenada

Para compreender plenamente o significado da decisão de Calisto III, é preciso recuar alguns anos. Em 29 de maio de 1453, Constantinopla — a antiga capital do Império Romano do Oriente — caiu diante das tropas do sultão Maomé II. A notícia abalou profundamente a Europa cristã. Durante mais de 1000 anos, aquela cidade fora um dos grandes baluartes da civilização cristã. Sua conquista pelos otomanos pareceu anunciar um avanço irresistível do Islã sobre o continente europeu. A ameaça era real.

Depois de Constantinopla, o caminho parecia aberto para a conquista dos Bálcãs e, em seguida, da própria Europa Central. Muitos contemporâneos acreditavam que seria apenas uma questão de tempo até que cidades como Viena, Veneza ou mesmo Roma se tornassem os próximos alvos.

Foi nesse cenário dramático que, em abril de 1455, subiu ao trono de São Pedro o valenciano Alfonso de Borja, que tomou o nome de Calisto III.

Já idoso, o novo Pontífice compreendeu imediatamente que não se tratava apenas de um conflito político ou militar. Estava em jogo a sobrevivência da Cristandade como realidade espiritual e cultural.

Sua primeira reação foi conclamar os príncipes cristãos à união, superando rivalidades que há muito enfraqueciam a Europa. Nem todos corresponderam ao apelo. As divisões internas mostraram-se mais fortes do que a consciência do perigo comum.

Calisto III, então, voltou-se para aquilo que considerava a arma mais poderosa da Igreja: a oração.

Papa que mobilizou a Cristandade

Entre as iniciativas do Pontífice, uma tornou-se particularmente célebre. Ele determinou que, todos os dias, ao toque dos sinos do meio-dia, os fiéis interrompessem suas atividades por alguns instantes para rezar pela vitória das armas cristãs e pela libertação dos povos ameaçados.

Com o passar do tempo, essa prática fundiu-se à oração do Ângelus, tornando-se uma das mais belas tradições da piedade católica. Ainda hoje, em milhares de cidades, os sinos do meio-dia recordam, mesmo sem que muitos o saibam, aquele dramático momento da história em que um Papa convocou toda a Cristandade para uma Cruzada de Oração.

Enquanto isso, o exército otomano preparava sua grande ofensiva. O alvo escolhido era Belgrado, a principal fortaleza do Reino da Hungria e verdadeira porta de entrada para a Europa Central. Se Belgrado caísse, dificilmente haveria obstáculos capazes de deter o avanço turco. 

Heróis de Belgrado

János Hunyadi,
comandante dos cruzados
que libertou Belgrado
do domínio otomano
A defesa da cidade foi confiada a um dos maiores estrategistas militares de seu tempo, o regente húngaro János Hunyadi [estátua ao lado], cuja experiência nas campanhas contra os otomanos já lhe granjeara enorme prestígio.

Ao seu lado encontrava-se uma figura muito diferente, mas igualmente decisiva: São João de Capistrano [pintura abaixo], frade franciscano de mais de 70 anos, célebre pregador popular e profundo conhecedor da alma humana.

Enquanto Hunyadi organizava as defesas militares, Capistrano percorria cidades e aldeias inflamando os espíritos com seus sermões. Milhares de voluntários responderam ao chamado. Muitos eram camponeses e artesãos, mal armados, mas profundamente convencidos de que defendiam não apenas suas famílias, mas a própria fé cristã.

O santo empunhando um grande crucifixo durante os combates, conclamava os homens à confiança em Jesus Cristo. Seu brado tornou-se célebre: "A vitória pertence ao Senhor!"

São João de Capistrano
na batalha de Belgrado.
Igreja dos Bernardinos, Cracóvia.
Em julho de 1456, um poderoso exército otomano cercou Belgrado. Durante semanas, os combates foram intensos. Tudo parecia favorecer os invasores. Entretanto, em 22 de julho de 1456, contra muitas expectativas, os defensores lançaram uma ofensiva inesperada que rompeu as linhas inimigas. O próprio sultão Maomé II ficou ferido, e suas tropas retiraram-se em desordem.

A Europa estava salva! Não definitivamente — ainda haveria novos confrontos nas décadas seguintes —, mas o ímpeto da expansão otomana sofrera um golpe decisivo.

Historiadores de diversas correntes reconhecem que a vitória de Belgrado representou um dos momentos decisivos da história europeia. Caso a cidade tivesse sucumbido, o destino político e religioso do continente poderia ter sido muito diferente.


Inspirada resposta do Papa

Quando a notícia da vitória chegou a Roma, Calisto III viu naquele acontecimento algo muito maior do que um êxito militar. Ele discerniu um sinal da Providência.

Como expressão de gratidão a Deus, decidiu estender a toda a Igreja latina a festa da Transfiguração de Nosso Senhor Jesus Cristo, fixando definitivamente sua celebração no dia 6 de agosto. A escolha não foi casual.

A luz contemplada pelos Apóstolos no Monte Tabor tornava-se, assim, símbolo da assistência divina concedida à Cristandade em um dos momentos mais sombrios de sua história.

A mensagem era clara. Assim como Nosso Senhor manifestara Sua glória antes da Paixão, Deus também mostrara Sua proteção quando muitos julgavam inevitável o triunfo das forças que ameaçavam a Cristandade.

O Papa desejava que essa recordação permanecesse viva de geração em geração. A cada 6 de agosto, os fiéis não apenas rememorariam um episódio do Evangelho, mas também renovariam sua confiança na ação da Providência sobre a História.

Leitura espiritual da História

Séculos depois, o Papa Pio XII voltou a recordar esse significado histórico da festa. Em uma época igualmente marcada por guerras mundiais, perseguições religiosas e regimes totalitário-comunistas, o Pontífice apresentou a Transfiguração como um convite permanente à esperança sobrenatural.

A História da Igreja — ensinava, em substância — conhece horas de esplendor e horas de sofrimento. Contudo, por trás dos acontecimentos humanos, permanece a mão de Deus conduzindo os destinos dos povos e realizando Seus desígnios.

Essa perspectiva ajuda a compreender por que a festa da Transfiguração jamais foi apenas a comemoração de um acontecimento passado. Ela se tornou uma profissão de fé.

Ao celebrar Nosso Senhor glorioso do Tabor, a Igreja proclama que nenhuma derrota aparente, nenhuma perseguição, nenhuma crise possui a última palavra. A glória revelada naquele monte continua sendo a garantia da vitória definitiva d´Ele sobre todas as maléficas forças revolucionárias.

É precisamente essa convicção que faz da Transfiguração uma das festas mais atuais do calendário litúrgico, especialmente em tempos de incerteza e de provações.

 

O “Tabor” e os "Calvários" de nossa existência

Por que a festa da Transfiguração continua tocando com tanta força os corações católicos de nosso século neo-pagão? — Porque ela toca uma das experiências mais universais da existência humana.

Todos conhecem os dias de entusiasmo e também as horas de desânimo; os momentos em que Deus parece próximo e aqueles em que Seu silêncio parece envolver todas as coisas.

A pedagogia divina, porém, não muda. Antes da Paixão, Nosso Senhor Jesus Cristo mostrou aos Apóstolos um lampejo da glória que Lhe pertencia desde toda a eternidade. Não eliminou a cruz, mas fortaleceu seus discípulos para carregá-la.

É por isso que São Leão Magno afirma que o Senhor quis "fortalecer a esperança da Igreja", revelando antecipadamente a glória que aguardava os membros de Seu Corpo Místico.

Também São João Damasceno contempla o Tabor como uma manifestação gradual da divindade de Cristo. Segundo o Doutor da Igreja, Jesus "transfigurou-Se, não assumindo o que não era, mas manifestando aos discípulos aquilo que era", abrindo-lhes os olhos para que pudessem contemplar, tanto quanto lhes era possível, o esplendor do Verbo Encarnado.

Essas reflexões inspiraram gerações de mestres espirituais. Entre eles, São Tomás de Aquino, ao reunir na Catena Aurea os comentários dos Padres ao Evangelho da Transfiguração, mostra uma impressionante convergência: todos veem no Tabor uma preparação para o “escândalo” da Cruz e uma antecipação da glória da Ressurreição.

Em outras palavras, o caminho do cristão passa inevitavelmente pelo Calvário, mas termina na luz da glória.

Lição para nossos dias

Comentando esse episódio evangélico, Plinio Corrêa de Oliveira chamou a atenção para um aspecto de grande alcance espiritual.

Segundo ele, Deus costuma conceder aos homens, ao longo de suas vidas, momentos particularmente luminosos: ocasiões em que uma inesperada graça especial, uma conversão, uma cerimônia, uma Missa profundamente recolhida, uma oração fervorosa, uma peregrinação, uma palavrinha que fortalece a virtude, uma leitura, uma comunhão particularmente consoladora, ou mesmo um acontecimento providencial deixam na alma uma marca profunda.

Esses momentos não são um fim em si mesmos. São reservas de luz para o futuro. Donde sua conhecida observação, já citada acima: "Nas piores horas, lembremo-nos das melhores, para podermos confiar no dia de amanhã." Essa frase sintetiza admiravelmente a pedagogia do Tabor.

Quando chegam as provações — e elas chegam para todos —, o católico não se deixa dominar pelo desalento. Volta o olhar para as graças que Deus já lhe concedeu por meio de Maria, recorda as intervenções da Providência em sua vida e na história da Igreja, e reencontra a coragem para prosseguir. Isto não é apenas saudades, é esperança, é confiança!

Festividade extraordinariamente atual

Vivemos uma época marcada por rápidas transformações. Guerras, revoluções, perseguições religiosas, crise da família, relativismo moral, conflitos culturais e profundas inquietações nacionais e internacionais fazem muitos perguntarem se o mundo caminha para um futuro de paz ou para novas convulsões.

Não faltam motivos de preocupação. Mas também não faltam razões para a esperança.

Ao longo de 2000 mil anos, a Igreja atravessou perseguições romanas, invasões bárbaras, grandes heresias, cismas, revoluções, totalitarismos e duas guerras mundiais. Em cada uma dessas crises, parecia, aos olhos de muitos contemporâneos, que o futuro da fé estava seriamente comprometido.

No centro da batalha, São João de Capistrano
segurando um Crucifixo.
Cerco de Belgrado por Huge Loischinger,
Museu Nacional Húngaro.
Entretanto, a História mostrou repetidas vezes que a Providência escrevia direito por linhas que os homens julgavam tortuosas. A vitória de Belgrado constitui um desses momentos emblemáticos.

Quando tudo indicava que a expansão otomana seria irresistível, que a Europa estava perdida, Deus suscitou heroicos homens de fé inabalável, um Papa, um general de rara competência e um santo pregador capaz de inflamar milhares de homens simples. O resultado ultrapassou os cálculos humanos.

Foi exatamente essa leitura sobrenatural dos acontecimentos que levou o Papa Calisto III a perpetuar a memória daquela vitória por meio da festa da Transfiguração. Seu gesto continua ecoando em nosso século.

Luz que não se extingue

Mosaico da Transfiguração (séc. VI)
no Mosteiro de Santa Catarina, no Monte Sinai.
Há uma notável harmonia entre o Tabor, Belgrado e a vida de cada um de nós. No Tabor, Nosso Senhor manifesta Sua glória antes da Cruz. Em Belgrado, a Providência concede uma vitória quando a Cristandade parecia caminhar para uma derrota irreversível.

Na vida espiritual, Deus também permite que a alma contemple, de tempos em tempos, reflexos de Sua luz antes das grandes provas. Talvez seja essa a principal razão pela qual a festa da Transfiguração conserva um fascínio tão singular. Ela recorda que a última palavra da História pertence a Ele.

Ao completar 570 anos de sua instituição para toda a Igreja latina, a festa de 6 de agosto continua proclamando exatamente a mesma mensagem que inspirou o Papa Calisto III em 1457: quando a noite parece mais escura, Deus continua governando os acontecimentos; quando o futuro parece incerto, a Providência permanece conduzindo a História; quando o Calvário se aproxima, o Tabor já deixou na alma uma luz suficiente para sustentar a esperança.

É essa certeza na vitória que explica por que, há mais de cinco séculos e meio, prossegue a subida ao alto do Tabor. Ali, por um breve instante, os Apóstolos contemplaram aquilo que um dia será a alegria eterna dos justos. E dali desceram fortalecidos para enfrentar a Cruz.

A mesma luz continua iluminando os caminhos da Igreja e de todos os homens que, nas horas difíceis, suplicam o auxilio de Nossa Senhora e conservam os olhos fixos em Jesus Cristo, "Luz da Luz", vencedor do pecado, da morte e da própria História.

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Fontes principais:

Sagrada Escritura: Mateus 17, 1-9; Marcos 9, 2-10; Lucas 9, 28-36.

Padres e Doutores da Igreja: São Leão Magno, Sermão 51 (De Transfiguratione Domini); São João Damasceno, Homilia sobre a Transfiguração; São Tomás de Aquino, Catena Aurea sobre São Mateus.

Documentos e História: instituição universal da festa pelo Papa Calisto III (1457); documentos e estudos sobre o cerco e a vitória de Belgrado (1456); referências de Pio XII sobre a Transfiguração e a esperança cristã.

* https://pt.wikipedia.org/wiki/Transfigura%C3%A7%C3%A3o_de_Jesus

Texto baseado em conferências e comentários de Plinio Corrêa de Oliveira sobre a Transfiguração e o significado espiritual do Monte Tabor.

4 de abril de 2026

“RESSUSCITOU AO TERCEIRO DIA”


Na edição anterior publicamos as 15 meditações, especialmente apropriadas para a Semana Santa, sugeridas por Santo Afonso Maria de Ligório (1696-1787), extraídas de sua obra A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. 

Esse grande Doutor da Igreja, fundador dos missionários Redentoristas, aconselhava refletirmos com fervor nas estações da Via Crucis d´Aquele que sofreu e morreu por cada um de nós, para a Redenção do gênero humano. 

Segundo o santo autor, o que mais favorece a salvação eterna das almas, levando-as à conversão e à santidade, são essas meditações quando feitas frequentemente.

Continuando nesse sacrossanto tema, segue um extraordinário sermão de Mons. Tihamer Toth, pronunciado na capela da Universidade de Budapeste, na qual foi professor de eloquência sacra. Foi também superior do Seminário Central da Hungria e Bispo-coadjutor de Veszprém, sagrado em 1938 pelo Papa Pio XI. 

Como se sabe, a vida de Nosso Senhor não termina com o 4º artigo do Credo “padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado”. Nele, também rezamos que Ele “ressuscitou ao terceiro dia” — verdade fundamental que é o pilar de nossa Fé, como afirmou taxativamente o Apóstolo São Paulo: “Se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa pregação, vã também é a vossa fé” (I Coríntios, XV, 14). 

É o que explicita com muita verve e unção o célebre orador e escritor húngaro, demonstrando por que a Páscoa é a festividade magna da Cristandade e a Ressurreição um dos fatos mais comprovados da História Antiga. 

Da Redação de Catolicismo

Cristo Triufador – Maerten de Vos (1532–1603). Museu Real de Belas Artes de Antuérpia, Flandres, (Bélgica).


ELE RESSUSCITOU!

MEUS IRMÃOS,

Se o nosso Símbolo [o Credo, conhecido também como “Símbolo dos Apóstolos”] terminasse no ponto a que chegamos no comentário que dele fizemos nos sermões que ouvistes, então a fé cristã — apesar de sua incomparável beleza — permaneceria um sistema filosófico inacabado, incompleto e impotente.

Se o “Credo” terminasse onde parei na minha última instrução — “padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e foi sepultado” —, a carreira terrestre de Nosso Senhor Jesus Cristo terminaria numa nota trágica, então todo o Cristianismo desabaria como um saco vazio, como um edifício sem estrutura, como uma casa sem fundamentos.

Certamente, mesmo assim o Cristianismo ainda seria um magnífico sistema filosófico, a doutrina de Cristo permaneceria ainda um conjunto de sublimes verdades morais; mas quem poderia ainda observar, ao preço de numerosos sacrifícios, os difíceis mandamentos de Cristo, quem poderia amar sem vacilar até o último suspiro a fé cristã, se o seu Fundador não fosse senão um homem — um homem virtuoso, um sábio, um santo, mas apenas um homem que seus inimigos insultaram, pisaram aos pés e mataram?

Sim, se o nosso Símbolo ficasse por aí!

Mas não fica. Há uma continuação. E essa continuação proclama algo particularmente impressionante, inaudito, incrível, que jamais aconteceu: “Ressuscitou dos mortos ao terceiro dia”. São Paulo já o havia compreendido e diz expressamente que toda a fé cristã gira em torno desta questão: Cristo ressuscitou ou não? Com efeito, “se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa pregação, vã também é a vossa fé” (I Coríntios, XV, 14).

É verdade! Se Cristo não ressuscitou, que me importa a mim, homem do século XX, que tenha vivido outrora, há 2000 anos, sobre a terra, um homem extremamente bom, extremamente sábio, extremamente amável, cheio de amor pelos homens, que curava os doentes, que perdoava os pecadores… que me importa, se ele também morreu, se também foi sepultado e se também virou em pó?… Talvez eu o admirasse como se admira um grande homem, talvez o honrasse como se honra um homem de bem — mas amá-lo, adorá-lo, observar seus mandamentos por uma vida de sacrifícios, permanecer-lhe fiel durante toda a vida? Quem sacrificaria a própria vida por um cadáver reduzido a pó? Quem? Se Cristo não ressuscitou…

Mas se Ele ressuscitou?… Sim, se Ele ressuscitou? Se Ele me impõe respeito não somente por uma vida de virtude, por palavras de bênção, pelo idealismo de seu caráter, por seus milagres, mas se Ele ainda marcou finalmente sua vida incomparável e suas palavras que proclamam sua consciência divina com o selo mais grandioso, mais extraordinário, mais inaudito: se Ele saiu por seu próprio poder do túmulo?

E se eu vejo que milhares e milhões aceitaram o martírio por esta fé no Ressuscitado; se vejo que, sobre as pegadas do Ressuscitado, floresceram as virtudes mais heroicas e mais belas? Então?

Então? Então não resta senão reconhecê-lo: Cristo não pode ter sido um homem como eu, como vós, como qualquer outro. Cristo era Deus. Inclinar-se diante d’Ele é prova de sabedoria; insurgir-se contra Ele é pura loucura.

Sim, é exatamente isso, se Cristo ressuscitou.

Também é compreensível que, há 19 séculos [hoje, 20 séculos], os inimigos do Cristianismo tenham tentado tudo para aniquilar esta fé na ressurreição. Com efeito, eles sabem muito bem: se Cristo realmente ressuscitou, isso é um sinal tão inaudito, tão impressionante de sua divindade, que seria loucura fazer algo contra Ele e continuar ainda a combater o Cristianismo.

Importa, portanto, a nós, cristãos fiéis, aprender a conhecer de modo nítido e claro este dogma fundamental da nossa fé.

I. Como sabemos que Cristo realmente ressuscitou? — perguntar-nos-emos na primeira parte do sermão de hoje. Depois,

II. Vamos encarar claramente os expedientes pelos quais os inimigos de Cristo querem negar a sua ressurreição.

As santas mulheres encontram o túmulo vazio — Fra Angelico (1395–1455). Museu de São Marcos, Florença, Itália.


I
COMO SABEMOS QUE CRISTO RESSUSCITOU?

A ressurreição de Cristo no dia de Páscoa não é uma lenda, mas um fato histórico. Ao menos um fato tão certo e garantido por tantos testemunhos oculares e auriculares quanto qualquer outro acontecimento da história do mundo. É um fato histórico que Nosso Senhor realmente morreu e foi sepultado. É um fato histórico que, no dia de Páscoa, os amigos e os inimigos de Cristo foram ao seu túmulo e o encontraram vazio. Enfim, é um fato histórico que Nosso Senhor, depois da Páscoa, apareceu com bastante frequência a numerosas pessoas e falou com elas; portanto, Ele vivia.

É verdade, já faz muito tempo que Cristo ressuscitou, já se passaram 19 séculos. Mas A) os testemunhos da Sagrada Escritura e B) as mudanças ocorridas na alma dos discípulos tornam este acontecimento pelo menos tão crível — e até muito mais crível — do que qualquer outro episódio da história antiga.

A) A Sagrada Escritura é, em primeiro lugar, testemunha da ressurreição de Cristo.

a) Basta, meus irmãos, tomar os Evangelhos e ler atentamente o capítulo XXVIII de São Mateus, o capítulo XVI de São Marcos, o capítulo XXIV de São Lucas e o capítulo XX de São João.

Todos afirmam unanimemente: Cristo morreu na cruz, depois foi sepultado, uma grande pedra foi rolada diante do túmulo... e esse Cristo bem morto ressuscitou na manhã de Páscoa.

b) Mas não são apenas os evangelistas que afirmam e proclamam a ressurreição de Cristo; são também os outros apóstolos.

São Pedro, o primeiro, afirma-o em seu sermão de Pentecostes, portanto já 50 dias após a ressurreição. Pedro começa assim a pregar diante do povo reunido na praça.

Vistes Jesus na cruz? — pergunta ele.

Nós O vimos — respondem.

Vistes que Ele estava morto? — Nós O vimos.

Vistes como o sangue e a água correram do seu coração aberto pela lança? — Nós o vimos.

Pois bem! Eu, e comigo seus apóstolos e discípulos, nós O vimos vivo depois de sua morte, nós O vimos ressuscitado. “A este Jesus, Deus o ressuscitou: do que todos nós somos testemunhas” (Atos, II, 32).

Que Cristo tenha ressuscitado, São Pedro apresenta a coisa como um fato conhecido que não necessita de prova.

Ele fala disso com tanta naturalidade e serenidade como alguém que sabe que todos em Jerusalém estão cientes, e que ninguém pode levantar objeção contra esse fato bem conhecido. E daquele gigantesco auditório, 3000 homens se converteram naquele dia (Atos, II, 41).

São Pedro fala igualmente da ressurreição de Cristo à porta do Templo de Jerusalém, após a cura do paralítico (Atos, III, 15). Ele não prova a ressurreição de Cristo, mas simplesmente a invoca como um fato bem conhecido em toda Jerusalém.

Mas fora de Jerusalém foi necessário prová-la, pois nem todos sabiam o que havia acontecido na capital. Assim, na casa de Cornélio, em Cesareia, São Pedro falou assim: “Quanto a nós, somos testemunhas de tudo o que Ele fez na região da Judeia e em Jerusalém. Depois O mataram, suspendendo-O no madeiro. Mas Deus O ressuscitou ao terceiro dia e permitiu que Ele se manifestasse... a nós, que comemos e bebemos com Ele depois de sua ressurreição dentre os mortos” (Atos, X, 39-41).

Ao lado de São Pedro, também São Paulo prega a ressurreição de Nosso Senhor. Em Antioquia, ele fala assim aos judeus: “Depois de cumprirem tudo o que estava escrito a respeito d’Ele, tiraram-nO da cruz e O colocaram num sepulcro. Mas Deus O ressuscitou dentre os mortos. Durante muitos dias Ele se manifestou àqueles que com Ele haviam subido da Galileia para Jerusalém, e que agora são suas testemunhas diante do povo” (Atos, XIII, 29-31).

Outra vez ainda ele dá testemunho com estas palavras: “Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras; e apareceu a Cefas, depois aos Doze. Em seguida apareceu de uma só vez a mais de quinhentos irmãos… Depois apareceu a Tiago, depois a todos os apóstolos. E, por último de todos, apareceu também a mim” (I Coríntios, XV, 3-8).

B) Mas, além desse testemunho patente da Sagrada Escritura, a transformação espiritual dos apóstolos é também um testemunho eloquente da realidade da ressurreição.

Todos conhecemos o desmoronamento moral que a morte de Nosso Senhor produziu nos apóstolos. Nenhuma tempestade de granizo pode devastar a colheita como o fim lamentável do Salvador quebrou a alma dos apóstolos. Ouvi apenas com que desolada desesperança falam os discípulos de Emaús: “Nós esperávamos que fosse Ele quem libertaria Israel” (S. Lucas, XXIV, 21). Mesmo quando, na manhã de Páscoa, as santas mulheres vieram apressadamente e com alegria anunciar que o túmulo de Cristo estava vazio, eles permaneceram sem compreender (S. Lucas, XXIV, 22), e ainda na tarde de Páscoa trancaram cuidadosamente as portas por medo dos judeus.

E é nessas almas covardes, trêmulas e abatidas que de repente se acende a chama da coragem dos mártires. Aqueles que haviam acabado de trancar as portas atrás de si vêm agora pregar em plena praça pública e desafiam intrepidamente a proibição dos sumos sacerdotes.

Quem poderia compreender tal atitude, se Cristo não tivesse ressuscitado? Acaso um morto seria capaz de produzi-la? Não há efeito sem causa. Ora, é um fato incontestável que os apóstolos, esses simples pescadores, introduziram no mundo, no terreno religioso, moral, social e intelectual, uma mudança — poder-se-ia dizer uma proeza — tal que a História não pode apresentar fenômeno semelhante.

Quem pode dar sua explicação, se Cristo não ressuscitou? Em verdade, podemos dizer que, se se põe em dúvida a realidade da ressurreição de Cristo, então não há absolutamente mais nenhum fato histórico no mundo.

Quando o Salvador apareceu a Maria Madalena, ela O tomou por um jardineiro.


II
EXPEDIENTES CONTRA O FATO DA RESSURREIÇÃO DE CRISTO

Se examinarmos a fundo essas provas que fortalecem a nossa fé na ressurreição de Cristo, as tentativas pelas quais os inimigos de Cristo procuram esquivar-se da força peremptória do fato da ressurreição nos parecerão esforços bem miseráveis.

A) Antes de tudo, eles não sabem o que fazer com o túmulo vazio de Cristo

As santas mulheres que, na manhã de Páscoa, queriam prestar as últimas honras ao corpo de Jesus, encontraram o túmulo vazio. Aterrorizadas, informaram os apóstolos. São Pedro e São João foram imediatamente ao sepulcro e também o encontraram vazio (S. João, XX, 8). Que realmente o corpo de Jesus já não estava no túmulo é demonstrado também pelo espanto e desorientação dos sumos sacerdotes judeus; pois eles poderiam ter desmentido imediatamente a notícia que se disseminava sobre a ressurreição, se tivessem podido apresentar o cadáver de Cristo.

O túmulo estava, portanto, incontestavelmente vazio. Mas como se tornou vazio? Para onde foi o corpo?

a) Foi roubado — esta era a ideia que podia surgir primeiro no espírito. Os sumos sacerdotes judeus recorreram imediatamente a esse expediente e ofereceram dinheiro aos soldados que guardavam o túmulo para que anunciassem por toda parte: Enquanto dormíamos, os discípulos de Jesus vieram e roubaram o corpo.

Que contradição e que impossibilidade psicológica há nessa afirmação! Os discípulos medrosos e dispersos teriam de repente se tornado suficientemente corajosos para ousar aproximar-se do túmulo guardado por soldados! Os soldados afirmam ter dormido — mas, então, como viram que os apóstolos roubavam o corpo? E, se não dormiam, por que assistiram ao roubo sem agir? E se os soldados romanos, pertencentes ao exército mais disciplinado do mundo, dormiram durante a guarda, teriam permanecido sem castigo? Ora, em vez de punição, lemos que receberam dinheiro — muito dinheiro.

b) Os negadores da ressurreição compreenderam a gravidade dessas dificuldades e tentaram outra explicação: Cristo estava morto apenas em aparência; voltou a si graças ao frescor do túmulo e saiu dele.

Essa tentativa de explicação talvez seja ainda mais lamentável que a anterior.

Com efeito, é um fato certo que Cristo estava realmente morto, e não apenas em letargia.

Cristo estava morto? Poderia quase responder: jamais a morte de um homem foi mais profundamente certa do que a de Cristo. Já no caminho da cruz, Ele não era mais que uma sombra vacilante, um homem meio morto, derramando seu sangue por mil feridas. E depois: na cruz, fizeram-lhe quatro grandes feridas nas mãos e nos pés… a lança de um soldado fez-lhe uma quinta no coração… Finalmente: o túmulo selado é guardado por soldados.… Em verdade, naquela hora os homens fizeram tudo para afastar de seu caminho o profeta importuno.

Imaginemos, aliás, que Cristo, meio morto, tivesse saído do túmulo e ido até seus discípulos, que O tratassem e cuidassem, e que finalmente tivesse sucumbido aos seus ferimentos — pode-se imaginar psicologicamente que esse fim miserável tivesse produzido em almas abatidas aquele efeito sem precedentes de que falei anteriormente?

B) Mas toda essa fé dos apóstolos na ressurreição não seria pura fantasia, um produto da imaginação, uma visão, uma alucinação? Aqueles que querem escapar a todo custo à imensa força probante da ressurreição também tentaram esse expediente.

a) Mas quem poderia levar a sério essa explicação? O túmulo de Jerusalém não teria destruído toda visão e alucinação com a mão brutal da dura realidade? Se esse túmulo não está vazio, se uma grande pedra o cobre e se sob ela está Cristo morto, então toda visão é impossível.

b) Além disso, nos apóstolos faltam as condições mais elementares para uma alucinação.

Quem tem visões e está sujeito a alucinações? Não é aquele que espera algo com impaciência, febrilmente? Quando um hóspede anunciado deve chegar, já se ouvem seus passos, e, no entanto, ele não vem. Mas os apóstolos não esperavam de modo algum a ressurreição de Cristo. E mesmo quando as santas mulheres lhes trazem a notícia pela primeira vez, eles não acreditam. Os discípulos de Emaús dizem ainda à tarde que “as mulheres os assustaram”. E São Tomé não acredita, embora os outros apóstolos já tenham visto o Ressuscitado.

Eles estavam tão pouco predispostos a visões, que nem sequer reconheceram o Salvador quando Ele apareceu. Maria Madalena tomou-O por um jardineiro; os discípulos de Emaús, por um estrangeiro.

Além disso, são os homens nervosos que estão sujeitos a alucinações, e não pescadores endurecidos pela vida ao ar livre.

c) Se Cristo ressuscitado tivesse aparecido apenas uma ou duas vezes, talvez ainda se pudesse admitir que fosse apenas imaginação, uma visão, um fantasma. Mas Ele apareceu frequentemente durante quarenta dias. São Pedro encontrou-O, Maria Madalena encontrou-O. As santas mulheres encontraram-nO. Os dez apóstolos — com exceção de São Tomé — encontraram-nO. Depois, todos os apóstolos — inclusive São Tomé — encontraram-nO... e assim por diante. E quando São Paulo escreve aos Coríntios, invoca o fato de que ainda vivia entre eles um grande número de homens que tinham visto com seus próprios olhos o Salvador ressuscitado (I Coríntios, XV, 6). Pode um acontecimento histórico ser mais bem provado? Um homem isolado pode às vezes ser vítima de uma visão enganosa, mas 500 homens juntos viram Cristo — teriam todos esses 500 visto um fantasma? E, por outro lado, no quadragésimo dia, dia da ascensão de Cristo, as aparições cessaram de repente. Por quê? No entanto, as bases psicológicas permaneceram as mesmas depois.

A ressurreição de Cristo é, portanto, um fato histórico. Temos como testemunhas as santas mulheres que, ao se dirigirem ao túmulo, esperavam tudo, menos a ressurreição de Cristo. Temos como testemunhas os apóstolos que, a princípio, acolheram a notícia com hesitação; mas, quando foram convencidos por seus olhos, seus ouvidos e suas mãos da sua realidade, deram a vida por ela. Temos como testemunha a multidão dos primeiros cristãos aos quais o Salvador apareceu depois de sua ressurreição. Temos como testemunha toda a vida da Igreja, vinte vezes centenária.

Com efeito, diante da coragem dos mártires, da elevação moral e da intrepidez que resultam da fé na ressurreição, podemos com razão perguntar: se Cristo não ressuscitou, mas permaneceu no pó do túmulo, quem pode compreender tudo isso? Quem pode crer que um morto tenha podido realizar tudo isso?

A ressurreição de Cristo é a coroação de sua obra, a prova suprema de que Ele é realmente o Filho de Deus. Quando Cristo estava pregado na cruz, seus inimigos O insultavam com estas palavras: “Salvou os outros e não pode salvar-se a si mesmo; se é rei de Israel, desça agora da cruz e creremos n’Ele” (S. Mateus, XXVII, 42). Agora, porém, Cristo deu uma prova ainda maior de sua divindade. Não foi da cruz que Ele desceu, mas foi do túmulo selado que Ele saiu vivo.

Compreendemos agora por que a Páscoa é a maior festa do Cristianismo. É porque a ressurreição de Cristo é o fundamento da nossa fé, o triunfo da verdade, um encorajamento em nossa vida cheia de lutas e o sinal da nossa própria ressurreição.

A incredulidade de Tomé – Maerten de Vos (1532–1603). Museu Real de Belas Artes de Antuérpia, Flandres, (Bélgica)


Meus irmãos, é a tarde de Páscoa. Os apóstolos estão reunidos; faltam apenas dois: Judas, o traidor, e Tomé. Onde estava Tomé, não o sabemos. Os espíritos estão abatidos, cheios de angústia. O corpo de Cristo desapareceu; os sumos sacerdotes mandaram divulgar pela cidade que os discípulos o haviam roubado. Desde então não é prudente sair pelas ruas. Estão tão inquietos que trancaram cuidadosamente a porta. O que vai acontecer? O que será dos desígnios de Cristo? Como esses pescadores medrosos empreenderão a conquista do mundo?

E então… então… de repente Cristo está no meio deles. As portas ainda estão fechadas, mas Cristo está no meio deles. “Sou eu, não temais!” É como se tivesse dito: Agora é preciso acabar com esse pessimismo medroso. Vede, cumpri a minha palavra. Sou eu, eu vivo. Mas agora preciso de soldados, preciso de mártires que me deem testemunho diante do mundo.

E “os discípulos alegraram-se ao ver o Senhor”, diz a Sagrada Escritura, e uma força nova encheu suas almas abatidas. E desde então a figura sublime de Cristo ressuscitado tornou-se para eles uma fonte de energia sempre nova. Cada dia ela passa jubilosa por milhões de lábios: “Ressuscitou dos mortos ao terceiro dia”.

Sim, Cristo vive. Cristo é uma realidade viva. Não é uma lenda, nem um mito, nem um símbolo. Cristo que percorria os caminhos da Palestina percorre hoje os caminhos do mundo. Cristo que falava há 19 [hoje 20] séculos aos habitantes da Terra Santa hoje ainda nos acena como vencedor da morte com a palma da vitória; hoje ainda Ele nos fala, nos consola, nos fortalece, nos ilumina, nos ajuda e nos espera… nos espera na pátria eterna.

Meus irmãos, vivamos, pois, com a graça de Deus, de tal maneira que onde está a cabeça estejam também os membros. Vivamos de modo que, onde nosso Irmão glorioso nos precedeu, cheguemos também nós; e que, por sua paixão e sua cruz, alcancemos também a glória da ressurreição, por Jesus Cristo, Nosso Senhor. Amém.

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(*) Le symbole des Apôtres (Quarta Parte). La Résurrection - l´Ascension - La Virge Marie. Sermões traduzidos do húngaro para o francês pelo Pe. Marcel Grandclaudon. Éditions Salvator, Mulhouse (Haut-Rhin), 2ª edição, 1938, pp. 5-18.

 Fonte: Revista Catolicismo, Nº 903, abril/2026