19 de outubro de 2025
O ideal da Cruz de Cristo nos conquistadores portugueses
3 de abril de 2025
Santo Isidoro de Sevilha, “luminar esplendoroso e incorruptível”
Considerado o homem mais douto de seu tempo, Santo Isidoro foi um precursor, tanto no campo eclesiástico como no civil, podendo ser considerado um dos pais da Idade Média
✅ Plinio Maria Solimeo
Isidoro nasceu em 560 na cidade espanhola de Cartagena.
Filho de Severiano e Teodora, ambos de alta nobreza e virtude, foram seus
irmãos São Leandro, que o precedeu na Sé de Sevilha, São Fulgêncio, bispo de
Ecija, e Santa Florentina, da qual se diz que governou 40 conventos e mil
monjas.
Embora sendo um dos autores mais lidos e plagiados de seu
tempo, esse grande Doutor da Igreja não teve um biógrafo contemporâneo. Assim,
sua vida, além dos traços gerais conservados pela tradição, tem de ser
adivinhada em seus inúmeros escritos.
O certo é que Isidoro era muito inteligente, de memória
fabulosa, e muito aplicado ao estudo e à leitura. Em 579, seu irmão Leandro foi
nomeado arcebispo de Sevilha. Mas um ano depois ele foi desterrado com seu
irmão Fulgêncio, por combaterem a heresia ariana.
Essa perseguição terminou com a morte do ímpio rei
Leovigildo. Ariano fanático, ele não recuou em dar a morte a seu próprio filho,
Santo Hermenegildo, por ter este se convertido à Igreja Católica. Ascendeu ao
trono seu filho Recaredo, que também abjurou a heresia ariana.
Tendo
Leandro e Fulgêncio, que haviam sido desterrados, retornado às suas dioceses,
Isidoro retirou-se para um mosteiro, onde continuou seus estudos, chegando a
dominar inteiramente o latim, o grego e o hebreu. Dedicou-se também a formar
uma biblioteca, que dificilmente encontrará similar em toda a Idade Média.
Além de sábio,
Isidoro era exímio organizador. Dando-se conta de que a legislação que regulava
a vida monástica era falha e obscura em muitos pontos, escreveu para os vários
mosteiros da Espanha uma Regla de los
Monjes, onde tudo é claro, simples e metódico.
Na Sé arquiepiscopal de Sevilha
No ano 600, tendo falecido Leandro, Isidoro foi escolhido pelo rei e pelo povo para substituí-lo na Sé de Sevilha, então a principal de toda a Espanha. Como bom pastor, Isidoro “prega ao povo, governa a diocese, reúne concílios — um em 619 e outro em 625 —, promulga sábios decretos para promover a cultura e melhorar os costumes, defende a ortodoxia, converte um bispo oriental, que propagava no sul da Espanha o eutiquianismo, e confunde um prelado godo que se havia levantado à frente de uma reação ariana”.(1) Mais ainda: “não poupou nada para exterminar o arianismo, que infestava ainda grande parte de sua diocese; para reformar os costumes dos fiéis, que se tinham corrompido sob o reino dos heréticos; para restabelecer em seu esplendor a disciplina eclesiástica e fazer com que os ofícios da Igreja fossem celebrados com a majestade e a devoção que pedem a grandeza do Deus que neles se honra e louva”.(2)
Isidoro era adornado de todas as virtudes: “Eram admiráveis sua humildade, sua
caridade, sua benignidade, sua afabilidade e modéstia, sua paciência e
mansidão. Era piedosíssimo com os pobres, aprazível com os ricos, forte com os
poderosos, devotíssimo na igreja, vigilante na reforma dos costumes, constante
na disciplina eclesiástica, suavíssimo para todos, e para si rigoroso e severo”.(3)
Aglutinador de raças, obra civilizadora
“As antigas
instituições e o ensino clássico do Império Romano estavam desaparecendo
rapidamente. Na Espanha, uma nova civilização começava a transformar-se pela
fusão dos elementos raciais que formavam sua população. Por quase dois séculos
os godos a tinham controlado inteiramente, e suas maneiras bárbaras e desprezo
pelo saber ameaçavam grandemente fazer retroceder o progresso da civilização.
Compreendendo que o bem-estar tanto espiritual quanto material da nação
dependia da total assimilação dos elementos estrangeiros, Santo Isidoro pôs-se
à obra de unir numa nação homogênea os vários povos que formavam o reino
hispano-gótico. Para esse fim, utilizou-se de todos os recursos da religião e
da educação. E seus esforços encontraram completo sucesso”.(4)
Para isso dedicou especial atenção à educação da juventude,
fundando vários colégios e seminários. Esses colégios eram verdadeiras
universidades, das quais saíram homens ilustres como São Bráulio, depois arcebispo
de Saragoça, e Santo Ildefonso, os quais posteriormente fizeram o catálogo das
inúmeras obras de Santo Isidoro.
Enfim, Santo Isidoro fundou também vários mosteiros, nos
quais a regularidade monástica e o louvor a Deus se faziam de modo exímio. Um
dos primeiros atos de seu episcopado foi o de pronunciar um anátema contra
qualquer eclesiástico que molestasse os mosteiros.
Verdadeira enciclopédia ou dicionário universal
Para seus estudantes, escreveu “uma multidão de tratados, cuja extensão e profunda doutrina pasmam os
maiores engenhos, porque abraçam todos os conhecimentos humanos daquela época,
desde a mais sublime teologia até a agricultura e economia rural. A principal
de suas obras, ou seja, os vinte livros das ‘Orígenes o Etimologías’, é uma verdadeira enciclopédia ou dicionário
universal, que faz descobrir o raro e agudo engenho de seu autor, como também
sua extraordinária erudição e assombroso trabalho de investigação”.(5) Ele
foi, assim, o primeiro escritor cristão a reunir, para os católicos, uma suma
dos conhecimentos universais. Muitos fragmentos do estudo clássico foram
preservados nessa obra, sem a qual teriam desaparecido irremediavelmente. A
fama desse trabalho deu novo ímpeto aos trabalhos enciclopédicos, produzindo
abundantes frutos nos subsequentes séculos da Idade Média.
Urna com os restos
mortais de Santo Isidoro.
Obras de teologia, gramática e ciências
No
campo teológico, seus três livros Sentencias
podem ser considerados a primeira Suma
Teológica. Redigiu ainda para seus estudantes a obra De la diferencia de la propiedad de las palabras, como complemento
para o estudo da gramática e retórica. E também as obras históricas La Crónica, La Historia de
los Reyes de España e El Libro de los
Varones eclesiáticos.
Mesmo
as ciências naturais e o estudo do mundo físico deveriam fazer parte do
currículo de seus colégios, pois afirmava que “não é coisa supersticiosa o conhecer o curso dos astros, os movimentos
das ondas, a natureza do raio e do trovão, as causas das tempestades, dos
terremotos, da chuva e da neve, das nuvens e do arco-íris”.(6) De todas
essas questões, trata em dois interessantes livros: De la naturaleza de las cosas — que dedicou ao rei Sisebuto, de
quem foi amigo e conselheiro, e a quem incentivou em seus trabalhos literários — e
Del Orden de las creaturas.
Alma dos Concílios de Toledo e de Sevilha
Além de combater a heresia ariana, que tinha penetrado
profundamente na Espanha entre os visigodos, Santo Isidoro erradicou totalmente
a dos “acéfalos”, que foi morta em seu nascedouro.
Altar com a urna
que contém os restos
mortais de Santo Isidoro.
“Como Leandro, ele
teve a mais proeminente participação nos Concílios de Toledo e de Sevilha. Com
toda justiça, pode-se dizer que foi em grande medida devido ao trabalho
esclarecido desses dois ilustres irmãos que a legislação visigótica, que
procedeu desses concílios, é vista por historiadores modernos como exercendo a
mais importante influência nos começos do governo representativo”.(7)
Em dezembro de 633, se bem que avançado em anos, Santo
Isidoro presidiu o IV Concílio de Toledo, do qual participaram todos os bispos
da Espanha. Ele foi a origem da maior parte de seus decretos, como por exemplo,
o que determinava a todos os bispos que estabelecessem seminários em suas
dioceses para a formação do clero, na linha dos colégios fundados por ele em
Sevilha. Desse modo, Santo Isidoro foi a mola propulsora do movimento educativo
que teve Sevilha como centro. Empenhou-se também para que fossem promulgados 74
cânones, muito úteis para a explicação da fé e o restabelecimento da disciplina
da Igreja. A pedido dos padres conciliares, trabalhou num novo missal e
breviário para unificar os costumes e a liturgia em todo o reino: “Seria um absurdo que tivéssemos distintos
costumes os que professamos uma mesma fé e formamos parte de um mesmo império”,
costumava dizer.
Também
nesse IV Concílio, a pedido do rei Sisenando, deu forma à constituição política
do reino, consolidando o regime de estreita união entre os poderes civil e
religioso, e amoldando a legislação com base nos princípios do Direito
Canônico. Foi o primeiro a assinar o decreto que mudava a Sé metropolitana de
Cartagena para Toledo, a nova capital visigótica.
Nesse concílio ainda foi incentivado o estudo do grego e do hebreu, bem como das artes liberais. O Santo arcebispo suscitou também o interesse pelo direito e pela medicina, muito antes dos árabes, e despertou o interesse pela filosofia grega, introduzindo Aristóteles entre seus conterrâneos.
Isidoro
faleceu em 636. Foi o último dos antigos filósofos cristãos, tendo sido
cognominado “luminar esplendoroso e incorruptível” por São Bráulio de Saragoça.
Indubitavelmente, ele foi o homem mais sábio de sua época, tendo exercido, como
vimos, profunda influência em todo o sistema educativo da Idade Média. Seu
discípulo São Bráulio o via como um homem suscitado por Deus para salvar o povo
espanhol da avalanche de barbárie que ameaçava a civilização na Espanha. Diz
ele: “Teus livros nos levam à casa
paterna, quando andamos errantes e extraviados pela cidade tenebrosa deste
mundo. Eles nos dizem quem somos, de onde viemos e onde nos encontramos. Eles
nos falam das grandezas da pátria e nos dão a descrição dos tempos. Ensinam-nos
o direito dos sacerdotes e das coisas santas, a disciplina pública e a
doméstica, as causas, as relações e os gêneros das coisas, os nomes dos povos e
a essência de quanto existe no Céu e na Terra”.(8)
Relíquia, fragmento do crânio de
Sto. Isidoro.
O
VIII Concílio de Toledo, reunido em 653, denominou-o “Doutor insigne de nosso século, novíssimo ornamento da Igreja
católica, o último na ordem dos tempos, mas não na doutrina; o homem mais douto
nestes críticos momentos de fim das idades”.(9)
___________________
Notas:
* Fonte: Revista Catolicismo, Nº 892, abril/2025
1. Fr. Justo Perez de Urbel, O.S.B., Año Cristiano, Ediciones Fax, Madrid,
1945, tomo II, p. 41.
2. Les Petits Bollandistes, Vies des Saints, Bloud et Barral, Paris,
1882, tomo IV, pp. 187-188.
3. Pe. Pedro de Ribadeneira, S.J., Flos Sanctorum, apud Dr. Eduardo Maria
Vilarrasa, La Leyenda de Oro, L.
González y Compañia – Editores, Barcelona, 1896, tomo II, p. 21.
4. John B. O'Connor, St.
Isidore of Sevilla, The Catholic Encyclopedia, Volume VIII, Copyright © 1910 by Robert Appleton Company, Online
Edition Copyright © 2003 by Kevin Knight.
5. Edelvives, El
Santo de Cada Dia, Editorial Luis Vives, S.A., Saragoça, 1947, tomo II, p.
356.
6. Fr. Justo Perez de Urbel, op.cit. pp.
45-46.
7. John B. O'Connor, The Catholic Encyclopedia, online edition.
8. Fr. Justo Perez de Urbel, op.cit., p. 49.
9. Id., ib.
23 de março de 2025
Restauração de Notre-Dame, prefigura do Reino de Maria
Se por um lado crises políticas, guerras, flagelos
mortais da natureza e infiltração da “fumaça de Satanás” na Igreja foram
insondáveis em 2024, em sentido contrário, a restauração de Notre-Dame de Paris
anunciou a glorificação da Igreja.
✅ Luis Dufaur
Fonte; Revista Catolicismo, Nº 890, fevereiro/2025
No
dia 8 de dezembro, festa da Imaculada Conceição, a catedral de Notre-Dame foi
consagrada novamente após a sua restauração, conforme ordena o Direito
Canônico, e reabriu suas portas aos fiéis.
No
dia anterior, entre 40 e 50 chefes de Estado e de governo, bem como quase 2.000
convidados especiais — bombeiros e agentes públicos que extinguiram o incêndio
que quase arruinou a catedral, artistas e artesões que trabalharam na sua
restauração — compareceram a um ato de reabertura promovido pelo governo
francês.
Notre-Dame,
iniciada em 1163, apresenta-se em
2025 renascida com o viço de sua primeira mocidade. Como uma rainha que
carregou durante quase mil anos um precioso manto cheio de história e que
depois de um assalto do fogo infernal recebeu de Deus um novo manto com adornos
e esplendores ainda mais rutilantes do que aquele que ostentou na História na
sua mais fiel continuidade.
Efeito espiritual mundial
O mundo ficou maravilhado com a restauração da catedral da Cidade Luz, a capital da França, nação que mereceu o título de “filha primogênita da Igreja”. Uma velha lenda dos marinheiros da Bretanha, no extremo oeste da França, costa batida por mares furiosos e semeada de recifes perigosos, conta que por vezes se ouvem sinos reboar e das agitadas ondas emergir uma catedral arrebatadora de uma cidade mítica de nome Ys, que o oceano havia tragado em tempos remotos.
O
escritor radicalmente anticristão Ernest Renan contou, numa nota
autobiográfica, que na sua alma por vezes emergia com toda a sua sedução uma
“cathédrale engloutie” (“catedral submersa”), em alusão à revivescência da
inocência primaveril dos primeiros anos em que fora católico.
Notre-Dame de Paris renasceu das labaredas em seu máximo esplendor como essa mítica catedral de sonho, mas de um modo muito concreto. E, eis o que vem mais ao caso, esse seu ressurgir se deu no fundo de incontáveis almas, inclusive não cristãs, afundadas numa narcose religiosa. Espiritualmente, a imagem da Igreja purificada da “fumaça de Satanás” hodierna e das sujeiras depositadas por séculos de Revolução anticristã se mostrou numa explosão de beleza por obra da exímia restauração.
A
Notre-Dame brilhante de sua luz sobrenatural medieval fez ressoar nas almas o
anúncio da próxima vinda de uma era histórica esplendorosa que grandes santos
anteviram como sendo o Reino de Maria.
Sua restauração em tempo recorde, num padrão artístico inigualável, mais próprio de uma joia incomparável, financiada por doações privadas imediatas e muito generosas, deixou o mundo atônito e, num sentido muito especial, envergonhado por ter tratado tão mal ao longo da História esta obra-prima da Igreja que nos vem desde o mais alto da Idade Média! O Prof. Plinio Corrêa de Oliveira gostava de repetir, parafraseando o profeta Jeremias aludindo à Jerusalém amada por Deus: “Igreja de uma beleza perfeita, alegria do mundo inteiro”.
“Antena que nos abre a porta do
Empíreo, fonte inesgotável de maravilhamento, escada que nos leva ao Céu,
beleza da nossa natureza terrena que reflete a beleza da eternidade. Mãe que
nos fala profundamente ao coração”, assim tentou descrever a catedral a
historiadora de arte Paule Amblard[i].
“Nada te pode dobrar — escreveu um âncora de televisão chileno numa ‘Carta a Notre-Dame’[ii] —, nem revoluções nem a indiferença, nem nossa época relativista e secularizada que está afundando enquanto se aproxima uma nova Idade Média, em que voltaremos a levantar catedrais, a rezar e cantar ao Céu, porque vagamos nas trevas como órfãos sem pai nem mãe. Mas Tu, Mãe de Paris, voltas a abrir teus braços nos dizendo: ‘vinde mais uma vez a mim, filhos perdidos, a encontrar em Mim a luz’”[iii].
Catedral flagelada como Cristo na Paixão
Séculos
de Revoluções igualitárias e anticristãs maltrataram de todas as formas a
catedral, relegando-a a mero objeto de visita e lucro de turistas estrangeiros.
Se ela tivesse voz e fosse prantear esses atentados, como Jó em suas
lamentações, teria derramado bramidos de dor pela crise que consome a Santa
Igreja Católica Romana nestas últimas seis décadas, atiçada pela “fumaça de
Satanás”. Esse fumo satânico progressista rumava para removê-la com o ódio
participativo da crucificação de Nosso Senhor Jesus Cristo no alto do Calvário.
O
diretor da série “Figaro Hors-Série”, Michel De Jaeghere, registrou em suas
páginas a surpreendente contradição: o incêndio, que foi de molde a ser o tiro
final na venerável estrutura gótica, “nos
fez amá-la como nunca [...] teve um impacto que surpreendeu até mesmo seus
admiradores mais fervorosos. A emoção pareceu dominar o mundo inteiro”[iv].
O efeito da sua tragédia foi tal, que um artigo publicado
nos Emirados Árabes chegou a confessar entre os vapores tóxicos do Islã que “Notre-Dame representa uma realidade mais
profunda além do borrão de nossas vidas”[v].
O
mesmo De Jaeghere condensou os atrozes crimes contra Notre-Dame, símbolo
acabado da Igreja, e a civilização cristã que ela inspira. Crimes históricos
religiosos e temporais praticados na mais vil indiferença daqueles que deveriam
custodiá-la. Os governos monárquicos de Luís XV e Luís XVI aprovaram projetos
para a demolição da catedral a fim de, na melhor das hipóteses, substituí-la
por um templo de estilo grego.
A
Revolução — que acabou travando o projeto dos reis — destruiu a Bastilha,
continua De Jaeghere, desmantelou igrejas e conventos veneráveis para
entronizar uma megera seminua como “deusa Razão” na catedral bendita. Arrasou o
palácio do Templo onde Luís XVI, Maria Antonieta e seus filhos se prepararam
para o cadafalso ou para o pior dos destinos; Haussmann destruiu a Paris da
Idade Média (16 igrejas demolidas só na Île-de-la-Cité) para construir
bulevares; a Terceira República arrasou o palácio real das Tulherias.
Ainda
hoje, observa ainda De Jaeghere, tudo se faz na França — e, no mundo por
imitação — para apagar nossas raízes cristãs, repudiar a moral da Igreja,
chegando a incluir o aborto como direito humano na Constituição. Fato, aliás,
comemorado pelo presidente Emmanuel Macron em discurso no templo do Grande
Oriente da França.
Apenas
6,6% dos fiéis frequentam dominicalmente as cerimônias para que foi feita
Notre-Dame, 2% na mais recente enquete. E menos de 25% dos bebês recém-nascidos
são batizados, enquanto as ruas se enchem de adeptos do Islã rezando o Corão,
que manda massacrar ou escravizar os cristãos. Notre-Dame, símbolo da França
cristã, tinha virado o santuário de uma religião abandonada, tolerado como
prédio pelo retorno que deixavam os 13 milhões de turistas que a visitavam por
ano.
A
França oficial agia como se seu passado católico não valesse mais e o culto dos
Direitos Humanos fosse a última palavra. A União Europeia lhe garantia viver em
função do estômago, satisfazendo apenas volúpias e instintos primitivos. O
palácio real de Versalhes virou museu, os castelos dos príncipes foram
confiscados para deleite dos passeios turísticos, e os franceses desfrutavam
visitando castelos transformados em monumentos nacionais, completa De Jaeghere.
Misteriosa mudança
Entretanto,
o colapso de Notre-Dame foi ocasião de uma inversão tendencial profunda. Como
numa espécie de Juízo Particular, o incêndio fez aparecer diante da França e do
mundo, numa só imagem, a imensidade de todas essas negações revolucionárias e a
dureza de coração de séculos de indiferença. Essa imagem “de repente nos horrorizou”, disse De Jaeghere.
Seus
restos ainda fumegavam quando se manifestou uma “paixão” pela ressurreição da
catedral-mãe, que foi um antídoto contra os venenos que desumanizam as nossas
sociedades, escreveu o diretor do “Figaro Hors Série”. A indiferença “foi substituída por um respeito amoroso pelo
passado”, choveram as doações de dinheiro, sem que ninguém reclamasse um
tostão do Estado. O presidente Macron, no discurso do 7 de dezembro, falou em
340 mil doadores voluntários de 150 países, com destaque para os EUA, desde
aquele que contribuiu com uma moeda até os mecenas franceses que ofereceram
milhões de euros.
O
presidente francês, continuador dos crimes históricos acima mencionados,
confessou que o mundo reconheceu que Notre-Dame, prodígio arquitetônico da
Santa Igreja, era a alma da França e da civilização ex-cristã. “Ela é maior
do que nós”, concluiu. Aplicou-se o dito do famoso e controvertido escritor
Antoine de Saint-Exupéry: “Qualquer
pessoa cujo coração esteja voltado para a construção de uma catedral já é um
vencedor”, a França católica começou ganhando.
Crescente fascínio pela Idade Média
Na mesma oportunidade, Macron disse que na surpreendente restauração, milhares de artistas e artesões “estabeleceram a continuidade com uma corrente que os precedia no tempo havia mais de oito séculos: a que vem da Idade Média com sua paixão pelo belo e pela coisa bem feita”[vi].
E
lhes agradeceu por terem ensinado aos contemporâneos a elevarem os olhares para
o Céu que a agulha de Notre-Dame aponta, para “redescobrir nossa catedral interior”. O presidente — ou o autor de
seu discurso — aludia à lenda bretã da “catedral submersa”, acima mencionada,
que o literato anticlerical Ernest Renan dizia emergir de vez em quando na sua
alma comparável a um mar tenebroso.
Os sonsemitidos pela “catedral submersa” parecem ter-se feito ouvir por incontáveis almas que assistiram atônitas à queda da flecha de Notre-Dame em chamas, enquanto outras viam o ponto de não retorno de uma era vilipendiada. Emergia nelas “o fascínio e um interminável interesse pela Idade Média”, a qual adquiriu uma atualidade insuperável, ultrapassando por muito a dimensão religiosa da catedral, escreveu Guillermo Altares no jornal socialista espanhol “El País”[vii].
O próprio presidente laicista glorificou a Idade Média no dia da reconsagração ao falar de São Luís IX, que trouxe a Coroa de Espinhos; do voto de Luís XIII de honrar a Virgem Maria se tivesse um filho; da conversão do poeta Paul Claudel, “que recuperou a esperança aos pés de um pilar, numa noite de dezembro de 1886”; dos jovens que foram rezar aos pés de Notre-Dame quando ardia o incêndio; da “providência” que protegeu a Virgem, cuja imagem ficou intocada, próxima em centímetros do amontoado de pedras e carvões ardentes que caíam do teto.
Vitória de Nossa Senhora
![]() |
| O arquiteto-chefe da restauração, Philippe Villeneuve |
A
catedral que demorou dois séculos para ser construída foi refeita como uma joia
em pouco mais de cinco anos com tecnologias medievais! “As catedrais góticas, tão diferentes em todos os aspectos das modernas
igrejas tipo garagem”[viii], escreveu o Prof. Manuel Alejandro
Rodríguez de la Peña, catedrático de História Medieval em Madrid, nesta espécie
de ressurreição alimentou a esperança de que talvez a ordem medieval possa
inspirar a fórmula para um mundo que desaba catastroficamente.
O
lenhador Édouard Cortès vibrou com a ideia de que homens com machados medievais
refizessem um teto do século XII em plena época do vazio e do virtual.
Precisava-se de “almas antes que robôs”[ix],
intuiu, e entrou voluntário para o “projeto
louco” da restauração junto com um punhado de mestres carpinteiros vindos
até dos EUA e da Argentina.
Esses
corações indomáveis, diz ele, preferiam ser “lobos
a cachorrinhos civilizados levados pela coleira”. Autointitulavam-se“a horda” e no trabalho insano descobriram
que não eram eles que restauravam a catedral, mas era Nossa Senhora que os
estava modelando. A tropa de elite Légion Étrangère brada em suas
paradas militares “Legio Patria Nostra” (“A Legião é nossa Pátria”),
enquanto eles sussurravam “Maria Patria
Nostra” (“Maria é nossa Pátria”). E quando uma inspetora do trabalho foi
lhes perguntar por que faziam isso, a resposta brotou impetuosa: “Por
Nossa Senhora. Só por Ela”.
Aqueles
homens rústicos queimavam suas energias para devolver seu lar à Coroa de
Espinhos e para que “a Santa Liturgia lavasse com o Sangue e com a
Água consagrados a infame parodia da Última Ceia com que foram abertos os Jogos
Olímpicos”. “O verdadeiro milagre de Notre-Dame foi que o incêndio
iluminou nossa cegueira, descongelou nossa memória e nos tocou com um fogo
sagrado”, completou o lenhador.
Por
sua vez, o arquiteto-chefe da restauração, Philippe Villeneuve, revelou: “tenho uma devoção particular à Virgem
Maria. Nunca deixei de sentir o apoio d’Ela [...]. Acredito que este projeto
não teria sido possível de outra forma”[x].
Mudança no mundo
Eles
não foram os únicos que reagiram assim. Essa inesperada conversão moral deu-se
em outras nações, como no Chile, com o já citado jornalista sobre a restauração
de Notre-Dame representando o toque de finados para uma época que renegou o
espírito e a beleza.
O
jornalista chileno lembrou que as igrejas no mundo ex-cristão estão cada vez
mais abandonadas, porém quando o telhado de Notre-Dame começou a arder,
pequenas multidões saíram as ruas, pararam nas esquinas a fim de chorar, rezar,
pedir perdão pelos crimes históricos que atraíram tão formidável punição.
E disse a
verdade. Notre-Dame empolga e pede a cada um de nós para cultivar um fundo de
alma como a sua fachada: grande, lógica, forte, séria, materna, misericordiosa,
estável. Qualidades simbolizadas em sua fachada com uma fidelidade de
embevecer, e que devem estar no fundo de cada filho fiel da Igreja Católica
Apostólica Romana, como comentou o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira[xi].
Furor da Revolução gnóstica e igualitária
Porque é
doloroso, mas exigido pela verdade, reconhecer que após dois mil anos de
vida, a Santa Igreja Católica se nos apresenta hoje como Nosso Senhor Jesus
Cristo na Sua Paixão, quando chegou gotejando sangue e cambaleando sob a Cruz
no topo do Calvário. Ao longo de um cambaleio de 20 séculos de glória, de
martírio e de perseguição, a Igreja chega em nossos dias ao auge do seu
desfiguramento.
Quem
teria imaginado essa Instituição divina — que São Luís IX tanto amou, pela qual
São Fernando lutou tanto, os cruzados fizeram o que fizeram e os mártires
morreram — desfigurada pelo véu ignóbil do progressismo? O incêndio da catedral
paradigmática da Cristandade pareceu simbolizar o episódio terminal dessa
desfiguração criminosa, senão satânica.
Mas
Nossa Senhora patenteou o contrário, fazendo despertar no fundo das almas o
amor a Ela e à época “em que o espírito
do Evangelho penetrava todas as instituições”, como ensinou o S.S. Leão
XIII sobre a Idade Média. A fulgurante restauração soou como uma primeira
trombeta que anuncia o Reino de Maria cada vez mais próximo de nós.
“Fumaça de Satanás” ainda presente
![]() |
| Paramentos extravagantes criados pela casa de costura Castelbajac para a missa de reinauguração de Notre-Dame. |
O
negrume da “fumaça de Satanás” não esteve ausente neste momento de vitória de
Nossa Senhora, patenteando que ainda há combates a serem travados. Por exemplo,
o Arcebispo de Paris e seus coadjutores se apresentaram na inauguração com
vestes litúrgicas confeccionadas por uma casa de modas que se vem notabilizando
em dessacralizar as indumentárias sacerdotais e os hábitos religiosos desde o
Concílio Vaticano II.
![]() |
| D. Bernard
Marie Ulrich, Arcebispo de Paris. |
Na noite do
trágico incêndio, o presidente Macron falara de um concurso internacional para
se restaurar a catedral em estilo “contemporâneo”. A França se ergueu indignada contra tal proposta, que violava ademais
leis e tratados internacionais. O governo, que confiscou o prédio sagrado nas
sinistras jornadas da Revolução Francesa, ficou com as mãos amarradas por suas
próprias leis. Mas incitado pelo Arcebispo, está tentando novamente substituir
os belíssimos vitrais por outros horríveis, “contemporâneos”.
![]() |
| Artefatos feios e inadequados ao gótico da catedral. Ficariam deslocados... |
Da Cidade Eterna, a colunista Cristina Siccardi falou de roupas desenhadas pelo estilista pop e figurinista de séries de televisão americana. Elas deramà maior parte dos fiéis do mundo a impressão de um desfile circense mais próprio de um filme que debocha da Igreja, completada por um báculo arcebispal com aparência de um brinquedo de mau gosto fabricado na China[xiv]. Omitimos, por amor à brevidade, outras peças desagradáveis registradas pela jornalista romana.
![]() |
| O presidente Macron e sua esposa observam o relicário psicodélico feito para a Coroa de Espinhos |
Nossa Senhora triunfante
Poucos
dias antes das cerimônias inaugurais, a imagem de Nossa Senhora de Paris, ou
Virgem do Pilar, foi levada de retorno à sua casa em comovente procissão
iniciada na catedral provisória de St.-Germain l’Auxerrois. A verdadeira dona
da catedral vira cair dezenas, senão centenas, de pedras, entulho, chumbo derretido
e madeiras em brasa, provenientes do desabamento da agulha e do teto, afundando
o piso a poucos centímetros de seus pés e destroçando o altar principal e
outros objetos de culto modernos. Ela, porém, ficou milagrosamente intacta, não
requerendo mais do que uma simples remoção da poeira.
A
imagem em pedra mede 1,8 m e representa Nossa Senhora vestida com roupas de
rainha e coroa na cabeça. Na mão direita segura o “lírio” símbolo do reino dos
lírios, a França. No braço esquerdo sustenta o Menino Jesus, que detém em suas
mãos o globo, representando o mundo inteiro. E o Divino Infante, o Salvador do
Mundo, mostra que a Terra toda depende d´Ele, mas manifesta encontrar suas
delícias brincando com o véu de sua Mãe[xv].
A
troca de sorrisos entre Nossa Senhora e o Menino Jesus nessa imagem faz
ressuscitar em nós formas de ternura, de pureza, que nós poderíamos achar
completamente desaparecidas. É
a Rainha que pode mobilizar milhões de anjos, mas que vendo-A compreendemos bem
a importância da “escravidão de amor” que São Luís Maria Grignion de Montfort
nos convida a fazer em suas mãos. Uma escravidão a uma Senhora que nos empolga,
fascina e salva.
Ela
desperta na nossa alma um mundo de riquezas afogadas pela Revolução gnóstica e
igualitária. Ela está tão embebida pela virtude que a enormidade do mal
“moderno” fica excluída, pela rejeição, intransigência, integridade e
deliberação que resplandecem em seu sorriso num equilíbrio tão requintado, que
não há mal nem catástrofe que altere. Nem mesmo a investida progressista dentro
da Igreja[xvi].
Ela
carrega todas as graças da história da civilização cristã e manifesta um tal
poder, que torna evidente o advento de uma era histórica a Ela consagrada após
ter sido enxotada toda forma de mal, como Ela mesma prometeu em Fátima.
[i]) https://www.valeursactuelles.com/clubvaleurs/lincorrect/notre-dame-de-paris-une-lumiere-dans-la-nuit-de-lhumanite
[ii]) https://www.pauta.cl/actualidad/2024/12/01/carta-de-cristian-warnken-a-la-iglesia-notre-dame-de-paris.html
[iii]) https://www.pauta.cl/actualidad/2024/12/01/carta-de-cristian-warnken-a-la-iglesia-notre-dame-de-paris.html
[iv]) https://www.lefigaro.fr/culture/patrimoine/michel-de-jaeghere-notre-dame-ou-l-appel-de-la-lumiere-20241207
[v]) https://www.khaleejtimes.com/opinion/notre-dame-represents-a-deeper-reality-beyond-the-blur-of-our-lives?_refresh=true
[vi]) https://www.opinion-internationale.com/2024/11/30/emmanuel-macron-vous-avez-rebati-notre-dame-en-cinq-ans-la-france-vous-en-est-infiniment-reconnaissante_130069.html
[vii]) https://elpais.com/cultura/2024-12-06/notre-dame-la-catedral-que-se-invento-la-edad-media.html
[viii]) https://www.larazon.es/internacional/luz-edad-media-resurreccion-notre-dame_202412076754c56e1258380001f740f8.html
[ix]) https://www.facebook.com/groups/1328372457208321/posts/8944178072294350/
[x]) https://www.infocatolica.com/?t=noticia&cod=51150
[xi]) Apontamentos de palestra de 7-6-78, não revistos
pelo autor.
[xii])
https://www.lifesitenews.com/pt/analise/a-reabertura-de-notre-dame-foi-um-choque-entre-a-beleza-da-tradicao-e-a-estranheza-do-modernismo/
[xiii]) Id.ibid.
[xv])
https://fr.wikipedia.org/wiki/Notre-Dame_de_Paris_(statue)
[xvi]) Apontamentos de palestra de Plinio Corrêa de
Oliveira de 13-7-88,
sem revisão do autor.























